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UNOPAR
Homem, cultura
e sociedade

Homem, cultura e sociedade
Giane Albiazzetti
Márcia Bastos de Almeida
Okçana Battini

ISBN 978-85-8143-641-8

C M Y K CL ML LB LLB

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Homem,
cultura e
sociedade

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Avaliação
Homem, e
ação docente
cultura e
sociedade
Sandra Regina dos Reis Rampazzo
Giane Albiazzetti
Marlizete Cristina
Márcia Bastos Bonafini Steinle
de Almeida
Edilaine Vagula
Okçana Battini

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Capa: Solange Rennó e Wilker Araujo
Diagramação: Casa de Ideias

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Albiazzetti, Giane
Homem, cultura e sociedade / Giane Albiazzetti, Márcia Bastos de
Almeida, Okçana Battini. — São Paulo : Pearson Education do Brasil,
2013.

Bibliografia
ISBN 978-85-8143-641-8

1. Cultura – Estudo e ensino 2. Desenvolvimento cultural 3. Evolução
humana 4. Homem 5. Sociedade I. Almeida, Márcia Bastos de. II. Battini,
Okçana. III. Título.

13-01074 CDD‑306.07

Índices para catálogo sistemático:
1. Cultura e sociedade : Sociologia : Estudo e ensino 306.07
2. Sociedade e cultura : Sociologia : Estudo e ensino 306.07

2013
Pearson Education do Brasil
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CEP: 02712­‑100 — São Paulo — SP
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e­‑mail: vendas@pearson.com

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Sumário

Unidade 1 — A transição do mito ao logos.....................1
Seção 1 A filosofia e sua origem.........................................................3
Seção 2 O movimento sofista e socrático ........................................12
Seção 3 Do pensamento clássico aos medievais...............................18
Seção 4 Filosofia dos modernos.......................................................25

Unidade 2 — O pensamento moderno.........................39
Seção 1 Concepção de ciência moderna..........................................41
Seção 2 O racionalismo...................................................................46
Seção 3 O empirismo.......................................................................50
Seção 4 O mundo máquina..............................................................53
Seção 5 O criticismo kantiano no movimento iluminista.................55
Seção 6 O positivismo......................................................................57

Unidade 3 — Cultura e ideologia..................................69
Seção 1 Ideologia e cultura: uma relação indissociável e espaço
de contradição..................................................................70
Seção 2 O surgimento do modo de produção capitalista e a
formação da nossa sociedade........................................... 73

Unidade 4 — Antropologia e cultura............................85
Seção 1 Cultura: o “cimento” que possibilita a união social............86
Seção 2 Antropologia: as correntes teóricas e a interpretação
sobre a construção da cultura............................................89
2.1 Por que a Antropologia surgiu?............................................................... 89
2.2 O pensamento científico como base para o surgimento da Antropologia...93

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...... 2014 ..........132 1....................indd 6 20/02/13 18:53 ...................indd ) ......................1 Gilberto Freire.....................January 10........................ 137 1.............................. 114 2.......................................131 Seção 1 Aspectos históricos na formação da cultura brasileira.................... 117 Unidade 5 — Formação da cultura brasileira........................163 Homem_cultura_e_sociedade.............. 88822-978-85-8143-641-8............3 Estruturalismo .............5 Diversidade cultural: etnocentrismo e relativização....................................141 Referências.............. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade...... c u lt u r a e s o c i e d a d e 2...........4 Antropologia interpretativa ou hermenêutica..............pdf...06:43:50 ................................. 137 1..............159 Sugestão de leitura.........2 Sérgio Buarque de Holanda............. 108 2......................................................... 139 Seção 2 Diversidade cultural brasileira e relações inter-étnicas.............................PG-6 vi  H o m e m ..3 Florestan Fernandes...............................

os alunos que quiserem ampliar seus estudos poderão encontrar na íntegra. livros‑texto como este. ao mesmo tempo em que aprendem a partir de suas experiências. Essa biblioteca. na Biblioteca Digital. é uma das maiores universidades de educação a distância do país. Além de oferecer cursos nas áreas de humanas. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. E.500 títulos em português. esses livros contam com a seção “Aprofundando o conhecimento”.06:43:50 . das mais diversas áreas do conhe‑ cimento. e pode ser acessada de qualquer computador conectado à Internet. os livros‑texto da Unopar têm como objetivo permitir que os estudantes ampliem seu conhecimento teórico. além de favorecer a transformação dos métodos tradicionais de ensino em uma inovadora proposta pedagógica. Foram exatamente essas características que possibilitaram à Unopar ser o que é hoje: uma referência nacional em ensino superior.indd 7 20/02/13 18:53 . como não deve haver limites para o aprendizado. que funciona 24 horas por dia durante os sete dias da semana. acessando a Biblioteca Virtual Universitária disponibilizada pela instituição.PG-7 Carta ao aluno O crescimento e a convergência do potencial das tecnologias da informação e da comunicação fazem com que a educação a distância. desenvolvendo a capacidade de analisar o mundo a seu redor. a grande maioria dos livros indicada na seção “Aprofundando o conhecimento”. com mais de 450 polos e um sistema de ensino diferenciado que engloba aulas ao vivo via satélite. ambiente Web e. esses recursos são uma parte do esforço da instituição para realmente Homem_cultura_e_sociedade. 2014 . Para tanto. que proporciona acesso a materiais de jornais e revistas. artigos e textos de outros autores. Somados à experiência dos professores e coordenadores pedagógicos da Unopar. sem dúvida. conta com mais de 2. 88822-978-85-8143-641-8. agora. exatas e da saúde em três campi localizados no Paraná.pdf. Elaborados com base na ideia de que os alunos precisam de instrumentos didáticos que os apoiem — embora a educação a distância tenha entre seus pilares o autodesen‑ volvimento —. além de possuírem um alto grau de dialogicidade — caracterizado por um texto claro e apoiado por elementos como “Saiba mais”.January 10.indd ) . “Links” e “Para saber mais” —. Internet. contribua para a expansão do ensino superior no Brasil.

indd 8 20/02/13 18:53 . 88822-978-85-8143-641-8.PG-8 viii  H o m e m .06:43:50 .January 10.pdf. 2014 . Bom estudo! Pró‑reitoria Homem_cultura_e_sociedade.indd ) . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. c u lt u r a e s o c i e d a d e fazer diferença na vida e na carreira de seus estudantes e também — por que não? — para contribuir com o futuro de nosso país.

uma história das estruturas. O passado.] há em curso uma história profunda.January 10. sociológica e antro‑ pológica mostrando como se deu a passagem do pensamento mitológico para o Homem_cultura_e_sociedade. Assim. especialmente no que se refere à formação histórica. sendo que esses fatores é que sustentam a sociedade e a formação do ser social. silenciosa. política e econômica dos povos dominados.indd ) . políticos e culturais. cultural. filosófica. p. cultural e educacional da sociedade e da cultura brasileira. portanto. 14. Para isso torna-se essencial a discussão dos princípios do modo de produção capitalista e sua influência nos aspectos econômicos. enfatizando-se as relações de dominação política e econômica como fundamentos da hierarquização social e das desigualdades étnicas e de classe ao longo da nossa história. o livro propõe uma discussão em relação às implicações desse processo colonialista e imperialista sobre o caso particular do Brasil. o presente e o cotidiano passam a ser reconhecidos como resultado de um contexto mais amplo. com suas consequências sobre a organização social. grifo do autor) propõe é que “[.. leve. em seu livro Era dos Extremos (2000).pdf. O que o professor Mota (1974.PG-9 Apresentação O presente texto aborda a importância do homem como agente responsável pela construção da realidade social. 88822-978-85-8143-641-8. subterrânea. Para isso devemos analisar o processo de expansão europeia a partir do século XV e da dominação colonialista e imperialista.. Além disso. não pode ser tomado como obra do acaso ou de meros acidentes históricos. tampouco como o acúmulo progressivo de grandes atos e feitos heroicos de homens especiais. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. e por isso todas as evidências históricas têm que ser pesquisadas e analisadas em suas inúmeras facetas. este livro faz uma abordagem histórica. do dia a dia.indd 9 20/02/13 18:53 . fornecendo informações indispensáveis para a compreensão da realidade social. afirma que essa articulação entre passado e presente é recuperar dados precisos e com‑ prováveis acerca da trajetória humana ao longo do tempo. Com isso. lenta. 2014 . rápida. uma ‘história dos acontecimentos’”. enfocando a cultura como categoria central para a constituição das relações sociais vigentes.06:43:50 . Eric Hobsbawm. que comanda os bastidores da realidade social. diversa de uma história de superfície.

PG-10 x  H o m e m .06:43:50 .January 10. Esperamos que você se sinta provocado à busca de um conhecimento mais pro‑ fundo e consistente. c u lt u r a e s o c i e d a d e pensamento filosófico e como este último foi se modificando e modificando a forma de conhecimento e as relações sociais. Homem_cultura_e_sociedade.pdf. 2014 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 88822-978-85-8143-641-8.indd ) . Que este livro seja um “esticador” de horizontes em sua vida acadêmica.indd 10 20/02/13 18:53 .

PG-11 Unidade 1 A transição do mito ao logos Márcia Bastos de Almeida Objetivos de aprendizagem: O objetivo desta unidade é aprender como o pensamento mitológico se constituiu em elemento fun- damental na passagem para o pensamento racional. Os sofistas. lógico ou filosófico. provocaram conflitos conceituais e promoveram discussões em torno da política e do novo modelo de governo instaurado Homem_cultura_e_sociedade. Seção 2: O movimento sofista e socrático Nesta seção apresentaremos o movimento que se tornou importante para o conhecimento e dissemina- ção da filosofia e a inauguração de um novo projeto filosófico-pedagógico: o movimento dos sofistas.06:43:50 . além de ensinarem. 88822-978-85-8143-641-8.indd 1 20/02/13 18:53 .pdf. 2014 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Seção 1: A filosofia e sua origem Nesta seção apresentaremos os aspectos gerais do pensamento mitológico e do nascimento do pensa- mento filosófico na Grécia Antiga como uma interpre- tação racional do mundo e dos fenômenos naturais seu sentido pedagógico.indd ) .January 10.

Seção 4: Filosofia dos modernos Nesta seção.January 10. 2014 .PG-12 naquele período. Seção 3: Do pensamento clássico aos medievais Apresentaremos nesta seção o pensamento pedagó- gico de Platão. daí a importância de dedicarmos uma seção aos modernos. Homem_cultura_e_sociedade. Aristóteles e os filósofos que represen- taram a Idade Média: Santo Agostinho e São Tomaz de Aquino. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Da modernidade herdamos o modelo de conhecimento.pdf. Ainda na mesma seção. O pensamento desses filósofos representa importante marco na Filosofia e. conforme conhecemos e pensamos. os valores.06:43:50 . na Filosofia da Educação no Brasil. vamos apresentar o movimento filosó- fico educacional no período moderno que marcou profundamente o modelo educacional da contem- poraneidade. O pensamento de impor- tantes filósofos como Descartes.indd 2 20/02/13 18:53 . 88822-978-85-8143-641-8.indd ) . o modo de produção e o modelo educacional. principalmente. Rousseau e Locke ainda figura em fundamentação dos modelos peda- gógicos vigentes no sistema educacional brasileiro. apresen- taremos a figura de Sócrates que mudou o eixo da discussão filosófica e inaugurou a Ética.

ou melhor. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 2014 . apresentaremos a origem da Filosofia e a Filosofia da Educação em sua especificidade. Como área de conhecimento. principalmente. Contudo. político e econômico muito mais avançados. Eis o motivo de estudarmos. no curso de Pedagogia. nasceu como teoria do conhecimento e se mantém até a atua­ lidade desvelando o real com a intenção de explicá-lo e socializá-lo. Os povos do Oriente. com a abertura e a proliferação dos cursos de pós-graduação. Portanto. e isto só é possível por uma educação sistematizada. desenvolvimento social.PG-13 A transição do mito ao logos  3 Introdução ao estudo Nesta unidade. seus principais movi‑ mentos e filósofos em seus aspectos centrais.January 10. embora com níveis de conhecimento. a Psicologia e a Sociologia se constituem como fundamentação da educação nos cursos de Pedago‑ gia. A filosofia da Educação é uma disciplina que com a História. Assim. o período medieval. a filosofia teve sua gênese e desenvolvimento na Grécia Antiga. porque com ela se inicia um período de construção de conhecimento e um projeto pedagógico a ser executado: a Pai- deia. por um profissional reflexivo e comprometido com a educação em sua forma científica e não técnica. vamos iniciar nossa leitura. 88822-978-85-8143-641-8. Faremos esse movimento porque precisamos voltar ao passado e conhecer as raízes no pensamento filosófico que inauguraram uma forma específica de conhecer e dar respostas à realidade. Reale (1993. que chegou até nós e influenciou o desenvolvimento da ci‑ vilização ocidental. principalmente.indd ) . ao mundo e a tudo o que nele existe. podemos dizer que a Filosofia também nasceu com vocação pedagógica. Para isso iniciaremos uma breve apresentação da origem da filosofia. Todas as seções abordadas terão como foco a relação entre filosofia e educação em todos os períodos marcantes da História do pensamento da humanidade: a anti‑ guidade clássica. A importância de iniciarmos nossa leitura e o nosso curso com esse tema significa a importância que a instituição assegura ao curso de Peda‑ gogia por uma formação humanista e.pdf.06:43:50 . não conseguiram “fazer filosofia” da mesma forma que o conseguiram os gregos. a nossa viagem ao mundo do conhecimento. A Filosofia. portanto. p. Nos anos 1970. 11) explica: Homem_cultura_e_sociedade.   Seção 1  A filosofia e sua origem A filosofia nasceu da curiosidade e do espanto e é uma produção grega. no curso de Pedagogia. os modernos e os contemporâneos. a disciplina filosófica: teoria geral do conhecimento.indd 3 20/02/13 18:53 . a disciplina conquistou um amplo espaço no debate educacional e se tornou uma das mais importantes áreas de pesquisa e produção literária. consideramos por bem iniciarmos este trabalho explicitando a gênese (início) do pensamento filosófico. sua vocação educacional e sua trajetória no espaço acadêmico e.

Reale descreve seus dois grandes poemas. da eurritmia.06:43:50 . Seus poemas eram lidos e relidos e. 1993. Outros poetas existiram ao tempo de Homero.. explicavam os acontecimentos de or‑ dem natural. mas nem mesmo algo que analogicamente comporte comparação com a filosofia dos gregos ou que a prefigure de momo inequívoco. e. havia desenvolvimento em povos tão antigos quanto os gregos. Odisseia e Ilíada: [. que se revelará. conhecimentos e habilidades técnicas de diferentes espé‑ cies. como dissemos..indd 4 20/02/13 18:53 . instituições políticas. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.pdf. os fatos são narrados com a apresentação de suas razões. não só não há entre os povos orientais idêntico correlativo. 88822-978-85-8143-641-8.January 10. Um desses poetas gravou seu nome na história da humanidade: Homero. o ciclo Homem_cultura_e_sociedade. organizada e com nexos causais. manifestações artísticas de natureza diversa. de situações e eventos fantásticos. Neles já se anunciava o afastamento de uma racio‑ nalidade mitológica para dar espaço a uma racionalidade lógica. Ou seja.]. mas a forma de pensar. Dando continuidade à nossa caminhada em busca da compreensão da origem da filosofia.indd ) . No que diz respeito à filosofia. encontramo-nos diante de um fenômeno tão novo que. transbordantes de maravilha. na descrição do monstruoso e disforme. porém. depois. mas somente ele os construiu com imaginação rica e peculiar de uma mente privilegiada. pode-se arriscar uma afirmação aqui. Isto porque seus poemas continham uma conotação mística e religiosa. a origem de todos os astros que compõem o universo. a qual erigirá a medida e o limite até mesmo em princípios metafisicamente determinantes (REALE. organizações militares existiram seja nos povos orientais que chegaram à civilização antes dos gregos.. 19). 2014 . senão raras vezes. os ciclos da natureza. como em geral acontece nas primeiras manifestações artísticas dos povos primitivos: a ima‑ ginação homérica já se estrutura segundo o sentido da harmonia. apresentamos na sequência pontos elucidativos para que isso aconteça.PG-14 4  H o m e m . ou a presença dos nexos causais. eram os poetas.] foi bem observado que seus dois poemas. seja entre os gregos. Antes do que costumamos chamar de nascimento da Filosofia. o ser humano e suas fases crono‑ lógicas até a morte. consequentemente. a origem do universo e do homem. Ou seja. assim mesmo. construídos por uma imaginação tão rica e variada. Em seus poemas. p. do limite e da medida. da proporção. Compreender o mundo. Não podemos desprezar essa necessidade inerente ao ser humano de buscar explicações do cotidiano no sobrenatural daquilo que foge à sua racionalidade comum. as pessoas que ensinavam. uma constante da filosofia grega. de usar a razão e desenvolver o que ficou conhecido como LOGOS foi um fenômeno que se restringiu ao povo grego. com F maiúsculo. há a explicações dos “porquês” dos eventos. Suas narrativas continham descrições dos eventos — tanto bons quanto ruins — de forma harmoniosa. A produção poética de Homero já apresentava uma racionalidade sistemática. c u lt u r a e s o c i e d a d e Crenças e cultos religiosos. tinham o mesmo valor que um livro “sagrado”.. é possível fazer confrontos [. como os ciclos da natureza. não caem.

. podemos dizer que a busca pelo conhecimento o está motivando e. filosofia indica um estado de espírito. dessa forma. Essa palavra é composta por outras duas palavras: Philo e Sophia. nossos valores são marcados pela influência da Filosofia Grega.indd 5 20/02/13 18:53 .January 10.. podemos continuar estudando. enfim. quando as encontra. 19). o da pessoa que ama a sabedoria.C. Philo significa amigo/amizade e Sophia que significa saber/sabedoria. Segundo registros na literatura. o espanto ia dando lugar a novas perguntas que eram respondidas por esse novo modo de conhecer: a Filosofia. ou seja. Vamos compreender melhor a ideia de Pitágoras: Pitágoras teria afirmado que a sabedoria completa pertence aos deuses. e visitar as origens do pensamento ocidental. aquela pergunta que está sempre (ou deveria estar) em nossos pensamentos: o que é a realidade? Ou ainda: por que tudo o que está a nossa volta existe? Por que nós existimos? Qual o sentido da vida se existe a morte? Por que precisamos fazer escolhas? Depois de respondidas essas questões surgem outras. e outras. nossas curiosidades não são tantas como no período antigo e para respondê-las todos nós recorremos à Internet. A Filosofia procura respostas e. Por isso e muito mais. à medida que aos poucos a racionalidade filosófica passava a dar res‑ postas para esses “mistérios”.. 88822-978-85-8143-641-8. no sentido exposto acima. Portanto. todos podemos concordar ou não com as suas conclusões e é assim que o pensamento e o mundo vão se transformando. Encontra sim. Dizia ainda que três tipos de pessoas compareciam aos jogos olímpicos (festa mais importante na Grécia): as que iam para Homem_cultura_e_sociedade. ou que não conseguimos compreen‑ der a partir de nossas experiências e conhecimentos.C. 2002.) o criador da palavra filosofia sem dar a ela o estatuto de área de conhecimento.06:43:50 . vamos começar por entender o significado etimológico da palavra Fi‑ losofia. o nosso pensamento. deseja saber” (CHAUI. mais especificamente entre os séculos V e VI a. Por isso. A Profa. Marilena Chaui oferece a seguinte explicação: “Assim. ou seja. o saber. Se você chegou até aqui. a admiração. tornando-se filósofos. tem amizade pelo saber. portanto. convido o leitor para um passeio até a Grécia Antiga. e outras. Mas na antiguidade não existia Internet com todos os sites de busca que hoje nos são disponibilizados. muda as perguntas! Atenção! Não é verdade que a Filosofia não encontra respostas. nossa cultura. mas os homens podem desejá-la e amá-la. podemos dizer que você é um filósofo e. mas sim de uma postura diante do que se lhe apresenta diante dos olhos. nos tempos atuais. p.pdf. Pois bem. 2014 . o nosso modo de pensar. nos causam esses sentimentos. tudo isso e muito mais fazem parte de um conjunto de fenômenos que na antiguidade eram desconhecidos. assim mesmo com PH. isto é. Isto mesmo. provocava espanto! Tudo o que nos é estranho.PG-15 A transição do mito ao logos  5 marítimo e sua relação com as fases lunares. mas suas respostas não têm o caráter de conhecimento absoluto e. infinitamente. juntando o significado das duas palavras temos amigo do saber e daí pode-se entender que o filósofo é aquele que é amigo da sabedoria ou aquele que busca sempre o conhe‑ cimento. Na contemporaneidade. ou seja. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. foi Pitágoras de Samos (século V a. Por isso é que podemos dizer que a Filosofia tem uma pergunta básica. a perplexidade. Esse desconhecimento provocava a curiosidade.indd ) . vamos entender o que a palavra significa ao pé da letra.

ela (a Filosofia) se dividiu nos seguintes períodos: 1. Esse terceiro tipo de pessoa. Dessa forma. poesia. explicam os problema de ordem ética e política (para citar apenas dois). e as que iam contemplar os jogos e torneios. ali estando apenas para servir aos pró‑ prios interesses e sem preocupação com as disputas e os torneios.indd ) . Vamos abordar aqui o primeiro período. as discussões e os confrontos entre os pensadores iam se definindo. que inaugura a busca pela essência do homem. 2. Período humanista: surgiu quando o período naturalista não atendia as “de‑ mandas” das discussões políticas. os atletas e artistas (durante os jogos havia competições artísticas: dança. a physis. é como o filósofo (CHAUI. 2014 . Isto porque Sócrates figura na história da Filosofia como “divisor de águas” na discussão filosófica. dizia Pitágoras. isto é. por Sócrates. a partir de uma ideia de organismo vivo. Sobre o movimento dos filósofos pré-socráticos chamaremos a sua aten‑ Homem_cultura_e_sociedade. Ou seja. 2002. musica). mas tão somente à busca de uma compreensão das coisas. para avaliar o desempenho e julgar o valor dos que ali se apresentavam.06:43:50 . 3. Pensando assim. Período naturalista ou pré-socrático: o problema dessa fase era a busca da compreensão da physis. as que iam para competir. o cosmo e tudo o que nele existe. na sequência. 5. Buscar o conhecimento. podemos dizer que somos filósofos! Os primeiros gregos considerados sábios ou sophos ficaram conhecidos como filó­ sofos pré-socráticos. Esse período é represen‑ tado no primeiro momento pelos sofistas e. Período das escolas helenísticas: esse período foi marcado pelas escolas que representavam os sistemas filosóficos: estoicismo. os pitagóricos.PG-16 6  H o m e m . sociais e morais. os eleatas e os pluralistas.January 10. epicurismo e ceticismo. 20). teatro. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. traz à tona a ideia do suprassensível e a formulação orgânica dos problemas filosóficos. c u lt u r a e s o c i e d a d e comerciar durante os jogos. 88822-978-85-8143-641-8. 4. p. Período das Sínteses Platônica e Aristotélica: esse período. Isso quer dizer que o comportamento natural de um filósofo não está ligado a interesses pessoais.indd 6 20/02/13 18:53 . à busca da sabedoria e do conhecimento. conhecido também por movimento pré‑ -socrático. método de encontrar a verdade. A Filosofia Antiga está dividida conforme os problemas. também. É assim porque os primeiros filósofos ou pré-socráticos queriam compreender o mundo natural. uma forma e um grega e significa saber/sabedoria. muito rico no pensa‑ mento filosófico. Período religioso: representado pelo encontro entre a cultura helênica em Alexandria e o cristianismo.pdf. ou seja. Os gru‑ pos de pensadores que o representaram estão divididos entre os jônicos. e Sócrates Para saber mais concentraram-se em compreender o agir humano A palavra sophos é de origem inaugurando a Ética e. aprender e socializar esse conhecimento e aprender faz parte do perfil do filósofo.

mais especificamente. Forma é. só à visão do intelecto: o intelecto abstrato. sendo que átomos de formas semelhantes se atraem e os de forma diferente se repe‑ lem. quadrado e outros de tamanhos diferentes).indd ) . Vamos entender melhor: A doutrina atomista sustenta que a realidade consiste em átomos e no vazio. triângulo retângulo. vem da palavra átomo (menor partícula indivisível) e o fundador desse movimento foi Leucipo. mas à ideia das formas. Assim. considerados qualitativamente iguais e quan‑ titativa e geometricamente diferentes (círculo esfera. e gerando com isso os fenômenos naturais e o movimento. para vê-los? Então vamos à explicação! Os átomos a que eles se referiam eram uma ideia. afirmada como consequência da sua indivisibilidade.. Os átomos são imperceptíveis e existem em número infinito (MARCONDES. A Filosofia moderna se apropria desse pensamento para fundamentar a base da ciência experimental que permanece em nossos dias. Mas agora é preciso compreender o conceito de átomos dos antigos. que é a analogia do visível corpóreo. portanto. A doutrina atomista afirma que tudo que está a nossa volta (inclusive nós mesmos) se constitui por matéria. a natureza e tudo o que nela existe. Tudo é matéria. aos sentidos.. por exemplo. indo sempre mais além até onde os sentidos não podem chegar. No entanto. Primeiro vamos compreender os atomistas. No entanto. p. que parte do visível corpóreo. ou melhor. 155) ensina: [. Quando olhamos um objeto em forma de círculo. ou o modo como eles interpretavam o mundo. o que é visível ao intelecto. 88822-978-85-8143-641-8. em que sentido visível? Visível. evi‑ dentemente. incluindo até o pensamento de Karl Marx muitos séculos depois.06:43:51 . atomista. A atração e repulsão dos átomos devem-se às suas formas geométricas. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Esse nome. ou. Mas o átomo é invisível. pode ser considerado suscetível de fragmentação em partes. portanto. mas a ideia de uma representação geométrica. o visível geométrico. Os átomos eram. suas ideias principais foram desenvolvidas por seu discípulo Demócrito que desenvolveu as ideias de Leucipo e as transformou em uma das doutrinas filosóficas mais influentes de toda a Antiguidade. tudo está formado por átomos. Essa é a ideia de átomo para os filósofos atomistas.PG-17 A transição do mito ao logos  7 ção para três movimentos que consideramos fundamentais para o seu entendimento posterior quando examinarmos a relação que pretendemos fazer com a educação e. Isto quer dizer que o modo como Leucipo e depois Demócrito compreendiam a realidade. os átomos se atraindo e se repelindo. também esse mo‑ Homem_cultura_e_sociedade.January 10. em que sentido ideia. p. com a Pedagogia. podemos compreender que para os antigos o átomo não estava visível dire‑ tamente ao concreto. encontra o seu termo final num mundo quin‑ tessenciado e despotenciado. pela sua pequenez. não estamos vendo o círculo de fato. ficou marcado e influenciou muitos pensamentos.pdf. E então. pois é difícil declarar indivisível o que é perceptível aos sentidos e. Qual era o conceito de ideia? Reale (1993.indd 7 20/02/13 18:53 . 2000.] ideia é o visível. 2014 . Eles foram os primeiros materialistas do mundo ocidental. pois. 34-35). como os microscópios. Você deve estar se perguntando: como eles viram os átomos se não existiam equipamentos.

Cessando a respiração.159-160): O corpo humano. Assim é a explicação da vida humana para os atomistas. que. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Para ele tudo se origina da matéria e por ela se mantêm. como todas as outras coisas. de acordo com Demócrito.06:43:51 . eles tendem também sair do corpo. entrando e saindo do corpo. é constituído de um encontro de átomos. dessa forma. Homem_cultura_e_sociedade. a nossa educação esco‑ lar. 2014 . advém a morte. 88822-978-85-8143-641-8. se dividem em conhecimento obscuro e genuíno. é aquele que não vê na realidade algo que se aproxima da espiritualidade. visão. tato. e todos os átomos ígneos que estavam no corpo se dis‑ persam. audição e paladar) enquanto o conhecimento verda‑ deiro é aquele que está no intelecto e. mas tem uma alma (a vida mesmo) e. mais ainda. O ser humano não se constitui apenas de átomos. naturalmente. portanto. surgiram teorias de conhecimento e tendências pedagógicas. dos sentidos (olfato. Ainda Reale (1993. Para saber mais Atenção. de natureza ígnea. mas com a respiração são sempre reintegrados todos aqueles átomos ígneos que conseguem sair. e. é constituída de átomos mais sutis que os outros. esta vida também se constitui por átomos. O conhecimento obscuro advém das sensações. Sobre o conhecimento. O movimento atomista não deu conta. pois.PG-18 8  H o m e m . também a alma. c u lt u r a e s o c i e d a d e vimento apresentou falhas significativas em sua construção. por assim dizer. e assim. que é o que dá a vida e também o movimento ao corpo. estamos fazendo uma interpretação economicista e até de senso comum. Isto sim é ser um materialista! Depois temos dois movimentos (e aí completamos três. da mesma natureza do corpo. porque essa pessoa é consumista e não necessariamente materialista. Quando esse movimento cessa é porque o corpo morreu. A alma. conforme já anunciamos) que também influenciaram muito nossa cultura e. Esses átomos propagam-se por todo o corpo. Porque.indd ) . da natureza e do próprio ser humano a partir de um ente espiritual.January 10. das explicações acerca da existência do homem. lisos e esferiformes. Então vamos aprender bem para depois ensinar. leitor! Quando dizemos que uma pessoa é materialista porque gosta de comprar e dá extremo valor ao dinheiro e aos bens que ele proporciona. sem contato com o conhecimento obscuro. dessas duas. e assim o vivificam. mal se explica a sua superioridade sobre o corpo. da sua vida e do conhecimento.pdf.indd 8 20/02/13 18:53 . O materialista. segundo a teoria atomista. A alma não tem nada de sobrenatural. mas é um conjunto de átomos redondinhos. Pela sua sutileza. por sua vez. A alma é. eles explicam que o movimento dos átomos que chegam aos sentidos gera a sensação e o conhecimento. Uma pessoa materialista é aquela que não acredita na formação do universo. lisos e quentinhos (natureza ígnea que é uma palavra para designar fogo) que se movimentam.

na realidade. novamente. tornamo-nos diferentes do momento em que nos movemos para mergulhar. 88822-978-85-8143-641-8. Por exemplo: um bebê em uma criança. tudo se modifica ao longo do tempo. No entanto. os fenômenos que compõem a realidade e a vida propriamente dita passam por mudanças constantes e eternamente.PG-19 A transição do mito ao logos  9 Os dois movimentos ficaram conhecidos como mobilismo e monismo. p. no perene devir. também. tudo se move constantemente. O mundo. p. já é outra a água que se encontra. Sempre há mudanças. Mas. seu nascimento ocorreu em final do sé‑ culo VI e início do século V a. A semente se transforma em árvore que dá frutos e. também. se tornou a frase (ou fragmento de seu pensamento) mais conhecida no mundo acadêmico e fora dele. um contínuo conflito dos contrários que se alter‑ nam. seu pensamento filo‑ sófico marcou o pensamento ocidental de forma definitiva. que se acrescentam e se dispersam. que se transforma em um adolescente que se transforma em um adulto que envelhece e morre. A frase é: “Não se pode descer duas vezes ao mesmo rio” (HERÁCLITO apud REALE. Para explicar isso. 1993. Os problemas filosóficos que o antecederam não explicaram o dinamismo. A natureza.64) ensina ainda sobre essa frase: [.indd 9 20/02/13 18:53 .C. mas na realidade é feito de águas sempre novas. 65): O devir é.. real e perceptível aos sentidos.06:43:51 . No entanto. dado que as coisas só têm realidade. então. a semente. 64).] o rio é aparentemente sempre o mesmo. e porque nós mesmos mudamos. a guerra revele como o fundamento da realidade das coisas: a guerra é mãe de todas as coisas e de todas rainha. Reale (1993. ou como Heráclito dizia: é um constante devir. Nada permanece igual. tudo se transforma sem parar. é uma guerra perpé‑ tua. apresenta essa transformação. pois. porque. jus‑ tamente. O devir é. No entanto.. Isto quer dizer que nada permanece e há movimento em todos os aspectos. p. depois. por consequência necessária. um eterno conflito assim descrito em Reale (1993. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. quando se desce a segunda vez. Trata-se de um ciclo. O que se tornou popular dessa frase é a ideia de que o rio muda sempre (renovando suas águas) e as pessoas se modificam constantemente (envelhecendo a cada segundo). 2014 . como veremos. não há um consenso na historiografia sobre o período exato do seu nascimento e morte.January 10. Há também a questão dos opostos onde o devir se harmonizam. ele utilizou o exemplo de um rio que. Heráclito nasceu em Éfeso e por isso tinha o nome da cidade natal como sobrenome (Heráclito de Éfeso). Uma coisa se transformando em outra. no momento em que completamos a imersão no rio. Um se contrapondo ao outro. por isso à mesma água do rio não se pode descer duas vezes. No bebê há o devir da velhice porque ele irá passar por todos os processos de transformações da vida.pdf. Heráclito percebeu e falou sobre o seguinte: nada fica imóvel para sempre.indd ) . Homem_cultura_e_sociedade. é uma perene luta de um contra o outo. não se pode reduzir o pensamento de Heráclito ao aspecto do de‑ vir apenas no processo de transformação.

p. não se transforma nunca. também e ao mesmo tempo. guerra-paz. invisí­ vel aos nossos sentidos e visível apenas para pensamento” (CHAUI. provoca as transformações existentes. Assim. 211). Esse movimento defende a ideia de uma realidade única.. fome das coisas. eterno. embora percorrendo os seus caminhos. fome-saciedade.] difícil é a luta contra o desejo. não pode ser verda‑ deiro. pois o que este quer. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. O que muda. Mas ele disse mais: tudo se constitui. é vida que vive da morte do combustível. E. estando em movimento cons‑ tante. unidade de contrários.] a felicidade não pode se constituir nos prazeres do corpo: se assim fosse. que as destrói e faz perecer. É nesse contraste que se cons‑ titui a harmonia. fome e saciedade. 71). vale dizer. fogo e água. Outro ponto importante no pensamento de Heráclito é a formulação do princípio de tudo e de todas as coisas: o fogo. 2014 ..06:43:51 .. Para ele. com isso. ou seja. é.. é perenemente móvel. 2002. Agora vamos entender um pouco do monismo que está representado por Parmê‑ nides. e saciedade das coisas. pelos contrários. Assim: O fogo. Para ele.January 10.. Heráclito expressou alguns pensamentos que afirmaram que esta (a alma) tinha propriedades muito diferentes do corpo. Parmênides também é considerado o filósofo que inaugurou a ideia de SER. compra-o a preço da alma” (REALE. 70.] o ser é sempre idêntico a si mesmo. para Heráclito e seus seguidores estava entendida que a realidade natural de constitui pelo movimento (daí a palavra mobilismo) e nada permanece igual para sempre e tudo vai se modificando no decorrer do tempo.indd ) . 68). de fato.pdf. é única e imutável. também. imperecível. isto é. 1993. A paz é buscada porque existe a guerra. encontramos no pensamento desse filósofo alguns pensamentos sobre moral. Sobre essa ideia encontrou‑ -se um fragmento que está registrado em Reale (1993. c u lt u r a e s o c i e d a d e É importante compreender que essa guerra de Heráclito é. é incessante transformação em fumaça e cinzas. p. p. Homem_cultura_e_sociedade.indd 10 20/02/13 18:53 . imutável.PG-20 10  H o m e m . o fogo. como diz perfeitamente Heráclito do seu Deus. “[. O real e a verdade consistem naquilo que não muda. eu faz as coisas serem. felizes seriam os bis diante do feno [. Você percebeu que essa é uma ideia presente em nosso cotidiano? Nós sempre di‑ zemos que tudo passa. O mundo se compõe de quente e frio. mas a verdadeira realidade não se movimenta. unidade dos contrários) (REALE. não existe. seco e úmido. p. O movimento e as transformações que percebemos são apenas aparentes e. grifo do autor): “Os confins da alma não os encontrarias nunca. mas foi o Heráclito quem percebeu isso na realidade natural. com efeito. amor e ódio e daí por diante. Para Parmênides os nossos sentidos não são capazes de conhecer a realidade como de fato ela é. fica claro também que o Deus heraclitiano (que já tinha sido chamado de noite-dia. tão profundo é o seu logos”. Quanto à alma. Por fim. E como ela é? Parmênides responderá que temos a ilusão de movimento. 88822-978-85-8143-641-8. 1993. paz. tudo é passageiro.. sem mudanças e sem transformações. “[. Porque para ele o Ser é idêntico a si mesmo e não se modifica.

fc.htm>. Toda a concepção essencialista de mundo e de homem tem sua inspiração em Parmênides. 2014 . Todos seriam alguma coisa e. que é frio. seguidores de Parmênides. assim. 88822-978-85-8143-641-8. Só elegemos os primeiros por considerá-los fundamentais para o nosso estudo. Se você quiser saber mais dos pré-socráticos acesse os sites: <www.indd 11 20/02/13 18:53 . a unidade.indd ) . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Pensar é contemplar o to on. inexistente. Para esses filósofos.educ. <paxprofundis. Demócrito. Segundo Chaui (2002. Mas pensamos ser. como Tales de Mileto. como o gelo. isso é.com.PG-21 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   11 Os seus seguidores ou discípulos ficaram conhecidos como os Eleatas (Escola Eleata).pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola/socrates/presocraticos. Isso é impensável. Outros que não estão citados.org/livros/presocraticos/filosofos. p.pdf. a identidade.htm>.uol.ul. Por exemplo: como alguém pode ser bonito e feio ao mesmo tempo (alguém acha bonito e outro feio). o ser. são muito importantes e também influenciaram o pensamento Ocidental. Percebemos a Natureza na multiplicidade das coisas que se trans‑ formam uma nas outras e se tornam contrárias a si mesmas.January 10. a imutabilidade e a eternidade daquilo que é em si mesmo. Questões para reflexão Vamos dar uma paradinha para refletir sobre o tema apresentado até aqui: Como você avalia os argumentos de Heráclito e Parmênides? Você os reconhece em nossa vida e em nosso cotidiano? Existe alguma coisa que permanece e outras que se modificam? Homem_cultura_e_sociedade. uma coisa ou um ser que fosse ao mesmo tempo uno e múltiplo não poderia existir por que não seria nada. Heráclito e Parmênides — não foram os únicos filósofos daquele período. <educacao. Saiba mais Os quatro filósofos apresentados — Leucipo. Perceber é ver aparências.br/filosofia/pre-socraticos-origens-da-filosofia-e-os-primeiros-filosofos- -gregoshtm>.06:43:51 . não seriam. ao mesmo tempo. Pensar é contemplar a realidade como idêntica a sim mesmo. esse antagonismo era impensável e. pode queimar? Para ele. 212): O que Parmênides afirmava era a diferença entre pensar e perceber.

] no nível de filosofia moral. o texto é um encorajamento para aqueles que buscam o conhecimento. que irá fundamentar a ideia de uma filo‑ sofia moral. c) outra ainda é a filosofia moral. tiveram algum tipo de organização (mínima) para a manutenção do grupo. 2014 . os gregos impressionam-se pelos atos de seus heróis (Ulisses. 179-180) explica da seguinte forma essa questão: [. busca estabelecer não regras que valham para casos particulares. Antes disso. Helena. está na condição da determinação orgânica o princípio da moralidade. todos os homens a possuem [. mas sem nos aprofundar muito. busca estabelecer nexos e ligações universais e necessários. ofereceu um sentido ou uma concepção ética um pouco mais geral. está na busca de uma essência humana. como explica Reale (1993.. a razão vai além do particular. O segundo momento do pensamento filosófico está marcado por Sócrates e o movimento sofista. Assim. A) moralidade ou conduta moral. que é a busca de um princípio das normas que regem a vida. c u lt u r a e s o c i e d a d e   Seção 2  O movimento sofista e socrático Neste espaço vamos conhecer uma parte muito importante para nossa compre‑ ensão do tema e.... Mas antes de começarmos uma reflexão sobre a questão ética dos sofistas é preciso algum entendimento sobre as distinções sobre a questão moral... 181): “[. e para compreender a fundo a dife‑ rença daquela sobre esta. Vamos conhecer os sofistas e Sócrates. Vamos nos ater à questão da filosofia moral. havia uma reflexão ética antes da Filosofia. esse filósofo que escreveu seu nome na História da humanidade se preocupou em compreender o agir do homem na polis.January 10. Trata-se de uma motivação externa. Ou seja. na Grécia Antiga. Homem_cultura_e_sociedade. por isso. desde o período primitivo. C) [.. Enquanto os pré-socráticos se preocupavam em compreender o mundo natural. Reale (1993.indd ) .. A importância de Sócrates está centrada na mudança do eixo das discussões ou dos problemas a que ele se dedicou. Homero. no período pré-filosófico. Penélope e outros/outras). 88822-978-85-8143-641-8. em sua Odisseia. C. b) outra são as convicções mo‑ rais que os homens expressamente professam. as questões morais tinham como funda‑ mento as explicações mitológicas.. Quando dizemos que Sócrates inaugurou a ética.] para examinar. ou seja. B) também as convicções morais são uma herança espiritual de todos os homens [.]. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. é necessário que procedamos a algumas distinções terminológicas. vamos apresentar o segundo momento da Filosofia na Antiguidade Clássica. Pode-se dizer que ele inaugurou o problema da relação entre ética e política.06:43:51 .indd 12 20/02/13 18:53 . Além disso.pdf.] o homem reverente e obediente aos deuses tem sempre vantagem sobre os homens prepotentes e maus. embora brevemente. p. os quais não podem fugir à vingança divina”. da máxima importância: a) uma coisa é a moralidade ou conduta moral. Todos os povos. Esse princípio. mas. Aquiles. Esses atos são estimula‑ dores de um comportamento para um ordenamento moral e social. que compreende o período do século V e VI a.PG-22 12  H o m e m . p. as características da reflexão moral pré-filosófica. em geral.. Heitor. significa que ele sistematizou essa área de conhecimento.] mesmo os primitivos e os selvagens.

uma classe emergente que exigia participação política.indd 13 20/02/13 18:53 . Não há um consenso sobre alguns nomes desses sábios. Foi nesse período que Sólon inicia uma reforma de governo instituindo a democracia no lugar da aristocracia. Por outro lado. a qual reclama a expiação. Mas é preciso deixar registrado o importante momento político de Atenas­ naquele período fazendo com que a Filosofia deixe de ter uma preocupação norteada pelos fenômenos naturais e passe a se constituir culturalmente naquele contexto. Os filósofos e historiadores se divergem entre um e outro nome. 88822-978-85-8143-641-8. com o desenvolvimento da atividade comercial. Transcreveremos aqui os sete sábios elencados por Platão. Platão e Aristóteles foram profundamente influenciados pelos sete sábios gregos que os antecederam. Pítaco. 40).C. Isto significa que a sociedade grega estava passando por profundas modificações em todos os segmentos. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.PG-23 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   13 Outro grande e notável poeta registrado pela historiografia é Hesíodo. Sólon. máximas e sentenças. bem diferente) de Sócrates. conforme Reale (1993.January 10. os sofistas também fizeram história porque se dedicaram às ques‑ tões éticas e políticas. mas é a única via que resta ao homem para viver. Ensina. 181-182): [. dando origem a uma classe mercantil politicamente muito influente (477 a.. Para Hesíodo. Apenas isso. Quíton”. mas sobretudo porque o poema con‑ tém preceitos. Ainda Reale (1993. A historiografia registra que Sócrates.06:43:51 . 182) “São eles: Tales. mas de uma forma diferente (aliás.) (MARCONDES. Míson. que finalmente assumirá a hegemonia através da liderança da liga de Delos. quem não trabalha deve recorrer à injustiça.indd ) . p. o ideal de uma vida virtuosa estava atrelada ao trabalho diário e duro. A concepção ético-religiosa da vida delineia-se de maneira nítida em Hesíodo. Os males dos quais os homens sofrem são a punição infligida pelos deuses por causa da arrogância dos próprios homens. A política estava passando por uma reforma de governo e o comércio modificando os costumes locais com a influência de outros povos nos locais de intenso comércio e. também. p. o trabalho como tal.pdf. Outros filósofos também refletiram e apresentaram suas concepções de vida moral no período que antecedeu à filosofia clássica. 2014 . p. Bias. com a consolidação das várias cidades-estados e com a organização da sociedade ateniense. Homem_cultura_e_sociedade. Há um progressivo enriquecimento proveniente do comércio e da expansão marítima. a seguir uma vida com moderação. Cleóbulo. a punição. ainda. a cotidiana fadiga sem prêmio. 2000.] o ideal da vida camponesa elevando à mais alta dignidade moral o humilde sacrifício de cada dia. Em seu poema O trabalho e os dias ele ensina que a vida dedicada ao trabalho eleva o ho‑ mem. O duro trabalho vincula‑ -se a culpas humanas. Vejamos: Esse surgimento corresponde ao começo da estabilização da socie‑ dade grega..

Entretanto. por todos os cidadãos. Mas esse discurso tinha uma característica No entanto. crianças e estrangeiros.­ Platão e Aristóteles). Platão e Aristóteles eram aristocratas e tinham uma vida boa. enfraquecem a (Sócrates. arte do discurso. Mas alguns historiadores registraram que eles Para saber mais chegaram a Atenas para ensinar tão somente a A palavra sofista significa: sábio. que a aristocracia estava em decadência. mesmo assim a sua condição de aristocrata Sólon foi governador de Atenas foi mantida). isso causava uma grande irritação nos filósofos cínios enganosos. Mas essa democracia porque na democracia todas as vozes podem ser ouvidas e todos os interesses podem ser contem‑ era escravista e mantinha o Estado plados. enganador. Além disso. sabe-se saber. Diferente dos sofistas. dania. eles cobravam para ensinar e aquele que. entretanto ela oferece espaço público para que todos possam se manifestar. que não con‑ verdade. que eles ensinavam também outros conhecimen‑ tos. porque na verdade nem todos são contemplados com a distribuição de riquezas. de 21 anos. possuidor do acontecia o debate político. as mulheres. que não tinha absolutamente nada e cobravam de quem os procurava. na Ágora. ou seja. c u lt u r a e s o c i e d a d e Mas por que Sólon.indd ) .January 10. Homem_cultura_e_sociedade. Mas é importante saber que Sócrates era um soldado e recebia o soldo (pagamento) mesmo se não hou‑ vesse guerra. Mas a condi‑ Democracia: do grego demo = ção de cidadão exige que ele seja homem. Ah! Agora temos a figura do cidadão Para saber mais que se manifesta em praça pública. resolveu mudar o modelo de go‑ e realizou profundas mudanças. Os sofistas chegaram de toda parte da Grécia com uma bagagem de conhecimentos considerá‑ vel. É nessa nova fase da Grécia que surgem em Atenas os sofistas e Sócrates. verno para a democracia? Em primeiro lugar por‑ Dentre elas. maior povo e kratos = poder. e depois mocracia. cebiam a ideia de ensinar por dinheiro.pdf. a instauração da de. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. nascido em Atenas e proprietário de terras. um discurso sentido negativo com Platão e vazio. Ficaram excluídos desse modelo de cida‑ Portanto: poder do povo.06:43:51 .PG-24 14  H o m e m . que assim os definiam: dade. já que agora era na Ágora que especialista no saber. porque era desprovido de ver‑ Aristóteles. porque agora todas as deliberações são tomadas em as‑ sembleia em praça pública. Essa é uma das boas características da democracia. 2014 . 88822-978-85-8143-641-8. dividido por classes sociais. fazendo uso de racio. o termo ganhou um porque se tratava da retórica. Veja bem: podem! Não significa que são.indd 14 20/02/13 18:53 . que era um aristocrata (sem dinheiro porque sua família perdeu todos os Para saber mais bens.

indd 15 20/02/13 18:53 . sobre a diferença entre livres e escravos. Os sofistas profissionalizaram o conhecimento. portanto. 196-197). Esse período foi marcado. mais especificamente. O período marcado pela sofística. 194): [. Ou seja. Seu método? A Maiêutica. deixou um modelo de Filosofia. além do método empírico-indutivo. para ensinar. Assim explica Marcondes (2000. Agora a palavra se tornou mais importante. p. pela liberdade de espírito. sobre a origem e a essência da religião. ainda cobravam por esse saber. p. além de mudar o eixo das discussões engendra‑ das pelos pré-socráticos ou filosofia naturalista. mas racional. Mas não uma palavra qual‑ quer.] a sofística tem seu ponto de partida na experiência e tenta ganhar o maior número possível de conhecimentos em todos os campos da vida. em parte. 1993.PG-25 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   15 Quem os procurava eram os jovens da aristocracia que estavam encantados e ansio‑ sos para demonstrar a retórica em praça pública. Seus problemas? Todos os que envolvem Homem_cultura_e_sociedade. estava distante da vida ordinária dos homens comuns. Os sofistas sofreram preconceitos porque iam de cidade em cidade vendendo conhecimentos e “portanto. o progresso e o fim da cultura humana. naturalmente. Isso. em parte de natureza teórica.. Os sofistas marcaram presença. sobre a configuração da vida do indivíduo e da sociedade. p. O grego alimentava. É nesse momento que a Filosofia toma um corpo diferente da Filosofia dos pré‑ -socráticos.C. mas foi Sócrates quem deixou um legado. infringirem a fidelidade à sua cidade. um projeto. Os ensinamentos dos sofistas tinham um fim prático que se distanciava do ideal de busca teórica. extrai algumas conclusões. ao invés.indd ) . no entanto. Seu projeto? Encontrar o verdadeiro conhecimento. de pensamento. um sentimento de cidadania muito profundo. entre outros fatores. 88822-978-85-8143-641-8. rompendo o laço que o grego considerava intocável” (REALE. tais como: o que é a verdade? Quais os princípios da razão? Com base em que critérios se pode justi‑ ficar aquilo que se diz? É neste sentido que podemos entender o contexto histórico e político de surgimento do discurso filosófico. dos quais. de natureza prática. sobre a origem e a constituição da língua. como por exemplo sobre a possibi‑ lidade do saber. Eles inverteram a lógica marcada pelo modelo da tradição dos pré‑ -socráticos e inauguraram a lógica da racionalidade em busca da compreensão da dinâmica do cotidiano. portanto.January 10. também adotou um novo método que ficou indentificado como o método empírico-indutivo.. Platão e seus discípulos consideravam como sinal de baixeza moral o ato de cobrar para educar.pdf. que. o saber e. da filosofia. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. um método e muitos problemas que ainda estão presentes no campo filosófico.. depois. Conforme Reale (1993. helenos e bárbaros. 41): O surgimento da filosofia corresponde.06:43:51 . à busca de bases para essa discussão legítima. 2014 . afinal. sobre as origens. que encontra seu apogeu nos séculos V-IV a. segundo o modo empírico-indutivo. dava uma conotação de empobrecimento da busca pelo conhecimento verdadeiro. Ela procede. A linguagem utilizada nos discursos precisa ter uma significação e justificativas com fundamentação racional. na Ágora.

. Essa é a ideia ou o conceito de PAIDEIA. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. na lógica. que com a Democracia se tornou um espaço público onde os atenienses iam apresentar e de‑ fender suas ideias para governar a Pólis. A Paideia é o termo utilizado pelos gregos para indicar educação.indd 16 20/02/13 18:53 .. ação Homem_cultura_e_sociedade. Platão e seu mestre Sócrates partiram do seguinte princípio: “[. dagógico sim. da classe aristocrática. com Sócrates era muito diferente! empregá-la (JAPIASSU. como veremos depois). Como nos ensina Nogueira Junior. Eles queriam aprender a retórica que os sofistas ensinavam de forma bri‑ lhante. que indica formação do caráter. do discurso.indd ) . Tanto Sócrates quanto os sofistas viviam rodeados por jovens que os admiravam. Por que eles queriam aprender a retórica? Para falar na Ágora. Mas é muito importante que todos saibam que esses sofistas não tinham compromisso com a verdade e tudo o que eles ensinavam não passava Para saber mais da superfície. eles tinham um projeto pe‑ RETÓRICA (do grego. seria preciso uma educação que contemplasse o cultivo daquilo que há de melhor no ser humano. No entanto. eles ensinavam em um discurso persuasivo. Para que a Pólis superasse a crise pela qual estava passando. e com a finalidade de fazer com que o sujeito alcançasse o verdadeiro conhecimento com a fi‑ nalidade de formação integral do sujeito. A completa do sujeito. a crise assolou a cidade” (NOGUEIRA JUNIOR. vimos que o modelo de sociedade vinculado ao modelo educacional esteve presente como problema filosófico desde sua fase inicial. Esses jovens.] como as crianças e os jovens não receberam formação adequada e pertinente ao desenvolvimento de virtudes que levavam ao bem comum.06:43:51 . Chamamos a sua atenção para esse ponto muito importante. mas na habilidade em No entanto. Para que haja uma cidade onde se efetivasse a justiça para todos. podemos dizer que linguagem utilizada não se baseia se tratava de uma formação superficial. Ele tinha um projeto pedagógico mais consistente DES. Como isso é possível? Ora.January 10. c u lt u r a e s o c i e d a d e o agir do homem: O que é o bem? O que é a justiça? O que é a verdade? O que é o amor? E tantos outros. Falamos de uma sociedade sem prin‑ cípios. A educação deveria contemplar um projeto de cidadania que promovesse a ideia de participação coletiva. “Paideia é o termo grego para educação. 2009. MARCON. sem escrúpulos e creditamos esses vícios ao modelo educacional deficiente. p. foi um conceito inaugurado na Modernidade. arte da ora.PG-26 16  H o m e m . E educação é a formação completa do homem desde a sua infância. 2014 . mas apenas para dar um “lustro” no tória): Arte de utilizar a linguagem aluno. 1996). seria necessária uma educação desde a infância para a formação do homem com todas as virtudes do bem comum. mas essa formação meio do qual visa-se convencer a não tinha um compromisso de uma formação audiência da verdade de algo.pdf. Hoje falamos em fracasso escolar. e não um projeto centrado no indivíduo (que. Sócrates e seu discípulo Platão entenderam que a crise instalada em Atenas era resultado de um modelo educacional fracassado. Por fim. 88822-978-85-8143-641-8. Pois bem. 27). queriam aprender a arte da argumentação. por uma cultura geral ao aluno. Ou seja. aliás.

ul. ele foi preso e condenado à morte por um veneno conhecido como cicuta. (NOGUEIRA JUNIOR. o conheci‑ <www. ensinando de forma considerada pelos filósofos antigos como superficial.. Sócrates formulou um método que se norteava pelo diálogo: A Maiêutica. de coragem — só para apresentar alguns — porque. Para ele. para Sócrates e Platão. Para o leitor entender melhor daremos alguns exemplos.06:43:51 .pdf. Dessa forma. Mesmo os sofistas. um projeto pedagógico. Ensinar o verdadeiro conhecimento opombo/hfe/momentos/escola/ (não aquele conhecimento ilusório dos sofistas) paideia/conceitodepaideia. p. 2009.PG-27 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   17 de conduzir as crianças na trilha da virtude. tendo a justiça como fundamento” educação. foi um mestre assumido e por excelência! Homem_cultura_e_sociedade.educ. os jovens que se dispunham a aprender e que estavam dispostos a alcançar o verdadeiro conhecimento começavam a interpretar a realidade. A verdade não pode ser flexível e mudar sempre que for conveniente para alguém — que era o que os sofistas ensinavam. Para ele o conceito de uma ideia jamais poderia mudar. Para Sócrates precisamos encontrar o conceito de justiça.indd ) . ou simplesmente.htm>. Quanto a Sócrates. de bon‑ dade. 2009. Renato. promoveram uma forma de educação e um debate. conhecer é conceituar! Os conceitos são imutáveis e universais. 88822-978-85-8143-641-8.] a essência Acesse a Biblioteca digital: NO- de toda a verdadeira educação ou Paideia é a GUEIRA JUNIOR. Explicamos tudo isso para mostrar ao leitor que as mudanças sociais. a democracia e. Apren- que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tor‑ dendo a ensinar: uma introdu- nar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e ção aos fundamentos filosóficos da a obedecer. com ela. Os seguidores de Sócrates não eram superficiais como os seguidores da maioria dos sofistas. nasceu também um projeto de educação.. morais. 27). ou seja. de amor. Platão Saiba mais define Paideia da seguinte forma “[. uma vez encon‑ trado o conceito de cada um. Esse comportamento incomodou a classe governante porque esses jovens passaram a contestar o modelo de governo instaurado em Atenas.indd 17 20/02/13 18:53 . o cotidiano e tudo que o envolve (questões éticas. de bem. por isso. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. cultura” (NOGUEIRA JUNIOR. econômicos. políticas — principalmente políticas!) de forma reflexiva e crítica. encontraríamos a verdade que os constitui. era imprescindível para a formação do homem vir‑ tuoso para que a cidade fosse justa.pt/docentes/ mento tinha um alcance educacional. 28). E também acesse o site: Portanto.January 10. Pensando e falando sobre essa forma de alcançar o conhecimento. políticas e econômicas ocorridas na Grécia Antiga projetaram uma nova forma de filosofar e. E o verdadeiro conhecimento para Sócrates está no conceito. Porque nesse momento em que a filosofia se ocupa por questões éticas e políticas também está se ocupando da for‑ mação de um novo sujeito que atua na pólis: o cidadão. É do debate que sus‑ citam os movimentos sociais.fc. O ideal educativo grego aparece como Pai- deia. Curitiba: IBPEX. políticos e educacionais que é o nosso interesse aqui. p. 2009. formação geral que tem por tarefa construir o homem como homem e como cidadão. 2014 .

