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ALESSANDRO GARCIA ANDERSON FONSECA

ANDRÉ TARTARINI BRUNO AZEVÊDO
DANIEL OSIECKI DELFIN DIEGO MENDONÇA
IVANA ARRUDA LEITE JD LUCAS
MARA CORADELLO MÁRCIA BARBIERI
MARIEL REIS ROBERTO DUTRA JR.
SIMONE MAGNO YARA CAMILLO

ANO 01 / # 01 REVISTA DE CONTOS

REVISTA DE CONTOS

© 2014 PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 2014 COM O TÍTULO FLAUBERT REVISTA DE CONTOS ///

COPYRIGHT DA SELEÇÃO © 2014 FLAUBERT REVISTA DE CONTOS ///

SALOBRO © ALESSANDRO GARCIA // O PRÊMIO © ANDERSON FONSECA //
CARNE MOÍDA © ANDRÉ TARTARINI // VÁ PRA CADEIA! © BRUNO AZEVÊDO //
MINHA PIETÁ © DANIEL OSIECKI // PÓ © DELFIN // NUTRIÇÃO © DIEGO MENDONÇA //
ESTELA DALVA © IVANA ARRUDA LEITE // VISITA DE AMIGO © JD LUCAS //
DA UNIFORMIDADE DE ALGUMAS DORES-ÁRVORES © MARA CORADELLO //
QUANDO OS MARACUJÁS FLORIREM © MÁRCIA BARBIERI // BOA NOITE, BURROUGHS © MARIEL REIS //
A CONTINUIDADE DAS RUAS © ROBERTO DUTRA JR. // TEMPO DEMAIS © SIMONE MAGNO //
AQUIESCÊNCIA (VEM, ESSÊNCIA, AQUI, ESSÊNCIA...) © YARA CAMILLO ///

os colaboradores asseguram seu direito moral de serem identificados como os autores dessa obra.

Todos os direitos desta edição reservados a

Mania deles. a e imagina quando poderá os livros e sai. por que quem começou –. nada. 28 mara 29 márcia 31 mariel coradello barbieri reis O enterro eram não-memórias Se ele fosse eu ele saberia Minhas mãos diluídas em meio a uma que a única moça que eu foram mais rápidas. geralmente. de assunto algum (. amei na vida morava Retiraram do bolso De se lançar ao chão. perdendo o juízo. segredinho só para mim? como a mãe de Deus.. entrega munhequeiras de couro.). que é sobre o que de atropelar os outros e elas Morro. Nunca. Eu não tinha ou nossa – não sei calçadas – impulso agora nenhum pecado. ele fecha os olhos quintas‑feiras ele vem. Deixo a carta sobre a com distração fingida. de fita silvertape. se conversa quando não atropelam. irresistível – silencioso não poderia guardar esse isso de sermos lindas de meus pensamentos.. que eu o seguia pelas nunca. Isso eu não confessei. 17 bruno 20 daniel 21 delfin azevêdo osiecki A minha diferença pro resto Você recolhe o seio branco Conversaram sobre o das pessoas é que eu gosto igual a um anjo de Botticelli. dar a ela a cidade este tempo.. para meter a faca.. . pronto que prometeu conhecer minha biblioteca. com as banho. escrivaninha e saio andando sei que em toda aquela Deve ser minha mãe pelas ruas até que a fome carne extravagante querendo saber onde estou. dor de fazer o chão sumir. em todo careca com a cicatriz no meio. 33 roberto 34 simone 39 yara dutra jr. Agonizo. Ser delirante se quer falar realmente sem gostar. 24 diego 26 ivana 27 jd mendonça arruda leite lucas Desligo o celular Por isso resolvi contar-lhe a Observa-me sorver o líquido e vejo uma ligação verdade. ele saberia (. na casa ao lado. quase modestamente. sim do sobretudo o rolo De querer se enterrar. o convidei para a cara de maluco.). NESTA EDIÇÃO: 9 alessandro 13 anderson 14 andré garcia fonseca tartarini Enquanto Nora toma Faz seis anos que às O Zé estará lá. magno camillo Percebi. e a sede me consumam. perdida de casa. hiberna urso faminto.

TARTARINI@GMAIL. JD LUCAS // MARANHÃO BRUNO AZEVÊDO [BAZVDO@HOTMAIL.COM] /// PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO ALESSANDRO GARCIA [COLABORAÇÃO: STUDIO DELREY] os personagens e as situações dos contos aqui publicados são reais apenas no universo da ficção.CONTATO@GMAIL.COM /// ISSUU.COM/REVISTAFLAUBERT EXPEDIENTE EDITOR MARIEL REIS [MARIELREIS@IG.COM] // JD LUCAS [JDLUCAS. ANO 01 / # 01 BRASIL 2014 .BR] /// CONSELHO EDITORIAL ANDRÉ TARTARINI [A. não se referem a pessoas e fatos concretos. e sobre eles não emitem opiniões.COM.COM] // RIO DE JANEIRO ANDRÉ TARTARINI.COM] // CEARÁ ANDERSON FONSECA [AFCONSULTORIAEDITORIAL@OUTLOOK.COM.BR] // SÃO PAULO DELFIN [DELFIN.K@GMAIL.COM] // PARANÁ DANIEL OSIECKI [TROOPER_OSIECKI@YAHOO.COM] /// EDITORES REGIONAIS RIO GRANDE DO SUL ALESSANDRO GARCIA [SEVEROGARCIA@GMAIL.CONTATO REVISTAFLAUBERT@GMAIL.COM/REVISTAFLAUBERT /// FACEBOOK.

A revista flaubert nasce da inveja de inúmeras outras revistas literárias: Machado. por constar em suas páginas autores que contribuem para a expansão do que se convencionou chamar de cultura brasileira. Bruno Azevêdo. É um espaço de recreação. JD Lucas e Delfin. A formação desta revista conta com os seguintes escritores: Alessandro Garcia. Não se responsabiliza sobre casos de plágio ou outrem acerca das narrativas submetidas aos editores. 6. Paralelos. 9. Muito obrigado ao eventual leitor. A periodicidade da flaubert será mensal. em São Paulo e Daniel Osiecki. Patife e Maria Joaquina. As narrativas devem ter no mínimo uma lauda e no máximo dez. Exercerá a função de editor geral Mariel Reis. estará a cargo dos escritores JD Lucas e André Tartarini. Estabelece como editores regionais: Anderson Fonseca. Sirva-se. Sejam bem‑vindos. 4. Delfin. MARIEL REIS // EDITOR . André Tartarini. 3. no Rio Grande do Sul. Intitula-se assim. de intercâmbio e de formação cultural. devido ao clássico do autor francês: Três Contos. no Maranhão. Um editorial é chato. Considera a narrativa curta Um Coração Simples um dos ápices dentro do gênero. 8. no Paraná. os endereços eletrônicos para envio das narrativas constará na ficha técnica ao lado dos nomes dos editores. É aberta para colaborações de todo o país. recaindo apenas sobre o autor o ônus de acusações pertinentes e as sanções legais daí derivadas. reservando-se o direito da palavra final acerca de impasses da publicação. 7. Anderson Fonseca. no Ceará. Almeja o congraçamento da arte narrativa formada no país e as diversas expressões assumidas por ela no transe/trânsito de seus criadores. Bruno Azevêdo. 2. O fechamento para recebimento das narrativas será o dia 28 de cada mês.EDITORIAL 1. julgando-as desembaraçadas legalmente sob qualquer aspecto. mas necessário. o criador da revista. No Rio de Janeiro. Alessandro Garcia. 5.

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enquanto encara as alunas para certificar-se de que não nacio à imensidão de branco de que era feito o quarto. o frio é congelante e a chuvinha fina é só “É Cybill Shepperd”. Sua inépcia púbere. Ele ainda consegue externar-se ao que vai além da pequena bolha que lhes envolve — na plateia à meia-luz se vê o brilho dos smartphones refletindo na tez lustrosa dos “Menos poluição. Lá fora. A mancha no canto superior da porta de uma luta livre de maciez coroada pelo ir e vir do mindinho. Nora também ficava muito sozinha. Claro que foi bom termos voltado. Foi liberdade?” comprado depois de uma pesquisa de preços. mas um tan- se detém a segurar sua mão. em um destes “Como é?” sites de pesquisa de preços.. alunas impressionadas. Ficará para sempre em Ig. branca. suavidade do toque e Nota o ombro sardento de uma das alunas. SALOBRO ALESSANDRO GARCIA O ar cheira a ligustros. sorrindo quando Igna- cio volta a encará-lo. um dos armários que passou a tarde inteira tocando em uma elucidando a intenção daquilo o que já não deixa a menor lâmpada acesa provocou pequenas bolhas escuras na laca.. Em- estudantes que restam. 9 . uma tormenta se aproxima- demais mas.” quantidade muito superior ao comum. passa um dedo pelo buço e des- o carro de alguém que os levará a lugar quente e distante. ao que é quase sussurro — “mais uma vez. ainda que permaneça tempo muito imenso. rodeado de ar- permite-se ficar tempo muito mais do que necessário mários sob medida brancos. Na rua. E é sempre interrompido pelo gesto amizades de verdade em lugares assim. universidade. Eu precisava ficar o de segurar o cartão com o número de telefone que elas lhe tempo todo com ela. ouve sua risa- da voz muito mais intensa do que o comum. apontando para a mancha. “Não sei do que você tá falando. Com a chegada do Bento.” dupla sobre a qual se lê saída de emergência. sempre que decide ir “É. mas não consegue ver seu rosto. Madison”. um lugar “Você sabe. não era?”. diz. você tenha gostado. Você sabe que não se faz mais do que necessário. toda vez que. sim. Cultura de Mídia. só aparente. De verdade”. via os olhos de Toledo para um grupo de alunas que toma con- Retira sua mão com a desenvoltura de quem só vai apoiar a ta de uma das mesas de plástico do lado de fora da lanchonete. prolongou-se por mais de cinco. solidão suarenta em meio às paredes brancas. reduzindo a voz sofás para assustar tias velhas. dúvida. ocupados em redigirem espirituosas prego melhor. Trânsito melhor. é apropriado. ritmo cadenciado ardilosa como crianças pequenas que se escondem atrás de pelo ainda ir e vir do mindinho em sua mão. alisando o próprio cabelo em to frustrante. seu argumento foi Nora se deu ao trabalho só de meio sorriso. Professor novo. granitina e excitação pós. Disciplina de atmosfera seca e pessoas apressadas e irritadiças. e é esta proximidade calculada va sem ser captada pelos radares das estações meteorológicas. O toque dele em “O todo?” seu ombro. Tole- mais apressadas do que o comum. exercendo pressão úmida sobre a mão de Ignacio. Foi preciso pesar o todo. quando decide ir em frente. perto demais. perfeito”. Não é Madison. A tateante aranha de dedos de Madison em manter a chave sem escapar da fenda. quando disputada. ao fim de uma de suas palestras. uma irritação a mais. o que diz com televisão. que deveria levar em torno de uma hora. do acompanha a direção de seu olhar. Ainda era outra cidade. foi mesmo alcançam. “Imagino que aqui você consiga ter um pouco mais de. alça da pasta de maneira mais firme no ombro e diz o que “Mas você não estava bem colocado lá? Alguma coisa todo professor precisa dizer diante do que é óbvio. Menos pessoas. tamborilando na janela do anfiteatro da quando Nora entrou no quarto olhando em volta. só um pouco A garota levanta e vai até o balcão. uma aluna “Produtor de um programa de cultura. antes de subirem a escadaria em direção à porta melhor voltarmos. não perto A ordem. O berço não era de nenhuma grife famosa de bebês. A moldura do espelho. Bom. em milimetrismo que permite o tom baixo. Ela se inclinou para mais perto dele.” a montagem dele. Sua é mesmo quem está pensando.” máximas de cento e quarenta caracteres enquanto aguardam Ignacio bebe o café preto. “Fico feliz que da misturada à das outras. repleto de mães e babás. É como Rodapés: brancos. Toledo. ele disse. Ignacio diz. insiste Toledo. Um condomínio em frente.

O top que ela usa é brilhante. 10 . segurando a porta aberta câmera não foi uma lembrança. De um dos vãos da muda a intensidade de maneira traiçoeira. muito claras. olhando seus ombros chamuscados de sardas. Nora ligará novamente. mostrando o caminho de Uma cicatriz na palma da mão quer destruir a letra m. na. se haveria água quente e sabonete líquido “É. É época de chuva. mordendo o lábio inferior e torcendo ne esbatida.” a explosão de então: agora tudo é praticamente agendado. Nora. O que não encontra são os olhos de çante que deixava passar iluminação demais. terceiro andar”. ra ver na universidade. Sobre mensagem estética e tudo mais. tipo. En. rosto escondido cafeteira — é ele quem se vira primeiro quando vê a silhueta pelos cabelos. O que não há é “Ainda tenho seu cartão. recolhendo cadernos quando a turma inteira da aluna que bate na vidraça jateada da porta. aquele também que Nora gos. pois da sua palestra e. na tela do celular silencioso no banco do carona. Por volta Ventos alísios em uma velocidade estúpida. A cidade. preservativos informando que seu uma poltrona da sala dos professores. o sorriso nervoso não disfarçando a excitação. enquanto aconteceu.” câmera era errado. o falso problema com -a e encontrando Ignacio. Mas. ta. O odor úmido alto do armário. a escuta. revirando das dez horas. sei lá. antes de colocá-la no táxi. sobre o cinzeiro de cerâmica lascada na bancada de falso mármore. As folhas no pátio da cão antes de lhes estender a chave — “34. pelo vermelho com “Não. Será o “Bom. pensando. talvez não do tipo que se espe- Nora é da cor do tronco de pessegueiro. necessária “Parece ótimo. virando tempesta- janela fechada à pregos. Sua risada é um desa. do tipo que firme os cadernos sob a bolsa à tiracolo. Se for uma emergência. enquanto a hora para a próxima turma não chega. finge não lembrar. contra o de Ignacio. eu pensei. ambu.” — é preciso sempre retirar o cheiro. este café. Na hora que você quiser. não?”. fora daqui? Fora da universidade?” fio. cie de dança na qual escapam umas das outras num ritmo ço.” Ele espera. trenchcoats de gabardine e capu- o olhar enviesado e forçosamente cúmplice do sujeito no bal. impregnando-se às suas narinas como a versão olfativa da cai- xa de fósforo que deixarão no mesmo lugar. Nora. elaborando uma espé- ainda rubra pelo calor da jaqueta de gola alta em pleno mar. Ainda há intimidade entre os dois. “mas tenho uma aula começando no próximo dela com um demônio enlouquecido. a câmera já acionada quando revelou-lhe a promoção para professor titular.. um dos pés. Madison. Quem sabe marcamos esta conversa. nora (casa) pisca. pode-se ouvir a cantilena tdoors mentirosos do que de costume. O caminho de volta para casa parece mais repleto de ou- desprovida de umidade. Em de cabelos —. Morde novamente o lábio. bre o que deveria ser uma penteadeira. a rua — embotada de tráfego. descansa o aparelho que borrifa o O ar tem o cheiro que se sente quando uma tempestade se ar com a mesma lentidão e meticulosidade com que Nora aproxima. in- sonora de uma peça de metal chocando-se contra uma qui. É como se fosse realmente a primeira vez que Parecerá ainda mais constrangedor que ato flagrado na ja. to- perfume almiscarado na nuca. apertando estranhamente compassado. “Claro. Uma cortina esvoa. zes amarrados em torno de pescoços. termitente. Um pequeno Ignacio. cabelo de pluma. Não se preocupou se o ângulo da Não quero atrapalhar. eu não queria. Ela parece ansiosa. bem. nela do apartamento vizinho. a boca coberta como se tivesse que esconder os dentes. Por formando retângulo sobre os dois enquanto ainda no semi. do a Lorenzo Arigoni e seu Não Lugar. intervalos garantidos pelo respirar que é feito de abruptos e preocupantes resfolegares do pequeno no berço. No canto do quarto. A letra m cortada da mão procura-lhe recendendo à mofo: improviso e sordidez. flagrando em demasia sua própria car. panturrilhas de patinadora. no banheiro para retirar o cheiro antes de chegar em casa “Sim. que lhe marcou a cintura. a quem chama com um sorriso e a porta e o encontrão. Da última vez. na tela diminuta do A voz de Madison parece menos musical e decidida do Nokia. Presente de Nora. então velhos de ternos sintéticos pelo caminho. só um instante e a certeza do mesmo “Oi. de- mesmo problema com todas as outras. universidade são bailarinas fugidias. Das primeiras vezes. no banheiro. por baixo do calção. Ele pairou sobre o corpo com o ombro. Enquanto pairou sobre ela. Ocorreu-lhe também “Não é que você esteja atrapalhando. sim. coxas de acroba.. Você me liga?” como estampada nas revistas femininas. quero dizer. Sábado. mar um café e me explicar algumas coisas que não ficaram tava de passar no mesmo lugar. O recato dela provou-se mentiroso.. mas eu fiquei. entreabrindo já havia deixado a sala. mas o que entende ele sobre moda? Pele de veludo. o registro é um caderno macilento se aplica à Ignacio. sardas que continua nuca acima.” Ignacio vai assistir ao vídeo depois.” pelas mãos que enroscaram os cabelos. seu corpo em marcha ré chocando-se um menear de cabeça. ele diz. pensei se você não quer. Escorou o velho Nokia so. Ela faz e desfaz o rabo de cavalo. de nos momentos em que ninguém está prestando atenção lantes e sujeitos com camisa de futebol apregoando a compra e cujas conseqüências só se descobrem no dia seguinte. não precisa ser agora. Ocorreu-lhe. conciliadora.. Nora. domínio assinalado minuto. Ela. para analisar a rosca açucarada que pesca na bandeja junto à ganara-o todas as vezes em que se demorou. intimidado por Cybill Shepperd que os observa do hotel em pleno centro comercial da cidade. cima do livro pode ver o professor Aníbal baixando os óculos breu junto à janela.” se lembraria o nome dela. guarda-chuvas coloridos. não pensou nisto. que se lembra. bom. Ignacio está retornan- uso será cobrado ao fim da diária. a “Eu gostaria muito”.

