CAPÍTULO 5

Os rostos da emigração: aproximação à violência na análise cinésica de alguns gestos de
migrantes galegos

Aitor Rivas

A motivação deste artigo surgiu da constatação de que um quinto da população galega vive
fora das nossas fronteiras, sendo que a maior parte dessas pessoas não emigrou por vontade própria.
Além disso, as pessoas migrantes sofreram violência antes, durante e depois da viagem que lhes
mudou a vida. (PUGA, 1988)
Nesse estudo, pretendemos analisar quais foram os principais motivos e consequências da
emigração galega desde o século XIX por meio de dados quantitativos sobre o número de pessoas
forçadas a emigrar. Estes dados são bem determinantes, porém, achamos que a análise não seria
completa se não tentássemos conhecer como eram as sensações dos emigrantes, quais os seus
medos e o que sentiam ao se mudarem para outros países. Mas, onde é possível observar isso? Com
esse intuito analisaremos os rostos de algumas pessoas migrantes por intermédio do testemunho de
três fotografias (que formaram parte de muitas exposições em museus do mundo inteiro) 1, sob uma
perspectiva completa da comunicação não verbal proposta por Birdwhistell (1970) e da tripla
estrutura básica da comunicação apresentada por Poyatos (1994a; 1994b), a qual já aplicamos na
análise do relato de um narrador oral (RIVAS, 2015).
Em primeiro lugar, iremos esclarecer o que entendemos por migração, emigração e
imigração. A migração é o movimento de entrada ou saída de indivíduos em países diferentes ou
dentro de um mesmo país. Normalmente, fala-se de imigração para denominar a entrada de
estrangeiros em um país, seja temporariamente ou permanentemente. Já a emigração, para a saída
espontânea de um território (provisória ou definitivamente).
Lembramos que as causas da emigração são sempre plurais e múltiplas, mas achamos que
existem três mais importantes e presentes em todos os fenômenos migratórios:
1. A pobreza: o desemprego e a falta de perspectiva de crescimento em certa região sempre
foi uma das principais causas da migração dos povos. Isso aconteceu, por exemplo, com a migração
nordestina no Brasil; com os imigrantes mexicanos nos Estados Unidos; com a migração galega dos
últimos duzentos anos.

1
Para maiores informações vide o Catálogo da Exposição “Os Adeuses / fotografías de Alberto Martí”, (disponível em
<http://consellodacultura.gal/mediateca/extras/CCG_2010_Os-adeuses-Fotografias-de-Alberto-Marti.pdf>) e o de
“Memoria gráfica de la emigración española” de Manuel Ferrol (<http://www.red-redial.net/doc_adj/5176-catalogobaja-
1.pdf>).

1

o peso da existência de uma tradição migratória anterior. (CASTELAO. canto debe saber un bo camiñante. sistema de herança desigual. sociais. A violência das guerras e conflitos bélicos e. os homens que emigravam para não irem à guerra na Galícia. baixos níveis salariais e uma taxa de desemprego muito alta. 450-451)2 2 “Os galegos sabemos conseguir os papéis e pedir uma passagem de terceira. Logo. quanto deve saber um bom caminhante. 1944. sabemos abrir fronteiras fechadas e pedir trabalho em todas as línguas. como disse Castelao. mas é muito comum que os homens e mulheres que emigravam tivessem um nível de estudos baixo ou nenhuma formação cultural. além disso. no Sempre en Galiza: Os galegos sabemos arranxar os papeis e pedir un pasaxe de terceira. aínda que o viaxe sexa o primeiro da nosa vida. 3. 2. No século XIX a população europeia quase duplicou. podemos questionar: por que decidiram emigrar? Algumas características próprias da migração galega são: elevado crescimento da população nas décadas anteriores. p. sabemos abrir fronteiras pechadas e pedir traballo en tódalas língoas. 2004). Não é exclusivo das pessoas migrantes. o que provocou o desemprego e deterioração das condições de vida. os conflitos no Oriente Médio. enfim. sabemos agacharnos nas bodegas dun trasatlántico cando non temos diñeiro. a violência esteve sempre presente nas grandes migrações históricas: os judeus fugindo da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. agricultura atrasada. en fin. sabemos pegar a estrada com um fardo nas costas ou empurrando a roda de amolar. A violência: o grau de violência sofrida por uma pessoa ou por uma comunidade. Muitos desses galegos e galegas foram obrigados a emigrarem por estas causas e também devido a outras motivações políticas. Milhares de pessoas saem de suas regiões para procurarem uma melhor situação econômica. sabemos. o pobre desenvolvimento urbano e industrial da Galícia. seja por outros motivos. sabemos pillar estradas cun fatelo ao lombo ou empurrando a roda de amolar.” (tradução do autor) 2 . embora a viagem seja a primeira em nossa vida. Na Galícia essas condições foram acentuadas pelos restos do sistema feudal e por uma modernização serôdia (VILLARES. predominância de pequenos agricultores. sabemos. A saída natural (e provavelmente a única saída) para milhões de pessoas foi a emigração. fazendo com que aumentasse a emigração. religiosos ou políticos. que provoca a migração das pessoas mais desfavorecidas. ideológicas e econômicas. A violência é uma das causas (e também uma consequência) mais comuns que “obrigam” a migrar. sacrificando-se e permitindo que seus filhos possam estudar no futuro. sabemos agachar-nos nas adegas de um transatlântico quando não temos dinheiro. O baixo nível de estudos das pessoas migrantes. a violência cometida contra as mulheres. Seja por motivos étnicos. o pai do nacionalismo galego.