2014 . pelo sol. a forma verdadeira. Platão escolheu a forma dialógica para apresentar suas ideias — o livro todo é assim. a realidade verdadeira.January 10.C. 2008. Para Platão o conhecimento está no conceito (aprendeu com Sócrates) imutável e universal. de astronomia. um projeto pedagógico. A República. ou seja. enquanto o mundo exterior representa o mundo inteligível. No Mito da Caverna ele explica o que é o conhecimento. um importante cidadão aparece no cenário político e educacional de Atenas: Platão (427-348 a. das sensações ou dos sentidos (onde estamos). a política e. as sombras ou como ele dizia as cópias. Leia com atenção a citação abaixo. política e educação — não se desvinculam da formação humana do sujeito. a preguiça e a covardia que nos prendem às sombras e buscar o verdadeiro conhecimento. Assim. o mundo externo. ela explica muito bem o pensamento platônico.) (PAVIANI.indd ) .­Platão e Aristóteles (e todas as escolas que eles influenciaram). Uma Homem_cultura_e_sociedade. Vamos entender um pouco mais. está no mundo inteligível e chega-se a ele com um método de ascensão dialético. p. III. enquanto signo pedagógico. Platão divide o mundo em duas partes — ele foi um dualista — ou em dois mundos: o mundo sensível. A caverna é iluminada pelo fogo. apresenta a Teoria das Ideias. 88822-978-85-8143-641-8.). principalmente. a educação. é a representação da realidade sensível.PG-28 18  H o m e m . A pas‑ sagem das sombras para o sol representa o bem e corresponde às etapas da educação do filósofo.pdf. c u lt u r a e s o c i e d a d e   Seção 3 Do pensamento clássico aos medievais Quando falamos de pensamento filosófico clássico estamos nos referindo a: Sócrates. podemos dizer que. Para ele a busca do conhecimento tem o sentido do aperfeiçoamento humano porque o conhecimento verdadeiro leva o sujeito ao alcance do bem e quando isso acontece o homem está pleno em sua integralidade e em sua perfeição para bem conduzir a cidade. das sombras dos reflexos. Aqui. de harmonia e de dialética (522-535 a. IV e VII o registro de sua preocupação com o conhecimento.indd 18 20/02/13 18:53 . No mundo das ideias estão os verdadeiros conceitos.06:43:51 . sua obra mais conhecida. onde ele demonstra o seu conceito de conhecimento verdadeiro e para isso ele se utiliza de uma forma bem didática de um diálogo entre Sócrates e outros discípulos. só existe a aparência. onde estamos no mundo sensível (das sensações). como seu mestre Sócrates fazia — para que o processo de conhecimento se efetivasse. Eles formam a tríade que fundamenta o pensamento clássico do ocidente. onde ele está e como se chega a ele. Na passagem da ignorância para a sabedoria são relevantes os estudos de matemática.C. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Em sua importante e grande obra A República encontramos nos livros II. É importante destacar que as três dimensões — conhecimento. A caverna. a ideia real. mundo das ideias. Foi esse filósofo grego que deixou registrado em toda a sua produção literária a preocupação com uma formação educacional. 9). e o mundo inteligível. Com esse mito ele queria dizer que é preciso muito esforço e disposição para romper com as amarras que estão representadas pelo preconceito. depois de Sócrates.

mas o resultado de uma análise dos dados da realidade ou do próprio pensamento. pelo nascimento. Essas marcas estão em nossos preconceitos quando acreditamos que as pessoas já nascem com qualidades ou defeitos e que a educação não é capaz de transformar o que já está internalizado. Para entender melhor: a pessoa que se apropria do conhecimento verdadeiro precisa voltar e socializar esse conhecimento com os outros. Ou seja. isso também é Platão. peixinho é!” ou “pau que nasce torto. só depois. ele é considerado um IDEALISTA (porque o verdadeiro conhecimento está no mundo das ideias) e ESSENCIALISTA (a verdade está na essência do conceito que é imutável). essencialista. 88822-978-85-8143-641-8. por incrível que pareça. por último alcança-se o inteligível.indd 19 20/02/13 18:53 . Por outro lado. uma árvore. só teremos sofrimentos e no céu haverá uma tranquilidade eterna!”. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. mas a descrição e uma explicação da essência própria de um ser (que pode ser qualquer coisa: uma pessoa. o conceito (que é o verdadeiro conhecimento). 3)  Um conceito ou uma ideia não são formas de participação ou relação de nosso espírito em outra realidade. morre torto!” estamos reproduzindo uma filosofia essencialista. a condição do sujeito é inata. 213): 1)  Um conceito ou uma ideia não é uma imagem. 4)  Um juízo e um raciocínio não permanecem no nível da expe­ riência. Se cada um tem uma forma diferente de interpretar o real. O método dialético do mito da caverna se constitui de uma ascensão (uma su‑ bida) que vai do conhecimento mitológico e passa para a doxa (opinião). Para entender melhor a ideia de conceito. Para o nosso filósofo a opinião não é um conhecimento verdadeiro por ser relativo.pdf.PG-29 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   19 vez que alcançamos esse conhecimento é preciso dividi-lo com os outros para que todos possam se libertar das amarras do mundo das aparências ou da ignorância.indd ) . essa interpretação não pode ser verdadeira porque a verdade está no conceito que se constitui pela essência que não muda e é universal. quem interpretou Platão foi o bispo Santo Agostinho que. Quando dize‑ mos “filho de peixe. Esse modelo de pensamento filosófico nos deixou marcas profundas. Sua pedagogia é.06:43:51 . p. quando dizemos que: “aqui. Na Idade Média. para Platão. na pessoa. Por isso. assim. Platão acreditava em uma verdade eterna. 5)  Um Juízo ou raciocínio buscam causas universais e necessárias para explicar a realidade tal como ela é. 2014 . Esse conhecimento verdadeiro. reside apenas na essência do conceito. mas a compreensão intelectual delas (porque estão na ideia). mas. vamos recorrer à Chaui (2002. com Aquino. depois de algum tempo abandona a opinião e passa a se utilizar da razão e. neste mundo. a água etc. Podemos dizer que nesse caso o filosofar ou o exercício filosófico é um ato pedagógico. 2)  Um conceito ou uma ideia não são substituídos para as coisas.). do espaço e da pessoa. Ele estava dizendo que a opinião depende do momento. partindo dela (da experiência) sistematizam (organi‑ zam) em­ relações racionais que a tornam compreensível ao ponto de vista lógico. Esse modo de pensar foi absorvido pela filosofia cristã. representaram a filosofia essencialista na Igreja. Homem_cultura_e_sociedade.January 10.

January 10. o ponto explica as questões que são formuladas pela de partida do sistema filosófico. ou seja. Para isso brasílica. Os indígenas foram das ideias pedagógicas no Brasil descreve esse catequizados. garantia de uma cidade feliz.. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. mas em pysche. foram cris. a lógica. templava a ética. Também não falaria em “consciência”. consciência? (JAPIASSU. projeto pedagó‑ gico se mantém até o final da Idade Média em sua vertente religiosa. Saiba mais Continuando com Aristóteles: o interessante Dica de Filmes: disso é que o próprio filósofo grego. 88822-978-85-8143-641-8. 2010.indd ) . Homem_cultura_e_sociedade. Para compreender um pouco mais sobre a Para saber mais metafísica vamos recorrer à Professora Marilena Chaui. pensou em um projeto pedagógico Sobre o ensino na Idade Média. 206. modelo como uma “[. Sua filosofia con‑ Sobre os primeiros Jesuítas no Bra. que foi discí‑ pulo de Platão. a poética e sil: A missão. mas em “não ser”. interpretada cionalizado aqui no Brasil. que em seu livro Convite à filosofia (que Metafísica: A metafísica define-se pode ser baixado gratuitamente na Internet) como a filosofia primeira.PG-30 20  H o m e m . no sentido em que a empregamos hoje. 47). Ratio Studiorum (o projeto pedagógico dos jesuí­ gico trazido pelos padres jesuítas tas) e foi o primeiro modelo de ensino que se para ensinar os filhos dos colonos instituiu no Brasil. Saviani. 2014 . mas em “ente”. Esse modelo de co‑ importante explicar que a Ratio nhecimento nos chegou com os jesuítas pelo Studiorum foi o projeto pedagó. em Para saber mais geral nos mosteiros. lica. p.] verdadeira pedagogia tianizados e aculturados.indd 20 20/02/13 18:53 .06:43:51 . só foi usada a partir do século XVII. com o sentido que lhe damos hoje. p. 1996) [. só foi usada a partir do século XVIII (CHAUI. c u lt u r a e s o c i e d a d e Essa ideia de Filosofia como processo educacional e. alma.] um filósofo grego não falaria em “nada”. isto é. portanto. em seu livro História portugueses. 47).. pois a palavra objeto só foi usada a partir da Idade média e. metafísica: O que é uma coisa? O que é um na medida em que examina os objeto? O que é o corpo humano? O que é uma princípios e as causas primeiras. Com isso queremos explicar que durante a Idade Média a educação formal ficava por conta da Igreja. Não falaria em “objeto”. a metafísica e a ideia de educação. A ideia de conhecimento se norteava principalmente pela metafísica aristoté‑ Sobre o modelo de ensino institu. uma pedagogia formulada e não foi utilizado a Ratio Studiorum.pdf. a política. pois essa palavra.. naquele período. é muito por São Tomaz de Aquino. grifo do autor). isto é. praticada sob medida para as condições encon‑ tradas pelos jesuítas nas ocidentais terras desco‑ bertas pelos portugueses” (SAVIANI. 2002. MARCONDES.. que estava. Jamais falaria em “subjetividade”. no sentido de formar um governante virtuoso na assistam: Em nome do Pai.

Mas aqui tem uma Homem_cultura_e_sociedade. Pois bem. Nele há uma cena com o porque para ele não existia conhecimento sem filósofo ensinando alguns meninos passar pela experiência. e é por isso que dizemos nos dias atuais muito em “alcançar metas”. Aristóteles foi mestre de Alexan- No entanto. Mas. é um conhecimento puramente abstrato. mas nos conceitos formulados pelo pensamento. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. aqueles da física. de Platão.06:43:51 . Mas por que não falar logo de uma vez a palavra objeto? Porque nós estaríamos ferindo o vocabulário do Filósofo.C.indd 21 20/02/13 18:53 . Olhando em torno de si mesmo.indd ) . METAFÍSICA. depois que Aristóteles se desligou dre. recolheu e classificou todas as obras (de Aristóteles) que ficaram dispersas ou perdidas. Portanto. ta physika. localizavam-se após os tratados sobre a física ou natureza. É um conhecimento sistemático (organizado) porque Saiba mais os conceitos se relacionam de forma dependente. algum lugar onde devemos chegar. 2014 . Vamos entender um pouco mais sobre a metafísica. audição e paladar). mais especificamente Aristóteles. mas já percebemos que a linguagem se modifica constantemente. esse homem. 88822-978-85-8143-641-8. Ima‑ gine você que a filosofia tem. da aristocracia. Já vimos o que significa a palavra meta (depois). tato. Em seu primeiro momento os filósofos metafísicos. Então ficou assim: aqueles (escritos) que estão (catalogados) após os (escritos) da física. A Metafísica investiga a realidade em si de forma racional e não se baseia em da‑ dos conhecidos pela experiência sensível. em sua classificação. Isto para falar do nosso vocabulário em nossos dias. o filósofo se perguntava: o que é isso tudo que vejo.January 10.PG-31 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   21 Isso pode até parecer muito estranho para nós. As duas mantinham a interface nome. Mas é preciso lembrar que “a coisa ou ente” é o nosso “objeto”. por volta de 50 a. 25 séculos de vida e a linguagem humana. a palavra metafísica não foi utilizada por Aristóteles e sim por um organizador. pelo menos. ou uma espécie de “bibliotecário” das suas obras: An‑ drônico de Rodes. Aristóteles se referia a esses escritos como a FILOSOFIA PRIMEIRA. ou. verdade seja dita. Portanto. aquilo que existe. fundou uma escola para a pesquisa em‑ Assista ao filme com o mesmo pírica e o ensino. Por isso quando ouvimos um professor de Filosofia dizer que a pretensão de determinado filósofo é “conhecer a coisa em si” achamos que está divagando ou está muito longe da nossa realidade. Aristóteles Vamos compreender um pouco mais dessa ficou decepcionadíssimo com o palavra tão diferente em nosso vocabulário: META‑ comportamento violento com que FÍSICA. Aliás.pdf. o que Aristóteles designou como Filosofia Primeira. passou a ser conhecida como Metafísica. porque o seu tema era a o estudo do “ser enquanto ser”. ouvir e sentir (veja bem: ele utiliza todos os órgãos dos sentidos: visão. o Grande. Assim. Com a palavra grega ta meta ta physika. investigavam somente aquilo que é. A palavra meta significa depois ou acima Alexandre conduzia seu governo. muito mais do que isso. o organizador indicava um conjunto de escritos que. que posso tocar. Isto quer dizer que tem alguma coisa acima que precisamos ou devemos alcançar. olfato. A palavra ta aqueles. Andrônico.

Percebeu? Não se trata meiro lugar. Onto vem de dois substantivos: ta onta (os bens e as coisas possuídas por alguém) e ta onta (as coisas realmente existentes). para conhecer o mundo existente de fato como ele é. c u lt u r a e s o c i e d a d e diferença porque para compreender tudo o que existe é preciso ter o exercício ra‑ cional e apriorístico. é composta por duas palavras gregas: onto e logia.January 10. quando são constantes. é organizado. Ou. 88822-978-85-8143-641-8. Para Kant. ontologia.. Como demorou! Mas Hume demonstrou que os conceitos construídos pela metafísica não correspondem. as percepções e as impressões dos sentidos. é necessário abandonar a ideia de que o conhecimento é aquele que se nos apresenta pela experiência sensível ou sensorial (a partir dos órgãos dos sentidos). Esse primeiro momento foi longo e permane‑ ceu de Aristóteles. Jacobus Thomasius. Homem_cultura_e_sociedade. podemos entender que o filósofo Hume colocou um ponto final no primeiro período metafísico. Essa palavra. outro filósofo (dessa vez um alemão).. melhor ainda: entre realidade e aparências. Logo. decidiu que a palavra correta para designar os estudos da Filosofia Primeira ou Metafísica seria: ONTOLOGIA. afinal estão dizendo que: para compreender o real é preciso buscar o princípio (racional) de cada ”coisa” para conhecê-la (lembre-se de que nesse período não havia a palavra objeto) de forma verdadeira e não de forma fantasiosa. e se relaciona com outros. existe um sistema de Para saber mais organização. ele propôs um conhecimento a partir da nossa própria capacidade racional. Ou ainda. Por isso. a metafísica agora toma um caminho diferente daquele iniciado com Aristóteles e mantido pelos medievais. aos medievais. frequentes e regulares”. Isto é. sistemático. O que a meta‑ física fornece são apenas nomes gerais para as coisas ou ainda como explica Chaui (2002. 2014 .indd ) . principal‑ mente. Entre verdade e visão e audição. O ser é aquilo que realmente é e não aquilo que aparenta ser. paladar. é que aconteceu uma grande mudança conceitual. tre o que é e o que parece ser.indd 22 20/02/13 18:53 . no século XVIII.PG-32 22  H o m e m . ou seja. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. à realidade externa. podemos entender que Metafísica e Ontologia têm o mesmo significado. Essas duas palavras derivam do verbo ser. exatamente.pdf.06:43:51 . Outra palavrinha para complicar a nossa vida de estudantes. na antiguidade clássica. O sentido do conceito é aquilo que existe para nós e organizado por nossa razão. Somente com o filósofo David Hume (1711-1776). entre o que é real e o que é falso. que demonstra a impossibilidade da utili‑ zação dos conceitos construídos pela metafísica para se conhecer a realidade como esta se apresenta. tem uma lógica de encadeamento: um conceito depende de outros APRIORISMO: O que vem em pri. que era um inglês).] nomes que nos vêm à mente pelo hábito mental ou psíquico de associar em ideias as sensações. a partir de uma razão crítica. O conhecimento metafísico é. Mas quem deu o “pontapé” inicial para o segundo período desse modelo de conhecimento foi Immanuel Kant. Assim. que apreendemos com os cinco A primeira metafísica faz uma distinção en‑ sentidos — tato. 207): “[. de um conhecimento sem fundamentação. mentira. sem CONHECIMENTO SENSÍVEL: Aquilo critério e sem rigor metodológico. olfato. p. No século XVII (antes ainda de Hume.

A educação teria como especificidade. Pela educação. p. Dessa Homem_cultura_e_sociedade. encontram-se outras obras do filósofo e.] a educação tem como objetivo a felicidade. digamos assim. nesse sentido. é desenvolvido na pessoa. a ética e a política se constituem em ciências práticas porque nelas está a ação humana. que se preocupava em entender a natureza e os homens e. p. Para ele. No pensamento aristotélico é com o exercício da moral que se adquire a virtude e com ela o bem supremo. 45): Aristóteles propôs uma análise da vontade humana tomada como escolha deliberativa. Qual foi. “melhorar o ser humano”.06:43:51 . no campo da filosofia prática porque tem como finalidade a formação de virtudes no homem e a virtude é o caráter formado pela moral. o sujeito desenvolveria bons hábitos que o levariam às virtudes. Isso quer dizer que a pessoa (o sujeito) teria um comportamento natural‑ mente voltado para a realização do bem. que é a felicidade. refletida e racional. Toda forma de conhecimento considerado válido nesse período tinha que ter sua fundamentação nas verdades reveladas. mais especificamente. também conhecida como o bem supremo. Pois bem: já vimos que o projeto educacional na filosofia de Aristóteles tem um caráter ético e moral. a natureza humana.. dentre elas. Esse modelo de conhecimento permaneceu até a Idade Média. o homem é naturalmente um animal político por não conseguir viver sozinho e o Estado deve promover o bem‑ -estar de todos. Mas tem também um caráter político porque somente o homem virtuoso poderia governar a pólis mantendo-a feliz. 46). fundamentado no modelo teológico. Para ele. E nessa tarefa. no conceito essencialista de Platão. a educação tem o papel de suma importância porque deve promover a virtude. desde o nascimento. o uso da razão cultivado desde a infância é capaz de propiciar o desenvolvimento da moralidade. duas que apresentam uma ideia de educação: Ética a Nicômacos e A política. 2014 .. que acreditava em um caráter nato. A ideia de bem tem o sentido de controle racional de todos os impulsos. Essa concepção fundamentou a educação em toda a Idade Média.pdf. As ciências práticas tratam de nossas ações e de suas condições de possibilidade [.indd ) . então. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. e não uma característica natural (inata). O Estado deve legislar e garantir o cumprimento das leis e em vistas de seu objetivo deve criar condições suficientes para propiciar aos cidadãos a felicidade. E como se consegue isso? Pela prudência que está no equilíbrio das ações (na mediania). para Aristóteles. solidificando hábitos adequados e virtudes (NOGUEIRA JUNIOR. Diferente de Platão. Conforme Nogueira Junior (2009. O caráter.January 10. Esse pensamento está registrado na obra A política. Aristóteles postulava a ideia de uma educação que introjetasse no sujeito a ideia de bem e que construísse virtudes. 88822-978-85-8143-641-8. De modo geral. a especificidade do conhecimento na Idade Média? A resposta está no pensamento adotado pelo filósofo e religioso Tomaz de Aquino. Isto quer dizer que durante o período medieval o verdadeiro conhecimento estava norteado pela Metafísica e. A educação está.indd 23 20/02/13 18:53 .PG-33 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   23 Além da metafísica. 2009.

A citação acima nos ensina que Aristóteles não acreditava em um conhecimento ante‑ rior ao ser. que nascida com os antigos manteve-se com vocação formadora do sujeito e assim permaneceu até o final da Idade Média. Ou seja. que também não aceitou o pensamento platô‑ nico de ideias inatas.indd 24 20/02/13 18:53 . Tomaz de Aquino interpretou Aristóteles e levou para a sua obra o pensamento desse filósofo antigo. 88822-978-85-8143-641-8. Prova da causalidade eficiente 3. 2009. 243).] seguindo os passos do Filósofo. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Como ficou. Uma árvore tem a potência de uma cadeira. A especificidade da educação é formar o cristão devoto para servir à causa e o primeiro princípio: Deus. Por exemplo: a semente tem a potência de uma árvore. uma flor. que podemos entender como filosofia da escola. Prova de movimento 2.. à pessoa.January 10. Até aqui vimos que a Filosofia sempre esteve no âmbito da formação social. mesa etc. durante a Idade Moderna? Esse é um assunto para mais uma subdivisão nesta unidade.] promover a construção de homens que pratiquem hábitos virtuosos” (OLIVEIRA.indd ) . os homens vivem sempre em comunidade e nelas desenvolvem determinados hábitos que o conduzem para os vícios ou para as virtudes.PG-34 24  H o m e m . O pensamento de Aquino tem sua fundamentação em Aristóteles: [. 2014 . Esses hábitos estão relacionados à forma como os homens travam as relações entre si.. então. A educação pretendida aqui tem seu pressuposto filosófico em Aristóteles. Ou. c u lt u r a e s o c i e d a d e forma. o ensino cristão que tinha por finalidade alcançar a verdade por meio da razão.] esses hábitos não são inatos aos homens. mas é preciso instruir.. A ideia de movimento é de inspiração aristotélica — ato e potência. Logo. por ser a única forma de se alcançar o verdadeiro conhe‑ cimento. a escolástica foi um movimento da Igreja para conciliar a fé e a razão. p. O conhecimento não nasce conosco. 244). Aquino deixou o seu legado registrado na obra Suma teo- lógica. a Filosofia. [. o bom comportamento para se alcançar as virtudes e com elas a felicidade poderia e deveria ser ensinado. Prova da contingência 4.. Tomaz de Aquino foi representante do movimento medieval conhecido como escolástica. Prova dos graus de perfeição do ente 5.pdf. Ao contrário preci‑ sam ser aprendidos e ensinados por meio de instrução (OLIVEIRA. Uma coisa se transformando em outra. de forma resumida. Homem_cultura_e_sociedade. onde ele constrói seu pensamento em busca da prova da existência de Deus postulando cinco evidências ou provas: 1. As virtudes dependem de um exercício constante empreendido pelo sujeito. Prova da existência de Deus pelo governo do mundo A ideia da existência de Deus é ponto fundamental no programa educacional cristão da Idade Média. p.. o projeto educacional visto com as lentes de Aquino tinha por objetivo ensinar comportamentos e “[. 2009. o homem poderia servir a Deus em toda a sua plenitude.. isto é.06:43:51 . Além de representar a escolástica.

moralistas etc. os professores. propriamente para ensinar. modernidade. no período moderno. No início alguns intelectuais começaram a disseminar a ideia de que a criança tinha uma constituição diferente do adulto. mais impor‑ tante. Foi assim que nasceu a escola. Nos “novos tempos”. século XVIII e as crianças brincavam entre adultos nos afazeres domésticos dos quais ela participava No livro. Áries resgata a história da porque era considerado um adulto em miniatura: família desde a Antiguidade até a um homúnculo. muita coisa mudou e muitas outras coisas começaram a existir. A partir desse período a infância passa ser vista como uma fase em que o ser humano pensa e age de forma diferente do adulto e para isso seria preciso reservar um lugar especial para elas.06:43:51 . Tradução Dora Flaksman. explicações ou justi‑ ficativas para o surgimento da escola. mas vamos nos apropriar da interpretação de Ghiraldelli (2002. os homens de letras. p. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 1981. 88822-978-85-8143-641-8. mas antes de tudo para ser uma local no qual a infância pudesse ocorrer. nas mãos dos pais e de outras figuras que “apenas paparicavam as crianças” ou as tratavam como “coisas”. grifo do autor) porque compactuamos com ela: A escola na modernidade não nasceu. os sentimentos também foram sendo reconfigurados.indd ) . O professor deveria ser o guardião da infância e da juventude. Podemos compreender que tanto a infância quanto a figura do professor se con‑ figurou. mas o conceito de infância só surgiu na O historiador francês Philipe Áries modernidade.. os intelectuais — pa‑ dres. de fato. só aconteceria se as crianças estivessem nas mãos de especialistas — os educadores.. distribuição de tarefas domésticas mais adequadas à idade e. grifo do autor). 9. como por exemplo a infância. 8. no sentido de instruir. um sentimento de cuidado. e começaram a falar isso em um sentido bastante específico.PG-35 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   25   Seção 4  Filosofia dos modernos Com a Idade Moderna. primeiro brinquedo só foi surgir na Alemanha do Rio de Janeiro: Guanabara. É claro que as crianças sempre Para saber mais existiram. 2014 . Mas se de um lado a maneira de ver a criança Homem_cultura_e_sociedade. Passaram a fomentar um novo sentimento dos adultos em relação às crianças. p. Todas significativas. Antes disso não havia uma preocu‑ escreveu História social da criança e pação em fazer roupas apropriadas para elas. juristas. — começaram a dizer que as crianças eram seres diferentes dos adultos.pdf. 2002. o da família. enfim. incluindo roupas. de cultivo da criança. É muito importante ressaltar que há várias interpretações.] a infância passou a ser vista como uma fase natural e necessária à vida do ser humano (GHI‑ RALDELLI. Os intelectuais disseram que a infância não aconteceria nos lares. Leiam a citação abaixo.indd 25 20/02/13 18:53 .January 10. O conceito de infância gerou grandes modificações em muitos sentidos. pelo menos no Ocidente. [.

podemos afirmar que no grande obra sobre educação: Emí. Para saber mais ele registra a ideia da infância como um período positivo e a educação deve ser a mais natural e longa Podemos perceber que essas con. entre outras coisas. temos o filósofo Renè Descartes. da individualidade. ela toma teca digital no seguinte endereço: corpo como pedagogia. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. O professor partir delas efetivaram-se concei.January 10. não é um disciplinador. passaram a se colocar como funda. de criatividade. a contemporaneidade nas teorias e infância é um período de pureza.unopar. Se antes a criança era con‑ siderada um homúnculo. Saiba mais agora ela ganha o seu espaço e lugar. A escola tinha que promover a saída do sujeito de uma fase negativa — a infância — e conduzi-lo ao mundo dos adultos. Rousseau foi considerado um român‑ tico por ter criticado de forma contundente o projeto racionalista iluminista. o projeto car‑ <www. A autonomia nasce de fora para dentro com a ajuda de um adulto competente. mas de disciplina. por outro lado. Porque entendia-se que no período infantil as crianças não internalizaram as regras e por isso deveriam ser conduzidas da heteronomia à autonomia por meio de regras pos‑ tas pelo adulto. um adulto em miniatura. com os iluministas e o projeto lio. Ser adulto significava para o filósofo. o uso pleno de sua razão. tesiano — Renè Descartes — e o rousseniano — gos. essa fase. Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) dedicou uma obra ao projeto educacional: Emílio. embora considerarem natural e necessária. da racio‑ nalidade. Conforme Ghiraldelli.de filosofia romântica de Rousseau. era vista como um período negativo na vida do sujeito. pelo professor. como a concepção anterior. Além disso. No Emílio.pdf.PG-36 26  H o m e m . 2014 . Segundo ele.06:43:51 . Se na antiguidade a Filosofia surge com “sin‑ Jean-Jacques Rousseau deixou uma toma” de educação. ou seja. Por isso compreendemos que a escola no início da modernidade não tinha um caráter de ensino. Homem_cultura_e_sociedade.indd 26 20/02/13 18:53 . 88822-978-85-8143-641-8. Rousseau — se constituíram em pedagogias que se reconfiguraram como modelos educacionais ao longo da história. No século XVIII. da autonomia. a criança precisa ser duramente disciplinada para alcançar rapidamente o status de adulto na sociedade. possível para promover tudo o que sujeito traz de cepções filosóficas aparecem na positivo em seu nascimento. Para ele as emoções deveriam ser consideradas na formação humana e no projeto de conhecimento. considerado o século das luzes. Por isso e muito mais.htm>. e a tendências educacionais porque a autonomia deve vir de dentro para fora. que está disponível na biblio. c u lt u r a e s o c i e d a d e foi se modificando de forma positiva. mudar o eixo do projeto educacional. Rousseau é considerado mentos dos processos pedagógicos um marco na educação do período moderno por ou da Pedagogia. Dentre os intelectuais que construíram essa ideia de infância. período moderno. tos de infância e de educação que mas um amigo.br/bibli01/catalo. colocando o aluno no centro do processo de aprendizagem e valorizando a infância.indd ) . que acreditava ser a infância o pior período do ser humano.

10. que para ele tem sua gênese (e tem mesmo. Isso ele pensava em meados do século XIX.January da tirosinase.06:43:51 88822-978-85-8143-641-8. Também promove) a. Por fim. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.indd 27 20/02/13 18:53 .indd inibição da atividade . para Nietzsche.PG-37 provavelm pela a transição do mito ao logos 27 A filosofias modernas representados por Descartes e Rousseau. a educação não deve se nortear por um conceito de verdade universal e nem por uma ideia de bem maior ou universal. o saber pedagógico. 2014 . Determinam o caminho da busca da verdade como um percurso filosófico‑ ‑pedagógico. para a superação do próprio homem. imprescindível. a educação deve provocar a desconstrução. Em linhas gerais. Isso quer dizer que o filósofo rompe com a ideia de universalidade porque para ele a busca por uma verdade universal é perigosa porque soa inquestionável. que é dolorosa. podem ser consideradas filosofia da educação porque: Pretendem fundamentar todo e qualquer saber e.pdf. Assim. Isso quer dizer que a Filosofia tem a função de quebrar os ícones e as ideias construídas desde os antigos. a educação escolarizada é pensada na modernidade como a personificação das noções de progresso contínuo através de uma “razão universal e toda poderosa”. 83‑84. também. para a for‑ mação humana. Sua proposta é a desconstrução dos valores humanistas. o projeto moderno de educação tinha como objetivo preparar o ser humano para acatar o Estado. Mas ele vai além: desconstruir “a marte‑ ladas” (não no sentido literal). grifo do autor): O filósofo alemão endereçou críticas às instituições de ensino do século XIX e. Também. Ou seja. Homem_cultura_e_sociedade. que para ele são enfraquecedores do sujeito. Afinal. para uma superação a partir dos valores reformulados pelo homem em sua existência real. compreendemos que o pensamento de Nietzsche é construído em uma crítica ao modelo de racionalidade moderna. adequar‑se ao mercado e acreditar na ciência. Para ele. O projeto pedagógico moderno constrói o ethos. Seu projeto educacional é. Nietzsche é considerado o filósofo da contrarrazão por criticar e descontruir o modelo de racionalidade nascida na antiguidade e reformulada pelos modernos. está em franca decadência. e não como projeto ideal pretendido dos antigos até os modernos. bem como as tra‑ dições que delas originaram. p. A metade final do século XIX foi abalada pelo pensamento do filósofo alemão F. Segundo Nogueira Junior (2009. para superar a dicotomia entre alma e corpo. ao contrário de todos os sistemas filosóficos até aquele momento. desconstruir o ser humano. Nietzsche. já o mostramos nesta unidade) no pensamento antigo. ao projeto pedagógico moderno. por extensão. mundo real e mundo aparente (Platão). desconstrói o modelo de moral socrático e críticas ferrenhas ao modelo cristão.

page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. pouco antes de morrer ele encontrou Teeteto. Euclides — É que não me achava na cidade.PG-38 28  H o m e m . Quando estive em Atenas. Sócrates me falou pormenorizada- mente na conversa que então mantiveram. Por isso. muito digna de ouvir. Porém o pior éter apanhado a doença que atacou as tropas. através de Sócrates. s. divirta-se! Teeteto I Euclides — Voltaste há pouco do campo.). porém não se deixou convencer. c u lt u r a e s o c i e d a d e Aprofundando o conhecimento O texto que você irá ler a seguir é um clássico da literatura filosófica: Teeteto (PLATÃO. Terpsião — Pelo que dizes. Terpsião. porém muito mal. Terpsião — Não é de admirar. Terpsião — Por onde andavas? Euclides — Havia baixado ao porto. talvez? Euclides — Exato. tendo acrescentado que se ele chegasse a ser homem.06:43:51 . tomei alguns apontamentos sobre o que mais me impressionara. ao retornar. po- derias dizer-me? Euclides — Não. fatalmente se tornaria célebre. Terpsião — Disenteria. que transportavam do acampamento de Corinto para Atenas. Insisti com ele e o aconselhei muito.d. ressente-se bastante dos ferimentos recebidos. com admi- ração. Mas. e logo a conversar. Aproveite. Ambos a se conhecerem. como parece. Agora mesmo. Terpsião — Morto ou vivo? Euclides — Vivo. lembrei-me. Platão escrevia em diálogos como uma forma didática para apresentar suas teorias. procurei-te na praça do mercado e estranhei não encontrar-te. Estranho seria se ele fosse diferente. E a respeito de quê conversaram. aprenda e. 88822-978-85-8143-641-8. estamos na iminência de perder um homem e tanto! Euclides — De muito merecimento. pelo modo por que se houve na batalha. Homem_cultura_e_sociedade. de improviso.January 10. Terpsião — Só falou a verdade. o problema do conhecimento. ou já faz tempo? Terpsião — Faz bastante tempo.pdf. por Zeus! Assim. não me seria possível. Porém logo que cheguei a casa. Se mal não me lembro. tendo ficado Sócrates encantado com a natureza do rapaz. de como Sócrates foi bom profeta a respeito de muita coisa e também de Teeteto. que ainda era adolescente. Trata-se de um diálogo escrito por Platão em que ele discute. ouvi fazerem-lhe os maiores elogios. ao mesmo tempo.indd 28 20/02/13 18:53 .indd ) . 2014 . por que não ficou aqui em Mégara conosco? Euclides — Tinha pressa de chegar a casa. Terpsião. o acompanhei: e. quando encontrei Teeteto.

Foi assim que. Porém como me preocupo menos com eles do que com os de casa tenho muito mais curiosidade de saber quais dos nossos adolescentes revelam maior probabili- dade de distinguir-se. associada a singular valentia são qualidades que nunca imaginei pudessem existir ou que ainda venhamos a encontrar. e sempre tinha intenção de pedir que mo mostrasses. que em vez de Sócrates me relatar o ocorrido. ou Afirmo. pois. interrogava Sócrates acerca do que não me recordava com minúcias e. Ora. vale tanto a pena eu falar como ouvires a respeito de um adolescente que descobri entre vossos concidadãos. que no meio de tantos jovens que até agora conheci — e não têm conta os com que já tenho conversado — não encontrei nenhum com tão maravilhosa natureza. o livro. Porém a verdade — sem querer ofender-te — é que ele não é nada belo. Porém redigi de tal modo o diálogo. Mas. Euclides. de regra são sujeitos a acessos de cólera e se deixam levar à matroca. já te ouvira falar nisso. Terpsião — Foi uma excelente ideia. Euclides — Aqui tens. Teodoro. sempre que Sócrates fala: Digo. sobre se revelarem mais impulsivos do que realmente corajosos. e para isso interrogo as pessoas cuja companhia eles frequentam.January 10. Este. Por isso. Terpsião — Ótima ideia.PG-39 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   29 havendo posteriormente redigido mais de estudo o que me acudia à memória. enquanto repousamos. o que vinha diferindo até hoje. parece-se contigo em ter o nariz chato e os olhos saltados. não seria nada mal. 88822-978-85-8143-641-8. De fato. de regresso. para não pensarem que eu o fazia como apaixonado. Terpsião. caso tenhas encontrado algum jovem digno de menção. uma pausa. com exclusão de tudo aquilo. aliás em grau menos acentuado.06:43:51 . se entre os jovens há quem se dedique ao estudo da geometria ou a outros ramos do saber. não só pelo merecimento próprio como pela atração da geometria. entendimento rápido. Euclides — Eu. Referia-se ao geômetra Teodoro e a Teeteto.pdf. A facilidade de aprender como apenas se en- contraria em mais alguém. Vamos entrar. com referência aos interlocutores: Concordou. É do que sempre procuro informar-me com o maior empenho. Por isso. II Sócrates — Se eu me interessasse.indd 29 20/02/13 18:53 . Além do mais. Não concordou. falo sem o menor constrangimento. teria medo de manifestar-me. Sócrates. praticamente. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. avança com Homem_cultura_e_sociedade. e com razão. Sabe. por isso. Os mais ponderados são algum tanto preguiçosos e sumamente esquecidos. como. meu escravo nos fará essa leitura. como o fez. entretém-se com os que ele próprio declarou terem tomado parte na conversação. agora. com muito prazer ouvirei o que disseres. 2014 . também. os que são dotados de igual vivacidade. pois acabo de chegar do campo. pelo contrário. uma docilidade única. que nos impede de o lermos agora mesmo? Tanto mais. não deixaria de interrogar-te sobre seus homens e o que acontece por lá. Terpsião — É verdade. consegui reproduzir todo o diálogo. como navio sem lastro. dei ao trabalho feição de um diálogo direto entre ele e os dois oposito- res. por exemplo. particularmente pelas coisas de Cirene. Para não sobrecarregar o escrito com tantas fórmulas intercaladas no discurso. és tu quem reúne à tua volta o maior número de rapazes. Se se tratasse de um belo rapaz. que preciso descansar. acompanhei Teeteto até Erínio.indd ) . sempre que ia a Atenas. boa memória. Teodoro — Efetivamente. corrigia meu trabalho. ou.

Concluída essa parte. Quanto ao patrimônio. vem para perto de Sócrates! Sócrates— Isso mesmo. é filho de Eufrônio. ele e seus amigos acabaram de passar óleo no corpo. Diz Teodoro que é parecido com o teu. quando ele disse que fisicamente nós temos um quê de parecença. no que respeita à virtude ou à sabedoria: não seria justo que o ouvinte se apressasse a examinar o elogiado. 2014 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. não. Sócrates — Entenderá. Teeteto — Talvez não. Sócrates — E agora. de Símio. aceitaríamos de pronto o que dissesse. Teodoro — Agora mesmo. por sua vez. segundo penso. c u lt u r a e s o c i e d a d e naturalidade e segurança na senda do saber e da pesquisa. ou primeiro procuraríamos certificar-nos se ele entende de música. Sócrates — Porém suponhamos que fosse a alma de um de nós que ele elogiasse para o outro. porém não me ocorre neste momento. música e o mais que se refere à educação? Teeteto — Acho que sim. e muito.06:43:51 .January 10. Sócrates — Nem entende de geometria? Teeteto — Entende. um homem. Sócrates — Porventura Teodoro é pintor? Teeteto — Que eu saiba.pdf. Agora mesmo.indd 30 20/02/13 18:53 . para que eu próprio me contemple e veja como tenho o rosto. dar-lhe-íamos crédito de imediato. Sócrates — E uma vez confirmada sua competência. tenho a impressão de que vêm para cá. Sócrates. meu caro. Porém não sei como o filho se chama. Teodoro — Chama-se Teeteto. Sócrates. de ser de uma liberalidade incrível em matéria de dinheiro. não devemos atribuir maior importância a suas palavras. Vê se o conheces. Porém. no meio daquele grupo que se aproxima. exatamente como disseste ser o filho. consequentemente.PG-40 30  H o m e m . 88822-978-85-8143-641-8. deixou um patri- mônio considerável. se cada um de nós tivesse uma lira e ele declarasse que ambas estavam com igual afinação. é pessoa de caráter. ou seja isso à guisa de reparo ou como elogio. Mas ali vem ele. tenho ideia de que os tutores se incumbiram de gastar. na galeria externa.indd ) . não. que admira com tão poucos anos já tenha feito o que fez. precisaremos decidir se ele entende de pintura e. aliás. de astronomia. com doçura igual ao do óleo que escorre sem bulha. e este. Teeteto — É também o que eu penso. Sócrates — Ótima notícia! Mas de qual dos nossos concidadãos ele é filho? Teodoro — Já lhe ouvi o nome. em caso contrário. cálculo. primeiro nos certificaríamos disso. de reputação excelente e que. Sócrates — Pelo que dizes. Sócrates — Conheço. ademais. Teeteto — Isso mesmo. se pode opinar nessa matéria. também. Sócrates — Logo. Convida-o para vir sentar-se ao nosso lado. para falar com autoridade? Teeteto — Sim. Teeteto. se nos interessa de algum modo tal parecença. se prontificasse a exibir-se? Homem_cultura_e_sociedade. o que não o impede. Teeteto.

Teodoro. Reveste-te de confiança e não desfaças tua pro- messa. chegou a hora de te exibires e eu de examinar-te. se não se tratar de alguma brincadeira. interroga-o. se pensas desse modo. é a mesma coisa conhecimento e sabedoria? Teeteto — Sim. III ócrates — Pois então.January 10. tudo é fácil.pdf. Sócrates — E isso difere em alguma coisa do conhecimento? Teeteto — Isso. à maneira do que dizem as crianças no jogo de bola. sem nunca eu chegar a uma conclusão satisfatória: o que seja. Sócrates — Eu também. sob o pretexto de que ele quis pilheriar. jovem. não largues Teeteto. Porém não quebres teu compromisso. Bem sabes que ninguém o recusaria como testemunha. segundo penso. que o meu amor às discussões não me torne importuno. há um ponto insignificante que eu desejaria examinar contigo e estes aqui. Sócrates. quem não cometer nenhum erro. Sócrates — Não é do feitio de Teodoro. Não se é sábio naquilo que se conhece? Teeteto — Como não? Sócrates — Então. Porém pede a um destes meninos que te responda. será rei e ficará com o direito de apresentar-nos as perguntas que entender. pois não estou habituado a esse tipo de conver- sação e já passei da idade de aprender. Será que poderíamos defini-lo? Como vos parece? Qual de nós falará primeiro? Quem errar ou atrapalhar-se. uma vez que já começaste. conhecimento. Teodoro — De nenhum jeito. 88822-978-85-8143-641-8. porém nunca em termos tão calorosos como agora mesmo a teu respeito. assim estrangeiros como Atenienses. quando se é moço. como burro irá assentar-se. chegarás a ser importuno. pelo desejo de estabelecer entre nós um diálogo capaz de deixar-nos íntimos e apertar mais os laços de amizade. Convém saberes que Teodoro já me fez o elogio de muita gente. Teeteto — É como terei de proceder. Homem_cultura_e_sociedade.indd ) . Sócrates. 2014 . Não obstante. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Dize-me o seguinte: aprender não significa tornar-se sábio a respeito do que se aprende? Teeteto — Como não? Sócrates — Logo. Teeteto — Sem dúvida. que só terão a lucrar. Tudo isso fica bem para eles. é pela sabedoria. amigo Teeteto.indd 31 20/02/13 18:53 . esforço-me nesse sentido. Teeteto — É desvanecedor. para não o obrigarmos a depor.PG-41 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   31 Teeteto — Perfeitamente. propriamente. Sócrates — Dize-me o seguinte: não é verdade que estudas geometria com Teodoro? Teeteto — É. Por que não respondeis? Espero. com ele e com quem mais eu considere competente nesses assuntos. quê? Sócrates — Sabedoria. que os sábios ficam sábios.06:43:51 . Sócrates. dado que eu apanhe regularmente bem semelhantes questões. Sócrates — E também astronomia e harmonia e cálculo? Teeteto — Pelo menos. Sócrates — Eis o que me suscita dúvidas. Porém.

não é ver- dade? Teeteto — Exato. que é conhecimento? Teeteto — Terei de obedecer. Ou achas que alguém entenderá o nome de alguma coisa. o que disse Teodoro? Creio que não pensas em deso- bedecer-lhe. e extremamente liberal. 2014 . IV Sócrates — Perfeitamente. Homem_cultura_e_sociedade. Sócrates — És muito generoso. Sócrates. pois.January 10. Será que não me exprimo bem? Teeteto — Ao contrário. Quando te referes à arte do sapateiro. nem quantos conhecimentos particulares pode haver. e dás um bando. tudo o que se aprende com Teodoro é conhecimento. Sócrates — E a marcenaria. se desconhece sua natureza? Teeteto — De forma alguma. c u lt u r a e s o c i e d a d e Sócrates — Ouvistes. minha pergunta não visava a enumerá-los um por um. porém vou explicar-te o que penso. uma vez que o ordenais. Teeteto.PG-42 32  H o m e m . não acatar as prescrições de um sábio. 88822-978-85-8143-641-8.pdf. se eu cometer algum erro. por imaginarmos que nosso interlocutor compreende o que dizemos quando falamos em lama. muito embora acrescentemos que se trata da lama de fabricantes de bonecas ou a de qualquer outro artesão. Teeteto — Então. amigo. vós ambos me corrigireis. Cria coragem. em assuntos dessa natureza. exprimes-te com muita precisão.06:43:51 . Sócrates — Mas o que te perguntei. Sócrates — Para começar.indd ) . geometria e as disciplinas que enumeraste há pouco. Sócrates — Considera também o seguinte: se alguém nos perguntasse a respeito de alguma coisa vulgar e corriqueira. a meu parecer. não nos tornaríamos ridículos? Teeteto — É provável. não foi isso: do que é que há conheci- mento. em vez de algo simples. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. tens em mira apenas o conhecimento de confeccionar sapatos. Sócrates — E em ambos os casos. Teeteto — Que queres dizer com isso? Sócrates — Talvez nada. De qualquer forma. no que for possível. e lhe respondêssemos que há a lama dos oleiros. o que defines não é o objeto do conhecimento de cada um? Teeteto — Perfeitamente. tamanha variedade. além de não ficar bem a um jovem. a dos construtores de fornos e a dos tijoleiros. Teeteto. por exemplo: o que é lama. o que desejo saber é o que seja o conhecimento em si mesmo. será outra coisa além do conhecimento da fabricação de móveis de madeira? Teeteto — Não. como também a arte dos sapateiros e a dos demais artesãos: todas elas e cada uma em particular nada mais são do que co- nhecimento. e responde à minha pergunta: No teu modo de pensar.indd 32 20/02/13 18:53 . pedem-te um.

e todos os que não se formam pela multiplicação de fatores iguais. que lama é terra molhada.PG-43 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   33 Sócrates — Não compreenderá. como comprimento não são comensuráveis com a de um pé. Sócrates — Em segundo lugar. Teeteto — Sem dúvida. mostrou que a de três pés e a de cinco. Sócrates — É. pois. porém não foi isso que lhe perguntaram. e que sempre são contidos em uma figura com um lado maior do que o outro. Com os sólidos procedemos do mesmo modo. sempre que acrescenta o nome de determinada arte. tentar reuni-las numa única. Sócrates — Podes falar. Assim. numa discussão entre mim e este teu homônimo. examina tu mesmo. não compreenderá a arte do sapateiro nem qualquer outra arte.indd ) . poderia ter respondido por maneira trivial e simples.January 10. Ocorreu-nos. Quer parecer-me que é igualzinha à que nos ocorreu recentemente. por não serem comensuráveis com as outras pelo comprimento. o conhecimento do sapateiro quem não souber o que seja conhecimento. Sócrates — E encontrastes o que procuráveis? Teeteto — Acho que sim. Sócrates. Teeteto — Exato. embora pudesse dar uma resposta simples e curta. por conseguinte.pdf. E assim foi estudando uma após outra.06:43:51 . aqui presente. Falou em conheci- mento de alguma coisa. Teeteto — Os que ficam entre esses. ridícula a resposta de quem é perguntado o que seja conhecimento. fez um rodeio de nunca mais acabar. o três. representamo-los pela figura de um quadrado e os desig- namos pelos nomes de quadrado e de equilátero Sócrates — Muito bem. Sócrates — Logo. Teeteto? Teeteto — A respeito de algumas potências. Teeteto — Dividimos os números em duas classes: os que podem ser formados pela multiplicação de fatores iguais. 2014 . Teeteto — Realmente. e as de quadrado de fatores desiguais. e o cinco. Sócrates — Qual foi a questão. sem dar- -se ao trabalho de dizer quem a emprega. ou o inverso: a de um menor por um maior. potências ou raízes. que serviria para designar todas. mas apenas pelas super- fícies que venham a formar. quem não souber o que seja conhecimento. por exemplo. até a de dezessete pés.indd 33 20/02/13 18:53 . Não sei por que parou aí. ficou muito fácil a questão. Homem_cultura_e_sociedade. Sócrates — Ótimo. já que é infinito o número dessas potências. então. E depois? Teeteto — Todas as linhas que formam um quadrado de número plano equilátero definimos como longitude. 88822-978-85-8143-641-8. V Teeteto — Agora. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. representamo-los sob a figura de um retângulo e os denominamos números retangulares. mas da multiplicação de um número maior por um menor. quando perguntado a respeito de lama. Teodoro.

podes ficar tranquilo. decerto. Teeteto — Convém saberes. Sócrates — Pois fica sabendo que é verdade. Sócrates — Então. meu gracejador. Teeteto — No entanto. toma como modelo o que tu mesmo disseste a respeito das potências. Sócrates. não saberei resolvê-la como fiz com a da raiz e do comprimento. por ter ouvido falar no que costumas perguntar sobre isso. Sócrates — São dores de parto. Sócrates — Queres que te aponte a razão disso? Homem_cultura_e_sociedade. conquanto pense que seja mais ou menos isso o que procuras. Apesar de tudo.indd ) . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Do que se colhe que. Sócrates — E nunca ouviste falar. já ouvi. designa agora por um só termo todos esses conhecimentos. nalguma compe- tição fosses vencido por um homem feito e de pés velozes achas que seu juízo teria sido menos verdadeiro? Teeteto — Não. Teodoro não falou a verdade. Porém não posso convencer-me de que cheguei a uma conclusão satisfatória. do mundo e que lanço confusão no espírito dos outros. esforçando-te quanto puderes para encontrar a explicação das coisas. 2014 . principalmente do que venha a ser conhecimento. a questão por ti apresentada a respeito do conhe- cimento. Sócrates. já te contaram também que eu exerço essa mesma arte? Teeteto — Isso. Acho que Teodoro não pode ser acoimado de falso testemunho. Sócrates. parece-te que descobrir o conhecimento tal como o apresentei há pouco. não consigo afastar da ideia essa questão. e assim como reduziste a uma única forma aquela multiplicidade. porém não me traias.06:43:51 . em suas referências à minha pessoa não aludem a esse ponto. meu caro Teeteto. Sócrates — Como? Se ele te houvesse elogiado por correres bem. é dos mais difíceis. c u lt u r a e s o c i e d a d e Sócrates — Melhor não fora possível. Sócrates — Sendo assim. nunca.pdf. como nunca ouvi de ninguém uma explicação como desejas. depois. que já por várias vezes procurei resolver essa questão. dizem apenas que eu sou o homem mais esquisito. seja tarefa secundária e não um tema da mais alta responsabilidade? Teeteto — Não. A esse respeito já ouviste dizerem alguma coisa? Teeteto — Ouvi. afirmando nunca ter encontrado entre os moços quem te vencesse na carreira e. ninguém sabe que eu conheço semelhante arte. meninos. e por não o saberem. Fanerete? Teeteto — Sim. Teeteto — Quanto a esforçar-me. só disse o que sinto. Não estás vazio. Teeteto — Isso não sei. E já que indicaste o caminho.indd 34 20/02/13 18:53 .January 10.PG-44 34  H o m e m . por Zeus. readquire a confiança em ti próprio e não desfaças no testemunho de Teodoro. mais uma vez. que eu sou filho de uma parteira famosa e imponente. 88822-978-85-8143-641-8. vamos. VI Sócrates — Então. algo em tua alma deseja vir à luz. Sócrates. Sócrates — E agora.