imperatriz da pequenice. ele pergunta vendo-a escovar com exa. Nora pede. como objeto. como território do pedantismo. Se ele mostrar interesse. Respira em sintonia com Nora. sem se virar. remixado por nação silenciosa. do tédio diante mesa de fundo em bairro distante. Ela terá destreza admirável para bra que lhes cobre a cada dia que passa. Ignacio continua o movimento Sua voz será firme. Aquilo os aproxima. naquela cidade mastodôntica? Manhattan em sequência. que pausar e. Fazia bastante tempo que não assistia a nenhum epi- dia de uma mistura de creme hidrante e resquícios de algum sódio. Antes de sair em silêncio.” de. Usará um vestido de noite na medida do intento: “Bento finalmente dormiu”. irá se comportar como quando na palestra: sustentando “Senta aqui”. Porque deveriam estar falando sobre nada será mágico. verdade. É uma espécie de combi. demonstrarão todo seu ecletismo na zona limítrofe entre o nho. rida ou Deleuze em uma frase sua. creto. as mãos em unhas recém-feitas. ethos reaganista e Walter Benjamin. relacionar àquilo a alguma fonte de interesse seu. que estará em não borrar os dentes de batom. na cama ao atenção tudo parecer tão certo. e se dirigir ao banheiro. Porque se viram na palestra de Ignacio. pente. e a outra Ignacio pensa toda vez que a vê levantando. ela replicará. aquele pequeno milagre que chora um sem-número de com a conta quando menear a cabeça e não lhe chamará vezes por noite. “Muita gente nesta cidade. jogando o cabelo de um lado que dizia. impecáveis. um exagero de demonstração de au. de e devolvendo o olhar. curto o suficiente para aguçar-lhe expectativas. riso malicioso. dis- táveis. Compreende que procurou depois disto. Ela a outro — enquanto acrescenta camadas de explicação à já sempre foi enclausurada em si mesmo.. Não consegue imaginar um dia em que a amará mais do que naquele segundo. na mente o caminho mais curto: com hidromassagem. observa o pequeno no ber. Não podia deixar que a cidade acabasse com ela. silêncio. porque evita os clichês: do marido impa. O que ia achar ali. muitos degraus abaixo no entusiasmo. uma menção a Foster Wallace ou algo do tipo. Por trás e sem se beijarem. emitindo reconhecíveis códigos de abertura em sequência Ele percebe que a cidade ia incomodá-la. Ela irá manhãs em que precisam enfrentar o metrô. sempre satisfeita com compreendida teoria. impassível não estendendo a citação. pés descalços por baixo da novo bradando em todo churrasco de domingo “Agora sua mesa sobre o volume na calça de Ignácio. — cruzando e descruzando as pernas. com aquele jantar. —. Chego cansada no trabalho ela irá deleitar-se por minutos à fios com sua própria sagacida- antes mesmo de dizer bom dia. para a universidade. Com. “Não..” nos olhos. do irmão mais antecederá a maciez de veludo. mais próxima à piada interna “Você está bem?”. fitando-o bem no centro pé. dela e das outras colegas frequentadores da primeira fila de gerada força os cabelos molhados que deslizam fácil pelo platéias. Logo que chegam na outra cidade. preciso. ser objeto.. Muito delicada. talvez. Ele já terá traçado vida acabou. citando um artigo mais nhãs. como que cada um ainda leva na boca. e não terá habilidade “Lembra quando víamos esta série e toda vez tínhamos suficiente para esconder a satisfação quando identificar Der. E você conseguiu. Ele olha menos para a televisão do que para o copo com quando rir será de forma um tanto meticulosa. roupão cheirando a talco. Tudo ali é cinzento e pesado. um prêmio. mesmo que nenhum deles admita a som. de abrir e fechar a porta em câmera lenta. muito arre. mas. O garçom virá imediatamente ço. ela dirá. Só mensagem estética. Não é demais?. Ignacio concor- dará com a cabeça. ele fecha os olhos e imagina quando poderá dar a ela esnobe o casual (o name dropping cessará antes que cruze o a cidade que prometeu. Seu vulto é visível mesmo que banhado pelo fraco ama- relo da iluminária do canto. comprido o “Que bom. mas todos evi. só por que voltaram para sua cidade. surpreendido por toconfiança quando comparado às vezes em que a ouviu. Você já viu este?” óleo pós-banho. Ouvirá muito atenta às alusões que ele fará a um Ignacio larga a pasta e desaba ao seu lado. Não vi”. preocupada gelo ao lado do sofá. tocando-o um sem-nú- Concordou em acompanhá-lo como concordava com tudo o mero de vezes no antebraço. só a alguns minutos dali. alguém de fora da academia. Terá a pele luzi. mencionar talvez uma teoria. “É. Nora aconche- ou outro mais obscuro. Porque ela o preende as exigências que Bento lhe faz. Žižek ou Giroux. resultado direto da água tônica que acompanhará o jantar. seu sorriso ga-se a ele. mas que garota que morde a azei- se blocos de fuligem se alojassem em seus pulmões todas as tona do Manhattan pode ser acusada de pedante?). Com. Top Gun. lado.” 11 . Ignacio se masturba no banho pela manhã. mas só há uma mensagem sendo passada compreende assim. antes mesmo que terminasse qualquer frase. de vê-la acordada ainda àquela hora. Não que às vezes eu não goste de dia. ela diz.. algo empacotando coisificação da mulher. transam todas as ma. embalada pelos o miúdo. evitando o gosto e o cheiro conhecido ou emendando uma espertice qualquer. O modo como a mulher é tratada Nora. antes de ir ciente da sobriedade necessária para o que deverá vir depois. Enquanto Nora toma ba. tão sincronizado. a pasta de couro ainda na ainda que do outro lado da mesa – já sabe onde a levará? mão. “Não vai ficar a noite toda aí. sem titubear. A risada dela em excesso do armário repleto apenas de leite em pó. E um olhar que dirá mais do que seria preende sua inadequação com o corpo pós-gravidez. Certamente.” Há clichês demais no caminho. Compreende o cansaço de Nora. ele responde. Após teoria. luz pequena em abajur minimalista em ciente diante do estado irritadiço da mulher. cedo ou tarde. ainda sem olhar depois desta e mais alguma — uma míriade de temas que para ele.” bastante para confundir-lhe as pretensões.

. Ainda não sabe se o polegar devia ficar para dentro ou para fora. mesmo quando Ela olha para ele sem responder. Visto de cima. não de forma meticu- losa. Ele realmente mencionou Žižek e Giroux. era um choro. alguém escutava um cantor pois eu também passei a. Colabora para estava repleta de Cosmopolitan e revistas de dieta. Nervoso. Um alarme de car- ro ressoava lá fora. talvez.é nítida. Com o mesmo automa- tismo da cusparada. Ficou quieta a maior parte do tempo — silêncio entremeado por olhadelas para a televisão sem som. não óleo de amêndoas. Madison “O que você estava bebendo?” ainda continuou um bom tempo ajoelhada. mas a memória do canino do sujeito. sorriso franco de quem rememora a infância. ele terá invés do beijo.com se verdadeiro.” português. Ele lembrou que ainda nem sentira o gosto 12 . Disse ter Ela aconchega-se ainda mais. E você?” Nora afunda o rosto no seu pescoço. mergulhadas na água morna. sim. “A gente sem. não uma estampa.. Tem contos traduzidos para o espanhol e inglês. sentindo o gosto salobro. A pele dela era luzidia. talvez nove. Uma mu. mas de. morde seu lábio inferior. O recato dela provou. “Lembro. A mesa de centro Prêmio Fundação Biblioteca Nacional. há leite e pensado ser sua colega.” da boca de Madison. Um jogo de pa- lavras com Derrida e Deleuze. ele completa. Ela tocava sua coxa como se não soubesse o que fazer. ele explicou ter ouvido vozes na escada. ajoelhada. O sujeito é grosseiro. nenhuma menção a filmes ou escritores contemporâneos. Ela parecia estar regional da flaubert. Rascunho. ximo e incomodamente familiar. Madison parecia realmente não saber o que fazer. ela sentencia. depois que o sujeito diz “sua gostosa”. Bem mais tarde ele terá certeza de que “Suco de laranja?” não eram vozes.” mais tarde. não parecia certo vê-la “Eu achava engraçado você ficar daquele jeito. “É claro que eu lembro Segurou seu pênis flácido como se fosse um filhote. espetando o ombro do garoto com um lápis. Pequenas Coisas. sempre a impressão de que ela ainda estava assim enquanto “O que você acha? Que cheiro tem?” ele saía pela porta. olhos fixos na televisão. Bem bem disto. “Ficar excitada?”. Ela riu..” Uma lembrança: três anos de casados. Diz “sua gostosa” com a mesma naturalidade com que termina de tirar o Mar- lboro do bolso de trás da calça jeans. Lembro. Prepara o lançamento do livro infantil Números São Muitos Mundos e do romance A Zona da Invisibilidade. cravando em seus dedos. “Pelo menos tem bom gosto. Não houve muito cuidado com os gestos e movimentos: ela vestia um macacão e aquela mancha violácea devia ser tinta. Musa Rara e é colunista da Last Call for Beer. já que não estava de batom. Gucci?” Ignacio não responde. finalista do Prêmio Jabuti e segundo colocado no O ar cheirava a odorizador de banheiro. ao a beijou. Quando se aproxima. alessandrogarcia. e ela falava sobre como gostava das aulas. do tipo com boné de tela enterrado sobre o cabelo molhado. um daqueles programas vespertinos de brigas familiares. “Chanel? Não. O soco foi como um martelo. A colega de quarto tinha uma prova naquela tarde.. tremendo enquanto abria seu zíper. Além de talco. se importou com as moedas que caíram no chão. Quando acontece. Não houve teoria qualquer sendo explicada. rebentando a mão que depois Nora seguraria embaixo da sua. Foi colunista do Digestivo Cultural. Quando puxou de volta a calça. É editor lher loira anunciava um vaporizador na TV. Ignora a presença de Ignacio. séria. é muito diferente de então. Bem mais tarde. Mas tome um banho antes de deitar. www. E o cheiro do sangue. pre teve isto em comum. Outra: Ignacio. Encaixou uma piada acadêmica muito popular logo depois. Crianças gritavam num parque bem pró- ALESSANDRO GARCIA é autor de A Sordidez das ximo. No andar de baixo. chorou mais que o colega. peraí. desajeitado. que parecia mais e mais pró- “Você continua bom”. Eram só os dois dentro do apartamento.

acrescentei: “Por favor. a hora que conclui a leitura. possessa pelo anjo da loucura. entrega os li. Emílio. “Bom dia. visto minha calça de al. Eu o Sem nada dizer. Refletindo sobre esse descuido. Esclareço. dá pra engolir. crítico literário e editor regional da flaubert. Onde estão?” tam-me de livros para ler e resenhar. que recebo me agradam? Nenhum é Camões. respondeu. senhor Antônio”. Ele disse: “O senhor acertou Cartoneira). enfio-me numa blusa nem sequer Hemingway. de manga longa. promessas entregues por suas mãos. perguntado o nome. é o fogo. É pequeno. Somos dois trabalhadores ansiosos Somos amigos sem dizer um ao outro. Não vi nenhuma alma Bergson). Então me sentei à escrivaninha interrompi dizendo: “Não há justificativa para o que fiz. abaixo da nota de aprovação ou desaprovação. chegamos à ANDERSON FONSECA é escritor. Primeiro desculpei-me por jamais ter-lhe me trouxe. livros. “Não.” litário que sou. Sou eu quem recebeu pro- da. Por isso os lancei nas chamas. As suas estão vazias. preguiçoso e preciso viver. por que ele sabe o meu. Ora. penso depois. Rimos. “Cada folha é o túmulo de um livro que morreu. Quatro visitas aha. dedico-me à leitura do pensamento de rebatará tal como Fausto por Mefisto. entre. Perdoe-me. Até hoje aguardo angustiado a obra que me ar- sofia (nos últimos dias. é é calado. embora en- tusiasta da nova literatura. godão listrada em azul claro e branco. Sou crítico. e fiz a última leitura. a hora que recebi o livro. Dali fomos para a biblioteca. Vejo. de tão longe é impossível avistar o galardão. por nosso prêmio. Sua recompensa. assinarei a crítica. Só a exerço porque sou “Agora vejo. sou um crítico rigoroso. às vezes sorri.. o prêmio anderson fonseca Q uando o carteiro vem à minha casa é para entregar bebe ainda sim?”. Hah- cio nauseante é a visita semanal do carteiro. Olhe bem. “Quando você bater a porta. O carteiro entrou pisando suave no assoalho. Sinceramente. O que me salva nestes tempos asquerosos e deste exercí. Como é insignificante minha recompensa. nem bicho (tenho horror “Você me chama para ver que meu trabalho é vão?” a animais). ou Flaubert. minha esposa não consegue”. as cinzas são minhas. cada pequena folha que vê contém gravada no mês e às quintas-feiras. no gosto. Nunca. provo minha conduta. O seu e o meu. e depois. Não sei seu nome e me “Saio daqui atormentado. “Não iremos demorar”. Não vejo os livros. fico a ler filo. “Aproxime-se.” disse que homens como eu. Ele abaixou a cabeça. eu respondo com um singelo messas todo esse tempo. o carteiro é o único que preenche minha solidão. acredita que os livros Antes dele surgir a minha porta. Bergier e outras histórias (Rubra cozinha e lhe ofereci um café. Atravessamos a sala. “Eu vou. com os ouvidos atentos ao toque da campanhia.” tem os olhos roxos como beterraba. farei minha leitura. aguardo ansioso ele e disse: “Contemple a recompensa de seu trabalho!” aparecer. mas está aqui. Depois. Ele.” esta é uma experiência asquerosa. em todo este tempo. Você viu e não compreendeu. como reação às minhas palavras. mais velho que eu. “Bom dia”. São bons. É autor de Sr. ou mesmo Drummond.” envergonho disso. porém meu rigor e fama abarro.” nhecer minha biblioteca. sem mulher e filhos.” Ele hesitou. Quero mostrar a você a recompensa de seu trabalho. senhor Antônio. estão cheias de sonhos blante desanimado. “Está vazio. Não é assim que um ho- mem deve se portar”. mas deixe sua tormenta. abrirei este livro que decidi convidá-lo. sento-me próximo à entrada. mas Faz seis anos que às quintas-feiras ele vem. eu disse. “Para não perder a mulher”. preocupados tanto com o saber. retraiu os lábios. mas jamais voltarei aqui. Perguntei: “E você 13 . Era mais bem nada dizer. não tinham tempo para reparar em homens como ele. “Vá. O tempo foi injusto comigo.” co. quando fala levanta as sobrancelhas e o que recebemos.. a cada possibilidade nova. o convidei para co. Parei-o diante da porta e. Só há papéis. em cada prateleira. Nada. que não se realizaram. um sem. No fim só há uma estante vazia. ele saiu. Re. e com um gatilho darei fim às palavras. Quando me saú. carteiro. So. noutra profissão eu seria um fias.” vros e sai. O que isso quer dizer? Não compreendo. e a hora em que o lancei ao fogo. Felicita-me as entregas. raro ser outra coisa. mas as minhas. Assino o fim da página.

Nem a perna. a única coisa que po. com as dentro do balcão e mexe sozinho em um tabuleiro de xadrez. se rece duplamente conveniente: voltar para casa. mesmo tentando parecer calmo. surpreendido pelo convite. e acho que ele nem quer que a ideia fique tão clara. ir ver a perna). pronto para meter a faca. gira cara de maluco. a careca com a cicatriz no meio. move a rainha preta e com a outra. vá no açougue comprar isso. mas nada lhes ocorre. E a mãe parece querer Um quilo de quê? jogá-lo aos leões a todo instante. Como se não bastasse. apenas as exigências a cicatriz no meio da careca. que tire as partes brancas. não é filho da Janete? Vai comigo no açougue? Depois a gente vai ver a perna. tem que ir ao açougue. que moa Fala. para que fique claro que ninguém ali está de talvez nunca venha a ter – a ponto de isso estar claro na moleza. moído na hora guma desculpa minimamente plausível. E então tem que enfrentar rante boa parte do percurso. de maneira sutil. a mãe repetiu. vá no açougue comprar aquilo. Aceitou o convite no reflexo e agora já não pode voltar atrás. mas antes tem que ir ao açougue. algo que provoque o outro si próprio. E Boca Roxa aponta para o outro. É preciso pedir que o açougueiro limpe bem o patinho. E é por isso que então diz que Tenho que perguntar à minha mãe. todas essas exigências quando estiver frente a frente com a cara de maluco do Zé. mesmo aproxima e pergunta se ele quer ir ver a perna. A réplica inte- co estranho. Seguem em silêncio. ele está sentado do lado de da carne que a mãe mandou buscar. o sorriso do outro parece dizer que ele talvez esteja com medo. mas o Zé o interrompe. e o desafio se limita a certo é que ainda não tem autoconhecimento suficiente – apressar o passo. E novamente o sorriso de Boca Roxa deixa transparecer a ideia de que Bernardo també. O Zé estará lá. e sua tarefa não se resume lento no chão. deixou sua reação transmite seu real estado de espírito. Vou lá em casa e já sim. fugir. a carne na sua frente e que moa duas vezes. a Com uma das mãos. moído na hora e duas vezes) e uma saída lhe pa- Roxa atravessou a rua correndo porque avistou o amigo. mas não é ele – Bernardo – que se arriscará para saber. O sozinho o Zé com as munhequeitartartariniras de couro e nome da carne não vem à memória. quer ver a perna sim. da vista do Zé e talvez se livrar do do Bernardo responde que não pode ir ver a perna porque amigo (e da obrigação de. para ver a perna agora depende de sua coragem para encarar o derá acabar com sua ansiedade é comprar de uma vez no açougueiro. Boca (bem limpo. depois. pensou –. A mim. Por isso mesmo. E ele sabe cuidado com Bernardo. parece O andar estudado e calmo é uma tentativa de enganar a que buscam alguma coisa a dizer. ligente e rápida do mais novo o surpreendeu – é preciso tomar de de dissimulação de um garoto de sete anos. cuja fama pode ser mentira. Veio repetindo para si mesmo du- isso. denunciar o medo que ele também sente do Zé. esteja com medo de ir Vira-se de costas para correr. com medo de encarar o Zé. de um sangue fresco que pinga mal empregada pode ser fatal. que momentaneamente. apenas a pagar e receber. Você ao açougue. E quan. mas a mera hesitação e duas vezes. ele talvez não se dê conta disso – talvez se dê–. mas não consegue lembrar. Bernardo não sabe se terá coragem de fazer É ele. Duas vezes. mãe sempre diz. Qualquer palavra lentamente a faca vermelha. tentou inventar al- açougue um quilo de patinho bem limpo. sua cabeça. munhequeiras de couro. Sou. como a Um quilo. talvez. Isso é um pou. passe no açougue e leve Bernardo esqueceu. Melhor manter-se alerta. carne moída andré tartarini A maneira tranquila com que Bernardo caminha não Boca Roxa. já que não se esperaria essa capacida. o desafio de levar o amigo que. Avaliou por poucos segundos. repete em silêncio as especificações Quando entram no açougue. já o faria perder pontos. volto. 14 . peça aquilo no açougue.

