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Percurso do reconhecimento

Tradução
Nicolás Nyimi Campanário

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Edições Loyola

Título original
Parcours de la reconnaissance - Trois études
© Éditions Stock, 2004
ISBN 2-234-05650-0

Ouvrage publié avec le concours du Minestere ji-ançais
de la Culture- Centre National du Livre.
Obra publicada com auxílio do Ministério Francês da
Cultura, Centro Nacional do Livro.

PREPARAÇÃo: Mauríc io B. Leal
DIAGRAMAÇÃo: So Wai Tam
REVISÃO: Joseli N. Brito

Edições Loyola
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ISBN: 85-15-03406-9
© EDIÇÕES LOYOLA, São Paulo, Brasil, 2006

A Frans Vansina, frade menor,
meu amigo mais antigo

Universidade Federai do Para
Biblioteca C .ttr~ f

Sumário

Prefácio ....... ... ... .... .. .......... ..... ... ... ... ..... ... ... .... .. .. ... ..... .. .... . :...... .. .... 9

Introdução.................................... .... ....... ... ............. ........ .... ........ .... 13

Primeiro estudo
O reconhecimento como identificação
1 Descartes: "distinguir o verdadeiro do falso " .. ........ .......... .. .... 41

2 Kant: ligar sob a condição do tempo .. .... .. ... ....... ....... .. .. ... .. ... ... 51
1. ... sob a condição do tempo.. .. .. .. ......... ... ............ .... ......... .. 53
2. Ligar....... ... ....... ....... ... .......... .. ........ .. .... .. .... ......... ....... ...... .. 56

3 A ruína da representação .. .. ...... ......... .. ...................... .. .. .. ..... ... 69

4 O reconhecimento e a prova do desconhecível .. .. ...... ........... .. . 75

Segundo estudo
Reconhecer-se a si mesmo
1 O fundo grego: o agir e seu agente. c.... .... ........ ........ .. ...... ....... 87
1. Ulisses se faz reconhecer ........ .... .. .. ... .......... ... .. ... .. ........... . 90
2. Em Colona, Édipo se desmente .. .... .... ........... .. .... ............... 93
3. Aristóteles: a decisão .... .. .... ...... ...... ........ .. .... .. .. ................ . 96

2 Uma fenomenologia do homem capaz.. .. ... ....... .... .. .......... .. ...... 105
1. Poder dizer ..... .. .... ....... .. ... .... ..... ... ... .. ..... .:. .. .......... .... ... ..... . 109
2. Eu posso fazer...... ... ............... ... ......... .. .. ......... ............. ...... 111
3 . Poder narrar e narrar-se ........... .... .. ......... .. .................... ...... 114
4. A imputabilidade .. .. .... .. .... .... ....... ........ .. .... .... ... ........ ..... ...... 119

. . .. .... ..... ....... . .... .. .... . . .. .... . . .. .... .. . .. .. . ... .. . .. .. .... . ... ..... ....Um percurso.. . .. . ... .... " O Espírito segundo seu conceito " . . ...... .. . Os paradoxos do dom e do contradom e a lóg ica da reciprocidade . . ... ... ....... .. .. .. . ....... .. ...... .. ... . ....... . .. . ....... 21 O 3. ... ... . .. . .... ... .. .. . 239 3. . .. ...... . ... ..... . "Quem" se lembra? . .......... ..... . ..... ....... .. .. . ... .. ...... .. .... ... .. . .. . .. .. ...... .. .. . . 138 4 Capacidades e práticas sociais .... . . . .. . 14 7 1. . .. Capacidades e capabilidades ... .... .. .... ... . .. ...... ... .. . " Constituição" .... ...... .. ....... ..... ... .. .. .. . . .... .. .... . . ........ ... . ..... . ....... .... ....... ... .... ..... . ....... . . .. . . .... . 126 3.. .. . . 196 2.. ..... .......... ... .... .. . 177 3 Hegel em lena: Anerken nung .. 203 2. .... . ........ . ... .. . . .... . . . .. ... ..... . .. . .. . .. ... ... ............ .. .. A t roca de do ns e o reconhecimento mútuo ...... .... ... ...... . ... .. ...... .... . . . ... .. . ... .. . . . . . . ... . . ....... . .. 123 1.. . .. .... .. . . ... . .. . . ... .. . . O momento bergsoniano: o reconhecimento das imagens ... ..... .... A anamnese . 21 5 5 A luta pelo reconhecimento e os estados de paz ... .. . . .. .. . .. . .... . .. . ....... .. . 130 4.... ... ... .. . .. Reconhecimento e identidades coletivas .. ... . .. 277 . . Um estado de paz: agápe .... .. .... . . .. .. . .. . .. .. ... .. . ...... .. .... 153 Terceiro estudo O reconhecimento mútuo 1 Da dissimetria à reciprocidade .. .. .... .... .... ....... . . .. 187 1..... .... . .. . . . ... .. ........ .. . ... .. . .. . . .... .. . .. ... . O t erceiro modelo de reconhecimento mútuo: a estima social . . ...... .. ...... .... . .... ..... .. .. 198 4 Reatualizações do argumento de Hegel em lena .... .... . ..... . ... 246 Conclusão .. . ..... . .. ... A luta pelo reconhecimento no plãno jurídico.... . ...... . ........ ........ . . ... . . . . 148 2. ... 151 3 .. ... . . ... .. . ..... ..... . .. . .... 259 Agradecimentos. 167 2 O desafio de Hobbes . .. 201 1. .. . . ... ... .. ..... . . .. . "O Espírito efetivo". .. ..... .. . .. .... .. .. ... ... . ... ... ... ..... . ...... .. .. . ...... . ........ . . ....... .. . .... 124 2... . .. .. ..... ..... .... ... .. . . ....... ...... ... . . . .. ... ..... . . .... .. . .... .... .. .. . ... De que me lembro? .. . .. . ... . ... 135 5............ .. . ...... A luta pelo reconhecimento e o amor.. ... . .. .. ....... .. .... . . . . .. .. ... ...... 234 2. ..3 A memória e a promessa .. 197 3... .. ....... .. .... .... · 275 Índice de nomes . ... Práticas sociais e representações coletivas ... . .. 233 1... A promessa .. . . . .... .. . ....

retomadas sob uma forma mais elaborada nos Husserl-Archiv ele Friburgo (Alemanha). retrabalhadas e enriquecidas. É fato que não existe uma teoria elo reconhecimento digna desse nome ao modo como há uma ou várias teorias elo conhecimento. Ora. Pu- blico aqui a versão francesa dessas conferências de Viena e Friburgo. no caso a língua francesa. elas acepções atestadas na comunidade lingüística reunida pela própria língua natural. Univ~rsidade rederai do Para 8lbliotec. essa lacuna surpreendente contrasta com a espécie ele coerência que permite que a palavra "reconhecimento" f igure em um dicionário como uma unidade lexical única a despei- to da multiplicidade que essa unidade lexical envolve. A pesquisa foi suscitada por um sentimento de perplexi- dade concernente ao estatuto sem ântico elo próprio termo "reconhecimento" no plano elo discurso filosófico. O contraste entre a dispersão aparentemente aleatória das ocorrên cias da palavra n o plan o elo discurso filosófico e 9 fi • •••••• .j ce~ttrar Prefácio ste ensaio consagrado ao reconhecimento provém ele três conferências feitas no Institut für di e Wissenschaften eles Menschens de Viena.

digna de oferecer a réplica à do plano lexical. É como se a heterogeneidade dos acontecimentos de pensam en- to que regem a emergência de novas problemáticas filosóficas tivesse como primeiro efeito dispersar as significações potencialmente filosóficas e con- duzi-las à vizinhança da simples homonímia. a dinâmica que inspira a pesquisa consiste em uma inver- são. Este ensaio nasceu de uma aposta: conceder à série de ocorrências filosóficas conhecidas da palavra "reconhecimento" a coerência de uma polissemia regrada. Essa dificuldade inicial. do verbo "reconhecer" de seu uso na voz ativa para seu uso na voz passiva: eu reconheço ativamente alguma coisa. a promoção do reconhecimento-identificação. ela é magnificada pelo efeito de 10 retardação suscitado pela decisão de começar a pesquisa por meio da ••••••• . A perplexidade inicial é substituída. que disse- li' mos ser honrada pela língua francesa. eu próprio. degrau após § degrau. do reconhecimento de si m esmo ao reconhecimento mútuo. em pri- meiro lugar. até a última equação entre reconhecimento e gratidão. o tipo de polissemia regrada proveniente do trabalho do lexicógrafo cons- titui a situação inicial de perplexidade evocada há pouco. por uma admiração pelo poder de diferenciação que trabalha a a: 8 linguagem no sentido inverso da expectativa de univocidade que motiva o (f) a: :. ainda que o pedido de reconhecimento possa aparecer na leitura como o pólo teleo- lógico do encadeamento dos usos filosóficos do substantivo "reconheci- mento" e do verbo "reconhecer". Em suma. Para concluir este argumento. A intro- dução deste ensaio é dedicada às hipóteses de trabalho que guiaram a construção do argumento do livro. a dinâmica que guia. que a língua francesa é uma das raras a honrar. é agravada pela comparação entre as acepções filosó- ficas da palavra "reconhecimento" atestadas pela história das idéias filo- sóficas. gostaria de dizer que. essa atração teleológica só se dá no plano do discurso fil osófico na medida em que há ao mesmo tempo uma resis- ~ ::?: tência criada pela preocupação de dar a maior envergadura possível à [j polissemia regrada que foi desenvolvida pela seqüência dos três estudos !JJ I z sobre o reconhecimento. pessoas.) profundamente a arte de nomear. ü a: Q uanto à equação final entre reconhecimento e gratidão. a transição que conduz da identificação de algo em geral ao reco- nhecimento por si mesmas de entidades especificadas pela ipseidade e. em segundo lugar. a saber. além disso. no próprio plano da gramática. por fim. eu peço para ser reconhecido pelos outros.

foi defendida? Ao dar o título de "percurso". ao preço elas transformações que pode- remos apreciar. Não é em minha identidade autêntica que peço para ser reconhecido? E se. o ~ rr: Q. ela permanecerá em cena até o fim. Assim. me reconhecerem como tal. a esse discurso. a questão da identidade é colocada em cena logo ele saída no discurso do reconhecimento. por sorte. de uma maneira ou ele outra. reconhe- ceram minha identidade ao me reconhecer? A aposta na qual este ensaio se baseia. en- fatizo a persistência da perplexidade inicial que motivou esta pesquisa e que não abole a convicção ele ter construído uma polissemia regracla que está a meio caminho ela homonímia e ela univociclade. UniversidMe Federai do Para identificação de alguma coisa em geral. 11 • •••••• . e não de "teoria". ele um discurso filosófico coe- rente sobre o reconhecim ento que seria o discurso do reconhecimento. minha grati- dão não será dirigida àqueles que.

a elo léxico da língua comum. A razão disso seria que estaríamos lidan- do com um falso verdadeiro conceito que oferece ao autor em busca ele novidade a armadilha de um verdadeiro falso tema? E. que ganhou for- ça uma primeira organização. com uma palavra explicando outra. com um sinônimo chamando um antônimo. E foi desse trabalho do polegar. a grande filosofia alemã dos séculos XIX e XX havia incorporado a pesquisa filológica à elaboração 13 . a palavra é recorrente em minhas lei- turas. E m que lugares? Aqui se oferece o socorro elos dicionários. feito de página em página. no entanto. ora aparecendo como um diabo inoportuno.. ora sen- do bem acolhida. Seríamos nós os primeiros a folhear desse modo os lé- xicos? Antes de n ós.__/ reputação filosófica tenha sido publicada sob o título O reconhecimento. e e e e e • .. Universidade Federal do Par BibUoteca Ce. Dediquei-me.•tral Introdução "' · eve existir u ma razão para que nenhuma obra de boa . a soletrar as significações segundo seu contexto sin- gular de uso na língua comum. como bom aluno de uma boa escola britânica da linguagem ordinária. até mesmo esperada nos lugares certos.

na ausência de qualquer apadrinhamento filosófico que estivesse à altura da amplitude do campo de suas ocorrências. com o bom professor Aristóteles na liderança. adiantando-se a todos. antes que o uso tivesse apagado o relevo dessas novas peças do intercâm- bio lingüístico. dependente de outra ordem que a prática lingüística. Esta parece ser a situação inicial que justifica que a pesquisa lexicográfica se ja levada mais longe que em u m prefácio con- vencionado e constitua enquanto tal a primeira fase de uma tentativa de agrupam ento semântico. E isso não é tudo: até no tratamento lexicográfico dos usos da 8a: língua comum a passagem de u ma significação para a outra é feita por oo meio de saltos imperceptíveis. a evidente polissemia da palavra se presta a um or- denamen to aceitável que não agride nosso sentimento de exatidão das palavras. com o princípio desses afastamentos resi- o(f) a: :::J dindo no não-dito da definição anterior sob o qual se dissimula a própria oa: w Q_ geração da seqüência ordenada de significações sob o regime do que acabamos de chamar de polissemia regrada. Por outro la- do. ela ocupou em minhas pesquisas um lugar inusual em razão da carência semântica que surpre- ende o pesquisador filosófico no início de sua pesquisa. É como se o vocábulo "reconhecimento" tivesse uma estabilidade lexical que justifi- casse seu lugar a título de verbete no léxico. Essa lacuna assim como o arbitrário controle que guia ~w a organização lexicográfica da polissemia reforçam a sensação de carên- 2 u cia semântica observável na temática propriamente filosófica do reconhe- w I z o cim ento. os pensadores gre- gos da era clássica. Será nesses jogos de afasta- 14 mentos que me concentrarei. E. de seus conceitos diretores. percor- riam como hábeis lexicógrafos o grande livro dos costumes. Embora a freqüentação dos léxicos não seja estranha às investiga- ções de sentido nos grandes canteiros filosóficos. Por u m lado. uma outra espécie de discordância surge na comparação de um lexi- cógrafo com outro. Um rápido percurso guiado pelos léxicos deixa uma impressão con- trastada. mas também faz justiça à variedade dos usos conceituais sem chegar a um desmembramento que se resolveria na confissão de uma simples hom onímia. Pode-se falar a esse respeito de uma polissemia re- grada da palavra "reconhecimento" em seus valores de uso. assim como no impulso do não-dito que os ••••••• . discordância que faz pensar que falta em algum lugar um princípio organizador da polissemia. apontando nos poetas e nos oradores o desenvolvimento de vocábul os apropriados.

sob a organização de Alain Rey. que. p.. "é de longe o melhor dicionário do franc ês clássico". o uso presente condensa três séculos de prática lingüística. ao qual se acrescenta a "Conferência de primeiro de março de 1880" ("Como fiz meu dicionário de língua francesa"). Estendido entre o arcaísmo e o neologismo. na qual Littré vê "uma inova. 135). por fim. profe- rida um ano antes da morte desse pensador laborioso e íntegro. Com o fim de colocar à prova essas sugestões arriscadas referentes ao princípio do regulamento da polissemia e ao domínio dos afastamen- tos e dos não-ditos que garantem sua transposição. e o Grand Robert de la Zangue françaíse em sua segunda edição. "Esse dicionário". Para nosso propósito. declara Littré no início de seu pre- fácio. segundo Alain Rey em seu prefácio ao Grand Robert. a distância que separa o Grand Robert do Líttré tem de ser relacionada aos programas respectivos desses dois tipos de "dicionários racionais". Universidade Federal do Para Biblioteca Ce: tra' faz saltar de modo tão hábil que a derivação parece ocorrer como um fluxo contínuo de significações. p. "abarca e combina o uso presente da língua e seu uso passado com o fim de oferecer ao uso presente toda a plenitude e a precisão que ele comporta" (Líttré. a constituição do "corpus da língua usual" (ibid. p . do século XVI ao século XIX. que havia colocado sob a égide de Auguste Comte sua pesquisa sobre o "bom uso" da língua francesa. O vocábulo considerado aqui será a palavra "reconhecimen- to". escolhi consultar e confrontar entre si duas grandes obras de lexicografia da língua francesa separadas por um século: o Díctíonnaíre de la Zangue françaíse. em segundo lugar. ~ ção que parece estar de acordo com certas tendências históricas elo espí- rito moderno" (ibid. à "citação regular e sistemática de ::J o oa: exemplos tomados dos melhores autores". 123). à . Os problemas mais importantes com os quais se confronta o lexicó- grafo concernem sucessivamente: à "nomenclatura das palavras". datada de 1985 . O programa do Líttré é exposto com rigor por seu autor no "Prefácio ao primeiro tomo". a saber. Poderíamos ter voltado até Antoine Furetiere e seu Díc- tíonnaíre uníversel. "classificação das significações das palavras". que examinaremos exclusivamente do ponto de vista dos programas lexicográficos respectivos. com os proble- mas aferentes à delimitação de um corpus finito. composto e publicado por Émile Littré de 1859 a 1872. com a questão da ordem o ·<>: Ü' a ser seguida pelas acepções. 11 6) .. 15 • •••••• .

126). e. a palavra se ~ flexiona ora para uma significação.2lissemia regracla. p. Voltaire não dizia que um dicionário sem citações é um esqueleto? a opinião ele Littré. aparecem propriedades totalmente 8I z o imprevistas" (ibid. não poderia ser arbitrária: "Não é de modo algum ao acaso que são geradas. significa- ~istintas e algumas vezes muito afastadas umas elas outras" (ibicl. Disso resulta que "as significações derivadas que se tornam o fato e a criação das gerações sucessivas. ). Aqui reside o segredo do que continuamos a chamar de _2. como freqüen- temente lhe censuram. sem dúvida. ao citar se classifica. p. Por isso a _arte da citação s~ so- o [j) 0:: J?r~p~e à da classific~çã ~ d~s sentidos. Embora a questão da nomenclatura não apresente nenhum proble- ma aqui. tanto no ponto ele partida como nas derivações: é essa regra que eleve ser descoberta" (ibid... o do bom uso. se afastam do ponto de partida. ora desenvolvendo o sentido próprio. a regra está em todos os lugares. A esse respeito. Com a _estabilização dessa série de significações derivadas contri- buem os "exemplos extraídos elos autores clássicos ou outros". isso não é impor um uso restritivo. 127). no emprego de uma palavra. por um lado. Comento desse modo a frase tão importante do \ Littré: "É essa regra que deve ser descoberta". na verdade isso é explorar acepções e nuanças que escapam ao uso ela conversação comum. É exatamen- te sobre essa observação de Littré que se insere minha sugestão de uma derivação dos afastamentos ele sentido a partir do não-dito implícito na definição precedente. p . declara Littré. /egracla por uma história l ordenada do uso. ora o sentido metafórico. diria eu. é a suposição da ordem ê!e derivação que atribui lugar aos exemplos. confiada à perícia do lexicógrafo. não têm nada de arbitrário e de desordenado" (ibid. Littré pode concluir.). É com confiança que Littré conjura a ameaça ele caos: "Assim. ora para outra. Essa filiação. 137). A ordem de ~o. diz ele. o mesmo não acontece com a relação entre a classificação das significações e o recurso aos "exemplos tomados dos livros". "é natural e portanto su jeita a condições regu- lares. pensando em seus caros clássicos: "Sob os dedos que a manuseiam imperiosamente. sem que perca seu z UJ ::> valor próprio e seu verdadeiro caráter. a literatura é ao mesmo 8a: tempo um amplificador e um analisador dos recursos de sentido disponí- 8 veis no uso ordinário da língua comum. tanto na origem como na descendência" (ibid.. i30:: UJ Q_ por outro. no tom de orgulho modesto que é o seu: 16 "Não pretendi nada menos que oferecer uma monografia de cada pala- •• • . mas se afastam dele seguindo procedimentos que.

reconhece-se uma deusa. um verbete no qual tudo o que se sabe sobre cada palavra quanto a sua origem. uma pessoa ou · uma coisa jamais vista antes. Deus. segundo uma ordem crescente ele afastamento. "RECONHECER: l. 23! ) signi- ficações enumeradas. Que significação é considerada a primeira? A que parece mais "na- tural". E o que ocorre com a monografia sobre o vocábulo "reconhecer". embora a definição evoque a iniciativa ela mente ("colocar novamente na mente"). tomado à primeira vista no sentido temporal ele repetição. Ela deve ser construída procurando-se nas dobras ele uma definição a chave ela derivação da seguinte." O não-dito reside na força elo re-. por meio do prefixo "re-". considerado alternadamente elo ponto ele vista ela derivação elos sentidos e do recurso às citações? Seguirei o conselho ele Littré sobre a regra que "deve ser descober- ta". a saber. O que permanece como não-dito aqui é a fiabilidade elo sinal de reconhecimento. rei. Conhecer por algum sinal. o •<( (. o quid reconhecido permanece como não- distinguido com os exemplos que alinham planta. ela marca. provar quem se é por meio de indicações certas". por alguma indicação. Colocar nova- mente na mente a idéia ele alguém ou ele algo que se conhece. da indicação por 17 •• ••••• . Eu reco- nheço o sinete. sua forma. Entretanto. Esse último silêncio é rompido na definição seguinte. ela deixa na indistinção o quid elo reconhecido como tal. Ob- serve-se ainda que não é dada uma sorte distinta sob essa segunda rubrica a "fazer-se reconhecer. por alguma marca. Pas- sa-se assim para a ação de reconhecer o que nunca foi visto: "2.} ::::J Esse tipo de iniciativa ou essa tentativa exigirá ele nossa parte uma análise o o a: particular do "fazer-se reconhecer" no percurso destacado que seguirá a ~ tentativa de domínio lexicográfico. Isso ainda não havia sido feito" (ibid. Além dis- so. Nada é dito tampouco sobre as marcas por meio das quais se reconhece alguma coisa. Ela se dissimula por trás da simples sucessão das 23 (sim. deusa.. 167). Reconhecer uma planta segundo a descrição feita pelos autores. Passa-se assim para a idéia de reconhecer por meio disto ou daquilo: reconhecer uma determinada pessoa em um deter- minado indivíduo. vra." A idéia ele marca por meio da qual se reconhece terá um lugar considerável na se- qüência de nossos trabalhos. Essa quase evidência será contestada pelo Le Robert. a que provém ela derivação de "reconhecer" a partir ele "conhecer". isto é. sua significação e seu emprego fosse apresentado aos leitores. Reconhecer pessoas por sua voz. por seu porte. p. Por sua atitude.

O sentido nº 8 pode ser consi- derado a maior reviravolta na ordem de classificação das significações do vocábulo: "8. mas também fazer menção a ela. "quer se trate ele lugares e ele obstáculos. 18 até mesmo de reticência são assim incorporadas ao perímetro ele sentido." O não-dito reside na restrição mental subj acente à forma negativa: "não reconhecer senão". De admitir a se submeter há um deslize que mal pode ser 8I z o sentido. As idéias ele marca. a perceber. no sentido forte de "reconhecer por". Essa observação eleve ser juntada às nossas notações preceden- tes suscitadas pelo verbo "tornar a pôr na mente". o verbo "ch egar" in- sinua a menção de uma dificuldade em forma ele h esitação. meio dos quais se reconhece algo ou alguém. Esse filósofo reconhecia a existência de átomos" etc. a recusa o w CC não estão longe. cu jas marcas são expostas. "Percorrer" cede 1ugar a "explorar". Reconheceu-se sua inocência. aceitar como verdadeiro. ••••••• . a descobrir a ver- dade de algo. Admitir. implícita !'la idéia ele admitir: "submeter-se à autoridade de uma 2 pessoa" (nº 9) . Poder-se-ia não reconhecer. Em compensação. Além disso. Quanto à verdade. de perigos" (sentidos 5. A partir desse lado árduo. Reconhece-se por esses indícios a salubridade da água. Essa alusão ao lado que podemos chamar ele árduo do reconhecimento é definida no uso seguinte: "4. como incontestável. A referência à verdade elo sentido nº 5 sai enriquecida de sua ligação com a alusão à dificuldade do sentido nº 6 e dos seguintes: admitir é colocar um fim à h esitação referente à verdade. o lado confissão elo admitir passa para oo o primeiro plano. Chega r a conhecer. "em tal qualidade". elo reconhecimento. A denegação. não mais ouvir. A nuança sugerida pelo ato de admitir é definida na referência ulterior à autoridade ele al- ~ WJ guém. o que permite retomar o sentido nº 2 sobre os sinais por o ~ ::) meio dos quais se reconhece e o sentido nº 3 sobre a dimensão de verdade oa: UJ a. de verdade. Reconhecer com a nega- ção algumas vezes significa não ter mais consideração. ele resistência. Reconhece-se sua má-fé" etc. No entanto. Ele não reconhece outra lei senão a de sua vontade. é por m eio dessa idéia intermediária que se passa ao conhecim ento ativo de algo sob o signo da verdade: "3 . 7). Roça-se aqui nessa ope- ração implícita por meio ela qual u m afastamento é ao mesmo tempo posto e transposto. 6. Com a idéia de ver- dade. ela pode ser factual ou normativa: isso tampouco é indife rente. mas também de dificuldade. as significações se- guintes se dispersam na direção da descoberta e da exploração do desco- nhecido. tacitamente se apresenta um aspecto de valor que posteriormente será submetido à tematização. de atraso. difícil. não se submeter.

A primeira delas confirma a primeira definição elo reconhecer: "Que se colocou novamente na mente a imagem. e as variáveis pronominais desses verbos. O vocábulo "reconhe- cido" continua na trilha elo conhecido em favor elo "colocar-se novamen- te". aparentemente. "Reconhecer-se". fa lhou". Vem na quarta posição a expres- são "reconhecido como".> é precisam ente a si mesmo que se reconhece. não acentuado pelo Littré. atinge-se o tema da admissão: "admitir.Seguem-se as modalidades especializadas do "reconhecer por". Isso foi antes de Bergson! Vem em anexo ao primeiro sentido. A terceira confirma a admissão (nº 15). como se uma dívida fosse restituída 1• Essa tabela de derivações pode ser simplificada? À primeira vista parece que sim: se se consulta o verbete "reconhecido" . particípio passado do sentido nº 3 elo infinitivo transitivo: "4. no sentido de encontra r uma seme- lhança em um retrato. a não ser que se trata ele a: ~ si m esmo. Além elo uso religioso ela "declaração de fé" (nº 10). confessar" (nº 15). mas graças à m arca de um lugar. por sua marca escriturística: uma assinatura suscetível de ser reconhecida enquanto tal. admissão dirigida a esse alguém.. Percebe-se a conexão com o que pre- cede. não é nada se se leva em consideração o reconhecimento ela lembrança.o reconhecimento-gratidão . espontâneo. no qual o reconhecime nto reitera o o •<( conhecimento: "colocar novam ente na mente um lugar que se conheceu e no qual se está". "Reconhecer. em todos os sentidos ela palavra. Ter reconhecimento por. o reconhecimento como gratidão: " 16. Disso decorre a acepção seguinte. a idéia".portanto o quid elo reconhecer . uma dívida. Não é apenas alguém mas um direito que é assim reconhecido. Ac rescenta-se o movimento refl etido ela direção rumo a si mesmo. Nosso con- vidado-surpresa . 19 •• ••••• . Do m esmo modo. "reconhecer-se como" está ligado à admissão: é admitir "alguma coisa de si" (nº 21). "admitido. Littré colocou no final da lista os usos que. talvez u ma falta. <. Fechou-se o círculo? Não. observa-se que apenas cinco acepções são mantidas. gracioso.aliás não convidado na maior parte das línguas que não o francês -. que salienta a admissão ela falta: "22. diferem apenas gram atical- m ente elas significações enumeradas. ôo se em" não acrescenta nada a reconhecer graças a alguma m arca. confessado". Conhecer que se pecou. Surge no final elo percurso o hóspede inesperado .volta ao modo da re- l. coloca no caminho ela gratidão sob a condição ela adição ela idéia ele um movimento ele retorno. A segunda ocorrência confirma a acepção nº 5: "admitido com o ver- dadeiro". Que foi declarado possuir uma certa qualidade". um espelho (é um anexo elo sentido nº 2: reconhecer alguém devido a marcas) . a admissão da dívida em relação a alguém. quer se trate do uso militar (nº 12) mas de modo mais notável do uso do reconhe- cer na ordem da filiação : "reconhecer um filho (natural)". enfatizado. um erro. demonstrar reconhecimento".

o trabalho ele derivação e o ele a: oo exemplificação verificam de modo excelente a concepção ela filiação das o ~ signifi cações sob a égide ele um vocábulo lexicalmente distinto. aos quais se acrescentam os sermonários Bos- suet. do reco- nhecer no ser reconhecido. D 'Alembert. Littré não havia previsto que seria elo lado ela transformação elo ativo no passivo. Continuaremos ainda um pouco com Littré . Mon- tesquieu. Ora. que sopraria o vento ela importante revolução que viria a abalar a ordem tranqüila ela derivação no nível ela linguagem comum. § Assim. Ve- rifica-se assim a idéia-mãe segundo a qual o uso literário da língua con- tribui para a triagem elas significações pelo efeito de reforço. citados principalmente por seu prestígio literário. se nos permitem dizer. 2z É tarefa. Diderot. trata-se da língua escrita. entre os quais os principais são: La Fontaine. caros ao discípulo ele Auguste Comte: Voltaire. com o tema hegeliano ela luta pelo re- conhecimento do qual o "ser-reconhecido" é o horizonte. Como Littré anuncia no Prefácio e na Conferência. Boudaloue. Com efeito. Mme ele Sévigné. "natural" em seu início. ele acentu a- ção ou. esclare- 8I z cer as tensões e reviravoltas presentes no uso lingüístico. Moliere. estreitamente combinados. Sacy e depois alguns "filósofos" das Luzes. Racine. A filiação :::> ü a: w 0. ela polissemia regracla. no sentido em que é a competência lingüística dos locutores. La Bruyere. pode ser. Corneille. e mais ainda a dos escritores. O efeito sobre a polissemia ela palavra é ao m esmo tempo ele con centração e de desenvolvim ento mantido nos limites ele uma coa- bitação entre significações afastadas pelo próprio trabalho lexicográfico. ele uma reflexão crítica de segundo grau. elevemos dar conta ela montagem elos exemplos no processo ele derivação. Buffon. a continuação deste trabalho provará que foi exatamente n esse ponto que ocorreu a principal revolução con- ceitual no plano elos filosofemas. ele exaltação analítica do processo ele derivação. compensa: "recompensado" é aquele que recebe sinais de gratidão. Surpreendemos nesse ponto o afastamento elo qual teremos de dar conta entre o modo ele derivação lexicográfico no nível do uso da língua e a reconstrução. segundo Littré. que 20 deixa operar uma espécie ele instinto que torna atento à justeza no uso •••••• • .. e mais precisamente ela elos autores clássicos dos séculos XVII e XVIII. Fén elon. pois. armada ele sabe- w 2 res constituídos em lugares diferentes da conversação ordinária. Nos- sa primeira impressão de redução da amplitude do conceito na verdade é falaciosa: trata-se apenas ela m enor freqüência elo reconhecer sob a for- ma passiva elo ser reconhecido. em filosofemas.

XXXIII.). "o centro vital ele um dicionário ela lín- gua continua a ser. é verdade. A definição continua a ser.das palavras. t. Uma primeira diferença em relação ao Líttré diz respeito à ad junção de considerações analógicas à classifica- ção elos sentidos ele uma palavra com base em sua definição. Desse ponto de vista. qualquer que se ja a importância elos exemplos. Mas nesse quadro modesto cada u ma elas definições sucessivas e numeradas em uma ordem tem o rigor de uma perífrase "sinônima do definido". o Le Robert ainda é h erdeiro elo Líttré.)o ele sentido entre as palavras. "o centro vital ele um dicionário ela língua" 2. p.). esclarecendo e explicando-o. É sobre esse alicerce que se acrescenta o sis- tema analógico capaz ele completar a definição pelo recurso às relações o •<l: (. ecl. fazendo assim elo dicionário uma "imensa 3o rede representativa das relações semânticas no léxico de nossa língua". a definição" (ibid. 21 •• •••••• . a: ~ 2. O dicionário apresenta-se como "alfabético e analógico". Alain Rey. Sugeri que é nas dobras da definição anterior que se dissimula o não-dito elo qual a retomada pela definição seguinte assegura a aparência ele deslizam ento que dá a coabitação ele tantas significações diferentes sob a égide ele um m esmo vocábulo. Le Grand Robert. pref. Certamente o lexicógrafo não tem "a preten- são ele construir os conceitos e a imagem do mundo". I. A relação ele u ma palavra com as outras palavras evocada pela idéia ele analogia se acrescenta assim à delimitação interna ele cada uma elas significações que desenvolvem sua polissemia. 2. Ele se limita are- fletir a organização semântica ela linguagem por meio ele uma série ele enunciados em língua natural segundo uma retórica "inteiramente didá- tica em seu espírito" (ibicl. O exame desse enigma estará no âmago ela interrogação sobre a transição entre semântica lexicográfica e semântica filosófica. A comparação anunciada entre o Le Grand Robert de la Zangue françaíse e o Líttré evidencia as inovações decisivas ele uma obra um sé- culo posterior à sua irmã mais velha. Ainda persiste um enigma: o que ocorre com o espaçamento entre as definições sucessivas que o grafismo do léxico impresso enfatiza por m eio do signo convencional da enumeração? Esse espaço é ao mes- mo tempo a separação que a escrita do léxico transpõe ao passar de um sentido para o sentido seguinte. Essas definições também pretendem cobrir todo o de- finido..

clir-se-á que às relações sintagmáticas impostas pelo contexto lingüístico acrescentam-se relações paradigmáticas que colocam no ca- minho da elaboração de um verdadeiro Begriffssystem. ponto nevrálgico da lexicografia. ele P. Em um vocabulário técnico tomado da semiótica da segunda metade do século XX. ao contrário de seu predecessor. assim. a "literalidade elo exemplo". o Le Robert dá a palavra a eles e aos autores que prece- dem imediatamente a edição elo dicionário. que não citava os contemporâneos. como z 8 teria dito o Littré. as idéias-mãe são reduzidas a três: 0: w Q_ "I. são assim reduzidas a um pequeno número. mais modestamente. Boissiere.) prova para as concepções lexicográficas. g No que diz respeito ao vocábulo "reconhecer". orgulhar-se de propor ao público "as maiores cole- tâneas de citações literárias e dialéticas". percepções que se referem a ele. assim como o Littré. Um a outra inovação. particularmente. principalmente literárias. identificar. A despeito dessa amplia- ção. Apreender (um objeto) pela mente.. •••••• . pelo pensamento. elas compõem a polissemia irredutível do vocábulo. o Le Robert assume. em curso ele publicação: uma melhor articulação entre "exem- plos de uso" e "citações referenciadas". tomadas UJ 0: oo em conjunto. A inovação mais significativa refere-se à classificação dos sentidos. distinguir.... al- meja servir não apenas ao bom uso mas também à variedade elos usos ordinários com a ambição de oferecer desse modo uma "imagem social" (p. O Robert. co- 22 nhecer por m eio da memória. ele 1862. O sistema linear de derivação do Littré. é substituído no Robert por uma arquite- tura hierárquica dos empregos em forma de ramificação. Foi assim que ele criou uma m argem filosófica que flanqueia os vocabulários especializados dos sabe- res científicos e técnicos que se tornaram usuais e familiares . o Le Grand Robert se limita à identificação ele pequenos universos ele discurso dignos ele presidir uma "pedagogia ele vocabulário". XVIII) dos mundos do cotidiano. A esse respeito. Le Dictionnaire analogique de la Zangue française . comum ao Grand Robert e ao Trésor de la Zangue française. elo qual se aproxi- mam Hattig e Hartburg e. 8I bulo ao hierarquizar os níveis d e sua constituição. As idéias-mãe. tal como procurei reconstruí-lo.oz w ção oferece uma melhor legibilidade à composição semântica do vocá- :. no cor- po elo texto esses exemplos e citações recebem uma numeração diferente. com a abertura compensando a exatidão. pelo julgamento ou pela ação . que serve aqui como a: ::> (. Mas. Essa apresenta- . ligando entre si imagens. O Robert e o TLF podem.

uma ação)" . irredutível à simples reiteração de u ma experiência anterior. A ordem na qual são enumeradas as significações convida a fazer um percurso não muito diferente daquele. do simples já visto. ação". Ouanto à transição da primeira idéia-base para a segunda. a primeira definição-pivô marca a separação do vocábulo "reconhecer" em relação ao conhecer. ::J o oct: CONHECIME TO: I. três gerações depois. a passagem da idéia de apreender 23 ••••••• . Na continuação que se segue imediatamente. dis- tinguir. pela idéia intermediária de m arcas ele reconhecimento. Demonstrar por meio de gratidão que se está em dívida com alguém (sobre alguma coisa. Essa imprecisão diz muito sobre a dificuldade de conceitualização elo termo. "apreender. identificar" etc. ela é operada. III. já vivido. Essa é uma indicação preciosa para o trabalho ulterior do conceito. a saber. Em compensação. Esse segundo componente da definição permite que o substantivo diga o que o verbo dissimula. e o Líttré permanece sensível à filiação no nível elo significante e o Robert vai diretamente à inovação conceitual expressa pela série de verbos. e isso ao contrário do verbo "reconhecer". cer". propos- to pelo Líttré. Aceitar. ligar. I II. o termo "conhecer" é reintegrado na seqüência dessas operações em favor ela tríade "memória. I' . O fato de reconhecer (l) : o que serve para reconhe. sob a superfície elo afastamento de sentido. a influência do que a sociologia das representações poderia catalogar como ideologia racionalista de m atiz mais kantiano ou neokantiano que positi- vista. o •<{ <> to". levada ao primeiro plano pela primeira definição do substantivo "reconhecimen. do pen- samento. Entretanto. tampouco "identificar". entre um léxico e o outro. julgamento. "aceitar. lê-se aqui: "RE. considerar verdadeiro". No entanto. Não se pode deixar de observar a imprecisão dessa definição primeira cuja articulação conceitual já é considerável. com efeito. essencialmente linear. Já é todo um universo de pensam ento que se deixa descobrir por ocasião de uma definição que supostamente tem de dar conta de um querer-dizer aceito pela comunidade lingü ística. a primeira definição elo Robert faz referência a um ato da mente. não está proibido indicar nesse deslocamento inicial. considerar verdadeiro (ou como tal). f- ?. se- parado de "distinguir" por uma simples vírgula. Ela comporta uma ramificação interna expressa em sua cuidada grafia: "ligar" não é a m esma coisa que "distinguir". termo sepa- rado do precedente por um ponto-e-vírgula.

ele um modo mais interno que externo. com o pensamento . que desenvolve as implicações ma. A ordem alfabética já é estocástica. ao inglês e ao alemão. uma imagem [ . ter por verdadeiro. julgar (um obje- to. Trata-se. . trata-se então ele muito mais que urna relação entre espécie e gênero. encontrar. com efeito. A subordinação desse sentido princeps constituirá um problem a considerável para a semântica conceitual após Bergson. A citação feita a Bergson no corpo elo verbete já faz todo o aparelho nacional entrar em uma problemática conceitual que a semântica lexical não basta para resolver. Quanto à terceira idéia-base. Esse é o enigma resi- dual da estrutura lexical elas palavras. 2. Mas.). ela provém tacita- mente da precedente por meio ela idéia de dívida. uma percepção.is importantes elo sentido genérico: "Identificar (alguma coisa) estabelecendo uma relação de identidade entre um ob jeto. Entretanto. pensar. ela ainda per- man ece descontínua. identificar e também subsumir. As analogias são abundantes (conhecer. elas quais o léxico faz a nomenclatura e a análise. que é como o não-dito da idéia prévia ele aceitação. A derivação interna elo sen- tido ele cada palavra também o é. agradecer". no presente ou na lembrança elo passado. por meio da idéia de sinal de reconhecimento. por extensão. O exame lexical do substantivo paralelo "reconh ecimento" acrescenta o caso da identificação mútua: "O fato ele reconhecer-se (I. um conceito) como compreendido em uma categoria (espécie. por m eio ele um caráter comum já identificado. aprovar. e um outro (uma outra). de se reconh ecer após uma longa sepa- ••••••• . para a de considerar ver- dadeiro. gên e- ro) ou como incluído em uma idéia geral". ele identificar- 24 se mutuam ente e. l e 2). ser devedor. Se agora consideramos as espécies e subespécies elo sentido. como já dissemos. pois o alguma coisa é alguém e esse algu ém é um outro ou si mesmo. ele algo totalmente diferente com o sentido I. estocástica de alguma maneira. . as arbo- rescências m ais ricas se apresentam no sentido II. é o reconhecimento como recordação. um objeto com a mente. verificar etc. admitir. recolhi- mento. Tem-se então a corrente: "aceitar. cuja complexidade originária salienta- mos. "reconhecimento" no sentido de gratidão. presta-se a uma decomposição interessante qu e coloca à frente ela série I a idéia ele pensar (um objeto presente) como já tendo sido apreen- dido pelo pensamento. por mais comprimida que se ja a derivação. desde que a verdade presumida con- sista em um valor que exija uma aprovação na forma de admissão. . estranha. o sentido-pivô I.. ele admissão. ].

Vem à mente a confissão: "Admitir. Como dissemos antes. além de pelas relações analógicas. de idéia-ponte. as arborescências da idéia-base II são muito ricas. o sentido de "procurar conhecer. É nesse mesmo perímetro de sentido que é introduzida a marca por meio da qual se reconhece: "Sinal ele reconhecimento. confessar. Seguem-se numerosos anál~gos introduzi- elos por uma dupla flecha: "admitir. 3: "Reconhecer um D eus. É. confessar qu e se cometeu (um ato condenável. aceitar apesar das reticên- cias". determinar" (nº 6). aceitar. por meio ele uma espécie de personalização ela confissão que se passa ela idéia de admitir no sentido ele confessar para a ele admitir (uma pessoa) como ch efe. a referência a alguma superioridade. U m passo a mais é dado com o sentido nº 4: "Admitir como verda- deiro após ter negado. Uma filosofia do reconhecimento dará a essa significação subordinada uma amplitude cujo lugar em um espaço de sentido mais vasto o léxico se limita a marcar. O reconhecimento no sentido jurídico elo "reconh ecer um direi- to" (nº 7) é mais difícil de subordinar e ele coordenar. ~ balho conceitual aqui exigido referente a essa derivação. pelos exemplos 25 •••••• . ainda enrique- cida e complexificacla. por extensão. Esse será o nosso farelo ao longo ele nossas reflexões sobre a autoridade. uma falta)". pois. considerar verdadeiro. 2: "Admi- tir (uma pessoa) como chefe. implícita o •<( <> ::l na idéia ele considerar verdadeiro. acusar". É considerável o tra. com as idéias con exas de desconhecido. Essa alusão à h esitação. como m estre. a reticên- cia prévia. uma fé. parece estar subentendida uma refe- rência que nos criará obstáculos e que permanece aqui como não-dito. em favor ela idéia de pesquisa (nº 5). uma crença". por meio elo qual pessoas que não se conhecem (ou que não se vêem há muito tempo) podem se reconhecer" (I. ele perigo. Mas é somente por um verdadeiro salto que se passa para o sentido II. será para nós particularmente digna de desenvolvimentos que salientam o atraso. 2). a hesitação. como mestre". apreender pelo pensamento etc. A derivação parece ocorrer por meio ela idéia ele legitimidade e ele superioridade.. lan- çada entre a primeira idéia-base. o de meditação implícita. dois deuses". e a segunda. ou após ter duvidado. ao atraso. M as pode-se desde já atribuir a esse "sinal de reconhecimento" muito mais que um papel ele caso derivado secundá rio. com a verdade posta tacitamente como o o um valor cuja superioridade é simplesmente moral. endossar. seguido elo importante análogo "confessar": "reconhecer uma confissão. a saber. e. para o sen- tido II.ração" .

ele aperfei- çoar o trabalho lexical. elas representações e u ' 5! n em m esmo em uma história elas idéias. O reconhecimento ele dívida. Essa tentativa não conduz a lugar al- gum. no plano dos filosofemas. Disso resulta que o afastamento entre os valores de o § uso elos vocábulos ele uma língua natural e as significações geradas em u ~ seu âmago pela problemática filosófica constitui em si m esmo um pro- blema filosófico. O que é a virtude. é o mais próximo ela terceira idéia- base. a ~ opinião. de qualquer modo. de um direito. última especificação designada elo reconhecimento-admissão.. o Begriffssystem. por exemplo preenchendo o vão entre as defini- ções parciais por meio elo acréscimo de novas significações tomadas como o não-dito da definição anterior. um sujeito? O que é o LW ô WJ a príorí? O que é o pensamento? A história dessas questões tampouco se ~ deixa inscrever em uma história das m entalidades. a verdade? O que é um objeto. ••••••• . A filosofia não provém ele um aperfeiçoamento do léxico voltado para a descrição da linguagem ordinária segundo a prática comum. ainda incoativo no plano lexicográfico. a não ser a reescrever infinitamente o dicionário. Essa será para nós a maior tarefa na tentativa ele compor. de uma assinatura. E uma história filosófica do ques- g tionamento filosófico. e citações referidos. a coragem. o saber. per- 26 manece imprevisível enquanto acontecimento do pensam ento . ele "admitir oficialmente a exis- tência jurídica ele" (nº 7). Pense-se em Sócrates interpelando seus concidadãos com perguntas elo tipo "o que é . Ela provém ela em ergên- cia ele problemas propriamente filosóficos que contrastam com a simples regulação da linguagem ordinária por seu próprio uso. o reconhecimento-gratidão. quer se trate de um governo. Mas antes disso perfila-se o enigma elo conceito ele autoridade subjacente ao reconhecimento no sentido de "re- conhecer formalmente. de um herdeiro. da idéia de reconhecimento. Uma pergunta surge ao final desse percurso lexicográfico: como se passa elo regime ele polissemia regracla elos vocábulos ela língua natural para a formação ele filosofemas dignos ele figurar em uma teoria elo re- conhecimento? É preciso renunciar ao projeto.. juridicamente". ?". a piedade? A separa- ção torna-se completa em relação ao uso familiar com questões de eleva- do grau como as seguintes: O que é o ser? O que é o conhecimento. à primeira vista sedutor. O surgimento ele um problema.

um sistema ele derivação ele uma complexidade.do 27 •••• •••• . Num olhar em sobrevôo. atualmente em plena expansão. na primeira edição ela C rítica da razão pura. ele realização. distingu em-se sumariamente ao menos três focos filosóficos que parecem não possuir qualquer referência comum. reconnaíssance? A problem atização filosófica parece desconcertar todo empreendimento que vise produzir. o ·« o ::J co. Por fim. a problematização filosófica parece contribuir para um certo deslocamento ela ordem de derivação lexicográfica. datando ela época da Realphílosophíe ele Hegel em Iena. Com efeito. no plano filosófi. É no quadro ele uma filosofia transcendental que pergunta pelas condições a príorí ele possibi- lidade do conhecimento objetivo que uma significação filosófica pode ser atribuída à recognição kantiana. em uma filosofia próxima ela psicologia reflexiva. a Anerkennung hegeliana e pós-hegeliana. que o reco- nhecimento elas lembranças torna-se. que a língua francesa coloca sob o mesmo vocábulo. ~ Minha hipótese ele trabalho se baseia na convicção ele que o filósofo não eleve renu nciar a constituir uma teoria . e assumir formas. Esse efeito ele deslocamento. sob o vocábulo Anerkennung. A razão desse estado ele deslocamento claramente tem ele ser procurada elo lado elas problemáticas então dominantes em cada momento. previam ente constituída como idéia. O foco bergso- niano. mas o ela efetuação "real" ela liberdade. sob o vocábulo Rekognítíon. que. por fim . o foco he- geliano. preocupada em reformular os termos ela velha querela elas relações entre a alma e o corpo. fazendo par com a sobrevivência elas próprias lembranças. em Hegel. salta aos olh os até mesmo elo ob- servador m enos experimentado.digna desse nome . com o "reconhecimento elas lembranças". um problema impor- tante. que se tornaram familiares para nós. o reconhecimento pode ganhar um lugar nesse processo ele efetuação. com Bergson. O caráter descontínuo desses acontecimentos elo pensamento aumen- ta ainda mais nossa perplexidade diante ela plausibiliclacle ele nosso em- preendimento. ele u ma articulação o o e ele uma congruência comparáveis às que o lexicógrafo reconstitui. O foco ele sentido kantiano. é no contexto que não é mais o ela crítica ela razão. ele luta pelo reconhecimento. E. que explica amplamente a ausência ele uma grande filosofia unificada elo reconhecimento. Também é. em segundo lugar. o reconhecimento bergsoniano. de exigência de reconhecimento. Que relação pode existir entre a recognição kantiana. A tal ponto que parece ser abolida a geração que mantinha próximos no âmbi- to elo mesmo vocábulo os sentidos aparentemente mais afastados.

objetos. Colocando em ação essa convicção. Será um trabalho comparável sobre o implícito e o não-dito no plano conceitual que tentaremos fazer. Essa inversão no plano gramatical carre- garia a marca ele uma inversão de mesma amplitude no plano filosófico.falamos em implícito. com a esperança ele compensar o efeito inicial de deslocamento produzido pela problemati- zação.: ü um domínio intelectual sobre o campo elas significações. história completada pela elas obras e das doutrinas. formado na disciplina da história filosófica dos problemas. pedir para ser reconhecido.. um claim. em um grau superior de comple- xidade. que r ele requ eira procedimentos e institu ições que elevam o reco- () a: u. ~ UJ Reconhecer enquanto ato expressa uma pretensão. em não-dito - que garantem a transição entre uma definição e outra. compor. das asserções UJ zI significativas. No pólo oposto da trajetória. um outro. a solicitação ele reconheci- C> (_) UJ 0: mento expressa uma expectativa que pode ser satisfeita somente enqu an- oo to reconhecimento mútuo. reconhecimento.J nhecimento ao plano político. O filósofo pode encontrar um encorajamento no lexicógrafo que está em busca das articulações .ser reconhecido. a. seja na voz passiva . uma corrente de significações con ceituais na qual seria levado em consideração o afastamento entre significações regidas por problemá- ticas h eterogêneas. a si mesmo. Essa inversão é tão considerável que suscita uma pesquisa própria 28 que diz respeito às significações interm ediárias. M i- nha hipótese é a ele que os usos filosóficos potenciais elo verbo "reconhe- cer" podem ser ordenados segundo uma trajetória que vai elo uso na voz ativa para o uso na voz passiva. pessoas. um ao outro . a saber. por um efeito de concertação entre filosofemas tornados con so- nantes pelo trabalho sobre as transições. ele exercer ::. É função dessas articulações ao mesmo tempo criar e transpor os afastamentos dissimula- elos sob a aparência ele uma geração contínua ele novas significações a partir elas precedentes. minha hipótese ele trabalho so- bre uma possível derivação elas significações no plano do conceito encon- tra um encorajamento e um apoio em um aspecto significativo ela enun- ciação do verbo enquanto verbo. seu emprego se ja na voz ativa - reconhecer algo. qu er este permaneça como um sonho inaces- o(f) a: :::J sível. sobre as quais dizíamos •••••• . É responsabilidade de um filósofo-pesquisador. teoria na qual seriam ao mesmo tempo reconhecidos e transpostos os afastamentos de sentido pelo que se pode chamar de traba- lho da questão.

Desse modo. conhe- cer por m eio da memória. e em conjunção com a predominância progressiva da problemática do reconhecimento mútuo. pelo pensamento.terão à sua volta múltiplos cumes demarcando a transferência do ato positivo de reconhecer para a solicita- ção de ser reconhecido. que se baseava em um as- pecto gramatical da enunciação considerada em sua forma verbal. O caso da recognição kantiana será exemplar e. pico bergsoniano. em minha opinião. os empregos considerados pouco familiares à reflexão filosófica clássica ou até mesmo francamente excêntricos em relação à filosofia ensinada revelar-se-ão passadores de sentidos particularmente eficazes. os três picos cujo perfil traçamos rapidamente .que geram afastamentos que elas próprias contribuem para transpor. Mas há uma razão suplementar. distingu ir.pico kantiano. de Descartes. a espécie de domínio próprio do ato de reconhecimento não difere de modo decisivo do que está ligado ao verbo "conhecer" na voz ativa. Ocorrerá até mesmo que questões aparentemente muito afastadas dos percursos filosóficos mais freqüentados desempenhem um papel importante na construção da obra concertadora que mereceria ser chamada de teoria do reconhecimento. o reconhecimen- to adquire um estatuto cada vez mais independente em relação à cognição como simples conhecimento. identificar. Desse ponto de vista. Recordemo-nos da definição do primeiro sentido-pivô no Robert: "Apreender (um objeto) pela mente. para demorar- me no primeiro estágio de nossa investigação. O próprio lexicólogo nos a juda a dar esse passo. as aparições furtivas do vocábulo "reconhecer" na versão francesa das Meditações. antes de Kant. os traços que legitimam o uso do termo "reconhecimento" em certos contextos se- rão. Essa inversão não pode deixar de afetar o domí- nio da operação designada pelo verbo. Essa razão está ligada a uma hipótese complementar da precedente. Ela deriva da hipótese inicial do seguinte modo: o emprego do verbo na voz ativa parece estar ligado a operações intelectuais que carregam a marca de uma iniciativa da mente. pelo julgamento ou pela ação". percepções que se referem a ele. enu nciado pelo léxico sem consi- deração por sua relação com a voz ativa ou passiva. No estágio inicial do processo. pico hegeliano . Essa nova hipótese diz respeito ao teor de sentido das acepções do vocábulo. por causa disso. Contudo. ligando entre si imagens. Uma outra implicação de nossa hipótese de trabalho: nessa inversão da voz ativa para a voz passiva. mais preciosos e dignos de um exame sério. 29 8 •••••• .

A acepção do termo "reconhecimento" no sentido de identificação/ distinção pode ser considerada primeira por uma série de razões que vão desde o mais circunstancial até o mais fundamental. a recognição kantiana tem prioridade sobre o reconhecimento bergsoniano e sobre a Anerkennung hegeliana. o "quê" ao qual o reconhecimento faz referência permanece indiferenciado. Com efeito. como idêntica a si mesma e não como diferente de si m esma. mas também abre caminho para este último.. essa significação prínceps não será abolida pelas seguintes. corroborada pelas primeiras filosofias que consultaremos. 8 Talvez cheguemos à razão m ais forte para colocar à frente ele nosso o(f) a: percurso o reconh ecimento no sentido ele identificação/distinção com a i3a: w Q_ seguinte consideração: no estágio inicial ele nosso percurso. a iniciativa da mente no domínio sobre o sentido e a quase indistinção inicial entre "reconhecer" e "conhecer". ainda marcada pela contingência do surgimento das proble- máticas referidas. podemos dizer desde já que com ela a questão da identidade atingirá uma espécie de ponto culmi- nante: é nossa identidade mais autêntica. implica distingui-la de todas as outras. proponho que tomemos como primeira acepção filo- sófica o par ide ntificar/distinguir. cede o passo a uma prioridade na ordem propriamente temática. Na ordem cronoló- gica elos acontecim entos ele pensamento que presidiram um emprego ela palavra "reconhecimento" m arcado pela chancela do questionamento fi- losófico. colo- cada sob o título do reconhecimento mútuo. m as acompanhará nosso percurso até o seu fim ao preço de transformações significativas. a que nos faz ser o qu e somos. já no 30 plano lexical a definição prínceps evocada há pouco fala em apreender ••••• . to": a progressão ao longo desse eixo será m arcada por uma libertação ow crescente do conceito de reconhecimento em relação ao de conhecimento. Uma razão suplementar para privilegiar essa ordem temática entre as acepções filosóficas do termo "reconhecimen- ~:. Essa primeira acepção filosófica verifica as duas características semânticas que vimos unidas no uso do ver- bo na voz ativa. a identidade constitui- rá ao m esmo tempo a aposta desse reconhecimento e o vínculo entre as problemáticas reunidas sob esse título. Quanto à terceira temática. Reconhecer alguma coisa como o mesmo. essa ordem cronológica. a saber. Será também ele identidade que se tratará no reconhecimento de si. Sob sua forma pessoal. que solicita ser reconhecida. ~ No último estágio. Encorajado por essa sugestão. Por sua vez. o reconhecimento não apenas se separa do conheci- o o UJ a: m ento.

pela mente "um objeto". ao preço de que revolução de pensamento em relação a uma abordagem transcendental d~ proble- ma poderão ser levadas em consideração as "coisas mesmas" que caem sob o reconhecimento e. um "alguma coisa". As ope- rações de pensamento aplicadas pela recognição kantiana não eliminarão essa indeterminação do "quê" do reconhecimento.. Essa indetermina- ção será progressivamente suprimida durante nossas análises. as pessoas. o ·<{ <. cujo si-mesmo se tornará o tema do segundo e do terceiro estágios de nossa progressão.> ::J o oa: ... em outras palavras. Diremos. já na primeira seção de nosso primeiro estudo. entre elas. ~ 31 • •••••• .

t. Entretien avec M.r CLASS. I CUTTER TOMBO.$_31 ··········-------· Primeiro estudo O reconhecimento como identificação "A essência do equívoco consiste em não o conhecer. 1655 • Universidade Federai do Para Biblioteca Ce:ttral ..." Blaise Pascal. de Saci sur Épictete et Montaigne.p(?. .

Mas isso não será feito ao preço de um curto-circuito entre o plano lexical e o do discurso filosófico. por sua vez. distinguir. percepções que se referem a ele. Em uma primeira aproximação. em várias acepções secundárias. é por m eio das expressões filosóficas que carregam por excelência a marca da iniciativa do espírito qu e nossa pesquisa eleve começar. conhecer por m eio da memória. Será nessa direção que avan- çaremos também . O próprio lexicólogo não nos ajuda a dar esse passo com sua maneira ele definir a idéia-mãe do reconhecimento? Cito novamente o Robert: "Apreender (um ob jeto) pela mente. identificar. Tampou- co deixamos de observar o tom racionalista. Poderia então parecer oportuno irmos diretamente à teoria kan- tiana da recognítío. são do emprego do verbo "reconhecer" da voz ativa para a voz passiva. quando o sentido I se especifica no sentido I. dispersa-se. 2. a pressuposição mais notável sobre a qual se estabelece uma filosofia crítica ele tipo transcendental reside no conceito de juízo tomado a um só tem po no sentido de capacida. Não deixam os ele salientar o aspecto de iniciativa e de resolução transmitido pela série ele verbos. A definição-mãe elo Robert também gera uma diversidade ele operações que exigem uma tria- gem e um trabalho suplementar de diferenciação. 1 para chegar ao verbo "identificar". centrada em tomo da inver- ~. 35 e e • • • • • • . pelo julgamento ou pela ação". Pareceu-me que a mudan ça elo estatuto lingüístico do léxico para a crítica exigia o desvio por alguns conceitos fundado res sus- cetíveis de instaurar a ruptura entre n íveis de discurso. na qual nosso vocábulo aparece pela primeira vez no glossário filosófico dotado de uma função específica no campo teórico. que leva ao primeiro plano o sentido de identificar que também pri- vilegiamos. próximo elo ela filoso- fia crítica. egundo nossa hipótese de trabalho. ligando entre si imagens. A definição I. pelo pensamento. no sentido ele estabelecer uma rela- ção ele identidade entre duas coisas.

obriga a dirigir o olhar para o lado desse alguma coisa chamado pelo uso transitivo do verbo "reconhecer" na voz ativa. e mais precisamente: "identificar (alguma coisa)". 2 do Robert deixa prudentemente lado a lado os dois term os: "distinguir. que com isso permanecerá definitivamente enriquecido. As definições lexicais também levam em consideração essa transitividade em favor de um discre- to parênteses: "apreender (um ob jeto) pela m ente. nas Meditações. Duas operações são assim repertoriadas na própria raiz do ato de julgar: distinguir e identificar. coisa ou pessoa. nos Princípios. e é ao distinguir que se identifica. que assum e efetivamente a forma de uma alternativa: o verdadeiro/o falso. A pesquisa filosófica lhe dá razão: identificar e distinguir consti- tuem um par verbal indissociável.. É então a determinação desse alguma coisa que constitui o objetivo último desse recuo na direção dos pressupostos últimos. oo ele governará. com a mesma insistência . é identificá-lo. será certamente a teoria cartesiana do juízo estabelecida no Discurso do método. Embora a volta para aquém do tema crítico imponha uma breve estadia em Descartes. Uma operação conceitual ainda mais primitiva é pressuposta: pode-se detectar essa exigência na definição feita por Descartes do ato de julgar pela capacidade de distinguir o verdadeiro do fa lso. o uso oa: w "lógico" das operações de distinção e ele identificação jamais será :. Se esse conceito é hierarquicamente o mais próximo do uso crítico. nas Objeções e nas Respostas que será preciso considerar em primeiro lugar. Nesse sentido.. identificar". quer se ja ele idéia. Esse requisito não rege apenas uma teoria do reconhecimento limitada ao plano teórico. Essa teoria se beneficia de uma anterioridade não apenas cronológica mas também temá- tica e sistemática inegáveis (ainda que o verbo "reconhecer" e o substantivo "reconhecimento" apareçam apenas episodicamente no texto cartesiano). Um objeto. portador elo epíteto alternativo. Distinguir esse alguma coisa. Para identificar é preciso distin- guir. A definição I. de (ou fa culdade) e de exercício (ou operação). ã: a. pelo pensamen- to". ultrapassado e sim permanecerá pressuposto e incluído no uso exis- tencial. eis o face-a-face obj etai qu e n os convida a associar "distinguir" a "identificar". 36 quer se trate da distinção e ela identificação aplicadas a pessoas •••••• •• . a reflexão regressiva não deve se interrom per na concepção cartesiana do juízo. O complemento. alguma coisa. todos os usos provenientes ~ da inversão do reconhecer para o ser reconhecido : é a ser distinguida ffl e identificada que a pessoa humilhada aspira. Poder distinguir vincula-se a julgar na medida em que o verbo pede um complemento.

que está à fren- te da teoria das "Formas" ou das "Idéias". em uma época do pensamento que remonta aos pré-socráticos. Não é indiferente que a evocação desses "grandes gêne- ros". Dessa ontologia de grau superior provêm não apenas as noções ele ser e de não-ser. que pronunciamos várias vezes na introdução. e trad.da mais alta especulação. O diálogo Sofista 1 acentua ainda mais a recluplicação elos níveis de discurso ao propor uma ordem ele derivação entre alguns desses "grandes gên eros". não temos outra saída a não ser atribuir essa dialética platônica ao que me permito. e em primeiro lugar os de ser e ele não-ser. de uma dialética afiada à qual Platão dá um fôlego novo nos diálogos ditos metafísicos. Platão designa nesse quadro entidades que ele qualifica de "maiores gêneros". seja a ocasião de aporias consideráveis que suscitam a dialética mais afiada. Uma distinçãó. o pórtico real que dá aces- so à problemática do reconhecimento-identificação. que freqüentam o discurso platônico desde a querela com os sofistas. mas também vários outros "grandes gêneros" im- plicados nas operações ele "participação" en tre gêneros de primei- ro grau. e sua seqüência ele perigosas "hipóteses". é a esse mesmo ciclo ele "grandes gênero"s" que pertencem as idéias ele uno e de múltiplo.relativamente a si m esmas ou a outras. ele mesmo e de outro. com o fim de tomar a medida do caráter epocal desse acontecimento que coloca o juízo em uma posição dominante. na medida em que predicar um termo de outro é fazer "participar uma idéia em uma outra". Pannênides. lei- tores desconcertados e abatidos. Auguste Dies. Le Sophiste. Les Belles Lettres. uma identificação "verdadeira" per- manecerá sempre pressuposta. Nós. não é despro- positado fazer uma pausa antes de atravessar esse pórtico. foi objeto. Teeteto. a polaridade do m esmo e elo outro reve- o la-se imbricacla na dialética do ser na medida em que o m esmo o :J eleve se definir ao m esmo tempo pelo "relativamente a si" e pelo m o "relativamente a outra coisa". assim. a: ü:i L ã' a. na série Fílebo. mesmo que em favor ele estimações e avaliações segundo o bom e o justo: estas não deixarão ele impli- car operações ele identificação e ele distinção. estas dando origem a uma série de operações de conjunção e ele disjunção subjacentes à menor operação ele predicação. como a do Pannênídes. Mas se o juízo é. para os modernos. Será essa a tradução que adotaremos aqui . Ora. atribuir à função meta. Sofista. Paris. A própria palavra "ou- tro". O filósofo propõe uma ontologia de segundo grau. 37 •• ••••• . 1925. seguindo Stanislas Breton. l. ou tomadas em suas rela- ções mútuas. estab.

Essa o reiteração sem recurso a um gênero ulterior. Platão insiste na dignidade desse "grande gênero": "Em toda a série de [dos gêne- üJ ros]. Assim . O filósofo respondia a esse desafio por meio da teoria da "comunidade de gên eros". Pode-se falar em identificar sem evocar a fórmula inspirada elo com entário feito por Auguste Dies ao Sofista: "O que se põe opõe-se na medida em que se distingue e nada é em si sem ser distinto elo resto"? Permitam-nos acrescentar que essa patronagem antiga consti- tui uma razão a mais para situar o tema do reconhecim ento-iden- tificação no começo de nosso percurso. do problema platônico ela "comunidade dos gêne- ros". em uma outra época elo pensamento. Assim. na medida em que esta visa ao "relativamente a si do mesmo" unida à distinção elo "relativam ente a outra coisa que o mesmo"2 Isso nos situa muito longe do ingênuo essencialism o dos "amigos das For- mas". •••••• • . O problema para Platão era o de. Não é exagero pretender que nosso problema do reconheci- mento-identificação é h erdeiro longínquo. a 38 saber. A esse aviso acrescenta-se um encora jam ento. em outras palavras. Confrontados às aporias do modelo ele pensamen- to proveniente ela revolução copernicana. a natureza do outro faz que cada um deles se ja distinto elo ser e. o outro. está "distribu ída através ele todas elas". mas pelo fato de participar da forma do outro" (2 55 e). o qual com excessiva freqüência serviu como paradigma do autoproclamado platonismo e de toda a sua descendência através dos séculos. O ser é a terceira apenas porque há uma quinta. "C ada uma delas. não-ser" (2 56 e). faz do o ~ o0:: outro nessa enigm ática página do Sofista a quinta e última da série. elo qual é solidária a 2. Estamos na época do su jeito que é mestre do sentido. a nenhum outro gênero. Somos conduzidos aqui à raiz da noção de identificação. replicar à proibição pronunciada por Parmê- nicles de vincular a um sujeito-mesmo um epíteto-outro . não em virtude de sua própria natureza. também denominada "participação". ele proceder à predicação. o ser só é a noção m ais elevada da filosofia em Q. h erdeiro dessa elevada especulação. de muitos pontos de vis- ta. relação à mudança e à perm anên cia se ela aceita ser suplantada pela catego- ria m ais inapreensível. prossegue O sofista. com :?: 0: isso. Essa referência a uma outra época do pensamento contém ao mesmo tempo um aviso: somos convidados a tomar consciência elo caráter igualmente epocal da problem ática elo juízo na qual nos engajamos. como vimos. a mútua combinação elos gêne- ros. diz Platão. com efeito. é diferente elo resto. Nosso problema moderno elo juízo é. E m su m a. clir-se-á que o "movimento" (primeiro gran- de gênero conside rado) é outro que o "repouso" ou outro que o "ser": essa m etacategoria elo outro.

o pórtico real elo juízo . Embora seja verdade que devam os à temática do método a ruptura com a tradição e. passe- mos agora.recognição kantiana. Cabe à reflexão filosófica dissociar os dois empregos e referi-los aos acontecimentos de pensamento dos quais deriva o deslocamento de uma concepção da identificação para a outra. esse deslocamen to é validado pelos empregos da língua corrente atestados pelo léxico. na linha reta das considerações anteriores referentes ao mesmo e ao outro. na m edida em que a recognição o o ::J permanecerá como u ma peça secundária em uma teoria do conhe. 1- ill cimento que não dá lugar algum à autonomia elo reconhecim ento oo: em relação a essa teoria. através desta últi- ma. ü:i 2 a: Q_ 39 ••••••• . Duas filosofias elo juízo. ele bom grado. Delas resultarão duas épocas elo p roblema elo reconhecimen- to. mas o léxico deixa lado a lado as duas definições. Podemos nos perguntar se essa lembrança encontrada não contém em suas dobras a possibilidade ele replicar por meio ele uma segunda revolução à revolução copernicana e ele procurar elo lado elas "coisas mesmas" os recursos ele desenvolvimento ele uma filosofia elo reconhecimento progressivamente subtraída à tutela ela teoria elo conhecimento. podemos dizer antecipadamente. Com Kant. com a prática lingü ística ordinária. a passagem da psicologia racional para a abordagem transcendental com anda a exegese da recognição. se preciso sob a mesm a rubrica. Kant opera um deslocamento significativo em relação à abordagem cartesiana ao subordinar identificar a vin cular. que é de certo ponto de vista o alvo deste prim eiro estudo. como vimos no Le Robert. Alvo decepcionante. E la não deixará de ter m éritos aos nossos olhos na m edida em que ela abre espaço para o movimento ele pensam ento que justifica o recurso sub-reptício (nas condições sobre as quais logo falaremos) ao termo "reconhe- cer" e a seu emprego apropriado. serão consideradas: a ele Descartes e a ele Kant. que presidem duas concepções dife- rentes ela identificação. E m certo sentido. Os acontecimentos de pensamento aqui evocados afetam o âm ago da filosofia do juízo. identificar anela lado a lado com distinguir. que nos seja permitido evocar a lembrança dessa antiga dialética que não devia nada ao primado ela subjetivi- dade. Para a primeira. Colocando esse aviso e esse encorajamento na reserva. é em uma psicologia racio- nal que se constitui a teoria cartesiana do juízo.

na primeira parte do Discurso do método 1. uma versão biográfica no quadro do que ele chama de "fá- bula" de seus anos de aprendizagem. "eu era alimenta- l. o lexicógrafo recorre aos m esmos recursos lin- güísticos. Dessa ruptura Descartes oferece. que relaciono com meu tema do afastamento entre o tratamento lexical e o tratamento propriamente filo- sófico das noções comuns aos dois registros. diz Descartes. depois ele oferece uma versão epistemológica na segunda parte. t. Garnier. Ora. A primeira versão é importante para nós na medida em que relata de que modo ocorreu a ruptu- ra com uma educação intelectual marcada pela memória e pela literatura. em ligação com a própria idéia de método. Mas foi o primeiro a inaugurar essa análise por meio de um ato de ruptura. 1964. Descartes: "distinguir o verdadeiro do falso" escartes certamente não foi o primeiro a elaborar uma teoria do juízo. Cito Descartes na edição das Oeuvres philosophiques. Ferdinand Alquié. operação maior do pensamento. I-li. não apenas em suas citações mas também no cor- po de suas definições. ed. 41 ••••••• .

Pode-se ver nele a matriz do reconh ecer que aparecerá z oo w furtivamente nas Meditações . E ain- da: "Pois é quase a mesma coisa conversar com as pessoas elos outros sé- culos e viajar" (ibicl. por ocasião ele "A moral de provisão" ou nas considerações sobre as Paixões da alma. evitar cuidadosamente a precipitação e a pre- 2 a: Q_ venção. a: o "i. Esse preceito reza o seguinte: "O principal era o ele jamais ~ w receber qualquer coisa como verdadeira que eu não conhecesse eviden- oa: i:iJ temente como tal: isto é. o método é o título emblemático do discur- so aqui proferido. 576). Esse gesto é um gesto ele ruptura de uma grande violência espiritual: "Considerando quantas opiniões diversas podem existir sobre um assunto. como me persuadiram de que por m eio delas se poderia adquirir um senso claro e seguro de tudo aquilo que é útil à vida. 573).: "receber em meu crédito". como pouco antes "reputar quase falso" ~ w dizia a vertente negativa. Le díscours de la méthode. "receber": zw ::. "segu- j Li: rança" dizem a vertente positiva. 571 ). Mas essa revalorização das significações usuais é o benefício diferido ele um discur- so inaugurado por um ato de ruptura. . eu reputava quase falso tudo aquilo que era apenas verossímil" (ibicl. "ver claramente". a maneira pela qual definir e distinguir respon- ºo2 dem um ao outro. Esse "receber" ativo está no âm ago elo primeiro dos quatro preceitos I 8 do método. sem que possa jamais haver mais ele uma verdadeira. Esse verbo engloba todas as figuras de re jeição 8I e de acolhimento. p. in Oeuvres phílosophiques. I. eu tinha um desejo extremo de aprendê-las" (Descartes. Descartes certam ente não deixará de restabelecer um contato com as conversações comuns. sem esquecer o recurso aos "Ensinamentos da natureza" referentes à união substancial ela alma com o corpo na sexta Meditação . ela é expressa por um verbo ele grande força. •••••• . Certam ente a aquisição do saber positivo ainda é o objetivo: "E eu tinha sempre um extremo dese jo ele aprender a distinguir o verdadeiro do falso para ver claramente em mi- o •<( nhas ações e anelar com segurança nessa viela". Não se pode escolher com mais veemência distinguir antes ele definir. e de compreender em meus juízos apenas o que se apresentasse tão clara e distintamente em m eu espírito que eu não tivesse nenhuma 42 possibilidade ele colocá-lo em dúvida".. do nas letras desde a minha infância e. Já nesse primeiro texto aparece. p. t. que se jam sustentadas por pessoas doutas. p. Quanto à marca ela iniciativa que preside esse em- o o o 1- preendimento. No plano epistemológico. as "Cartas sobre a condução da vida".

marcada pela coragem (f) i5 intelectual. neste estágio de nossa pesquisa. ela se expressa por esse verbo ele grande força. ainda mudo. é do lado das coisas e ele suas relações diferentes com a mudança.J > controle do pensamento. contudo. mostra bem a veemência as- sertiva do discurso feito. Esse vínculo entre clareza e distinção pode ser considerado equivalente ao que há entre definir e distinguir. sua evidência é definida pelos caracteres da idéia simples: a clareza e a distinção. por outro. cu ja inscrição acabamos ele observar na primeira regra elo método. que se resume no medo do erro que trafega pelo discurso cartesiano. m as esse vocábulo. Isso pode ser percebido por meio dos contrários: o contrário ele claro é obscuro. É nessa regra que se atesta o auto. o o o contrário de distinto é confuso. nesse estágio o reconhecer não pode se distinguir do conhecer? Por un~a razão fundamental. ao qual as filosofias ulteriores nos tornarão atentos. Um acento heróico ele resolução é posto sobre o a: 5 todo o empreendimento colocado sob o título de "Busca elo método". não delimitado por contornos discerníveis.por um lado. ele o z i= recorda o tema socrático da zetesis. quer elas sejam ob jetos usuais. isto é. a reiteração da força do conhecer já estava em ação na narração feita por Descartes na primeira parte do Discurso de sua ruptura com uma educação intelectual regida pela memória e pela literatura. que veremos aparecer de modo furtivo ao longo das Meditações. com o mesmo não se distinguindo elo o a: w outro. a: u. ~ w o tudo mostrará. Ouanto à marca da iniciativa que guia o empreendimento. o lado de ates- tação de certeza que encontra sua expressão gramatical no uso do verbo "reconhecer" na voz ativa. [A evocação da dúvida na primeira regra do método já faz alusão a uma hesitação superada] O que chamei de atesta- ção de certeza que faz do reconhecimento a confirmação e. ainda é simplesmente conhecer. seguindo a ~ o ordem do simples para o complexo. Reconhecer. da "busca". Em contrapartida. Quanto ao conteúdo desse receber. A segunda parte oferece a versão epistemológica dessa ruptura. Os quatro preceitos apenas farão hierarquizar as idéias. se necessá- rio. o recurso ao reconhecer. O m étodo será a disciplina de pensamento a serviço desse projeto intrépido de "chegar ao conhecimento de toda coisa de que meu espírito seja capaz". úi Por que. seres animados ou pessoas. "receber". o caráter resoluto desse projeto e. aparece ago- ra como apropriado para situações de discurso nas quais aparece a fraque- za do entendimento humano. que 43 e • • • • • • . Como a seqüência deste es.

sua distinção e seu lugar na ordem que vai do simples rumo ao complexd. Daí o tom de resseguro com 2. a correlação é completa entre o par claro/distinto e o par clefinir!clistin- 44 guir. o caráter laborioso da demonstração. Ele transita pela quarta Meditação. ao termo representação está vinculado o ele o "realidade objetiva". que consiste em aplicar um raciocínio por o . ou uma quimera. 433 ). de "ser objetivo". Ora. As idéias. constitui o definido da idéia clara à procura do qual acabam os de nos entregar. Assim . ou o próprio D eus" (terceira Meditação. do claro e elo distinto. Mas a diferenciação dessa alguma coisa segundo a variedade das coisas repre- sentadas não é importante para a qualificação do valor representativo da idéia: importam apenas sua clareza. participam por representação a mais graus de ser ou de perfeição que aquelas que m e a:: representam apenas modos ou acidentes" (ibid. Este 2 a: se limita a afirmar que a espécie ele perfeição vinculada à realidade ob jetiva da idéia. que considero a primeira aproximação ele um conceito in tegral de reconhecimento._ ::J causalidade a essa realidade objetiva e que conduz à conclusão segundo a qual a idéia que (f) UJ o tenho de De us não pode ter sua origem apenas em mim mesmo. limitada nas três primeiras Meditações a três asserções . A possibilidade de receber o verdadeiro por falso se perfila como a sombra negativa desse orgulhoso receber. elas possuem um valor representativo que permite j falar na "idéia das coisas": "Entre meus pensamentos. sem dúvida. não nos esqueçamos. esse argumento cai fora do âmbito de meu tema. enquanto Q. alguns são como imagens elas coisas. As Meditações não retirarão nada desse aspecto de resolução. e ü: ~ UJ é som ente a elas que convém propriamente o nome de idéia: quando me represento um homem. ou o céu. a idéia de D e us "certa- o m ente tem em si mais realidade ob jetiva que aquela por meio da qual as substâncias finitas m e o são representadas" (ibid. ºo 2 Oeuvres philosophiques. o Sl isto é. em razão ele minhas imper- a: ü:i feições. esse ato de pensamento designado há pou- co pelo termo "receber" (" jamais receber algo como verdadeiro que não o se ja") . t.eu sou. I. p . o pensam ento é subs- tancialmente distinto do corpo -. o "receber como verdadeiro" tem como contrapartida apenas a idéia. •••• •• . no qual a existência de Deus é demonstrada a partir ela idéia segundo a qual essa 8I "realidade objetiva" da idéia apresenta graus de perfeição: "Aquelas que m e representam subs- z tâncias são. algo mais e contêm em si (por assim dizer) mais realidade objetiva. são " idéias das •<{ coisas". Entre- tanto.. idéia de alguma coisa. consagra- da precisamente ao juízo. ou um an jo. mas provém do próprio Deus. Além de sua presença no espírito. com o que a idéia goza ele um estatuto o ntológico o f2z notável. O argumento seguinte. p. Certamente a idéia é a idéia de alguma coisa que ela representa. Além disso. o reconhecer se distingue de modo decisivo do conhecer a ponto de precedê-lo. do Discurso às Meditações e aos Princí- pios. deixa perceber um fundo de inquieta- ção que justifica que se vincule à idéia de reconhecimento a admissão de uma resistência específica à conquista do verdadeiro. 4 37-438). Este último é tão essencial que serve de premissa para o argumento ela terceira Me- UJ 2 ditação. D esse modo. Entretanto. Evoquei um pouco mais acima o medo do erro. nem tudo é dito sobre a idéia e sua relação com o definido sob os três o epítetos do simples. Deus existe.). para Descartes.

justam ente ao fazer a revisão desse argu- m ento o nosso tradutor acolhe novam ente o vocábulo "reconhecer": o '0 "Sabendo que minha natureza é extremamente fraca e limitada. desde 45 •• ••••• . segun do a qual "eu sou como um meio entre D eus e o nada". o avanço não demora a se seguir à pausa. li': bém que a de D eus é imensa. ao longo dessa breve revisão surge. A Meditação encontrou a partir daqui seu centro de gravidade. incompreensível e infinita. e tam. as idéias de "falta ". como na primeira ocorrência. Essa idéia dá uma base ontológica à admissão dupla que nosso poder de bem julgar pode falhar . Uma terceira ocorrência do termo "reconhecer" é igualmente su- gestiva. Meu propósito não permite que eu me demore na discussão na qual são colocadas sucessivamente à prova "uma certa idéia n egativa do n ada". Descartes afasta a suspeita segundo a qual existe um poder para falhar que viria de D eus. que trai a persistência e a insistên cia do temor de errar: "E embora. ]" (ibid. o a: 5 pressão do atraso da admissão da verdade em relação à sua descoberta. 456). A pertinência da esco- lha do tradutor parece solidária da função de revisão e de recapitulação atribuída a esse longo ineipit. ] reconheço [do latim agnoseo ] que é im- possível que ele me engane jamais" (ibid. Não é m ais. Ora. A palavra se insere em uma rede de "embora" e de "entretanto". digna de Pascal. Ela começa com um balanço cuida- doso das conquistas das Meditações precedentes... . Antes de proceder à distinção das duas faculdades de conhecer e de escolher. como o de discernir o verdadeiro do falso.. uma saída é encontrada com a idéia. avanço pontuado pela expressão "experimento" (experieneior): "Em seguida experimento em mim uma certa capacidade de julgar [ . a ex. A seqüência da Medi- tação descreverá como. que evoca o argumento do gênio mali- cioso. ao menos na versão francesa das Meditações.o qual é aberta a quarta Meditação. tão essencial para a descoberta da primeira verdade. A segunda ocorrência do vocábulo "reconhecer" não é menos signi- ficativa .. ). Ora. p. 45 8) . que são as do entendimento e da vontade. Na primeira ocorrência. não tenho m ais 8 ~ w dificuldade em reconhecer [ex hos satis etiam seio] que há uma infinida- de de coisas em seu poder cujas causas ultrapassam o alcance de meu ~a: w > espírito" (ibid. D e fato. o verbo "reco- nhecer".mas que essa falta é característica nossa. o autor faz uma pausa e observa: "Pois [ . de "priva- ção".. p. oz mas sim uma alusão à h esitação sobre a qual a certeza é conquistada: t7i õ "D escobri uma razão suficiente [satis etiam seio ] para separar de m inha ' crença que D eus tenha podido dar-me um poder de falhar".

