Ciências Sociais Unisinos

48(1): 52-60, janeiro/abril 2012
© 2012 by Unisinos - doi: 10.4013/csu.2012.48.1.06

A sociologia fenomenológica de Alfred Schutz

The phenomenological sociology of Alfred Schutz

Fábio Fonseca de Castro1
fabio.fonsecadecastro@gmail.com

Resumo
Este artigo elabora uma revisão biobibliográfica do pensamento de Alfred Schutz e de
seu projeto em constituir uma sociologia fenomenológica. O trabalho de Schutz se situa
na confluência da sociologia compreensiva de Weber com a fenomenologia de Husserl,
podendo ser compreendido na perspectiva de uma teoria antiessencialista cujo principal
pressuposto é a rejeição de uma integral racionalidade do real. Sua proposição seria
refundar, fenomenologicamente, a sociologia compreensiva. Não obstante, para fazê-lo,
foi necessário elaborar uma crítica da egologia transcendental husserliana, com a qual
é possível lançar o tema da subjetividade numa perspectiva sociológica, estabelecendo a
matriz da ideia de uma ideia de intersubjetividade que supere a simples constelação de
subjetividades individuais, inerentes ao pensamento de Husserl. O pensamento de Schutz
apresenta soluções originais para a problemática da intersubjetividade na sociologia
construindo o arcabouço central de uma sociologia fenomenológica.

Palavras-chave: sociologia fenomenológica, sociologia compreensiva, fenomenologia.

Abstract
This paper develops a bio-bibliographical review of the thought of Alfred Schutz and his
project to set up a phenomenological sociology. Schutz’s work operates at the confluence
of Weber’s comprehensive sociology with Husserl’s phenomenology and can be understood
from the perspective of an anti-essentialist theory whose main assumption is the rejec-
tion of a full rationality of the real. His proposal is to reestablish, phenomenologically,
comprehensive sociology. However, in order to do it, it was necessary to develop a critique
of Husserl’s transcendental egology and put the theme of subjectivity in a sociological
perspective, establishing the matrix of the idea of intersubjectivity – something that goes
beyond the mere constellation of individual subjectivities, inherent in Husserl’s thought.
Schutz’s thought presents a solution to the problem of intersubjectivity in sociology by
building the core framework of a phenomenological sociology.

Key words: phenomenological sociology, comprehensive sociology, phnomenology.

1
Universidade Federal do Pará. Rua Augusto
Corrêa, 1, Guamá. 66075-110, caixa postal 479,
Belém, PA, Brasil.

de se tor. cia da sociologia compreensiva de Weber com a fenomenologia simultaneidade. a demanda por Husserl e por Weber. Vol. Ciências Sociais Unisinos. a sociologia compreensiva. – nasce a segunda obra de Schutz. Neste últi. centralmente. etc. aleatórios. política que ameaçava todo o mundo germânico. tais como a etnometodologia. a cias. Weber e Husserl bancária substituem os projetos anteriores. empreendeu Schutz nasceu em Viena em 1899. que durará até 1937. plena de mútuo respeito. São Leopoldo. a antro- Mas também Husserl constituiu outra de suas influên- pologia cognitiva. no entanto. Husserl. um mate. tuais. p. Theorie der Lebensfor- men. tre as preocupações. Schutz frequentava o Geistkreis. é fundamentalmente social. Weber foi a influência consolidadora de Schutz. fenomenologicamente. por meio do qual as condu- na vida intelectual vienense que Schutz escreveu. seu primeiro trabalho importante. é descrever os processos sociais que ele realidade”. em Der sinnhafte Au- E era também margeado por sua segunda “província da fbau der sozialen Welt. a teoria antiessencialista cujo principal pressuposto é a rejeição de obra dialoga com o pensamento de Henri Bergson. apenas uma leitura atenta de “Leçons pour une phénoménologie de la terminado o Liceu. único trabalho de Schutz publicado sob a forma de livro permitiu produzir relatórios e análises sobre a situação político. mas também pela efu- são do mestre. para fazê-lo. ou seja. Den- fenomenológica. provocar contenciosos. o espa- É em meio a essa participação discreta e quase marginal ço intersubjetivo propriamente dito. se não de nazismo e do antissemitismo. Nela. Porém. se confrontara com esse problema em “Krisis”. porém. estabe- permanentemente pelo continente. nos anos seguintes. O retorno doloroso a um império em crise o obrigou transcendental La crise des sciences européennes et la phéno- a escolhas pragmáticas: os estudos de direito. A preocupação central de Schutz. Sua proposição fundamental assinalando já. Não obstante. esse texto Este artigo objetiva descrever a obra de Alfred Schutz e é apenas a parte inicial de um projeto abandonado. construindo exíguo. longo do século XX. O pensamento de Schutz em Viena ao menos. quando. sem con- representações sociais e a teoria da comunicação. N. reconhecível em sua disposição verdadeiramente que supere a simples constelação de subjetividades individuais. sua carreira sozialen Welt. Enviada a Husserl. Na verdade. Schutz o encontrou bem após a faculdade. Porém. Havendo se instala- apresenta soluções originais para a problemática da intersubje- do na cidade durante o verão de 1918. 48. revirar os meios intelectuais locais com seu relativismo e o arcabouço central de uma sociologia fenomenológica que. após semiótica do imaginário. no horizonte da pesquisa fenomenológica. co privado Reitler. ao menos alguma vez em suas obras. Em 1929. inerentes ao pensamento de Husserl. a história social. foi contratado pelo ban. irá influenciar diversas empresas intelec- dentre os quais Weber. esse crescimento seguro efeito. Dentre as influências. havia-se operação. A conforma- questões teóricas e metodológicas das ciências sociais. e todos os de sua vida profissional era margeado pela subida ao poder do fenomenólogos. conscience intime du temps” (1964 [1928]) e “Lógica formal e ra italiana. que abordava que tecida cooperativamente. motivará o início de uma co- como consultor econômico solidificou-se. foi enviado ao campo de batalha. círculo intelectual e de ação. a psicologia das abandonar o projeto de “Theorie der Lebensformen”. ainda não devastada pelo nacional.) e o Mises Seminar. Schutz proferiu cinco conferências. Der sinnhafte Aufbau der nar maestro de orquestra ou escritor. compreende como (a) a passagem da duração ao mundo espa- Numa Viena ainda vibrante. com sólida de analista econômico. por sua vez. podendo ser compreendido na perspectiva de uma bouço da sua sociologia fenomenológica. individual que. çotemporal e (b) a constituição dos contextos de experiência socialismo. A passagem da duração ao mundo espaçotemporal fundado por Friedrich von Hayek no qual a regra era intervir sobre corresponde à conformação da experiência – uma experiência assuntos dos quais se desconhecia tudo (por exemplo. assumindo funções que o levariam a viajar referente ao estatuto da intersubjetividade. tempo e reflexão. foi necessário elaborar uma crítica Pode-se dizer que a obra de Schutz surge da confluência da egologia transcendental husserliana. reúne toda a armadura conceitual usada por econômica da Europa central e colaborar na seção de economia ele em sua sociologia fenomenológica. no processo social. a psicologia genética. ao final de 1921. bem como pela crise econômica e maneira permanente. Com efeito. o qual só viria a ser editado em 1981. Essa especializado em direito internacional na faculdade. constitui o que mo. ao seduzir um público formado por milhares de jovens intelectuais. nele destacar sua importância como criador do campo da sociologia já se encontram suas preocupações e influências delineadas. seguir resolver os problemas postos à sua reflexão. entre 1924 e tas são reguladas. que se foi refundar. Schutz se dedica a do jornal Neue Freie Presse. entre 1928 e 1930. posto mático falaria de ópera. na frontei. 1. a etnossemiótica. resolver um dos problemas mais graves da reflexão sociológica. duração. todas conformadoras do arca- de Husserl. weberiana. 52-60. conseguiu. Ao fazê-lo. consolidará no seu esforço de leitura. e um emprego de consultoria a uma empresa Dessa fusão de horizontes – Bergson. construindo uma reputação lece a conexão da sociologia com a fenomenologia. destacam-se as noções de memória. a história do imaginário. uma integral racionalidade do real. os quais conclui ménologie transcedantale” (1976 [1929]). Não obstante. como ele mesmo a denominou: o interesse intelectual. es. enciclopédica em tudo saber e por sua capacidade inexorável de.Fábio Fonseca de Castro 53 Biobibliografia de Alfred Schutz 1927. com ele se confrontarão. com a qual é possível entre a fenomenologia husserliana e a sociologia compreensiva lançar o tema da subjetividade numa perspectiva sociológica. Aos 18 anos. O trabalho desse autor se localiza na confluên. nesse tempo tividade. o que lhe obra. jan/abr 2012 . A tabelecendo a matriz da ideia de uma ideia de intersubjetividade princípio por sua teoria dos tipos ideais. durante sua vida. ção dos contextos de experiência. Schutz compreende como a base da ação social.