anteriormente. Muitos galegos experimentaram. na Argentina.. a capital arxentina albergaba uns 150. 2002) Com intuito de melhor apresentar esse contexto.. (SOLLA. alguma modalidade de emigração peninsular. (PARES. galegos). como. este tipo de emigração reunia atividades agrícolas e do setor secundário. podemos citar que no ano 1912 saíram da Galiza 203.) sendo xa entón (. Antes de cruzarem o Atlântico. e servia para as famílias camponesas como forma de complementar a renda da economia familiar de subsistência galega.. a segunda cidade galega (atendendo à origem galega da sua população) é Buenos Aires. Como comenta Ruy Farías (2015.. Essa circulação de homens dentro da Península foi.) también llegamos con el decidido 3 .) Y todos resueltamente decididos a quedarse por toda la eternidad. 37) sobre a emigração galega na Argentina: “a presenza dos fillos de Galicia foi superlativa: en torno a 1. Este é um exemplo de como era a percepção de um galego que acabava de chegar na Argentina: Cuando llegamos la colonia de paisanos era muy grande. a possibilidade de equilibrar a economia de muitas famílias camponesas. Muitos galegos e galegas que levavam mais tempo lá acolheram e ajudaram os outros que acabavam de chegar. Segundo Villares (2004). Brasil e Argentina foram os países com mais migração galega... (.1 millón deles arribaron entre 1857 e 1960. a partir da segunda metade do século XIX. seguindo de 1913 com 165. por exemplo.465. o deslocamento dos ceifeiros em Castela e Andaluzia e a emigração estacional de trabalhadores a outros pontos da Península..) Nosotros (. com o século XX. México. no qual depositavam suas esperanças e as de toda a família. 2015) De fato. onde a imigração da Galiza foi tão maciça que todos os espanhóis são agora conhecidos como gallegos (em espanhol..010 e 1920 com 163. Ninguno de ellos hablaba del retorno. (SÁNCHEZ ALONSO. (.542 emigrantes. Começou assim. A emigração galega para o exterior conta com um precedente tradicional: as migrações de curta e média distância ou os chamados deslocamentos intrapeninsulares.) a maior urbe galaica do planeta” e por isso foi considerada sempre como território galego. O fato de que até 1910 não existam estatísticas fiáveis fez com que todas estas cifras tivessem alguma imprecisão. milhares de galegos e galegas se arriscaram a sair das suas casas.. Venezuela. pois nenhum autor conseguiu determinar a quantia das pessoas que emigraram clandestinamente.. os galegos tinham nas cidades portuguesas e castelhanas o seu destino preferencial. (.) Á altura de 1910.. p. (VILLARES. 1997). É especialmente notável a quantidade de pessoas que escolheram a América como destino nestes anos. o que se conheceu como a emigração maciça. durante séculos.000 galegos (.. Muitas cidades do novo mundo passaram a formar parte da nossa geografia familiar: Cuba. atravessando o oceano para enfrentar um mundo desconhecido. 2004) Devido a todos estes fatores.

