JOSÉ AUGUSTO FIORIN (ORG.

)

sapiens editora
O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

2007, by Sapiens Editora ©

Obras da série Estudos da Sociedade:

Volume 1 A organização das sociedades na história da humanidade
Volume 2 O pensamento Humano na história da Filosofia
Volume 3 O desenvolvimento brasileiro – Colônia, Império e
República
Volume 4 A Humanidade em seu transcurso histórico
Volume 5 Sociologia Rural: Breve Introdução

Catalogação
Fiorin, na Fonte
José Augusto (org.). O pensamento
humano na história da filosofia. Ijuí:
Sapiens Editora, 2007.340 p.

1.História da Filosofia 2.Pensamento 3.Teoria 3.
4.Homem I.Título II.Série

Copyright ®

Sumário:
Introdução

1. Filosofia Antiga

1.1 Os Pré-Socráticos

1.1.1 Dualismo Grego

1.1.2 O Gênio Grego

1.1.3 Os Períodos Principais do Pensamento Grego

1.1.4 Primeiro Período

1.1.5 Escola Jônica

1.1.6 Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água"

1.1.7 Anaximandro de Mileto (611-547 A.C.) "Ápeiron"

1.1.8 Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar"

1.2 O Epicurismo

1.2.1 O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica

1.2.2 A Moral e a Religião

1.2.3 Ceticismo e Ecletismo

1.3 O Período Ético

1.3.1 Características Gerais

1.3.2 O Estoicismo

1.3.3 O Pensamento: A Gnosiologia e a Metafísica

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

1.3.4 A Moral e a Política

1.4 Os Sofistas

1.4.1 Período Sistemático

1.5 Sócrates

1.5.1 A Vida

1.5.2 Método de Sócrates

1.5.3 Doutrinas Filosóficas

1.5.4 Gnosiologia

1.5.5 A Moral

1.6 Platão

1.6.1 A Vida e as Obras

1.6.2 O Pensamento: A Gnosiologia

1.6.3 Teoria das Idéias

1.6.4 A Metafísica - As Idéias, As Almas, O Mundo

1.6.5 Moral

1.6.6 Política

1.6.7 A Religião e a Arte

1.6.8 A Academia

1.7 Aristóteles

1.7.1 A Teologia

1.7.2 A Moral

1.7.3 A Política

1.7.4 A Religião e a Arte

1.7.5 A Metafísica

1.7.6 A Psicologia

1.7.7 Juízo sobre Aristóteles

1.7.8 Vista Retrospectiva

2. Filosofia Latina

2.1 Direito e Educação

2.1.1 O direito romano

2.1.2 A Educação Romana

2.1.3 Período Religioso

2.2 As Ciências Naturais da Idade Helenista

2.2.1 O Pensamento Latino

2.2.2 Ecletismo e Estoicismo

3. Filosofia Medieval

3.1 O Cristianismo
3.1.1 As Características Filosóficas do Cristianismo
3.1.2 Características Gerais do Pensamento Cristão
3.1.3 A Filosofia Medieval e o Cristianismo
3.1.4 Conflitos e Conciliação entre Fé e Saber
3.1.5 Patrística
3.1.6 Escolástica
3.1.7 A Questão dos Universais

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

3.1.8 Os Precedentes do Cristianismo
3.1.9 Jesus Cristo
3.1.10 O Novo Testamento
3.1.11 A Solução do Problema do Mal
3.1.12 O Pecado Original
3.1.13 A Redenção pela Cruz
3.2 A Patrística Pré-agostiniana
3.2.1 O II Século: Os Apologistas e os Controversistas
3.2.2 O III Século: Os Alexandrinos e os Africanos
3.2.3 O IV Século: Os Luminares de Capadócia
3.3 Santo Agostinho
3.3.1 A Vida e as Obras
3.3.2 O Pensamento: A Gnosiologia
3.3.3 A Metafísica
3.3.4 A Moral
3.3.5 O Mal
3.3.6 A História
3.4 Tomás de Aquino
3.4.1 A Vida e as Obras
3.4.2 O Pensamento: A Gnosiologia
3.4.3 A Metafísica - (A Natureza, O Espírito, Deus)
3.4.4 A Moral
3.4.5 Filosofia e Teologia
3.4.6 O Tomismo
3.4.7 A Existência de Deus é Evidente?
3.4.8 A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja?
4. Filosofia Moderna
4.1 Pensamento Moderno

4.1.1 Os Precedentes do Pensamento Moderno
4.1.2 Os Períodos do Pensamento Moderno
4.2 A Renascença
4.2.1 Nicolau Machiavelli
4.2.2 Galileu Galilei
4.2.3 A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional
4.3 René Descartes
4.3.1 O Problema do Homem. A Moral
4.3.2 O Programa Cartesiano
4.3.3 A Filosofia de Descartes
4.3.4 Sua Vida
4.3.5 O Método
4.3.6 A Metafísica
4.4 Leibniz
4.4.1 Racionalismo e Finalismo
4.4.2 Os Fundamentos da Monadologia
4.4.3 O Melhor dos Mundos Possíveis
4.5 O Empirismo - Bacon
4.5.1 Vida e Obras
4.5.2 Os Ensaios
4.5.3 O Pensamento: A "Instauratio Magna"
4.5.4 O "Novum Organum"
4.6 O Empirismo - Hume
4.6.1 O Método de Hume
4.6.2 A Análise da Idéia de Causa
4.6.3 O Ceticismo de Hume
4.6.4 Hume e o Problema da Religião
4.7 O Empirismo - Hobbes