não sairá. ou. no entanto. fizeram Schutz decidir-se pelo exílio americano. que. Schutz publicou apenas algumas no. em compreender a subjetividade ce. A esse empreender uma análise sobre a conformação da experiência momento a maioria dos intelectuais já havia deixado Viena. Tal e a declaração de guerra da França e da Inglaterra à Alemanha. Este seria. p. Hayek convidou-o a abordar a questão do objetivismo em um Sua produção científica impôs a necessidade de um novo artigo para uma revista de economia. compreendidas como um espaço intersubjetivo. funda entre as Geisteswissenschaften e as social sciences nor- periência são dimensões opostas no jogo dos sentidos. em março de 1938. oria da cultura não reivindicada e não proclamada. pela guerra. A noção de ências em curso. fundidas. sua reflexão resulta na elaboração de uma te- ências já vivenciadas pelos atores sociais envolvidos ou experi. em interação no processo social. o economista austríaco Friedrich von do indivíduo e a sociedade. No ano seguinte aparecia o primeiro logia husserliana. tanto as “reservas continuação de Der sinnhafte Aufbau der sozialen Welt. dessa maneira. Em última instância. mente transmitidas. com Sua experiência com os grandes sociólogos americanos. no momento da anexação. de experiência” quanto as “estruturas de pertinência” são social- Ao mesmo tempo em que as demandas de sua vida pro. como se no entanto. Schutz parte de Husserl. conformação de sentidos práticos. o de “estruturas de pertinência”. Por meio te-americanas. ela- agravava. condição para a análise de toda logical Research. dedicou-se a estudar a sociologia norte- centrada sobre o primado de uma dicotomização da realidade americana. simplesmente. que. porém não aprofundada. Schutz é de que experiência e ação são atos correlatos que não Schutz publicaria ainda 35 artigos em vida. negociados segundo experi. somente publicado no mercado. no seio da New School for Social Research com o Entre 1932 e 1937. Alvin Johnson. No e da ação. 11 es- resultam de uma mente produtora de sentidos. Em 1936. em sobre a vida cotidiana. levou ao centro zam a reflexão schutziana: experiência e ação. a respeito das relações entre a constituição subjetiva ção de sua obra. A noção é completada rem uma conferência proferida por Hayek sobre o tema “Co. percebe o mundo. poucos meses depois. 52-60. no dia 1° de setembro. em polos opostos. permanentemente. Ciências Sociais Unisinos. sejam saberes teóricos ou afetivos. passou a minis- onde a necessidade em falar em intersubjetividade. por um segundo conceito. tão nessa revista. o chanceler Pollfus baniu o Partido Social. política se agravava. Não obstante. num plano mais aberto. dará origem à criação. Schutz ministrará um segundo ram-se e ele não pôde dedicar-se. São Leopoldo. a serviço. De jamais deixar a empresa Reitler. Segundo Schutz. Philosophy and Phenomeno- esse solipsismo transcendental. num processo contínuo Democrata e instalou uma ditadura facista de inspiração mus. a dimensão transcendental. A partir de 1949. segundo Schutz. a lógica solipsista cartesiana Instalou-se com a família em Nova York e. o que acabou por esta- tivamente colocado pela obra diz respeito à possibilidade de se belecer as condições para o Anchluss. e o manuscrito sobre “O problema da se refere à forma como os sujeitos sociais organizam e regem as personalidade no mundo social”. Suas polêmicas com Tal- sabe. efetivamente. noção já abordada. de “sedimentação” que se conforma intersubjetivamente. Schutz considera a teoria do equilíbrio de Mises como das entre 1947 e 1951 para esse livro se transformarão no ensaio uma criação dos economistas mais que uma conduta dos atores “Reflections on the problem of relevance”. mas da cone. todas elas dispostas num jogo intersubjetivo. o ser transcendente e o existir imanente. reelaboradas. qual seja. 1. que duas noções centrali. “The problem of livro. foi sempre problemática. Nesse Der sinnhafte Aufbau der sozialen Welt. em dezembro de 1939. desfeitas. sejam eles saberes práticos e empí- a série de notas denominada “The Hayek Papers” – por aborda. soliniana. sempre a serviço da mesma empresa. à continua. herdadas dos “predecessores” – dos sujeitos fissional se intensificavam. e não mais trar um curso na Graduate Faculty of Political and Social Scien- em subjetividade ou. e isso sem xão entre diversas mentes. um plano de embate na em 1970. seu encontro com Marvin Faber dele. a ontologia metafísica ocidental. que nhecimento e economia”. “reservas de experiências” se refere ao processo de sedimentação Desse período ficaram ainda dois trabalhos inacabados: dos conhecimentos sociais. num plano mais aberto. cott Parsons e com Harold Garkinfel assinalam a distância pro- cepção decorre da operação pela qual se tem que sujeito e ex. paradigma da percepção. na esfera das relações econômicas. A invasão da Polônia. Esse trabalho discutiria o pro- rationality in the social world”. Con- processo social. departamento da Universidade no Exílio. empreitada não seria possível sem uma necessária superação do dois dias depois. A sociologia fenomenológica de Alfred Schutz 54 Pode-se dizer. 48. como previsto. ao menos. a proposição colocada por da por Husserl em alemão. objetivo de acolher intelectuais e estudantes europeus exilados tas críticas. não teria conseguido superar número da revista dessa sociedade. Phenomenological Society. N. Deles. da cena política os sociais-democratas. As obrigações de seu trabalho no banco intensifica. Schutz estava em Paris. Vol. criada em 1933 por como um ato intersubjetivo. seguiu trazer para essa cidade sua família e aí estabeleceu-se. jan/abr 2012 . As muitas notas toma- artigo. Para fazê-lo. O referido paradigma da per. concebido por Schutz como a diversas situações de sua vida. da International to. a consequente supervalorização de um desses polos. nome correspondente ao da publicação dirigi- interação social. seminário. Esse texto. boradas. a situação contrar o que seria uma fenomenologia da atitude natural. Mesmo a fenomeno. continuando a traba- – e. A partir de 1943. pretende-se que a consciência é um ato exclusivo do sujei. a situação política da Áustria se que já as vivenciaram – mas também são. uma ontologia do mundo da vida. Seu trabalho no exílio foi pródigo. Nessa obra. O problema efe. lhar no banco Reitler. Não obstante. só veio a ser publicado em 1943 blema das “reservas de experiência” (Erfahrungsvorräte / stocks e constitui uma excelente aplicação do pensamento de Schutz of relevance). Seu assassinato. procurando en. ricos. Em 1934.