com o seu fechamento de fronteiras. Más cuando nos relacionábamos y descubríamos las ventajas que nos proporcionaba Argentina. Em segundo lugar. durando até 1970. Estávamos muito animados por podermos ter uma casa aqui. 159-160)3 Porém. 1988. muitos deles por motivos políticos. ficando para sempre. Incluso vivir en una ciudad de la jerarquía de Buenos Aires. (SÁNCHEZ ALONSO. e as péssimas consequências que sofreram os sobreviventes. (. a crise econômica de 1929 que deixou muitos países americanos em uma situação precária. imersos na industrialização posterior à reconstrução pós-conflito (como a Suíça. Nenhum deles falava sobre o retorno.) também chegou com a firme intenção de imitar aqueles que estavam lá. com a fim da Segunda Guerra Mundial e a abertura de fronteiras.437 galegos. Depois de 1945. e desfrutar de muitos outros benefícios. que fazia mais difícil a travessia do Atlântico. A Galícia é a comunidade que apresenta uma maior percentagem de mulheres entre as pessoas migrantes. y disfrutar de muchos otros beneficios. Em primeiro lugar.. esta migração europeia ficou muito mais “familiar”... as migrações interiores e transatlânticas foram amplamente superadas pelas facilidades oferecidas por países da Europa ocidental. a guerra civil espanhola (1936-1939). (.. neste período só se contabilizam 62. nomeadamente a partir de 1960. E mais quando nos relacionávamos e descobríamos os benefícios que oferecia a Argentina. interrompendo este êxodo. começou um novo período migratório maciço. a partir de 1930 registrou-se uma forte crise migratória que durou até 1946/47.. educar as crianças sem nos separar delas. Nada mais longe da realidade aconteceu com os emigrantes galegos: demonstra tal fato os milhares de centros e sociedades galegas que existem ainda hoje ao redor do mundo. desde 1961 até 1980. (PUGA. e que foi originada por três motivos..) A gente (. 3 “Quando chegamos a colônia de compatriotas era muito grande. Após as experiências anteriores. educar los hijos sin separarnos de ellos. e é frequente que muitos homens viajem acompanhados pelas mulheres ou que as chamem depois de uns anos para o país onde residem. a Segunda Guerra Mundial.” (tradução do autor) 4 . porque as principais companhias de navegação pertenciam a países participantes no conflito bélico. período durante o qual emigraram 286.) E todos resolutamente determinados a ficar para a eternidade. Segundo Solla (1997). que en la aldea ni soñábamos. propósito de imitar a los que estaban.036 emigrados galegos. (SOLLA. 2004) Outro dado interessante é que. Mesmo morando em uma cidade da hierarquia de Buenos Aires. 1997) Durante o governo fascista do General Franco. a Alemanha. Por último. quedándonos para siempre. 2002) Um dos preconceitos mais comuns sobre a migração é que as pessoas vivem muito bem e acabam esquecendo o seu país. p. a França ou o Reino Unido) e muitas pessoas optaram por continuar com as suas vidas procurando a sorte na Europa. (VILLARES. Nos entusiasmaba el que aquí podíamos disponer de un hogar. que no nosso vilarejo nem sonhávamos. emigraram mais mulheres do que anteriormente.

Rosalía Castro. mas. órfãos e órfãs / e campos de solidão / e mães que não têm filhos / e filhos que não têm pais. criticou nos seus textos a política que forçava a emigração dos seus compatriotas. veio provocada pela emigração. A vergonha. e todos. / E tem corações que sofrem / longas ausências mortais.982 de galegos e galegas. p. As diferenças a respeito dos seus lugares de origem eram enormes. / viúvas de vivos e mortos / que ninguém consolará. a ruptura social e. (CASTRO QUIÁN. sin homes quedas que te poidan traballar. a falta de recursos. Muito antes. em câmbio. Tes. Galicia.” (tradução do autor) 5 . a falta de homens. 2010) Por outro lado. todos se van. viudas de vivos e mortos que ninguén consolará. orfos e orfas e campos de soledad. sem homens fica / que lhe possam trabalhar. como se pode ler nos testemunhos daqueles que podiam e sabiam escrever cartas. 1880.146. podemos comprovar que desde 1810 até 1970 saíram da Galícia 2. a maior poetiza galega. destacando principalmente as coisas boas do lugar de acolhida. (SOLLA.4 Se fizermos uma aproximação ao número total de emigrantes. na metade do século XIX. especialmente. e nais que non teñen fillos e fillos que non tên pais. não pensemos que esta foi a situação mais habitual. (PUGA. tudo era diferente para as pessoas que chegavam a um novo destino. (CASTRO. en cambio. No começo. / Galiza. E tês corazons que sufren longas ausencias mortás. a emigração modificou também negativamente a vida das pessoas que ficaram: a falta de mão de obra. todos se vão. contra o que algumas pessoas ainda hoje acreditam. dados que seriam mais precisos se se pudesse quantificar o valor real do fenômeno “clandestino”. explicando a quantidade de pessoas que emigraram e como ficou a situação da Galiza na altura: Este vaise y aquel vaise. 214). / Tem. 1988) Por um lado sabemos que alguns emigrantes fizeram sucesso e ganharam dinheiro. o medo de serem ridicularizados e o sentimento de fracasso fez com que muitos outros não tivessem coragem de voltar nunca mais à sua terra natal. 1997) 4 “Este vai-se e aquele vai-se / e todos.