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

2 O Estado Natural e o Pacto Social 4.9 1 Condillac (1715-1780) 4.O Estado Natural e o Pacto Social 4.1 John Locke .10 Jean-Jacques Rosseau 4.7.9 O Iluminismo Francês 4.2 O Pensamento: A Gnosiologia 4.3 Idéias Metafísicas 4.14 Marx 4.1 O Desenvolvimento do Idealismo 4.5 Idéias Pedagógicas 4.8 O Empirismo .A Consciência segundo Rosseau 4.11 Emmanuel Kant 4.1 Vida e Obra .9.9.3 Texto de Rosseau .Vida e Obras 4.2.Fichte .10.12.O Idealismo Ético 4.11.2 Jean-Jacques Rosseau 4.3 Schelling .2 O Idealismo Lógico: Hegel 4.Locke 4.8.10.1 A Dialética 4.8.12.O Idealismo Religioso 4.14.10 1 Os Homens e os Problemas 4.12.8.7.12.1 A Ciência e a Metafísica 4.O Idealismo Estético 4.13 Hegel 4.8.8.13.1 Texto de Hobbes .12 O Idealismo Pós-Kantiano 4.4 Schleiermacher .4 Moral e Política 4.2 Montesquieu (1689-1755) 4.4.13.3 Voltaire (1694-1778) 4.

Vida e Obras 4.3 O Dionisíaco e o Socrático 4.2 A teoria Marxista 4.17.5 A Humanidade 4.17.16. a Ascensão da Montanha 4.16.16.2 Augusto Comte .17.15 Kierkegaard 4.17.3 O Salto da Fé 4.17.17 Nietzsche 4.17.14.4 O Vôo da Águia.2 O Sofrimento Necessário 4.15.Comte 4.4 A Classificação das Ciências 4.1 Características Gerais do Positivismo 4.16 O Positivismo .6 Uma Filosofia Confiscada 4.17.1 Filósofo ou Religioso? 4.4. Agonia e Morte 4.1 O Filósofo e o Músico 4.15.15.16.2 Solidão.7 Assim Falou Zaratustra O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .3 A Lei dos Três Estados 4.16.5 Os Limites do Humano: O Além-do-Homem 4.

pelo contrário. mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade. em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo. na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique. O mundo real dos indivíduos e do vir-a- ser depende do princípio eterno da matéria obscura. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado. a consciência do valor supremo do conhecimento racional. absoluto. a racionalidade de Deus. Os Pré-Socráticos Dualismo Grego A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísico-teológico. no conhecimento sensível. e pensava. entre o mundo e Deus. o . que não criou. porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional. nem governa. assimila em parte. abstrato. pelo Destino. mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo. em que Deus e mundo ficam separados um do outro. que a humanidade é governada pelo Fado. a saber. a resignação e a renúncia absoluta. não conhece. porém. esse racionalismo não é. pela necessidade irracional. O Gênio Grego A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo. mas se integra na experiência. ou seja. de Deus. isto é.

para os gregos. realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico. Todos esses elementos vêm sendo. ainda. Platão.tenham a primazia sobre o "operar" . a vontade . do mundo a Deus. embora. mas está a ele subordinado. organizados numa síntese insuperável. não é fechado em si mesmo.) . a transcende para o absoluto. conseqüência lógica do seu próprio racionalismo. o intelecto . e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência. em que o interesse pela O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . IV a. quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade. quando o realismo impuser tal concepção. Divisão da História da Filosofia Grega Os Períodos Principais do Pensamento Grego Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: Período pré-socrático (séc. cederá lugar ao pessimismo. II. mas aberto para o ser. Entre as raças gregas.conhecimento. e o otimismo grego. o prático. sobretudo. Período socrático (séc. o "conhecer" . mas a transpõe.) . em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza. sendo jônios também os atenienses. a filosofia são devidas.Problemas metafísicos.C.C.Problemas cosmológicos. Aristóteles). pois.a contemplação. não é anulado pelo primeiro.o segundo elemento todavia.a ação. sem o qual o mundo não tem explicação. VII-V a. Período Naturalista: pré-socrático. numa unidade harmônica. a cultura. aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. o teorético. é apreensão (realismo). aos jônios. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates.

mais ou menos. favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. . IV a. e toma. que a razão não resolve integralmente. Primeiro Período O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a. Pelo modo de a encarar e resolver. O primeiro período é de formação. e termina dois séculos depois. julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas. Período pós-socrático (séc. do Egeu (Jônia) e da Itália meridional. porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior.C. nos fins do século V. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. o começo de um novo período na história do pensamento grego. para resolver o problema da vida. o terceiro de decadência.Problemas morais. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem. nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor. que marcam uma mudança e um desenvolvimento e. .. é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. IV. da Sicília. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. decaindo entretanto a metafísica. por conseguinte. III.C. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita. outrossim.) . porque precede Sócrates e os sofistas. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião. culminando com Aristóteles.C.VI p. na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito.natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos. o segundo de apogeu. a denominação cronológica de período pré-socrático.

colônia grega do litoral da Ásia Menor. Escola Atomística. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso. o princípio do mundo natural vário. a multiplicidade. preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .C. até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a. Essa escola floresceu precisamente em Mileto.C. Anaxímenes de Mileto. fenício de origem. encarando o Universo no seu aspecto dinâmico. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto. e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. prolongando-se porém ainda pelo V século. Escola Jônica A Escola Jônica. a sucessão dos fenômenos na matéria una. Anaximandro de Mileto. Empédocles de Agrigento. assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor. Escola Itálica. compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única. É o mais antigo filósofo grego.classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica. senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos. é também a primeira do período naturalista. durante todo o VI século.. e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa. múltiplo e mutável. Tales de Mileto (624-548 A. de cuja ação derivariam precisamente a variedade. Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático. a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. A escola jônica. é considerado o fundador da escola jônica. Anaxágoras de Clazômenas. Escola Eleática. procurando determinar o elemento primordial. a causa.) "Água" Tales de Mileto.