' que me propus a duvidar de todas as coisas. nem nada ele tudo o que posso fingir ou imaginar. não sou ele modo algum um vento. recem muito evidentes e não estará "fora elo perigo [de confusão] se primeiramente ele não reconhecer um D eus" (ibicl. p. e procuro quem sou. ao preço das conseqüências (sobre as quais falaremos) referentes à nova acepção dada ao verbo "reconhecer". um sopro. eu tenha conhecido certa- mente apenas a minha existência e a ele Deus. mas mantém que não é por meio de uma verdadeira e certa ciência 2 a: que ele conhece: ele sempre correrá o perigo ele ser decepcionado pelas coisas que lhe pa- a. Há outras ocorrências do verbo "reconhecer" referindo-se à idéia de sinal ele reconhecimento.· ·. não sou ele modo al- gum um ar desligado e penetrante espalhado em todos esses membros. que fortalecem o temor elo erro. ••••• • . e que. É a situação do reconhecer §a: em relação ao conhecer. ao que po- f! deria ser chamado ele casos elo exercício elo juízo] É nesses acasos.. Um pouco adiante. existir é pensar. -i:: . descubro que não deixo ele z UJ ter certeza ele que sou alguma coisa". p. e é na análise dos componen- tes constitutivos elo ato de julgar que se determina a espécie ele subjetivida- de com a qual romperá a filosofia crítica. Descartes acaba ele de- ~ u monstrar que. Elas estão ligadas. :. de tal modo que eu exista e se ja colocado no mundo como fazendo parte da universalidade de todos os seres" 3 (ibid. ele um modo ou ele outro. 553). Mas um escrúpulo se introduziu: "E o que mais. dividido entre o entendimento que concebe e a vontade que escolhe. E u quis reunir algumas ocorrências do vocábulo "reconhecer" no texto cartesiano. Há outras ocorrências do verbo "reconh ecer" nas Meditações. Em uma resposta às segundas Objeções.. Descartes deixa ele lado u:. 565). :::> p. é aqui que se determina. em um contexto comparável ao ela quarta Meditação. ao discutir a questão ele saber se um ateu pode conhecer clara- § oa: mente que os ângulos ele um triângulo são iguais a dois ângulos retos. pois 8 s> supus que isso não era nada. ü: ~ excitarei minha imaginação para investigar se não sou algo mais que isso. o ato ele pensar que o Discurso do método designou com o termo "receber".. sem mudar essa suposição.. 419) (novi me existere: z quaero quis sim ego ille quem novi). eu que reconheci ser" (ibicl. Há uma na segunda o •<( Meditação. I ~ :~ ' . ou ao menos que ele possa produzi-las. operação comum a "garantir" e a "negar". um vapor. Encontramos nestas últimas citações usos provenientes 46 elo léxico ordinário do reconhecimento. sem consideração pelo "alguma coisa" ela idéia. entretanto também. eu não poderia negar que ele tenha produzido muitas outras coisas. para a alma. p. que cliscirno os preâmbulos ela crise da idéia ele reconhecimento que me ocupará nos estudos seguintes. A análise bastante conhecida elo juízo. Não sou ele modo º o ~ algum esse agrupamento ele membros a que chamam corpo humano. Novi: no passado completado.. Depois dessas denegações o fil ósofo exclama: "Reco- 2 8I nheci que eu era. desde que reconheci [animadverti ] o infinito poder ele Deus. lê-se o seguinte: "Pensei o I que eu não faria pouco se mostrasse como é preciso distinguir as propriedades ou qualidades g elo espírito elas propriedades ou qualidades elo corpo. 459). e como é preciso reconhecê-las" (ibid. Será preciso esperar pela quarta Meditação para ter uma análise da operação de pensar que consiste em julgar. eles- 3. essa sugestão excessiva.

- Universidade Federai do Para
BibliotPr.?. ('r:!h·aJ
..

tina-se a eliminar definitivamente a suspeição sempre renascente da exis-
tência de uma faculdade de falhar. De mim, e somente de mim, depende
o uso da faculdade de escolher. É então que o termo "reconhecer" surge
novamente: "De tudo isto eu reconheço [ex his autem percipio ) que nem
o poder de querer, que recebi de Deus, não é em si mesmo a causa de
meus erros, pois ele é muito amplo e muito perfeito em sua espécie; tam-
pouco o poder de entender ou de conceber: pois, não concebendo nada
senão por meio desse poder que Deus me deu para conceber, sem dúvida
[procul dubio ) tudo aquilo que concebo é concebido como é preciso, e
não é possível que nisso eu me equivoque" (ibid., p. 462-46 3). A afirma-
ção da impossibilidade de se enganar no plano ela pura concepção é as-
sim salientada com um enérgico síne dubío cujo equivalente francês "sans
doute" (sem dúvida) não consegue exprimir totalmente a sua força .
[A espécie de confirmação expressa pelo verbo "reconhecer" colo-
ca uma chancela de certeza inabalável em todo o percurso concluído]
Abordei traços pontuais ela filosofia cartesiana do juízo: precisamente
aqueles que serão eliminados pela filosofia kantiana do juízo, assim como
tudo aquilo que está ligado a uma "psicologia racional", que Kant subme-
terá aos "Paralogismos da dialética transcendental". Mas são traços perti-
nentes ela idéia de reconhecimento a caminho ele sua dissociação da elo
conhecimento simples. O ato de "receber uma idéia como verdadeira"
mobiliza um su jeito que, por não ser reclutí~el à pessoa chamada Descar-
tes, não é por causa disso menos um eu que se pode chamar de exemplar,
o mesmo que é atestado pela primeira verdade: "Eu sou, eu existo". É,
além disso, um sujeito que chama o seu leitor: D escartes, primeiramente, o
(/)
..J

junta à edição de suas Meditações a das Objeções e de suas Respostas. li:
o
o
Publicados conjuntamente, esses textos diferentes constituem um "filoso- oa:
[jJ
far conjunto" não menos exemplar que o su jeito resoluto da busca do
~
m étodo. Entre a autobiografia que não é do âmbito da filosofia e a uni- a:
w
>
dade numérica da consciência transcendental segundo Kant, há lugar o
a:
5
para um suj eito responsável pelo erro e, portanto, pelo "receber como o
z
verdadeiro". É esse próprio suj eito do reconhecer que, um pouco mais [7;
i5
adiante em nosso percurso, pedirá para ser, ele próprio, reconhecido.
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Quanto a mim, tomarei de bom grado o partido de D escartes no que ti:
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diz respeito aos elementos de fenomenologia do juízo que lhe elevemos, w
o
contrário ao empobrecimento resultante ela eliminação, por parte da filo-
sofia transcendental, de certos traços importantes da experiência do ato 47

•••••••

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: ..- ., ..

de julgar. A esse respeito, as ocorrências do verbo "reconhecer" sob a
pena do tradutor das Meditações em língua francesa são particularmente
preciosas. Foram observadas as circunstâncias desse emprego: admissão
implícita de um atraso da confirmação em relação à descoberta do verda-
deiro, alusão à hesitação, à dúvida, à resistência que precede a franca
afirmação da certeza. O Discurso do método não coloca o enunciado dos
preceitos do método sob a égide da "busca do método"? Encontramos a
antiga zetesis dos socráticos: buscar para encontrar. Pode-se falar, nesse
sentido, de uma fenomenologia do juízo que escaparia à alternativa entre
u ma psicologia empírica e uma análise transcendental. E la se centra no
verbo "receber"; ao mesmo ciclo pertencem as expressões "experimen-
tar", "encontrar" e, evidentemente, "duvidar". É a essa íntima história da
busca da verdade, dramatizada pelo temor ao erro, que devemos as aná-
lises da quarta Meditação.
Talvez se ja necessário ir mais longe ainda: o verbo "receber", na ex-
pressão "receber como verdadeiro", não mantém na reserva recursos de
descrição que excedem a simples operação do definir/distinguir, recursos
regidos pela dialética superior do mesmo e do outro? Para ser breve, a
teoria cartesiana do juízo, tributária de uma psicologia das faculdades, man-
tém na reserva um conceito de transição entre duas acepções do vocábulo
"reconhecer" que o Robert coloca em dois ramos diferentes da árvore le-
xical: "apreender (um objeto) pela mente, pelo pensam ento" e "aceitar,
o
•<!
considerar verdadeiro (ou como tal)". O que eu chamaria de bom grado
~
ü: de fenomenologia cartesiana do juízo não convida a vincular entre si, no
~
w
plano filosófico, o que o léxico parece ter separado no plano do uso coti-
º
o
;;; diano? O paradoxo seria então o de que a problematização, vinculada ao
o
ü
~
acontecimento de pensamento constituído pelo aparecimento da filosofia
z
UJ
;;; cartesiana no céu filosófico, não teria apenas contribuído para o efeito de
8
I dispersão que atribuo à irrupção do questionamento filosófico no m eio do
z
o
8a: uso das línguas naturais; ela não teria também como efeito colocar na
o reserva traços que só serão retomados em outras configurações filosóficas?
I
oo Ainda resta dizer por que uma filosofia do reconhecim ento não pode,
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UJ
no entanto, desenvolver-se em um solo cartesiano. Não basta esboçar a
oa: parte subjectí uma distância de dúvida e de inquietação para dar consistên-
w
2
ã:
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cia à distinção entre conhecimento e reconhecimento. Como a seqüência
de nossa investigação mostrará, é principalmente a parte objecti que o re-
48 conhecer faz valer seus títulos. Falando antecipadamente, é preciso que a

•••••• ••

Universidade Federal do Para
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mudança coloque sua marca sobre seres do mundo, e do modo mais sig-
nificativo sobre o ser humano, para que se cave uma hesitação, uma dúvi-
da, que dá ao reconhecimento seu caráter dramático; será então a possibi-
lidade ele desconhecimento que dará ao reconhecimento sua plena auto-
nomia. O desconhecimento: forma existencial e intramundana cu jo senti-
do o equívoco, forma mais teorética da inquietação, não consegue esgotar.

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49

• ••••••

Kant: Iigar sob a
condição do tempo

om o conceito kantiano da recogmçao (do alemão
Rekognítíon ) trazemos para o léxico filosófico um ter-
mo que, de vários pontos d e vista, não possui antecedentes
na tradição anterior. A preeminência do juízo é adquirida
com Descartes, a título do método no Díscurso, depois a tí-
tulo temático na quarta Medítação, m as é uma outra função
elo juízo que entra em cena com Kant, que causará uma re-
volução em relação ao sentido vinculado à subj etividade ti-
tular dessa função. Para Descartes e para Kant, reconhecer
- quer a palavra seja ou não pronunciada - é identificar,
apreender pelo pensamento uma unidade de sentido. Mas
para D escartes identificar é inseparável de distinguir, isto é,
separar o m esmo do outro, colocar um fim à confusão unida
à obscuridade; disso resulta a evidência da idéia "recebida"
como verdadeira. Para Kant, identificar é ligar. Se nos volta-
mos para o léxico da linguagem ordinária, como o viveiro
elas significações em uso, e ncontramos esta significação jus-
taposta à que isolamos antes. Recordemos a definição nº 1
do Robert: "Apreender (um objeto) pela mente, pel9 pensa- 51

•••••••

menta, ligando entre si imagens, percepções que se refe rem a ele; distin-
guir, identificar, conhecer por meio ela memória, pelo julgamento e pela
ação". O "ligar" está no lugar ele honra; mas ele pode ser tomado no
sentido elo empirismo ele língua inglesa, assim como no sentido transcen-
dental que iremos precisar.
Mas a promoção ela função ele ligação, ele conexão, ele síntese, não
é a única que caracteriza a contribuição específica ele Kant para uma
grande filosofia elo reconhecimento; é preciso acrescentar a consideração
elo tempo, mais geralmente ela sensibilidade, na operação ele síntese que
a recognição pontua elo modo que descreveremos. Não há precedentes
para essa maneira ele situar o juízo no ponto ele interseção elos dois "tron-
cos do conhecimento humano", a saber, a capacidade ele receber e a ele
pensar, a primeira ligada à sensibilidade e a segunda, ao entendimento,
segundo a expressão ele Kant no final ela Introdução à Crítica da razão
pura 1 ("Há dois troncos elo conh ecimento humano que talvez provenham
de uma raiz comum, mas desconhecida para nós, a saber, a sensibilidade
e o entendimento; pela primeira, os objetos nos são dados, pela segunda,
eles são pensados"- A 15, B 30). Essa situação ele juízo carrega a marca
ela filosofia crítica. Se, pois, podemos tomar como um deslocamento no
interior da teoria elo juízo a substituição ele distinguir por ligar, a incor-
poração elo tempo e ela sensibilidade à problemática do juízo constitui
uma ampliação sem precedentes dessa problemática.
o
•<1: Em contrapartida, todos os traços ela teoria cartesiana elo juízo que
~
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;:;:: permitem o esboço de uma distinção entre reconh ecer e conhecer são ex-
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z
w cluídos elo campo ela filosofia crítica, assim como o aparelho da psicologia
º~ racional, a ponto ele se poder afirmar: reconhecer é conhecer. Apesar de
8 seu grande interesse, a teoria ela recognição não contradirá essa equação.
~
UJ Duas teses guiam essa eliminação da psicologia racional: em pri-
2
w meiro lugar, a afirmação ela heterogeneidade inicial dos dois "troncos" do
z
o conhecimento há pouco citados, afirmação que coloca a teoria do juízo
()
UJ
a: junto com a ela recognição no ponto ele interseção dessas duas fontes . Em
o
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segundo lugar, a distinção entre o ponto ele vista transcendental e o ponto
o
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,.... de vista empírico, que coloca o a priori fora elo campo da experiên cia.
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oa:
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ii I. C ito a ed. fr.: Critique de la Raison pure, ed. Bibliotheque de La Pléiade, trad. J. Barni,
rev., modif. e corr. A. J.-L. D elamarre, F. Marty. A primeira edição, que data de 178 1, é
0..

indicada pela letra A, a segunda, publicada em 1787, é indicada pela letra B, segundo a grafia
52 da edição original da Academia Real das Ciências de Berlim.

•••••

na m edida em que a sensibi- lidade deveria conter representações a priori.. extraído da experiên cia sensível. "O objeto indeterminado ele uma intui- ção empírica denomina-se fenômeno" (A 20. a que diz respeito aos troncos do conhecimento humano e a que se refere aos níveis de constituição do sentido. "a diversidade elo fenômeno possa ser ordenada segundo certas relações" ~ . B 30). E le é professado nas linhas que concluem a Introdução ela Crítica da razão pura: "Ora. D esse ponto ele vista. B 30). e a forma que faz que :::. Esse entrecruzamento inédito entre as duas distinções maiores. i5 z tação a priori. sob a condição do tempo A prioridade concedida à Estética transcendental é afirmada logo ele início: "A teoria transcendental ela sensibilidade deveria pertencer à pri- meira parte ela ciência elos elementos porque as condições sob as quais os objetos elo conhecimento humano são dados precedem aquelas sob as quais eles são pensados" (A 16. Essa dissociação entre o transcendental e o empírico diz respeito não apenas ~ 2UJ à teoria do espaço. Que o tempo não seja um 8 o •<>: C> conceito empírico. cuja entrada >- em n osso campo ele investigação já indicamos. Em um único fôlego é afirmada a antecedência ela Estética transcendental em relação à Analítica e a preva- lência do ponto ele vista transcendental sobre o ponto de vista empírico. é algo que é decidido ao m esmo tempo em que é definido oo <>: o estatuto ela Estética transcendental: ele algum modo a abordagem trans. constitui o evento de pensamento fundador da filosofia crítica. 53 ••••• . O "ora" é a única marca retórica que anuncia a imensidade dessa decisão primordial e. E m toda afecção pelo objeto eleve ser a: <>: (J possível distinguir a matéria sensorial. Que esses princí.2 (Estética transcendental. <ll Sl cendental precede a si mesm a. Denomina-se Estética transcendental a ciên cia ele todos os princípios a príori ela sensibilidade. B 34). seminal. dada a priorí. B 3 5). § 1). "Cha- mo ele estética transcendental uma ciência ele todos os princípios da sen- sibilidade a priori (A 21. B 34). 1. que constituem a condição sob a qual os objetos nos são dados. se nos permitem dizer. . ela pertenceria à filosofia transcen- dental" (A 16. o tom com o qual são pronunciadas essas definições terminológicas que passam a reger o discurso não admite réplica: "Cha- mo de puras (em sentido transcendental) todas as representações nas quais não se pode encontrar nada que pertença à sensação" (A 20.. m as a título eminente à teoria elo tempo. e sim uma represen.

devido à falta de um corres- I o pondente simétrico que tivesse o mesmo peso que a geometria elo lado do o ::l ~ espaço (a cinética? ). § 6 b). eis a grande descoberta ele Kant e também o grande enigma colocado como prefácio à teoria ela recognição . na medida em que todas as representações passam pelo sentido interno: "O tempo não é nada mais que a forma elo sentido interno. Leibniz e õw I z Wolff. a fragilidade da argu- a: o mentação transcendental no caso do tempo. Daí resulta que o tempo é a condição a priori ele todo fenômeno em geral. O tempo da Estética transcendental não é nem o tempo vivido ela alma. esta última é entregu e às antinomias sobre a causalidade na Dialé- 54 tica transcendental. imedia- tamente para o sentido interno. essa fórmula faz mais que reescrever o argumento negativo. ao estado interno"( § 6 c). A forma do tempo passa a ocupar o lugar estratégico até então o [d ocupado pelo sentido interno. mas a forma do sentido interno. z UJ O leitor ele hoje tem dificuldade em avaliar a enormidade da revo- º o 2 lução constituída pela desqualificação elo sentido interno enquanto reve- 8 laclor ele um eu-substância. Ora. já antes ela consideração elas antinomias ele tipo ••••• • . quer elas tenham ou não como objeto coisas exte- riores. Em compensação. assim como o espaço é a elo sentido externo. Mas. explica que a batalha em favor ela iclealiclacle da forma oa: do tempo seja perseguida em todos os registros da filosofia crítica: como w 2 õ: CL o sentido interno não pode mais garantir a realidade do sujeito ela liber- dade. Agora o tem- po é forma pura não apenas de toda intuição interna. mas também ele toda intuição externa. nem o tempo das mudanças no mundo. vigorosa no passado por sua pretensão ele penetrar ~ G: . sua liberdade. pios não sejam conceitos do entendimento. como por exemplo a categoria de causalidade. e sim princípios da sensibilidade. e finalmente ele ambos. sua realidade substancial. Em termos positivos: "O tempo é a condição formal a príori de todos os fenômenos em geral"( § 6 a). de uma alma em si.:: nos segredos ela alma. mas também em Locke. em si mesmas. conceitos discursivos. Os comentaclores enfatizaram a importância dessa redução à forma elo tem- o •<( po elo sentido interno. como ele foi no quadro ~ UJ 2 da psicologia racional em Descartes. isto é. sem contudo provir da experiência. todas as representações "pertencem sempre. ela intuição ele nós mesmos e de nosso estado interior" (Estética trans- cendental. ela acrescenta um traço inesperado que dá à que- rela sobre o sentido interno uma importância considerável. en- quanto determinações do espírito. mecliatamente para o sentido externo.

Uma única concessão. intitulado "Esclarecimento". o traço mais significativo é o decalque da de- monstração referente ao tempo sobre a que diz respeito ao espaço. Eis como ela é formulada: "Há mudanças reais (é o que prova a transformação de nossas próprias representações. B 53 ). a partir ele Husserl. "uma validade objetiva em relação a todos os objetos que podem ser dados aos nossos sentidos" (A 35. Ora. a vitória não é obtida sem resistência: n o parágrafo 7. Para nossa pesquisa. então o concei. B 52). O tempo nada mais é que a forma d e nossa intuição interna. o ü <[ to ele tempo desaparece també m. 55 ••••••• . ele não é ele modo algum inere nte aos "'o (f) próprios ob jetos. :2 LU nece. com todas as partes elo tempo distinguindo-se no interior ele um tem po único. portanto o tempo é algo real" (A 38. é no plano dos "paralogismos da psicologia racional" que a operação de demolição do dogmatismo elo sentido interno é conduzida. mesmo que se quisesse negar todos os fenômenos externos com suas mudanças).. Kant critica dois de seus leito- res supostamente conquistados pela tese da idealidade do espaço m as re- calcitrantes à ela iclealiclacle elo tempo. É com relação a esse tempo que opera a recognição de que iremos falar. reduz-se às relações de sucessão e de simultanei- dade. mas somente ao su jeito que os intui" . tem ele ser observada: embora a crítica recuse ao tempo toda realidade absoluta. Apenas a rea. isto é. infi- nito no sentido ele sem limites. Somente para o tempo . a: <[ o Nessa falha elo argumento se arremessará. o a. puramente tática. é que se recorre a uma disciplina dedicada a evidenciar ilusões de uma razão que sempre tem a tentação ele se sub- trair a seus próprios limites. Se dele o oz for subtraída a condição particular ele nossa sensibilidade. mudanças só são possíveis no tempo. O tempo.cosmológico. pois. Contudo. enquanto forma. relações que fazem dele uma grandeza unidimensional. :::. m as capaz ele tematizar no quadro ele uma filosofia elo "mundo da vida" alguma coisa como um tempo do estar-no-mundo com suas mudanças reais. f- oo lidade absoluta não pode lhe ser atribuída segundo o que dissemos aci. o •<[ ma. A 38. ela lhe atribui uma realidade empírica. menologia ainda chamada ele transcendental. uma feno.e não para o espaço. Pode-se pensar que a réplica obstinada ele Kant conseguiu apenas tapar a brecha aberta pela questão ela mudança ("Sua realidade empírica pen11a. Kant formula em seu nome a obje- ção. onde tudo se dá no plano ela Estética transcendental . como condição ele todas as nossas experiências. B 54).

a referên cia a algu- ü. 8I das regras do entendimen to em geral (A 52). sição do entendimento em uma pluralidade de princípios fo rmais. as categorias. é um ato fundamentalmente ele juízo. O ato ele ligar. Entende-se que julgar não é ~ü: compor a faculdad e ele escolher com a ele receber a idéia. O juízo é pois o conhecimento m ecliato de um objeto.:: aí vontade com o entendimento como em D escartes. e o elo entendimen- to. a não ser a intuição. e uma Analítica dos princípios consagrada à faculdade de julgar. Esse texto será nossa estrela o •<( norteaclora do restante ele nossa análise. o desdobramento do conhecimento em sensibilidade e entendimento recruza a distinção entre a perspectiva transcendental e a perspectiva empírica 2. A primeira tem sentido apenas 56 se se tem em vista a segunda. o entendimento não pode fazer n enhum outro uso d esses conceitos que não se ja o de julgar por intermédio deles. •••••• • . oo (2 z w 2. É denominada "transcendental" a lógica que z considera apenas a forma na relação dos conhecimentos entre si. a saber. mas colocar as intui- º o:::. mas a alguma outra representação deste (quer ela seja intuição ou até mesmo já conceito). no qual eles são pensados. Essa redução elo cam po da verdade ao plano o :::l til transcendental tem como contrapartida o desmantelamento das alegações vazias que o espí- w oa: rito forja fora do campo delimitado pela Estética transcenden tal. portanto a . Kant declara: "Ora. o juízo é que é o eixo ela Crítica. que contém toda a justificação ela aplicação das categorias à experiência. por conseguinte a representação ele uma representação deste" (A 68. Ao falar sobre a verdade. ções sensíveis sob um conceito. ordinariamente definida pela conformidade S3a: entre o conhecimento e seu ob jeto. que volta a colocar o juízo no luga r de honra que lhe pertence. Ligar Será no quadro de uma lógica transcendental que será tematizacla a coordenação anunciada na Introdução ela Crítica da razão pura entre o plano ela sensibilidade. 2. Após proceder à decom- posição em conceitos puros elo próprio poder elo entendimento. Como nenhuma representação se relaciona ime- diatamente com um objeto. B 93 ). A despeito ela prioridade atribuída à Analítica elos conceitos. um conceito nunca está relacionado diretamente a um objeto. no qual os objetos são dados. a saber. não se trata neste quadro rigoroso senão dos critérios de o conform idade entre regras do entendimento e prin cípios da sensibiliclacle. Na perspectiva ela crítica. em suma: subsumir. ã: transcendental. à qual elevemos a tabela ele categorias. Uma lógica da aparência acompanhará. portanto.i ma coisa do espaço e do tempo. Esta se decomporá em uma Analítica dos conceitos consagrada à decompo- Q. excluindo-se a o verdade material elas proposições empíricas. a lógica :::. essa operação única na qual se compõe a receptividade da sensibilidade e a espontaneidade elo enten- dimento. Recordemos a terminologia mu ito especial da Crítica: "lógica" é o nome dado à ciência :::. a forma do pensa- o mento em geral" (A 55). "isto é.

B 104). Sob essa expressão resumida na forma de oximoro há um grande enigma. o reconhecimento é indiscernível do conhecimento.modificam o conceito ele tempo recebido da Estética transcendental. Antes de propor sua resolução. a relação entre receptividade e espontaneidade é reduzida. ou em que "ocasião". ao preço de que "esforço". mas de direito. como procurou fazer pela primeira vez o "ilustre Locke". são atos de síntese. neste estágio de nossa inves- tigação. em sua primeira edição. entre receptividade sensível e espontaneidade intelectual. "síntese da reprodução na imaginação". abstração feita de todo conteúdo empírico. no mesmo ato de pen- samento. propõe a famosa tripla síntese da qual a recognição é o terceiro componente. "síntese da recogníção no conceito" . chamar-se-á de dedução transcendental a resolução do enigma colocado pela coordenação dos dois componentes heterogêneos da síntese no plano formal ao qual esse enigma é conduzido. inclusive os juízos empíricos. de uma gravida- de comparável à que Platão perseguia sob o título da "comunidade" ou da "participação" entre os "gêneros". Kant mede sua difi- culdade: a questão colocada não é uma questão de fato. É somente graças às suas aporias que ela pode anunciar uma revolução que torna possível a libertação da problemática do reconhecimento em relação à do conhecimento. Digo logo de início o que chamou minha atenção na leitura da tri- pla síntese: foi a maneira pela qual as figuras sucessivas dessa síntese - denominadas "síntese da apreensão na intuição". ao preço das conhecidas aporias que o Pannênídes multiplica. que será doravante denominado 'síntese do diverso"' (A 78. Esse reino do juízo é total. o de síntese: "Todos os juízos. Mas aqui também. Eles compõem juntos apenas formas sensíveis e formas do entendimento ou categorias. Para empregar o vocabulário dos jurisconsul- tos que chamam de dedução a disciplina que faz aparecer o direito ou a le- gitimidade de uma pretensão. não se trata de descrever como. Um nome é dado a essa operação. Trata-se aqui de uma espécie inédita de mediação. 57 •• ••••• . É aqui que a Crítica . A famosa tabela das categorias é a das regras nas quais se concentram "as funções da unidade nos juízos" (ibid.). trata-se da primeira promoção de uma variável do conceito de reconhecim ento à classe dos filosofemas. o espírito humano chega a ordenar essa dispersão. Para nós. Kant consagrou muitos anos à busca da vitória nessa gigantomaquia suscitada pela confrontação. Sob essa forrria depurada.

"se eu dei- 8w xasse sempre escapar de meu pensamento as representações anteriores e se a: o eu não as reproduzisse" . elas res- pondem à sugestão lida no final ela Introdução à Crítica e que será man- tida em reserva até o magnífico capítulo sobre a imaginação produtora em ligação com o esquematismo elo entendimento: se os "troncos" elo conhe- cimento humano são dois. O próprio tempo não é. sempre pressuposta ~ como pólo simétrico do eu transcendental. mas desconhecida para nós" (A 15. A diversidade..)· menologia elo reconhecimento. ou não seria ele já o próprio tempo sob um certo 58 aspecto ao qual se poderia fazer referência ao modo bergsoniano em ter- ••••• .o que autoriza imediatamente a idéia de suces- I 8::l são . se a consciência eleve ser possível. no momento apropriado.. não é por sua vez inencontrável? º o 2 A sugestão feita aqui encontra reconforto na descrição ela segunda 8 o síntese. Mas essa necessidade mal dissimula o verdadeiro achado expresso pelas palavras "percorrer" e "reunir". dos quais se pode falar a cada vez somente como ele uma "unidade absoluta". É como sucessão que o tempo é implicado na maneira pela qual o espírito é afe- tado pela diversidade das impressões. B 29). creditar a uma feno- o «:[ (. O argumento pelo absurdo está z UJ plenamente em ação novamente: se as aparências fossem tão variáveis que :2 u UJ I z não se pudesse jamais representar-se que elas se reproduzem. Surgiu um novo vocábulo no ponto ele sutura entre a recepção :2 ir Q_ e a espontaneidade: "reprodução". E eu coloco a questão: ele se acrescen- taria ao tempo-sucessão. O s termos mediadores nos quais se baseia a tripla síntese não dizem alguma coisa sobre essa "raiz comum. eis o argumento. então não. a da "reprodução na imaginação". A necessidade aqui invocada está ligada ao argumento ela forma: se não .. "eles talvez ve- nham ele uma raiz comum. "é necessário primeira- mente percorrer a diversidade e depois reuni-la" (A 99). Ora. ele "momentos". mas desconhecida para nós"? Melhor que isso: eles não se referem a propriedades temporais que excedem as simples relações ele sucessão e de simultaneidade? Guardemos na reserva essa sugestão que será preciso. sensibilidade e entendimento. sem o acréscimo j ü: ela síntese. apresenta-se como dispersão ele instantes. em suma. que toda análise pressupõe presente na operação de síntese. Vejamos primeiramente a "síntese da apreensão na intuição". "se eu não as reproduzisse. O sentido interno é novamente nomeado como aquilo a que pertencem as modificações elo espírito. Ao surgir desse modo no texto. "percorrido e reunido"? E a diversidade. enquanto passo para as se- üi UJ guintes. eu não representaria nenhum objeto como sendo novamente o oa: ü:i m esmo".

com a produção acrescentando a nota de unidade à 59 ••••• . do qual a associação de idéias é a réplica empírica. Assim . e com ela a ela impenetrabilidade. ~ . Em outras palavras. Unív~h~a ~ rederaí do Para Biblioteca Ce:. o ele "imaginação". ela forma etc. Diz-se pouca coisa sobre essa produção ir::.2 produção e produção são assim associadas na operação mediadora entre o uno e o múltiplo.tral mos de reconhecimento? Mas um segundo termo é unido à "reprodução". na verdade. Re. nem unidade sem consciência. digna elo título de conceito. Surge um novo traço no qual se inscreverá n ossa decepção: a unidade que faz da representação uma representação una. nos fenômenos dados. Estamos aqui no âmago da tripla síntese. O reconhe- cimento no conceito não acrescenta nada à abertura da síntese preceden- te sobre a imaginação. cujo nome já nos des- pertou o apetite." (A 106). embora Kant não a empregue explicitamente. A cons- ciência una reconhece-se na "produção" dessa unidade que constitui o conceito ele um objeto (A 105). a não ser sua t:' oo ligação com a idéia ele regra no tratamento de uma diversidade ele im. O argumento retoma o precedente: é a hipótese absurda ele uma novidade sem fim elas impressões e do esquecimento elas unidades acres- centadas. extensão. e por conseguinte a unidade l1l o (f) sintética ela consciência que temos dele. o conceito ele corpo torna a: <t CJ necessária. mas tampouco há síntese sem unidade. a 8 <t reprodução necessária ele sua diversidade. a recognição consiste em que a consciência una não se apreenda senão como objetivacla em uma representação atingida pela chancela ela necessidade e ela unidade. a representação ela :::. provém unicamente da unidade da consciência. A sugestão feita há pouco volta com força: essa operação mediadora não teria algo a ver com a raiz "desconhe- cida para nós" elos dois troncos elo conhecimento humano? E com o pró- prio tempo sob os auspícios de uma outra variedade elo reconhecimento? Vem depois a recognição propriamente dita. "Objetividade" é a esse respeito uma palavra justa. o •<t Ü' pressões (é o caso elo conceito ele corpo): "Mas ele não pode ser uma re. A única virtude atribuída ao reconhecimento é fazer aparecer essa unidade da consciência sobre o objeto. ao preço ele uma decepção sobre a qual já falamos um pouco.: ele uma unidade que justifica o neologismo ela recognição. Essa é a nossa decepção. Toda a Dedução trans- cendental é aqui resumida e proclamada: não há ligação sem síntese. êi z gra das intuições senão porque ele representa. na percepção de alguma coisa fora de nós. a totalidade das operações de síntese. Por isso se fala em recognição no conceito. m as ele fala em objetos "como aquilo com que nos deparamos" (A 104). O termo cobre.

sob a expressão "síntese transcendental o ela imaginação produtiva". declaração sobre a imaginação: "A síntese em geral é. os conceitos mediadores colocados em ação o u ot- na primeira edição só retornam . A questão radical assim colocada é então a seguinte: uma grande filosofia da imaginação não se anuncia sob vocábulos realmente inéditos: percorrer. A acusação de idealismo subj etivista ao estilo ele Berkeley parece-nos inconcebível. produzir no conceito? C om isso não se está lançando um pano sobre a famosa terceira "fonte" ou "tronco" do conhecimento humano. a síntese passa a ser resultado exclusivo dessa unidade mais elevada que todas as opera- ~u ções intermediárias de "ligação" e ele "síntese". A imaginação. o que se impõe à leitura é a mudança de estratégia entre uma edição e outra. evocado já na Introdução ela Críti- ca? Por outro lado. uma função ela alma. reproduzir na imaginação. Em vista das exigências de uma dedução que º o :. reprodução definida pelo não-esquecimento do anterior e sua retenção em uma representação cumulativa. proceda ele cima para baixo. oo que diz respeito apenas à experiência empírica sob a lei ela associação. um simples efeito ela imaginação. z o 8a: ainda ocupa um lugar de honra. e eles voltam sob 8 I o modesto título ele "síntese figurada" (§ 24) . ~ w Mas o que é produzir? oa: Gl Ora. sem a qual não teríamos absolutamente nenhum conheci- •••••• . ã: a. Estas procedem dessa ü: unidade originariamente sintética ela apercepção que obtém autoridade ~ w apenas de si mesma (§ 16) . na segunda versão da D edução trans- cendental nos parágrafos 15 a 24. a título ele "apli- zw 2 cação elas categorias aos objetos elos sentidos em geral". em uma página ela segunda edição ela Crítica lemos a famosa :. o desenvolvimento dessa grande filosofia da imagi- nação não é impedido pela idéia fixa representada pelo tema da unidade da representação no conceito com base no modelo da unidade procla- mada da consciência transcendental? Não discutirei aqui as razões que fizeram Kant substituir estas pági- nas. Para quem quer conhecer apenas o texto publicado. contudo.. A réplica a essa suspeita teria ele ser procurada na história da recepção da Crítica por seus contemporâneos. como veremos mais adiante. A partir elo parágrafo 15 da nova redação da D edução transcendental. no final ela Dedução. O importante é que a unidade da consciência se produza no conceito para reconhecer-se a si mesma. para distingui-la ela imaginação reprodutiva. pois a ênfase já recai na uni- dade ela consciência transcendental. promissoras em muitos aspectos.. cega mas 60 indispensável. reunir.

à categoria. o problema e a solução. Além disso. UJ esquematismo é a peça mais notável. inti- tulado "Da unidade originariamente sintética ela a percepção" (B 131 ). da qual a dedução transcendental é o coração. no ponto ele maior vulnerabi- lidade elo sistema kantiano. que é o próprio juízo. a última palavra não é pronunciada. Nesse sentido. ela qual o 2 ::. mas somente na Analítica dos princípios. Aqui reside para nós o ponto mais importante: a opera- ção de relacionamento que. não era preciso que a imaginação produtora fosse tratada no quadro ela Ana- lítica elos conceitos.. especifica a idéia de identificação por m eio ela qual caracterizamos a pimeira figura do reconhecimento - por mais incliscernível que ela se ja elo simples conhecimento . por um lado. mas ela qual temos apenas raramente alguma consciência" (B 103 ). Aqui surge o tema elo esquematismo. No entanto. que se encarrega ela aplicação efeti- va dos conceitos à experiência. Cega ele que maneira? Pouco acessível ao conhecimento? Função ela alma? Essa declaração é ainda mais surpreendente porque a nova Dedução não dedica nenhuma atenção a operações de aspecto psicologizante para concentrar-se na dedução ele toda espécie de síntese no objeto a partir da identidade de si mesma da apercepção. essa operação só se completa realmente na Analítica dos princípios. em Kant. naquilo que poderia ser chamado de lógi- ca concreta. ao fenômen o: "Essa re. como já se afirmara antes no início do parágrafo 16..mento. como essa operação de >- 0 o ligação só é feita sob a condição elo tempo. cuja radical sub jetividade é enfatizada pela capacidade elo "eu penso" que acompanha toda as nossas representações.) .} m ento da noção de tempo que ficaremos atentos no desenvolvimento õ z que se segu e. 8 <! Impõe-se uma palavra. É sob o título de Aplicação que essa passagem ele uma Analítica para a outra se opera. por outro. Na verdade.o que significa precisamente subsunção . (. que enfrenta todos os obstáculos: a palavra aJ o (f> "homogeneidade" (A 137. é som ente nessa Analítica dos princípios que a operação efetiva de subsunção. na qual são designados a um só tempo a: <! <:. para distingui-la da lógica abstrata centrada nas categorias. 61 ••••• . Para que se possa dizer que um "objeto está contido :J sob um conceito" (ibid. no qual toda a atenção se concentra no pro- blema pungente da mediação entre os dois pólos da sensibilidade e do entendimento. B 176). é conduzida a seu termo. ~ a aplicação requer a mediação de um terceiro termo que seja homogêneo em relação. o •<1. será também ao enriqueci.

por um lado. se remontasse a um longínquo passado o adágio segundo o qual "a natu- reza gosta de se ocultar".. presentação mediadora deve ser pura (sem nada empírico) e. B 177) .. esta não significa senão como procedimento que segue o entendi- o •<l: ~ mento: o esquematismo é esquematismo do entendimento. ã: a. e •••••• . "arrancar da natureza". intelectual e. mas o esquema não é a imagem. Com o esquema. e que se torna assim a aposta final do empreendimento. Essa representação é o esquema transcendental" (A 138.. (.::: Por ocasião dessa explicação surge no texto a frase extraordinária z w que responde a uma declaração comparável evocada mais acima: "Esse º o:. e dJ :. por outro. contudo. Para apreender em toda a sua força e em todo o seu alcan ce essa teoria do esquematismo. A teo- ria elo esquema e elo esquematismo não está pois completa nas páginas surpreendentes do primeiro capítulo da Analítica dos princípios intitula- do "Do esquematismo elos conceitos puros do entendimento". A esse título. esquematismo elo entendimento puro. não se pode deixar de associar ao capítulo do esquematismo o capítulo dos princípios que se segue a ele. Essa associação se impõe assim que passamos ele uma teoria geral do esquematismo para a enumeração dos esquemas seguindo um paralelismo com a elas categorias. B 179). como ill :. e esquematismo "o procedimento que segue o entendimento com esses esquemas" (A 140. 8w É preciso ter idéia da importância desse paradoxo que faz elo tercei- a: o ro termo um híbrido de cliscursiviclacle e ele intuitiviclacle. Denomina-se esquema a figura mista que restringe o conceito em seu uso. A teoria começa com a distinção entre esquema e esquematismo.) 2 simples forma. Não aponta- I oo mos para essa "raiz comu m" evocada na Introdução da Crítica? Todas as ::::> til UJ palavras da frase enigmática soam de um modo estranho: "arte oculta". na medida em que a imagem é sempre particular. oa: "profundeza da alma". B 180-1 ). o esquema é antes um m étodo para dar imagens a um conceito. "natureza secreta". sensível. cu jos segredos de funcionamento teremos dificuldade em arrancar da na- o UJ I z tureza para colocá-los a descoberto sob nossos olhos" (A 141 . É digno de nota que Kant não leve em consi- 62 deração as confissões que o enigma evocado há pouco poderia gerar.) G: . em vista dos fenôm enos e ele sua o (. é nesse momento que são propostos desenvolvimentos referentes ao tempo que enriquecem significativamente as considerações feitas na Estética. Ora. a imaginação volta a aparecer em cena: diz-se que o esquema é seu produto. é uma arte oculta nas profundezas da alm a humana.

a primeira das três "sínteses subjetivas" con. Eu me concentrarei em um único ponto: o devir do conceito transcendental do tempo ao longo desse percurso. mas seu exame detalhado tem ele ser procurado no capítulo seguinte consagrado aos princípios. em conformidade com a tabela dos juízos: quantidade. duas classificações pa- ralelas e complementares. com efeito. a elos esquemas e a elos princípios. Desse modo. por fim . Sua análise é feita em grandes traços no capítulo elo esquematismo. O leitor é obrigado a ir e vir entre a tabela elos esquemas maiores e sua colocação em ação efetiva no capítulo seguinte. Esse traço cumulativo do tempo é reafirmado nos Axiomas da intuição 63 • •• •• . A tabela elas categorias. Não entrarei nessa arquitetura complexa. Os princípios são. é homogêneo à quanti. Ele revela ser apropriado ao esquema ela quantidade ir::. ao esquema ela quantidade cor- respondem os axiomas ela intuição. ao esquema ela relação. pois. oferece um fio condutor para estabelecer sucessivamente uma tabela elos esquemas e uma tabela dos princípios que desenvolvem pro- priamente sua aplicação.. ordem. modalidade. o <( po que é preciso salientar: esse traço havia sido percebido uma primeira ro o(/) vez na síntese da apreensão. as analogias ela experiência cujo tratamento decidirá a sorte ela razão em sua pretensão ele ultrapassar os limites ela experiência sensível.que ele se dedique diretamente à minuciosa tipologia elos esquemas e do esquematismo. É primeiramente como grandeza que o tempo é convocado sob o signo da quantidade. A Analítica dos conceitos havia repartido as categorias em quatro grupos. ao esquem a ela qualidade. produzo o tempo ao contar. por outro lado. B 182). Em outras palavras. ~ oo dade enquanto "representação que abarca a adição sucessiva ela unidade o •<i o à unidade" (B 182). obra-prima de composição ela Analítica dos conceitos. as anteci- pações ela percepção. que é o número. Não é ele surpreender que a m esma expressão volte a " ::J aparecer neste novo contexto: "Produzo o próprio tempo na apreensão da intuição" (A 143. qualidade. Esse esquema. É essa congruência entre a discursividade própria ela õ z o operação aditiva e o traço que pode ser denominado cumulativo elo tem. as proposições primeiras que regem o emprego das cate- gorias sob a condução elos esquemas. a: <( sideradas acima. Temos. intitulado "Sistema ele todos os princípios elo entendimento puro". A enumeração elos esquemas maiores ocorre segundo esse molde. ao esquema ela modalidade corresponclerão os postulados elo pensamento empírico geral.

Com isso revela-se esse caráter ele o tempo ser ele próprio "imutável e fixo". os recursos de síntese concreta contidos no esquema do número: "Todas as intuições são grandezas ex- tensivas". É um tempo ele próprio extensivo que é aqui pressuposto: isto é. m as também acumulado. que ela possui um grau. no capítulo seguinte. isto é. ção entre permanência. ao que parece. sucessão e simultaneidade.:. o esquema da substância é enunciado como perma- nência elo real no tempo. As Antecipações ela percep- ção oferecem aqui um complemento precioso ao introduzir a idéia ele grandeza intensiva.. :2 ã: a. Um outro aspecto do tempo é salientado pelo esquema da qualida- de: ele diz respeito à existência no tempo segundo ele está preenchido ou vazio. Foi pois o esquem a ela ((] o a: substância que suscitou essa releitura da Estética no ponto sobre a rela- . No entanto. a saber. isto é. a substância. algo que per- ::J . A oposição entre o tempo vazio e o tempo pleno ocupa o primeiro lugar nas Antecipações da percepção: "É digno ele atenção que não possamos conhecer a priori nas grandezas em geral senão uma única qualidade. isto é.. a continuidade.. citado. a simultaneidade" (A 176. É o primeiro desses três z LU :2 modos. a saber. esse traço é essencial elo ponto ele vista ela ~ UJ discussão condu zida no quadro da primeira Analogia da experiência. •••••• .:. B 225) . Kant se demora inicial- mente em sua primeira forma. que está em causa na 8I discussão sobre a idéia ele substância. o grau . A esse "permane- cer" elo tempo corresponcle elo lado do fenômeno o imutável na existên- 64 cia. a substân cia. Esse "perma- o •<! necer" do tempo não parecia ele m odo algum implicado na idéia nua j ü: de sucessão. B 219). com o corolário ela oposição entre o que per- manece e o que muda. B 218). a o ü f2 sucessão. O traço ele permanência elo a: o tempo vem como reforço: nada poderia ser simultâneo ou sucessivo se I oo não h ouvesse "no fundamento algo que é sempre. pela primeira vez. Ao passar para o esquematismo da relação. todo o resto é deixado para a experiência" (A 176. maneça e que se ja permanente" (A 182. o que não é dito pela simples sucessão. tratada como uma relação entre z § aquilo que muda e aquilo que não muda. enquanto tudo escoa nele. º o :2 Lemos com surpresa que "os três modos do tempo são a permanência. e em toda qualidade (o real elo fenôm eno) nada m ais a priori que sua quantidade intensiva. O tempo é solicitado nova- m ente: com efeito. um tempo não apenas percorrido de mornentbs em m omentos. que desenvolvem.

B 238). segundo as palavras ele Kant. (Q o(f) te". A segunda subcategoria da relação. B 183). Essa prevenção contra a sedução das idéias ele acontecimento. não há nascimento absoluto: "Toda apreensão de um acontecimento é. A prim eira é arbitrária. O simples fato ele nascer é um apelo à busca da causa do aconte- cimento. pois a apreensão. na Analítica dos princípios. que por nossa o Q_ 2 percepção um fenômeno não seria de modo algum distinguido ele todo ~ outro segundo a relação de tempo" (A 194. a sucessão regracla. m as sim que ele se ja precedido. uma pe rcepção que se sucede a outra" (ibicl. que não teria relação com nenhum objeto. pois. se- gundo o qual a apreensão de um (o que acontece) seguida ela elo outro (o que sucede) segundo uma regra" (ibicl. O que é importante em um acontecimento não é que ele ocorra. o 8 o •<! tempo à espera ele ordenam ento abomina o acontecimento. pode gerar "u m jogo ele repre- sentações. O um após o outro ela su- cessão não pode ser anárquico: que alguma coisa ocorra não pode proce- der ele nada. Diz-se que o poder sintético da imaginação determina "o sentido interno relati- vamente à relação ele tempo" (A 189. a causalidade. corresponcle. B 232). A Dialética transcendental terá assim uma relação privilegiada com o tem- po através ele um esquema ela relação. Assim.). um esquema n otável. apresenta-se na discussão dos problemas cosmológicos referentes à "lógica da ilusão". nesse sentido. ~ ~ pios. isso ocorreu em parte em razão des- sa ausência ele distinção entre sucessão subjetiva e sucessão obj etiva. de nascimento. "A segunda consistirá. Algo importan- te é dito sobre o tempo na segunda Analogia: "Todas as mudanças ocor- rem segundo a lei ele ligação entre causa e efeito" (A 189. revela um novo aspecto do tempo quanto à simultaneidade que opera aqui entre realidades múltiplas ou. º'ooz À terceira subcategoria ela relação definida na Analítica elos con cei. marca ao m esmo tempo o distanciamento de Kant em relação à tripla síntese discutida há pouco: se sobre a primeira edição ela Dedução transcendental pôde pesar a suspeita de idealismo subjetivista.). E m Kant. A exigência ele ordem que pesa assim sobre a pura sucessão é tão forte que Kant é obrigado a opor a sucessão objetiva elos fenôm en os à "sucessão subjetiva ela apreensão" (A 193. ou "ação recíproca entre o agente e o pacien. Esse esquem a. isto é. entre 65 •• •••••• . a sucessão por si só não basta para carac- terizar o tempo. pois. na ordenação do diverso do fenôm eno. causalidade recíproca elas substâncias em relação aos seus acidentes" (A 144. B 233 ). e seu desenvolvim ento n o plano dos Princí. por si só. ele origem. B 239). o <( tos como a "comunidade". clir-se-ia. "a a: <( o ::.

da "ordem elo tempo" (relação). Às modulações ela modalidade segundo possib ilidade. B 256). E ntre esses dois pólos 66 também eleve prevalecer a homogen eidade. idéia que terá uma sorte considerável em outros contextos filosóficos que serão evocados mais adiante. equ ivalente à latina communio ou commercium. porém . B 184-1 85). Essa universalida- de completa a objetividade ela relação causal. aqui pressuposto. . a saber. Ainda restam os três esquemas relativos às categorias ela modalida- de.. caracterís- tico ela simples simultaneidade. B 184). Existir no mesmo lugar nem sequer basta: uma comunhão real das substâncias é a única que satisfaz o princípio de ação recíproca. por tB o cr: w fim elo "conjunto elo tempo" (modalidade) (A 145 . as idéias de existência em um "tempo qualquer" o ü o (possibilidade). a ênfase é posta na simultaneidade no espaço em que consiste "a ação recíproca universal" (A 211. mais uma vez. O que faz sen- tido aqui não é apenas a reciprocidade na ação. que corresponde ao es- quema da comunidade. B 260). exis- m tência e n ecessidade corresponclem. Na terceira analogia. Pensar em duas coisas ao mesmo tempo não é estabelecer uma "comunidade universal ele ação recíproca" (A 213. mas o alcance u niversal ela idéia ele uma ação recíproca. "em todo tempo" (necessidade). Kant tem consciência ele que não esgota os recursos ela palavra Gemeinschaft. importantes idéias referen- º o:::. em um "tempo determi- z w n ado" (realidade) (A 144. não é no parágrafo •••••• . . ele oferece a possibilidade ele uma composição entre suces- são e simultaneidade expressa pelas idéias ele mutualidade e ele recipro- cidade: noções cuj a carreira é aqui interrompida ao mesmo tempo que iniciada. Kant CC o retém seu impacto sobre a própria concepção elo tempo considerada I oo sucessivamente elo ponto de vista ela "série elo tempo" (quantidade). z o ü w Dessa travessia rápida elo sistema elos esquemas e elos princípios. tes ao tempo. Por fim . Mas a objetividade elo fenôm eno não 2 8I ·é afetada por isso. às expensas. que é maravilhosamente ilustrada pelo sistema newtoniana. da apreensão simplesmente subjetiva elo "ao mesmo tempo". Quanto ao tempo.-·. que lembramos não acrescentarem nada ao conteúdo representado.. :' ·. ' i "determinações regradas". elo 12 "conteúdo elo tempo" (qualidade). O prosseguimento ele nossa investigação dará sua plena dimen- são à idéia de ação recíproca sob a forma do reconhecimento mútuo. o •<l: c> Por isso n ão há nada importante que corresponcla a eles no capítulo dos i) G: f= Princípios. Esse en- 2 a:CL riquecimento ela problem ática elo tempo instaura o sentido interno como contrapartida obrigatória ela unidade ela apercepção.

Talvez esse se ja o resultado mais importante dessa exe- gese da identificação compreendida como relacionamento sob a condi- ção do tempo. ~ ~ " . Universidade Federal do Para BibHoteca Ce:•tral consagrado à recognição que se decide o destino ela idéia de identificação compreendida como ligação no tempo. oQ.... a da ruptura absoluta entre o ponto de vista transcendental e o ponto de vista empírico. 2 UJ >- o o o •<t o oz o ü <t Q} o(f) ~ º . D esse ponto de vista.. . Kant nos deu o exem- plo de uma batalha sem concessões. graças à qual se opera a identificação de um objeto qualquer. e a da hetero- geneidade originária das duas fontes do conhecimento humano: a sensi- bilidade e o entendimento... 67 . Ela terá nos permitido acompanhar um combate heróico de Kant nas duas frentes. que depende ela Analítica dos princípios. mas na Aplicação.. por um lado..

reduz a filosofia transcendental a uma epistemologia e assim a amputa dos paradoxos e dos enigmas que constituem sua grandeza. mesmo que sejam guardadas na reserva. tra- tando-se da coisa em si. A ruína da representação questão da saída do kantismo é uma questão difícil. Só se pode sair do idealismo transcendental se isso é feito de uma vez. seja no sen- tido do positivismo. Esses segmentos estão ajustados demais ao argumento central para serem separados dele. a revisão. Por outro lado. não é este ou aquele argumento que é preciso procurar cor- rigir. magníficas análises como as da tripla síntese e do esque- matismo. Há dois caminhos que não levam a lugar algum: a discus- são fragmentária e a revisão geral do sistema. elo mesmo modo que para entrar é preciso entrar ele uma só vez. ao que é preciso acrescentar a "Refutação do idea- lismo" e a adição da Selbstaffektion na segunda edição. seja no do neokantismo. para reorientá- las. É preciso saber discernir esse limiar 69 •••••• . do e u numenal e mais fundamental- mente da irredutível separação entre o Denken e o Erkennen que torna possível o desenvolvimento elas três Críticas. Por um lado.

O tom não é menos decidido e imperioso que o de Descartes no Discurso. • • • • • • e . ele o presume para poder formular as duas pressuposições que colocamos como guias de nossas análises: a dis- sociação elo ponto ele vista transcendental em relação ao ponto de vista empírico. mas todas as tentativas •<( para estabelecer sobre eles alguma coisa a priori por meio ele conceitos. em que nível de radicalidade. l . que inverteu as relações da Terra com o Sol: "Pode-se fazer a mesma tentativa na metafísica a respeito da intuição dos objetos" (B XVII). Mantenho a palavra alemã Vorstelltmg. Na verdade. UJ nessa hipótese. Eu diria que é no nível do conceito de Vorstellung . entra em cena 8I z como o termo emblemático elo gesto filosófico que se anuncia primeira- o(_) w a: mente como pedido de "admissão" e depois como "tentativa". É para aquém dessas duas pressuposições que é preciso remontar para tematizar o con- ceito. ele Vorstellung 1 • O texto canônico a esse respeito é o prefácio (Vorrede) ela segunda edição da Crítica da razão {Jura (B ele 1787). comparável à ele Copérnico na cosmologia. para não comprometer outros empregos ela palavra "representação" em acepções irre- 70 dutíveis ao uso kantiano. não resultava. "representação". E is como a palavra "representação" surge pela primeira vez: ~ w 2 ii a. em nada" (B XVI). litigioso por excelência. tradicionalmente traduzida por "representa- ção".:: z por meio do que nosso conhecimento teria sido estendido. ). como é o caso de m eus próprios trabalhos. representação. Testemunha- mos a irrupção de um verdadeiro acontecimento do pensamento. Há a mesma decepção diante do espetáculo ela metafísica em frangalhos. para dizer com o que se está rompendo. É aqui que o ponto de vista transcendental é introduzido por inteiro a título ele uma revolução no plano filosófico. A alterna- o tiva aberta pela h ipótese revolucionária é saber se o objeto "se regula não I oo pela natureza dos objetos mas pela natureza de nossa faculdad e de intui- ~ UJ ção" (ibid. que em- pregamos várias vezes. E. ~ü: . como vimos. de repente. O problema ela síntese a priori. Kant tampouco o justifica. a heterogeneidade inicial das duas fontes do conhecimento humano. há o pedido para que se "admita" a inversão constitutiva elo ato fundador da filosofia crítica: "Admitia-se até agora que todo o nosso o conhecimento deveria se regular pelos objetos. se dá na interseção desses dois requisit e suscita a quaestio juris desenvolvida pela dedução transcendental. embora sem que tenha sido de modo explícito. a receptividade e a espontaneidade. ~ w 2 É nesse contexto que a palavra Vorstellung. Segue-se a lembrança do exemplo de º o 2 o(_) Copérnico.

Será cloravante no interior elo grande círculo desenhado pela representação que ocorrerão as relações. O que acabamos ele denominar círculo ela representação é a figuração gráfica ela revolução copernicana que faz que "os objetos como fenômenos se regulem por nosso modo de representa- o ção" (ibid. ). se. "é preciso que eu as relacione. O termo Vorstellung torna-se assim o em- blema ela "mudança na maneira de pensar" (B XVIII). consiste a tarefa dessa crítica da razão pura especulativa" (B XXII). ). esse gesto posicional compartilha um traço com o ele Kant é primeiramente uma proposição que se pede para aclmi. a contradição desaparece" (B XX). operando assim nela uma completa revolução a exemplo dos geômetras e físicos. É na trilha desse gesto que é entronizado o termo "representação". 71 ••••• .). às quais consagramos todas as nossas análises.. é com um único gesto recusar a revolução z lU (f) lU copernicana e sair elo círculo mágico ela representação. entre o entendimento e a sensibilidade. e que se exerce- rão as operações ele síntese em relação às quais a imaginação produtora figura como terceiro termo. E mais adiante: "Nessa tentativa de mudar o procedimento até agora seguido na metafísica.para que as intuições se tornem conhecimentos. que Kant resume em uma fórmula: "Das coisas conhecemos a priori somente o que nós mesmos colocamos nelas" (ibid. A condenação ela pretensão que a razão tem de conhecer o incondiciona- do é o corolário necessário dessa reviravolta. D e uma só vez. pelo contrário. com o desaparecimento ela contradição. a algo como objeto e que eu o deter- mine por meio delas" (ibid. então.). <{ o rência última de todas as experiências particulares suscetíveis de se desta. lU a: gesto. a experiência fundamental de estar-no-mundo é posta como refe. •<t o ~ Sair do kantismo. a: <{ Por seu caráter abrupto. enquanto representações. se se admite que nosso conhecimen- to ele experiência se regula pelos objetos como coisas em si. o incondicio- nado não pode ser pensado sem contradição. Por meio desse a: 0. ~ 3 car sobre esse fundo . a hipó- tese é transformada em tese: "Torna-se então manifesto que o que havía- mos admitido inicialmente somente a título ele tentativa tem fu ndamen- to" (ibicl. e a palavra "representação" é colocada como u ma chancela sobre esse gesto de eliminação que deci- de o destino do dogmatismo: "Ora. se admite que nossa representação elas coisas como elas nos são dadas se regula não por estas como coisas em si. mas antes qu e esses objetos como fenômenos se regulam por nosso modo de representação.

na ed. é uma tentativa. essa filosofia será também. pelas mesmas razões. uma filosofia do estar-no-mundo não pode ser senão problemática. nologie. Gallimard. p. não apenas devido a razões referentes à sua temáti- ca. fr. ele caracteriza logo no começo do jogo sua filo- ~ w sofia como "a expressão da crise radical da vida da humanidade euro- º o :i péia". Cito Die Krisis der europaischen Wissenschaften und die transzcendentale Phaenome- 0. essa filosofia permanecerá para sempre como tentativa. evocar alguns textos ele referência nos quais se pode ler a instauração elo gesto filosófico oposto ao que se dava como termo emblemático a representação. trad. Kluwer. v. Em vez de precipitar-me com um salto para a ontologia fundamen- tal de Heidegger. Será somente na terceira e última parte que ele enfrentará Kant e 8 sua escolha fundam ental: essa parte intitula-se "O caminh o que conduz ~ :2 à filosofia transcendental parte ele uma questão-em-retorno (Rückfrage) sobre o mundo-da-vida dado de antemão". O filósofo ainda se vale ele uma filosofia transcendental em que o ego é o portador de um projeto de constituição no qual se explícita o ato o fundamental ele doação ele sentido (Sinngebung). W. fragmentária. VI). Gérard 72 Granel. não totalizável.. É sob o signo dessa questão 8:r: z que a ruptura é colocada. Kant "não pensava de modo algum que. 1976. de Husserl (Gesammelte Werke.. Seus adeptos jamais poderão escrever como Kant: "Torna-se então manifesto que o que havíamos admitido inicial- mente somente a título ele tentativa tem fundamento". mas também por razões ligadas ao enga jamento do filósofo que a professa e assume os riscos da controvérsia inseparável de seu caráter não- científico. Problemática.que concorriam para determinar o sentido ele suas ques- oo :::> 1- tões" (Husserl. Dordrecht. tir. Essa "admissão" (Anna hme). Husserliana. Mas. ]. mas. em sua o() llJ a: maneira de filosofar. que toma como modelo o caráter a priori do saber científico e sua ambição de de- monstração sistemática. ao contrário de Kant.. 1962. 1976.: La Crise des scíences européennes et la Phénoménologie transcendantale. ele também pisava um solo de pressuposições não o I interrogadas [ . 1950. uma hipótese. essa "ten- tativa" (Versuch) justificam-se somente pela própria execução do progra- ma de pesquisa que elas abrem. La Crise. confrontado à "crise •<t ~ LL elas ciências européias". Biemel. procurarei na Krisis 2. meu primeiro ponto de apoio. ele Husserl. antes de esboçar os primeiros lineamentos ele uma filo- sofia distinta elo reconhecimento. Haia/Nijhoff. E u gostaria. Husserl chama esse solo ele "o mundo (J) w oa: üJ :i õ: 2. iniciada como uma tentativa. •••• • . 118). Paris.

p. . cuja primeira edição data ele 1949. 173 ss.). no entanto. "Superar a intenção na pró- pria inten ção" (ibicl. p.. 119). p. incluindo aí sempre o 'eu' que filosofa. carne e corpo. Paris. p. das escapadas rumo a horizontes não conquistados. em um artigo publicado por ocasião do centenário do nascimento ele Husserl. até n a percepção compreendida como presença junto às coisas: "Esse sentido implícito e essa estrutura de horizonte fazem que toda 'significa- ção' na qual se investe o cogito ultrapasse a todo instante aquilo que. 183) . de Zusammenleben (ibicl. esse mundo no qual todos nós. Pode-se dizer com Lévinas. D esse modo. "Essa superação da intenção na própria intenção" arruína a idéia ele uma relação entre sujeito e ob jeto tal qu e o ob jeto seria "a todo instante exa- tamente o que o suj eito pensa atualmente" (ibid. 18 1). 73 o • ••••• . 182).. ensaio retomado em En découvrant l'existence avec Husserl et Heidegger. Essa temática é a do implícito. "a respei to elas formas puras elo 'algo em geral' onde não está em jogo nenh um sentimento. ). nesse gesto se consuma a ruptura com a hipótese kantian a em seu momento de surgimento. p. Emmanuel LÉVINAS. do po- tencial despercebido.ela existência encarnada" (ibid.não representados . É do próprio interior do tema maior da fenomenologia husserlian a.ambiente da vida cotidiana considerada como 'ente'.). 200 1 (3. em suma. no próprio momento.. p. que na última filosofia de Husserl se anuncia "a ruína da representação" 3. Ao menos "está aberto o caminho para a filosofia elo corpo próprio. com seus cientistas e suas teorias" (ibid. onde a intencionaliclacle revela sua verdadeira n atureza. Vrin. com a distinção entre Leib e Korper. É nesse contexto que são elaborados os conceitos de Leiblichkeit.. que Lévinas fa z surgir a temática tomada em estado n ascente que anuncia a "ruína da representação" (ibid. 180). é ares- peito das estruturas da lógica pura que "Husserl põe em xeque a sobera- nia da representação" (ibicl. 3. La ruine ele la représentation.). Ainda será preciso passar da idéia ele horizonte implicado na intencionalidade para a de situação elo sujeito e ele suj eito em situação. o da intencionalidade. só revelam sua verda- de se recolocaclas em seu h orizonte" (ibid. é dado como explicitamente visado" (ibid. 123). . onde nada se oferece à vontade e que. de Lebenswelt. ecl. p. possuímos uma existên- cia consciente e também as ciências enquanto fatos de cultura nesse mundo.. pois seu movimento rumo ao representado se enraíza em todos os horizontes implícitos .

Paris. Heidegger conduz um ataque frontal entre a idéia ele representação e o mundo como representação no famoso Kantbuch 4 . : Kant et /e probleme de la métaphysique. que "a flutuação entre o desengajamento elo idealismo transcendental e o engajamento em um mundo. Kant une/ der Problem der Metaphysil<. Pode-se ler outra versão da mesma ruptura frontal no ensaio Die Zeit eles Weltbildes. mesmo se pensarmos que será somente a ontologia heideggeriana que desenvolverá todos os seus recursos. . Rem eto à seção intitulada "A imagi- nação transcendental como raiz elas duas fontes" (§ 28-31 ). mas também constituinte" (ibid.. Frankfurt. 1950. Martin HEIDEGGER. e 8 e e G . m 1965. êi' "- in Holzwege. a imaginação transcendental. 8I z o 8a: o o o :::> 4. 184). Heidegger não se limita a substituir a filosofia crítica pelo ponto ele vista da ontologia fun- damental. 2 5. ~ w º o 2 o o o>- ilí:. melhorá-lo globalmen- te: ele parte elos enigmas e das aporias da Crítica e lhes restitui seu valor instaurador reinserindo-os em uma perspectiva que rompeu com a filoso- o •<( fia crítica anunciando-se como "instauração elo fundamento ela m etafísi- ~ ü: ca" (cf. Heidegger não se dedica aqui a nenhuma das duas operações que podem ser consi- deradas vãs. 74 1962. ed. ed. fr. que é reprovada em Husserl. Paris. p. Era preciso que o idealismo persistente da Sínnge- brung depusesse por fim as armas no próprio terreno de seu combate ele modo a poder proclamar que "o mundo não é apenas constituído. com o Lévinas de 1949. in Chemins qui ne menent nulle part. Walter oa: üJ Biemel. fr. O vocabulário da constituição é salvo. Gallimard/NRF. trad. Klostermann. Frankfurt. título elo 3)5. Esse momento husserliano é muito precioso. Gallimard. o esquema- tismo. 69-100. Klostermann.: L'époque eles conceptions du monde.. corrigir localmente o texto kantiano. não é a sua fraqueza e sim a sua força" (ibid. Confesso. Wolfgang Brokmeir. mas sua própria ruína é anunciada no prosseguimento da ruína da representação. p. p. 1953. trad. o esquema. mas também reinterpreta o problema ela síntese elo sensível e do inteligível a partir do famoso terceiro termo. 185) . Alphonse de Waelhens.

75 •••••• . mais modestamen- te. Esse novo ciclo de análises ve- rifica a observação. n em Ser e tempo. mas. de agrupar sob o modo ela tentativa algumas elas expe- riências mais significativas que demonstram a separação entre reconhecer e conhecer. da reviravolta que mar- ca a ruína da representação. feita anteriormente. para uma filosofia do reconhecimento. que não são mais avaliadas pela medida elo saber cientí- fico. sem ainda abandonar a especifica- ção ela idéia de reconhecimento pela ele identificação. o que significa que a separação entre reconhecimento e conhecimento não deve ser procurada inicialmente do lado elo su jeito elo ju ízo. de qu e as pesquisas que podem ser colocadas sob o signo do estar-n o-mun- do. como convidam a fazer as observações inspiradas pelo aparecimento furtivo elo verbo "reconhecer" em certos pontos estratégicos elo cliscur. O reconhecimento e a prova do desconhecível ostaria de tirar as primeiras conseqüências. É como maneiras de estar-no-mundo que essas expe- riências são significativas. Gos- taria de enfatizar esse segundo traço. Não se trata de reescre- ver nem a Krísís. aceitam permanecer problem áticas e fragmentárias.

particularmente por M erleau-Ponty na segunda par- •••••• . Uma filosofia do estar-no-mundo re- zo ü w quer que essa gradação se ja tomada primeiramente a parte objectí. com o estatuto distinto das pessoas em relação às coisas sendo remetido à filosofia prática. somente as entidades matemáticas e físicas satisfazem os critérios de objetividade ele- limitados pelo ponto de vista transcendental. o primado do tempo sobre a mudança. no limite. torná-las desconh ecíveis? . é a variedade dos m odos de ser elos quais dependem as coisas do mundo que é importante para uma filosofia do estar-no-mundo. Permanecendo. w 2 ir a. o ü ~ Essas variedades ele temporalização apresentam graus ele dramatiza- zUJ 2 ção. na esfera do juízo de percepção. mas do lado das "coisas mesmas". Recordemos que nem Descartes nem Kant especificam o "alguma coisa" identificado.:? (/) w Será pois ao clesconhecível que o reconhecimento passará a estar oa: confrontado como ao estado limite do equívoco. como obser- vamos. segundo o reconhecimento passe por graus crescentes de equívoco ~ chegando até o desconhecimento. encontramos os exemplos familiares tratados na fenomeno- 76 logia da percepção. os objetos ela percep- ção. seja por meio de procedimentos de distinção. seja m ediante procedimentos de co- locação em relação. mas isso também vale para as entidades científicas. Deus no mais alto grau. e serão essas variedades de mudan ça e de temporalização que º o 2 constituirão as ocasiões de identificação e de reconhecim ento. Para Descartes. é importante som ente o valor repre- sentativo que confere à idéia uma espécie ele ser. por fim. 5 ü: Variedades de temporalização passarão a acompanhar variedades de ~ w mudança. so cartesiano. no início de nosso percurso. O cará- ter formal do tempo como condição subjetiva da recepção das intuições tanto do sentido externo como do sentido interno implica. o ser objetivo da idéia. Essa afir- mação aparentemente simples e tranqüila marca uma reviravolta decisi- va em relação às teses da Estética transcendental sobre o tempo. as pessoas. Para Kant. A c: o questão se formula então nos seguintes termos: o que é que na maneira 8 de mudar elas coisas pode. Pelo con- trário. A reviravolta que restitui à mudança seu primado sobre o tempo implica uma "desformalização" do tempo que o o •<! liberta dos critérios a príorí reduzidos à sucessão e à simultaneidade. O traço comum que esses modos de ser devem compartilhar para gerar operações de reconhecimento parece-me ser a mudança. Esta só cai sob as catego- rias da relação se satisfaz previamente a condição subj etiva da forma do tempo pertencente à Estética.