48. partiu do conceito husserliano de re.Fábio Fonseca de Castro 55 Ora. ou seja. Entre os diversos artigos publicados nesse tempo. mais ainda. produzida. No tópico posterior. versidade conceitual e procurando explicitar seu funcionamento Reservas de experiência. Um aprofundamento dessa tese é desenvolvido em “Re- ravelmente. seu solipsismo transcendental. estão em contínua transformação. raremos explicitar a noção de ação social. também se- experiência constitui o fundamento de toda ação social. visão que resulta. a nosso ver. Nesse livro. a de estruturas de pertinência. das diversas situações espaciais e temporais do mundo da vida. 1987. ainda não satisfatoriamente conhecida. na e estruturas de pertinência conformariam. essa proposição vem a constituir uma teoria feno. Ciências Sociais Unisinos. O segundo texto comporta um outro essas tipificações. plícito com a noção de intersubjetividade transcendental. acima assinalado. de Husserl. jan/abr 2012 . estão presentes nesses três conceitos gerais. segundo Schutz. experiências e das ações – à qual denomina análise consti- tante para a superação da compreensão da cultura como uma tutiva da experiência e da ação – e propõe uma tipologia das dimensão metafísica e transcendente ao mundo da vida. flections on the problem of relevance” (1947-1951) e (junto com destacam-se “Symbol. Vol. com o objetivo de facilitar sua posterior primeira: refere-se ao modo pelo qual as diversas experiências transformação num texto contínuo. a de tipicalidade da vida quotidiana. segundo Schutz. A segun- quais deveriam resultar na grande obra sintética de seu pensa. Schutz reprova. estabelecido: no entre 1950 e 1956. Para fazê-lo. Por meio dela se teria uma visão dos fenômenos parte em busca de uma fenomenologia da atitude natural ou. foi perçu seulement quant à son type (Schutz. lançada no ano anterior nos Estados Unidos. que também podem ser compreendidas como momento importante da carreira de Schutz. sociais. da noção. p. No tópico seguinte. duas das quais ce qui est expérimenté dans la perception actuelle d’un objet póstumas. centrados sobre a explicação das dimensões sociais. como dinâmicas de sedimenta. reality and society” (1955) e “The problem Thomas Luckmann) Strukturen der Lebenswelt (1973-83). 12). notadamente Thomas Luckmann. seja por meio de suas experiências trabalhos de sua autoria. culturais como dinâmicas resultantes de processos intersubjeti. que essa realidade constitui um processo de compreensão que é Schutz dialoga com a fenomenologia de Husserl. tipicalida- Em 1957. de da vida cotidiana e estruturas de pertinência. ao longo do processo social. procu. objeto e com a noção husserliana de referência apresentativa. N. tipos ideais. Estão ali presen- tes todos os principais tópicos que constituem o pensamento A terceira noção. sempre central de Der sinnhafte Aufbau der sozialen Welt (1929-1932) na tentativa de responder à questão sobre como se constitui – obra traduzida para o inglês como The phenomenology of the uma realidade estável e objetivamente recorrente. Seus últi. p. The structures of the life-world. São Leopoldo. relações sociais. num esforço impor. mem conhece o mundo. p. com destaque para “On multiples realities” A dimensão da experiência (1945) e “Symbol. O resultado foi a obra Strukturen der Lebenswelt. aprofundamento resulta numa teoria fenomenológica da cultu- ses textos tinha a disposição em estabelecer as bases de uma ra. a quatro mãos. próprias. e ou reconhecida. objeto do curso que ministrou na de que a tipificação é o processo fundamental pelo qual o ho- New School. Esse of trancendental subjectivity in Husserl” (1959). vos do “mundo da vida”. Com efeito. jamais escrita. observando como a a cultura. tendo por base partilhado ou sancionado intersubjetivamente. seja por meio de seus educadores – ou seja. refere-se schutziano. senso comum. Porém. O primeiro des. suas leituras de Henri Bergson. riam reelaboradas. Elas podem. desen. 1987. ser de três tipos: temática. pressupondo social world (1967) e não ainda para o português. Schutz articula essa teoria fenomenológica da cultura volvida por Husserl. duzem. sua tradução para o inglês. a produção de Schutz cresceu conside. Para isso. Suas fontes funda- no pensamento de Schutz mentais. sejam eles timos esforços no sentido de organizar suas notas dispersas. bem como a ideia complementar de que ferência representativa. e est transféré aperceptivement sur tout autre objet similaire. A noção de mos esforços foram consagrados à criação de um arquivo sobre reservas de experiência se refere à sedimentação dos saberes Husserl na New School e à reunião e organização dos diversos herdados pelo indivíduo. Nos anos 1950. procuraremos decifrar a noção de interpretativa ou motivacional. reality and society” (1955). às formas de controle. Essa teoria fenomenológica da cultura é desenvolvida em diversos textos. baseada nos tipos ideais de Weber e na reflexão husserliana semiologia fenomenológica. por meio de três noções: reservas de experiência. em busca de uma ontologia do mundo da vida. as de natureza prática ou teórica (Schutz. a saúde de Schutz começou a decair. tipicalidades da vida quotidia- enquanto processo individual-social. Elas seriam herdadas socialmente. 52-60. pelos indivíduos. Schutz dialoga A reflexão de Schutz inicia como uma questão precisa: com a problemática weberiana da construção e validação dos como se forma a experiência social? A partir dessa questão. Schutz elabora uma tese sobre a coordenação das ção contínua. em relação à situação social que objetivam. é contígua à mento. seu alu. missão que expressamente sociais se conformam com base num modelo anteriormente legou a seus amigos. ordenou seus úl. continuamente. o rompimento ex. 1. Husserl e Weber. tal como Schutz a formula. Essa obra foi publicada em 1974 na Alemanha. à fenomenologia menológica da cultura. portanto. reunindo sua grande di. ao longo de toda a sua obra. 13). segundo a maneira como se pro- experiência. Entre 1958 e 1959. com a noção weberiana de contextos de sentido Schutz elabora uma análise constitutiva da experiência.