000 galegos e galegas moram no exterior (IGE. muitas vezes. Por isso. etc.) bem mais complexos do que a linguagem verbal que servem para comunicar (voluntária ou involuntariamente). seguimos o modelo concreto de análise aplicado por 5 “Isto é. 1994b). O corpo é. (RIVAS. p. expressões do rosto. aquilo que menos coñecemos de nós mesmos é o noso principal vehículo de comunicación. concebendo a comunicação humana como um tudo indissolúvel no qual o comportamento não verbal tem muita importância.000 pessoas. 1994) e Poyatos (1994a. todo o que non se di con palabras se pode atopar no ton de voz. Assim. A seguir passamos à análise de três fotografias de emigrantes no momento imediato anterior à sua partida para a emigração e tentamos comprovar como se manifestam as consequências da violência no rosto do emigrante em nível sinésico (BIRDWHISTELL. conscientemente ou não. A comunicação não verbal é um fenômeno de muita complexidade. mas neste trabalho não pretendemos fazer apenas uma revisão histórica nem teórica da emigração. De Birdwhistell e Poyatos adaptamos os conceitos de comunicação não verbal e cinésica. acima de tudo. Como se pode observar. Um observador atento poderia ver uma pessoa quase tudo o que ela está escondendo. tudo o que não é dito em palavras pode ser encontrado no tom de voz. na expressão do rosto. un centro de informacións e. Como se pode observar. o que menos conhecemos de nós mesmos é o nosso principal veículo de comunicação. a linguaxe do corpo deixa ver moitas cousas de nós e tamén de quen nos rodean. na forma do gesto ou na atitude de cada indivíduo. Un observador atento podería ver nunha persoa case todo aquilo que ela está a agochar. na expresión do rostro. na forma do xesto ou na actitude de cada individuo. Finalmente. Na atualidade mais de 480. por riba de todo.” (tradução do autor) 6 . a linguagem do corpo mostra muitas coisas de nós e também daqueles que nos rodeiam. Estes são os dados da diáspora galega. devido aos comportamentos e posturas não verbais que observamos no seu corpo. como já tínhamos comentado anteriormente: É dicir. expresións do rostro. cheiros. e sim uma breve aproximação às pessoas reais que emigraram. falamos de comunicación non verbal para referírmonos ao conxunto de signos (movementos. como o que pensa.) moito máis complexos ca a linguaxe verbal que serven para comunicar (voluntaria ou involuntariamente). 2015). extraímos de Poyatos a sua concepção da estrutura tripla básica da comunicação humana e as consequências teóricas e analíticas que se derivam da mesma. odores. conscientemente ou non. Por iso. O corpo é. moitas veces. 1970). E qual é a situação no século XXI? A Galiza tem hoje uma população total de 2. 2008.780. seguimos os trabalhos de Birdwhistell (1970. um centro de informações e. Isso significa que o 18% está fora da Galícia. 147)5 A respeito da metodologia da análise. etc. falamos em comunicação não-verbal para referir ao conjunto de sinais (movimentos. pode nos permitir conhecer melhor a situação de uma pessoa.