não permitiria aos dois observar com clareza o pedaço do cor- Do lado de fora do balcão. A sua mãe tá preo- ele não conta a ninguém. sorrindo. Mas o Zé não vai entre. uns a possibilidade de atravessar os limites do balcão para ajudar quarenta minutos antes. porque está com medo. e foi por essa razão que levou Bernardo até a perna. Vontade rápida. Bernardo tropeça. Vamos ali no açougue rapidinho. fingem que não perceberam. também para de correr e vem andando com a faca na mão. Pode ser os dois. há um frigobar velho e uma mesa com um tele. tentando tratar o epi- sódio do açougue como coisa banal. e disca com um sorriso besta na cara. Ligou para o açougue te procurando. mesmo cupada com você. gritando. chaman- escapar um “Puta que pariu. Não. o açougueiro está correndo atrás. E levanta o balcão para o garoto passar. e isso faz com que desem- sim. e o amigo até cogitou vencer a disputa que se iniciou quando se encontraram. Ele empurra mais ou O Zé desliga o telefone. que já estava esquecido. Do lado de dentro da nardo vê um terreno com uma árvore seca no meio. espalha histórias das coisas que o açougueiro faz Quando Boca Roxa tira o plástico de cima da per- com meninos no terreno baldio que fica atrás do açougue. A carne já estava no saco. E voltam os mais tarde. sorrindo até. Bernardo tentou escapar. terreno baldio.. o dinheiro na outra. não lhe causa mais espanto. Isso com a faca – pingando sangue – na mão. E enquanto dão a volta no quarteirão para chegar ao Só ele? Boca Roxa tentando fugir. gueiro os viu mexendo na perna. garantindo mais respeito entre os outros garotos. O Zé aparece para atender.” e o outro ri amistoso. ainda não percebeu é que o espanto no rosto do amigo não é só por causa da perna. Não po de alguém que tinha sido largado ali. plástico preto em cima dela e um pouco de mato em cima la com a mão que segura a faca. Param. o garoto sem coragem de pedir o troco – a mãe deixou Estão correndo de volta para suas casas e quando pas- explicito que era para esperar o troco. e emendou sem dar tempo para o amigo respirar: agora vamos lá ver a perna? Ber. e na. do muro dos fundos do terreno baldio. meio rosada. Ele tá aqui. 15 . e parece que começa finalmente a fazendo alguma coisa com Bernardo. a luz está acesa e o telefone em cima da mesa toca. um calendário de anos atrás com lha. como todos os ou- tros garotos. mexeu com ele. de estão descaradamente fugindo dele. estão os dois no Sangue pinga da faca. Por ora é melhor manter as armas baixadas. apenas esperando. Vamos. Boca Roxa fala da perna. nardo percebeu o momento de erguer as armas novamente. bestem numa carreira desesperada. Leva os amigos até lá. Pode fedendo ainda mais. indecisos. sabe se a fama do Zé é verdadeira. passou mal. com uma ferida estra- Na saleta. o mais velho riu relaxado. Boca Roxa percebe. Um quilo? Tchau. onde se vê uma carne não muito verme- fone em cima. O que Boca Roxa lugar. que na parte de dentro do balcão e os dois entram por uma porta. Senta-se na mesa. que o Zé supostamente faz as coisas com os garotos. vanta-se rápido. neste exato momento. o Zé grita chamando os dois. e continuar correndo agora seria fazê-lo perceber que não consegue vestir armaduras com o medo que sente e. nem nada. sempre se pode se valer disso mais tarde. Boca Roxa agora também se dá conta de que o terreno baldio onde eles estão é o mesmo em O telefone da Janete eu sei de cabeça. Na parede. porque do. A perna fedia. Boca Roxa se mantém no mesmo cheia de moscas em cima. e isso gera um mal estar instantâneo. gar o troco. um enjoo azedo. Por um instante. dois pelo corredor. sem saber cagando de medo. abre a geladeira. sabe-se lá por quê. e os garotos vão sair sem olhar para trás. Le- nardo e fica esperando o dinheiro com cara de má vontade. nha na panturrilha. mesmo apesar do lusco-fusco do fim de tarde. Liga daqui e composição. Quando encontrou a perna. Isso vem lhe pergunta. mais. passos apressados. plástico com uma carne não muito vermelha. entrega a Ber. os dois tem a impressão de que o açou- Alô. fazendo. A cara do o outro. mesmo barco. pega um saco menos a massa amolecida e meio rosada para dentro do saco. Chorou. Jogou um entrar. O açougueiro ri um riso de maluco. no fundo do terreno O Zé. mas o Zé estava andando atrás. Quando se dão em silêncio. O açougueiro qualquer maneira. nervoso. ele se mantém calmo. sam em frente ao açougue. nem cobrir a perna com o plástico – mas só se dará conta disso duas vezes. Mas agora. o amigo já está lá na frente e se esqueceu de Não há a menor condição de pedir para moer na hora. Enquanto o amigo se assusta com o membro em estado inicial de de- Vamos ali dentro que tem um telefone. meio dobrada. uma nuvem de moscas levanta voo. apesar de suas pernas ainda não estarem firmes.. a caminho do açougue. o saco com a carne cai no chão e se abre. e gesticu. o Zé com a faca numa mão. Janete? Qual é a carne que você quer? É. Bernardo está ten- pode ser que agora mesmo. conduz Bernardo através de um corredor baldio. mas ele. Nada janela. Bernardo deixa conta. um por um. se olham para trás ou continuam correndo. e saem dali. o Zé esteja so. Esqueceu o nome da carne. Boca Roxa está apreensivo. Os dois não precisam trocar palavras sobre isso. ou apenas matar a curiosidade e ver o que eles estão mais novo deixa claro que a imagem da perna. um sem querer demonstrar isso ao outro. Bernardo reconheceu a árvore e a janelinha com grades foto de mulher pelada e uma janela gradeada de onde Ber. ou de mau. os dois se De início. do plástico.

sem saber como responder ao que o outro acabou de dizer. Lembra-se de que deixou a Os dois. Da saleta. olham um para o outro ao mesmo tempo e não comentam nada. Boca Roxa entra em casa sem que a mãe o recrimine por chegar tarde. E esse outro saco? Ele disse que é cortesia da casa. O teu troco. Vai à merda. os amigos mal veem a árvore seca lá fora. Boca Roxa. tentando ouvir a conversa da regional da flaubert. mas só ouve suas risadas. Escreveu Mormaço Também Queima. Vai até o telefone e percebe que o filho a observa enquanto disca. As razões são várias. Eles não têm mais pressa. nitidamente contrariada. Entra em casa sem se despedir do outro e finge não perce- ber o olhar reprovador que o espreita. Eu vou perguntar mais uma vez: ele moeu essa carne na sua frente? Moeu. e isso o incomoda. mãe. Faz questão que o filho perceba. mãe no telefone. Vai pro teu quarto. Ele moeu na sua frente? Moeu. Entrega a carne à mãe e segue andando. perna descoberta. porque ele é mau elemento. Você não pode falar disso com ninguém. É preciso tomar cuidado com Bernardo. Fala que é cortesia da casa. está A perna ficou lá. Enfia a mão no bolso e pega uma nota de cinco. O mesmo sorriso besta de antes. e que se ele chorar. ele pensa outra vez. Janete permanece séria. Que carne é essa? A que a senhora falou. quase tudo escuro. 16 . cheia de mosca em cima. os outros vão saber e ele vai levar porrada. O açougueiro pega um saco de carne no frigobar e entrega a Bernardo. Já está escuro (e não era para ele estar fora de casa) e e Bernardo tem ordens explícitas para não andar mais com o amigo. A mãe está de guarda no muro esperando. responde de má vontade. Só ele? Boca Roxa tentando fugir de novo. ANDRÉ TARTARINI é escritor. Boca Roxa diz que o amigo não precisa ter medo da perna. agitador cultural e editor Bernardo está no quarto. Entrega mais esse saco a sua mãe.

porque o nada é de maneira algu. O atropelamento Fêmeas. Ajuda. Eu atropelo. Se você fizer outra merda. Eu só atrope- Não me programo. nada vai ser assim pra sempre. Disse. Convenhamos. Grande par- faz as mocinhas pensarem duas vezes na autoridade da cor te dos bons assassinos mata exclusivamente mulheres. eu atropelo gente! pelado que pegar o atropelador. mas não tem nada a ver com aquilo. acho isso mancha vermelha que lembra um moicano ou o fusquinha muito démodé. sei lá. 17 . nunca voltei e parei pra Jack o estripador só matava mulher. Nunca li os jornais. ma. Não sei quem é mais abrangente. por quê. de Carlos Alexandre) bruno azevêdo P orque é um século novo e como a minha mãe dizia. ele acaba te dedu- uísque em casa e às vezes acho que tudo que tenho é essa ân. sem g­ ostar. É mais legal. dá um fundo tra- olhar. eu li o conto do Ru. pode sair andando tranquilamente. você se fode. não tem nada a ver com arte. não ouço no rádio. Mas a minha mulher era mais esperta. dá um fundo de mistério. Uns vermelha ou na proteção das faixas brancas. xam ele ir. Se não funcionar da primeira vez. além de apertar o acelerador e administrar o baque. feito cima. jogar corações em panelas de pressão. o enterro. não acompanho dicional. O atropelamento é co. baixo). só isso. lo mulher. de assistir ao Jornal verem aonde chegamos) se pensa mais em socorrer o atro- Nacional. elas sofrem lá fora. A minha diferença pro resto das pessoas é que eu gosto de É que eu gosto de atropelar mulheres. Porra. como diria a minha mãe. atropelar os outros e elas atropelam. O retrato falado estrangulam. se meter em briga em um bar bem Fonseca. pra não acabar tão amassado num poste quanto a vagaba amassada Quando muita gente passa. O atropelamento foi sia assassina por sainhas esmagando seus quadris. se o cara sobreviver ao choque. Mas isso não é arte. Se você não tiver apego ao Mulheres. pra quebrar em 3 anos. Eu não tenho um opalão. enfiar baratas em lando por cima do carro e caindo atrás dele. Deixando uma bocetas. é meio que uma forma de matar legalizada. vá pra cadeia! (Inspirado no álbum Carlos Alexandre (vol 02). Olhei. Minha mãe entendia não é justo. paciência. que seja muita gente. na minha Na cadeira elétrica. Essa da mãe e da mulher foi pra dar um fundo psicológi. Gosto de ser essa imagem anônima na cidade. foi aquele pedaço de ferro de 2 toneladas. uns estupram. Algumas caem pra frente e levam as mãos ao capô. gente que gosta de estourar um crime que não causa lá muita coisa e hoje (só pra vocês balões de festa e gente que gosta. Antes que me chamem de plagiário. Se você envenena alguém. não tenho eles te pegam. E eu uso. nato numa sociedade perfeita pra se assassinar: eu fico aqui Só que é vermelho e eu deixo o fusquinha numa esquina dentro.. destino. Pegou sei lá quantos volts na cuca e não morreu: mas ao contrário do que vocês estão pensando. rando por alguém que tem mais grana. isso não tem é macho! Acho justo. o contrário. Pum! Qual o problema? Não sei o nome de nenhuma delas. mas porque têm homens. que tudo ia mudar. ro. não faço nada Sinal. dei- cara. quando o pára-choque atinge a ca. Aquilo ou alguma coisa. Outras caem pra trás (é mais legal) e o carro passa por Não fui eu. um tom meio maníaco que eu gosto. Meu lance é só passar com o carro por cima (ou por nela. Te Não tem muito a ver com as mulheres. Eu não as levo pra jantar. O Rubem criado pra preencher essa brecha no mundo. Às vezes emperra e eu tenho que engatar a ré pra des. geralmente. Não por- no chão. Acho melhor. Não me pergunte deu mesmo. não tenho essa coisa de fritar seios. Foi. Se contratar um fulano. não as pesquiso. Quase sempre é de dia. Por que eu teria de inventar moda? nada a ver com o que eu faço. mas elas dão dá um certo crédito com a moçada. viar e seguir à frente. é meio distinto. É o pouco das coisas. Não gosto de reatropelar mocinhas. é melhor do que qualquer.. Tem gente que gosta de sexo. O carro é o instrumento perfeito pro assassi- do filme. fica complicado. Bate um frisson louco. é literatura e fodam-se. carro. Fonseca também foi pra dar um fundo intelectual. que O maníaco do parque só matava mulher.

moram mais tempo nos carros que nas suas próprias casas. gente não frita o eles sempre servem pra iluminar. Sinto o cotovelo e ela diz: bater a 40 centímetros da minha cabeça e o meu pé no freio faz o carro ficar com cara de tuberculose. Tu vai pra onde. ao invés de ter mulher. Carro fica cego no farol e eu cada vez mais confundo Pode até ser. homem. pelos sons e pelo cheiro você sabe se é gripe Quando não dá enterro deve dar casório e ela vira o volan- ou se o pneu tá murcho. nesse lado pode matar a pessoa. Olha aquela ali. São três da tarde. mas tem lógica. legalmente. pensando num motivo pro noivo a amar pra sempre. pessoa que o estava dirigindo quando este atropelou alguém. Sou funcionário do banco do Brasil. pista e meu pé no freio. me ener. Eu nunca buzino. Fala! A multidão que cruza o sinal. Eu dirijo. Nem carteira de motorista eu tenho. Têm mais deles do que gente hoje.. faz curva. mas ninguém liga. Desvio Não seja infantil. Tu é doido!!? Quer que peguem a gente? Um amigo tinha um fogãozinho de duas bocas e foi um des. É por isso que muita gente. tenho que ser rápido pro carro não morrer. Seu carro é você e Carro engasga e essa cretina não tem o mínimo direito de não tem pronde correr do que ele fizer mesmo quando você pisar no meu acelerador! não estiver dentro dele. nos dois sentidos. das que saem de casa. O atropelamento devolve a elas essa fragilidade Vá em frente.. das que pedem. As mulheres só levam o baque. Taí. entende? asfalto. ta coisa. essa vai por cima. Quer desgraçar alguém é só copiar a placa Carro bebe. mas não acontece nada. se Qual é teu nome? fossem advogados eles usariam isso pra ganhar uma grana do Ford. tem carro. Pra lugar nenhum. Carro morre. o que se faz quando alguém invade um compreende? domicílio? Nenhum dos carros é meu. Estado.. gente não freia. você não existe. Teu negócio é ir. tenho que dar partida. Eu paro. dor de novo. Se eu atropelasse po. Se você tiver sempre o carro de outra pessoa. Chama! Você já viu uma mulher ao volante? Já? Não parece er. Fico bamboleando na ses que pediu pra acabarem com a Voz do Brasil.. Cada mulher tem um par de peitos e uma forma de Ter esses quatro pés de borracha me faz sentir seguro. Carro afoga. Merda! Pronde você acha que eu tô indo? Carro bate. Ela dá partida e me puxa pro lado. E o tanque não tem lá mui- Meu não. do carro. Abriu. digo. Vou com você.. da embreagem. Gente não derrapa. Em alguns lugares as pessoas Morri. com o dela no acelerador. E encontrar um carro Mentira. Cheguei. Nem sei se é. Eu não tenho carro. que atropelou alguém é só um dos passos pra encontrar a É sim. se eu atropelasse políticos eles chamariam a Não vou cobrar. das que acordam pra se redimir. É favor. Fazer o quê? Fordinaldo? Não mente pra mim. Que horas são? Três da tarde. que ainda passava e o pneu Eu? frita o asfalto. Esse aqui tava num shopping. por ela o resto da vida. das que saí- carro agora eu vou. Dirige.. de mulher. Manda. o carro é essa mulher que se pode te e enfia o pé no acelerador. ela diz. E. Ela pisa no acelera- Isso é legalmente considerado invasão de domicílio. salto alto na esperança de alguém achar um pé e procurar Ela tá dentro do carro.. Também se pode matar. mas também não tenho mulher Mas como eu não faço. que é delas e que parecem querer tirar. tudo te envolve e pela pressão certo tom Encaixotando Helena no ar. Se alguém invade a tua casa tu rado? Acho que muita coisa hoje parece errada. confiar. do carro dele e sair por aí fazendo merda. Quando ela tira o pé. Isso aqui não é táxi. va e quando vejo a desgraçada ela já tá sentada ao meu lado. Das que usam o Melhor não. imprensa e se eu atropelasse jornalistas parava o mundo. me fazem 18 . E os carros atrás dizem o mesmo. preciso trocar. ram de casa pra não voltar. Carro não dá volta. mas o carro tem sempre os mesmos faróis e me.. Se chama a polícia. Eu sei. digo. O pé no acelerador é o dela. Pra onde que tu quer ir? liciais haveria um monte de policiais no meio da rua só pra Agora é táxi? atirar em mim. não enguiça. essas coisas que são minhas com as coisas que são do carro e é por isso que eu digo pra ela que se ela não sair da porra do Ela aponta pruma mulher. Fir- lidar com eles. Um Tem essa sensação uterina. de um último pedestre.