por meio de drogas e encantamentos. Sócrates — E não é também compreensível e até mesmo necessário. Teeteto — Isso mesmo. Mas por causa do comércio de- sonesto e sem arte de acasalar varão com mulher.January 10. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Como muito bem sabes. Sócrates — Pois fica sabendo que elas se envaidecem mais desse conhecimento do que de saber cortar o cordão. para apanhares facil- mente o que desejo assinalar. para honrar nelas sua imagem. de medo de no exercício de sua arte incorrerem na suspeita de exercerem aquelas práticas. não acontece às mulheres parirem algumas vezes falsos filhos e outras vezes verdadeiros. por ser fraca em demasia a natureza humana para adquirir uma arte de que não tenha experiência. Basta refletires: És de parecer que compete à mesma arte cultivar e colher os frutos e também conhecer que planta ou semente irá melhor neste ou naquele terreno? Ou será diferente? Teeteto — Não. Sócrates — E não observastes. As estéreis de todo. Teeteto — Compreende-se. Se fosse o caso. Sócrates — E para a mulher amigo. As que já passaram de idade foi que ela concedeu esse dom. Nada obstante. ela não concede a faculdade de partejar.pdf. Sócrates — Dizem que a causadora disso é Ártemis: por nunca haver dado à luz. Teeteto — Perfeitamente. Sócrates — Eis aí a função das parteiras. que as parteiras conheçam melhor do que as outras quando uma mulher está grávida? Teeteto — Perfeitamente. que são casamenteiras muito hábeis. não servem para exercer o ofício de parteira as mulheres que ainda concebem e dão à luz. és de opinião que uma arte ensinará isso. levar a bom termo partos difíceis ou expulsar o produto da concepção quando ainda não se acha muito desenvolvido. muito inferior à minha. elas conseguem aumentar as dores ou acalmá-las. 88822-978-85-8143-641-8. outrossim. mas apenas as que se tornaram incapazes de procriar. Homem_cultura_e_sociedade. e outra a colher os frutos? Teeteto — É pouco provável. porque possam ter filhos perfeitos? Teeteto — Disso nunca ouvi falar. de difícil distinção. o mais importante e belo trabalho das parteiras consis- tiria em decidir entre o verdadeiro e o falso. Sócrates — Sim. é a mesma. não te parece? Teeteto — Sem dúvida.06:43:51 . 2014 . como queiram. Sócrates — Não. recebeu a missão de presidir aos partos. Em verdade. denominado lenocínio. Teeteto — Parece. só às verdadeiras parteiras é que compete promover as uniões acertadas.PG-45 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   35 Teeteto — Por que não? Sócrates — Basta refletires no que se passa com as parteiras. por conhecerem a fundo qual é a mulher mais indicada para este ou aquele varão. abstêm-se da atividade de casamenteiras as parteiras sensatas.indd 35 20/02/13 18:53 .indd ) . o certo seria dizer: nada provável.

quando eu chego à conclusão de que não necessitam de mim. e de acompanhar as almas. filho de Lisímaco. Teeteto.pdf. com demonstrações de arrependimento. com a continuação de nossa convivência. e estragarem outros. de só interrogar os outros. e a outros mais.January 10. depois de eu verificar que não se trata de um produto legítimo mas de algum fantasma sem consistência. quantos a divindade favorece progridem admiravel- mente.06:43:51 . por falta da alimentação adequada. suposto que alguns. sem- pre os tenho aproximado de quem lhes possa ser de mais utilidade. com a diferença de eu não partejar mulher. Quando voltam a implorar instantemente minha companhia. Essas dores é que minha arte sabe despertar ou acalmar. meu caro. Não compreendiam que eu só fazia aquilo por bondade. Neste ponto.PG-46 36  H o m e m . ou por me desprezarem ou por injunções de terceiros. Entrega-te. Neste particular. c u lt u r a e s o c i e d a d e VII Sócrates — A minha arte obstétrica tem atribuições iguais às das parteiras. Por isso mesmo.indd ) . não sou sábio não havendo um só pensamento que eu possa apresentar como tendo sido invenção de minha alma e por ela dado à luz. 2014 . porém homens. não os corpos. com a maior boa vontade assumo o papel de casamenteiro e. Todavia. 88822-978-85-8143-641-8. É o que se dá com todos. O que é fora de dúvida é que nunca aprenderam nada comigo. a progredir como antes. E a prova é o seguinte: Muitos desconhecedores desse fato e que tudo atribuem a si próprios. como tu mesmo desconfias. por darem mais importância aos produtos falsos e enganosos do que aos verdadeiros. com o que acabam por parecerem ignorantes aos seus próprios olhos e aos de estranhos. do meu Homem_cultura_e_sociedade. tendo grande fundo de verdade a censura que muitos me assacam. afastam-se de mim cedo demais. tanto no seu próprio julgamento como no de estranhos. Muitos desses já encaminhei para Pródico. graças a Deus. os que eu ajudara a pôr no mundo. como o filho de uma parteira que também é parteiro. com tantas minúcias. meu caro Teeteto. pro- cura responder a ela do melhor modo possível. Porém a grande superioridade da minha arte consiste na faculdade de conhecer de pronto se o que a alma dos jovens está na iminência de conceber é alguma quimera e falsidade ou fruto legítimo e verdadeiro. por carecer. voltando estes. não te aborreças como o fazem as mulheres com seu primeiro filho. justamente. a tal extremo se zangaram comigo.indd 36 20/02/13 18:53 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. os que não me parecem fecundos. servindo. porém me impede de conceber. neles mesmos é que descobrem as coisas belas que põem no mundo. noutros o permite. Foi o que aconteceu com Aristides. os que convivem comigo se parecem com as parturientes: sofrem dores lancinantes e andam dia e noite desorientados. pois. os germes por mim semeados. então. nalguns casos meu demônio familiar me proíbe reatar relações. Se te expus tudo isso. num trabalho muito mais penoso do que o delas. nisso tudo. Porém os que tratam comigo. E se no exame de alguma coisa que dis- seres. eu e a divindade como parteira. foi por suspeitar que algo em tua alma está no ponto de vir à luz. e outros mais para varões sábios e inspirados. que logo arrancarei e jogarei fora. em seu trabalho de parto. E a razão é a seguinte: a divindade me incita a partejar os outros. de sabedoria. Estão longe de admitir que de jeito nenhum os deuses podem querer mal aos homens e que eu. Alguns. e quando eu te formular alguma questão. a mim. sou igualzinho às parteiras: estéril em matéria de sabedoria. O resul- tado é alguns expelirem antes do tempo. em virtude das más companhias. no começo pareçam de todo ignorantes. que chegaram a morder-me por os haver livrado de um que outro pensamento extravagante. sem nunca apre- sentar opinião pessoal sobre nenhum assunto.

dizer que as coisas são para mim conforme me aparecem.. Nossa sugestão é que você leia o texto inteiro.indd ) . que não é tão extenso (é menor do que este livro didático). Sócrates — Ora. o que se me afigura neste momento é que conhe- cimento não é mais do que sensação. Decerto já leste isso? Teeteto — Sim. fora vergonhoso não esforçar-me para dizer com franqueza o que penso. Sócrates.indd 37 20/02/13 18:53 . o que ele diz Sócrates — Ora. Sócrates — Talvez tua definição de conhecimento tenha algum valor. VIII Volta. como diremos que seja o vento em si mesmo: frio ou não frio? Ou teremos de admitir com Protágoras que ele é frio para o que sentiu arrepios e não o é para o outro? Teeteto — Parece que sim. Teeteto — Realmente. um de nós sentir frio e o outro não? Um ao de leve. precisamente. é de presumir que um sábio não fale aereamente..PG-47 A t r a n s i ç ã o d o m i t o a o l o g o s   37 lado. É assim que devemos externar o pen- samento. nada faço por malquerença pois não me é permitido em absoluto pactuar com a mentira nem ocultar a verdade. para aprender mais. como serão para ti segundo te aparecerem? Pois eu e tu somos homens. Afirmava que o homem é a medida de todas as coisas. pois. da existência das que existem e da não existência das que não existem. Sócrates — Nesse caso. e o outro intensamente? Teeteto — Exato. é sensação? Teeteto — Sim. Por vezes não acontece. pois. Porém examinemos juntos se se trata. Para ele. disseste. Conhecimento. Teeteto. de um feto viável ou de simples aparência. sob a ação do mesmo vento. mais de uma vez. Sócrates — Não é dessa maneira que ele aparece a um e a outro? Teeteto— É. pois. Acompanhemo- -lo. que quem sabe alguma coisa sente o que sabe.] Nesse texto. este aparecer não é o mesmo que ser percebido? [.br> . 2014 . poderás. Você poderá baixá-lo no site <www. e procura explicar o que é conhecimento. realmente. para o começo. querendo Deus e dando-te coragem. Parece-me. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.dominiopublico. 88822-978-85-8143-641-8. o verdadeiro conhecimento está no alcance dos conceitos imutáveis e universais.org. Homem_cultura_e_sociedade. Sócrates estimula seu interlocutor a compreender de forma racional a forma de conhecimento para se alcançar a verdade.January 10. por outras palavras ele dizia a mesma coisa. então. Teeteto — É isso. menino. exortando-me como o fazes.pdf. Assim.06:43:52 . Sócrates — Não quererá ele. é a definição de Protágoras. Sócrates — Bela e corajosa resposta. Não me digas que não podes.

Aprendeu um pouco sobre os primeiros filósofos considerados naturalistas porque interpretavam os fenômenos naturais.06:43:52 . conheceu a filosofia clássica representada por Platão e Aristóteles. Esta unidade apresentou. Conheceu o movimento sofista. o pensamento medieval que representa a nossa formação ocidental cristã. c u lt u r a e s o c i e d a d e Resumo Nesta unidade você aprendeu sobre a tradição do pensamento mitológico e o início do pensamento filosófico na Grécia Antiga. 2014 . Como se deu e o que representou o movimento sofista? 5. Faça uma lista de pensamentos mitológicos que ainda permeiam as explicações da realidade.January 10. também.indd 38 20/02/13 18:53 . mas são os principais representantes daquela época. Como se caracterizou o pensamento medieval e quais foram os filósofos que o representaram? Homem_cultura_e_sociedade. Como aconteceu a passagem do mitos ao logos? 4. Qual foi a importância de Sócrates na formação da cultura ocidental? 6. Na próxima unidade você irá aprender um pouco da Filosofia moderna e o que ela representa em nossa sociedade ocidental e nossa formação cultural. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 3. Por fim. Atividades de aprendizagem 1. Eles não foram os únicos a figurarem no pensamento clássico. 88822-978-85-8143-641-8.pdf.PG-48 38  H o m e m . tão importante para o desenvolvimento do modelo político consolidado na Grécia.indd ) . O que é o pensamento mitológico e quais são as suas características? 2.

PG-49 Unidade 2 O pensamento moderno Márcia Bastos de Almeida Objetivos de aprendizagem: A modernidade representa uma rup- tura epistemológica para o modelo de cultura ocidental. 2014 .06:43:52 . Esse modelo está presente em algumas concepções da Psicologia.pdf. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. a forma como conhecemos o conceito de ciência e os valores influenciados desse modelo científico. Seção 2: O racionalismo Nesta seção você vai conhecer o modelo de conhe- cimento que fundamenta as teorias inatistas (aprio- ristas) de educação. você poderá aprender sobre as teorias epistemológicas que fundamentam nossa sociedade. isto é. nossos valores. 88822-978-85-8143-641-8. Homem_cultura_e_sociedade. objetivado. esta unidade tem por objetivo promover uma reflexão sobre o conhe- cimento e como fazemos uma relação entre o sujeito e o mundo concreto. O modelo de ciência que fundamenta nossa ação do- cente.indd 39 20/02/13 18:53 . essas teorias estão presentes — por mais incrível que pareça — em nossa vida cotidiana. Aqui. Com isso. porque é a partir do modelo de conhecimento introjetado pela cultura que se desenvolve o ethos que norteia nossas ações e relações sociais. Assim. Seção 1: Concepção de ciência moderna Nesta seção você vai aprender como se constituiu o modelo de conhecimento científico que conhecemos.January 10.indd ) . nossa cultura e nosso modelo de sociedade.

88822-978-85-8143-641-8. Seção 4: O mundo máquina Nesta seção você aprenderá sobre as implicações da visão de um mundo interpretado como máquina no processo e sistema de educação. principalmente. Seção 5: O criticismo kantiano no movimento iluminista Nesta seção você terá oportunidade de conhecer e aprender o modelo de conhecimento que causou grandes mudanças nas questões epistemológicas do mundo moderno e contemporâneo. Homem_cultura_e_sociedade.06:43:52 .indd ) . Seção 6: O positivismo Nesta seção você poderá aprender como e por que a Filosofia positivista influenciou o pensamento brasileiro e.indd 40 20/02/13 18:53 . 2014 .PG-50 Seção 3: O empirismo Nesta seção você irá fazer uma análise das principais características do modelo empírico de conhecimento e compará-lo com as práticas docentes em várias dimensões.no projeto educacional da Primeira República. o modelo de avaliação do sistema educacional.January 10. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.pdf. por exemplo.

entendemos que há uma relação intrínseca entre conhecimento. Cada modelo epistemológico ou modelo de conhecimento é como se fossem óculos coloridos que escolhemos: cada lente é um modelo de conhecimento e cada uma com uma cor. de homem e de sociedade. Ciência é conhecimento. ou seja. ou estamos buscando um estatuto de conhecimento (estatuto epistemológico) para as nossas ações. Nossa prática reflexiva e filosófica tem uma fundamentação epistemológica. Para os gregos a ciência ou conhecimento estava representado por episteme. É importante apresentar essa palavra com esse conceito porque com ou pela episteme os antigos interpretavam os fenômenos naturais a partir da própria Homem_cultura_e_sociedade. eles são impostos por um modelo de conhecimento que fundamenta os interesses de uma classe hegemônica (uma classe que tem mais poder sobre as outras classes). page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Cada modelo norteia nossa prática profissional e nossas escolhas diárias.06:43:52 . Apenas vamos fazendo. 2014 . Assim.indd ) . compreenderemos o movimento epistemológico a partir da Idade Moderna e suas implicações no modelo social. antes de tudo. aprender. vamos reproduzindo uma forma de interpretar o mundo.PG-51 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   41 Introdução ao estudo Com esta unidade. Por isso. julgando e aprendendo. da mesma forma que nos foi ensinado. Isto quer dizer que o nosso fazer profissional tem. Para isso. ciência grega é episteme. conhecer e compreender o processo de conhecimento de conhecimento que foi se construindo na história da humanidade é porque tais modelos direcionam todo nosso modo de viver. Depois ensinamos da mesma forma. De acordo com a cor escolhida será o tom da nossa visão de mundo. São esses modelos que vão dando dimensão e formato a nossa visão de mundo.   Seção 1  Concepção de ciência moderna Nesta seção você vai conhecer o modelo de ciência inaugurado na Idade Mo‑ derna que refutou a racionalidade metafísica dos medievais fundamentada no modelo aristotélico de conhecimento. “esses óculos” não são escolhidos de forma espontânea. A importância de se estudar. Quando fazemos essas perguntas é porque estamos buscando significado às nossas ações. geralmente. Por isso. esta unidade complementa as outras.indd 41 20/02/13 18:53 . convidamos você para mais uma viagem no tempo. Mas. vamos começar entendendo o significado da palavra ciência. A postura que adotamos diante do mundo para avaliar e escolher tem seu fundamento em uma concepção epistemológica. es‑ colhendo.pdf. 88822-978-85-8143-641-8. O que ocorre é que não temos consciência disso. Daí a palavra epistemologia.January 10. que responder à questão: Por quê e para quê estamos fazendo isso e não aquilo? Escolhendo essa e não aquela ação. Vamos para a Idade Moderna no século XVI. valores e formação humana. ou seja.

Se a fé ficou separada da razão. e formular ideias abstratas (imaterial). aos poucos. assim. 88822-978-85-8143-641-8. antes de ganhar o seu nome. Com a Idade Moderna a episteme ganhou o nome de teoria do conhecimento e.January 10. algumas correntes filosóficas que postulavam a pergunta norteadora da nova ciência: como podemos conhecer? Como é possível alcançar o verdadeiro conhecimento? Foram as principais concepções de conhecimento.pdf. Foi dessa forma que. O homem estava integrado ao mundo em sua totalidade e.. com esse conceito. ou teoria do conhecimento que nos interes‑ sam na Pedagogia: o racionalismo. Influenciados pelo modelo de pensamento cristão. Cada uma em seu devido espaço para o seu exercício. de saída.] consideram que a alma-consciência. em sua materialidade. ou. O cristianismo fez distinção entre fé e razão. é Homem_cultura_e_sociedade. uma ciência. matéria e espírito. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. A nova religião fecundou e se cristalizou durante a Idade Média. após o pecado original (CHAUI. portanto. Vejamos como ensina Chaui (2002. surgiu daí outro problema: a alma-consciência.114): “[. afirmou que o erro e a ilusão são parte da natureza humana em decorrência do caráter pervertido de nossa vontade. Isso Platão também já dizia lá no século VI a.C. o mundo ocidental se tornou cristão. A Filosofia. c u lt u r a e s o c i e d a d e natureza. que viveram muito tempo antes do advento cristão. Mas qual é a diferença entre o conceito de alma em Platão e alma para os modernos? Platão não conheceu o cristianismo.. Portanto. corpo e alma. A mudança de conceito episteme para teoria do conhecimento aconteceu porque. 2014 . Atualmente. o criticismo kantiano. Isto quer dizer que os modernos atribuíram à alma a função de conhecer o mundo concreto. entre a Antiguidade e a Idade Moderna. nasceu como uma episteme. não formulavam os problemas que o cristianismo passou a formular.indd ) . os antigos não fizeram as mesmas perguntas que os gregos fizeram. 113).06:43:52 . Ou seja. Para os gregos. verdades reveladas e verdades racionais.indd 42 20/02/13 18:53 . o positivismo e as teorias consideradas emergentes. a separar fé e razão. os modernos continuaram no projeto de separação. Eles começaram. 2002). vamos repetir para você não esquecer: conhecimento era episteme — epistemologia. Antes disso. era entendida como o modo científico de conhecer e interpretar a realidade. o conhecimento científico foi se desvin‑ culando do conhecimento mitológico e passou a ser conhecido como filosófico. pode conhecê-los”. 2002. p. Os problemas e as perguntas dos modernos geraram outros problemas e outras perguntas com novas soluções. quando nos referimos a algum “modelo científico” estamos nos referindo à ciência moderna. p. o empirismo. o homem es‑ tava totalmente integrado à natureza e tinha com ela uma participação harmoniosa. Assim. a filosofia.PG-52 42  H o m e m . embora diferente dos corpos. Consideraram que a alma pode conhecer os corpos porque os representa intelec‑ tualmente por meio das ideias e estas são imateriais como a própria alma (CHAUI. Gostamos de dizer que a “palavra de ordem” ou a palavra que norteou todo o projeto de ciência moderna é: s-e-p-a-r-a-ç-ã-o. O cristianismo introduz con‑ ceitos e problemas que eram desconhecidos pelos filósofos da antiguidade clássica. o modelo de conhecimento que temos na atualidade foi uma herança deixada pelos filósofos da Idade Moderna.

O que hoje. uma vez lá. 2002. e Adso von Melk (Christian Slater). um noviço que o acompanha. mas a atenção é desviada por vários assassinatos que acontecem no mosteiro. A frase clássica desse período que “caiu” no gosto popular e até hoje é repetida é a seguinte: “Saber é poder!”. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 114). o sujeito e o objeto do conhecimento (CHAUI. A ciência moderna. Esses foram os principais problemas levantados pelos modernos no início do novo modelo científico. Os modernos foram fortemente influenciados pela tradição cristã. estavam em movimento e o Sol em repouso.PG-53 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   43 bom reforçar essa ideia. precisava resolver outro pro‑ blema: como a razão pode se tornar mais forte do que a vontade e evitar o erro? Como pode conhecer a realidade de modo seguro? Como alcançar a verdade sem interferên­ cia dos pré-conceitos construídos pelas paixões e desejos presentes no sujeito? O problema do conhecimento torna-se. crucial e a Filosofia precisa começar pelo exame da capacidade humana de conhecer.06:43:52 . por isso a importância. pelo entendimento ou sujeito do conhecimento. eram de responsabilidade das Irmãs da Misericórdia. William de Baskerville começa a investigar o caso. da separação entre alma e corpo.indd 43 20/02/13 18:53 . portanto. em suma.pdf. Imagine você como foi a reação das pessoas quando Nicolau Copérnico (1473-1543) afirmou que os planetas. chegam a um remoto mosteiro no norte da Itália. Jovens mulheres eram mandadas para lá por suas famílias ou pelos orfanatos e. 2014 . Essa frase é de autoria de Francis Bacon e com isso estava dizendo que o conhecimento agora dá poder ao homem para dominar a natureza e Homem_cultura_e_sociedade. Aprendemos isso na escola e pronto! Aprendemos de forma teórica porque não sentimos esse movimento sob nossos pés. um monge franciscano. Em nome de Deus: Os Lares Madalena. em nome da Igreja Católica. o entendimento e a realidade. 88822-978-85-8143-641-8. Saiba mais Dicas de filmes: O nome da rosa: Em 1327 William de Baskerville (Sean Connery). o conhecimento de que a Terra se movimenta em torno do Sol. que se mostra bastante intrincando. por exemplo. na Irlanda. para nós é muito simples. A teoria do conhe‑ cimento volta-se para a relação entre o pensamento e as coisas. William de Baskerville pretende participar de um conclave para decidir se a Igreja deve doar parte de suas riquezas. naquele período era extre‑ mamente difícil de entender e aceitar. ficavam confinadas e obrigadas a trabalhar na lavagem de roupa. a nossa ciência. se constituiu com uma revolução de pensa‑ mento na busca da interpretação dos fenômenos naturais e a dominação da natureza. p. então impregnada do modelo cristão.January 10. onde poderiam expiar seus pecados. a consciência (interior) e a realidade (exterior). inclusive a Terra. além dos mais religiosos acreditarem que é obra do Demônio. para eles.indd ) . A Filosofia.

De acordo com Japiassu (2001. Descartes. foi obrigado a retirar suas conclusões sobre o posicionamento da Terra em favor da explicação aristotélica que fundamentava a metafísica.January 10. Francis Bacon que inicia‑ ram a Revolução Científica. c u lt u r a e s o c i e d a d e depois dominar o homem. de dependência. visando a felicidade para todos. à maneira de Alexandre e Julio César. O tópico seguinte irá tratar do filósofo que. Rompendo com a razão metafísica dos medievais (razão metafísica). seja o mais repre‑ sentativo do período moderno e para a educação. da magia natural fundada na técnica. Isto quer dizer que é o homem que consegue alcançar o conhecimento (na Idade Média. Bacon. 88822-978-85-8143-641-8. Homem_cultura_e_sociedade. Renè Descartes. 67. e muito bem. devia estar a serviço do homem. porque seu projeto filosófico de conhecimento inspirou muitas tendências pedagógicas. era assim o entendimento sobre a relação homem e natureza: Todo o conhecimento deve estar a serviço da instauração do “reino do homem”.06:43:52 . Foi a partir daí que a Teoria do Conhecimento passou a ser uma área. criou um método. a verdade era revelada e o homem não tinha todo esse poder). Porque. talvez. mas o filósofo que propôs uma teoria do conhecimento foi o inglês John Locke. foi o tematizador da ciência mo‑ derna. mas a partir da experiência sensível (do mundo corpóreo). da mesma forma que Descartes. O primeiro confirmou o movimento dos planetas em torno do Sol e retirou a Terra do centro do universo. 2014 .pdf. Essa ideia toma corpo e todas as pessoas começam a se entusiasmar pela ideia de que a ciência moderna é a solução para todos os males e pelo qual todo e qualquer sujeito poderia alcançar riqueza e poder. não mais com meios absurdos. mas. Todo conhecimento. como ficou conhecido o movimento de mudança de conhecimento dos modernos. forçar a natureza a submeter-se ao novo poder da Razão para que se ponha a serviço do “reino do homem”. Se quisermos utilizar tal projeto. a ciência moderna passou a ditar novos modelos de compreensão do mundo. modificando todas as relações e costumes sociais. Esse projeto de conhecimento surge com a mudança de modo de produção. Foram os filósofos Galileu Galilei. A ideologia da ciência moderna sustentou. p.indd 44 20/02/13 18:53 . grifo do autor). page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. obtendo vitórias reais e con‑ quistando concretamente a superfície da terra. precisamos reconhecer as causas das leis naturais. De posse de uma nova magia.PG-54 44  H o m e m . o projeto capitalista. ou tema filosófico.indd ) . que a partir da revolução passa a figurar como centro da razão e a sociedade passa a ser antropológica. considerado o “pai” do racionalismo. porque a burguesia em ascensão e em busca de poder econômico e político passa a se utilizar da ideia de que o co‑ nhecimento traz riqueza e poder. que buscava os princípios em modelos fora do mundo sensível. não podemos abrir mão da nossa condição de senhores (mestres) do mundo: precisamos exercer nosso poder sobre as coisas a fim de transformá-las e pô-las a nosso serviço. Há entre eles uma relação de simbiose. doravante. interpretando o pensamento de Bacon. O segundo. figurou na história como mártir. preso pela Igreja (detentora do conhecimento). porque. temos condições de transformar o mundo. para esses filósofos.

January 10.PG-55 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   45 Para saber mais Simbiose significa uma associação de dois ou mais seres de espécies diferentes. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Homem_cultura_e_sociedade. que lhes permite viver com vantagens recíprocas e os caracteriza como um só organismo: o líquen é a simbiose de uma alga e de um cogumelo.pdf. 2014 . 88822-978-85-8143-641-8.06:43:52 .indd 45 20/02/13 18:53 .indd ) . É uma relação de dependência um do outro.

Hoje falamos interdisciplinaridade porque durante muito tempo ensinava-se como se o sujeito tivesse uma porção de gavetinhas onde os conhecimentos eram introduzidos separadamente. Mas logo ele concluiu que o sujeito erra porque faz uso da razão. também.January 10.indd 46 20/02/13 18:53 . Para Descartes a pergunta foi: como podemos errar? Ele fez essa pergunta pois durante séculos todos acreditaram que a Terra era um planeta fixo e o centro do Universo e. Acesse: <www. então “ensinar” a mente a encontrar o caminho do verdadeiro conheci‑ mento? Descartes criou um método que ficou como modelo até hoje.br/bibli01/catalogos.PG-56 46  H o m e m . ou seja. onde ele registra essa ideia. 2014 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. da elaboração de uma teoria científica. evitando assim o erro. É preciso. descobriu-se que não era bem assim. Cada parte desse método deverá ser seguida “à risca” para evitar os erros da mente e.unopar. um procedimento que visa garantir o sucesso de uma tentativa de conhecimento.htm>. Claras e distintas. Como.indd ) . Saiba mais Você pode acessar a biblioteca digital e ler o livro citado: O discurso do método. Ou seja. assim.pdf. é o caminho. 88822-978-85-8143-641-8. Esse livro é muito importante para saber por que o modelo educacional ficou durante muito tempo se constituindo de forma fragmentada. da racionalidade de forma errada. análise. As regras do método de Descartes se dividem em: evidência. de forma separada para não serem confundidas. o filósofo quer garantir a confiança na ciência moderna. síntese.06:43:52 . Portanto. Um método se constitui de regras e de princípios que são as diretrizes desse procedimento (MARCONDES. Todo projeto de conhecimento começa com uma pergunta que irá nortear todo o trabalho do filósofo ou do cientista. alcançar o verdadeiro conhecimento cuja base é o novo modelo de ciência. com os modernos. A finalidade do método é precisamente pôr a razão no bom ca‑ minho. enumeração e revisão. Daí a teoria das ideias inatas. para Descartes o sujeito é dotado de uma racionalidade desde o seu nascimento. O método. p. Homem_cultura_e_sociedade. 162). como já dissemos. Sua obra mais conhe‑ cida é O discurso do método. c u lt u r a e s o c i e d a d e   Seção 2  O racionalismo Renè Descartes dedicou seu tempo e sua obra na busca da real possibilidade de se alcançar o verdadeiro conhecimento e. portanto. Descarte começou por aí: por que erramos? Ele considerava que a racionalidade é natural no sujeito. na fundamentação da ciência. “ensinar” a mente para que a razão possa encontrar as ideias verdadeiras de forma clara. 2000. Com isso.

pdf. Assim. Mas esse projeto não para por aqui porque conforme já expusemos a Filosofia sempre procura problemas que devem ser resolvidos.indd ) . Esse é o projeto Cartesiano de conhecimento. grifo do autor). para galgar. o nome de Descartes ficou Renatus Cartesios. Por isso. que achavam ser impossível o alcance do verdadeiro conhecimento. p. A segunda parte é a análise: “dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas partes quantas possíveis e quantas necessárias para melhor resolvê‑las”. Somente ele e mais ninguém que consideramos “viventes” no mundo. 2005. Vamos entender a divisão e a finalidade do método cartesiano. Mas quem pode conhecer? O sujeito dotado de razão. Mas é importante reconhecer a importância de Descartes para o desenvolvimento científico quando ele desenvolveu o método acima descrito. como que por graus. 2014 . assinou com o seu segundo nome. até o conhecimento dos mais complexos”. Quando ele escreveu o Discurso do método.PG-57 o pensamento moderno 47 Para saber mais Era comum os intelectuais adotarem um nome em latim. o seu projeto ficou conhecido como Projeto Cartesiano e seu método como Método Cartesiano. A primeira parte a ser seguida no método é a evidência: “ja‑ mais aceitar uma coisa como verdadeira que eu não soubesse ser evidentemente como tal”.January 10. Descartes construiu um método. dividido em partes que as ciências biológicas utilizam com muita propriedade e as ciências humanas. logo não se pode duvidar dessa condição humana.indd 47 20/02/13 18:53 . A terceira parte: “Conduzir por ordem meus pensamentos. A quarta parte: “fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada ter omitido” (CHALITA. Assim ele desenvolveu a teoria do cogito. Eis aqui o modelo de conhecimento fragmentado. em latim. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Homem_cultura_e_sociedade. a começar pelos objetos mais simples e mais fáceis de serem co‑ nhecidos. 236. Podemos duvidar de tudo o que existe. que em latim significa pensar.06:43:52 . em especial a Educação se inspiraram na construção das teorias e currículos educacionais. Podemos concordar com os Céticos. 88822-978-85-8143-641-8. responsável pela fragmentação tão refutada na contemporaneidade. pouco a pouco. Se apenas o sujeito está dotado da racionalidade e por isso pode pensar e conhecer. Analisar é dividir.

dos quais não podemos confiar. não era um conhecimento qualquer e sim o conhecimento científico. Esse modo de pensar influen‑ ciou profundamente o nosso modo de conhecer. É a partir desse modelo que a ciência vai se constituir.suapesquisa. portanto existo. justamente. os céticos existem desde a antiguidade clássica e há várias concepções de ceticismo. No entanto. Penso! Logo. vamos entender o porquê dessa afirmação. que. Daí a frase: penso. pois. É na modernidade que o caráter ou o conceito de ciência mudou. Esse elemento principal é. logo existo! Poderia ter sido assim: duvido. O que o Descartes procurava. agora em bases sólidas. Descartes coloca a condição da existência no ato de pensar. A dúvida metódica! É preciso duvidar de todos os conhecimentos constituídos até aqui. a condição da existência limita-se ao ato de pensar. Mas não uma dúvida qualquer. existo.06:43:52 . A palavra “ceticismo” está incorporada em nossa linguagem de maneira reduzida. A etapa principal na utilização desse método é a dúvida.pdf. uma fundamentação consistente para o conhecimento. Segundo ele. ou algum elemento do qual não se pudesse duvidar. Portanto. para duvidar é preciso exis‑ tir. Mas para saber quais são esses conhecimentos falsos. Essa frase é muito conhecida e às vezes até banalizada. o conhecimento será reconstruído. Agora.indd 48 20/02/13 18:53 . logo existo! Mas não foi assim. Era o novo conhecimento desvinculado das verdades ou da racionalidade metafísica presente na Idade Média. precisa-se passar pelas seguintes etapas: Homem_cultura_e_sociedade. Mas seria preciso ter um começo. Dizer-se cético sobre algum tema significa não acreditar ou desconfiar da validade do tema ou do conceito apresentado.com/filosofia/>. Ele bem que poderia ter dito assim: sinto. era um fundamento sólido. de pensar e de interpretar o mundo. No entanto. Para saber mais sobre essa corrente. Para a utilização do método cartesiano que já vimos anteriormente. c u lt u r a e s o c i e d a d e Saiba mais Os céticos representavam uma corrente filosófica que desconfiava da possibilidade plena do conhecimento do todo. mas uma dúvida que gerasse outras dúvidas até que a verdade viesse à tona. pode-se utilizar algum dicionário de Filosofia ou recorrer ao site: <www. Dessa forma. 88822-978-85-8143-641-8. encontrando um princípio metodológico seguro. é preciso esvaziar a mente de todos os conhecimentos e crenças que não são confiáveis. logo existo! Amo. o pensar duvidoso que garante a existência. é preciso retroceder e duvidar de tudo que existe. a ciên‑ cia precisa buscar bases solidadas por um método.PG-58 48  H o m e m .January 10. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. a educação irá se organizar e a sociedade irá se formar sobre os valores que esse modelo de sujeito irá sustentar. mas ela contém um sig‑ nificado tão profundo que irá nortear a concepção de sujeito no mundo Ocidental. aliás.indd ) . 2014 .

Poderia. suspeitar de tudo e preparar o espírito para as “artimanhas de um deus enganador”. dessa forma. na Terra.pdf. no início da Idade Moderna. que deve consistir em dúvida. de fato.. Nesse caso é preciso suspender todos os juízos sobre tudo. O modo de produção começou a mudar. A racionalidade científica passou a determinar o conhecimento. outra classe começou a emergir: a burguesia. passaram a propor um novo tipo de conhecimento.. e em todas as coisas sem que isso. Portanto. p.January 10. “A dúvida visa. ou a racionalidade metafísica. Muitos soldados e senhores feudais não retornaram suas terras porque morreram e. Várias coisas aconteceram e continuaram a acontecer que mudaram profundamente a sociedade e a história da humanidade.. peso etc. portanto.indd ) . sendo precisamente um critério para se testar a validade dessa certeza” (MARCONDES. Era o capitalismo que acenava com sua chegada e acabou ficando até os nossos dias. 2014 . Inaugurou‑se. Nesse cenário. muitos feudos ficaram abandonados. O sistema feudal entrou em decadência por várias razões: a peste matou número considerável de homens que trabalhavam na terra. então.] tudo pode e que me criou como sou”. A razão natural é o ponto de partida do processo de conhecimento e criando um método para “bem conduzir esta razão”. Para isso. existisse. as guerras empreendidas pelas Cruzadas também fizeram com que parte da população masculina fosse exterminada. Nossos sonhos nos parecem muito reais e quando acordamos percebemos que o real não passou de sonho. o conhecimento científico. a dúvida é o motor do método cartesiano para se alcançar o verdadeiro conhecimento. é preciso colocar em dúvida nossa capacidade cognitiva para conhecê‑los. é preciso mudar o modo de conhe‑ cer. ele teria sido criado na por um Deus. Como saber então se estou dormindo ou acordado? Com o terceiro argumento. acreditar na existência do céu. Homem_cultura_e_sociedade. portanto à certeza. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Dessa forma. 167). mas por um gênio maligno.06:43:52 . o conhecimento prático dos navegadores foi reavaliado. Do caos que se constituíram todos esses elementos. Por isso ele adota o racionalismo como fonte segura para alcançar a verdade. O segundo diz respeito à nossa percepção do real enquanto estamos dormindo. Além dos ob‑ jetos nos enganarem com relação a tamanho.PG-59 o pensamento moderno 49 O primeiro diz respeito aos nossos sentidos que nos enganam. Portanto. 2000.indd 49 20/02/13 18:53 . Descartes deixou esse legado na história da humanidade por fundamentar a pos‑ sibilidade do conhecimento científico garantido por uma verdade inquestionável. os filósofos que estavam insatisfeitos com o conhecimento. com todos esses fatores. Nos séculos XVI e XVII as grandes navegações expandiram de forma considerá‑ vel o mundo. Descartes surpreende: ele parte da ideia de um Deus criador que “[. 88822-978-85-8143-641-8. O pensamento de Descartes tem como contexto ou pano de fundo as grandes transformações ocorridas na Modernidade. Para um modo de produção se efetivar é preciso um novo modelo de teoria política e um novo modelo de teoria econômica.

] o intelecto humano é semelhante a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e. “[. figuram mundos fictícios e teatrais. para Bacon.. o empirismo clássico — que é o que iremos tratar aqui — está repre‑ sentado por Bacon. p. George Berkeley (1685. 178. vamos conhecer o pensamento de Bacon.indd 50 20/02/13 18:53 . O ídolo da caverna é aquilo que constitui o homem em sua individualidade. ídolos de foro e ídolos do teatro. 176). os discursos. 2000. Os ídolos são ilusões ou distorções que. ilusões e supersti‑ ções.pdf. 178). 88822-978-85-8143-641-8. p. Locke e Hume. Vejamos o que nos ensina Mar‑ condes (2000. o homem está total‑ mente desvinculado com o universo. Bacon é considerado um dos inauguradores da modernidade. impedindo o verdadeiro conhecimento. O homem. O modelo Empírico de conhecimento parte das propriedades quantifi‑ cáveis como fonte segura do conhecimento. o verdadeiro conhecimento. grifo do autor): Este é um dos sentidos primordiais do pensamento crítico. Então. O sujeito é singular. as palavras que vão dando sentido à sua vida particular. suas características físicas. Homem_cultura_e_sociedade. Bacon se norteia pela ideia de encontrar o conhecimento verdadeiro por um método que evite erros e ilusões. “bloqueiam a mente humana”. nada lhe é compatível. 2014 . 2000. vendo a tarefa da filosofia como a liberação do homem de preconceitos. “O empirismo valoriza a experiência hu‑ mana. São as ideias divergentes. para ele. Os ídolos de foro são as relações de comunicação que o homem constitui durante a vida. a realidade concreta. 179).1753) e David Hume (1711-1776). desvinculado da racionalidade metafísica e diferente do racionalismo. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. p. “Bacon examina os diferentes tipos de ídolos e desenvolvendo uma crítica dos sistemas tradicionais filosóficos e de ciência. John Locke (1632-1704). p. Junto com Des‑ cartes..indd ) . Os ídolos do teatro são as doutrinas filosóficas e científicas que vão influenciando o modo de agir e de pensar do homem que. Os ídolos da tribo resultam da natureza humana. as distorce. que também elaborou um método para se alcançar o conhecimento. Isto significa. É nesse contexto que encontramos sua teoria dos Ídolos. c u lt u r a e s o c i e d a d e   Seção 3  O empirismo Outra teoria de conhecimento também propôs uma forma segura de se alcançar verdadeiro conhecimento. a atividade do individuo” (MARCONDES. as influências que recebe do meio que vão significando o seu mundo. e corrompe” (NOVUM ORGANUN apud MARCONDES.January 10. não tem competência para acessar o mundo. Os ídolos podem ser de quatro tipos: ídolos da tribo. Assim como Descartes. 2000. que há limites do homem para o conhecimento do real. naturalmente. Os nomes que marcaram esse modelo de conhecimento que se constituiu entre os filósofos ingleses foram: Francis Bacon (1561-1753). ídolos da caverna. sobretudo o aristotélico” (MAR‑ CONDES. Para Bacon. Thomas Hobbes (1588-1679). que marcará fortemente a filosofia moderna.06:43:52 . dessa forma. No entanto. segundo Bacon.PG-60 50  H o m e m .

. A nossa sala de aula ideal Homem_cultura_e_sociedade. p. Inclusive. das leis e das regras. podem ser colocadas em fórmula matemática.indd 51 20/02/13 18:53 . o progresso significa mudança radical de sociedade e. ainda. Nesse caso. as ideias são inatas no sujeito).pdf. Toda educação tem por base um princípio norteador epistemológico e uma concepção de sujeito. como por exemplo a Arte e os sentimentos. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. O modelo de conhecimento norteia toda a nossa vida em todos os sentidos.. Outras escolas vão mais longe propondo teorias sistêmicas na superação dessa racionalidade. desse modelo as propriedades qualificáveis. de valores. nas propriedades que podem ser acessadas pelos órgãos dos sentidos e.PG-61 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   51 Para alcançar o verdadeiro conhecimento — o científico — o homem deve despir‑ -se de todos os pré-conceitos e de todo conhecimento adquirido para ter a mente limpa e. enfim. 2000. Hoje esse modelo é questionado pela filosofia contemporânea.indd ) . chegar à verdade. A razão passa a ser instrumento em busca do projeto de vida burguês que o progresso.January 10. as leis e as regras que constituem nossa sociedade estão fundamentadas em um pres‑ suposto epistemológico. que foi marcante na moder‑ nidade e da qual somos herdeiros. dirá muitos professores. Como gos‑ tamos de ensinar? Em uma sala com alunos comportados. inclusive esta que aqui coloca as ideias e os pensamentos. comprimento.06:43:52 . Quando fazemos nossas escolhas. Tanto o racionalismo quanto o Eempirismo influenciaram profundamente o modelo de educação até a contemporaneidade. em especial. espessura. em especial na Inglaterra. Vamos entender um pouco mais imaginando nossa prática de ensino. 88822-978-85-8143-641-8. a escola de Frankfurt. Vale lembrar que o modelo de educação que conhecemos surgiu justamente na modernidade para atender a um modelo de modo de produção que precisava de mão de obra disciplinada para executar o trabalho nas grandes fábricas que surgiram por toda a Europa. o conhecimento está no objeto e nas propriedades quantificáveis: peso. ou seja. pois [. quais sejam. No empirismo. 179). Ficaram de fora. Bacon defende a ideia de uma razão instrumental.] ao conhecer as leis que explicam o funcionamento da natureza. podemos fazer previsões e tentar controlar os fenômenos de modo que nos seja proveitoso” (MAR‑ CONDES. o belo e o feio. que faz uma crí‑ tica ao modelo de sociedade gerada pela razão instrumental inaugurada na idade moderna. Esse modelo está presente nas ciências biológicas e exatas como método para alcançar a precisão das pesquisas. principalmente. nasce como uma folha em branco e as impressões das experiências serão ali registradas durante a vida. Outro ponto fundamental do empirismo é entender que o sujeito nasce como um “tábula rasa” (diferente do racionalismo que defende o inatismo. do errado. Em todo projeto pedagógico está contemplado o pressuposto epistemológico. mesmo que não o saibamos. assim. 2014 . o bom e o ruim. quando adotamos uma postura diante do certo. A escola foi revisitada e transformada para disciplinar a mente o corpo. Bacon também criou uma frase que conhecemos: “Saber é poder”! “Ele acredita na possibilidade real do progresso pela ciência. Tudo o que não pode ser quantificado.

a sala deve ser organizada de forma linear.pdf. Saiba mais Dica de filme: Clube do imperador: O filme conta a história de um colégio interno onde um professor chamado Hundert (Kevin Kline) forma “o Clube do Imperador” para estudar cultura greco-romana. 88822-978-85-8143-641-8. o que atualmente é impossível.indd 52 20/02/13 18:53 . A classe deve. herdamos a fragmentação dos saberes na organização do modelo pedagógico.PG-62 52  H o m e m . se constituir em espaço propício para que o professor fale e o aluno ouça. Química e por aí afora. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. para poder ensinar bem. É como se houvesse várias gavetinhas no sujeito e lá o professor “embutisse” o conhecimento: Português.indd ) . da transdisciplinaridade. Não existe uma visão do todo.06:43:52 . portanto o objeto. Nada do que o aluno traz consigo é valorizado e reesignificado. o mestre tenta moldar a personalidade dos alunos usando os bons exemplos dos perso- nagens históricos. Queremos mostrar que nesse modelo apresentado há um pressuposto epistemológico embutido. c u lt u r a e s o c i e d a d e é a mesmo dos anos 1940. 1950 ou 1960: queremos silêncio. Esse modelo é o empirismo. Matemática. o professor pergunta e o aluno responde (de forma ordenada). 2014 . que terá que “preenchido” com o conhecimento que ele. tem. Não queremos aqui levantar disputas sobre modelos de ensino. mas das partes e suas especificidades. Inglês. Existe uma teoria de conhecimento fundamentando essa prática de ensino. Do projeto cartesiano. portanto.January 10. Porque para o professor ensinar bem é ter condi‑ ções para fazê-lo. mesmo que o professor ou professora desco‑ nheça. o “sujeito”. Apren‑ demos nesse modelo e deu certo! Sempre dizemos isso. O professor é quem decide o que irá ensinar porque é ele o detentor do conhecimento. onde as carteiras devem ficar organizadas possibilitando a visualização de toda classe pelo professor. Homem_cultura_e_sociedade. No clube. O professor considera o aluno como uma tábula rasa. Esse modelo de ensino permaneceu presente no sistema de ensino durante anos — talvez séculos — e somente nos dias atuais estamos falando e tentando construir um modelo educacional a partir de interdisciplinaridade e. talvez até.

Charles Darwin (1809-1882). os pelos do seu corpo vão diminuindo e a sua estrutura corporal também se modifica em função dos hábitos adquiridos pelas transformações geradas pelo fogo. que formulou a primeira teoria científica evolucio‑ nista.pdf. religiões. o cientista Jean-Baptiste de Monet postulou essa teoria com a hipótese de que as transformações ocorridas nas espécies seriam resultados dos hábitos adquiridos pela necessidade.PG-63 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   53   Seção 4  O mundo máquina Nesta seção você poderá compreender como o projeto moderno ao reconfigurar a ideia de mundo irá influenciar nos modelos e práticas educativas. e apenas nesse.06:43:52 . Nessa tendência de concepção de natureza materialista. 88822-978-85-8143-641-8. Voltando-se para a natureza. em 44 volumes. na França. ele organizou essas espécies numa série contínua. mas a luta pela sobrevivência dos mais aptos num processo de seleção natural. À medida que os seres vivos vão modificando os hábitos. Nesse sentido.indd 53 20/02/13 18:53 . Homem_cultura_e_sociedade. também. O modelo de mundo máquina newtoniano permanece até nos dias atuais. O mundo do século XVIII estava completamente mudado e muito diferente do mundo do início da Era Moderna. figura o médico francês Julien Offroy de Lamettie­ afirmando que até a alma é constituída pela matéria e concebe.indd ) . suas características físicas e fisiológicas. A crença na superioridade da Razão. p. De acordo com Chalita. ele concentra a sua observação sobre os seres vivos. e produz. rea‑ lizando um trabalho precursor da teoria da evolução das espécies. Além de classificar o reino animal em grupos de seres semelhantes entre si — as es‑ pécies —. 2014 . O pensamento de Isaac Newton (1643-1727) consolidou todo o movimento científico inaugurado por Galileu. uma monumental História natural. com uma equipe de colaboradores. os iluministas retomam o pensamento aristotélico‑ -tomista que postula a constituição da natureza como materialista. como de fato aconteceu no século seguinte. postula que não são as necessidades que modificam as espécies. Vejamos o que nos ensina Chalita (2005. seus corpos e configurações físicas. entre outros. Tais concepções colocam em xeque a noção de Deus e a teoria criacionista registrada na Bíblia sagrada e aceita pela maioria das. vão passando por profundas mudanças. Descartes e Bacon. que projetava luzes — daí a palavra iluminismo — no mundo obscurecido pela Idade Média estava se consoli‑ dando. 270): O escritor naturalista francês Georges-Louis Leclerc Buffon (1770­ ‑1788) é exemplo disso. Como por exemplo: quando o homem primitivo descobre o fogo e passa a utilizá-lo para se aquecer. O modelo burguês de vida também está prestes a ser definitivamente con‑ solidado. O modelo de conhecimento empirista que entende que conhecimento só pode ser validado se for devidamente comprovado a partir dos sentidos foi aceito pelos filósofos franceses. todas as espécies vivas teriam um antepassado comum e com o passar do tempo foram passando por transformações de geração em geração. senão todas. Segundo a teoria evolucionista. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.January 10.

Para ele vêm das sensações todas as ideias. 88822-978-85-8143-641-8. Por isso.. em linhas gerais. Homem_cultura_e_sociedade. o mecanicismo converte-se em programa geral da ciência moderna. 272. Além disso. por sua importância na Educação. 71. 271).. precisamos destacar Condillac CAPRA.] O mundo apresenta-se como uma espécie de sistema mecânico funcionando como uma máquina. grifo do autor): [.pdf. A natureza. Étienne Bonnot ção.] e é uma espécie de tábula rasa que sendo gravada pelo meio em que vive desde o momento do nascimento. a burguesia ascendente necessita de um sistema de produção que lhe permita uma exploração mais eficaz das coisas. seria preciso superar o cristianismo. 2005. Cortez.. Saiba mais Este foi. que postulou formação do universo por átomos e com mo‑ vimento idêntico a uma máquina. de Condillac (1715-1780) foi leitor de J. para o pensador.. da existência. pois para ele a natureza não passa de uma máquina (CHALITA. A ciência moderna se instalou no contexto histórico visando a racionalização da vida. Para ele.indd 54 20/02/13 18:53 . [.indd ) ..] a realidade como uma cadeia contínua que vai da matéria inanimada até homem [. seu pensamento. O ponto de muta.PG-64 54  H o m e m . Locke SANTOS. 2010. p.. Fritjof. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Boaventura de Souza. 2014 . Agora leia com atenção o pensamento do filósofo francês Claude-Adrien Helvétius (1715-1771). Nesse contexto.06:43:52 . ele formulou uma teoria que denominou sensualista (a partir das sensações). Para Condillac.] passa a ser concebida como devendo obedecer a uma ordem racional determinada por uma “filosofia experimental” impondo-se contra todas as demais formas de saber.. o projeto de conhe‑ cimento instalado na Modernidade. Essa ideia de que o universo é como uma máquina surgiu com Descartes e foi consolidada por Newton.. p. grifo do autor). o conhecimento era um conjunto de sensações transformadas na mente do homem e fixadas pela linguagem. conforme Japiassu (2001.] que seria proporcionar o máximo de felicidade a todos e o mínimo de dor a cada indivíduo (CHALITA. ele propunha uma educação dos indivíduos baseada no conhecimento dos mecanis‑ mos do comportamento humano e voltada para o interesse geral [. registrado em suas obras: Sobre o espírito e Sobre o homem. regular e previsível. 2004.. que seria o maior obstáculo para a apropriação desse conhecimento. Cultrix. Aos poucos. e dele recebeu muita influência na formação de Pela mão de Alice.. 2005. fundamentada e expressa por um racionalismo calculador e quantificador.January 10. surge outro tipo de trabalhador: o cientista. que tem como objeto e objetivo de seu trabalho a responsabilidade de detectar as leis gerais da Natureza. Dentre os fi‑ Leia os livros: lósofos iluministas.. todos os homens têm a mesma “sensibilidade física” [.] alia a seu materialismo um mecanicismo de inspiração cartesiana.. Assim. No entanto. p. c u lt u r a e s o c i e d a d e [.