2015). A primeira imagem. ombros e braços (vide BOUVET. Em segundo plano. 1957) No lado esquerdo dessa fotografia. que está segurando alguma coisa (provavelmente uma peça de roupa) na sua mão direita.Despedida de emigrantes (Fonte: FERROL. da olhada. olhada. Figura 7 . RIVAS. Achamos que ele teria entre 30 e 40 anos. quer dizer. são seis linhas para representar a localização das partes do corpo em diferentes níveis: sobrancelhas. cabeça. 2001. da boca. um grupo de pessoas falando e se despedindo. do fotógrafo galego Manuel Ferrol. 7 . boca. dos ombros e dos braços: 6 O sistema de fichas para a análise cada fotografia funciona como um hexagrama. aparece um casal dando um emocionante abraço e. da cabeça. mais atrás. indicando qual é a posição das sobrancelhas. uma idade ligeiramente superior à dos homens que saiam na época rumo a esse outro mundo desconhecido.Bouvet (2001) no estudo do comportamento não verbal e a proposta descritiva e interpretativa que ela apresenta. apresentamos a ficha de análise6 com a simplificação da expressão cinésica do rosto do homem. nem jovem nem velho. foi capturada no Porto da Corunha (Galícia) em 1957 e pertence a uma série de fotografias chamada de “Emigración”. vemos um homem de uma idade mediana. Para podermos trabalhar com mais rigor a questão do comportamento não verbal.

na direção da câmera. um terno preto e uma camisa branca. próprio das pessoas que emigravam. Como a maior parte dos emigrantes. para além do medo. Ele tem a fronte ampla e o rosto com algumas rugas. semiaberta. na Argentina ou no Brasil. a postura do tronco é firme. neste caso. um certo otimismo a respeito do futuro. Junto aos olhos. A postura do tronco é firme.1 . Os olhos. Provavelmente o homem está sozinho. Ele parece um tanto nervoso. firme e levemente erguida. pronto para subir em um barco com destino à emigração para tentar ganhar a vida em Cuba. também. pensativo. principalmente se imaginarmos a 8 . mas sua feição transmite. meio fundos. faz com que o imaginemos pensando no futuro.Figura 1. e tem um ombro mais afastado e ligeiramente inclinado para atrás. ele veste as melhores roupas que tinha. Na face. mas não fica rígido. e tem um ombro mais afastado e ligeiramente inclinado para atrás. Analisemos agora o rosto do homem da Figura 7: ele está olhando para o fundo. A fotografia tem muita força e consideramos muito dura. mas não tensa. incerteza e medo ao mesmo tempo. preocupado e centrado na viagem (lembremos que muitos destes emigrantes nunca tinham saído de suas cidades de origem). Porém. atentando-se nesse ponto ao longe (provavelmente no barco ou na imensidade do oceano). com o olhar fixo em um ponto longe e com uma expressão em sua face que transmite otimismo. esperança e ilusão. observamos também algumas marcas. parece que vai esboçar um sorriso. Como se aprecia na ficha de análise (Figura 1. rotando 45º sobre o tronco. têm um brilho especial e.Ficha de análise cinésica do homem. alheio à despedida das outras pessoas que o rodeiam. provavelmente por não se preocupar muito com sua aparência física e devido ao esforço dos trabalhos que pode ter realizado anteriormente. na Venezuela. a boca. A cabeça está virada para a direita. deixando a mandíbula descontraída e relaxada.1). comunicam determinação. contribuindo para o olhar na diagonal. a posição da testa.

A emigração foi sempre um dos tópicos centrais na literatura do povo galego.. é também uma fotografia do porto da Corunha. por Alberto Martí Villardefrancos: 7 “Adeus glória! Adeus contento! / Deixo a casa onde nasci. mas também. p. / deixo a veiga pelo mar. en fin. a do emigrante da foto de Manuel Ferrol é uma amarga por tudo o que tem que deixar para trás. deixo. enfim. a fotografia deste homem não é uma imagem isolada: muitos homens e mulheres se viram obrigados a iniciarem essa mesmo jornada. Assim. canto ben quero. Passemos agora para a segunda imagem sobre a qual queremos fazer alguns comentários. como a de muitíssimas pessoas que emigraram nessa época. no livro fundacional da literatura galega moderna. 2013. alguns anos depois da anterior. ao mesmo tempo. / deixo a aldeia que conheço / por um mundo que não vi! / Deixo amigos por estranhos.situação pessoal do homem e lembrarmos a dramática situação econômica e social no pós-guerra espanhol e a incerteza perante a vida e o futuro que aguardava por ele em outro país. Por causa da situação histórica que atravessou a Galícia.. tirada em 1962. e que apresentamos anteriormente. o que pode ser observado no rosto do homem na imagem retratada.. bem longe de sua terra. / deixo.7 Tanto quanto a despedida dos versos de Rosalía. As opções de sucesso para essas pessoas estavam sempre longe. deixo a veiga polo mar. deixa entrever ilusão e esperança. 186). em um dos cantares mais conhecidos de Rosalía Castro. quanto bem eu quero… / Quem pudera não deixar..!” (tradução do autor) 9 . aparece refletido este difícil momento da despedida do emigrante das pessoas e da terra: Adios groria! Adios contento! Deixo a casa onde nacín. no futuro.. Que pudera non deixar. nomeadamente nos últimos cem anos. deixo a aldea que conoso por un mundo que non vin! Deixo amigos por estraños..! (CASTRO.