1945. A identificação ocorre naturalmente enquanto deformações não a tornam problemática.te de sua Fenomenologia da percepção. Pode-se fal ar a respeito desse conjunto de experiências de "fé originária" ( ibicl.. A possibilidade de um equívoco se afirma: utilizarei um mesmo nome para essa seqüência de perfis? Será somente após uma hesitação. ]. A identificação se baseia então em constantes perceptivas referentes não apenas à forma e à grandeza. do sabor até os aspectos táteis. Merleau-Ponty declara que essa síntese é es. Esta aparece sob perspectivas variá- veis que não colocamos sob a conta do objeto. H usserl fala a esse respeito ele perfis. talvez até ~ UJ o mesmo inquietantes. UJ sencialmente temporal: ela não tem ele superar o tempo. em que não conseguimos perceber todas as suas fac es ao m es- mo tempo. Paris. 345-398. Ao falar da síntese de horizontes que a explora. "Toda percepção de uma coisa [ .. especialmente no capítulo intitulado "A coisa e o mundo natural" 1• O primeiro fenômeno que o detém é o ela estabilidade dos caracteres ou das propriedades da coisa percebida. o que re. É então que o tempo entra em jogo. o fundo de constância da coisa. consagrada ao "mundo percebi- do". 0:: o 2.. como um -' texto de Descartes havia sugerido.toda constância perceptiva remete à posição ele um mundo e ele um sistema da experiência em que meu corpo e o fenômeno estão rigorosamente vinculados" (ibid. da cor até o som. . p. Phénoménologie de la perception. p. . I z o bação pode provir ainda da presunção ele contornos incertos. do peso até o movimento 2. nessa relação de familia- ridade com as coisas. diz ainda Mer- leau-Ponty. A pertur. 8 UJ p. 77 o • ••••••• . Mas ainda não falamos de reconhecimento enquanto deformações ele perspectiva ameaçam o processo quase instantâneo de identificação que opera no nível antepreclicativo do olhar. Conhece-se o exemplo elo dado. de esboços. não há espaço para se falar em reconhecimento. Para essa identificação concorrem juntos a apresentação elo objeto e a orientação não apenas do olhar. "mas ela se ~2 8I I. "é a mais típica das relações intersensoriais" (ibid. esse mal-estar está ligado à estrutura de horizonte 8 da percepção. Mas é preciso acrescentar imediatamente que. 377) . mas não é o tempo § o0:: abstrato que não passa. mas também a todos os registros sen- soriais. Gallimard. que diremos reconh ecê-lo. mas tam- bém elo corpo por inteiro engajado na exploração passiva-ativa do mun- do. <l: ção elos contornos suscita. Maurice MERLEAU-PONTY. a. 350). p. 371) para exemplificar essa con- fiança na estabilidade das coisas: "O mundo natural". -~ ü UJ conhecemos então é um estilo.

está frente a frente com a dialética elo parecer. . 381). pessoas mortas. dizemos: é o mesmo. uma ameaça se perfila: e se o ob jeto. é integrada à identida- a: o de pela própria graça ela alteridade. mas há também a fantasia das coisas que desa- ~ UJ parecem e reaparecem ele acordo com sua própria vontade: as chaves da º o 2 casa ou do carro. O desaparecimento repenti- no do objeto faz que ele saia do campo do olhar e introduz uma fase de ausência que o suj eito perceptivo não controla. •••••••• . por exemplo . pode simbolizar todas as perdas. Marc 78 de Launay.a cadeia aparecer. Balthus. suivi de Mitsou. que o desaparecimento alonga e distende. p. a distância z o o UJ temporal.. As idas e vindas elos seres animados são a ocasião ordinária dessa experiência familiar. até mesmo ele resseguro. é precisamente o mesmo.e freqüentemente familiais -. Rainer MARIA RILKE. Payot/Rivages. o animal. desaparecer. Há como que uma graça elas o ü: coisas que "querem" voltar. Lettres à un jeune peintre. confunde com o próprio movimento por meio elo qual o tempo passa" (ibid. Em relação às experiências preceden- tes. o das idas e vindas o o 8z familiares .. re- aparecer ela mesma coisa presumida. após um lapso ele tempo. uma pessoa que pertence ao nosso m eio entra em nosso campo ele visão. As simples idas e vindas elos o seres animados nos poupam em graus variados desses estertores de angústia •<( C> <( do não-retorno. sai dele repen- tinamente e. o ::::> § Considerarei uma experiência temporal mais complexa o caso em ~ que a fase ele desaparecimento gera mudanças tais na aparência ela coisa üJ 2 ã' (L 3. Bibliotheque Rivages). pref. Paris. desaparecer UJ 2 e reaparecer é tão bem amarrada que ela dá à identidade perceptiva um 8I aspecto de segurança. ela qual falamos há pouco. Essa última observação dá acesso a situações de percepção e de reco- nhecimento em que a mudança anda lado a lado com o tempo que passa: o exemplo paracligmático é aquele em que a fé perceptiva. como deplora o jovem Balthus em desenhos patéticos que fizeram a alegria ele Rainer Maria Rilkel. Sobre todo desaparecimento paira a sombra da morte. Um objeto. um animal. Escapar por um tempo à continuidade I o do olhar faz do reaparecimento do m esmo um pequ eno milagre. 2002 (co!. a pessoa não reaparecer? Perder um gato. reaparece. No caso mais favorável. o papel do tempo mudou: a sucessão não está mais encerrada no per- curso dos perfis sob a captura de um olhar ininterrupto que mantém sob sua guarda o objeto que os dedos fazem girar. à fé perceptiva. inclusive a das pessoas que não voltarão mais: pessoas desaparecidas por fuga. do desaparecer definitivo.

reconhecê-las é em grande parte identificá- las m ediante seus traços genéricos ou específicos. UJ I z cimento em circunstâncias que o narrador relata com uma precisão cal.J UJ > "[) algumas páginas de uma beleza cruel consagradas aos riscos elo reconhe. Carteron... na seção "Tempo". Physique IV. 221 a 30-22 1 b 2. mas não que nos instruímos ou que nos tornamos jovens e belos. em Le temps retrouvé (O tempo reencontrado )5. o reconhecimento elas pessoas se distingue claramen- te elo elas coisas. Les Belles Lettres. Desse ponto de vista. 1989 (co!. "E o tempo também produz necessariamente uma certa paixão.que depois reaparece que falamos então em alteração. na solidão da o oo biblioteca do príncipe ele Guermantes. A esse respeito. pois 8I o tempo é em si antes causa ele destruição. As pessoas. extraída elo fenôme- no da mudança. mas também ele cumplicidade. o o (j) UJ culada: repentinamente arrebatado da meditação que fazia. sobre as primícias da escrita g o da obra em projeto. à tese da iclealidade elo tempo. D evemos a Proust. assim. Ora. a experiên cia viva propõe um exemplo em que o aspecto ameaçador está ligado ao mesmo tempo à mudança e ao tempo que passa. o caso elo envelhecimento ganha um valor emblemático. são reconhecidas principalmente devido a seus traços individuais. Folia classique). t. Kant não estava errado. sem nada conceder quan- to ao que era essencial: a saber. ele é lançado no espetáculo de um jantar no qual g: q w 4. trael. É com as pessoas que a duração do tempo de separação revela esse poder destruidor que a sabedo- ria antiga atribuía ao tempo e que Aristóteles não deixou de evocar4 . Em ocasiões desse tipo começamos a empregar com discernimento a palavra "reconhecer" que poderia parecer inapropriada às situações perceptivas precedentes. Gallimarel. que tudo se apaga sob a ação elo tempo. o 5. Mareei PROUST. que tudo envelhece sob a ação elo tempo. temos o hábito ~w 2 ele dizer que o tempo consome. decidindo assim sobre a indeterminação elo "alguma coi- sa" por meio elo qual Descartes e Kant designavam o objetai elas operações ele pensamento. Para as coisas. no parágrafo 7 ela Estética transcendental. À la recherche du Temps perdu. mas que este não muda. III: Le Temps retrouvé (1927). . pois ele é número elo movimento e o movimento § a: desfaz o que é feito" (ARISTÓTELES. 79 • • •••••• . É esse aspecto que dá ao reconhecimento uma dimensão pa- tética que a literatura explora e que nossos léxicos não ignoram. por outro lado. Paris. que as coisas mudam no tem po. 1952). e ele pensava livrar-se dela ao assentir a realidade empírica elo tempo. Paris. mas certos objetos fami- liares têm para nós uma espécie de personalidade que faz que reconhecê- los seja sentir-se com eles em uma relação não apenas de confiança. ao levar em consideração a obj eção.

pendendo por terra aos seus pés. 8I e que o que está aqui agora é um ser que não conhecíamos. 246). fizeram-lhe o nariz em gancho de seu •••••• • . além disso. é posta uma ênfase na hesitação em reconhecer o dono da casa e os convidados. o Tempo que habitual- mente não é visível. requer um raciocínio que conclui "da simples semelhança de certos traços por uma identidade da pessoa" (ibid. No entanto. p. que ela tornava pesados como solas de chumbo. ). do desconhecimento e do reconhecimento. em todo lugar que os encontra. como que o prefácio e o anunciador. Reconhecer. não é mais. o ser de que nos lembramos.. revela-se como agente duplo.. Proust arrisca-se a generalizar: "Com efeito. "Cada um parecia ter 'feito para si uma cabeça'. 227).. identificá- o u lo é pensar sob uma única denominação duas coisas contraditórias. O Tempo. p. Assim. é ter de z § pensar um mistério quase tão perturbador quanto o da morte. 231) faz desse raciocínio de o •<( atalho a resolução de uma contradição entre dois estados de um mesmo ~Li: r= ser. Os rostos são como "bonecas que exteriorizam o Tempo. Com efeito. Um deles "tinha se fantasia- do com uma barba branca e.. esse raciocínio deve atravessar os estados sucessi- vos de um rosto. I 8 eu sabia o que elas queriam dizer. parecia ter assumido uma das 'idades da vida"' (ibid. 'reconhecer' º o ::. aquilo de que elas eram prelúdio" ::J ~ (ibid. para tornar-se visível procura corpos e. Em uma dessas preciosas declarações sapienciais que abundam no z UJ fim da Busca. p. 227).. É bem conhecida a página sobre o "Tempo artista": 80 "Em vez de seu belo nariz reto. admitir que o que estava aqui. apossa-se deles para mostrar neles sua lanterna mágica" (ibid. geralmente empoada e que os mudava completamente" (Le Temps retrouvé. é g ::. ã: Q. ao qual a idade w ::. este oa: não faz senão imitar o trabalho do Tempo. confere visibilidade. Pois essas mudanças. é uma espécie de visibilidade que a idade dá ao tempo (para o qual Proust reserva uma maiúscula). nessas condições. a alienação que torna as bochechas de uma de- terminada mulher "desconhecíveis" (ibid. O relato desse jantar bastaria para alimentar um pequeno tratado sobre o reconhecimento. 23 1). após não ter conseguido reconhecê-lo.. a última palavra não é dada ao raciocínio. alguém e mais que isso.. É como se os protagonistas tivessem se disfarçado para criar a mudança. De início. O trabalho de reconhecimento está assim frente a frente com o temor do "desconhecível" (passim). de que ele a: o é. p. p. todos os convidados que haviam outrora povoado sua solidão e suas noites mundanas reapareciam atingidos pela decrepitude sob os golpes do enve- lhecimento.

§ a: Que objeção? E m que medida essa cena opressiva poderia objetar ao o pro jeto ele escrita oferecido pelo narrador ao leitor com o fim ele que este último reconhecesse a si m esmo? No fato ele que o espetáculo elos estra. em si mesmo. pelo g oa: leitor. não o elos protagonistas do relato que acabamos de evocar. o Tempo. quando ele eleve ser conquistado sobre o "clesconhecível"? A pequena dialética ordinária elo aparecer.. o artista. Com efeito. <( em uma certa medida. pois a diferença entre os dois textos pode freqüen. p. Como o leitor não ficaria tão "intrigado" quanto o próprio narrador diante elo espetáculo do disfarce vestido pelos rostos devastados pela idade? O reconhecimento estaria em seu máximo. . essa revelação era colocada sob o signo do reconhecimento. além disso. cujo sentido acabara ele ser revelado graças a uma espécie de iluminação que ocorreu na bi- blioteca do príncipe. . mas o elo próprio leitor -' . Que empreendimento? O da obra a ser escrita. Não nos deixaremos privar da palavra por essa evocação elo "misté- rio". mas de um outro tipo ele reconhecimento. Em suma. "o pró. A própria narrativa de Proust abre um outro horizonte.. Voltando para antes da cena elo jantar. UJ > {j UJ prio leitor ele si mesmo" (ibicl. havia 'dado' todos esses modelos de tal modo que eles podiam ser reconhecidos. no ato ele leitura. 2 18). o leitor observa que antes ele ser contada essa famosa cena é anunciada como um "golpe teatral" que o narrador. I z oo tor não é senão uma espécie de instrumento óptico que ele oferece ao (/) UJ o leitor para que isso lhe permita discernir aquilo que sem o livro ele talvez g não tivesse visto em si mesmo. nariz esse que eu não conhecera em você. E com efeito era um nariz novo e familiar."meu leitor" . w o temente ser imputada não ao autor mas sim ao seu leitor" (ibicl. desaparecer. Esse é o empreendimento contra o qual o golpe de teatro ela cena do 8I z jantar iria levantar "a mais grave das objeções". 81 ••••••• . não porque ele os havia favorecido e sim porque eles os havia envelhecido. ao menos como identificação. reaparecer ganha então na reflexão u m contorno quase tão perturbador quanto o espetácu- lo do envelhecimento no qual a morte se anuncia. declara que "iria levantar contra meu empreendimento a mais grave das obje- ções" (ibicl. expressando-se na primeira pessoa. 227). 241 ). diferente elo da meditação desolada. mas não eram semelhantes. p.pai. !z UJ . do que o livro diz é a prova da verdade deste e vice-versa. ao m en os a.que é chamado a se tornar. 21 7). p. "o trabalho elo escri. p. trabalha muito lentamente" (ibid. O reconhecimento. Esse artista.. Ora.

a falta ). o combate. É ao reconhecimento "em si mesmo". •••••• . ao modo da leitura de uma viela. mas. como experiência- limite elo reconhecimento elo clesconhecível. 82 . a cena em que cada um elos convidados parecia ter feito para si "uma cabe- ça" não opera mais como uma "objeção" a um empreendimento efetiva- mente realizado. em sua filosofia ela existência. pelo leitor. essa cena passa a dizer respeito a esse outro reconhecimento anunciado na iluminação que ocorreu na bibliote- ca. segundo minha interpretação. o sofrimento. em um sentido ele experiên- cia-limite próximo daquele dado por Karl Jaspers à noção ele "situações- limite" (como a morte. elo que o livro diz".. gos da idade que tornaram "desconhecíveis" os convivas assumia o sentido de uma metáfora da morte. "o reconhecimento em si mesmo. Para nós. leitores elo livro por fim escrito. que será feita justiça no próximo estudo. Salva pela escrita. o •<t ~ ~ oº 2 o ü w ~ 2 8I z o ü w a: o I 8 loi a: w 2 õ: 0.

Carta a Georges lzambard. Segundo estudo Reconhecer-se . a s1 mesmo " Reconheci-me como poeta." Arthur Rimbaud. 13 de maio de 1871 • .

ongo é o caminho para o h omem que "age e sofre" até o re- conhecimento daquilo que ele é em verdade. mas permanecerá na verdade o reconhecimento mútuo. mas também do impedimento real. Esse reconhecimen to de si ainda requer. um homem "capaz" de certas realizações. a ajuda ele outrem. como mostraremos no terceiro estudo. O reconhecimento ele si. em cada etapa. o o ::) 1- íB 8z ::) 8 (/) 85 ••••••• . elo qual trataremos neste estudo. quando fa lta esse reco- nhecimento mútuo. plenamente recíproco. que fará de cada um elos parceiros um ser-reconhecido. em razão ela assimetria persistente da relação com outrem construída segu ndo o modelo ela ajuda. mas além disso mutilado. permanecerá não apenas inacabado.

trad. PUF. . 9). 87 ••••••• . Philosophie morale. Os antigos gregos "fazem parte de nossos ancestrais cul- turais. 1997. 8 (co!. Monigue Canto-Sperber). Acompanhando esse filósofo.~ : ::: ' :~. similitudes que "se refe- rem aos conceitos que colocamos em ação quando interpre- tamos nossos próprios sentimentos e nossas próprias ações assim como os sentimentos e as ações dos outros" (ibid. Bernard WILLIAMS. The Regents of the Univer- sity of California.. principalmente no que diz respeito à autode- signação anotada gramaticalmente pelo pronome reflexivo "se".~~ O fundo grego: o agir e seu agente scolhi meu ponto de partida na Antigüidade grega. Paris. ed. Shame and Necessity. tenho prazer em evocar "certas similitudes desconhecidas" 1. p. Não no pensamento de um progresso que sublinharia o atra- so dos gregos.: La honte et la necessité. di r. p. Universidade Federal do Para 8ihlit1t~. fr. mas pelo contrário no pensamento de um parentesco profundo no plano do que Bernard Williams não hesita em intitular "Reconhecimento da responsabilidade" no segun- do capítulo de Shame and Necessity (Vergonha e necessida- de). e a imagem que temos deles está intimamente ligada l. 1993. Jean Lelaidier.

La honte et la nécessité. Se tomamos o mundo homérico como termínus a quo ela trajetória desenhada pela curva do reconhecimento ela responsabilidade no espaço grego. I nomas. Aquiles remói sua ira.. observa ele. que elevemos a Agostinho.U ~ Ulisses pergunta-se se vai deixar Nausicaa. Pode-se dizer que categorias psi- a z :J 8 (f) 2... ao menos no sentido próprio a nós? C ertamente. 4 1). 4 7)2. como será o caso com Aristóteles. p.U (f) c!: I. não é menos verdade que um thumos necessita ele uma pessoa se se quer que 88 o pensamento e o sentimen to existam" (Berna rei WlLLIAMS. •••••• . mas o que é 8:J surpreendente é que "o domínio no qual a operação divina se dá é o dos >- (f) w o pensamentos do agente" (ibid. É essa trajetória comum que corri o risco de. desde as primeiras linhas deste estudo. esta lamenta sua partida. "não cessam de perguntar a si mesmos o que vão fazer. como Bernard Williams. ele justiça e elas motivações que con- duzem os indivíduos a realizar atos que serão admirados e respeitados" (ibid. p.. não cessam de chegar a conclusões antes ele agir" (ibid. de que ele é um homem capaz de certas realizações. é porque é possível mostrar que nele já foi ultrapassado um limiar na direção ele uma reflexão centrada na deliberação. 34). 71-103). Bergson. Heitor üi <( medita sobre a morte.). Podemos sem nenhum anacronismo situar. As palavras thumos e noos I. ~ (f) I. p. longe de nos inclinar a minimizar a novidade elos conceitos ligados ao reconhecimento de si. pelo homem que age e sofre. esse reconhecimento sob o signo elo "re- conhecimento da responsabilidade" (ibid. p. Tomo de Bernarcl Williams esta observação geral sobre os personagens de Homero: estes. nos convida a receber esses conceitos como inovações ligadas a eventos de pensamento que ocor- reram na mesma trajetória temática que as idéias éticas elos gregos às quais todo o livro de Bernard W illiams é consagrado. Trata-se precisamente elas "idéias ele responsabilidade na ação. Essa "libertação da Antigüidade" em relação a um precon- ceito que nosso filósofo chama de "progressista".U demonstram essa apreensão que poderíamos qualificar de pré-teórica das &l I categorias mestras elo agir humano. John Locke. Objetar-se-á que as incontáveis refe- i5 u rências a intervenções divinas impedem a constituição de entidades autô- w a:. p. caracterizar como o reconhecimento. "Embora os indivíduos tenham necessidade de um thumos para ter pensamentos ou sentimentos. Essa capacidade supõe o mínimo de consistência pessoal que permita identificar os personagens como verdadeiros "centros de o decisão" (é o título do primeiro capítulo ela obra ele Bernarcl Williams). à imagem que temos ele nós mesmos" (ibicl. 11 ).

p."deliberadamente" . "materiais universais" (ibicl. Esses são. Uma teoria implícita ela ação. z ::> u. na Ética a Nícômaco. particularmente a ilusão de que as forças do espírito estão intrinsecamente ligadas a uma estrutura ética" (ibid. 65-66). de sua teoria apropriada.. palavra que está relacionada à idéia de causa. compensação) . o 3.. necessidade ele reparação (reprovação. dirá o leitor moderno. que faz parte "elos dados banais da vida" (ibid. intenção. Não basta admitir que esses personagens se comportam como "cen- tros de decisão" sem que eles tenham o conceito. os heróis não cessam de falar e de dar nomes aos movimentos do coração que escandem suas ações. punição. eles chegam a designar a si mesmos na primeira pessoa como aítíon. legitimamente. com a intenção ele dar-lhe i:i o w a profundidade que lhe será posteriormente imposta pelo problema do a: o oo mal. Mas trata-se aqui de um desenvolvimento no homogêneo. Certamente. envilecimento. e faltavam-lhes alguns que não nos fazem falta. Aristóteles fará . o mesmo personagem pode considerar-se como aítíon e pensar ter agido contra sua vontade. A esse respeito não compartilho o ceticismo irônico de Bernard Williams sobre tal desejo de aprofundamento: "Os gregos". um novo estado de coisas. Ainda resta que as decisões dos heróis eram contadas como as de personagens designados por seus nomes. afirmar que "nesses inícios da literatura ociden- tal eles dispunham dos elementos fundamentais de que temos necessida- de. e a caracterizar sua ação por meio dos epítetos adverbiais hekon ."a contragosto". "não tinham desejos desse 89 ••••••• . Ajax e outros. a teoria da deliberação tal como a praticam os personagens homéricos. 78). declara ele por bravata. e o problema conexo da liberdade da vontade 3. se um deus lhe havia arrebatado a razão.. Melhor que isso. 79). direi com Ber- narcl W illiams. já encontrou essas palavras que traduzimos sem difi- culdade por causa.e akon .. con- tudo ele se mantém responsável por uma ação que ele não dissocia de si mesmo. p. em seu Livro III. estado normal ou anormal. No que diz respeito a Agamenon. por maldade. Universidade Federai do Para Biblioteca Ce:ttral cológicas importantes aos nossos olhos não estavam presentes ainda. p. Será tarefa ela filosofia articular como ~ o um problema distinto a questão ela intenção. à espera. a (j) w causa sobrenatural: essa perturbação complica o estado das coisas sem a: que o agente deixe de ser aitíon. w f-- zw que ele possa ser reprovado e que se possa pedir-lhe reparação. Q ue um agente seja causa do fato de que ocorra. Mas pode-se. que ele ~ tenha agido porém em um estado normal. devido à sua ação.

em jogo. a despeito da distribui- ção dos papéis entre uma pluralidade de personagens. um mestre será restabelecido na plenitude de seu domínio. ela própria. nesse impulso. üi indiferente que o primeiro reconhecimento seja o elo filho e. Tampouco é indiferente que graças à I estratégia ele retardamento característica ela narrativa homérica os outros 8::0 protagonistas componham juntos a configuração completa de todas as m pessoas da casa com a diversidade ele seus papéis. que o último seja o elo pai.. 1. a ponto de os graus do reco- nhecimento serem etapas no caminho ela vingança que se encerra com um massacre de uma impiedosa crueldade. Mas há uma razão mais decisiva que impede essa narrativa ele ultrapassar o limiar para a reciprocidade: as cenas ele reconhecimento balizam a recon- quista de sua própria casa por um mestre inflexível. mas sua identidade presumida não está. à custa de usurpaclores que têm a postura de pretendentes à posse ela esposa legítima. ses pelos seus é rica em ensinamentos para nossa investigação. La Honte et la Nécessíté. ainda que o pico dramá- (/) ci: UJ tico seja atingido na cena do reconhecimento ela esposa. ]. mas. Ulisses voltando a Ítaca. Essa circuns- tância de violência faz que uma história do reconhecimento seja inextrinca- velmente misturada à de uma vingança. 95) . L'Odyssée. p. HOMERO. um único deles que seja objeto elo reconhecimento. 1924. Ulisses se faz reconhecer A famosa narrativa do retorno de Ulisses a Ítaca4 é sem sombra de dú- vida uma narrativa do reconhecimento cujo herói é ao mesmo tempo o protagonista e o beneficiário. Um esposo será reconhecido. Paris. Victor Bérarcl.. A narrativa não é a de um reconhecimento mútuo. em que a assi- () w I z metria enfatizada anteriormente não está longe ele ceder o lugar a algo §a: como um reconhecimento mútuo. Les Belles Lettres. Por que essa narra- tiva não poderia servir de abertura à nossa reflexão sobre o reconhecimento mútuo? Por vários motivos: existe em primeiro lugar. É uma das circunstâncias nas quais se pode perceber que eles tinham o dom de ser superficiais em profuncliclacle" (Bernard WILLIAMS. É o ritmo dessa segunda história que comanda o elo próprio reconhecimento. Os outros protago- nistas certamente satisfazem os critérios evocados anteriormente elo "reco- nhecimento ela responsabilidade". Não é t3 .. Ainda resta que a progressão retardada do reconhecimento ele Ulis- o:::. 90 4.:. 8z ::0 @ (f) tipo [. ••••••• . se confiar- <( UJ mos nos escoliastas. tracl. É correto dizer que ele se faz reconhecer por outros parceiros segundo uma gradação sabiamente orquestrada e uma arte do retardamento muitas vezes comentada pelos críticos.

Ela reconhe. afas. pois há entre nós essas m arcas 91 11 • • • • • • . Ulisses declara: "Mas tomem se vocês precisam de uma m arca [sema] certa. balançando o rabo. -------~------------------------- Não desejando demorar-me no aspecto pitoresco dos encontros. pois a confiança arma seu coração: "Se realmente é Ulisses o que entra em sua casa. Fazer-se reconhecer é primeiramente suscitar um equívoco e depois elucidar. seus cora- ções sem mais duvidar poderão reconhecer-me". o cão fiel: "Ele reconhe- ceu [enoesen ] Ulisses no homem que vinha e. Os primeiros reconhecimentos foram um marco na senda ela vingança. "A essas palavras.U z tando os trapos. envelope oportuno. É então pela cicatriz de seu ferimento que a velha serviçal. rete- rei três traços suscetíveis de enriquecer nossa busca: as fórmulas verbais do reconhecimento. Faltaram-lhe forças para aproximar-se do dono" (XVII. Foi disfarçado como um mendi- go que Ulisses penetrou em seu casarão sitiado por pretendentes. A I. . 326). 87). gignoskein (XVII. . um ao outro [gnosometh' allelon kai loion]. mas no entanto também como "hóspede". sem dificuldade.. 22). o encontro pai-filho abre o jogo na pre- sença do porcariço e elos cães irrequietos: Ulisses é recebido como "estra- nho". "eu é que sou seu pai" (XVI. ao lavar os pés elo estran- geiro. sou seu pai". Vestido com roupas novas por seu filho. 301 ). ele mostrou ao boiadeiro a grande cicatriz" (XIX. rejuvenescido em seu aspecto pela deusa. deitou as duas orelhas. 265. logo submetido à prova elo arco ela qual Ulisses sai vencedor. No livro XVI ela Odisséia. Somente após UJ rr: o grande massacre ~ "a obra fora completada" ~ o poeta desdobra o ~ o grande jogo de sedução conduzido por Penélope no início daquilo que se o 8rr: tornará a cena do reconhecimento entre marido e mulher. o papel das marcas de reconhecimento ~ o dos disfarces. Deve-se observar que nossos tradutores vertem "reconhecer" onde o grego dispõe ele vários verbos: idesthai. O animal satisfeito não demorou a morrer: "Mas Argos não estava mais. 273). não saber. é você!" Tomando agora a iniciativa na presença ele seus serviçais. ele é primeira- mente tomado por um deus. ela pode permitir-se fingir z ::::J u. nós nos reconheceremos e._ I.U ~ simbólica é forte : o sinal da cicatriz vem como contraponto ao disfarce. é você! ~ Ama. o oo ceu (esidesken) Ulisses devido aos seus traços. É este último termo que o poeta emprega para resumir em uma palavra o reconhecimento direto de Ulisses por Argos. reconhece seu mestre (XIX): " ~ Ulisses. Ulisses então exclama: "Não sou um deus . as sombras da morte haviam coberto seus olhos que acabavam de ver Ulisses após vinte anos" (XVII.. o disfarce. aqui está a parte ela astúcia. 3(j) O sinal é marca na carne.

A "mar- ca" será com efeito mais secreta que a "grande cicatriz": será o leito nupcial. das quarenta figu ei- ras e das d ez macieiras. sentia trem erem seus joelhos e seu o coração. anagnorísís). desmedido" (XXIII. O ciclo do reconhecimento está encerrado? Uma sombra passa so- bre a alegria da noite de amor: "Ó mulher. aberto pelo do pai pelo filho. Pelo m enos podemos colocar n a reserva as observa- •••••• . de tão centrado que está em um único protagonista e li- 8:::J mitado ao papel que a tradição atribui a cada pessoa na periferia do m estre. Admirável sinal do segredo compartilhado: "A maneira desse leito era meu grande segredo" (XXIII. [sem ata ] secretas que todos os outros ignoram" (XXIII. Ele havia reconhecido [anagnontos] a verdade dos sinais [semata] 2 (/) UJ 2 que lhe dava Ulisses" (XXIV. Será o reconhecimento de Ulisses por seu pai. diante dessas palavras. não creio ter ch egado ao fim das provações! Ainda terei de fazer algum dia um trabalho [panos] com- plicado. 8z Esse limite da mensagem deixada por Homero é atestado pelo embara- :::J fB (/) lhamento ela história elo reconh ecimento na história da vingança. outrora oferecidas como doação ou prometidas: "Mas Laerte. Pois Ulisses sabe que o leito nupcial foi talhado por ele no tronco de uma oliveira plantada no solo. É também graças a uma marca (sema ) que pai e filho se reconhecem: à descrição das treze pereiras. o primeiro reconhecimento não foi o do pai pelo filho? O ciclo do reconhecimento. incômodo. l 09-ll O). a qual está a mil léguas elo que será chamado. fazer-se reconhecer é recu perar seu domínio am eaçado. Penélope faz da ordem de arrumar o leito uma prova para o herói. esperemos que possamos escapar aos nossos m ales" (XXIII. Os escoliastas acrescentaram a esse ciclo do reconhecimento uma última cena (à qual eles dão o nome de anagnorísmon. 345). 286). m as que ainda não pode s"er consi- &l 0: I derado mútuo. de "luta pelo 92 reconhecim ento". no próximo estudo. lli Para esse m estre. próximo da pala- vra de Aristóteles na Poétíca para falar sobre o episódio repentino por meio do qual a situação de desconhecimento se transforma em reconhe- cimento. 187). 249). üi O que podemos reter para nossa pesquisa? Personagens homéricos <! UJ (/) aos quais permitimos qu e se comportassem como "centros de decisão" e c!: UJ &l que "se reconhecessem como responsáveis" também são capazes de u m I z o reconhecim ento que passa por outrem. Laer- te. encerra o da filiação pas- sando pela conjugalidade. Penélope faz apenas uma réplica fraca: "Se foi para os nossos velhos dias que os deuses realmente reservaram a felicidade.

a que há no Édipo" (1452 a 33). 2. neste caso. iií ~ dade" (Poética. da inversão operada pela segunda tragédia de Édipo no plano do reconhecimento da responsabilidade induzida pela primeira tragédia. É mais significativa a dife- rença que observavam Goethe e Schiller em uma troca de cartas ele abril ele 1797 entre o efeito de retardamento próprio ela epopéia. ::J LL o 5. conduzindo à passagem ela ira para a ami. Ora. Les Belles Lettres. nem sobretudo do papel configurador atribuído à fábula. que opera não mais em uma tragédia mas entre duas tra. trad. Édipo rei. Escolhi Édipo em Colona porque o efeito de tensão resulta.:J tico elo termo. § 11 ). a relação de uma tragédia de É dipo com a outra é da m esma natureza que a que a trama suposta- m ente deve suscitar no interior de uma única e mesma tragédia e que Aristóteles coloca na Poética sob as duas categorias con juntas da "peripé- cia" (peripeteia ). Édipo se desmente Meu segundo exemplo é tomado do corpus dos trágicos gregos 5. Oedipe à Colone. SÓFOCLES.ções preciosas referentes ao papel do "disfarce" e o que inverte "m arcas" na fábula do reconhecimento. Paris. 1934. UJ >- zade ou vice-versa "em personagens destinados à felicidade ou à infelici. da acusação dirigida contra ele vinte anos antes. definido como uma transição ela igno- rância para o conhecimento. w a: <. Para a nossa pesquisa. e do "reconhecimento" (anagnorisis). por exemplo. feito pelo mesmo personagem . Aristóteles toma como exemplo justam ente a ia [f) tragédia ele Édipo: "O mais belo reconhecimento é aquele que é acom. e o efeito de tensão próprio ela tragédia. reveste a significação de um desmentido no nível do reconheci. a diferença no plano dramático entre a epopéia e a tra- gédia não é essencial: que a ação se ja contada pela boca de um outro ou "executada" sob nossos olhos é uma diferença que não afeta o caráter mimético de uma ou da outra do ponto de vista da ação representada. Em Colona. 8 z gédias. Do ponto de vista dramático. ~ o Esse duplo efeito que a fáb ula produz no interior da mesm a tragédia é o () operado por Édipo em Colona. 93 •••••• . e que a his- tória ele Ulisses ilustrou. tanto elo ponto ele vista das ações como elo elos personagens. Essa inversão entre uma tragédia e outra equivale a um des- mentido. enquanto inversão da ação no sentido contrário. lU a: panhado por peripécia. Paul Masqueray. no sentido dramá. Esse reconhecimento.

essa infelicidade ganha a dimensão do próprio agir. com g efeito. mais radicalmente. O velho É dipo. será assim que o fÊ &l velho penitente trará benefícios aos habitantes desse país. são "ações que lhe foram impostas" (172 ). com ce1teza. Mas é. Esse mathein fará elo sofrer um agir (11 6). "Sagrado. proclama o velho homem. proclama Antígona. Sim. E "se eu õ'i <! tivesse agido em plena consciência [phronon ]. assumida • • • • • • e . mas não espontânea: "não se tem. cu jo ex- :::> fil (/) cesso o havia conduzido a furar seus próprios olhos: essa violência à qual Édipo rei havia. dado uma eloqüência 94 aterrorizante. razão ele pensar em si [hauto phílos ]?" (309). por mais abatido que esteja pelo sentim ento do ca- ráter irresistível das forças sobrenaturais que governam os destinos huma- nos. cego e m iserável. é primeiramente confrontado com a prova do exílio e do extravio . continua a ser o autor dessa ação íntima que consiste em avaliar seus próprios atos. enquanto suportado de um modo responsável. inocente" (287). cometi voluntariamente [dedrakota]. a coloração que imprime sobre essas paixões trági- cas o desfecho de Édipo em Colona . que toda tragédia suscita. eu não os o:::. que inspiram esse seu temor de mim. Se há uma coisa que é demonstrada por Édipo em Colona é que o personagem trágico.J O que é que Édipo deve recusar em seu passado? Em primeiro lugar oo z a "cólera" (mokhthos) e o "arrebatamento" (thwnos) (437-438). nem m esmo assim eu teria UJ (/) sido culpado [kakos]" (271). sustentado por sua filha Antígona.). sobre esse trajeto da resistência. a própria falta que. Mas "sinais" (94) lhe permitem "reconhecer" (96) o lugar sagrado ao qual seus passos o conduziram para "desatar sua vida" (104). O desmentido de Édipo não tarda: "Meus atos. antecipando o desmentido paterno. Embora a in- felicidade seja a nota dominante ela tragédia de Édipo em Colona. A peça escalona. E essa é a tensão suscitada por esse reviramento que dá ao temor e à piedade. já encontrada em Homero). em seus últimos versos (1410 ss. a pon- to de refutar a culpabilidade antiga. logo acompanhada por sua irmã Ismena. eu os sofri [peponthota]" (267) (en- f:B :::. pois "saber [mathein] é ne- cessário para agir com circunspecção" ( 11 5). I z o Dir-se-á que os gregos ignoraram a consciência ele si? Sob sua forma &l a: I reflexiva e especulativa. mento da responsabilidade que é nosso tema nestas páginas. É a inversão ela acusação em descul- pa que ritma essa progressão íntima ela resistência. eu sou um exilado" (207)."Ó estrangeiro. :::> ti LJ. a progressão ela infelicidade sofrida para a infelicidade assumida. singularmente na condição de retrospecção. contramos aqui a expressão akon.

O que ocorre então com o famoso reconhecimento ela responsabili- dade? Opino.. E ainda: "Ao fatal himeneu. nada disso foi desejado" (421-22). que ganha o valor de desculpa. desatado com um único gesto: "[Édipo] . A transformação do agir no sofrer se mantém UJ :. recebe o protesto elo velho cego: "Sua boca reprova-me assassínios. carrego-a a contragosto [hekon ]. 95 •••••• . sou inocente. e não apenas a: o oo daquilo que se fez intencionalmente" (Shame and necessity. . desafortuna- do que sou.Eu suportei infelicidades inesquecí- veis. Dirigindo-se ao corifeu: "Carrego uma desgraça. há uma coisa que sei bem: voluntariamente você recorda esses horrores contra mim e contra ela. que a divindade saiba disso. E mais adiante: "Eu matei. não os cometi" (Édi po em ::J UJ C/) w Cafona. Ela complica a admissão mas não abole a inicia- tiva pessoal. que essa acusação.Você fez . tratando-se elo incesto. a uma união maldita. UJ f- z lê-se em Édipo rei (13 31 ). Ora. É dipo pode então desincumbir-se elo crime sobre a Erínia : "Acuso a tua maldição. "Nós o compreendemos". mas sem saber [anous] o que fazia.:il mos que na história de toda viela há o peso do que se fez. p. A mesma palavra - akon . atesta Bernard W illiams. eu tirei a vida. [O corifeu] . sem que tenha havido falta de sua parte. havia suscitado esse excesso na punição. 437 ss. Ainda é verdade que foi ele que havia feito aquilo. que também ficou velho. que a desposei contra minha vontade [akon]. E eis o nós. entre infelicidade sofrida e falta.).{ no espaço de sentido do agir: "Sofri m eus atos.Nada fiz". segundo a lei. sim. e eu não sabia nada" (326). eu ignorava o meu crime ao cometê-lo" (546) . [Édipo] . Nesse sentido. a cidade me vinculou. enquanto eu. insultando-me amargamente" (985-990). "A coisa terrível que aconteceu com ele. Mas jamais serei decla- rado culpado nem por esse casamento.então. a: ô quer que se ja a carga de crenças arcaicas que pese sobre o crime de san. estrangeiro. Creonte. contra minha vontade [akon ]" (964 ). infelicidades que suportei. o desmentido de Édipo em Colona não abole a admissão de Édipo rei: "Nenhuma mão diferente da minha golpeou". também falo dela contra a minha vontade [akon] . qual. se inscreve no mesmo espaço do agir humano que as deliberações ordinárias. Isso z ::J será expresso em termos de arrependimento? O que o velho É dipo pode lL o experimentar é um "arrependimento de agente" (ibid. elo qual você ainda me acusa. como Bernarcl Williams. 97). p. E ainda: "Os deuses conduziram tudo" (998). "Contudo. nem pelo assassínio ele meu pai.. injustiças. e além disso ouço os adivinhos m e dizerem que é assim" (1298- 1299). 96). o '. <r o gue.volta reiterada. "porque sabe.

A fabulação pode colocar nesse fim o seu toque maravilhoso: Édipo é retirado de nossa vista. ~ UJ No Prelúdio ela Ética a Nícômaco.. no dos "acontecimentos de pensamento" que inauguram o uma nova maneira de interrogar. hekon. a despeito da proximidade entre ética e política e até m esmo de oo uma certa inclusão do primeiro círculo no segundo. se ja w U) d: ao feminino theoría. são "centros de decisão" e seres capazes de "reconhecimento da responsabi- lidade". A esse respeito. O filósofo . sobre mim chega o termo final de minha vida e não posso mais evitá-lo" (Édipo em Colona. Paris. Édipo deixa atrás de si. 1958. O corte em relação aos poetas e aos oradores não se dá pois prin- cipalmente no plano da temática mas sim. segundo uma expressão que se tornou familiar. para continuar a história. o adjetivo associando-se se ja ao neutro bíblia. O acontecimento de pensamento trazi- ~ ffl do por Aristóteles en contra sua m arca no título da grande obra que ire- ~ Ü) <( mos consultar: Ética. Permanece a palavra de amor deixada às suas fi- lhas pelo velho homem culpado/inocente: "Não há ninguém que tenha amados vocês mais que este pai do qual vocês foram privadas durante o resto de suas vidas" (16 15-1619). akon. e trad. os trágicos e Aristóteles6 existe uma continuidade temática forte que deixa suas marcas até mesmo nas palavras: aítíon. pelo tipo de raciocínio. Basta que de Édipo em Colona permaneça esta mensagem: é o mesmo homem sofredor que reconhece a si mesmo agindo. •••••• . fala de personagens que. phroneín. segundo a terminologia de Bernard Williams. assim como o poeta épico e o poeta trágico. introd. do tratado sobre a alma e até mesmo do u UJ a: I político. ARISTÓTELES. apenas o ódio fra- tricida entre Etéocles e Polinices. 96 Jean-Yves Jolif. pela relação com o ouvin- 8 U) 6. Publ ications Universitaires de Louvain/Béatrice-Nauwelaerts. Renê Antoine Gauthier. 3. Aristóteles: a decisão Entre Homero. Ele pode então suportar sua infelicidade até morrer dela serenamente: "Meus filhos. Aristóteles pode ser considerado o LU &l I criador da expressão e do conceito de teoria moral. da física. coment. um triplo critério de distinção é oo z :::> proposto: pelo objeto. Éthique à Nicomaque. enquanto disciplina z o distinta da m etafísica. é que ele fez aquilo" (ibid. mas também como o orador no exercício retórico da palavra pública. 1472-1473).).

97 •••••• . E é sobre a idéia. um ergon. No que diz respeito à rápida definição do objeto. Para orientar-se na w ~ disputa. precauções com as quais o poeta não tem o que fazer. u. entre as quais as de Platão e seus alunos. não é juiz quem quer mas "quem é cultivado nessa matéria" (1094 b 27). o ma-se. Essas duas questões disputadas são as ela definição elo bem em sua relação com a felicidade e a ela virtude moral como caminho obrigatório na busca ela felicidade . vida contemplativa. as tentativas ele conceitualização. Qual é. afir. Destaca-se então a declaração que diz respeito di. sem a o 80: chancela elo supremo. que esse bem supremo tem um nome. o filósofo requer um ouvinte apropriado. a felicidade. u ma tarefa própria.te. esse bem sobre o qual se disse no Prólogo que todo conhecimento e toda intenção aspiram a ele ele alguma maneira? Mais precisamente.. "é a marca ele um homem cultivado exigir som ente em cada matéria o rigor que comporta a natu- reza elo tema" (1094 b 23). rumo a algum bem" (Ética a Nícômaco. mas há discussão sobre o que lU 5! ele é: é assunto dos sophoí. pois. que é viver uma vida "completa" (1098 a 16). qual é o bem mais elevado ele todos os bens que podem ser os fins da ação humana? Seria prematuro. o filósofo percorrerá novamente o percurso elos "gêneros ele vida" ::> lU (j) . Não é ele um modo direto que o filósofo ela ação se dirige às estru- turas elo que pode ser denominado ação sensata . Ele fará isso apenas no Livro III. vida dedicada à política. são primeiramente as opiniões co- muns que suscitam o trabalho do conceito: para começar. fora e acima de todas as tarefas particulares. com a maior parte das pessoas. tratar das estruturas elo agir humano se não se soubesse situá-las na longa trajetória elo desíg- nio elo bem supremo. Quanto ao método. LU 0: pretação deste último gênero de viela que obriga a tomar partido entre ~ o aqueles que deixam os bens preferidos em uma ordem dispersa. É a inter. 1094 a 1). o z :J retamente à nossa pesquisa sobre a estrutura da ação: o homem tem. a esse respeito. e o mesm o vale para a ação e a intenção moral.viela de prazer. uma primeira caracterização do ob jeto se propõe na vizinhança do senso comum: "Toda arte e toda disciplina científica. preocupado não com o conhecimento teórico mas sim com a ação. e aqueles que fazem elo bem supremo um em si <. Quanto ao ouvinte.? o sem relação conosco. segundo a opinião ele todos. Admite-se. tendem. após tomar posição em duas questões importantes em relação às quais ele precisa estabelecer seu caminho entre as opiniões correntes. com efeito. das pessoas esclarecidas.

a tarefa nossa.l a: I mos. Mais uma vez repete-se que é ela virtude elo homem que se tratará: "Pois o bem que buscamos é o bem elo homem. Nisso reside a condição mais primitiva do que denominamos reconhecimento de si mesmo. "na medida em que ela lhe é submissa e obediente" (11 02 b 28) . Digamos. dessa tarefa do homem. louvamos o filósofo. O fim prático. que "o bem do homem será uma ati- vidade da alma segundo a virtude e. Será então necessário efetuar um grande desvio. e é no vocabulário do elogio que sua reivindicação se faz ouvir: "Contudo. nosso presente estudo <l: w {/) r± não visa.pois nosso estudo não teria :c z o então nenhuma utilidade -. como componentes da felici- dade: "Como a felicidade é uma atividade da alma segundo a virtude completa. nós os de- ~ nominamos virtudes" (1103 a 13). mas sim para nos tornarmos bons. üi estudo ela virtude não será menos afirmado: "Ora. os estados habituais louváveis. em nossas atividades. que no exame detalhado ela idéia ele {/) virtude nos capítulos IV e V do Livro 11 da Ética o conceito mais impor- 98 tante da teoria aristotélica ela ação seja já antecipado: "As virtudes são de •••••• . As virtudes são interrogadas. não especulativo. se houver várias virtudes. É dessa parte ele nós mesmos que provêm as virtudes. ele possui habitualmente. Precisa- b. portanto. determinar estruturas tanto da aspiração à felicidade como da tarefa própria do homem. que são o elemento decisivo capaz de determinar a pró- 8z pria qualidade elos estados habituais ele nosso caráter?" (1103 b 26-30) . :::J § como dissem os. um fim especulativo: se empreendemos nossa w b. não é para saber o que é a virtude . que se insere a questão das virtudes. ele também. dirigir o nosso exame ao domínio ele oo nossas ações. essa parte desejante que participa de algum modo da regra. portanto. a saber. precisamos agora tratar da virtude: não é a melhor maneira de chegar a saber o que é a própria felicidade?" (1102 a 5-6).l busca. elo ::. ainda indeterminada. Sua possibilidade radical é a consolidação da aspiração à felicidade em ativi- dades que compõem a tarefa do homem enquanto tal. pois. dessa tarefa própria. ora. como os outros. e procurar ele que modo elevemos realizá-las: não são elas. tendo em vista isolar essa parte irracional que "tem uma regra". :::J ~ Não é surpreendente. necessariamente. pela filosofia que o ::. e a felicidade que buscamos é a felicidade elo homem" (1 112 a 13-15). que passa pelo estudo ela partição ela alma. segundo a melhor e a mais completa". Com isso é excluída imediatamente a idéia ele que a felicidade provém unicamente ela graça divina ou da sorte: ela tem sua origem em nós. enquanto excelências reitoras suscetíveis de balizar. pois.

isto é. O phronímos. o ergon humano. i2 o o em um círculo mais vasto. É sobre o vasto pano de fundo dessas definiçõ es. mas também a referên- cia da norma ao sábio enquanto portador dessa sabedoria de julgam ento ao qual o Livro VI será consagrado a título de phronesís: o phronímos é o agente singular dessa virtude intelectual que surge no ponto mais vivo da distinção entre as virtudes ditas ele caráter. inseparável da idéia de virtude: "A virtude do homem será também (como a visão faz que o olho se ja bom) um estado que torna o homem bom e que lhe permite condu- zir sua obra própria a bom termo" (1 106 a 22). às quais os livros seguintes são consagrados. essa linha de divisão que delimita o justo m eio característico de toda virtude. cuja norma é a regra moral. citado já no Livro II. A definição é que era nomeada por antecipação na o @ definição ela virtude recordada anteriormente. que se destaca a descrição elas estruturas w 1-- zw da ação sensata: essa descrição encontra seu ponto nodal na noção de ~ decisão por meio ela qual traduzimos o grego proaíresís . i3 (/) w mente na de anseio. a virtude é um estado habitual que dirige a decisão [hexís proaíretí- ke] que consiste em um justo meio relativo a nós. em que se esboça o projeto ético em seu conjunto. será a figura antecipada desse si refl exivo implicado pelo reconhecimento ela responsabilidade. Mas isso é feito para reconduzir ao âmago da discussão referente à definição da virtude: essa definição. Agora ela está no âmago a: ü do Livro III clà Ética a Nicômaco. Certamente não se diz que ele designa a si mesmo: mas a definição completa ela virtude o designa como a m edida viva elo excesso e da falta. duas expressões que nos são familiares desde a leitura de 99 •••••• . a mesma que lhe daria o sábio [phronímos]" (1106 b 36-38). encontra na decisão o seu conceito diretor. não é apenas a aproximação entre estado habitual (hexís) e decisão (proaíresís) que é extraordinária. que são objeto elo Livro VI. a: ô<( cernimos as linhas gerais na epopéia e na tragédia. Nesse texto capital. O reconhecimento ela responsabilidade. elo qual clis.e acessoria. o do "bom grado" (hekon) e do "contra a vontade" (akon). algumas linhas adiante. mas coloca. 8z Aristóteles não aborda ele frente o conceito ele proaíresís. Recorda-se tam- bém. Seguem-se as considera- ções sobre o justo meio em cada virtude entre o excesso e a falta. e as virtudes intelectuais. mais que todos os esboços anteriores.algum modo decisões intencionais ou mais exatamente elas não existem sem uma decisão intencional" (proaíresís) (1106 a 2). mobiliza as estruturas da ação sobre as quais logo falaremos: "Segundo o que disse- mos.

como é dito no contexto do Livro III. ] de ser o princípio ele suas • • • • • • e . Depois de dizer o que ela não (jj <>: é: apetite. Com ela. também denominado causa (aítía ) da ação feita por coação. Não. Não en- 8::J trarei na discussão que importa mais a Aristóteles. Homero e dos trágicos. Atingi- z o mos o âmago daquilo que. anseio. a de saber sobre o que tri LU não deliberamos (as coisas eternas. O w &l :r: pro ele proaíresís pode ser encontrado no pré do pré-deliberado. ::J ow mais sobre os meios que sobre os fins. a coação é a ocasião para opor o caráter exterior (em relação ao agente) do princípio (arkhe). é preciso que se possa. além disso. Isso que será designado em nosso vocabulário posterior como "si" encontra-se aqui prefigurado pelo hauto unido à sua dupla preposição na definição aristotélica elo bom grado: o princípio (ou a cau- sa) está no agente e depende dele. a noção mais cara a Aristóteles. Por contraste.. &l a: I colocamos sob o título de reconhecimento da responsabilidade. trata-se de fato das diversas desculpas que esse mau pode extrair das situações de coação ou de ignorância. desde o início desta seção ele nosso trabalho.ou. O caso do mau de Sócrates. Ainda é preciso suprimir a desculpa da ignorância depois ela ele coação nos casos mistos: para que se faça legitima- mente contra a vontade o que se faz por ignorância (quer a ignorância se ja a das condições de fato ou a da regra). para permanecer mais próximo do grego. a escolha preferencial . imutáveis. está em poder do sujeito realizá-la ou não" (11 10 a 16). a proaíresís. impulsividade (thumos ). se se preferir. se nos permitem assim falar. protesta Aristóteles: o mau o é de bom grado. ou regulares e freqüentes) 8z e sobre o que deliberamos. Com essas duas estratégias de desculpas afas- tadas. Basta-me a defini- 100 ção: "O homem tem toda a aparência [ . permitem julgar o caráter (o ethos). sobre este último ponto há uma (j) imensa querela entre intérpretes na qual não entrarei. a ação realizada de bom grado é aquela "cuj o prin- cípio está no interior elo sujeito e. exige que se comece pelo "contra a vontade". a definição do hekon proposta acima se impõe facilmente. sentir arrependimento. é instalada em lugar ele honra. a saber. . melhor que nossos atos exte- 2 U) ~ riores. Com o terreno limpo. Para nós é importante esse vínculo no nível do vocabulário entre o en hauto (no interior do sujeito) e o eph' hauto (em poder do sujeito). logo após o ato. é preciso dizer o que ela é: w (}) d: uma espécie de bom grado especificado por uma deliberação anterior. a decisão . Aristóteles as eleva a um nível fil osófico por oca- sião de uma confrontação com o adágio socrático segundo o qual "nin- guém é mau de bom grado".. toca- o mos na intimidade ele nossas intenções que.

Além disso. A descrição elo "desejo deliberado" ficaria. em cada caso. ou. pois. O anseio está. a o () ' UJ m esma que lhe daria o sábio [phronimos]" (1106 b 36-38). é o virtuoso. Pois. a deliberação diz respeito ao que pode ser para ele objeto de ação. ter- se-ia simplesmente virado em vão as costas a Platão e à sua defesa em favor do bem absoluto. incompleta sem essa referência ao anseio. como em todos os ramos ela atividade moral pelo virtuoso. en- tendendo-se que se trata de algo que está em nosso poder. ela sabedoria prática. 101 •• ••••• . a decisão tam- bém será um desejo deliberado das coisas que estão em nosso poder. se o objeto do anseio se reduzisse ao que nos parece bom.no caso de cada uma elas virtudes examinadas entre os Livros IV e V. julgamos. encarregado dos fins . Essa conclusão pode ser evitada se a medida elo juízo reto é exercida. ora. Sua evocação h avia sido antecipada por ocasião da de._ w z w Será pois com a phronesis que encerraremos nossos empréstimos à ü <! concepção aristotélica ela ação moral sob o signo do reconhecimento da ::> UJ (/) responsabilidade. Aristóteles o evoca no seguimento de sua definição da decisão: "Por conseguinte.. Conclu- amos. A descrição dos componentes da ação sensata seria incompleta se não abríssemos espaço para o complemento da decisão constituído pelo anseio (boulesis). Mas para tra.elo justo meio . assim que. LL o Essa mudan ça ele plano é importante para nós n a medida em que com ela a análise se eleva a um nível que já pode ser considerado reflexivo. como o 'decidido' é 'desejado deliberado'. essa sabedoria prática continuará a ser para a seqüência de nosso empreendimento uma referência importante. o anseio cairia fora do campo ele uma ética racional. isto é. da prudência. isto é. O que se antecipa aqui é a doutrina da phronesis. a: () oo tar tematicamente da phronesis é necessária uma mudança de plano que z ::> passa elas virtudes ditas morais ou de caráter para as virtudes intelectuais. a: 0<! finição da virtude: "um estado habitual que dirige a decisão que consiste . dese jamos em virtude elo anseio" ( 1113 a 9-ll ). cu ja norma é a regra moral. como se traduz tradi- cionalmente. . como sabemos desde o Górgias.ações. pois. que o objeto da deliberação não será o fim mas sim os meios" (1112 b 32-33 ). se nos permi- tem dizer. o em um justo m eio relativo a nós. de Pla- tão. não é o homem sem mais. A medida. aquele que foi designado anteriormente como a instância pessoal ele delimitação ela "meclieclacle" . e as ações são feitas visando fins outros que a si mesmas. depois da deliberação. Essa ligação é esperada assim que se admite que se delibera sobre os meios e não sobre os fins.

:2 fil plano elo pen sam ento. III. a afirmação elo pensam ento e a perseguição elo dese jo coin- cidem então exatamente" (p. quando o que o pensamento diz ser o fim é realm ente o fim. O esclarecimento ela aspiração à verdade ocupa. isto é.ela apreciação elo justo meio . também cham ada norma (horas) - esta é obra ela sabedoria prática. O ra.. o fim . aos m eios. nas virtu des m orais. VI ao Livro li no m omento ele saber se a deliberação diz respeito apenas fil ::. observa Jolif na parte ele seu Comentário consagrada às virtu des intelectuais. t.garante no argumento a transição entre as du as espécies ele virtude: se o justo m eio. O qu e o desejo persegue e o que o pensamento articula. Essa declaração constitui •••••• . pois. 443 ). o sábio. a saber. p . A questão ela m eclieclacle . é determi- nado pela reta regra (orthos lógos). isto é. e o dese jo reto. a retidão elo dese jo associando-se à questão ela verdade prática elo . n o plano elas virtudes intelectuais. Esse é o pensamento prático expresso pela a: idéia ele dese jo deliberado: esse pensamento prático tem como fim a ação I g feliz. o lugar ela noção ele justo m eio n o plan o elas virtudes ele caráter. prossegue Jolif. . O centro ele gravidade se desloca para a questão: o que é "agir üí como diz a reta regra" (orthos lógos) na determinação elo justo meio ( 11 38 <( w (j) ci: b 18)? A determinação da norma (horas) implícita a essa reta regra requer w u UJ o jogo combinado entre essa parte ela razão denominada calculadora e o I z § dese jo em seu estado h abitual. U m outro vínculo com o tratado ela virtude elo Livro li é garantido pela referência à obra (ergon ) elo homem en quanto h omem. quando o qu e o dese jo persegue é precisam ente esse fim enunciado com verdade pelo pensamento. Não h á. são u m a única e m esma coisa: "Aristóteles". motivo para opor o Livro o ::. 447). eleve permitir que seu suj eito cumpra sua obra" (in Éthique à Nicomaque. o o O traço ela sabedoria que interessa a nossa investigação n o m ais alto z . "ensina aqui que o desejo é virtuoso quando o pensamento é verdadeiro. é digno ele nota qu e o objeto dessa virtude não possa ser definido separadamente ele seu sujeito. pois. O argumen- to procede aqui elo gên ero rumo à diferença específica: o gênero é o es- tado habitual (hexis) e a diferen ça específica é precisamente a n oção ele obra : "A virtude intelectual".·.:) 8 (j) grau diz respeito à implicação elo phranimos na phronesis: "O m elhor meio ele apreender o que é a sabedoria é olhar qual é a qualidade que a 102 lingu agem atribui ao phranimos" (1 140 a 24 ). A decisão é cloravante consolidada pelo ato ele julgam ento no dinamism o do intelecto prático. "assim com o a virtude moral. .

O juízo prático também oferece um conteúdo rico à idéia ele ergon própria elo homem. aqueles que forn ecem m atéria à UJ a: deliberação. a sabedoria prática deve proceder do conhecimento univer- sal rumo ao elo particular. "A sa bedoria tem por objeto os bens h umanos. O filósofo apenas transformará em silogismo prático o argum ento que coloca como maior a idéia elo sábio como "bom cleliberaclor". ). Aristóteles voltará uma última vez à definição ela phronesis construí- da sobre o tema do bom delibe raclor (euboulos)f. mas apenas para acres- centar-lhe um traço que não pode deixar de nos chamar a atenção: para guiar a ação. Mas como o sábio seria "de bom conselho" fora de sua ~ til esfera própria se ele não soubesse "governar a si mesmo" (1142 a l O) (/) UJ (tracl. Além disso. o bom cleliberaclor. e a um fim que seja um "- 0 objeto de ação. essa é por excelência a tarefa que lhe é o oo atribuída: deliberar bem . no que lhe diz respeito. e como menor a idéia das situações ele incerteza. ninguém delibera sobre coisas que não podem ser diferentes z :J elo que elas são. Wahrheit und Methode. como confirma o exemplo ele Péricles. Ora. como Péricles. essa perspicácia em uma situação de incerte- za. Vejo nessa observação capital a antecipação elo que qualificamos hoje em dia como "ação que convém". A sabedoria prática é esse discernimento. A esse respeito. ) Aris- tóteles não deixa essa sabedoria au to-reflexiva ocupar todo o espaço. apontado para a ação que convém. 298. à ::' z UJ custa elo político. nem sobre nada que não seja ordenado a um fim. pura e simplesm ente. a sabedoria prática possui mais afinidade com a política que com a filosofia especulativa. Est a é inseparável de um agente ela ação que podemos denominar avisado: se ocorre de ele ser "de bom con- selho" é porque. para concluir pela definição ela sabedoria "como estado habitual verdadeiro. 103 ••••••• . Ao interrogar a lingua- gem o filósofo progride em sua demonstração. Pois assim que se fal a ele um sábio. é aquele que visa atingir o m elhor elos objetos ele ação que se oferecem ao h omem e calcula tão bem que vai direto ao objetivo" (1141 b 8-13). isto é. p. Não apenas a linguagem. ele é um perito capaz ele conhe- cer "seu próprio interesse" (1141 b 33). mas também o testemunho ele alguns homens exemplares. que guia a ação e tem como objeto as coisas boas e más para o homem" ( 11 40 b 4-6). ou como prefere tracluzirTricot: "saber o be m que é próprio a si m esmo" (ibicl. (Esse to hauto eidenai que Gadamer traduz por Sichwissen .um marco importante em nossa pesquisa atenta à emergência do ponto de vista do sujeito na descrição da ação sensata. Tricot)? a: ~ o o o 7. racional [meta logou].

. sobre a ação sensata. Persistir-se-á em proclamar que os gregos ignoraram os con- ceitos de vontade. de livre-arbítrio. J i ~' ·.. de consciência de si? Sim. Desse ponto de vista. de Homero a Aristóteles. depois no modo trágico. ' . essa ação pela qual seu autor se reconhece responsável. . Interrompo aqui meus empréstimos ao fundo grego. O filósofo é o phronimos desse discur- so fronético ele segundo grau que percorre novamente o caminho traçado pelos gregos. mas es- tabeleceram entre eles e nós urna afinidade no plano da inteligência dos costum es na qual se enquadra urna análise fina da ação social. por fim no modo da filosofia ética. ele Homero a Aristóteles. eles os ignoraram sob o título das categorias que se tornaram as nossas.. o discurso de Aristóteles sobre as virtudes de caráter e as virtudes intelectuais depende ele próprio dessa phronesis que constitui ao mesmo tempo uma das virtudes nomeadas e o princípio implícito da con- tinuidade do discurso mantido no modo épico. o 2 (f) w :"' (jj < w (f) d: w idI z o() w a: I o o 2 (f) w o o z :::> ü w (f) 104 • • • • • e e .. ..

como nos vários exemplos que apresenta- mos . no âmbito ela linguagem ordinária. Daremos um nome logo de I início a esse si m esmo reflexivo. Universidade Federal do Para Biblioteca c~ ~...~! Uma fenomenologia do homem capaz I ·I I e há um ponto no qual o pensamento dos modernos marca um avanço em relação ao dos gregos no que diz I respeito ao reconhecimento ele si. eles não ela- boraram uma teoria ela reflexão na qual a ênfase fosse deslo. na qual somos tentados a perceber retrospectiva- m ente um esboço de filosofia refl exiva. mas no plano da consciência reflexiva ele si mesmo im- plicada nesse reconhecimento. Mas o seu I uso era espontâneo. I 105 •• ••••• I I . como nós também continuamos a fazer. não é principalmente no plano ela tem ática. Por razões ligadas ao con. I cada ela ação. equivalen- te aos vocábulos ingleses self e selfhood . Os gregos certam en. ele suas estruturas e ele suas virtudes. como teria conduzido a teoria ela I phronesis.. o ele "ipseidade". para a instância elo agente .o uso elo pronome refletido hautolheauto. I te conheceram . o do reconhecimento da responsabilida. I de. I torno ontológico e cosmológico de sua filosofia.

E le figura então como ratio essendi ela lei.ela autonomia só faz sentido na síntese a priori. se combina à idéia ele lei. as filosofias transcendentais de Kant e ele F ichte tiveram como efeito fazer elo eu e ele sua reflexividacle própria a pedra angular ela filosofia teorética. D esse m odo. como pudemos ver em nosso primeiro estu- do ao tratar elo reconhecimento/identificação. Depois ele Descartes. no quadro da filosofia ••••• . w U) Como explicar esse apagamento ela ipseidade no tratam ento ela auto- a: UJ ü l. mas no ela filosofia moral e ela filosofia elo direito. Porém. o auto. Esses dois vastos desenvolvimentos centrados n a idéia ele obriga- ção e ele direito não deixavam nenhum espaço livre para a temática do reconhecimento ele si enquanto instância de discurso distinto. no juízo sintético subjacente à idéia ele autonomia. é aqui que a teoria da ação pode ser esperada. a despeito ela referência explícita ao si na exigência ele autonomia tão fortemente reivinclicacla pela moral kantiana em oposição à noção de h eteronomia.__ U) w reside em sua universalidade. Mas não se diz de onde pro- :::J (J w U) vêm as m áximas. Mas o si da autonomia não é caracterizado aqui por sua capacidade ele autodesignação. É verdade que foi primeiramente no campo teórico que essa inflexão reflexiva se expressou pela primeira vez. N ossa segunda dívida diz respeito à extensão ela problemática reflexiva ao campo prático: nós a elevemos ao desdobramento da Crítica entre razão teórica e razão prática. e esta na capacidade das m áximas ele n ossa 8z ação de passar pelo teste da universalidade. o surgi- mento elo cogito cartesiano constitui o acontecimento de pensamento mais importante depois do qual pensamos ele um modo diferente. Mas não foi em benefício da teoria da ação que esse desdobramento se impôs. Meu problem a nasce aqui: como dar uma seqüên cia à análise aris- 106 totélica ela ação. o critério de seu caráter categórico :::J . com sua noção ele dese jo racional.da autono- (i) 4 mia não é acentuado como si por ocasião dessa correlação. Desse ponto ele vista. Não é improvável que elevamos à filosofia cartesiana elo cogito e à teoria ela reflexão ele John Locke o impulso decisivo na direção elo que proponho denominar h ermenêutica elo si. enquanto a lei 2 U) w 2 se torna a ratío cognoscendi elo arbítrio. sem jamais ser tematizaclo o em si m esmo. e a reflexão sobre si foi elevada a uma estatura temática sem precedentes. O auto. mas como sinônimo do arbítrio que.lJ nomia moral? Responderei a isso: em razão ela au sência de uma tem ati- I z o ü zação da ação enquanto campo prático colocado sob o império elas nor- UJ a: m as. E ncontro a confirmação desse déficit no exam e feito por Kant elo I oo imperativo categórico: como se sabe.

contrário a dúvida. z WJ ::. 1990. A seguran ça ligada N ~ às asserções introduzidas pela forma moclal do "eu posso" não tem como j ::. inaugurada por D escartes e Locke. 9o cimento da responsabilidade" atribuído aos agentes ela ação pelos gregos. Essa reflexão seria ao m esmo tempo neo-aristotélica e pós-kantia- na. confessar. ::J l. daria uma maior amplitude à idéia de ação que foi primeiramente tem atizada pelos gregos. considerado na variedade de seus usos. Le Seuil.. na qual o "eu posso". Paris. E m O si mesmo como um outro 1 adotei o vocábulo "atestação" para caracterizar o modo epistêmico das asserções ligadas ao registro das capacidades. ele exprim e perfeitamente o modo de crença vinculado às asserções do tipo: "creio que posso". iJ "- terminado ato. mas a suspeita. A série elas figuras m ais notáveis do "eu posso" constitui a m eus olhos a espinha dorsal de u ma análise refl exiva. e depois desenvolvida na dimensão prática pela segunda Crítica kantiana e levada por F ichte ao seu maior poder transcendental? É por m eio ele uma reflexão sobre as capacidades qu e con juntam en- te esboçam o retrato elo homem capaz que procuro responder a esse desafio. na linha do "reconhe. e a u m a das acepções m ais importantes do verbo "reconhecer" no plano lexicográfico. já n o primeiro estudo. aprovar etc. essa transição significativa do reconhecimento-iden- tificação com o reconhecimento-admissão graças à expressão cartesiana "receber em m eu crédito". que o Robert coloca à frente de u ma série ele variantes: admitir.refl exiva. os agentes atestavam im plicitam ente que eram capazes ele <! ::. o o Minha tese n esse plano é a ele que existe u m parentesco sem ântico <! ô estreito entre a atestação e o reconh ecimento de si. o ele H om ero e Sófocles a Aristóteles: ao reconhecer ter cometido u m ele. 107 • • • e • • . Havíamos cruzado. o "considerar verdadeiro". Paul RICOEUR. Soi-même comme un autre. a qual não pode ser refutada senão por LU 2 oI u m resseguro de m esmo conteúdo epistêmico qu e a certeza contestada. para distingu i-lo ela crença dóxica en quanto forma fraca elo saber teórico. para não dizer também pós-hegeliana. com o verbo "receber" constituindo o pivô da cadeia de acepções. a saber. A inclusão dessa análise das capacidades constitui um legítimo en- riquecim ento da noção de reconhecimento de si quando encontramos sua justificação no parentesco semântico entre o modo epistêmico pró- prio à espécie de certeza e ele confiança que está vinculada à asserção própria do verbo m odal "eu posso" em todas as suas formas. como admitirei n o terceiro estudo.

. Paris. 2. Le Désir de Dieu. Le désir de Dieu (O dese jo ele Deus)2. g z :::> CJ LU (f) Z. Ü) <l: Mas a novidade dessa análise em relação à dos gregos não se limita w (f) d: à amplitude e ao caráter ordenado do percurso elas figuras elo "eu posso". além disso. A análise que segue sobre as capacidades assim atestadas e reconhe- cidas deve vários ele seus traços originais a seu aspecto reflexivo: primei- o::. Desse ponto ele vista. ainda resta um afastamento ele sentido entre atestar e re- conhecer que diz respeito a seu pertencimento a famílias lexicais dife- rentes. 3. tenho u ma dívida co m Jean oo :::> Nabert 3 pela atenção dedicada ao desvio pelo lado "objetai" elas experiên- tií LU cias consideradas do ponto ele vista elas capacidades colocadas em ação. PUF. ID. Cerf. Jean ABE RT. 108 Aubier-Montaigne. Paul Ricoeur. 1943. até seu emprego na esfera religiosa. ed. Paris. segundo a expressão ele Jean Nabert em sua obra póstuma. como a palavra indica. cometê-lo. a esses sinais contingentes que o ab- soluto dá de si mesmo na história: fala-se então em "testemunhas do ab- soluto". Por sua vez. A grande diferença entre os antigos e nós é que levamos ao estágio reflexivo a junção entre a atestação e o reconhecimento no sen- tido elo "considerar verdadeiro". Atestar pertence à mesma família que o testemunho. indo desde o uso elo termo na conversação ordinária até seu emprego na historiografia e nos tribunais e. Ao coincidir na certeza e na segurança do "eu posso". • • e• • e . Contudo. o testemunho tornando-se então o complemento existencial ele uma "criteriologia do divino" ele aspecto crítico. w () w I mas consiste em segundo lugar no caráter indireto. o reconhecimento ele si pertence ao campo semântico em que ele está em relação com o reconhecimento-ide ntificação e o recohecimento-Anerkenmmg. ill ::. 1962 (Collection philosophique de l'esprit). os dois campos semânticos ela atestação e elo reconhecimen- to ele si trazem seus harmônicos respectivos. É a esse misto que está ligada a certeza elas asserções introduzidas pelo verbo moela]: "eu posso".: tematizacla inicialmente pelos gregos. pref. m ecliato. dando assim riqueza e es- pessura ao que proponho chamar de reconhecimento-atestação. o qual se ramifica em várias acepções. na qual o valor de testemunho está vinculado. Éléments pour une éthique. 1996. que me parece z o caracterizar uma abordagem hermenêutica no âmago ela nebulosa das fd a: I filosofias reflexivas.: ramente a amplitude e a variedade elas formas relativas à idéia ele ação. Paris..

<[ ras: em primeiro lugar. Essa prioridade reco. que garante a afinidade de sentido entre as diversas figuras 2 oI elo poder fazer que pretendo enumerar e analisar. não tratarei diretamente elas capacidades relativas à ação enquanto fato interveniente no curso elo mundo. o reconhecimento ele si mesmo ocupa um lugar mediano nesse longo traje- to em razão precisamente dos traços ele altericlacle que. desvio pelo objetai para conferir valor reflexivo ao si mesmo). se reconhece si-mesmo. E les se nom eiam quando se fazem reconhecer. os suj eitos que agem e sofrem na epopéia. com mais razão ainda. Nesse sentido. ~ ::> eles interpretam a si m esmos quando se desm entem. quanto ao suj eito ela decisão e elo anseio.O desvio pelo "quê" e pelo "como". no momento ele autoclesignação. Poder dizer Contrariamente a u ma expectativa eventual do leitor. parece- me exigido explicitamente pelo próprio caráter reflexivo elo si. 1. mas voltarei a montante d esse poder fazer na direção elas capacidades implicadas pelo uso ela palavra. é ele que é designado como a "causa" e o "princípio" 109 ••••••• . No trajeto aberto pelo ato sobe- rano elo reconhecimento/identificação. extrai seu argumento elo que denomino ana. constituído pela dialética entre identidade e altericlacle. A esses dois primeiros traços de uma hermenêutica elo si (considera- ção das capacidades que encontram expressão na forma modal do "eu posso". os heróis trágicos não cessam ti:' ele falar sobre sua ação. no âmago ela auto- designação elo su jeito das capacidades que indica a gramática do "eu pos- so". tratado no primeiro estudo. se associam aos outros dois traços salientados anteriormente: a carac- terização ela ação pelas capacidades em que elas constituem o efetuar-se. na linha elos exemplos tirados elo fundo grego. jun- ta-se um terceiro. e o desvio ela reflexão pelo lado objetai elas experiências consideradas. Essa ampliação do campo elo "eu posso". antes do retorno ao "quem". l3 2 w logia elo agir. "eu posso dizer" justifica-se ele duas m anei. Esta última consideração é ela maior importância para as ambições ela fi- losofia elo reconhecimento que defendo. 2 oz gens homéricos e. o reco- nh ecimento ele si. na 8 -' o z w tragédia e na teoria aristotélica ela ação são suj eitos falantes: os persona. que. implicado pela exigência ele reconhecimento mútuo ele que tratará o terceiro estudo. g e nesse sentido elo ele agir. em virtude dessa última dialética. abre também o cami- nho para a problemática elo ser reconhecido. o o nhecida ao "eu posso falar".

Ao proceder regressivamente do enunciado "objetai" para a o:. Assim recolocado sob esse patrocínio irrecusável. L. H. cuja significação. 1970. ed.. a pragmática oferece à filosofia refle- (f) w :. O agir seria assim o conceito mais apropriado no nível ela filosofia antropológica na qual se inscrevem essas pesquisas. fr. que. ". w &l Reservada inicialmente aos enunciados executivos. Mas há uma razão que somente a pragmática moderna do discurso pôde evidenciar: ela consiste em que. Ao inaugurar a idéia de capacidade pelo poder dizer. depois de Austin e Searle. ••••• • . Assim se verifica o ~w segundo traço de uma hermenêutica elo homem capaz. pertence aos clássicos da disciplina. xiva um instrumento analítico valioso. a da noção ele ser. e trad. Le Seuil.. é submetida à arbitragem elos contextos particulares de interlocução. entre as quais o ser como potência (dunamis) e ato (enérgeia ). assim denominados para I z o distingui-los dos constatativos. Harvard University Press. C. AUSTIN. essa teoria se estendeu ao aspecto ilocutório &l a: I ele todos os enunciados. O conceito de agir n o plano da antropologia fundamental se situaria na linhagem dessa acepção proveniente ela polissemia mais primitiva. em caso de ambigüidade.: 110 Quand dire c'est faire. conferimos de saída à noção de agir huma- no a extensão que justifica a caracterização como homem capaz do si que se reconhece em suas capacidades. enunciação e para o seu enunciaclor.. How to do Things with Words. Paris. declaração segundo a qual o ser é dito ele múltiplas m aneiras. o desvio pela oo z questão "quê?" operada por uma semântica do enunciado para atingir o ::J <. inclusive o que está implicado pelos próprios oo enunciados constatativos como o "eu afirmo que . Melhor que os outros compartimentos de exercício elo "eu posso". O filósofo os faz falar sobre sua ação. 1962. de que depende o que eles fazem. o tratamento elo poder dizer como capacidade eminente do homem capaz é garantido por uma anterioridade que vem reforçar a análise contemporânea vinculada à pragmática do discurso. ele estaria ao mesmo tempo no prolongamento da famosa de- claração ele Aristóteles sobre a noção de ser no plano ela ontologia funda- mental. introd.. como convém a uma aborda- gem reflexiva. na saída de uma abordagem estritamente semântica cujo maior conceito é o de enunciado (statement). falar é "fazer coisas com as palavras"4 . o poder dizer se deixa atingir obliquamente. A abordagem reflexiva se articula üi sobre a abordagem referencial por intermédio ela teoria elos atos ele dis- <>: w (/) cC curso.:> w (/) 4. segundo a famosa formulação do filósofo Austin. Lane.

ao falar. além disso. esses instrumen- tos da linguagem que se limitam a "mostrar" singularidades. pode ocorrer ele ela responder a uma interpelação vinda de outrem. os advérbios de tempo e de lugar. A autoclesignação recebe ela denominação muito mais que um aumento de força ilocutório. w falante capaz de dizer "eu. transcenden- do a especificação genérica. a estrutura pergunta- resposta constitui a estrutura básica do discurso enquanto implicando locutor e interlocutor. os pronomes pessoais. emprega o pronome pessoal na primeira pessoa elo singular. que designa a lt' <( capacidade ele fazer ocorrer acontecimentos no ambiente físico e social ::. a teoria elos atos ele discurso permanece incompleta caso não relacione o caráter ilocutório desses atos com seus caracteres ele interlocução. Eu posso fazer § o O segundo uso mais importante da forma moclal "eu posso" diz aí ::. as descrições definidas são os meios ordiná- rios de designação dos quais depende a autodesignação do sujeito falante. Sua designação se dá pelo recurso a dícticos. ele é insubstituível. A autodesignação elo sujeito falante se produz em situações de interlocução nas quais a re- flexividade se associa à alteridade: a palavra pronunciada por uma pessoa é uma palavra dirigida a outra. m as como uma expressão auto-referencial por meio ela qual designa a si mesmo aquele que. oz respeito à própria ação no sentido limitativo elo termo. no sentido em que a atribuição ele um nome próprio. constitui uma verdadeira instauração concernente a um sujeito ~ ::. me chamo Paul Ricoeur". ::. recebe também um papel de fundação. A esse título. o "eu" não figura como um termo lexical do sistema ela língua. as formas verbais. fulano de tal. segundo as regras convencionais que regem a distribuição dos sobrenomes e dos nomes em uma cultura dada. Ainda falta explicitar o enunciador da enunciação. ::J elo su jeito que age. Na expressão "eu digo que"."quem" da questão "quem fala?". O terceiro traço distintivo por meio do qual a reflexão sobre o suj eito falante se vincula a uma hermenêutica do homem capaz interessa parti- cularmente à nossa pesquisa sobre o reconhecimento. Desse "fazer ocorrer" o sujeito pode se reconhecer com o a "causa" em uma declaração do tipo: fui eu que fiz . oI oo <( 2. O simples enun ciado constatativo elo tipo "eu afirmo que" sustenta seu próprio caráter ilocutório ele um pedido tácito ele aprovação que o conforta em sua própria segurança. Desse ponto ele vista. Desse modo. É o que o 111 • •••••• .

a expres- oo são: feito "intencionalmente". •••••• . a segunda uma razão ela ação.. modernos. E. a saber.. Para nós. ::l ü w (f) 5.J razões uma espécie de explicação causal sobre um fundo ele ontologia do oo z acontecimento. 1979. possível de circunstâncias. Um motivo. 112 6. A razão primária de uma ação é então "sua causa" 6 . Além disso. Oxforcl. é enquanto tal motivo para agir: ele está logicamente implicado na noção ele ação realizada ou a ser realizada. Que alguma coisa aconteça que não existia anteriorm ente não pode significar senão su ce- der a uma outra coisa segundo uma regra. uma intenção. Anscombe observa. como a gramá- tica elo verbo wanting verifica. que faz tu ü w passar o corte lógico entre a classe elos acontecimentos e a elas substâncias I z o ü ou estados de coisa no sentido ele ob jetos fixos. na tu cr: . Contra esse alinhamento do fazer acontecer sobre o simples ocorrer do acontecimento. personagem homérico e o h erói trágico eram capazes de afirmar. nenhuma diferença objetiva distingue "fazer ocorrer" de "ocorrer". Com base n essa semân- tica das frases de ação.w Mas essa oposição em primeira instância entre fazer ocorrer inten- Ui <>: cionalmente e ocorrer causalmente pode ser enfraquecida por uma onto- w (f) d: logia do acontecimento qualquer. Donalcl DAVIDSON. As ações entram. M . Essays on Actions and Events. G. ela deve ser reconquistada com operações de objetivação que alinham os aconte- cimentos que se faz ocorrer intencionalmente sobre os acontecimentos que simplesmente ocorrem. pode-se opor em primeira instância uma análise ele caráter semântico sobre as frases da ação cuja estrutura aberta difere ela proposição atributiva fechada (A é B). a estrutura aberta da frase convida a uma interpretação dos gestos em função elo contexto mais amplo o::. "':::. Basic Blackwell. como a de Donalcl Davidson. essa frase de apropriação perdeu sua inocência. Pode-se escrever: Brutus matou César nos idos de março na Cúria com um punhal etc. E. M. pois. G. Recorde-se a fórmula ele Kant ela segunda Analogia ela experiência (na Analítica elo juízo) : "Todas as mudanças ocor- rem seguindo a lei de ligação ela causa e elo efeito". Oxforcl. 1980.. Ainda resta o uso adverbial da intenção. I primeira classe. de regras e ele normas próprias de uma cultura. Esse uso inclina a fazer da explicação por ::l t-- Ul Ll. ao contrário ele uma causa. pode-se opor duas significações ligadas à resposta "porque" à pergunta "por quê"? A primeira designa uma causa no sentido ele sucessão regracla. Clarendon Press. ANSCOMBE. Intention. em Intenção 5: "Um homem que sabe como fazer as coisas tem um conhecimento prático disso".