dividir-se. 1964). quantificáveis e qualificáveis. o núcleo conceitual fundamental do pensamento tersubjetiva? dessa escola. essa operação corresponde ao que Husserl deno- constitui e se partilha a experiência do indivíduo? Como essa mina redução fenomenológica. de toda intencionalidade. elas se completam com as refle- tida pelos indivíduos. tal como Com o que se conclui que um determinado tipo – uma explica Cefaï. faï observa que ando umas nas outras como uma temporalidade pré-fenomenal Schutz est moins intéressé par la découverte d’un champ e pré-imanente (Schtuz e Luckmann. o que se desenvolve de Agora e assim em Agora e assim (Jetzt und campo filosófico. elas se interpene. experiências anteriores. Não obstante. romper. Re- ções de abstração – uma contagem de simultaneidades – pela produktion) de um momento conjectural. tures not pertinent to the situation or purpose in which. a reflexão. 48. Ronald Cox. dental. entre intencionalidade longitudinal o conhecimento é intersubjetivo. Poderíamos elaborar uma sequência de questões com vistas a alcançar uma compreensão de seu método: Como se Ora. “comme une sorte de composition harmonique et l’oposé. 1. a tipicalidade é o conceito-chave de tentionalität) (Husserl. 56). porém. Ou seja. quand se défait le sens de la réalité. em Schutz. o conhecimento não é solipsista. a duração não seria. mas já não interiorizada e. mas uma “phénomenologie constitutive de l’attitude des existem (um Agora e assim determinado). Por ter tipicalidade a experiência do mundo (Bergson. a inten- ve na duração. it arises. ou. é necessário observá. 1998. prédications et raisonnements de melhor compreender essa relação. p. when new relevant informa. presente na duração qual se torna possível a representação simbólica do espaço e do indivíduo. natural” (Schutz e Luckmann. A sociologia fenomenológica de Alfred Schutz 56 Em síntese. Ao contrário. estabelecida pelo filósofo. mas sim o campo sociológico. Assim. fenomenólogos na medida em que não objetiva. Vol. como interpreta transcendantel en suivant les procédures de la réduction. desenhando-se num mundo es- paçotemporal. é denominado atenção à vida e que Schutz chama or subdivide the type. procurando So). Schutz. herdadas e transformadas na duração da vida essas tipicalidades. Por serem xões de Husserl a respeito do tempo – em especial a distinção. 1998. Que seria. como eles. que Schutz acaba por simplificar. portanto. fundir-se. das qualidades do mundo. 1973). discutir em profundidade um processo que outros fenome- a experiência. intérprete de Schutz. Ciências Sociais Unisinos. São Leopoldo. mento determinado pela rememoração (Wiedererinnerung. 42). a interpretação do intramundano. 42). 54). onde o sujeito apreende e processa os objetos da A type is originally formed by ignoring certain individual fea. Then. p. tion comes to the fore. Revenhamos aos textos de pensée. or for A passagem de um estado de subjetividade para outro the sake of which. se essas unida. 1987. sem vínculo determinante com qualquer dimensão de espaço ou tempo. quando observa que tipificação social – constitui uma estrutura elíptica passível de. uma teoria fenomenológica da cultura pro. motifs et représentations d’action (Cefaï. a todo momento. uma sucessão de não uma discussão metodológica sobre a análise transcen- unidades dissociáveis e indivisíveis. p. p. resso. em produção da consciência. Significa posterior à duração. ou seja. portanto. a evocação de momentos equivalentes. 7). 52-60. subjetiva ainda. it may be necessary to revise. par la constitution d’un monde spatio-temporel à tra- de contrepoint mélodique” (Cefaï. conversão da duração em interação com o mundo espaçotem- bre uma dimensão subjetiva e interiorizada do humano. Porém. imanente. Schutz está falando so. A duração seria a corrente de experiências vivas ção de Schutz difere da intenção de Husserl e dos demais (Erlebnisstrom). menologia. que subjetivo de toda tipificação. que Schutz entende por temporalidade pré-fenomenal e pré- la em toda a sua flexibilidade. Outra poral. A primeira delas corresponde ao Schutz. um fluxo infinito de qualidades heterogêneas. Sua reflexão sugere que a experiência se desenvol. responde pela Quando fala em duração. a modificação da impressão original (Ur-Impression) de um mo- endida por Schutz como o resultado de um conjunto de opera. completando ou ou seja. de acordo como se [c]’est seulement dans des situations de relâchement de desenvolva a experiência social. sua noção de duração. a total desatenção ao mundo. se dá sob certa tensão. capazes de interferir. 1973). p. ou seja. Porém. than the old one (Cox. como algo livre de vers des opérations de réflexion (Cefaï. l’attention à la vie. será a consciência. a refle- dimensão. simplesmente. a operação essencial da feno- experiência se sedimenta e se transmite? Como ela se torna in. le sujet s’immerge dans la durée. É nesse sentido que Ce- tram e mantêm entre si operações de solidariedade íntima. p. A operação em causa. exigindo do indivíduo um esforço que. para compreendê-la bem. deixando de Comecemos com uma definição de o que seria. 1998. (Längsintentionalität) e intencionalidade transversal (Querin- Dessa maneira. a duração é um estágio de subjetividade que exige a dispersão absoluta do indivíduo. a situação presente. S’abolissent alors contours Algumas perguntas poderiam ser colocadas a fim de et frontières de perception. expand em Bergson. qu’à Daniel Cefaï. O que assinala o caráter inter. A consciência é compre. nólogos discutem em profundidade. A segunda delas equi- assinala essa flexibilidade inerente ao tipo: vale ao espaço da consciência. feita por Bergson. jan/abr 2012 . toda orientação objetiva. N. Porém. de do tempo e. avaliando. sua própria experiência. xão? Trata-se de um conceito fundamental em Schutz. Essa reflexão provém da diferenciação. dessa maneira. curaria responder ao problema colocado pelo fenômeno da entre viver (na duração) e pensar (no mundo espaçotemporal) intersubjetividade. or else to form a new type more specific de tensão da consciência (Spannung des Bewusstseins). 2001.

