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A Universidade e

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Estado da Arte

18 Fevereiro 2017 | 20h25

Por Fabrício Tavares de Moraes

soterrando-nos sob suas ruínas. desmoronam. o qual. nas palavras do profeta. é designado. A Universidade de Berkeley. dois acontecimentos no universo acadêmico demonstraram que a liberdade de expressão. Os manifestantes se revoltaram contra o jornalista convidado para uma palestra. menos do que um pressuposto universal de qualquer lado do espectro político. que assumiu parte da revolta com a justificativa de que “a esquerda já foi tímida por bastante tempo”. como um ícone da extrema-direita supremacista. nada mais do que uma espécie de “caniço quebrado”. em especial a organização militante BAMN (By Any Means Necessary). por todas as fontes. é hoje. na Califórnia.Protestos de estudantes esquerdistas em Berkeley contra a liberdade de expressão Nas últimas semanas. a despeito de ser um homossexual assumido. um alicerce aparentemente estável. Ironicamente essa universidade . isto é. testemunhou a depredação de suas instalações (o incêndio de um gerador de luz) e a violência física (disparo de fogos de artifícios nos policiais) por parte de grupos de ativistas. tão logo depositamos algum peso. mas sobre o qual. judeu e imigrante.

Roger Kimball sumariza o atual status do debate acadêmico. que. O segundo caso. mais especificamente às “relações de poder” e ao “conflito de interesses”. obra a qual George Steiner dedica brilhante estudo e considera como o signo do Ocidente devido aos confrontos morais entre um Estado totalitário que rejeita as leis transcendentais e os costumes firmados na tradição e um indivíduo. refere-se à notícia de que alguns professores na Grécia lutam pela permanência dos clássicos no currículo acadêmico. mais danoso a longo prazo. de Greg Lukianoff. assim como a segregação intelectual realizada pelos grupos interinos incentivaram a publicação de obras relevantes sobre o fenômeno. daí todo questionamento às suas posições se configura como um atentado ao projeto mais puro de redenção e uma insurreição ao conhecimento mais elevado das coisas. figura. Radicais nas Universidades. no qual todos os aspectos e dimensões do homem e sua cultura se reduzem à política. Nos Estados Unidos. já que o governo tem planos para substituir tais obras por estudos de gênero e relativas à educação sexual. e The Victims’ Revolution: The Rise of Identity Studies and the Closing of the Liberal . sacrifica sua vida por valores que julga imutáveis. Em síntese. pautando-se por um imperativo. no caso Antígona. todavia. Talvez a crítica à academia e a seu regime do politicamente correto já tenha se tornado lugar-comum entre conservadores e catedráticos biliosos ressentidos pelos mecanismos partidários que dificultaram sua ascensão acadêmica.participou dos movimentos a favor do direito de manifestação de opiniões nos campi durante os anos 60. segundo seu entendimento. Unlearning Liberty: Campus Censorship and the End of American Debate. a mais alta virtude moral e o conhecimento dos arcanos mais sacros. não pouco controversa. diga-se de passagem. como um amálgama entre um sentimento hagiográfico por parte dos intelectuais em difundir sua visão moral (supostamente o Sumo Bem) ao restante do mundo e seu uso de uma linguagem hermética e mistificadora. Assim. a dominância das teorias pós-estruturalistas introduzidas por Paul de Man. Um dos livros já removidos é Antígona. de Sófocles. os radicais que ocupam as cadeiras das Humanidades aliam. Em sua famosa obra sobre o tema. embora menos hostil em seus meios.

. com toda verossimilhança. é plenamente redimido e canalizado na crítica autofágica contra o Ocidente. podem. que dá origem à patologia da verdade. por exemplo. nas atuais circunstâncias. que as campus novels são hoje um terreno extremamente fértil para todo autor. pois tudo se resume a um maniqueísmo grosseiro. aquilo que Frederick Crews chamou de ecletismo de esquerda. ambos sem tradução no Brasil. afirmava que o casamento era obra de um “algoz engenhoso”. seus valores. com certo cinismo. pois se algumas décadas atrás elas guardavam certo tom farsesco ou por vezes pedante. Alguns aparentemente fizeram de sua máxima um lema. há entre eles alguns pontos em comum. Embora aparentemente haja uma pluralidade de concepções e teorias nos departamentos e centros de pesquisa das Humanidades. Andrew McCarthy afirmou que. Assim. os proponentes do politicamente correto partem de uma demonização da razão. O impulso iconoclasta. conforme Michel Houellebecq demonstrou em seu romance Submissão. Antero de Quental dizia que “a universidade só iluminará o povo no dia em que lhe deitarem fogo”. recorre-se a um dispositivo para abortar toda opinião alheia ou oposta. mas também na truculência de seus modos de ação. desenvolver enredos nos quais o protagonista é perseguido por indivíduos movidos pelo mesmo zelo inquisitorial que Hyeronimus (da novela de Thomas Mann) dedica a uma obra de arte. O grosso da discussão acadêmica. apesar de competente em vários de seus pronunciamentos.Mind. instituições e monumentos estéticos. embora se considerem herdeiros do Iluminismo. A bem da verdade. de Bruce Bawer. nomeadamente. Ademais. em todos os espectros ideológicos. uma vez que o debate é de antemão suprimido. Pode-se dizer. acalenta o pressuposto de que o outro lado é conduzido em cada um de seus pronunciamentos e atos pelo mal absoluto. a designação de termos já transpostos. Susan Sontag. inerente à imaturidade. o discurso do radicalismo islâmico e dos relativistas convergem: ambos repudiam o mundo ocidental e tomam-no como epítome da decadência e degeneração. Não há razoabilidade ou argumentação. demonstram como uma sociedade corroída pela hipocrisia do politicamente correto que é cultivado na academia termina não apenas na degradação intelectual. a começar pelo ímpeto anti-ocidental.

naquilo que é equivalente a uma blasfêmia para alguns. possamos citar Odo Manquard. afirmava com todas as letras que o elemento crucial e determinante da cultura ocidental era precisamente sua capacidade autocrítica. Essas pedras nas mãos dos radicais talvez sejam as pedras toscas que eventualmente constituirão o altar no qual assistiremos à imolação da civilização. Essa sabotagem epistêmica que implode toda sensatez é tragicamente denominada de autocrítica. ao âmbito pejorativo: “conservador”. assumem que o Ocidente – ao qual estão ansiosos para lançarem a primeira pedra – é incapaz de examinar a si mesmo. Por sinal. René Girard. mas o que realmente importa é poupá-lo”.por força da repetição. Destaque especial para aquilo que Leo Strauss ironicamente chamou de argumentum ad Hitlerum – a inevitável comparação de todo e qualquer desafeto intelectual a Hitler. “reacionário” ou “elitista”. por sua vez. mas também a total execração. em sua paráfrase de Marx: “alguns homens transformaram o mundo. Provavelmente. os radicais nas universidades. Fabrício Tavares de Moraes é tradutor e doutorando em Literatura (UFJF/Queen Mary University London) . levantando mais uma acusação. objetivando não somente invalidar o raciocínio.