. A atribui- ção a uma pessoa. lU ::. há outras que dependem de causas tradicio- nalm ente colocadas sob o título ela natureza. centrada no vínculo entre o quê e o como. B 478) uma série de fenômenos que ocorrerão segundo as lU u. Esse poder fa zer se limi. o que se dá a pensar é a "capacidade de começar por si mesmo" (von lU 2 oz selhst) (A 448. Essa ligação "h egemônica". do qual se diz também que ele a possuí. que não encontrava nos gregos senão metáforas . A adscrição visa. 5. O termo "adscrição" salienta o cará- ter específico da atribuição quando esta diz respeito ao vínculo entre a ação e o agente. Ela faz a ligação do quê e do como ao quem. o pai. da qual o poder fazer constitui uma precondição radical. <( leis da natureza. não poderia obliterar a referência ao agente enquanto possuidor de sua ação. que foi denominada "aclscrição". ao nível imposto pela discussão no plano lingüístico. que permane- ceu próxima do senso comum e do uso literário retórico. Desse ponto de vista. 113 •••••• .o piloto. E Aristóteles declarava antes elos estóicos: há coisas que dependem de nós. com toda a inocência já tendo sido perdida. colocar a oo causa supostamente livre na frente da causalidade física. A adscrição da ação a um agente faz parte do sentido da ação enquanto fazer ocorrer. faz parte elo sentido ela ação intencional. à capacidade de o próprio agente designar a si mesmo como aquele que faz ou que fez . que ela é "sua". no m esmo pla.. ~ no cosmológico que na famosa terceira "Antinomia ela razão pura". da necessidade e elo acaso: N i1. as coisas que podem ser ob jetos ele ação" (Ética. 2 :::J de elas causas" ser absorvida no fenômeno moral da imputação. a análise lógica elas frases ele ação. "Mas nós deliberamos sobre o que está em nosso poder fazer. oI Coube a Kant. que ele se "apropria dela". O sentido da intenção não adere menos ao seu lado declarativo que ao seu lado descritivo. sobre é\ ::. A gramática contemporânea da aclscrição leva essa análise. 1112 a 31-33 ). o dono ela casa -. no Fédon. III. A discussão contemporânea volta a encontrar aqui a teoria aristoté- lica que unia na explicação da ação o critério de dependência da ação em relação ao seu agente ao critério da interioridade de seu princípio.. não hesitava em desdobrar a idéia de causa quando explicava por que Sócrates permanecia sentado em sua cela em vez ele fugir. no vocabulário que ainda é o ela pragmática do discurso. isto é. com g oz isso. A dificuldade para nós é não deixar essa "espontaneida. Platão. Essa redução é inevitável se não remontamos para aquém do pro- cesso de ob jetivação que separou o par quê-porquê das frases de ação da relação entre esse par e a pergunta "quem?". parece re- meter a um fato primitivo.

Nesse complexo de interações. O que eu gostaria ele salientar aqui Kl :::. Na ausência dessa operação configuradora. ta a um poder começar que engloba uma série de ações fragmentárias. até o desfecho ela narrativa. o desvio pelo "fora" é marcado na ordem narrativa pela passagem por uma o :::. a saber. ele Aristóteles. a eficácia do começo pode parecer não ter limites. Poder narrar e narrar-se Coloco na terceira posição nessa fenomenologia do homem capaz a problem ática da identidade pessoal ligada ao ato ele narrar. colocam o o z em perigo essa identidade de um gênero único. a identidade pessoal se projeta como identidade narrativa. a u nidade ele sentido resultante se o baseia em u m equilíbrio dinâmico entre u ma exigên cia ele concordância o ::J ti UJ e a admissão ele discordâncias que. de causas e de acasos. como delimitar a parte de ação de cada pessoa? É preciso então remeter-se à admissão do sujeito que age. Além elo privilégio atribuído à capacidade em relação à efetuação. tomando para si e assumindo a iniciativa na qual se efetua o poder de agir ele que ele se sente capaz. O s três traços por meio elos quais se caracteriza a problemática do homem capaz assumem um relevo notável na fase narrativa desse percur- so iniciado pela reflexão sobre o homem falante e prosseguido pela refl e- xão sobre o homem que age. às quais ele confere uma espécie de integralidade. é m enos a originalidade dessa semiótica ela narrativa que seu parentesco (ô < profundo com o esquem a ela Poética. a ela narratologia. semiótica regional. Pôr em intriga atri- I z oü bui uma configuração inteligível a um conjunto heterogêneo composto w a: ele intenções. 3. como quando há questionamento sobre o alcance de uma decisão: historiado- res e juristas conhecem bem os paradoxos que decorrem disso. Sob a forma reflexiva do "narrar-se". Uma implicação importante dessa operação configuradora 114 nos diz respeito diretamente. o poder de unificação ::J 8 (f) assim aplicado à dispersão episódica da narrativa não é outro que a pró- pria "poesia". Aristóteles elaborou sua noção de "pôr em intriga" c±: w ü w (muthos) visando à "representação" (mímesis) da ação. que a colocação em intriga não é ••••• . que encontrará mais lon- ge na narrativa a regra de sua configuração. Um pro- blema semelhante é posto pela sobreposição das ações das diversas pes- soas. Por ocasião da epo- w (f) péia e da tragédia.

Uma fenomenologia do homem capaz reterá desse desvio pela nar- ratologia que cabe ao leitor ele intrigas e ele n arrativas exercitar-se em imaginar suas próprias expectativas em função elos modelos ele configu- ração que lhe oferecem as intrigas geradas pela imaginação no plano ela ficção. os segmentos recorrentes da ação. JAUSS. 1970. relativa às suas esferas ele ação. Du Sens. 0 der a narrar a si mesmo de outro modo. Ain- da é preciso acrescentar que essa apropriação pode assumir uma varieda- de ele formas. Algirdas Julien GREIMAS. 2 w 2 Com essa expressão. corno em Emma Bovary. e seu papel na narrativa depen- de da m esma inteligência narrativa que a própria intriga : o personagem. Jauss9. dos personagens. um leitor pode declarar reconhecer-se em um determinado personagem tomado em uma determinada intriga. 9. Le Seuil. ô 3o m o tempo o problem a e a solução. "ele outro modo". que podemos remontar à Morfologia do conto. A categoria do personagem é. Morphologie du conte. Paris. até Creimas8 e seu modelo actancial. acrescentou uma nova parte à teoria narrativa em função do par constituído pela es- crita e pela leitura. Esse empreendimento. Desse modo. como a ele H . e os que se seguiram. ela re- jeição. também uma categoria narrativa. Gallimarcl. a da identidade pessoal associada ao poder narrar o < e n arrar-se. É per- sonagem aquele que faz a ação na narrativa. R. passando por todos os estados da fascinação. R. uma problemática inteira é oI o colocada em movimento.menos a dos personagens . pois. de Vladi- mir Propp 7 . Jean Starobinski. z UJ 2 oz tU IJ. Claucle Maillarcl. Uma "estética da recepção". Le Seuil. 1978. O autor procura dissociar as "funções". pode ser tenta- da. Propus o termo identidade narrativa para caracterizar ao m es. Vladimir PROPP. é em relação a estas últimas que uma tipologia dos papéis. 1970. Aprender a "narrar-se" poderia ser o N [i benefício dessa apropriação crítica.. pode-se dizer. é ele próprio colocado em intriga. ela suspeição. 115 ••••••• . Essais sémiotiques. com o fim de definir o conto ape- nas pelo encadeamento das funções. pref. desde a armadilha da imitação servil. Apren der a narrar-se é também apren. trad. 7. verifica a hipótese intuitiva de que a intriga rege a gênese mútua entre o desenvolvimento de um caractere e o de uma história narrada. a saber. < 2 J 8. Pour une esthétique de la réception. Paris.que a das ações. É com base nessa correlação notável que se edificou a narratologia contemporânea. H. Paris. até a busca elo justo distanciam ento em relação a modelos ele iden- tificação e a seu poder ele sedu ção.dos "caracteres" .

pode ser definida como identidade narrativa. desaparecer. considerada em sua dura- ção. sem a refe- rência à identidade narrativa. Nosso primeiro estudo. A continuidade ininterrupta de desenvolvimento L éii entre o primeiro e o último estágio do desenvolvimento do que conside- < w (f) ci: ramos ser o m esmo indivíduo pode conjurar a dúvida e aliviar a ameaça w hl contida na experiência emocionante elo desconhecível. não havíamos abandonado a esfera 8 ~ da identidade idem. a que se acres- •••• . balizada pelas impressões digitais. que. é incapaz ele desenvolver sua dialética espe- cífica. dimensão que pôde ser negligen ciada nas análises precedentes: a referência da enunciação ao enunciador e a elo poder de agir ao agente pareciam poder ser caracterizadas sem que fosse levado em considera- ção o fato de que o enunciador e o agente têm uma história. no cruzamento da coe- rência conferida pelo pôr em intriga com a discordância suscitada pelas peripécias da ação narrada. pode suscitar hesitação. dúvida. que vale então como critério. desde a identidade biológica assinada 116 pelo código genético. di w Ora. uma seme- lhança extrema entre várias ocorrências pode então ser invocada como o critério indireto ele identidade qualitativa. havíamos observado. e a identidade móvel do ipse. O problema é o da dimensão temporal tanto elo si como ela p rópria ação. a idéia de identidade narrativa dá acesso a uma nova abordagem do conceito ele ipseidade. por ocasião da dialética do aparecer. para reforçar a presunção ele L ill identidade numérica. a da relação entre duas espécies de identidade. g mas a coloca em relação dialética com a identidade ipse. que tratou da relação entre reconhecimento e identificação. Pode-se atribuir z ~ &3 (f) ao caráter esse primeiro tipo de identidade entendendo com isso todos os traços de permanência n o tempo. que a reidentificação. contestação. considerada em sua condição histórica. Por sua vez. elo mesmo. são sua própria história. Contudo. elo si. esperapdo por sua culminação com a teoria ela promessa. reaparecer. a identidade imutá- vel do idem. É nessa medida que a identidade pessoal. que evocamos ao I z § citar Proust no famoso " jantar de cabeças" cru elmente relatado no final a: I de O Tempo reencontrado. a identidade narrativa não elimina essa espécie ele identidade. não conhecia senão a identidade idem entendida no sen- tido de identidade numérica de uma coisa considerada a mesma na diver- sidade de suas ocorrências. É no quadro ela teoria narrativa que a dialética concreta ela mesmidade e ela ipseiclade atinge um primeiro desenvolvi- mento.

oscila entre os dois pólos da mesmidacle e da ipseiclacle. Quanto às vicissitudes ela viela. A ipseiclacle só desapareceria totalmente se o personagem escapasse de toda problemática ele identidade ética. o não-identificável tor- na-se o inominável na perda elo nome próprio. temida ou aceita. enquanto manutenção de si fora da segurança da mesmiclacle. referindo-se à obscuridade dos inícios ela viela. aliás. 2 ::::J rativa evocando uma outra dialética.. m enos solicitada pelos mode- los narrativos provenientes ela ficção ou da história ela prática cotidiana. Há casos extremos em que a questão ela identidade pessoal se torna tão confusa. a idéia de uma reunião ela viela na forma ele narrativa é a única que pode dar um ponto de apoio à aspiração da vida "boa". Segundo esse autor. pertence à ficção produzir uma série ele variações imaginativas graças às quais as trans- formações elo personagem tendem a tornar problemática a identificação elo m esmo. um su jeito ele ação poderia dar à sua própria vida uma qualificação ética se essa vida não pudesse ser reunida na forma de narrativa? A dife- rença com as ficções. Como. reduzido a uma inicial. a orgulhosa g oz divisa "eu manterei" carrega para a linguagem a manuten ção arriscada da LU ::. assim como ela minha. passando pelos hábitos estáveis até as marcas acidentais por meio elas quais um indivíduo se faz reconhecer. LU lL <! E ncerraremos esse esboço elo problem a referente à identidade nar. tão indecifrável. propõe a noção de "unidade narrativa de u ma vida". Maclntyre. ao percorrer todos os níveis de narrativização ela prática cotidiana. pelos jogos. a voz. que a questão ela identidade pessoal se refugia na questão nua: quem sou? No limite. contudo. Nem o nascimento. no sentido ele sua capacidade ele se manter responsável por seus atos. diferente ela do idem e do ipse. pedra angular ele sua ética. em desafio às cir. é ele tamanho. com efei- to. Por isso confiarei mais adiante à o o promessa a carga ele conduzir o destino ela ipseidacle. o critério ele sua diferença última com a iclen- ticlacle-mesmidacle. mas também sobre su a simples continuação. o jeito. A qu estão ela iclenticlacle 117 ••••••• . ~ ipseiclade. constituem aberturas ou () 2 encerramentos narrativos. <! ü cu nstâncias que am eaçam arruinar a identidade do mesmo. elas continuam UJ 2 o I à procura de uma configuração narrativa. A ipseiclacle encontra nesse nível. a dialética ela iclenticlacle confrontada à altericlacle. na capacidade ele prometer. ao modo ela grande cicatriz ele Ulisses. A experiência ordinária. n em a morte prevista. que já ~ ocorreu. Quanto à iclenticlade-ipse. pelos planos ele vida. passando pelas práticas profissionais. desde as ações de pequeno alcance. e as in certezas que pesam não apenas sobre seu fim.centam a fisionomia.

longe de constituir uma com- plicação secundária. Esses recursos de reconfiguração tor- iJi <i nam-se assim recursos de manipulação. É na prova da confrontação com outrem. p. eleve ser considerada a experiência princeps no as- sunto: primeiramente embaralhamento nas histórias antes de qualquer questão de identidade narrativa ou outra. em Paul R!COEUR. Jean Greisch. por ocasião de operações par- ticulares ele rememoração. e princi- palmente graças a recursos de variação oferecidos pelo trabalho de con- o figuração narrativa. com o objetivo de esboçar sua complementarida- 11 8 de no plano fenomenológico. É preciso antecipar aqui o que será dito mais adiante sobre o estatuto ela memória coletiva em compa- ração com a memória in dividual. fr. Paris. Cerf. L'Être de l'h omme et de la chose. como dissemos anteriormen- 2 (f) w 2 te. z :J 1992. Uma história de vida se mistura à história de vida dos outros. W ilhelm SCHAPP. Heymann. As ameaças que atestam a fragilidade da iden- tidade pessoal ou coletiva não são ilusórias: é digno ele nota que as ideo- logias elo poder procurem. In Geschichten verstrickt. tem assim uma dupla vertente. A tentação iclentitária. que o embaralhamento em histórias. privada e pública. L'Itinéraire du sens. É à minha noção "bem temperada" ele intriga que Greisch opõe a noção "selvagem" de entravamento. com um sucesso inquietador. tanto no plano dos personagens como no ela ação. 1976. ed. B. narrar de um modo diferente. Pode-se ler uma análise. prospera w &l nesse solo minado. chega até mesm o a sustentar. Um autor. em In Geschichten verstrickt (Em histórias envol- vido ) 10. que a identidade nar- rativa revela sua fragilidade. toda coletivi- dade é qualificada para dizer "nós outros". procurarei dar o mesmo peso tanto à dialética entre a identidade do si e a identidade de outrem como à dialética do idem e do mesmo. quer se trate de um indivíduo ou de uma coletividade . :r: z o o w a:_ I oo ~w 10. como proponho. da obra de Schapp. 147-173. Esse embaralhamento pode ser observado tanto no nível individual como no nível coletivo da identidade. Levando em consideração essa obra. escrita por Jean Greisch. 200 1. Se se admite. m anipular essas identidades frágeis pelo viés das mediações simbólicas da ação. (f) Paris. W ilhelm Schapp. M illon. pois é sempre possível. que con- w (f) c± siste no recuo ela iclenticlade-ipse em relação à identidade-idem.: oo Empêtrés dans des histoires. atribuir a capacidade ele fazer memória a todos os su jeitos que encontram sua expressão lexical no uno qualquer dos pronomes pessoais. apresentada ow como uma alternativa à minha teoria da narrativa. trad. Weisbaden. •••••• • .

O que essa idéia acrescenta à de adscrição enquanto atribuição de um gênero particular da ação a seu agente? Ela acrescenta a de poder assumir as conseqüências de seus atos. A imputabilidade A fragilidade da identidade narrativa nos conduz ao limiar do últi- mo ciclo de considerações relativas ao homem capaz. Assim. A própria palavra sugere a idéia de uma responsabilidade. A série de pergun- tas "quem fala?". permitidas ou proibidas. Às capacida. UJ ::?: o se ja à de obrigação. Vimos os antigos juntarem o elogio e a reprovação na avaliação das ações pertencentes à categoria da escolha preferencial. Essa noção nos conduz ao âmago da problemática que colocamos. que permitem julgar e avaliar as ações consideradas z lt' boas ou más. "quem age?". tivesse levado a explicação causal dos fenômenos naturais tão longe quanto possível. ~ ::J cam refl exivam ente aos próprios agentes. quando esses predicados se apli.: Ultrapassa-se assim um limiar: o do su jeito de direito. com a imputabilidade. do qual um outro é considerado vítima. a noção de suj eito capaz atinge sua 119 • • ••••• . Elogio e reprovação pertencem também ao círculo mais amplo das reparações N ({: chamadas a compensar a injustiça infligida a outrem. () ::. por outro lado. pré-deliberada. até o âmago das ciências humanas. particularmente aqueles que são considerados um dano.4. elaborado uma doutrina moral e jurídica na qual a responsabilidade é enquadrada por códigos elaborados. sob a expressão reconhecimento da responsabilidade. a ponto ele poder imputá-los a si mesmo. Cabe a uma fenomenologia do homem capaz iso- lar a capacidade que encontra sua expressão mais apropriada na imputa- bilidade.. estes são ditos capazes d e impu- tação. <t ô Partamos elos predicados designados à própria ação sob o título da o _J oz imputabilidade: são predicados ético-morais ligados se ja à idéia do bem. e. UJ ::?: o des suscetíveis ele descrição objetiva vincula-se uma maneira específica I oo de designar a si próprio como o sujeito que possui essas capacidades. desde a citação da epopéia homérica. que torna o sujeito responsável por seus atos. por um lado. "quem narra?" encontra uma seqüência na pergunta "quem é capaz de imputar?". É nesse ponto também que o avanço conceitual que reivindicamos é o mais evidente. um erro. que colocam delitos e penas nos pratos da balança da justiça. O próprio conceito de imputação não poderia ser articulado senão em uma cultura que. É nesse ponto que a afinidade temática entre nós e os gregos no que diz respeito à concepção da ação é a maior.

oo z na verdade. ela constitui uni- (f) camente o conceito da espontaneidade absoluta ela ação como funda- 120 mento da imputabilidade dessa ação. visando urna espécie ele balanço positivo ou negativo. Uma análise semântica conduz ao primeiro plano a metáfora da conta . aparentemente mais banal ainda. ao que COITesponcle a obrigação. Em u m sentido estritamente jurídico. ao fim de uma espécie de leitura desse estranho clossiê-balanço. conceito que é em grande parte empírico. Essa metáfora ele um clossiê (record) moral permanece subjacente à idéia aparentemente banal ele prestar contas e à idéia. cuja I z o () profundidade os antigos não podiam perceber. lemos o seguinte: "A idéia transcendental ela liberdade está. Reservemos por enquanto a questão da passagem ela idéia ele imputação para a idéia mais ampla ele responsabilidade. mas com isso ela não deixa ele ser •••••• . no direito civil. É considerado imputável o sujeito posto na obrigação de reparar os danos e ele sofrer a pena. no pla- w ~ no ele sua dupla articulação cosmológica e ética. no sentido de atribuição a alguém ele um predicado específico. de se submeter à pena. corno em u m grande livro de contas com duas colunas. Na "Observação" que se segue ao enunciado ela tese da cau- :::J ffi salidade livre. dessa atribuição. ele narrar. essa m etáfora sugere a idéia de urna obscura contabilidade moral dos m éritos e das falhas. longe ele formar o conteúdo inteiro do conceito psicológico :::J oLU desse nome. LU (f) ci: Essa juriclização não poderia dissimular o caráter aporético. e a forma de autodesignação que ela implica inclui e de algum modo recapitula as formas precedentes ele wí-référence. Reencontramos nosso conceito ele o adscrição. O Le Robert cita a esse respeito um texto impor- tante ele 1771 (Díctíonnaíre de Trévoux): "Imputar uma ação a alguém é atribuí-la a ele como a seu verdadeiro autor. Devemos a Kant ter for- w a: I mulado a antinomia resultante elo conflito entre dois usos antitéticos ela oo causalidade. ele prestar contas no sentido ele relatar. se ele atribuir a alguém como a seu autor verdadeiro uma ação reprovável. Debrucemo-nos sobre a idéia de atribuir uma ação a alguém como a seu verdadeiro autor. a imputação pressupõe um conjunto ele obrigações delimitadas negativamente pela enumeração pre- cisa elas infrações à lei escrita. de reparar a injustiça cometida e. crédito e débito. colocá-la por assim dizer em sua conta e torná-lo responsável por ela". mais elevada significação. no direito penal. 2 (f) w 2 físico e psíquico. mas nós o encontramos moralizado e juriclizaclo: trata- (jj <1. O que nos interessa aqui é a juriclização ela metáfora.inscrever a ação por assim dizer em u ma conta.

A Doutrina do direito não dirá outra coisa: "Um fato [Tat] é uma ação na medida em que ela é considerada sob as leis da obrigação.. l mmanuel KANT . A coisa é o que não é suscetível de imputação algu ma" 11 . Fondements de la métaphysique des moeurs. 1976. novos horizontes. A passagem da idéia clássica ele imputabilidade para a idéia mais recente ele responsabi- lidade abre. 97-98. sendo o culpado merecedor ela pena em razão apenas ele seu crime enquanto oo violação da lei. da autodesignação ligada à idéia ele imputabilidade enquanto aptidão para a imputação. A. A idéia ele responsabilida- de subtrai a ele imputabilidade à sua redução puramente jurídica... Premiere parti e: Doctrine oz w du droit. LL 12. Paris. ll. a esse respeito.. . em um modelo coerente com o fim de dar conta ele fenômenos como a iniciativa ou a intervenção. B 476). <! õ g o z w :. Vrin.. A versão juridizada ela imputabilidade acaba por dissimular sob os traços ela retri- buição o enigm a ela atribuição ao agente moral no plano cosmológico dessa causalidade incondicional denominada "espontaneidade ela ação" 12. e tracl. Philonenko. O agente é. sob o título "Direito de punir e de perdoar". assim com o a própria ação. por esse ato. é considerado elo ponto de vista ela liberdade de seu arbítrio. A teoria da pena que pode ser lida na Dou- trina elo direito. mas a idéia de infração tende a dar como contrapartida ao contraventor apenas a lei que foi violada.. Sua principal virtude é salientar a alteridacle implicada no dano ou no prejuí- zo. Daí resulta a eliminação como parasitária ele toda presta.. ] Uma pessoa é esse su jeito cujas ações são suscetíveis ele impu- tação. de segurança. pode lhe ser imputado caso se tenha tido previamente conh ecimen- to da lei em virtude ela qual uma obrigação pesa sobre cada uma dessas coisas[ . con- siderado o autor [Urheber] do efeito e este últim o. consistindo em fazer corresponder uma ação que podemos realizar com as per- missões e as ocasiões oferecidas por um sistema físico finito e relativam ente fechado. p. A resistência que essa idéia opõe à eliminação ou ao m enos à limitação da idéia ele falta pelas de risco... na medida em que o suj eito. Não que o conceito de imputabilidade seja estranho a essa preocupa- ção. por conseguinte. conhece apenas a violação ela lei e define a pena pela retribuição. que encontra dificuldades insuperáveis em admitir essa espécie de causalidade incondicionada" (A 448. ele prevenção é reveladora. Não evocarei aqui as tentativas que foram feitas para combinar causalidades díspares ~ :J . Introduction générale. nela. introd. Cabe à filosofia fenomenológica e h ermenêutica encarregar-se da questão. 121 .a verdadeira pedra do caminho da filosofia. ele Kant.. assim colocada em suspenso.

. que se é considerado responsável. graças à recordação de uma conquista do direito penal. ao alcance da responsabilidade quanto à vulnerabilidade futura do ho- (f) w 2 mem e de seu ambiente: quanto mais se ampliam nossos poderes. outrem. É aqui que a idéia de imputabilidade encontra seu papel w frl moderador. Esse fazer sofrer como réplica à infração tende a ocultar o primeiro sofri- mento que é o ela vítima. que sou responsável. A imputação também tem sua sabedoria: uma frl rr responsabilidade ilimitada geraria indiferença. a da I z o individualização da pena. na qual um dos critérios é fazer o culpado sofrer em razão de sua falta. declara-se o autor responsável pelos efeitos conhecidos ou previsíveis de sua ação. o objeto último de sua responsabilidade. é verdade. dificuldades próprias que dizem respeito o :. o "princípio-responsabilidade" ele Hans Jonas equivale a uma remoralização decisiva da idéia de imputabilidade em sua acepção estritamente jurídica. é preciso encontrar a justa g medida e não deixar o princípio-responsabilidade derivar para longe do z :J ow conceito inicial de imputabilidade e ele sua obrigação ele reparar ou de (f) sofrer a pena. a idéia do outrem vulnerável tende a substituir a de dano cometido na posição de ob jeto de responsabilidade. A reparação sob a forma de indenização ou outra faz parte da pena. ••••• •• . É por um outro. Essa transferência é fa cilitada pela idéia adjacente de carga confiada. enquanto entidade remetida aos cuidados·do agente. Essa ampliação faz do vulnerável e do frágil. se ja da proteção dos cida- dãos. Entre a fuga à responsabilidade e suas conseqüências e a o :J 1- íil inflação ele uma responsabilidade infinita. nos limites de uma relação de proximidade local e tempo- 122 ral entre as circunstâncias da ação e seus eventuais efeitos danosos. No plano moral é pelo outro homem. cuja carga tenho. Essa extensão ao outro vulnerável comporta. Em vir- tude desse deslocamento de ênfase. e entre estes os danos causados no entorno imediato elo agente. e maior é nossa responsabilidade w (f) d:: pelos danos. ao introduzir a idéia de pre juízo.. A imputabilidade encontra as- sim seu outro do lado das vítimas reais ou potenciais de um agir violento. ao arruinar o caráter "meu" o ele minha ação. mais (jj <! se amplia nossa capacidade ele lesar. li- gada à extensão no espaço e no tempo dos poderes elo homem sobre o ambiente terrestre e cósmico. Um dos aspectos dessa reorientação diz respeito à extensão da esfera de responsabilidade para além dos danos de que os atores e as vítimas supostamente são contemporâneos. ção de conta seja da correção do condenado. É na direção ela vítima que a idéia de respon- sabilidade reorienta a ele imputabilidade. No plano jurídico.

Em primeiro lugar. Uma se volta para o passado. em poder lembrar-se e em poder prometer como se fala dos outros poderes. a outra para o fu- turo. sem que a característica ela 123 • •••••• . mas os verdadeiros problemas surgem quando a ênfase recai sobre o momento da efetuação: agora eu me lembro. Esse prim eiro traço co- mum justifica um tratamento distinto do que é atribuído às capacidades precedentes. A memória e a promessa problemática do reconhecimento de si atinge simulta- ~ ~ neamente dois pontos culminantes com a mem ória e a promessa. graças a alguns traços qu e possuem em comum. elas se inscrevem de modo original no ciclo das capacidades do homem capaz: fala-se. Um outro traço digno de nota: no momento da efetua- ção. Mas elas têm de ser pensadas conjuntamente no pre- sente vivo do reconhecimento de si. certamen- te. agora eu prometo. a memória e a promessa colocam-se de modos diferen- tes na dialética entre a mesmidade e a ipseidade. esses dois valores constitutivos da identidade pessoal: com a memória. a ênfase é posta na mesmiclacle.

identidade pela ipseiclade esteja totalmente ausente. tão rico em ramificações no plano lexicográfico. No percurso que proponho. ambas têm relação com a ameaça de . a prevalência da ipseiclade é tão maciça que a promessa é facilmente evocada como paradigma ela ipseiclacle. Por fim. seu contrário faz parte de seu sentido: lembrar-se é não esquecer. De que me lembro? É digno ele nota que seja com a memória que o vocábulo "reconhe- cimento/reconhecer". cumprir uma promessa é não traí-la.se tivesse de levar em consideração as dimensões psicológica.e ela pergunta "como?" . Será sob a grande égide ele Bergson e ele seu terna elo Ui "reconhecimento das imagens" que colocaremos este estudo. com sua glória e suas á: UJ &l armadilhas. Essa sombra elo negativo acompanhará todos os nossos passos nesses dois registros da análise. e antes o "momento hegeliano" (/) UJ 2 da Anerkennung. o "momento bergsoniano" coroará I z o uma série de análises provenientes ela pergunta "quê?" .de que me &l a: I lembro . Permitimo-nos tratar os diversos modos do poder fazer. sociológica e sobretudo pedagógica do exercício efetivo dessas capacidades. um negativo constitutivo elo conteúdo ele sentido: o esquecimento para a memória. Já na introdução evocamos o "momento bergsoniano" elo reconhecimento. a traição para a promessa. e ele tão baixa presença no da semântica filosófica. da aptidão ele narrar e até ela imputabilidade. :. e depois o "momento kantiano" ela Re- o::.:) fB Ul A anterioridade ela pergunta "quê?" tornou-se familiar desde as aná- lises colocadas sob o título do homem capaz em que o desvio pelo exte- 124 rior precede regularmente o retorno sobre si m esmo. com a promessa. ela aptidão de poder dizer e poder fazer. Essa ordem con- •••••• . kognition evocado no estudo precedente. O momento bergsoniano selará essa aliança. Não pode- mos nos permitir esse tipo ele impasse com a memória e a promessa. Com Berg- <t UJ Ul son ressurge com fo rça a noção grega de anámnesis. sem atribuir um peso igual aos não-poderes que lhes corresponclem.como a recordação ela lembrança oo garante a dinâmica ela remernoração? Será com a pergunta "quem se ~ w lembra?" que o reconhecimento da lembrança se igualará ao reconheci- 8z mento ele si. chegue novamente à dignidade ele filosofema de pleno direito com a questão do reconh eci- mento elas imagens elo passado. 1. o que seria criticável se. e este traço não é o menos importante.

Brown Universit:y Press. 125 o ••••. os traços docum entais con- servados em nossos arquivos privados ou públicos. é um momento passivo .. 2 o a: o_ ço ele . os traços corticais de que tratam as ciências neuronais. Aplicado aos fenômenos mnemônicos. O Teeteto2 havia procurado resolver a aporia ao conferir à idéia ele impressão . até m esmo traumatizantes. Essa con stituição icônica ela imagem-lembrança não desaparecerá jamais ele nosso horizonte. por fim. à abordagem fenomenológica em geral. distingo três tipos ele traço.do "choque" elo anel que marca a cera . colocava em todo o seu rigor o enigm a da presença de uma coisa ausente.oposto ao aspecto ativo ela reminiscência. trad.vém. retenho apenas a reduplicação elo enigma ela presença em imagem ele um passado concluído que produz a < idéia de traço: todos os traços. e depen de (/) (/) UJ sempre elo pensamento que o interpreta que o traço seja considerado tra. e. Esse pequeno tratado faz parte da coletânea de ensaios intitulada Parva natura/ia. a despeito ele seu caráter claramente metafórico: a idé ia ele impressão deixada na cera por um anel permanecerá ao longo elos séculos o modelo ela idéia ele traço cuja fortuna é conhecida graças às suas ramificações. Contudo. na qual nos concentrarem os principalmente. o enigma ela presença em imagem ele uma coisa ausente que essa imagem representa. Richard Sorabji. a mneme-memoria elo tratado aristotélico merece que nos dete- nhamos em razão do paradoxo que sua análise evidencia.um páthos .e assuma assim o <[ w estatuto altamente paradoxal elo efeito de um impulso inicial. A fen omenologia reata assim com uma distinção familiar à língua grega entre mneme e anámnesis consagrada pelo notável escrito ele Aris- tóteles cujo título latino tornou-se familiar: D e memoria et reminiscentia 1• A mneme-memoria designa a simples presença no espírito de uma ima- gem elo passado concluído: uma imagem do passado vem-me ao espírito. Providence. 1972. o que está em jogo aqui é o estatuto epistêmico desse eikón que ao mes- mo tempo está presente e vale por outra coisa que ele significa. Refiro- m e a Aristotle on Memory. 2. além disso. em virtude do princípio de intencionalidade que ainda é seu grande achado.• . w 2 <[ 1.ele tupos . estão no presente. os traços psíquicos elas impressões que fizeram sobre n ossos sentidos e nossa afetividad e os acontecimentos que denominamos mar- cantes. esse desvio pelo exterior leva à frente a lem- brança como vertente "objetai" ela memória. desse modo. 163 c! ss. com efeito. elo qual ele S! a: ·O ::.uma força explicativa. Deixo aqui o problema posto por essa cliversiclacle ele traços. a esse título.

A luta contra o esquecimento não é :2 f:B :2 a única razão de ser desse momento ativo da rememoração. ele Santo Agostinho. é a am eaça ele esquecimento que se impõe. "antigamente". Aristóteles foi o primeiro a descrever sua dinâmica: possibili- dade de percorrer o intervalo nos dois sentidos a partir ele qualquer ponto 126 elo tempo tomado como baliza. tal é o enig- ma do traço. seria ao m esm o tempo o sinal: um efeito sinal de su a causa. 8z Q uanto às operações ele pensamento envolvidas n essa reconquista :::> G3 (f) elo passado. com efeito. como se diz. É aqui que o problem a do esquecimento surge como que de impro- viso. a I oo distância temporal tampouco pode ser dita sem um paradoxo que é refletido :::> til w pela gramática: o passado é ao mesmo tempo o que não é mais e o que foi. m as sim à astúcia e à m á consciên cia. pelo contrário. à qual Aristóteles consa- o gra o segundo capítulo de seu tratado. C om essa idéia inquietadora da am eaça de apagamen- to dos traços. 2. Sim. E m suma. há também muitas apa- rên cias ele apagam en to que não concorrem senão para a dissimulação daquilo que perman ece. e a m emória é uma tentativa às vezes desesperada para resgatar alguns destroços elo grande n aufrágio do esque- cimento. Essa simples palavra evoca seu caráter fugidio. é preciso acres- (jj <( centar a ela o efeito de distanciam ento no tempo que dá à recordação o w (f) aspecto de uma transposição de uma distância que suscita perguntas do tipo à: w &l "há quanto tempo?" e expressões como "recentemente". C ertamente há muitas formas ele esquecimento que não dizem respeito ao apagam ento de traços. o clecifram ento elos traços pressupõe que eles foram. inapagável na experiência m e- morial. deixados. "há muito tempo". o esque- cimento é o inimigo da memória. vulnerá- vel. que abordaremos mais adiante. Ainda resta a ameaça ele um esquecimento irremediável e defini- tivo que dá ao trabalho da memória seu caráter dramático. A anamnese Essa evocação rápida elo esquecimento na vizinhança do m omento de passividade da simples m em ória apareceu-m e como a transição necessária da mneme-memoria para a anámnesis-reminiscentia. Esse tem or do esquecimento definitivo n ão é ignorado pelas Confissões. I z o o "outrora". predominância elos procedim entos asso- ••••• . revogável. Todas elas expressões nas quais se dá a enten- UJ a: der a própria passacliclacle elo passado. é u m a propriedade da idéia de traço qu e ele possa ser apagado. seu distanciamento elo presente.

com o "continuação ela existên cia". por fim. É surpreendente que a m em ória não se ja relacionada com essa apreensão do tempo. com a fenomenologia husserliana. A m emória. opera assim na tri- lha da im aginação.portanto imaginar . evocar uma delas . foi coroada de sucesso. a imaginação. Ora. d e Spinoza. Aquém dessa qnesti'io radical. reduzida à recordação. Mas Aristóteles não nos diz como obtemos a garantia d e qu e nossa busca. É aqui 127 ••••• . recordar-se-á também dos outros". ou antes. como salienta o escólio que se segue: "Esse encadeamen- to se dá seguindo a ordem e o en cadeamento elas afecções elo corpo humano para distingui-lo do en cadeamento elas idéias qu e se dá seguin- do a ordem do entendimento". essa garantia está ligada à experiência princeps do reconhecimento. no caso mais favorável. m ais tarde. encontra sua contrapartida nas abordagens m ais dinâmicas à qual a própria análise aristotélica da anánmesis havia reservado um lugar. um dos dois. Assim. Essa declaração é ainda mais n otável porque se pode ler em Spinoza uma m agnífica definição do tempo. do qual Bergson será o anun- ciador. ela própria tornada suspeita. na pro- posição XVIII do Livro II: "Se o corpo humano foi afetado uma vez por dois ou vários corpos simultan eamente. Aristóteles demonstra ainda m enos interesse por uma questão que só poderia nascer no quadro de uma filosofia do suj eito como as nossas: de que modo o reconhecimento do passado contribui para o reconheci- mento de si? E sse será o grande avanço constituído pelo "momento berg- soniano" do reconhecimento. assim que a alma imagina r. pode-se ler na Ética. É sob o signo da associação de idé ias que é colocada essa espécie de curto-circuito en tre memória e imaginação: se essas duas afecções estão ligadas por contigüi- dade. o estudo da recordação teve três gran- des momentos: com o associacionismo na época do empirismo inglês. com a psicanálise considerada em sua prática e em sua teoria e. tomada em si mesm a.ciativos que o empirismo britânico privilegiará.por- tanto lembrar-se.é evocar a outra . É interessante que alguma coisa do associa- cionismo tenha en contrado um eco na filosofia pós-cartesiana e su a ten- d ência a tratar os fenômenos da m em ória na trilha da imaginação. está situada no ponto baixo da escala dos modos de conhecimento. Ora. sob o títul o das afecções submetidas ao regime de encadeam ento das coisas exterio res ao corpo humano. m as também recurso ao raciocínio e ao cálculo na avaliação dos lapsos de tempo decorridos. que dá uma grande vantagem ao m eca- nismo. ela duração. E ssa declaração ele Spinoza.

o suj eito consciente não é então UJ a: I mestre ele si mesmo?. Ora.-.. foram justa- mente as resistências encontradas por essa técnica que deram à teoria um apoio decisivo. fala-se no "trabalho ele rememoração". . esqueceríamos menos ~ elo que temeríamos? Assim é re juven escido o velho par forma do por oo z ::::> anámnesis e lethé. ela qual ele U3 < se torna um anexo.. como ainda se pode ser responsável pelos próprios oo atos? -. por sua vez. o esquecimento no nível consciente. o obstáculo encontrado no caminho da recordação foi atri- buído às "resistências do recalcamento" que mantêm a "compulsão à repe- tição". Não falarei nada aqui sobre o papel ela transferência na tática de contornar as resistên- cias. responsável pela estagnação do curso inteiro da cura. ele é irremediável. deter-me-ei antes na reformulação proposta por Freucl elo fenômeno ela rememoração em termos ele trabalho. é então inseparável ela teoria elo inconsciente. tais w 1j) à: como "o inconsciente ignora o tempo".no fim das contas. ao preço ele todos os remanejamentos que essa transposição pressupõe. primeiro no nível ele sua prática e em segundo lugar no de sua teoria. Ao analisando é pedido que dê livre curso a essa recor- dação para que nela se insiram as operações ele associação livre às quais. que faz parte elo pacto terapêutico. essas abordagens elo esquecimento pela psicaná- z o () lise são acolhidas ora com inquietação . -. tão característico ela terapêutica freudiana. acompanha cada fase de nossa reflexão sobre a memória. que faz ela rememoração L 1j) w L um "trabalho".. no mais alto grau. .. () lW 1j) É ainda à fase ela recordação que vincularei os trabalhos mais co- 128 nh ecidos de Husserl sobre a m emória. reminiscência e esquecimento.... será aplicado o trabalho ele interpretação.. Ora.. w 8I No nível ela consciência... à nossa refl exão sobre a relação entre memória e esquecimento. Essas proposições ela doutrina freudiana dizem respeito... revela ser o obra do recalcamento. a psicanálise nos confronta com uma situação totalmente diferente: a situação em que o esquecimento aparente.-. Esse esquecimento ativo. evocamos o esquecimento por ocasião do apagamento dos traços: sob essa forma definitiva. - o momento de reconhecer minha dívida para com a psicanálise. O esquecimento. "o inconsciente é indestrutível"...-.. embora o admirável texto inédito ••••••• . que opera na contracorrente ela compulsão à repetição. assim. de "dizer tudo" vale como disciplina no exercí- cio ela recordação.. a consigna.. ora com confiança ... implica a recordação das lembranças diurnas. paradoxos surpreendentes são então propostos. como dissemos. observa-se que o recurso ao sonho. Partindo da prática.

Husserliana. de todos os tipos de imagens (no sentido pop ular da palavra) que compartilham com a lembrança o cará- ter de "presentificação" (Vergegenwiirtigung ). consagrado a toda a esfera do im aginá- rio. mas não sem se modificar" (Husserl. Erinnerung. Ecluarcl Marbach. ela própria subtraída de toda naturalidade pela "redu ção" ou epoché transcendental. Lições.(volu me XXIII das Husserliana ). Não é a memória que é seu principal as- sunto. 4. 129 •• ••••• . tenha m ais relação com o objeto da mem ória . Phantasie. uma outra é fazer-se elo mundo uma re- presentação sub jetiva ao modo da Vorstellung kantiana. é distinguida.a lembrança . ou lembran ça secundária. ou lembrança primária. Leçons pata una phénoménologie de la conscience intime du temps. PUF. 3). O que é permanecer para um a coisa que dura? Da percepção ela duração ele algo. a análise oscilará ulterior- m ente para o exame ela duração ela própria percepção. os "vividos do tempo". uma outra é "fi- gurar-se" o passado em imagens. Algo diferente ocorre com as Lições para uma fenomenologia da consciência interna do tempo4 . Dussort. mas sim a constitu ição elo tempo na e pela consciência. Bewusstsein. e introcl. ecl. tracl. distinto da simples apresen- tação perceptiva. exceção feita à sua fac e "ob jetai". A epoché certamente desnuda puros vividos. Coloca-se então a questão ela persistên cia que faz que "o percebido permaneça presente duran te u m certo lapso ele tempo. graças a uma apreensão ela duração inobjetivável. Nijhoff. A constituição ele primeiro nível na qual m e deterei é a d e u ma coisa que dura. A lembrança. No quadro dessa fenomenologia transcendental de entonação idealista foi elaborada a distinção preciosa entre retenção. XXIII (anotado HUA XXIII). Isolo essas páginas do resto da obra consagrada aos "graus ele constituição" da consciên cia íntima elo tempo. H. Paris. 1964 (co! Épiméthée). Bild. esse trabalho de distinção é considerável: uma coisa é "descrever" por um retrato um ser real m as ausen te. onde se apaga progressivamente o caráter "objetai" ela constitui- ção em favor ela autoconstituição elo fluxo ele consciência. com base no modelo elo som que continua a ressoar. Dorclrecht/Boston/Lonclon. com um cu idado e com uma paciên cia infinitos. Erinnenmg. Esse texto inédito constitui a m eus olhos u m modelo de descrição puramente fe n om en ológica. 1980. e reprodução.que com a rememoração 3. 3. m as com base na experiência ele algo que dura. u ma outra é "fi ngir" a presença por meio ela ficção. Eclmuncl HUSSERL. em segui- ela da melodia que rememoramos.

continuar e acabar para o m esmo objeto antes que ele "caia" no passado concluído. M as. o "todo que acabou de passar" dá uma extensão temporal à percepção. § ll ). essa retenção não possui nada ele imaginá- rio e participa ainda ela percepção que deixa ele se identificar com o ins- tante que simplesm ente passa. I XVI.. Falar-se-á então. Há "retenção" no sentido ele que há algo que se mantém na orla ela percepção ao modo ele uma cauda ele cometa. ffi &l I Podemos fazer remontar às Confissões. mais familiares ao público instruído. ele rememoração. começa. A retenção ainda está na órbita do presente: ela consiste na experiência de começar. Ora. e sobre a anamnese dos antigos e o :2 a recordação dos modernos enquanto constituindo o "como" da memó- 83 ria. Paris. A partir disso. X. todo escoamento não é senão "retenção de retenções" (ibicl. É aquém desse deslocamento de ênfase que ganha sentido a notável distinção entre retenção e relembrança. 3. e portanto com- porta um traço ele negativiclade. em primeiro lugar. Portanto. D esclée de Brouwer. Husserl pode então falar em "modificação" interna ela própria percepção para dizer que uma coisa. de Agostinho' . SANTO AGOSTINHO. a mesma. Essa referência ao ego não é inesperada em uma obra construída 8 com base na narrativa ela conversão na prim eira pessoa: como me tornei ~ UJ cristão? As reflexões sobre a memória dos Livros X e XI destacam-se assim 8z do fundo de um discurso de admissão. "Quem" se lembra? A questão "quem" ainda não era marcada nas análises sobre a lem- brança enquanto o "quê" da memória. É nesse ponto que as análises elo tomo XXIII das Husserliana evocadas anteriormente vêm reforçar as das primeiras Lições para uma fenomeno lo- gia da consciência interna do tempo. 25 ). 1962 (col. sem confusão possível com a imaginação. em vista elo :2 üi <{ "momento bergsoniano" que fará coincidir o reconhecimento ele si com w (f) o reconhecimento elas imagens. •••••• . ainda falta tematizar o "quem" ela m emória. a justo título. Confessions. Bibliotheque 130 augustinienne). continua e cessa. que prevalece com o "desaparecimento" ao qual replica a "reprodução" na lembrança secundária. essa atenção z §a: ao suj eito da memória: "Ego sum qui memini ego animus" (Confissões. que assim envolve em si mesma a distinção entre "impressionai" e "retencional". cujo sentido não é esgotado pela ::J 8 (f) 5.

Ela dá à interioriclacle o aspecto de uma espacial idade específica. Com efeito. e reconhecer é aprovar. grupo definido pelo "considerar verdadeiro". Contudo. grande é o poder da m emória. VIII) . reconhecer a realidade que ele significa: se assim é. a admis- são constitui uma categoria sui generis. portanto? Certam ente. Q. em seus vastos abrigos. a ele um lugar íntimo: todas as coisas que nela estão "depositadas". Memória feliz. no momento do reconhecimento elo objeto esquecido. XVIII. en contrar é reencontrar. mas também noções abstratas. esse predador elo tempo. Em suma. XVI. <{ (f) (f) w mória o guardava" (X. <{ w ao ouvir o seu nome. ele qualquer modo. o Robert vincula a admissão ao segundo grande grupo ele acepções do vocábulo "reconhecer". e reen- contrar é reconhecer. Sim. <[ a: é a memória que guarda o esquecimento" (X. mesmo que essa maneira se ja incompreensível e inexplicável. 13). "E. o que é um objeto perdido . A recordação à minha maneira de tudo o que "evoco em minha memória" atesta que "é dentro [intus ] que cumpro esses atos. O Livro X abre-se com um hino à m emória. não poderíamos ele modo algum. é a o 35 memória. XVI. o esquecimen- to. evidentemente eu não seria capaz ele reconhecer o que este som pode significar" (X. VIII. o es. para evocá-las uma segunda vez caso necessário e repassá-las. Essa evocação elo esquecimento é a ocasião ele um emprego espontâneo elo verbo "reconhecer": "Se eu tivesse esqueci- elo a realidade. "a m em ória as recolhe.'VI. Com efeito. >. é 131 ••••• .senão algo que ele uma certa maneira estava na m emória? Aqui. 24 ).. "o esquecimento que amortalha nossas lem- branças [ . Sofisma? Talvez. Agostinho ousa o paradoxo: "Ora. "o espírito é também a própria memória" (X. no entanto. a tipologia dos atos de discurso. 25).. seres inteligíveis. como confirma a lexicografia: desse modo. na imensa corte do palácio de minha memória" (X. portanto julgar que a coisa reencontrada é justamente a m esma que a coisa procurada. foi por meio da conhe- cida metáfora elos "vastos palácios ela memória" que este livro se tornou célebre. a ponto ele que "eu me lembro de ter m e lembra- elo". 27). ]" (X. no segredo ele inexplicáveis dobras" (X. que 2 <[ confirma o esquecimento. sem nos lembrarmos dele. Imenso é com efei- to o tesouro que a m emória supostam ente "contém": imagens sensíveis. 21 ). o esquecimento não cessa ele perseguir esse elogio ela memória e ele seu poder.confissão no sentido litúrgico. por fim memória de mim mesmo experim entando e agindo. lembrança das paixões. XIV.a dracma da parábola evangélica . e portanto considerada esquecida: "Esse ob jeto estava perdido para os olhos: a me. 2 oa: quecimento.. 24 ).

é recortada no presente pela 2 üi <t verticalidade da eternidade. não é intenção de Agostinho resolver o enigma do tempo.) f3 (f) 6. Charles TAYLOR.. trad. presente do presente na intuição (ou. seguindo nisso C harles Taylor. da qual o tempo. A horizontaliclade 2 ffl do tempo. XXI. I do próprio esquecimento que eu me lembro. w (f) c± w Com o essa é a principal preocupação de Agostinho nas Confissões. como prefiro dizer. 27). Basta-nos evocar o nascimento. pre- sente do futuro na antecipação.. Pode-se duvidar que Agostinho tenha conseguido contornar as difi- culdades abraçadas por Aristóteles. dessa tradição a que chamo. na iniciativa). () w I não se deveria esperar desse admirável poeta ela confissão uma reflexão z §a: explícita sobre o caráter "meu" dessa memória que se diz na primeira I pessoa. C. Paris. A alma é como o tempo. oo confissão. seria uma variável. é no espaço interior da alma que se desen- volve a fam osa dialética entre dístentío e íntentío: distensão entre as três orientações do m esmo presente. fr. tenho certeza. Melançon. tempo cur- to? é nossa alma que é sua medida: "Medimos os tempos quando eles passam" (XI. presente do passado na memória. a tradição do olhar interior. não é graças a um artifício de composição que se deve atribuir a passagem ela teoria ela memória e elo tempo dos Livros X e XI para os amplos comentários elo o Livro elo Gênesis sobre a criação a partir do Livro XII. XVI. La Formation de l'identité moderne. tempo longo. sem o desvio pela física do m ovimento. La Couleur des idées). ão é aqui o lugar para discutir isso. correndo o risco ele fechar sobre si mesmo o triplo presente. mas intenção que atravessa as fases da recitação do poema preferido. Seuil. a medição direta pela memória do tem po decorrido. ' . : Les Sources du moi. D epois. com Agostinh o e sob o signo da . ed . que é também a da narrativa. § falando de ínwardness em As fontes do the Self6 . mas sim abrir o instante para o alto na direção elo mmc stans da eternidade divina. 25) . Harvard University Press. segundo Aristóteles. tendo ele próprio dificuldade em in- serir a distinção elos instantes e a apreciação elos intervalos na continuida- de do movimento. ele próprio pas- sagem do futuro para o passado através do presente. Portanto. Além disso. 1998 132 (co!. até m esmo na vitória sobre ele no nível das palavras? O Livro XI reforça essa confissão da interioridade ela memória atri- buindo-lhe o que Afistóteles lhe negava. The Sources of the Self. 8z :. 1989. do esqueci- mento que aniquila nossas lemb ranças" (X. ••••••• . Triunfo final does- quecimento.

ele consciência e ele self Os vocábulos consciousness e self são na verdade uma invenção ele Locke sob o controle elo conceito ele identidade. 2. ele Locke. L'Invention ele la conscience. o a:. A afirmação ela identidade resulta com efeito ela comparação ele u ma coi- sa com outra. no título e em todo o argumento elo famoso capítülo elo Ensaio. Univers[dade redêral do PGrd Bib!ioh:~r. E é no âmbito da refl exão que a m em ória é interrogada. fr. É digno ele nota que. <( w pectivamente toda ação ou pensamento passado. 1964. Seuil. a aura da confissão dá lugar à da reflexão. cap. liv. ed. II. Locke. 133 • •••••• . A esse deslocamento de ênfase e ele interesse elevem os a promoção ela problemática ela identidade. Oflclentity anel Diversity. mas com a intenção ele enfatizar a identidade de uma coisa consigo mesma. Étienne Balibar. não há nem m esmo uma sombra ele diferença entre idem e ipse. XXVII. John LOCKE. sem nenh uma referência a qualquer substância sub jacente. Para o próprio Descar- tes. term inada pessoa se estende até onde essa consciên cia pode atingir retros.. que não era a maior preocupação ele Agostinho. Não se pode afirmar mais vigorosa- mente a solidariedade entre identidade e m esmiclacle. tampouco uma consciência. pela própria negação da alteridade: em termos formais. ignora o conceito ele iden- tidade narrativa. r ~ · ' Com John Locke 7. Q. é o mesmo si. <{ 7. para Locke. A expressão "e não uma ou tra" consagra a equa- ção: idêntica é igual a mesma que si. evidentemente. O corte importante n a escala elas identidades consideradas. trael. : Identité et différence. A consciência é <{ por si só o que faz de cada pessoa um self Aqui entra em cena a memória (f) (f) w 2 em virtude ela extensão temporal da reflexão: "A identidade de uma de. Paris. desde as simples partículas até as árvores. "identidade" seja oposta a "diversidade" no sentido ele diferença. para o si que é o m esmo que si mesmo. 1998. Desse modo. nos é dada a ocasião ele reencontrar a dialética ela mesmidade e da ipseidade que havia encontrado anteriormente no conceito ele identidade narrativa seu local privilegiado ele exercício. e feita abstração da escala elas identidades que será percorrida. Locke é o inventor da seqüência que em conj unto formam as três n oções ele identidade. reside na "consciência". que nos oferece o privilégio ele uma leitura distanciada em relação ao texto desse brilhante advogado ela iclentidade-mesmidade. Em outras pala- vras. w :::. tanto agora <( iE o:::. uma coisa é idêntica a si m esma no sentido em que "ela é a m esma que ela mesma e não uma outra" (§ 1). eel. in Essai philosophique concemant l'entendement humain.. os animais e por fim o homem. o cogito não é um self.

como antes. a diversidade ligada à pluralidade dos atos ou dos estados de consciência se enquadra sem dificuldade na identidade reflexiva. A única coisa que importa a Locke é colocar fora de circuito a idéia de substância. O o ::J tr. é surpreendente que o conceito ele diversidade não se ja evocado senão para ser imediatamente revogado pela fórmula que inaugura o tratado: "a mesma que ela m esma e não uma outra".J tilI poder. do sono. em Locke. U5 <i pluralidade h uman a. a consciência e su a memória bastam. z ::J @ (f) Desse modo. particularmente na brilhante obra de Parfit. o mesmo ocorre com concei- tos ele origem jurídica. a esse respeito. o inventor dos puzzling cases que prosperarão n a filosofia analítica contemporânea. que atormentava Agostinho. O Ensaio filosófico acerca do entendimento humano abre espaço z o ü apenas para um conceito ele reflexão que se inscreve na tradição elo olhar UJ (( interior: não se lança nenhuma ponte entre a inwarclness instaurada pela o reflexão e a pluralidade humana pressuposta pela filosofia política. ao custo ele todos os paradoxos suscitados pelo fato elo esquecimento. LU o o Essa pressuposição tácita será questionada em nosso terceiro estudo. não suscita nenhuma irredutível diacronia. a dialética do m esmo e elo ipse não pode provir senão de considerações estranhas a Locke: oferecemos um primeiro esboço dela 134 com a identidade narrativa que instala a diversidade no âmago de toda ••••• . até mesmo a passagem elo tempo. iclentidacle-mesmiclade. elo desdobramento imaginário ou real da memória. Disso resulta que. no ápice da pirâmide ela o::.. por ocasião elos problemas suscitados pela propriedade e pelo u. A identidade pessoal é uma identidade temporal. Esses são apenas sinônimos elo same tomados ela linguagem jurídica. e o si qu e executou essa ação é o mesm o que aquele qu e no presente reflete sobre ela" (§ 9). elo começo ao fim . A equação é assim completada entre consciousness. O self é um same e até mesmo um selfsame .. pensador político é como que um outro h omem. ou ainda a indicação em virtude ela qual o si "se apropria" de seus atos e os "admite" com o seus (own). como a imputação que torna o si accountable. o si não é u m ipse que pode ser oposto a um idem. até m esmo pela imaginação ela substituição de uma memória por outra no interior ele um mesmo corpo (Locke é. qu e o filósofo ignora. memory. Desse modo. tão fortemente presente nos dois Tratados sobre o UJ (f) d:: governo. E a categoria de sameness reina. Segundo ele. A única diversidade que poderia ter incomodado um pensador político elo calibre ele John Locke teria sido suscitada pela (f) w ::. Reasons and Persons (Razões e pessoas). self.

Não é indiferente que seja no quadro de um remanejamento elo problema clássico das relações entre a alma e o corpo . a mesmidade da reflexão e da memória não encontrará seu verdadeiro contraponto senão com a promessa. 135 ••••••• . se assim nos permitirem falar. entre a recognição kantiana. A tese central <( a: D de Matéria e memória a esse respeito é a de que o traço psíquico não 2 UJ 2 <( 8. em razão de sua dimensão intersubjetiva. tudo o que importa Q_ <( está na junção entre o segundo e o primeiro tipo ele traço. que é da alçada das ciências neuronais. Dois conceitos são assim colo- cados lado a lado: reconhecimento e sobrevivência. uma diversidade exterior. 1963. que constituirá a espinha dorsal de nosso terceiro e último estudo. na expectativa de sua contrapartida na promessa.que o par do reconhecimento das imagens e de sua sobrevivên- cia s~ j a projetado no centro da obra. Matiere et Mémoire. e o traço documental.trama de vida. 4. A memória e o cérebro" e "Da sobrevivên- cia das imagens. que consiste na pluralidade humana. o vocábulo "reconhecimento" é acolhido na família muito seletiva de seus usos filosóficos aceitos. que encontrou seu espaço em nosso primeiro estudo. o traço psíquico. Essai sur la relation du corps à I' esprit. Paris. e a Aner- kenmmg hegeliana. PUF. a ipseidade própria da promessa também será confrontada.Bergson prefere falar de união da alma ao corpo (Matiere et mémoire. in Oeuvres. O momento bergsoniano: o reconhecimento das imagens Escolhi encerrar esta busca sobre a contribuição da memória ao reconhecimento de si com Bergson. Também será como par que trataremos deles. A revolução operada no plano fun- damental se deixa substituir no prolongamento de nossas proposições referentes à idéia de traço. que se <( (j) fi) torna para Bergson o traço por excelência. paradigma de uma ipsei- dade irredutível à mesmidade. Henri BERGSON. Com Bergson. p. onde distinguimos três tipos de traço: o traço cortical. 317) . Os dois capítulos centrais de Matéria e memória 8 se intitulam "D o reconhecimento das imagens. Com Bergson. A memória e o espírito". a um outro tipo de diversidade. que faz ~ o a: o historiador ter interesse por arquivos. Ao mesmo tempo em que é confrontada à diversidade interna suscitada pelas intermitências do coração.

Assim liberado de sua referência cortical. ainda não traduzida em imagens distintas. o trabalho de rem emoração é guiado 2 (]) lU por aquilo que Bergson chama de "esquema dinâmico". 940). se não simples. "desde a lembrança pura. Não estamos o ow a: longe daquilo que Freucl denominará trabalho ele m emória. está ligada à travessia el e uma "série de planos ele consciência" diferentes. O reconhecimento consiste na resolução (j) 136 9. 93 2).. encontra explicação no traço cortical. O próprio Bergson colocou.. que tem como 2 õ5 função indicar uma certa "direção elo esforço": "o esforço ele memória "" UJ (j) parece ter como essência desenvolver um esquema. Effort ihtellectuel. Foi desse modo que o recohecimento foi elevado à dignidade ele filosofema importante. Nessa o travessia elos planos ele consciência. O que Bergson procura assim colocar n o lugar de honra é o concei- to antigo de anmnesís ou ele remíníscentía. uma delas de tensão e a outra ele relaxam ento. in L'Énergie spirituelle. o velho problema da união da alma e elo corpo. da rememoração. 930-959. o ela representação z ::J &3 presente ele uma coisa ausente. ao c!: UJ Ql menos concentrado. L'Énergíe spírítuelle. a união da alma ao corpo. o traço psíquico torna-se um problema auto-suficiente. •••••• . A tensão. sua análise do reco- nhecimento das imagens como prolongamento ela psicologia clássica ela rememoração no ensaio intitulado "Esforço intelectu al". A única via que per- maneceu aberta para dar sentido à idéia de sobrevivência foi então a ele ser elaborada em par com o conceito ele reconhecimento. no caso da me- mória. substituído por diversos vocá- bulos pela psicologia ela recordação. p. Mas pede-se a ele que ofereça a chave daquilo que um filósofo contemporâneo chama ele "questão mortal". no qual o "es- forço ele memória" é um caso digno ele nota 9. uma primeira vez. esse problema encontra na idéia de sobrevivência sua formulação apropriada. pois o cérebro é um órgão de ação e não de representação. em uma imagem com elementos distintos ou mais I z ou menos independentes uns elos outros" (ibicl. Oeuvres. I oG Nós nos aproximaremos a inda mais elo que gosto ele cham ar ele :J til lU pequeno milagre elo reconhecimento se cliscernirmos a solução elo m ais oo antigo enigma ela problemática ela memória. ID. p. a saber. A rememoração ela lem- brança enquanto "rememoração laboriosa" pertence a um vasto conjunto de fenômenos psíquicos caracterizados pela distinção entre duas atitudes. a saber. até essa m esma lembrança atualizada em sensações nascentes e em movimentos iniciados" (Bergson. p.

É preciso agora atribuir a essa lembrança "pura". elo reconhecimento vivido para a persistência presu- m ida. proceder seguin- do a ordem inversa. A distinção entre o passado e o presente é dada no próprio reconhecimento em que os elementos retornam "com seu contorno. apesar ele tudo. o problema no ponto em que o havia deixado o exame do esforço ele rememoração: ha- víamos então postulado a existência ela lembrança "pura" como um esta- do virtual ela representação elo passado anterior à sua vinda em imagens. portanto. pois. 277). uma vez reali- zada. uma existência comparável à que atribuímos às coisas exteriores quando não as percebemos. à experiência do reconhecimento remetê-la a um estado de latência ela lembrança da impressão primeira cuja imagem teve de se constituir ao m esmo tempo que a afecção originária: pois como um presente qualquer se tornaria passado se ele não se tivesse constituído como passado ao mesmo 137 •••••• . pois. "per- manece ligada ao passado por suas raízes profundas. ao m esmo tempo que um estado presente. se não acessível. foi porque eu não a havia perdido. em Matéria e memória. e se. reconhecer como uma lembrança. E reencontrá-la a_ <t é presumi-la como principialmente disponível. O que faz elo reconhecimento o ato mnemônico por excelência. É precis. jamais a reconheceríamos como uma lembrança" (p. além da virtualidacle e da inconsciência. mas se. algo que decide sobre o pre- sente. eu a reencontrei e a reconheci. podemos nos perguntar como sabemos disso. sua cor e seu lugar no tempo" (p. ela não fosse sentida em sua virtualiclacle original. Cabe.: (/) (/) UJ Ainda resta voltar do fato elo reconhecimento rumo à presunção da ::!' oa: sobrevivência: reconhecer uma lembrança é reencontrá-la. Mas com isso o enigma não é tornado ainda mais im- penetrável no plano especulativo? Se dizemos que a impressão-afecção originária permanece e se acrescentamos que é ela que torna possível o reconhecimento porque ela permanece. Em suma. retomar. "o ato concreto por meio elo qual reconhecemos o passado no presente é o reconhecimento" (p. A resposta consiste em dizer que se trata aqui de uma pressuposição totalmen te retrospectiva. observa Bergson. se ela não fosse..efetiva desse enigma ela presença da ausência graças à certeza que o acom- panha: "É ela! É ele!". O raciocínio é o seguinte: foi preciso que permanecesse algo ela primeira impressão para que eu me lembre agora. É preciso. "Nossa lembrança". 235) . 234) .. foi porque sua imagem havia sobrevivido. . É o enigma completo da presença da ausência que é reafirmado: decidir so- bre o presente. Se uma lembrança voltou.

voltada para o passa- I o o elo. É a verdade profunda ela anámnesís grega: procurar é encontrar. É preciso então ir até o paradoxo extremo: essa presunção ele um passado indestrutível que se prolonga incessantemente no presente n os dispensa ele procurar onde a lembrança é conservada: "Ela conserva a si m esma" (Bergson. é prospectiva . p .: 5.. voltada para o futuro. in Oeuvres. Essa autoconservação é a própria duração . Henri BERGSON. Freud tampouco contestará Bergson sobre a indestrutibilidacle elo passado. e .. A sobrevivência.315). Juntas. A promessa Ui < '"Ulci: Falemos novamente sobre as razões que nos condu ziram a formar w u w um par com a memória e a promessa na ponta ela problemática elo reco- I z nhecimento ele si. É nessa memória meditante que coincidem o reconhecimento elas imagens do passado e o reconhecimento ele si mesmo . 1. 0w fundado ao mesmo tempo em uma história de vida e em compromissos (f) 138 10. assim. !!. O próprio Bergson concordou: "Nossa idéia ele uma conservação integral do passado en controu cada vez mais sua verificação empírica no vasto con- junto ele experiências instituído pelos discípulos de Freucl" 10 . p. Segu ndo a forte expressão ele Aristóteles ao falar da anamnese. a multidão infinita elos detalhes ele su a história passada" (Bergson. Sem dúvida é preciso suspender o que Bergson ch ama ele "atenção à vida" e entregar-se a um pensamento sonhador para aproxi- mar-se ela verdade desse paradoxo: "Um ser humano que sonharia sua exis- tência em vez de vivê-la teria. O passado é "contemporâneo" elo presente que ele foi. é retrospectiva. sob seu olhar. a outra. sua oposição e sua comple- f{' 8 mentaridade dão uma amplitude temporal ao reconh ecimento de si. "a m emória é passado". 1. ::J graças às interferências que apresentaremos. distinto ele Erínnerung. a todo momento. ••••••• . nós a pressupomos e acreditamos nela: esse é o sentido da latência e da inconsciência elas lembranças conservadas do passado. tempo eni que era presente? Esse é o paradoxo mais profundo ela memória.. La pensée et le mouvant [O pensamento e o movente].316. p. o bl a: Em primeiro lu gar. no sentido elo alemão Gedachtnís.. não é percebida por nós. 295). sem dúvida. Matíere et mémoire. Poder-se-ia falar aqu i em memória meclitante. está claro que uma delas. o 2 Ul "'. La Pensée et /e Mouvant. e reencontrar é reconhecer o que se aprendeu anteriormente.

de futuro de longa duração. É o aspecto reen contrado da concepção agos-
tiniana do tempo, cuja distensão provém da divergên cia íntima no pre-
sente, dividido entre o presente do passado ou m emória, o presente do
futuro ou expectação, e o presente do presente (que, ao contrário de Agos-
tinho, será colocado por mim, em conformidade com u ma fil osofia do
agir, sob o signo da iniciativa em vez de sob o signo da presen ça) .
O tratamento da m em ória colocou na segu nda posição a solução
diferente trazida ao tratamento da identidade por essas duas instâncias: a
m emória que está elo lado ela iclenticlade-mesmidade, a promessa que serve
de exemplo paradigm ático à ipseidade. A esse respeito, a fen omenologia
da promessa se vinculará à da identidade narrativa, na qual essa dialética
encontrou sua primeira expressão .
Colocarei em um ponto m ais elevado na ordem ele importância a
relação com o negativo colocada anteriormente na terceira posição: a me-
m ória e a prom essa têm ele se confrontar com um contrário que é para
cada uma delas um inimigo que pode ser qualificado ele mortal, o esque-
cimento para a m emória, a traição para a promessa, com suas ramificações
e suas astúcias. O poder ele não manter a palavra é parte integrante do
poder prometer e convida a uma reflexão de segundo grau sobre os limites
internos ela atestação da ipseidade, portanto elo reconhecimento ele si.
Uma men ção especial eleve ser feita à alteridacle que parece pró-
pria ela promessa, ao contrário ela memória, que é forteme nte m arcada
pela "minhidade" que salienta seu caráter insübstituível. A relação com
o outro é tão forte na promessa que esse traço poderá marcar a transição
entre o presente estudo e o estudo seguinte, consagrado ao reconheci-
m ento m ú tuo.

Darei início à fenom enologia ela promessa lembrando um traço
comum elo lado da m em ória que foi salientado muito cedo. E le diz res-
peito à relação entre a capacidade e o exercício efetivo. Certamente é <!
({)
(f)
w
legítimo falar em poder prometer, n os termos em que Nietzsche fala nisso ::;
o0:
em um texto que citaremos mais adiante; a esse título, esse poder prome- c..
<!
ter faz uma seqü ên cia com os poderes enumerados sob a rubrica elo
h om em capaz; a prom essa se dá assim ao mesm o tempo com o uma nova
dimensão da idéia de capacidade e como a recapitulação elos poderes
anteriores: terem os a oportunidade de observar que poder prom eter pres-
supõe poder dizer, poder agir sobre o mundo, poder narrar e form ar a 139

••••

idéia ela unidade narrativa ele uma viela, por fim , poder imputar a si mesmo
a origem elos próprios atos. Mas é no ato por meio elo qual o si se engaja
efetivamente que se concentra a fenomenologia ela promessa.
Essa fenomenologia se desenvolve em dois tempos: no primeiro deles,
enfatiza-se a dimensão lingüística elo ato ele prometer enquanto ato ele
discurso; no segundo, induzido pelo primeiro, é a característica moral ela
promessa que passa para o primeiro plano.
Mantendo-nos durante algum tempo no plano lingüístico, aqui é o
lugar ele recordar que os atos ilocutórios "são as principais unidades ele
significação literal no uso e na compreensão elas línguas naturais" 11. D epois
ele Austin e Searle, sabe-se que as condições ele verdade elos enunciados
declarativos, na linha ela lógica fundada por Frege e Russell, não esgotam
toda a significação elas frases ele nosso discurso. Na realização de atos
ilocutórios - como asserções, perguntas, declarações, pedidos, promes-
sas, agradecimentos, ofertas e recusas -, signifi cações não amputadas
são comunicadas a alocutores no momento ela enunciação, e a força ilo-
cutória se insere no conteúdo proposicional. Significação e uso são aqui
indissociáveis.
A promessa pertence aos atos executivos que são assinalados por
verbos fáceis de ser reconhecidos no léxico. Ao se ouvir esses verbos, fica
claro que eles "fazem" o que dizem; é o caso da promessa: quando diz
"eu prometo", o locutor é efetivamente "engajado" em uma ação futura.
Prometer é ser efetivamente enga jado em "fazer" o que a proposição
enuncia 12 . O que retenho para a etapa seguinte é a dupla caracterização
o ela promessa; o locutor não se limita a "colocar-se sob uma certa obriga-
2
(f)
w ção de fazer o que diz": essa relação é apenas uma relação elo si consigo
2
üi m esmo. O engajamento é em primeiro lugar "em relação ao alocutário";
<t
w
(f) é um engajamento em "fazer" ou em "dar" algo considerado bom para
ci:
UJ

h:l
ele. Em outras palavras, a promessa não tem som ente um destinatário
~ mas também um beneficiário. É por ca usa dessa cláusula elo benefício
o
h:l
a:
I
oo 11. Daniel VANDERBEKEN, Les Actes de discours, Paris, Pierre Marclaga, 1998, p. 7.
:::>
f-
(f) 12. Cito a definição ele Vanclerbeken: prometer "é o verbo ele enga jamento por excelência.
w
Entretanto, uma promessa é um ato ele discurso ele tipo engajaclor dotado ele traços razoavel-
8z mente particulares. Em primeiro lugar, quando se promete, há um engajamento, em relação
:::>
@ ao alocut<írio, ele fazer ou ele dar-lhe algo pressupondo que isso é bom para ele (condição
(f)
preparatória especial). Em segundo lugar, uma promessa só é completada se o locutor chega
a se colocar sob uma certa obrigação ele fazer o que diz. Esse modo promissivo especial ele
140 realização aumenta o grau ele poder" (ibicl., p. 176).

•••• •

que a análise lingüística suscita a reflexão moral. Ainda uma observação
sobre a definição proposta: aquilo em que o locutor se engaja é fazer ou
dar, não experimentar emoções, paixões ou sentimentos; como Nietzs-
che observa em um de seus textos sobre a promessa: "Podem ser prome-
tidos atos, mas não sentimentos, pois estes são involuntários" 13 . Nesse
sentido, não se pode prometer amar. À pergunta "o que se pode prome-
ter?", a análise do ato ilocutório traz uma resposta limitada: fazer ou dar.
A referência moral é suscitada pela própria idéia de fo rça implicada
na análise precedente: de onde o enunciador ele uma promessa pontual
retira sua força de poder se enga jar? De uma promessa mais fundamen-
tal, a ele manter a palavra em todas as circunstâncias; pode-se falar aqui da
"promessa anterior à promessa". É justamente ela que dá a cada promessa
seu caráter ele engajamento: engajamento em relação a .. . e engajamento
em . . . E é a esse enga jamento que está ligado o caráter ele ipseiclade da
promessa que encontra em certas línguas o apoio da forma pronominal
do verbo: eu m e enga jo em ... Essa ipseiclade, ao contrário da m esmiclade
típica da identidade biológica e de caráter do indivíduo, consiste em uma
vontade de constância, de manutenção de si, que coloca sua chancela
sobre uma história ele viela confrontada à alteração elas circunstâncias e às
vicissitudes elo coração. É uma identidade m antida apesar de .. . , a despei-
to ele ... , de tudo o que inclinaria a trair a sua palavra. Essa manutenção
escapa ao traço desagradável ela obstinação, quando assume a forma ele
uma disposição habitual, modesta e silenciosa em relação à palavra dada.
É o que na amizade se chama ele fidelidade. Mais adiante falaremos so-
bre qual patologia pode macular o que apresenta o caráter de uma virtu-
de enquanto excelência ligada a uma disposição h abitual, geradora, se-
gundo o vocabulário ele Aristóteles, ele "desejo deliberado".
Primeiramente será preciso celebrar a grandeza ela promessa, como
Agostinho o fez em relação à m em ória e a seus vastos abrigos.
A grandeza da promessa patenteia-se em sua confiabilidade. M ais <[
(J)
(J)
u.;
precisamente, é da confiabilidade habitual ligada à promessa anterior à L
oa:
o_
promessa que cada promessa pontual extrai sua credibilidade em face do <[
UJ
beneficiário e da testemunha da promessa. E ssa distinção fiduciária pro- <[
i!'
longa no plano moral a análise lingüística da força ilocutória que unia o -o
L
UJ
L
<[

13. Friedrich N IETZSCHE, Humain trop humain, Liv. li: Histoire des sentiments moraux,
in Oeuvres philosophiques completes, Paris, Gallimard, 1971 , t. VII, p. 25 1. 14 1

•••••• •

engajamento em relação ao alocutário ao engajamento em fazer por meio
do qual o locutor se coloca sob uma obrigação que o vincula.
Esse aspecto fidu ciário é comum à promessa e ao testemunho, o
qual, em uma de suas fases, inclui um momento de promessa. Esse pri-
mo da promessa ocupa um grande lugar na conversação ordinária, na
barra do tribunal e na pesquisa do historiador. Enquanto na promessa o
enunciaclor se engaja em fazer algo em favor elo alocutário, o testemunho
pertence, quanto à sua força ilocutória, ao tipo assertivo , cuja lista é lon-
ga14 O testemunho é uma espécie de declaração, de certificação, com a
intenção perlocutória de convencer o alocutário, isto é, ele fazer com que
ele fique "seguro". No testemunho duas vertentes são articuladas uma à
outra: por um lado, seu enunciado consiste na asserção da realidade factual
de um acontecimento relatado; por outro, ele comporta a certificação ou
a autenticação da declaração da testemunha por seu comportamento
ordinário, o que denominávamos confiabilidade no caso da promessa. A
especificidade elo testemunho consiste em que a asserção de uma realida-
de à qual a testemunha declara ter assistido é casada com a autodesigna-
ção do suj eito que testemunha. Ora, esta se inscreve em uma relação
dialogal. É diante de alguém que a testemunha atesta a realidade de uma
cena. Essa estrutura dialogal elo testemunho imediatamente faz ressaltar
sua dimensão fiduciária. A testemunha pede que acreditem nela. Se ela
é testemunha ocular, não se limita a dizer: "Eu estava lá", mas acrescen-
ta: "Creiam em mim". A certificação elo testemunho só fica completa
quando este é não apenas recebido mas também aceito e eventualmente
o registrado. Com isso, ele não é apenas certificado, também é acreditado.
2
(f)
w Surge então uma pergunta: até que ponto o testemunho é confiável? Essa
2
(ij pergunta coloca na balança a confiança e a desconfiança. É aqui que
<(
w
(f) entra em cena a confiabilidacle ordinária da testemunha enquanto ho-
d::
LU

&l mem de promessa, à espera da confirma ção ou infirmação que surge da
I
z confrontação de um testemunho com outro. Como a promessa não se
o
u
w
a:: baseia em um elemento declarativo, ela tem como teste unicamente sua
I
o
o
execução efetiva: a manutenção ou não ela palavra dada. E m bora diferen-
§ te em sua estrutura, o testemunho eventualmente recorre à promessa caso
oo se peça à testemunha que renove seu depoimento. Desse modo, a teste-
z
:::J
(J
w
munha é alguém que promete testemunhar novamente.
(f)

142 14. C f. VANDERBEKEN, L es Actes de discours, p. 167 ss.

•••••• •

Essa dimensão fidu ciária, comum ao testemunho e à promessa, es-
tende-se além da circunstância ele seu exercício. Por seu caráter habitual,
a confiança no testemunho e na promessa reforça a instituição geral ela
linguagem, cu ja prática usual engloba uma cláusula tácita ele sincerida-
de e, se nos permitem dizer, de caridade: quero acreditar qu e você signi-
fica o que diz.
Hannah Arendt 1; levou o elogio da promessa ao ponto de fazê-la
carregar uma parte elo peso da credibilidade geral das instituições huma-
nas, levando-se em consideração as fraquezas das quais sofrem os negócios
humanos em sua relação com a temporalidade. A promessa, ligada ao
perdão, permite que a ação humana "continue": ao desligar, o perdão
responde à irreversibilidade que arruína a capacidade de responder de modo
responsável às conseqüências da ação; o perdão é o que torna possível a
reparação. Ao ligar, a promessa responde à imprevisibiliclade que arruína
a confiança em um curso esperado ele ação, tornando-se pano de fundo da
confiabilidade do agir humano. A relação que estabelecemos entre a
memória e a promessa responde, em um certo sentido, à que Hannah
Arendt estabelece entre o perdão e a promessa na medida em que o per-
dão faz da memória inquieta uma memória pacificada, uma memória feliz.