20. a que se destaca é a Crítica da razão pura. a festa representa a “coisa em si”.indd ) . Com essa grande obra ele questiona tanto o mé‑ todo empírico quanto o método racionalista cartesiano. permitindo-nos pensá-los. o número. 2014 . Para isso ele ensina assim (vamos tentar simplificar sem banalizar): o conhecimento do objeto resulta na con‑ tribuição de duas faculdades de nossa mente — a sensibilidade e o entendimento. mas o sujeito possui as faculdades que possibilitam a identificação dos objetos. para Kant. Nascido na Alemanha no século XVIII. ou seja.January 10. p. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. a imagem corresponde à “coisa para nós”. seu aparelho próprio de conhecer. Mas Kant quer saber como acontece essa relação e. dessa forma. A nossa mente compreende o que os sentidos apreen‑ dem. como vi um professor amigo ensinar: a nossa mente é como um vaso vazio e transparente que à medida que vamos colocando a água esta vai tomando a forma do vaso. Ou ainda. deixou seu nome registrado na história por mudar e superar todo o conceito de conhecimento até então. 88822-978-85-8143-641-8. ele aproxima sujeito e objeto. Vejamos como Chalita (2005. a imaginação completa estes dados e os unifica. Nessa analogia. É essa possibilidade de conhecer que irá determinar a experiência e o conhecimento e uma dessas faculdades é a sensibilidade. O racionalismo de Descartes coloca toda a possibilidade de conhecer no Sujeito e o empirismo de Locke (e outros) no Objeto. não é puro. uma concepção da possibilidade de conhecermos os objetos. a máquina fotográfica é o sujeito com suas formas. O conheci‑ mento resulta da contribuição desses três elementos. e o entendimento lhes dá unidade conceitual.indd 55 20/02/13 18:53 . Homem_cultura_e_sociedade. Vamos nos lembrar do que já aprendemos nesta unidade: a modernidade separa tudo. A razão e a experiência é que dão unidade ao conhecimento. é mais ou menos como fotografar uma festa animada.PG-65 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   55   Seção 5 O criticismo kantiano no movimento iluminista Imannuel Kant (1724-1804) é um nome marcante na filosofia ocidental. As fotos registram apenas aquilo que a câmera é capaz de captar: imagens congeladas. 211) ensina: A sensibilidade nos fornece os dados da experiência (o múltiplo). o pensar em Kant não está independente da experiência.06:43:52 . Marcondes (2000. Um não pode ficar desvinculado de outro. sem sonoridade nem movimentação. com muita música e dança. e a foto constitui a experiência possível. Diferente de Descartes. Todos os nossos conhecimentos começam com a experiência.pdf. Ou então vamos tentar assim. grifo do autor) explica o pensa‑ mento kantiano. Dentre as suas obras. Em sua obra Kant formula a concepção de uma filosofia transcendental. a repre‑ sentação do fenômeno. o fenômeno. como o sujeito e o objeto se relacionam. p. conforme explicamos anteriormente. O processo de conhecer o mundo. aquilo que aparece para nós.

sempre irá encontrar juízos que se contradizem em tese e antítese sem que haja falhas lógicas de raciocínio. da alma. 88822-978-85-8143-641-8. Mesmo assim. As “coisas em si”.pdf.indd 56 20/02/13 18:53 . São questões inerentes ao ser humano e à própria razão.PG-66 56  H o m e m . Senão vejamos: Kant considerou que a pretensão de conhecer aquilo que ultrapassa a experiência possível — como queriam os metafísicos — não torna esse exercício ilegítimo. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. não podemos conhecer o mundo como ele é em si. De todos os filósofos iluministas. consideramos Kant o mais intrigante. como. Quando a razão tenta fazer isso. ele não descarta essas questões da esfera da filosofia porque o homem sempre irá querer saber de onde vem e para onde vai. a existência de Deus.06:43:52 . Enfim.indd ) . aqueles que querem provar a existência de Deus sempre irão encontrar teses legitimadas pela razão que os contradigam. Questões para reflexão Para Kant. senão interessante. Por outro lado. aquele que quer provar a não existência de Deus também encontra essas teses que refutam tal posição.January 10. 2014 . c u lt u r a e s o c i e d a d e Com essa forma de compreender a possibilidade de conhecimento. por exemplo. da infinitude do universo. Kant está fazendo uma crítica severa à racionalidade metafísica que postulou a possibilidade de conhecer “o ser enquanto ser”. O que é que podemos conhecer? Homem_cultura_e_sociedade. O homem não consegue provar aquilo que nos é estranho e inatingível pelas sensações.

a positivista. O positivismo postula a legitimidade da ciência moderna para a organização da sociedade. A sociedade tem por objetivo privilegiar o espaço para a formação da mentali‑ dade positivista.br/comte. que antes eram consideradas naturais.pdf. Temos assim o domínio da chamada relação da causalidade (CHALITA. a hu‑ manidade passou por duas formas de pensamentos ou duas mentalidades formadoras da cultura ocidental: o período teológico/mitológico (Idade Clássica) e o metafísico (Idade Média). constitui a terceira e definitiva men‑ talidade em relação às outras (teológica/mitológica e metafísica). conduziram à classificação de determinadas estruturas.htm#ixzz1fF6YZqzw>. 2014 . baseadas na observação dos fatos. pela ciência fazer com que a humanidade fosse guiada pelo positivismo. 2005. O surgimento dos primeiros argumentos evolucionistas e o de‑ senvolvimento das ciências sociais. de 1844. Comte or‑ Homem_cultura_e_sociedade. embora se constitua como uma corrente de pensamento filosófico. foi apropriada pelos socialistas utópicos em 1830. O ositivismo se apropria dos princípios da ciência experimental. No entanto. ou empírica. Já no final do século XIX. o cientista aplicando esse princípio espera a repetição do fenô‑ meno. Ou seja.indd ) . sua mentalidade. Para Comte.January 10. O modelo positivista tem sua inspiração no empirismo inglês e no sucesso dos avanços das ciências experimentais como a química e a biologia. No site indicado. seria preciso.indd 57 20/02/13 18:53 . passa-se a explicar todos os componentes da realidade cultural a partir de um método próprio das ciências naturais. Essa ideia significa que o positivismo postula que tudo o que acontece tem uma causa. O estado positivo é o coroamento do modelo científico moderno. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. O conhecimento tem como finalidade atingir a maturidade e formar homens com espírito e mente positiva. para compreender e organizar a sociedade. Links Acesse: <www. Inaugurada por Auguste Comte e. Dessa forma. Em sua obra Discurso.mundodosfilosofos. 338). p. você terá mais informações sobre o tema tratado e indicações de outros textos e links para aprender mais. a consoli‑ dação da concepção mecanicista de universo e o reforço da teoria empirista de conhecimento. como circunstâncias culturais.06:43:52 . na orga‑ nização técnica e industrial da sociedade moderna considerando o método científico o único caminho válido para o conhecimento.com.PG-67 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   57   Seção 6  O positivismo O pensamento positivista fundamenta-se no modelo científico moderno. 88822-978-85-8143-641-8.

88822-978-85-8143-641-8.pdf, page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.indd ) - 06:43:52 - January 10, 2014 - PG-68

58  H o m e m , c u lt u r a e s o c i e d a d e

ganizou (para o positivismo o conceito de organização remete à ideia de divisão) a
noção de positivo. Para ele positivo quer dizer real, útil, certo, preciso (de precisão
matemática, contrário de vago), construtivo e relativo.
Augusto Comte elaborou uma noção de infância que pode ser compreendida na
ideia da Lei dos Três Estados: o teológico, metafísico e o positivo, que demonstram
em sua caminhada o movimento progressivo da humanidade. Essa Lei indica que
cada uma das nossas concepções ou cada área dos nossos conhecimentos passa por
esses três estados. O ponto de partida, fundamental para o desenvolvimento da inte‑
ligência, da racionalidade humana, está no estado teológico, mítico ou fantasioso. A
esse estado (de fantasia) segue-se o estado de transição, que é o metafísico, em que a
humanidade desenvolve a racionalidade abstrata, ou um período de pura abstração.
A racionalidade desenvolvida e formadora da mentalidade, durante o grande período
da Idade Média, não busca um conhecimento objetivo, ativo, útil (positivo), mas per‑
manece norteada pela mentalidade ou noção de verdade revelada. O estado positivo
se constituíra, para Comte, num estado fixo e definitivo. Esses estados (teológico,
metafísico e positivo) exigem diferentes métodos de investigação por se tratar de três
interpretações diferentes da realidade ou do conjunto de fenômenos que se apresen‑
tam no mundo real. Cada um desses estados (ou estágios) tem o papel de nortear ou
dar o fio condutor na organização social, no conjunto de saberes — cultura, política,
valores — da humanidade. Em especial da cultura ocidental.
Comte ainda continua ensinando que cada um dos estados do desenvolvimento
da mentalidade humana apresenta características particulares, conforme já foi ex‑
plicado anteriormente e aqui reforçamos: no estado teológico o ser humano busca
conhecer a natureza íntima dos seres em seus nexos causais (causas primeiras e
finais dos fenômenos naturais), para obter conhecimentos absolutos e alcançar os
agentes sobrenaturais. Esse modo de interpretar o real se fundamenta na crença de
que as forças sobrenaturais influenciam os eventos que cercam a vida dos homens.
Nesse caso, esse período é visto pelos olhos de Comte como o período infantil
da humanidade. Sendo a fase do mundo do faz-de-conta da criança, o filósofo
compara-a à fase da humanidade em que o homem não pensava, ou não se utili‑
zava de uma racionalidade madura para a compreensão do real e, portanto, vivia
segundo uma explicação infantil.
No estado metafísico, o homem busca as forças abstratas. Veja que aqui o ho‑
mem da história já não se utiliza de elementos sobrenaturais e fantasiosos para a
explicação do real, mas tenta se utilizar de uma racionalidade que opera de forma
abstrata. No entando, ainda não representa um desenvolvimento satisfatório porque
busca as forças abstratas personificadas capazes de engendrar todos os fenômenos
por si mesmas e que são apreendidas pela racionalidade humana. É tudo o que o
estado positivo despreza. Isto é, no estado metafísico, há entidades fora do mundo
concreto e objetivado que “orquestram” o mundo natural.
No estado positivo, apresenta-se a vocação do homem em renunciar a busca
das noções absolutas, as causas íntimas, origens e destino das coisas, vindo corrigir

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O p e n s a m e n t o m o d e r n o   59

a anarquia especulativa ou os exercícios fáceis do espírito humano, que precisa de
uma base objetiva para entender e organizar o seu mundo.
Dessa forma, os homens no estado positivo se sentem estimulados a conhecer
os fenômenos pela descoberta das leis universais que organizam o mundo e a si
mesmo. Esse conhecimento é possivel pelo raciocínio e pela observação. Podemos
entender que o conhecimento verdadeiro, para o positivismo, é aquele constituído
pela observação e experimentação, próprio da ciência moderna.
Ainda no sentido de compreender a noção de infância, em Comte, podemos
partir da ideia de que para ele o processo de maturação da humanidade mostra uma
preponderância do coração sobre o espírito (mente), considerando que o sentimento
sociocêntrico vai ganhando maior expressão prevalecendo gradativamente sobre o
egocêntrico. Mas o espírito não pode se tornar escravo do coração.
Mesmo em estado de contemplação e mantendo a atividade intelectual desvin‑
culada do social, o espírito se apresenta comprometido com o egoísmo, a vaidade e
o orgulho. Comte entende que esses sentimentos já estão arraigados no ser humano
e é fortalecido pela mentalidade que cultua a abstração pura, própria da racionali‑
dade metafísica. Esses instintos, no entanto, devem ser podados ou redefinidos pela
educação, que tem por objetivo final a ampliação do altruísmo (em contraste com
o egoísmo) nas relações morais, intelectuais e nas práticas sociais humanas. Para o
positivismo, a educação precisa preservar a sua vocação de formadora moral.
A compreensão é no sentido de que os seres humanos, no princípio, têm a ten‑
dência para o sentimento egoísta, mas apresentam uma disposição para o amor uni‑
versal. Cabe à educação promover a ampliação desse aspecto ou dimensão humana.
Assim, o espírito humano precisa investigar as questões do coração. De acordo
com Comte (2005, p. 82): “[...] o verdadeiro amor demanda sempre ser esclarecido
sobre os meios reais de atingir o fim que persegue. O reino do verdadeiro sentimento
deve ser habitualmente favorável tanto à sã razao quanto à sábia atividade”.
Para ele, o mundo objetivo (concreto) nos oferece a compreensão de fenômenos
que ocorrem independentemente de nós e que regem a humanidade pelas suas leis
invariáveis, e que podem ser por nós compreendidos, permitindo disciplinar os sen‑
timentos contraditórios. Trata-se de colocar a razão como disciplinadora dos instintos
e sentimentos egoístas.
Para que a filosofia positiva se efetive de forma universal (em todos os lugares e
tempo) em uma trajetória traçada na busca da maturidade humana, é de fundamental
importância uma consolidação do modelo científico e da formulação de uma clas‑
sificação das ciências. Essa concepção — classificação científica — remete à ideia
de uma ordem enciclopédica das ciências, em que o positivismo irá determinar um
conjunto organizado e homogênio de ideias e de conhecimentos que foram produ‑
zidos pela humanidade.
Nessa classificação, o homem deverá desenvolver o seu entendimento sobre os
fenômenos naturais por esses conhecimentos enciclopédicos a partir dos 14 anos de

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60  H o m e m , c u lt u r a e s o c i e d a d e

idade. Antes disso, o homem não está preparado em suas funções intelectuais para
a apreensão desse conjunto de conhecimentos científicos.
A educação positiva opera por ações das mães, pensando que no estado positivo
as mulheres se ocupam da educação física, moral e estética durante a formação in‑
fantil. É na infância e sob os cuidados da mãe — mulher com os conceitos positivos
introjetados — que devem ensinar a cuidar do corpo, os costumes e regras morais da
sociedade (positiva), a apreciação do belo e o desenvolvimento da criatividade que
acontecem durante o estágio latente e na primeira infância. Na adolescência, o ho‑
mem já pode dar início aos conhecimentos cientificistas e organizados positivamente.
Entre 14 e 21 anos de idade, o adolescente deveria receber uma educação siste‑
mática (organizada), não mais ministrada pela mãe no domicílio, mas por sacerdotes
positivistas em uma escola anexa ao templo, onde se estudaria o conjunto das sete
ciências: matemática, astronomia, física, química,
biologia, sociologia e moral. Essa organização
Para saber mais curricular obedece a uma ordem hierárquica, da
ciência mais importante a menos importente. Ao
O modelo de organização hierár- longo dessas etapas o aluno reproduziria os está‑
quica dos conhecimentos está re- gios de evolução intelectual da humanidade até
presentado por uma pirâmide. Na atingir o estágio positivo de maturidade intelec‑
base da pirâmide está a matemá- tual para uma interpretação racional da realidade
tica, seguida da astronomia, física, e organização social.
química, biologia e sociologia. Por- A educação é a base fundamental sob a qual
tanto, a área de conhecimento se assenta a formação do indivíduo que, em sua
mais importante é a matemática e marcha ascendente de desenvolvimento, é in‑
depois as outras. corporado à humanidade. Essas propostas são
as metas do positivismo para a reorganização da
humanidade.
O positivismo se apresenta, dessa forma, como uma doutrina fundamentada na
fixidez (fixo) de ideias na garantia de uma comunhão dos seus princípios por toda
a humanidade. Essa filosofia positivista possibilita a descoberta racional das leis do
espírito humano.
E assim podemos compreender que o pensamento positivista de Augusto Comte
tem uma vocação pedagógica porque é na educação que o homem se desenvolve
para alcançar uma consciência positiva que conduza a sociedade ao estado positivo.
A Filosofia positivista influenciou de forma significativa a educação brasileira,
principalmente durante a primeira República. Comte foi insperado na construção
de seu pensamento, por acreditar que a sociedade norteada pelos ideais sociais e
burgueses modernos seria marcada pelo anarquismo, resultado do fim da unidade
espiritual após a separação entre Estado e Igreja.
Essa separação seria um acelerador de degradações que somente uma educa‑
ção, nos moldes positivistas, seria capaz de promover uma aprimoramento social e
humano. Embora ele nunca tivesse escrito uma obra, especificamente pedagógica,

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por exemplo. Em sua obra. influenciado por sua grande paixão e amor. Comte fundou uma religião fundamentada no amor com a intenção de atrair para o positivismo as mulheres e os proletários. podemos recordar aqui o caráter ou em nossa bandeira nacional. Com ele. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. encontram-se várias tentativas de explicar a sociedade e o mundo aos homens por um programa de educação científica e enciclopédica onde ele propõe a uitlização de uma educação a partir de um filtro (para eliminar impurezas) onde seriam eliminadas as influências metafísicas de todo o conhecimento científico. As‑ do ideal republicano a partir da se- sim. fruto da revolução burguesa e da hegemonia capitalista. O objetivo de Comte era promover uma refor‑ mulação do quadro social afogado nos conflitos ge‑ rados das novas relações de trabalho do capitalismo Para saber mais industrial. ele faz uma consagração à propriedade privada gunda metade do século XIX. possivel perceber em nossa pri- O que apresentamos neste espaço foram as meira constituição republicana de mudanças que ocorreram no campo das teorias 1891.indd 61 20/02/13 18:53 . Progredir. A sua contribuição. Assim. Ou. 88822-978-85-8143-641-8. Ou seja. O positivismo é. portanto. A sociedade. É como resultado da ordem social. que característica da filosofia é justamente seu espírito estampa um lema de inspiração crítico e é esse espírito que promove mudanças e positivista: “Ordem e progresso”. O mérito do positivismo se encontram na propaganda de um modelo positivista da ciência experimental. seria governada por uma elite de técnicos e cientistas. no mundo científico. dispositivos de evidente ori- de conhecimento.06:43:52 .PG-71 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   61 as pistas para essa intencionsalidade se encontram no conjunto de sua obra em frag‑ mentos de pensamentos nela publicados. Tempos depois.pdf. 2014 . pudemos perceber que gem positivista. o positivismo encontrou de forma radical o pensamento de Marx e qualquer adeptos e influenciou a formação tipo de proposta de eliminação da propriedade. rupturas científicas.January 10. as ciências empiricas (experimentais) passaram a tomar frente às especulações filosóficas essen‑ cialmente idealistas. Passar dos modelos racionalistas e empiris‑ tas para o construtivismo representou.indd ) . Aliás. no imaginá‑ Homem_cultura_e_sociedade. Mas por que acontecem essas mudanças nos modelos científicos? A consolidação da ideia de que o conhecimento científico e a sociedade “evoluem e progridem” de forma linear e em movimento ascendente. foi a adoção de um método científico como base para organização política da sociedade industrial. por‑ tanto. É importante assinalar que Comte rejeita No Brasil. o positivismo imprimiu o aspecto positivista na experiência. uma grande revolução epistemológica. o circular ou o retroativo. além disso. Clotilde de Vaux. evolução e progresso são conceitos compreendidos em uma perspectiva mecanicista que não compreende outros movimentos. O conhecimento sistematizado no âmbito escolar deve privilegiar tão somente as ba‑ ses racionais e científicas. A marca mais visí- não há UMA teoria que represente a verdade ab‑ vel dessa influência podemos notar soluta.

mas irá alcançar o devido progresso a que se destina no devido tempo. Mas agora a ciência nos alerta: caminhar faz bem à saúde! Os engenheiros de trânsito avisam: não há espaço para tanto carro e é preciso retomar a velha bicicleta há muito encostada e. Por exemplo: deixamos de caminhar quando compramos uma bicicleta que abandonamos por uma motocicleta que é abandonada por um carro que será abandonado por outro mais potente e assim por diante. 256). no início da carreira heroica.06:43:52 . 88822-978-85-8143-641-8. o herói americano. p. 256): Evolução e progresso são a crença na superioridade do presente em relação ao passado e do futuro em relação ao presente. Reinvidaremos o pensamento de Chaui (2002. com progresso e sem progresso. O modelo científico moderno introjetou na sociedade essa ideias. a física galilaico-newtoniana seria superior à aristotélica.January 10.indd 62 20/02/13 18:53 . Assim.PG-72 62  H o m e m .indd ) . p. essa ideia se fundamenta na concepção de tempo em um continuum cres‑ cente. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. evoluídos e não evo‑ luídos. o futuro já está contido no ponto inicial de um ser cuja história ou tempo nada mais é do que o desdobrar ou o desenvolver pleno daquilo que ele já era potencialmente (CHAUI. de forma linear e mesmo na história estão refletidos o pensamento e método utilizados nas ciências biológicas: O germe. tinha um mote que era: Avante para o alto! Homem_cultura_e_sociedade. Assim. Chaui (2002) explica que as expressões desenvovlvidas e subdesenvolvidas substituíram outras formas de expressar e designar que foram consideradas pejorativas como: países adiantados e atrasados. Enfim. Assim. a física quântica seria superior à de Galileu e de Newton. de preferência. A ideia de evolução e progresso está representada pelo modelo científico vigente. isto é. utilizar o velho mecanismo corporal mais conhecido como PERNAS para ir e vir. Com relação ao nosso país e outros também não tão desenvolvidos também contemplam o mesmo princípio. Esse modelo de ciência influenciou a ideologia (que veremos em unidade poste‑ rior) presente nos países hegemônicos. o que ficou registrado em nosso imaginário foi a ideia de que evoluir é se tornar “superior” e progredir é ir sempre em direção a uma finalidade superior. significa inclusive alcançar uma ascenssão social sustentada por uma aquisição financeira mais representativa. que tenha uma representação social mais valorizada. queremos sempre um modelo de transporte superior ao que utilizamos. 2002. Nesse sentido. os europeus civilizados seriam superiores aos africanos e aos índis. O Supe-Homem. c u lt u r a e s o c i e d a d e rio popular. Essa ideologia está plenamente cristalizada no ideário brasileiro. nos empenhamos em buscar uma formação melhor e. Essa ideia foi disseminada com muita eficiência e de forma camuflada por países que se consideram os melhores porque são mais evoluídos. a semente ou a larva são entre que contêm neles mes‑ mos tudo o que lhes acontecerá. 2014 . em personagens como o Super-Homem. mais. Sempre consideram os “países” do “primeiro mundo” melhores porque lá eles conseguiram alcançar a finalidade a que estavam destinados desde que surgiram. o tempo está representado de forma relojoeira: de forma contínua e com um acúmulo das fases que ao final promove um “aperfeiçoa­ mento” em todos os seres vivos.pdf.

Para saber mais Aqui você deve estar se perguntando: por que É preciso retomar o conceito de temos que estudar isso? E respondemos: porque a epistemologia. não há ensino desprovido de termos gregos: episteme. por exemplo. gica”. De acordo com Chaui (2002). Essa é a grande revolução das ciências a partir do século passado. No entanto. Cada uma repre‑ sentada por um arcabouço teórico de diferentes teóricos.indd 63 20/02/13 18:53 . entre outros. que ocorreu uma nova ruptura a partir da percepção dessa descontinuidade do tempo e do espaço. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Homem_cultura_e_sociedade. É nesse postulado que surgiram outras teorias que são conhecidas como emer‑ gentes. objetos. Dessa forma. Isso foi percebido pelo cientista Einstein. concei‑ tos e demonstrações diferentes e não partícipes de um processo de evolução sucessiva. 2014 . Por isso acontecem as rupturas epistemológicas (expressão criada pelo filósofo Gaston Bachelar). é a ciência que sistematiza o conhecimento Esta palavra é composta de dois científico. Epistemologia é o conhecimento Mas voltando à nossa “ruptura epistemoló‑ filosófico sobre as ciências. sistêmica e complexa. Os físicos deram o nome de física quântica para expressar o modelo físico que postula a não linearidade dos fenômenos incluindo o tempo e o espaço. mas existem outros nomes: holística. Portanto.January 10. e logia.pdf. Essas teo­ rias são consequência de mudanças conceituais. O que está contida nessa ideia é a refutação da ideia de evolução. portanto o século XX. essa ideia de progresso e evolução a partir de um contínuo ascendente caiu por terra quando a filosofia da ciência compreendeu que as ideias científicas contemplam diferenças e descontínuos.06:43:52 .PG-73 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   63 Nesse filme você poderá ver a ideia de um ideal de sujeito “melhorado” para uma sociedade organizada dentro dos princípios de evolução e progresso. Quem criou a expressão teoria emergente foi o filósofo Boaventura de Sousa Santos. percebe-se que são duas geometrias com princípios. o nifica ciência. Foi durante o século passado.indd ) . Pedagogia. vinda de lo- nosso sujeito que aprende depende do modelo de gos. que reivindica para si o estatuto cien‑ tífico. Como vemos. ao comparar. do século XX. significa conhecimento. os pressupostos da geometria clássica — espaço plano — e a contemporânea — que opera com espaço tridimensional. compreendeu-se que há uma “descontinuidade” representada por diferentes estágios de tempo entre as teorias científicas. 88822-978-85-8143-641-8. conhecimento no qual estamos inseridos. que sig- um pressuposto epistemológico.

Na Idade Moderna. nunca chegam a tal grau de vivacidade que não seja possível discernir as percepções dos objetos. Mas. Se vós me dizeis que certa pessoa está amando. nunca podem pintar os objetos naturais de tal modo que se tome a descrição pela paisagem real. quando uma pessoa sente a dor do calor excessivo ou o prazer do calor mode- rado.indd ) . s. O máximo que podemos dizer delas. Estas faculdades podem imitar ou copiar as percepções dos sentidos. e quando depois recorda em sua memória esta sensação ou a antecipa por meio de sua imaginação. compreendo facilmente o que quereis dizer-me e formo uma concepção precisa de sua situação. 88822-978-85-8143-641-8. Ou seja. Quando refletimos sobre nossas sensações e impressões Homem_cultura_e_sociedade. Podemos observar uma distinção semelhante em todas as outras percepções do espírito. A pergunta norteadora de todo o pensamento ocidental foi: como conhecemos? Aproveite a leitura e aprenda mais! Ensaio sobre o entendimento humano SEÇÃO I DAS DIFERENTES CLASSES DE FILOSOFIA SEÇÃO II DA ORIGEM DAS IDEIAS Cada um admitirá prontamente que há uma diferença considerável entre as percepções do espírito.January 10. O ensaio sobre o entendimento humano (HUME. c u lt u r a e s o c i e d a d e Aprofundando o conhecimento O texto escolhido para a próxima leitura é de um filósofo que representou de forma significativa a ciência inaugurada na Idade Moderna: Thomas Hume. houve uma virada na forma de compreensão do conhecimento. o grande dilema foi a busca de compreensão sobre o conhecimento. apresentamos um pequeno trecho de uma de suas obras.indd 64 20/02/13 18:53 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.) é o desenvolvimento de uma teoria de conhecimento que influenciou de forma fundamental o pensamento de Kant e com este houve uma “virada” epistemológica.06:43:52 . mesmo quando atuam com seu maior vigor. é que representam seu objeto de um modo tão vivo que quase podemos dizer que o vemos ou que o sentimos. a menos que o espírito esteja perturbado por doença ou loucura. porém nunca podem alcançar integralmente a força e a vivacidade da sensação original.pdf. O pensamento mais vivo é sempre inferior à sen- sação mais embaçada. 2014 . Um homem à mercê dum ataque de cólera é estimulado de maneira muito diferente da de um outro que apenas pensa nessa emoção. Todas as cores da poesia. porém nunca posso confundir esta ideia com as desor- dens e as agitações reais da paixão. Assim. apesar de esplêndidas.PG-74 64  H o m e m .d.

derivadas dela.indd ) . desejamos ou que remos. pois o sentimento que temos de nós mesmos nos permite conceber a virtude e podemos uni-la à figura e forma de um cavalo. mas a mistura e composição deles dependem do espírito e da vontade. de transpor. E as impressões diferenciam-se das ideias. vemos. nada pode parecer mais ilimitado do que o pensamento humano. espero que serão suficientes os dois argumentos seguintes. para expres- sar-me em linguagem filosófica: todas as nossas ideias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões ou percepções mais vivas. usar um pouco de liberdade e denominá-las impressões. das quais temos consciência. através de um exame mais minucioso. quando refletimos sobre quais quer das sensações ou dos movimentos acima mencionados. por tanto. Mesmo as ideias que. somente com fins filosóficos era necessário compreendê-las sob um termo ou nomenclatura geral. todos os materiais do pensamento derivam de nossas sensações externas ou internas. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. ou mesmo. que se distinguem por seus diferentes graus de força e de vivacidade. sempre verificamos que se reduzem a ideias tão simples como eram as cópias de sensações precedentes. significando o Ser infinitamente inteligente. empre gando esta palavra num sentido de algum modo diferente do usual. suponho. Primeiro.PG-75 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   65 passadas. dividir todas as percepções do espírito em duas classes ou espécies. ouro e montanha. quando aumentamos in- definidamente as qualidades de bondade e de sabedoria. sentimos. Pelo termo impressão entendo. porém as cores que emprega são fracas e embaçadas em comparação com aquelas que revestiam nossas percepções originais. exceto o que implica absoluta contradição. Formar monstros e juntar formas e aparências incongruentes não causam à imaginação mais embaraço do que conceber os objetos mais naturais e mais familiares. Não énecessário possuir discernimento sutil nem predisposição metafísica para assinalar a diferença que há entre elas. sob um escrutínio minucioso. Para prová-lo. para o caos indeterminado. A outra espécie não possui um nome em nosso idioma e na maioria dos outros. todas as nossas percepções mais vivas. por mais compostos ou sublimes que sejam. sábio e bom. que não apenas escapa a toda autoridade e a todo poder do homem. quando ouvimos. A primeira vista. aumentar ou de diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experiência.indd 65 20/02/13 18:53 . Deixe-nos. à primeira vista. que outrora conhecêramos. que é um animal bem conhecido. sobre o qual se arrasta com sofrimento e dificuldade. e acharemos sempre que cada ideia que examinamos Homem_cultura_e_sociedade. nasce da reflexão sobre as operações de nosso próprio espírito. o pensamento pode transportar-nos num instante às regiões mais distantes do Universo. mas também nem sempre é reprimido dentro dos limites da natureza e da realidade. que ele está realmente confinado dentro de limites muito reduzidos e que todo poder criador do espírito não ultrapassa a faculdade de combinar. embora nosso pensamento pareça possuir esta liberdade ilimitada. verificaremos.January 10. por conseguinte. Pode-se conceber o que ainda não foi visto ou ouvido.06:43:52 . pois. amamos. além do Universo. Ou melhor. porque não há nada que esteja fora do poder do pensamento. onde se supõe que a Natureza se encontra em total confusão.pdf. Apesar de o corpo confinar-se num só planeta. Em resumo. Podemos. 88822-978-85-8143-641-8. 2014 . Quando pensamos numa montanha de ouro. Podemos conceber um cavalo virtuoso. odiamos. nosso pensamento é um reflexo fiel e copia seus objetos com veracidade. se analisamos nossos pensamentos ou ideias. que são as percepções menos vivas. A ideia de Deus. parecem mais dis tantes desta origem mostram-se. porque. Podemos continuar esta investi- gação até a extensão que quisermos. Entretanto. As menos fortes e menos vivas são geralmente denominadas pensamentos ou ideias. apenas unimos duas ideias compatíveis.

por exemplo. se se negasse isto. e a pessoa não terá mais difi- culdade para conceber aqueles objetos. em que uma pessoa nunca sentiu ou que é completamente incapaz de um sentimento ou paixão próprios de sua espécie. admitimos que outros seres podem possuir muitos sentidos dos quais não temos noção. decrescendo gradualmente do mais escuro ao mais claro. Ora. notamos que ela tem a mesma incapacidade para formar ideias correspondentes.pdf. serão de opinião que ela não pode. não têm nenhuma noção do sabor do vinho. Restaurai a um deles um dos sentidos de que carecem: ao abrirdes as por- tas às sensações. isto é. e em verdade fácil. ela perceberá um vazio onde falta este matiz. 88822-978-85-8143-641-8. mediante o sen- timento e a sensação reais. Segundo. exceto com um matiz particular do azul. constatamos.06:43:52 . preencher este vazio e dar nascimento à ideia deste matiz particular que. todavia. Um homem de modos brandos não pode formar uma ideia de vingança ou de crueldade obs- tinada. Assim. então. defronte daquela pessoa. Aqueles que dizem que esta afirmação não é uni- versalmente verdadeira. se quiséssemos preservar nossa doutrina. parecidas. portanto.PG-76 66  H o m e m . pode tornar toda discussão igualmente inteligível e eliminar todo Homem_cultura_e_sociedade. terá o sentimento de que há uma grande distância naquele lugar. não podeis. entre as cores contíguas. Colocai todos os diferentes matizes daquela cor. porque as ideias destes sentidos nunca nos foram apresentadas pela única maneira por que uma ideia pode ter acesso ao espírito. todavia. por exemplo. Ora. Pois. são real­mente diferentes umas das outras. pergunto se lhe seria possível. Em verdade. não deriva desta fonte. negar a identidade dos extremos. creio eu. deve sê-lo igualmente para os diversos matizes da mesma cor. exceto aquele único. uma pessoa que gozou do uso de sua visão durante trinta anos e se tornou perfei- tamente familiarizada com cores de todos os gêneros. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. têm apenas um método. 2014 . que a mesma observação ocorre em menor grau. Certamente. por contínua gradação dos matizes. ou aquelas de sons conduzidas pelo ouvido. em sua opinião. no entanto. e isto pode servir de prova que as ideias simples nem sempre derivam das impres- sões correspondentes. mas esse caso tão singular é apenas digno de observação e não merece que. Apesar de haver poucos ou nenhum caso de semelhante deficiência no espírito. uma proposição que não apenas parece simples e inteligível em si mesma.indd 66 20/02/13 18:53 . de mostrar a impressão ou percep- ção mais viva que lhe corresponde. mais do que em qualquer outro. ao mesmo tempo. para refutá-la: mostrar uma ideia que. um cego não pode ter noção das cores nem um surdo dos sons. modifiquemos nossa máxima geral. se vós não admitis a distinção entre os intermediários.January 10. unicamente por ele. nem sem exceção. seus sentidos nunca lhe forneceram? Poucos leitores. sem absurdo. se isto é verdadeiro a respeito das diferentes cores. independente das outras. nem um coração egoísta pode conceber facilmente os ápices da amizade e da ge- nerosidade. um fenômeno contraditório que pode provar que não é absolutamente impossível que as ideias nasçam independentes de suas impres- sões correspondentes. através de sua imaginação. passar insensivelmente de uma cor a outra completamente distante de série. Incumbir- -nos-ia então. se se fizer dela o uso apropriado. Acredito que se concordaria facilmente que as várias ideias de cores diferentes que penetram pelos olhos.indd ) . que nunca teve a sorte de ver. Um lapão ou um negro. Há. O mesmo fenômeno ocorre quando o objeto apropriado para estimular qualquer sensação nunca foi aplicado ao órgão do sentido. Suponde. seria possível. e cada matiz produz uma ideia diversa. pos sibilitais também a entrada das ideias. Eis. embora. c u lt u r a e s o c i e d a d e é cópia de uma impressão semelhante. mas que. se ocorre que o defeito de um órgão prive uma pessoa de uma classe de sensação.

especialmente as abstratas. removeremos toda discussão que pode surgir sobre sua natureza e realidade.indd ) . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. todas as impressões. esperar que. Portanto. Homem_cultura_e_sociedade. nossa visão de mundo. de homem e de sociedade. são naturalmente fracas e obscuras. Resumo Nesta unidade você aprendeu sobre as teorias epistemológicas. Pelo contrário. de nossas práticas profissionais.br>. elas são apropriadas para serem confundidas com outras ideias semelhantes. isto servirá para confirmar nossa suspeita. o espírito tem sobre elas um escasso controle. [. Foram mui‑ tas que ainda são estudadas. são fortes e vivas.January 10. acreditamos que com esta unidade tenhamos contribuído de forma significativa com a formação de todos que se dispuseram a ler este livro didático que foi escrito para você. todas as sensações.dominiopublico.org. e somos levados a imaginar que uma ideia determinada está aí anexada se. portanto. Todas fazem parte.06:43:52 . Todas as ideias. que há muito tempo se apossou dos raciocínios metafísicos e os desacreditou.] Hume queria saber: como conhecemos? Como recordamos? Qual é a diferenção entre sensações e razão? Aprendemos primeiro com as experiências ou somente com a razão? Estes foram os pontos de partida que nortearam toda a pesquisa e toda a obra desse grande filósofo. ao trazer as ideias a uma luz tão clara.indd 67 20/02/13 18:53 .. E razoável.pdf. isto é. empregamos qualquer termo sem lhe dar significado exato. se for. Todas influenciaram nossa cultura. externas ou internas. impossível designar uma. indiretamente. seus limites são determinados com mais exatidão e não é tão fácil confundi- -las e equivocar-nos. 88822-978-85-8143-641-8. o que ocorre com frequência.. Assim. Você quer saber mais? Então já sabe: <www.PG-77 O p e n s a m e n t o m o d e r n o   67 jargão. 2014 . quando suspeitamos que um termo filosófico está sendo empregado sem nenhum significado ou ideia — o que é muito frequente — devemos apenas perguntar: de que impressão é derivada aquela suposta ideia? E.

January 10. c u lt u r a e s o c i e d a d e Atividades de aprendizagem 1. Qual é a teoria que fundamenta a sua prática profissional? 3.indd ) . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.06:43:52 . O que é ciência e quais são as suas características? 6.indd 68 20/02/13 18:53 .PG-78 68  H o m e m . 2014 . O que significou o criticismo kantiano? 4.pdf. O que significa o termo ruptura epistemológica? 5. 88822-978-85-8143-641-8. Qual foi a importância da Idade Moderna para o nosso mundo contemporâneo? 2. Qual é a relação entre conhecimento e formação humana? Homem_cultura_e_sociedade.

no sentido da configuração dos sujeitos e de suas atividades cotidianas.06:43:52 . 88822-978-85-8143-641-8.PG-79 Unidade 3 Cultura e ideologia Giane Albiazzetti Okçana Battini As condições gerais de vida das pessoas são ordenadas hegemonicamente enquanto forma social e destino coletivo pelas disposições par- ticulares dos poderes estabelecidos. Seção 2: O surgimento do modo de produção capitalista e a formação da nossa sociedade Nesta seção levantaremos as principais características do modo de produção capitalista e sua relação com a formação cultural da sociedade e do ser humano. Marshall Sahlins (Ilhas de História) Objetivos de aprendizagem: Nesta unidade você será levado a com- preender o processo de surgimento do modo de produção capitalista e seu rebatimento na formação da cultura e da sociedade. Homem_cultura_e_sociedade. Nesse sentido. 2014 .January 10. descobrirá que existe uma relação direta entre a forma como a cultura é produzida e sua relação com a ideologia capitalista.pdf. Seção 1: Ideologia e cultura: uma relação indissociável e espaço de contradição Nesta seção discutiremos como a ideologia pode ser vista como um processo inerente ao modo de pro- dução capitalista.indd 69 20/02/13 18:53 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. sendo necessário compreender seu processo de contradição.indd ) .

ela é a linguagem da vida real.PG-80 70  H o m e m . Marx busca em sua análise compreender a estrutura do capitalismo para detectar as fontes e as origens das ideias que fornecer sustentação a sociedade.. E para traçar este caminho. Nesse sentido as origens da ideologia estão no próprio modo de organização da vida material de uma determinada época histórica. o pensamento.indd 70 20/02/13 18:53 .06:43:53 .pdf. Seus significados assumem as mais diversas interpretações. As representações. no modo como vivem os homens. Nesse momento realmente a única certeza que existe é que somos diferentes culturalmente! E saber dessa diferença muitas vezes assusta ou nos faz procurar saber mais sobre ela. sendo que essas ideias seriam fenômenos naturais. que ao transformar a natureza a seu favor criou símbolos e signos que nos auxiliam a viver hoje em dia. através do trabalho de Destutt de Tracy. A produção das ideias. que propunha a elaboração de uma ciência da gênese das ideias. o comércio intelectual dos homens Homem_cultura_e_sociedade. produzida pelo homem. produtos da interação entre o organismo vivo e o meio ambiente. de forma coletiva? E se pensarmos em uma sala de aula: quantos alunos. Uma primeira leitura do termo ideologia surge em 1801. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade..January 10. o que gera muitas vezes uma ambiguidade e esvaziamento do con‑ ceito. assim como o termo ideologia. Ou seja.   Seção 1 Ideologia e cultura: uma relação indissociável e espaço de contradição O termo cultura se destaca no campo das ciências humanas como um dos mais plurais. c u lt u r a e s o c i e d a d e Introdução ao estudo Pensar nas relações culturais existentes em nossa sociedade muitas vezes nos deixa perplexos. das representações e da consciência está. direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens. quantas experiências. visto que ele busca compreender que as ideologias não são apenas conjuntos de ideias de um determinado momento histórico. 88822-978-85-8143-641-8. visto que nos deparamos com um emaranhado de fenômenos que nos colocam em xeque: Como é possível existir uma enormidade de padrões cultu‑ rais em uma mesma sociedade? Como sujeitos de grupos distintos podem viver em sociedade. a princípio. sendo que dessa relação resultariam um conjunto de ideias. mas uma forma de fetichizar as relações sociais existentes. quantas histórias de vida. Esse tratado visa elaborar uma teoria sobre a relação dos sentidos dos homens com o meio ambiente. intitulado Elementos de ideologia. Mas foi com Marx que a questão da ideologia passa a ter uma nova leitura.indd ) . convido vocês a seguirem comigo pela fascinante estrada. a produção das ideias para Marx está fundamentalmente baseada na materialidade social. pois ao passo que é utilizado para “explicar quase tudo” perde seu contexto científico de especificidade e precisão metodológica. 2014 .

ideias e saberes. riqueza. 1995. divisão social do poder econômico.] os homens fazem a História. enquanto outra parte não possui nada disso.indd 71 20/02/13 18:53 . oriundas de práticas históricas. divisão social das trocas. Nesse contexto Marx e Engels (2001) colocam que as mudanças de uma sociedade estabelecem-se em condições determinadas em que os homens fazem a história.pdf. Marx e Engels (2001) chamam essa divisão de condições materiais de existência. atuantes. guerra. Essa relação pode ser vista como uma relação pautada na divisão entre os sujeitos sociais. mas o fazem em condições determinadas.06:43:53 . mas acontece de acordo com condições econômica. da religião. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. suas ideias etc. da metafísica etc. 1995. 2001. religião.PG-81 C u l t u r a e i d e o l o g i a   71 aparecem aqui ainda como a emanação direta de seu comporta‑ mento material. 172). p. isto é. na das leis. divisão social do poder religioso e divisão social do poder político. 1995). multiplicando-se em muitas outras divisões sob forma de instituições. uma vez que se referem às práticas sociais que os homens realizam por meio do trabalho e esse trabalho é o que garante nossa existência. Notamos que esses conjuntos de divisões têm se tornado cada vez mais amplos e complexos. Tal mudança não se realiza por acaso nem por vontade livre dos homens. 18) . terras. ENGELS. Segundo Marx e Engels (2001). inclusive as mais amplas formas que estas podem tomar. sendo essas estruturas fundadas na divisão de classes sociais. existem variações dessas condições materiais de existência. p. produzindo os chamados modos de produção. 88822-978-85-8143-641-8. trabalho. Elas desenvolvem o que conhecemos como nossas estruturas sociais. bens. oriundas do momento histórico em que os homens realizam as ações des‑ critas acima. passagens ou transformações de um modo de produção para outro. O mesmo acontece com a produção intelectual tal como se apresenta na linguagem da política. comércio. graças à práxis humana diante de tais condições dadas (CHAUI. da moral. política) uma parte detém poder. Podemos chamar isso de alienação social. divi‑ são social do trabalho. divisão social das riquezas. rica. 172). São os homens que produzem suas representações. armas. so‑ ciais e culturais já estabelecidas. mas não a sabem que a fazem” (CHAUI. e o ser dos homens é o seu processo de vida real (MARX. Por que divisão: porque em todas as instituições sociais (família. divisão social do poder militar. p. Chaui (1995) utiliza-se de Marx para discutir que é através da história que existem as mudanças.indd ) . trabalhadores. sendo que essa questão pauta-se no desconhecimento das condições histórico-sociais con‑ Homem_cultura_e_sociedade.. Assim ele fundamenta: “[. tais como são condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e das re‑ lações que a elas correspondem. A consciência nunca pode ser mais que o ser consciente. poder po‑ lítico.. poderosa e instruída (CHAUI. 2014 . mas os homens reais.January 10. sendo que Marx observou que a sociedade nasce pela estruturação de um conjunto de divisões: divisão sexual do trabalho. que podem ser alteradas de uma maneira também determinada.. estando subjugada à outra. que não foram escolhidas por eles. de todo um povo.

page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. por ser tido como natural.br/do- mas apensa habilidades manuais. Homem_cultura_e_sociedade. social entre trabalho material (que produz merca‑ senciais para a compreensão da dorias) e trabalho intelectual (que produz ideias). dades de trabalho leva a crer que o trabalho ma‑ terial é uma tarefa que não exige conhecimentos. É um e a alienação intelectual: que resulta da separação texto denso. sendo que nos dois casos. a sociedade é o outro (alienus). alienação econômica: na qual os produtores não Um dos textos mais significativos se reconhecem como produtores. nhecem nos objetos produzidos por seu trabalho. trabalho intelectual é responsável exclusivo pelos conhecimentos.pdf>. julgando que.indd ) . 2014 .06:43:53 . diferente de nós Saiba mais e com poder total ou nenhum poder sobre nós. por outro lado e ao mesmo tempo.dominiopublico. enquanto o wnload/texto/cv000003.January 10. capazes de mudar suas vidas individuais como e quando quiserem.pdf. podemos determinar três tipos de alienação em nossa sociedade: alienação social: na qual os humanos não se reconhecem como produtores das instituições sociopolíticas e oscilam entre duas atitudes: ou aceitam passivamente tudo o que existe. mas. ção é A ideologia alemã. ou se rebelam individualmente. nossa realidade social. com significados es. Acredito ser sendo que a divisão social entre as duas modali‑ essencial à sua leitura. separado de nós. p. algo externo a nós. no segundo caso. No pri‑ meiro caso. divino ou racional. julgam-se indivíduos livres. não percebem que instituem a sociedade. por sua própria vontade e inteligência. 172).indd 72 20/02/13 18:53 . Há uma dupla alienação: por um lado. apesar das instituições sociais e das condições históricas. c u lt u r a e s o c i e d a d e cretas em que vivemos produzidas pela ação humana também sob o peso de outras condições históricas anteriormente determinadas. ignoram que a sociedade que a sociedade instituída determina seus pensamentos e ações (CHAUI. nem se reco‑ de Marx sobre a questão da aliena. 1995. <www. Continuando a linha de pensamento de Chaui (1995). os homens não se reconhe‑ cem como agentes e autores da vida social com suas instituições. podem mais do que a realidade que os condiciona.PG-82 72  H o m e m . 88822-978-85-8143-641-8.gov.

as reformas protestantes.06:43:53 . paradigma a perspectiva antropocêntrica em 121 min. com Martinho Lutero e João Calvino. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 1). Quando falamos do modo de produção capitalista da nossa sociedade de hoje. Elenco: Robert de central da sociedade.January 10. instituiu uma nova forma de mediar a questão com o divino. As transformações ocorridas a partir do século XV estão todas vin‑ culadas entre si e não podem ser entendidas de forma isolada. conceitos que haviam impregnado a cultura da Idade Média. Jeremy Irons. sociedade. Esse ideal pode ser entendido como a valorização do homem e da natureza.PG-83 C u l t u r a e i d e o l o g i a   73   Seção 2 O surgimento do modo de produção capitalista e a formação da nossa sociedade A questão da alienação está vinculada. Uma nova estruturação estatal Saiba mais acompanha esse processo de expansão marítima. Para compreender melhor como as com a formação e o fortalecimento dos Esta‑ Grandes Navegações influenciaram dos nacionais. dotados de orçamento e aparato no processo de transformação da jurídico-burocrático-militar próprios. ao esta‑ belecer contato com novos povos. ver o filme: A missão O renascimento (século XVI) trouxe no‑ (The Mission. ao modo de produção capitalista. em nosso recorte. É o início do conhecimento científico que mais tarde com Francis Bacon e René Descartes ficará conhecido como o único responsável pelas explicações dos fenômenos naturais e sociais. que desemboca em uma nova forma de produzir a realidade social.indd ) . são o pano de fundo para uma visão melhor desse movimento intelec‑ tual de grande envergadura que irá alterar profundamente as formas de explicar a natureza e a sociedade daí para a frente (TOMAZI. visto que coloca como Niro. a formação dos Estados nacionais. Leonardo da Vinci e Copérnico desenvolveram novas formas de compreender a realidade so‑ cial. Flashstar. Desse modo. devemos nos remeter ao processo de desenvolvimento histórico que discutimos no início do texto.. acontecimentos esses que datam do início do século XV até o final do século XVIII. 88822-978-85-8143-641-8. 2000. A Reforma Protestante. detrimento do teocentrismo. p. pois é ela que fundamenta a vida dos indivíduos nos dias atuais. 1986) Direção: vamente a figura do homem como elemento Roland Joffé. culturas e mercadorias. em oposição ao divino e ao sobrenatural. bem como o desenvolvimento científico e tecnológico. Alguns acontecimentos marcaram o surgimento do capitalismo. Nesse momento Galileu Galilei. os europeus am‑ pliaram sua perspectiva de mundo. Com a expansão marítima. rompendo com a hegemonia da Igreja Homem_cultura_e_sociedade. as grandes navegações e o comércio ultra‑ marino. ING. 2014 . Lian Neeson.pdf.indd 73 20/02/13 18:53 . utilizando-se da experiência para comprovar os fenômenos da sociedade e da natureza. a expansão marítima.

indd ) . quanto à esfera econômica e pela Habeck. Valen. Para saber mais Outro filme interessante que demonstra o processo de mudança social através da Revolução Industrial é Tempos modernos (Modern Times. dessa forma. Ao se desenvolver a manufatura.January 10. Continental. Michael na Inglaterra. c u lt u r a e s o c i e d a d e Católica. inicialmente. A burguesia contou com a colaboração efetiva dos filósofos iluministas.. o confronto Direção de Jean-Jacques Annaud. econômica e política europeia Lonsdale. A compra de matérias-primas e a organização da produção [. procuravam investir nos inventos. 1993). Essa classe foi a responsável pela introdução da produção manufatureira. Elenco: Charles Chaplin. William Hickey. por sua vez. visando produzir mais com menos gente. e por seu desenvolvimento. Christian na fé e nos dogmas (TOMAZI. Direção: Charles Chaplin. das Escrituras Sagradas e. em um retrato bastante fiel do poder contraposição à revelação.pdf. p.06:43:53 . A Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra a partir de 1750 significa o coroamento de um processo iniciado no século XVII. 2000. que fez da burguesia comercial. principalmente em decorrência Baskin. 87 min. 2014 .PG-84 74  H o m e m . No século XVIII o processo de transformação tina Vargas. ao entrar em conflito com a autoridade Para saber mais papal e a estrutura da igreja. Michael da vida social. marcado pela maquinofatura e pela produção industrial. substituição da nobreza pela burguesia. financiar a criação de máquinas que pudessem ter aplicação no processo produtivo (TOMAZI.. 1936). 3). no dire‑ cionamento político. os organizadores da produção passaram a se interessar cada vez mais pelo aperfeiçoamento das técnicas de produção. Urs Althaus. Paulette Goddard. Slater. que criticavam duramente a nobreza feudal e o sistema (desigual) Homem_cultura_e_sociedade. as mudanças provocadas pela Revolução Francesa cen‑ tralizavam-se no âmbito político. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Ron Perlman. F. Murray Abraham.indd 74 20/02/13 18:53 . na França. Para tanto. EUA. Feodor Chaliapin Jr. ao permitir a livre leitura da Igreja Católica no século XIV. isto é. Volker Prechtel.. Elya é consolidado. num momento posterior. Isso propiciou uma tendência que contribuiu de modo significativo O filme O nome da rosa mostra para a valorização do conhecimento racional. com o monopólio do clero na interpretação baseada Elenco: Sean Connery. formada principalmente por comerciantes e banqueiros. aumentando significati‑ vamente os lucros. Na França. uma classe economicamente poderosa e influente.] levavam ao desenvolvimento de um novo processo produtivo em contraposição ao das corporações de ofício. 88822-978-85-8143-641-8. Helmut das inovações trazidas pela Revolução Industrial Qualtinger. preto e branco.

As consequências da rápida industrialização e urbanização levadas a cabo pelo sistema capitalista foram tão visíveis quanto trágicas: aumento assustador da prostituição. [. inicialmente na Europa. especialmente os trabalhadores pobres das cidades (MARTINS. 88822-978-85-8143-641-8. esta passava a se constituir em “problema”.. (MARTINS. principalmente porque eles estavam completamente habituados à dinâmica da vida no meio rural. que deveria ser investigado. a sociedade europeia do século XVIII passou a conviver com problemas até então inexistentes. Os Homem_cultura_e_sociedade. suas consequências sociais marcaram significativamente a população europeia. foram mobilizadas as massas.PG-85 C u l t u r a e i d e o l o g i a   75 de privilégios que até então a sustentara. Embora estes dois acontecimentos históricos tenham sido extrema‑ mente importantes para a organização da sociedade que temos hoje. classes sociais. A adap‑ tação ao meio urbano e à disciplina imposta pelo trabalho fabril foi um processo muito doloroso aos trabalhadores. visto que a base da nossa sociedade (desigualdade social. de surtos de epidemia de tifo e cólera que dizimaram parte da população etc. 1987. do infanticídio.indd ) .pdf. ao tomar o poder em 1789. Na verdade. 13-14). investiu decididamente contra os fun‑ damentos da sociedade feudal. no entanto. do alcoolismo. 2014 . alimentação. p. trabalho assalariado) permanece a mesma do início do século XIX. em “objeto”. que passam a dedicar-se a estudá-los. E são jus‑ tamente estes “novos” problemas sociais que irão preocupar os pensadores da época. da criminalidade. por exemplo: tecnologia. medicina. que tanto a Revolução Industrial quanto a Francesa trouxeram novas condições de sobrevivência — econômicas. já que a sociedade era bastante estável.. portanto. A burguesia. do suicídio. Para a destruição do antigo regime. efetivada com a Revolução Francesa. da violência. o principal “mérito” dessas revoluções foi o de possibilitar a plena e absoluta consolidação do modo de produção capitalista. Essas críticas foram muito importantes para mobilizar os trabalhadores e dar sustentação à proposta burguesa de reorganização da sociedade.] A profundidade das transformações em curso colocava a so‑ ciedade num plano de análise.January 10. 1987). page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Pode-se perceber. com o objetivo de compreender como “me‑ lhorar” ou resolver estes problemas. sofreu muito com todas essas transformações. Para saber mais Esses novos problemas sociais estão presentes na sociedade capitalista até hoje. políticas e sociais — para o mundo europeu. Em outras palavras.indd 75 20/02/13 18:53 . ou seja. sendo que as mudanças se dão somente ao entorno da sociedade. e em seguida em todo o mundo. procurando construir um Estado que assegurasse sua autonomia em face da Igreja e que protegesse e incentivasse a empresa capitalista. A população.06:43:53 .

que podemos identificar olhando para nossa própria sociedade contemporânea. Questões para reflexão Será que não podemos relacionar o modo de produção capitalista com a questão da alienação? Lembram a questão de que o homem produz a sua realidade. mas em virtude da manipulação de uma classe sobre a outra. Os indivíduos são separados em classes sociais distintas: os capita‑ listas.January 10. 2014 . e os trabalhadores.06:43:53 . ou seja. uma roupa.. um sapato. quanto ao trabalho: elas são privadas. deslocando-se para fora do mundo real. Nesse sentido. 15). as classes sociais e a divisão do trabalho. uma casa. e para quem vender. o que e quanto produzir. as pessoas quase sempre trabalham para que possam adquirir bens diversos. a ação.] não desejavam produzir um mero conhe‑ cimento sobre as novas condições de vida geradas pela revolução industrial. escondida sob um véu de fumaça. enquanto o capi‑ talismo: a) Baseia-se na propriedade privada dos meios de produção. a consciência (pensamento) passa a ser considerada algo exterior a prática. ou seja. Essa sociedade capitalista fundamenta-se na separação entre o trabalho manual do trabalho intelectual. p. a propriedade privada. fruto da Revolução Industrial. 1987. que separou o trabalho manual do intelectual. Com a divisão do trabalho capitalista. seja a uma pessoa apenas ou a um grupo. que são os proprietários dos meios de produção. 88822-978-85-8143-641-8. uma forma de organizar a pro‑ dução em uma sociedade. Assim é também nas empresas. que são Homem_cultura_e_sociedade. A primeira característica acima exposta nos é bastante familiar: sabemos da existência da propriedade privada em nossa sociedade. como um conjunto de ideias separadas e independentes da realidade social.PG-86 76  H o m e m . Possui características bem específicas. como para reformar ou modificar radicalmente a sociedade de seu tempo (MARTINS. b) Pressupõe a existência de duas classes sociais: os capitalistas (ou burgueses) e os trabalhadores (ou proletários). essa leitura é fetichizada. d) Tem como preocupação central o lucro.pdf. definindo quem..indd 76 20/02/13 18:53 . tanto para manter. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. c u lt u r a e s o c i e d a d e pensadores da época [. mas procuravam extrair dele orientações para a ação. que se tornam sua propriedade: um carro. quanto e como trabalha..indd ) .. Uma segunda característica da sociedade capitalista refere-se à divisão existente em seu interior. pertencem a alguém. c) Utiliza-se do trabalho assalariado. que impede os sujeitos de compreender a realidade da forma que ela é! O capitalismo é um modo de produção. ou seja. e) Transforma todas as relações em mercadorias.