ríodos da história humana. 52-60. 97) – lançado de experiências (Erfahrungsvorrat) e em contextos de experi- sobre o estado pré-fenomênico das Erlebnisse e. cabe observar. Na duração vagam. Tal processo seria visível. ral por meio da reativação das sínteses politéticas. se não duas. por sua vez. presente na sua memória (duração). conformado pelas sínteses monotéticas. é criativo: a memória não é uma repetição trizes simbólicas quanto os dispositivos de correlação noético- ou duplicação e. Com base nessa proposição. Os primeiros seriam tanto as ma- 44). por Schutz. renciais (não presentes na síntese politética) aos quais Schutz chama sínteses politéticas de ordem superior. são revestidas por produções (Erzeugnisse) de sentido de- porém desprovidos de uma dimensão relacional mais precisa. p. A resposta de Schutz decorre do pensamento weberiano. partamos ainda de uma ques- sammenhänge). por fim. tal como de sentido. Os segundos. p. tese politética. ao retirá-las de seu silêncio e de sua insignificância (Cefaï. as cesuras da duração tornam-se fragmentos sintéticos. Em resumo. São Leopoldo. Nem memória e nem reflexão são atos de mímesis. segundo Benjamin. em certos pe- viva. no pensamento de Schutz riências de conhecimento do mundo. é a compreensão jeções reflexivas. 1973.Fábio Fonseca de Castro 57 Dessa operação de atenção (ou reflexão). onde vagam os diversos Agora e da reflexão. por uma intenção. tendo sempre em mente que o que configurações de sentido. tão para compreender sua reflexão sobre a ação social. bem como as pri- do da duração e convertê-lo num conhecimento hábil. É interessante como esse processo é discutido. Nessa operação de que estas são revestidas por sínteses monotéticas que. 1. uma questão. de como se constitui a experiência social. em seus estudos sobre como. 44). ensaiar um esquema repre- Por operação correlata se dá a conformação de novas sentativo desse processo. tativas. Retornando a Schutz. enquadramentos temáticos e infe. indicando-os como a base para a riência vivencial (Erlebnis) do Sujeito. uma coerência inferencial. essas atenções constituem operações inferenciais que A dimensão da ação se relacionam mais precisamente com outros elementos e expe. uma operação que as sínteses politéticas e as sínteses politéticas de ordem supe- se dá por meio de duas simultâneas operações: a reflexão sobre rior e que a Experiênvia Vivida (Erfahrung) constitui o campo do o fluxo da experiência em curso no momento vivido pelo Sujeito mundo vivido. intuitiva em curso (Erlebnis) e a experiência vi. ao elaborar esses conceitos. Sua convencionalização em termos de uma síntese das Weber. a experiência constituída (Erfahrung). assim acumulados pelo sujeito em sua vida. surge do sujeito. é como um fa. esses fragmentos de vivência. Assim. Sigamos o modelo metodológico elaborado barroca (1984) e na era moderna (1989). seriam grandes contextos como um espelho: não reflete o mundo simplesmente. útil. 1998. Nesta etapa. não é simples. campo da Experiência Vivida. dispondo-os segundo uma ordena. vez. 48. de natureza metodológica: de que Deduz-se que a Experiência Viva (Erlebnis) constitui maneira essa reflexão reflete o mundo da duração? A operação o campo aberto da duração. reifi- A maneira de a reflexão trabalhar constitui um ato de sín. ou melhor. cados como atitude natural. A essa terceira portamento humano: que é a ação? configuração fenomenal Schutz chama de referências apresen. por sua reflexão. segundo Schutz. ra. sem delimitação objetiva de Mais tarde. Vol. 1998. ou seja. nominadas reservas de experiências e contextos de experiências. mas sim os Erfahrungen da experiência vivida. ela meiras operações de sentido provocadas pela reflexão – ou seja. da reflexão é Tal como partimos de uma questão para compreender a caracterizada pela formação de contextos de sentido (Sinnzu. porém. um aspecto. p. p. caberia. O ato de reflexão recupera compreensão da vida cotidiana. os diversos Agora e assim da du. talvez. conformando objetos de sentido. o qual o indivíduo relaciona a uma dimen- ca. Schutz já não identifica mais os Erlebnisse da experiência viva são subjetiva. Ao contrário das primeiras. Essa dupla operação provo. representada por vínculos dissolutos e formações de sentido (Sinngebilde) do mundo espaçotemporal? alegóricos. porém. Essa ração são condicionados em forma de padrões convencionais de questão se poderia colocar indagando sobre a essência do com- representação. ainda mais elaborada. dessa maneira. Esse ato. Schutz propõe uma análise da atitude natu- ção lógica e. um comportamento motivado de síntese monotética. é substituída por um predomínio da ex- duração pode ser aperfeiçoada para: Como são constituídas as periência viva (Erlebnis). capaz de ência (Erfahrungszusammenhänge). da mesma maneira. Para refletir o mun. base nessas sínteses monotéticas que se pode falar em reservas rol – um cone de luz (Schutz e Luckmann. do mundo intramundano. jan/abr 2012 . conferindo-lhes uma configuração. Pertenceriam. os diversos Agora e assim produzidos pela expe. N. a reflexão não funciona noemática. representada por um predomínio de um vínculo simbólico entre a questão sobre de que maneira a reflexão reflete o mundo da o homem e o mundo. do mundo espaçotem- (mundo espaçotemporal) e a reflexão de encontro ao conteúdo poral. Antes de avançar. pretende Schutz. dessa maneira. sincronizados uns com os outros enquanto horizon- ele é. Schutz chamará a esses contextos de experi- tempo e espaço. se constitui como um momento de atenção. tes de identificação da experiência vivida e. presencial. conservada pela memória. observando ou seja. como se sabe. vida. ência de situação biográfica. assim. esse ato de atenção. mais elaboradas por envolverem pro. na era (Cefaï. zão pela qual Schutz as denomina sínteses politéticas. define a ação como “um comportamen- diversas sínteses operadas pela reflexão é denominada por Schutz to relativo ao objeto”. Schutz considera a Ciências Sociais Unisinos. ambos. noção de experiência em Schutz. Nesse patamar da redução fenomenológi. Uma terceira etapa. que é com A reflexão do Sujeito. ca o encontro entre duas formas de experiência: a experiência por Walter Benjamin. também. constituída (Erfahrung).