É chegado o momento ele evocar a face sombria ela promessa: ao
esquecimento do lado da memória corresponcle, como já sugerimos an-
tes, a traição do lado ela promessa. Poder prometer é também poder rom-
per a própria palavra. Esse poder, ou antes, esse poder de não é tão banal
e tão esperado que convida a ultrapassar a indignação e a reprovação que
ele suscita e a articular, em uma reflexão ele segundo grau, algumas dú-
vidas que podem desmascarar as fraqu ezas secretas desse poder prometer,
que vimos como encarregado de remediar certas fraquezas inerentes à
condução dos negócios humanos.
A desconfiança sobre uma armadilha que diz respeito à constância 0
Ul
w
na manutenção de si une-se ao exam e moral da promessa, como atesta o :;:
oa:
elogio ambíguo que Nietzsch e procura sutilmente transformar em de- a.
<(
w
núncia no início da segunda dissertação da Genealogia da moral: "Criar
~
ü
um animal que possa prometer não é a tarefa primordial que a natureza iS
:;:
<(

15. Hannah AREI DT, The Human Condition, The University of Chicago Press, 1958; ecl.
fr.: Condition de l'homme modem e, pref. Paul Ricoeur, Paris, Calman n-Lévy, 1961, 1983. 143

•••••

N ietzsche leva ainda mais longe a ponta de seu estilete: não é essa m emória da vontade que torna o homem "calculável. Ora.a saber. responder sobre si mesmo como futu- ro"? O aparente elogio inicial perde toda ambigüidade assim que se des- cobre o panorama inteiro elos horrores morais: "a falta" . cujos efeitos o poder prometer compensa. regular. em casos determinados. mas à da von- tade em sua forma obtusa e obstinada. Ora. nos casos em que se trata ele prometer". a saber. "inclusive na representação que ele faz de si mesmo. a memória. deu a si mesma em relação ao homem? Não é esse o verdadeiro proble- ma do homem?" 16 M as se o ato de prometer define o que há de mais humano no homem. Friedrich N IETZSCI-!E. Z5l. "a má consciên- o cia" e "o que se parece com elas". Na verdade. este tem ele ser tomado como ili <1. a "memória ela vontade". que nossa própria análise situou como oposta à memória.) reconhecimento-identificação aplicado ao alguma coisa en1 geral havia w a: podido alimentar em nosso primeiro estudo. reaparecesse aqui no âmbito ela memória. p. Gallimard. opõe- se "uma faculdade contrária. in Oeuvres 144 philosophiques completes. toda desconfiança a seu respeito só pode gerar efei- tos devastadores na escala ela condição moral elo homem em seu conjun- to. 2 C0 UJ 2 Como outros discursos ele Nietzsche. com a ajuda ela qual. "para a força ele esquecer". com o fim ele poder finalm en- te. VII. ::> 8 if) 16.. não é à fenomenologia ela memória que se faz apelo aqui. como faz alguém que promete. não é essa vontade que mo- biliza a promessa ela prom essa sob os traços ela constância. enquanto ela permanece incliscernível da autêntica manutenção ele si. o esquecim ento é suspenso . Não se esperava que a promessa. A desconfiança nietzschiana aponta. aposta ele uma saúde robusta. segunda diss. Paris. La Généalogie de la Mora /e. mas ele uma m emória inédita. um aviso: a espécie ele domínio ele si que a glória ela ipseiclacle parece UJ if) d: proclamar revela ser também um engodo. um jogo de forças inquie- tador se estabelece: ao esquecimento. desde a evocação ela força ainda mais profundamente enraizada na vida. dessa vontade "que persiste em querer o que ela uma vez quis". necessário". oo Por isso é urgente buscar no próprio exercício ela promessa as razões 2 (f) w ele uma limitação interna que colocaria o reconhecimento ele si m esmo oo z no caminho do reconhecimento mútuo . • • • • • 11 . t. que pode chegar a conferir à UJ &l promessa a mesma espécie de pretensão ao domínio do sentido que o I z o (.

muitas elas quais foram promessas não cumpridas. Em primeiro lugar. procurar não presumir demais do próprio poder.: UJ :. Proponho. restaria ressituar as promessas ele que sou autor n o âmbito das promessas das quais fui e ainda sou beneficiário. É em sua própria vida e em sua própria identidade narrativa que o h omem da promessa pode encontrar os conselhos que o colocariam sob a proteção elo adágio grego: "Nada em excesso! " Em segundo lugar. Volto aqui às minhas observações sobre a relação da responsabilidade com o frágil em geral. recorclanclo Gabriel Mareei e sua defesa da "fi- delidade criativa".: <( 145 •••••• . ao preço ele uma paciência benevolente em relação aos outros e a si mesmo. e eu respondo à sua expectativa. mas dessa série ele promessas nas quais culturas inteiras e épocas particulares pro jetaram suas ambições e seus sonhos. enquanto confiado à minha guarda. De tais promessas também sou o continuador comprometido. alguns remédios para essa patologia secreta do poder prometer. Não se trata apenas dessas promessas fundadoras. sobretudo. Mas. inverter a ordem ele prioridade entre aquele que promete e seu beneficiário: primeiram ente um outro conta comigo e com a fidelidade à minha própria palavra. elas quais a promessa feita a Abraão consti- tui o paradigma.. colocar o m aior distanciamento possível entre a "ma- nutenção de si" e a "constância" de uma vontade obstinada.. não prometer demais. Por fim . esquematicamente. <( (f) C0 w 2 o0:: [L <( UJ g 0:: D :.

como veremos com a idéia mais avançada de "capabilidades". no sentido da agency de língua inglesa. o reconhecimento- atestação cede espaço a formas de justificação ético-jurídicas que colocam em causa a idéia ele justiça social. mas reivindicadas por cole- tividades e submetidas à apreciação e à aprovação públicas. Que se trate fundamentalmente de poder de agir. Capacidades e práticas sociais esta última seção de nosso segundo estudo. Com isso. Esse par conceitual notável constituirá a forma m ais elaborada das capacidades sociais evocadas n esta 147 •••••• . as m odali- dades ele reconhecimento são profundamente transformadas: sob os vocábulos apreciação e aprovação. Nessa acep- ção ampliada. que elevo ao economista Amartya Sen e que ele relaciona diretamente com a idéia de direitos na expressão complexa ríghts and capabilities (ou rights and agency). está aqui o vínculo forte com tudo o que foi dito anteriormente. as capacidades em questão não são mais atesta- das unicamente pelos indivíduos. lançare- mos uma ponte entre as formas individuais das capaci- dades e formas sociais suscetíveis de fazer a transição entre o reconhecimento de si e o reconhecimento mútuo.

além ~ w ele sua imprecisão.na w (j) d: virada do século XIX para o XX. a esfera elas represen- tações que os homens fazem de si mesmos e ele seu lugar na sociedade. Les FomJes de l'expérience. Contudo. Não surpreenderá o caráter h eterogêneo da enumeração das formas ele capacidade social agrupadas aqui: sua própria diversidade. colocado sob o patrocínio da Anerkenmmg ele origem h egeliana. ela tinha como desvantagem. Une autre histoire sociale. 148 Albin Michel. é preciso partir elas dificuldades encontradas pelos historiadores quando quiseram acrescentar à h istória econ ômica e à história social e política uma terceira dimensão o 2 relativa aos fatos culturais. a saber. que se deve ao caráter heteróclito do referente convencionado elas disciplinas envol- vidas. exibir um parentesco embaraçoso com a idéia de pen- 8z samento "primitivo" ou "pré-lógico". a caracterização elo humano em geral pelo poder de agir. contribui com o efeito de convergência que resulta de sua referên- cia última ao mesmo fundo antropológico. Bernarcl Lepetit 1. seção. 1995 (col.. as históricas.. Ela oferecerá ao mesmo tempo a transição mais apropriada do reco- nhecimento de si ao reconhecimento mútuo n o terceiro estudo. Paris. de referir às práticas sociais. L'évolution de l'histoire). nesse contexto. à civilização. Bernard LEPETIT (org. a saber. Essa referência n em sempre é explícita: m as isso não faz que ela se ja m en os constitutiva do alicerce a partir do qual as disciplinas envolvidas divergem. pela agency. Práticas sociais e representações coletivas Para não me afastar elas disciplinas que me são mais familiares. enquanto componentes elo agir em comum. üi <t nos de retomar sob uma nova perspectiva os problemas colocados .pelos his- w f:cl I toriadores influenciados pela sociologia ele Durkheim e de Lévy-Brühl.). em u so nas escolas o o alemãs ele psicologia social. Não se tratava m e- . no sentido mais amplo da palavra "cultura". procurarei em uma elas escolas ela historiografia fran- cesa contemporânea um primeiro argumento em favor da idéia ele capa- cidade social. ••••••• . Para avaliar a mudança ele frente operada pelo autor. Refiro-m e aqui à tentativa de um elos sucessores ele Fernand Braudel na direção dos Annales. com seu corte jo ele superstições e :::> ü w (j) 1. em termos ele mentalidades . 1. que ~ não há motivo para opor. Essa z o noção tinha a vantagem de abarcar aproximadamente o mesmo campo que f:cl a: I o termo Weltanschauengen (ou "visões elo mundo").

Cambridge University Press. Cambridge. Un autre histoir sociale (As form as ela experiên cia. As repre- sentações não são. por outro.: Pour en fínir avec les mentalités. 1996 (co!. como dá a entender o título elo artigo-programa "História das práticas e prática ela história". E sse vínculo entre representações e práticas sociais se expressa n o papel de mediação simbólica que as primeiras exercem qu ando as segu n- das têm um conteúdo determinado. ed. 1990.sobrevivências "místicas" 2. 149 • •••••• . O sentido dessa fórmula se esclarece se deixamos precisa a idéia de ins- 2. pois. É sob a condição dessa dupla mudança ele rumo que uma seqüência original pode ser oferecida à história elas mentalidades não mais como sim- ples apêndice à história econômica. O objetivo explícito ele Bernard Lepetit. estabelece-se assim uma relação ele congruência entre as práticas enquanto obj eto ela história e enquanto operação h istoriográfica. é preciso assentir qu e "as iden- tidades sociais ou os vínculos sociais n ão têm natureza e sim apenas usos". a idéia de práticas sociais é elevada ao grau ele referente privilegiado ela historiografia. a saber. Sciences humaines et sociales).de mentalidade era não deixar aparecer seu vínculo com o campo das práticas sociais. a despei- to elas novas am bigüidades que a palavra suscita. De acordo com isso. Por u m lado. idéias fl utuantes que se m ovem em um espaço autônomo. R. abria o caminho para uma investigação sobre a coordenação dessa esfera de fenômenos acessíveis à descrição e à explicação historiográficas com o resto do campo histórico. elas simbolizam identi- dades que conferem u ma configuração determinada a esses vínculos so- ciais em instauração. como acabamos ele dizer. trad. F. mas a título ele uni- verso ele representações solidárias das situações nas quais elas são ativadas. m as. Paris. A reinterpretação do papel atribuído às representações coletivas pressupunha uma reorientação mais fundamental da missão do historiador. Mas o que fazia falta à noção. social e política. Uma outra h istória social). A substituição do termo "mentalidade" pelo termo "representação". fr. a instauração elo vínculo social e elas modalidades ele identidade que estão ligadas a ele. Geoffrey E. m ediações simbólicas qu e contribuem para a instauração elo vín culo social. Regnot. é duplo. La Découverte/Poche. LLOYD fez uma crítica impiedosa dessa idéia em Demystifying Mentalities. É aqui que intervém a revolução conceitual proposta por Bernarcl Lepetit em Les formes de l'experience. a própria ciên cia h istórica assu- me o estatuto ele disciplina pragm ática.

diz Lepetit. a questão do acordo. p.). reconhecendo-se. Pode-se falar aqui em capacidades de gerar h istória. como conteúdo da busca de identidade: é importante. encontra um reforço na considera- o ção da noção de " jogos de escalas" e de mudanças de escalas na h istorio- ~ ffl grafia 3. La Microanalyse à l'expérience. Paris. "reorientar as hierar- quias de questões a partir de uma delas. traz consigo a idéia de uma variação >- (f) UJ de ponto ele vista que interessa à nossa pesquisa sob re as formas societais o o z da idéia de capacidade. EHESS/ 150 Gallimard/Seuil. Jacques REVEL (org. A idéia ele capacidades sociais encontra sua justificação no acopla- mento entre representações coletivas e práticas sociais. tanto no plano coletivo como no plano individual. Por outro. à qual devemos a extensão ela idéia de capacidades individuais à ele capacidades societais. Aconteça o que acontecer com a ambição expressa por Bernard Lepetit não apenas de reorientar mas também de rem embrar a disciplina em seu conjunto. Por um lado. 15). tauração do vínculo social por meio da idéia de acordo. Essa abordagem interessante das relações entre representações cole- tivas e práticas sociais. a capacidade de instaurar vínculos sociais sob a figura das identidades ligadas a eles. segundo a terminologia própria ele Bernard Lepetit. 1996. Essa noção faz parte ela revisão dos modelos cron ológicos elabo- ~ ijj <( rados anteriormente pela disciplina. A idéia-chave é que em diferentes escalas não são ::J ~ (j) 3. nas identidades que ela gera no plano societal. Jeux d'échelles. Poder-se-ia falar também em competência representando a si mesma. acordo entre su jeitos. a esfera das representações detém o papel de m ediador simbólico e conduz assim ao primeiro plano a questão ela identidade das entidades sociais em jogo. A idéia de jogos de escalas e seu 8::J corolário. da I z o() duração m édia própria das instituições e estruturas sociais. sobre os suj eitos e sobre as coisas: saber como o acordo social é feito. procurarei ampliar o conceito ele capacidades resultan- te dessas modificações. quer se trate elos entralaçam entos UJ (f) d: em Labrousse das estruturas e elas conjunturas ou ela sobreposição em UJ () UJ Braudel da longa duração própria de uma geo-história quase imóvel. •••••• • . sob o signo da razão pragmática. o campo elas práticas sociais coloca no lugar de honra o agente ela mudança. após a crise do modelo braudeliano. e da duração UJ a: I breve dos acontecimentos contingentes. isto é. a de mudanças de escalas. fracassa em ser feito ou se desfaz" (Les fo rmes de l'expérience. o protagonista social.

Reconhecimento e identidades coletivas A exploração das formas sociais elo poder ele agir no quadro ela h is- tória cultural elas representações coletivas parece não fazer referên cia à idéia de reconhecimento sob sua forma reflexiva. a relações hierárquicas indecifráveis vis- tas de baixo. C hamps). Neuwied/Berlin. normas experimentadas como coerções pelos protagonistas das práticas sociais. cujo percurso é seguido por Norbert Elias. p. Einaudi. 151 ••• ••••• . familiares ou individuais. : La Société de cour. Le Pouvoir au vil/age. ~ <( o Histoire cl'un exorciste clans !e Piémont clu XVI' siecle. Paris. Roger C hartier: Formation sociale et économie psych ique. orig. para nossa própria investigação. 5.vistas as mesmas coisas: ao contrário do uso da noção de escala na carto- grafia. confrontadas a realidades econ ômicas opacas. Paris. o que o olhar do h is- toriador encontra na escala macro-histórica são antes as estruturas de longa duração. C f. 1989 (co!. Para esses indivíduos e seu ambiente social próximo. Biblio- theque eles histoires) . fr. reed. E ntretanto. a ques- tão é reduzir uma incerteza que ultrapassa a imprevisibiliclacle ordinária do futuro e provém. D ie Hofische Gesellschaft. Paris. <( m ento de responsabilidade" para designar a m an eira pela qual os h eróis 4. "ela cons- ciência permanente de dispor de informações limitadas sobre as forças em ação no meio social no qual se eleve agir" 5. Norbert ELIAS. pref. Assim. mas sobretudo estruturas anônimas. XXXVIII (co!. no urbanismo. trad. a fecundidade ela idéia elos "jogos ele escalas": ela é a ocasião para reconstruir os recursos ele inovação dos agentes sociais cujo poder de agir no plano social é como que desnu- dado nas circunstâncias ele incerteza. ed.::: ·<( 0: Q. segundo uma observação ele Jacques Revel. La société ele cour o<( o dans !e proces de civilisation. do m esm o (/) modo que ao seguir Bernarcl Williams adotamos a expressão "reconheci. desde os comportamentos "ele cor- te" até o controle elas paixões no plano ela intimidade incliviclual4 • Na escala micro-histórica. na arquitetura. Pierre C amitzer e Jeanne Etoré. como é o caso dos modelos de "civilidade". Calmann-Lévy. G allimarcl. [{l 1974. escolhida pelos italianos da microstoria. Flammarion. C arriera di un esorcista ·nel Piemonte de! seicento. os recortes feitos em escalas diferen- tes da mudança social são incomensuráveis.: L'eredità immateriale. w 1969. Ed. Torino. quando não são modelos de comportamentos progressivamente interiorizados à revelia dos indivíduos socializados. seu prefácio à edição francesa elo livro de G iovanni LEVI. 2. 1985. vê-se o surgimento de estratégias aldeãs. Esta é. ª (/) () . 1985. Hermann Luchterand Verlag.

Esse ponto sensível situa-se. desde as primeiras páginas deste livro. Ora. quer se trate. Les Puissances de /'expérience. reservando-me para voltar.. Ta primeira parte. É a essa parte do tomo I das Puissances de /'expérience que me refiro aqui. O tipo ele reconhecimen- 2 (/) lU 2 to explícito que atores ele categoria societal esperam de suas capacidades ü5 <( próprias suscita uma reflexão no segundo grau da ordem da reconstrução. Sabemos. Ora. a reflexão sobre as identidades cole- tivas não pode escapar a uma sofisticação de grau mais elevado que a iclen- o tidade-ipseidade dos sujeitos individuais da ação. Passages). ••••••• . as "Formas (/) da identidade". na articulação entre a instauração do vínculo social. mesmo se se leva em consideração a complexidade das articulações induzidas pela diversidade das capacidades em jogo. z :::J (J UJ são tratados os atos do discernimento (sentir. do reconhecimento-atestação. tratava-se do reconhecimento-atestação. procurarei no exercício da competên cia elos agentes da mudan- ça social o ponto ele ancoragem ele um reconhecimento comparável de responsabilidade. que a idéia ele reco- nhecimento possui um vínculo privilegiado com a de identidade.segundo o título do ar- tigo-manifesto de Bernard Lepetit . para retomar o vocabulário ele Bernard Lepetit. o o Paris. o que essas re- presentações simbolizam são justamente identidades nas quais se atam os laços sociais em instauração. durante o terceiro estudo. discorrer) e. Para nós. UJ li I o interesse desse trabalho de rea rticulação das formas da identidade é o oo :::J ill 6. tomado como o que está em jogo nas práticas sociais. Mas. da epopéia e da tragédia gregas debatem consigo mesmos em seus planos de ação. ele reconhecimento-identificação de algo em geral ou. agir. na parte do presente estudo consagrada às capacidades indi- viduais. a identidade elos atores so- ciais engajados em uma ação coletiva não se deixa expressar tão direta- mente em termos de reconhecimento-atestação. O tomo I intitula-se Le Sujet et le Verbe. à parte do tomo II consagrada às Ordres 152 de la reconnaissance. por mais próxima que "a prática da histó- ria" queira se manter da "história das práticas" . 1991 (co!. UJ (/) ci: Encontrei um elemento ele resposta a essa questão da identidade w &l I elos agentes coletivos ela mudança social na obra que Jean-Marc Ferry z o() propõe "elas formas ela identidade" na época contemporânea6 . No primeiro caso. e as representações coletivas que constituem suas mediações simbólicas. Jean-Marc FERRY. na segunda parte. Dir-se-á que há u ma grande distân- cia entre as identidades que implicam capacidades pessoais e as identida- des que dizem respeito à instauração do vínculo social. Cerf. como no primeiro estudo. Essai sur l'identité contemporaine.

M as a verdadeira reviravolta ela an álise ocorre com a referência. desde que ela não permaneça congelada na repetição e que se revele inovadora em algu m grau . audaciosamente. não é com a forma ele iclenticlacle ligada à argumentação que Jean-Marc Ferry encerra seu percurso das formas ela identidade. qu e. elo Verbo em sua abertura criadora.de não se limitar à narração e à identidade narrativa. Vere- mos. à argumentação como força críti- ca. no terceiro estudo. assim com o eu também. em uma linha abertam ente habermasiana. Toda instauração é po- ten cialmente de natureza reconstrutiva. de justiça estão ligadas. Capacidades e capabilidades Depois dessa pausa crítica que permitiu explicitar o vínculo entre a capacidade coletiva ele fazer a h istória e as formas ele identidade que são o conteúdo ela instauração elo vínculo social. na interpretação a virada crítica à qual elevemos a racionalização elas imagens m íticas e religiosas elo mun- do. as categorias ele su jeito. Ele vin- cula. Ele coloca a idéia ele reconstrução em u m n ível m ais alto que a ele argumentação. Como em seu m estre. essa promoção ela reconstrução à promoção. liga- ela a uma filosofia ela linguagem . E u contribuo ele bom grado para essa reatualização das formas da identidade no plano societal n a m edida em que presu mo que a recons- trução está implicitam ente em ação no nível elas representações coletivas qu e mecliatizam a instauração elo vín culo social. tratando particularmente das categorias de "evento" e "destino". em contrapartida. como essa argu m entação é exercida em situa- ções colocadas sob o signo ela luta pelo reconhecimento. a esse nível da argumentação. contribui retroativam ente para a articulação ela primeira. segun do Jean-Marc Ferry. ch egou o mom ento ele levar um pouco mais adiante a extensão elo conceito ele capacidades sociais ao 153 . em contraste com o encerram ento do suj eito em sua pretensão à identidade fo rmal e transcendental. 3. a primeira antecipa a segunda. N o entanto. Ele vê. Esse vaivém entre n íveis reflexivos ele ordens diferentes é característico ela "identidade contemporânea" que Jean-Marc Ferry procura teorizar. Há assim uma continuidade entre a refl exão espontân ea n o plano dos agen- tes sociais e a reflexão do filósofo. A desconfiança acerca de um uso exclusivo ela forma narrativa ela identidade se baseia em su a aplicação à tradição e aos m itos fundado- res. cuj a pertinência o autor não n ega. ele lei.

valores etc. Nobel de Economia em 1998. Amartya SEN. chegou a isso? Já nas primeiras páginas de Ética e econo- mia. opõe Sen. enga- ~ (f) UJ ~ jam entos.. D evo a mais inesperada. qual é consagrada a terceira seção ele nosso segundo estudo. livro do qual há uma tradução francesa sob o título Éthique et économíe7. se é que não a mais audaciosa. ed. p. Monique Canto-Sperber). Oxford. On Ethics and Economics. ül que também exige uma certa atenção .: 154 Éthique et Économie.. dessas extensões à obra de Amartya Sen. o autor anuncia sua intenção ele levar em consideração os "sentimen- tos morais" no "comportamento econômico". fr. são os sentimen- ::J 8 (f) 7. "Em outros ensaios procurei mostrar que existe uma 'dualidade' essencial e irredutível na concepção do indivíduo do ponto de vista do cálculo ético. Como um economista de elevada competência. segundo o princípio ele utilidade. versado em econo- mia matemática.). "É difícil acreditar que ver- dadeiras pessoas poderiam estar completamente fora do alcance da refle- xão suscitada pela questão socrática: 'como se eleve' viver no âmago elas motivações da ética?" (Éthíque et économíe.ao seu próprio f:d a: bem-estar" (ibid. 6). Os seres humanos. PUF.ou ao m enos não inteiramente . Mas. unido ao conceito de "direitos". torna-se possível admitir o fato inquestionável de LU f:d que a ação de uma pessoa pode muito bem responder a considerações que I z o não dizem respeito . o autor coloca no centro de sua argumentação em favor ele uma reintroclução de conside- rações éticas na teoria econômica o conceito de "capabilidades". Pode-se considerar a pessoa do ponto de vista de sua ação. sua agency. é no plano ela motivação elos atores econômicos que se colocaram quase unanime- mente os especialistas ela economia quando reduziram essa motivação a seu núcleo racional. Com efeito.. Blackwell Publishers. org. e mais precisamente em um artigo im- portante ele 1985. p. Paris. Assim volta ao primeiro plano "a capacidade de o o ação de cada pessoa" (ibicl. 40). M as também se pode ver nessa pessoa seu bem-estar. •••••• • . não se comportam na realidade de uma maneira exclusivam ente interessada. Em On Ethics and Eco- nomics (Sobre ética e economia). ele próprio interpretado como maximização do inte- resse pessoal. 1993 (cal. Ora. que Sen considera ser suscetível lli ele avaliação não-subjetivista na m edida em que o aspecto "ação" e o as- 8z pecto "bem-estar" ele uma pessoa não se sobrepõem . 1987. intitulado "Rights anel Capabilities". Philosophie morale. se suprimido o jugo de uma <! w (f) cl: motivação interessada. o reconhecendo e respeitando sua capacidade de conceber objetivos.

a liberdade consiste na ausência ele entraves que um outro indivíduo e principalmente o Estado podem impor a um indivíduo: é à liberdade tomada nesse sentido que estão ligados os direitos civis (ele opinião. Blackwell Publishers. além ele Rawls. Oxford University Press. 9. Four Essays on Liberty. Mackie 10 e outros. ). segundo Sen. Dworkin9. J. por um lado. 1978. Ethics Inventing Right and Wrong. Os direitos que a economia política deve. 11 . É aqui que intervêm a liberdade de que dispõe o indivíduo e. Berlin faz entre "liberdade negativa" e "liberdade positiva" 11 . London. ed. a liberdade repre- senta tudo aquilo que uma pessoa. Tomada em sentido negati- vo. ele propriedade etc. a questão elos direitos que transformam as liberdades abstra- tas em oportunidades reais. 1988. Éloge de la liberté. 1978. fr. R. como John Rawls. PUF. tal como são apresentadas no artigo "Rights anel Agency". o autor se refere de bom grado à famosa distinção que o filósofo I. Calmann-Lévy. por outro. mas. em seu prolongamento está situada a cor- rente "libertariana". 1968. S. 1988. se coloquem no cruzamento das duas grandes tradições da filosofia mo- ral). ele reunião. incorporar à motivação ela ação econômica tornam-se assim componentes da idéia ele "capabilidades". L. I. 155 • ••••••• . BERLIN. e à ele responsabilidade coletiva. particularmente utilidades. é capaz ou incapaz ele realizar. mas na do utilitarismo ele língua inglesa (mesmo que autores próximos ele Sen. 8. J. ela acrescenta a ela a capacidade de uma pessoa ter a viela que escolher. ed. levando-se tudo em conta. Anarchy. Paris. Para fazer entender essa rara conjunção.tos e avaliações morais relativos ao aspecto "ação" que são esvaziados pelo modelo do homo economicus na imagem abusivamente simplificada que esse modelo oferece dos motivos que conduzem os indivíduos a agir. Oxford. É preciso compreender aqui que o argumen- to de Sen não se situa em uma linhagem kantiana. L. MACKIE. Penguin. com a liberdade. Oxford. Não é que os utilitaristas como J. 10. Mill ignorem a dimensão jurí- dica. É da grande tradi- ção elo liberalismo político de língua inglesa que Sen extrai sua argumen- tação. O que é característico de Sen enquanto economista nesse grande debate é ter associado a idéia ele liberdade à ele escolha de vida. de autores tão consideráveis como R. Ainda que esta liberdade pressuponha a precedente. Taking Rights Seriously. Nozick8. fr. R. NOZIK. R DWORKIN. London. State and Utopia .: Paris. andando próximo. Considerada em termos positivos. os direitos apenas são para eles meios ele obtenção ele outros bens. pela avaliação ele Sen.

D e fato. ele uma "avaliação elas situações". Charles TAYLOR. Ele próprio originário de Dacca. ••••••• . 11 7 ss. Les Sources du moi. 156 13. por exemplo. assim como a integralidade elas relações recíprocas entre essas duas formas ele liberdade. É nesse quadro "avaliatório" que o exercício efetivo da liberdade de escolher recorre à responsabilidade coletiva. com base no exemplo ele uma série de fomes no continente indiano. não existia um vínculo mecânico entre as reservas ele víveres disponíveis e (j) w . O que está em jogo é uma nova definição da justiça social centrada na idéia ele "direitos a certas capacidades". que transcende a dicotomia usual entre conceito prescritivo e conceito descritivo. E ntram primeiramente em consideração os "direitos" ele que são (ij <[ dotados os grupos vulneráveis.). foi desse modo que as fomes foram sistematicamente evita- o ~ UJ das na Índia a partir ela independência. Mas. Sen tornou-se famoso devido à aplicação que fez ele sua análise con- ceitual a um caso concreto que diz respeito à economia. a esse respeito. Oxford.. Poverty and Famine. junta a asserção ele si a uma posição ética expressa antes em termos ele bem que ele obriga- ção. demonstra-se que a UJ o UJ política que consiste em complementar a renda elas pessoas (oferecendo- J: z oo lhes. Oxford University Press. em As fontes do Self 12 . A expressão mais notável. Esta última deve garantir a liberdade individual sob sua dupla forma. que o. O conceito compósito ele "direitos a certas capabili- dacles" depende. ao contrário elo discurso ele Charles Taylor. que mantém o dis- tanciamento reflexivo elo moralista. Amartya SEN. em Bangladesh. À luz desse diagnóstico... "a avaliação elas situações" lida direta- mente com os comportamentos elos agentes econômicos. a saber. negativa e positiva. 1981. Desse modo. trata-se de es- capar ela alternativa entre o conseqüencialismo proveniente da teoria elo bem-estar (como o utilitarismo) e o deontologismo fundado nas coerções exteriores à agency.. o ela fome . p. traduzido pelo título "Les droits et la question de l'agent" (ibid. segundo Sen. Esse conceito ele "avaliação elas situações" é próximo elo ele "avalia- ção forte" que Charles Taylor. é a de "direitos a certas capabilidades". as fomes. Sen não hesita em o o estabelecer uma equação entre a natureza não-democrática ele um siste- z ::J fB (j) 12. Cf. um emprego público ou pagando um salário aos mais UJ a: desfavorecidos) revela ser um elos meios mais eficazes ele impedir as fo- o mes. Amartya Sen demonstrou. No contexto do debate anglo-saxão. os direitos ele apropriação que esses w (j) ri: grupos podem fazer valer 13..

inclusive em sua dimensão econômica. como a renda. Ele provém ela preferência atribuída à liberdade positiva em relação à liberdade negativa na tradição anglo-saxã elo libera- lismo político. a riqueza. torna-se uma responsabilidade social. Desse modo. pois ele não interessa elo ponto ele vista do acesso à categoria rumo à qual oriento este sobrevôo ela obra de Sen na linha do presente ensaio. não é garantida. o fato da desigualdade coloca no primeiro plano não a distribuição de utilidades. sob sua forma mínima de capacidade de sobre- vivência. Em Raw1s.ma político e as fomes. a liberdade se torna um elemento de avaliação dos sistemas sociais. prolongamento da liberdade positiva. que os 157 ••••• . É nesse terreno que Sen aborda a grande obra de John Rawls. Basta salientar uma concepção da responsabilidade social que faz da liberdade individual o ob jetivo primeiro ele uma teoria da justiça. que encarnam a verdadeira força responsável pela eliminação elas fomes. Ao contrá- rio da tradição utilitarista. o fen ômeno ela fome é desencadeado. também. Em suma. Em última análise. as liberdades públicas que ajudam os indivíduos a perseguir livremente seus objetivos respectivos. que mais importa à nossa própria investigação. Ouanto à dimensão política e ética da liberdade individual. a agency. os "princípios de justiça" ele Rawls. Fortalecido por essa demonstração. resumido no conceito de "direitos a capabiliclades". Sen faz repousar a avaliação social sobre a liberdade de realizar. mas a elos "bens primeiros". que baseia essa avaliação em resultados já com- pletados. salvaguardam a prioridade ela liberdade individual. Disso resl!lta que a proteção contra as interferências abusivas ele outrem. sob a reserva ele que tal liberdade deve ser dada a todos. são as diferentes liberdades positivas que existem em um Esta- do democrático. o exercício de uma imprensa livre e a liberdade de palavra sem censura. Em su ma. inclusive a liberdade de realizar eleições regulares. compreendida como liberdade de escolha ele viela. é o par "direitos" e "capacidades". Os trabalhos de Sen sobre a fome confirmaram isso: quan- do a capacidade ele agir. Em compensação. Deixo ele lado o debate ele Rawls e Sen sobre a relação entre "bens primeiros" e liberdade positiva. são levadas em consideração "todas as realizações que se enraízam na viela que a própria pessoa pode realizar". como as que ocorreram na China em 19 58 e 1961. Ele converge com o par "representações" e "práticas sociais" de nossa primeira seção. a liberdade individual. Uma teoria da justiça. como Sen reconhece. Sen pode voltar à problemática teórica. a ela avaliação social da capacidade ele agir. eles próprios reduzidos à utilidade.

eu 2 (j) Lu 2 continuo. A revolução conceitual 'introduzida com o par "direitos" e "capabili- dades" só pode ser compreendida se oposta à avaliação ela ação em termos ele utilidade e ele bem-estar. a levar a sério os eventos de pensa- Ül <i. ao contrário elo ceticismo ele Bernarcl W illiams sobre a sofis- o ticação filosófica que cavou um fosso entre os antigos e os modernos. basta-me ter encontrado nela um reforço para uma con cepção elo agir humano enraizada na antropologia fundamental. Foi desse modo qu e. é vã se m edidas específicas que garan- tam uma capacidade de agir mínima não são tomadas. Entretanto. libertarianos levam ao pináculo. A seqüência elo presente estudo ilustra 2 ffl essa abundân cia conceitual. No fim deste estudo. constitui uma constante cultural que confirma a legibilidade que podemos classificar ele transcultural elos clássicos ela cultura ocidental. essa capaci- dade de ser e de agir revela-se inseparável das liberdades garantidas pelas instâncias políticas e jurídicas.J (j) c± filosófica dos conceitos diretores da filosofia ela ação. sobre o alicerce antropo- z o u lógico do reconhecimento espontân eo da responsabilidade ela ação por w a: I seus próprios agentes. permaneceu como fio condutor ele toda a investigação. aos quais devem os a problem atização propriamente u. desde Aristóteles até w SlI autores contemporâneos. Ora. Ao final desta breve incursão no domínio ela ciência econômica. É n esse nível que se justifica a convergência entre o par que une representações e práticas sociais e o par que reúne o conceito de "direitos a capabilidades". Descendo primeiram ente do início rumo ao fim . ele sua agency. podemos afirmar que o tema do reconhecimento da responsabilidade. com o no primeiro estudo. É como capacidade real ele escolha ele viela que a capabilidade é promovida à categoria ele critério para avaliar a justiça social. Pode-se atribuir ao filósofo de língua inglesa que o reconhecimento pelo agente ele seu poder de agir. qu er se trate elo conteúdo epistêmico do ato g ele reconhecimento ou elas modalidades dos poderes reivindicados. impõe-se um olhar sobre o caminho percorri- do. pôde prosperar uma reflexão diversificada e arbo- oo rescente cujo tema ainda é a ação. z :::> () w (j) o que diz respeito ao segundo ponto. pode-se considerar a passa- gem ela idéia ele capacidades individuais para a ele capabilidades sociais 158 como uma forma ele complexificação crescente ela idéia de capacidades ••••• . m ento descontínuos. decifrado por Ber- nard Williams na literatura épica e trágica elos gregos.

sobre o fundo estável do tema antropológico do poder de agir, da agency.
O efeito dispersivo começa já na seção consagrada às capacidades indivi-
duais; ele cresce elo poder dizer até a imputabilidade, e desta para o par
m em ória e promessa. Mas é na seção consagrada às capacidades de cunho
social que aumenta o distanciamento entre as análises ligadas a disciplinas
heterogêneas no vasto canteiro das ciências humanas, como as ciências
históricas e a ciência econômica. O efeito de convergência que compensa
o efeito ele divergência torna-se ainda mais surpreendente graças à idéia-
mãe de poder de agir que está ligada ao fundo antropológico comu m.
Quanto ao conteúdo epistêmico do reconhecimento em ação em
todo o trajeto da investigação, ele apresenta o mesmo equilíbrio entre
estabilidade e diversificação que a temática objetal das capacidades enu-
meradas. A equação que está na base continua a ser aquela entre reconheci-
mento e atestação, no prolongamento da acepção lexical que nosso dicio-
nário de referência coloca sob o signo ela admissão. O tipo de certeza que
caracteriza a admissão não se deixa reduzir à dóxa de cunho teórico. É
uma certeza suí generis que pertence à dimensão prática do saber. Todo
o nosso segundo estudo se desenvolve nessa dimensão ele certeza prática.
Isso não impede que a terceira seção deste estudo enriqueça de modo
significativo a idéia-m ãe ele atestação. São as formas ele identidade leva-
elas ao primeiro plano pelas disciplinas atravessadas que estruturam o en-
riquecimento progressivo da certeza prática. O laço simbólico entre re-
presentações coletivas e instauração do vínculo social marcou uma fase
decisiva no processo ele complexificação elas formas ele identidade. Mas
foi apenas com o tema elos direitos a certas capabilidacles que nossa inves-
tigação deu, junto com Amartya Sen, um salto à frente, sem romper, po-
rém, o vínculo com as formas anteriores da admissão das capacidades. A
atestação tornou-se reivindicação, direito ele exigir, sob o signo ela idéia
de justiça social. A convergência, mais uma vez, é garantida pelo alicerce
antropológico subjacente ao qual pertence a idéia-mãe elo poder ele agir.
A inovação no plano conceitual consistiu no recurso ao tema ela liberda-
de positiva, tomado da tradição anglo-saxã elo liberalismo político. M as
nada impede que esse conceito moderno ele liberdade positiva se ja colo-
cado frente a frente com o tema aristotélico elo érgon humano; a idéia ele
que há para o homem uma função, uma missão irredutível às técnicas, às
profissões, às artes particulares, sai glorificada das discussões eminente-
m ente modernas sobre a liberdade ele agir. 159

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Uma leitura a contrapelo desse segundo estudo a partir de seu termi-
nus ad quem não é menos instrutiva que a releitura a partir de seu estágio
inicial. A passagem da idéia de capacidade para a de capabilidade, ela
própria enriquecida por sua junção ao direito, no sintagma de direitos a
certas capabílidades, não deixa intactas as análises precedentes.
A conjunção entre as idéias de direitos e de capabilidades projeta
retrospectivamente sua luz sobre todo o tra jeto anterior de nosso itinerá-
rio. A questão que se coloca é saber se a idéia de capacidade pode, em
qualqu er nível de análise, ser considerada eticamente n eutra. O que é
posto em questão, n o próprio âmago ela atestação, é a oposição entre des-
crição e prescrição. As capacidades não são constatadas e sim atestadas.
À idéia ele atestação permanecem vinculadas as ele apreciação, ele avalia-
ção, como sugere a idéia de "aclscrição", que, proveniente da região do
direito, foi relacionada com a região ela admissão cotidiana. A "adscrição"
como categoria prática transcende a oposição entre descrição e presCI·i-
ção que carrega a m arca ela empiriciclacle ele ordem teórica. Essa marca
ética colocada sobre a atestação elas capacidades e sobre a reivindicação
elas capacidades é, no fim elas contas, comum ao pensamento dos antigos
e ao elos modernos. O direito a certas capabilidades rem ete à idéia grega
ele areté, e não se eleve esquecer que ela significa fundam entalmente a
excelência ela ação. É no nível elo alicerce antropológico ela idéia ele poder
de agir, ele agency, que opera a avaliação ele nossas capacidades, su bterra-
neamente ligada à idéia ele bem viver. É belo e bom poder agir. Sobre
esse ponto, Amartya Sen e Bernard Williams concordam n o elogio do
o dese jo de conduzir livrem ente a própria vida.
2
(j)
w
:;:
Ui Ainda resta dizer, ao fi nal deste sobrevôo, o que falta a este segm en-
<t
w
(j)
to do percurso elo reconhecimento, e que o par clireitos-capabiliclacles
d:
w pode dar a entender. Considerada de um ponto de vista prospectivo e não
~
I
z

mais apenas retrospectivo, consideradas as noções que ela antecipa, a idéia
w
a: ele direito a capabiliclacles tem o valor de critério de justiça social na com-
o paração entre regimes políticos con correntes. C om isso revela-se a di-
o
,. .
::J
(j)
mensão conflituosa das situ ações ele .fato submetidas a esse critério de
w
8z avaliação. C om a conflitualidade descobre-se uma nova corrente con cei-
::>
ü
w
tual: desta dependem as idéias ele pluralidade, de alteridade, de ação
(/)
recíproca, de mutualidade, que estão no centro de nosso terceiro e últi-
160
mo estudo.

• • • • • • e

Terceiro estudo

O reconhecimento mútuo

"Assim que um homem foi reconhecido por
outro homem como um Ser senciente, pensante
e semelhante a ele, o desejo ou a
necessidade de comunicar-lhe os próprios sentimentos
e pensamentos fez com que este procurasse
os meios de fazer isso. "
Jean-Jacques Rousseau, Ensaio sobre a origem das línguas

Universidade Federal do Para
Bibllotpr.~ r ~~·+ra!

nova etapa de nosso percurso traz à cena filosófica a terceira
~ ocorrência do vocábulo "reconhecimento": após o momento
kantiano da Rekognition e o momento bergsoniano do reconheci-
mento em imagens, eis o momento h egelian o da Anerkennung.
No primeiro estudo, a identificação era o ele alguma coisa em
geral: a relação entre o mesmo e o outro era então uma relação ele
exclusão, quer se tratasse elo juízo teorético de percepção ou elo
juízo prático ele escolha. No primeiro caso, identificar é distinguir:
um não é o outro; alguma coisa aparece, desaparece, reaparece;
após certa hesitação, em razão ele uma alteração da aparência ou
da duração elo intervalo, ela é rec,o nhecida: é precisamente a mesma
coisa e não uma outra; o risco aqui é se equivocar, tomar uma coi-
sa por outra; n esse estágio, o que é verdadeiro sobre as coisas o é
também sobre as pessoas: o equívoco é apenas mais dramático pois
a identificação é confrontada à prova elo desconh ecimento; lem-
bremo-nos a esse respeito elo episódio do jantar na casa elo prínci-
pe de G uermantes no final do Tempo reencontrado, de Proust. As
pessoas até então familiares, e que as devastações da idade desfigu-
raram, parecem ter "feito para si uma cabeça", e a questão retoma,
lancinante: ainda é a mesma pessoa ou é outra? Tremendo, o es-
pectador dessa cena exclama: "Sim, é ela! É ele!". Essa relação de
exclusão entre o mesmo e o outro não é m enos nítida quando o
juízo ele percepção cede lugar ao juízo de preferência. A escolha
assume a forma de uma alternativa: ou um ou outro. Uma vez
eliminada a hesitação, é um em vez elo outro.
No segundo estudo o reconhecimento ainda repousa em pro- oo
cedimentos ele identificação: o si tomou o lugar do alguma coisa
~
WJ
em geral. D esse ponto de vista, a bifurcação da identidade entre oa:
mesmidade e ipseidade não enfraqueceu a oposição ele princípio w
u
a:
w
entre o mesm o e o outro, e é preciso entender o mesmo como eu f-

e não com o o outro, outrem, o outro homem. Locke deu a essa
relação de exclusão sua forma canônica: o si é o mesmo que si 163

•••• ••••

mesmo e não outra coisa. Em seu vocabulário, identíty se opõe a
díversíty.
Mas o reconhecimento de si por si mesmo implicava mais que
uma substituição do si por alguma coisa em geral; graças à proxi-
m idade semântica entre a noção de reconhecimento e a de atesta-
ção, um vasto domínio ele experiências se abriu para a descrição e
a reflexão: a certeza e a confiança que cada um tem de poder exer-
citar capacidades. O reconhecimento de si encontrava assim no
desenvolvimento das figuras do "eu posso", que juntas compõem o
retrato do homem capaz, seu espaço próprio de significação. Mas
o mais importante para o prosseguimento do percurso do reconhe-
cimento é que a identificação, que não deixou de constituir o núcleo
duro da idéia de reconhecimento, não mudou apenas do alguma
coisa para o si, mas também se elevou ele um estatuto lógico, do-
minado pela idéia de exclusão entre o mesmo e o outro, para um
estatuto existencial em virtude do qual o outro é suscetível de afe-
tar o m esmo. O segundo estudo não fez senão tocar de leve essa
dialética com as idéias de ajuda e de impedimento ao exercício das
capacidades próprias. Será tarefa deste estudo tomar como m eta a
dialética da reflexividade e da alteridade sob a figura do reconhe-
cimento mútuo. A reciprocidade e a mutualidade (que não serão
distinguidas logo de início) darão àquilo que desde Kant é denomi-
nado "causalidade recíproca" ou "comunidade", no sentido cate-
goria! da palavra, seu espaço de manifestação.
O s gregos possuíam um único termo para falar sobre essa rela-
ção de mutualidade: allelon (gen. ) reciprocamente, que é traduzi-
do por "uns e outros" ou, mais resumidamente, "um e outro".
Nós nos debruçaremos inicialmente sobre a estrutura catego-
ria! do "um e outro" para discernir um paradoxo que nos acompa-
nhará tacitamente até a conclusão de todo o nosso empreendimen-
to, a saber, a resistência oposta à idéia de reciprocidade pela assi-
m etria originária que se aprofunda entre a idéia do uno e a idéia
do outro. Esse prefácio categoria! terá o valor de um aviso para
toda a seqüência de nossa investigação na medida em que o elogio
da reciprocidade, sob a figura mais íntima da mutualidade, corre o
o risco de se basear no esquecimento da insuperável diferença que
o
::l
f- faz que o uno não se ja o outro no próprio âmago do alleloí, do
ill "um e outro".
oa:
i:ü
u Feito este aviso, aplicaremos ao tema do reconhecimento mú-
a:
:=' tuo o mesmo m étodo genealógico dos estudos precedentes, a sa-
ber, a consideração da corrente "de acontecimentos de pensam en-
164 to" dos quais o momen to hegeliano da Anerkennung constitui o

•••••• ••

servirá por sua vez como introdução a algumas tentativas de reatualização da temática hegeliana. embora simbólica. Prevalecerá uma hipótese na primeira parte do percur- so. sob o título "Luta pelo reco- nhecimento". com base no mo- delo do dom cerimonial recíproco. será guiada pela idéia ele uma resposta ao desafio de Hobbes. A reconstrução do tema da Anerkenmmg.elo central. de reconhecimento m útuo. resposta na qual o desejo de ser reconhecido ocupa o lugar do medo da morte violenta na concepção hobbesiana do estado de natureza. tal como foi articulado por Hegel na época de Iena. Essa reconstrução. a saber. o que m e dará a oportunidade de apresentar a hipótese segundo a qual a luta pelo reconheci- m ento se perderia na consciência infeliz se não fosse dada aos h u- m anos a possibilidade de ter acesso a u ma experiência efetiva. tratada como uma explicação de tex- to. Essas tentativas serão conduzidas até um ponto ele dúvida sobre a própria idéia de luta. que a Anerkennung hegeliana se dá a compreender como resposta a um desafio maior. o que Hobbes lançou ao pen- samento do Ocidente no plano político. o o:::J Ui w oa: w oa: UJ f- 165 •• ••••• .

o plano categoria!.. na medida em que podem ser percebidas como simultâneas no espaço. a noção de ação recíproca já constituía um problema: Kant a colocava na terceira posição entre as Analogias da experiência no quadro da Analítica dos princípios da Crítica da razão pura: após a substância.. a terceira Analogia era enunciada do seguinte modo: "Todas as substâncias. Da dissimetria à reciprocidade . "o esquema da comunidade (reciprocida- de). É notável que o princípio da ação recíproca também se ja chamado de princípio da comunidade ou até mesmo de comércio. O im- portante disso é que no plano temporal a simultaneidade l.. estão em uma ação recíproca universal" 1. sinô- nimo de permanência no tempo. a relação de reciprocidade não é evidente. ao tratar do reconheci- m ento como identificação. e depois da lei de causali- dade.. 167 ••••••• . B 183-4). ou da causalidade recíproca das substâncias em relação a seus acidentes. sinônimo de sucessão regrada. é a simultaneidade elas determinações de uma com a da outra seguindo uma regra geral" (A 144. No plano do esquematismo. No primeiro estudo.

Armand Colin. Lévinas. G. Nijhoff. fr. de Launay PUF. persiste como pano de fundo das experiências de reciprocidade e não deixa de fazer aparecer a reciprocidade como uma superação sempre inacabada da dissimetria. deliberadamente antiontológica. de Lévinas. •••••• . melhor ainda o comparecimento. em um segundo movimento. a de Husserl nas Meditações cartesianas 2 . como quando se diz que comparecem diante do tribunal o queixoso e o réu de um processo. Vrin. Peiffer. A dificuldade é of- z UJ assim aumentada pela passagem obrigatória pela constituição do alter ego.: trad. Husserliana I. gostaria de mostrar agora a novidade da categoria existencial de reciprocidade servindo-me de uma dificulda- de encontrada pela fenomenologia ao derivar a reciprocidade da dissime- tria presumidamente originária da relação do eu com outrem. ed. As duas abordagens possuem sua legitimidade e nosso próprio discurso não exige de modo algum que decidamos em favor de alguma delas. o que nos importa aqui é a seriedade com a qual cada um dos dois parceiros procu- ra superar a dissimetria que. O título egológico da consciência é atingido no fi nal da 2 (f) w o quarta Meditação . M. A quinta Meditação cartesiana representa a tentativa mais radical e mais audaciosa de dar conta do estatuto de alteridade do "estranho" a o::) partir do pólo ego e. nesse sentido. Como anunciei anteriormente. ir w ü ir w f- 2. 193 1. Trata- se de uma espécie de simultaneidade existencial no caso do reconheci- mento mútuo. 1991. em Totalidade e infinito e em Autrement qu'être ou au-delà de l'essence (De outro modo que ser ou mais além da essência). fr. prevalece sobre a sucessão. nova trad. :2 ü w A dissimetria é imposta pelo caráter originário da auto-suficiência I z do ego sob o regime da redução de toda transcendência natural a uma o ü w ir consciência transcendental para a qual toda realidade provém da auto- o I explicitação (Selbstauslegung) de m eu ego como su jeito de todo conh e- o o cimento possível. por implicação. Edmund HUSSERL. a outra. do estatuto derivado da f- ·::) 2 comunidade dos ego a partir da constituição do alter ego. de uma certa maneira. 1963. E. Haia. uma delas. o comércio intersubjetivo. permanece como u ma fenome- nologia da percepção. Cartesianische Meditationen und Pariser Vortrdge. Paris. sua abordagem é teorética. como é o caso na lei de causa e efeito. A fenome- nologia dá duas versões claramente opostas dessa dissimetria originária segundo ela tome como ponto de referência o eu ou outrem. 168 1947. é fra nca- mente ética e.

na amizade. Essa presumida "apreensão analogizante" permite falar em "apercepção". intuitiva. cuja experiência imediata. o ele uma relação que pode ser chamada de "apareamento" (Paarung). Ora. sem nenhuma referência a um outrem exterior a essa esfera . por fim. Entretanto. mas de transpo- sição pré-categoria}. 169 •••••• . precisamente do preenchimento dessa redução à esfera do pertencimento . se constitui em (in) mim e a partir de (aus) mim. por remissão a uma primeira criação de sentido que faz ela relação elo eu com o estranho uma relação do modelo com a cópia. das posturas. Qualquer que se ja sua denominação. Husserl tornou essa missão particularmente difícil ao levar a redução do ego ao ponto da "esfera do próprio". todas elas experiências que conferem uma espécie ele "preenchimento" existencial à noção ele origem lógica ele Paarung. a imaginação faz coincidir o "aqui" para ele com o "ali" para mim . como o solipsismo. de criação de pares. permanecerá para mim para sempre inacessível. ou "esfera de pertencimento". como ocorrerá com a descrição feita por Hobbes do estado de natureza . mas é precisamente como outro que o estranho é constituído como ego para si mesmo. ela qual podem ser encontrados exemplos na experiência sexual.que. elos gestos. no comércio de idéias. Coloca-se então a objeção do solipsismo. essa apreensão analogizante recebe um triplo reforço: em primeiro lugar. Ora. pré-intelectual. certamente recebido de fora . por outro lado. Essa mesma carne minha ofe- rece-se como análogon primeiro ele uma carne outra. ou ainda em "transferência (Uebertragung) aperceptiva". na falta de apresentação. uma con- firmação ela coerência consigo mesma ela existência estranha na concor- dância elas expressões.sairá a tentativa de solução do paradoxo ela constituição em mim e por mim do outro enquanto outro. na conversação comum. acrescenta-se. que enuncia a unidade ele um mesmo estilo. A constituição do fenômeno "outrem" apresenta então u m giro paradoxal: a alteridade de outrem. a noção de "apreensão analogi- zante" faz sentido a título não ele raciocínio por analogia. como um sujeito de experiência a mesmo título que eu. isto é. ela é a verdade insuperável da dissimetria originária no plano perceptivo e intuitivo. um franco recurso à imagina- ção: o outro está ali onde eu poderia estar se eu m e deslocasse: desse modo. como toda outra alteridade. desse ponto ele vista. tem o valor de uma fábula filosófica. centrada em m eu corpo de carne. sujeito capaz de perceber a mim m esmo como pertencendo ao mundo de sua experiência. temos. mas que o fenomenólogo transforma em um desafio inteiramente assumido.

não apenas como um outro diferente ele mim mesmo. que multiplicam até o cansa- •••••• . embora essas constituições em cadeia extraiam seus sentidos ela experiência origi- nária ele eu mesm o como ego. Pode-se iniciar um debate sem fim sobre as incontáveis variantes da idéia de "apreensão analogizante". multiplicado associativamente. pode-se seguir a 2 pista. Daí a lentidão calculada elos últimos 170 parágrafos ela quinta Meditação cartesiana. outra que requer a derivação do estatuto ôntico elas o u w comu nidades a partir elo estatuto elo ego. o eu e o outrem não "com- parecem" verdadeiramente. E é com base nessa experiência em oa: . apenas eu apareço. ela negociação entre duas exigên- ~::. Tem os a partir ele agora certeza ele que. O que H usserl procura fazer a: o aqui é o equivalente da monaclologia leibniziana. o outro. ele permanece apenas com o "percebido".:. nessa "sociologia intencional". no sentido analógico do termo. desse m odo. no sentido exclu- sivo do termo. outrem não permanece com o desconhecido para mim. por mais reais que se jam essas comunidades.:. para o fenomenó- logo é último enquanto constituído. presumido análogo. comum ela natureza que são edificadas comunidades intermonádicas: u a: UJ 1- aquilo que para o sociólogo é primeiro en quanto dado. mas com o um outro eu. elas jam ais constituirão o u m absoluto. Esses dois no- vos graus de constituição são pressupostos pela relação de reciprocidade. cias: u ma que requer o respeito às novas significações que o progresso da ü w I z análise descobre. Certamente. na reflexão. É preciso dar m aior importância às operações ele colocação em comuni- dade (Vergemeinschaftung) que retiram a reciprocidade ela assimetria. caso contrário eu nem sequer poderia falar sobre ele. Trata-se na verdade ele uma constituição em segundo grau: é preciso que o outro seja meu análogo para que a experiência do eu entre em compo- sição com a experiência ele outrem com base na reciprocidade. no sentido em que o é apenas. sou "apresentado". a analogia protege a incognoscibiliclade principiai da experiência para si do outro. como na constitu ição de primeiro grau. É com base nessa clissimetria ao m esm o tempo superada e preserva- ela que se constituem alternadamente u m mundo natural comum e co- munidades históricas que compartilham valores comuns. que cruza entre si pers- o pectivas m últiplas na experiência comum ela natureza. um alter ego. ela possui o m érito de preservar intacto o enigma da alteridacle e até m esmo ele exaltá-lo. nesse sentido. o ego cogito. Para essa fenomenologia há apenas um ego. 2 ·::J Aqui também. permanece "apercebido". no que Husserl o ~ cham a de "síntese de identificação".

acrescenta-se. que. O conceito dessa transcendência rigorosamente desenvolvida. tendo com o horizonte a "sociedade arcôntica elos sábios e elos filósofos" na qual haveria cons- cientização universal (universale Selbstbesinnung). p. que o olhar se inverte e se abre para "o brilho da exterioridade ou da transcendência no rosto de outrem" (Tota lité et infini. o vivido próprio do outro permanece para sempre inacessível a mim. no entanto. 3. inclusive as que são instituídas entre o eu e outrem em uma fenomenologia da percepção como a de Husserl. ao suspender a moral e ao interrom- per a continuidade elas pessoas. Não é que a questão do viver-junto. Haia. à qual damos o nome de mutua- lidade. aliás mal conhecido por Husserl. cada uma delas dotada do privilégio de gerir em seu nível a problemática do próprio e do estranho. até o final desse laborioso percurso. N ijhoff. a relação analógica não pode senão reiterar-se ele grau em grau . Totalité et Infini. O livro não se abre com uma meditação sobre a guerra. sob o aguilhão da escatologia da paz. que me faz outro entre os outros. prefácio. Desse ponto de vista. XIII). Com Emmanuel Lévinas a dissimetria originá ria entre o eu e o outro se desloca elo pólo outrem na direção do pólo eu . 171 • ••••••• . Será preciso. E é em um equ ilíbrio instável que a "explicitação" se mantém a uma distância igual tanto da descrição. pela graça da mediação do rosto. como da construção. oferece um simulacro da "ontologia ela totalidade" graças à pavorosa operação ele mobilização geral? E é com apenas um golpe. 1961. Mas.ço os procedimentos prévios: igualização dos pontos de vista. esteja ausente de Totalidade e infinito. tudo é dito em uma pá- gina. no sentido do empirismo ele tradição britânica. Em Totalidade e infinito\ a idéia de ser é assimilada ao processo de assimilação ele todas as diferen ças. elevação das comunidades históricas à condição de pessoas de grau superior. Essa inversão está ligada a uma reviravolta mais fundamental que coloca a ética na posição de filosofia primeira em relação à ontologia. um espesso volu me para operar efetiva- mente a inversão ela totalidade ontológica para o infinito segundo a ética. no sen- tido do idealismo alemão. a~ duas idéias de ser e ele totalidade recobrem-se e a de infinito é a exceção. "se expressa por meio do termo infinito". Emmanuel LÉVINAS. D e certa m aneira. Essai sur l'extériorité.

a lingua- G:i ü a: gem é justiça" (ibid. 8 I p. o 2 (/) que coloca em cena um terceiro. O exórdio ela guerra impunha sua consideração. A justiça.tema por meio do qual Hobbes inaugura a política dos modernos -. de uma elaboração distinta da problem ática do ter- 172 ceiro. p. Responsabilidade não é. p. não me atinge senão por meio do rosto w @ de outrem: "O terceiro olha para mim nos olhos de outrem . A questão elo viver-junto não está ausente de Totalidade e infinito. a linguagem.. Ela não instaura nenhuma história que constitua um sistema.. p. . o discurso são mantidos no lugar da relação. É a possibilidade do assassínio . pela não-violência da paz.. O livro é interrompido na obrigação de entrar no discur- a: o so e de deixar-se ensinar pela bondade. 160).. o eu não é ignorado. 198). O eu. possibilidade evocada já nas primei- o::> 1- -::J ras páginas sobre a guerra. Mas a epifania não é u ma apreensão analogizante e sim uma revelação sui generis. Ele não é dado à visão: "Sua revelação é palavra" (ibid. Ontologia: redu- ção do Outro ao Mesmo. que recurso e que socorro pode invocar a "resistência ética" (ibicl. p. Nesse sentido. em w !- Totalidade e infinito. • • • • • • • e . a ética do rosto isenta. cuja importânica o subtítulo elo livro salienta. z LU 2 178). ele possui sua consistência própria na identificação consigo mesmo que se fecha sobre a fruição de seu mundo. "A palavra se dis- tingue claramente da visão" (ibid. pois. p. afirmação ele ipseiclade. 169). Ele ensina: "Em sua transitividacle não violenta produz-se a própria epifania elo rosto" (ibid. p. que abre a questão da relação mútua. p. o rosto une transcendência e epifania. mas resposta que segue o modelo elo "eis-me" de Abraão. E até no frente-a-frente o rosto interpela. Nessa conquista de exterioridade. mas não é uma relação totalizante. interpelado. Se é 2 o 1- verdade que "Outrem é o único ser que posso querer matar" (ibid... "A assimetria elo interpessoal" (ibid. São conhecidas as páginas sobre o rosto. é arrancado de seu estado ele separação e de gozo de si e chamado a responder. 167). 173)? Totalidade e infinito não se confronta ao aspecto institucional z o o LU dessa resistência. O m esmo e o outro entram em uma relação cu jos termos jamais formarão uma totalidade. mas que ele se exprime. Em uma relação inversa à ela "apreen- são analogizante" segundo Husserl.. 22). A figu- I o ra subjacente do outro é a elo professor de direito que ensina. O eu está "em casa" nesse mundo em que habita. sobre o qual se diz que ele não aparece no sentido ele uma representação. O estranho é aquele que perturba o que está "em casa". Ele está "presente em sua recu- sa ele ser conteúdo" (ibid. 190) que estava no começo.

173 ••• •••••• . pois ela os julga segundo as regras universais e. o visível do político e o que deixa invisível o rosto: ao contrário da "crueldade dessa justiça impessoal" (ibid. pode dar conta da recipro- cidade entre parceiros desiguais. "é g ligar o destino da relação a ser estabelecida entre a ética da responsabili. à guerra e à paz e em geral às instituições. às leis.. As referências repetidas do autor à justiça. a de saber de que maneira uma filosofia da assimetria originária entre o eu e o outro. até mesmo em Tota- lidade e infinito. a fecundidade continua a ser ver- dadeira para além do rosto.. a relação meta- física do Eu com Outrem se molda na forma do Nós. que são a fonte da universalidade. Autrement qu'être ou au-delà de l'essence.a título de situação originária. Paul RICOEUR. ~2 ü5 (f) i5 (§ 4. 276). Há em Totalidade e infinito um "além do rosto"? Sim.. Autrement. p. Por fim. Nijhoff. Lecture d'Autrement qu'être ou au-delà de l'essence d'Emma- nuel Lévinas. o dito do lado da ontologia" 5• Se é verdade que a ética desregula o <( regime do ser . Paris. É como que em u m sonho que o terceiro é nomeado m ais uma vez. O tema desse grande livro é mais rigorosamente centrado que o de UJ Totalidade e infinito: "A maior aposta desse livro". ~ o. às instituições. Na medida em que o rosto de Outrem nos coloca em relação com o terceiro. 1997.. volta no final como verdade do discurso da fraternidade e da bondade. G dade e a ontologia ao destino da linguagem de ambas: o Dizer do lado da UJ a: ·<( ética. 1974. À desigualdade inicial responde a "Altura" da palavra que ensina. l. É o título da seção IV. parecem justificar a insistên cia desse questionamento. De outro modo que ser ou mais além da essência\ para receber uma resposta elaborada à questão que motiva minha leitura. lO. Mas a política deixada a si mesma carrega em si mesma uma tirania.é o sentido do advérbio recorrente "de outro modo" . 5. do infinito à totalida- de. à bondade. Uma relação na qual o eu e o outro se torna- riam intercambiáveis reconduziria. escrevi certa vez. com isso. a beldade feminina e a fecundidade. Mas seu lugar próprio é o de uma fenomenologia do éros que dá à leitura as preciosas páginas sobre a carícia. Ela deforma o Eu e o Outro que a suscitaram. como que por contumácia" (ibid. PUF. Será preciso esperar pelo livro que considero mais bem realizado de Lévinas. aspira a um Estado. p. Haia. indo para trás. assime- tria tomada a partir da primazia ética do outro. 277). p . nas páginas da conclusão: "A metafísica ou relação com o Outro se completa como serviço e como hospitalidade.

O tema do terceiro é imposto pela pró- pria posição do filósofo que escreve: o lugar em que ele está é o lugar do terceiro. "Devemos também nos lembrar ele que a pro- • • • • • • e ® . da tomada de refém 7 . contudo. Há aqui como que um crescen- do: perseguição. p. "O outro modo que ser se enuncia em um Dizer que deve também se desdizer para a: o arrancar dessa maneira o outro modo que ser do dito no qual o outro modo que ser começa a I não significar senão um ser de outro modo" (ibid. Pede- iij se ao 'ultraje'. p. que linguagem então convérn que não faça o Dizer recair no dito. p. concede o filósofo da dissimetria. expiação.e quando o vocabulário do ferimento infligido cede lugar ao vocabulário. de sobrelanço verbal. na temática em que a ontologia se articula. 178) signifique "a irremissibilidade da acu- sação" (ibid. Autrement qu'être . 3 3). ). .. 197). Ainda é preciso que o "traumatismo da persegui- ção" (Autrem ent qu'être . do sofrer por meio de outrem para o sofrer por outrem . A justiça é. a culpabilidade sem limites. . Eu observava em Autrement. perdão e proximidade"' f- (ibid. "acusação absoluta anterior à liberda- de" (ibid. 10). compaixão. isto é. p. isto é. Dostoievski pega o bastão de Isaías. oo 7.. em suma. Não é a admissão de que a ética desconectada da ontologia não possui uma linguagem própria? Essas hipérboles colocam o problema da linguagem à qual pode recorrer uma ética levada aos ex- tremos. .. tií essa comparação entre os incomparáveis8 . em um tom que pode ser considerado declarativo. do Coélet. no que uma semântica deno- mina enunciado? Não se corre o risco de pagar com palavras ao invocar o "desdizer"6 como sinônimo da anarquia do Dizer? E. quando se passa do tema da proximi- dade para o da substituição. para não dizer querigmático? Pode-se observar até mesmo uma espécie de escalada aos extremos. E a ocasião de sua evocação é a comparação entre os incompa- o F! ·::J ráveis: "É preciso haver uma justiça entre os incomparáveis" (ibid. de Jó. L 8I z § 6. responsabilidade. que ele signifique o apelo à benevolência: 'É devido à o a: w condição de refém que pode haver no mundo piedade. quanto ao essencial. ultraje.. Aqui. 8. . É essa questão suscitada que por si mesma coloca no caminho da hipótese de leitura concernente ao papel estratégico desempenhado pelo tema do terceiro no discurso feito pelo filósofo ao escrever De outro modo que ser ou mais além da essência. L o>. cúmulo da injustiça. "A política tende ao reconhecimento recíproco. p.. à igualdade. p. da perseguição. onde oferecia minha própria leitura de Autrement qu'êstre ~ oa: ou au-delà de l'essence: "Não sei se os leitores perceberam a enormidade do paradoxo que consiste em fazer dizer pela maldade o grau de extrema passividade da condição ética. ela garante a feli- 174 cidade" (LÉVINAS. Isso não é tudo. isto é. !86). substituição ao perseguidor.. 35). mais extremo ainda. diz-se algo quando se fala em proximidade.

Mas <{ o quem é o terceiro? O outro do outro? O que é diferente do outro? O u então. logo de saída. que ela só se transforma em justiça com a entrada elo terceiro" (ibid. em minha opinião. trata-se em cada uma das vezes de comparar incomparáveis e assim igualá-los. em vez de concluir.: üi ximidade não é. 84).. É com esse enigma que interrompo. julgamento ele justiça mas previamente responsabilidade por (J) o outrem. Quer se parta do pólo ego ou do pólo alter. p. esta traves- sia das dificuldades enfrentadas pelas duas versões da assim etria originária entre o eu e o outro. UJ o<{ o 8a: CL ü UJ a: ·<{ <{ ã: tw ::. lugar da verdade antes de ser lugar do Estado? Lugar do discurso sobre o mesmo e o outro? Lugar do dito da bondade? 175 .

o reconhecimento recíproco corre o risco ele jamais conseguir acabar com o desconhecimento. 177 •••••• . se ja seguindo-se a ele. O desafio de Hobbes om o término desta introdução categoria}. nas expressões ser-com ou ser-entre. o tema central da Aner- kennung hegeliana. segundo a qual o tem a ela Anerkennung ganha ao ser tratado como uma resposta de natureza moral ao desafio lançado por uma interpretação naturalista elas fontes ela políti. Abro este clossiê com a hipótese. sem esquecer a ponta subversiva da dis- simetria originária entre o eu e o outro. se ja precedendo-o. retomo ago- ra no plano temático minha tentativa de colocar em seqüência os "eventos de pensamento" que valorizam. já anunciada na intro- dução. no sentido ele negação de reconhecimento. Do mesmo m odo que o reconhecimento-identificação que vai do alguma coisa em geral rumo às pessoas singulares permanece confrontado à prova elo desconhecível. Com essas ressal- vas em m ente procurarem os responder diretam ente às exi- gências elas preposições com e entre. tão freqüentem ente evocado por Hannah Arenclt. esta última preposição está presente no interes- se.

que é em um certo sentido um traço comum a todas as filosofias morais e políticas dos antigos. no sentido m ais amplo de saber argumentado elo qual depende a natureza elo soberano bem. ciência "arquite- tônica por excelência. 2000.. Paris. iria modificar profundam ente essa relação ele homologia entre o bem elo indivíduo e o da cidade. O argumento é m enos de subordinação da ética à política que ele hierarquização entre os protagonistas envolvidos: "Mesmo que. na base elo viver- w L junto. André Enégren. existe u m motivo originariam ente m oral que H egel identificará ao u ~ zo dese jo ele ser reconhecido. é "manifestamente a Política". Gall imard. A releitura que faço aqui elo Leviatã2 não abarca a própria figura elo Leviatã na qual se resolve o enigm a criado pela teoria elo "estado ele na- tureza" no capítulo XIII dessa obra. 1094 a 24 ss. Tomo esse primado do político no sentido que lhe é conferido por Aristóteles.). Leo STRAUSS. Paris. no início da Ética a Nicômaco (Livro I.. Será a título ele teoria elo desconhecimento ü w a: originário que a teoria h obbesiana elo "estado ele natureza" será revisitacla. Não que essa hipótese de pensamento não tenha :::J lli tido preparação ou apoio na visão elo mundo e na doutrina do homem oa: üJ () a: w >- 1. ]" (Aristóteles cita a estratégia. c I O que eleve ser lembrado logo ele início é o caráter de experiên cia o o de pensamento da tese. 1992.. ca. poder designar Hobbes como o fundador da política elos modernos. Ao fazer isso. ele natureza". Marc de Launay. Belin. Cito a tradução do Léviathan de Gérard Mairet. Hobbes. com efeito. Não é a concepção hobbesiana elo o Estado que constitui o principal desafio ao qual Hegel responderá por :::J >- -:::J L m eio elo conceito ele reconhecime nto. haja identidade entre o bem do indivíduo e o da cidade. com efeito. a ponto de Leo Strauss. a retórica). de qualquer maneira é uma tarefa manifestam ente mais importante e mais perfeita apreender e salvaguardar o bem ela cidade: pois o bem certamen- te é amável para um indivíduo isolado. em La phílosophíe politique de Hobbes (A filosofia política de Hobbes 1). é saber se. diz-se. que conhece bem esses textos e os da Política que os desen- volve. A ciência. trad. mas ele é mais belo e m ais divino ao ser aplicado a uma nação ou a cidades" (ibid. ••••••• . a eco- n omia. La Philosophie politique de Hobbes. que segue Platão. 178 Z. é ela que dispõe quais são aquelas entre as ciências que são necessárias nas cidades [ . 1094 b 7-10) . admitimos tacitamente que a problemática do ser entre e com é de natureza fundamentalmente política. O que está em jogo. m as sim a própria teoria elo "estado o z>.

a glória. Leo Strauss.medo do roubo. do qual os procedimentos ele "resolução com- positiva" desenvolvidos pela escola ele Pádua constituem uma referência próxima. O espírito humano é diretamente apreendido como um feixe ele atividades regraclas pelo dese- jo. a segunda pela segurança e a ter- ceira pela reputação" (Léviathan. a desconfiança (diffidence ). assim como naquilo a que se pode chamar cotidiano do m edo .até mesmo nas sociedades consideradas civiliza- das. sem dúvida. Galileu e Descartes seu substituto mais poderoso. ele Euclides. seu primeiro modelo. 224 ). "A primei- ra leva os homens a atacar pelo lucro. que é igual a qualquer outro no plano passional. Que a descrição elo "estado ele natureza" consiste em uma experiên- cia ele pensamento é algo que é confirmado pelo fato ele que os traços que acabo de colocar sob o título elo desconhecimento originário não resul- tam da observação ele u m estado de fato. Mas a radicalização que instala o medo da morte violenta na origem desse empreendimento constitui enquanto tal uma "experiência ele pen- samento" imprevisível no céu elas idéias políticas e morais.que lhe é solidária. elo assalto. Mas sem comparação tampouco haveria a inimizade que conduz os homens 179 •• •••••• . Essa imaginação encon- tra. que encontra nos Elementos. Uma vontade ele demonstração. Essa oI w igualdade por natureza elos humanos entre si é afirmada desde a primeira o oü: frase elo capítulo intitulado "Da condição elo gênero humano ao estado ~o ele natureza relativamente a sua felicidade e miséria". o mens fazem é mais importante do que aquilo que eles pensam ser. indícios convergentes na realidade elas guerras entre Esta- elos e nos episódios ele subversão no interior elos Estados. do assassinato . São conhecidas por seu próprio nome as três paixões primitivas que juntas caracterizam o estado ele natureza como "guerra ele todos contra todos". São a competição. é verdade. Aqui o que os ho. p. está com a razão ao dizer que a teoria elo "estado ele natureza" encontra no materialismo físico antes uma jus- tificação a posteriori que uma fundação necessária. guiado por uma capacidade de cálculo sem a qual não seria possível a cadeia ele argumentos que conduz do me- elo da morte violenta rumo à conclusão elo contrato elo qual nasce o deus mortal figurado pelo Leviatã. além disso. descobre tardiamente no espírito e na prática elo método segundo Bacon. [3 ro ro por comparação. enquanto este é. É digno ele nota que nenhuma dessas paixões é concebida sem uma referência à outra: cada um sabe. mas da imaginação do que seria a vida humana sem a instituição ele um governo.