volta. Desgraçada. onde tu já viu atrope. Ela diz que vai parar e Eu gosto do seu trabalho e quis ver como era. pros peitos dela. para nos sinais. Quando você chegar no meio da rua. gunta.dar pulinhos na rua. As buzinas. Como aquilo faz fogo quando se coloca um cigar- radiador. Deve ter uma Quem vai ser? mancha do tamanho do mundo na frente. da. Cansei. por exemplo. ronco. É longe e já passa das sete quando a gente chega. Onde é? Melhor não? Que porra é essa de melhor não? Melhor Em tal lugar. tico numa praia. alguém outro carro. Ele tinha um negócio chamado de soco de meia barata de Carmageddon e joguei a porra do carro do paralí. eu acelero. vários tipos deles (dos paralíticos) porque só o que não tinha Agora? mesmo eram os pedais. não são nem quatro. A intrusa e Baratão 66. Não precisa quem tem são as mulheres. Ermo. Deve ser daí aquele lance de mulher no volante. Tu já ouviu falar de Bruce Lee? de fazer a parte orgânica de um movimento é muito diferente Aquele cara que era ninja? da do botãozinho no volante. 19 . sem passar por cima de ninguém. Volta. ela era uma cientista e caiu num motor a vapor. Eu não bebo A minha mão do peito dela não sai. Tudo parado. Mulher não deve mesmo fazer coisa desse com pneus largos e loiras peitudas dentro. A primeira vítima do automóvel foi uma mulher: Mary ensaios e quadrinhos em diversas revistas e sites. não vou te fazer nada. Não sabia se Me diz quando for. de você. Pois é. Entendi. ro e eletricidade quando se coloca um telefone. Não gostei. É mesmo. Aquela. Eu passo o cinto. Deixa chegar mais. Não. Quer que eu ligue o som? Quer um a proposta era séria. tipo. Meia polega- Ela me lembra que eu não estou dirigindo. Você é um imbecil! Qual era o nome do cara que inventou o motor? Ela per- Ela fala. que buzina pros guardas e vira à esquerda. desses que só Eu só quero passar a tarde com você. mas acho que abastecer e que é melhor eu não dizer nada. Não lembro que horas tirei a mão dos peitos Quem vai ser que a gente vai atropelar agora. ficar assim. apesar da porrada. bater em mim. Não precisa se preocupar.. Tal lugar. Quem é você. ela sabe. A sensação de descer o pé. você manda. Só isso. Como se eu fosse um daqueles grandes. Só porque eu sou mulher tu tá com medo? BRUNO AZEVÊDO é escritor. Pessoas passando pelas calçadas. vou passar por cima Não gosto de ver batidas. Me deixa lá. Ela sai. como é que o carro sabe? Deve ter um sensor. quebrava o cara com um soco. você é um cagão. quando dirijo. afinal? Eu já te atropelei? Umas árvores altas e aquela cara de criancinhas brincando Quê? de esconde-esconde. Minha vida não é uma cópia Pode ser. Vâmo. ficou livros e discos. Em 2009 fundou a Pitomba! Ward. Pelo retrovisor ainda vejo a mulher.. Pra elas têm lugar e pra gente tem lugar e cada macaco Ela não é loira e não é peituda e me tomou de mim. eu aponto. Isso é horrível. Vou ficando no volante. Até que ela dirige bem. sim! Você aponta. mas não gosto. virgem. É melhor não. polegada. O Acaba a latinha. falo. deixa ela chegar mais. Ela me dá uma cerveja e eu não aceito. Não sei. Eu já atropelei você? Quero saber. Um cagão. É como se eu tivesse no peito um daqueles acendedores Gente não engulha. ou se é cigarro? como essa coisa de mulher que te chama de cagão de ma- Eu atravesso sinais vermelhos e fico com medo de alguém neira sutil. Casório. Monstro Souza. Obrigado. Aquela? Escuta. É editor regional da flaubert e coedita a revista Pitomba. Claro que não. As pessoas retorcidas na rua. Ela desce. mas que idéia idiota. Me bate uma sensação de traição. E aqui sou eu de novo. Ele colocava a mão a meio dedo do adversário e. Pára. viu. lado querer atropelar. Ainda não. Uma viatura ao nosso lado e a desgraçada faz gracinha com os guardas. Pé na embreagem. Viu aquela? dela. Não preciso falar. Isabel Comics. sem recuar. gente não buzina. Espera. Tusso um ar pesado e carbônico. toda fatiada. Publicou prosa. Lançou Breganejo Blues. perigo constante. no seu galho e eu sei que tô nervoso quando começo a falar por ditados. que não vou poder voltar pro volante. Pum! Bebo. Deve ter Sim. Cadela! Eu quero ir pra casa. Antes tarde do que nunca. Ela passa a mão na minha perna pra me acalmar. Continua leve. mas eles só olham Não respondo. você me pega amanhã? Acho que gostei. essa coisa de ter um comparsa. Ainda Tá. gente não tem de cigarro. Aquela? Um dia peguei um desses carros pra paralíticos.

meu menino. os olhos e grita faminto. Por um posição mais confortável. Chama-me depravado? douro. alheio a tudo. Morfeu me abandona e volto à realidade. Eu Observo seus movimentos de longe. minha pietá daniel osiecki L arga o menino. úmido e doce. os seios fartos apontam seus bicos rosados acu- sadores pra mim. Que também é meu. que me mais alto que puder. Gritando por mais. Minha Pietà predadora. DANIEL OSIECKI é escritor. Ajeita o bico com a mão livre e entro Minha Pietà. há marca de umidade. Não acorda. Minha língua passeia alegre ao redor desses bicos suaves e entumecidos e. editor regional da ção. Herege? Iconoclasta? Asperge-lhe com leite o seio farto. Quero sentir seu gosto tenro. Suga tua fonte. Que segundo admiro o bico rosado que me mata de prazer. bebe do teu sorve- ga o menino. Devora meu peito ar- minha Pietà. deleito-me em prazer. Quero sorver-lhe o leite visceral. crítico literário. Sob a égide da ino- perceba. duro. Em estado de alerta. minha Pietà ontológica. minha Pietà surreal. Triste realidade. me afoga em teu veneno. Não quero que os outros me percebam. Musa onírica. e o bico rosado evidencia-se imponente. na altura do seio esquerdo. cospe em meu rosto. grita por tua existência. deleito-me em tremores delirantes. Não levante. Larga o menino! Por um segundo você me olha. alimentar-me de ti. abocanha-lhe o seio far- você. Oh. menino. não me prive de tua imagem. que me controlar. Você não lamenta sua morte. mas não tenho coragem. Antes de. É colunista mento você pode sumir. Depravado? Antes apaixonado. Abre os olhos. Quero banhar-me em sua fonte ancestral. Causa-me dor. Espera por mim. Piedade! Piedade! Piedade! Pietà! Pietà! Pietà! Vejo os bicos grandes através da roupa branca. larga o menino! novamente em transe. A chegada ao terminal e a parada do ônibus me tiram do transe. Quero que admi- re o Colosso de Rodes. o pequeno nefelibata dor- me nas nuvens. minha Pietà às avessas. Larga o me. Lar. Grita o nino! Ser sem vida que lhe esconde o seio. Mais um movimento seu. sem preocupações. Na roupa branca. leva o bico rosado à sua boca. em estertores. Arrisco uma aproxima. também é minha. Lar. Quero que me deliro. Desvanece na pe. O pequeno ainda dorme. não ordeno meus pensamentos. em alto relevo sob a camisa branca. Sem sutiã. Agonizo. mais uma troca de posição e to que salta em minha frente. Nasceu vive em Curitiba. exige o que é teu de direito. dá-lhe vida. Morro. numbra de meus sonhos torpes. Grita por nossa mata. Dorme tranquilo. Seu Hélio suplicante assim deseja. Me joga aos leões. Queria tocar-lhe. do jornal literário Relevo. voto. Devidamente alimentado. ga o menino. Muita gente no ônibus. Novamente procurando uma vislumbro mais uma vez essa fonte lúbrica de desejo. musa abissal deste teu servo errante. existência. Contos) e mantém o blog Távola Redonda. A fonte ainda não secou completamente. Abre 20 . tenho cência o nefelibata reclama seu afeto. só Compadeço-me. minha Pietà debutante. Parece que a qualquer movi. fante. quero que me veja. Você recolhe o seio branco igual a um anjo de Botticelli. do meu sorvedouro. sentindo sua doçura. suga- lhe o bico em riste. Agonizo. Ser delirante perdendo o juí- zo. flaubert e professor de literatura. Publicou Abismo (2009.

Depois pegaria. está sozinha e em greve havia semanas. Mas ela não tem dificul- motivo para desistir de sua ideia. perdendo tempo com um jogo de tabuleiro. que era diretora de uma dessas escolas e. e foi cair na água. Ai de alguém que pedisse tufo de pó que quase voou em seu rosto. no caderno que ele a pegasse. O tempo estava nublado. de sua garrafa. como sempre. O céu estava muito escuro. a correnteza a puxara para 21 . referência. seu pai nunca mais foi à praia com ela. biquíni e óculos escu. Era bom mesmo que suas amigas não tivessem vindo. parecia que não ia mesmo conhecer que o de costume. Mas Júlia era uma boa amiga e questões mesqui. Culpa do governo. que escolhem com quem elas vão ficar. Ajuda muito o fato das quatro serem magras. dizia a mãe da até os quiosques estão fechados. Era grotesco. dade alguma em ficar com alguém. A sua era uma escola municipal e estava Júlia se dá conta de que venta. Resolveu sair quan- ia cair um dilúvio. ela do percebeu as primeiras gotas caindo do céu. sempre tem a próxima festa. um punhado de pipoca no areia. Quando era criança. já tinha tomado coice da cavalaria da polícia. Quem tinha que ir trabalhar. Aquela que mistu. bateria e ela o deixou com a Amanda. e não eles. Todo mundo tem com as bandeiras vermelhas tremulando pela orla. desconversava do assunto. Amanda. As falhas começaram a ficar frequentes e. cavava a areia com sua pá e ameaçava tro cheio de espinhos. com chinelo. parecia que Ficou uns 10 minutos dentro d’água. com quase vazio não chega à orla. apenas para à ditadura. Gostava do som das ondas. Júlia gosta de andar pelo calçadão. Enquanto seu pensamento viajava. Teimosa. pó delfin J úlia insistiu com as amigas que aquele era um bom dia Mas não podia ligar para ninguém. como o Lino gostava de dizer. deixou os óculos e a bolsinha cinema. sempre tem um carinha. Fincou a garrafa na um gole de seu suco. Fechou. apesar da até cinco esmaltes diferentes na mesma mão. Um dia. um palito de sorvete jogado por ali. Porque é assim. do cheiro do mar e da fome Desce assim que passam pelo Pino do Judas. Se brando muito mais do que o normal. sua garrafinha de água ros. para prender a canga. E de outros. aconteceu deles falharem um especial de aniversário da cidade. distribuído de graça. vinha praticamente todos enorme no meio da praça só servia mesmo como ponto de os finais de semana mais ou menos àquele ponto da praia. as ondas que. canga. por cima. para elas tudo é onda e. com um ou outro vendedor de água e mate. rem. e ficar admirando as ondas enquanto remexia. o vento mais frio bem que. a areia já um pouco úmi- da. resolve se sentar na areia. mesmo ainda sendo três da Raíssa. sentiu que o clima era de feriado antecipado. também. margem e viu que. Elas preferiram ficar na casa da nenhum carinha. algum velho fazendo exercícios e um par de esteiras com velhas fofoqueiras. rosa-choque com laranja fluorescente. Para lembrar da dor dos que resistiram sempre pular na água para ir até o horizonte. no começo do ano. No ônibus. A vida de Júlia era repleta de questões nunca respondidas. faz frio. Sobra mais pra mim. um drops. também. tarde. bolsinha. O celular ficou sem para ir à praia. ela pensou enquanto caminhava. se não rolar. sempre do mesmo jeito. Aquele poste que ele dava. como ela leu. O jornal daquele dia foi final de semana. Júlia olha para a cebeu as bolhas de ar junto à água empoçada que escorrera praia deserta. Olhou para a imaginou. Todas elas tem 15. Quem tinha que ir para a escola. A finha de água. Nem per- defeitos. a próxima praia. que suas amigas capado. se fica- rava doce com azedo. Resolve parar o menino do mate e compra uma garra- po atrás. muito tem. Ela não tinha Corina não ser assim tão bonita. chutou o chão com os pés e levantou um tentavam ignorar solenemente. mesmo nhas como essa logo eram esquecidas. Brincava com seu pai. Bem que o Lino podia estar aqui. a próxima viagem. junto com os chinelos. aberta tombou e o líquido começou a escorrer pela areia. Sempre foi a mais ousada das quatro. Não é todo dia que se completa 300 de repente. Júlia. com aquele cubo na ponta e o mas. já foi. naquele lugar. Quando elas andam em grupo é mais fácil e são sempre elas. Sempre anos de história. O Júlia percebeu quando quase todo o conteúdo já havia es- egoísmo era um de seus piores defeitos. perto da quem mesmo a polícia serve? Júlia divaga enquanto o ônibus ressaca. não.

E sua voz tinha um timbre bonito. uma faca. po que. o frio passou um pouco. principalmente na bol. toda a pinta de que seria chata a tarde inteira. Isidro à milanesa. Mas também percebeu uma silhueta. — Muito longe. mãe ou o seu pai foram registrar você no cartório. — A gente falou. então. mas na verdade procurava al- nunca vira antes. você não sente saudades? — Como é que você se chama? — Sinto falta deles. Ele era gatinho e bom papo o suficiente para que Júlia — Muito longe daqui? esquecesse a chuva e se sentasse ali mesmo. não. a chuva praticamente parou e perceberiam. passam não vejam a gente. sim. sua mãe errou no cartório. Mas ainda era muito cedo. 22 . depois que ela entrou no mar. Se- Conversaram sobre o nada. Os piores tem — Eu tava tomando conta pra você. é que o nome do meu avô é Isidoro. — Então a praia é só nossa. mais ou menos a mesma idade que ela. areia. poderia ser qualquer — Oi. lembra? —Vamos caminhar um pouco? — Nossa. Fez caras e bocas e. —Ah. ves. pen- chinelos. para que os carros que cabelo. aproveitando a companhia. os dentes à mostra. eu sou do interior. — Não deve funcionar muito bem quando a praia está — Como assim? cheia e o quiosque está funcionando. Isidro reconhecia. coisa. recolheu suas coisas. foi isso? — Mas você deve ter amigos por aqui. Mas faz tanto tem- — Os outros me chamam de Isidro. A chuva caía fina e dava Nessa hora. ela O garoto era esquisito. Ela disse isso com um sorriso tão honesto no rosto que Isi- dro não teve saída e sorriu também. — Quando derrubou água em mim. até onde ela sabia. Você é a dona dessas coisas? de tarde para saber que ela está na situação perfeita para ser — Sou. você tava enterrado ali e eu nem percebi! Nos- — Eu queria ficar por aqui. — É baixa temporada. eu não consigo nem mensurar o quanto. Júlia achou bonito aquele sorriso e deu por — Eu sou mesmo irresistível. dos meus amigos. — Quis dizer que você me trouxe para cá. não sou? certo que aquela ida à praia. Ficaram ali por — Como assim? algumas horas. como um revólver ou mexido em nenhuma de suas coisas. afinal. que deixara encaixada de modo estratégico junto aos Gostou do repentino pensamento de comê-lo e. apenas continuar por perto. — Nossa. Isidro resolveu contar a ela. se pudessem ver — Hã? por trás das nuvens. sem — É sério. às vezes. — Isso só parece cabelo. mas o — E sua família. sou que deveria ter dado aquele beijo. e você não disse de onde é. Ninguém vem pra cá na baixa do as suas coisas. veio para cá por quê? frio que ela sentia passou. não tinha sido perdida. sim. ela pensou. Nesse meio tempo. de fato. Mas queria conhecer melhor o garoto. Júlia no princípio. mas por que fez isso? Alguém podia ter pisado em você. Não é nem neste estado. tros para a direita. Mas Júlia era esperta. percebeu que suas coisas tinham ficado uns cem me. eu sou um garoto feito de pó. sinha. Podiam ir para um lugar coberto. Queria saber mais so- bre este garoto que. Tinha o corpo sujo de areia. há muito tempo. muito ao contrário. Meu pai Se bem que isso explica você estar coberto de areia até o dizia que era o nosso esconderijo. mais uma vítima de um marginal qualquer. sa. Isidro estava certo de que ela não compreendeu o que ele disse. — Ah. nasceu o Isidro! comprometedor. Ele — Ela não veio. nitivamente vazia. Isidro fez menção de dar um beijo em Júlia. remexeu na tia apenas um calção azul. então. que o céu já se encontrava estrelado. Ninguém deve morrer na ignorância. Só estou aqui por sua causa. não tinha gum objeto que ele tivesse escondido. —Eu ia cobrir tudo com a canga. um garoto. pronto. Ele tinha pena por ela. Mas parecia educado e. Você derrubou água bem ali. trocou de lugar com ele. Quando sua em muito tempo. Você é a primeira pessoa que eu vejo — Ah. Com a boca fechada. certeza de impu- nidade legal. Quando conseguiu alcançar novamente a temporada. — Júlia. É só assistir a um desses programas policiais de final — Oi. Durante esse papo. na praia defi. falou. — Eu sei. sentado perto de suas coisas. — Esta garrafinha aqui. É meio escondido dos outros. eu não vejo ninguém. Ou isso ou um ladrão impossível tinha rouba. de quem abria a guarda em cheio. sabia muito bem como falar de coisa alguma e continuar conversando por horas. deve ter Júlia achou graça nesse elogio estranho e abriu um sorriso acontecido um erro de digitação e.um dos lados. Mas não havia nada. que é sobre o que se conversa ria justo que soubesse. e tinha no rosto traços que Júlia areia como quem brincasse. mas ela é tão fina que não ia adiantar nada. Eu gosto de vir aqui por causa disso. Era só ele. quando não se quer falar realmente de assunto algum e. Acho que não virá. Faz muito tempo que também não parecia incomodado. foi o que ouviu de uma mulher muito má. — Como assim? — Não tenho.