Parece mais jovem. Ela tem a cabeça baixa. por estar oculta. bem diferente do que conhecem. 1962 Já nesta segunda fotografia. mas têm expressões faciais e posturais muito diferentes.Subindo a bordo co seu obxecto máis prezado: un tallo.” (tradução do autor) 10 . quase fechados. Todas levam roupas de frio (três delas roupas pretas ou de luto). vestida com roupas claras. provavelmente refletindo sobre a sua situação pessoal no presente e pensando no futuro. pode-se observar quatro senhoras subindo no passadiço para o barco que as levará para outro mundo. mas que. e com um gesto que indica tristeza e concentração ao mesmo tempo. A face está inclinada para abaixo. e carregam alguns pertences mais importantes nas mãos.8 Fonte: Martí Villardefrancos. não podemos apreciar o seu rosto. 8 “Subindo a bordo com o seu objeto mais prezado: um tamborete. onde provavelmente estejam todos os seus pertences e alguns papéis (que poderiam ser a passagem e os documentos pessoais) na mão esquerda. e que parece acompanhada de um homem alto. semi-oculta atrás das outras três. Há também outra mulher. Figura 8 . pois é a única mulher da Figura 8 que não tem os cabelos brancos nem cinzentos. Parece que ela vai sozinha. carregando uma sacola na mão direita. absolutamente alheia à presença do fotógrafo e do resto das pessoas. É interessante observarmos que as quatro estão prestes a entrar no barco e mudar o rumo das suas vidas. mostrando preocupação e tristeza. com os olhos apontando para o chão. A primeira de todas elas caminha olhando para o chão.

a mulher que achamos mais interessante na fotografia é a que fica no centro da imagem. poderia estar relacionado com o que percebemos como a retranca. os olhos tristes de uma mulher cansada e que sofreu. A olhada e o rosto enrugado demonstram o cansaço da vida e parecem estar se despedindo.9 o recurso humorístico mais tradicional e tão próprio do ser galego. todos quereriam ir nesse barco. Figura 2. Na década de noventa Os Diplomáticos de Monte Alto cantavam: “Aí vos quedades. como assinalamos em um trabalho sobre o humor (RIVAS. dizendo adeus aos que ficavam do jeito que mais dano podia causar: com o orgulho de emigrar. Porém. deixando esse sorriso de despedida para as gerações do futuro. de felicidade. Ela tem a mesma postura corporal da que acabamos de descrever. lá ficam vocês: entre padres.Ficha de análise cinésica da mulher do tamborete.1. frades e militares”. aí vos quedades: entre curas. 9 A retranca é um tipo de ironia verbal utilizado na Galícia. Na frente dela. É um olhar cheio de esperança e.1 . com cabelos brancos e com um pano na cabeça. com esse tipo de sentimento que só as pessoas mais idosas conseguem transmitir. Está com a mão direita sobre o corrimão da passarela para se ajudar a subir no barco e tem o olhar fixo na lente da câmera. Esta mulher assimilou perfeitamente a situação de emigrante e parece querer brincar com o destino. os olhos. mas com uma expressão no rosto muito diferente: tem as sobrancelhas baixas. 10 “Lá ficam vocês.” (tradução do autor) 11 . Ela tem a face alongada. Como vemos na Figura 2.10 Era este o grito de autoconfiança de alguns que abandonavam a terra. pois na verdade. a boca e os ombros da mulher do tamborete estão inclinados para abaixo em um claro exemplo de expressividade cinésica. Esse olhar e esse sorriso. melancólica. Mas. em segundo lugar. quase. observamos outra senhora vestida de preto. vai acompanhada com um leve ricto de contrariedade e sofrimento na boca. até parece que mostra um sorriso para o fotógrafo. monges e soldados. 2006).