Seguem-se os exemplos extraídos do cotidiano elo m edo. sem o estabelecimento dessas leis. Hobbes retom a sobre o caminho percorrido: "Pode pa- recer estranho àquele que não pesou bem as coisas que a natureza disso- cie assim os humanos tornando-os capazes de atacar-se e de matar-se uns o::J aos outros. p. animal e breve". no capítulo XIV. O "um ao outro" (one another) é nesse sentido uma estrutura da negação do reconhecimento que encontra na desconfiança sua experiência mais aproximada. perigosa. "na natureza elo tempo que ele faz" (a palavra "tem- po" ainda é tomada. 225). miserável. Nesse sentido. Leo Strauss pode afirmar que. M as não é do ponto de vista da paz que há esse assombro? ü UJ I z O desafio hobbesiano não seria apreendido em todo o seu alcan- 8 UJ ce se não fossem completadas as observações sobre o "estado ele nature- a: o za" no capítulo XIII com as que são colocadas sob o título das "leis natu- I 8::J rais". Após descrever que "a viela humana é solitária. o estado ele natureza conteria em si a antinomia originária entre vaidade e medo da morte violenta. Hobbes introduz nesse momento uma referência curiosa ao tempo: "Como é o caso". o soberano não é contratante. esclarece ele. mas que ao menos enga je todos 180 esses humanos que no estado ele natureza ignoram o exercício da avalia- •••••• . fonte ele ilusão. UJ :::. E u interpreto: o desconhecimento sabe-se negação desse reconhecimento chamado paz. p. a emergência elo Estado permaneceria ü a: incompreensível: ora. o m edo ela m orte constitui o princípio de verdade elo qual derivam as medidas racionais que conduzirão ao contra- to político decisivo. a "tendência ao mau tempo" só faz sen- tido em contraste com um outro tempo favorável: "Todo outro tempo é a paz" (ibicl. que já impõem tudo ao oa: üJ resultarem elo estado ele natureza. e com as "outras leis ela natureza" elo capítulo XV. no duplo sentido ele lapso ele tempo e de intempérie). no inglês elo século XVII. U m outro traço digno de nota do ponto ele vista ele nossa releitura em termos de negação de reconhecimento dessa descrição da condição do gênero hu- mano no estado ele natureza: não é possível pronunciar a palavra "guerra" (tomada da experiência histórica) sem vinculá-la à palavra "paz".. e na vai- dade sua motivação mais profunda. a "se eliminarem ou a sujeitarem-se um ao outro". § Com efeito. 226). f!:' é verdade. em relação à vaidade (um outro nome ela glória). Ora.. ele pode não aceitar tal dedução feita a partir das paixões e -~ talvez dese je que a mesma coisa lhe se ja confirmada pela experiência" :::. é preciso que ele provenha ele um contrato elo qual. 2z (ibid.

em exercer a punição. concebida como uma "faculdade" que abre para os "poderes" sobre os quais acabamos de falar. que Hobbes recusa abertamente na definição que ele oferece no começo de seu capí- tulo XIV: "O 'direito ele natureza' que os escritores políticos chamam co- mumente de jus naturale é a liberdade que cada homem tem de usar seu (f) UJ 3. O próprio Grotius não deixa ele vincular esse dom s:ffl natural à natureza social elo homem: caso contrário. como este é necessário à conservação de si. Este publicou o De jure bellí ac pacís em 1625. e Santo 1omás.-Ch. A permissão não é. no final elo capítulo XIII. 228).foi um desafio para os teóricos do direito natural que vieram depois dele. ZARKA. sobre os quais [os humanos] se colocarão em acordo. nesse ponto sensível do argumento. En- contra-se em Grotius. Ele designa sob esse título uma via não-cartesiana. "é preciso que ele seja permitido". Devo aqui registrar minha dívida com Y. autor de L'Autre vaie de la !D !D subjectivité. essa via é logo ele saída intersubjetiva no modo expresso ela ação recíproca. em reparar danos. a ela o I "invenção elo sujeito ele direito de Grotius a Leibniz" (p. Esses artigos são os que ch amamos ele 'lei de natureza"' (ibid. como falar em respeitar o bem ele ou. Suárez. Surge. 181 •••••• . Permanece o medo da morte para reger as avaliações em termos de permissões evocadas no final do capítu- lo XIII. 2000.ção em termos de preferível moral. o aumento do poder sobre as pessoas. p. Paris. Mas o que é a pessoa? Se o jus naturalis abre uma outra via ela subjetividade. enquanto o Levíatã data de 165P. ataque preventivo. O que é permitido é m edido pelo que requer a própria conserva- ção de cada pessoa. UJ o 4. Falar em "leis ela natureza". A razão aqui invocada não é nada mais que o cálculo suscitado pelo medo da morte violenta. O que é preciso compreender. nada mais que o último elo ela corrente: vaidade. a seguinte definição elo direito: "Uma qualidade moral ligada à pessoa [qualítas moralís personae] em vir- tude ela qual se pode legitimamente ter ou fazer certas coisas [competens ad alíquíd juste habendum veZ agendum] (L'Autre voíe de la subjectívíté. mas que também o precederam na pessoa ele Grotius. tendo como pano de fundo o "estado de natureza". a teoria de Hobbes ."estado de natureza" e "direito de natureza" adiciona- dos . a exi- gência que será satisfeita pela idéia ele "direito ele natureza" elos capítulos XIV e XV: "A razão sugere os artigos ele paz adequados. . o o trem. 3). p. Beuchene. os pensadores do jus naturale. a saber. 9t É essa qualidade moral da pessoa. no pano ele fundo. citado por Zarka. é para Hobbes penetrar no terreno de seus grandes rivais. insistiam que a justiça envolve o a igualdade: aquilo que se iguala se aj usta. antes de se tornar um desafio para Hegel. é que. em manter a palavra dada. seu modelo. Terceiros são implicados a cada vez. pois. desconfiança.

com efeito. entramos no domínio do contrato. do direito . de permanecer desconhecida assim que se dá à proibição subjacente a figura visível de uma série de "preceitos" (Hobbes enumera nada menos que dezenove deles !) em que o primeiro ordena que a paz seja "procurada e mantida". isto é. de dom gratuito. e o segundo que se "abandone o direito próprio sobre toda coisa". próprio poder. 230)? É aqui que reside a sutil virada que permite distinguir a lei. que o o ü lU cálculo recomenda sob a pressão do m edo. nos jusnaturalistas. "abando- nar o que se tem sobre algo. como compreender que essa liberdade positiva se trans- forme em proibições. os epítetos "recíproco" e "mútuo" são pronunciados sob o signo não ::J >- ·::J mais elo estado ele guerra. p. pois o ••••••• . Pela primeira o vez. de transferência. quer se trate de aban- ~ 2 dono. Por sua vez. observa Hobbes. ou que o priva dos meios de preservá-la. e de negligenciar fazer aquilo que ele pensa que a preservaria melhor" (ibid. sem com isso renunciar a "nos defendermos a nós mesmos por todos os meios possíveis". pela "qualidade moral da 182 pessoa". desfazer-se da liberdade que se tem de im- pedir um outro de se beneficiar do direito que é seu sobre essa mesma coisa" constituem preliminares a todo ato ele fazer contrato. mas da busca da paz. e em primeiro lugar a "proibição de fazer o que destrói a sua própria vida.. excedendo I o assim todo contrato: "Não se trata aqui de contrato". palavras que significam uma o rr üJ única e mesma coisa" (ibid. tudo aquilo que ele conceber como sendo o melhor meio para esse fim" (Lévíathan. Mas.. daí provém a primeira obrigação. Com desvios sub-reptí- 2 o cios e sutis. o ~ lU "mas de dom. que proíbe. que autoriza e permite. Isso posto. a ele não impedir esse outro de se beneficiar da transferência. segundo seu julgamento e sua razão próprios. p. esse abandono de um direito se divide em renúncia simples e em trans- ferência em benefício de um outro. sem reciprocidade. por conseguinte. É nesse ponto que a lei se dissocia francamente do direito. 236). p. O abandono do próprio direi- rr o to pode chegar até o dom gratuito. em outras palavras. A promessa é mobilizada pelos preceitos da lei da razão. de sua própria vida e. não se trata de modo algum de coer- [j LU I z ção moral e sim de precaução inteiramente voluntária e soberana. da maneira que quiser. Essa diferença entre direito e lei corre o risco. de graça. A motivação não-ética não pode de ü rr modo algum ir mais longe no mimetismo da motivação ética que susten- lU 1- taria a definição do direito. 229). de fazer. para a preservação de sua própria natureza. O contrato elo qual nascerá o Estado seria incompreensível sem esse "preceito". porém. de contrato.

corno as de transferên cia de direito. o direito inalienável a resistir. sob a regra elo Estado. para tornar plausível a idéia de urna desistência da totalidade dos direitos individuais em benefício elo único príncipe sob a condição de que essa desistência fosse recíproca. p. Da longa enumeração elas "outras leis ela natureza" (capítulo XV). A falta a esse preceito é o orgulho". 242).dom gratuito está ligado ao futuro: "Quero que isto se ja teu amanhã e quero dar-te isto amanhã" (ibid. p. que introduz expressam ente como termo técnico o acknowledgement: "Que cada um reconheça o outro corno seu igual por natureza. portanto de liberdade e de poder. corno foi observado ante- riormente. as convenções que foram feitas são obrigatórias" (ibicl. mas enqua nto consentida. Quanto à promessa. constitui o vínculo de toda a corrente elas noções percorridas. Essa simples declaração fecha o paradoxo elo conceito de "direito de natureza". curiosa- mente. À 183 • •••••• . caso o o soberano eleva ser uma pessoa única que representa urna multidão. À unilateraliclade da transferência se acrescenta a reciprocidade do covenant: "No estado de natureza. segundo a lei da natureza. pode susci- tar tal afastamento entre o direito que se vincula à liberdade ele poder fazer tudo o que a conservação ela viela recomenda e as leis e preceitos que vinculam obrigações a tudo o que provém elo abandono voluntário do direito: transferência. graças ao abandono unilateral do direito e ao ~ w contrato recíproco que este último torna possível. Esse pretexto. tinha necessidade dessa idéia de abandono unilateral do direito próprio de cada homem. A transferência de direito. portanto ceder. de contrato e de promessa. contrato. sem dúvida. em troca de um bene- fício anteriormente recebido: um covenant é implicado ao final dessa série de atos contratuais. é feita a um outro ao qual se promete dar algo amanhã. A mutua- lidade estava inscrita na definição elo contrato. limita a desconfian ça se. retenho apenas a nona. Hobbes. reconhecida. faz coincidir a lei da natureza com o estado ele natureza: a igual- dade originária é reafirmada. falta a nova definição ela pessoa que responde à ele Suárez e de Grotius. Corno o cálculo. covenant? A única conven- ção nula e vazia é aquela por meio ela qual eu renunciaria a recorrer à força para defender-me contra a força. se ela não é mútua.. (!) ~ C!l gundo o estado de natureza. o o ~ Ainda falta uma condição indispensável à definição elo Estado pelo abandono elo direito que cada um tem ele governar a si mesmo. promessa.. 237). O acknowledgement. motivado pelo medo. disso resultará.

desse o deus mortal ao qual devemos. nossa paz e n ossa I g defesa" (ibid. no início elo capítulo XVII ("D as causas da geração e da definição do Estado"). como papel. do autor para o ator. como ator. acrescenta-se . abaixo do deus imortal. . em latim CIVITAS . por representação e m andato. As palavras fortes. com a qual encerraremos nosso per- o curso hobbesiano. Disso deriva a autoridade. À transferência resultante elo abandono de seu direito por parte de uma pessoa natural sobrepõe-se a transferên- cia. 276). todos os com- oa: ü:i ponentes da promessa mútua que faz que o Estado repouse sobre u m ü cr: compromisso de todos com todos pela palavra. ou antes (para falar com maior deferência). 2z nar a mim m esmo. como representante vicário. é chamada ESTADO. condição de :::J l- f{] reciprocidade. e autorizes todas as suas ações. Feito isso. pessoa natural "que possui" em si suas palavras e seus atos. e das coisas personificadas"). em benefício ele uma só pessoa. é a unidade do representante.a pessoa fictícia ou artificial que "represen- ta" as palavras e os atos de um outro.. um retorno à etimologia: a pessoa como máscara. UJ I- Se percorrermos a contrapelo o caminho da argumentação hobbe- 184 siana. cessão. ao contrário do autor proprietário das pró- prias palavras e ações. pretende Hobbes no capítulo XIV ("Das pessoas. A definição do Estado. e lhe cedo m eu direito de gover- ·:::J ::. É. Essa é a geração § a: desse grande LEVIKrÃ. autores. de tal modo que isso se ja feito com o consentimento de cada um dos indivíduos particulares e dessa multidão. que torna a pessoa una. assim unida em 8I uma pessoa só. sob a condição de que também lhe cedas teu direito UJ ::. proveniente de um mandato que autoriza. apaná- gio ela pessoa fictícia ou artificial. autorização. Passamos sub-repticiamente elo natural ao artificial com a idéia ele pessoa fictícia ou artificial e ele tudo o que decorre disso: essencialmente o ordenamen- to do múltiplo ao uno por intermédio ela idéia de representação. O representante é o suporte da pessoa e ele é o suporte de apenas uma pessoa: a unidade em uma mul- tidão não pode ser entendida de outro modo" (ibid. Não estamos longe da definição do Estado: "O s humanos em multidão formam uma pessoa una quando são representa- dos por um único homem ou por uma única pessoa. a multidão. não a unidade do representado. 288). p. já estava preparada havia muito tempo: "Autorizo este ~ homem ou esta assembléia ele hom ens. p. da pessoa natural para a pessoa artificial.e este é o ponto crítico . a impressão que tivemos inicialmente elo "desafio de Hobbes" ele- ••••• • . Com efeito. em suma. retomam.

corrigida. as noções ele abandono ele direito. como parecem exigir as noções de transferência. por Zarka. com a idéia ele que o ob jeto de direito "é tudo aquilo que importa a outrem que lhe façamos e que está em nosso poder" (cit. antiética. Ouer se trate ele "não prejudicar ninguém. e o ele uma ordem contratual. ele entrega elo poder carregam a marca ele um voluntarismo virtualmente arbitrário. O que ocorreu. a falha reside na ausência de uma dimensão de alteridacle na seqüência elos conceitos que culminam na idéia ele covenant. mas a parte de altericlacle que coopera com sua ipseidade. no meio do caminho. de tanto que imitam as regras de uma moral da obrigação. L'Autre vaie de la subjectivité. com o motivo do medo da morte violenta? Basta. Caberá a Leibniz recolocar o outrem no âmago dessa relação ele di- reito. p. oI w prazer com a felicidade elo outro". Não é tanto a identificação como si dessa pessoa que faz falta (Locke remediará isso). Em minha opinião. e. carregar todo o edifício de contratos e promessas que parecem reconstituir as condições de um bem comum? Essa dúvida faz que o desafio de Hobbes seja duplo: o ela pre- missa naturalista. esse ator que desempenha o papel ele um outro que ele representa. por intermédio do cálculo. para a pessoa artificial. mas tam- bém a junção entre ipseidade e alteridade na própria idéia elo direito. a dissociação entre o direito como liberdade sem limites e a lei fornece- dora de proibição deu lugar a preceitos que podem ser denominados paraéticos. Partin- do de premissas naturalistas ("a natureza fez os homens iguais quanto às faculdades do corpo e do espírito" etc. Nenhum ataque proveniente de outrem justifica essa entrega do poder. 983) . nesse sentido. A mesma carência pode ser obser- vada na passagem da pessoa natural. até mesmo ele "fazer ela felicidade do o o ü: outro a nossa própria felicidade". mas cuja finalidade continua a ser a preservação do próprio poder.verá ser consideravelmente matizada ou. ele contrato. 185 ••••••• . ele caráter paraético. Em primeiro lugar. É o cál- culo suscitado pelo medo ela morte violenta que sugere essas m edidas que têm uma aparência ele reciprocidade. melhor ainda. dessa pessoa que ainda é o autor. "o possuidor de suas palavras e [seus] atos". (f) UJ [!) [!) de atribuir a cada pessoa o que lhe cabe" ou mais fortemente "ele se com. todas essas fórmulas leibnizianas atestam <[ (f) w o que não é somente a invenção elo sujeito de direito que é importante para o a nossa história conceitual da idéia ele reconhecimento mútuo. ele covenant.) e da definição aparentemente transparente do estado de natureza como "guerra de todos contra todos".

2000 (co!. nessa duplicação ela subj etivida- de consiste o fundamento da filosofia política que encon- I. Hegel em lena: Anerkennung filosofia política de Hobbes foi colocada anteriormen- te sob o signo do desafio: com efeito. Passages). herda- da de Fichte (como veremos mais adiante). Essa determinação recíproca da relação entre o si e a intersub jetividade. satisfaz a essa exigência em três aspectos1• Em primeiro lugar. segundo o resumo proposto por Leo Strauss. considerado em todo o seu desenvolvimento. Pierre Rusch. trad. Cerf. Como Axel Honneth observa no começo ele seu livro consagrado à luta pelo reco- nhecimento. Grammaire morale des conflits sociaux. a questão é saber se uma ordem política pode se fundar em uma experiência moral que se ja tão originária quanto o medo da morte vio- lenta e o cálculo racional que este opõe à vaidade. constitui o prin- cípio da resposta a Hobbes. ele garante o vínculo entre a auto- reflexão e a orientação rumo ao outro. Axel HONNETH. Paris. 187 •••••• . La Lutte pour la reconnaissance. o conceito ele Anerkennung.

trou sua primeira articulação nos fragmentos filosóficos de Hegel em Iena entre 1802 e 1807. as ~ w crianças e até mesmo os comerciantes. como é dito no famoso prefácio da Fenomenologia do Espírito. com cada conquista ••••• • . 2 f2 Por sua vez. a dinâmica de todo o processo procede elo pólo negativo rumo ao pólo positivo. Na mudança de Iena para Berlim. o tema hobbesiano da luta mortaL Em terceiro lugar. Assim será reinsericlo em um percurso eminentemente espiritual. na medida em que nele se encontra a expressão maior elo papel atribuído em geral à negatividacle na filosofia hegeliana. elas abrem uma história ~ w da luta pelo reconhecimento que continuará a fazer sentido em nossos !-- dias enquanto a estrutura institucional do reconhecimento for insepará- 188 vel elo dinamismo negativo ele todo o processo. Em segundo lugar. a obra que encerra com brilho o período ele Iena. Hegel não ces- sará ele diversificar esse processo de institucionalização do reconhecimento até sua estabilização definitiva nos Princípios da filosofia do direito.__ ·::J tuto do conceito de artifício em Hobbes. ela constitui a resposta por excelência ao artificialismo que. encontra sua primeira expressão na dis- tinção entre pessoa natural e pessoa artificial e culmina na fabricação elo grande artifício que é o próprio Leviatã. a teoria do reconhecimento extrai seu aspecto sistemático ele sua articulação em níveis hierárquicos corresponde ntes a instituições específicas. o conceito hegeliano de Sittlichkeit. Na medida em que essa hierarquização é imanente ao pró- prio processo elo reconhecimento. no Leviatã. do menosprezo rumo à consideração. Sua irrupção no plano prático será marcada pelo poder regenerador atribuído ao cri- me no plano jurídico. pode ser considerado o substi- o::J . de 1820-1824. são compromissos 2 8I históricos entre as exigências espec ulativas e a experiência empírica. as esferas específicas de reconhecimento distinguidas ib por Hegel não constituem configurações imutáveis. a negatividade ética e prática se desenvolverá ao longo de figuras de transações entre humanos. no sentido hegeliano ela palavra. O mesmo ocorre com as elabo- oa: w rações sucessivas da Anerkennung em Hegel. na Política. a concepção de base da a: o justiça como igualdade se compõe com os limites históricos ele uma I oo sociedade censitária da qual estão excluídos os escravos. de Aristóteles. ela injustiça rumo ao respeito. ele "vida ética". as mulheres. Desse ponto de vista. do z o u UJ mesmo modo que. Esse segundo componente ela noção de reco- nhecimento mútuo é tipicamente hegeliano.

até a última. Princípios da filosofia do direito. Quanto a mim. era preciso. retroceder até os fragmentos da época de Iena em vez ele dar uma seqüência aos trabalhos de Alexandre Kojeve. nas in- terpretações contemporâneas que visam sua atualização graças a u ma nova combinação entre exigência espec ulativa e pesquisa empírica.institucional respondendo a uma ameaça negativa específica. que doravante está frente a frente com o medo da morte violenta. que no estudo precedente era colocado na posição de princípio. o papel preenchido pelo medo ela morte violenta em Hobbes. em sua apresentação ele O 189 • ••••• . a indignação preench e. ba- seio-m e nos trabalhos ele Jacques Taminiaux. traba- lhos que tomavam como referên cia a Fenomenologia do Espírito e atri- buíam assim à luta entre o senhor e o escravo o lugar que conhecemos. sobre esse ponto. Desse modo. essa corre- lação entre nível de injustiça e nível de reconhecimento ilustra o adágio familiar segundo o qual sabemos mais sobre o que é in justo que sobre o que é justo. a denominação que lhe convém. Dito isso. mas também sua virulência subversiva. é colocado agora na posição ele resultado em rela- ção à grande dialética que articula uma sobre a outra negatividacle e institucionalização. Acabamos de dar ao motivo originário. o LU _J LU preço a ser pago é uma leitura trabalhosa que torna os não-especialistas aL>J I tributários ela reconstrução feita pelos especialistas. a aposta era que ao se confrontar com o tem a do reconhecimento em seu estágio incoativo o leitor poderia esperar ver trazidos à luz elo dia recursos ele sentido que não teriam sido esgotados pelas obras acabadas mais tar- dias. permanece preservado nessa história ela luta pelo reconhecimento é a correlação originária entre relação com o si e rela- ção com o outro que dá à Anerkennung hegeliana seu perfil conceitual reconhecível. como os pesquisadores na linha em que eu próprio me situo. até mesmo provocador. a forma passiva do verbo "reconhecer" é essencial. na medida em que o reconhecimen- to por si ele cada indivíduo. Mas o que. a de desejo ele ser reconhecido. na qual o tema do reconhecimento e elo ser reconhecido perdeu não apenas sua densidade :2 de presença. em uma fil osofia política fundada na exigência de reconhecimento. o autor ela fa- mosa Introdução à leitura de Hegel (aulas dadas ele 1922 a 1930). Em compensação. as formas incoa- tivas da teoria do reconhecimento nos escritos hegelianos do período de Iena ainda mantêm seu poder polêmico. Nessa expressão lapidar. mais que tudo.

e trad. G. de HegeF (crítica da política). Paris. De Kant é recebida a idéia de autonomia individual como exigência moral prim ordial. ex- trai-se a intenção ele reorientar a idéia ele luta. A luta pelo reconhecimento.. F. no sentido de uma luta pelo reconhecimento recíproco.: 8:r: te idealista que atribui à consciência a capacidade de gerar estágios suces- z sivos de autocliferenciação escandiclos pela luta pelo reconhecimento. consagrada essencialmente à "reatualização sistemá- tica" dos temas ligados aos dois fragmentos cujos títulos foram citados acima. além ela pri- m azia da pólis sobre o indivíduo isolado. A situ ação ele pensamento na qual se encontra Hegel. 3. 1984. o ideal ele uma unidade viva entre a liberdade individual e a liberdade universal. 1976. 1805-1806. e em seu livro Nas- cimento da filosofia hegeliana do Estado\ assim como na "recordação h is- tórica" que constitui a primeira parté da obra de Axel Honneth. ela confrontação com Maquiavel e Hobbes. a luta pelo reconhecimento ocupa o lugar ocupa- elo pela desconfiança que o Galileu da política coloca no centro da trilo- gia das paixões que alimentam a guerra de todos contra todos. D esse ponto ele vista. Jacques TAMINIAUX. Systeme de la Vie éthique..: residual em virtude elo qual as primeiras figuras do reconhecimento perma- o 1- zWJ necem colocadas sob a égide da natureza para uma concepção francamen- :. a passagem de um fragmento o:::J para outro elo período ele Iena será também a da transição elo aristotelismo 1- ·:::J :. que Hobbes interpreta como luta pela sobrevivência. coment. de muitos pontos ele vista. 190 ela Realphilosophie de Iéna. H EGEL. E m segundo lugar. sistema da vida ética. coment. após os escri- tos ele juventude propriamente ditos e os do período de Frankfurt. Da admiração precoce pelo mundo grego. Jacques Taminiaux. pensável não apenas fazer a luta pelo reconhecimento tomar o lugar da WJ oa: Gj oa: WJ 2. 1- Payot. ••••• • . Paris. A esse título. e trad. W. Naissance de la philosophie hégélienne de l'État. o o UJ a: Mas é ela releitura feita por F ichte ela grande tradição do direito na- o oo I tural que Hegel é mais imediatam ente devedor: sem ele. Hegel retém . Payot. A convicção de que é nos costumes existentes que se prefiguram as estruturas de excelência graças às quais as formas modernas ela moralidade e do direito fazem eco às virtudes ela ética elos antigos. teria sido im- :::J t. sem consideração por sua eventual inserção nas forma- ções históricas suscetíveis ele lh e dar uma dimensão social e política. as nossas. pode ser caracterizada pelas h eranças que são honradas e que ainda são..

mas também incluir esta última na dialética entre auto-asserção e intersubjetividade. denominado por Fichte "Identidade". isto é. pode-se dizer que os escritos ele Iena consagram esse conluio inesperado entre Hobbes e Fichte. trabalhada pelo trabalho ele retorno ao absoluto. é no plano elos poderes "naturais" que opera pela primeira vez a grande dramaturgia da viela ética. ela é aqui a da Natureza. está aqui o núcleo ele um primeiro modelo ele reconheci. Ao contrário da obra poste- rior que interrogaremos mais adiante. de uma pluralidade ordenada ele modelos de reconhecimento. que anuncia o tema. à Totalidade. Somos confrontados a uma multiplicidade de indivíduos portadores de um Trieb. essa questão induz à primeira vista a uma resposta negativa: todo o aparelho especulativo se estrutura a partir ela figura elo absoluto. As palavras-chave são "indiferença" (no sentido ele não- diferenciação). que será mais adiante o nosso. ele u ma pulsão. "universalidade" e "partic ularidade". sob as figuras múltiplas do laço familiar e em proximidade com a idéia ele poder natural. a diferença entre desejo e gozo. No fragmento aqui considerado. ele uma espécie de ontoteologia na qual rivalizam Fichte e Schelling. sob a condi- ção ele um distanciamento em relação à instância unificadora que justi- fica o título: "Viela ética segundo a relação". de "costumes". sob a rubrica A. a articulação do trabalho com base na posse. este último ainda contava com a concordância ele Hegel nos anos 1802-1803. 191 •••••• . Essa dramaturgia prefigura a viela ética absoluta. o aniquilamento elo estado de gozo na posse efetiva. identificada em termos é ticos. Nesse sentido. O reconhecimento é o tema diretor elo Sistema da vida ética? Colo- cada nesses termos. o trabalho. em nome ela preeminência ela intuição sobre a conceitualiclacle e em virtude ela absorção ela segunda pela primeira. e por fim retorno à totalidade. Se o tema ela luta pelo reconhecimento pode reivindicar para si o patrocínio desse texto fragmentário. em que a identidade-totalidade é arrancada da indiferença inicial para reconduzir à identidade-totalidade. Os leitores contemporâneos gostam de m arcar o lugar de honra atribuído ao amor. Os graus ele satisfação desta ou daquela relação pulsional suscitam uma hierarquia ele "poderes" que nos faz encontrar sucessivamente a necessidade natural. Estamos no âmago de uma especulação muito afastada ela empiria. na qual a linguagem será definiti- vamente a elo Espírito. Un\ ~íSi6a~e Fc~~ta\ r~" r?J~J Blblloteca Ce:t+"''1 luta pela ~obrevivência. isso se deve ao papel atribuído à cisão no processo especulativo. Além disso. é mais precisamente o dina- mismo dos "poderes" hierarquizados.

m as sempre no âmago ela :.é o reconhecimento elo outro como 'con- ceito absoluto'. a segunda relação é retoma- i5 ela na universalidade.:. H egel não encerra sua pesquisa sobre os poderes ela ü a: UJ natureza sem dar uma segunda chan ce às figuras positivas já nomeadas 1- elo ser natural. o con- trato. p . as mesmas figuras da vida ética "segundo a relação" são retomadas do ponto de vista do domínio da universalidade e do reino do direito. 137-139). da violência dos elementos. a inquie- 2 8 I tadora instabilidade desse reconhecimento.esse é o reconhecimento ela pessoa . por sua vez.. idealidacle. 59). Com a troca. 137). ser livre em relação à diferen ça é ser senhor". mas a sombra das forças negativas naturais projeta-se sob as figuras da n ecessidade. contemporâneo no plano es- z o S:l peculativo da relação ele dominação-servidão (cujo destino ela Fenome- a: o nologia do Espírito é conhecido). portanto ela propriedade . É esse momento que introduz a rela- ção de dominação e de servidão.. e do homem contra a natureza. 2 própria singularidade. da morte. pode-se falar em reconhecimento da pessoa: é a primeira ocorrência da palavra "reconhecimento" n esse fragmento (Systeme de la vie éthique. gerador. O "poder" ainda é descrito em termos positivos. em outras palavras. no conceito elo primeiro" (ibicl. retomadas sob o signo da universalidade em ação. 128). mas é um reconhecimento ainda formal ao qual falta o momento da diferença. o ela "infinidade. a relação ele troca e elo reconheci- mento de uma posse.a qual até agora se re- o ::J f- ·::J feria ao singular -. do enfrentamento dos homens uns contra os outros. Taminiaux. é salientada pela expressão "viver desi- o gual" que o texto comenta elo seguinte modo: "Ser fixado na diferen ça é o 2 (f) ser servo. torna-se aqui totalidade. p. 192 a família é denom inada "a totalidad e mais alta de que a natureza é ca- ••••••• . comenta isso nos seguintes termos: "Por isso o reconhecimento elo indivíduo enquanto vivente . de um negativo específico ao qual uma seção ulterior será consagrada sob o título "Crime". p . WJ oc: [ij E ntretanto.o primei- ro é o poder da natureza e o segundo. 'ser livre'. Lê-se o seguinte: "O terceiro poder é a indiferença daqueles que precedem . Sob a rubrica B. mento mútuo sob a rubrica A desse primeiro percurso de múltiplas arti- culações. poder m ais alto do reconhecimento por- que real enquanto o precedente é apenas ideal e formal" (p. Assim. 'possibilidade de ser o contrário de si m esmo em relação a uma cleterminiclacle'. em Naissance de la philosophie hégélienne de l'état (Nascimento da filosofia hegeliana do E stado). no formal e na relação" (ibicl. A expressão volta a aparecer no título do terceiro poder .

o racional da relação. indo do ponto ele vista estático da constituição do povo rumo ao ponto ele vista dinâmico ele sua governança. intercalado entre "A vida ética absoluta segundo a relação". O discurso atravessa uma série ele virtudes atribuídas a instâncias (Stéínde) distintas: são a bravura.). O contramovimento que ele suscita. ávido por conhecer por fim o que mere- ce ser chamado de vida ética absoluta. ela espoliação. na perspectiva política que prevalecerá finalmente. esse momento revela o que estava em ação no trabalho da diferença. É como um trovão que explode nesse texto o segmento intitulado "O negativo ou a liberdade ou o crime" (Verbrechen). que lembra a da escravidão. e o que é eterno e durável. e esses dois lados da vida escapam u m do outro. na qual é abolida a relação de servidão. Ele suprime sem se superar na totalidade. e "A vida ética absoluta". ela sujeição. O crime tem como efeito "negar a realidade de um vivente em sua cleter- miniclacle.paz". essa criança sobre a qual se diz que está "ao encontro do fenômeno. o povo: é no povo (Volk) que essa idéia ele eticiclacle absoluta aparece e en contra sua intuição. participa dessa fixação. a retidão e por fim a confiança. Não se trata ele reconhecimento "na especulação so- bre o sistema em repouso". O trajeto do discurso se precipita. se sucedem. que acabamos de percorrer. O momento privi. são inversamente proporcionais à juventude e ao vigor da criança. a totalidade que reproduz a si mesma como tal" (ibid. o aniquilamento (Vemichtung). mas ela é evocada sob o signo do crime. a vingança. culminando na instância ela família. o absoluto. o negativo da vida ética natural. a diferença dos pais. liberta de uma série de poderes naturais. encontra-se confrontado ao único portador dessa viela ética abso- luta. e são exteriores um ao outro" (ibid. E um pouco mais adiante "o poder e o entendimento. 143). começando com o Trieb. a saber. Ao marcar a oposição ao movimento de ascen- são. p. interiori- zada em remorso. isto é. Povo e religião demonstram a absorção ela con- ceitualidacle pela intuição. O reconhecimento :::.. sendo o ataque à honra o que atinge o todo da pessoa. É por meio da criança que essa verdade advém. só pode ser nomeado por ocasião da passagem do estado ele repouso para w -' w a dinâmica encarnada pelo ato ele governar (Regierung). a figura mais digna pela qual passa- mos. (J w I legiado situa-se entre o primeiro sistema elo governo sob o signo ela ne- cessidade e elo "excedente" em termos ele satisfação proporcionada e o 193 •••••• . O leitor contemporâneo. mas em um registro já marcado pelo direito: daí as figuras sucessivas da barbárie. mas também fixar essa negação".

seguindo nisso Haber- 1- mas: configuração na qual a pluralidade humana ocupará o lugar ela 194 Identidade e da Totalidade. o :::> >-- ·=> Dito isso. para o universal.. o primeiro vinculado à forma- lidade do direito. 195). Essa seqüência ocupa ela própria uma posição mediana em nosso longo fragmento. à zw :. é plausível atribuir ao dinamismo inteiro do ensaio o patrocínio do tema do reconh ecimento na medida em que a pessoa é contemporânea do direito. escandidas pela vio- I o lência. totalidade . universalidade versus particularidade. Eles são coativos. "o poder público enquanto pensante. Voltando à nossa questão inicial de saber se o Sistema da vida ética pode ser considerado um antecedente verdadeiro ela teoria ela luta pelo reconhecimento. É essa forma z § ele ontoteologia que impede que a pluralidade humana apareça como a a: o insuperável referência das relações de mutualidade. ele também po- deria deixar para outros. principalmente da troca. o roubo são opostos a esse reconhecimento. esse intervalo é o do "sistema da justiça". mas em uma ü a: w configuração que ele chamará ele "pós-metafísica". e o segundo à estrutura ela governança do povo sob a égide da justiça. Por outro lado. consciente. pode-se detectar a presença da expressão reco- nhecimento em dois momentos precisos. •••••• • . à identidade. p. somente nesse quadro as relações ele propriedade tornam-se relações mú- tuas: "assim reconheço a capacidade de posse do outro. eles suprimem a liberdade. o 1- é a referência especulativa. o reconhecimento jamais é evoca- do sem sua sombra negativa: o "crime" como negação do reconheci- mento. do ser- reconhecido. terceiro sistema. que percorre o discurso h egeliano. indi- 8I ferença versus diferença. Nesse sentido. o da disciplina (apenas esboçada).com seus corolários: intuição versus conceitualidacle. 197). mas também onde a liberdade pública ainda enfrenta essa nega- ção à qual Hegel consagrou uma seqüência distinta na qual a liberdade é associada ao crime. p. mas a violência. o que mantém a problemática de Hegel distante da nossa :. é aqui o governo enquanto jurisdição" (Systeme de la vie éthique. e a realidade do ser-universal. desde o nível da pulsão e do o :::> § amor até o da confiança no âmago da totalidade do povo. Um percurso oa: lü semelhante será proposto mais adiante por Axel Honneth. o que ele realiza" (ibid. Se o crime não negasse o reconhecimento. podemos nuançar elo seguinte modo nossa primeira avaliação: por um lado. visam o Todo. sem contrapartida empírica. Em ambas as vezes são os momentos mediais em uma hierarquia de poderes.

o qual se torna o tem a distin- to de uma filosofi a da Nahueza como primeira etapa "real" ela filosofia elo Espírito. nesse sentido. Isso basta para fazer ele seu tratamento ela Realphilosophie um antecedente autêntico e. que faz que a maneira pela qual o Espírito se encontre em seu outro permaneça fundam entalm ente u ma relação de si consigo m es- mo. a m ola dinâmica ela conquista da mu- tualidade. desde o início desta terceira parte deste estudo. abordo por minha vez. que é. ele não será. escolhe combatê-lo assumindo. se nos permitem dizer. Hegel.ou antes elo retorno a si . expressa aqui pelo Espírito em sua Idéia. Quanto ao tema do reconhe- cimento. solidária ele uma espécie ele ontoteologia. no texto precedente. o se- gundo texto que m arca o período de Iena (1805-1 806). mas marcará certas fases elo retorno a si m esm o do Espírito. a referência ao Espírito em detrimento do que. em outras palavras. com o ocorrerá nas filosofias pós-hegelianas ela fi- nitude e ela pluralidade humanas. com o já foi dito nas páginas anterio- res. Salientem os. sob o signo da distinção entre Iclealiclacle e Realidade. A ruptura com Hobbes será. Jacques Taminiaux e Axel Honneth. que é "preciso sair da natureza". logo ele início. u m provedor especulativo elas temáticas contemporâneas dedicadas a esse tema.do Espírito ele que se trata. Acompanhado por m eus dois mentores. pode-se dizer que He- gel inscreveu definitivam ente o tema elo reconhecimento na filosofia política. E sse distanciamento em relação ao tema da natureza é particular- mente interessante para a m inha pesquisa. na tradução feita pelo primeiro. como ele. Entretanto. Em um sentido amplo ela palavra "política". ele é não apenas nomeado mas também articulado com u ma precisão que ainda faltava n o sistem a da eticiclacle. na medida em que constitui o compo- nente do sistema total da filosofia em que o Espírito é apreendido em sua fase real versus ideal. o Espírito se torna outro a partir de sua relação 195 ••••• . a busca de uma resposta a Hobbes pela pro- moção de uma motivação m oral originária. Ele é intitulado pelos editores de Realphilosophie. A res- posta a Hobbes consiste no percurso dos m omentos da realização do Espírito e na descrição elo retorno elo Espírito à sua ipseidade: o Estado surgirá no final desse grande desvio-retorno. C omo o Espírito se torna "igual a si" fazendo-se outro ele si mesmo? Não será surpresa reencontrar os encadeamentos ele níveis semelhantes aos elo sis- tema da etícídade. É pois da vinda . M as aqui a natureza figurará sempre como algo "supri- mido". permanecia dependente de um conceito quase aristotélico de natureza.

o Tríeb. O reconhecimento não significa nada m ais que isso: "O reconhecer é a primeira coisa que necessariamente advirá" (ibid. o Hegel de Iena. para ele um recurso especulativo inestimável. . reencontraremos também o amor. Trata-se para H egel. p. pela posição de si na interiorização pela denominação que o faz mestre elos nomes. os indiví- ••••• . consigo mesmo. graças à extrapola- ção que será permitida pelo abandono elo ponto de vista especulativo absoluto. sua unidade enquanto consciência ele si" (Taminiaux. e pelo reino da conceitualização. 196 223) na passagem do amor para o direito.. observa Tami- z §a: niaux. H egel :::> >- [(3 faz coincidir o momento do reconhecimento com a passagem da tomada ?fw de posse para a legitimação. e sobretudo a criança. "O Espírito segundo seu conceito" Trata-se de uma psicologia especulativa centrada na inteligência e. com isso. Esta última significa a inversão ela relação de oa: I=' exclusão do outro. Esse per- curso ela vontade é o ela resolução (Beschluss) e de sua argumentação (Schluss). após a ruptura com a idéia de "vida ética segundo a relação". Mas como fazê-lo provir do não- :2 2z direito. reencontraremos a pulsão.. a família. da família e ela criança que Honneth cliscernirá o primeiro ele seus três m odelos ele reconhecimento. em conjunção com o trabalho. o instrumento. sua falta e sua satisfação. w . ou "silogismo". ele seguir no próprio conteúdo um movimento de encaminhamento o rumo ao direito ele reconhecimento. as etapas da "realização" não deixam de ser.. o reconhecimento surge com as relações de direito. esse terceiro em quem os pais "intuicionam o amor. 212). 1. p. ainda marcada por sua referência a uma natureza? É em uma filosofia do 8I mesmo que o reconhecimento surge. depois. percurso marcado pelo domínio do eu sobre as imagens. Naíssance de la phílosophíe hégélíenne de l'État. "Em outras palavras. É nesse momento elo amor. estado jurídico I oo ou de reconhecimento não são nem confundidos nem dissociados. É no percurso ela vontade que o tema elo reconheci- mento aparece na primeira parte. A relação com Hobbes é aqui muito complicada: Hegel vê a determinação do direito em Hobbes o 2 ·:J como proveniente de fora do indivíduo. N esse quadro. meio eletivo ela educação. A estrutura da obra distingue três partes. na vontade. sua singularidade e sua capaci- dade universal de transformação das coisas. Estado ele natureza. o homem e a mulher. O direito é reconhecimento recíproco.

passa-se ela faculdade à efetuação. p. mais precisamente no "elemento elo ser-reconhecido univer- sal" (ibid. na passa- gem elo amor para o direito. Reencontramos.Viela ética (Sittlichkeit) em geral. A vontade dos singulares é a vontade universal. p. ele é ele próprio o movimento.. p. é ela o ser-reconhecido. como se passássemos pelos m esmos locais. Enquanto reconhececlor. não a ele nosso pen- samento por oposição ao conteúdo. . Essa necessidade é sua propriamente..Seu ser um para o outro é o começo desse reconhecer" (ibicl. Algumas páginas magníficas. 227). mas precisamente esse ser é produzido a partir do conceito. Ele provém ela "suprassun- ção ela exclusão" (ibicl. pois. elevem ser citadas: ao falar elo "direito em geral. Ao arrebatamento ela natureza se sucede a realidade efetiva elo universal. ele não é mais em seu ser-aí imediato. O dinamismo desse modo especulativo impõe m ais uma vez a travessia ele níveis. Com o próprio reconhecimento. oposta a si mesma na forma ela universalidade. o si deixa ele ser esse singular. 2.). 221 ). não enquanto vontades livres. ao preço elo perigo assumido ela astúcia. efetividade em geral .. e a vontade universal é singular . Esse reconhecer eleve advir. "O Espírito efetivo" A segunda parte é intitulada "O Espírito efetivo" por oposição à abstração ela inteligência e ela vontade. Tudo ocorre no momento ela posse erigida em direito. no qual cada um seria o silogismo total. ela é o ser. esse ser-reconhecido sem oposição da vontade. o sujeito é a pessoa. "O combate à viela e à morte" (ibid. no qual eles só entram enquanto carac- teres. O re- conhecido é reconhecido enquanto valendo imediatamente por seu ser.e o singular. 225 ). Por isso se fala logo ele início em ser- reconhecido. ele é reconhecer. ela relação que reconhece" (ibicl.. ). E le eleve se tornar para eles o que eles são em si. "essa vontade que sabe ser universal.duos são o amor. isto é.). a mesma seqüência existente no texto precedente. o texto continua: "No reconhecimento. o homem é necessariamente reconhecido e é necessariamente reconhececlor. isto é. O reconheci- mento igualiza o que a ofensa tornou desigual. p. ele é legitimamente no reconhecimento. e esse movimento suprassume precisamente seu estado ele natureza. 229) . A esse preço. ele é ser reco- nhecido. o natural limita-se a ser (íst nur) - ele não é espiritual" (ibid. mas imediatamente ela é direito" (ibicl. 197 ••••••• .

na gestão industriosa ela riqueza e ela pobreza. Propriedade. no u ffi 1- sentido ele cessão e desapossamento.em outras palavras.Aqui o ser I é I Si universal. estabelece-se u ma outra semânti- oa: w ca. a mesma universalidade é m ediação enquanto movi m ento que sabe . Por isso a san ção se eleva ela vingança à justiça. p .o ser ela posse tem a significação que a coisa é o que sou.. é o prolon- gamento na seção III. .: 8I z 3. É a pessoa e não a propriedade que é lesada. 240). p. o movimento enquanto sensível é a troca. propriedade e não mais posse: "Na posse. e o ter é mediação pelo outro. A pessoa é o nome desse ser reconhecido lesado e restaurado (ibicl. 24 1). Não conduzirei mais adiante a leitura desse texto: ao ser-reconhecido imedia- to segue-se o reino ela lei que articula seres autônomos. portanto um ter imediato que é mediatizado pelo ser-reconhecido . que gravita em torno elo termo "despojamento" (Entdusserung).: o 1- de universal" (ibicl. ele é universal . O universal é o valor. p. na ruptura elo contrato. elo ser-reconhecido . "Constituição". p. elo ser-reconh ecido ela seção II. Surge o crime. Deixa-se um lugar para "o ato constituinte ela vonta- :. "O 198 Espírito efetivo". máquina e n ão mais instrumento. na jurisdição e no processo como execução elo direito. é a essência espiritual" (ibicl. A p ersistên cia elo vocabulário elo ser-reconhecido ele- •••• • . É nesses termos que a abertura ela segunda parte se liga à conclusão ela primeira: o ser-reconhecido imediato responde ndo na efetividade ao advento elo reconhecimento na abstração ela filosofia especulativa. em compensação. zw :. fazendo coincidir no ser-reco- nhecido a vontade elo singular e a vontade comum. 261) por m eio elo qual um Estado é instaurado. 232). Em um certo sentido. aqui. O reconhecimento terminou su a obra o::J 1- ·::J no ser-reconhecido. assim que ela procura restaurar "o ser-reconhecido.. o ser te m significação não esp iritual (tmgeistige ) ele meu ter enquanto sin gular.. O reconhecimento ainda I oo tem um lugar n essa teoria elo ato constituinte elo Estado? Com a proble- ::J 1- (/) UJ mática dominante elo pode r (Macht). quer se ja no casa- mento. que é em si. seu ser-aí é. O contrato está aqui em seu lugar. e (exterior- mente) lesado" (ibicl. "minha honra". não a coisa. em outras p alavras. "Constituição" o Sl a: o A te rceira parte intitu la-se "Constituição". mas em uma altitude diferente: desejo e não mais pulsão. e qu e e u a apreendo enquanto no Si . .

produz cloravante um outro mundo. A problem ática elo reconhecimento parece inteiramente superada: "Da tirania resulta o despojamento ime- diato ela vontade singular efetiva. a semântica do reconhecimento convinha à fase transitória das operações de troca mútua.). a educação pelo "despojamento". não tem de modo algum a significação do mal.. p. o que se chama de assassinato. à finitude das figuras . mas a do que é reconci- liado consigo mesmo" (ibicl. . O único equivalente do reconhecimento nes- se contexto seria a confiança: "O singular sabe seu Si assim como sua essência" (ibid.. e onde ele tem acesso à intuição de si como si" (ibicl. ou por despojamento" (ibid. a saber. que retomou dentro ele si suas determinações. Contudo.. por que conj ectura e que arran jo" (ibicl. O voca- bulário elo ser-reconhecido só voltará a aparecer uma última vez no últi- mo percurso.. esse despojamento [é] formação na obediência" (ibid.monstra isso4 . "somente Deus é a profundidade elo espírito certo de si mesmo . . "Que tenho m eu Si positivo na vontade comum. a ênfase não está mais posta na ação recíproca. 267). 267). Por isso é preciso fazer um desvio pela fundação da tirania: é o momento maquia- vélico (ibid. com todas as reticên- cias e ressalvas ligadas à dispersão elas artes.. e nquanto é sabido por mim que a vontade comum é posta por mim. foi escrito segundo a grande perspectiva ele que no ato que constitui (in der Constituirung ) o Estado como tal.. como a do "deus como estátua" (ibicl.. 199 ••••• . crueldade etc. o singular é "conservado.que tenho meu Si negativamente. p. isso é o ser-reconhecido enquanto inteligência.. Hegel não parece sentir falta ela bela liberdade feliz dos gregos. p. Na religião absoluta. p. n essa época em que "a bela viela pública era os costumes de todos" (ibid. p. p. embora não compreenda ou perceba como ele é conservado. da reli- gião e da ciência: "O espírito absolutame nte livre. onde sua obra está dentro ele si. Com a problemática política. no m om ento em que ele é um homem . um mundo que tem a figura ele si mesmo. através da arte. E ntão é possível es- crever: "Ser-reconhecido é o elemento espiritual". de Maquiavel. A dura lei ela época moderna eleve ser tomada como um "princípio mais elevado" (ibicl. p. o do "espírito absolutamente livre". como m eu pode r. 263 ).com isso D eus é o si de tudo. "[que foi] e ainda é tão invejada" (ibicl. 280). p . 261-263): "O Príncipe. 264). trapaça. mas na relação hierárquica entre vontade supostamente universal e vontade particular. nesse sentido.). 259-260). p. . 266). isso é sabido pela intu ição de sua necessidade. 282). como o universal que é o negativo de mim. que tem um ser-aí 4.

Esta é a última frase da obra: "Nesta última se suprassume o seguinte: que é somente em si que a natureza e o espírito são uma essência .o espírito se torna o saber da história do mundo" (ibid. üJ ü 0: UJ r- 200 . p. 290). ainda mal esboçada. 283). p. o ::) >- ·::) 2 o z UJ 2 ü lU I z o ü w 0: o I o o ::) ~ oa:. O vocabulário não será mais nem o do reconhecimento nem o do despojamento. espacial e temporal comum" (ibid.. mas o da reconcilia- ção. anuncia-se o agir do espírito na forma de história do mundo.. Com a filosofia .

La Lutte pour la reconnaissance... Reatual izações do argumento de Hegel em lena sta seção é dedicada à reatualização sistemática do tema _ . Reafirmo sua acusação ele l. A reatualização empreendida por Honneth extrai sua força ela convicção no equilíbrio que ela preserva entre a fid elidade à tem ática hegeliana e a re jeição ela m etafísica do absoluto que mantém o Hegel ele Iena próximo de Schelling e depois novamente de Fichte. Axel HONNETH. A esse argumento e a essa busca será consagrada a seção final deste terceiro estudo. com minha contribuição sendo a adição de observações complementares e também a proposta de algumas considerações antagonistas. por sua vez.1 hegeliano da Anerkennung. Concebi esta seção como um diálogo com ele. o caminho para um argumento dirigido contra a ênfase exclusiva posta na idéia de luta.. para a busca de experiências de reconhecimento de caráter pacificado. as quais abrirão. Gostaria primeiramente de explicitar minha dívida comAxel Honneth 1: tomo dele muito mais que o título da segunda parte de seu livro.. 201 • o ••••• ..

A estratégia seguida por Honneth se baseia na combinação de vários procedimentos: em primeiro lugar a junção ela argumentação especula- tiva com uma teorização ele base empírica das interações entre indiví- duos. Em terceiro lugar. elo direito e ela estima social. ele toma a idéia ele encadeamento ele "três modelos de o reconhecimento intersubj etivo". Tomo essa junção entre Hegel e Meacl e con- sidero-a o modelo ele um entrecruzamento entre uma conceitualiclacle especulativa e uma colocação à prova pela experiência. Da reconstrução prévia elos escritos ele Hegel em Iena na primeira ::J f- ·~ parte de sua obra. colocados sucessivam ente sob a égide zw ::2' elo amor. O importante é que a estrutura especulativa evita que o tema elo reconhecimento deslize para a banalização. este último componente ela estratégia 202 do livro é apenas esboçado. Em meu próprio vocabulário. Ele toma o modelo de uma gênese social ela identificação elo "eu" ele George Herbert Meacl. é nesse ponto que a comparação com outros ••••• . como é cada vez mais o caso em nossos dias. O que Honneth guarda de Hegel é o projeto de fundar uma teoria social com conteúdo normativo. Restaria compor a motivação moral ela luta o CC w r- com os interesses individuais ou ele grupo para dar à prática elas lutas sociais uma explicação completa. Honneth faz cor- CC o responder a esses três modelos semi-especulativos e semi-empíricos três I o figuras da negação de reconhecimento suscetíveis ele fornecer no modo o i? (/) w negativo uma motivação moral às lutas sociais que a seqüência de seu oa: iií trabalho passa a considerar. Concordo essencialmente com esse projeto. quer se trate de luta ou ele algo diferente ela luta. Adotarei esse esquema triparti- ow I z te que tem como principal vantagem enquadrar o jurídico em estruturas o ow que o antecipam ou que o excedem. como Honneth. Arguo. A estratégia ele Honneth comporta um segundo as- o pecto. na medida em que a luta provém ele motivos morais que podem ocupar o lugar ela tríacle ela rivalidade. No reconhecimento mútuo se encerra o percurso do reconhecimento ele si mesmo. monologismo dirigida a uma filosofia ela consciência na qual é o si que fundamentalmente se opõe a si mesmo ao se diferenciar. Essa teoria tem a ambição ele responder a Hobbes. trata-se de procurar no desen- volvimento elas interações conflituosas a fonte da ampliação paralela das capacidades individuais evocadas no segundo estudo sob o signo elo ho- mem capaz em conquista ele sua ipseidacle. Proporei algumas variantes. o caráter insuperável ela pluralidade humana nas transações intersub jetivas. ela desconfiança e ela glória na descrição do pretenso estado ele natureza no Leviatã.

Honneth procura na teoria psicanalítica ela relação ele objeto o complemento empírico ela 203 ••••• . a contribuição mais importante ela obra ele Honneth para a teoria elo reconhecimento em sua fase pós-hegeliana. ele amizade ou familiares "que implicam laços afetivos fortes entre um número restrito ele p essoas" (Honneth. portanto como seres n ecessitosos" (ibicl. ao menos deixar entrever a derrota ela negação ele reconhecimento. ). A luta pelo reconhecimento e o amor O primeiro modelo ele reconhecimento colocado sob o título elo amor cobre a gama das relações eróticas. uma análise estrutural das figuras ela negação ele reconhecimento não seria possível se as exigências normativas suscitadas pelos modelos sucessivos ele reconhecimento não suscitassem expectati- vas cu ja decepção tem a medida dessas exigências. digo-o imediatamente. 11 7). p. Trata-se aqui ele um grau pré-jurídico ele reconh ecimento recíproco no qual "sujeitos se con- firmam mutuamente em suas necessidades concretas. enquanto os sentimentos negativos conferem à luta sua carne e seu coração.empreendimentos que tratarei sumariamente poderá se revelar útil. em m inha opinião. não desejando engajar-me em um debate ele filosofia política sobre a estrutura elo Estado (assim como me abstive ele fazer isso na discus- são ele Hobbes. se não encerrar seu percur- so. Da discussão centrada na própria idéia ele luta. Por outro lado. Quanto ao que anunciei como considerações antagonistas. 1. com os três modelos de reconhecimento fornecendo a estrutura especu- lativa. ad- mitindo a possibilidade ele abrir durante esse percurso algumas novas pistas. elas dirão respei- to. La lutte pom la reconnaíssance. Essa ponte consti- tui. Minhas observações complementares se manterão nesse quadro. que foi interrompida no limiar ela questão ela soberania li- gada à emergência elo "deus mortal"). Para seu empreendimento ele reatualização. ocorrerá na seção seguinte a tentativa ele completar uma problemática ela luta por meio ela evocação elas experiên- cias ele paz pelas quais o reconhecimento pode. proveniente ele Hegel. A fórmula h egeliana "ser si mesmo em um estra- nho" encontra aqui sua primeira aplicação. ao terceiro modelo de reconhecimento que He- gel colocava sob o título do "Povo" e mais precisamente elo Estado e do "ato constituinte". Con- centrar-me-ei na correlação entre os três modelos de reconhecimento her- dados ele Hegel e as formas negativas elo menosprezo.

em idades diferentes da vida. : . mas ela ainda enriquece o seu esquema. São apontadas as "perturbações interpessoais no processo ele desligamen- to da criança em relação aos seus familiares" (ibicl. cit. 119).-. o desligamento adquirido ao preço ele muitas desilusões pode ser considerado a contrapartida ela confiança que mantém o casal de aman- tes unido.. que recor- ·::J 2 dam os "objetos transicionais" ela infância teorizaclos por D. no sentido mais forte ela palavra.· ~~-i . Ora... p. J • ~ í . é reforçada o ~ por mediadores.. Assim como a jovem criança deve enfrentar a prova ela ausência ela mãe. prévias aos conflitos ele natureza intrapsíquica.. ·. in Axel H ONNETH.~ . .. particularmente no nível ele amadurecimento que ocorre com o amor na idade adulta. Entre os dois pólos ela fusão emocional e da afirmação ele si na solidão instauram-se. :·. •••••• . 2. e que nenhum ser ffl humano consegue se libertar da tensão suscitada pela relação entre a realidade de dentro e oa: üJ a realidade de fora.. especulação hegeliana nesse primeiro modelo de reconhecimento. religião etc. relações de dependência relativa que são suficientes para destruir as fan- tasias d e onipotência provenientes ela primeira infância. · ' • .· I. · . . é a capacidade ele ficar só. desse ponto ele vista. "Supomos que a aceitação da realidade é uma tarefa sem fim. W. ele sair elo estado ele dependência absoluta suscitado por um laço libiclinal ele natureza fusional. elo mesmo modo os amores ela idade adulta são confrontados à prova ela separação cu jo benefício. Esse dom ínio intermediário !=' está em continuidade direta com o espaço lúdico no qual evolui a criança 'perdida' em seu jogo" (0. Essa manutenção.). W. . La Lutte pour la 204 reconnaissance. 126. . W innicott.\ • ' • ~ • ·. WINNICOTI. O autor se interessa particularmente pelos sucessores de Freud que situaram as primeiras estruturas conflituosas no nível das formas ele vinculação emo- cional elo tipo mãe-filho. A experiência elos adultos não apenas guarda os traços desses primeiros conflitos. Playing and Reality. supomos tam bém que essa tensão pode ser aliviada pela existência ele o a: uma área intermediária que não é contestada (arte. esta cresce em proporção à confiança elos parceiros na per- manência elo laço invisível que se tece na intermitência ela presença e ela ausência. ao longo ela história compartilhada entre amantes.. principalmente ele linguagem e ele cultura. se a criança deve por sua vez ter acesso à autonomia que convém à sua idade. graças à qual esta última recon- quista por sua vez sua própria capacidade de independência. r. p.:.· . I 8 ::J 1. Trata-se. emocionalmente custoso.. f2z w Honneth gosta ele citar um belo texto desse autor que evoca a continui- 2 8 I dade elos objetos transicionais fortemente impregnados pelo espírito elo z o o jogo e pelas objetivações culturais que povoam o espaço ele separação w a: o que a distância e a ausência criam entre os amantes na idade aclulta 2.

O desligamento fala sobre o sofrimento ela ausência e ela distância. eles são igualmente bons. o bem único.. Eis o que escreve Simone Weil a respeito ela amizade: "Há duas formas de amizade.. Un\vefsidade feoera\ ao rara Bibliotec~ C():. p. Pode-se falar a esse res- peito em uma dialética ele ligação e de desligamento comum aos traços especulativos e aos traços empíricos elo amor. Qual seria então a forma de menosprezo que corresponderia a esse primeiro modelo de reconhecimento? Se a correlação proposta por Honneth entre a tripartição elos modelos ele reconhecimento e a das for- mas do menosprezo tem algum valor heurístico. à categoria de bem . ] Ao encerrar o mesmo bem. 755 (co!. descrevem a fase ele maturidade em que as figuras empíricas do amor estão em ressonância com a estrutura especulativa recebida de Hegel. Gallimarcl. o encontro e a separação. 1999."bem único" -. já no começo elo século XIX. Mas é a confiança na permanência ela solicitude recíproca que faz elo desligamento uma provação benéfica. Eles são indissolúveis. como em Aristóteles. e a liga- ção fala sobre a força de alma que se encarna na capacidade ele ficar só. 205 •••••• . Amitié. os amigos têm dois desejos. as sevícias de todos os tipos . A idéia normativa proveniente do modelo de reconhecimento colocado sob o signo elo amor. o outro é o de amar-se mesmo que tendo entre si a metade elo globo terrestre a sua união não sofra nenhuma climinuição" 3 Essas linhas m agníficas. não parece que os ata- ques à integridade física."que destroem a confiança elementar que uma pessoa tem em si mesma" (ibid. Simone Weil estende a todas as figuras ela amizade a configuração potencialmente conflituosa que o amor erótico enraíza nas profundezas elo inconsciente e ele suas pulsões (Hegel não chamou.. nas quais a amizade é erigida. Simone WEIL. 62). um deles é o de amar-se mesmo que eles en- trem um no outro e constituam uma unidade. in Oeuvres. parece 3. Eles encerram o mesmo bem. O que aqui é traído são expectativas mais complexas que as relativas à simples integridade física . ele Trieb esse poder mais primitivo que o desejo enquanto desejo elo desejo do outro?). e que dá sua medida à decepção própria desse primeiro tipo de humilhação. p. Quarto). a amizade [ . sejam suficientes para delimitar esse primeiro tipo de m enosprezo.tortura ou viola- ção .tr'1 Pode-se dizer que os amantes reconhecem-se um ao outro reconhecen- do-se em modelos de identificação suscetíveis de ser partilhados. os amantes. a provação da desilusão.

Ele pró- ~ UJ ::. cada um é. A família cruza laços verticais de filiação com as linhas horizontais ela con jugalidade. ~ .para manter a indecisão calculada de Simone Weil . a proibição elo incesto. Ao contrá- rio da cidade e do Estado. que distingu e o dese jo da oa: Gj simples pulsão. o bem tão precioso na "separação" como no "encontro" . gostaria . oa: !=! No quadro institucional assim esboçado em grandes traços. é o inter- ::. prio é submetido a uma coação. experimentada como a retirada ou a recusa dessa aprovação... É essa aprovação. esta inscreve a z §o: sexualidade na dimensão cultural. O indivíduo sente-se como que olhado de cima. sem ser enquanto tais ele natureza jurídica formal . i? ·:::l O laço co njugal. eleve m se r tidas como instituições. três invariantes estruturam nosso estar-no-mundo sobre o modo familial: cada um de nós nasc eu ela união de um homem e de uma mulher (quaisquer que sejam. pode ser tido como o benefício afetivo dessa coação. Não é possível transpor o limiar do primeiro para o segundo modelo de reconhecimento sem ter levado em consideração as coações e regula- ções que.apro- vam-se mutuamente. pelo nascimento. Privado da aprovação. Não é exagerado dizer que a coação o ligada a essa proib ição é a pressuposição tácita elo tema hegeliano elo o :::l ~ desejo do outro. salvo a clonagem . até mesmo tido como um nada.. A hum ilhação.. a família constitui uma forma elo viver-junto. a ordem entre irmãos e irmãs na fratria é insuperável. é como se ele não existisse. as técnicas ele fecundação ele um oócito ). cambiador obrigatório entre essas relações verticais e h orizontais. situado em uma o fratria. Hegel não consagra longos desenvolvimentos às instituições próprias dos vastos campos afetivos que ele coloca sob o signo do amor? Esse é o caso das relações pai-filho. na medida em que o pedido. qualquer que se ja seu estatuto jurídico. atinge cada um no nível pré-jurídico de seu "estar-com" outrem.. por fim . Os amigos. instaurando a diferença entre o laço o social e o laço de consangüinidade. marido-mulher e da própria família considerada en- quanto educadora para o primeiro local ele iniciação à cultura. mais completamente identificada pela idéia de aprovação. qu e faz da amizade o "bem úni- co" de que fala Simone Weil. que reúne apenas um número limitado ele pessoas. de m e concentrar no fenômeno ela filiação e apresentar as observações a 206 seguir sob o título "Reconhecer-se na linhagem". Como Françoise Héritier recorda no início ele seu livro Mascu lino feminino. os amantes .. que se impõe a todas as variantes social- 8I mente aceitas da conj ugalidade. figurada pelo lar. no mais ricas em desenvolvimentos jurídicos.

transmissão. O projeto parental elo qual provim . Num primeiro olhar lançado sobre o sistema genealógico4 . devido ao próprio nascimento. essa res.irmã. 8I w são da viela. quer que seja o rito familiar. tia. em virtude da proibição do incesto. antes ele qualquer conscientização egológica. sobrinho. à medida que subimos na escala das gerações. m eu nome é . É com base nesse sistema de lugares que podem ser lidos os graus de parentesco que excluem o casamento. O epíteto "inestimável" me intriga: meu nascimento fez ele mim um objeto sem preço. são as que são proibidas prioritariamente. paterna e materna. as relações sexuais pai-filha. qual- ~ :::. de um lugar fixo na linhagem. o que chama a atenção em primeiro lugar é o caráter de atribuição. transmissão de uma h eran ça ele ~ UJ :2' bens mercantis e não-mercantis. por fim. ela própria instituída como humana pelo princípio genealó. fui e continuo a ser esse "objeto". descubro com surpresa que antes ele poder pensar em mim mesmo e ele ser sujeito ele percepção. São atribuídos nomes a esses lugares: pai e m ãe. "esse inestim ável objeto ele transmissão". . Lição IV 207 •••••• .. exterior para a significação vivida pelo ego nesse sistema ele lugares. ::J () a: buição de um n ome: eu m e chamo . ele impu- tação. . que Pierre Legendre denomina. que se desdobram. transmissão da legenda familiar. civil ou religioso que possa escanclir esse :3 tii UJ a: 4. L'Inestimable objet de la transmission. por sua vez implicadas em relações verticais de linhagem). avô e avó. de direito. tio. o que causa admiração é a posição do ego na parte mais baixa de uma escala ascendente que se divide segundo duas linhas. Étude sur !e príncipe généalogique en Occident. Se passamos desse olhar. Registro aqui minha dívida com Pierre LECENDRE. em cada linha.. é esse lugar que. filha ele. irmão. por sua vez. Concentrando-me na significação que tem para mim essa identidade civil. patri e ma- trilineares (com. mãe.filho. resumida na atri.. segundo os graus ele parentesco acessíveis à contagem. 1985.transformou a estática do quadro genealógico em uma UJ ü:l dinâmica instituidora que se inscreve na palavra "transmissão": transmis.qualquer que ~ !!. fora ele preço.! :2' ele tenha sido . Paris. duplicando cada vez os lugares que são eles próprios duplos. ele ação. no título ele seu livro. confere-me aos olhos ela instituição civil a identidade designada pelos termos filho ele. Fayard. o gico. É essa contração <( do tesouro ela transmissão na nominação que permite falar pela primeira 8 C/) UJ o vez em reconhecimento na linhagem: fui reconheciclo(a) filho (a). relações ele fratria . essa coisa que está fora do comércio ordinário.

Como compensação para essa autorização para m e nomear. 0: o nesse sentido. por dese jos. G raças a essa interiorização progressiva do olhar ge- nealógico. qu e auto- rizava. a pronunciar essa expressão performa- tiva admirável: T itus. o pensamento especulativo não sabe como esco- o0: w lher: entre a contingência elo acontecimento (eu poderia não estar aqui ü a: ou ser um outro) e a necessidade ele existir (é porque estou aqui. mas também pela mãe. por volta elo fim ele A 208 condição humana. Em um certo sentido. e. o reino elas ••••••• . todo nascimento acolhido é uma adoção. talvez ele um projeto ~ UJ ::. O que acabamos de articular é uma reflexão sobre o ser já nascido. se ja meu herdeiro . esse inestimável objeto de transmissão sou eu. Fala-se das crianças I 8 como da carne dos pais existindo em um outro. E m suma. O s romanos tinham uma instituição apropriada para esse acontecimento: a adoção. o que o nascimento propõe é. torna-se fu nção ple- na quando a transmissão é vivida como reconhecimento mútuo. ele modo w 1- irrecusável. função zero no quadro dos lugares.: a que chamamos parenta] . Confrontado ao nasci- ~ w mento como origem. eu sou autorizado a continuar a transmissão. reconhecimento de que fui ob jeto pela primeira vez. Outra coisa é a o &l origem: ela não remete senão a si mesma. a esse título. aquém das o trevas crescentes das lembranças da primeira infância. que posso questionar). ao m es- mo tempo parenta] e filial. Hannah Arendt. e a jusante. é possível irradiar em duas direções opostas: a montante. em nome daqueles que fizeram de mim seu herdeiro. e a ocupar no momento apropriado o lugar do pai ou da mãe. o começo remete a um antes.: precedido por antecedentes biológicos. a qual não se reduz à explicação pelo começo: o começo da vida é ::. G raças a esse ato de se reconhecer na linhagem . não tem precedentes: este que sou eu . como fui reconhecido filho ou filha de.todas elas coisas que excedem a simples õ UJ I z consciência ele ter nascido. o enigma da ori- i? ·:::> gem. no sentido forte da palavra. Ora. eu me reconheço como tal. desde o instante em que ela aceitou ou escolheu manter "esse" feto que se tornou "seu" bebê e dar-lhe nascimento. . o ego. do lado das permissões e das coações que o princípio genealógico exerce ao longo de toda a vida de desejo. do lado do nascimento. Ambos foram auto- rizados pelo sistema a transmitir-me um patronímico e a escolher um nome para mim. não apenas pelo pai. escreve: "O milagre que salva o mundo.. O surgimento ele um novo ser. Uma reflexão sobre o nascimento é difícil: quem se reconhece na linhagem já está nascido.

1950. ao lado do parricídio. ela própria estreitamente solidária ela "captura narcísica": Narciso. na origem insondável "desse inestimável ob jeto da trans- missão" que cada um é desde o nascimento. 541 ). Arendt pode falar então do nascimento como um "milagre" (talvez como resposta ao ser-para-a-morte ele Heidegger): eis- nos. Mas. ao aproximar seus lábios de sua própria imagem. ao nível do crime m ais L UJ horrível. A respeito da origem . não se compreenderia por que o incesto foi elevado. Ao ordenar a conjugalidade. foi I UJ o necessária a lucidez de Tirésias. que não é o começo: "A rosa não tem porquê. mas ele despojou seu antigo crime ele sua dimensão mítica e o ~ o o íB 5. p. cuja análise sigo aqui e na qual se entrecruzam considerações jurídicas e sutiliclades psicanalíticas. Paris. e se essa pulsão não amea- çasse arruinar todo o sistema genealógico. o princípio genealógi- co organiza a filiação. Só escapamos dessa vertigem especulativa quando ressituamos a nós mesmos e aos nossos próprios pais na seqüência das gerações sob o signo do "reconhecer-se na linhagem"5• Indo agora a jusante da consciência de já ter nascido. denunciá-lo e acusar o homem Édipo.. a objeção ao in- cesto deve atingir a fantasia ele onipotência. Curiosa- m ente. 209 •• •••••• . 'natural'. mostra "o homem enlaçado em seu desejo" (L'Inestimable objet de la transmission. relações reco- nhecidas de filiação. t. por conseguinte. não se compreen. Por certo. para descobri-lo. o vidente cego. tardiamente na tragédia Édipo em Colona. sob a rubrica do involuntário absoluto. que é o seu corolário.elos pais. 407 ss. Aubier. Se a pulsão incestuosa não fosse tão profundamente enraizada na operação do desejo. I.coisas humanas. o princípio genealógi- co "objeta ao impulso incestuoso". ele permanece encerrado nos limites ele uma refl exão sobre o ser já nascido sem a con- sideração do dese jo . _J UJ o w deria que. segundo Angelus Silesíus. precisamos creditar o princípio genealógico de sua oposição polar à pulsão incestuo- sa. pelo mito e pela tragédia. em outras palavras. para chegar a seu objetivo. é a título último o fato da natalidade (Gebürtigkeit). ela floresce porque floresce". p. o bom senso colocou o velho Édipo pedindo ~ UJ L :::) desculpas. M inha primeira confrontação com esse tema do nascim ento pode ser lida em Philosophie oQ de la volonté. a hereditariedade. Eu rejeitava para o lado da objetividade i ~ a: alienante o que eu denominava o "antecedente genético". com efeito. de sua ruína normal. Essa objeção é fundadora na medida em que a proibição ordena os laços ele parentesco e faz ele tal modo que h a ja lugares distintos e identificados e. no qual a faculdade da ação está ontologica- mente enraizada". na m edida em que esta última cria indiferenciação. segundo as pala- vras de Pierre Legendre.qualquer que ele seja .

mas como os pais ele seus filhos. •••••• • . basta para instaurar uma relação de dívida na ordem ascendente e de oa: w herança na ordem descendente. Procurando nesse estado de natureza uma razão propriamente moral ot- iS 2 8I 6. É a esse reconheci- mento mútuo entre os próprios pais que responde o reconhecimento fi- lial que dá pleno sentido ao reconhecimento de si mesmo na filíaçãé 2. a experiência ele reconhecer a si mesmo na filiação nos limites ela t- dupla linhagem patri e matrilinear basta para enfrentar a fantasia de onipotência. Isso não impe- dirá que a conjugaliclacle desenvolva. e com isso dissimulou o vínculo antagonista entre o princípio genealógico e o incesto. ela própria instituída de uma forma ou de outra sob o signo ela duração e da fidelidade. e todas as linhagens já são duplas. O feminino e o masculi no já estão lá. na medida em que. seu quinhão ele confli- tualidade. A luta pelo reconhecimento no plano jurídico É nesse segundo nível. concebido como uma entidade exterior ao conflito no estado ele o:. entre a distinção ela ordem e a confusão da fantasia. Essa dupla condição. e nos limites de meu projeto. pater- :::J nas e maternas. Somente na aura de horror suscitada pelo crime edipiano a conjugalidade. em toda cultura. nenhum deles é fundador. todos os níveis são ao mesmo tempo oo instituídos e intituintes. rebelde à instituição e à disciplina ele desejo que esta última procura instaurar. principalmente no ponto em que se cruzam o amor erótico e a afeição conjugal. De minha parte. pode revelar sua significação pro- funda ele mediadora entre o princípio genealógico e o impulso incestu- oso. que segue nisso Lacan. Deixo de lado a questão da fund amentação última do princípio genealógico no plano z simbólico: Falo único para dois sexos? Grande Outro? Pai original? Essa questão atormenta o &l Pierre Legencl re. que todo processo ele institucionalização recebe sua legitimida- t- ·:::J :::. que a "reatualização sistemática" elos esboços especulativos ele Hegel em Iena mais se afasta de sua fonte ele inspiração. ainda assim. referente aos ~ níveis e às linhagens. é a afeição con jugal que torna possível o projeto parenta! que autoriza os cônjuges a tomar a si m esmos não como simples genitores. a questão colocada pela relação jurídica era amplamente dominada pela resposta a Hobbes. Já inscritos na escala ilimitada das idades.) natureza. de. trágica. entre o elo amor e o da estima social. Compreende-se o motivo disso: para Hegel. no Leviatã. rr o mantenho-me nos limites elo princípio genealógico enquanto invariante de todos os invarian- I tes ela filiação. por sua vez. para des- pertar o mistério elo nascimento e para testemunhar a objeção que o princípio genealógico 2 10 faz à pulsão incestuosa provedora ele indistinção. Por não assumir a problemática da fundação absoluta elo ü a: w princípio genealógico. é elo Estado. o amor erótico certamente pode permanecer.

o catalisaclor do crime não poderia ser perdido ele vista na confrontação entre vontade individual e vontade universal na época contemporânea. O reconheci. La lutte pour la reconnaissance.livre no sentido ela racionalidade presumidamente z igual em toda pessoa tomada em sua dimensão jurídica. o reconhecim ento no sen. 211 •••••• . Uma outra lógica se estabelece agora: por um lado. 122). () mos ao m esmo tempo conhecimento elas obrigações normativas às quais ?i estamos vinculados em relação a outrem " (Honneth. na forma contratual ela troca. o objetivo do reconhecimento é duplo: outrem e a norma. pois. cabe a esta análise enfatizar as condições materiais daquilo a que chamamos igualdade de oportunidades nas conquistas referentes ao direi- to: uma parte ele não-reconhecimento não pode deixar ele permanecer ligada à instituição elo direito. Hegel discerne os primeiros tra- ços do ser-reconhecido no plano jurídico no acesso à posse legal dos bens materiais. cabe. É nesse sentido que se pode falar em luta pelo reconhecimento.para sair da guerra de todos contra todos. em alguns discursos contemporâneos reunidos por Axel Honneth. na coerção. no que diz respeito à norma. reconhecer é identificar cada pes- soa enquanto livre e igual a toda outra pessoa. Mas primeiramente é preciso falar sobre as ambições ligadas à rela- ção jurídica elo ponto de vista elas modalidades ele reconhecim ento rela- tivas à esfera elo amor: havia-se então colocado em relação a libertação em relação aos laços afetivos fusionais e a confiança na permanência da vinculação recíproca entre parceiros. no que diz respeito à pessoa. mas também provocar uma n ova avaliação da ofensa como ataque à pessoa em sua dimensão universal. em suma. ao crime desvelar o não-reconhecimento próprio dessa subversão elo indiví- duo. Com efeito. o reconhecimen- to significa. novas figuras elo me- nosprezo ocuparão. u. por outro lado. considerar válido. no sentido lexical da palavra. D esse ponto de vista. no que diz respeito à relação jurídica em geral. no processo ele formação ela "vontade universal". Nesse sentido. p. o papel ocupado pelo crime nos escritos ele Hegel em Iena. Em minha opinião. "' 2w -' u. :::. o predicado "livre" assume o lugar da "capacidade de ficar <[ só" no nível afetivo . admitir a validade.J o m ento jurídico pode assim ser caracterizado nos segu intes termos: "Não ~ z w :i poderemos nos compreender como portadores ele direitos se não tiver. ele é m arcado por uma pretensão ow I ao u niversal que excede a proximidade elos laços afetivos. A dinâmica conflituosa relativa a esse tipo de reconh ecimento provém então da ruptura do con- trato e ela resposta que consiste na coação legal.J o respeito assume o lugar da confiança.

por sua vez. tido jurídico acrescenta assim ao reconhecimento de si em termos de capacidade (segundo as análises de nosso segundo estudo) as novas capa- cidades provenientes da conjunção entre a validade universal da norma e a singularidade das pessoas. de respeito (Achtung ) oferece nesse contexto um ponto ele referência indispensável. e o indivíduo singular. de origem kantiana. 132-13 3). ninguém mais pode fazer abstração da história do saber moral relativo às obrigações jurídicas que temos em re- lação às pessoas autônomas. a um universo. na medida em que é ele uma ampliação da esfera dos direitos e ele um enriquecimento das capacidades individuais que se trata no plano ela luta pelo reconhecimento. na história.. La oo Lutte pour la reconnaissance. Honneth . os pensadores sensíveis ao caráter histórico ela passagem para a modernidade que reinscreveram a noção ele respeito tanto em u ma h istória dos direitos como em uma história elo direito. mas tampouco da história ela interpretação o :::> >- ·:::> :.que se comporta assim a: o do ponto de vista dos outros de um modo universalmente válido . •••••• . caracterizada pela conquista desses direitos. com o livre. 8. dominada por oa: üJ vínculos ele fidelidade a comunidades que extraem sua autoridade ela tradição.. Essa estrutura dual do reconhecimento jurídico consiste assim na conexão entre a ampliação da esfera dos direi- tos reconhecidos às pessoas e o enriquecim ento das capacidades que esses sujeitos reconhecem em si mesmos. mais importante se tornou a evolução histórica no plano jurídico. in HON ETH. à moral conven cional.. seguindo H abermas nesse ponto. opõe insistentem ente a moral pós-conven- fB cional. que pode impor uma simplificação excessiva à complexidade ela passagem ~ para a moclerniclacle. Essa ampliação e esse enriquecimento são o produto de lutas que pontuam a inscrição. de Hegel.estádio pós-convencional não é tão completo que o léxico da estim a não possa voltar com o terceiro 2 12 modelo de reconhecim ento intersubjeti vo. que ele reconhece como I aquilo pelo que ele próprio quer passar. como livre. m ente o duplo objetivo do reconhecimento: "No Estado [ . É até mesmo nesse plano que a noção de passagem para a modernidade é não apenas inevitável. que enfatiza clara- UJ :. z torna-se digno desse reconhecimento por obedecer. :::> >. p. Quanto mais se fez abstração ela história cultural dos conflitos liga- dos à esfera afetiva. à vontade que é em e para si. O corte entre a estima elo estádio convencional e o respeito do. pelo contrário. superando assim a naturalidade ele sua o o w consciência ele si. Não recorrerei oa: a essa oposição. Honneth cita a esse respeito um texto da Enciclopédia. mas também inseparável elas conquistas de que trataremos 8 . desses dois processos soliclários7. Nesse sentido.. ele está fora ela história. como pessoa" (cit. ] o homem é reconhecido e 8I tratado como um ser racional. Foram. 2z 7.. à lei . O conceito. o respeito é o único móbil que a razão prática imprime diretamente na sensibilidade afetiva. Para Kant. como pessoa.

à qual responderá a extensão elas capacidades ela pessoa jurídica. a repartição entre direitos civis. Além disso. Frankfurt.das situações nas quais pessoas são habilitadas a reivindicar esses direitos.. eu adoto. o retorno à n oção aristotélica ele phronesis marca o recurso contemporâneo à categoria "hermenêutica de aplicação". no plano da atribuição desses di- reitos a novas categorias ele indivíduos ou ele grupos. uma vez ganha a batalha o ~ referente à soberania do povo e sua expressão na eleição. aquilo de que padecem par. Talcott PARSONS. a segunda designa os direitos positivos que garantem a partici- pação nos processos ele formação ela vontade pública. em sua liberdade. Paris. Mas o m aior z lLJ :2 :::J problema do século XX é a abertura elos direitos sociais relativos à divisão (J a: <[ eqüitativa no plano da distribuição dos bens mercantis e não-m ercantis oo em escala planetária. seguindo Robert Alexl. data do século XIX. por outro. No que diz respeito à enumeração elos direitos subjetivos. 213 •• •••••• . mas pros. Du- nod. lO.. Talcott Parsons10 e o próprio Axel Honneth. diante das usurpações ilegítimas elo Estado. Desse ponto ele vista. As lutas pelo reconhe- cimento jurídico provêm dessa inteligência mista elas coações normativas e elas situações em que as pessoas exercem suas competências. . A luta pelos direitos civis <[ z é mais antiga: ela data elo século XVIII e está longe de estar encerrada. no plano da enumeração dos direitos subjetivos definidos por seu conteúdo. a terceira. 1966. \!! :2 lLJ Quanto à instauração dos direitos políticos. sua viela. 140). direitos políticos e direitos sociais: "A pri- meira categoria inclui os direitos negativos que protegem a pessoa. 8r UJ tativo elos regimes de governo democrático. por fim. 1973. diz respeito aos direitos. ~ ticularmente os cidadãos ele todos os países é o contraste gritante entre a ~ ~ :::J ~ a: 9. A ampliação da esfera normativa elos direitos.. Theorie der Grundrichte. Desse ponto ele vista. que garantem a cada um uma parte eqüitativa na distribuição de bens elementares" (ibicl.) lLJ segue no século XX no quadro dos debates relativos ao caráter represen. Le Systeme des sociétés modemes. Guy Melleray. sua propriedade. pode ser observada em duas direções: por um lado. também positivos. Robert ALEXY. p. essa tripartição oferece uma excelente grade conceitu al para as análises e discussões sobre os direitos humanos. assim que se trata de interpretar situações nas quais podem ser verificadas cor- relações entre reconhecimento ele validade no plano elas normas e reco- nhecimento ele capacidades no plano das pessoas. trad.