Entende agora? O que Júlia entendia era diferente. Do contato físico com seus fluidos. a resposta de Júlia não se traduziu em palavras. Então. isso foi a alegria de todo o co- mércio. Ele lhe deu um último abraço. escritor e jornalista. mas é água salgada. mas o tempo con. Se ainda sentisse algo de verda- E a chuva completou o serviço. Não chovia já havia uns bons seis meses por lá. e morta. seu signo é laranja e sua pedra te no corpo. diferente da normal. Eu não quero me dissolver de novo. — Isso não vai acontecer. Mas sabia que. vento se encarregou de espalhar pela areia. sem proteínas. estes se desfizeram em sua mão. Júlia ficava sem ar. pronto para continuar sua bus- lados de Isidro. DELFIN é editor regional da flaubert. mas num ato de paixão. tudo seria mais fácil. que ficou ca. enfim. Trabalha como editor. Para encontrar a bruxa cheia de uma areia estranha. Mas era do beijo dela que ele precisava. ela estava seca para ela. senão ela teria fugido de lá. — Eu falo sério. num primeiro beijo intenso. Ele choraria se pudesse. de sua maldição. Eles se beijaram longamente. eu vou me desfazer de novo. calçou os chinelos. Se a chuva continuasse. limpou a — Então passa a mão no meu cabelo. — Mas eu acho que vai chover de novo. forte e apertado. finalista do Prêmio Jabuti. Seguindo as pistas que lhe deram. deixando a praia à mercê de dois jo- vens como eles. por quase cinco minutos. que o carros estavam na avenida à beira-mar. Graças a você. atraída por Isidro. — Então eu fui a sua salvadora? — Ainda não. E ela riu. As nuvens se abriam um pouco. Isso certamente explicava o bom grado das pessoas em ficarem em casa. Mas agora eu estou aqui. pensando que seria a solução perfeita. sinceramente. pelo barulho. deixar de ser um assassino. Acho que é o sal. porque era mesmo engraçado havia acontecido. como costumam ser os primeiros beijos que signifi- cam realmente algo. Riu bastante. poucos Ela explodiu em minúsculas partículas de poeira fina. pegou o dinheiro da bolsinha e os óculos escuros. Eu vim de longe até aqui. — Por quê? — Porque eu preciso me hidratar mais. Ao final dos cinco minutos. O beijo era um dos meios mais rápi- dos. às vezes é nos rins. Acreditava que podia fazer algo de bom por ele e estava. — Mas a água mineral funciona. — Ué. fazia tempo que não chovia. agora e por algum tempo. Na alta temporada. Dirige o Studio DelRey de produção editorial. que o havia amaldiçoado e. E caminhou em Júlia fez isso. bonito e fantástico. Sua garrafinha começou a me reidratar. direção do calçadão da Orla. —Não dá certo. Senão. mesmo sabendo o que já 23 . Não chovia mais e. Também ficava sem qualquer nutrien. —A de chuva também. Era verdade. Quando a mão encostou nos cabelos ondu. pegou a canga de Júlia. mas Isidro não detinha o beijo. Ela entendia que en- contrado um garoto esperto. Só pode ser o sal. Então. Mas foi pular no mar e eu comecei a me dissolver. — E se não chover mais? Eu vou acabar me dissolvendo de novo. Sua cor é 42. areia de seu corpo reconstituído. sem sais. Isidro sabe que ela não entendeu. de. Mas você deve ter percebido. Secava a olhos vistos. pula na água! Tem um mar enorme na sua frente. — Nossa. ele estaria livre — Deixa de bobagem. — Eu preciso de você. tinuava encoberto. — Pois é. Eu tentei. ou fosse mais forte.

Deve ser minha mãe querendo É possível que a gente converse na segunda. Em Senador Camará protejo meu rosto com as pedras que costumam tacar nos trens. Está com outro não é? rigentes devem estar as gargalhadas diante da correria do populacho. adiante a dona dos espetinhos está lá com sua cara suja e doim torrado que queimou a perna da mulher que lia a Bí. Chegava mais cedo para ver aquela cara. Mania de assistir telenovelas! O trem foi avariado.. mas é melhor cada um ir para seu ça aumenta. Estou com fome. apertado e fedorento. Quem conseguiu um lugar para sentar sacanea lado. de peões de obras. Os jogando boa parte no chão. las costas apontando é por ali. Fui otário na sua mão.. Devia ter quebrado a cara Apago o número dela como se estivesse excluindo-a da daquela piranha. A escada da estação é curta. Fixo naqueles olhos trêmulos e imagino a sorte de al- Pagava almoço. Tempo de quê?Tivemos uma Todos estão espremidos. sou jogado pra fora do trem com a maioria que desce ensan- decida. vai! Uma escada de madeira Débora ensinou-me bons modos. O grupo de normalis. Vou em pé até Cam- po Grande. souber que terminei com Débora.. Acha que por ela ser cren- vamente. Em alguma sala reservada. Correria de novo. história muito bonita. Fumam charutos e são massageados por loiras Ficava mais puto com aquela cara de pensadora dela turbinadas. Escorando-se no chão ela coisa ruim! ainda tentou erguer a fronte pra ver se comovia alguém. Uma morena com olhos de tormenta que até hoje me deixou de ressaca. Uma coroa vestindo uma roupa que compraram seguram a lata com uma das mãos e com a de rapazinho me dá um prospecto com um bunda enorme outra se esforçam para não caírem com o balanço do trem.. Vai falar muito na minha cabeça quando paro de pensar em você. É a deixa para que cada um tas cheirosas pula o meu vagão dando espaço para um bando conte como o lugar em que moram está violento. Tive nojo quando ela me tocou pe- Dão uma bicada rápida sem saborear. Na correria uma velha caiu e minha vida. Acabo Mais aperto. Desisto da cerveja. Num vagão lento. Uma chega a bater na janela Em São Cristóvão entra mais gente. tente no. Tem gente pior do que daquela diaba.. eu. Um vendedor de cerveja. mole. os di. Não tive gana para pegar um lugar. te é alguém que preste. É uruca Cego entra com sacola na mão. Samu chega e leva a velhinha. Agora bloqueiam a janelinha que venti- lava meu rosto e torram minha paciência com sua conversa Finalmente em Campo Grande nem preciso me mexer. nutrição diego mendonça E ntrei no trem correndo. 24 . Ainda tenho o número de cabeça.. Meu pedaço tem mais gordura do que carne boa. Quem estava sentado agora vai em pé. Rosto com rosto. Agora me apronta uma guém chegar à idade adulta sem ter topado com uma mulher dessas. Ela esbravejou todas as pragas ao pobre. Beijos. A cadelinha madalena é quem iria gostar. Desligo o celular e vejo uma ligação perdida de casa. fazendo um barulho de tiro. Trazia lanchinhos. O trem vai atrasar. ração de fim de tarde. dizendo venha relaxar. Mensagem não enviada. Mais Em São Francisco Xavier entrou um vendedor de amen. Em pé a desgra. feito Débora. Este número encontra-se fora da área ou desligado. quem está em pé. Sai de mim ninguém se importou. como se fizesse um favor em vender aquela blia.. Mandei-a para todos os lugares. do que com a própria situação.. Não saber onde estou. antiga com fumaça avermelhada. Trem negreiro. mal encarada. Vamos dar um tempo.

Quando demoro a voltar do trabalho ela se esconde no sono. É contista bissexto. Fizeram da minha camisa um pano de chão do meu próprio vômito. Que cheiro! Nem parece sobra de almoço. Tomamos uma cerveja e tudo vai ficando engraçado. Minha carteira tinha sido revirada so- brando cinco reais. a música aumenta. Algumas mulhe- res rebolam. Ela aproxima-se de mim e debru- ça suas patinhas sobre minhas pernas. mas gostosas. Coloco o prato no chão e vejo a cachorra devorar a comida em dois tempos. Uma pega no meu ce- lular e faz aquela piadinha manjada. O vento da noite incomoda. Costela com aipim. Enquanto atravesso a sala me distraio com a idéia de mu- dar o nome da cachorra. Ou finge que. Quando dei por mim estava sem camisa e um cheiro de vômito no quarto. DIEGO MENDONÇA vive no Rio de Janeiro e atua como profissional de saúde. Adormecemos juntos. Pego meu prato e levo até o quintal. São feias. Vou descendo a escada e parece que está todo mundo olhando pra mim. Ela se encolhe toda e faz a cara que Débora fez antes de terminar comigo. Madalena me espera. 25 . Deixou um prato em cima do fogão coberto com um pano de prato. Minha mãe dorme. Passo pelo quintal e dou um chega pra lá na cadela. O tal clube parece mais um botequim. Andei umas duas quadras até chegar à minha rua e só reconheci a casa pelos latidos de madalena. Chega mais gente.

Mas hoje. estatelou-se no chão. vendo-o sofrer des. Foi quando Beto desse jeito. Ele adivinha meus desejos e cuida de atendê-los um a um. minha vontade é arrancar-lhe do peito essa dor e comê-la inteira até morrer Tentei me agarrar na mão segura do bom senso: a queda envenenada e ir arder no quinto dos infernos. até chegar aos motéis mais distantes da via láctea. socorros. Não demorou e sua to. finalista do prêmio São Paulo e Alameda Santos. continuou para sempre nosso único filho. insatisfação virou vício. eu queria mais. a vida é um tando para o céu. espera mais um pouco. deitado no sofá com os olhos grudados no veio o aviso. Deixo a carta sobre a escrivaninha e em movimento. Por mais que ele fizesse. esperando pelo filho que não volta mais. Talvez ela diminua seu sofrimen. o saio andando pelas ruas até que a fome e a sede me consu- Beto. respondo como sempre. a vizinhança. Embrulho os cacos na carta que escrevi e jogo era quase um bilhete. desta casa estar em movimento. como 25 Mulheres que Estão Fazendo a Nova com esmero e cuidava do menino com zelo e dedicação. O Beto chorou de emoção ao saber da notícia. Não demorou e eu engravidei. estamos todos girando ao redor do sol. Depois do nascimento do Júnior. por sua vez. tudo no lixo. ele sempre queria mais. eu. gal. gira ao redor de outros sóis. Vendo o se jeito. espera do filho. Es. Talvez aumente. resolvi contar-lhe tudo por escrito. embora. mas. teto. tive vontade de dizer: esquece esse filho da puta. É autora de livros infantis e infantojuvenis. Meu único filho acabara de fazer dezoito anos. afinal. De ponde- ração em ponderação. pera mais um pouco. Talvez o Beto queira um café. você está aí? Ele me pergunta carrossel. Mal terminei de escrever a primeira frase e o relógio da Quantas noites. Daqui onde estou posso ver seus pés. só um ins- tantinho. Calço os sapatos e. E expulse a mim também. depois pelos drive-in. Meu bem. Nunca tive coragem. mos tanto amor e preocupação. Fazia as lições domésticas Mundo. Em meio a tanto rodopio. expulse-o de casa. sinceramente. O Beto não terá nem a chance de me perdoar. Mas houve época em que isto não bastava. que. uma novela e os romances Hotel Novo plar que o Beto sempre mereceu. Publicou três livros de contos. apon- caia alguma coisa de algum lugar. de vez em quando. Fiz e refiz as contas e não havia a menor dúvida: o filho não era dele. Estou amor. esforçássemos. Ele Literatura Brasileira. sem querer. procurando por ele nas delegacias e pronto- Interpretei como um aviso. Participou de importantes antologias. Por isso resolvi do relógio deveu-se tão somente ao fato de o planeta estar contar-lhe a verdade. não merece- Nunca tive coragem de contar a verdade ao Beto. piso no relógio que A verdade é muito simples e ocupa pouco espaço. estela dalva ivana arruda leite E Júnior cresceu cercado de mimos. nada mais natural que. mam. ao ver o Beto andando de lá pra cá a parede. lá da sala. 26 . Primeiro pelos cinemas do bairro. por mais que nos is aí toda a verdade. Foi quando comecei a transitar por outras constelações atrás do que me faltava. também eu não soubesse de quem era. Eu e o Beto nunca brigamos. tornei-me a esposa exem. imóveis. acabei dando por encerrada uma Ontem o corpo de Júnior foi encontrado num mata- conversa que nunca existiu. quieto e morto há muitos anos. A carta caiu no chão. IVANA ARRUDA LEITE nasceu em Araçatuba (SP).

Na outra. a coitada. meia hora depois. — Vai um? Em conversa sobre o irmão. tem pena de mim! grossos e pequenos tremelicando no estofado. — Você. cuidar. JD LUCAS nasceu em São João de Meriti. publica material a esse respeito em monomito. o suor a blusa transparece os seios eriçados: duas pitangas tração fingida. mestre na arte. Em casa. para Luiz Fernando Brites. o generoso po- tinho improvisado de guardar bala Juquinha e bombom Serenata. Poderia imaginar que com um simples bom- — Esse aí já não fala. 27 . mal caminha arrastando os pés. E não é que.. ao levantar o braço Volta com o copo cheio em uma das mãos. É escritor e editor. À maneira de Dalton. a pra apanhar o favorito. Dedos Ai senhor.. sorri no intervalo entre mor- discada no terceiro bombom e piadinha antiga: — Afonso diz cada coisa. Danadinho! Mal percebo. bisavô. Agora veja. cair em armadilha tão antiga. Morro antes dos sessenta! fonso não está. bonzinho. — Desculpe. a mão oleosa no meu joelho esquerdo. sei que em toda aquela carne extravagante graúdas enfeitando o mar de opulência. VISITA DE AMIGO JD LUCAS —A — Deus me livre ficar velha. Some por trás da parede.. 1985. Bem à vontade.. sabe como é. Observa-me sorver o líquido com dis. reaparece instantes depois com o banco e o ventilador. sente-se aí. Arrepio na nuca — medo do irmão brotar ou pretexto Editor regional da flaubert. culpa de alisar a barriga — Por que não come um bombom? Da cadeira de vime. — Como vai de livros? Reclame do bisavô ela conhece bem. Devia se cuidar mais. ministra cursos e palestras sobre Mitologia do antigo recurso da sedução? — Outra vez a atenção no e Simbolismo. enquanto repousava sobre o meu peito aquela cabeça que devia ter o peso do mundo? Tão grande que ocupa lugar e meio na poltrona. Ao alcance da mão. o olho estrábico do bisavô inútil..org. muito magrinho — des- — Não precisa tirar o sapato. 2013) e da série Novelas Extraordinárias. Sei que é de muitas namora- das. Por que não bebe alguma coisa? Convida a ver o disquinho na estante. logo eu.. hiberna urso faminto. artimanha de fê- mea que conheço bem. sou homem para a noite toda. Autor de José (Móbile Editorial. a pele exala odor antisséptico? Com garrafa pela metade. ouviria no auge do amor que Sobra pra mim.

como seria esse filho do filho dela? E se. “Ela fracassou”. Era tão absolutamente uma curva essa idade. só pra ter a quem culpar. uma lembrança pastosa. Vive em que passa o período inicial de grande comoção. ao sair de casa. berros talvez. viajar sozinho. claro. era também uma uma uniformidade de resíduos. do quarto do filho. dias. vida tentando colocar essa dor toda lá dentro. Na verdade. naquele veículo temerário. Ela pen- parque. os remédios ajudaram. Pensa que ela não pensou na morte? — Pai. lançou Histórias de amor recolhidas ao acaso. De querer se enterrar. e chorando. Era o arvoredo de árvores eucalyptus que sava apenas no que poderia ser. Foi publicada em algumas antologias: 25 Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. avó. Pequenos compartimentos da notícia em um telefone. aos do menino. Ela seria ossos e lha. E se ele visse esse filme? E ela achava triste desde criança. O menino de confortante era imaginar a dor lá dentro. que veio dizer o derradeiro. Esse caracol a que se assemelham as relações familiares. tentando não pensar no filho. Era rapaz. Mas era só sair e ao longo dos Grandes pedaços da dor foram violentados e se transfor. mesmo. Ao contrário dela. ou um Já reparou que “avós” é um dos poucos plurais que fica no reencontro. essa dor. Mas nem isso sig- 28 . a primeira dor que ela não conseguiu suportar e entender e até a fez acreditar nova- Sim. E se ele tivesse mesmo terminado seu curso. O balão maram em frases para cuidar da sua mãe e do seu pai: avós crescia. Foi viajando para essa um filho. no entanto. O que era estranhamente re- E outro da mãe. De se lan- çar ao chão. iguais e repetitivas. E levar uma não era vinte. DA UNIFORMIDADE DE ALGUMAS DORES‑ÁRVORES MARA CORADELLO N ão era um bosque ou uma floresta. Ela agora voltaria a ser somente filha? Uma mãe que perde um filho fica pra sempre MARA CORADELLO é escritora. A dor era um ba- lidade de dizer “você não manda mais em mim”. porque Deus escolhe antes os bons. Uma mãe que precisou tanto dessa mesma mais se lembraria do amor de ter esse menino. que a morte a afastaria ainda mais do filho. a cada respiração. Uma caminhada até seu quarto era tocar na dor. Entre objetos Com carteira de motorista. mas não exatamente. em grande lão imenso. para crescer. Ainda Se separar em parte dessa dor. Era como um divertimento. Em mais um telefonema do pai. se ela entrasse lá. sorve- ria do ar maléfico desse balão. o filho gostava da floresta de que não mais seria necessário o diploma? E se ele tivesse tido eucaliptos no caminho até a praia. com título eleitoral. De uma Prosas cariocas . só não se matava por achar gênero feminino? A avó precisava tanto de seu suporte de fi. Ela o deixou Vitória/ES. mas também Apenas anos depois. que amamentou a primeira palavra. Como os eucaliptos. Nada significava nada pra ela. esse garoto. depois Palavra) e Paralelos . parte devido ao novo emprego como garçom. Aqueles primeiros dias eram mente em Deus. mesma praia que ele se acidentou. sendo a mãe de uma morte. ele foi chamado logo. invisível a outros olhos. Agora. O enterro eram não-memórias di- luídas em meio a uma dor de fazer o chão sumir. Do que precipita.Uma Nova Cartografia do Rio de Janeiro (Casa da interrogação. Era menino. sofreria ao saber Ordenadas. a dor aumentava. E não filha. dos quais não conseguiria desfazer-se jamais. aqueles cabelos cacheadinhos aquela um contido dentro do outro. Mas era ateia e cética de- mais para pensar que a morte pudesse ser um alívio. De algo interrompido. à vista de ninguém. O desinteresse que se ele soubesse que o cantor favorito dele se tornaria gospel? lhe causava a estática das coisas perfeitas. Sua filha. por ser uma idade precipício.17 Contos da Nova Literatura Brasileira (AGIR). ela sorvesse entre soluços o ar. — Mãe. esse Pedro. quanto mais entrar no quarto. que ocupava esse quarto todo. 19 anos. uma dor ma da amiga mais próxima. diz o olhar de todos. A notícia chegou em pe- daços. E do que cai. ele viveu a vida toda. Em 2013. Não era um nificava algo pra ela. E diminuiria no- vamente o balão. o interior mole e complacente gargalhada a primeira vez que ficou em pé a primeira vez lá no fundo. ele foi feliz a vida toda. mesmo sendo mãe de um filho morto. Com possibi. guardado no quarto dele. para que ela entrasse lá novamente. Antes ela sequer habitara essa casa.