o ápeiron (ilimitado). O imã possui vida. pela primeira vez. No plano da astronomia. Todas as coisas estão cheias de deuses. dotado de vida e imortalidade. e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Elemento Dinâmico .) "Ápeiron" Anaximandro de Mileto. os eclipses do sol e da lua. predizendo.coisas. terra) nascem as diversas formas de vida. Por isso. Elemento Estático . Supõe também a . Deste ápeiron (ilimitado) primitivo. Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas. no oceano. rio. a água. entre os gregos. Desse ciclo de seu movimento (vapor. Segundo Tales. astrônomo e político. matemático. mar.a geração e nutrição de todas as coisas pela água. ao se aquecer transforma-se em vapor e ar. geógrafo. quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. torna-se densa e dá origem à terra. vegetal e animal. fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário. Anaximandro de Mileto (611-547 A. discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza. Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico. Cultivou também as matemáticas e a astronomia. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água. Tales acreditava em uma "alma do mundo". Provavelmente nada escreveu. ao se resfriar. havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. isto é. por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. pois atrai o ferro. chuva. põe como princípio universal uma substância indefinida.a flutuação sobre a água. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água. A água é a causa material de todas as coisas.C. do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. que retornam como chuva quando novamente esfriados.

Com essa concepção.geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). Refutação. o fogo é o ar rarefeito. a terra. Anaxímenes de Mileto (588-524 A. o ápeiron está em constante movimento. o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. . a água. mais denso) desse único elemento.) "Ar" Segundo Anaxímenes.água e fogo. O ápeiron é assim algo abstrato. As diversas coisas que existem. um elemento não tão abstrato como o ápeiron. que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. frio e calor.que constituem o mundo. Ampliando a visão de Tales.. e disto resulta uma série de pares opostos . Anaximandro prossegue na mesma via de Tales. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar. Eterno.C.e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) .Aristóteles. reduzem-se a variações quantitativas (mais raro.. a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar. porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. etc. a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron). Fragmentos "Imortal. ele diz que) é sem idade e sem velhice. Física". Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado. infinito e em movimento perpétuo. Hipólito. que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. mesmo apresentando qualidades diferentes entre si. Para ele. Diz-se também. nem palpável demais como a água. Tudo provém do ar. através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida. Esta (a natureza do ilimitado. Atribuindo vida à O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .

conforme o desejo do . (Plutarco). Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. A escola epicurista durou até o IV século d. que venerava Epicuro como uma divindade. do ateniense Néocles. Dedicou-se especialmente à meteorologia. (Aécio). discípulos e amigos.C. mas teve escasso desenvolvimento. O epicurismo teve. pela maior parte perdidos. nos jardins da sua vila. assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém". os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. Cedo dedicou-se à filosofia. . nasceu em Atenas. rápida e vasta difusão no mundo romano. "Com nossa alma. sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. Faleceu em 270 a. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas.C. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente". onde encontramos. com setenta anos de idade..C. Tito Lucrécio Caro . A mãe praticava a magia. O Epicurismo O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica A Moral e a Religião Ceticismo e Ecletismo Epicuro. em 341 a.I século a.matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres. que é ar. desde logo. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio.C. sobretudo.. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos. soberanamente nos mantém unidos. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. autor de De rerum natura. que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores.o poeta entusiasta. provavelmente. fundador da escola que tomou o seu nome. e foi criado em Samos.

Epicuro foi pessoa fidalga e refinada. mensais e anuais. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática. a sua imagem. houve todavia. em sua honra celebravam-se festas comemorativas. para garantir ao homem o bem supremo. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo . A filosofia é a arte da vida. física e ética. homens famosos. da morte. a apatia. para a cultura superior. Portanto.mestre. Precisamente. que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. é tarefa do conhecimento do mundo. feita de nobreza de sentimentos. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal.como o estoicismo . a paz. do além-túmulo. a serenidade. a sua filosofia foi considerada como uma religião. A originalidade deveria manifestar-se na vida. também subordina a teoria à pratica. semelhante ao dos deuses.libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. gosto para a formosura. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. deu vida a uma sociedade genial. da física . gravada nas jóias.divide a filosofia em lógica. o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. em que dominava o vínculo da amizade. recorre Epicuro à física atomista. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade.diz Epicuro . mediante uma estável constituição. senso refinado. A associação espalhou-se depois. mas conservou-se fortemente organizada. a sua doutrina. em todos os tempos e lugares. Em seus jardins. a ciência à moral. missões. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. ajudas materiais. cartas. resumida em catecismos. pertencentes a classes sociais elevadas. num sereno lazer.

Dada tal gnosiologia coerentemente sensista. a . daí. seguindo as pegadas de Demócrito. indivíduo material. consequentemente. arrancar-se-iam destas e chegariam até à alma imediatamente. democritiana. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer. indivisíveis (átomos). Igualmente. indispensável para que seja possível o movimento e. que é imediata. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas. Epicuro. não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos. iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . ou mediatamente através dos sentidos. é uma complicação de sensações.habitadores felizes de intermundos . nenhuma preocupação com a morte. mas sempre materiais . Também segundo Epicuro.desinteressam-se por completo dos homens. homogêneos. da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético. Aliás. canônica) epicurista é rigorosamente sensista. os átomos estão no espaço vazio. Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. que seriam imagens em miniatura das coisas. Estas nos dão o ser. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros. a alma . Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. invisíveis. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação. como com aquilo que precede o nascimento. Como a sensação. a percepção sensível. imutáveis.perece com o corpo. evidente. intuitiva.formada de átomos sutis. na figura. no peso.no tamanho. eternos.mecanicista. infinito. e . A gnosiologia (lógica. resolve-se numa física. que constitui a realidade originária.