[i LU I z passando pela indignação como resposta moral a esse ataque. a idéia ele responsabilidade extrai uma ele suas significações dessa 65 :. a perda do respeito que a pessoa tem por si mesma recebe cada vez uma modalidade afetiva dife- rente. entre a atribuição igual de direitos . a segurança econômica aparece doravante como o meio material de exercer todos os outros direitos. experimentada como lesão do respeito de si. atribuição igual de direitos e a distribuição desigual dos bens. Uma teoria da justiça como a de John Rawls encontra uma de suas razões de ser na formulação elas regras de divisão eqüitativa nas sociedades não-igualitá- rias. reconhe- o cida ao mesmo tempo pela sociedade e por si mesmo.:. outra é o sen- timento de exclusão resultante ela recusa de acesso aos bens elementares. "de se pronunciar o 2 83 ele um modo racional e autônomo sobre as questões morais" (ibicl. a humilha- ção relativa à negação ele direitos civis. que pare- cem condenadas a pagar o preço de um aumento sensível elas desigual- o dades pelo progresso em termos ele produtividade em todos os domínios. quer 2 14 se jam eles civis. para a von- o ü w tade de participação no processo ele ampliação da esfera dos direitos sub- a: o jetivos. . Embora esses direitos sociais se refiram principalmente à ação educativa. desse ponto ele vista. •••••• • . Em função dessa repartição dos direitos subjetivos. oo: üJ 139). políticos ou sociais. o f- vista. a responsabilidade enquanto capacidade de responder por si mes- ü o: w f- mo é inseparável da responsabilidade enquanto capacidade de participar de uma discussão racional sobre a ampliação da esfera dos direitos. Outra é. a aquisição corres- pondente ele competências no plano pessoal faz aparecerem formas espe- cíficas de menosprezo relativas às exigências que uma pessoa pode espe- rar ver satisfeitas pela sociedade. outra é a frustração relativa à ausência de participação na formação ela vontade pública. => -~ Mas a indignação pode tanto desarmar como mobilizar. que são as únicas que conhecemos. D esse ponto ele :. É o momento ele lembrar que os sentimentos negativos são impul- sionaclores significativos da luta pelo reconhecimento.. p. passagem ela humilhação. à saúde e à garantia de um nível ele vida decente. O termo responsabilidade abarca.e a distribuição desigual de bens em sociedades como a nossa. a indignação cons- titui a estrutura de transição entre o menosprezo sentido na emoção ela irritação e a vontade de se tornar um parceiro na luta pelo reconheci- mento. O ponto mais sensível da indignação diz respeito ao contraste insuportável. Sob a forma ela negação ele reconhecimento. A responsabilidade pode ser considerada a capacidade. evocado anteriormente.

.U :::. in Rights. É principalmente por m eio ela comparação entre os ní- veis e os gêneros ele viela atingidos em outros lugares qu e as reivindica- ções relativas às diferentes categorias ele direitos subj etivos ganh am forç a. ele opressão. e a indignação que deles provém pôde dar às lutas sociais a forma ela guerra. ele alienação.J UJ responde o sentimento de orgulho. é a essa capacidade de nível superior que UJ . Joel F EINBERG. ele guerra ele descolonização. Princeton. As formas ele igualdades conqu istadas por alguns têm a vocação de ser estendidas a todos. 215 •• •••••• . Justice and the Bounds of Liberty. de guerra de libertação. 3 ~ UJ a: ll. Ora.: reivindicar um direito". o UJ I UJ o ~ 3. mas à exten- são ele sua esfera ele aplicação.portanto. quer se trate ele revolução. citada por Axel Honneth: "Aquilo que é chamado ele digni- <[ dade humana não pode ser nada mais que a capacidade reconhecida ele z \. Essays in Social Philosophy. encontra com efeito uma expressão feliz em uma fórmula ele Joel Feinberg 11 . mas sim a sua extensão a um número cada vez maior ele indivíduos. Por su a vez. foi menos a constituição elo Estado que a di- ~ m ensão social elo político em sentido amplo que Honneth escolheu sa. A correlação entre a normativiclacle elo lado elas regras e a capa- cidade elo lado elas pessoas.. ::J a estima social oa: <[ oo No quadro elo esquema tripartite ele reconhecimento mútuo inspira. 1980. T he nature and value of rights. que não diz mais respeito apenas ao conteúdo elos direitos.!. Mas a ampliação ela esfera elos direitos subjetivos possui um segun- do aspecto que não diz mais respeito à enumeração e à repartição desses direitos em classes. Essa é a segunda dimensão elo conceito ele universalidade. Mas teria de ser feita uma análise distinta segundo as três categorias ele direitos subjetivos quanto à sua extensão.1 ::. que está no âmago elo sentimento ele orgu- lho. A experiência negativa elo menosprezo assume então a forma esp ecífica ele sentimentos ele exclusão. o respeito ele si suscitado pelas vitórias conseguidas n essa luta pela extensão geopolítica elos direitos subjetivos merece o nome ele orgulho. (/) UJ 'Ü do pelos escritos ele Iena. a asserção de si e o reconhecimento do direito igual de outrem de contribuir para os avan ços do direito e dos direitos. N ew York. O terceiro modelo de reconhecimento mútuo: I.

Lutas distintas elas que estão vinculadas à ampliação elos direitos quanto ao seu conteúdo e à extensão do número 216 de seus titulares deverão ser levadas em consideração. é o conceito h egeliano de "eticidade" que é tomado como termo de referência em todo o seu alcance. A esse título. desse modo. • • • • • • o e • . Disso resulta que a estima oa: ü:i social não escapa das condições interpretativas solidárias do caráter sim- oa: ~ bólico das mediações sociais. Nesse senti- do. com a concepção cultural que uma sociedade faz de si mesma constituindo a soma dos valores e dos fins éticos mobilizados a cada vez. não escapam elo pluralismo axiológico resul- § tante ela variedade elas próprias mediações. Na opinião desse autor. assim como este elo conceito ele confiança em si no plano afetivo. É ao mesmo tempo a dimensão axiológica da estima mútua que é enfatizada: é com os mesmos valores e com os mesmos fins que as pessoas avaliam a importân- cia ele suas qualidades próprias para a viela elo outro. As noções ligadas às ele estima social. de uma tipologia das mediações que contri- ü w I z buem para a formação do horizonte de valores compartilhados. Ao anunciar que essas relações ele estima variam segundo as épocas. O conceito de estima social distingue-se do respeito ele si. Várias questões são assim colocadas: que nova exigência normativa supostamente satisfaz a estima social? Que formas ele confli- tualidade estão ligadas às mediações pertencentes ao pós-jurídico? Que capacidades pessoais são correlativas dessas formas de reconhecimento mútuo? Honneth consagra apenas algumas páginas a essa arquitetura ele questões que proponho detalhar. O exame elo conceito ele estima ~ w ::?: social depende. o autor abre o campo para uma exploração multiclimensional das mediações sociais considera- elas elo ponto ele vista de sua constituição simbólica. como o I 8::J prestígio ou a consideração. e a pró- o &l pria noção ele estima varia ele acordo com o tipo ele mediação que torna a: o uma pessoa "estimável". é nesse plano que a "vida ética" se revela irredutível às relações jurídicas. A idéia de comunidade ele valores se anuncia como o horizonte presumido de uma inevitável § -::J diversidade axiológica que contrasta com a universalidade presumida elos ::?: direitos subjetivos de ordem jurídica. ele tem como função resumir todas as modalidades elo reconhecimento mútuo que excedem o simples reconhecimento da igualdade de direitos entre su jeitos livres. lientar na terceira etapa de sua "reatualização sistemática". é a existência ele um horizonte de valores comuns aos suj eitos que constitui a pressupo- sição mais importante desse terceiro ciclo de considerações.

gostaria ele esboçar brevemente algumas elas pistas en- contradas em minh as leituras. Les Puissances de l'expérience. Não se trata apenas ele descrever os sistemas sociais elo ponto de vista ela organização. essas grandes mediações ela comunicação contribuem para os "atos ele discernimento" constitutivos ela identidade pessoal. sob o título As ordens do reconhecimento. pedagógico. O que o tomo II propõe. p. seu caro conceito.. Dei uma resposta a essa análise estrutural da idéia de identidade no quadro de minhas reflexões sobre as "capacidades sociais" na última seção do segundo estudo do presente livro. 9). e. As ordens do reconhecimento Começarei pela análise muito técnica que Jean-Marc Ferry propõe elo que ele chama ele "ordens do reconhecimento". jurídico. é o exame elas mediações na forma de organização 14 que fazem que o "próximo seja sempre alguém já reconh ecido sem sequ er ter sido conhe cido" (Les Puissances de l'expérience. ao longo elas quais o termo "reconheci- mento social" é empregado com discernimento em ligação com formas específicas ele conflitualiclacle no plano axiológico. que preside a compreensão hermen êutica elo mundo 13 . estabelecido a narração. a argumentação relativa às or- dens de validade principalmente jurídica. monetário. a reconstrução. N o tomo I. no tomo II ele sua obra consagrada aos Les puissances de l'expérience (Os poderes ela experiência) 12 • O que está em jogo é o futuro elo conceito ele identidade na virada ela intersubjetiviclade vivida e da sociabilidade organizada em sistema. cientí- fico . Jean-M arc FERRY. 9). como o signo monetário e as regras jurídicas. Les Puissances de l'expérience. 14. mas também ele procurar n eles "uma base para compreender as exigências de uma responsabilidade ampliada no 12. e por tudo o que em geral constitui o 'sistema' sob seus diferentes aspectos - técnico. a interpretação no plano elas gran- des simbólicas das religiões e elas filosofias. fiscal. Antes ele voltar à idéia ele solidariedade sobre a qual Honneth termi- na seu percurso. ele havia. sobretudo. democrático. o autor havia considerado as condições gerais da comunicabilidacle que regem os "atos de discernimento". 217 o fJ • • • • • • . órgão ela identidade narrativa. com todos os 'signos' correspondentes que são tam bém indicadores de comporta- mento para coordenar as ações individuais em empreendimentos coletivos ele grande dim en- são" (FERRY. "A questão alcança centralmente as condições nas quais as identidades pessoais podem se manter e se produzir em um contexto social em que o reconhecimento das pessoas é extremamente mediado por 'reguladores' sistêmicos. buroc rático. 13. midiático. Juntas. p. desse m odo.

Limitar-me-ei a enum erar os "sistemas" considerados os grandes pa- radigmas do mundo social e integrados à atividade comunicativa: o com- plexo socioeconômico (incluindo o sistema técnico. Os o r- z recursos críticos de uma identidade argumentativa e reconstrutiva. guardiães do olhar sobre o passado. inclusive seu temor de ver o desvanecimento da humanidade do ho- mem com a degradação da natureza. com oa: UJ Benjamin e ao contrário de Hans Jonas. É sob essas condições que a "organização dos sistemas sociais" pode se arti- cular com base no discernimento de tipo reconstrutivo do tomo I e contri- buir para a formação da identidade das pessoas no plano moral e político. a responsabilidade não é virada para o fu turo. Não se poderia. Tudo o que foi escrito por A. encontram seu z o o w a: 15. mas f- sim para o passado. os sistemas monetá- rios e fiscais). GEHLEN. r- ·:J 2 tratar da vulnerabilidade sem retrabalhar a idéia de normatividade. pois. J. 1990. Aqui. Paris. Anthropologie et Psychologie sociale. 156). espaço e no tempo" (ibid. ••••••• . oo 16. iD que nem sequer podem ser citadas (terceira tese sobre o conceito de história). a ética da comunicação está próxima da religião. Les Puissances de l'expérience. assim como com os mortos. pois ela também é uma ética da redenção. é dar à identidade moral e política uma significação diferenciada que não se deixa reduzir à prática argumentativa recomendada por uma ética do discurso. e seu impacto sobre a reprodução cultural das sociedades. Jean-Marc Ferry não deixa de ouvir nem esses temores nem esse apelo a novas formas de responsabilidade em uma outra escala temporal e o :J cósmica que a responsabilidade de feitio kantiano 16 . e o sistema científico do ponto de vista de sua organização institucional). Nisso. elabo- !. trad. o sistema democrático e a organização paralela da opi- nião pública) e o complexo sociocultural (que coloca frente a frente o sis- tema midiático. 10). A. o I PUF. para nosso propósito. Bandet. o complexo sociopolítico (que inclui o sistema jurídico.. 1986.-L. ela se fundamenta mais na identidade reconstrutiva que 2 18 na identidade argumentativa" (FERRY. "A comunicação é nossa ideologia pós-industrial. Também deveria ser levada em con- sideração a recomposição do "princípio responsabilidade" proposto por Hans Jonas. Desse ponto de vista. Benjamin. O interesse desse vasto empreendimento. as relações dos homens entre si não deixam de incluir as relações do homem com a na- tureza.U 2 8:r: rados no tomo I na qualidade de poderes da experiência. p.essas vítimas anônimas. o sistema burocrático. Como tal. p. Gehlen sob o título Antropologie et psychologie sociale (Antropologia e psicologia social) 15 encontra aqui seu lugar legíti- mo. mas ela traz dentro de si um outro 2 ideal de uma moralidade a ser ressuscitada e ampliada pelo reconhecimento daqueles que [:3 oa: não puderam falar sobre a ofensa . de que falava W.

Gallimard. o() nacional. em razão de sua coerência em relação a um certo tipo de sucesso social. Paul R!COEUR. Paris. De la justification. elo conceito ele eco- nomia ela grandeza que é preciso falar primeiro. Resenhei pela primeira vez esse livro do ponto de vista da pluralidade elas fontes de justiça em paralelo com a obra ele Michael Waltzer intitulada Esferas de fustíça 19 ... pois.. 19. Esprit. apresentam "uma maior variedade de formas de justificação que apenas zw :. 1995 . p. p. w . :::J oa: <f. As economias da grandeza Minhas leituras fizeram meu caminho encontrar o de dois outros pesquisadores. 1991. Les Puissances de ~ l'expérience. Laurent THÉVENOT. Onde digo reconhecimento nossos autores dizem justificação. Essa com._. Paris. Luc Boltanski e Laurent Thévenot. m as segundo uma di- versidade ele critérios que faz que uma pessoa possa ser considerada "gran- de" ou "pequena" em função ele uma diversidade ele crivos ele grandeza que os autores chamam de economias. 17.. Le Juste I. autores do livro intitu- lado De la justíficacíon. A justificação é a estratégia por meio da qual os competidores fazem reconhecer seus lugares respectivos no que os autores denominam economias da grandeza. As economias da grandeza)18 . A primeira idéia que se impõe é a ele uma avaliação das prestações sociais elos indivíduos que reivindicam a idéia de justiça. UJ w Marc Ferry é parte no debate aberto por Habermas sobre a relação entre o nacional e o pós. Les économíes de la grandeur (Da justificação.emprego no nível social em que a identidade é confrontada aos sistemas de organização tomados como "ordens do reconhecimento" 17 .. 161-222). e mais precisamente sobre a construção da Europa (FERRY. nossos autores admitem que as formas ele justificação w o o. o w I to. abordo esse problema por o o ocasião do exame do livro ele Charles Taylor tratando ela "política elo reconhecimento". Les économies de la ~ a: grancleur. § 18. É.. 219 •• •••••• . Logo ele início. Uma situação de disputa é gerada :. antes de falar sobre o empreendimento de justificação enquanto operação ele qualificação elas pessoas em relação à situação que elas ocupam na escala elas grandezas. Luc BOLTANSKI. Não falarei aqui sobre os problemas ligados à cidadania.J w petição se concilia bem com nosso conceito ele luta pelo reconhecimen. La pluralité des instances de justice. Gostaria de abordar por meio deles os problemas ligados à pluralidade das mediações estruturais em relação com a estima pública. 121-142. pelas provas de qualificação em uma ordem dada de grandeza. Jean..

em cada caso. com base em "valores compartilhados". p. industriais. Em suma. quando se tratar elos criadores e dos artistas. É preciso especificar as formas de justiça.pela corrupção das provas e na ::J 1- ·::J proporção das discórdias que esta suscita. é a avaliação das pessoas em relação a esses critérios e às provas correspondentes que está em jogo na atribuição da grandeza por meio das provas de justificação. mas em estratégias de justificação vinculadas ao que os autores chamam ele "cidades" ou "mundos". As disputas a ser tratadas não são ela ordem da violência mas sim ela argum entação. A avaliação dos desempenhos obedece. ou ainda entre cr: o o holismo e o individualismo metodológico. como subestimam as formas ele fil osofia política que enfatizam o poder. a dominação ou a força. Por isso corre-se o risco ele en- 2 o contrar mais as figuras de compromisso que as de consenso a título de z w acordo. se puderem ser qualificados de "justificados".. para além da opo- z § sição entre sociologia do consenso e sociologia do conflito. o que os autores de língua inglesa haviam feito com su ces- •••••• . O negativo encontra aqui seu lugar sob a forma de sentimentos de o in justiça suscitados . as formas cívicas. Por isso o objetivo de construção ele uma huma- nidade comum.. para salientar a coerência interna elos sistemas de transações e a elos dispositivos e dos objetos implicados nessas transações.por exemplo . e é de uma forma plural que o bem comum legítimo é visado: isso é designado pelo termo grandeza. uma sociologia da ação que está em jogo nesse empreendimento. As formas de acordo têm de I oo ser descritas em ligação com as justificações que as sustentam: em nome ::J tii w ele que a grandeza é em cada caso atribuída? No final de que prova de ocr: ü:i justificação ela é considerada legítima? É. n a escala da pluralidade das ordens 220 de grandeza. 25). embora conceitos de tipo h abermasiano como discussão e argumentação se jam mobilizados. com excessiva pressa caracterizada pela solidariedade. o acordo raramente surge sem disputa. ü cr: mas sob a condição ele uma pluralidade de princípios de acordo. não. É. . É por fim a relação entre acordo e desacordo que pode ser con- 2 8I siderada a parte mais importante do empreendimento. evocadas já na descrição do projeto: por exem- plo. h averá uma "grandeza inspirada". pois. w 1- Os autores empreendem assim. a uma bateria de testes aos quais devem satisfazer protagonistas em situações de contestação. como M i- chael Walzer. não é de modo algum incompatível com essa pluralização dos critérios ele grandeza. de acordo que se trata. pois. mercantis ou de opinião" (De la justification . domésticas.

J o critos de Bossuet destinados aos príncipes. com os vínculos de dependência pessoal decidindo a importância aos olhos ele outrem. Nessa cidade não se atribui nenhum crédito ao reconhecimento pelos outros.. círculos de estudos. a cidade mercantil é apenas uma das que devem ser levadas em consideração. com seus valores de fidelidade. marquesa ele Conclorcet. l. ed. ecl. a honra depende do crédito conferido por ou- trem. Mme. <( oo cia mútua. La Politique tirée des propres paroles de l'Écriture sainte. A HIRSCHMAN. assistên. G uillaumin etC ie. manifestos.J o ~ ::. oLU I Passando daqui para a cidade doméstica. A política extraída das próprias 8z UJ palavras da Santa Escrítura 21 . Geneve. 1980. Les passions et les intérêts.. grupos de pressão etc. programas em uso em sindicatos. guias de rela- ções públicas. bondade. de Grouchy. !<. (j) lJ. os autores encontram nos es. susce- tíveis de vincular os homens (en contraremos um eco disso nas últimas páginas deste estudo. na qual o renome. associações. 21. Théorie des sentiments <( ::J moraux. lJ. que corrigem os aspectos ele submissão ligados à paternidade. . Para identificar essas cidades em função de su a série de argum entos. e hierarquizar os tipos de bens. 20. 1709. Aqui. É precisamente a este último que se refere a cidade da opinião. justiça. oferece razões para con struir a grandeza da cidade da inspiração. Para nossos autores. a argumentação mais estruturada em favor da 2 ::J o 0:: cidade doméstica.so somente no nível da ordem mercantiF 0. por outro lado. o princípio da graça é o que permite destacar a grandeza inspirada das outras formas ele grande- za denunciadas como maculadas por interesses terrestres corrompidos pela "vã glória". 221 se • • • • • • . S. em A cidade de Deus. tracl. Desse modo. l. eles tiveram a interessante idéia de cote jar textos canônicos apropriados a uma e a outra ordem. Paris. ao m enos em termos de renome. PUF. entre os quais o amor. Os autores entraram em acordo sobre uma repartição das ordens de grandeza em função de seis princípios superiores comuns aos quais os indivíduos recorrem para sus- tentar um litígio ou estabelecer u m acordo que mereça ser feito para uma forma elo bem comum. cu jos argumentos últimos são "aceitá- veis" sem ser fundamentalmente " justificados".J -' UJ dezas do estabelecimento". a grandeza não dependem senão ela opinião elos outros. Droz. o discurso pascaliano sobre as "gran. manuais de conselh os. Desse ponto de vista. consagradas aos estados de paz). Paris. BOSSUET. Santo Agostinho. há numerosos precedentes: Adam SMITH.' w 0:: 1759. como confirma. 2lJ.

As rela- ções de cidadania são mediatizadas pela relação com uma totalidade ele segundo nível. T h éven ot. p. 61). ao contrário elo contrato de submissão do Leviatã . por meio da análise de uma suces- ü:i são de elaborações intelectuais das idéias de desejo. A cidade industrial encontra o em D o sistema industrial. e a concorrência elas cobiças subordina o preço ligado à posse ele um bem aos dese jos elos outros" (Théorie des sentiments moraux. tenha sido considerado a referência da cidade cívica. De la 222 justification . "Devemos a A Hirschman ( 1977) a reconstrução. de glória. ü a: . contribuem para a o crl a: qualificação como cidades ou mundos desses grandes con juntos sacio- o I culturais. objetos exteriores às pessoas. de Rousseau. seu paradigm a.TAI'\JSKJ.. •••••• . um prefácio necessário à sua Investigação sobre a natureza e a causa da riqueza das nações. De la justification. da grandeza doméstica e da grandeza ele renome. da história do tratamento das noções de paixão e de interesse que precedem a construção elo sistema ele Smith e. de virtude etc. 241-262). tem como paradigma a obra de Adam Smith. 68). A adversidade refugia-se aqui nas intrigas priva- elas e na trapaça. com a subordinação à vontade geral como princípio de legitimação da grandeza cívica... A Teoria dos sentimentos morais. coisas. Não há justiça sem justificação. de modo mais amplo.. constitui. ele Aclam Smith. w de apetite. :::. desse ponto ele vista. ele tem como intermediários os bens raros subm etidos aos apetites de todos: "A relação m ercantil une as pes- soas por intermédio de bens raros submetidos aos apetites de todos. o vínculo social aparece ali como fundamentado em uma inclinação interessada pela troca m as na ausên cia ele qualquer sen- timento ele inveja 22 A confrontação entre mundo mercantil e mundo industrial consti- tui uma elas peças essenciais ela "apresentação elos mundos" (Boltanski. . Não foi algo inesperado que O contrato social. Laurent T HÉVENOT. Não entrarei no exam e elos tipos ele justificação que ocupam a maior i3 w I z parte ela obra. não h á justificação sem a justa- g ::J til w oa: 22._. p. A cidade mercantil. que i:> ·::J :::. p . de amor-próprio e de vaidade. O corte decisivo ocorre entre a cidade cívica e a tríacle da grandeza inspirada. que faz que tudo ocorra como se cada cidadão contratasse apenas consigo mesmo e opinasse segundo si próprio. está muito distante elo Contrato social: cabe aos industriais o gerencia- ~w m ento competente elas "utilidades". a primeira a ser citada nessa obra. ele Saint-Simon (1869). elas próprias fundamentadas na razão em O contrato so- cial. as argumentações desenvolvidas pelo liberalismo ( 1977-1982)" (Lu c BOI.

mas também a própria noção de grandeza: o que é um gran- de chefe da indústria aos olhos de um grande maestro ele orquestra? A capacidade de se tornar grande em um outro mundo pode ser eclipsada pelo sucesso em uma determinada ordem de grandeza. o conhecimento elos ou- tros mundos tende a estender o desacordo para as próprias provas. c ç se a possibilidade de mudar o mundo. seguindo Boltanski e Thévenot. capacidade que pode ser comparada à de aprender uma língua es- trangeira a ponto ele perceber a própria língua como outra entre as ou- tras. Nós. ~ prio. as artes ele viver individualizadas dependem ele uma phronesis sen- sível à variedade elas situações ele "deliberação" (para permanecer no vocabulário aristotélico). A contestação assume então a forma da discórdia. as situações de desacordo inerentes às relações entre os mun- dos. seguindo Hegel ao atribuir ao "crime" uma fecundidade institucional e Honneth ao basear nas formas do menosprezo a dinâmica das lutas pelo reconhecimento.discórdia que afeta não apenas os critérios de grandeza em um mundo dado. O que é feito por nossos autores no capítulo VIII. para fazer referência a um título . a ele compreender um outro mundo. . até mesmo para contestar sua contribuição para a realização do bem comum. ----. 291-334).---------- mento entre estado das pessoas e estado das coisas. Pode-se desenvol- ver. A acusação pode chegar até a invalidação resultante ela confrontação entre dois mundos. Os litígios e discórdias não consistem apenas em desacordos sobre a grandeza das pessoas mas também sobre a confiabilidade dos dispositivos materiais que dão consis- tência a uma "situação que se mantém". por meio da crítica. Se a própria tradução pode ser interpretada como uma maneira de tornar comparáveis os incomparáveis. 223 ••••• ~ . -ç cada ator de um mundo para os valores de um outro mundo.. que dedicamos atenção ao papel das motivações negativas. 23 . . está em outro lugar: na capacidade de despertar. não podemos deixar de evocar. . z são da pessoa. p. Revela-se assim uma nova dimen. Além elas rivalidades criadas pelas provas ele justificação em cada um elos mundos ligados às economias da grandeza. na ausên- cia ele uma base de argumentação vinculada ao mesmo sistema de justi- ficação . Mas o interesse disso. diferente elo seu pró. admitindo. uma tipologia das críticas dirigidas por um mundo ao outro na forma da denúncia 23 .. Ao abrigo desses consensos limi- tados. a partir disso. em minha opinião. consagrado ao "Quadro das críticas" (ibid.

de me afastar ele uma análise que tomou 2 8:r: como conceito diretor a idéia de grandeza sem examinar o que não é le- z o u vado em consideração na problemática da justificação. nada dispensará os atores sociais ele rem eter-se à sabedoria fronética. sem que ela tenha sido resolvida por meio elo recurso a uma prova em um único mundo" (ibicl. . "há um acordo para compor.. escrevem nossos autores. O compromisso sempre está sob a ameaça ele ser denunciado como comprometimento pelos panfletários ele todos os tipos.pela aptidão elo bem comum ele relativizar o pertencimento a uma cidade particular. contudo. e que parece o contrastar com a dimensão horizontal do reconhecimento no plano da o :::> estima ele si.justificado . A ele corresponderia. isto é. Laurent THÉVENOT. in De la justification. Os compromissos também se prestam a uma tipologia 25 . M areei D ÉTIENNE.. a dimensão w r:r: o vertical implicada pela oposição entre grande_ e pequeno. A questão que se coloca no final deste percurso é saber se o bem comum vale como u m a pressuposição ou como um resultado elos com- portam entos de compromisso. a saber. ••••• • . p. Seuil. 357 ss. que parece se impor ao título de fim dos comportamen- tos ele compromisso. Paris. de Détienne24. Aqui estamos beirando o difícil conceito ele autoridade. O paradoxo disso talvez se ja que o estatuto ele pressuposição. que não separa a justiça da justeza na o:::> f- -=> busca. 2000 (coL La Librairie du f- XX' siecle). para suspender a discórdia. p . 2 ~ z UJ Eu não gostaria. Figures du com promis. Lu c BOLTANSKI. Comparer /'incomparable. 3 37). em todas as situações. pode-se assim tomar o compromisso como a forma assumida pelo reconhecimento mútuo nas situações de conflito e de disputa resultantes da pluralidade de economias da grandeza. A fragilidade do compromisso fala também sobre a fragilidade elo próprio bem comum em busca ele justificação pró- pria. Desse ponto de vista. da ação adequada.. que m or:r: w u a: UJ 24. 25. será então a capacidade de compromisso que abrirá o acesso privilegiado ao bem comum: "em um compromisso". 224 p. a capacidade de reconhecer-se como uma figura ela passagem ele um regime de grandeza para outro. na falta ele uma posição forte que guie todas as arbitragens. Essa tipologia nos convida a fazer uma releitura dos procedimentos ele ampliação dos direitos subj etivos descritos na seção precedente. só é verificado . 42 1). elo lado elas pessoas.. sem se deixar encerrar na oscilação "entre o relativismo desiludido e a acusação panfletária" (ibid.

w _J w cimento-adesão. Le Juste II. que ele justifica pragmaticamente como um remédio à esgarçaclura inevitável elo laço social. Limitar-me-ei aqui ao aspecto cultural ela autoridade. n. deixando de lado o ponto cego da autoridade institucional e mais precisamente política. Les paradoxes ele l'autorité. [ . como se pode ver nos Conseíls au jeune prínce (Conselhos ao jovem príncipe) e no Traité de la grandeur (Tratado ela grandeza) nos escritos ele moral ele Pierre Nicole. a "miséria" é oposta à "grandeza": "Todas essas misérias". próprio elo "considerar verdadeiro". nossos léxicos vão no mesmo sentido ao salientar o lado assimétrico de uma relação como a da autoridade que confronta aqueles que coman- dam e aqueles que obedecem. Ali. mais compatível com a h orizontaliclade .não é discutido como tal por nossos autores. podem os denominá-lo. Blaise PASCAL. Todo o enigma da idéia de autoridade era assim oposto ao âmago ~ w 2: da análise lexical do termo "reconhecimento" por esse "valer-mais". Desse ponto ele vista. ] São misérias ele grandes senho- res. comportava um "va. ::J Cl CC Um aspecto da autoridade. Lafuma. Pensées. O problema colocado pela autoridade se cruzara uma primeira vez com o ela grandeza n os escritos de Pascal. "reconhecimento da superiorida. Paul RICOEUR. reconhecido. Esprit. 225 •••••• . na medida em que o poder é considerado legítimo e nesse sentido autorizado ou. Ed. melhor dizendo. Desse ponto de vista.0: oo elo viver-junto. Cl w I ler-mais" cuja admissão não ocorria sem a evocação ele uma dimensão de w o altura. 116. consagra a última seção da Realphílosophíe a uma reflexão sobre a "formação ela Constituição" e a obediência que esta impõe. Tratava-se então ele um "despojamento" dian- te elo poder. . do qual nossa insistência sobre o laço social nos manteve afastados. "provam sua grandeza. está escrito nos Pensamentos. 27. Paris. São conhecidas as famosas análises ele Max Weber sobre as formas ela dominação e as crenças que lhes corresponclem elo lado elo sujeito. 2000. tampouco podemos eluclir a dificuldade ele que Hegel. um elemento ele verificabiliclade tinha surgido em nossas 2: análises lexicais com as quais abrimos nosso primeiro estudo: o reconhe. acompanhando Gaclamer em uma ~ página notável de Verdade e método. até mesmo ele um elogio à tirania fundadora. Ora. Cf. ~ ~ w a: 26. como vimos. . destaca-se claramente elo poder ele comandar que pede (j) w o obediência. O direito de comandar certamente não é a violência. Misérias ele um rei despossuído" 26 • Pascal certamente não é ingênuo em relação aos prestígios ela grandeza. Não é aqui o lugar de examinar o problema em toda a sua extensão27 .

ed. Jean G randin. discursiva. escriturística. 300). p. 119. distinguida da autoridade institucional. Paris.cuja palavra possui autoridade - e seu discípulo. desse modo. e compl. tem preeminência sobre o nosso. Isso está ligado ao fato de a: o que na verdade a autoridade não é recebida. les grandes lignes d' une h erméneutique philosophique. mas adquirida. Portanto. constitui algo espinhoso para um empreendimento como o nosso. a autoridade não possui nenhuma relação oa: ül direta com a obediência: ela está diretamente ligada ao conhecimento" (GADAMER. Ainda resta que a relação vertical de autoridade. Não. de" 28. O modelo mais completo de reconhecimento da superioridade teria de ser procurado na relação de ensino entre mestre e discípulo. Santo Agostinho coloca frente a frente. Ela se baseia no reconhecimento. Sobre o conceito de autoridade enunciativa. i:':' por Pierre Fruchon. o de ensinar e o de aprender. encadeados pelo de interrogar. dois atos. "A autoridade das pessoas não possui o seu fundamento último em um ato de submis- 2 G w são e ele abdicação da razão. m esmo mantida dentro dos limites da autoridade enunciativa29 . 1- ·:::l 2 o ~ 28. No De Magístro. mas em um ato de reconhecimento e de conhecimento: conhe- I z cimento de que o outro é superior em julgamento e em perspicácia. deliberadamente li- o:::l mitado às formas recíprocas do reconhecimento mútuo. 8 em um ato da própria razão que. integral rev. Assim compreendida em seu verdadeiro sentido. 226 cf Paul RICOEUR. por conseguinte. Seuil. Para fazer justiça à obra de Boltanski e T hévenot. de buscar. concede a outros uma maior perspicácia. p. Vérité á! et Méthode. 29. consciente de seus limites. seu 8w julgamento é mais importante. de que. é pre- ciso conceder-lhe o direito de recortar no imenso campo dos procedi- m entos de institucionalização do vínculo social o conjunto relativamente autônomo das figuras ela obediência justificadas pelos procedimentos de justificação levados em consideração nas Economias da grandeza. e deve necessariamente ser I adquirida por quem pretende possuí-la. é preciso reco- nhecer que há uma relação circular entre a superioridade dos valores alegados nesse quadro limitado e o ato de reconhecimento que se ex- pressa na participação nas provas de qualificação ao longo de todo o processo de justificação. Gilbert M erlio. A noção de grandeza de nossos sociólogos parece próxima da idéia gadameriana de reconhecimento da superioridade na medida em que cada um dos conjuntos de argumentos considerados remete a crenças partilhadas referentes à superioridade dos valores que distinguem cada um dos modos de vida próprios de uma cidade. a autoridade não tem nada a ver lli com a obediên cia cega a uma ordem dada. É preciso admitir que a espécie de superioridade alegada nos conjuntos de argumentos de cada um dos mundos evocados por Boltanski e T hévenot está longe do modelo de reconhecimento de superioridade proposto pela relação entre o mestre . Le Juste II. já desde o exórdio. •••••• .

Trata- se pois de identidade. pelas minorias negras ou pelos conjuntos cultu- rais minoritários (o termo "multiculturalismo" é reservado às exigências de igual respeito provenientes de culturas efetivamente desenvolvidas no interior de um mesmo quadro institucional). intitulado justamente "Polí- tica de reconhecimento". Paris. coloca em jogo a auto-estima. É difícil não se tornar o que Raymond Aron chamava de "observador engajado": observador na medi- da em que seu primeiro dever é compreender as teses antagônicas e dar preferência aos melhores argumentos. se ja pelos movimentos feministas.Multiculturalismo e "política de reconhecimento " Guardei para o fim a forma de luta pelo reconhecimento que mais contribui para a popularização do tema do reconhecimento. assim como aos combates sustentados em outras frentes. Charles TAYLOR. Essa reivindicação. ou ainda pela percepção errônea que o~ outros pos- 30. C harles Taylor encontra primeiramente no espetáculo elas lutas pelo reconhecimento conduzidas por grupos minoritários ou subalternos uma confirmação ela "tese segun- do a qual nossa identidade é parcialmente formada pelo reconhecimento ou por sua ausência. Multiculturalisme. é o reconheci- m ento da identidade distinta das minorias culturais desfavorecidas. a elo Québec francófono 30 . que diz respeito à igualdade no plano social. Différence et démocratie. um modelo ele argumentação cruzada que en- contra seus limites em uma situação polêmica na qual o autor está pes- soalmente enga jado. 227 ••••• . mas freqüentemente convergentes. até mesmo multissecular. mas no plano coletivo e em uma dimensão tempo- ral que abarca discriminações exercidas contra esses grupos em um pas- sado que pode ser secular. como na história da escravidão. particularmente nos países anglo-saxões. Flammarion. a despeito de sua visibilidade na cena pública. que torna difícil que permaneçamos na postura descritiva que mantivemos até agora. com o risco de banalizá-lo: ela está ligada ao problema colocado pelo multiculturalis- mo. Uma razão para reservar para o final essa forma de luta pelo reconhe- cimento. como a universidade. reside no caráter altamente polêmico de uma noção como o multiculturalismo. e por fim a própria instituição política. mediatizada pelas instituições públicas ligadas à sociedade civil. Encontrei no ensaio de Charles Taylor. 1994. O que é comum a todas essas lutas diferentes. como na condição feminina.

suem dela" (Multiculturalisme. con- centra a discussão na "política ela diferença". O que UJ L se critica no universalismo abstrato é ele ter ficado "cego às diferenças" em 8I nome ela neutralidade liberal. exigiria um tratamento diferenciado. Esses ü a: procedimentos institucionalizados seriam eventualmente aceitáveis se con- UJ I- duzissem a esse espaço social considerado cego às diferenças e se não ten- 228 dessem a se instalar permanentemente. imagem que eles percebem como depreciativa. por um lado devido ao des- moronamento das hierarquias sociais que haviam colocado a honra no topo dos valores de estima e. contudo. devido à promoção ela noção moderna ele dignidade com seu corolário. e que encontrou no vocabulário contemporâneo a auten- ticidade ele seu páthos distintivo. O autor procura ver na passagem ele uma política à outra mais um deslocamento que uma oposi- ção frontal. que pode reivindicar sua filiação a Rous- seau e a Herder. o caráter essencialmente "dialogal" ele uma reivindi- cação que assume uma dimensão francamente coletiva: é coletivam ente. desde- nhosa. o reconhecimento igualitário. só se tornou possí- vel. encontra seu limite. I oo Essa abordagem benevolente. Taylor inicia sua ten- tativa ele explicação observando que essa preocupação eminentemente moderna. até mesmo reforçar. O seguinte corolário é válido: os danos em questão atingem a imagem que têm ele si mesm os os membros elos grupos lesados. Duas políticas igualmente fundamentadas z § na noção ele respeito igual entram assim em conflito a partir de um mesmo a: o conceito diretor. Essa situação conflituosa extrema ••••• . por si :::J 1- -:::J mesma. política que ele opõe à que se fundamenta no princípio da igualdade universal. até m esmo aviltante. preocupado em manter uma boa argumentação. Charles Taylor. que se exige um reconhecimento singularizante. mas à versão universalizante ela dignidade se acrescentou a afirmação de uma identidade individualista. por outro. suscitado pela mudança de definição elo estatuto igualitário o implicado pela própria idéia ele dignidade. que une a identidade ao reconhecimento. seria a igualdade que. a ponto ele trazer para o pla- L 2z no institucional regras e procedimentos de discriminação invertida. admitindo a possibilidade ele preservar. exigida oa: w em nome do dano causado no passado às populações envolvidas. poder-se-ia dizer. A gravidade da falta de reconhecimento de que os membros desses grupos se sentem vítimas provém ela interioriza- ção dessa imagem sob a forma ele autoclepreciação. 41 ). quando :::J 1- (j) UJ tratamos de sua aplicação institucional. como observam Habermas e Honneth. o ele dignidade com suas implicações igualitárias. na discriminação invertida. p.

É então a vontade geral. é do fundo cultural diferenciado que provém a exigência de reconhecimento universal. elo sexo masculino. que é acusada de ser uma tirania homogeneiza- clora pela política ela diferença. 64). Resta à testemunha engajada pedir a seus contraditares WJ o que apresentem nos debates. como no caso elo Québec. WJ _j WJ des não assumem a forma ele destino coletivo. é o próprio universal idêntico que parece discriminatório 31 . presumida pelo argumento de Rousseau. baseada no reconhecimento de capacidades univer- sais. partilhado por todos como um potencial humano universal. com um particularismo assumindo o disfarce ele princípio universal. Um observador menos envolvido que Taylor sofreria a tentação de <( transpor para os conflitos de legitimidade o modelo de compromisso pro. O ponto de resistência estaria então na recusa em reconhecer na idéia de diferentes projetos coletivos e na de direito à sobrevivência. e ainda m enos de direito ü WJ I à sobrevivência. no sentido :J ü a: político e não econômico elo termo. p. é nas instituições de ensino e nas regras de comércio que se enfrentam. seus melhores argu.. como ela própria faz.· projeta para o primeiro plano as oposições referentes à própria noção de dignidade: a versão liberal clássica se baseia no estatuto ele agente racio- nal. mentos. Em nos- sos dias. posto anteriormente. A questão é saber se "toda política ele igual- dade de dignidade. Há uma grande urgência nas sociedades liberais. Dora- ~ vante dir-se-á que uma sociedade liberal "se singulariza enquanto tal pelo _j :3 ~ WJ a: 31. no mundo saxão e particularmente no Canadá. a do homem branco.. No limite do argumento. u ma espécie de legitimidade distinta da que está na Constituição e no conceito aferente de direitos constitucionais. 72). z ~ ::. a afirmação de um pretenso potencial hu- mano universal sendo ela própria considerada a simples expressão de uma cultura hegemônica. no caso da polí- tica da diferença.I. p. a política ela diferença e a do universalismo liberal. favorável a um tipo de conflito no qual as fidelida. também é destinada a ser homogeneizadora" (ibicl. Un\versi~~cte fed rai do P~tD Biblio~ecd C~' . f2z WJ ::. 229 ••••• . em seu apogeu na era das Luzes. "A acusação fei ta pelas formas mais radicais ela política ela diferença é a ele que os liberalismos 'cegos' são eles próprios reflexos ele culturas particulares" (ibicl . Vimos esse potencial em ação na seção precedente a título de ampliação da es- fera de indivíduos que têm acesso aos direitos subj etivos. na m edida em que todas elas estão <( oo frente a frente com problemas ele minorias e que a configuração dos (f) WJ •O Estados-nações não abarca o mapa elas diferenças etnoculturais.

além disso. modo pelo qual ela trata suas minorias. foram detalhadas. inclusive aquelas que não parti- lham as definições públicas do bem. p. No entanto. o balanço 2 8z ele novas capacidades pessoais suscitadas pelo processo ele luta pelo reco- UJ 2 nhecimento. o respeito. um suj eito se considerará verdadeira- o a: UJ >-- m ente reconhecido? Retirar-se-ia uma parte da virulên cia da questão argumentando que 230 nossa investigação foi interrompida no limiar ela política no sentido pre- ••••• • . já oposta às teses elos fundadores ela escola elo "direito natu- ral": o Leviatã exclui todo motivo originariamente moral. e acima de tudo pelos direitos que ela concede a todos os seus membros" (ibid. em correlação com os modelos sucessivos ele reconhecimen- g I z to. cujo benefício no plano pessoal não pode ser senão o aumento ela auto-estima. O ser-reconhecido tomava-se assim a parte mais importante ele todo o proces- so. a esse respeito. ele eles- confiança e ele glória. e elas ofensas à medida dessas exigências. * '~ * No final de nosso percurso das figuras ela luta pelo reconhecimento. ele manteve o até o final uma parte ele mistério. na direção do qual tende todo o processo. cujas o ü UJ modalidades. Hegel oferecia. oa: üJ Quando. no início. . 8 1). no menosprezo. ele responder à versão naturalista elo estado ele natureza em Hobbes. perguntaremos nós. um poderoso instru- mento especulativo ao colocar os recursos elo negativo a serviço ele um processo ele realização efetiva ela consciência ou elo Espírito. acrescentando-se as que foram recenseadas I 8 em nosso segu ndo estudo. essa promoção a: o elas novas capacidades subj etivas. não impediu que ganhasse forma um sentimen- § to de mal-estar que afeta as pretensões ligadas à própria idéia de luta. pôde-se nomear a confiança em si mesmo. Tra- tava-se. Certamente colocava-se à frente das 2 ·::J exigências normativas. Lembro a razão ela escolha desse ângulo ele ataque para as experiências encontradas. não nos es- queçamos elas páginas sobre o "crime" como gerador ele normatividacle. a auto-estima. Quanto ao próprio ser-reconhecido. não apenas para sair elo estado ele guerra ele todos contra todos mas também para reconhe- cer o outro como parceiro elas paixões primitivas ele competição. Esta última máxima define uma "política de reconhecimento". gostaria ele questionar a idéia ele luta em todos os estágios. denominado luta pelo reconhecimento na "reatualização sistemática" ela argumentação hegeliana: colocou-se uma forte ênfase nas formas nega- tivas ela negação ele reconhecimento.

proponh o tom ar em consideração a expe- riência efetiva do que eu cham o de estados de paz. manifesta. permanecemos bem aquém das certezas ligadas a uma filosofia política conduzida a seu estágio de excelência. . [e] por outro lado. abarcam apenas o espaço ele sentido elo Espírito objetivo e cedem lugar ao Espírito absoluto. diz respeito a essa região elo espírito e aos modelos ele reconhecimento vinculados a ela. vontade que pensa a si mesma e tem saber sobre si própria. Há aqui a tentação de uma nova fo rma ele "consciência infeliz".. e são ativos ao seu serviço. na qual o "eu" é um "n ós". assim entregues a u ma busca insaciável.. desse ponto de vista. da qual são conhecidas as pretensões que se tornaram inacreditáveis. . jurídico e social. na m edida em que sabe" ( 25 7). na falta de u m desenvolvimento comparável do direito estatal externo. Nossa dúvida. Nesses limites. sob a forma se ja de u m sentimento incurável ele vitimização. reconhecem este. Para conjurar esse m al-estar de uma n ova "consciência infeliz" e elos desvios que dela decorrem .. Basta evocar aqui as fórmulas peremptórias dos Princípios da filosofia do direito: "O Estado é a efetividade da idéia ética . com [seu ] saber e [seu] querer. por um lado. a qual coincide apenas com a esfera ela "eticidacle". eles passam por si sós para o interesse do universal. que abre para uma problemática diferente ela do reconhecimento. e que cumpre o que ela sabe.o espírito ético enquanto vontade substancial. portanto..ciso de teoria do Estado. a liberdade concreta consiste em que a singularidade da pessoa e de seus interesses particulares tem seu desenvolvimento completo e o reconheci- mento de seu direito por si [ . por seu estilo militante e conflituoso.. mas também às capacidades conquistadas. na m edida em que ele é seu fim último [ . seja de uma incansável postulação de ideais inatingíveis. O reconhecimento é nomea- do mais uma vez: "O Estado é a efetividade da liberdade concreta. 260) . e associá-los às moti- vações negativas e positivas de u ma luta "interminável". não se resolve em uma exigência indefinida. ora. por m ais grandioso que se ja o seu desenvolvimento. neste caso como seu próprio espírito subs- tancial.. ]" (ibid. os Princípios ter- minam com o esboço da "história do mundo". com o pode ser a 231 •• ••••• . assim como. essa dúvida assume a form a ele uma pergunta: a exigência ele reconh ecimento afeti- vo. por si distinta. Mas não é inoportuno recordar que. Tampouco nos esqueçam os de que os Princípios. figura de um "m au infinito"? A questão não diz respeito apenas aos sentimentos negativos ele falta de reconheci- m ento. ].

Mas gostaria de dizer desde já o que espero e o que não espero dessa associação... nas quais o sentido da ação sai elo nevoeiro ela dúvida com a estampa ela ação conveniente._ w 232 •••••• . É por isso que não se trata senão de tréguas. [i w I z o &l a: o o o ::J t:i w oa: üJ oo: . ainda menos da resolução dos conflitos em questão. dir-se-ia de "clareiras". análise no sentido psicanalítico do termo. A certeza que acompanha os esta- dos de paz oferece antes uma confirmação de que a motivação moral das lutas pelo reconhecimento não é ilusória. ~w ::. o:::J 1- ·:::J ::. de melhorias. As experiências de reconhecimento pacificado não poderiam ocupar o lugar da resolução das perplexidades suscitadas pelo próprio conceito de luta.

2. Antes ele desenvolver essa tese. junto com certos autores. Mé- taillé. aparentada à ele Marcel Henaff em Le Príx de la véríté (O preço da verdade. I lienta sua gravidade. I explicarei mais adiante a razão desse título). longe de desqualificá-las. Une introduction aux états de paix. Luc BOLTANSKJ. o caráter excepcional dessas experiências. Paris. ele estados de paz 1. L'Amata et la Justice comme compétences. procurei enfrentar I argumentos que se elevam como obstáculos à adoção apressa- da ele uma interpretação excessivamente favorável ele minha I tentativa ele associar a idéia ele luta pelo reconhecimento ao I que chamo. sa. I que se baseiam em mediações simbólicas subtraídas tanto da I ordem jurídica como da ordem das trocas mercantis. parte: Agape. 1990. A luta pelo reconhecimento e os estados de paz I I I tese que eu gostaria de defender na última seção deste terceiro estudo resume-se a isto: a alternativa à idéia de I luta no processo de reconhecimento mútuo tem ele ser procu- rada nas experiências pacificadas de reconhecimento mútuo. 233 I •••••• I I . I 1. e com isso assegura sua força ele irradiação e ele irrigação no próprio âmago elas transações marcadas pela I chancela ela luta.

1. de modelos de estados de paz conhecidos sob sua denominação grega original phílía (no sentido aristotélico ). agápe (em sentido bíblico e pós-bíblico). que nosso próximo modelo coloca a título ela z o &la: reciprocidade. o lugar polêmico por exce- lência no qual a unilateralidade da agápe se rá habilitada a exercer sua função crítica em relação a uma lógica da reciprocidade que transce nd e os gestos discretos dos indivíduos na situação ele troca de dons. •••••• .. livro evocado anteri ormente. para distingui-la elo tipo de circularidade autô- noma ligada às formas lógicas ela reciprocidade. A problemática dessa disciplina o resume-se na proposição: "Aquil o de que as pessoas são capazes" (títul o :::J ts da primeira parte da obraf :. Um estado de paz: agápe É no quadro ele uma sociologia ela ação qu e Lu c Boltanski trata elo amor e ela justiça como competências. É digno ele nota que os "estados ele paz". desd e o início deste estudo. concorrendo com o do m e o m ercado. parece refutar por antecipação a idéia de reconhecimento mútuo na medida em que a prática generosa do dom . desse ponto ele vista. dos quais o terceiro. agápe. O paradoxo elo dom e elo contraclom constituirá. não re- qu er nem espera uma dádiva em retribuição. em nossa cultura. os. u a: i!! 2. com a agápe encabeçando- ~ w :. O livro se constrói até mesmo com base na oposição ~w entre a luta sob o signo ela justiça e a trilogia dos estados ele paz. ela qual oa: [jj a agápe é aqui a figura privilegiada. A qu estão será saber se o caráter unilateral da gen erosidade própria ela agápe não eleve ser m antido na reserva para enfrentar o perigo inverso que atribui à idéia ele reconhe- cimento mútuo uma lógica ela reciprocidade qu e tende a apagar os traços interpessoais que distinguem aquilo que. Essa máxima tem de ser relacionada co m as teses anteriores das Economias da grande- 234 za. se jam globalmente opostos aos estados ele luta qu e não se resumem às 8I violências ela vingança. como demonstra o pro- I g cesso no tribunal. O primeiro está ligado à existência. ao m enos em sua forma "pura". prefiro denominar mutualidade.. Os obstáculos são dois. éros (no sentido platônico ). Abrir-se-á assim o terreno para uma interpretação da mutualidade elo dom fund a- m entada na idéia ele reconhecimento simbólico . mas incluem tam- o bém e principalmente as lutas ligadas à justiça.

Mais sutilmente ainda. A &l a: despreocupação ela agápe é o que lhe permite suspender a disputa.. mesmo na justiça. .J <( segundo a expressão ele Hannah Arenclt ao falar elo perdão. O essencial nas análises ela Ética a Nicômaco sobre a amizade trata elas condições mais propícias ao reconh ecimento mútuo. A abundância elo coração. 235 •• ••••• . como demonstram UJ o os discursos sobre o próximo e sobre o inimigo. Ela diz respeito precisa- m ente à reciprocidade. É pois primeiramente por contraste com a justiça qu e a agápe faz valer seus títulos: a justiça. O traço mais importante para n ossos objetivos reside na ignorância elo contraclom na efusão elo dom no regime ela agápe. o 'Z mente à ordem elo julgamento e assume a forma ele maledicência ao modo UJ :. . Não que a agápe ignore a relação com o outro. . 8I z o elo".:! ffl Trata-se no máximo ele uma equ ivalência que não é medida ou calcula. esse reconhecimento que aproxima a amizade da justiça. torna inútil a re- ferência às equivalências. e com o cálculo a preocupação. ainda menos em reprimi-las. a agápe se distingue elo éros platônico pela ausência elo sentimento de privação que alimenta seu desejo de ascensão espiritual. Contudo. ele uma némesis do julgamento condenatório: "Julgu e e não será julga. Se a interrupção ela disputa for o primeiro critério elo estado ele paz. até 9 UJ o. mas ela inscreve essa Ul o o relação ele busca aparente ele equivalência subtraindo-a elo julgamento. Ul o UJ ela. evocadas no outro livro elo autor. com efeito. sem ser uma figura da justiça. A fronteira é mais en coberta no qu e diz respeito ao estado ele paz de que a agápe parece mais próxima. exclui esse senti- do ela privação. pois ela ignora a comparação e o cálculo.. A agápe. elo lado ela agápe. O esquecimento das ofensas que ela inspira não con. a justiça não passará no teste. em compensação. a phílía. Essa observação não nos surpreende: salientamos bastante o lugar ela referência à justiça em nossos modelos ele luta pelo reconhecimento. não esgota a questão da interrup- ção da disputa aberta pela violência e reaberta pela vingança. A única reciprocidade evocada n esse contexto diz respeito precisa. a agápe não é por causa disso inativa: Kierkegaarcl pode se estender longa. Com o julgamento cai o cálculo. lhe é aparentada.:! ::J siste em afastá-las. A referên- cia da justiça à idéia ele equivalência contém em germe novos conflitos suscitados pela pluralidade ele princípios ele justificação relativos à estru- tura conflituosa elas "economias ela grandeza".. mas em "deixá-las ir". Este é um corolário ela ausência ele referência ela agápe a toda idéia ele equiva- lência. sobre a qual o tratado ele Aristóteles diz que.

Essa questão extrai sua seriedade e sua gravidade elo crédito atribuído ao discurso ela agápe. de L'Orante.. Éd.. .. .. tal como seu con- ceito de próximo o exige. que é o de seu estatuto. o h omem se compraz com ü w I a visão ele seu ob jeto reinando acima de todos os outros ob jetos de su a z o preocupação. seu presente ignorando o arrependimento e a expectativa. Paris. "). A agápe se presta a essa prova em primeiro lugar graças à sua entra- da na linguagem que a torna de algum modo comensurável com o dis- o:::J f- ·:::J curso da justiça. 199). elas se oferecem à compreensão comum. mas como aquele elo qual nos aproxima- mos. não como aquele que está próximo. Oeuvres completes. a partir do mo- mento em que ele não é considerado nem ilusório nem hipócrita. a agápe possui u m olhar "em favor elo homem que é visto". a agápe se m antém n a permanência. aberta por essa apro- ximação. 1980. . XIV •••• ________ ~. uma "avalia- o IJJ a: o ção forte" emitida sob o modo do canto: o hino ao amor da Epístola de I oo Paulo aos Coríntios (capítulo l3) é seu paradigma. ele uma utopia ou ele uma enganação?" (L'Amour et la Justíce comme compétences. que consiste a prova de credibilidade do discurso da agápe. ela se deixa dizer por m eio de exemplos e parábolas. em f- 236 3. p. por mais estranhas que se jam essas 2 expressões. saída do campo ela comparação. t. De um modo ainda mais enigmático. cujo resultado extravagante desorienta o ouvinte sem haver a garantia de que ela o reoriente. É então na dialética entre o amor e a justiça. A questão colocada pela agápe à sociologia da ação por meio ele Boltanski também é n ossa: "A teoria da agápe coloca um problema cen- tral. a altivez 2 (f) da agápe é celebrada no modo optativo elos macarismos ("Bem-aventura- IJJ o a: do aqu ele que . O amor permanece sem resposta às questões porque a justificação lhe é estranha ao m esmo tempo que a atenção a si mesmo.. no que permane- ce.. mente sobre as "obras do amor"'. O louvor é. pois a agápe fala.. A agápe dá um passo na direção da justiça assumindo [jj ü a: LU a forma verbal elo m andamento: "Am arás". É sobre seu impacto sobre a própria prática ela reciprocidade. o caráter "incomen- surável" elos seres torna "a reciprocidade infinita ele ambos os lados"... o discurso da agápe 2z 2 w é sobretudo um discurso de louvor: no louvor. Trata-se de uma construção que permite descrever ações realizadas por pessoas na realidade. no vocabulário de Charles Taylor. Si:iren K!ERKEG!\ARD. de u m ideal parcial- mente realizável. Além disso. que Rosenzweig opõe. ~~---- . Embora ela não seja argumentada em termos gerais. que joga essa credibilidade: o próximo.

Essa entrada na linguagem da agápe certamente não abole a despro- porção entre amor e justiça. Essa capacidade de significar mais do amor erótico foi w a. ü w I z o crl a: 4. Pensées. g _J <J: 5. "Todos os corpos juntos. nãe-vB·Iear- o menor movimento de caridade. No tribunal. Essas situações ele justificação são lW próprias de sociedades como as nossas. declarado vítima. O mandamento que precede toda lei é a palavra que o amante dirige à amada: ame-me! É o próprio amor que se recomenda por meio da ternura de sua objurgação.L'Étoile de la rédemptíon (A estrela da redenção). o juiz se apresenta a nós então como portador não apenas ela balança mas também ela espada. Mas não é apenas no plano ela justiça penal que o vínculo entre justiça e argumentação se torna fl agrante. Ecl. a justiça argumenta. vizinho do hino e da bênção. É precisamente no trabalho ela desproporção que consiste a dialética do amor e da justiça que se prolon- gará até no paradoxo do dom feito . que se deixam definir em termos ~2: ele distribuição ele bens m ercantis e de bens não-m ercantis (papéis. Acrescentemos a esses dois tra- ços discursivos o poder de metaforização que está ligado às expressões da agápe e a faz chegar aos recursos analógicos do amor erótico. ele é flagrante também de lW o múltiplas maneiras nas situações em que os indivíduos são submetidos a CJJ provas ele justificação suscitadas pela conquista ou pela defesa ele uma 8 ~ CJJ posição em uma ou outra elas cidades ligadas às economias ela grandeza lW (f) o no sentido de Thévenot e Boltanski. colocando ele u m lado o queixoso. 12).. e ele outro seu adversário. seç. se pro- clama. assim intitulo o capítulo consagrado ao C ântico dos g Cânticos: O jardim das metáforas. Na obra coletiva Penser la Bible. A disputa foi decidida. a decisão cai como uma palavra que separa. em um certo sentido. A distância entre disputa jurídica e estados de paz é. etodas as suas procluçees. à lei e à sua coerção moral. Isso é de uma ordem infinitamente mais elevada" (Blaise PASCAL. tare. mas ela foi ape- nas subtraída à vingança sem ter sido aproximada elo estado ele paz. que Pascal leva aos extremos em seu famoso fragmento sobre as Ordens de grandeza. E é ainda no nível da linguagem que essa dialética discordante se deixa apreender: a agápe se declara. subestimada por Nygren em sua oposição entre éros e agápe. declarado culpado. ousar-se-ia falar aqui em um uso poético do imperativo. seguido nisso por todos aqueles que construíram sobre a dicotomia entre éros e agápe. 237 •• ••••• . essa argumentação está a servi- ço da disputa à qual se opõem os estados de paz. levada a seu ápice quando a decisão ela justiça coloca um fim ao processo e a seu combate de argu- mentos. Brunschvicg. e todos os espíritos juntos. como mostra o Cântíco dos Cântícos4 .

enquanto justiça distributiva. pela regra de equivalência. Desde Aristóteles. capaz de comportamentos de justificação. e o do 238 segundo gesto. Ouaisquer que sejam as origens arcaicas da econo- mia do dom. ele não supera o gesto primeiro sem nada esperar em troca. Pode-se lançar uma ponte entre a poética da agápe e a prosa da justiça. Mas ele não o :::J !li w arbitra segundo a regra da justiça. aliás dominadas pela economia mercantil onde tudo tem preço. a tonalidade dominante das ações entre o homem do primeiro gesto. que em outro lugar pôde ser dita estranha ao dese jo.. vantagens e desvantagens. a ocasião privilegiada desse confrontamento é precisa- mente o dom. direitos e deveres. ao ignorar a obrigação de dar ~w ::. os moralistas enfatizam o víncu- lo entre o justo assim definido e o igual: "Tratar de modo semelhante os casos semelhantes". não comporta senão um desejo.. se encon- i2 ·:::J tra perdido nesse mundo do cálculo e da equivalência. fas. no qual ele é in- ::. como virtude das institu ições que presidem todas as operações de partilha. benefícios e encargos). Não z o b:l que o príncipe Mychkin se ja o que geralmente se chama de idiota : ele a: o possui uma inteligência impressionante das situações que o torna presen- I o te em todos os lugares em que há disputa e contestação. o de dar. em troca. Com isso. remetem ao mesmo mundo da ação no qual elas têm a ambição de se manifestar como "competências". mas submetido a códigos sociais que regem as rela- ções entre dom e contradom. o homem da agápe. em uma situação qualquer de distribuição. o da justiça. como no resto de seu reino. a fórmula mais geral da justiça. Sua ação é sempre a que é adequada oa: üj sem se desviar da regra geraL Sua ação poderia ser caracterizada em ter- u cr: UJ 1- mos de justeza mais que de justiça. por nela não haver privação. Pois a agápe. segundo a agápe e segundo a justiça. o dom ainda está presente em nossas sociedades. É aqui que intervém a justiça. não pode ser caracterizada senão pelo mal- •••• . 8I Dostoiévski deu a esse inocente a inesquecível figura do Idiota. os indivíduos não teriam existência social sem as regras de distribuição que lhes conferem um lugar dentro do conjunto. entre o hino e a regra formal? Essa ponte deve ser lançada. pois os dois regimes de vida. O homem da agápe. Ela surge então no meio de um mundo costumeiro em que o dom assume a forma social de uma troca na qual o espírito de justiça se expressa. que será o objeto da próxima discussão. é a expressão de sua generosidade. esta é. aquele ao qual a so- o ciologia da ação reconhece um rosto e um comportamento. "D ar a cada pessoa o que lhe é devido".

Paris. PUF. "'3 <J: in L'Année sociologique. co!. no Evangelho de Lucas. O autor procurou descrever esses vaivéns entre um regime e outro. Essa i sur /e don. entendido. seja o z o processante enternecido pela liberdade e pela despreocupação do generoso e seu caráter Ql CI: aparentemente errático. O que é enigmático nas práticas da troca de dons em populações como as dos maoris da Nova Zelândia não é a obrigação de dar. da qual ele seria a forma arcaica. reed. receber. Marcel MAUSS. precedida de uma introdução à obra de M arcel Mauss escrita por Claude Lévi-Strauss. Forme et raison de 1' échange dans les sociétés archa"iques. retribuir? Mauss formula a o o questão nos seguintes termos: "Que força há na coisa que se dá que faz "' f:{l (f) com que o donatário a retribua?" Por meio dessa fórmula. 239 • •••••• . o mandamento de amar os inimigos. com Boltanski. nem a de re- ceber. t. Pode-se perguntar se a justaposição. que nas situações concretas da vida é dado a cada parceiro "oscilar" entre um regime e outro. p. nos quais se pode ow I ver seja o generoso forçado a se justificar. se. e contudo forçado e inte- ressado dessas prestações" (Essai sur le don . e a repetição da regra de ouro não provém dessa oscilação (Lucas 6. 2ª série. Em poucas palavras. 147)? O que estabelece a w o (f) relação entre as três obrigações: dar. retomado in Sociologie et Anthropologie. A agápe perdeu a "pureza" que a exclui do mundo. e a justiça a segurança que lhe confere a submissão à regra de equivalência. por assim dizer aparentemente livre e gratuito. Ensaio sobre o dom 7 . 7.27-35). É sobre esses traços arcaicos que se debruça o sociólogo-etnólogo. Como explicar "o caráter voluntário. completado pela condenação da expectativa do dom em UJ a. entre '3 . por exemplo. que passarão a nos ocupar a partir de agora: talvez eles também façam parte da solução desses paradoxos em termos de reconhecimento mútuo. 1950. 2. mas a de dar em retribuição. Quadrige ( 1999). Mauss coloca o dom sob a categoria geral das trocas. Mauss adota a o w ~w 2 ó. ao mesmo título que a troca mercantil. se acres- centamos. o mal-entendido torna- se completo6 Esse mal-entendido e essas oscilações talvez se jam uma das chaves dos paradoxos do dom e do contradom. Os paradoxos do dom e do contradom e a lógica da reciprocidade Foi da discussão da obra de Mareei Mauss. seu dom é recusado. troca. I (1923-1924). que vew a interpretação do conceito de reciprocidade que considero uma alternativa à tese que faz da idéia de reconhecimento mútuo a chave dos paradoxos do dom e do contradom.

é a verdade ela troca enquanto obe- diente a regras que a noção de hau teria como função dissimular aos olhos dos maoris. 1978. Paris. Foi esse crédito dado pelo etnólogo à interpretação feita pelos próprios indígenas sobre sua prática que lançou a discussão. p. É a própria significação do dom que foi desse modo ~ eliminada. ] apreenderam uma necessidade inconsciente cuj a razão está em outro lugar". Onde o pensam ento mágico invocava u ma força oculta. O etnólogo. Gallimard. como n ota Luc Boltanski ao citá-lo. C laude Lefort rr o antecipava a interpretação que será oferecida m ais adiante. o cientista evidencia uma simples regra da troca. Essai d'anthropologie politique. "a inten ção imanente aos 2 o comportam entos". Lévi-Strauss transfere a explicação para um registro diferente elo vivido consciente. e esse gesto retribuído deve con- oo: w firmar para mim a verdade de meu próprio gesto. linguagem das populações observadas. quando escre- o via: "A idéia segundo a qual o dom deve ser retribuído supõe que outrem o ~ w é um outro eu que deve agir como eu.. em sua ambição ele redu- :J i- -:J zir o social a u m universo calculável por regras. mas ao colocar essa força na coisa dada. isto é. Em sua "Introdução à obra de Mareei Mauss". repubL in Les Fom1es de 240 l'histoire. Perman ecendo o mais próximo possível ela tradição maori. Ao recorrer à noção ele inconsciente. a qual é considerada não- inerte: "Nas coisas trocadas no Potlatch h á uma virtude que força os dons a circular. O ra. 214 ). re- cordando a "virtude dormitiva" dos medievais. essa significação se esquiva enquanto nos dispensamos 2 8:r: de relacionar a obrigação de retribuir à "obrigação de retribuir tal como z o t3 ela se manifesta no primeiro dom. não apenas ao fazer a interrogação se dirigir à energia do vínculo que sustenta a obrigação do dom em retri- buição. foi um dos pri- o meiros a criticar Lévi-Strauss por deixar de ver. pergunta ele. não se deixou "mistificar pelo indígena"? A explicação ra- cional elo enigma elo contradom é outra: "O hau não é a razão última ela troca. do dom enquanto ato". minha subj etivi- u o: w f- 8. L'échange et la lutte des homm es. C laude Lefort8. C laude LEFORT. Claude Lévi-Strauss critica no autor sua submissão à interpretação pelo hau. É a forma consciente sob a qual os homens ele uma sociedade ele- terminada [ _. a ser dados e a ser retribuídos" (ibicl. ••••• . 19 51 . o elas regras do pensamento simbólico. Mauss adota desse modo a conceitualiclade latente ligada por essa tradição à palavra hau para desig- nar essa força que no dom obriga à retribuição. .

M as é preciso falar primeiramente sobre os m éritos dessa lógica ela reciprocidade. Figures élémentaires de la réciprocité. O caráter vicioso elo círculo da vingança é experimentado no plano ~ 3 <( 9. 2002. ao ser perdida de vista. Paris. a justiça e o amor.. Mark Rogin ANSPACH. (f) o w O segundo mérito é assimilar a reciprocidade a um círculo que pode ~ ser vicioso ou virtuoso: colocar-se-á assim o problema ela passagem elo UJ :2 círculo vicioso ela vingança (m alefício versus contrarnalefício) ao círcu. Uma sociologia ela ação. um vasto território que inclui a vingança. três categorias que constituem as "figuras elementares ela reciprocidade". o autor declara: "Uma relação ele reciprocidade não pode ser reduzida a urna troca entre dois indivíduos.. não pode. com o sacrifício abrindo o &l a: caminho para a reciprocidade positiva. ela se recusará a sacrificar as justificações elos atores às construções ele um ob- servador externo. o. em À charge de revanche. mas também o plano no qual podem se opor duas "competências". senão ser mantida na reserva. se- 8 ~ ffl gundo o subtítulo elo livro. oposta a urna sociologia elo fato social ele tradição clurkheirniana. Figures élémentaíres de la récíprocíté 9 . para o mo- mento em que a fenomenologia ela mutualidade reivindicar seus direitos diante ela lógica ela reciprocidade. ]. No prefácio. Ao deixar o plano ela sociologia ela ação.. o dom. 241 •••• •••• . É justamente esse sacrifício elas justificações invocadas pelos agen- tes sociais que terno ver consumado em urna lógica ela reciprocidade corno a que foi proposta por Mark Rogin Anspach. com o fim ele avaliar exatamente a novidade da interpre- tação por urna forma ele reconhecimento que se quer imanente às tran- sações interpessoais. logo ele w o saída. N éS.J w a. deixamos não apen as o elas justificações dadas pelos atores. O m érito evidente dessa teoria ela reciprocidade é abarcar. poderá retornar por sua própria conta a crítica ele Claucle Lefort inspirada pela fenomenologia ele M erleau-Ponty. n esse estágio. Um terceiro transcendente sempre emerge mesmo que esse terceiro não seja nada mais que a própria relação que se impõe corno ator a título pleno" (p . A agápe. 5). 8I z o lo virtu oso elo dom (dom versus contraclorn).ela de [ . À charge de revanche. os homens confirmando uns aos outros que eles não são coi- sas". Seuil. o m ercado..

242 12. segundo. La Vengeance. como os de um si que eventualmente se oferece ao carrasco dando-lhe a cabeça para ser cortada.. u a: Paris. Fran çois TRICAUD. .de um sistema autônomo. dos atores.. La D écouverte. ao mesmo tempo em que as ele Verdier 11 sobre o papel da regulação social exercida pela vingança nas práticas de certas sociedades.:.-- . 4 : La vengeance dans la pensée occidentale. 1':' 11. subtrair-se à influência elo princípio "matar quem matou". sem que contudo eles consigam formular a regra: "Matar aquele que matou". 1994 . Paris. D alloz. para transferir por fim a totalidade das transações para um terceiro considerado divino nos sistemas religiosos. e apresent. t. ••••••• _______________ _ ~. Essa regra faz do vingador um assassino. Raymond VERDIER. O que ocorre "entre" os atores é subor- dinado à auto-referencialiclade .no sentido ele "manutenção de um com- portamento próprio" . que estão aí para lembrar o caráter de oferenda do sacri- fício que supostamente sustenta a transição do círculo vicioso ela vingan- ça para o círculo virtuoso do dom. como o primeiro dom pôde ser generoso? z § E m outras palavras: reconhecer um presente retribuindo-o não é destruí- li o lo enquanto presente? Se o primeiro gesto de dar é de generosidade. o que fala em favor de uma visão sistêmica da seqüência o 2 -:::) clom /contradom é a elevação do enigma à categoria ele paradoxo. Rech erche sur les figures de l'agression éthique. se a fórmula elo sacrifício ele oferenda é precisamente a de "dar a quem vai dar". ainda é ela ordem do acontecimento.. A emergência de um "assassinado que não assassinou". no sen- 2 f2z tido forte de pensamento inconsistente. Não é preciso que em uma concepção sistem ática se jam perdidos ele vista gestos concretos tais como renunciar a retribuir com violência a violência. Jea n-Pierre DUPUY. E. 1977. Há traços fenomenológicos dignos de nota. L'Accusation. 1980-1984. sob a obrigação da retribuição.. >=' U) UJ o a: w 10. o I o ç. Cu jas.. O paradoxo se enuncia elo se- w 2 guinte modo: como o donatário é obrigado a retribuir? E . Paris. ainda resta o gesto ele apresentar a oferenda. o gesto de oferecer que inaugura a entrada no regime do dom. Já nessa primeira fase são neu- tralizadas as considerações como as de Hegel sobre o poder do negativo no crime ou as ele Tricaucl 10 sobre a agressão ética. anula a gratuidade do primeiro. na fonte ela violência do sacri- fício. Gé rard Courtois. na terminologia de Jean-Pierre Dupuy 12. Aux origines des sciences cognitives. recai. transformando-o em agente anônimo de um sistema que o ultrapassa e que só se perpetua como sistema por meio de suas oscilações. se ele é obriga- 8 I elo a retribuir se for generoso. Contudo..

. entre a troca como unidade transcendente e as opera- ções individuais que a constituem" (À charge de revanche. e não os atores da transação. sob a figura do double bind. ~ w o mérito por excelência da interpretação é dar razão ao m esmo tem po a Mauss. "O hau. haviam percebido algo sobre esse funcionamento ao colocar em um ter- ceiro o hau. não me pronuncio sobre a consistência lógica do 8w a: conceito ele autotranscendência de um sistema autônomo. O círculo resulta então da confusão ele dois níveis. . 45 ). Segundo o modelo de pensamento elaborado por Jean-Pierre Dupuy. o elo dom existe tão-somente na teoria para um descritor moderno das sociedades arcaicas. no ~ :::.O teórico sistemático classifica esse círculo.: tempo no nível elo sistema de reciprocidade e entre os próprios dois ní. p. com efeito. consiste em colocar em dois planos diferentes a regra de reciprocidade e as transações entre indi- víduos. no que diz respeito à transcendência do hau. o da própria troca e o elos gestos discretos elos indivíduos. A trans- cendência ela troca não impede que sua existência dependa elo bom de- senvolvimento dessas m esm as operações. ~ 3 <! 13. não é senão uma reificação da própria circulação dos dons" (Mark Rogin ANSPACH. A solução proposta. p. w o veis: "Um primeiro nível em que se desenvolvem as operações discretas ~ o entre os atores e o m etanível em que se encontra o terceiro que en carna ~ (f) w a troca enquanto todo transcendente" (ibid. D esse ponto ele vista. o espírito do dom 13 . que diz respeito à explicação lógica da reciprocidade da troca. a um só N r.. Ainda falta definir o estatuto dessa transcendência na época do de- sencantamento do mundo. p. O s indígenas. Anspach concorda que existe uma diferença importante entre o funcionamento elo círculo da vingança e o elo dom: o círculo ela vingança é sentido na experiência. e a Lévi-Strauss. E é o teó- rico que distingue os dois níveis. N o dom é o teórico. trata-se ele um processo de autotranscendên cia que só pode ser expresso em termos de "causalidade circular". mas não viciosa. 8I z De minha parte. 243 •• •••••• . 42) . do duplo nó. o teórico pode evocar "uma hierarquia circular. Interesso-me 9 w a. À charge de revanche. que voltou a se tornar vicio- so.. Graças a essas distinções. por como a circulação global "emerge da interação por meio de um pro. nesse sentido. que constrói o argumento na forma de double bind. 44 ). o da reciprocidade e o ela troca gestual. ao contrário da si- tuação do vingador que fica paralisado pelo paradoxo. com base no modelo da teoria dos tipos de Russell.

p .r f . Ocorrerá assim a passagem de um sentido do reconhecer..::) § oa: 14. e con- centrar-se menos no "enigma da terceira pessoa" e na reinterpretação moderna da transcendência mística do hau e mais no que fazem os atores quando reconhecem o dom como dom. 52).~ ~ • ·' ' ' •• .. Mas. esperar receber de volta de uma maneira ou de outra. . é dessas variantes que supostamente emerge a fórmula neutralizada da reciprocidade que paira sobre nossas cabeças. ... . 225). que ainda é nossa principal preocupação 14 • Ora.. ao contrário ela mutualidade.. 48). o doador e o donatário... Com isso. ' • • cesso de autotranscendência"._l. o w :r: z conselh o de Anspach pode ser entendido em dois sentidos: "Devemos oo w a: tentar superar a problem ática ela retribuição" (ibid. pois delas emerge o sistema.. p. Esses comportamentos recolocam o primeiro dom no centro do quadro. 2 o . há diversas variantes ao "para que" na expressão "dar para que o outro dê".. é impor- tante para os atores que esse fluxo não se ja interrompido e que ele seja mantido. Esse reconhecimento-identificação já estava presen- !:':' te na fórmula do double bind: "Reconhecer um presente ao retribuí-lo não é destruí-lo e n- ·quanto presente?" Os dois n íveis que a teoria pretende distinguir são reunidos nesse "reco- 244 nhecer por" (ibicl. p. . O autor encontra esse uso do reconhecer em uma fó rmula da forma tradicional "sob w a forma ele reconhecer o que não tem de ser reconhecido" (ibicl.. dom que se torna mo- delo do segundo dom. para o elo reconhecer no sentido do reconhecimento mú- tuo. os agentes ela troca poderiam operar essa supera- I oo .. •••••• . Esse é o trabalho ela confiança. Ouando a teoria >- ·. 53-54). Isso significa que a entrada no dom no o. -~ .. É preciso então ficar atento aos traços das "operações discretas entre os atores". . com efeito. . tratando-se ela oa: transmissão ela m ensagem no m etanível.. têm o encargo arris- m u 2 cado e aleatório de manter e de prosseguir a troca entre si. ') ' ·. tomados no plano da ação. '· . Mauss falava aqui da "seguran- ça" garantida pelo hau..::) plano ela ação efetiva não deixa ele implicar um risco. . que ainda é o elo reconhecer por.. oferecer no momento de dar. que circula entre nós. o autor nos ajuda a preservar essa dimensão "imanente" ela mutualidade (para opô-la à autotranscendência ela reciprocidade) por m eio ele diversas notações referentes aos comportamentos individuais: deixar de dar golpes. p.' • • ·' • . E Lévi-Strauss observava a necessidade de "con- fiar em que o círculo se fechará". pre- cisamente. portanto ela identificação. . sem contar o ato de tomar a dianteira: "Não há dom possível sem tomar a dianteira" (ibid. se a reciprocidade circula ao modo ele um fluxo . • "' •• ' ' 0#.::) diz: "É sempre de um circuito global que é preciso esperar a retribuição". O teórico faz o isso ao mudar de plano.