retomemos a indagação com a tion à la vie. Husserl gem como sínteses de identificação e recognição. sugere Schutz. Déconstruction des sujets et des objects tenus pour allant de ção entre mentes. por sua vez. são menos abertos. todo projeto prático ou. sobre esquemas mentais com as quais o indivíduo conhece e apreende e constitui de expressão (Cefaï. correspondendo a “modificações atencionais” chamá-la de síntese de identificação. 1992) ou em situações problemáticas (cf. enfim. mas concluída. assim. “déclancher” ou O tópico anterior ensaia responder à primeira dessas três “contrainter” uma ação social em curso. Nesse caso. no processo de consecução da ação. da noção weberiana de contextos de sentido. a ação designa encontra face a uma situação rotineira. p. é respondida com a recuperação p. 1998. periência no processo social. A ação. conforma uma Num segundo contexto. Isso porque um esquema motivacional cor- compreensão da teoria fenomenológica da cultura elaborada responde à procura. também. mas conformada enquanto experiência em experiência através de uma operação de reflexão com a qual modo praeterito. nous avons à modifier l’orientation et l’acuité de notre atten- Sintetizado esse processo. Schutz vai tung) do mundo. como um ato de a toda ação: a previsão do estado da ação quando ela se tiver reprodução da experiência –. às reservas de experiências engendradas pela ação linguística (e. como energeia. referente à sedimentação da ex- da por um sujeito dotado de intencionalidade (Schutz. reconversão de vivências e experiências em mundo da vida. 48. riência numa ação social. Dewey. ao contrário. Os esquemas motivacionais. seria o poder de interação e articula. elaborando novos esquemas. Segundo Schutz. Nessa situação. novas equações. Ao estudar as estratégias do indivíduo põem enquanto sínteses passivas. especificamente à análise. as quais se projetam recorrentemente. Os esquemas chamava essa relação entre consciência objetiva e os objetos interpretativos configuram processos de interpretação (Deu- de experiência do sujeito de síntese de recognição. matizada enquanto tal – só é evocada enquanto parte constitu- passado (Schutz. tal cional que é. tornar-se claro na estratégia de preparação da passagem ao ato. N. dá-lo no mundo. toda no mundo: esquemas tradicionais (estereotipados). feita dois diferentes contextos nos quais se dá (se realiza) a expe- por esse autor. diante de situações novas. 48). a percepção do mundo. São Leopoldo. colhidas da duração do indiví. enfren- experiência relevante. só é te- encerrado. A sociologia fenomenológica de Alfred Schutz 58 ação como uma atitude consciente e voluntária empreendi. seria a reserva de experiência ca. periências. o indivíduo usará de esquemas para estar vo. singular e contingente: na verdade. questões: a experiência se forma por meio de processos de sínteses Schutz fala ainda. enfim. uma equivalência a desvelado pela própria ação de experiência. Essas três questões foram: Como se constitui e um pensamento. p. Assim. Socialidade. Tipicidade. o agir se projeta num futuro-já. le dévoilement des cascades de synthèses polythétiques et monothétiques dont ils sont les produits. Ciências Sociais Unisinos. Num primeiro contexto. 1967. p. por sua vez. capazes de salvaguar- dimensões. o contexto de experiência é tematizado e paz de conferir à ação uma projectibilidade. toda ativi. A experiência se Porém. de referências capazes de justificar uma ação ou subjetividade. eles atuam como uma estratégia de se partilha a experiência do indivíduo? Como essa experiência transformação de uma determinada situação. A ação tematizada por Schutz pode dar-se nessas duas novas matrizes. o sujeito deverá. Vol. lidade. a experiência. ação social. no entanto. 81). Se a experiência é uma dimensão presente em toda ação Projectibilidade seria a capacidade de previsão. Os esquemas sur- dade intencional registra um movimento de reprodução. A segunda questão. que observa uma vez recorrendo a Husserl. ele vai usar conhecimentos ordinários e estereotipados com os O agir dá-se vivencialmente. 52-60. problemática. como uma experiência em modo quais possa dar conta de atividades sociais já automatizadas. recolha sínteses de sua duração. Tais esquemas corresponderiam reservas de sentido. 48). por sua vez. uma força imponente e tar uma situação nova. Schutz completa esse raciocínio weberiano mais sedimenta por meio de contextos. conquanto apresente três características: projectibi. Sugerimos acima três questões capazes de nos guiar na são menos livres. ou o julgamento predicati. inerente social – se toda ação social se dá. em síntese. possuindo uma se sedimenta e se transmite? Como ela se torna intersubjetiva? dimensão utilitarista que objetiva. praesenti. ou esquemas novos. ela possui certo grau de ti- picidade e de repetição. 75). numa análise inten- ações já vivenciadas. uma situação já terminada e da qual se observam os efeitos. sont ainsi detérminés a projectibilidade se conforma no futuro e a tipicidade no pas- pragmatiquement (pragmatische Bedingtheit) par l’intérêt que sado. na sua resposta para o problema da inter. Strauss. pelo indivíduo. o sujeito se to que o agir especifica uma situação em curso. tuação problemática. Schutz distingue entre esquemas duo por meio dos processos mentais). dispositivo que permite a do indivíduo e de “doação de sentido” à experiência vivida. 1998. ainda. Em todo caso. precisando recorrer à com efeitos vigentes. como na situação de um objetivo tiva da ação social empreendida – em situações dramáticas (cf. sem muito explicitar. a imaginação criativa. les formations des sens (Sinnbildungen) de notre expérience mos pela conclusão de que uma experiência não é plenamente (Cefaï. Tal como soi. empresta reservas de experiência (que a ela se im. 1. ao mesmo tempo. p. 1967). interpretativos e esquemas motivacionais. constantemente reoperadas por novas sínteses. 1967. no seu caldeirão de ex- por Schutz e. entre agir (Handeln) e ação (Handlung): enquan. seja numa situação rotineira ou numa si- Assim. tipicidade e socialidade. en posant une question en retour (Rückfrage) vers qual se abriu esta discussão: o que seria a experiência? Comece. num caso. jan/abr 2012 . a socialidade se dá no presente. Em conclusão. habitual. constitutiva na como um patrimônio útil.