a não ser em vista de um prazer. O prazer O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos. por conseqüência. sabiamente. sem providência divina. os vórtices e os mundos. daí derivam encontros e choques de átomos e. portanto. filosoficamente. escolhido prudentemente. e não se deixar por eles dominar. sem causa. como o único mal é a dor. O universo não é concebido como finito e uno. Nisto estão toda a sabedoria. do prazer imediato. refletido. O único bem é o prazer. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. deve adaptar-se para viver como melhor puder. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. espontâneos (clinamen). É mister dominar os prazeres. para os quais não há lugar no seu sistema. espalhado pelo espaço infindo. A filosofia toda está nesta função prática. que é uma simples combinação da contingência. O fim supremo da vida é o prazer sensível. Nesse mundo o homem. Entretanto. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. Estes. sem alma imortal. mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais. a virtude. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível.como pensava Demócrito. do indeterminismo universal. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. e nenhum sofrimento deve ser aceito. avaliado pela razão. a moral epicuristas. mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos. No epicurismo não se trata. trata-se do prazer imediato.origem e a variedade das coisas. nenhum prazer deve ser recusado. a não ser por causa de conseqüências dolorosas. de fato. critério único de moralidade é o sentimento. como é desejado pelo homem vulgar. ou de nenhum sofrimento menor. sujeitos ao nascimento e à morte. não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo .

por exemplo. da paixão.espiritual diferenciar-se-ia do prazer sensível. afinal. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. do filósofo. aos prazeres positivos. quando for preciso. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação. que nasce de exigências não satisfeitas. racionado? Na satisfação de uma necessidade. a ambição. no sono. O verdadeiro prazer não é positivo. pelos mesmos motivos. se ele faz uma afirmação profunda. e. na apatia. perturbam a serenidade e a paz. a vida ideal do sábio. esse prazer imediato. que aspira a liberdade e à paz como bens supremos. como os mais altos prazeres. que é unicamente presente. renunciando a todos os desejos possíveis. para estar tranqüilo. da emoção. não naturais e não necessários . não ser perturbado no espírito. se ensina a renúncia. em vigiar-se. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. refletido. consistindo na ausência do sofrimento. Assim. renuncia os segundos. estéticos e intelectuais. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito. a amizade genial. Epicuro. O sábio satisfaz os primeiros. satisfazendo suas necessidades essenciais. o instinto da reprodução. que é precisamente liberdade e paz. mas ainda renuncia os terceiros. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . porém. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais. na insensibilidade. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis. Em realidade. por conseguinte. mas negativo. e na morte. Aqui. Mas precisamente ainda. Não sofrer no corpo. na remoção do sofrimento. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. na quietude. Em que consiste. . físicos e espirituais.por exemplo.

vivendo ocultamente. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. uma norma de vida ordinária e espiritual. esteticamente. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. mas também na ação (cfr. dar uma unidade estética e racional à vida. ela não é. no isolamento do mundo. melhor é conhecer do que agir. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. e a morte é a ausência de sensibilidade. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. pois todo mal e todo bem se acham na sensação. No entanto. porém. Nunca nos encontraremos com a morte. de sofrimento. a virtude dianoética de Aristóteles). praticamente ateu. inversamente. Epicuro é também hostil à atividade pública. na conversa arguta e delicada: numa palavra. preenchida com as mais nobres ocupações - como na Academia e no Liceu. Almejava. e precisamente em uma vida curta e refinada. na unidade da amizade. porque quando nós somos. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. do vulgo.E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia. Epicuro. É de fato. quando ela é nós não somos mais. no entanto. portanto. paz e contemplação. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. Dado este conceito da vida concebida como liberdade. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. nos jardins de Epicuro. o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. a maneira grega. mais do que ao mundo. O epicurismo. a virtude ética de Aristóteles). portanto. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. representa.

Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. Então. proporcionam-lhe contudo o bem da elevação. constituídos de átomos etéreos. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. uma religião desinteressada. Os deuses de Epicuro são muitos. nos espaços entre mundo e mundo. fora do mundo e dos mundos.segundo ideal grego da vida . diversamente dos deuses estóicos . escapando destarte a fatal destruição dos mundos. sorvendo ambrósia.como os fantasmas de todas as outras coisas .o mal da religião. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. . Vivem. É preciso venerá-los para imitá-los. Epicuro venera os deuses. teria praticado . Deste modo. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. na beata solidão dos intermundos. especialmente durante o sono. para não serem contaminados. que não pode ser senão cópia de realidade. portanto. mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida. Epicuro.sempre acordados e sentados em jovial convívio. sutis e luzentes.desceriam até nós dos intermundos. proclamado ateu.não atuam sobre o mundo e a humanidade. perturbados. imortais . diversamente do imanentismo estóico.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . tendo forma humana belíssima. ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. É uma teologia refinada de ateniense e de artista. que vive no mundo de estátuas divinas. dotados de corpos luminosos. que importa na contemplação do ideal. não para receber auxílio. Epicuro admite a divindade transcendente. beatos.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . conversando em grego! Mas . contemplados .

a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. em princípios da era vulgar. embora imperfeita. bem como o intelectual. desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. enfim. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. do relativismo sofista. surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva. mesmo negativa.. mas não se podem conhecer por falta de meios. procura-se realizar finalmente tão almejada paz. Através da mais absoluta indiferença. existem. e também a opinião. O ceticismo critica o conhecimento sensível. geralmente. nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber. Substancialmente. E. sem qualquer metafísica.C. Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes. destarte. Chega-se. A felicidade não é mais uma coisa positiva. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser. o objeto. à destruição de todos os valores. com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. incoerente. especialmente do que o estoicismo. que é inacessível ao homem". negando todo absoluto e transcendente. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade. A primeira escola cética serve-se. O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a. prática e teorética. cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. mais ou menos). da indiferença. mas não é atacada pelo ceticismo. do sossego. a segunda afirma-se de modo original O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa.