feita de plástico. Também não colocarei data. uma carta tem segredos não diria que no bairro. mas ele nunca quis ter filhos. não. eu via cachos verdes em miniatura despencando da par- nha. ele e seus amigos comiam mulheres que dizem respeito a quase todos. as tragédias acontecem um pouco a cada dia. acho pontos de vista e referência já bastavam as aulas de geografia que primeiro foram os cachos. elas ras. frente. do início. não bunda na terra e não tiraria os capins que cobrem as flores foi bem assim. Deus não nhos que seus ramos percorriam e ao anoitecer já não me teria colocado um buraco no meio das pernas dos homens.. Sim. não ele não diria. se eu quisesse ra. só delas e de mais ninguém. não. se quisesse ria maracujás. ele jamais plantaria maracujás incurável. um tombo peque. se ele fosse eu ele saberia perfeitamente que eu não me que colocar um número exato daria uma impressão errada empenharia em cuidar de flores miúdas que dão em qual- dos acontecimentos e parecerá que um dia preciso nos de. eu poderia passar tardes inteiras olhando os cami. caso fácil te perder. eu não era exótica. Não. logo as uvas poderiam ser colhidas. as coisas foram acontecendo assim. isso. desde muito cedo me apaixonei pelas futilidade de uma mulher. meu esposo. Maquinava em minha cabeça diversas formas fosse saberia que minha infância inteira eu vi os maracujás de machucá-lo. durante a noite. depois uma queda e um braço nem passava perto do que eu era e nas raras vezes em que quebrado. ao longo de tantos anos Ah. ele saberia que as mulheres deslizes que muitos cometem. ser mais exótica. mesmo que ele se colocasse no meu lugar que lhe arranjas- nunca fui muito ligada a métodos e números cardinais. Melhor eu começar assim. no começo do ano brutalidade que minha mãe arrancava os frutos ainda verdes talvez. Essas mudas não irão pra próxima geração seria de pervertidos e ele não se arriscaria. e de baboseira e sangue vermelho e grosso. enquanto penderem da cerca que separava minha casa da casa vizi. também não foi assim. melhor poupar designa. Se ele fosse eu ele saberia que a única ções. ele no. eu escutava sua barriga fazer dão em qualquer lugar. logo depois você arrotava alto e dizia. Uma noite escrevi uma novela de duzentas páginas 29 . Não. puxei minha mãe. ele podia ter uma úlcera era eu. Então. se uma buceta. eu compreendia e sim ele não barulhos terríveis e então. meu querido. recordava das trilhas e era necessário pela manhã recomeçar não mesmo. Sim. to essa história. não. va com minhas pequenas vinganças invisíveis. saberia e sim ele não me chamaria de lésbica quando con- pela sua incrível ineficácia. se tivéssemos filhos poderia levá-los para longe e so de seguir o estaleiro-quadrilátero que compomos quando proibir suas visitas. as uvas em cima da frutei. O primeiro ramo a nascer se Passei muitas noites acordada pensando em uma maneira de estendia em direção ao telhado se furtando do compromis. não. sem remetente. uma carta nunca amavam mulheres morriam solteiras. es. não diria que no tempo dele mulheres que crevendo assim. até mesmo o cu duvido que seja coisa de Deus. veja. uma ralada no joelho. depois uma escada e uma fratura exposta. você já viu como são bonitas as flores do ma. tudo que nomeio me compromete e não moça que eu amei na vida morava na casa ao lado. sim ele diz nada. tenho estomago de avestruz. ele se levantava as varizes que estouram de repente e inundam a sala de um do sofá e dizia que não ligava a mínima.. pequenas banalidades e que gostavam de mulheres. não seria tão quer outro tipo de inseto voador. sim. que eu não me abaixaria. não tocaria minha sentendemos e resolvemos desembaraçar e você sabe. Não sei bem. ele deve ser lida por apenas um leitor. pensava. Não. de forma que se fosse. fazer com que não voltasse mais. se eu fosse você eu planta. estão tão fraquinhas. só assim saberia ser mulher e pensar com a foi ainda antes disso. eu desanima- to os maribondos que perseguem as florações e nem qual. no entanto. quer matagal. se camuflam de homens muito melhores que os homens. dizia que a trouxemos as minúsculas mudas. mãos sujas no fruto. Às vezes. ele jamais seria encanto. talvez por isso as letras me interessem tanto. eu tinha certeza. do pé para que a mulher da casa ao lado não tocasse suas meu companheiro. depois pedi para que ele se colocasse no meu lugar. pequenas e se ele fosse eu ele saberia que eu só cuidaria em Primeiro um hematoma perto da virilha. Falava e espirrava pequenos jatos parreiras e nem sei ao certo o porquê elas me causavam tal de água com a boca. exceto pelas parrei- racujá¿ Ou quem sabe aquelas margaridas miudinhas. podíamos ter gatos e cachorros e uma tartaruga. Não. ele não era eu. quando os maracujás florirem márcia barbieri M eu caro. meu trabalho de catalogação. Mas sim. vida das parreiras. aquelas brilhantes. capaz de ter uma buceta e nessas horas eu tinha fé. e que elas tinham ficado para trás faz tempo. sim. me vingar. Se ele fosse eu ele saberia que não suportava lembrar a reira. e se ele fosse eu ele saberia perfeitamente que eu não supor.

é como disse. Ainda sinto o cheiro das flores de maracujá e o gosto do beijo de Estela e da surra e da bri- ga eterna entre meus pais e a vizinha-vadia-mãe-solteira que não sabia dar educação para filha. você dizia que detestava litera- tura. sim. peça um pouco de mata-mato para meu irmão. Sim. Amarrei a corda. era um bom peso. o estaleiro parecia forte. a filha que tinha gostos exóticos. melhor eram as margaridas or- dinárias. Esqueci de perguntar ao meu pai sobre as pragas que atingem as parrei- ras. literatura não serve para nada mesmo. você tinha razão. Esquece. Sim. minha vingança não tinha como falhar. mestranda em Filosofia e formada em Letras. Agora não haveria erro. 30 . você era bom com as construções. Como fazia todas as tardes. Sim. Tem textos publicados nas principais revistas literárias e participou de algumas antologias. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno (2009) e As mãos mirradas de Deus (2011) e o romance Mosaico de rancores (2013). devíamos ter escolhido os maracujás ou as margaridas ordinárias. foi inútil. subi na cadeira e depois o chute.inspiradas em você. você estava preso no estaleiro-quadrilátero que compomos. MÁRCIA BARBIERI é paulista. Cinquenta e dois quilos. coloquei a cadeira embaixo e fiquei admirando os ramos e agora também admi- rava o espetáculo dos primeiros frutos. sim. as letras me interessam pela sua ineficácia. você não teria como escapar. sim. não se preocu- pe. depois resolvo isso. que será lançado em 2014 na Alemanha pela Clandestino Publikationen. vamos você deveria saber que os cachos demoram para crescer. Não. o capim não está tão alto. o mais importante agora era a minha vingança. era tudo uma balela e que aquelas páginas só serviriam mesmo para limpar a bunda.

seringas e garrotes. perguntou para onde era a corrida. Ela obedeceu. ligou o apa. Arregaçou a manga da japona. morar em apartamento limpo. diz o A droga no parapeito da minha janela não aparece segurança. A polícia revistava os negros. Enterrei mais o chapéu. É só o que tenho. as vedetes. inferninhos da avenida. fora do chiqueiro do meu quarteirão. burroughs mariel reis R omeu. O que vai querer as prostitutas. em sujeito silencioso. aparente distinção o tivesse impressionado. mão. Tenha boas histórias. ela segura a minha taxista me deixou entrar. As mu- de agulhas. Recomponho-me. Aperta o comutador de luz. amava a ninguém. nem a nota de cinqüenta paus que escor. perigoso. os olhos faiscaram -. que estava sobre o ombro. É um minho. é inglês? Não. nem chupar pau. você está óculos. Os letreiros luminosos das casas noturnas. Romeu deve estar voltando a por acaso. à meia luz. cara? Fique quieti- vam expedientes conhecidos. Saímos cando-se a voltar de mãos abanando. cospe uns palavrões e pede a outro Lançou a cabeça para trás em êxtase. Ela pára diante de uma porta.em um lugar pior do que o meu -. o cafetão. barba por fazer. Deveria ser imigrante. Levei a mão ao bolso da calça. Dirige-se para os fundos com cara de vagabundo para o outro lado da cidade. É um ra- estar ilegal. trajeto fez uma única pergunta: o Sr. ovos fritos nos seus olhos. não parecia intimidado. apóia-se alaranjado da tarde. retirando do inte. estragados por ela. A heroína o torna ainda mais atraen- rego para ele é um milagre.. Todos apaixonados por ele. Aqui não é lar para idosos. Próximo a ponte. mangas de camisa. disse a Deve ser um garoto mimado. fazer? Quero que fique quieta. si. Imaginava a vida do motorista: um sujeito gordo. Saiu apressado. avermelhada. Qual é. com banheiro é estreito: cama. Entro em um dos inúmeros meu cinto. retirando meu estojo com meu jogo O inferninho lotado. É de graça? A minha voz antipática e atingindo a avenida principal e estendi a mão para um táxi. deiro e frigobar. A demência das ruas introduz na fechadura. Que homem elegante. ela diz. do estabelecimento. sobe uma escada. É um lindo rapaz. Tirei dele uma velha seringa lheres seminuas rebolando no poste sob a fraca iluminação com o êmbolo danificado. Por aqui. Queria ver o dinheiro. As primeiras estrelas estraladas como ao balcão e pede gim tônica. Preparou o pico e o injetou rapidamente. penteadeira. Por aqui. Vai se fuder. É um sujeito silencioso. Tocava country. o caralho! Quero um martini”. conservado. boa noite.. Eu tinha a grana. Encostei minhas mãos e meu rosto em suas ná- 31 . a mecha de cabelo negro caída na montados. o rosto abobalhado mirando o céu Uma bonequinha desvencilha-se de um grupo. Pode ser. na verdade. arris. Deitou-se na escadaria do edifício. Romeu gostaria de estar aqui comigo.. Olhei fundo na cara dele. Desafivelei Pago a corrida. Retiro de Ele pareceu satisfeito. indiquei o ca. emenda. Outra vez. perguntou se eu tinha umas seringas para emprestar. Romeu não cara. bonitos. prenden- rior do vestuário o estojo parecido com o meu. inutilizado. caso se animasse a contá-las. não levaria um sujeito Ela abre caminho na multidão. Durante todo o Ele é um moralista: não deve dar o cu. Está escuro. É violento com as suas garotas. embora minha um michê. me quebra um galho vez por outra. Pagariam seu peso em ouro para sodomizá-lo. em segundos ele não estaria mais ali. amarrando o do-o de volta à gravata. cabi- sas. ter cinco ou seis filhos e morar na parte pobre da paz bonito. Salto do carro. “Vovô é a frente. retira do sutiã a chave e a A noite vertiginosa sobre os prédios. Viados. Fala o te. ele. O bartender enrola a mão na toalha garrote ao braço. Meus amigos várias vezes o confundiram com cidade . Bem necessário. No balcão. sentando-se mais minha gravata o grampo e o espeto no impertinente. ajeitei os Está sozinho. para me servir. os michês e os drogados. o bartender Vai querer o quê vovô? Ele está com a mão espalmada sobre a fórmica. O quarto e os homens... rosno.. Pareço inglês? Ele trancou-se em si mesmo. nha. relho de rádio numa estação popular. Deite-se de bruços na cama. Saí da ruazinha. fechei o sobretudo : ventava frio. Talvez seja uma boa companhia. banqueta. bonitão? Para alguém de sua idade. Me paga uma bebida? O motorista me olhou de cara feia.. O num corredor de muitas portas. os meus olhos pequenos e maldosos percorrem o corpo da mulher. vendiam todo tipo de coi. Ela tirou a roupa depressa. negocia. disse. As mesas todas ocupadas.

Procurei a veia de uma das pernas. 32 . desço. Implorava. perto da janela da rua. este meu bichano. Quem. vovô? Não respondi. É um bichano esperto. não vejo Romeu. Ele salta para o meu colo. eu suspirava. tiro o chapéu. crítico literário e editor geral da flaubert. Outras cintadas. que será lançado no primeiro semestre de 2014 pela editora Oitava Rima. Retirei o estojo da calça. Recomecei com os meus dedos. Servi-me como a um rei. e em hipótese nenhuma interferisse no que iria acontecer. Agora ele deve estar tomando a sopi- nha da vovó. vai. Não era para mim. mama. Sento-me na poltrona. Romeu. Ela arfava. Romeu é tão vadio e inconstante feito o meu gato. minha querida? Pedi que estendes- se as mãos. É autor de Bordel de Bolso. Você gosta disso. faz mais. Prendi suas pernas. Improvisei uma venda. Vai vovô. Você é maluco.degas. Logo estaria tranqüila. Romeu. pago a corrida. Ela tentou abrir os olhos. Desço. Os meus dedos longos e ossudos correm os seus pêlos. Preparei um novo pico. Ela estranhou. A música alta não permitia a ninguém ouvi-la. preparei o pico e amarrei o garrote. disse com voz suave. o orgulhoso Romeu pagaria uma fortuna para açoitar a sua pele. Retiraram do bolso do sobretudo o rolo de fita silvertape. meu bem? Romeu? Sim. estico a mão para um táxi. Retirei-lhe a venda para ver seus olhos. né. Enfiei os dedos na buceta e no cu. nem as suas bonecas. MARIEL REIS é escritor. Vovô é o caralho! Ergui a correia no ar e desci com violência. Romeu. Subo as escadarias do meu prédio. Ela relutou. Romeu. rapaz. Olho para a escadaria. abri-o sobre a penteadeira. Atravesso todo o lugar novamente até a saída. não sou maluco. Fecho a porta. Romeu ele daria tudo para estar no meu lugar. Ela arqueou-se. abri meu zíper e disse Mama o vovô. Não. Não há nin- guém na rua. Mantenha os olhos fechados. perto da lareira. O motorista quer ver a cor do dinheiro. vovô? Amarrei seus braços à cabeceira da cama. Romeu. Corri a língua em toda a sua coluna. sem ele nada feito. A ronda noturna deve ter terminado mais cedo. Ela deve dormir ou sonhar com algum lugar maravilhoso. O que um senhor de idade faz em um lugar desses? Não é interessa. Meu gato roça em minhas pernas. verifico o forro. Na rua. Entro em casa. Dobrei as mangas do sobretudo. Minhas mãos foram mais rápidas. Meu bra- ço doía. Você gosta de um joguinho. Toca o carro. acendo um cigarro. chamo.

Parou para olhar as árvores. mas foi-se. insinuando descuido. típico de homens vê. Não me aproximei ou lhe Ia direto ao estabelecimento e como uma flecha encontrava falei que o acompanhava de longe. Vestia-se modestamente com jeans e sapa. Todos o diziam fechado. eu que ainda não tivesse dito em vida? mesmo não gostava do seu jeito de poucas palavras e mui- tos olhares com que organizava tudo em sua volta. eu dizia quando solicitado. eu havia escolhido cuidadosamente essa palavra para ele. ROBERTO DUTRA JR. Não reparou nas outras pessoas e artigos de caráter acadêmico e crítico publicados. sem perguntas. quase modestamente. Caminhava com a gravidade de um se repetindo. Cada 33 . Nada nele chamava a homem é sua continuidade nas ruas. mim o que garantia uma distância segura entre nós. Mas o que eu lhe diria. é um neurótico social como todo guia pelas calçadas – impulso agora irresistível – silencio. Há sempre um outro atenção. homem. Adora gatos e poemas. conta da tarde que só eu via avançar. Nunca havia gostado de longos passeios pelo centro da Tomando assim. Quase brincou com uma criança. e ele também numa fumaça pálida. a geração do outro. Talvez fosse o fato dele não ter me visto ou ainda minha sensação de segredo por observar tudo como faria um detetive dos filmes que assistíamos na madrugada da sala. Onde todos viam um homem estranho eu apenas o sabia reser- vado. desco- tos sem brilho. de soar como seu secretário. capítulo do primeiro. Adora literatura. algo intangível. bém uma presença. O costume atravessando a rua. O ritmo do passeio fez com que eu o entendesse por va- ros. Meu pai é um homem reservado com seus afaze- res pessoais. resolutos. essa distância que nos separava era tam- de terno. que fa. Percebi. mal-ajambrada depunha contra a sua atitude de sobriedade acumulada pelos anos de estudo. Era meu momento quando menino. A camisa para fora da calça e cuidadosamente nhecidos. Certas vezes tomava acadêmica. que pausas médias em seu curso. Nada mais fiz naquela tarde. Passava na frente dos car. ido entre si. ria depois de morto. a continuidade das ruas roberto dutra jr. eu assumia essas pausas para movem-se na penumbra e nunca revelam-se inteiramente. Havia nele um certo ar indizível. Alter- cidade ou dessa ou aquela conversa com o grupinho do bar nou-se entre lugares e cantos. quando falava assim. Acho que ele na verdade queria dizer aposentado de uma maneira sarcástica. Tenho certeza de tê-lo visto entrar de bar em bar por um cafézinho que fosse fresco. Adiantou-se sua silhueta dentre os demais? Misturou-se entre os passan. Vez ou outra parava como que surdo e murmurava algo imperceptível abaixo do bigode. Figura estranha. por vezes em certas portas e olhava tudo como quem nada tes e observava vitrines com certo desdém. To- das as vezes ele levantou o braço pra cumprimentar o dono ou o balconista. que eu o se. contribuiu para jornais e revistas literárias no Rio de Janeiro e tem um seríssimo flerte com a música. brasileiro de cidade grande. Cães latiam sem que ele se comovesse. alheios. Sorte ou destino. algo além do silêncio entre nós. H oje vi meu pai. como se olhasse tudo em volta pela primeira vez. Cedeu a vez. o que queria. tem um livro publicado e diversos so de meus pensamentos. vistas e becos até a tarde findar ou do trabalho. um eco na distância. mas as palavras não fazem mais sentido. percebia nele algo diferente. Andamos. Dizia que era coisa de desocupado. Hoje porém. Meu pai não. Sim. ter identificado gante. Mestre em Letras. A primeira vez que vi meu pai caminhando livre na cidade. Foi editor de revista parecia como que invisível para elas.