” O capitalismo transforma todas as relações em mercadorias. produzem de fato os bens (produtos) a serem comercializados. 88822-978-85-8143-641-8. Não é a consciência que determina a vida.) é um filme que aborda contratado mediante o pagamento de um salário. aula encontramos manifestações que demonstram o quanto esta perspectiva (de obtenção de lucro) está impregnada nos indivíduos: ao solicitarmos que os alunos executem alguma atividade. É interessante observar que.06:43:53 . 19). irão determinar a necessidade de uma ciência específica para estudá-los. o trabalhador “vende” sua única mercadoria — a mão de obra ou força de trabalho — para que outras mercadorias sejam produzidas. O modo de produção capitalista destaca-se.indd 77 20/02/13 18:53 . Para saber mais isto é. por pagar um salário ao trabalhador.). com a realidade que lhes é própria. p. esta é uma preocupação prol de melhores condições de tra- generalizada: todos querem saber o que vão lucrar balho. empregam os trabalhadores que. Nas relações de produção (as relações de trabalho). Assim. A mercadoria tem papel fundamental nesse modo de produção. os quais. É em virtude deste modo específico de organizar a produção social — o capita‑ lismo — que a sociedade europeia dos séculos XVIII e XIX vê-se atingida por inúme‑ ros problemas sociais. as relações sociais passam a ser relações de troca de mercadorias. já que o lucro só pode ser obtido atra‑ vés de sua comercialização. professora?”. 2001. Poderíamos listar inúmeros exemplos que de‑ monstram como as relações sociais são mediadas pela mercadoria. com sua mercadoria (a força de trabalho). mas sim a vida que determina a consciência (MARX. ele será 158 min. mostrando o contraste exis- com suas ações. a matéria-prima etc. os capitalistas. mas partimos dos homens em sua atividade real. que possuem as empre‑ sas (a estrutura física. ENGELS. transformam. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. na socie‑ movimento dos trabalhadores em dade em que vivemos. porque não compensa. 2014 .PG-87 C u l t u r a e i d e o l o g i a   77 os proprietários da força de trabalho.pdf. Até mesmo na situação de sala de tente em nossa sociedade. ou “Só vale um ponto? Então não farei. ima‑ ginam e representam.January 10. Assim. no pensamento. com muita clareza essa relação en- para satisfazer suas necessidades básicas e sociais. Em outras palavras. para depois se chegar aos homens de carne e osso. bem como o de lucro. Já que o trabalhador não possui os meios de produção e Germinal (França. 1993 — Drama precisa empregar-se para poder trabalhar.indd ) . desenvolvendo sua produção material e suas relações materiais. é comum eles brincarem dizendo “Quanto vai valer. Homem_cultura_e_sociedade. não partimos do que os homens dizem. por utilizar-se do trabalho assalariado. também. e a partir de seu processo de vida real que representamos também o desenvolvimento dos reflexos e das repercussões ideológicas desse processo vital. seu pensamento e também os produtos de seu pensamento. por sua vez. na imaginação e na representação dos outros. tampouco do que eles são nas palavras. São os ho‑ mens que. tre as classes sociais existentes na O capitalismo tem como objetivo a obtenção sociedade capitalista.

dado que mesmo sem ter tido a oportunidade de sentar-se em um banco escolar a referida pessoa possui cultura. em uma comuni‑ dade. no entanto. a separação dos que pensam e daqueles que executam. ENGELS. tornando-se representa‑ ções universais. justamente para poder camuflar sua origem: a divisão da sociedade em classes. Esses itens serão discuti‑ dos adiante.. Os pensamentos da classe dominante são também. enfim.indd 78 20/02/13 18:53 . os pensamentos dominantes. Isso pode ser visto quando relacionamos a separação entre cultura popular e erudita. de tal modo que o pensamento daqueles aos quais são negados os meios de produção intelectual está submetido também à classe dominante (MARX... já que está inserida em sociedade. hábitos com seus interlocutores sociais.. A classe que dispõe dos meios da produção material dispõe também dos meios de produção intelectual. por que falar de ideologia e alienação para discutir cultura? Não é raro ouvirmos a expressão comumente usada para se referir a pessoas com pouca ou nenhuma instrução escolar formal: “Ele (a) não tem cultura”. costumes. a relação alienação e cultura imposta. Questões para reflexão Por que o conhecimento antropológico é necessário às pessoas que trabalham diretamente com grupos da sociedade? Homem_cultura_e_sociedade. espiritual.. portanto tem cultura. uma vez que partilha de valores. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.pdf. em todas as épocas. p..06:43:53 . c u lt u r a e s o c i e d a d e Dentro desse contexto. ocultando assim as contradições internas ao modo de produção capitalista. obviamente essa “afirmativa” nada tem de verdadeiro ou concreto. crenças. ideológica. em outras palavras.January 10. a indústria cultural. passa fundamentalmente pela dominação cultural. em uma religião. e que tem seu motor na dominação econômica. a classe que é o poder material dominante numa determinada sociedade é também o poder espiritual dominante. Evidente que a referida afirmação citada acima está intimamente ligada à divisão da sociedade em classes desiguais.. as ideologias agem nos sentido de inverter a realidade e transformá-la em ideais de mundo da classe dominante. tem história. a relação direta de cultura com escolarização.indd ) . mas já posso indicar algumas reflexões para vocês: Qual representa a “verdadeira” cultura? Será mesmo que só tem cultura quem frequenta a escola? Para iniciar a sua reflexão deixo aqui uma frase do Marx sobre isso. em um grupo. em proprietários e não proprietários. autônomas. 48). moral. mesmo que veladamente. 2014 . tem passado. 2001.. Mas. mas que. em todas as relações sociais temos. a questão do etnocentrismo. 88822-978-85-8143-641-8. Enfim.PG-88 78  H o m e m .

PG-89 C u l t u r a e i d e o l o g i a   79 Aprofundando o conhecimento O texto Considerações sobre a neutralidade da ciência. pela afirmação de que a ciência não tem como atributos nem a neutralidade cognitiva nem a neutralidade aplicada. nos termos a serem especificados. Outros valores cognitivos importantes: são a consistência lógica.indd 79 20/02/13 18:53 . o poder explicativo. de Marcos Bar‑ bosa de Oliveira. em outras palavras. O relativismo é evitado pela afir- mação da tese da imparcialidade. pelo menos até certo ponto. O autor se baseia no conteúdo dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Considerações sobre a neutralidade da ciência O conceito de neutralidade da ciência. ou. é imparcial. A tese normativa por um lado pressupõe que a ciência pode ser imparcial. um dos quais é a imparcialidade. a distinção entre valores cogni- tivos e valores não cognitivos. ciência que historicamente surgiu com um forte apelo ideológico. Com o conceito de imparcialidade podemser formuladas duas teses sobre a ciência: uma normativa – a ciên- cia deve ser imparcial –. Com isso podemos definir o conceito de imparcialidade: a imparcialidade consiste no uso exclusivo de valores cognitivos na seleção de teorias. 2003. que por sua vez é formada pela neutralidade aplicada e a neutralidade cognitiva. ou factual – a ciência é imparcial. a simplicidade etc. A imparcialidade diz respeito ao processo de seleção de teorias no interior da ciência. neutra‑ lidade aplicada e neutralidade cognitiva (OLIVEIRA. 2014 . da tese factual.166-168). é a adequa- ção empírica. os valores subentendidos quando se afirma que a ciência é livre de valores. ajuda a compreender o atual debate sobre a neutralidade das ciências. Outro dos componentes da neu- tralidade no sentido o amplo é a neutralidade no sentido estrito. e analisa a tese da suposta neutralidade científica a partir dos aspectos relativos à imparcialidade. ou seja. Os valores cognitivos formam um conjunto do qual o mais importante. num sentido amplo. por outro ela é compatível com a negação.January 10. dado um conjunto de teo- rias rivais sobre um domínio da realidade.06:43:53 .indd ) . Vejamos então em que consiste a imparcialidade. a capacidade de uma teoria de dar conta dos dados observacionais e ex- perimentais disponíveis. levando-nos a refletir sobre a própria Antropologia. seguindo a tendência empirista que acabou prevalecendo na epistemologia moderna. outra descritiva. como decidimos qual delas é a melhor. Os valores não cognitivos são os valores sociais e morais. a tese de que a ciência. o Homem_cultura_e_sociedade. ou seja. qual deve ser aceita como parte do conhecimento científico? A resposta de Lacey para esta pergunta baseia-se numa distinção muito fundamental. deve ser analisado em alguns componentes. Na medida em que há interfe- rência de valores não cognitivos.pdf. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. a ciência deixa de ser imparcial. ou seja. ou seja. o espírito crítico é mantido pela tese da não neutralidade no sentido estrito. 88822-978-85-8143-641-8. p.

Thomas Kuhn and the Science Wars. As nuvens em forma de cogumelo das bombas jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki significaram o fim da era da inocência científica.PG-90 80  H o m e m . e se Homem_cultura_e_sociedade. O momento histórico é o do pós- -segunda-guerra-mundial. cuja não neutralidade é admitida. viu-se de repente tendo de encarar seu lado devastador. inclusive.indd 80 20/02/13 18:53 . a cumplicidade entre a ci- ência e a política tinha vindo à tona. Os cientistas eram responsáveis não apenas pela invenção de formas novas e mais letais de armas químicas e biológicas. 2014 . É apenas desta maneira. que. surgida num momento histórico determinado. As versões mais radicais da tese da não neutralidade são as que abrem mão inclusive do ideal de imparcialidade. O grande problema com este radicalismo é o que já foi apontado. e neste ponto vou recorrer a um livreto recentemente publicado. c u lt u r a e s o c i e d a d e fato de a ciência às vezes se afastar doideal de imparcialidade não implica que o ideal deva ser abandonado – da mesma forma. e partici- pando dos governos. a ciência não apenas sempre foi e continua sendo parcial. A neutralidade cognitiva constitui um tema bem mais complexo que. sustentando ser impossível excluir os valores não cognitivos do processo de seleção de teorias no interior da ciência. Os termos em que a discussão é posta nos dias de hoje derivam em grande parte de uma versão particular da tese da neutralidade no sentido amplo. de Ziauddin Sardar. portanto. como vimos. produzir e finalmente lançar a bomba atômica.January 10. Trata-se de uma versão em que a neutralidade da ciência é afirmada em contraste com a tecnologia. Desta vez. escapa dos limites desta apresentação. a segunda guerra mundial completou o que a primeira havia iniciado. via-se a ciência dirigindo o espetáculo no campo de batalha. mas por conceber. por exemplo. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. O público.06:43:53 . e passo à neutralidade no sentido estrito. ou seja. e todas as noções de auto- nomia científica haviam evaporado. Sardar diz o seguinte: Na percepção popular da ciência. preservar a imparcialidade como um ideal.indd ) . devemos. Com isso dou por encerrada a discussão da imparcialidade. e será tratado numa outra opor- tunidade. a saber. ou seja. A neutralidade aplicada diz respeito às aplicações da ciência. mas o próprio ideal de imparcialidade deixa de fazer sentido. à tecnologia. 88822-978-85-8143-641-8. como um valor. que se terá uma base para fazer uma crítica da ciência quando ela deixa de ser imparcial. que o fato de o mandamento “não matarás” nem sempre ser obedecido não implica que ele deva ser revogado. Se quisermos evitar o relativismo. Nesta linha de pensamento. divide-se em neutralidade aplicada e neutralidade cognitiva. que ele implica uma forma de relativismo. devido à limi- tação de tempo.pdf. que até então havia prestado atenção em grande parte nos benefícios da ciên- cia. Agora a conexão entre ciência e guerra havia se tornado mais que evidente. O processo contra a ciência militarizada começou com o lança- mento da publicação dissidente chamada Bulletin of the Atomic Scientists por um grupo de físicos nucleares totalmente desen- cantados com o Projeto Manhattan nos Estados Unidos.

incluindo a Antro- pologia.indd ) . Esta perspectiva tem em princípio certa validade. Não há dúvida de que não apenas a ciência. é preciso que todos os pesquisadores se posicionem criticamente em relação ao papel social das ciências e das tecnologias. Este argumento da neutralidade tornou-se a principal defesa da ciência durante as décadas de 50 e 60.] Muitos cientistas estavam preocupados. pode ser usada “para o bem” – para. o que não pode ser confundido com a pretensa neutralidade aplicada.] A tática consis- tia em alegar que a ciência é neutra. digamos. precisam manter uma posição de imparcialidade. dentre eles documentários. querendo que a Bomba não fosse vista como uma consequência inevitável da física.January 10. ano 1989. com du- ração de 13 minutos.PG-91 C u l t u r a e i d e o l o g i a   81 consolidou com o surgimento do CND (a Campanha pelo De- sarmamento Nuclear) no fim do anos 50. mas qualquer artefato humano admite diferentes formas de utilização. Um documentário interessante é Ilha das flores. e neste sentido ela é neutra. p. Segundo ele. como no caso paradigmático da bomba atômica.. Se nos li- mitarmos a casos desta natureza. ela deixa muito a desejar. Entre- tanto. que podem ser voltadas para o bem ou para o mal. é a sociedade que a pode usar para o bem ou para o mal. (Sardar.. Esse documentário aborda como as relações sociais pautadas na questão do trabalho estão presentes em simples atos do nosso dia a dia.. produzido no Brasil. Homem_cultura_e_sociedade. descascar batatas – ou para torturar ou assassinar uma pessoa. Saiba mais Existem muitos elementos que nos ajudam a analisar e compreender essa relação alienação x sociedade x cultura.indd 81 20/02/13 18:53 .. até mesmo aceitando financiamentos de órgãos mili- tares. conceito tão importante para os antropólogos na contemporaneidade. 88822-978-85-8143-641-8.pdf. do diretor Jorge Furtado. [. o mal figura como intenção explícita. 2014 . O autor defende a ideia de que as ciências não podem se sujeitar ao relativismo. mas que muitas vezes leva a concepções equivocadas de que tudo pode ser permitido e realizado em nome do desenvolvimento da humanidade. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 2000. mas nem por isso são menos importantes. como um ponto de vista para a avaliação dos benefícios e malefícios da ciência aplicada. [. livros. Assim. por exemplo. espe- cialmente no mundo de hoje. Uma faca de cozinha.06:43:53 .. as ciências. a conjuntura histórica pós-segunda-guerra mundial gerou uma formulação particular da tese da neutralidade da ciência em que ela aparece contrastada com a não neutralidade de suas aplicações. e permitiu que muitos cientistas trabalhassem em física atômica. sites.. sem que deixassem de se considerar politicamente radicais. 13-4) Como se pode ver então. deixaremos de enxergar os aspectos perniciosos das utilizações da ciência que não fazem parte das intenções daqueles que as promovem. Deixa a desejar porque de acordo com ela.

Marx: a teoria da alienação. Nesse sentido. c u lt u r a e s o c i e d a d e Para concluir o estudo da unidade Temos que ter em mente que a nossa sociedade capitalista é fruto das relações entre os homens que culminaram.indd 82 20/02/13 18:53 . pautado na divisão de classes sociais. dentre eles: O que é alienação. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. políticos. Resumo Nesta unidade discutirmos o surgimento do modo de produção capitalista. até o presente momento.January 10. Homem_cultura_e_sociedade. e indicamos alguns para vocês. da série Primeiros Passos da Editora Brasiliense.pdf. de István Mészáros. na sociedade em que vivemos. Saiba mais Existem muitos livros que trabalham essa questão. sendo muitas vezes utilizada de forma contraditória: impondo e repro‑ duzindo determinados valores e ao mesmo tempo instituindo novas formas de compreender a realidade através de elementos de resistência entre os diversos grupos culturais existentes em nossa sociedade. na desigualdade e na propriedade privada dos meios de produção. esses aspectos se relacionam ideologicamente para a manutenção da estrutura social vigente.06:43:53 . de Wanderley Codo. buscando romper com o processo hierar‑ quização social. 88822-978-85-8143-641-8.indd ) . Essa sociedade é constituída pela relação entre aspectos econô‑ micos. 2014 .PG-92 82  H o m e m . e o próprio texto do Marx Ideologia alemã. uma vez que a cultura é um importante instrumento para a formação e manutenção da realidade social. sociais e culturais. analisamos o pensamento marxista que desvela o processo de alienação imposto sobre os indivíduos. por ser ele o responsável por instituir um “novo” padrão social. Como vimos.

4. 88822-978-85-8143-641-8.indd ) .06:43:53 .pdf.January 10. O que podemos fazer para romper com a alienação imposta sobre nossa socie‑ dade? 5.PG-93 C u l t u r a e i d e o l o g i a   83 Atividades de aprendizagem 1. Analise o impacto da divisão de classes sociais (burguesia e proletários) na for‑ mação da cultura e da sociedade. 2014 .indd 83 20/02/13 18:53 . com suas palavras. Discuta como podemos relacionar conceitos como ideologia e cultura para a interpretação da realidade social? Homem_cultura_e_sociedade. Explique. Por que precisamos discutir a questão do surgimento do modo de produção ca‑ pitalista para falarmos de alienação e cultura? 2. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 3. dois pontos centrais do capitalismo: a importância da propriedade privada e a existência de duas classes sociais.

page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.indd ) .indd 84 20/02/13 18:53 .January 10.pdf.06:43:53 . 88822-978-85-8143-641-8. 2014 .PG-94 Homem_cultura_e_sociedade.

Seção 2: Antropologia: as correntes teóricas e a interpretação sobre a construção da cultura Nesta seção vamos trabalhar as correntes teóricas da Antropologia e a forma como estas discutem o processo de formação cultural da sociedade. das quais. visto ser fruto do desenvolvimento do homem. torna-se essencial discutirmos as principais propriedades da cultural.PG-95 Unidade 4 Antropologia e cultura Giane Albiazzetti Okçana Battini Isso nos ensina que as crises em nível de teorias são sanáveis: ou pela elimi- nação de uma por outra. pela convivência pacífica de teorias contrárias. pautado nas seguintes correntes teóricas: evolucionismo.].pdf.] Apesar de muitas delas.indd 85 20/02/13 18:53 . [. ou. a antropologia está plena. particularmente quando constroem modelos diferentes sobre uma mesma sociedade e/ou cultura. ou todas. de argumentos — para eliminar a outra.January 10. Discutiremos também o caráter social da cultura. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.06:43:53 . porém não contraditórias. isso não significa que essas teorias não convivam de algum modo. culturalismo norte-americano. estruturalismo. difusionismo. aliás. 2014 .. 88822-978-85-8143-641-8. Homem_cultura_e_sociedade. ou pela articulação das mesmas [. an- tropologia interpretativa ou hermenêutica.. escola sociológica francesa. Assim.. serem passíveis de restrições e de críticas. Vamos a elas? Seção 1: Cultura: o “cimento” que possibilita a união social Nesta seção vamos discutir as características da cultura e seu impacto na formação do sujeito. Roberto Cardoso de Oliveira Objetivos de aprendizagem: Nesta unidade você vai ser levado a analisar o desenvolvimento da Antropologia como ciência e seus desdobramentos teóricos oriundos das transformações históricas da sociedade. ainda. uma vez que uma não dispõe de força suficiente — isto é.. compulsoriamente. funcionalismo e estrutu- ral–funcionalismo.indd ) .

não ficando preso somente ao ato de estudar. c u lt u r a e s o c i e d a d e Introdução ao estudo Sabemos que o termo cultura é muito amplo e cheio de significados. a palavra cul‑ tura foi usada pela primeira vez no sentido de destacar a educação aprimorada de uma pessoa.indd ) . e que se criam e se preservam ou aprimoram através da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade. que significa “pensamento” ou “razão”. crenças.pdf. Saiba mais Podemos definir Antropologia como uma ciência que estuda o homem como ser biológico. grifo nosso). pela ciência.org. social e cultural. instituições. dentre eles: Originalmente. O conjunto dos códigos e padrões que regulam a ação humana individual e coletiva. normas de comportamento.abant.br>. não sabe se comportar!” Quem já não se deparou com uma situação assim em nossa sociedade? Será que falar em cultura é somente elencar as ações dos indivíduos conforme sua formação? O que especificamente a cultura tem a ver com a nossa sociedade? Como ela ajuda a explicar as relações existentes entre os homens? Primeiro devemos refletir que o termo cultura traz muitos significados. No processo de desenvolvimento da civilização a sociedade e os indivíduos se transformaram. e para ficar mais fácil a compreensão dessa relação. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Para mais informações acesse o site da Associação Brasileira de Antropologia (ABA): <www. buscando investigar o desenvolvimento. Holanda (2000) pode nos indicar algumas definições para o termo cultura: O conjunto de características humanas que não são inatas.   Seção 1   ultura: o “cimento” que C possibilita a união social Podemos falar que toda realidade fundamenta-se nos aspectos culturais produzidos pelos homens? Sim. ou seja. tudo aquilo que o homem vem produzindo ao longo de sua história (CALDAS. ele tem muita cultura.January 10. seu interesse pelas artes.” E por outro lado: “Está vendo aquele indivíduo ali? Ele não tem cultura nenhuma. A palavra Antropologia. e o termo cultura também sofreu grandes modificações. 11. ou seja. criações materiais etc.PG-96 86  H o m e m . as semelhanças das sociedades humanas assim como suas diferenças. à educação aprimorada de uma pessoa. p. valores espirituais. Muitas vezes ouvimos: “Nossa. etmologicamente.06:43:53 . esta expressão [cultura] vem do latim — colere — e significa cultivar. 2014 . e que se manifestam em praticamente todos os aspectos da vida: modos de sobrevivência. enfim. Homem_cultura_e_sociedade. e logos. 1986. filosofia. tal qual como se desenvolvem em uma sociedade ou grupo específico. vem de anthropos que quer dizer homem. na Antiguidade. Com os romanos.indd 86 20/02/13 18:53 . esse sujeito é muito culto. torna-se importante conhecermos a ciência que estuda essas manifestações: a Antropologia. 88822-978-85-8143-641-8.

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A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   87

A esses símbolos e signos que fundamentam a ação humana é dado o nome de
cultura. Nesse sentido, podemos falar que cultura engloba formas de linguagem,
pensamentos, modos de agir, os costumes, as instituições, enfim, todas as esferas da
atividade humana.
Ela é o “cimento” que dá unidade a certo grupo de pessoas que dividem as mesmas
ações, costumes e valores. Deste ponto de vista, portanto, podemos dizer que tudo
o que faz parte do mundo humano é cultura, ou seja, a cultura surge das relações
que os seres humanos estabelecem entre si e com o meio em que vive, em busca de
formas de sobreviver.
Podemos falar que a cultura tem uma relação tão intrínseca ao homem, que se
pode chegar a afirmar que não existe ser humano sem cultura. O homem é produto
e produtor da cultura. A cultura compreende os bens materiais, como utensílios, fer‑
ramentas, moradias, meios de transporte, comunicação e outros; e também os bens
não materiais, como as representações simbólicas, os conhecimentos, as crenças e os
sistemas de valores, isto é, o conjunto de normas que orientam a vida em sociedade.
Outro autor que nos ajuda a iluminar, e, portanto, melhor compreender a in‑
terpretação de cultura é Émile Durkheim, pois segundo ele as normas, as regras de
comportamento e conduta são produzidas e apreendidas socialmente, transmitidas de
geração em geração com o objetivo de manter ou criar uma coesão social. Quando
elabora o conceito de fato social, nos revela que a sociedade produz e impõe seus
valores através da coerção com o objetivo de autopreservação, mesmo que muitas
vezes (ou na maioria delas), isso possa gerar desconforto para alguns indivíduos na
coletividade (DURKHEIM, 1988).
Chaui (1995, p. 294, grifo do autor) define muito claramente a cultura em três
sentidos:
1) Criação da ordem simbólica da lei, isto é, de sistemas de interdições e
obrigações, estabelecidas a partir da atribuição de valores e coisas (boas,
más, perigosas, sagradas, diabólicas), a humanos e suas relações
(diferença sexual, e proibição do incesto, virgindade e fertilidade,
puro-impuro, virilidade; diferença etária e forma de tratamento dos
mais velhos e mais jovens; diferença de autoridade e formas de relação
com o poder etc...) e aos acontecimentos (significado da guerra, da
peste, da fome, do nascimento e da morte, obrigação de enterrar os
mortos, proibição de ver o parto etc.)
2) Criação de uma ordem simbólica da linguagem, do trabalhado,
do espaço, do tempo, do sagrado e do profano, do visível e do
invisível. Os símbolos surgem tanto para representar quanto para
interpretar a realidade, dando-lhe sentido pela presença do hu‑
mano no mundo.
3) Conjunto de práticas, comportamentos, ações e instituições pelas
quais os humanos se relacionam entre si e com a natureza e dela
se distinguem, agindo sobre ela ou através dela, modificando-a.
Este conjunto funda a organização social, suas transformações e
sua transmissão de geração para geração.

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88  H o m e m , c u lt u r a e s o c i e d a d e

Dentro dessa discussão, podemos tirar algumas considerações e características
da cultura:
1. a cultura é simbólica — se organiza em torno de símbolos e signos, cujos sig‑
nificados são constituídos pela sociedade, isto é, envolve a elaboração e aceitação
de padrões, normas, hábitos e costumes, histórias, cujo significado é partilhado por
indivíduos em sociedade.
2. a cultura não é inata — o fato de não ser inata concede à cultura um caráter
de aprendizado, isto é, os indivíduos não nascem portadores de cultura, mas eles
apreendem as capacidades, habilidades e valores que são definidos pela sociedade
como importantes.
3. a cultura pressupõe uma linguagem — sendo a cultura algo que é aprendido,
ela necessita, obrigatoriamente, de uma linguagem, de um instrumento de comuni‑
cação. Não estamos dizendo que a cultura necessita somente da escrita, sendo que
as formas de comunicação utilizadas para a transmissão cultural são inúmeras (fala,
gestos, símbolos).
4. a cultura possui um caráter social — ela se refere sempre a um grupo do qual
o indivíduo faz parte. Não há cultura produzida por um indivíduo isoladamente.
Para que haja a produção da cultura, é essencial o engajamento dos indivíduos no
grupo, na coletividade.
5. a cultura é um instrumento de coesão social — a cultura mantém os indi‑
víduos unidos em torno de determinados ideais que são socialmente constituídos.
Sendo assim, a cultura é um elemento indispensável à manutenção da ordem social,
na medida em que envolve o aprendizado de hábitos, normas, tradições, valores e
comportamento por parte dos indivíduos. Nesse sentido, a cultura pode ser vista
como socializadora.
6. a cultura é dinâmica — a cultura está sempre em movimento, mesmo que de
maneira imperceptível, pois muitas vezes essas mudanças são lentas e não aparecem
de imediato a nossos olhos.
O termo cultura é realmente cheio de especificidades, visto que aborda questões
que muitas vezes estão escondidas sob as relações de nossa sociedade. Não podemos
pensar em nossa sociedade sem pensar nas relações culturais que a construíram e as
que a modificam, sendo que a realidade existente hoje em nossa sociedade é muito
diferente de vinte, trinta anos atrás. Só podemos compreender essas mudanças, se le‑
varmos em consideração os aspectos sociais, históricos e culturais da nossa sociedade.
Para sabermos um pouco mais sobre como essas categorias explicativas sobre
a cultura se efetivam, necessitamos saber como historicamente a cultura e a diversi‑
dade cultural entre os indivíduos foram tratadas. Vamos a elas?

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A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   89

  Seção 2   ntropologia: as correntes
A
teóricas e a interpretação sobre a
construção da cultura
A antropologia surge para estudar o “outro”. Esse “outro” nasce como fruto do
descobrimento de novos povos para além da europa.
A antropologia social ou cultural é a responsável por interpretar esse mundo tão
distante e diferente. Torna-se importante lembrarmos que devemos compreender
os processos sociais na perspectiva histórica discutida na primeira unidade, pois o
homem, através dos tempos, desenvolve formas de agir e pensar pautado nessa his‑
tória, em sua materialidade... esse pensar e agir transforma-se na medida em que as
próprias condições materiais se modificam, exigindo novas explicações econômicas,
políticas, culturais e sociais.
Tentaremos demonstrar como esse processo ocorreu com a Antropologia, visto
que sobre ela incidiram novas leituras através dos tempos, mas todas muito impor‑
tantes e significativas para o conhecimento de nossa sociedade. Vamos procurar ver
as principais formas pelas quais a Antropologia pensou a diferença ao longo de sua
história e reflexões. Sua história inicia-se no século XVI, marcando sua “estreia” em
uma perspectiva etnocêntrica, mas, pouco a pouco, essa leitura vai cedendo lugar
para novos conjuntos de ideias. Mais adiante discutiremos a questão do etnocentrismo
e seu impacto em nossa realidade.

2.1 Por que a Antropologia surgiu?
A história, tal como a conhecemos, sempre nos mostrou, desde a pré-história até
os dias atuais, a luta incessante do homem pela sobrevivência, pela superação de
suas limitações físicas frente à natureza, pelo enfrentamento de adversidades e pelo
esforço em desenvolver suas capacidades. Na sua interação com a natureza e o meio
ambiente, o homem teve que dominar as forças naturais por meio da inteligência,
da criatividade e do trabalho, mas seu sucesso enquanto espécie parece derivar,
sobretudo, de sua capacidade gregária, ou seja, do fato de associar-se com outros
homens, estabelecendo relações de cooperação e de ajuda mútua, formando assim
diversos grupos sociais. Segundo Auzias (1976, p. 28), “[...] é pelo trabalho que o
homem, sujeito a agrupamentos naturais, entra na cultura”.

Questões para reflexão
Será que podemos pensar a vida humana sem levar em conta a cultura?

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que culminou com a derrota dos alemães e seus aliados em 1917. c) a Revolução Francesa. a luta entre os estados helenísticos e o exército romano. destacaremos a seguir alguns que representam importantes marcos históricos (CAMPOS.C. e a União Soviética. g) os conflitos político-ideológicos entre os países fundamentalistas muçulmanos e os demais países. Reino Unido e Rússia). que opôs os países intitulados “Aliados” (Estados Unidos. observamos que nem sempre as relações entre grupos sociais diferentes se revela pacífica e amistosa.January 10. a necessidade de encontrar respostas capazes de explicar cienti‑ ficamente os motivos desses confrontos começou a surgir somente no século XIX. França. quando pensadores europeus passaram a se interessar pelas culturas não europeias. e mesmo dos povos que continuam existindo. ao contrário. com menor ou maior intensidade. Itália e Japão).PG-100 90  H o m e m . Grã-Bretanha. entre os países da Tríplice Aliança (Alemanha. que marcou o início da dominação de Roma sobre a Grécia. Estes são apenas alguns exemplos que retratam a tendência conflituosa das re‑ lações inter-étnicas. e representou o conflito político-ideológico entre os Estados Unidos. marcando o fim da era bizantina. em 1789. f) a chamada “Guerra Fria”.indd 90 20/02/13 18:53 . 2005): a) na Antiguidade grega. mas. “descobertas” através das viagens marítimas dos espanhóis e portugueses entre os séculos XV e XVI. de 1939 a 1945. c u lt u r a e s o c i e d a d e Quando analisamos a historiografia dos diferentes povos que já habitaram o planeta.pdf. Questões para reflexão Será que o homem é um ser conflitivo por natureza? Apesar desses inúmeros exemplos registrados pelos historiadores que revelam a dificuldade de se estabelecerem contatos pacíficos entre diferentes sociedades e grupos étnicos. as invasões turcas na região da Ásia Menor e a conquista de Constantinopla em 1453. b) na Idade Média. o que se observa é uma sucessão de conflitos e confrontos. Homem_cultura_e_sociedade. expoentes do capitalismo.06:43:53 . União Soviética e China) aos países “do Eixo” (Alemanha. motivados por uma infinidade de razões. e) a Segunda Guerra Mundial. no século I a. Itália e Império Austro-Húngaro) e a Tríplice Entente (França. que marcou o início da ascensão política burguesa sobre as monarquias absolutistas europeias durante a consolidação do capitalismo. Entre os inúmeros exemplos possíveis. representante dos países socialistas. d) a Primeira Guerra Mundial. que durou quase cinquenta anos (de 1945 até 1991). no início do século XX. 2014 . MIRANDA. especialmente os capitalistas e sua cultura ocidental.indd ) . os chamados “povos ou civilizações extintas”.. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 88822-978-85-8143-641-8.

o capitalismo é uma ordem social que se inicia com as relações econômicas estabelecidas ao longo desse período. Como legítimos representantes dos reis. 2014 . 106) afirma que enquanto a Sociologia. O governo absolutista dos reis e a divisão social baseada em estamentos (reis. e que se estabe‑ lece em consequência da ampliação das novas formas de comércio e de produção do território europeu. a autora afirma que o pensamento antropológico surge através da descoberta da “alteridade”. Conforme Campos e Miranda (2005). 88822-978-85-8143-641-8. a Antropologia se voltava para “o estudo dos povos colonizados da África. pois a ordem social era determinada pela tradição e pela crença de que os reis eram os legítimos repre‑ sentantes de Deus na Terra. dedicaram-se ao aperfeiçoamento e à criação de técnicas de produção. Questões para reflexão Por que será que a atividade produtiva passou a depender da atividade comercial a partir desse período? É importante destacar que durante o feudalismo o poder era centralizado nas mãos dos reis. Costa (2003. fatos estes que desencadearam profundas transformações na composição da sociedade europeia. clero. isto é.January 10. por sua vez. os quais dividiam o governo de seu povo com a nobreza e o clero. Nesse sentido. mais especificamente na Europa. devido ao surgimento e desenvolvimento do capitalismo. Pode-se dizer que durante a chamada Baixa Idade Média os comerciantes se tornaram verdadeiros mestres na arte de vender e de trocar mercadorias. Ásia e América”. servos e escravos) eram amplamente aceitos pelas pessoas. p. da relação dos europeus com os outros povos. Homem_cultura_e_sociedade. onde se davam as trocas econômicas entre os diferentes povos.indd 91 20/02/13 18:53 . da cria‑ ção de rotas comerciais terrestres (após o movimento das Cruzadas). que em muito se diferenciavam da cultura dos países europeus. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. se dedicava à compreensão da sociedade europeia de sua época. e da formação dos burgos e das cidades. fruto do aumento populacional e da produção agrícola.indd ) . a Antropologia — ciência que nasce no século XIX — destacou-se por eleger como seu objeto de estudos a diversidade humana em seus aspectos biológicos. sociais e culturais. que também é uma ciência social. nobres.pdf. enquanto os artesãos. utilizando métodos de observação direta e de coleta de dados sobre essas outras sociedades. Esse período cor‑ responde à lenta e definitiva passagem da Idade Média para a Moderna.PG-101 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   91 Dentre as ciências que se lançaram na explicação do homem e das sociedades. os senhores feudais detinham parte desse poder.06:43:53 . Antes de falarmos da Antropologia é necessário entender o que estava acontecendo no mundo. à medida que comandavam porções do território que lhes eram destinadas por seu rei. entre os séculos XI e XIX.

político. na verdade. após o movimento renascentista. portanto. e. as descobertas de novos territórios e continentes por meio das Grandes Navegações. filósofos e intelectuais ligados às artes e às ciências. pela liberdade política e econômica. Todo esse contexto histórico representa.pdf. que no ano de 1789 estabeleceu o início da dominação política e econômica da classe burguesa. social e cultural que produziram profundas trans‑ formações na sociedade europeia entre a Idade Média e a Modernidade. que buscava compreender a realidade por meio da valorização da ação hu‑ mana e das forças da natureza. 1993). a Revolução Francesa. 2001). a invenção de novas técnicas de produção. Homem_cultura_e_sociedade. o que vai inspirar a Revolução Francesa no ano de 1789. o comércio marítimo e a consequente expansão europeia.January 10.06:43:53 .indd 92 20/02/13 18:53 . passaram a lutar. resultando no enfraquecimento da cultura feudal e no consequente fortalecimento da cultura capitalista. STOCKLER.indd ) . formando uma cultura racional que impulsionou os ideais liberais e a tomada do poder político e econômico pela burguesia. Para saber mais O Iluminismo pode ser entendido como o conjunto de ideias e valores que se desenvolveu em alguns países da Europa entre os séculos XVII e XVIII (especialmente França e Inglaterra). Essas novas formas de pensar começam com o renascimento e desenvolvem-se até o iluminismo. 2014 . c u lt u r a e s o c i e d a d e Além do movimento de caráter econômico. a consolidação plena do capitalismo durante a Revolução Industrial — a revolução das forças produtivas que reorganizou o modo de fazer comércio e de acumular riquezas entre os países (HOBSBAWM. ao lado da burguesia. em decorrência de diversos fatores. finalmente. surge outra forma de entender o mundo. a dominação e colonização dos territórios descobertos. Os pensadores iluministas. sobretudo o crescimento intelectual e científico da sociedade europeia. em meio à Revolução Industrial (BARBOSA FILHO. 2003). uma sucessão de eventos de caráter econômico. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.PG-102 92  H o m e m . Questões para reflexão Quais as principais características da cultura capitalista? O capitalismo se estrutura. bem como a desmistificação das explicações míticas e religiosas tão enraizadas nesse período (COSTA. 88822-978-85-8143-641-8.

PG-103 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   93 2. do senso comum e da filosofia. Nesse sentido. possibilitando. questio‑ náveis. 2006). por exemplo.pdf. como nas ciências exatas e biológicas. em linhas gerais. e pode ser entendido. dependendo do método de investigação utilizado pelo cientista e da teoria que fundamenta sua pesquisa. para tanto.January 10. 2014 . a priori. todas as concepções fundamentadas na ciência são.indd 93 20/02/13 18:53 . definitivas. No campo das ciências humanas e sociais o desenvolvimento do pensamento científico pode ser considerado tardio se comparado com outros campos..2 O  pensamento científico como base para o surgimento da Antropologia Em uma sociedade que baseava suas verdades fundamentalmente no pensamento mítico e religioso. diferentes análises acerca de um mesmo fenômeno. O pensamento científico se distingue do teológico (religioso). 88822-978-85-8143-641-8. sendo necessário. As verdades científicas não são. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Se quisermos. os quais não podem ser comprovados concretamente. portanto. Foi apenas no século XIX que alguns pensadores e inte‑ lectuais se interessaram em explicar os diversos fenômenos que configuravam a nova ordem social capitalista. Homem_cultura_e_sociedade. comparação. assim. Daí a refutação ou negação das verdades e dos dogmas difundidos pela fé e pelas crenças religiosas. pois ainda não conseguiam entender o caos em que a Europa havia mergulhado depois de tantos acontecimentos e revoluções. experimentação. compreender de fato como uma determinada sociedade se originou e se desenvolveu. como o conjunto de verdades ou de respostas que se estabelecem a partir do estudo sistematizado das leis e regras que explicam um determinado fenômeno. pois uma das principais características desse tipo de pensamento é o fato de levantar diversas hipóteses. é possível imaginarmos a revolução intelectual e cultural que re‑ presentou a introdução de concepções científicas acerca do mundo e da realidade social. ainda que este faça sua análise tendo como base estudos científicos anteriores e teorias desenvolvidas por outros cientistas. que são passíveis de observação e análise. análise e inter‑ pretação (MENDES et al. nenhuma afirmação sobre tal sociedade que decorra de ideias metafísicas ou sobrenaturais poderá ser reconhecida como científica. porque se resumem ao estudo e à interpretação de um fenômeno sob a óptica de um determinado pesquisador. Questões para reflexão Por que a ciência e a religião são formas de pensamento tão diferentes entre si? Por que a ciência contesta as “verdades” religiosas? Além disso. será necessário estudarmos sua história e seus elementos concretos.06:43:53 .indd ) . a utilização de uma metodologia de observação.

enfim. É exatamente neste contexto de plena efervescência intelectual que surge a ciência antropológica. Ao se deparar com essas pessoas — os in‑ dígenas — e com o modo como vivem é bastante provável que você estranhe alguns costumes. a religiosidade. o modo como estabelecem ligações afetivas e como educam as crianças. todas as suas particularidades. Em relação a esta experiência.indd ) . grifo do autor) afirma que: Homem_cultura_e_sociedade.indd 94 20/02/13 18:53 . o jeito de cuidarem da saúde. diversas etnias e diferentes culturas? Imagine quanto os perceberia como diferentes e estranhos em um primeiro mo‑ mento. 88822-978-85-8143-641-8. Por outro lado. hábitos de alimentação e vestuário. a relação que estabelecem com a natureza e com os outros povos. mas que tem como objeto de estudos a compreensão das sociedades não europeias (COSTA. seus jeitos de ser. Mas. tamanha a distância cultural em relação a tudo aquilo a que você está acos‑ tumado. c u lt u r a e s o c i e d a d e Questões para reflexão Mas como a Europa podia estar “mergulhada” em um caos se estava tão desen‑ volvida do ponto de vista científico e tecnológico? Por um lado surgem os pensadores empenhados em estudar a própria sociedade europeia.PG-104 94  H o m e m . e ao mesmo tempo.1 Mas o que a Antropologia estuda exatamente? Para respondermos a esta questão. Questões para reflexão Por que será que a humanidade se desenvolveu de modo tão diversificado. os rituais que praticam. 2003). e passa a conviver mais de perto com a comunidade indígena. crenças. digamos que você resolve ficar mais alguns meses nessa região.2. mantendo pouco contato com a população urbana.pdf. movidos pela curiosidade em descobrir os motivos do que eles entendiam por “atraso cultural” dessas sociedades. as tradições que cultivam. Serão estes os primeiros representantes da Antropologia. Imagine que você está fazendo uma viagem pela Amazônia e tem a oportunidade de conhecer uma comunidade indígena que vive no interior da floresta. ciência que surge no século XIX juntamente com a Sociologia. p. a divisão do trabalho. como contam sua história. surgem alguns intelectuais mais dedicados em compreender os povos não europeus. 21. Aos poucos irá conhecê-los melhor.06:43:53 . isto é.January 10. 2014 . a língua. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. de pensar e de se expressar. os quais deram origem à Sociologia. entender certos aspectos de sua cultura. as moradias. 2. podendo. Laplantine (1988. vamos fazer primeiro um exercício de imagina‑ ção. assim.

.. 2014 . e é isso exatamente que faz com que as sociedades e os grupos humanos mantenham diferenças entre si (RODRIGUES... Disso decorre a necessidade. porque têm especificidades. o estudo do “outro” (da alteridade) e de si mesmo (LAPLANTINE. ou. nas suas dimensões biológicas.indd ) .indd 95 20/02/13 18:53 . [. com suas especificidades geográficas e ambientais. a perplexidade provocada pelo encontro das culturas que são para nós as mais distantes. o espaço. Podemos dizer que é o estudo do homem pelo próprio homem. e cujo encontro vai levar a uma modificação do olhar que se tinha sobre si mesmo. através do estudo da história da humanidade (desde os primeiros ancestrais hominídeos até os dias de hoje). a si mesmo: A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar. Mas as culturas não são idênticas..January 10. notamos que o menor dos nossos comportamentos [. mas não a única (LAPLANTINE. Aos poucos. 1989). daquilo que não hesitarei chamar de “estranhamento” (depaysement). familiar. tem um campo de estudos abrangente. e as populações organizadas Homem_cultura_e_sociedade. que possibilita conhecer melhor o “outro” e. a razão.pdf. dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual. de fato. ou. poderíamos perguntar: em que medida os indígenas podem ser con‑ siderados diferentes ou iguais aos demais habitantes de todo o planeta Terra? Para a Antropologia esta é uma questão essencial.. ao mesmo tempo.. Questões para reflexão O que mais diferencia os povos tribais (como os indígenas. e que consideramos “evidentes”. 1988. como a inteligência.] não tem realmente nada de “natural”. e seus integrantes pertencem ao gênero humano (dotados de todas as capacidades humanas. Sendo uma ciência que trata do homem e da cultura. por exemplo) dos povos ocidentais? A Antropologia é a ciência que estuda o homem na sua totalidade. procurando compreender o modo como estas dimensões interagem e o que resulta dessa inte‑ ração. do contato com pessoas que são de uma cultura diferente. na formação antropológica. e por isso abarca três dimensões essenciais: o tempo. ou seja.PG-105 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   95 Apenas a distância em relação à nossa sociedade [. Diante disto.]. ainda. pois todas as sociedades se assemelham no sentido de que possuem cultura (ainda que culturas diferentes). 21.] O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das ou‑ tras culturas. p. cotidiano.. 88822-978-85-8143-641-8. grifo do autor).06:43:53 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. cultural [. sociais e culturais. e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras. as emoções e a criatividade). O autor se refere à experiência da “alteridade”. 1988). mais especificamente.] nos permite fazer esta descoberta: aquilo que tomávamos por natural em nós mesmos é.

os povos e sociedades que existem no presente (países do Ocidente e do Oriente. desem‑ Saiba mais penhar papéis sociais.br/>.de sentir e de agir no mundo por parte dos indi‑ víduos que compartilham uma mesma cultura. Este modo de ser e de agir no mundo é fruto do aprendizado cultural: aprende-se no cotidiano. sociedades tribais e demais comunidades étnicas espalhadas pelo globo).indd ) .indd 96 20/02/13 18:53 . de pensar. debruçando‑ -se sobre sua diversidade cultural e social interna (um país. Os grandes ramos nos quais se divide são: “Antropologia Biológica ou Física”. De acordo com Leach (1982).antropologia. por um lado. de uma forma ou de outra. sociais e culturais.January 10.com. tória para os estudantes que estão iniciando nesta ciência. a ciência que es‑ tuda a diversidade cultural e social existente na humanidade. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Consta haja semelhanças nos modos de ser. e a “Antropologia Social. com cultura ocidental. a principal característica da humanidade é ser tão diversa no que se refere aos aspectos históricos. a seguir regras. 88822-978-85-8143-641-8. Questões para reflexão Será que a história é contada da mesma forma por todos os povos? Pensem em sociedades como a nossa. por outro. ou uma mesma sociedade.06:43:53 . e também pelos costumes e tradições passados de geração em geração. 2014 . apro‑ priando-se dela e transformando-a de acordo com suas necessidades e interesses. das referências e é leitura obriga. respeitar certos valores e Proponho que conheçam o livro de manter o padrão de comportamentos cultural‑ François Laplantine. c u lt u r a e s o c i e d a d e enquanto contingentes sociais e culturais. embora haja diversidades biológicas de pouca ou mesmo nenhuma importância distintiva. por exemplo). Isto quer dizer que todos os seres humanos aprendem. que não utilizam a escrita.pdf.PG-106 96  H o m e m . Homem_cultura_e_sociedade. e nas sociedades ágrafas. quer seja analisando os diferentes povos e sociedades que existiram no passado (extintos). fazendo com que Aprender antropologia. A Antropologia pensa o homem como um ser que age sobre a natureza. Links Para mais informações sobre a Antropologia acesse o link: <www. através das experiências vividas no dia a dia. A Antropologia é. intitulado mente aceitos por seus pares. portanto. Cultural e a Etnologia”.

page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. especialmente no que se refere à linguagem. organização social. mitos. enquanto o termo “Antropo‑ logia” corresponde à escola anglo-saxônica. instituições em geral (família.]. Esses fenômenos podem ser recolhidos tomando-se notas. a produção do conhecimento.. religião etc. 25). sobretudo os primatas.indd 97 20/02/13 18:53 . Sobre a Etnologia. p. utili‑ zando-se dos achados da Arqueologia (vestígios. relações de gênero e de parentesco. os quais são posteriores à Etnografia: A etnologia consiste em um primeiro nível de abstração: analisando os materiais colhidos. procurando identificar semelhanças e diferenças entre as diversas etnias. política e econômica. mas também por gravação sonora. casamento.). as diversas formas de organização social e de cultura espalhadas pelo globo. Laplantine (1988) seguindo a linha de Lévi-Strauss. Os termos Antropologia e Etnologia. além de investigar as semelhanças e diferenças entre o homem e os outros animais.indd ) . sistemas simbólicos. ossadas.06:43:53 .PG-107 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   97 Segundo Costa (2003). 2014 . finalmente. faz aparecer a lógica específica da sociedade que se estuda. 1988. Questões para reflexão Será mesmo que o homem e os primatas evoluíram biologicamente a partir de um mesmo tronco genético? Que tal pesquisar sobre isto? Em relação à Antropologia social. da observação direta e da coleta de dados junto à sociedade estudada: A etnografia é a coleta direta.. trata-se de um termo que se relaciona com o estudo das diversas etnias ou “raças”. rituais. 25).January 10. através do uso da metodologia etnográfica. A antropologia. embora possam ser pensados como sinôni‑ mos. são identificados como distintos em alguns aspectos: na tradição terminológica francesa encontra-se mais o uso do termo “Etnologia”. as particularidades históricas. dos fenômenos que observamos [. consiste em um segundo nível de inteligibilidade: constrói modelos que permitem comparar as sociedades entre si (LAPLANTINE. 88822-978-85-8143-641-8. p. modos de agir e de se expressar. a arte. entre outros aspectos. afirma que a Etnologia e a Antropologia são momentos distintos “de uma mesma abordagem”. fósseis. objetos e achados arqueológicos). e o mais minuciosa possível. cultural e etnologia.pdf. Panoff e Perrin (1973) afirmam que este ramo da Antropologia também procura analisar os aspectos genéticos e biológicos do homem. a Antropologia Biológica ou Física dedica-se ao estudo dos registros e dados históricos sobre os povos da Pré-História e da Antiguidade (os ancestrais do homem contemporâneo e as grandes civilizações do passado). com a finalidade de reconstruir os modos de vida dos grupos huma‑ nos extintos. fotográfica ou cinematográfica (LAPLANTINE. são denominações uti‑ lizadas para especificar o ramo da Antropologia que se direciona para o estudo das sociedades contemporâneas. Homem_cultura_e_sociedade. crenças. 1988. inclusive do homem contemporâneo.

21) entendem que o maior objetivo da Antropologia social é “estabelecer leis gerais da vida em sociedade” que possam ser aplicadas na análise de toda e qualquer sociedade. na busca por elementos históricos da população estudada.indd 98 20/02/13 18:53 . 2. É claro que nessa época não se falava ainda em Antropologia ou Etnologia. mas para os pensadores desta ciência essas etnografias representam o marco inicial do saber antropológico. Homem_cultura_e_sociedade. os culturais reconhecem a necessidade de se analisar a história dos diversos povos e etnias. Ao contrário dos antropólogos sociais. 2014 . como Leach (1982). a religião. Com isso.indd ) .PG-108 98  H o m e m . como a família. por exemplo. os antropólogos sociais estariam mais empenhados em análises sincrônicas. Ainda segundo Leach (1982) os antropólogos culturais. principalmente as chamadas “sociedades tribais” e as não ocidentais. Para Panoff e Perrin (1973) os antropólogos culturais sempre estive‑ ram mais preocupados com os “problemas de relativismo cultural”. Max Glukman. Questões para reflexão Quando comparamos diferentes tipos de sociedade encontramos muitas seme‑ lhanças entre elas.2 O desenvolvimento da ciência antropológica A Antropologia é uma ciência que vem se desenvolvendo desde o século XIX. Raymond Firth. Por que será que todos os povos desenvolveram. Margaret Mead e Ruth Benedict. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Os principais nomes da Antropologia Social são: Bronislaw Malinowski. Victor Turner e o próprio Edmond Leach. o fato de que em todas há algum tipo de ma‑ nifestação religiosa ou de organização familiar.January 10. isto é. voltadas para os elementos do tempo presente. a economia. defendendo a necessidade de respeitar as especificidades culturais de cada sociedade. da escola culturalista norte-americana. as relações entre os diferentes grupos a atores sociais no interior de uma sociedade etc. os antropólogos sociais estariam menos interessados na perspectiva diacrônica.2. Entre os representantes da Antropologia cultural estão: Franz-Boas. quando os europeus começaram a viajar por terras dis‑ tantes. Radcliffe Brown. Os antro‑ pólogos sociais podem ser pensados como aqueles pesquisadores mais voltados ao estudo do funcionamento das instituições sociais.pdf. cada um a seu modo. c u lt u r a e s o c i e d a d e Outros autores. a religiosidade e a família? Panoff e Perrin (1973.06:43:53 . por outro lado. mas é possível afirmar que os primeiros “registros etnográficos” começaram a ser produzidos já no século XVI. Fortes. sempre se debruçaram mais sobre os problemas relativos às questões de etnia e de compor‑ tamentos culturalmente aprendidos em cada sociedade pesquisada. 88822-978-85-8143-641-8. a polí‑ tica. Além disso. preferem distinguir uma da outra. Evans‑ -Pritchard. p.