como o ceticismo. de tendência pirroniana.como acontece nos períodos de decadência especulativa . Também o ecletismo. pois a filosofia é escolha. embora imensamente inferior ao ceticismo. que surgiram em tempos diferentes.graças a Carnéades. não filosóficos. como uma suma de elementos estóicos. dada a natureza crítica do ceticismo. depois acadêmico . e sim o jus. feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. que concebem a filosofia popularmente. embora acriticamente. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou. a terceira. que implica sempre numa crítica. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas. O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. enfim. semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticos-ascéticos dos céticos. nem a da afirmação. moralisticamente. se nada é verdadeiro. ou não têm a força da crítica. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes. e a coerência materialista do epicurismo. construção. um ecletismo estóico. da tese e da antítese. em ordem cronológica. sistema. e não justaposição mecânica de peças sem vida. faz uso da dialética eleática. de várias escolas filosóficas. e por demais despersonalizadas. O ecletismo apresenta-se como um sistema afim. organismo especulativo. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência. acadêmicos e também peripatéticos. no período helenista e depois ainda.de sorte que se torna fácil a síntese eclética. melhor ainda. Temos precisamente. inteiramente voltada para a prática e para a ação. favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante. O pragmatismo eclético foi. esvaziadas do seu conteúdo original. tudo vale igualmente. substitui ao critério da verdade o da verossimilhança. portanto será não a filosofia. característico . E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. cuja grande obra.

que procura na filosofia um conforto. Do contingente e do temporal. consequentemente. depois (ceticismo e ecletismo). menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônico- aristotélico. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo.529 D. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. cínica e cirenaica. a filosofia O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . anula- se toda metafísica e. Primeiramente (estoicismo e epicurismo). voltando-se para a sofística. toda moral. helênica. O Período Ético (300 a. na história da filosofia denomina-se período ético. bem como à moral das escolas socráticas menores. peripatético. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. este período toma o nome de helenismo. retorna- se à metafísica naturalista dos pré-socráticos. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. no mundo civilizado. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. significando a expansão da cultura grega. enfim. . faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura.C.) Características Gerais O Estoicismo O Pensamento: A Gnosiologia e a Metafísica A Moral e a Política Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar.e.C. Na história da civilização e da cultura. uma orientação moral.

enfim exporemos o pensamento latino. depende de cultura grega. valor universal como a filosofia grega. ao passo que a metafísica esmorece. mas afirmações dogmáticas. em que ainda há uma metafísica. não sistemas críticos. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. em que não há mais metafísica alguma. e precisamente desse terceiro período . pelo que diz respeito à filosofia. como julga Platão. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores. a saber. como na idade moderna. e. portanto.torna-se uma preparação para a morte. filosofia moral e moral prática. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. e anacrônica. restringem-se ao particular. ciência e técnica. Não filosofia teorética. medicina. elementar. do temor de além-túmulo. o qual. o vigor especulativo. isto é. O interesse teorético. mas filologia. em que a metafísica e moral são sincretistas. o jus e a política dos romanos. . antes de tudo. em segundo lugar. desenvolve-se naturalmente a técnica. o helenismo. o segundo a forma . e. Em conclusão. Trataremos. anuladas. literatura. como opina Aristóteles. nem moral. e a sabedoria é desapego da ação. história. por conseqüência. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. porém. à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. geografia. da escola estóica. o direito romano. O primeiro valor dá o conteúdo.ecletismo e estoicismo. como na escola eclética. como no precedente. da escola epicuréia. E. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. em contradição consigo mesma e com a moral. matemática. da escola cética. libertar o homem das preocupações transcendentais.Graecia capta ferum victorem cepit. mas vastas orientações e escolas. física. com relação às ciências especiais. astronomia. em terceiro lugar. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. ciências naturais.

metafísica. O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético. mas sim uma O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. que se chamou estóica. Iniciou. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. a de escritor. pelo ano 300. de Atenas. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. uns tratados socráticos. aí . bastante divergentes do estoicismo clássico. Podem-se. o estoicismo. entre os quais o cínico Crates. O Estoicismo Em seu conjunto.. mais ou menos). Finalmente.C. freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. mas como uma missão e uma prática religiosa. Os dois últimos. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. um período médio ou eclético. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. física e ética. um período recente ou religioso. não como ciência. mercador. sacerdotal. stoá. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. A escola estóica média ou eclética. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. leva para ele. juntamente com a atividade didática. Seu pai. funda a sua escola. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo.perdidos seus bens - dedica-se à filosofia. pois.

como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. Na lógica trata-se da gnosiologia. à maneira de Demócrito. Não obstante esse absorvente moralismo. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. acaba não sendo mais filosofia. logo. por conseguinte. para firmar a virtude e. mas. uma necessidade mecânica. também da moral. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. conforme a concepção de Heráclito. as propriedades das coisas. é destruído. uma ética. a física iguala a metafísica. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. A metafísica estóica reduz-se à física. No dizer dos estóicos. a alma. pois. pois. e a lei desse princípio material só pode ser. toda atividade é movimento. seguindo-se o aniquilamento da ciência. devem-se conceber materialisticamente também Deus. naturalmente. Entende-se. Como em Aristóteles. Esta matéria está em perpétuo vir-a-ser. moralizadoras. da metafísica e. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. inclusive da política e da religião. no fundo. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. uma física. em correspondência com o discurso interior e exterior. O conceito. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida. em outras palavras. diversamente de Aristóteles. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. para assegurar ao homem a felicidade. rigoristas. logo. Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. .turma bastante uniforme de pensadores medíocres.