missas já fui? Deixa eu ver. brincando. Eu mais vir aqui. Deve ser difícil aceitar me ver dessa forma. É fácil arranjar outro para bém. nunca. primeiras comunhões. Daqui a pouco arruma outra casa. criada por mim em meus melho- passei para o nome da Stella. as bodas. Vai ver está chovendo. Todas juntas. remédios? Não. Na certa foram jantar fora. monte. Missa é elas também. Um ser que me tragam alguma coisa. mim? Mas ia ser engraçado se ele soubesse. me chamavam de Madrasta. não tenho nem mais vontade de ir à missa. Quantas vezes ele me im- 34 . de sétimo dia. Até eu. umas duas mil. aquelas feridas. Pra quê? Não vai mudar nada mesmo. logo hoje que ninguém apare. Umas 50 por ano. Pra quem já fez isso uma vez. assim tão severa. 500. É fácil para todo mundo. Dez mil. que eu prefiro nem lembrar Mas também a Stella estava sempre em casa com a comida porque me dá tantas náuseas. se bem que hoje em dia as mulheres nem se importam quando o marido vai Que sentimento ruim para uma católica como eu. para não dizer até cruel. embora. ainda bem. os batizados. Vão até gostar. Acho que foi ali que eu se cansa e vai embora. a estola a Cristiana já levou. não. as missas lembrar disso hoje. muito chato. Eu não tinha nenhum pecado. Acho Acho que nunca soube mesmo juntar todo mundo. Daqui a pouco o marido aqueles três meses mudaram tudo. Mas era mais forte que eu e eu não conseguia nem olhar pro Vicente. Um. Vou morrer e ainda vou deixar e deixou as sacolas. Quando o Vicente era vivo todo mundo era mais uni. A gente vai chegando ao fim os abortos. Sei comecei a perder a paciência. Foi bem dado. Ele tinha um jeito diferente de manter as do outro. Não em ter escondido. Nenhuma das meninas passou aqui é que já acumulei bastante. fora os casamentos. Eu sei ceu. Será que a Cristiana também pediu comida pelo telefone? E eu que pensei que não ia conseguir viver sem ele. Isso eu não confessei. pelos lençóis do meu casamento. O Vicente se foi e a medicina Acho que fiz bem. requentando o outra. porque não é todo mundo que engalfinhando por causa disso aqui. A senhora! Quantas penitências ele dos. Não me sinto mais na obrigação. Embora nos Se eu morrer vai ser até melhor. O telefone já dência. Mas não me culpo. preferiram pedir comida Claro que não vou contar isso pro padre. E ainda tinha que limpar Esse negócio de só pedir pelo telefone não vai ser bom. por que não poderia guardar esse segredinho só para O que eu sei é que vou ter que tomar os remédios sozinha.. Problema deles. Também. mas em ter feito não inventou nada que dê jeito. horrorizado. porque também perdi a paciência com do. Tantos anos e tudo continua igual. Mas Só chega tarde em casa. de uma hora para Marido não gosta de ficar sozinho em casa. se chatear. ninguém vai precisar últimos meses a Cristiana tenha sido impiedosa comigo. nem sei se vou tomar aquele monte de comprimi. uma sobra do pedido. Tam. não sou besta. e o Jorge arranjou outra. Nunca vi. Deve ser briga. Já pensou? Mais gente para brigar pela baixela de e tem que conviver com isso. se quisesse. troco para a Igreja. você não suporta ver a fraqueza Vicente. tempo demais simone magno N os últimos três meses antes da morte do Vicente. e depois ficar aí se sei que ela me ama e entendo. Engraçado eu me lá.. pelo telefone. Também arranjam outro. Nunca fiquei doente de novo. Até parece que eu vou ficar curada. Então pra que tomar tantos prata. Dona Tereza!. Mas ainda assim é capaz de ter res dias. Ou será que eu sempre fui assim e nunca percebi? prato no micro-ondas. Isso e mais um monte de coisas. muito chato. Homem é assim. Até parece que me daria? eu vou ficar boa. nem para o almoço. principalmente ela. Como o que o amor é assim mesmo. Eu sei. Uma vontade de sumir. coisas no lugar. Vai ver estão de carro. com salário no bolso. todas horrorosas. ninguém. deixa pra lá. Ou é o come- ço de mês e. A quantas tinha ido embora com o Renato. o Vicente nos dias em que ele mais precisou de mim. pela estola de raposa. ele ia dizer. para passear de mãos livres no shopping. Não é à toa que. não é possível que eu me tornasse vi marido que fica sozinho em casa esperando pela mulher. Pode Nem que quando mais jovem fiz um aborto. Já disse consegue conviver com uma pessoa nesse estado de depen- que a cristaleira é da minha neta Cristiana.

tinha valori- Na morte do Vicente. ficar esse negócio de perseguição consigo identificar os números. e eu sei até que vai ser um alívio pra ela. meu professor e sem querer caminhar pela casa. Se tivesse colo- cado o véu. Ainda bem que esse tempo já passou. mas ela é muito teimosa. pare- até que o Álvaro. além de desvendar um crime está à beira de virar mais capricho em tudo. de nunca foi bonita. Branca. aniversário devia ser só de vida. Também. Fico pensando onde será que ela vai se Meu pai não queria que eu me casasse com o Vicente. Às vezes nem eu mesma de gente tão esclarecida. Quanto tempo? Deixa ver. gosta de celebrar a morte. do dos tempos em que dava aula. so se disser que fulano é negro. Acho que ele se arrepen- bem preparada. ainda vá. do um homem bem mais velho do que eu. 35 . ela chegou horrorosa. Vai ver é por isso que só ele sabe o quanto é difícil me ensaboar e ficar de pé ao vem tanto estrangeiro pra cá. não. Preto. lando sozinha.. mas agora vai chegar o aniversá- O telefone tocou e precisei anotar um recado.. tudo parecido. com aquela pose de lorde inglês. quando dava aula para a minha nora. imagina. cansei de ouvir essas mesmas histórias umas anos da Stella. uma costureirinha como Quando minha sogra morreu. Como é que pode. Quando mais falar assim. Lá fora é capaz de no espelho na hora de escovar os dentes que me restam. É. celebração mesmo. ela se escondeu dentro da a Laís tentando fazer um vestido igual aos da Elza. O Renato mesmo. Imagine meu pai. na porta duzentas vezes e sempre do mesmo jeito. A Cristiana disse que assim é o certo a fisioterapeuta vem. porque aqui eles podem até mesmo tempo. não me esqueço nunca. Será que ainda está vivo? Renato. Aquela gente de lá é muito esquisita. chorava tanto e gagueja. deu um pouco dos absurdos que me disse quando o Vicente coitada. mas mundo se mistura com todo mundo. Se bem que acho que ela já está até Depois eles ficaram tão amigos. É capaz de ela correr para debaixo da cama. Foi um pouco depois dos 15 verdade só finjo. porque ela acha sempre que eu estou exagerando. além de ficar velha. esconder dessa vez. ela sumiu.plorou para largar tudo e sumir no mundo. Veio feito um louco. para ser mais certa. Coisa não estava em casa. que lá todo mundo é racista. naquela época professor não era como hoje. Acho que é porque deve ter gente que cente. Mas nesse filme. Todo hora do banho. Aqui no Brasil não tem esse negócio. que aqui é branco. inerte. Sem- pre digo que meu maior medo é de um deles chegar aqui Como teriam sido os meninos se eu tivesse me casado e me pegar caída no chão. todo também morta. Sempre escondida do mundo. serem presos ou levarem uma surra. ven- e fica uma fera quando eu passo o dia todo aqui vendo tevê. esconderia aquele trapo. Ele era lindo.. meu filho. Todo mundo preocupado. feio. Nossa. diante da televisão. bordado pela Elza. hoje em dia não se pode uma maluca andando pra lá e pra cá por essa sala. zado o vestido. Como ela gosta de ficar lembrando do O Renato. e não aquele arranjinho chinfrim. Deus me livre alguém ter que me lavar. tempo. feito fazia anos da Stella. o Sidney Poitier. No meu tempo havia coitado. colégio. lá se Acho que perdi o medo de morrer. Vê só se eu vou ficar feito ainda por cima preto. Rita. Ele adorava aquele filme. que tem me dado tanta atenção. passou perto e escutou ela fa. todo mundo ia procurá-la lá. preto casa com preto e branco Puxar as meias até as canelas é um sacrifício. Negro. porque se fosse ela própria tirava o 10. porque debaixo da cama já era conheci- do. já sabendo que ele havia partido e até hoje ninguém sabe onde ela se meteu. E toda vez que ela de casa. eu acho. Depois de um certo passou por negro. beline. já eram todos nascidos. Horas depois. Não sei o que acontece com a minha letra. ela te. Não estava no trabalho. como era o nome dela? Branca. prova oral e levou 8. tremido. nem me lembrava mais daquela histó.. a gente tem que ficar doente. para ela usar o véu da Stella. Eu ia fechando o portão quando ele apareceu para vem aqui conta de novo que a amiga dela foi substitui-la na buscar a filha. com certeza tudo isso já Poitier. Até a minha letra era melhor. Se bem que dizem com tudo dando errado? Mal consigo vestir minha blusa.. Dizem que vai até pre- pra ficar passeando comigo entre os móveis. Hoje é estatística. Meu mestre com carinho. Como se alguém não fosse de cor aqui nesse país. a gente se conheceu nos 15 Stella. aquele véu maravilhoso. E ainda por cima enfrentar esse rosto careca passear de mãos dadas com as mulatas. Será que se eu Sempre me lembro do Vicente quando vejo o Sidney tivesse ido ia estar assim hoje? Bom. só de coisas alegres. Ficamos horas atrás dela. nos Estados Unidos. Aquele vestido de zi- quando era pequena. Principalmente se for a com o Renato? Que besteira. O pior é na casa com branco. Meu pai dizia que o Vicente francamente! era de cor. ver. cansa ficar aqui esperando. Falei tanto va que a gente pensou que a Stella estava debaixo do carro. Nesse mês me lembro tanto dele. porque aí tem outra maluca mas eu li que lá fora nem assim pode.. não tem como não rir. nem existe mais caderno de caligrafia. mala de um carro. Coitada da Natália. Apesar de brigar veio se apresentar e dizer que gostaria de vir aqui para me comigo. Nem mesmo no bar o pobre pode ser atendido. a Natália quis um igual ao da mãe e a Laís foi fazer. Nunca como a do Vi. Amiguinha da Glória. Por que. mas sozinha. cia até daqueles que se compra pronto nessas lojas de noiva. com umas rendinhas baratas. aos negros. Me lembro todo mês. um lugar esse borrão envergonhado. O vestido ficou tão mirradinho. Esquisito isso de chamar aniversário de mor- meio torto. a bem da verdade. Ficou tudo rio de morte. Eu acho engraçado. acho que ficava lembran- estaria dividido há muito tempo. mas na ria. Na verdade.

Hoje. de sofrimen- Gostaria que meus três meses de vida tivessem dado conta to. nem que a ditar que a cura fosse realmente possível. ho- anos enganando os médicos. nada. Até eu. Afinal. não dá para fugir porque o mundo. Se fosse hoje era capaz até de ele apare. mas passava os dias sentado na poltrona olhan- de mim. fugir. Apesar de sa. A Stella é para minha científicas. de um jeito torto lutando para sobreviver. Eu queria tanto morrer muito velha. os planos de saúde. Acho que ele não me viu. me operei logo e fui para casa. em que fazíamos maratona de biriba. Alguma coisa bem feia que remédios em horários rigorosos e noites sem dormir. Não acredito que um dia ainda vá se curar isso com Mas depois que a Glória me mostrou o resultado do exa- um comprimido. que ela não tinha essa vontade toda de lutar. achava que ainda ia superar muitas fases. eu quis seriamente deixar tudo pra lá. não só por Também não pensei que um dia fosse ter mais netos e causa do juramento na Igreja. que eu não sabia mas ainda me restavam. estava internada e um dia os médicos nos disseram que não havia mais o que fazer. mas hoje eu acho cer na televisão. quando precisava ir ao supermercado para poder vomitar sem que ninguém de casa desconfiasse. Deus me deu o mesmo diagnóstico na minha filha. não morria nunca. eu nem tirava a cami- ciona o computador. e confesso que se ele vivesse a ir morar com ele em frente à praia como ele queria. Era uma ignorante. ver a Cristiana dando seus primeiros passinhos estava xá-lo sozinho. me e caímos juntas no chão da cozinha de tanto chorar. só aguardar um milagre. Mas e a Glória? Foi até aos Es. Sempre rio quando me lembro disso. sempre para um bando de nicas. em um desses finais de semana como é que a voz sai no rádio. mem não é tão discreto. comecei a acre- muito desinformada. ele fez a pé um percurso de mais de 60 quilômetros pela es- trada em uma gincana. coisas ainda não são possíveis. estava Posso dizer que apesar de tudo eu fui feliz. era capaz de derrubar uma pratelei- tados Unidos. Mas ela não durou gente queira. te de toda a família. No meu caso. Não podia dei- cova. Era assim que eu pensava naquela época. as farmácias. Dizem que é melhor quando o Vicente inventou uma daquelas comidas. e eu li outro bisneta o que eu pude ser para a Cristiana. na mi- ranjar um patrocinador para inventar outros feitos desse tipo. se multiplicando até plantando na roça para dar comida para as pessoas. é isso que eu vou ter que deixar pras minhas filhas. Eu quis dar minha vida pela da Glória. o governo. Além da baixela de prata e dos lençóis do meu casamento. porque fiquei tentando me esconder atrás de um saco acho até que conseguiram tirar algum lucro. Foi pior do que desmaiar na rua e passar pela vergonha dian. ainda se morre muito dessa forma. Estava distraída vacina. Mas quem vai entender essas mudar o mundo. saiu até no jornal. células? Elas ficam feito umas doidas. ninguém acredi. coisa que sobrava para eu fazer. Com uma gente. a tecnologia entram na casa da gente. Por isso tudo acho impossível que não sola e já começava a jogar com o café ainda sobre a mesa. de dor. Vivemos tantas dia que a maioria das mulheres de meia idade vai embo. porque todo mundo ganha dinheiro: os médicos. era de se es- mesmo o trabalho. quando ainda era uma quarentona gostosa. podia ainda se casar nova- mente. Eu fico me perguntando se elas já não estão se multi- creditável. netas e bisnetas. Mas a Luiza passou todo o fim de semana arranjando um 36 . Porque quando fui internada. Não posso reclamar. ou melhor. coisas. Foram os piores vel e ouvir há 30 anos que eu tinha três meses de vida pela dias e noites da minha vida. alguma assim. mas isso nos anos 40 tinha cara plicando assim desde que a gente nasce. de angústia. Meu pai mudou o mundo lá do jeito dele. Acho que o que fez meu pai ter respeito pelo Vicente foi tava. e dar a ela os muitos anos Depois de tanto evitar. Ele já tinha mais de 50 anos. Antigamente eu mal sabia ligar e desligar a vitrola. já pensou? Vacina em posto de saúde é de graça. após tantos anos vivendo feito uma cri- minosa. coitada. em três meses eu resolvi mesmo tudo o que do o vazio e as noites em claro. exames. prevenir com uma vacina. aceito tudo e até já vi como fun. o teto. O caráter de uma pessoa que trabalha pra perar que ainda me enterrasse. são 30 de pão e com cara de pavor. Eu queria morrer e a Luiza não entendeu O duro é gastar tanto dinheiro pra nada. Uma vez nos exaurir. mas porque havíamos vivido bisnetos. com a Luiza num canto da delicatessen quando vi o Renato na minha frente. as novidades. Para quem estava com o pé na tantas coisas maravilhosas que era meu dever. foram seis meses de consultas. nha ignorância. Seria desprezar toda a nossa vida. quem sabe arranjar uma mocinha que se dispusesse Eu fiquei muito cansada. Deus não só não ber que algum louco um dia disse que no ano 2000 ninguém me privou de ajudar a criar a Cristiana como hoje sei que ela mais morreria de doença. as clí. ra. ele não reclamava de nada. Contrariando todas as previsões entende a avó de uma forma diferente. eu era mesmo depois ela acordou querendo fazer as unhas. Naquela época. encontrem a cura para tanta doença. O Vicente durou seis meses. frente. Depois de tantos anos juntos. foi ina. de coisa de maluco. deitado na cama mirando havia para ser feito naquela época. porque a gente vive faz com que as coisas se repitam dessa forma. ra com a minha doença. Uma mais 15 dias eu teria ido embora com ele. Um homem que não ficava nem gripado. Se eu pudesse. A Glória. e eu acabei indo junto às compras. mas essas Com o Vicente. afinal. era minha obrigação ficar acordada. de medo. suficiente. Quando a Glória que não tivesse sido obrigada a se mutilar por teimosia. e três dias Não vou me culpar não. esconder essa doença horrí. Mas não precisava ser hereditária. viver meus “últimos” meses. O Vicente era novo. Eu não podia virar pra lá e dormir. mais do que dois meses. dar entrevista em programa de auditório e ar. Mesmo não entendendo bem Nós estávamos na serra.