January 10. ou seja. 27) outro fato importante foi o fortalecimento da Filo‑ sofia iluminista. portanto deveriam ser civilizados de acordo com os padrões impostos pela cultura europeia. e a publicação da obra de Charles Darwin. 88822-978-85-8143-641-8. Esses viajantes eram incumbidos de fornecer aos governos de seus países (sobretudo Portugal.2. comerciantes e militares europeus aos territórios situados fora da Europa. Embora atualmente o método etnográfico seja utilizado em pesquisas sobre qualquer sociedade (inclusive a nossa). levando os países exploradores a investir muito nessas viagens. Questões para reflexão É correto afirmar que os europeus tinham “consciência” do abuso que estavam cometendo ao impor sua cultura sobre os povos nativos dos territórios do Novo Mundo? Segundo Pelto (1967. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.. e. p.2. segundo se acreditava na época. missionários. Esses investimentos de caráter explo‑ ratório acabaram favorecendo a produção de conhecimentos sobre os povos nativos que viviam nas áreas colonizadas (LAPLANTINE. Espanha. Inglaterra e França)..indd 99 20/02/13 18:53 .] ideias de progresso e evolução que passaram a ser centrais para a teoria antropológica do século XIX”. descrição (anotações e registros) e análise dos modos de vida e da cultura. ainda distantes do modo de produção industrial (PANOFF. levando muitos pesquisadores Homem_cultura_e_sociedade.1 P  rimeiros registros etnográficos feitos por viajantes europeus (séculos XVI a XIX) Durante o período que compreende os séculos XVI e XIX. eram selvagens e atrasados.PG-109 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   99 Etnografia é um método de coleta de dados que possibilita identificar as carac‑ terísticas específicas de uma determinada sociedade ou grupo humano. que defendia “[. uma série de descrições acerca dos recursos naturais disponíveis nesses territórios. que revolucionou o pensamento científico sobre a relação do homem com a natureza. 2. PERRIN. co‑ lonizadores. durante o século XIX e nas primeiras décadas do século XX as etnografias foram direcionadas mais para o estudo dos povos chamados “primitivos”. bem como dos povos que. Sua finalidade é reconstituir. na transição histórica entre o mundo feudal e o capitalista. as sociedades tribais e nativas que vivam nos continentes colonizados pelos países europeus. o mais fielmente possível. através da observação direta. 1973).06:43:53 . A origem das espécies. houve a produção e o acúmulo de um grande volume de informações e descrições sobre as culturas não europeias. os diversos aspectos e elementos da organização e da dinâmica social. 1988).indd ) . obtidas através dos registros etnográficos realizados durante as viagens feitas pelos exploradores. em 1859. 2014 . Nesse período havia muitos interesses econômicos e políticos em jogo.pdf.

evolução. Apresentavam supostos estágios através dos quais teria progredido a cultura humana [. ainda temos o hábito de pensar que as culturas estrangeiras. Por que fazemos isto? 2. Afirmavam que a história dos seres humanos pode ser descrita como progresso (melhoria) desde o início simples até a nossa civilização complexa. são melhores do que a nossa.pdf.indd ) . destacam-se a “Carta do Descobrimento do Brasil”. por isso os europeus se colocaram como o modelo de civilização que devia ser seguido.3 Evolucionismo Uma primeira forma de entender a diversidade cultural existente é conhecida como evolucionismo. eram puros pacíficos.PG-110 100  H o m e m .2. principalmente a norte-americana e a europeia. 88822-978-85-8143-641-8. Essas formas de pensar e de agir não faziam parte da cultura dos povos colonizados. apesar de serem “selvagens” e de andarem nus. por entenderem a cultura europeia como a mais evoluída e civilizada.. especialmente Turgot e Condorcet. Questões para reflexão Nós. 2014 . 1967. Como exemplos dos registros etnográficos sobre os povos indígenas do Brasil. É a manifestação plena do que estava oculto. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 30. Segundo Rocha (1994). p. nesse período. de Jean Baptiste Debret. sendo essa ideia (evolução) um ponto importantíssimo para o pensamento antropológico. brasileiros. equivale a desen‑ volvimento. grifo do autor). seus registros são reconhecidos como fundamentais para se compreender os caminhos percorridos pela Antropologia após o século XIX. Os filósofos do iluminismo.06:43:53 . e a obra “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil”. de Pero Vaz de Caminha. A sociedade burguesa europeia. são as principais fontes de muitas das ideias que constituíram a teoria da evolução cultural. linguística e cultural.indd 100 20/02/13 18:53 .. Embora esses primeiros etnógrafos tenham manifestado uma concepção totalmente etnocêntrica. Nesses registros era comum a referência aos indígenas brasileiros como homens que.January 10. c u lt u r a e s o c i e d a d e e estudiosos da cultura humana a explicarem as diferenças entre as sociedades por meio dos princípios da evolução natural. acreditava ser mais evoluída que as demais pelo fato de ter desenvolvido formas de pensamento e costumes que eram decorrentes da concepção científica/racional do universo e do modo de produção capitalista. Evolução em outras palavras é o desenvolvimento obrigatório de uma determinada unidade que revela. no seu sentido mais amplo.] até a ci‑ vilização moderna (PELTO. É a transformação progressiva no sentido da realização plena de algo latente. pelo processo Homem_cultura_e_sociedade. Podemos pensar essa leitura baseada em uma pergunta: “O ‘outro’ é diferente porque possui diferentes graus de evolução?”. embora fosse bastante heterogênea na sua confor‑ mação étnica.

2014 . É um processo permanente onde uma unidade qualquer se transforma numa segunda que. Homem_cultura_e_sociedade. Se o final do século XVIII começava a sentir essas transformações. comparando-os entre si. 64. dando uma leitura de organismo social. os evolucionistas procuravam compreender as origens do homem e suas várias formas de evolução cultural.]. Seus modos de vida e suas relações sociais sofrem uma mutação sem precedente. também conhecidos como “darwinistas sociais” preferiam permanecer dentro de seus gabinetes. 28). Saindo de estágios mais primitivos numa trajetória de permanente progresso onde o tempo é a teia onde se tece a evolução.. mostrando. Nesse sentido o evolucionismo antropológico institui que a noção de progresso passa a ser essencial..]. como veremos. A Europa se vê confrontada com uma conjuntura inédita. desenvolvendo teorias que pudessem explicar os modos de vida desses povos. 88822-978-85-8143-641-8. Assim. denominados “primitivos” (não civilizados). Esses intelectuais.pdf. Nesse momento os estudos biológicos e naturais é que buscavam explicar o de‑ senvolvimento dos homens.. Essa noção biológica de evolução se uniu ao pensamento e discussões filosóficas dos estudos iluministas do século XVIII. os passos do colono (LAPLANTINE. e um outro está nascendo. sistemas de parentesco. ele reagia ao enigma colocado pela existência de sociedades que tinham permanecido fora dos progressos da civilização [. pois é através do desenvolvimento da história e do tempo que o homem e a sociedade se constroem. 1994. concentrando-se principalmente no estudo da organização social.indd ) .January 10.. Baseavam seus estudos nos conhecimentos da Arqueologia e das Ciências Naturais.PG-111 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   101 evolutivo. e nos registros etnográficos produzidos desde o século XVI. principalmente a Biologia. p. e o porquê de não terem conseguido se desenvolver como sociedades civilizadas. grifo do autor).indd 101 20/02/13 18:53 . crenças e religiões. o antropólogo acompanhando de perto. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. sendo o fator tempo importantíssimo para a explicação social). Nesse momento acredita-se na unidade básica da espécie humana (um desenvolvimento único para todos os homens e sociedade.06:43:53 . então. se transforma numa terceira e assim sucessivamente. A partir do século XIX os primeiros pensadores da Antropologia começaram a rea‑ lizar estudos sistematizados sobre os povos não europeus. mais e mais absoluta em suas conquistas (ROCHA. A direção é a de um estágio superior de civilização. sua potencialidade. É no movimento dessa conquista que se constitui a Antropologia moderna. sendo que o livro “A origem das espécies” de Darwin passa a ser o principal referencial. Ora. por sua vez. a exemplo dos europeus. p. a origem da humanidade tem de ser num passado longínquo para que as etapas se sucedam na direção de uma civilização mais e mais avançada. uma segunda forma. o contexto geopolítico é totalmente novo: é o período da conquista colonial [. Um mundo está terminando. Com uma perspectiva diacrônica unilinear (valorização da evolução do homem ao longo da história). 1988. no século XIX.

uma corrente de pensamento antropológico fundamentada na Sociologia. passando pela selvageria e finalmente chegando à civilização. “arquitetura”. 63). Esses es‑ tudiosos começaram a relacionar os “povos primitivos” e os “povos civilizados” para traçar um paralelo de desenvolvimento para a sociedade. p. Esses itens estão presentes em todas as culturas. que fundamenta-se que: Cultura ou civilização..indd 102 20/02/13 18:53 . pois suas análises partiam do referencial de superioridade do povo europeu sobre os demais. As formas elementares da vida religiosa (1912).2. p.PG-112 102  H o m e m . Esses estudos pautavam-se na busca por compreender os estágios mais primitivos de uma sociedade. necessariamente. institui alguns pontos que “moldaram” essa linha de evolução: “governo”. no seu sentido etnográfico estrito.pdf. “meios de subsistência”. Morgan. Apenas a cultura europeia era considerada por eles como desenvolvida no maior estágio evolutivo. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. artes. “religião”.indd ) . esta fundada nos princípios da Europa e dos Estados Unidos. surge no final do século XIX.. autor de Regras do Método Sociológico (1895). sendo eles Sir James George Frazer e Sir Edward Burnett Tylor (na Inglaterra) e Lewis Morgan (nos Estados Unidos). e Algumas formas primitivas de classificação Homem_cultura_e_sociedade.January 10. moral. Essa definição dos estágios da civilização pode ser baseada na definição de cultura de Tylor. crenças. pelos mesmos estágios de desenvolvimento para chegar até a civilização. desenvolvem uma postura etnocêntrica. psicológico e social. a partir do “polo primitivo”. chegando ao “polo da civilização”. c u lt u r a e s o c i e d a d e Diante desse contexto. dando início. em seu livro A origem das culturas. uma vez que esses itens eram pensados como uma linha de evolução. 2. Dividindo o período da história em três grandes períodos básicos da so‑ ciedade: selvageria. A primeira geração de antropólogos buscava estabelecer as etapas de evolução das sociedades encontradas pelo mundo. mas que ainda se limitava em estudar as sociedades ditas “primitivas”. representados especial‑ mente por Émile Durkheim. leis. como afirma Laplantine (1988. costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adqui‑ ridos pelo homem enquanto membro da sociedade (TYLOR apud ROCHA. sendo que todos sairiam de um estágio de barbárie. Os teóricos procuravam se debruçar sobre os fenômenos sociais que se expressavam na forma de representações coletivas de caráter biológico. e por via do progresso. 2014 . antropólogo norte-americano. barbárie e civilização. umas mais “civilizadas” do que outras. 88822-978-85-8143-641-8. sendo que eles afirmavam que todas as formações humanas têm origens remotas e caminham no mesmo sentido. na direção do progresso. na França. 30). 1994. esses “pesquisadores-eruditos do século XIX”. Os pensadores da chamada escola sociológica francesa.4 Escola sociológica francesa Paralelamente à escola evolucionista. à Antropo‑ logia social. é este todo complexo que inclui conhecimentos. que se desenvolveu posteriormente com os antropólogos funcionalistas britânicos. “família”. assim.06:43:53 . Para esses teóricos todos os povos não civilizados teriam que passar.

e estudando a história da humani‑ dade. de tal forma que o processo de desenvolvimento da ordem social necessariamente deveria passar pelos estágios da selvageria. não sendo mais aceitas na Antropologia contemporânea. de certa forma. Teve maior ex‑ pressão nos Estados Unidos. mas procurou focalizar sua atenção em outras dimensões da cultura. Mas as ideias desses pensadores foram superadas pelas escolas seguintes. uma visão evolucionista e etnocêntrica. embora cada sociedade os tivessem desenvolvido de modo específico (MAIR.January 10. e para isso procuraram utilizar o método comparativo da Sociologia positivista. Questões para reflexão Quando afirmamos que um povo é mais culto e educado do que outro. Os antropólogos difusionistas dedicaram-se ao estudo das origens e extensões de todas as culturas. 2014 .06:43:54 . Nessas obras. interagindo entre si por meio de encontros e de “áreas culturais” comuns. Também pensavam nas sociedades “primitivas” de modo similar aos evolucionis‑ tas. 88822-978-85-8143-641-8. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Os difusionistas defendiam que alguns traços culturais estariam presentes em todos os povos. como resultado de uma tendência humana natural à imitação e à absorção de elementos culturais. através do qual procuravam demonstrar que as diversas sociedades. escrito em conjunto com Marcel Mauss. Um conceito importante desta escola antropológica é o de “empréstimo cultural”. chegaram à conclusão de que existiram “centros de difusão” em determinadas regiões. Inglaterra e Alemanha. 1979).2. e estabeleceram alguns conceitos específicos para explicar as semelhanças e diferenças entre uma sociedade e outra. que foram responsáveis pela disseminação desses traços culturais pelo mundo. o totemismo. PERRIN. Entre os autores mais conhecidos Homem_cultura_e_sociedade.pdf. 1973). esses teóricos procuraram analisar as manifestações de solidariedade mecânica e orgânica. concentrando suas análises na comparação com a sociedade industrializada e capitalista (MAIR. o sistema de trocas e a reciprocidade. na medida em que supervalorizamos um e desvalorizamos outro. e foi crítica do pensamento evolu‑ cionista. o que serviu de base para os antropólogos ingleses do início do século XX. quer as tornaria muito semelhantes em alguns aspectos (PANOFF. 1979).indd 103 20/02/13 18:53 . teriam desenvolvido uma mistura de características e modos de ser. o fato social total. considerando-os como conceitos fundamentais para se conhecer a ordem social em qualquer sociedade. especialmente no Egito.PG-113 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   103 (1901). Por que fazemos isso? 2. que também publicou Ensaio sobre a Dádiva (1923). Um aspecto fundamental desta escola é que se privilegiou o conhecimento científico através do rigor metodológico. estamos manifestando.indd ) .5 Difusionismo A escola difusionista foi contemporânea à evolucionista e à sociológica francesa. barbárie e civilização.

Bronislaw Malinowski. passaram a criticar a Antropologia evolucionista e a difusionista. Os funcionalistas propunham a leitura da cultura baseada nos estudos funcionais das sociedades. Schmidt (fundador da Revista Anthropos). ou seja. pologia. Bastian. W. de Radcliffe-Brown (1973). não mais uma leitura historicista mas sim uma abordagem funcional. É nas instituições sociais e sua interdependência muito curioso! Recomendo tam. as observações e registros in Proponho que conheçam o livro de loco. Resgataram. que discorda de uma leitura unicamente histórica como eixo para compreensão do presente.2. 1967. temos processos críticos sobre as teorias em um debate construtivo para a cultura como um todo. pois podemos analisar a preocupação dos estudiosos em não se acomodar com certas explicações. concentrando-se habitantes das Ilhas Trobriand. Esses antropólogos.6 Funcionalismo e estrutural-funcionalismo A escola funcionalista. agora ciedade primitiva. Ratzel. um clássico da Antro. 1988). ou seja. cujo maior representante é Bronislaw Malinowski. denominada de funcionalismo. tudo Estrutura e função na so. c u lt u r a e s o c i e d a d e estão: A. Não existe a necessidade de explicação dos fatos presentes pela história. F. bem como entrevistas com informantes na‑ Malinowski. H. obra de Radcliffe-Brown. procurando co‑ nhecer as diversas culturas humanas por meio de pesquisas de campo. Nesse contexto temos outra explicação. uma perspectiva sincrônica (PELTO. 2.PG-114 104  H o m e m . portanto. sobre. 1988). page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. a et‑ Saiba mais nografia. Fizeram uma ruptura com os estudos teóricos de gabinete (nos quais os estudiosos limitavam-se a teorizar sobre os vários povos sem conhecê-los de perto). 88822-978-85-8143-641-8. Perry. mas sim sempre buscar novas leituras sociais. LAPLANTINE­.tivos (LAPLANTINE. Nesse contexto estão presentes Radcliffe Brow. W.indd ) . ou seja.January 10. Rivers. se consolidou na Grã‑ -Bretanha. F. Elliot Smith. 2014 . pontuando as correntes teóricas oriundas dessas transformações. Graebner. funcional observadas no tempo presente. R. Queremos deixar claro que aqui estamos indicando somente como a Antropo‑ logia com ciência se desenvolveu. por‑ bém que tenham contato com a tanto. Homem_cultura_e_sociedade. G. pois o autor no tempo presente. nas primeiras décadas do século XX. Intrinsecamente a isso. por isso abdicaram da pers‑ relata sua experiência junto aos pectiva diacrônica (histórica).06:43:54 . e F. e elaboraram análises empíricas. Consta os estrutural-funcionalistas era o modo como as das referências e é uma leitura sociedades se organizavam e se expressavam muito interessante.indd 104 20/02/13 18:53 . em especial Malinowski e seus seguidores.pdf. W. intitulado Argonautas O que importava para os funcionalistas e para do Pacífico Ocidental. a sincronia — presente — não está submetida à diacronia — história. J. e sua variante estrutural-funcionalista.

os Tikopia — 1936 e Elementos de organização social — 1951). É identificado como um dos precursores da Antropologia Social contemporânea. O que isto significa? O que é um organismo vivo? Vejamos: para ele a sociedade é como um “corpo humano”: é composto por diferentes partes. que dependem umas das outras. Radcliffe-Brown (Estrutura e função na sociedade pri- mitiva — 1952 e Sistemas políticos africanos de parentesco e casamento — 1950). R. pois cada processo e estrutura social teriam sua funcionalidade na sociedade. Aqui se faz presente uma nova leitura antropológica. Com o funcionalismo a sociedade dos “outros” deixam de ser pensadas por noções da sociedade do “eu”. Glukman (Ordem e rebelião na África tribal — 1963). como “processo”. A união dos itens acima formaria um processo social. que seria obtida através da integração das partes. Evans-Pritchard (Bruxaria. isto é. algumas instituições desempenham uma “função” crucial na manutenção dos “processos” e “estruturas”. das ações.indd ) . sendo que esses itens formam um esquema interpretativo da realidade social. reconhecido como um estrutural‑ -funcionalista por focalizar sua atenção nas estruturas sociais que determinavam o funcionamento das instituições culturais. Homem_cultura_e_sociedade. e mais influenciado pela cientificidade positivista de Durkheim (escola sociológica francesa). Firth (Nós. autossuficiente. A outra corrente advém de Radcliffe-Brown. Assim torna-se importante compreender o “funcionamento” de uma sociedade. Nesse momento a Antropologia tornou-se capaz de pensar igualmente a nossa so‑ ciedade e aquelas que dela diferem. e E.January 10. M. Os maiores representantes do funcionalismo são: B. Assim existe uma comparação entre o sis‑ tema social e o corpo humano. “estrutura” e “função”. ela pode ser comparada a um organismo vivo. Leach (Sistemas políticos da Alta Birmânia — 1954). cada qual com sua função específica a desempenhar e que são interdependentes.pdf. segundo Durkheim (1988). o estado “natural“ deste “corpo” seria a saúde. histórico) passa a não ser a única a explicar as diferenças. Malinowski (Argonautas do Pacífico Ocidental — 1922). Menos preocupado com os trabalhos de campo. Turner (Ruptura e con- tinuidade em uma sociedade africana — 1957 e O processo ritual — 1969).indd 105 20/02/13 18:53 . como um encadeamento das relações. este antropólogo se destacou por reconhecer cada sociedade como um sistema natural.PG-115 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   105 Aqui a Antropologia se desvincula unicamente da história e fundamenta-se em estudar a sociedade sem se preocupar exclusivamente com o seu passado. 88822-978-85-8143-641-8. e que existia independentemente dos in‑ divíduos que o compunham. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Existem muitas formas de conceber e interpretar o tempo. Concentrava-se na classificação das instituições sociais e no seu papel determinante das relações entre os homens. Aqui podemos colocar a noção de função. Além disso. 2014 . oráculos e magia entre os Azande — 1937 e Os Nuer — 1940). V. sendo que a noção de tempo (linear. Na sociedade. das interações entre os seres humanos que passam a ocupar “papéis sociais”. No que se refere à sociedade.06:43:54 . sendo que essas instituições e suas funções podem varia de sociedade para sociedade. Vamos deixar mais claro: a sincronia (presente) deve ser analisada por alguns conceitos bem estabelecidos.

e um dos grandes nomes da geração que precedeu a Antropologia moderno-contemporânea. 1973.. 2014 . p. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.? O culturalismo americano. Através da perspectiva diacrônica (histó­rica) e com influência da Psicologia. precursor da corrente culturalista. em si mesmos.. afirma que: A Antropologia moderna descobriu o fato de que a sociedade humana cresceu e se desenvolveu de tal maneira por toda a parte. e que. Segundo Boas (2005). das pesquisas de campo e da etnografia. crenças.] descobrir as características de uma cultura mediante o estudo das suas manifestações através dos indivíduos e das suas influências sobre o seu comportamento” (PANOFF. historicamente. toma como premissa essencial à apreensão da cultura em sua totalidade (CASTRO apud BOAS. mas foi muito criticado pelos antropólogos sociais britânicos (os funcionalistas e estruturais-funcio‑ nalistas). podemos ter a esperança de orientar nossas ações de tal modo. cujo significado corresponde à ati‑ tude de respeito às diferenças por meio da ampla compreensão do “outro”.2. entendendo que as trocas culturais entre sociedades diferentes ocorriam somente em regiões próximas geograficamente. 50). não constituem a fina‑ lidade última da pesquisa. c u lt u r a e s o c i e d a d e 2. Queremos saber as razões pelas quais tais costumes e crenças existem — em outras palavras. reconhe‑ cia também o princípio da difusão cultural.indd ) . desejamos descobrir a história de seu desenvolvimento (BOAS.06:43:54 . 25). que seu conhecimento será um meio de compreender as causas que favorecem e retardam a civilização. PERRIN.PG-116 106  H o m e m . valores. Essa importante descoberta implica a existência de leis que governam o desenvolvimento da sociedade e que são aplicáveis tanto à nossa quanto às sociedades de tempos passa‑ dos e de terras distantes.7 Culturalismo norte-americano No início do século XX surge nos Estados Unidos uma corrente que. uma das grandes tarefas da Antropologia. mas criticava a concepção generalista dos difusionistas. Questões para reflexão Por que o ser humano se tornou. p. sobretudo. Boas (2005. 33). costumes. ligada às ideias de Ruth Benedict e de Margaret Mead.pdf. 2005. como é chamado. ambas discípulas de Franz Boas. opiniões e ações têm muitos traços fundamen‑ tais em comum. antropólogo alemão que desenvolveu sua carreira nos Estados Unidos. Tal premissa esteve. p. 2005).January 10. é desvendar os processos históricos responsáveis pelo desen‑ volvimento de certos estágios culturais. Uma das principais contribuições desta escola é o fato de terem elaborado e difundido o conceito de “relativismo cultural”. e que depende do método diacrônico. Também Homem_cultura_e_sociedade. 88822-978-85-8143-641-8. os culturalistas defendiam que era necessário “[. afirmando que: Os costumes e as crenças. que delas advenha o maior benefício para a humanidade. tão dependente de tradições.indd 106 20/02/13 18:54 . utilizando-se do método histórico (diacrônico). regras etc. guiados por esse conhecimento. que suas formas.

45) afirma que: Antes de mais nada. ao contrário. onde quer que os membros de diferentes raças formem um único grupo social com laços fortes. 88822-978-85-8143-641-8. mas como membro de sua classe. Boas (2005) foi um crítico contundente às correntes etnocêntricas que se baseavam na tese da divisão da humanidade em grupos raciais. todo o problema da história cultural se apresenta para nós como um problema histórico. que cada grupo cultural tem sua história própria e única. p. o indivíduo não é julgado como um indivíduo. a fim de que se possa esclarecer a ocorrência dos processos culturais que são específicos. 1973). é direcionar suas análises para as mudanças e as dinâmicas próprias de cada sociedade. identificando suas influências sobre o comportamento humano (PANOFF. 47). Tanto ocorrem processos de gradual diferenciação quanto de nivelamento de diferenças entre centros culturais vizinhos.indd ) . parcialmente dependente do desenvolvimento interno peculiar ao grupo social e parcialmente de influências exteriores às quais ele tenha estado submetido. 2005. p. Para entender a história é preciso conhecer. Podemos ter uma razoável certeza de que. mas como elas vieram a ser assim. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. a história da civilização humana não se nos apresenta inteiramente determinada por uma necessidade psicoló‑ gica que leva a uma evolução uniforme em todo o mundo. os preconceitos e antagonismos raciais irão perder sua importância. o próprio Boas (2005. Saiba mais Sugerimos que procurem conhecer também um dos livros mais importantes da obra de Franz Boas. como se pode observar na citação an‑ terior. não explicadas em nível biológico. 47). Enquanto insistirmos numa estratificação segundo camadas raciais. nós compreendemos seu apelo social em nossa sociedade. considerando que a ideia de “raças” fortalecia atitudes sectárias e antipatias entre os povos. 2014 . Em primeiro lugar.January 10. Embora as razões biológicas aduzidas possam não ser relevantes. Homem_cultura_e_sociedade. a estratificação da sociedade em grupos sociais de caráter racial irá sempre levar à discriminação de raça. O título é Antropologia cultural e está mencionado nas Referências. básico para os estudantes de Antropologia Cultural.indd 107 20/02/13 18:54 . Eles podem mesmo vir a desaparecer inteiramente.pdf. Sobre o método culturalista. Vemos. devemos pagar um preço alto na forma de luta inter-racial (BOAS.PG-117 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   107 defendiam que era necessário conhecer as diversas características de uma cultura por meio da análise das ações individuais. PERRIN. 2005. Tal como em todos os outros agrupamentos humanos bem marcados. não apenas como as coisas são. A preocupação central dos culturalistas. Para este pesquisador tais atitudes são decorrentes de ideias socialmente construídas. Seria completamente impossível en‑ tender o que aconteceu a qualquer povo particular com base num único esquema evolucionário (BOAS.06:43:54 . p. Não importa quão fraco o argumento em favor da pureza racial possa ser.

pdf. 1994. p. grifo do autor). que nos faz pensar em nossa própria forma de conceber a diversidade humana. 2014 . sendo que para muitas sociedades o tempo e a sua passagem não podem ser vistos como uma cadeia de acontecimentos. dão às formas pelas quais escolheram viver suas vidas” (ROCHA.06:43:54 . O estruturalismo antropológico teve sua origem na França. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. ou devemos tentar reconhecer as condições que levam aos antagonismos fundamentais que nos atormentam?” (BOAS. em meados da década de 1940. tanto da sociedade do “eu” quanto do “outro”. Ruth Benedict (Padrões de cultura — 1934 e O crisântemo e a espada — 1946). e a defesa de se considerar todos os diferentes grupos sociais como igualmente pertencentes à hu‑ manidade. Margaret Mead (Sexo e temperamento em três sociedades primitivas — 1935).indd ) . conhecido por ser um teórico revolucionário pela forma como buscou compreender as culturas humanas (SILVA. Questões para reflexão É possível imaginar nos dias de hoje alguma sociedade que não utilize a linguagem como forma de expressão? Impossível. 2008).3 Estruturalismo É essa leitura que o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss vai trabalhar. e colocando-se no limite entre a antropologia social e a antropologia cultural (LEACH. língua e cultura — 1940). concebendo a noção de que todas as sociedades possuem uma estrutura comum.January 10. e essa construção social da desigualdade étnica: “Será melhor para nós continuar como estamos. linear). c u lt u r a e s o c i e d a d e Nesse sentido parece muito justo atribuir a Boas e a seus seguidores a introdução do conceito de relativização cultural no pensamento antropológico. 88822-978-85-8143-641-8. Contrapondo-se às esco‑ las anteriores. com Claude Lévi-Strauss. 87. ainda definida a partir de critérios raciais.indd 108 20/02/13 18:54 . histórico. cuja lógica se fundamenta na maneira como o cérebro humano (a mente) processa as informações e os códigos da linguagem. “Aqui a Antropologia se coloca como uma ciência interpretativa. não é mesmo? Homem_cultura_e_sociedade. sobretudo o funcionalismo. 1982) seu pensamento se baseia na Psicologia.PG-118 108  H o m e m . na Mitologia e na Linguística (teoria de Saussure). 85). 2. Segundo Strauss não são todas as sociedades que utilizam a forma de tempo como a nossa (cro‑ nológico. Boas (2005) chega a lançar uma importante questão. Questões para reflexão O que quer dizer “relativismo ou relativização cultural”? Por que este conceito se tornou tão importante para a Antropologia? Os principais representantes do culturalismo são: Franz Boas (Os objetivos da etno- logia — 1888. que busca apenas conhecer os significados que os seres humanos. e Raça. 2005. p.

] a recorrência. 2014 . focalizando a atenção nos elementos culturais que são persistentes e recorrentes em toda e qualquer sociedade. mas que a ciência não comprova.. grifo do autor). 49) afirma que “[. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. e as sociedades concretas deslocam-se no correr do tempo. Lévi-Strauss (1996. procurando estabelecer leis gerais capazes de explicar os sistemas sobre os quais desenvolvem-se as estruturas sociais. faz crer que. mas se refere às atitudes subjetivas que as sociedades adotam diante da história. a estrutura que permite analisar as diversas sociedades se situa no nível do inconsciente coletivo. sobre um eixo cujos pólos nenhuma delas jamais ocupará.PG-119 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   109 Lévi-Strauss retoma a análise sincrônica.indd ) . por exemplo: é perigoso para a saúde tomar banho depois de fazer uma refeição. São noções teóricas.pdf. entre as sociedades. Assim. “verdades” em que as pessoas acreditam. ser dita absolutamente “fria” ou “quente”. em um sentido ou em outro.. Homem_cultura_e_sociedade. não é mesmo? Que outros exemplos de mito vocês conhecem? Além dos mitos. às ma‑ neiras variáveis com que elas a concebem. onde os povos indígenas.. assumindo seu passado. Isto é um mito. eu me perguntei se.January 10. em regiões afastadas do mundo e em sociedades profundamente diferentes [. nesse fim de século. É claro que elas se enganam: essas sociedades não escapam mais da história do que aquelas — como a nossa — a quem não repugna se saber históricas. 88822-978-85-8143-641-8. 1998. Algumas acalentam o sonho de permanecer tais como imaginam ter sido criadas na origem dos tempos. não as coloca em categorias separadas. explicando tal distinção da seguinte forma: Ela não postula. descobrem que têm interesses comuns e se agrupam em nações para defendê-los).indd 109 20/02/13 18:54 .. Questões para reflexão Mitos são falsas-verdades. mas ocultas”. isto é. mas muita gente acredita. nossas próprias sociedades não mostravam sinais perceptíveis de esfriamento (LÉVI-STRAUSS. Lévi-Strauss dedicou-se à análise da estrutura das linhagens familiares e parentesco. portanto. p. uma diferença de natureza. a religião.]. indepen‑ dentemente das mudanças observadas ao longo da história.06:43:54 . a reciprocidade (trocas) e a linguagem. encontrando na ideia que têm da história o motor de seu desenvolvimento. o tabu do incesto. em ambos os casos. Depois de ter salientado que sociedades outrora frias se aquecem quando a história as traga e as arrasta (como se observa nas duas Américas. Nenhuma socie‑ dade pode. os fenômenos observáveis resultam do jogo de leis gerais. e se traduz em mitos que são recorrentes. Lévi-Strauss (1998) também introduz conceitos como os de “sociedades quentes” (que se preocupam com a análise de sua própria história) e “sociedades frias” (que não se preocupam em analisar sua história).

O autor defende que o pensamento “selvagem”. alto/ baixo. 63. a intelec‑ tualidade. embora os expliquem a seu modo. por sua vez. 88822-978-85-8143-641-8.. atribuindo às sociedades ágrafas atributos que não as desqualificam se comparadas com as demais. ou a mente “primitiva” revelam um profundo interesse em explicar a realidade. mas de um modo diferente do pensamento científico. poderíamos esperar superar um dia a antinomia entre a cultura. e também com o funcionalismo. como afirmavam os antropólogos das escolas anteriores. Enquanto a ciência moderna se ocupa da investigação de recortes. os povos ágrafos se valem de explicações tota‑ lizantes fundamentadas em mitos. 1996.January 10. certo/errado etc.indd ) . Lévi-Strauss rompe com o paradigma evolu‑ cionista. os quais não lhes possibilitam controlar os eventos naturais.] pares de oposições que são necessários para a elaboração do sistema”. compondo pares de oposição. de “pedaços” da realidade. grifo do autor). Neste sentido. e suas formas de pensar a realidade são diferentes das sociedades que utilizam a escrita e a ciência — os povos modernos. e os indi‑ víduos que a encarnam. contudo.. Homem_cultura_e_sociedade. grifo do autor). Estaríamos aptos a compreender certas analogias funda‑ mentais entre manifestações da vida em sociedade. 26). c u lt u r a e s o c i e d a d e Para este pensador a linguagem humana é a base de sustentação de uma cultura. esses povos “[. nesta nova perspectiva. Ao mesmo tempo.. de certas modalidades tem‑ porais de leis universais em que consiste a atividade inconsciente do espírito (LÉVI-STRAUSS.pdf.indd 110 20/02/13 18:54 . instituições e condutas sancionadas pelo grupo. 2014 . e para isso utilizam a razão. que é coisa coletiva.06:43:54 . 82. arte. na verdade “povos sem escrita”. Estes. a análise estrutural permite identificar os “[. isto é. O trecho a seguir. a duvidar que no futuro essa diversidade deixará de existir. Nesse sentido pode-se perceber o caráter relativizador do estruturalismo de Lévi‑ -Strauss. mas não são menos desenvolvidas por conta disso. símbolos e significados... e por isso é carregada de signos. Segundo Lévi-Strauss (1996.] são movidos por uma necessidade ou um desejo de compreender o mundo que os envolve. Pois estaria aberta a rota para a análise estrutural e comparada de costumes.PG-120 110  H o m e m . inclusive. sempre seguem uma lógica binária. 1978. a sua natureza e a sociedade em que vivem” (LÉVI-STRAUSS. p. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. sintetiza a tese do autor sobre a importância da análise linguística para a compreensão da vida social: Procedendo assim. aparentemente muito afastadas umas das outras. Claude Lévi-Strauss (1996) faz questão de afirmar que os povos antes chamados de “primitivos” são. no nível do pensamento e condutas individuais. o antropólogo vai do conhecido ao desco‑ nhecido [. do tipo: feio/bonito. p.. p. direito. finalmente. daí a importância atribuída ao estudo da linguagem e dos mitos em qualquer sociedade. O autor chega. qualificá-las. religião. para melhor compreendê-la e conseguir desenvolver mecanismos de controle do homem sobre a natureza. a pretensa “consciência coletiva” se reduziria a uma expressão. como a linguagem. extraído de sua obra de referência Antropologia estrutural. na medida em que reconhece a diversidade das formas de pensar e de existir sem. porque. pois acredita que cada grupo se adapta às mudanças sem perder sua identidade cultural.].

O progresso só se verificou a partir das diferenças (LÉVI-STRAUSS. é extremamente competente na observação e compreensão das coisas.. sistemática ou metodicamente.] dá ao homem a ilusão. o que explica o fato de que muitos povos sem escrita (ágrafos) conseguem “enxergar” e explicar eventos da natureza sem. mas isto não o torna melhor ou mais evoluído do que o pensamento “selvagem”.PG-121 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   111 Questões para reflexão Então a diversidade entre os povos e sociedades continuará existindo. com efeito. 30-31). contudo. não é verdadeira) e do pensamento mágico para tentar resolver os problemas lógicos que não conseguem abstrair de outra forma. ainda que não possam controlá‑ -lo. e os pequenos grupos existentes viviam isolados. [. o que lhes possibilita conviver com os eventos da natureza de uma maneira harmônica e produtiva. do ponto de vista científico. com as mesmas capacidades. utilizar instrumentos com‑ plexos e elaborados como fazem os cientistas. diferenciar-se umas das outras.indd 111 20/02/13 18:54 .. Este pensar “primitivo”. 88822-978-85-8143-641-8. uma das muitas explicações que se podem extrair da investigação antropológica é que a mente humana. Além disso. segundo Lévi-Strauss (1978. Frequentemente os chamados nativos apenas observam e sentem o mundo à sua volta. extrema‑ mente importante. 1983. 28) “[. p. ou mítico. que culturas diferentes coexistam e que prevaleçam entre elas relações relativamente tranquilas” (LÉVI-STRAUSS. Interessante como o autor destaca em seu livro “Mito e significado” que a mente humana. Creio que esta afirmação é aceita por todos.indd ) . é em toda parte uma e a mesma coisa. 23).06:43:54 . Não julgo que as cul‑ turas tenham tentado. entre as diversas frações da Humanidade.January 10. apesar das diferenças culturais. p. as dife‑ renças são extremamente fecundas. A verdade é que durante centenas de milhares de anos a Humanidade não era numerosa na Terra. independentemente da condição sociocultural. o autor defende que.. É claro que ele reconhece o pensamento científico como mais elaborado e eficaz no sentido de permitir o domínio do homem sobre a realidade. e seletiva ao dirigir sua atenção para a realidade. ainda que se julguem por vezes superiores e melhores que as demais: “Nada impede. mesmo que o mundo esteja vivendo sob o império da lógica capitalista e da globalização da economia? Provavelmente. tornando-se diferentes uns dos outros. apesar de serem tão diferentes entre si. 1978. de que ele pode entender o universo”. reconhecendo suas propriedades e sua dinâmica. e para isso se utilizam dos mitos (a linguagem metafórica e mitológica que. pois para essas sociedades é isto o que realmente importa: entender o mundo.pdf. 2014 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. p. as sociedades humanas podem conviver perfeitamente bem.] Na realidade.. Homem_cultura_e_sociedade. de modo que nada espanta que cada um tenha desenvolvido as suas próprias características.

a diversidade humana não é importante. Lévi-Strauss (2008) estabeleceu em seu estruturalismo algumas bases essenciais. p. Em suas pesquisas — na maioria com povos tribais — ele reconhece a existência dessa estrutura comum.br/>. uma vez que privilegia fatos e ocorrências específicas em detrimento da Antropologia no Brasil.. 2008. 291.indd ) .] uma natureza Links muito mais complexa do que se imagina” (LÉVI‑ Para mais informações sobre a -STRAUSS. mento social do homem. seria melhor colocá-las em paralelo. atitudes. desse ponto de vista. grifo do autor). “Residual.January 10. maneiras próprias de agir sentir e pensar de um povo” e enfatiza a “estrutura subcons‑ ciente de pensamento”. Homem_cultura_e_sociedade. Nesta teoria. afirmando que “[. como dois modos de conhecimento desiguais quanto aos resultados teóricos e práticos (pois. em que a identidade de grupo é fundamental na construção da Pessoa Humana (VERANI. linear. o conceito de cultura ganha um sentido residual.indd 112 20/02/13 18:54 . utilizando-se da linguística para fazer a análise estrutural das culturas. 28. acaba por ignorar “[. em lugar de opor magia e ciência. comportamentos. não merece ser oposto às outras formas de conhecimento como uma forma absolutamente privilegiada” (LÉVI-STRAUSS. 1. e este eixo universal se fundamenta na esfera do pensamento e da linguagem. e sim a similaridade humana de pensamento.. p. porém irredutível”. Para o estruturalismo de Lévi-Strauss. grifo do autor). page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 88822-978-85-8143-641-8. c u lt u r a e s o c i e d a d e Portanto. através da representação do mundo e das coisas por meio de símbolos e significados que são arbitrariamente atribuídos por cada sociedade. Lévi-Strauss critica e sintetiza a definição de cultura mais utili‑ zada: “hábitos. é ver‑ dade que a ciência se sai melhor que a magia. acesse: infinidade de aspectos envolvidos no comporta‑ <www. como coloca Carneiro da Cunha (1986). os aspectos inconscientes do pensamento e os mitos. do autor). e acrescenta que a história cronológica.org. no sentido de que algumas vezes ela também tem êxito). focada na observação do presente e do modus operandi das atitudes humanas e seus respectivos termos. Sua abordagem é sincrônica e sistêmica. p.06:43:54 . 2008. p. de um eixo central por meio do qual se desenvolvem todos os de‑ mais elementos que caracterizam os modos de vida humanos. tão valorizada pelos antropólogos das escolas ante‑ riores. 2008. mas não devido à espécie de operações mentais que ambas supõem e que diferem menos na natureza que na função dos tipos de fenômeno aos quais são aplicadas (LÉVI-STRAUSS..] o conhecimento histórico.abant.. 2008. que formam uma rede de representações e significações.PG-122 112  H o m e m . Lévi-Strauss rejeita a pesquisa histórica como fonte exclusiva de dados para a compreensão dos diversos grupos sociais. 2014 . presentes em toda e qualquer sociedade: a linguagem. 287). qualquer que seja seu valor (que não se pensa em contestar).pdf.

p. todos citados nas Referências: Antropologia estrutural. uma vez que seu método permite analisar diferentes sociedades identificando nelas elementos que lhes são comuns. os sistemas universais que explicam a natureza estrutural de todas e quaisquer culturas. os costumes. Por exemplo.. uma relação de aliança.] deve ser considerado em seu conjunto. é necessário que se encontrem presentes nela os três tipos de relações familiais sempre dados na sociedade humana.06:43:54 . o qual “[. Nas socie‑ dades ágrafas (sem escrita) a história é contada oralmente. 63). para se perceber sua estrutura” (LÉVI-STRAUSS. Será que no “mundo ocidental” isso seria possível? A abordagem levistraussiana defende a valorização do pensamento e da lógica exis‑ tente em cada cultura como um caminho mais seguro para se analisar e se compreender a sociabilidade humana em seu sentido mais geral.indd 113 20/02/13 18:54 . onde discute a importância dos mitos nas diversas sociedades. 2014 . Malinowski. Em relação a isto. de uma geração para outra. Kroeber. Belíssimas obras! Segundo Goldman (1999). Deixando evidente que. Lowie. uma relação de consanguini‑ dade. isto é. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. as crenças e todos os demais aspectos de uma cultura têm que ser pensados como um complexo sistema. uma relação de filiação. 64) acaba por concluir que: Para que uma estrutura de parentesco exista. independentemente dos modelos de parentesco ou de família. Questões para reflexão Nem todos os povos contam sua história a partir de registros escritos.indd ) . isto é. 1996.. que restringiram suas análises à historicidade de povos que nem eles mesmos reconheciam. Mito e significado. e O pensamento selvagem. Lévi-Strauss se contrapôs à supervalorização da história por parte de muitos antropólogos. e da importância que isto assume em cada grupo humano.pdf. e sociedades frias. 88822-978-85-8143-641-8. que não se prendem ao seu passado). Lévi-Strauss (1996. o próprio Lévi-Strauss (1996) considera que as tradições. concluindo que algumas dão mais valor que outras à sua história (que ele acaba conceituando como sociedades quentes aquelas que reconhecem sua própria história. onde apresenta seu método.January 10. entre outros). essas três condi‑ Homem_cultura_e_sociedade. Chega a comparar diferentes sociedades em relação à importância que atribuem ao passado.PG-123 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   113 Saiba mais Não deixem de conhecer alguns dos mais importantes livros de Lévi-Strauss. p. aplicando seu método na análise das relações de parentesco e dos vínculos familiais em diversas sociedades tribais estudadas por outros antropólogos (Radcliffe-Brown. que trata da especificidade do conhecimento dos povos tribais.

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114  H o m e m , c u lt u r a e s o c i e d a d e

ções básicas necessariamente se apresentam. Outro exemplo de uma estrutura comum
presente em todas as sociedades e que envolve os sistemas de parentesco é o tabu do
incesto, a proibição de relações sexuais entre parentes consanguíneos de primeira
linhagem, como pode ser observado nos estudos deste antropólogo.
Finalmente, pode-se dizer que Lévi-Strauss foi um otimista, no sentido de acreditar
que a humanidade tende a preservar sua diversidade cultural, ainda que esta diver‑
sidade se fundamente em estruturas universais e que exista o risco da imposição
de algumas sociedades sobre outras. Isto pode ser observado em sua resposta a um
questionamento sobre o risco de algumas culturas tribais desaparecem em função do
contato com as sociedades maiores, quando afirma que nenhuma cultura desaparecerá
totalmente, pois elas se misturam com outras e assim vão formando uma nova cultura,
que carrega em si os elementos particulares que se misturaram por meio do contato.
Pouco antes de sua morte, aos noventa anos, fez questão de deixar claro que
não se pode afirmar com certeza o quanto de uma cultura pode ser preservado ou
transformado, a não ser que o antropólogo se proponha a conhecê-la profundamente,
concluindo que a diversidade humana sempre existirá (MOISÉS, 1999).
As obras mais conhecidas de Lévi-Strauss são: As estruturas elementares do pa-
rentesco — 1949; Tristes trópicos — 1955; Pensamento selvagem — 1962; Antropo-
logia Estrutural — 1958 e 1973; O cru e o cozido — 1964; O homem nu — 1971.

2.4 Antropologia interpretativa ou hermenêutica
Escola representada por Clifford Geertz, cujas ideias se tornaram tão importantes
para o pensamento antropológico quanto as de Malinowski e Lévi-Strauss. O autor é
considerado um dos fundadores da Antropologia contemporânea (SILVA, 2008). Geertz
realizou uma série de pesquisas de campo colocando em prática um método desenvol‑
vido por ele próprio — o método hermenêutico em Antropologia. Sua compreensão de
cultura é assim definida: “Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal
amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo
essas teias e a sua análise” (GEERTZ, 1973, p. 15), sendo que para fazer essa análise
o homem não precisa necessariamente lançar mão de métodos experimentais, ou de
procurar as leis gerais capazes de explicar a cultura, mas sim realizar “uma ciência
interpretativa”, capaz de encontrar os significados dos elementos culturais.
Para o a antropologia atual, cultura é um sistema simbólico (Geertz,
1973), característica fundamental e comum da humanidade de
atribuir, de forma sistemática; racional e estruturada, significados e
sentidos “às coisas do mundo”. Observar; separar; pensar e classi‑
ficar; atribuindo uma ordem totalizadora ao mundo, é fundamental
para se compreender o conceito de cultura atualmente definido
como “sistema simbólico”, e sua diversidade nas sociedades huma‑
nas, mesmo neste período atual de modernidade tardia (VERANI,
2008, grifo do autor).

A cultura, para o autor, é pública e é produzida por seus próprios membros, e para
ser interpretada deve ser analisada em todas as suas dimensões — somente assim o

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A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   115

pesquisador poderá fazer uma “leitura” e compreender qual a sua importância para
os próprios indivíduos que dela fazem parte.
Tal visão de como a teoria funciona numa ciência interpretativa
sugere que a diferença [...] que surge nas ciências experimentais ou
observacionais entre “descrição” e “explicação” aqui aparece como
sendo [...] entre “inscrição” (“descrição densa”) e “especificação”
(“diagnose”) — entre anotar o significado que as ações sociais
particulares têm para os atores [...] e afirmar, tão explicitamente
quanto nos for possível, o que o conhecimento assim atingido
demonstra sobre a sociedade na qual é encontrado e, além disso,
sobre a vida social como tal. Nossa dupla tarefa é descobrir as
estruturas conceptuais que informam os atos dos nossos sujeitos,
o “dito” no discurso social, e construir um sistema de análise [...]
no qual possa ser expresso o que o ato simbólico tem a dizer so‑
bre ele mesmo — isto é, sobre o papel da cultura na vida humana
(GEERTZ, 1973, p. 37-38, grifo do autor).

Retomando a perspectiva diacrônica, e defendendo a etnografia, esta escola prio‑
riza a “leitura” das sociedades em todas as suas manifestações, que são carregadas de
significados, através de “descrições densas” acerca da compreensão dos habitantes
sobre sua própria cultura. Ao dialogar com outros estudiosos do comportamento
sociocultural humano, Geertz (1973, p. 47) afirma que:
O que quer que seja que a antropologia moderna afirme [...] ela
tem a firme convicção de que não existem de fato homens não
modificados pelos costumes de lugares particulares, nunca exis‑
tiram e, o que é mais importante, não o poderiam pela própria
natureza do caso.

O antropólogo é, portanto, um intérprete do “outro”, um pesquisador que procura
explicar a cultura que não lhe é a mais familiar (por isso do “outro”) sob um prisma
científico. Neste sentido, ao falar sobre a tarefa da interpretação antropológica,
Geertz (1973, p. 24-25, grifo do autor) afirma que:
Nada mais necessário para compreender o que é a interpretação
antropológica, e em que grau ela é uma interpretação, do que a com‑
preensão exata do que ela se propõe dizer — ou não se propõe — de
que nossas formulações dos sistemas simbólicos de outros povos
devem ser orientadas pelos atos. [...] Elas devem ser encaradas em
termos de interpretações às quais pessoas de uma determinada
denominação particular submetem sua experiência, uma vez que
isso é o que elas professam como descrições. São antropológicas
porque, de fato, são os antropólogos que as professam. [...] Resu‑
mindo, os textos antropológicos são eles mesmos interpretações
e, na verdade, de segunda e terceira mão. Por definição, somente
um “nativo” faz a interpretação em primeira mão: é a sua cultura.

Assim, Geertz (1973, p. 321) conclui: “[...] as sociedades, como as vidas, con‑
têm suas próprias interpretações. É preciso apenas descobrir o acesso a elas”. Desta
forma, compete ao antropólogo estudar profundamente as diversas culturas e suas
respectivas redes de símbolos e significados, os quais fazem todo o sentido para as

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pessoas que participam dessas culturas (os intérpretes de primeira mão, como afirma
Geertz), mas que devem ser analisados e compreendidos também através da pers‑
pectiva antropológica (científica, portanto), por meio do trabalho do pesquisador (o
intérprete de segunda e de terceira mão).
Visto sob esse ângulo, o objetivo da antropologia é o alargamento
do universo do discurso humano. De fato, esse não é seu único
objetivo [...] e a antropologia não é a única disciplina a persegui‑
-los. No entanto, esse é um objetivo ao qual o conceito de cultura
semiótico se adapta especialmente bem. Como sistemas entrela‑
çados de signos interpretáveis (o que eu chamaria de símbolos,
ignorando as utilizações provinciais), a cultura não é um poder,
algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimen‑
tos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos;
ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos
de forma inteligível — isto é, descritos com densidade (GEERTZ,
1973, p. 24, do autor).

Questões para reflexão
Então é preciso valorizar o saber popular, isto é, o conhecimento que cada so‑
ciedade tem acerca de si mesma e sobre o mundo à sua volta?

Com sua concepção hermenêutica, ou interpretativa, este autor rompe com
qualquer tentativa de explicar o universo cultural do homem por meio de leis gerais,
como muitos antropólogos filiados a outras escolas teórico-metodológicas fizeram
(ele menciona a teoria estruturalista de Claude Lévi-Strauss como exemplo). Geertz
reconhece que cada sociedade (e, portanto, cada sistema cultural) se desenvolve ao
longo da história segundo seus próprios parâmetros:
O que é importante nos achados do antropólogo é sua especifici‑
dade complexa, sua circunstancialidade [...] que possibilita pensar
não apenas realista e concretamente sobre eles, mas, o que é mais
importante, criativa e imaginativamente com eles (GEERTZ, 1973,
p. 33, grifo nosso).

Neste caso, “eles” são os indivíduos que falam sobre sua própria sociedade e
sobre sua própria cultura, isto é, os “nativos”. Sendo assim, a tarefa do antropólogo
é, ao mesmo tempo, desvendar as concepções que os próprios “informantes” têm
acerca de sua realidade sociocultural, e “construir um sistema de análise” (GEERTZ,
1973, p. 38) que estabeleça uma correlação entre aquilo que é dito pelos informantes
locais e aquilo que é observado e interpretado pelo próprio pesquisador.
Resumindo, precisamos procurar relações sistemáticas entre fe‑
nômenos diversos, não identidades substantivas entre fenômenos
similares. E para consegui-lo com bom resultado precisamos
substituir a concepção “estratigráfica” das relações entre os vários
aspectos da existência humana por uma sintética, isto é, na qual os

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existem em todas as sociedades com a finalidade de governar e controlar os comportamentos individuais. a de que a cultura impõe a todos os indivíduos determinados parâmetros por meio dos quais cada um pode se auto-orientar ao longo de sua fiexistência. fora da pele... p. Consta das Referências. [. A segunda ideia é que o homem é precisamente o animal mais desesperadamente dependente de tais mecanismos de controle. como tem sido o caso até agora. 2014 .] Na tentativa de lançar tal integração do lado antropológico e alcançar. 88822-978-85-8143-641-8. grifo do autor). o livro A interpretação das culturas.January 10.06:43:54 .fflch.html>. torna-se imprescindível a compreensão da sociedade em Homem_cultura_e_sociedade. Saiba mais Não deixem de ter acesso também ao clássico de Clifford Geertz.br/da/vagner/antropo.. de tais programas culturais. com sua complexa rede de símbolos e significados.. instruções [.pdf. [.. Saiba mais Vejam os comentários do Professor Vagner Gonçalves da Silva sobre a ciência antropológica acessando o link <www. regras.. e assim assegurar o convívio harmonioso entre os homens. A primeira delas é que a cultura é melhor vista não como complexos de padrões concretos de comportamento — costumes. As obras mais conhecidas de Geertz são: A interpretação das culturas — 1973 e Saber local — 1983. quero propor duas ideias. para or‑ denar seu comportamento (GEERTZ. sociológicos e culturais possam ser tratados como variáveis dentro dos sistemas unitários de análise.indd ) . 56. feixes e hábitos –. mas como um conjunto de mecanismos de controle — planos. psicológicos. tradições. receitas. de que o indivíduo vive em sociedade e que muitas vezes nos deparamos com várias informações vindas de todos os cantos do mundo. assim. e essas informações nos ajudam a formar uma opinião sobre os diversos assuntos que cons‑ tituem a realidade social. Neste trecho o autor explicita sua compreensão de que a cultura. uma imagem mais extada do homem. usos. 1973.PG-127 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   117 fatores biológicos.indd 117 20/02/13 18:54 . extragenéticos.] para governar o comportamento. Talvez seja esta a única conclusão genera‑ lizante a respeito do homem na obra de Clifford Geertz.] É uma questão de integrar diferentes tipos de teorias.5  Diversidade cultural: etnocentrismo e relativização A partir da leitura da Declaração sobre a Diversidade Cultural da UNESCO e de nossa discussão. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.usp. 2.