Deus. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência.substância metafísica da realidade -. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. que nasce da virtude negativa da apatia. metafísicos. todavia. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. e os estóicos não são filósofos. fornecer alguma base à sua ética do dever. e dar uma explicação à razão. mal O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . a independência interior. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. assim o mal único e absoluto é o vício. imaginam-no como espírito ordenador. Com o desenvolvimento do estoicismo. a autarquia. espírito. necessidade. em especial no homem. não é o prazer. que se manifesta no mundo. Devendo os estóicos. mas pragmatistas. mas a virtude. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. razão da vida. inteiramente absorvidos na prática. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. e sim como sendo ela própria um bem imediato. a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. a felicidade. incoerentemente declaram racional o fogo . a tranqüilidade da alma. o fim supremo. contraditória. moralistas. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. mecanicismo. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. Como se vê. da autarquia do sábio. na ética. segundo uma ordem teológica. Como o bem absoluto e único é a virtude. da serenidade. mas apenas indiferença. destino. providência. não é nem bem nem mal. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. da serenidade. decadente. como o Sol faz brotar da semente a planta. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. o único bem do homem. da indiferença universal. todavia.

para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. indiferença e renúncia a tudo. salvo e pensamento. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. uma emoção. isto não se concilia. nada lhe acontece que não seja . a virtude. único bem da alma.se for ligado ao vício. como precisamente afirmam os estóicos. e para não perder. e cujo curso é fatalmente determinado. como geralmente acontece. o sossego. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. quer se trate de piedade. O sábio é beato. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. a paz. até a apatia. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. a serenidade. a emoção. à saúde e à doença. há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. de tal maneira. é sempre e substancialmente má. pois é movimento irracional. mas a sua destruição total. donde derivam o desejo. a paixão. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. porém. se a ordem do universo é racional. que anda como um deus entre os homens. a dor. ao prazer e ao sofrimento . na filosofia estóica. a sabedoria. De tal forma. que são o verdadeiro. o vício. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. que devem ser aniquilados. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. porque. Por conseguinte. uma tendência irracional. isto é. às honras e à obscuridade. A paixão. A virtude estóica é. inteiramente fechado na sua torre de marfim. à riqueza e à pobreza. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento.quer se trate de ódio. supremo. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. numa palavra. morbo e vício da alma . ao repouso e à fadiga.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. no fundo.

e se conforma com o demais. em civilização humana e moral. clássico. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. em definitivo. Destarte. Com efeito. pois no sistema estóico. Os Sofistas O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .cujo conteúdo é. que existe. esse cosmopolitismo. promove todavia os conceitos de sociedade universal. torna-se cosmopolita por natureza. a apatia dos estóicos seria. conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. onde campeia solitária uma justiça. A serenidade. quando o homem se torna indiferente a tudo. não a alma. morte moral. é uma pura palavra.por ele querido. livres e íntegros. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. de uma dura virtude. virtude corrosiva. fruto de uma fatigosa conquista. e a tudo renuncia. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. sem saudades e sem esperanças. Pelo que diz respeito à política. os estrangeiros e os inimigos. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. de lei racional. de perdão. Não Deus. sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. político por natureza. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana. esta mesma renúncia -. salvo o seu pensamento . apenas para os concidadãos. até para os infelizes e os escravos. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". destinada a resolver-se na matéria. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. porém. Mas é uma virtude absolutamente negativa. sem dúvida. não lhe resta efetivamente mais nada. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica. de direito natural.

e através também da precedente crise cética da sofística. do estoicismo e do epicurismo do período seguinte.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. teve duração bastante curta. através de Sócrates e Platão . daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. não em torno da natureza. sendo principais a cínica e a cirenaica. segundo a via real do pensamento . culminando em Aristóteles. orientando-a para os valores universais. Platão e Aristóteles. o século IV a. mas em torno do homem e do espírito. Esse período esplêndido do pensamento grego .depois do qual começa a decadência . Abraça. precursoras. Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. substancialmente. respectivamente.. de preferência. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico.C. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. que sobreviverão também no período seguinte e além ainda. até então limitado à natureza exterior. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. Com efeito. O interesse dos filósofos gira. deles procedendo a Academia e o Liceu . Sócrates A Vida Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo.

na moldura da alta cultura ateniense da época. Combateu a Potidéia. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. gravemente ferido. em Atenas.diversamente dos sofistas. honestos. temperados . Inteiramente absorvido pela sua vocação. sem recompensa alguma.C. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. hostilidade popular. Quanto à família. Quanto à política. parteira.. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. em geral. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. por certo. vivendo justamente e formando cidadãos sábios. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. e de Fenáreta. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. a liberdade de seus discursos. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. bem como de certos elementos racionários. filho de Sofrônico. Diante da tirania popular. a feição austera de seu caráter. apesar de sua probidade. Mas. inimizades pessoais. Entretanto. podemos dizer que Sócrates não teve. escultor. foi Sócrates.grego. onde carregou aos ombros a Xenofonte. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. criaram descontentamento geral. uma mulher ideal na quérula Xantipa. não obstante sua pobreza. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. Aprendeu a arte paterna. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes. irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. a sua atitude crítica.

porém. determinando o verdadeiro objeto da ciência. e sim o juízo eterno da razão. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma .pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . recusou. Declarado culpado por uma pequena minoria. Sócrates. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. para a imortalidade.tomou forma jurídica.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte.C. na acusação movida contra ele por Mileto. concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. Morreu Sócrates em 399 a. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. E preferiu a morte. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. . foram: "Devemos um galo a Esculápio". Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos.que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. Método de Sócrates É a parte polêmica. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. com 71 anos de idade. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam.

que revestia uma dúplice forma. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. E exprime- se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . o particular. que facilitava a parturição das idéias. que remonta do indivíduo à noção universal. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum.isto é. o indivíduo que passa. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. Sócrates adotava sempre o diálogo. que vai do fenômeno à lei. um conceito. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). uma definição geral do objeto em questão. que é o desejo da ciência mediante a virtude. O objeto da ciência não é o sensível. mas é um meio de generalização. torna-te consciente de tua ignorância . No primeiro caso. É a ironia socrática. a essência da coisa. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. o conceito que se exprime pela definição. No segundo caso. na exposição polêmica e didática destas idéias. estável. dirigindo-as agora ao fim de obter. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . por indução dos casos particulares e concretos. multiplicava ainda as perguntas. eliminar-lhes as diferenças individuais.como sendo o ápice da sabedoria. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. A este processo pedagógico. é o inteligível. a natureza. em memória da profissão materna. Praticamente. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. permanente.

pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. bem como o seu biógrafo genial. Platão. sensitivo e intelectual. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. Xenofonte. Xenofonte. apenas esboçado. Em psicologia. Em teodicéia. Sócrates não deixou nada escrito. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. de estilo simples e harmonioso. de feição intelectual muito diferente. em seus Ditos Memoráveis.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento. sendo mais um homem de ação do que um pensador. distingue as duas ordens de conhecimento. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele.que se concretizava. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. "Conhece-te a ti mesmo" . Com efeito. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. b) com o argumento. da causa . mas não define o livre arbítrio. Como é sabido. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. identificando a vontade com a inteligência. se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. autor de Anábase. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . pelo contrário. Seja como for. mas sem profundidade.

Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. uma das mais características da moral socrática. fonte primordial de todo direito positivo. fim supremo do homem. com finalidades práticas. É a parte culminante da sua filosofia. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. trata-se. Sócrates reconhece também. porém. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. antes.eficiente: se o homem é inteligente. Esta doutrina. Sócrates. mas é também Providência. pedreiro o que sabe edificar. ele é cético a respeito da cosmologia e. universal. acima das leis mutáveis e escritas. em geral. em prática. A virtude adquiri- se com a sabedoria ou. justo será o que sabe a justiça".independente do arbítrio humano. é a prática da virtude. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. Apesar destas doutrinas elevadas. espiritual. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. morais. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. Como os sofistas. Moral. que a promulgou e sancionou. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Deus não só existe. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. a respeito da metafísica. também inteligente deve ser a causa que o produziu. um legislador. com ela se identifica. virtude e ciência. "Se músico é o que sabe música. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. ignorância e vício são sinônimos. a existência de uma lei natural .

não de direito.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. a ciência. donde é preciso extraí-la. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. introspecção. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. mediante a razão. no dizer de Sócrates. É a famosa maiêutica de Sócrates. dada a sua revalidação da ciência. ativismo. A gnosiologia de Sócrates. sem metafísica. racionalismo. reivindica a independência da autoridade e da tradição. O fim da filosofia é a moral. maiêutica. portanto. A filosofia socrática. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. para realizar o próprio fim. pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. sentimentalismo. totalmente. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. Vale dizer que o agir humano . Sócrates. a qual é um valor universal. o prático depende. dos preconceitos. limita-se à gnosiologia e à ética. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. que declara auxiliar os partos do espírito. . este é o momento da ironia. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. não particulares. definição. é mister conhecê-lo. da crítica. de par com os sofistas. indução. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio.de um ceticismo de fato. pragmatismo. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. malvado. ignorância. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. o ignorante. opiniões. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados.bem como o conhecer humano . isto é. por sua vez. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. para construir uma ética é necessário uma teoria. mas dirigida para os valores universais. se o fim da filosofia é prático. no entanto. do teorético. a favor da reflexão livre e da convicção racional. que está contra todo voluntarismo. Antes de tudo. Mas. ainda que com finalidade diversa.

bem como ignorância e vício . um poderoso impulso para o saber. a indução: isto é. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. portanto. conceptual é. no pensamento de Sócrates. Esta ignorância não é. embora o pensamento socrático fique. mas é a certeza objetiva da própria razão - patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. da experiência ao conceito. razão. determinado precisamente mediante a definição. subindo até à razão. remontar do particular ao universal.como ensinavam os sofistas. lei positiva. ação racional. opinião comum. científico. consciência da própria ignorância inicial e. pois. mas apenas metódico. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. para organizar racionalmente a própria vida. em particular da ciência moral. identificando conhecimento e virtude . de fato. necessidade de superá-la pela aquisição da ciência.que não é absolutamente subjetivista. por conseguinte. Esta interioridade do saber. depois. ceticismo sistemático. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência. não sentimento. ciência. e nos dá a essência da realidade. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. da opinião à ciência. consciência de si mesmo quer dizer. Tudo isto tem que ser criticado. mediante a doutrina do conceito. não descendo até à animalidade . no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica.tornava impossível o livre arbítrio. superado. costume. antes de tudo. significa precisamente consciência racional de si mesmo. Este conceito é. rotina. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. tradição. Virtude é inteligência. Entretanto. antes de tudo. não o seu conteúdo. assim é o fundador. esta intimidade da ciência . O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .

Não é. e a virtude mediante o conhecimento . a qual. Entre os seus numerosos discípulos. uma grande metafísica e. precisa . além de simples amadores. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. todavia. Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. valoriza o . como Alcibíades e Eurípedes.Sócrates não sabe. enfim. nem pode precisar este bem.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. descobriu o método e fundou uma grande escola. dele depende. pois. como Xenofonte.realizando-se o bem mediante a virtude. Por isso. logo. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. de admirar que um homem. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. mediante o pensamento socrático. esta felicidade.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . uma moral. partindo dos pressupostos socráticos. pela ausência de uma metafísica. por Aristóteles. Dentre estes. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. desenvolverão uma gnosiologia acabada. alguns. nem deixou algo de escrito. Se o fim do homem for o bem . desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. o itinerário. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. pela novidade de suas idéias. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). Estes dois filósofos.Entretanto. direta ou indiretamente. no entanto. tenha. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. precisamente porque lhe falta uma metafísica. toda a especulação grega que se seguiu. Traçou. que será percorrido por Platão e acabado.