foge da lente da câmera. as expressões dos rostos das três mulheres idosas mudaram a respeito da Figura 8. sendo retratadas em um plano frontal com o capitão do barco. O corpo desta mulher. homens. escolhemos outra fotografia (Figura 9). Entre as três mulheres. amontoados e desumanizados. Á direita se apoia com força no corrimão e parece se resistir à viagem. 12 . a sua maior pertença e tenha um valor sentimental incalculável. crianças) que existia no barco entre as pessoas emigradas. que forma parte da mesma série que a anterior. Pela expressão do rosto. a que está à direita da fotografia (que era quem subia em primeiro lugar na Figura 8) está segurando uma sacola com um vulto que deve conter alguma coisa muito importante para ela. um pouco dinheiro que poupou para os primeiros dias. outra mulher mais jovem. pode representar o de muitas pessoas que se viram obrigadas a mudar de país. Neste caso. Tem a cabeça descoberta e o rosto muito sério e triste. a posição da cabeça e os olhos caídos. sendo tratados como animais. um homem ao fundo da imagem e uma criança que está olhando para outro homem que aparece na lateral direita. mas o tamborete arrasta com ele todas as lembranças do passado e irá com ela a qualquer lugar. em segundo plano. sem outra alternativa além da emigração. também de Alberto Martí Villardefrancos. seguramente. nas pessoas que ficam no fundo desta fotografia de 1962 podemos intuir o tratamento que sofriam os emigrantes em muitos casos. O olhar. Por último. Também se vê. vemos três das senhoras que apareciam na foto anterior. Finalmente.observemos brevemente as mãos desta idosa: a esquerda segura um envelope com alguns papéis e. Possivelmente esse tamborete seja um tesouro para ela. Neste caso. parece desesperançada e sem muita vontade de iniciar uma viagem que a leve para um país desconhecido do outro lado do Atlântico. já a bordo. e com o mesmo braço sujeita um curioso tamborete de madeira. exausto e maltratado pela passagem do tempo e do trabalho. mulheres. pendente de outras coisas ou quiçá se despedindo da terra na qual viveu a vida inteira. cruzado e perdido em um ponto ao longe. Representam a variedade de idades (famílias inteiras. antes e também ao longo da viagem.

A mulher que fica no centro da imagem.1) podemos analisar de forma fidedigna a expressão cinésica desta mulher: 11 “O capitão queria tirar uma foto com as avós. 1962. Figura 9 . Já a mulher à esquerda. mas ela. tem o olhar afastado e alheio ao fotógrafo e a qualquer coisa que esteja acontecendo. Está vestida de preto e leva um pano ao redor da cabeça. enquanto. protagonista também da Figura 8. Chama a atenção como o capitão coloca as mãos nos ombros dela.” (tradução do autor) 13 .11 Fonte: Martí Villardefrancos. está carregando um cajado ou um guarda-chuva de madeira na mão esquerda. tem o corpo firme. sem se importar com isso. mas deixando à mostra parte dos seus cinzentos cabelos. Os olhos e a boca são o espelho da tristeza e o desânimo que leva dentro de si. Graças à seguinte ficha (Figura 3.O capitán quixo facer unha foto coas avoas. tem o passaporte e alguns documentos. com os papéis na mão esquerda e continua apertando contra o peito o tamborete de madeira. na direita.

alheio à minha baça pessoa. cada pessoa pode experimentar sentimentos diferentes. contribuem a exprimir o sentimento otimista da mulher. essa sensação de derrota que algumas pessoas têm em relação ao mundo onde vivem: Quando vim. confiante e esperançada. se é que vim de algum para outro lugar. pequenos e bem abertos. Ela é a única que tem o olhar fincado na câmera (ou no fotógrafo) e é a única pessoa na imagem que parece contente.Figura 3. (ANDRADE. acompanhada do sorriso e das outras características cinésicas descritas. 1997. 14 . mas acreditamos que nestas três fotografias se podem ver representadas muitas pessoas que passaram a dura experiência migratória. mesmo que estejam um bocado abaixados. demonstra uma atitude positiva e proativa. Para fechar este texto sobre a emigração. transmitindo a ilusão de uma próspera vida além-mar. p. Neles. oferecendo um sorriso. 20) Este capítulo tem como finalidade fazer uma aproximação à história da emigração galega. Esta posição do corpo. o mundo girava. Perante um mesmo acontecimento. são muito adequados estes versos do poema “A ilusão do migrante” de Carlos Drummond de Andrade.1 . O tronco está ligeiramente inclinado para a frente e os ombros. e no seu giro entrevi que não se vai nem se volta de sítio algum a nenhum. Já os olhos.Ficha de análise cinésica da mulher da esquerda. pode se observar qual era a percepção do mundo para muitos migrantes. parecem firmes.