me mudado a Glória teria se livrado de uma boa bisca. todo sorridente. Tudo teria sido diferente. a Luiza. Mas por que é assim.. a Luiza e o Angelo. como alegoria de esco- os natais eram mais divertidos e bonitos. quando arranjam amante. Aquela foi uma boa época. vida. cos que se casam fazem festa só para os mais íntimos. vendo tudo o que se passa. Não acredi. Parece que eu nunca mais fiquei livre na minha cheio de produtos importados. talvez ela Jorge começaram a flertar. Hoje aqueles almoços de sábado fazem parte de um pas. É. Isso é dever do homem. Se eu tivesse contado do com uma mãe toda rancorosa. têm namorada. já o viram até no supermercado.. mas hoje em dia não tem mais isso.. Fazia tudo sozi. o carrinho Livre. com a mesa que eu la de samba. Pena que eu não todo engessado e ficava o dia inteiro vendo televisão. coitada. chorando por ter sido abandonada pelo marido. Tinha uma varan- retrógrada. na sua cidade. Sem ela. Hoje nem os maridos. Eu não. e se tiver mesmo vida após a morte é bem capaz de fazem faculdade. quando estavam na praia naquela época.. o Jorge e a Stella eram noivos. A Cristiana diz que eu sou muito la época vivíamos com mais dificuldades. ninguém respeita o outro. raros os casamentos que viram reencontros. Não existia o videogame mais das pessoas que amavam. faz tudo sozinha. mas nunca tive coragem. lho. mulher se casa sem rávamos quando a Stella conheceu o Jorge e a Glória conhe- saber fritar ovo. Hoje boa. ele não teria tanta cara-de-pau. eu. que o corpo vai e a gente já vai ficar quebrar toda de carro e não ter uma radiografia. Se fosse antigamente. na esquina da rua. sempre fotografava. fica todo passarem com os carros por cima. sempre fez compras sozinha. Todas as pessoas. não acredito nem um pouco ele nunca mostrou a radiografia? Nunca vi uma pessoa se nessa coisa de filme. aposto. são tomando até cerveja. chegou em casa contro deve ser no meu enterro mesmo. fizemos festas na rua. Até Cristo Redentor numa base giratória. as pessoas colo- quem sabe. a gente tem um deslize e tem que A Luiza. Também depois que o Vicente morreu eu pam em preservar a família. Por que vou poder ver toda essa gente. é esse negócio de mundo globalizado. Talvez a Cristiana fosse parado dentro do carro. fuçando na internet. tenho tanta saudade da casa em que mo- o lençol da própria cama. um comércio bom. Até hoje não entendi o dia em que ele casamentos. Não só por ser uma casa. Vive sozi- pagar até o fim dos dias? Não consegui nunca esquecer essa nha. hoje os motoris- de tudo o que precisávamos. o Vicente. de casa. Os vizinhos só vai voltar o dia em que vamos dar mais valor ao nosso lugar. Pegou o marido no flagra com a outra ombros. no seu país. fora o perigo de ser assal- mundo pra lá e pra cá. entender. já história. jogar tanto. A Glória acreditou. réveillon. Eu nunca quis estávamos sempre juntos. Bem menor do que esse apartamento. e eu estava livre. cada um em seu bairro. porque assim ficávamos os quatro juntos. Naque- Nunca quis sair daqui. eu. as pessoas só se dele. Se a bandalha começa dentro cansei. Isso não acontece mais. claro. o Angelo. os vizinhos eram muito tem que viajar pra conhecer o mundo.. Também quem mandou isso pra alguém talvez me tirasse um pouco esse peso dos aceitar essa situação. para aplacar essa sede de apertar botões. Hoje em dia.. só mesmo a Glória para engolir tanta veem nos enterros. porque hoje Grande coisa aquele João.. ceu o João. e ele nunca se interessou. quando a Glória também queria ficar rua brincando. muito mais do que por mim. como é que vão querer que as pessoas joguem papel nha. Hoje tem até shopping. porque nem os filhos ela tem mais. passeando por aí com a outra. têm cachorros assassinos. Fico imaginando hoje. Antigamente ainda se encontravam nos desculpa esfarrapada. 37 . Fizemos tantos amigos por lá. sempre cínico. sujam o corredor. se eu tivesse ido morar na dinha. mas como hoje todo mundo se junta. nunca fui mesmo com a cara em dia ninguém mais liga pra ninguém. a Natália não teria nascido. tudo tas vão reclamar porque a rua está fechada. quem vai arrumar a mesa? A Cristiana não sabe nem esticar Apesar de tudo. e não fez nada. O próximo en- tei nem quando ele disse que se acidentou. Besteira. Aqui sempre teve festa só para os moradores como fazíamos. de onde eu vigiava as meninas. Também ela não teria conhecido de pular muros. empurrando carrinho pra amante. o safado do Angelo fica Vicente. gente com quem até hoje mantemos contato. mas ela era Acreditou quando ele disse que ela era uma colega de traba- tão apaixonada pelo Vicente. festa Ela dizia que aqui não tinha nada para se fazer e lá tinha junina. Foi nessa varanda também que a Stella e o mais perto das amigas. seria tudo muito mu- dado. se preocu- sado distante. Eu ainda acredito que amigos.jeito de estar sozinha comigo e me espremer. Daí as pessoas vão se cam o som alto. Tínhamos amigos de verdade. vive pros filhos. todas as coisas têm o seu lado escu- ro. e pagando a conta. é impossível fazer o calçadão. querem brigar. Não sou empregada de ninguém. Quando a gente veio morar aqui também teve uma fase cada um vivia no seu bairro. ela largou tudo por um grande amor. o João.. não vão querer ficar sain- o Renato me atormentar lá também. é bem capaz de tão diferente. O Álvaro nunca fez questão de manter a tradição do na lata de lixo da rua? Já ouvi dizer até que vão colocar o pai. Ela era uma menina que gostava ainda estivesse aqui hoje. acho que não ia me perdoar nunca. e os pou- chegou de ambulância e cinco minutos depois estava ótimo. Quando eu vim para cá a única confusão que tinha eram No meu tempo todo mundo pensava pequeno e cuidava as crianças brincando no elevador. conscientizar mais de suas vidas. o Hoje a Luiza. Antigamente tado. os arranjos feitos pela Glória. Se eu tivesse flutuando. Até hoje é modo de dizer. Me lembro como se estivesse nela.

vem outra junto. Quando eu era pequena. Uma esperança. na festa que fizemos para inaugurar a piscina e que tinha quase 150 pessoas. brasileira. medo de o Vicente ficar sozinho. eu na cozinha estressada com aquela pa- nela entulhada de caranguejos. mas bem que eu tocava direitinho. O Vicente não ligava. ele até cochilava. tem grandes ensinamentos. no lugar onde eu vivi tantos anos com o meu marido. Eu deveria ter feito Educação Física. Quem sabe o Álvaro menina que não gostava de meias (Oficina Raquel). medo dele. o Jorge vestido de noiva para a festa junina. Essa é mais uma invenção moderna. não vão deixar nem os copos de geleia. como seria. Não. Adorava nadar. quando nos mudamos para cá. Esqueci. medo de pegar aquele avião e não chegar. Não essas que parecem estar sendo inventadas na hora. Será que a Stella vai se lembrar de dar uma pinturinha antes de pôr o anúncio no jornal? Tem aquela marca horrorosa no teto. Acho que eles vão levar tudo mesmo. 101 histórias. Eu era nadadora quando adolescente. A última vez que eu o vi vazio. Mas por que eu fui ouvir as ideias da minha mãe? Mãe é muito bom. se eu trabalhasse. do aniversário do Álvaro. Muito medo do avião. e um infantil. medo da Stella debaixo da cama. Mas eu tinha tanto medo. Fico imaginando se fosse hoje. Depois passamos por aquela fase difícil em que quase per- demos esse apartamento. É sempre assim. Foi logo depois da minha interna- ção. Quem será que vai comprar esse apartamento? Quem vai morar aqui.. Tenho saudades do Renato. Isso eu não gosto nem de imaginar. Avelã pirata (KBR). seria muito esquisito rever tudo com outro homem. Eu ia ter que entregar tudo e ir morar com a Stella. Alguém disse que a estatística é voos que chegam e voos que não chegam e eu concordo. A pensar nisso agora. com a minha família? Onde eu vi meus netos nasce- rem. quando ele estourou o champanhe e o líquido se espalhou com tanta força. e Antologia da nova poesia chega para o jantar. Música tira aquela dureza que a vida põe no nosso coração. mas a gente não tem que seguir tudo que ela pensa. não tinha esse papel de parede. Integra as antologias Brasil-Haiti. Sinto saudades dos almoços que fazía- mos. Ter as SIMONE MAGNO é autora de um livro de contos. outro de poesia. A lua depois mesmas lembranças com dois homens diferentes? Não quero do gravador (Grua). o Vicente nem se incomodaria se eu continuasse a estudar. medo da Glória com o João. a casa cheia.. É comentarista de livros na rádio CBN. meus bisnetos? Isso aqui vazio vai ficar tão esquisito. medo da minha mãe. adorava. tocava piano. Sinto saudades da música. quando acontece uma desgraça. não existem mais amigos como naquela época para ajudar. Estou tão cansada. Depois de ter vivido tantos bons momentos naquela cidade com o Vicente. Eu ia fazer tanta gente sofrer que acho que eu não mere- ceria chegar a lugar nenhum com o Renato. do que poderia ter acontecido se eu tivesse ido embora com ele. Eu devia ouvir mais música. mas naquela época ninguém dizia que era adolescente. isso foi na serra. 38 . Só quero descansar. mas depois que casei nunca mais tive vontade. Tem tanta coisa bonita e a gente nem se dá conta.

comadre. olhar de lado. corre atrás do que quer ou pensa querer. a senhora pensa errado um tanto que. nossa que nos achem tontas. Por isso o frágil atrás do fútil. isso há. vezes for preciso: não existe amor sem interesse. proibido. ainda assim. é interesse. o melhor. muito depois do adeus. interesseiro-mor que passou por e vai ver sou mesmo. mas esse já é outro caso. amante dos mais adoráveis. ainda mora nos homens. se a dá mais gana. quer espírito que enxergue mais longe? de dizer não. de espírito? Pode quero o melhor dele. Mas o interesse não fica lá muito atrás. quência de perdas e um que outro dano. E nós a eles. dê cá. com a macheza ao vento. este mundo: “Amar o outro como a si mesmo. Por ora. repito quantas Eu? Ah. ou nossa – não sei quem começou riam corrompido o destino. se. Quero o que sobrevive. mas culpa Irmão? Irmão se descarta de cara: é paixão recolhida. acaba dobrando a esquina e topando quiser. Mande outro amor. mesmo. –. va de virilidade. a amizade. sim. Cada um digo que sejam todos. Diga o que mais dia menos dia. Com filhos? Irmãos. ao menos. Está certo que se abre em leque. do puro: Bom-caratismo é sinal de inteligência. Medo de topar com um amante inó. então! Mania deles. 39 . quando a paixão se esvai. conversa para depois. comadre. Resolvessem para quê? Imprime respeito? Que eu saiba. Imaculadas? do se esquiva a virar vida ou. Isto.. Mas há pai que exibe filho como pro. essência. putinha de novela. ora! que ela não fez nem mal. Tem coisa que vira morte quan. cuo. que daqui não me arredo. não fossem lá minhas manhas. É tome lá. com o certo. Falo Meu interesse. Bonde de um desejo que passa sem aviso. essência. mento de si mesma. Riqueza. não adianta virar o rosto. a senhora dirá que. Por isso tem mais gosto. com todos. Quem gosta de roupa e perfume é Amor de amigo? Este se complica em quintessências mocinha de romance.] YARA CAMILLO C omadre. Mas. aqui. Sei. teza. com o genuíno interesse… E não te. Eu quero dos homens. dos que tive e ainda terei. Eu quero mais. Não sei por que escondemos amor. como se fosse eu o entreposto. coitado dele que terá de fazer. o mais puro. Veja Abel e Caim. aquiescência [Vem. E a boni- o caso lá entre os dois. que eu rebato. fossem outros os tempos e andariam todos eles por aí. mas sei de Dois errados somam um certo? muita mãe que ama o filho como a um rabicho. Já dizia um de estrada e por minhas mãos. sempre há. Paixão que não chega a um termo. também? Mas. deles que passam por este bar de beira bem ser. Pai? É qualidade outra de oportunista. bem.” Quer esperte- cordar calada. e os amigos ali. balançando. isso de sermos lindas como a mãe de Deus. Quero a essência que homem algum jamais daria. comadre. Quero o que se mantém. porque a senhora não tem coragem za mais ancha. deixando escapar as linhas. o Pensa que não tenho meu interesse.. em suas roupagens várias? O quê? Amor de mãe com filho? Pois quer mostra de in- teresse maior? Não digo que sejam todas e todos. o primeiro. tar… Mas seria mesmo pior? Essa fantasia aí do fútil serve não vira tragédia? Não sei. relutando no ponto. errado? Trabalho demais que eles dão. prolonga. amigos? Contudo. dis. nem a mim nem a ninguém. aí sim que os homens acabam de nos mon- não tenha sonhado esse amor… Melhor sonhar. interesse há. veja. nada. e também aí não Não se ama sem querência de nada em retorno. em se. a mais genuína. no lugar do amigo mais caro. pecado. Não há irmão nem irmã nesse mundo que gente se mostra. senão mácula que nos há de livrar das torpezas desta vida! uma chaga de prazer e culpa? Mas. Quer coisa Mas se tudo o que fazemos com eles e por eles é pela santa mais viva do que pecado? Quer o que mais queime. Pensa que eu condeno o interesse? Pensa que julgo os interesses todos. Quem gosta de banquete e cinema é mil.

nem me sa. cafuzo de cabelos cor de assum parece guerra. como o pai. este é o pai dos teus filhos!” nome de anjo abreviado: Os idiotas contam isso aqui no bar e morrem de rir. que têm sempre uma mulher direita à espera ta. com aquele dentro. um chaveiro que seja. daqueles com sardas de ferrugem e olhos de me aborreço com seus cuidados. que eu gostei do jeito dele. Guardo dos homens. Mas. quando pedi que amanheces- não é? Quase quarenta anos nas costas e sem juízo. ao seu dispor. Eu não quero saber. tem Porque a senhora sabe. coitados. de um homem. com dar da vida dos outros.. Que nada. meus filhos. me disse ele. que alma não te presentes. tenho nada Calu que o pai dela cantava no violão. o mel de cada ho- cada um mais lindo e diferente: louro de olhos gateados. pega o revólver.. não sabem Bié se perdeu e se achou nos meus braços. que doçura desse tipo muito barato cus- nunca meus. Que seja. Ali estão os filhos que me deixaram: uma escadinha. vai lá saber o que fazer dos homens que também foram um pouco meus. vi. dizer que ia me contar um segredo… Adivi- penso é torto. só visagem. por que não evitou? Como vai ser agora. não sou. mas foi presente fugaz. me falta um assim. tanto que eu mal via as la anedota. outro filho? — me diz a senhora. mem que por mim passou. Heresia? Não. olhos cor-de-promes. Por isso. que não são agradar. — Que gastu- tal cidade. pega-a-crescer-até-o- eu não mate este desgraçado!” E a mulher: “Pelo amor de nascer. (E eles. das suas penas? co filhos. caindo de bêbado. nhe qual? Que tinha conversado uma noite quase inteira. de bobo. por aqui. quem sabe. mal nasceu. quem sabe. quando depois do amor em mim se enroscavam e dormiam até o amanhecer. quando tudo envelhece. — De gente. — Bié — me disse ele. quando meu homem da vez se vai. reter entre os dedos uma beleza. Penso em minha coleção de meninos. cada um só vê o que quer. encontra a meninas. Vivo. meio patetas e se ver essa verdade. só por pro- vocar. Tomara tenham feito mesmo bom mim… E a caçula. Lá pelas tantas. essência pura de cada um —Você nem sabe onde pôr os pés. e mesmo assim me deixou o filho. gosto de pensar que ele cada um. Sou besta? Sonsa? Aceito o que for. não traz uma canequinha. que e olhos da cor do canavial onde o pai dele se possuiu em de mim se aproveitaram. Eles. uma hora em que viram um só. Mal dou conta da minha. já partiu. nem lamento. Foi uma farra. Eu não rezo regras a ninguém. quando tudo se muito bons. Vejo que o que lhe basta. E tampouco falta um ruivo. Nem respondo mais. imagine só! Para mim não há graça maior do que ganhar. O que a gente o pai. alguns com o dedo na boca. porque o pai deste tem cabelo duro. E todo anjo é meio bobo. um só motivo para que deste ventre que agora pega a estufar. por morar neste desvio da estrada?). olhos que quero meus no filho que me virá cia e ele berra: “Me dê um motivo. com a Mãe de Deus. com a graça de Deus.. seu ouro. cada um mais lindo... pobre. o botim desta vida que às vezes moreno de olhos ciganos. Gostei do jeito meio bobo dele. ela implora por clemên.. se comigo. comadre. a melhor parte). dura ainda e uns olhos cor de breu. de menino que viveu só uma semana. sabe. Minhas crianças. não existe. desfrutar dessa hora. que mais me ri eu. neste mundo de cegos. viagem de alma. com esse bando para guardar um pouco. senão jun. terão filhos de outros homens? — Mas isso é lá nome de gente? — perguntei. Adianta explicar o quê? quando meus homens se vão. tando o que há de mais caro. esquilo. comadre? O marido entra em casa. que passou uma noite só.. Não que eu não acei. colhi o que buscava. o mais recente dos namorados meus. Por isso a senhora me acha sem juízo. Parecia um passarinho. Ria. tem Deus. Mas. veio ele me rezar se pôr mais um desgraçadinho neste mundo. senão entre as cobertas. Primeira coisa que pensam: o perigo de quando pensei que a graça tinha acabado. que jamais serão esse coitado. voou quando era ainda madrugada. de cada do. Não tenho a generosidade de cui. Isso é pouco? Cada um procura levei dos homens por onde andei e me andaram. Fui. e decerto não será o que trago aqui (sou torta. Ou o que acredita.. de Natal. minha gente. Pois tudo que é uma ladainha. de meninos e a vida tão difícil? uma paisagem. canto nenhum. naquela noite em que A senhora. Sei que é de co- 40 . mostra. meninos e homens chega homem que fica bem. Quando acaba a viagem. — Meu nome sam. Esse um. achando. lembrei-me de você”? Isso para não esquecer. desde o começo. Não há lugar melhor para não é não? Tem parentesco lá com os santos. E olhe que esse ouro não é coisa que eles voou atrás do pai. “estive em — Mas. homem-lugar que visito. Não há jeito de uma vida ficar menos pobre. mas manso. é um jeito meio tonto. Ruivinho que. de me possam dar a outra (esta. minhas canequinhas e chaveiros que felicito. comadre. inquieto. pretas no preto daqueles olhos que ele bem pode mulher com outro. Pen. ra. essa meninazinha de olhos como os da proveito e lambido os beiços!) De minha parte. mas não falta àquele bobo e não faltará a esse bobinho que vou geran- abro mão da minha mais-valia de cada namoro. olho em volta e não me sinto pobre. e outras amigas que tenho por aí. deixar comigo. cabeça mais bando de meninos que às vezes nem deles são! Lembra aque. não! De anjo! Gabriel. sua grandeza: um filho. da vida de asa e tudo. Pois quando a gente vai passear. um pou. comadre. que nunca é Bié. não pousava em não crê. É. comadre. alma de bicho-carpinteiro. me iludir. a reclamar. uma luz que se foi.

Formada em Cinema. Apos- to que Deus lê certo nas linhas tortas da gente. Eu não acredito. em 1957. Tem trabalhos para teatro. Deus não pode deixar de ver uma coisa dessas. YARA CAMILLO nasceu em São Paulo. coordenação de oficinas de teatro e oficinas literárias. Para isso ele é Deus. traduções. um desejo. Para isso existe: para não largar a gente à míngua. é autora de Volições (Massao Ohno Editor. Dizem que o caminho do inferno lotou de bem-intencionados. Para mim. chega a ter mais valia que a ação. Sei que é limpa a intenção.ração. um querer. 2007) e Hiatos (RG-Editores. Amém. Vá com Deus a senhora também. além de participação em sites literários e vários contos premiados. para nos ler e querer bem. o motivo de um voto. 2004). 41 .

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SOTNOC ED ATSIVER .

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