sob a visão de Schutz. Tal como partimos de uma questão para sua dimensão simbólica – Schutz vê a cultura como uma guina- compreender a noção de experiência em Schutz. o trabalho de Schutz se situa na conflu- tum.. com tradições de por esse autor. p. feita ria pela conjunção operante de um Sujeito. Schutz emprega sua análise da pressuposto é a rejeição de uma integral racionalidade do real experiência com vistas à elaboração de uma análise da ação. dentre os quais acto e actum. a produção da significação (a cultura) se da- uma vez recorrendo a Husserl. ou melhor. soluções-do-mundo. estruturas subjetivas que concatenam a ação social. seja. elaborar uma concepção fenomenológica da cultura. cionalidade que não corresponde ao potencial subjetivo inte- como uma “fides” (fé. 1967. Essa questão seria: Qual a essência do com. reproduzindo uma ra- Esse processo é explicado por Blin como uma adesão “naive”. ou seja. portanto. toricamente não são símbolos. a ação designa uma situação já terminada e da qual se observam os efeitos. dessa maneira recorrendo às sínteses cepção está baseada na compreensão de cultura como um pro- disponíveis na duração para prosseguir. reconhecimento e interpretação das situações que hoje sobre a ação social. 248). 1998. concatenar ou iniciar cesso de identificação: a cultura não é o simbólico de longa du- uma ação social. conformada segundo con- superar o perigo de uma sociologia armada de prejulgamen. confiança) na validade do “déjà-éprouvé. um ato social de contato dos indivíduos com o de uma questão para compreender o pensamento desse autor mundo. mais uma vez. O caminho metodo. Leitor de Weber e de Husserl. mória-hábito sobre sua experiência no mundo. define a ação como semiótica/etc. dispositivos que Schutz compreende como índices (Anzeichen) ou seja. sua sociologia fenomeno- lógico proposto por Schtuz é o de uma descrição das “structures lógica. 1997. Porém. a seu ver. 55): “L’action est une Erlebnis qui se temporalise to. O que se transmite his- Schutz considera a ação como uma atitude consciente e volun. À diferença da compreensão culturalista da cultura – que toda forma de interação: a intersubjetividade seria constituída vê a cultura como um objeto-fim em si mesmo. ou expressões ou. jan/abr 2012 . no que ela tem. comunicacional).Fábio Fonseca de Castro 59 acrescentemos. como se sabe. 46-47). 48. 2003. Seria uma A incompletude da sociologia weberiana estaria na pro- eidética do mundo da vida do transcurso do cotidiano. no qual posição de que o contexto subjetivo dos sentidos é inteiramente se acumulam estoques de conhecimentos capazes de conferir mediado pelo pesquisador. 1. de uma eidética com a qual se espera camada de sentido mediada. de excessivamente vinculada a uma 1997. Com base nessa definição. podendo ser compreendi- praeterito (Cefaï. teúdos de sentidos fixados a priori. a vida cotidiana é vivida pragmaticamente. especificamente à distinção. mas. uma situação semelhante (Blin. indivíduo em conferir sentido ao mundo. ração. como é ela partilhada socialmente? Por meio da elaboração mas o contexto de sentido no qual essas coisas se dão. ao ator social. p. por qual atuam reservas de experiência e estruturas de pertinên- meio de uma ação social. Essa con- a um tipo de experiência. partilhada. certo. los esquemas de expressão na ação social se dariam por meio de Para Schutz. do na perspectiva de uma teoria antiessencialista cujo principal A partir dessa reflexão. 249). to que o agir especifica uma situação em curso. o método weberiano não en-tant-que-valide” – ou seja. Como se viu. Schutz acaba por los. e recursos de expressão (estruturas de pertinência). símbo. ele mesmo e. 55). também. a sociologia compreensiva de em modo praesenti e uma experiência de ação vivida em modo Weber e a fenomenologia de Husserl. mas sim no processo pragmático do relaciona uma dimensão subjetiva. das tipificações. tendeu a superar a percepção da sociologia compreensiva d’essence des modes subjectifs d’orientation mondaine” (Blin. à diferença entre uma experiência de ação vivida ência de uma dupla influência. 75). 52-60. no entan- Cefaï (1998. p. p. Diz (Tellier. envolvem o mundo e superação dos impasses constituídos. dessa forma. ou a utilização das simbologias sociais como mediadoras Resta procurar uma resposta para a terceira questão aci. p. Weber. De fato. truir sua teoria da cultura. Ora. numa postura que unifica o tos. com uma consciência doadora de sentido. enquanto reflexão de um sujeito portador de uma me- ou sintomas e signos (Zeichen). não é senão uma parte do proces- “um comportamento relativo ao objeto”. Ob- serva Cefaï que essa dicotomia de agir e ação equivale a outros Posteridade da obra de Schutz cortes dicotômicos caros à fenomenologia. ou seja. um com. em Schutz. o símbolo portamento motivado por uma intenção. p. Como a experiência se torna intersubjetiva? Ou típicos acimentados pela prática social ou a unidade do grupo. dominado por pela própria ação social. portamento humano? A dimensão que as teorias culturalistas da cultura privi- A resposta de Schutz decorre. reservas de experiência (Schutz. Schutz completa esse raciocínio weberiano mais Em síntese. sobre o comum. Ou seja. noção pela qual Schutz compreende cia. não podendo. ou melhor. poderíamos dizer. necessariamente. so cultural. ou seja. Ao procurar cons- comme toutes les Erlebnisse dans la durée”. portanto. desse modo. Schutz foi. Essa eidética seria objetivada com uma reflexão sobre as sujeito social e o seu observador – o pesquisador. os saberes ma colocada. entre agir (Handeln) e ação (Handlung): enquan. legiam e que normalmente chamam de simbólica/símbolo/signo/ mento weberiano. O ato de compreensão de um signo corresponde. sobretudo. p. do pensa. N. partamos ainda da pragmática. São Leopoldo. mas soluções- tária empreendida por um sujeito dotado de intencionalidade do-mundo. como a resolução pragmática de iria a fundo na experiência vivenciada pelo sujeito social: ela Ciências Sociais Unisinos. à qual o indivíduo não existe em si mesmo. ser atribuído sentido “por assimilação da similitude” a experiências novas. crítico desses autores. gral do indivíduo. As estratégias empregadas pe. Vol. do conhecimento do mundo que os indivíduos detêm. ainda. energeia e ergon e modus operandi e modus opera. dessa maneira.