Felizm ente". O verbo "reconhecer". 72). Como direm os mais adiante. colocando assim o dom retribuído na trilha de generosidade do primeiro dom. por sua vez. acrescenta ele. o reconhecimento evoca a generosidade redobrada do próprio gesto de dar. 59).. Universidade Federai do Para Biblioteca Ce:. Seria um outro tema de discussão avaliar o lugar dos fenômen os ele confiança e w ::. p. o mercado re- mete. a ênfase recai mais na generosidade do primeiro doa- dor do que na exigência de retribuição do dom. por contraste.). o autor se utiliza elo "recurso ele um poder sobre-humano. 68 ss. ele se volta para a relação e a identifica. !é! :::J os indivíduos escapam elo círculo vicioso pelo hau" (ibicl. Diante dessa impotência que lem bra o tema do ciclo vicioso ilustrado pela vin- g gança. ele retração ela confiança ligados à dimensão fidu ciária elas trocas monetárias. p. Assim. à originalidade dos vínculos mútuos próprios ela tro- ca de dons no interior ela área inteira da reciprocidade. na segunda parte. é a reciprocidade sem mutualidade. O mercado. Também o sistemático concorda: "Retribuir um dom. ). 245 •• •••••• .'!. O teórico concorda com isso de bom grado: "O sistema de trocas em que todo o grupo desempenha o papel de me- diador da reciprocidade elo modo mais absoluto é sem dúvida aquele em que não há mais dom nas transações entre indivíduos.. funciona em dois níveis ao mesmo tempo: na primeira parte da frase.tral ção voltando da pergunta "por que retribuir?" para a pergunta "por que dar?". "a lei da impessoalidade" (ibid. pode-se dizer. &l a: p. Vamos mais longe: no merca- do não há obrigação de retribuir porque não há exigência. reconhecer a generosidade do primeiro doador por meio de um gesto correspondente ele reciprocidade é reco- nhecer a relação da qual o presente precedente é apenas um veículo" (ibid. desse pon. graças ao contras- te com o m ercado. eleve contar. na esfera econômica. o mercado moderno" (ibid. um poder situado no w a. Importa-nos aqui apenas _J <( a certeza de que os fenômen os fidu ciários com os quais o Estado. (f) w (f) o w f2z 15. alguma coisa do "dar sem retribuição" da agápe poderá assim ser mantida na prática da retribuição. o livro ele Anspach vira as costas para o otimismo de Aclam Smith simbolizado 2 o pela metáfora da mão invisível. Aqui reina.. 57). "esse poder existe: é o Estado [ . 8I to ele vista. m as esse segundo tipo de reconheci- ~ UJ o mento é ainda uma operação efetiva elos atores ela troca ou apenas uma 8o construção do teórico? 15 . Mas é na diferença entre o dom e o mercado que a fenomenologia do dom encontra sua força . ] Com o Estado. p . m etanível. a saber. ele mostra h omens como "prisioneiros do mercado" (ibicl. nessa citação. são ele uma natureza diferente da confiança que marca a entrada no círculo ele trocas ele dons... com a autotranscendência alegada do social. o pagamento coloca u m fim às obrigações mútuas dos atores da troca..

3. a idéia de uma generosidade presente no primeiro dom sem consideração pela obrigação assim gerada de retribuir: generosidade liberta das regras de equivalên cia que regem as relações ele justiça. particularm ente em sociedades como a nossa. que é sobrecarregada pelos paradoxos do dom de retribuição. E sse contraste entre reciprocida- de e mutualidade é de agora em diante considerado um pressuposto fun- damental da tese centrada na idéia ele reconhecimento mútuo simbólico. em contraste com o conceito de reciprocidade situado pela teoria acima dos agentes sociais e de suas transações. tendo em vista a dis- cussão final. contra o pano de fundo de uma herança cultural z §a: ainda bem viva. como foi dito por ocasião da discussão do terceiro modelo ele luta pelo reconhecim ento? Torna-se então necessário buscar 246 um lugar privilegiado de expressão para esses "valores compartilhados". :::. A segunda discussão. o autor fala então de "valores compartilhados" I oo (shared values). temos uma espécie ele convicção intuitiva de f- zw :::. A troca de dons e o reconhecimento mútuo As duas discussões anteriores conduziram ao primeiro plano a ques- tão da reciprocidade tal como ela se exerce entre parceiros na troca ele dons. reservo o termo "mutualidade" para as trocas entre indivíduos e o termo "reciprocidade" para as relações sistemáticas em que os vínculos de mutualidade não constituiriam senão uma elas "figuras elementares" da reciprocidade. A primeira discussão suscitada pelo exam e elo modelo de estado de paz constituído pela agápe condu ziu a reservar. a uma argumentação em favor da mutualidade elas relações entre os atores ela troca. m as não o da igual i:iJ ü a: UJ f- distribuição dos bens. que oa: resolveram o problema da igual atribuição de direitos. ••••• •• . demonstra isso. a troca de dons será comparada apenas à troca mercantil. O recurso ao conceito de reconhecimento mútuo equivale. neste estágio ela discussão. propõe o estabelecimento de uma circularidade das figuras da reciproci- dade em um nível de sistematicidade diferente do nível da experiência efetiva. sem mais consideração pelas regras de equivalência da ordem judiciária ou o:::J f- ·:::J por outras figuras ele reciprocidade como a vingança.: que a esfera mercantil possui limites. Por convenção de linguagem. que partiu ela obrigação do contradom erigida como enigma. ele se limita a afirmar que existem bens cu ja natureza os o designa como não-venais. Mas de onde nossa resistência aos avanços da esfera mer- :::J f- (j) w cantil retira sua energia. O livro Esferas da Justiça. de M ichael G w I Walzer. Doravante.: o Desse ponto de vista.

Émile BENVEN!STE. Somos devedores de Sócrates por ter aberto esse debate. Paris. Seuil. O benefício desse longo desvio será diferenciar. 2. O comerciante compra e vende para os outros. lem os: "Uma profissão sem nom e: o comércio". Tudo se dá na interseção entre duas problemáticas ele origens dife- rentes. la philosophie. que trata do comércio. No cap. Mareei HENAFF.ou ao menos sua busca . no momento certo. 2002. o comércio é reconhecido como uma técnica. w o (/) nio ela utilidade e não no elo discurso e elo suntuário. a o o ~ despeito ele Sócrates. A his- tória de uma longa intimidade se abre entre a esfera intelectual e a esfera mercantil. Essa intimidade está plasmada até mesmo na definição ate- niense do cidadão: o comerciante é excluído da companhia elos homens N (f_ livres 17 . I. parte: L'univers du clon. Le clon. mas necessária. Le Prix de la vérité. pelo que relata Platão. com o dom deixando de aparecer como uma forma arcaica ela troca mercantil. ele é deixado ele bom grado nas L G w mãos elos estrangeiros. as práticas do dom elas que se referem à esfera econômica. XI elo t. Cf.e o dinhei- ro. Mas toda a originalidade da estra- tégia desenvolvida no livro consiste em atrasa r essa discussão e em subordiná-la ao exame prévio da categoria do sem-preço. 1969. É ao livro de M areei H enaff. w:: a. 3 <{ nuit. A problemática elo sem-preço foi colocada em nossa própria cul- tura pelà relação entre a verdade . ele está no domí. Le Vocabulaire des institutions indo-européennes. o come rciante já estaria ausente ela lista das três funções básicas do sistema indo-europeu. de Mareei Mauss. Segundo Benveniste. declara ensinar sem exigir um salário como retribui- ção. são os sofistas que recebem pagamento. Mi. O arcaísmo que continuaria a constituir um problema será transferido para o caráter cerimonial ela troca. Paris. que devo a idéia de resolver o enigma que ele denomina "enigma do dom recíproco cerimonial" pelo recurso à idéia de reconhe- cimento mútuo simbólico. l'argent. Sócrates. Ainda resta que. cujo vínculo com o caráter simbólico do reconhecimento ainda terá ele ser mostrado. O autor situa a segunda parte de seu livro na trilha da discussão aberta pelo Ensaio. freqüentemente escravos libertos. I z o [d a: o 16. intitulado Le prix de la verité (O preço da verdade) 16. ~ 17. ele aceita unicamente pre- sentes que o honram ao mesmo tempo e m que honram os deuses. 247 • •••••• . o w tuais. A teoria aristoté. por sua vez. Paris. que o>- z w realmente é perigosa. a fronteira entre o pensador inspirado e o cientista [{] (/) eficiente progressivamente se apagou elo campo das transações intelec.

e o etnólogo o a: UJ r- 18. a saber. no dom enquanto presente. Dito I o isto. Ao designar a troca como "cerimonial".. lica da moeda. ele Mareei Mauss. nem um substituto ela troca mercantil. mas permanecerá a desconfiança em rela- ção ao dinheiro que compra dinheiro e se transforma em m ercadoria. nem um concorrente. Le Prix de la vérité.. vinda de um horizonte totalmente diferente. . seguindo principalmente a crítica que havia sido feita por Lévi-Strauss. UJ ::. p. Flaubert e Bauclelaire não se indignarão menos que Marx 18 . o dom recíproco cerimonial não é nem um z oo w rr ancestral. o ele uma etnologia elas sociedades arcaicas. ob- serva Mareei Henaff ao final da primeira parte de seu livro. impagável" (Gustave FLAUBERT. perm anece o enigma. que é a elo mercado. nem a questão de saber se ainda existem bens não-mercantis: "Trata-se de pensar". tal o como a descreve Mauss. É verdade que essa batalha será perdida na época elo Renascimento e ela Reforma. 8 da Ética a Nicômaco.. o :::J § Nós nos lembramos ele que. O medievalista Jacques Le Goff evoca a concorrência na Idade Média entre os julgamentos negativos feitos pelos clérigos sobre o homem dedicado à realização ele ganhos e a estima elo povo pelos lojistas e pelos artesãos. a vitória elos comerciantes. :::J r- ·:::J por um lado com a interpretação m oralizante do dom que acaba por ::. É no tema do reconhecimento simbólico que as duas problemáticas se juntam. quanto ao fornecedor ele empréstimos sob penhora. E ntretanto. p. por conseguinte. 134). precisam ente no plano elo sem -preço. ele será incliscernível elo usurário que vende tempo subtraído ao pertenci- menta ele Deus. 142.. Mareei Henaff retoma a interpretação elo enigma ela troca ele dons no ponto até o qual a havia conduzido a discussão das conclusões do Ensaio. a chave elo enigma tinha de oa: ü:i ser procurada na coisa trocada. in Mareei I-IENAFF. para Mauss. 248 cit. cuja função de troca entre valores iguais coloca no campo da justiça no Livro V. não conseguirá apagar a palavra e o gesto de Sócrates no momento de sua morte. "uma relação ele troca que não é ele modo algum de tipo mercantil" (Le Prix de la vérité. por outro lado com a interpretação economicista que faz dela uma forma 8:r: arcaica da troca mercantil. É neste ponto que a questão do sem-preço se cruza com a do dom. o ele se situa em outro plano. a tese ele Henaff provém ele uma dupla ruptura. 8z romper sua ponta festiva e suntuária (e à qual voltaremos mais adiante). não favorece a reputação do comerciante. • • • • • • e e . a obrigação ele retribuir. "M eu serviço ainda é indefinido e.

Acres. não figuram de modo algum como bens mercantis. o substituto da confiança no aparecimen. I centarei que se pode considerar a relação ele mutualidade um reconheci- mento que não reconhece a si mesmo. i'! (j) w ção empírica. . As observações que se seguem têm como ambição apenas (j) o I LU salientar os recursos de desenvolvimento dessa análise. análoga nesse sentido ao hau evocado pelos indígenas maoris. porque ele está investido mais no I gesto que nas palavras e porque ele ocorre simbolizando-se no presente. a troca de dom não é nem a ancestral. A substituição ela força ele empuxo própria ela relação de troca pelo poder mágico situado na coisa trocada punha a ênfase no terceiro trocado. ao modo de uma energia mágica capaz de relacionar o bem trocado ao lugar ele seu nascimento. retomava por sua própria conta a interpretação dos indígenas segundo a qual a força que obriga a dar ele volta. Seria a qualidade ela relação ele reconhecimento que conferiria significação a tudo aquilo a que chamamos presentes.:f I nem a substituta ela troca mercantil. A crítica ele Lévi-Sb"auss e a que expusemos an- teriormente se ofereciam como uma reinterpretação em termos lógicos dessa força mágica: ao atribuir à relação enquanto tal a força que obriga o doador a dar em retribuição. ~ A primeira observação visa destacar o caráter dicotômico da análise w 2 I ow elo ponto ele vista ele seu aspecto conceitual. [d I a: . O enigma inicial ela força que supostamente reside ela própria coisa se dissipa se se toma a coisa dada e retribuída como I a garantia e o substituto do processo ele reconhecimento . A revolução de pensa- I mento proposta por Henaff consiste em deslocar a ênfase da relação para o doador e o donatário e procurar a chave do enigma na própria mutuali- dade ela troca entre protagonistas. a retribuir. cu ja compra pode ter 3 <( sido cara. Os presentes. a tese estruturalista certamente clesmaterializava a energia que o pensamento mágico localizava no presente enquanto coisa trocada. nem a concorrente. no sentido I ele coisas que podem ser compradas e vendidas. mas ela permanecia na mesma linha que o pensamento mágico na medida em que a relação preenchia a função ele um terceiro. e chamar essa operação compartilhada I ele reconhecimento mútuo. pois eles não valeriam 249 • ••••••• I I . riamente ao que poderia ser sugerido pela leitura do Ensaio sobre o dom. Contra. reside na própria coisa. caráter que será preciso corrigir I z o posteriormente graças a contribuições ela experiência histórica. pois atribui igual peso à precisão conceitual e à exemplifica. de Mauss. I to do gesto ele retribuição.a garantia do engajamento elo doador no dom. g UJ a. w o A análise aqui feita pode ser considerada típico-ideal em um sentido (j) o I o weberiano.

"de nenhum modo fora dessa função de garantia e de substituto da rela-
ção de reconhecimento mútuo". É nesse ponto que se cruzam as duas
problemáticas, a do dom e a do sem-preço.
Não apenas elas se cruzam, mas também se apóiam mutuamente.
O espetáculo oferecido pela história é o de uma derrocada crescente do
sem-preço, rechaçado pelos avanços da sociedade mercantil. Não há mais
nenhum mestre, mesmo socrático, que não se faça remunerar; no final
do percurso de seu livro, Henaff considera as "figuras legítimas da troca
mercantil": "o sofista reabilitado", "o comerciante legitimado", "o autor
retribuído", "o terapeuta pago". Coloca-se a seguinte questão: ainda exis-
tem bens não-mercantis? Pode-se responder a isso dizendo que é o espí-
rito do dom que suscita uma ruptura no interior da categoria elos bens,
solidária ela interpretação ele conjunto ela sociabilidade como um vasto
sistema de distribuição. Falar-se-á então ele bens não-mercantis, como a
segurança, funções de autoridade, cargos e honras, com o sem-preço tor-
nando-se o sinal de reconhecimento dos bens não-mercantis. Inversamen-
te, talvez se possa encontrar algo ele dom em todas as formas do sem-
preço, quer se trate da dignidade moral, que possui um valor e não um preço,
da integridade do corpo humano, da não-comercialização dos próprios
órgãos, sem contar a beleza do corpo humano, a elos jardins e das flores
e o esplendor elas paisagens. Aqui pode-se lançar uma ponte com o juízo
de gosto na Crítica do juízo, de Kant: quem sabe se não há dom e reco-
nhecimento mútuo nesse juízo que Kant diz não ter referente objetivo e
que não se sustenta senão em sua comunicabilidade?
o Segunda linha de observações: para corrigir o aspecto dicotômico
:::J
f-
·:::J
2
que a análise típico-ideal privilegia em sua dimensão conceitual, convém
~
w
proceder a um exame mais próximo de experiências concretas ela diferen-
2 ça de sentido e ele intenção que ainda persiste entre a troca de dons e a tro-
8
I
ô ca m ercantil, justam ente quando elas não são opostas, como no caso das
u
w
a: formas cerimoniais da troca de dons, mas embaralhadas na prática cotidia-
o
I na. Assim, o ponto de vista elo historiador pode ser bem-vindo, como é o
o
o caso do trabalho de Nathalie Zemon-Davis Ensaio sobre o dom na França
:::J
f-
[:3
oa:
do século XVJI 9 . O quadro que a autora traça elas práticas efetivas certa-
Gl
~
w
f-
19. Nathalie ZEMON-DAVIS, Essai sur le don dans la France du XVI' siecle, trad. D enis
Treiweiler, Paris, Senil, 2003; ed. orig.: The Gift in Sixteenth Century France, The University
250 o f Wisconsin Press, Maclison, 2000.

•••••• ••

mente se limita a uma época - na qual a autora é especializada -, mas
ocorre que esse século é aquele no qual a cultura ocidental hesita en-
tre várias heranças e cria modelos de vida dos quais ainda somos devedo-
res. Mas o maior benefício dessa pesquisa histórica é que ela contribui
para discernir as duas ordens de trocas, mercantis e n ão-mercantis, justa-
mente quando elas são não apenas contemporâneas, mas também com-
plementares e sutilmente antagônicas. Desse modo, o lado dicotômico
inerente à abordagem típico-ideal encontra um corretivo na atenção a traços
de complexidade para os quais uma cultura de historiadora é sensível.
Três traços de complexidade resultantes elo emaranhamento das
formas ele trocas em uma época dada são assim salientados. O primeiro
diz respeito à pluralidade das crenças de base que são fonte elo "espírito
elo dom". O segundo, ao emaranhamento entre as prestações do dom e
as prestações mercantis. O terceiro chama a atenção para as figuras ele
fracasso na prática efetiva do dom.
No plano das convicções e elas prescrições que presidem a circula-
ção dos dons, a autora vê o "espírito elo dom" provir ele um feixe ele
crenças centrais h eterogêneas; por um lado, o tema bíblico da antece-
dência elo dom divino em relação aos dons entre agentes humanos ex-
clui toda restituição equivalente, mas recomenda a gratuidade n a práti-
ca humana: "De graça recebestes, ele graça dai" (Ma teus l 0,8); por ou-
tro lado, a ética da liberalidade, recebida elos antigos e cara aos humanis-
tas, coloca doador e donatário como iguais em uma roda que ilustra o
grupo das Três Graças de mãos dadas; a essas duas crenças centrais acres-
centam-se os favores da amizade e da generosidade ele vizinhança. Quanto w
o
às ocasiões para dar, a relação com o tempo é essencial. As festividades 8o
são ritmadas pelo calendário que marca o retorno das estações, a ch ega- ~
f:{l
ela elo ano novo, as festas litúrgicas e elos padroeiros, o ciclo de vida elo (f)
o
w
indivíduo e ela família - nascimento, casamento, morte e ritos ele pas-
~w
sagem -, ao que se acrescentam h eranças e legados. Cada uma dessas 2
poderosas prescrições, inscritas no tempo humano, "oferecia ideais para 8I
z
o
dar e receber em diferentes meios sociais" (Essaí sur le don dans la France &l
a:
du XVJe síecle, p. 26). "As pessoas elo século XVI", observa ainda a auto- g
w
c.
ra, "também prestavam muita atenção aos limites desse quadro, aos si- ~
nais que permitiam distinguir um dom ele uma venda e às obrigações de 3
-o:
dom de um pagamento forçado" (ibid. , p . 36). São precisamente essas
práticas reais que fazem aparecer a dificuldade que há em fazer coinci- 251

•• •••••

dir no ato de dar a volição e a obrigação. Voltaremos a isso em nosso
terceiro ponto.
O segundo ensinamento diz respeito às relações complexas entre
venda e dom. A autora tanto rejeita a tese de uma substituição da econo-
mia do dom pela economia mercantil e defende a persistência de sua
coexistência como previne contra uma visão dicotômica, que negligen-
ciaria seus entrecruzamentos e seus empréstimos mútuos, que implicaria
corrupções sobre as quais insistiremos mais adiante. As ocasiões para dar,
que acabamos ele evocar, também são ocasiões de avanço de um regime
sobre o outro: "O que é interessante no século XVI é essa sensibilidade à
relação entre dom e venda, esse interesse pela fronteira entre os dois [ ... ]
O que era particularmente importante no século XVI era a possibilidade
ele ir e vir entre o mundo do dom e o da venda, sempre tendo em mente
a distinção entre ambos" (ibicl., p. 72). Os exemplos são abundantes: as
transações ele venda, sobretudo nas relações de vizinhança, não ocorrem
sem a adição ele presentes, evidenciando que os parceiros não estão livres
ele toda relação ulterior; os empréstimos e a tomada ele empréstimos, em-
bora incluindo juros, são garantidos por garantias em sinal ele confiança;
os contratos ele contratação e aprendizagem, a execução elos serviços são
pontuados por pequenos presentes e outras amabilidades que mantêm a
gratidão no registro do dom. Os casos mais interessantes ele manutenção
e de travessia da fronteira entre dom e venda referem-se às transações
relativas ao saber. Voltamos a encontrar a problemática ele Sócrates. O
caso do livro é exemplar a esse respeito; com a imprensa, o editor se dis-
o:::l
tingue elo autor: este último continua a oferecer o seu livro por dedicató-
f-
·:::l ria e doação, mas o editor, com autorização ou não, vende livros. Nossa
2
historiadora evoca o caso de livros que percorreram a traj etória ela venda,
~w
2 do presente, do legado, até o depósito em biblioteca privada ou semipú-
8I blica, com as bibliotecas principescas ou reais oferecendo ao livro sua
z
o
o
UJ última morada. As profissões ligadas ao ensino, ao exercício da medicina
a:
o ou às práticas elas parteiras são remuneradas com retribuições que osci-
I
oo lam entre o dom e o salário; até m esmo os "honorários" não excluem os
~
ffl presentes ele cortesia e de gentileza. O exame desses mistos conduz a
oa:
w reforçar a ênfase posta na gratidão como o sentimento que, no receber,
o
a:
UJ
f-
separa e vincula o dar e o retribuir, como insistiremos mais adiante. É a
qualidade desse sentimento que garante a consistência da linha divisória
252 que atravessa internamente as misturas entre dom e venda.

•••••• ••

Mas a gratidão também é a parte fraca que expõe o modo do dom
a diversas corrupções que reconcluzem nossa análise típico-ideal a seu
ponto de partida, o paradoxo da relação entre a generosidade do dom e
a obrigação do contradom. Esse paradoxo pode, a cada instante, transfor-
mar-se em aporia, até mesmo em acusação ele hipocrisia. É o terceiro
ensinamento do livro de nossa historiadora que nos obriga a dar esse passo
para trás: "Os dons", diz ela, "podem fracassar, e isso preocupava as pes-
soas do século XVI" (ibicl. , p. 105). O obrigatário elo dom pode tornar-se
um obrigado sobrecarregado pela coerção ele retribuir; por sua vez, a recusa
ele retribuir ou a demora excessiva em retribuir ou ainda a mediocridade
elo contraclom podem suscitar a raiva ou a acusação ele ingratidão. E,
embora a prática elo dom beire os paradoxos teóricos elo double bind que
está na origem ela lógica ela reciprocidade, os exemplos ele "dons fracas-
sados" (ibid., p. 105 ss.) não faltam: na família, a revogação ele promessas
ele dons por heranças; em relações sociais, as manobras ligadas ao avanço
e à reputação, as exigências ele vantagens que levam a posturas ele corte-
sania; por fim, o encerramento de cada pessoa em vínculos de obrigação
sem fim parece algo característico dessa época. É esse tipo ele opressão
que, em Montaigne, faz preferir os estritos contratos ao jogo perverso dos
benefícios e elos favores 20 . Quanto à viela política, é primeiramente na
administração da justiça mas também na concessão ele privilégios reais
que reina a corrupção que, na verdade, sai elo ciclo dos dons fracassados
para entrar no dos "dons maus". Nossa historiadora encerra o capítulo ela
corrupção com uma pergunta: "Mas o que podia ser feito por uma socie-
dade a esse ponto implicada nos ritmos do dom e da obrigação com pre- UJ
o
(f)
o
o
20. "Acredito que é preciso viver por direito e por autoridade, não por recompensa nem ~
u.J
por graça [ ... ] Evito submeter-me a qualquer tipo de obrigação, mas sobretudo àquela que (f)
o
me vincula por dever de honra. Procuro não fa zer nada que não me seja dado fazer e aquilo u.J

pelo que a vontade permanece hipotecada por título de gratidão, e recebo com maior bom o
grado os ofícios que estão à venda. Acredito que para estes últimos eu dou apenas dinheiro,
z
UJ
2
para os outros, dou a mim mesmo. O nó que me segura pela lei de honestidade parece-me iJ
w
I
muito mais urgente e mais poderoso que o da coerção civil. Ele me garrota mais brandamen- z
te por um notário que por mim mesmo". E ainda: "Segundo o que entendo da ciência do 8w
cr:
benefício do reconhecimento, que é uma sutil ciência de grande uso, não ve jo ninguém mais g
livre e menos endividado elo que sou até agora. Devo apenas às obrigações comuns e natu- w
Q_

rais". Na verdade, observa a nossa historiadora, Montaigne não estava tão livre elo mundo elos
favores como sugere esse auto-retrato (Nathalie ZEMON-DAVIS, Essai sur le don dans la
France du XVIe siecle, p. 117). E ela cita as transações ligadas às suas tarefas ele juiz e, depois
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de prefeito: "Montaigne escrevia sobre o mundo público dos benefícios e dos favores tanto
como partipante quanto como observador" (ibid.). 253

• • ••••

sentes que fracassaram em seu objetivo tão manifestamente? Parar todos
os dons! Impensável! Fazer a separação entre a boa reciprocidade e a má?
Mas como?" (ibid., p. 153).
Também precisamos assumir essa questão, pois ela diz respeito à
essência do problema colocado pela troca de dons. Mas para que essa
questão permaneça como uma verdadeira questão para a prática social e
não somente para a teoria da reciprocidade, é preciso assumir previamen-
te a exclamação "Impensável!" que se segue à hipótese desencorajada:
"Parar todos os dons!". T ão verdadeira quanto a confissão segundo a qual
"o registro do dom estava inevitavelmente prenhe de conflitos potenciais"
(ibid., p. 191) é a convicção que a tese de Marcel Henaff elaborou, a
saber, que a experiência efetiva do reconhecimento mútuo no modo sim-
bólico é oferecida pelo dom recíproco cerimonial. Para proteger o suces-
so dessa experiência efetiva de reconhecimento mútuo, é preciso assumir
a tarefa crítica de "fazer a separação entre a boa e a má reciprocidade".
Devemos nos empenhar nessa tarefa crítica com a ajuda dos recur-
sos normativos da análise típico-ideal (que considero menos Wert-freí,
menos neutra do ponto de vista axiológico do que pretendia Max Weber,
mesmo que este nem sempre tenha sido fiel a esse ascetismo de princí-
pio). Aproximando-me um pouco mais do aspecto cerimonial do dom
com o qual gostaria de terminar, eu colocaria a ênfase principal, como
pedia C laude Lefort, no próprio gesto de dar, surpreendido em seu pri-
meiro avanço, eu diria até mesmo em sua qualidade de avanço. Fizemos
comentários sobre a obrigação de retribuir; mas não nos detivemos sufi-
cientemente na questão: por que dar? O engajamento no dom constitui
o:::J
1-
·:::J o gesto que inicia o processo inteiro. A generosidade do dom não suscita
;;:
~ uma restituição, que, em sentido próprio, anularia o primeiro dom, mas
z
LU
;;: sim algo como a resposta a uma oferta . No limite, é preciso tomar o
8I primeiro dom como o modelo do segundo dom, e pensar, se nos permi-
z
o
~ tem dizer, o segundo dom como uma espécie de segundo primeiro dom.
a:
o A obrigação de retribuir, reinterpretada pela lógica da reciprocidade em
o
o termos de double bínd, continua a ser amplamente uma construção de
~
WJ
baixo conteúdo fenomenológico que fornece o pretexto para a distinção
oa:

dos dois n íveis, o das práticas e o do círculo autônomo dotado de
o
a: autotranscendência. A fascinação exercida pelo enigma da retribuição
!=:'
conduz a negligenciar traços notáveis da prática do dom, encontrados no
254 m eio do caminho, tais como oferecer, arriscar, aceitar e, por fim, dar

••••••

tudo repousa sobre o tema 8 WJ mediano da trilogia dar-receber-retribuir. I algo de si ao dar uma simples coisa. I nologia que diz respeito às intenções do dom e nossa primeira análise da agápe. conside rar verdadeiro (ou como tal).. Le Prix I de la vérité. O Le Grand Robert. 8I 21. não mantinha I algo do caráter desinteressado da expectativa que vai primeiramente rumo à recepção do dom antes de se fechar em uma expectativa do retorno do I dom? Essa própria expectativa. de uma ação". e do reconhecimento no sentido de aceitar. A gratidão alivia I o peso da obrigação de retribuir e a orienta rumo a uma generosidade WJ o igual à que suscitou o dom inicial. Em vez de obrigação de retribuir. O Littré coloca essa exceção sob o no 11: "Lembrança afetuosa de um favor recebido z o com o desejo ele saldar a dívida retribuindo igualmente". 255 •• •••••• . cit. e se nos damos é porque nos devem os. "confessado". Prosseguindo na m esm a linha.. esse ter. o que faz desse segundo dom algo dife- rente de uma restituição. 171). em resposta a um apelo proveniente da ge- nerosidade do dom inicial. ~ · ceiro sentido. que distribui ~ a: em três grandes classes as significações de base do verbo e do substantivo. que pode ser indefinidamente adiada. reconhecer significa "demonstrar por meio da 3 <t gratidão que se é devedor a alguém de algo. I cia desses movimentos que podemos dizer do coração quando escrevia: "Nós nos damos ao dar. atestado desde o século XII. p. até mesmo perdida de vista e francamente esquecida. colocando o segundo dom na m esma I categoria afetiva que o primeiro. aos outros" (Essai sur le don. Ora. com seu movimento de oferta. Mauss havia percebido a importân. distinguindo-o do reconhecimento-identificação UJ 0. I nar expectativa de uma surpresa. a língua francesa é uma das línguas em que I "gratidão" também é significada pelo "reconhecimento" 21. atribui toda a g terceira classe ao reconhecimento-gratidão. não se deve I enfatizar particularmente o segundo componente da tríade dar-receber- . Essa seria a resposta à questão formu. na qual a ênfase recaía sobre o dom sem expectativa de retorno. nós e I nosso bem. (f) 8 lada pela historiadora sobre a possibilidade de "fazer a separação entre a ~ UJ boa e a má reciprocidade". também pode se tor. I O risco do primeiro dom. por Henaff.I retribuir? Receber torna-se então a categoria-pivô devido a que a maneira pela qual o dom é aceito decide a maneira pela qual o donatário se sente :r obrigado a retribuir. Um a palavra evocada de passagem há pouco vem à m ente: "gratidão". sob o signo da agápe. portanto "considerado verdadeiro". Neste ponto sugiro que se estabeleça a relação entre essa fenome. Percebe-se como se passa do sentido li para o sentido rn pelo não-dito do favor enquanto valor "admitido". No fim das contas. 227. p. É na gratidão que se baseia o ~ WJ ::. é preciso I falar.

Ela coloca de um lado o par dar.retribuir. nem mesmo dizer que ele salienta a prevalência ela generosidade do primeiro dom sobre a obrigação que rege a retribuição o elo contraclom. a relação entre dom e contradom. enfatizado por uma disposição ritual assumida pelos parcei- z o ow ros. preencher as lacunas ela 256 justiça distributiva e redistributiva. Essa separação entre o par dar. Não há nada a ser dito contra esses •••••• . m as também em relação à da venda. Mas há mais que isso: o caráter 8 I cerimonial. Por fim. legitimam ente. Não basta dizer que esse caráter cerimonial destina-se a distinguir a troca do dom da troca mercantil colocando-o à parte das transações relativas à compra e à venda. Sob o regim e da gratidão. A separação que ela estabelece entre os dois pares é uma separação de inexatidão em relação à equivalência da justiça. pode-se dizer que ele tampouco tem u ma medida exata: essa é a marca da agápe. bom receber que é a alma dessa separação entre a boa e a má reciproci- dade.receber e o par receber- retribuir é desse modo ao mesmo tempo estabelecida e superada pela gratidão. Quanto ao tempo conveniente para retribuir. tendo em vista separar a troca de dons das trocas de todos os tipos a: o que ocorre na vida cotidiana. A gratidão consegue fazer isso ao decompor. indiferente ao retorno. Uma última série de observações nos trará de volta a nosso ob jetivo inicial: confrontar a experiência viva do dom com a luta pelo reconhe- cimento e com a incerteza ele sua realização em um ser-reconhecido efetivo. Gostaria de deter-me nesse caráter festivo para evitar sua redução o :::J m moralizante que vemos despontar no elogio estóico dos "benefícios" oa: GJ erigidos em deveres. Essa é a marca do sem-preço sobre a troca ele dons. sobre a troca ele dons. na m edida em que ele se disfarça z UJ :?. antes de recompor. Gostaria de enfatizar por último o caráter cerimonial do dom.rece- ber e do outro o receber. devemos às figuras elo fracasso elo dom esse aprofunda- mento da análise típico-ideal ela troca elos dons nos termos ele uma ética ela gratidão. os valores elos presentes trocados são incomensuráveis em termos de custos mer- cantis. redução que assumiu a amplitude que conhecemos oa: UJ f- nos empreendimentos beneficentes organizados assim como nas organi- zações caritativas que visam. e se significa na gestualiclade da troca. visa sublinhar e proteger o caráter festivo da I o troca. Inexatidão dupla: quanto ao valor e quanto ao prazo temporal. o f- risco d e dizer que ignora a si mesmo. Esse caráter cerimonial mantém uma relação complexa :::J f- ·:::J com o caráter simbólico ele um reconhecimento sobre o qual corri o :?.

é inseparável ele sua carga de conflitos . . na troca ele dons. em suas formas eróticas. os parceiros sociais experimentavam gs w um reconhecimento efetivo. Além disso. além ele seu caráter simbólico. esse modo que não é nem descritivo nem normativo. de pedido de perdão de que falo no epílogo de meu último trabalho. ele se une assim ao conj unto elas fórmul as que gosto de colocar sob o patrocínio gramatical elo optativo. não podem se institucionalizar mas. indire. Há algo de festivo nas práticas do dom.:!: ::::J potenciais ligada à tensão criadora entre generosidade e obrigação. O que constitui um problema é o que no festivo escapa à moralização. pertence à mesma família espi- ritual elos gestos de pedido ele perdão evocados há pouco. 257 ••••••• . Falei então 8 ~ oo de uma "clareira" na floresta ele perplexidades. raro. amicais e societais. dizia eu. referente à relação entre a temática ela luta pelo reconhecimen.- empreendimentos e essas instituições caritativas. Tais gestos. ele modo secreto e indireto. ou antes. trazendo à luz os limites da justiça de equivalência e abrindo um espaço de esperança no horizonte ela política e elo direito no plano pós-nacional e internacional. como a solenidade do gesto de per- dão. que pode estar nos rituais ela arte ele amar. Seu caráter excepcional parece depor contra si mesmo. esses gestos desencadeiam uma onda ele irradiação e ele irrigação que. como prova o gesto do chanceler Brandt. que se ajoelhou aos pés do monumento de Varsóvia em memória das vítimas da Shoah. * * Agora já podemos voltar à questão colocada no final elo estudo pre- cedente. Quando é que. são -' <i essas aporias súscitaclas pela análise típico-ideal do dom que a experiên- cia do dom traz em sua conexão com a luta pelo reconhecimento. cuja necessidade é evi- dente e que é preciso vincular claramente a uma concepção ampliada da justiça. Mas eu já acrescentara a essa expectativa i2z w uma cláusula ele reserva: não se deveria esperar dessa investigação elo :::< reconhecimento pelo dom mais que uma suspensão ela disputa. O festivo. N él to e a elos estados ele paz. perguntávamos. propusemos a >' (f) w hipótese ele que. o festivo do dom é. Posso agora dizer por que w a: isso ocorre: a experiência elo dom. um indivíduo w o pode considerar-se reconhecido? A exigência ele reconhecimento não pode (f) oo se tornar interminável? Em vista dessa questão existencial. no plano gestual. até mesmo excepcional. o que é aliás o hino no plano verbal. to. contribui para o avanço ela h istória rumo a es- tados ele paz. 9 w a..

o 2 ·:::J :. e que a coloca ao abrigo da fascinação pela violên cia. A luta pelo reconhecimento talvez se ja interminável: ao menos as experiências de reconhecimento efetivo na troca dos dons. principalmen- te em sua fase festiva .:: o. não era nem ilusória. nem vã._ zw :.:: 8I ô u w 0: o I oo 2 ~ o0: ül u 0: w 1- 258 •••••• o . conferem à luta pelo reconhecimento a garantia de que a motivação que a distingue do apetite pelo poder.

lembrarei a consta- tação que está na origem deste trabalho. tampouco me resigno a ver nele apenas uma rapsódia ele idéias. a ele uma contradi- ção entre a ausência na história elas doutrinas filosóficas ele uma teoria elo reconhecimento comparável à do conheci- mento e a coerência que. é a primeira vez que em um trabalho filosófico tomo como primeiro guia um di- cionário alfabético e analógico como o Le Grand Robert. meu principal informaclor. Minha dívida em relação ao tra- balho prévio elo lexicógrafo é grande. Devo-lhe em primeiro 259 • •••••• . Conclusão Um percurso is a questão que eu gostaria ele abordar nestas páginas ela conclusão: o que justifica o termo "percurso" escolhi- elo para caracterizar este livro? Que tipo ele ligação entre os argumentos é assim presumida? Embora eu não reivindique para este conjunto o título ele teoria. Na verdade. permite colocar sob um único verbete no dicionário a variedade das acepções do termo "reconhecimento" existentes na prática ela linguagem ordinária. no plano lexicográfico . Que lugar há entre esses dois extremos para a itinerança ele um percurso? Como prelúdio à minha resposta.

Essa impossibilidade resulta do vínculo que os vocáb ulos elo léxico filosófico mantêm com o que considero os "acontecimentos de pensamento" que estão na origem de questões iné- ditas no espaço do pensável. o seqüenciamento elas acepções atestadas pelo uso ela con- versação e ela literatura. Assim aparece. a nossa .ou na voz passiva . em que o su jeito se coloca sob a tutela ele uma relação ele reciprocidade. que segue ape- nas o uso da língua cotidiana. no qual o suj eito de pensamento pretende efetiva- mente o domínio do sentido. O percurso filosófico colocado sob a égide elo reconhecimento não pode pois consistir em uma simples repe- tição da polissemia regracla construída pelo lexicógrafo. por fim . tal como o reconhecimento elas di- ferenças entre indivíduos em situações ele discriminação. a saber."eu reco- nheço" . Pareceu-me que essa diferença revelava uma reviravolta significativa no plano do encadea- mento dos usos filosóficos elo termo "reconhecimento".~ pelo reconhecimento elo si na variedade elas capacidades que modulam (f) 3 seu poder de agir. considerada em suas grandes linhas a dinâmica que posso começar a chamar de percurso. passando . a passagem elo reconh eci- mento-identificação."eu sou reconhecido". Encontrei uma primeira resposta a essa desordem semântica no plano filosófico em uma consideração gramatical referente à diferença no uso elo verbo "reconhecer" conforme considerado na voz ativa . lugar a descoberta da amplidão do campo lexical reunido. •••••• . para o reconhecimento mútuo. minha última dívida reside no enigma elo não-dito subj acente ao salto elas separações ele sentidos entre duas acepções su cessivas do mesmo vocábulo. na medida em que era possível fazer corresponder à voz ativa os usos elo verbo "reconhe- cer" em que se expressa o domínio elo pensam ento sobre o sentido. sua agency. devo ao léxico. em segundo lugar. com efeito. Essa primeira constatação preveniu-me contra a redução freqüente em nossos contem- porâneos a um sentido privilegiado. respon- do a ele por m eio ele um trabalho sobre as separações ao qual esta con- clusão é essencialmente dedicada . tema que apa- rece em meu trabalho somente no final do percurso. e na voz passiva o estado de exigência cuj o cerne é o ser reconhecido. Assim seria oferecido um equivalente filo- u g sófico à polissemia regracla produ zida pelo trabalho do lexicógrafo no campo disperso elas acepções recebidas no uso cotidiano elo vocábulo de 260 uma língua natural. respondo a ele por m eio ela busca ele um fio condutor que guie meu próprio seqüenciam ento.

eu atesto isso. acompanhando-a. Essa transição é reforçada pela sinonímia entre atestação e reconh ecimento na ordem epistêmica. a temática ela alteridade e. Coloco em primeiro lugar a progressão da temática ela identidade. No caso da identidade. começando com a identificação elo "alguma coisa" em geral. tomada em termos de identidade narrativa. o(f) Tenho confiança em que "eu posso". ::J vras ele Hannah Arendt. tampouco direi que a identidade reconhecida aos membros ele uma comunidade pelas tran- sações colocadas sob o signo elo reconhecimento mútuo torna supér- fluos os traços de identidade do homem capaz. Mas esse ordenamento baseado em um simples argumento grama- tical seria apenas um expediente se a derivação de uma acepção para outra no plano filosófico não fosse guiada por algumas problemáticas sub- jacentes cujo poder organizador só aparece realmente na releitura. Dividi este trabalho em três linhas distintas. A li ::J identidade narrativa é assim colocada no ponto estratégico elo percurso á!w o. nesse ponto em que. intitulado O si mesmo como um 261 ••••• . eu reconheço. em um pano ele fundo mais dissimulado. elas modalidades ele capacidade. :. segundo as pala. que se constrói a transição do "alguém" para o "si mes- mo" reconh ecendo-se em suas capacidades. ao tipo de encadea- mento digno elo título de percurso. Falarei antes em um percurso ela identidade. sobre as "ruínas da representação". a da dialética entre reconhecimento e desconhecimento. reconhecido como outro ele todos os outros. abole a identidade lógica do alguma coisa em geral segundo o primeiro estudo. passando pela identificação de "alguém". por sua vez. en- quanto a superação das separações no plano lexical podia ser atribuída ao não-dito dissimulado na definição das acepções que precedem. a narra tiva diz o "quem" da ação. não direi jamais que a identidade pessoal. por fim.. por ocasião da ruptura com a concep- ção do mundo como representação (Vorstellung) ou. cuja sobreposição contribui. É sobre essa transição en- tre o "alguma coisa" e o "alguém". para falar como Lévinas. dramatizada pela experiência do desconhecível. o presen- te trabalho pode ser considerado um trabalho sobre as separações em ação em toda a extensão elo texto. Ao contrário ele um ele meus trabalhos anteriores. depois.

mas também acrescentando-lhe o par da memória e da promessa. Paul RICOEUR. a título ele reconhecimento mútuo na troca ele dons. Direi em primeiro lugar qL. não limitei esse percurso a uma lista curta das capacidades. eu a abri. Ser reconhecido. se isso alguma vez ocorre. de trabalho sobre a separação que dá sua razão ele ser ao presente livro. a meus olhos. No que diz respeito ao complemento que julguei ter ele trazer para a idéia ele luta pelo reconhecimento. fazer uma leitura deste livro de trás para a frente. antecipado no quadro elo o reconhecimento-identificação. "um e outro". Essa seria a primeira justificação do termo "percurso" para essa se- qüência de estudos: o percurso da identidade em suas separações.e se trata ainda e sempre ele identificação. outro 1. As conquistas do reconhecim ento-atestação de si não são perdidas. a tem- poralidade elo si se desenvolve nas duas direções elo passado e do futuro. •••••• . a reto- mada do sentido lógico ela identificação em seu sentido existencial e sua recapitulação no ser-reconhecido graças às experiências ele luta pelo re- conhecimento e à elos estados ele paz. A alteridacle encontra seu ápice na mutualida- de: o esquema kantiano ela "ação recíproca". encontra aqui. ele me oferece a ocasião agora ele enfatizar a persistência elo reconheci- mento-identificação. passando pelo "alguém" e o "si mesmo". Seria preciso aqui. até esta figura ela identidade na mu tualidade para a qual os gregos reservavam o magní- fico pronom e alleloí-aclvérbio allelon: "uns e outros". não apenas como eu havia começado a fazer com a imputabilidade. Soi-même comme un autre.. Essas retomadas têm o valor. ainda menos abolidas pela passagem para o estágio elo reconhecimento mútuo.J manas (que Kant não tinha em vista em sua teoria do esquematismo e u z em suas análises complementares da Analítica dos princípios).. para dar conta dela totalmente. É a m esma dialética que ocorre desde o "alguma coisa" em geral. sua efe- o u 262 I. no plano das ciências hu- -< (J) :J . ao mesmo tempo em que o presente vivido revela sua dupla valência de presença e de iniciativa. seria para cada pessoa receber a garantia plena ele sua identidade graças ao reconhecimento por outrem de seu império de capacidades. 2 Paralelamente a esse percurso ela identidade ocorre o da alteridade.

[/) a: ::J ü lidade do "eu posso" uma correlação freqüentemente tácita entre auto. É o caso elas "economias ela grandeza". coloca no centro do quadro a alteridacle- confrontação.tuação plena nas formas recenseadas da reciprocidade e. Um cliálogô com Axel Honneth deu-me a oportunidade ele salientar formas ele conflitualidade que respondem aos três mode- los de reconhecimento distinguidos por Hegel na época de Iena. As figuras da altericlade são inúmeras no plano elo reconhecimento mútuo. Evo- quei também outros tipos de conflitualidade ligados à competição so- cial. que precede em meu texto o reconhecimento em ação na troca cerimonial dos dons. entre elas. Dito isto. feitas em um outro quadro. a equação entre atesta- ção e reconhecimento pode reforçar o caráter de auto-asserção do reco- nhecimento de si. A luta pelo reconhecimento. não se eleve deixar de salientar. na da reciprocidade não-mercantil pontuada pelo sem-preço. as últimas evocadas neste livro entrecruzam a conflitualiclade e a generosidade partilhada. em que a justificação da posição de cada um nas escalas com- parativas ele grandeza e ele pequenez corresponcle à pluralidade elas cida- des ou dos mundos entre os quais se repartem as economias ela grandeza. segund o Thévenot e Boltanski. Auto-asserção não significa solipsismo. uma releitura das páginas consagradas à o exploração das capacidades não poderia deixar ele associar a cada moda. Enfatizei propositalmente a auto-asserção (Selbstbehauptung) na investigação das capacidades. Desse ponto ele vista. As formas de compromisso que esses autores evocam no final de seu trabalho não deixam de lembrar os tipos de trégua representados pelos estados de agápe e seu horizonte de reconciliação. Era preciso fazer isso para posteriormente poder atribuir seu pleno sentido ao reconhecimento mútuo: o que as transações fundadas na reciprocidade querem desenvolver são precisamente as capacidades pressupostas dos agentes dessas transações que oferecem a si mesmos em seu poder ele agir. ela dialé- tica entre o amor caracterizado pela superabundância e a justiça regida pela regra ·de equivalência. a: UJ c_ asserção e referência a outrem. e de detectar. Remontando o curso de nossas investigações. as antecipações ela mutualidade na parte deste trabalho consagrada ao reconhecimento de si. Sem dúvida seria preciso evocar também as análises. As relações sociais não substituem a capacidade ele agir ele que os indivíduos são portadores. A :i' :::> evocação da responsabilidade da ação desde a época elos h eróis h oméricos seria o primeiro local de reconstrução das relações de alteridade implica. 263 • • •••• .

E como não lembrar que o reconhecimento final entre Ulisses e Penélope. das em cada tomada de decisão nos comportamentos deliberados: toda a força armada grega sobre seus navios ele gu erra é uma demonstração das proezas de seus mestres. como nas ações con- 264 juntas. . nenhuma mutualidade é posta à prova nesse entrelaçamento entre autodesignação e denominação por outrem. seu retiro para sua tenda é feito diante do olhar de todos. Não há alteridade pior. me chamo . Mas a reflexividacle não poderia eclipsar a alteridade implicada pelo exercício ele cada uma das modalidades elo "eu posso". A ira de Aquiles é pública. fulano ele tal. desenvolvido a capacidade de designar a mim mesmo. com efeito. a pas- sagem da capacidade para o exercício não permite mais essa elisão. esboçam o retrato do homem capaz. na análise elas capacidades em seu plano ele potencialida- de. A conhecida relação da pergunta e da resposta é exemplar desse ponto de vista. de auxiliador ou de cooperador. até mesmo pelo próprio aedo nos últimos livros da Odisséia. que foi tratado como segunda forma da capa- cidade de agir. e sem dúvida pelo pú- blico.'i]_ signação na dimensão do poder dizer. associada ao reconhecimento ela responsabilidade da ação. dizer. O exercício dessa capacidade de 3u fazer os acontecünentos ocorrerern no Inundo físico e social se desenvol- g ve em um regime ele interação no qual o outro pode desempenhar o papel ele obstáculo. que coloca um ponto final aos trabalhos daquele que o poeta chama de o "homem elos mil artifíci- os". a auto-asserção pressupõe um ato ele adoção por outrem sob a forma da atribuição ele um nome próprio. por meio da educação. ". nas quais às vezes é impossível isolar a contribuição de cada um . No que diz respeito aos gregos. tem como preço um horrível massacre. juntas. por intermé- dio do estado civil. O caso elo poder-fazer. a reconciliação final em torno da fogueira fúnebre não está longe de igualar alguns elos estados de paz evocados a título de reconhecimento mútuo. •••••• . Desde a autoclesignação ela forma: "eu. se pôde fazer abstração ele todo vínculo ele intersubjetiviclacle. chama o mesmo gênero ele complemento que a autocle- . enfatizamos a reflexividacle que dá à expressão ela auto- asserção sua plena justificação. todos me reconhecem como sujeito antes mesmo que eu tenha. Se. . que o massacre de todos os rivais elo herói! Com o mesmo espírito é que seria preciso refazer o percurso das capacidades que. falar não ocorrem sem a pressuposição e a expectativa de um poder ser ouvido. a dos pretensos rivais? "Vin- gança" é o título geralmente dado pelos editores. Entretanto.

bem documentado n a literatura sobre o assunto. elo qu al o reconh ecimento ele si constitui a atestação.E mbora a intersubj etividade seja aqui u ma n otória condição de exercí- cio. como o poder de agir. principalmente no plan o da narrativa. que o sujeito admite ser o autor verda- deiro de seu ato. a elo reco- nhecimento no tempo e elo reconhecimento diante de outrem . conexão que era implícita ao poder dizer.. ela não ocupa. exige um ouvido. mas a relação entre m em órias outras 265 •••• . assim com o o dizer. um poder-ouvir. em torno do m esmo. aliás. A relação de uma m emória essencialmente minha com m emórias outras que só se manifestam nos signos que elas oferecem. ora o acusador . a uma estética ela recepção que não era aqui a m inha preocupação)."este ja pronto a assumir as conseqüências de seu ato. Evocamos nova- mente esse par apenas para proceder a uma outra conjunção. de algum modo. no agir e no contar não deveriam obliterar a referên cia ao poder de agir. A intriga é precisam ente a configuração que faz uma composição dos acontecim entos e dos personagens. ou n o plano público quando ela evocação elos episódios de u ma história comum."quem fez isso?" . qu e procuramos situar no âmbito elas capacidades assumidas. ora o interrogaclor . seguindo nisso Hannah Arendt. possui a virtude de revelar a dimensão temporal de cada um elos poderes considerados. O par constituído pela m emória e pela promessa. Mas as camadas sobrepostas da interação no dizer. um rece- ber (qu e está ligado. Essa conexão entre reconh ecimento no tempo e reconhecimento diante ele outrem assume. a ponto de chegar ao embaralhamento. ora o inquisidor . portador mais ela reprovação que elo elogio. às m esmas con dições qu e a própria ação."admita que você é o autor responsável" . em seu exercício. a virtude de designar o "qu em" ela ação.. certa- mente pode assumir a forma de uma partilh a das lembranças no plan o interpessoal ela amizade. é verdade. a reparar os danos e a sofrer a punição". Cabe pois à idéia ele imputabilidade centrar novamente sobre si mesma o poder de agir diante de sua contrapartida. formas divergentes quando se trata de mem ória e quando se trata de promessa. o contar. no momento ela autoclesignação em que uma história de vida é reu nida sob um nome próprio qu e outrem pronun- ciou antes que ela fosse pronunciada pela boca daquele que é nomeado. uma posição de fundamento. ele está submetido. Por fim . Ouanto ao poder-contar ao qual se atribuiu. É sob o olhar elo juiz. cuja colocação em intriga constitui a mímesís: não há narrativa qu e não m isture histórias de viela. O outro gira então.

A relação entre reconhecimento no tempo e reconhecimento diante de outrem revela-se diferente no quadro ela promessa: o diante-de-outrem passa para o primeiro plano. nem que o diante-de-outrem implique reciprocidade e mutuali- dade. pode assim transformar-se em conflitualidade na competição entre me- mórias que divergem sobre os mesmos acontecimentos. Dessas múltiplas maneiras o reconhecimento de si faz referência a outrem sem que este esteja na posição de fundamento. mas. elos quais a promessa é um exemplo privilegiado. A inserção ele seus pró- prios pensamentos em um filosofar partilhado prossegue até na abundân- cia de sua correspondência. como é o poder ele agir. Ora. a sombra elo eles- •••••• . não pode ser recebida. O caso ele Descartes a esse respeito é exemplar. mas também a credibilidade presente elo juraclor resume toda uma histó- ria pessoal que dá sinais ele uma confiabilidacle habitual. o ~ 3 d g A esse percurso ela identidade e da altericlade. nesta se reúnem o reconhecimento no tempo e o reconhecimento diante de outrem. A mutualidade elo reconhecimento se antecipa no diante-de-ou- trem. tomada como ato ele lin- guagem . a relação com o tempo. menos evidente. como no testemunho. Será preciso voltar um grau aquém elo reconhecimento ele si e bus- car no reconhecimento-identificação elo alguma coisa em geral marcas ele intersubjetiviclade? Sem dúvida. De fato. gostaria ele acrescen- tar aquele. elas relações entre reconhecimento e clesco- 266 nhecimento que perpassa todo o meu livro. mas não se perfaz nele. portanto. Vimos que ele publicou suas Meditações no mesmo volume que as Objeções e as Respostas. A altericlade con- fina então ao fechamento recíproco. está em busca não apenas de um leitor. ao responder no texto da Crítica à negação ela idealidade do tempo. mas também ele um adepto cúmplice de sua revolução coper- nicana. E o próprio Kant. é não ape- nas diante de outrem. mas também para o bem ele outrem que se prome- te. a promessa não pode ser ouvida. É diante ele outrem que o pensador solitário presume sustentar o discurso do eu transcendental sob a assinatura elo professor ele Konigsberg. não está ausente: não apenas a promessa engajao futuro. a asserção implicada no ato ele julgamento não requer menos o engajamento elo locutor que os enunciados executivos específicos. e até mesmo ser recusada e ser suspeita. esse engajamento não ocorre sem a expectativa ela aprovação ele outrem. Com efeito.

267 •••••• • J . por aquilo que ela não é. com a qual se encerra nosso primeiro estudo. Pensa-se então na terrível frase . Evocamos. ao qual Merleau-Ponty dá o nome ele "fé" ou de "opinião primordial". revela formas cada vez mais dissimuladas ele incapacidades em ::. segundo os distintos registros do po.que o Le Robert cita . uma pessoa. A prova do desconhecível. oferece a oportunidade de marcar o lugar elo equívoco. em considerar-se algo que não se é. no final elo primeiro estudo. a: UJ c. prolongado no plano interpessoal pelo mal-entendido. Não poderíamos deixar ele evocar aqui o temor ele falhar presente em Des- cartes desde o Discurso do método e levado a seu cúmulo na quarta Me- ditação.) de. O jogo elo parecer. a falibilidade que afeta esse crédito feito ao aparecer do percebido. a sombra elo desconhecimento continua a se espessar. consagrada pela expressão cartesia- na "distinguir o verdadeiro elo falso". de Karl Jaspers) em que consiste nossa investigação tomada em seu conjunto. der ele agir.conhecimento não deixa de obscurecer a espécie de luz que provém do trabalho de clarificação. Nenhuma vigilância crítica vencerá esse temor ele falhar. de Saci sur Épíctete et Montaigne (Diálogo com M. essa pretensão à captura é sempre acompanhada pelo temor do equívoco. A confissão geral ele que toda capacidade possui como contrapar- o tida uma incapacidade específica é fácil de ser aceita em sua generalida. (fl a: :::J (.ele Pascal em Entretien avec M. O poder-falhar é com efeito o tormento que a análise elo juízo visa conjurar. Com o segundo estudo. O desconhecimento é duplicado pelo fato ele que o equívoco não conhece a si mesmo. ele Saci sobre Epicteto e Montaigne): "A essência elo equívoco consiste em não conhecê-lo". Ora. A equação entre identificar e distinguir. O temor elo erro é substituído então por uma espécie ele companheirismo com o equívoco. inerente às ambigüidades ele um mundo ela vida inacabado e aberto. A reivindicação de domínio do espírito sobre o sentido do alguma coisa em geral encontrou na fase do reconhecimento-identificação um vetor apropriado no verbo "reconhecer" tomado na voz ativa. faz com que vacile a confiança na apti- dão elas coisas e elas pessoas ele se deixarem reconhecer. na trilha ela urdoxa ou Urglaube de Husserl. que consiste em tomar uma coisa. O detalhe dessas incapacidades. desaparecer. de "esclarecimento da existência" (para retomar o título do segundo volume da Filosofia. :::J que o desconhecimento confina com a self-deceptíon: o equívoco consiste então em enganar a si mesmo. reaparecer enseja cruéis decepções que não dei- xam ele implicar uma self-deceptíon. com o "retorno às coisas em si".

o desconhecimento ele si mesmo não escapa ao risco ele desconhecer a si mesmo. antes ele assumir as formas ela maior dissimulação. os parentescos são tão estreitos quanto dissimulados. é a de "não conhecê-lo". Quanto ao perjúrio. E ntre segredo. mentira. Não nos enganamos sobre nós mesmos sem nos enganarmos sobre os outros e sobre a natureza elas relações que temos com eles. é o próprio local elo desconhecimento. Contudo. Esta demonstra que não cessamos ele nos equivocar em relação às motivações profundas que entravam nossa necessidade ele dizer. a dialética entre reconhecimento e desconheci- mento adquire sua maior visibilidade. mais uma vez. inseparável do poder-prometer. hipocrisia. ele não merece o estatuto ele impotência ele manter a palavra senão ao título elas desculpas. O desafio . o poder ele não manter a palavra: ao aniquilar a confiabilidacle daquele que jura. o poder- trair enfraquece toda a instituição ela linguagem na medida em que ela repousa na confiança na palavra ele outrem. O que é assustador no perjúrio é que ele é uma forma de poder. aceitáveis ou não. segundo a frase de Pascal. é onerado por uma dificuldade ele dizer. assim como suas formas astuciosas contribuem com a dupla enganação sobre si mesmo e sobre o outro. resistência. o que diz respeito à identidade pessoal também faz vibrar toda a tela de nossas relações com outrem. por outro. No terceiro estudo. O poder-dizer. fingimento. A investigação elo reconhecimento mútuo pode ser resumida como uma luta entre o desconhecimento ele outrem e ao m esmo tempo co- mo uma luta pelo reconhecimento ele si m esmo pelos outros. A ipseiclacle. tão caramente conquistada no plano conceitual sobre a mes- miclacle. até mes- mo por uma impotência de dizer.~ ele Hobbes. o per- júrio. Como não encerrar este sobrevôo das incapacidades que obscure- cem a atestação ele meu poder de agir sem evocar as que afetam o par da memória e ela promessa? Por um lado. é sustentado por 3 ü uma descrição fabulosa do estado de natureza em que a desconfiança g ocupa o lugar mediano na enumeração elas paixões que geram a guerra de todos contra todos. o esquecimento. ao qual responde a teoria da Anerkennung. Tanto o esquecimento como o apagamento elos traços são uma in- capacidade sofrida. abrimos um espaço para o reconheci- 268 m ento em ação na expectativa de que cada um elos parceiros elos contra- ••••• . Além disso. que intencionalmente colocamos à frente das moda- lidades do "eu posso". inibição. Se a essência do equ ívoco.

: ::>. poder-se-ia ler. a mépríse (o equí- voco) tem ele ser evitada. Essa inerência elo desconhecimento ao reconhecimento sob a figura elo desprezo nos coloca a caminho ele uma figura elo desconhecimento que nossos últimos desenvolvimentos consagrados ao dom e à troca de dons nos permitem detectar. 269 ••••• . que não podia ser mostrada antes que a idéia ele mutualidade tivesse sido conduzida a seu termo. Da mépríse ao mépris. Defendemos a idéia ele u ma mutualidade exerci. esses sentimentos negativos encontram no termo "desprezo" seu título emble- mático. E é com o uma treva no âmago ela conflitua- lidade sem fim que a experiên cia efetiva da troca cerimonial elo dom era o invocada enqu anto figura privilegiada elos estados ele paz. Não foi esquecida a seqüência sobre o crime. tanto de si mesmo como elo outro. o mesmo despojamento de poder que os outros. depois jurídico e por fim social. Essa vizinhança verbal permite comparar seus papéis res- pectivos em seus contextos próprios. Com o mépris (desprezo).:.tos que precedem o grande contrato de cada um com o Leviatã operará. O desco- nhecimento é assim incorporado à dinâmica do reconhecimento. figura elo desconhecimento no primeiro estudo. Aqui. a língua francesa permite colocar o termo mépris (desprezo) em uma inesperada vizinhança lexical com o termo méprise (equívoco). Mas é no próprio âmago ela Anerkennung que se desenvolve a com- petição entre reconhecimento e desconhecimento. Não é ele surpreender que sejam sentimentos negativos que motivem a conflitualidade que está em ação nos modelos sucessivos de reconhecimento. a incorporação do negativo à conquista elo reconhecimento é inteira. e tem ele ser primeiramente descoberta e denun- ciada. Ousar-se-ia aqui falar do trabalho elo desconhecimento na conquista do reconhecimento. no momento adequado. (j) a: ::> o São precisamente as promessas contidas nesses estados ele paz que "' UJ Q. A transição do tema da luta para o do dom estava ligada a uma questão referente ao caráter sempre inacabado da luta pelo reconhecimento. expressão por ex- celência do famoso "trabalho elo negativo": o criminoso se faz reconhecer em sua singularidade rebelde diante ela lei que o desconhece. No temor elo erro. Essa dialética desenvolve todos os seus recursos nas atualizações recentes da teoria hegeliana. no nível afetivo. colocam o problema de uma forma dissimulada de desconhecimento . É somente a posteriori que a méprise se revela como parte interes- sada na busca da verdade. É nessa implicação elo desconhecimento no reconhecimento que se organiza a expressão ele luta pelo reconhecimento: a conflitualidade é sua alma.

que apare- ceu a dificuldade encontrada pela fenomenologia em superar a dissime- tria originária entre mim e outrem e em formar a idéia de reciprocidade. Que desconhecimento? O da clissimetria originária entre o eu e o outro. reservado para a discussão dessa última fase ela dialética entre reconheci- mento e desconhecimento. Dissimetria que desejaria se fazer esquecer na felicidade elo "um e ou- tro". o outro permanece ina- cessível em sua altericlade enquanto tal. Até mesmo na festividade da troca de dons. clissimetria que não anula a reciprocidade enquanto mutualidade. Foi em primeiro lugar como um embaraço. como um texto de espera. para Husserl. torna vã e estéril toda que- g rela referente à preeminência ele uma leitura sobre a outra. da "entre" os protagonistas ela troca contra sua redução a uma figura da reciprocidade em que a relação opera em um nível transcendente ao das transações entre doadores e donatários. Seguindo Derricla. Impôs-se então a idéia de um reconhecimento mútuo garantido pelo dom enquanto coisa dada. até mesmo como um questionam ento de todo o empreendimento fenomenológico. Apresentamos então a idéia complementar segundo a qual esse reconhecimento não reconhece a si mesmo enquan- to ele está investido na troca ele dons que são sua garantia e seu substituto. reconhecido. junto com Husserl. Esse desconhecimento não é o ele alguém. Desconhecido. junto com Lévinas. como pólo ele referência o eu. que podemos qua- •••••• . O embaraço era ain- da maior devido ao fato ela oposição entre duas versões dessa clissimetria originária.~ questão ela passagem ela assimetria para a reciprocidade senão por um (}) 3 o caminho ou pelo outro .o que. quer se proceda. tão essencial à idéia ele verdade quanto à de justiça. além disso. Tudo ocorre como se ainda não existisse uma visão que estivesse acima dessa divergência ele abordagem e como se não se pudesse abordar a . a questão é saber se aqui não se acrescenta um desco- nhecimento mais sutil que desconhece a si mesmo. Podemos nos recordar ele que. o estágio egológico ela 270 consciência ele si é atingido ao preço ele um recurso. quer se tome. e sim ela clissimetria na relação entre eu e o outro. o outro permanece desconhecido em termos de apreensão originária da minhidade do si mesmo. de outrem na direção elo eu . É aqui que encontra o seu lugar adequado a discussão que intencio- nalmente coloquei à frente elo terceiro estudo.

ele Husserl. gestuais e verbais decifradas do corpo ele outrem. Somente eu apareço para mim m esmo como "apresentado". conduzido ele bom grado ao débito desta. Quanto à experiência que outrem tem ele si mesmo. presumido análogo. à objeção do solipsismo. A altericlade ele outrem não é perceptiva. nos autoriza. con sumado pelo su cesso elas análises do reconhecimento mútuo. que n em sequer a experiência elos estados de paz consegue abolir. É no modo ético ela interpelação que o eu é chamado à responsabilidade pela voz do outro. Os últimos parágrafos ela quinta Medita- ção cartesiana são consagrados a essa derivação. ao final de nosso próprio empreendimento. melhor ainda. no âmago da qual apresento a mim mesmo com o outro entre os outros. e depois a ele "comunidades" que podem ser denominadas intermonáclicas. sem outro ponto ele referência que a "esfera ele pertencimento" que é a única que pode ser dita originária. Não voltarei a tratar elo caráter laborioso ela derivação ulterior ela idéia ele uma natureza comum. O caráter laborioso dessa fenomenologia elo outrem. certos pensadores ligados à h erança ela fenomenologia procuraram edifi- car uma "sociologia intencional" no âmbito ela quinta Meditação carte- siana. quando o elogio elo reconhecimento mútuo convida a esqu ecer essa assimetria originária da relação entre mim e ou- trem. Ouvirei a mesma objurgação elevar-se ela leitura ele Totalidade e infi- nito e ele Autrement qu'être ou au-delà de l'essence. O segundo volume de Lévinas aqui evocado radicaliza ainda mais a idéia ele exterioridade com a •••• • . ambos ele Lévinas. sob o risco ele deixar sua diferença ser absorvida no império da idéia ele totalidade. ela penna- necerá para sempre proibida para mim sob sua forma originária e isso até m esmo no caso mais favorável ele uma confirmação de minhas presun- ções extraídas da coerên cia elas expressões fisionômicas. Com grande dificuldade. constituiria o último desconhecimento no próprio âmago das experiências efetivas ele reconh ecimento. permanece "apercebi- do". Não se eleve esquecer o subtítulo ela primeira obra: "Ensaio sobre a exteriorida- de". o outro. O que pertence propriamente à experiência ele outrem provém elo que Husserl chama de "apreensão analogizante" e. essa ob jeção requer que se "constitua" a altericlacle ele outrem "em" e "pela" consciência ele si. adotada como uma disciplina ascética. Esse esquecimento da assimetria.lificar de fabuloso . A exterioridade primeira é a ela voz e de seu acento primordialmente ético. desdobrada pela idéia ele ser elas antologias. de "aparea- mento". a modificar-lhe o sentido e a discernir nela uma poderosa convocação à ordem.

um não é o outro. A admissão ela clissimetria ameaçada ele esqu ecimento vem recordar. recebe ela dialética entre dissim etria e mutualidade um acrés- ••••• .~ fusional. Por fim. gostaria de transformar as objeções encontradas. a confian- ça no poder de reconciliação ligada ao processo do reconhecimento. em virtude da qual o "dizer" ético não cessa de se proteger do "dito" articulado. o. pela semântica e pela ontologia. O problema era aparentemente superar a dissime- tria para explicar a reciprocidade e a mutualidade. É contra o pano de fundo dessa ética primordial. mas não lugares. diante da suspeita de que essa dissimetria possa minar. cada um a seu modo. Segundo be- nefício dessa admissão: ela protege a mutualidade das armadilhas ela união . quer seja no amor. preserva-se uma justa distância no cerne da g mutualidade. por ambos os mestres da fenomenologia em um aviso dirigi- do a toda concepção do primado da reciprocidade sobre a alteridade dos protagonistas da troca. caráter insubstituível ele cada um elos parceiros ela troca. também são facilmente debitadas a uma filosofia considerada incapaz de se elevar da dissimetria entre o eu e o outro à sua reciprocidade e à sua mutualidade. idéia do Autrement. agente da justiça e da verdade. última forma do reconhecimento recenseada 272 neste livro. O que está em jogo é o sentido do "entre" no qual tanto insistimos ao longo do debate que nos conduziu a distinguir a mutualidade no pla- no das relações "entre" protagonistas da troca da reciprocidade con cebi- da como uma forma transcendente de circulação de bens ou de valores dos quais os atores singulares não seriam senão os vetores. a partir de dentro. justa distância que integra o respeito à intimidade. que se destacam as dificuldades relativas ao tema do terceiro. trocam-se dons. É no "entre" ela expressão "entre protagonistas da troca" que se con- centra a dialética da dissimetria entre mim e outrem e a mutualidade de suas relações. em primeiro lugar. Mais uma vez. aqui. a gratidão. E é para a plena significação desse "entre" que contribui a integração da dissimetria à mutualidade na troca de dons. na amizade ou na fraternidade em escala 3 ü comunitária ou cosmopolita. e para além de toda querela de prioridade entre Hus- serl e Lévinas. Essas dificuldades. que dá a primeira palavra ao Outro. é que a descoberta desse esquecimento da dissimetria originária é benéfica para o reconhecimento sob sua forma mutual. simétricas àquelas encontradas por Husserl na quinta Meditação cartesiana. cada uma ao seu modo. ele agora mostra ser o inverso: como integrar à mutualidade a dissimetria originária. Minha tese.

Montaigne. XXVIII. Se me instigarem a dizer por que eu o am ava. Paris. a clissimetria entre o doador e o donatário é afirmada duas vezes. Antes ele Simone Weil. creio que isso só pode ser expresso respondendo: porque era ele. no receber. sob o peso do luto de La Boétie. :. I ::J l. escrevia as seguintes linhas no capítulo da amizade no Livro I elos Ensaios: "Na amizade ele que falo [as almas) se misturam e se confundem em urna mistura tão universal que elas apagam e não en contram mais a costura que as uniu. 1965. outro é aquele que dá e aquele que recebe. porque era eu " 1 • I I I I I I I I I I I o (f) a: ::J (. outro aquele que recebe e aquele que entrega. Liv. local de gratidão. 188 (co!.cimo de sentido. Les Essais. cap. 273 I • • •• I I . p. defendendo a distân cia n a proxim idade do amor e ela amizade. Vimos no receber o term o-articulação entre o dar e o entregar. I. PUF. É no ato de rece- ber e na gratidão que ele suscita que essa dupla altericlade é preservada.) I a: w a. Quadrige). MONTAIGNE.

de Viena. Destaco aqui François Azouvi. Agradecimentos inda a escrita deste ensaio. tenho sentimentos mais pessoais de grati- dão para com os amigos que me ac"ompanharam na travessia ele tempos difíceis e que contribuíram para a concepção e a execução do Percurso do reconhecimento . com o qual comparti- lhamos tantas coisas durante décadas e que agradeço ter m e acolhido em sua coleção. e os Husserl-Archiv de Fribur- go (Alemanha) . Além disso. 275 ••••••• . diri jo meus agradecimentos às duas instituições que acolheram as três conferências das quais o ensaio foi extraído: o l nstitut für clie Wissenschaf- ten des Menschens.

89. 96. 88. 143. M. 116. H. J. 41-47. 158. M. 99. E. A. 140 E Elias.228. 54. 124.224. 112 Greimas.205. 247 F Bergson. 79. D.225. 177. 107. H. 29.238. 27. 100- 104.226 D Gehlen. 127. 106. 224 Anspach. 239. 110. A.-M. 112 Déticnne. 213 266. 88. J. 135-138 Feinberg. Índice de nomes A Descartes. 51. 179. 236.228. Alexy. L. 243-245 Dupuy. R. 57. 76. 264 Bossuet 20. 132.222.260. G. 19. 223 G Gadamer. 39.2 54. 77. G. H. 141 . 138. 243 Arendt. 15 5 Aristóteles 14. 218 Davidson. 15 5 Ferry. R. M.238 Austin. J-P 242. 79. 267 Anscombe. 107. 24. 36. H.263 Dworkin.225.233. R. R. 93. 21 5 Berlin. 151 B Benveniste. 11 2. 125-127.241. 11 5 277 ••••••• . 241. 217-21 9 Boltanski. 152. 153. 110. L. N. 115. 103. 13 3. 92.70. 188. 219.178. J. I. É.235. 22 1.242. 111 .

128-130. L. 165. 222-224. R. 73. 51. 221 . 227-229. 78 Kierkegaard. 263 278 Mackie. 180. 244. 107. M. 159.275 Parsons. C. L. M.242. B. 168. 209.77. Nietzsche. 45. 190. 57. 96. 247-249. 219. 106. 254. 201-203. 108 185. 133. 115 Proust. 77. F. W. J. 190. 255 Hegel. 27. 14 1. Locke. 9. 118.2 12. 222 N I-Iobbes. J 54.72-74. 187.22 1. 236 s L Santo Agostinho 126. 245 Lévinas. 149 tii ·<{ ::. 76. 177. 195. 163 Jauss. 15 5 Homero 88.194-196. 205. 195. de 33.223. 253. T. 11 6. R. 167. 202. 247-250. 172. 206. P. 39.213. H. R.76. 74. 15-17. 64-67. 108. 255 I-Iirschman. 154-157. 267. 101. 52. T. 261. Nabert. A. 168- 171. 151 Kant. 233. 169. 171. 207. 268 Nozick. 33. 267. A. 132. E. 178. W 11 8 Legendre. 100. 192. 211. 70-72. 113. 11 5 K R Revel. 210 Sen. J.2 50. 221. 21 9. 143 . R. 187-191 . 242 ••••••• . 57. 185 T w o Taminiaux. 106. 165.2 10. Montaigne. 262 120. 90. 196 i5 -~ Taylor. 215-21 7. 187 8 Lloyd. 199. 155 Tricaud. 139. I. 266 Rilke. 239. 79-8 1. 173. 268 Platão 37. 94.247 J Propp. 236 M Thévenot. 237. 47. 241. A. 107. 194-196. É. 104. 92. 88. 144 230. 55. C. M. M .226 Lefort. 107 Honneth. 11 3. H Mauss. Merleau-Ponty.225. 178. 54-57. M. 273 210-212. 190. J. L. 209 I-Ienaff. 74. F. F. A. 19-23.267. 187. 172. P. M.263 I-Ieidegger. 225 . 223.121.255 Strauss. 174. 59-62. 219. 228. 222. 156. 263 p Husserl. 196. S. 226.J 189. 225. 213 Pascal. oz o 163. 130. 108. 178-180. 148-150. 97.230. 11 1. 152 Smith. 20 1-205. 240. 243. V. 178. 270-272. 29. Sófocles 9 3. 203. 240. 38.262. C . E. 164. 143. 241. 79. ll 2. 72-74. E. 147. 107 270-272 Spinoza 127 Littré. 173. M. 235. Ricoeur. 237. B. 226. 160 Lepetit. 267 192. 181. 150. C . 134.254 Schapp.

204 Verdier. 206. W. 220. 246 Zarka. 95. N. Y-Ch. 87-90. M. 140. 250. 160 Vanderbeken. 96. B. 205. M. R. 142 Winnicott. 242 w z Walzer. 225. 279 ••••••• . D. 253 o 'tii=' ·<( L o ô w ü õ . D. ! 58. v Weil. S. 254 Zemon-Davis. 181.?. 185 Weber. 273 Williams. 151 .

parte de uma perplexidade inicial concernente ao estatuto semântico do próprio termo "reconhecimento" no plano do discurso filosófico: é notório que não existe uma teoria do reconhecimento digna desse nome ao modo como há uma ou várias teorias do conhecimento.loyola. no próprio plano da gramá- t ica. Diante dessa lacuna filosófica.~ - ~~-­ . inspirado pela dinâmica da inversão.l.Ricoeur expressa sua admiração pelo fato de nenhuma obra de boa reputação filosófica ter sido publicada sob o título O reco- nhecimento . eu próprio.-=-. pessoas. do verbo "reconhecer" de seu uso na voz ativa para seu uso na voz passiva: eu reconheço ativamente alguma coisa. : ' . E se pergunta se a razão disso não seria o fato de estarmos lidando com um falso verdadeiro conceito que oferece ao autor em busca de novidade a armadilha de um verdadeiro falso tema.com. retomadas sob uma forma mais elaborada nos Husseri-Archiv de Friburgo (Ale- manha).______ .. o autor aceita o desafio da seguinte aposta: conceder à série de ocorrências filosóficas conhecidas da palavra "reconhecimento" a coerência de uma polissemia regrada. I .b ~ Edições Loyola visite nosso site: www.~ -· -· · =-= . eu peço para ser reconhecido pelos outros. O presente livro. .br .. que reúne três conferências feitas no lnstitut für di e Wissenschaften des Menschens de Viena.