Lembram da leitura do evolucionismo como padrão explicativo da cultura? Pois bem.. com responsabilidades. Ao longo da segunda metade do século XIX. Esses países desenvolveram uma economia internacional baseada na concorrência Homem_cultura_e_sociedade.indd 118 20/02/13 18:54 . das formas de trabalho. centrismo que dizer: etno (etnia. c u lt u r a e s o c i e d a d e sua totalidade. dos nossos valores e hábitos. Giddens (2001) dá um exemplo bem significativo para ilustrar essa questão: o casamento. da vestimenta. casamentos são arranjados para crianças de 12.January 10.pdf. tal como a nacionalidade. os povos. Mas em algumas culturas. da música. Repartiram o mundo entre si e organizaram poderosos impérios coloniais que só tinham em comum o desen‑ volvimento da acumulação capitalista. nesse contexto. p. econômica e cultural da África. língua. Não é apenas as crenças culturais que diferem através das culturas. promovendo uma divisão geopolítica dos continentes africano e asiático. Segundo Bruit (1994. a maneira de viver de outros grupos sociais etc. Mas. “Etnocentrismo é uma visão do mundo de onde o nosso próprio grupo é tomado Para saber mais como centro de tudo. as principais potências capitalistas consolidaram seu domínio com um amplo movimento de conquista militar e eco‑ nômica. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. lista dos países industrializados. Para entendermos melhor a questão do etno‑ religião. e eurocentrismo.. e todos os “outros” são Etimologicamente a palavra etno. a conquista de territórios teve como principal objetivo a busca de matérias-primas e a ampliação de mercados para as mercadorias produzidas e os excedentes de capital. formar opiniões sobre os países. 2014 . 13 anos e deve ser considerado nor‑ mal.PG-128 118  H o m e m . nossas definições do que é a grupo. contrastam drasticamente com o que as pessoas que não fazem parte desse grupo consideram “normal”. comum. 88822-978-85-8143-641-8. paixão e construir uma vida a dois “até que a morte os separe!” Se observarmos em nossa sociedade ocidental moderna.06:43:54 ... dessa leitura desenvolveu o que chamamos de etnocentrismo. Iremos perceber que existem inúmeras representações que são inerentes a determinado grupo cultural. com frequência. Existem várias formas de comportamento. que variam amplamente de cultura para cultura e. No final do século XIX e início do século XX. em plena era da expansão colonia‑ centrismo (centro). é muito comum “julgarmos” o comportamento de outros grupos diferentes do nosso. 7). ou seja. consideramos essa atitude vinculada a vida adulta. Se pensarmos na questão da alimentação. nossos modelos. a partir da nossa realidade.indd ) . 5): Entre 1870 e 1914 a Europa e os Estados Unidos arquitetaram a conquista política. da dança. As diversidades das práticas e do comportamento humano também fazem parte desse “jogo” cultural. Oceania e América Latina. Em nossa sociedade o casamento é um momento em que duas pessoas adultas resolvem se unir por amor. sendo unidos por um fator existência” (ROCHA. p. bem como demais centrismo precisamos entender a constituição do afinidades históricas e culturais). pensados e sentidos através dos nossos valores. 1994. Ásia.

uma melhora das condições de vida da população. Questões para reflexão Interessante: a dominação capitalista depende do investimento em armas. transformada em capital da província. Questões para reflexão Etnocentrismo é um conceito que representa a imposição de uma determinada etnia (ou “raça”) sobre as demais. no período da Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto político-econômico. considerada estratégica para garantir o processo de colonização e dominação. certo? Então. nestes últimos. causando.06:43:54 . a chegada da família real em 1808 reforça ainda mais a introdução dos costumes europeus nas maiores cidades do país. fortalecidos por ideais nacionalistas. fortale‑ cendo seus mecanismos de dominação. difundiu os valores da cultura burguesa capitalista sobre os demais territórios do globo. consequentemente. 88822-978-85-8143-641-8. A Europa. de uma elite intelectual “nativa” ocidentalizada.PG-129 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   119 de mercados. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 2001).January 10. na ampliação do consumo e no aumento de investimento em capi‑ tais. considerada “berço” da civilização ocidental. a ocupação de diversas áreas da África e da Ásia levou a uma série de revoltas que simbolizaram a indignação e resistência dos povos colonizados. Paralelamente intensificou-se a produção armamentista.pdf. nos territórios coloniais. com sua tentativa de promover a “raça” ariana perante o mundo? Homem_cultura_e_sociedade. na África e Ásia. o que nos leva a crer que ela somente é possível mediante o uso da força. Lembram dos nazistas. que acabaria tendo um papel fundamental nos processos de independência ocorri‑ dos nesse período. que passou a incorporar os padrões de consumo burguês-capitalista (HOBSBAWM. e ao surgimento. estabeleceu-se um posicionamento etnocên‑ trico por parte das nações europeias. como na Argentina em 1816 e no Brasil em 1822. começando pelo Rio de Janeiro.indd 119 20/02/13 18:54 .indd ) . quem detém maior poderio bélico (de armas) tem também maior potencial do‑ minador? Será que é por isso que os Estados Unidos investem tanto na indústria armamentista? Outro aspecto importante desse contexto é que as indústrias conquistaram rapi‑ damente os mercados de muitos países latino-americanos. A industrialização permitiu um grande enriquecimento dos países europeus e. e ao longo do século XX. na medida em que intensificaram a imposição de sua cultura. por exemplo. uma dependência econômica típica do imperialismo. Contudo. 2014 . No Brasil.

historiadomundo. tais práticas inauguraram uma forma de poder fundamentada na ideia de raça e na <www. Segundo é. a ideia de diferenças raciais “[. consequentemente. em relação às novas identidades. em seu sentido moderno. fundacional. durante os primeiros séculos de práticas colonialistas. isto tura e os costumes dos povos dominados.PG-130 120  H o m e m . lugares e papéis sociais correspondentes. primeiramente. possibilitando. Acesse o site: Quijano (2005). 2005. mas o que importa é que desde muito cedo foi construída como referência a supostas estruturas biológicas diferenciais entre es‑ ses grupos. Assim. 227-278).] foi assumida pelos conquistadores como o principal elemento constitutivo.pdf. O chamado “homem branco” se Homem_cultura_e_sociedade. estabelecendo de modo arbitrário a superioridade dos europeus e do estilo de vida capitalista.indd 120 20/02/13 18:54 . e mais tarde europeu. linguísticas e culturais de cada povo. não tem história conhe‑ cida antes da América. negros e mestiços. Talvez se tenha originado como referência às diferenças fenotípicas entre conquistadores e conquistados. desde então adquiriram também.br/ divisão da humanidade a partir das características idade-contemporanea/nazismo/>.. cujos tipos físicos tinham características distintas e as peles outras tonalidades. portanto) por parte dos colonizadores. E na medida em que as relações sociais que se estavam configurando eram relações de dominação. uma conotação racial. Em outras palavras. raça e identidade racial foram estabelecidas como instrumentos de classificação social básica da população (QUIJANO. A formação de relações sociais fundadas nessa ideia. que até então indi‑ cavam apenas procedência geográfica ou país de origem. termos com espanhol e português. biológicas. 2014 . c u lt u r a e s o c i e d a d e Do ponto de vista antropológico.06:43:54 . grifo do autor). 2005. Para o autor. estabelecendo parâmetros distintivos e discriminatórios entre os diversos grupos humanos existentes. provocou uma série de consequências sobre a cul‑ plo do que estamos tratando. A classificação dos povos em categorias raciais é compreendida por Quijano (2005) como resultado de uma construção social (arbitrária. o maior mal causado pelas práticas colonialistas foi o fato de difundirem as ideias de superioridade racial e cul‑ Links tural das nações europeias. que.indd ) . produziu na América identidades sociais historicamente novas: índios. p. e. e redefiniu outras. das relações de dominação que a conquista exigia” (QUIJANO.com. 88822-978-85-8143-641-8.. tais identi‑ dades foram associadas às hierarquias. explicar e justificar o processo de dominação e de imposição de costumes burgueses como meio de contribuir com o problema do “atraso” civilizatório em que os povos colonizados pareciam se encontrar. desta forma.January 10. como constitutivas delas. A difusão de uma concepção racial permitiu. ao padrão de dominação que se impunha. autodefi‑ niram-se como “brancos” em oposição aos grupos nativos. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. portanto. p. classificar as sociedades nativas das Américas. e depois as de outras regiões colonizadas. A ideia de raça. sobretudo porque isso O nazismo representou um exem. do etnocentrismo. 227-278.

significou para esse mundo uma configuração cultural. impondo-se como uma raça dominante. Homem_cultura_e_sociedade. e em especial do conhecimento.indd 121 20/02/13 18:54 . histórias. Com efeito. por outro lado. econômico e cultural. A incorporação de tão diversas e heterogêneas histórias culturais a um único mundo dominado pela Europa. 227-278). 2005. um novo padrão de organização e controle do trabalho com vistas a fortalecer o poder dos países colonizadores. como a administração das colônias e outros pos‑ tos de poder.PG-131 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   121 colocou em posição de superioridade na “escala evolutiva”. da cultura. tendo como base as explicações científicas (darwinismo social).January 10. representando.indd ) . em suma intersub‑ jetiva.] novas identidades históricas e sociais foram produzidas” (QUIJANO. Esse padrão de dominação foi. Essas formas de organização e controle do trabalho foram elaboradas em torno da lógica de acumulação capitalista e do mercado mundial. será que podemos afirmar com toda a certeza que a humanidade em geral já superou essa concepção etnocêntrica? Quijano (2005) observa que a distribuição dos postos de trabalho. portanto. todas as experiências. ao mesmo tempo político. Questões para reflexão Vejam que coisa incrível: a partir da colonização europeia e da expansão da dominação capitalista o mundo passou a conhecer uma nova lógica nas relações interétnicas: a supremacia da chamada “raça branca” e a desvalorização das demais. 227-278). intelectual. p. Desta forma. 2014 . a Europa também concentrou sob sua hegemonia o controle de todas as formas de controle da subjetividade. para estabelecer o capitalismo mundial. p.06:43:54 . considerados inferiores. Em outras palavras.. como parte do novo padrão de poder mundial. do ponto de vista histórico. mais forte e civilizada. esteve diretamente vinculada à origem racial. equivalente à articulação de todas as formas de controle do trabalho em torno do capital. fundamentado na equivocada ideia de superioridade e inferioridade racial. 2005. ao longo da co‑ lonização. aos “negros” e aos “índios”. recursos e produtos culturais terminaram também articulados numa só ordem cultural global em torno da hegemonia europeia ou ocidental. foram destinados os trabalhados braçais e escravos. facilitando a exploração do trabalho humano escravo em benefício do capitalismo colonial. 88822-978-85-8143-641-8. “[.. e o trabalho livre assalariado. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. E hoje. necessários à exploração dos recursos naturais e à produção colonial.pdf. da produção do conhecimento (QUIJANO. de tal forma que aos brancos eram reservados os postos mais nobres.

como os dois Pactos Internacionais de 1966 relativos respectivamente. aos direitos civis e políticos e aos direitos econômicos. Declaração universal sobre a diversidade cultural UNESCO – 2002 A Conferência Geral Reafirmando seu compromisso com a plena realização dos direitos humanos e das liberdades fundamentais proclamadas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e em outros instrumentos universalmente reconhecidos. c u lt u r a e s o c i e d a d e Aprofundando o conhecimento Apresentamos a você. 2014 . intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abrange.. o de recomendar “os acordos internacionais que se façam necessários para faci- litar a livre circulação das ideias por meio da palavra e da imagem”. o documento intitulado Declaração Uni- versal sobre a Diversidade Cultural. que designa à UNESCO.indd 122 20/02/13 18:54 . Recordando também seu Artigo primeiro. Recordando que o Preâmbulo da Constituição da UNESCO afirma “[. publicado em 2002. Reafirmando que a cultura deve ser considerada como o conjunto dos traços distin- tivos espirituais e materiais. a Ciência e a Cultura. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Referindo-se às disposições relativas à diversidade cultural e ao exercício dos direitos culturais que figuram nos instrumentos internacionais promulgados pela UNESCO. as tradições e as crenças. os sistemas de valores.pdf. a liberdade e a paz são indispensáveis para a dignidade do homem e constituem um dever sagrado que todas as nações devem cumprir com um espírito de responsabilidade e de ajuda mútua”.06:43:54 .] que a ampla difusão da cultura e da educação da humanidade para a justiça. entre outros ob- jetivos.PG-132 122  H o m e m . da UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação. 88822-978-85-8143-641-8.January 10. Homem_cultura_e_sociedade. a coesão social e o desenvolvimento de uma economia fundada no saber. Constatando que a cultura se encontra no centro dos debates contemporâneos sobre a identidade.. além das artes e das letras.indd ) . sociais e culturais. as manei- ras de viver juntos. 2002). os modos de vida. no qual os povos são conclamados a reafirmarem o compromisso com a plena realização dos direitos humanos e das liberdades fundamentais proclamadas na Declara‑ ção Universal dos Direitos Humanos e em outros instrumentos universalmente reconhecidos (UNESCO. caro leitor.

As políticas que favoreçam a inclusão e a participação de todos os cidadãos garantem a coesão social. o pluralismo cultural constitui a resposta política à realidade da diversidade cultural. facilitado pela rápida evolução das novas tecnologias da informação e da comunicação. DIVERSIDADE CULTURAL E DIREITOS HUMANOS Artigo 4 – Os direitos humanos. Artigo 3 – A diversidade cultural. garantias da diversidade cultural Homem_cultura_e_sociedade. torna-se indispensável garantir uma interação harmoniosa entre pessoas e grupos com identidades culturais a um só tempo plurais. moral e espiritual satisfatória. Fonte de intercâmbios. apesar de constituir um desafio para a diversidade cultural.pdf. afetiva. de assegurar a preservação e a promoção da fecunda diversidade das culturas. variadas e dinâmicas. a diversidade cultural é. para o gênero humano. fator de desenvolvimento A diversidade cultural amplia as possibilidades de escolha que se oferecem a todos.January 10. mas também como meio de acesso a uma existência intelectual. na consciência da unidade do gênero humano e no desenvolvimento dos inter- câmbios culturais. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. em um clima de confiança e de entendimento mútuos. no seio do sistema das Nações Unidas. Definido desta maneira. ao diálogo e à cooperação. 2014 . estão entre as me- lhores garantias da paz e da segurança internacionais. Essa diversidade se manifesta na originalidade e na pluralidade de identidades que caracterizam os grupos e as sociedades que compõem a humanidade. o pluralismo cultural é propício aos intercâmbios culturais e ao desenvolvi- mento das capacidades criadoras que alimentam a vida pública. assim como sua vontade de conviver. constitui o patrimônio comum da humanidade e deve ser reconhecida e consolidada em beneficio das gerações presentes e futuras.indd ) . tão necessária como a di- versidade biológica para a natureza. Nesse sentido. cria condições de um diálogo renovado entre as culturas e as civi- lizações. à tolerância. a vitalidade da sociedade civil e a paz. 88822-978-85-8143-641-8. Inseparável de um contexto democrático.06:43:54 . Considerando que o processo de globalização.indd 123 20/02/13 18:54 . Aspirando a uma maior solidariedade fundada no reconhecimento da diversidade cultural. patrimônio comum da humanidade A cultura adquire formas diversas através do tempo e do espaço. Consciente do mandato específico confiado à UNESCO.PG-133 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   123 Afirmando que o respeito à diversidade das culturas. Artigo 2 – Da diversidade cultural ao pluralismo cultural Em nossas sociedades cada vez mais diversificadas. DIVERSIDADE E PLURALISMO Artigo 1 – A diversidade cultural. entendido não somente em termos de crescimento econômico. de inovação e de criatividade. Proclama os seguintes princípios e adota a presente Declaração: IDENTIDADE. é uma das fontes do desenvolvimento.

ao justo reconhecimento dos direitos dos autores e artistas. em todas suas formas. não devem ser considerados como mercadorias ou bens de consumo como os demais. c u lt u r a e s o c i e d a d e A defesa da diversidade cultural é um imperativo ético. deve-se prestar uma particular atenção à diversidade da oferta criativa. para todas as culturas. Sociais e Culturais. mercadorias distintas das demais Frente às mudanças econômicas e tecnológicas atuais. A li- berdade de expressão. a igual- dade de acesso às expressões artísticas. DIVERSIDADE CULTURAL E CRIATIVIDADE Artigo 7 – O patrimônio cultural. Ela implica o compromisso de respeitar os direitos humanos e as li- berdades fundamentais. deve-se cuidar para que todas as culturas possam se expressar e se fazer conhecidas. assim como ao ca- ráter específico dos bens e serviços culturais que.January 10. Ninguém pode invocar a diversidade cultural para violar os direitos humanos garantidos pelo direito internacional. valorizado e transmitido às gerações futuras como testemunho da experiência e das aspirações humanas.e a possibilidade. ao conhecimento científico e tecnológico – inclusive em formato digital . Artigo 8 – Os bens e serviços culturais. indissociáveis e interdependentes. em particular os direitos das pessoas que pertencem a minorias e os dos povos autóctones. poder expressar-se.06:43:54 . a fim de nutrir a criatividade em toda sua diversi- dade e estabelecer um verdadeiro diálogo entre as culturas. Essa é a razão pela qual o patrimônio. O desenvolvimento de uma diversidade criativa exige a plena realização dos direitos culturais. o multilinguismo. 2014 . que são universais.indd ) . o pluralismo dos meios de comunicação. nem para limitar seu alcance. fonte da criatividade Toda criação tem suas origens nas tradições culturais. na sua língua materna. na medida em que são portadores de identidade. Toda pessoa deve. assim. Homem_cultura_e_sociedade. de valores e sentido. tal como os define o Artigo 27 da Declaração Universal de Direitos Humanos e os artigos 13 e 15 do Pacto Internacional de Direitos Econômicos. marco propício da diversidade cultural Os direitos culturais são parte integrante dos direitos humanos.PG-134 124  H o m e m . deve ser preservado. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. dentro dos limites que impõe o respeito aos di- reitos humanos e às liberdades fundamentais. em partícular. que abrem vastas perspectivas para a criação e a inovação. inseparável do respeito à dignidade humana. de estar presentes nos meios de expressão e de difusão.indd 124 20/02/13 18:54 . criar e di- fundir suas obras na língua que deseje e. 88822-978-85-8143-641-8. toda pessoa deve poder participar na vida cultural que escolha e exercer suas próprias práticas culturais.pdf. toda pessoa tem direito a uma educação e uma formação de qualidade que respeite plenamente sua identidade cultural. são garantias da diversidade cultural. porém se desenvolve plenamente em contato com outras. Artigo 6 – Rumo a uma diversidade cultural accessível a todos Enquanto se garanta a livre circulação das ideias mediante a palavra e a imagem. Artigo 5 – Os direitos culturais.

estabeleçam indústrias culturais viáveis e competitivas nos planos nacional e internacional. seja na forma de apoios concretos ou de marcos reguladores apropriados. tem a responsabilidade de: a) promover a incorporação dos princípios enunciados na presente Declaração nas estratégias de desenvolvimento elaboradas no seio das diversas entidades intergo- vernamentais. c) dar seguimento a suas atividades normativas. b) servir de instância de referência e de articulação entre os Estados. Desse ponto de vista. 2014 . convém fortalecer a função primordial das políticas públicas. objetivos e políticas em favor da diversidade cultural. enquanto assegurem a livre circulação das ideias e das obras.indd ) . em particular os países em desenvol- vimento e os países em transição. catalisadoras da criatividade As políticas culturais.pdf. utilizando-se dos meios de ação que julgue mais adequados. Cada Estado deve. por si sós. é necessário reforçar a cooperação e a solidariedade inter- nacionais destinadas a permitir que todos os países. LINHAS GERAIS DE UM PLANO DE AÇÃO PARA A APLICAÇÃO DA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DA UNESCO SOBRE A DIVERSIDADE CULTURAL Os Estados Membros se comprometem a tomar as medidas apropriadas para difun- dir amplamente a Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade Cultural e fomen- Homem_cultura_e_sociedade.January 10. em parceria com o setor privado e a sociedade civil. DIVERSIDADE CULTURAL E SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL Artigo 10 – Reforçar as capacidades de criação e de difusão em escala mundial Ante os desequilíbrios atualmente produzidos no fluxo e no intercâmbio de bens culturais em escala mundial.06:43:54 . devem criar condições propícias para a produção e a difusão de bens e serviços culturais diversificados. a sociedade civil e o setor privado para a elaboração conjunta de conceitos. cujas linhas gerais se encontram apensas à presente Declaração. o setor privado e a sociedade civil As forças do mercado. não podem garantir a preservação e promoção da diversidade cultural. 88822-978-85-8143-641-8. definir sua política cultural e aplicá-la.indd 125 20/02/13 18:54 . por virtude de seu mandato e de suas funções. por meio de indústrias culturais que disponham de meios para desenvolver- -se nos planos local e mundial. Artigo 12 – A função da UNESCO A UNESCO. d) facilitar a aplicação do Plano de Ação. respeitando suas obrigações internacio- nais. os organismos internacionais governamentais e não governamentais.PG-135 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   125 Artigo 9 – As políticas culturais. Artigo 11 – Estabelecer parcerias entre o setor público. condição de um desenvolvimento humano sustentável. de sensibilização e de desenvolvimento de capacidades nos âmbitos relacionados com a presente Declaração dentro de suas esferas de competência. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.

Lutar contra o hiato digital – em estreita cooperação com os organismos compe- tentes do sistema das Nações Unidas – favorecendo o acesso dos países em desenvolvi- mento às novas tecnologias. normas e práticas nos planos nacional e in- ternacional. assim como dos meios de sensibilização e das formas de cooperação mais propícios à salvaguarda e à promoção da diversidade cultural. 4. onde quer que seja possível.por meio das redes mundiais. em particular. Favorecer o intercâmbio de conhecimentos e de práticas recomendáveis em ma- téria de pluralismo cultural. Promover. para tanto. Avançar na compreensão e no esclarecimento do conteúdo dos direitos culturais. disponíveis em escala mundial. promover o papel dos serviços públicos de radiodifusão e de televisão na elaboração de produções Homem_cultura_e_sociedade. em particular. especialmente os que se referem a seus vínculos com o desenvolvimento e a sua influência na formulação de políticas. 2. com esse fim. 7. Avançar na definição dos princípios. Incorporar ao processo educativo. 12. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 3. Salvaguardar o patrimônio linguístico da humanidade e apoiar a expressão. por meio da educação. Promover a diversidade linguística no ciberespaço e fomentar o acesso gratuito e universal. com o fim de preservar e otimizar os métodos culturalmente adequados para a comunicação e a transmissão do saber. a todas as informações pertencentes ao domínio público. cultural e científica. com vistas à realização dos seguintes objetivos: 1. 88822-978-85-8143-641-8. tanto a formulação dos programas es- colares como a formação dos docentes. tanto o quanto necessário. Aprofundar o debate internacional sobre os problemas relativos à diversidade cultural. a reflexão sobre a conveniência de elaborar um instrumento jurídico internacional sobre a diversidade cultural. 5. uma tomada de consciência do valor positivo da diversidade cultural e aperfeiçoar. cooperando. métodos pedagógi- cos tradicionais. Fomentar a diversidade linguística – respeitando a língua materna – em todos os níveis da educação. ao mesmo tempo.06:43:54 . 9.PG-136 126  H o m e m .pdf.January 10. 10. em escala tanto nacional como internacional. c u lt u r a e s o c i e d a d e tar sua aplicação efetiva. a inclusão e a participação de pessoas e grupos advindos de horizontes culturais variados. a criação e a difusão no maior número possível de línguas. que devem ser consideradas. 2014 . com vistas a facilitar. disci- plinas de ensino e instrumentos pedagógicos capazes de fortalecer a eficácia dos serviços educativos.indd ) . 6. 8. a salvaguarda e a difusão de conteúdos diversificados nos meios de comunicação e nas redes mundiais de informação e. 11. ajudando-os a dominar as tecnologias da informação e facilitando a circulação eletrônica dos produtos culturais endógenos e o acesso de tais países aos recursos digitais de ordem educativa. e estimular a aprendizagem do plurilin- guismo desde a mais jovem idade. Fomentar a “alfabetização digital” e aumentar o domínio das novas tecnologias da informação e da comunicação. Estimular a produção.indd 126 20/02/13 18:54 . Aprofundar. em sociedades diversificadas. considerados como parte integrante dos direitos humanos.

Garantir a proteção dos direitos de autor e dos direitos conexos. de modo a fo- mentar o desenvolvimento da criatividade contemporânea e uma remuneração justa do trabalho criativo. respeitando as obrigações internacionais de cada Estado. Elaborar políticas culturais que promovam os princípios inscritos na presente Declaração. [1] Entre os quais figuram. pesquisadores.indd ) .PG-137 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   127 audiovisuais de qualidade. a Exportação e a Transferência de Propriedade Ilícita de Bens Culturais. Os Estados Membros recomendam ao Diretor Geral que. de modo a reforçar a sinergia das medidas que sejam adotadas em favor da diversidade cultural. 17. o estabelecimento de mecanis- mos de cooperação que facilitem a difusão das mesmas. a Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural de 1972. procurando. cientistas e intelectuais e o desenvolvimento de programas e associações internacionais de pesquisa. Respeitar e proteger os sistemas de conhecimento tradicionais. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. de 1970. ao mesmo tempo. apoiar a criação de mercados locais viáveis e facilitar o acesso dos bens culturais desses países ao mercado mundial e às redes de distribuição internacionais.pdf. a criação de espaços de diálogo entre o setor público e o privado. leve em consideração os objetivos enunciados no presente Plano de Ação e que o comunique aos organismos do sistema das Nações Unidas e demais organizações intergovernamentais e não governamentais interessadas. conforme o Artigo 27 da Declaração Universal de Direitos Humanos. Elaborar políticas e estratégias de preservação e valorização do patrimônio cul- tural e natural. 19.indd 127 20/02/13 18:54 . favorecendo. inclusive mediante mecanismos de apoio à execução e/ou de marcos regula- dores apropriados. Envolver os diferentes setores da sociedade civil na definição das políticas públi- cas de salvaguarda e promoção da diversidade cultural. artistas. a Convenção sobre as Medidas que Devem Adotar-se para Proibir e Impedir a Importação. Reconhecer e fomentar a contribuição que o setor privado pode aportar à valo- rização da diversidade cultural e facilitar. ao mesmo tempo. 16. defendendo. o acordo de Florença de 1950 e seu Proto- colo de Nairobi de 1976. particularmente. o direito público de acesso à cultura. de 1952. especialmente os das populações autóctones. ao executar os programas da UNESCO. cooperar para desenvolvi- mento das infraestruturas e das capacidades necessárias. preservar e aumentar a capacidade criativa dos países em desenvolvi- mento e em transição. 15. em particular. 13. Ajudar a criação ou a consolidação de indústrias culturais nos países em desen- volvimento e nos países em transição e.January 10. 14. 18. com esse propósito. em particular do patrimônio oral e imaterial e combater o tráfico ilícito de bens e serviços culturais. 88822-978-85-8143-641-8. com este propósito. Apoiar a mobilidade de criadores. 2014 .06:43:54 . a Declaração da UNESCO Homem_cultura_e_sociedade. a Declaração dos Princípios de Cooperação Cultural Internacional de 1966. a Convenção Universal sobre Direitos de Autor. reconhecer a contribuição dos conhecimentos tradicionais para a proteção ambiental e a gestão dos recursos naturais e favorecer as sinergias entre a ciência moderna e os conhecimentos locais. 20.

[2] Definição conforme as conclusões da Conferência Mundial sobre as Políticas Culturais (MONDIACULT. em respeito ao que já estava contemplado anteriormente na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Destacamos no texto que toda análise que tenha a pretensão de contribuir com a melhoria das relações sociais e dos padrões de aceitação. de 1978. ou melhor. Ao analisarmos a história das relações inter e intra povos desde a consolidação do capitalismo moderno até o mundo globalizado dos dias atuais observamos um grave problema. um grande desafio: a dificuldade que as sociedades em geral têm de aceitar as diversidades humanas. preconceito. os quais se colocam duramente contrários a todas as formas de etnocentrismo.indd 128 20/02/13 18:54 . percebemos que nem sempre esses conceitos tão importantes para a Antropologia e as demais ciências sociais nem sempre se traduzem em práticas cotidianas. Como vimos. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. de 1989.January 10. violência e desigualdades. esse documento da UNESCO define parâmetros gerais para nortear as leis dos países que compõem a Organização das Nações Unidas em relação ao compromisso de respeito às diversidades humanas.PG-138 128  H o m e m . seja em termos étnicos. a Recomendação relativa à condição do Artista. 1982). c u lt u r a e s o c i e d a d e sobre a Raça e os Preconceitos Raciais. discriminação. A proposta que fazemos em relação isso se dirige em dois sentidos: o da re‑ flexão teórica e da construção de novas formas de interação sociocultural. da Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvi- mento (Nossa Diversidade Criadora. 1995) e da Conferência Intergovernamental sobre Políticas Culturais para o Desenvolvimento (Estocolmo. 88822-978-85-8143-641-8. bem como de lidar com as diferenças. sociais ou culturais. México. 2014 .pdf.indd ) . Para concluir o estudo da unidade Ao tratarmos da alteridade e do relativismo cultural na contemporaneidade. 1998).06:43:54 . diálogo e respeito entre os homens deve levar em conta os parâmetros da alteridade e da compreensão relativista. Homem_cultura_e_sociedade. de 1980 e a Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular.

a cultura é um instrumento de coesão social. a cultura possui um caráter social. e também em nossas práticas diárias e profissionais. Discuta sobre a questão da diacronia e da sincronia na perspectiva da Antropo‑ logia.PG-139 A n t r o p o l o g i a e c u l t u r a   129 Resumo Nesta unidade do livro você pode conhecer os conceitos de alteridade e de relativismo cultural.06:43:54 . e discuta como esses dois conceitos nos ajudam a compreender a diferença entre os indivíduos em sociedade. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. a cultura pressupõe uma linguagem. 5. e teve a oportunidade de compreender por que a Antropo‑ logia adota positivamente o seu uso. 2014 . Nossa ênfase foi ampliar o entendimento de como a noção de alteridade e de relativismo cultural pode auxiliar no estudo das diversidades humanas em nossos dias. Atividades de aprendizagem 1. 4. 2. Homem_cultura_e_sociedade. e os desdobramentos das práticas etnocêntricas com as quais ainda convivemos nos dias de hoje. Explique as definições de etnocentrismo e relativização.indd ) . A corrente evolucionista de explicação sobre a diversidade cultural deixou algumas sequelas negativas em nossa sociedade? Explique e exemplifique. Por que podemos falar que a Antropologia é uma ciência que se transformou com o desenvolvimento da sociedade? 3. Explique as principais propriedades da cultura (a cultura é simbólica. a cultura não é inata. so‑ ciedades e grupos.January 10. 88822-978-85-8143-641-8.pdf.indd 129 20/02/13 18:54 . a cultura é dinâmica). Com o texto foi possível refletir a respeito de como vêm se dando as relações sociais entre os mais diferentes povos.

page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.PG-140 Homem_cultura_e_sociedade.06:43:54 .January 10.pdf. 2014 . 88822-978-85-8143-641-8.indd 130 20/02/13 18:54 .indd ) .

06:43:54 . sendo que para isso devemos também compreender a contradição existente nesse processo. Assim teremos claro que a nossa formação é fruto de miscigenação das raças. Seção 1: Aspectos históricos na formação da cultura brasileira Nesta seção discutiremos os aspectos históricos da formação cultural brasileira. o brasileiro apresenta seu país (especialmente no exterior) como um território inigualável. Roberto da Matta. Objetivos de aprendizagem: Nesta unidade você será levado a discutir sobre a formação da cultura brasileira. da paz social e racial.indd 131 20/02/13 18:54 . das comidas quentes. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.January 10. bem como os principais autores: Gilberto Freire. Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro e suas discussões sobre a formação cultural de nossa sociedade. levando em consi- deração os aspectos econômicos. 2014 . oriundas do processo de colonização.PG-141 Unidade 5 Formação da cultura brasileira Giane Albiazzetti Okçana Battini Assim. mulheres e do samba. 88822-978-85-8143-641-8. Sérgio Buarque de Hollanda. elencando as políticas afirmativas como eixo central para a superação do pensamento etnocêntrico e do racismo. é atualizada integralmente.indd ) . que influen- ciaram a história do nosso país. Homem_cultura_e_sociedade. do mesmo modo que o estrangeiro. políticos e sociais. Seção 2: Diversidade cultural brasileira e relações inter-étnicas Nesta seção trabalharemos a diversidade cultura e seus impactos na sociedade.pdf. talvez o único local do planeta onde esta ideologia da tranquilidade. Ensaios de antropologia estrutural. das praias.

indd ) . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. devemos voltar um pouco na história para analisarmos o processo de colonização. Para compreendermos este processo. Podemos dizer que a cultura brasileira é fruto de um legado cultural (processo de transmissão cultural que ocorrem ao longo da história. a partir do século XIX. ao se misturarem. por‑ tugueses. torna-se importante discutirmos como se deu esse processo e quais atores abordam essa questão. nos quais as gerações mais velhas transmitem às gerações mais novas a cultura de um grupo) e intercultural. indígena e africano. a partir do século XVI. fundamentou-se na dominação e na exploração de pessoas e de recursos naturais. iniciando um processo de mudança social.   Seção 1 Aspectos históricos na formação da cultura brasileira Pensar em cultura brasileira é pensar em diversidade cultural. desenvolvido a partir das Grandes Navegações. e logo após com os africanos (em virtude do trabalho escravo). esse colonialismo moderno. agrupando-se dando início à formação do chamado “povo brasileiro”. Assim.PG-142 132  H o m e m . muitos grupos étnicos (italianos. buscaram interpretar esse processo de formação da identidade brasileira. onde diferentes manifestações culturais entram em conflito. pois esta tem certas especificidades que se apresentam no desenrolar da história brasileira. Como já vimos. podemos repetir esse discurso. japoneses.pdf. Muitos autores. 88822-978-85-8143-641-8. para compreendermos que o Brasil é um país multicultural. moldando-se. 2014 . já que somos frutos do processo de miscigenação entre o povo europeu. visto que ao se falar em formação da cultura brasileira. ao falarmos do difícil processo de definição do que seria a cultura. Homem_cultura_e_sociedade. Os europeus entraram em contato com o povo indígena. No final do século XVIII e início do século XIX.January 10. deram origem ao povo brasileiro. Para compreendermos como se inicia a formação da nossa identidade. visto que os grupos que fazem parte da sociedade brasileira têm características cul‑ turais e sociais diversas. alemães e espanhóis) migraram para o Brasil para o trabalho nas lavouras de café e na indústria. ambos tratados igualmente como mercadorias que muito in‑ teressavam ao capitalismo emergente. basta fazermos uma leitura do legado cultural que herdamos desses povos que. c u lt u r a e s o c i e d a d e Introdução ao estudo Pensar a cultura brasileira é pensar na sua dinamicidade em relação a outros grupos sociais existentes.06:43:54 . visto que basta olharmos para nosso lado. o que explica o grande número de manifestações culturais existentes no Brasil. Como afirma Pedrão (1995).indd 132 20/02/13 18:54 . temos também muitas interpretações no que tange o discurso das ciências sociais.

a opera magna do renasci‑ mento português foi a de superar os limites do Mediterrâneo. de uma prodigiosa eficiência. Quase sempre os livros didáticos relacionam as contribuições das etnias que formam o povo brasileiro.aspx?codigo =667>.January 10. afinal..br/con- ção aos segundos. 2014 . No caso do Brasil. COUCEIRO. representando um dos maiores países católicos da Europa. 2005. 10. o extenso território brasileiro. mencionando hábitos como a utilização da rede. p. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. no seu tempo.PG-143 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   133 Os mecanismos de exploração colonial fundamentaram-se no uso de armas e aparatos militares. p. acesse: grande dependência dos primeiros em rela‑ <www. por exemplo. frágil. suas riquezas e perigos naturais. entre as quais as dos índios. Mais do que na literatura e nas artes. grifo do autor). nascemos também de uma Renascença portuguesa de vida curta. conquistar o Atlântico e o Índico. ao analisarem as relações Links entre os colonizadores portugueses e os po‑ Sobre a imposição da religião cató- vos nativos do Brasil. Questões para reflexão Então quer dizer que os portugueses dependiam muito mais dos índios do que o contrário? Como assim? As autoras sugerem que o contato entre os “brancos” e os “índios” foi marcada‑ mente ambíguo: por um lado carregado de conflitos e violência. a ideia da miscigenação passou a ser vista de forma positiva. O Brasil é um país cujo passado colonial se mantém presente em muitos aspectos.]. além da religião e das ambições de riqueza e poder.06:43:54 . como José de Alencar em O Guarani (GUILLEN.com. alimentos como a mandioca ou a origem de algumas palavras. e pensamos que é mais enriquecedor discutir uma história social da miscigenação.pdf. Guillen e Couceiro (2000). Homem_cultura_e_sociedade.indd 133 20/02/13 18:54 . tinham crenças e festas. ora conviviam pa‑ cificamente e ora lutavam entre si. mostrando como foi o cotidiano do (des)encontro entre os povos — que. se casavam. Isso se observa. 2000. no entanto.. sua religião e sua cultura. pois precisavam conhecer teudo/default. 27. na abordagem dada pelos românticos ao indianismo. mas. e por outro estabele‑ ceu-se uma relação de interdependência.historianet. A mistura racial era vista pelas autoridades portuguesas de uma forma negativa [. A grande obra da Renascença portuguesa estava no mar e sua glória nas conquistas de além mar (WEFFORT. No século XIX. grifo do autor). Portugal. respaldados por uma forte ideologia religiosa: a da Igreja Católica. 88822-978-85-8143-641-8. trabalhavam. Na verdade esses aspectos são acessórios. afirmam que havia uma lica na América portuguesa. atribuindo-se a ela papel de relevância na construção da identidade nacional. na medida que estabeleceram trocas entre si. fundou sua colônia brasileira impondo sobre os povos nativos impondo sua força.indd ) .

88822-978-85-8143-641-8.indd 134 20/02/13 18:54 . Homem_cultura_e_sociedade. racista e predatório. e que deve ser levado em conta. estabeleceu com as colônias uma relação meramente extrativista.06:43:54 . 2014 . até hoje. por que então a sociedade brasileira é tão marcada pelo preconceito e pela discriminação. pois forçaram um processo de aculturação que acabou por desintegrar as culturas e sociedades nativas em muitos aspectos. de práticas voltadas para interesses particulares. Esses senhores de engenho tornaram-se os principais representantes da monarquia portuguesa no Brasil. pois os interesses econômicos se distanciavam dos interesses morais e religiosos. Um fator re‑ levante das missões evangelizadoras.indd ) . O fato é que uma das principais características da nossa identidade é a mescla de modos de ser. que não agregou os valores de produção industrial e de acumulação capitalista que já começavam a fazer parte de outros países. que aqui se misturaram. pode-se dizer que a história da miscigenação foi uma coisa boa para o país. Questões para reflexão Nesse caso. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. contribuindo com diferentes referenciais culturais. tanto em termos sociais quanto raciais? Pedrão (1995) destaca que o governo português desejava fortalecer seu poder por meio do mercantilismo. e sua participação na vida social caracterizava-se pela lealdade à metrópole em troca de poder econômico e político. é que esses jesuítas passaram a defender os indígenas nos conflitos com os colonizadores. e imposições etnocêntricas (MORAIS. mas não se pode dizer que a cultura bra‑ sileira seja unicamente pautada no contato entre as tradições e costumes europeus e indígenas. com seu papel evangelizador. ao longo de séculos de colonização e de exploração. a base da nossa sociedade — uma sociedade que mostra. Para pensar a formação da identidade brasileira. Para tanto. como a Holanda e a Inglaterra. sua ação foi muito mais prejudicial do que benéfica. relações de dominação e de hie‑ rarquia. pois depois chegaram também outros povos.PG-144 134  H o m e m . de pensar e de agir. que foi definindo. determinando relações de dominação e de hierarquia social em um contexto escravocrata. 1989).January 10. sobretudo os africanos escravizados. Assim. este ponto de partida da relação entre colonizadores e nativos é essencial. Embora movidos por uma boa intenção (acreditavam que era preciso difundir o cris‑ tianismo e a fé monoteísta junto aos povos “primitivos”). correto? Mas. c u lt u r a e s o c i e d a d e Intermediando esse contato estavam os jesuítas. porém sem desintegrar sua estrutura feudal. Neste contexto.pdf. e este teve que ser comercializado da África. foi preciso utilizar a forma de trabalho escravo. a Coroa passou a investir na formação de elites rurais — os se‑ nhores de engenho — responsáveis por assegurar a produção açucareira com fins de exportação. comumente chamada de miscigenação.

obediente e fiel (GUILLEN. em reconhecimento por sua conduta humilde. porque foi Homem_cultura_e_sociedade. em uma composição social Links heterogênea em termos de valores culturais.pdf. Levou muito tempo até que alguns grupos sociais. 2014 . Aos que não resistiam. não vinculando valores de respeito à terra e ao povo. quando oriundas das camadas pobres e subjugadas.January 10. acesse: disso. 88822-978-85-8143-641-8.brasilescola. 2000. Apenas o movimento de emancipação política disparado pelo próprio príncipe regente do Brasil. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Apesar formação do povo brasileiro. o povo brasileiro já expe‑ rimentava a acumulação capitalista primitiva. Questões para reflexão Então havia muitos negros escravizados que não se conformavam com as vio‑ lências às quais se viam submetidos? Quem se lembra da história do Zumbi dos Palmares? A formação da sociedade brasileira nesse período colonial teve como base a supremacia dos interesses econômicos do colonizador em virtude do capitalismo internacional. identificados por uma identidade genuinamente brasileira e outro referencial ideológico. fruto das ações violentas por parte dos dominadores: “O medo não era exclusividade do negro escravizado. pois muitas vezes não conseguiam ou mesmo não queriam se adaptar.PG-145 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   135 Sobre o período da escravidão é necessário salientar que os povos africanos eram submetidos a formas explícitas de violência. que deles exigiam as mais duras e indesejáveis tarefas — tarefas estas condicionadas às piores condições de vida possíveis. em 1822. 2000). começassem a se insurgir contra a subordi‑ nação do Brasil a Portugal. Nesse período. por aceitarem resignadamente ou por se adaptarem ao trabalho escravo — os bons escravos — eram dadas condições menos aversivas.htm>. 1995). Pedro. eram duramente combatidas pelos nobres senhores que representavam a monarquia. ainda mercantilista.indd 135 20/02/13 18:54 . COUCEIRO. obviamente. Ao contrário.com/historiag/ Igreja Católica em muitos aspectos. 8). o medo estava presente em todas as camadas da sociedade colonial” (GUILLEN. Outro ponto fundamental da formação da identidade brasileira é o medo. presente mesmo no período imperial e republi‑ cano. ori‑ Para ter mais informações sobre a gens étnicas e classe (RIBEIRO. COUCEIRO. 1995). D. disfarçada na imagem de um país indepen‑ dente politicamente.06:43:54 . reivindicando a independência (PEDRÃO. representou uma forma de resistência “aceitável” (embora. a Coroa portuguesa tenha se posicionado de modo contrário). resistindo em se submeter aos mandos de seus “proprietários”. a mentalidade colonialista. p. pois as tentativas de resistên‑ cia. respaldada pela <www. manteve-se brasileiro.indd ) .

de certa forma. 2014 .indd 136 20/02/13 18:54 . 88822-978-85-8143-641-8. visto que o trabalho escravo não foi abolido e a monarquia continuou a constituir o poder político. Conforme destacado por Guillen e Couceiro (2000). pois as classes dominantes continuaram exercendo o poder sob uma forte inspiração eurocêntrica. a independência do Brasil teve inspiração burguesa. a Proclamação da República. no pensamento e no imaginário brasileiro: as tentativas de “branquea­ mento” da população diante das teorias científicas que explicavam as diferenças raciais. que defendiam a tese de que todas as sociedades humanas necessariamente se encontravam em algum ponto da escala evolutiva. no final do século XIX a sociedade brasileira conheceu outra variante etnocêntrica que ainda hoje repercute. Além disso.. sendo a “civilização europeia” a representante do mais alto nível de de‑ senvolvimento cultural (LAPLANTINE.pdf. como a evolucionista e a sociológica francesa. sobretudo a Inglaterra. Este é o contexto histórico de surgimento das primeiras escolas antropológicas. também não foi capaz de eliminar a colonização. o processo de independência do Brasil não chegou a descolonizar o país. De que forma os pro‑ fessores de História podem trabalhar esse momento histórico em sala de aula a fim de despertar maior interesse entre os alunos? A aristocracia rural do país. permanecendo uma sociedade formada por privilégios à elite e discriminação racial.06:43:55 ..indd ) . e procurou se articular interna‑ mente no sentido de evitar que as classes populares (escravos e trabalhadores pobres) assumissem posições políticas e sociais mais elevadas. Segundo Fonseca (1999). diferentemente do que ocorreu com os descendentes de escravos africanos. o chamado “projeto de branqueamento” da população brasileira foi realizado através de políticas de incentivo à imigração europeia. Para Fonseca (1999). c u lt u r a e s o c i e d a d e elaborada e articulada do ponto de vista político-econômico. cujos ideais iluministas de liberdade e emancipação combinavam perfeitamente bem com os pressupostos do capitalismo liberal. atribuindo aos europeus e seus descendentes uma condição de superioridade étnica e cultural (eurocentrismo). em um momento seguinte.PG-146 136  H o m e m . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. atendendo aos interesses de Portugal nas suas relações com os países industrializados. não permitiu que seus privilégios políticos e econômicos fossem afetados. na época da independência. 1988). que cobravam o fim do pacto colonial. que se mantiveram submetidos às piores condições e oportunidades de trabalho.January 10. Esses imigrantes se instalaram mais ao sul e sudeste do país e tiveram a possibilidade de trabalhar em terras e adquiri-las em condições facilitadas. Além disso. Fonseca (1999) salienta que até hoje Homem_cultura_e_sociedade. Questões para reflexão Sempre as elites se manifestando na disputa pelo poder.

com a superação de um mo‑ delo agrário. pois suas leituras são até hoje muito utilizadas nas pesquisas sobre a cultura e a identidade do povo brasileiro. -Grande & Senzala que aborda Feito o recorte necessário sobra a discussão como o livro foi pensado e produ- de raça e etnia. Vale a pena! que alguns autores contradizem essa visão “ro‑ mântica” do processo de surgimento do povo brasileiro e de sua cultura.htm> lia patriarcal. Segundo Freire (2001).fgf.2 Sérgio Buarque de Holanda Para Sérgio Buarque de Holanda em seu livro Raízes do Brasil (2003). Segundo ela.1 Gilberto Freire Fundado nesse contexto. Tratava-se de uma revolução lenta.br/portugues/obra/ poder e mando do senhor de engenho e da famí‑ livros/pref_brasil/casagrande. Um dos principais autores que discutem esse processo é Gilberto Freire (1900 — 1987). Caio Prado Júnior (Formação do Brasil Contemporâneo). Alguns importantes intérpretes do Brasil precisam ser mencionados. sem estabelecer os conflitos de classe existentes entre o dominador e os dominados. sendo que essa miscigenação proporcio‑ nou um equilíbrio entre os diferentes grupos Links culturais. a formação da cultura brasileira tem relação com o período de transição do Brasil tradicional para uma ordem moderna. onde o modelo agrário.January 10.indd 137 20/02/13 18:54 . proposto por Freire.PG-147 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   137 os descendentes de europeus continuam ocupando os melhores espaços no mercado de trabalho e na sociedade. urbano e democrático. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. rural e patriarcal dava lugar para o modelo industrial. por um outro modelo — industrial Homem_cultura_e_sociedade. em seu livro Casa Grande e Senzala. rural e patriarcal.06:43:55 . os “negros e mestiços” ainda se mantêm em condição de marginalização social. as relações so‑ Acessem o site: ciais fundamentavam-se no trabalho escravo. A formação da cultura brasileira tem relação com o período que o Brasil atravessava desde o século XIX sob uma prolongada crise de transição de uma ordem tradicional a uma ordem moderna. 2014 . Darcy Ribeiro (O povo brasileiro). 1. Florestan Fernandes (A revolução burguesa no Brasil).indd ) . torna-se importante levantar zido. entre os quais se destacam Gilberto Freyre (Casa-Grande & Senzala). Freire aborda que essa integração social entre o negro. submetidos ao preconceito e ao racismo. Segundo Sergio Buarque de Holanda (1902-1982) e Florestan Fernandes (1920-1995) essa leitura imprime uma visão sobre os diferentes grupos sociais como algo natural.pdf. 1. e Roberto DaMatta (Carnavais: malandros e heróis). no <bvgf. o que identificava o processo de para ler o prefácio do livro Casa- colonização portuguesa no Brasil. torna-se importante discutir alguns autores que buscaram compreender a formação desse provo. 88822-978-85-8143-641-8.org. branco e índio estabeleceu-se de forma harmo‑ niosa. Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil).

o passado de exploração e de dominação dificultou o desen‑ volvimento de um senso de nacionalismo entre os brasileiros. Bastante interessante também é o filme: Raízes do Brasil — Uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Holanda Informações Técnicas Título original: Raízes do Brasil — Uma cinebiografia de Sérgio Buarque de Holanda País de origem:  Brasil Gênero:  Documentário Tempo de duração: 148 minutos Ano de lançamento:  2003 Estúdio/Distrib. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. afirmando que a sociedade brasileira foi constituída. 2014 . servindo os trabalhadores e os mais pobres às necessidades e interesses da classe burguesa dominante. O autor concorda com Sérgio Buarque de Holanda no sentido de que o país teria que se modernizar. que aceita as estruturas sociais vigentes.pdf. Com isso.PG-148 138  H o m e m . desde o período da colonização.indd ) .unicamp. A dificuldade de ultrapassagem para esta última fase se originava de uma série de entraves que a estrutura colonial havia legado e que se manifestava desde então no modo de ser do brasileiro.indd 138 20/02/13 18:54 . Saiba mais Um site interessante que aborda toda a obra de Sergio Buarque de Holanda é <www. Dentro desse contexto. o Brasil assistia a um impasse na definição de seu destino (HOLLANDA. br/siarq/sbh/>. Holanda (2003) estabelece a relação entre o português. Para este pensador. instituindo uma relação de superioridade e de poder sobre o homem simples (fruto da mistura de raças). outro grande intérprete do Brasil. fundado na questão da dominação legal do branco sobre as outras culturas. 2004). sem questionar. Aqui podemos relacionar novamente a questão da cultura e da ideologia presente no início do nosso texto. institui-se culturalmente o homem cordial. Premido entre os novos imperativos da civi‑ lização ocidental e os condicionantes arcaicos da sua formação histórica. mas Homem_cultura_e_sociedade.06:43:55 . discutiu as relações sociais no país sob um referencial histórico-crítico (marxista). o índio e o negro. a partir dos interesses da economia capitalista.January 10. 88822-978-85-8143-641-8.: Estação Filmes Direção: Nelson Pereira dos Santos Prado Júnior (1990). pois é muito forte culturalmente o domínio de uma classe sobre a outra. c u lt u r a e s o c i e d a d e urbano e democrático.

um cientista rigoroso.06:43:55 . nome de destaque na Antropologia brasileira. com o desenvolvimento das relações de trabalho assalariado nas cidades. políticas e econômicas em uma perspectiva socialista. 1. que busca na história as respostas para a compreensão da sociedade brasileira. visto que a cultura negra foi estereotipada como exótica. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.indd 139 20/02/13 18:54 . Outro grande intérprete da cultura brasileira é o antropólogo Roberto DaMatta (1979). o imaginário social.3 Florestan Fernandes Já Fernandes (1978). que produziu estudos de caráter estruturalista sobre as características e cos‑ tumes típicos de nosso país. velório. Mindlin (1998) o define como um etnólogo clássico.indd ) . Em seus livros discute uma infinidade de elementos que. retoma a discussão sobre a mestiçagem física e de costumes na formação da cultura brasileira. Mas a sociedade. como o universo simbólico do país e seus inúmeros rituais (aniversário. casamento. mas sempre em posição de inferioridade dentro da es‑ trutura social. Esses aspectos incidem diretamente no fator cultural. histórica e ideologicamente. que já estavam acostumados com o trabalho estipulado pelo modo de produção capitalista.January 10. e depois da abolição da escravidão em 1888 a presença do negro sempre foi vinculada ao trabalho não capacitado. Questões para reflexão Etnia nacional? Será que podemos concordar com a idealização de uma “raça brasileira”? A obra de Darcy Ribeiro é uma das mais importantes referências teóricas aos que se interessam em discutir o problema dos índios. 88822-978-85-8143-641-8. o negro sempre esteve presente no processo de construção da sociedade brasileira e essa participação também influenciou os padrões culturais do povo brasileiro.pdf. em seu conjunto. Segundo Fernandes (1978).PG-149 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   139 sobretudo a partir de uma reconstrução histórica de suas relações sociais. analisa o processo de exclusão social do negro na formação da cultura brasileira. o negro e sua cultura sempre participaram do processo de desenvolvimento do país. visto que no início do processo de colonização eles eram vistos como mercadorias. pois foi um grande pesquisador e defensor da causa indígena brasileira. sendo sempre vista sob um olhar etnocêntrico. formam nossa sociedade. Para Fernandes (1978). colocou o negro à margem do pro‑ cesso social. Ribeiro (1995). concluindo que o povo brasileiro poderia ser pensado a partir da constituição histórica de uma “etnia nacional”. visto que. 2014 . entre outros). em seu livro a Integração do negro na sociedade de classes. os negros passaram a concorrer com os trabalhadores imigrantes. pois no Brasil formou-se uma espécie de unidade cultural em meio à diversidade étnica que o originou. Homem_cultura_e_sociedade.