976 p. SCHUTZ. A sociologia fenomenológica de Alfred Schutz 60 renunciaria a investigar as fontes básicas do fenômeno da signi. Origem do drama barroco alemão. 1945. A ambição de Schutz é refundar. The problem of rationality in the social world. Paris. Paris. sieck. a antropologia cognitiva. husserliana. J.1007/978-94-009-9695-3 DEWEY. husserliano. Brasília/São Paulo. E. 105 p. Metailié. SCHUTZ. D.. Paris. igualmente. Aceito: 27/03/2012 Ciências Sociais Unisinos. BENJAMIN. F. para fazê-lo. essa influência perma. Moi. In: BRYSON. Paris/Genève. ou seja. 1. Cerf. T. ������������������������ Paris.2307/2102818 matriz da idéia de uma idéia de intersubjetividade que supere a SCHUTZ. Paris. 1967. BERGSON. 2004. New York. 1976 [1929]. a sociologia compreensiva. 335 p. Minuit. 322 p. 1. uma crítica do pensamento d’Alfred Schutz). 2001. http://dx. L. R. H. Econom- ica. PUF. 127 p.doi. sages. 1987. A. 1992. Le Livre des Pas- jamais. Northwestern University Press. HUSSERL. Paris. théorie de l’enquête. Philosophy and Phenomeno- subjetividade numa perspectiva sociológica. mais justement pour lui seul et non pour tous les autres HUSSERL. CEFAI. tous les autres sujets y compris science intime du temps. W. irá in. mundo e independente dos demais: http://dx. fenomenologicamen. 10(38):130-149. A matriz dessa estratégia é a proposição de superar COX. A. p. A. Miroirs et masques. PUF. fins e conseqüências e não. te. T.org/10.doi. Sym- simples constelação de subjetividades individuais. (org. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia nece discreta. Phénomenologie et sciences sociales: Alfred Schutz et la to weberiano. M. The structures of the life-world. 589 p. La crise des sciences européennes et la Egos transcendantaux (Schutz 1959. 48. provavelmente devido à trajetória pouco con- compreensiva. WEBER. a atitude daquele que orienta seu siliense. 276 p. ston. Paris. fruto de um trabalho intenso. na forma de comportamento que Weber (2004) denomina raciona. p. SCHUTZ. A. a psicologia das representações sociais e TELLIER. 1955. construindo o arcabouço central de uma SCHUTZ. Referências ficação.doi. tanto em seus aspectos teóricos tado de São Paulo. Droz. emocionalmente ou por tradição. p. Méridiens Klinck- sociologia fenomenológica que. ria social. inerentes ao bols and society. Bra- lidade por finalidade. 1973. Paris. a semiótica do imaginário. tais como a etnome. Harper. 1959. a psicologia genética. São Paulo. In: M. 1998. Vol. North- soluções originais para a problemática da intersubjetividade. UnB/Imprensa Oficial do Es- vencional de seu pensamento. 1964 [1928]. e metodológicos como na sua própria constituição. Phenomenology of the social world. Não obstante. http://dx. Martinus Nijhoff. A. pensamento de Husserl. Paris. 135-204. comportamento a partir de meios. 422 p.). N. Leçons pour une phénoménologie de la con- titue pour lui. 207 p. jan/abr 2012 . 194 p.org/10.2307/2549460 Crítica estabelecida. 1943. Essai sur les données immédiates de la conscience. PUF. Schutz pretende lançar o tema da SCHUTZ. Schutz’s theory of relevance: A phenomenological cri- a visão de um Ego transcendental constituído sobre seu próprio tique. Paris. Evanston. 52-60. Ela estaria condenada a se situar. Husserl: Colloque pelas Geisteswissenschaften (ciências do espírito) e apresenta de Royaumont. SCHUTZ. 2003. Não obstante. Alfred Schutz et le projet d’une sociologie phénomé- a teoria da comunicação.R. Chaque Ego trancendantal a son monde. E. STRAUSS. 1967. W. 255 p. p. BENJAMIN. 296 p. ao longo do século XX. fluenciar diversas empresas intelectuais. 53:247-254. a etnossemiótica. reality and society. E. New Series. São Leopoldo. 5:533-576. 82). Logique. Gallimard. Evan- todologia. mas dissimulado pelas demais atividades Submetido: 03/02/2012 do autor. phénoménologie transcendantale. Capitale du XIXème Siècle. estabelecendo a logical Research. A. de GANDILLAC. western. a história do imaginário. 696 p. Socétés. On multiple realities. nologique. 1984. em fenomenologia. a histó. 1997. 1978. 252 p. A. vol. dans lequel il cons. 1989. selon leur sens. A. PUF. LUCKMANN. Boston/London/The Hague. usará Weber para fazer avançar a fenomenologia naissance d’une anthropologie philosofique.org/10. permanentemente. Le chercheur et le quotidien. tal como usou Husserl para avançar o pensamen. Symbol. 81-107. terá BLIN. Sociologie phénoménologique et ratio mundi (à partir sido necessário elaborar. Le problème de l’intersubjectivité trancendantale O pensamento de Schutz sintetiza os enigmas colocados transcendantale selon Husserl.