2010. Follas novas. Referências ANDRADE.blogspot.ª ed. A Coruña. [1. mas fazê-lo com uma mudança que implica em violência. Buenos Aires: Galaxia. 1970. 1997. Santiago de Compostela: Consello da Cultura Galega. Afonso Daniel Rodríguez. Com o trabalho. e graças à utilização das teorias da comunicação não verbal. La dimension corporelle de la parole. Philadelphia: University of Pennsylvania Press. a luta e a capacidade de superação. Madrygal. CASTRO QUIÁN. o medo e a tristeza. Disponível em: <http://anosacultura. CASTELAO. 1863]. 59-69. Esperamos que reparar e dar atenção aos rostos e à gestualidade dessas pessoas sirva para entender e se solidarizar com a violência dos movimentos migratórios e que sirvam também de homenagem a todas as pessoas que se viram obrigadas a sacrificar suas vidas e suas famílias emigrando. A cultura na emigración e no exilio. Danielle. Wolfwood: iBooks. Sempre en Galiza. pois cada uma dessas pessoas tem uma história. 14. Ray L. Rosalía. CASTRO. BOUVET. leurs aspects métonumiques et métaphoriques. Farewell. mar. mas também a ilusão.com. Vigo: Juan Compañel. Nos rostos dessas pessoas. Disponível em: <http://consellodacultura. e refletir sobre a violência que esses movimentos migratórios representaram para os emigrantes e para a terra que deixaram. v. Acesso em: 1 maio 2015. Acesso em: 1 maio 2015. 1944]. Vigo: Xerais. Paris: Peeters. 2013. pudemos ver o sofrimento. p. uma família. CASTRO. [1.br/2010/04/18-cultura-na-emigracion-e-no- exilio_19.com/?p=58500>. 15 . Cantares gallegos. 16. A nosa cultura. essa contradição de querer fugir da violência. notas e comentarios de Anxo Angueira. 2001.gal/mediateca/extras/follas_novas. FARÍAS. quisemos pôr rosto aos números e estatísticas de emigrantes. porém. FARÍAS. 37. A segunda vida de Galicia. para construírem um mundo melhor.concretamente dos últimos duzentos anos. Estudo. 2015. edición. BIRDWHISTELL. 19 abr. 1880].pdf>. Ruy.ª ed. p. La propaganda literaria: La Habana. amigos dos quais foram separadas. Disponível em: <http://bookgiga. José.html>. Les marques posturo-mimo- gestuelles de la parole. facsímile) [1. Rosalía. (Ed. Madrid. 2011. Aspectos de la identidad gallega en Buenos Aires (1900-1960). Carlos Drummond de. Acesso em: 1 maio 2015. Ruy. Kinesics and Context.ª ed. se distanciar do sofrimento. com um movimento igualmente doloroso. Luzes. n. et leur rôle au cours d‘un récit. Rio de Janeiro: Record.

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44. Catálogo da Exposición “Os Adeuses / fotografías de Alberto Martí”. Acesso em: 1 maio 2015. Acesso em: 1 maio 2015. Disponível em: <http://consellodacultura. A Corunha: Centro Galego de Artes da Imaxe. ANEXO I Seguem algumas convenções de representações cinésicas que já apresentamos em outros trabalhos (RIVAS.gal/mediateca/extras/CCG_2010_Os-adeuses- Fotografias-de-Alberto-Marti.Compostela: Consello da Cultura Galega. Disponível em: <http://consellodacultura. SOBRANCELHAS Em posição normal Com a sobrancelha esquerda erguida OLHADA Acima Olhos muito abertos Olhos entreabertos BOCA Sorriso suave Boca para abaixo CABEÇA Posição base 17 . Alberto.pdf>. O capitán quixo facer unha foto coas avoas. para a compreensão das fichas de análise.pdf>. A Corunha: Centro Galego de Artes da Imaxe. p. MARTÍ VILLARDEFRANCOS. Santiago de Compostela: Consello da Cultura Galega.gal/mediateca/extras/CCG_2010_Os-adeuses-Fotografias-de-Alberto- Marti. 1962. p. 2010. 45. 2010. 2015).

Inclinada para abaixo Movimento à esquerda OMBROS Ombros caídos Ombro direito retrasado Tronco para adiante BRAÇOS Braço esquerdo estendido e braço direito dobrado Braço direito estendido e braço esquerdo dobrado 18 .