O autor entende que o Brasil é um país de grande diversidade cultural. as relações sociais estabelecidas entre um modelo tradicionalmente patriarcal e os papéis assumidos pela mulher brasileira. incluindo o sincretismo. Homem_cultura_e_sociedade. Saiba mais Um aspecto interessante da obra de Roberto DaMatta­ é seu olhar relativista sobre o “jeito de Não deixem de conhecer os livros ser” do brasileiro. bem como na formação de ciados neste livro de Antropologia nossa identidade enquanto povo. a religiosidade e as diversas práticas cultuadas pelas religiões existentes no país. dirigido por Cacá Diegues? Segundo DaMatta (1979). a “paixão” nacional. Dentro desse breve recorte teórico sobre a formação do povo brasileiro. as músicas e danças que são cultivadas pela população.indd ) . É por meio dela Cultural. a submissão à autoridade do “outro” (você sabe com quem está falando?). a Xica da Silva.PG-150 140  H o m e m . as co‑ midas e os pratos típicos do Brasil.pdf. o gosto por certos tipos de esportes — como é o caso do futebol. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. e vocês? Conseguem pensar em algum filme que possa ajudar futu‑ ramente no trabalho de vocês em relação à formação da nossa sociedade? Quem assistiu. por exemplo. os diversos rituais urbanos que se desenvolveram em função da diversidade étnica e cultural que originaram o Brasil. Questões para reflexão Adoro filmes. todos referen- cultura brasileira. e a distinção entre a noção de indivíduo (qualquer um) e pessoa (alguém que assume alguma importância social). todo esse conjunto de elementos próprios da cultura brasileira ajudam a entender as particularidades de cada região. a noção e o uso do tempo nas várias popu‑ lações e grupos sociais espalhados pelo território. as festas e o espírito alegre do brasileiro.06:43:55 . a maneira como os brasileiros utilizam o espaço privado e o espaço público.indd 140 20/02/13 18:54 . devemos ter claro Caio Prado Júnior. mais indicados de Gilberto Freyre.January 10. que vamos colaborar na formação de indivíduos heim? comprometidos com a busca pela compreensão da sua própria história. o respeito/ desrespeito às leis (o jeitinho brasileiro). 88822-978-85-8143-641-8. a morte e seus rituais. mas que se singulariza na forma como se estabelecem as relações entre o indivíduo e a sociedade. Leituras obrigatórias. Darcy Ri- que a educação adquire aqui um papel impor‑ beiro. Florestan Fernandes e tantíssimo dentro do processo de discussão da Roberto DaMatta. 2014 . de cada classe e de cada grupo social. Sérgio Buarque de Holanda. destacando-se as hierarquias e tradições sociais. c u lt u r a e s o c i e d a d e as crenças e valores do povo. e os estereótipos e preconceitos comumente presentes nas relações interpessoais.

facultativo ou voluntário. sobretudo da parte daqueles que historicamente se beneficiaram da exclusão dos grupos socialmente fragilizados. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Assim.PG-151 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   141   Seção 2 Diversidade cultural brasileira e relações inter-étnicas As políticas afirmativas surgem com o intuito de minimizar a questão da desigual‑ dade social existente.January 10. concebidas com vistas ao combate à discriminação racial. O racismo resultante da divisão de culturas e das relações étnico-raciais impõe a necessidade das minorias se organizarem contra a perpetuação da hierarqui‑ zação da sociedade. coloco nosso primeiro momento de reflexão: Questões para reflexão O Brasil é um país de conflitos raciais? Existem o preconceito e a discriminação no contexto escolar? Como isso se efetiva? Pensar sobre essa questão nos ajuda a compreender como o processo de divisão de culturas reflete na inserção dos sujeitos na sociedade vigente e. discriminar nada mais é do que uma tentativa de se reduzirem as perspectivas de uns em benefício de outros. a discriminação é um componente: [. por consequência. Daí. pois. Mais que resgatar as dívidas que a sociedade brasileira tem com esses grupos sociais e étnico-raciais. que aos esforços de uns em prol da concretização da igualdade se contraponham os interesses de outros na manutenção do estatus quo.pdf. as ações afirmativas devem ser uma forma de democratização da sociedade e do acesso a bens materiais e oportunidade de crescimento das pessoas. É curial.. que as ações afirmativas. reveste‑ -se inegavelmente de uma roupagem competitiva. 2005).06:43:55 . p. principalmente porque para muitos essa é uma das maneiras de justificar o domínio de uns sobre os outros. 2014 . Para Gomes (2005. Quanto mais intensa a discrimina‑ ção e mais poderosos os mecanismos inerciais que impedem o seu combate. sintetizando-se como uma política e mecanismos de inclusão social (GOMES. 1).indd 141 20/02/13 18:54 . Daí resulta.indd ) . de gênero. Homem_cultura_e_sociedade. mais ampla se mostra a clivagem entre discriminador e discriminado. mecanismo jurídico concebido com vistas a quebrar essa dinâmica perversa.] indissociável do relacionamento entre os seres humanos. sofram o influxo dessas forças contrapostas e atraiam considerável resistência.. inevitavelmente. por portadores de necessidades especiais e de origem nacional. a necessidade da atuação ativa do Estado com a implantação de ações afirmativas como um conjunto de políticas públicas e privadas de caráter compul‑ sório. na escola. 88822-978-85-8143-641-8. Afinal. Romper com ideologias presentes há anos em nossa sociedade é um desafio.

e resistem a mudanças. Portanto. contudo. As pessoas podem nutrir pre.rotuladas como preconceituosa podem ser especí‑ des e as opiniões. no uso moderno. A discriminação pode ser plas políticas públicas. o pluralismo que se implanta por conta das ações Para saber mais afirmativas traz inúmeros avanços e benefícios. refere-se ao comportamento con. em maior harmonia com o caráter plúrimo da sociedade (GOMES. podem referir-se unicamente a creto em relação a um grupo ou intervenções sociais pessoais ou dirigir-se a am‑ indivíduo. o efeito dessas políticas afirmativas. 2001. o termo veicula muitos signifi‑ conceitos favoráveis em relação a cados.PG-152 142  H o m e m . fazendo com que a ocupação das posições do Estado e do mercado de trabalho se faça.indd 142 20/02/13 18:54 . concentram‑ tunidades abertas a outras pessoas -se. 2014 . 1). mento ou decisão anterior. 2005. Quem é preconceituoso em e mantido rigidamente mesmo em face de provas relação a um grupo específico se que o contradizem. dirigidas a grupos e categorias. sendo comum à maioria deles. principalmente. em geral. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. podem ser primordialmente cognitivas. Os pontos de vista afirmativas e diversidade cultural. em orientações desfavoráveis (GIDDENS. se baseiam dade em nossa sociedade. Nesse sentido. membros de um grupo em relação Se estamos falando de inclusão.indd ) . tanto na esfera pública como privada. via políticas a outro grupo. deriva do latim prejudicium. Partindo da premissa de que tais grupos normalmente não são representados em certas áreas ou são sub-representados seja em posições de mando e prestígio no mercado de trabalho e nas ativi‑ dades estatais. afetivas ou avaliatórias.January 10. tros. A palavra preconceito em boatos. c u lt u r a e s o c i e d a d e A ação afirmativa também é uma forma de implantar a diversidade e a represen‑ tatividade das minorias nas diferentes atividades profissionais. além da implantação da diversidade e representatividade. Homem_cultura_e_sociedade. é o fato de acabar com barreiras “invisíveis” que impossibilitam o avanço dos grupos minoritários. na medida do possível. temos que co‑ preconcebidos de uma pessoa pre. p. como multirraciais e que assistem ao aumento do niões ou atitudes defendidas por multiculturalismo. p. as políticas afirmativas cumprem o importante papel de cobrir essas lacunas. Segundo Outhwaite e Bottomore (1996) ções. 88822-978-85-8143-641-8. percebida em atividades que ex- Outhwaite e Bottomore (1996) colocam que. nhecer os princípios que instituíram a desigual‑ conceituosa. 208). para os países que se denominam O termo preconceito refere-se a opi. recusará a escutá-lo de maneira Inúmeras pesquisas mostram que as atitudes justa.06:43:55 . de modo geral. grupos com os quais se identificam as noções de julgamento prévio desfavorável. a discriminação ficas para um grupo ou generalizadas para muitos. que designa um julga‑ cias diretas. na cluem membro de grupos as opor- área de ciências humanas e sociais. Diante dessas variações. efe‑ e preconceitos negativos contra ou.pdf. ao invés de em evidên. prejuí­zo. tuado antes de um exame ponderado e completo. Se o preconceito define atitu. um precedente ou um mesmo diante de novas informa. seja nas instituições de formação que abrem as por‑ tas ao sucesso e às realizações individuais.

como em áreas urbanas decadentes. 88822-978-85-8143-641-8. Mas sabemos que as consequências do etnocentrismo estão presentes até os dias de hoje.pdf. os-numeros-da-desigualdade-ra- Os preconceitos encorajam os comporta‑ cial-no-brasil. No Brasil podemos verificar a existência de grupos minoritários que muitas vezes sofrem com o etnocentrismo presente em nossa cultura. como a linguagem. mas.com. mas deve ser aprendido.br/especiais/ tensidade espécie de seus preconceitos. ou seja. Aqui cabe uma expli‑ cação sociológica. O conceito de raça é um dos conceitos mais complexos. A etnia ou etnicidade refere‑se às práticas e às visões culturais de uma determinada comunidade. 205) “[. O preconceito não é inato. O preconceito não é monopólio desta ou daquela sociedade. os grupos de minoria étnica com‑ põem a maioria da população.estadao. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. embora generalizados. o racismo.06:43:55 . o termo raça é utilizado para classificar ideologicamente (hierarquizar) os indivíduos. desta ou daquela cultura.: As mulheres.indd ) . no entanto. levantamos algumas conclusões importantes para pensarmos o preconceito em nossa sociedade: Tais preconceitos negativos. p.. manifestações religiosas. são descri‑ tas como um grupo minoritário. 2014 .January 10. devido à contradição em seu uso cotidiano e sua base científica. Os preconceitos em relação a diferentes grupos tendem a andar juntos: as pessoas Links que manifestam preconceito para com um Estudo da Universidade Federal do grupo étnico mostram tipicamente atitudes Rio de Janeiro demonstra os refle- semelhantes para com outros “grupos de xos do etnocentrismo em nossa fora”. Segundo Giddens (2001. e não à sua representação numérica. É comum empregarmos o termo “minoria” em um sentido não literal quando se referem à posição subordinada de um grupo dentro da sociedade. mentos discriminatórios e as orientações dadas às políticas públicas. Muitas vezes. em algumas regiões geográficas.indd 143 20/02/13 18:54 .htm>. Segundo Giddens (2001). não são universais.] raça pode ser entendida como um conjunto de relações sociais que permitem situar os indivíduos e os grupos e determinar vários atributos ou competência como base em aspectos biologicamente fundamentados”. Torna‑se importante realizarmos aqui um recorte para discutirmos um pouco a relação entre raça e etnia. às vezes. e devemos ter clareza para não utilizarmos de forma pejorativa. a comida.36780.. sociedade: Os indivíduos variam imensamente na in‑ <www. visto que essa questão é muito importante para a com‑ preensão da diversidade cultural brasileira...PG-153 Formação da cultura brasileira 143 Assim. já que o termo expressa sua situação de desamparo. Por isso é um termo contraditório. embora constituam a maioria numérica em muitos Homem_cultura_e_sociedade. Ex. que partilham bens culturais comuns. são citados como “minorias”. Uma categoria que melhor aju‑ daria a compreender a questão da formação da sociedade é o conceito de etnia.

Como fruto dessa mobilização popular. c u lt u r a e s o c i e d a d e países. também.. os movi‑ multicultural. índios. contra o preconceito e o racismo existente em nossa sociedade.dominiopublico. quer pelo preconceito existente socialmente). em comparação com os homens (os “majoritários” quer pela força física. Nosso foco é discutir como as políticas afirmativas impactam no processo edu‑ cativo e na inclusão e diversidade. mas pela atividade crescente dos Movimentos Sociais (MST. 2014 . Para saber mais Leia a dissertação de mestrado de Luiz Carlos Paixão da Rocha (2006). Políticas afirmativas e educação: a Lei 10639/03 no contexto das políticas educacionais no Brasil contemporâneo. A convicção que se estabelece na Filosofia do Direito. Antonio Sergio Guimarães (1997) apresenta uma definição da ação afirmativa baseado em seu fundamento jurídico e normativo.. Para isso.06:43:55 .indd ) . Uma leitura interessante é Movimento Negro brasileiro: alguns apontamentos históricos. Podemos utilizar aqui. Movimento Indigenista. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Dulce Maria Pereira. de Petrônio Domingues. da Profa.gov. para garantir esses direitos. Movimento a favor dos Direitos da Criança e do Adolescente) são criadas políticas de ações afirmativas. ou seja. de que tratar pessoas de fato desiguais como iguais.pdf. dos idosos.pdf>. econômicos ou não. Hoje o <www. no âmbito legal. não somente por parte do Movimento Negro. Movimento LGBT. temos que discutir o que se tem feito.indd 144 20/02/13 18:54 . dos negros. o Um texto interessante sobre essa exemplo das crianças e adolescentes.grupos minoritários dentro da sociedade.PG-154 144  H o m e m . expressa uma crítica ao formalismo legal Homem_cultura_e_sociedade. no intuito de assegurar às minorias o processo de inclusão social. questão da democracia racial é o dos homossexuais. cha.br/ Movimento Negro tem forte participação na luta download­/texto/mre000073. as mulheres tendem a ser des‑ favorecidas. 88822-978-85-8143-641-8. Movimento Feminista. Essas definições introduzem a ideia da necessidade de promover a representa‑ ção de grupos inferiorizados na sociedade e conferir-lhes uma preferência a fim de assegurar seu acesso a determinados bens. Disponível em: mentos sociais tornam-se instrumentos essen‑ ciais para a garantia dos direitos sociais. somente amplia a desigual‑ dade inicial entre elas. mado A face negra do Brasil Na busca por igualdade cultural. Este termo traz a atenção para a difusão da Links discriminação. Porém. Giddens (2001) continua sua explicação alegando que o termo “minorias” para referir-se coletivamente a grupos que tenham so‑ frido preconceito nas mãos da sociedade “majori‑ tária”.January 10.

Homem_cultura_e_sociedade. p. estariam deles ex‑ cluídas. 2002. étnicos. 88822-978-85-8143-641-8. 2002. 233). page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. decorrentes de motivos raciais. Na explicitação desse objetivo. tal ação ter caráter temporário. bem como compensar perdas provocadas pela discriminação e marginalização. de gênero e outros (SANTOS. a ideia de restituição de uma igualdade que foi rompida ou que nunca existiu. 2005).PG-155 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   145 e também tem fundamentado políticas de ação afirmativa. dentro de um âmbito e escopo restrito (1997. por isso.January 10. Estas consistiriam em “promover privilégios de acesso a meios funda‑ mentais — educação e emprego. ela surge “como aprimoramento jurídico de uma sociedade cujas normas e mores pautam-se pelo princípio da igualdade de oportunidades na competição entre indivíduos livres”.indd 145 20/02/13 18:54 .pdf. Para saber mais Se quiser se aprofundar mais nessa discussão. mas daqueles que realmente foram os protagonistas (SILVA. raciais ou sexuais que.indd ) . leia o texto de Sabrina Moehlecke. Essa definição sintetiza o que há de semelhante nas várias experiências de ação afirmativa. 200.] eliminar desigualdades historicamente acumuladas. Nesse sentido. que têm como fim estabelecer uma situação de desigualdade entre os grupos (MOEHLECKE. étnicas ou sexuais. total ou parcialmente” (1997. p. 200). p.. de outro modo. qual seja. intitulado: Ação afirmativa: história e debates no Brasil: <www. Desse modo. devendo.. 25 apud MOEHLECKE.pdf>.06:43:55 . As tensas relações entre brancos e negros fazem parte do universo das escolas e inúmeras vezes são simuladas como harmoniosas ou tratadas como singulares e normais. a ação afirmativa estaria ligada a sociedades democráticas. grifo do autor). 2014 . temos uma vinculação entre as Ações Afirmativas e as Políticas Públicas Educacionais. Além disso. 1999. também se diferencia de práticas discriminatórias raciais. em que a ação afirmativa é definida como uma medida que tem como objetivo: [. justificando-se a desigualdade de tratamento no acesso aos bens e aos meios apenas como forma de restituir tal igualdade.br/pdf/cp/n117/15559. principalmente — a minorias étnicas. a sociedade brasileira precisa conhecer a história brasileira sob o ponto de vista não dos vencedores. que tenham no mérito individual e na igualdade de oportunidades seus principais valores.scielo. religio‑ sos. garantindo a igualdade de oportunidades e tratamento. 233). p. No material desenvolvido pelo Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da População Negra no Brasil encontramos essa distinção. Segundo a professora Silva (estudiosa da questão do negro no Brasil). p.

indd 146 20/02/13 18:54 . 88822-978-85-8143-641-8. A partir da lei. tornou‑se obrigatória a inclusão nos currículos dos estabelecimen‑ tos de ensino fundamental e médio de conteúdos relacionados à história da África e à cultura afro‑brasileira. reconhecendo a diversidade cultural como um di‑ reito dos povos e dos indivíduos e elemento de fortalecimento da democracia. 2003) alterou a Lei 9394/96 — Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira — ao incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática de História e Cultura Afro‑Brasileira.639/03 (BRASIL.639/03 — Lei do Ensino da História e Ensino da História e Cultura Afro. 2014 . além de buscar corrigir versões desvirtuadas no processo didático‑pedagógico. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. social e econômica brasileira. habilidades e competências.br/ccivil_03/ pauta do professor e da escola. os PCNs de Pluralidade Cultural apontam os seguintes objetivos: conhecer a diversidade do patrimônio étnico‑cultural brasileiro. uma vez que devem educar‑se enquanto cidadãos atuantes no seio de uma sociedade multicultural e pluriétnica. elencando a delimitação de conteúdos para o ensino de cultura afro‑ ‑brasileira e africana.639/03 — Lei do da Lei 10. A Lei 10. Homem_cultura_e_sociedade.January 10. temos a promulgação Conheça a Lei 10. conhecido como temas transversais que norteiam o ensino fundamental com seus objetivos. juntamente com a atividade do Saiba mais Movimento Negro no Brasil.639/03 (BRASIL. referente ao papel do negro. Cultura Afro‑Brasileira e Africana (BRASIL.htm>. A Lei 10. 2003) -Brasileira e Africana: — que representa um avanço no sentido da pro‑ moção da igualdade racial. bem como inserir as histórias da população afrodescendente de maneira mais ampliada dentro do contexto educacional. Os denominados PCNs também buscam o fim do preconceito contra as minorias étnicas em nosso país e aponta alguns princípios norteadores para a ação docente. valorizar as diversas culturas presentes na constituição do Brasil como nação. pois coloca o tema na <www. c u lt u r a e s o c i e d a d e No bojo das Políticas Afirmativas. até então quase inexistentes ou.06:43:55 . capazes de construir uma nação realmente democrática.indd ) .639.gov. reconhecendo sua contribuição no processo de constituição da identidade brasileira.planalto. Assim. Além disso. leis/2003/l10. não podemos esquecer os Parâmetros Curriculares Nacionais que con‑ templam em um de seus documentos a pluralidade cultural.pdf. quando apresentados. dos conteúdos pedagógicos e dos procedimentos de ensino na perspectiva de uma ampliação do foco dos currículos escolares para a diversidade cultural.PG-156 146 H o m e m . tendo atitude de respeito para com pessoas e grupos que a compõem. com visões distorcidas. racial. A relevância do estudo da história e cultura afro‑brasileira e africana dizem respeito a todos os brasileiros. 2003) exige um repensar das relações étnico‑raciais.

denunciando qualquer atitude de dis‑ criminação que sofra.pdf.br/seb/arquivos/ e como uma realidade passível de mudanças pdf/pluralidade. Cabe ao professor adequar as temáticas propostas do documento à sua reali‑ dade escolar. tros Curriculares Nacionais para compreender a desi‑ gualdade social como Pluralidade Cultural: um problema de todos <portal. a escola deve formar para que todos possam se reconhecer enquanto cidadãos atuan‑ tes.indd 147 20/02/13 18:54 .gov. 88822-978-85-8143-641-8. à qual se pode responder de diferentes formas. enriquecendo a vivência de cidadania. 1997. (BRASIL. 40). em uma sociedade multicultural e pluriétnica.PG-157 Formação da cultura brasileira 147 reconhecer as qualidades da própria cultura. c) estratégia política referente ao reconhecimento da pluralidade cultural. MOREIRA. desigual e injusto e que se propõe compreen‑ Homem_cultura_e_sociedade. sexo e outras caracterís‑ ticas individuais ou sociais. d) corpo teórico de conhecimentos que buscam entender a realidade cultural contemporânea. busca eliminar preconceitos/discriminações na busca de um mundo menos opressivo. pois faz parte da história brasileira. classe social. p. Portanto. b) meta a ser alcançada em um determinado espaço social. p. como a história dos indígenas e a dos colonizadores europeus.06:43:55 . capazes de construir uma nação igualitária e democrática. 2001.January 10. ou qualquer violação dos direitos de criança e cidadão.639/03. repudiar toda discriminação baseada em diferenças de raça/ etnia. resultantes de trocas culturais dentro de cada sociedade e entre várias sociedades. pode indicar diversas ênfases: a) atitude a ser desenvolvida em relação à pluralidade cultural. Além disso. desenvolver uma atitude de empatia e solidariedade para com aqueles que sofrem discriminação. valorizar o convívio pacífico e criativo dos diferentes componen‑ Saiba mais tes da diversidade cul‑ Vale a pena conhecer os Parâme- tural. O termo multiculturalismo. Sintetizando.pdf>. exigir respeito para si. 2014 . heranças. tradições cul‑ turais é uma forma de nos conhecermos. nesse propósito. Conhecer nossos costumes. o multiculturalismo representa uma condição inescapável do mundo ocidental. a relevância do estudo da história e cultura afro‑brasileira e africana diz respeito a todos. 66). todavia. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. não se esquecendo de levar em consideração concomitantemente a Lei 10. e) caráter atual das sociedades ocidentais (CANEN. a importância na escola de se trabalhar com um currículo que promova uma educação multicultural para compreender a pluralidade de valores culturais. valorando‑as criticamente. A educação.mec. mas não se pode ignorar. Por isso.indd ) . crença religiosa. de afirmar nossa identidade.

Assim. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. além das Di‑ retrizes e Bases da Educação Nacional. por um africano. Outra questão vinculada a essa discussão é a educação indígena. 88822-978-85-8143-641-8. Nesse sentido.PG-158 148  H o m e m . ainda não se estruturou efetivamente um sistema que atenda as necessidades educacionais dos povos indígenas.pdf. <negraldeia. a escola e o professor não podem improvisar. promovendo nos alunos um olhar novo olhar a respeito das culturas existentes em nosso país. inclusive no que tange a formação de professores. para que uma história multi‑ Saiba mais culturalista seja efetiva. 2003) tem como objetivo que todos os alunos negros e não negros. 2001). mas. marcada‑ mente de raiz europeia. ainda que estas sejam complexas e conflituosas (CANEN. A obrigatoriedade da inclusão da história e cultura afro-brasileira e africana nos currículos da Educação Básica trata-se de uma lei. está contemplada no Plano Nacional Homem_cultura_e_sociedade. MOREIRA. respeitando seus modos e ritmos de vida. racial. mas da necessidade de ampliar o foco dos currículos escolares para a diversidade cultural. A Lei 10.06:43:55 . Claro que nosso foco aqui é com relação à questão do negro. Temos que superar a visão etnocêntrica e discriminadora existente em nossa sociedade. desprovido de perfil-petronilha-beatriz-gonalves- preconceitos.639/03 (BRASIL. a educação indígena vem sendo regulamentada. Torna-se necessária uma “peda‑ gogia de combate ao racismo e à discriminação”.com/2007/01/ Portanto. deverá ter como maior propulsor os professores. sim. A obrigatoriedade da inclusão da história e cultura afro-brasileira e africana nos currículos da Educação Básica trata-se de decisão política. de 1996. os disseminadores do Leia a entrevista com a professora conhecimento no ambiente escolar que podem Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva contribuir para romper com o preconceito. c u lt u r a e s o c i e d a d e der o processo de construção das diferenças e das desigualdades. com repercussões na base pe‑ dagógica. Mas será que só existe preconceito em relação ao negro? Será que nas escolas e nos livros didáticos somente o negro é tratado de forma dis‑ criminatória? Como as “minorias” são tratadas dentro de nossa sala de aula? É importante destacar que não se trata de mudar o foco etnocêntrico. qual o tipo de escola. reestruturando relações étnico-raciais e sociais. desalienando os processos pedagógicos.html>. bem como seus professores.blogspot. inclusive na formação de professores. de acordo com seus interesses. a escola e o professor têm o papel preponderante para proporcionar acesso aos conhecimentos científicos. O que se busca discutir hoje não é se o índio tem ou não tem que ter escola. -e_01. a registros culturais diferenciados que demonstram a valorização das relações sociais e raciais. o docente para atender esses anseios deve ser um pesquisador/professor. Diferentemente do negro. e sobre essa questão: propiciar atitudes de respeito às diversas culturas. Além de ser garantido na Constituição Federal de 1988 (BRASIL. Nesse sentido. 2014 . precisam sentir-se valorizados e apoiados no que se refere à sua cultura. com fortes repercussões pedagógicas.indd 148 20/02/13 18:54 . 1991) o direito à educação diferenciada.indd ) .January 10. social e econômica brasileira. trabalhando-as de forma concisa.

cular Nacional para Escola Indígena? unidades de estudo. à coordenação pedagógica dos estabe‑ lecimentos de ensino e aos professores. A legislação educacional indígena busca colocar o índio e sua comunidade como protagonistas da escola indí‑ gena.indd 149 20/02/13 18:54 . bem interessante é: <pib. Assim. um site tabelece a necessidade de uma escola indígena. a elaboração de currículos diferenciados. ampliando o acesso a informações sobre a diversidade da <www. gendo os diferentes componentes curriculares. a sistematização de conhecimentos e saberes tradicionais.pdf>. um calendário que se adapte ao ritmo de vida e das atividades coti‑ dianas e rituais. 2014 .dominiopublico. Baseado nessa questão foi construído o Referencial Curricular Nacional para Escola Indígena. caberá aos sistemas de ensino. e no projeto de Lei que busca a revisão do Estatuto do Índio.org>. provocada por relações étnico-raciais. sendo que esse princípio deve orientar para o esclare‑ cimento a respeito de equívocos quanto a uma identidade humana universal.PG-159 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   149 de Educação. resguardando a eles os diretos de terem seus próprios membros indicados para a função de professores a partir de programas específicos de formação e titulação. mantenha especificidades para o uso da língua indígena. Nesse sentido. e que biental.January 10. aprovado em 2001. 88822-978-85-8143-641-8. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. com base na Lei 10. visto que somos fruto do processo de etno‑ centrismo existente em nosso país.youtube. Deve-se Saiba mais buscar o rompimento com imagens negativas Esse vídeo retrata bem a questão forjadas por diferentes meios de comunicação. O Plano Nacional de Educação.com/watch?v=dw nação brasileira e sobre a recriação das identi‑ GrIUGKi8U&feature =related>. Sabemos também da dificuldade em trabalhar esses quesitos em sala de aula. projetos e programas abran‑ Acesse: <www. 2003) e nas discussões Saiba mais realizadas pelos Referenciais Curriculares para Vamos conhecer o Referencial Curri- Escola Indígena.gov. da sociedade brasileira: contra o negro e os povos indígenas. o uso de materiais adequados e preparados pelos próprios pro‑ fessores índios.socioam- incluída no sistema nacional de ensino. a participação efetiva da comunidade na definição dos objetivos e rumos da escola. es‑ Para mais informações. Homem_cultura_e_sociedade.pdf. dades. às man‑ tenedoras. buscando o com‑ bate à privação e violação de direitos.06:43:55 . br/download/texto/me002078.639/03 (BRASIL.indd ) . que tem como Links um de seus elementos a educação indígena.639/03 (BRASIL. é essencial o fortalecimento de identidades e de direitos. Sabemos que a institucionalização da Lei 10. estabelecer conteúdos de ensino. 2003) e os Referenciais da Educação Indígena são um grande avanço no atendimento às demandas da sociedade em busca da equidade entre os grupos sociais.

São vários os núcleos com base nos quais se processa a eleição do racismo em conceito analítico central da vida social moderna. Saiba mais Um documentário interessante sobre a cultural e a diversidade cultural brasileira é O povo brasi- leiro (2000). 88822-978-85-8143-641-8. 2014 . por exemplo. de Ana Canen. baseado na obra de Darcy Ribeiro.br/ book/export/html/1236> disponibiliza uma boa parte do documentário. a começar por Boxer que.PG-160 150  H o m e m . Nem é produto da geração brasileira negra que estava exilada na Europa ou nos Estados Unidos. O texto intitula-se Universos culturais e representações docentes: subsídios para a formação de professores para a diversidade cultural. referindo-se às várias sociedades escravis- tas das Américas. as grandes linhas. com brevidade. como Abdias de Nascimento. Tomemos por exemplo a historiografia sobre a escravidão negra nas Américas. sua origem mestiça e a singularidade do sincretismo cultural que dela resultou. já interioriza o modelo sociológico para o tratamento das sociedades coloniais em seu Relações raciais no impé- rio ultramarino português.org. Vale a pena conferir! Ora. 2004). o que muda nos anos de 1970 é justamente a definição do que é o racismo. Trata-se de um debate central na atualidade.forumeja. Aprofundando o conhecimento O texto a seguir traz uma excelente discussão acerca da questão racial no Brasil (GUIMARÃES.indd ) . Nos anos de 1970.br/scielo. Vale a pena conferir.indd 150 20/02/13 18:54 .pdf. c u lt u r a e s o c i e d a d e Links Um texto superinteressante de uma pesquisa realizada sobre a leitura dos professores sobre a diversidade cultural dos alunos está disponibilizado no site: <www. que ajuda a refletir criticamente sobre o chamado “mito da democracia racial”. escreveu: “Uma vez implantado o sistema escravista. essa historiografia já fala abertamente em “racismo”. Em 1971.January 10. como se tal transformação conceitual fosse um fenômeno de imitação e de colonialismo cultural. o etnocentrismo Homem_cultura_e_sociedade. em 1963. E isso não muda apenas no Brasil. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. O site <www.scielo. que tanto vem imperando no imaginário do povo brasileiro. A mudança é mais abrangente. pois discute a formação dos brasileiros. Permito-me traçar. Genovese.06:43:55 .php?pid=S0101- -73302001000400010&script=sci_arttext&tlng=es>.

e. 88822-978-85-8143-641-8. Refletindo sobre a utilização do termo “racismo” nas ciências sociais e na política dizem-nos Michael Banton e Robert Miles: “Até o final dos anos de 1960. portanto. O núcleo dessa doutrina era de que a raça determinava a cultura.pdf. Existia. The Po- sition of Blacks in Brazilian Society. a falar de racismo no Brasil. Discriminação e desigualdades raciais. até recentemente. assim como crenças. ainda prevalecia a ideia de que o único meio de combater o preconceito racial era a organização e luta da classe trabalhadora. Em 1973. Hoetink. Nos anos 1970. Segundo ele. p. e daí derivam as crenças na superioridade racial. Nela. na Inglaterra.January 10. diz: “Toda sociedade multirracial é racista no sentido de que a pertinência a um grupo sociorracial prevalece sobre a realização na atribuição de posição social” (apud Hasenbalg. na clave dos movimentos sociais. Anani registra. de Londres. e que a agenda da luta de classes.indd ) . relações reais de dominação-subordinação”. no Brasil. pelo menos até os anos de 1990. a recepção do marxismo nas univer- sidades (seja em sua variante historicista. dogma. um marco. frouxamente. entre a esquerda brasileira. algumas vezes. em geral de modo mistificado. como construção Homem_cultura_e_sociedade. a maioria dos dicionários e livros escolares definiam [o racismo] como uma doutrina. Um dos traços mais marcantes do trabalho de Carlos foi o de deslocar a relação marxista clássica entre “classe” e “raça”. mas observa também que. Tal defasagem só começa a ser superada com o livro de Carlos Hasenbalg. será grande a reação a tal tentativa. e não do racismo. A brochura de Anani é importante.06:43:55 . para citar Octávio Ianni (1972. Naquele momento. de 1979. 1979. 276). entre os marxistas brasileiros. esse livro pode ser também lido. racismo [passa a] denota[r] todo o complexo de fatores que produzem discriminação racial e.PG-161 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   151 e o preconceito de cor transformaram-se rapidamente. ainda predominará aqui. a palavra foi usada em sentido ampliado para incorporar práticas e atitudes. seja em sua variante estrutura lista) pode ser medida pela capacidade da teoria do capitalismo de absorver e dar explicações mais vi- gorosas sobre o racismo americano. 1971. nesse sentido. no começo dos anos de 1970. que publicou a brochura de Anani Dzidziyeno. principalmente de língua inglesa. de que. com a ressalva. uma certa defasagem teórico-meto- dológica entre os estudos de relações raciais que se faziam no Brasil e aqueles no resto do mundo. a relação entre “classe” e “raça” era ainda pensada segundo um modelo no qual “as distinções entre grupos que se definem como racialmente diversos e desiguais exprimem. ao contrário do que se passava na Inglaterra ou nos Estados Unidos. p. por ser uma das primeiras publicações feita por um cientista social. ainda que talvez não imediata- mente. Nos Estados Unidos. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. “o racismo. 248). ideologia ou conjunto de crenças. em racismo” (Genovese. p. a opinião uniforme de que a democracia racial era um mito. negro e africano. 105). em que o marxismo também conquistara a intelectualidade brasileira. 2014 . como a primeira tentativa de introdução do racismo na agenda política da nova esquerda brasileira e do novo marxismo. além do mais. p. 1994. Do mesmo modo. Mas vejamos mais de perto as novidades teóricas.indd 151 20/02/13 18:54 . 66). um dos nomes mais respeitáveis dos estudos de relações raciais nas Américas. entretanto. designa também aqueles [fatores] que produzem desvantagens raciais” (Banton & Miles. Em 1971. tanto o marxismo quanto as teorias sobre o racismo se tornam instrumentos da nova esquerda em sua luta pelos direitos das minorias étnicas e dos imigrantes. foi justamente o Mi- nority Rights Group.

O primeiro advém do fato de que. p. se desenvolvem estudos especializados por áreas (educação e mercado de traba- lho. que não eram funcionais para alocação de posi- ções na sociedade de classes. então a reprodução de uma divisão racial (e sexual) do trabalho pode ser explicada sem apelar para o preconceito e elementos subjetivos (Hasenbalg. 1979. 85). Carlos vê-se também obrigado a teorizar sobre comportamentos e crenças: (a) discriminação e preconceito raciais não são mantidos intactos após a abolição. ou estudos que buscam descobrir os micromecanismos de discriminação (no âmbito da escola. 1992). não estão bem assentes na sociologia. Mas se os estudos sobre o racismo no Brasil avançaram em termos empíricos. da pro- paganda. E é a isso que vou dedicar o restante do texto. por acharem que sua teoria deva se aplicar a todas as sociedades multirraciais da América. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. que em seu modelo teórico. Diz ele: Como se verá. dos locais de consumo e do mercado de trabalho etc. exemplificando o que acabo de dizer a partir de três problemas.). ao lado dos estudos de desigualdades raciais. mas. observável pela ação dos sujeitos. e (b) as práticas racistas do grupo dominante branco que perpetuam a subordinação dos negros não são meros arcaísmos do passado. seu crescimento deu-se sobre bases teóricas que. Carlos. adquirem novos significados e funções dentro das novas estruturas.pdf. pelo contrário. à crença dos clássicos da sociologia euro- peia e às descrições como raça ou sexo. 1979. 1979. em vez de ser pensada como comportamento efetivo. c u lt u r a e s o c i e d a d e ideológica incorporada e realizada através de um conjunto de práticas materiais de dis- criminação racial. Poderia parecer. alguns autores acabam por recusar qualquer es- pecificidade às relações raciais no Brasil. ao enfocar as desigualda- des sociais. os anos de 1980 e 1990 serão tomados na sociologia brasileira pelo avanço dessas novas teses e novidades conceituais que se irradiarão a partir do trabalho conjunto de Carlos Hasenbalg e Nelson do Valle Silva (1988.January 10. a discriminação racial. se o racismo (bem como o sexismo) torna-se parte da estrutura objetiva das relações políticas e ideológicas capita- listas. da sala de aula. até os dias de hoje. dos locais de trabalho. De certo modo. enfatiza a estrutura de classes e as hierarquias sociais em detrimento do preconceito racial e dos modelos explicativos que tomam como ponto de partida os va- lores e as atitudes construídos pelos sujeitos na interação social. mas estão funcionalmente relacionadas aos benefícios materiais e simbólicos que o grupo branco obtém da desqualificação competitiva dos não brancos (Idem.indd 152 20/02/13 18:54 . é o determinante primário da posição dos não brancos nas relações de produção e distribuição” (Hasenbalg. p.indd ) . principalmente). do livro didático. Podemos mesmo ver na ação institucional de ambos um certo programa de trabalho. 114).06:43:55 . no qual. portanto. 2014 . Homem_cultura_e_sociedade. p. 88822-978-85-8143-641-8. para contrapor-se a Florestan. da mídia. que utilizam modelos matemáticos cada vez mais refi- nados.PG-162 152  H o m e m . assim como os jovens marxistas dos anos de 1970. passa a ser deduzida dos seus resultados sobre a estrutura social. No entanto. 114).

A noção de pessoa e as relações pessoais. tal como é usada em nos- sos escritos. procura explicar “o racismo à brasileira” como uma construção cultural ímpar e específica. é entrecortada por dois padrões ideológicos. p. competição. para recriar. em pleno reino formal da cidadania.PG-163 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   153 Ou seja.06:43:55 . Sobre o primeiro problema que apontei. São elas o resultado de processos de interação. no Brasil. 2001. Na verdade. Eis como Howard Winant define o racismo (1) práticas simbólicas que essencializam ou naturalizam identidades humanas baseadas em categorias ou conceitos raciais. A proposta teórica de DaMatta é clara: o Brasil não é uma sociedade igualitária de feição clássica. as formas de carisma (para usar o conceito de Elias).pdf. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. além de constatadas. e as desigualdades raciais e sua reprodução. a hierarquia racial. o preconceito racial ou de cor. o mal-estar dos antropólogos com a progressiva substituição dos estudos sobre relações raciais. ameaçada com o fim da escravatura e da sociedade de castas. na qual o primeiro acusa o segundo de fazer uso de categorias nativas americanas para entender as relações raciais no Brasil. no dizer de Roberto. O terceiro problema está na própria noção de “racismo”. (2) ação social que produz uma alocação injusta de recursos sociais valiosos. ainda que não seja exatamente uma sociedade hierárquica de tipo indiano.indd ) .January 10. 317). ao negar o exclusivismo brasileiro em termos de raça. 88822-978-85-8143-641-8. precisam também ser compreen- didas. não podemos fazê-lo no vácuo das ações sociais. sob o rótulo de racismo são tratados objetos tão distintos quanto os sistemas de classifi- cação racial. 2014 . ao teorizar sobre mecanismos institucionais de reprodução ampliada ou retroalimen- tação sistêmica. de classe e de cor? Se assim for. baseada em tais sig- nificações. substituem. que podem ser observadas em diversas instituições e comunidades. pois convive bem com hierarquias sociais e privilégios. despre- zando. desse modo. quando Roberto DaMatta (1990). (3) estrutura social que reproduz tais alocações (Winant.indd 153 20/02/13 18:54 . é ilustrativa a polêmica envolvendo Peter Fry (1995-1996) e Michael Hanchard (1994). Para colocar de outro modo: as desigualdades raciais. O segundo problema tem a ver com o estatuto teórico das desigualdades raciais. nos quais os aspectos estruturais são enfatizados. nos anos 1980. sob o risco de dar-se margem a uma excessiva politização do tema e a uma certa contaminação moral e ideológica. as categorias nativas brasileiras e fazendo crer que as categorias americanas pudessem funcionar como conceitos analíticos. nas quais os sujeitos e os significados culturais eram realçados. acabam também por negar a originalidade das condições em que se dão as relações raciais no Brasil. a discriminação racial nos mais distintos mercados. acomodação. defendido por Freyre. Por seu turno. Polêmica que chegou a Europa pelas penas de Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant (1998). a noção de indivíduo. conflito e luta ideológica por classificação e formação de grupos raciais. por estudos de desigualdades e de racismo. utilizando-se fartamente do estrutura- lismo e das categorias de Dumont. como se estes estudos pudessem ser reduzidos a dados estatísticos a munir o ativismo e as políticas sociais. aqueles que recusam tal “exclusivismo” e tentam analisar a sociedade brasileira segundo os mesmos moldes teóricos das sociedades modernas e individualistas Homem_cultura_e_sociedade. que se tornou por demais ampla e imprecisa. já se manifestara antes. Ou seja. em um artigo que se tornou famoso – A fábula das três raças –.

pois.January 10. mais uma vez. Parte do meu trabalho nos últimos anos tem sido devolver a “democracia racial” aos seus criadores e à época em que nela se acreditou mais profundamente. 2003. Tome-se o abstract de uma tese defendida. Por outro lado. ao tratar a “democracia racial” como uma “superestrutura”. que procuraram dar sentido a práticas e experiências também concretas. No mais das vezes. Segundo o autor: Esta dissertação analisa o obstáculo mais saliente para a consolidação da democracia no Brasil. Homem_cultura_e_sociedade. no contexto dos interesses culturais e materiais que a motivaram nos anos 1940. as enormes desigualdades raciais brasi- leiras são o que realmente importa.pdf. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. transformando-a em construto su- praconjuntural. raças e credos. de que nos fala Braudel. reforçando. A partir desse momento. Contra o que. Tal exclusão tornou-se “normal” na sociedade brasileira e faz parte do senso comum ordinário. os marxistas acabaram por reforçar a ideia de mito. De fato. os críticos estruturalistas do marxismo e dos ativistas negros acabaram por levar a sério o mito. que apresentei anteriormente. Enfrentar o segundo e terceiro problemas.indd 154 20/02/13 18:54 . Nesse sentido. o seu esquema interpretativo reduz todas as demais esferas a uma espécie de “falsa consciência”. foram encerradas com os golpes de Estado de 1964 e 1968. A brancura simbólica tem sido utilizada pelas elites para justificar os seus próprios pri- vilégios e para excluir a maioria dos brasileiros do exercício de seus direitos de cidadãos plenos e iguais (Reitner. E o que acontece na militância encontra rápida resposta na academia e vice-versa. qual seja a exclusão racializada profundamente enraizada naquela sociedade. iv). Posta assim. vendo nele permanências e características estruturais típicas da sociedade brasileira. significa.PG-164 154  H o m e m . muito próxima dos processos de longa duração. própria a uma formação social. um sistema teórico que dê conta do modo preciso em que se articulam os diversos elementos ou aspectos do racismo. nos Estados Unidos. fazendo com que a esfera das relações raciais pareça pura ilusão provocada por um plano muito bem urdido de dominação e opressão sociais. superar o hiato criado entre os estudos de interação social e os de estrutura social. 1950 e 1960. urdido e nutrido pelas elites e pelo Estado. a sua a-historicidade. p. a democracia racial já não serve nem mesmo como ideal ou inspiração: não por acaso. As décadas em que se acreditou que a democracia poderia ser reduzida à convivên­ cia pacífica entre pessoas de diferentes cores. a democracia racial não é nem mais nem menos duradoura que o “racismo cientí­ fico”. a luta contemporânea dos negros pelos direitos sociais inerentes à democracia brasileira passou a ter como mote a luta por cida- dania e respeito aos direitos humanos. se voltam os antropólogos a reivindicar um esforço sério de pensar a democracia racial enquanto mito fundador da sociabilidade entre brasileiros.06:43:55 . contudo.indd ) . Deixaram de investigar o modo concreto e as circuns- tâncias em que tal ideologia foi produzida por intelectuais. no ano passado. c u lt u r a e s o c i e d a d e do Ocidente não desenvolveram. representada pelo “mito da democracia racial”. 2014 . mais uma vez. e que tal convivência poderia ser garantida pelas leis e pelos costumes. respondendo a conjunturas bem específicas. 88822-978-85-8143-641-8.

Laura de Mello e Souza (1989). até certo ponto. apontados por todos os que nos prece- deram: a reprodução ampliada das desigualdades raciais no Brasil coexiste com a suavi- zação crescente das atitudes e dos comportamentos racistas. as desigualdades raciais de classe entre negros e brancos se perpetuavam graças ao preconceito. reencontrar a inspiração na historiografia contemporânea sobre a escravidão no Brasil. justamente por se tratar de uma estrutura. poderíamos. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. hoje. Porque. de preconceitos e discriminações fora do lugar. com a separação entre sociologia e antropologia. Para alguns. trata-se de uma sociedade semi-hierárquica e dual. como queriam os marxistas.pdf. Edward Telles (2003). falou de relações raciais horizontais e verticais (constatando a ambiguidade das primeiras e a rigidez das Homem_cultura_e_sociedade. sintetizando quatro tempos. é teorizar a simultaneidade desses dois fatos aparentemente contraditórios. teorizou sobre a existên- cia de áreas moles e áreas duras nas relações raciais (as barreiras e distâncias raciais re- produzindo-se apenas nas últimas). 88822-978-85-8143-641-8.PG-165 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   155 entre aqueles da cultura e os da sociedade. e terceiro.06:43:55 . como DaMatta. por seu turno. uma espécie de consciên­ cia alienada dos agentes sociais. Hebe Mattos (2000) e outros. Livio Sansone (2003). ainda que esteja nas origens da nossa tradição disciplinar. Mas. a mesma que adotou o paradigma das “relações raciais” há 40 anos. assiste-se à reatualização de mitos (Fry. algo que não se limita apenas ao racial. da consciên- cia dos atores. impedia que a nova ordem competitiva se desenvolvesse em sua plenitude. 1995-1996). o que. Wagley e Harris. Para a geração de Pierson. Na teoria sociológica.indd 155 20/02/13 18:54 . circunscrevamos com maior precisão o tempo e os eventos a serem tratados em nossos estudos. de certo modo. Manolo Florentino (1997). segundo com o processo político de organização e representação de interesses na esfera pública. podemos optar por construir uma teoria sistêmica ou estrutu- ral do racismo. entretanto. recentemente. entretanto. Sidney Chaloub (1990). não apenas tais preconceitos eram funcionais para o desenvolvimento do capitalismo brasileiro. havia as mesmas desigualdades. devendo desaparecer no futuro (ou seja. No entanto. em qual- quer dos casos. como a reprodução do sistema de desigualdades raciais prescindia. para outros. mas os fatores causais acima referidos eram relativamente fracos. Para Florestan e sua geração. que têm enfrentado com absoluto êxito esse desafio. Nelson e a minha geração. e o crescente in- teresse de ambas em estudar os mesmos espaços territoriais. felizmente. ao formar as novas gerações. outros fazem: sem esconder a ironia. Essa tarefa é também difícil porque requer que elaboremos uma trama narrativa mais densa. como sugeriram Blumer (1965) e Blumer e Duster (1980). os autores americanos concluíram que tais desigualdades dever-se-iam apenas a diferenças de pontos de partida. no Brasil. 2014 . nos Estados Unidos. há que se ter em mente os constrangimentos institucionais que funcionam como verdadeiros mecanismos de retroalimentação. os negros provinham de castas subordinadas). cada vez mais rígidos. O que faço.indd ) . o preconceito não só existia como. Estão aí os trabalhos de João Reis (2003). é certo que a reprodução das desigualdades raciais se articula com três diferentes processos: primeiro com a formação e atribuição de carismas. mas que atinge praticamente todas as formas de identidade social. à discri- minação e à segregação raciais. Chegou a hora de concluir. um hiato que ganhou contornos disciplinares. Para Carlos.January 10. ou podemos tratar as relações raciais como um processo de classificação social teoricamente autônomo da estrutura de desigualdades de classe. nos desabituamos a fazer na sociolo- gia. Tratava- -se. O nosso desafio atual.

de sua cultura. bem como na formação de nossa identidade enquanto povo.January 10. os ativistas. especialmente porque a sociedade brasileira. Esse percurso teórico ajuda a compreender nossa realidade social e a entender a importância de superar os preconceitos. realçam a pouca força política dos grupos antirracis- tas e a grande resistência das elites brancas como responsáveis pelas desigualdades. para responder aos desafios políticos de nosso tempo. Para concluir o estudo da unidade Nesta unidade apresentamos o percurso da Antropologia brasileira e algumas interpretações sobre a formação da sociedade e da cultura do Brasil por meio de alguns autores reconhecidos nas ciências sociais. como profundamente desigual e preconceituosa diante de questões relacionadas às diversidades étnico-raciais. suas origens e história. do ponto de vista histórico. por fórmulas que deram legitimidade intelectual às categorias nativas do passado.PG-166 156  H o m e m . tem de ultrapassar não apenas o encapsulamento da discussão acadêmica por categorias nativas do presente. Como vimos. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Aqui vale ressaltar o papel dos profissionais que. desigualdades e limitações existentes em nossa sociedade. Em seu trabalho torna-se primordial fazer com as pessoas reconheçam a importância de si próprias. 88822-978-85-8143-641-8. É essa a verdadeira função da educação em uma sociedade: possibilitar a formação crítica do ser social. por meio de uma ação profissional ética. Dentro desse breve recorte teórico sobre a formação do povo brasileiro. educativa e transformadora. é preciso tratar tais soluções e sugestões como os temas relevan- tes de nossa agenda atual. também. 2014 . Levamos em consideração as particularidades da formação histórica de nossa sociedade.indd ) . mas. pois são mediadores desse processo. por seu turno.indd 156 20/02/13 18:54 . Homem_cultura_e_sociedade. em geral.pdf. de‑ vemos ter claro que a educação adquire aqui um papel importantíssimo dentro do processo de discussão da cultura brasileira. É por meio dela que vamos colaborar na formação de indivíduos comprometidos com a busca pela compreensão da sua própria história e das transformações sociais que se fizerem necessárias ao bem comum. Antes de contraditórias. o texto contribui com um melhor entendimento acerca do problema das relações sociais no Brasil. Uma agenda que. eixo principal de nossa análise. c u lt u r a e s o c i e d a d e últimas). lidam com a educação dos grupos sociais. se revela.06:43:55 . de alguma forma. compreendendo-se como sujeitos construtores e potencialmente transformadores da realidade social.

na formação do homem contemporâneo.indd 157 20/02/13 18:54 . seja ele qual for. voltada para o consumo exacerbado. Então para isso apresentamos alternativas: a busca.06:43:55 . Mas acreditamos no empoderamento dos grupos sociais. 2014 . 88822-978-85-8143-641-8. a política. com todas as suas nuances e implicações. Assim. Homem_cultura_e_sociedade. a economia e a cultura. ideológicas. à crítica e à livre manifestação. pois esse processo pedagógico se concretiza no cotidiano das relações sociais. nem imediatista. sem forçá-los ou induzi-los a um ou outro resultado.pdf. Os profissionais que lidam com pessoas e grupos devem auxiliar as pessoas a agirem. a fim de se fortalecerem enquanto membros de uma coletivi‑ dade e de desenvolverem ações proativas rumo às suas necessidades e interesses. do engajamento ético-político no campo profissional. a ação profissional educativa e transformadora pro‑ move condições mais efetivas para a autonomia dos grupos sociais na direção da reconstrução permanente da sua realidade e na conquista de sua cidadania. seu papel de sujeito construtor da realidade social. Sabemos que esse processo emancipador do homem por meio da ação pedagógica e da mudança não é fácil. por meio da educação e da crítica transformadora. sendo importante reconhecermos que somos. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. devemos recuperar o papel ético e político dos pro‑ fissionais “educadores”.January 10.indd ) . Mas essa é uma tarefa que não pode se resumir aos espaços formais da educa‑ ção. cada vez mais. na realidade social. elas mesmas. Essa questão deve ser levada em consideração ao analisarmos as relações políticas. nos mais diversos contextos. possibilitando o rompimento de uma ideologia cultural fundada na naturalização das desigual‑ dades existentes entre os grupos sociais presentes em nossa sociedade. Nesse sentido. sim.PG-167 F o r m a ç ã o d a c u l t u r a b r a s i l e i r a   157 Dentre outras coisas. frutos da diversidade e miscigena‑ ção das raças. culturais e sociais existentes em todos os segmentos sociais. abertos à participação de todos os envolvidos. Deve-se fazer com que a prática profissional contribua com a universalização dos direitos e da cidadania. compete contribuir para uma re-ordenação da discussão sobre a história. Para tanto é necessário que os profissionais promovam espaços educativos em seu contexto de trabalho. mediante a negação das imposições da sociedade capitalista e de sua cultura naturalizante das desigualdades. os quais devem promover a crítica transformadora dos grupos sociais. Resumo O pensamento sobre a formação do povo e da cultura brasileira aparece muitas vezes esvaziado de suas representações históricas e sociais. No texto pudemos o perceber a diversidade de explicações sobre a nossa cultura. a fim de que o homem assuma. fazendo com que as pessoas não aceitem como nor‑ mais as determinações e as consequências da lógica da acumulação capitalista. para a acu‑ mulação de capitais e para a supervalorização da vida material.

Discuta a diferente posição sobre a formação cultural do povo brasileiro. 88822-978-85-8143-641-8. 2014 . Será que ainda podemos ser chamados de homem cordial. desde seu surgimento na década de 1930 até os dias atuais. 3. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. Sérgio Buarque de Holanda e Florestan Fernandes.PG-168 158  H o m e m . funda‑ mentado na leitura de Gilberto Freire.pdf. Na leitura de Florestan Fernandes. responda: por que o estudante de hoje deve aprender sobre a formação da nossa cultura? Homem_cultura_e_sociedade. como podemos superar o racismo instituído em nossa sociedade? 4.indd 158 20/02/13 18:54 . segundo Sergio Buarque de Holanda? Por quê? 5. c u lt u r a e s o c i e d a d e Atividades de aprendizagem 1.indd ) . Sintetize os diferentes períodos que marcaram a Antropologia brasileira.January 10. 2. Analisando o conteúdo geral do livro.06:43:55 .

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indd ) . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade. 2014 .indd 170 20/02/13 18:54 .PG-180 Anotações ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Homem_cultura_e_sociedade.January 10.06:43:56 . 88822-978-85-8143-641-8.pdf.

88822-978-85-8143-641-8.indd ) . 2014 .pdf. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.January 10.PG-181 Anotações ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Homem_cultura_e_sociedade.06:43:56 .indd 171 20/02/13 18:54 .

indd ) . 2014 .pdf.indd 172 20/02/13 18:54 . page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.06:43:56 . 88822-978-85-8143-641-8.PG-182 Anotações ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Homem_cultura_e_sociedade.January 10.

page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.pdf. 2014 .indd 173 20/02/13 18:54 .PG-183 Anotações ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Homem_cultura_e_sociedade.January 10.indd ) . 88822-978-85-8143-641-8.06:43:56 .

pdf.06:43:56 .January 10. page 97 @ Preflight Server ( Homem_cultura_e_sociedade.PG-184 Anotações ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ ____________________________________________________________________ Homem_cultura_e_sociedade.indd ) . 2014 . 88822-978-85-8143-641-8.indd 174 20/02/13 18:54 .