A escola cínica. 445). vegetaram na penumbra. o herdeiro genuíno de suas idéias.pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. e culmina em Aristóteles. por último. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . o vértice e a conclusão da grande metafísica grega.o conceito .concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. porém. Dentre os herdeiros de Sócrates. degenerou. fundada por Euclides (449-369). A escola de Megara. das quais as mais conhecidas são: 1. fundada por Antístenes (n.mesmo diferenciando-se bastante entre si .juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. c. verdadeiros continuadores da tradição socrática. c. fundada por Aristipo. em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. que. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. durante o segundo período. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . Estas escolas. A escola cirenaica ou hedonista. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. 3. São fundadores das escolas socráticas menores. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles . que. (n. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. A escola socrática maior é a platônica. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. 2. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas. que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão. Estas . Fora desta escola começa a decadência e desenvolver-se-ão as escolas socráticas menores.

A alma. as aparências coloridas do universo. Os pitagóricos acreditam na metempsicose. também é um místico. amor à sabedoria). como também o pensamento dos filósofos anteriores. torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. inicialmente. Todavia. Para Entender Platão Platão. o pensamento de seu mestre Sócrates. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital.C. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. infinitamente diversas. que não só reencontramos em Platão. A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. Tratemos.. anteriores e contemporâneos . nascido em 428 a. mas que está na origem da ciência moderna. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. corpo = túmulo). que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático. de evocar Pitágoras de Samos. sua matemática desemboca numa metafísica. A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. como punição de faltas passadas.de saída. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. Na realidade. precisamente denominados pré-socráticos. . assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra.

ar e fogo). cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. Protágoras de Abdera. o não-ser não é". tudo flui: a morte sucede à vida.simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. Para Heráclito de Éfeso. pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. o Nous. Anaxágoras. "O Ser é. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". que "o homem é a medida de todas as coisas". O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico. Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. mas tão somente opiniões O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . a noite ao dia. o real é o Ser único. enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. água. Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. dizia. segundo o testemunho de Platão. imóvel. eterno. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos. Um dos mais célebres. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. Diremos uma palavra sobre os sofistas. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. Em outras palavras: não existe verdade absoluta. tudo muda infinitivamente. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles. de um modo geral. a vigília ao sono. elementos eternos. cujas combinações mutáveis são infinitas. segundo um ritmo regular. "Planta rei". que foi professor de Péricles.

é amargo para o enfermo). A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. porém. uma cidade que seja a encarnação da Justiça. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. Platão a ele se une. a peste. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). seu encontro com Sócrates. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. aristocrata jovem e belo. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. e constata que os Trinta . só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. Sócrates tem sessenta e três anos quando. Platão. com a capitulação de Atenas. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. do último rei de Atenas. recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. seus ancestrais paternos.relativas ao homem (este vinho. portanto. a uma brilhante carreira política. ele se retrai. delicioso para o amador. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. Na Atenas vencida. que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . em 407. Mas Atenas. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores.com inigualável poder marítimo . Estava destinado. E isto é significativo e simbólico. assinalam a importância da catástrofe. no entanto. A destruição da frota.. pertencem a um mundo que não o das aparências. Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. Para compreender isto.

Muitas vezes. Na realidade. de fato. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. por aquilo que nos concerne diretamente. de preferência. Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. Sócrates não pretende. isto é. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. Sócrates. dos problemas que eles colocam. na verdade. um esforço de definição. antes de tudo. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . que. não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. todavia.acumulam injustiças e violências. Seu método é. "Conhece-te a ti mesmo". que era parteira. deve-se deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo. 4. como Empédocles ou Heráclito. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. Sócrates fá-lo compreender que. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. Tal é a maiêutica socrática. Devemos agora. ao pé da letra. Sócrates. significa a arte de interrogar. 3. ele se comparava à sua mãe. 2. ignora o que acreditava saber. portanto. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. ele procura depreender o conceito de justiça. devemos nos interessar. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. segundo ele. elaborar uma cosmologia. Ajuda-nos tão somente a refletir. é a palavra-chave do humanismo socrático. caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. Tal é a ironia.

Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas. Dionísio I prendeu Platão e. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido).. "Reconheço que todos os Estados atuais. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. são mal governados. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. que. sem exceção. cunhado do novo tirano. só há salvação pelo saber. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. todavia. diz Platão. na ilha de Egina. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. Platão retornou a Atenas. .É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de justiça política e individual". condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade.C. eles a praticariam. Dionísio I. no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). Este último. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. Segundo sua perspectiva racionalista. Se conhecessem verdadeiramente a justiça. Acontecimento político: é o partido popular. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto. pois ninguém é "maus voluntariamente". por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. de novo no poder.. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele.Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes.

o Teeteto. para que haja. por exemplo. uma sombra. o Fedro. de certo modo. o Político. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. o Sofista. uma definição do homem em geral. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. o Parmênides. uma essência universal do homem. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. O ensino esotérico (isto é. Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. sobre o conceito. restam-nos. seus diálogos célebres tais como o Górgias. mais exatamente. Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. uma escola de filosofia à portas da cidade. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. as Leis. o único mundo verdadeiro. o Fédon. o Timeu.C. como Sócrates o estabeleceu. a Justiça em si. secreto. aos quarenta anos. Platão morre em 348 a. eternas. no fundo. Platão. perpetuamente mutáveis. por exemplo. só é belo porque participa da Beleza em si. a República. Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade. nos jardins de Academos. Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. Um belo efebo. É então que ele funda. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição. a obra escrita de Platão. o Banquete. perto de Colona. e o mundo das aparências sensíveis. um outro mundo onde exista o Homem em si. porém.

de todas as idéias a mais fácil de reconhecer . Platão pensa igualmente que a emoção amorosa. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau. a cidade que condena Sócrates à morte. Desse modo. Em suma. E Sócrates. Como diz muito bem André Bonnard.de seu antigo contato com as Idéias. para ele. b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. as opiniões estabelecidas (pistis). no entanto. elas foram aprisionadas no corpo. um mundo de pernas para o ar". Todavia. e. mostra que. A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. em seguida. Assim. Depois.é o meio de . uma vez que guardaram uma lembrança obscura . as Idéias contam mais que a vida. no mais alto grau. atesta a existência desse mundo invisível. o pensamento intuitivo.isto é. finalmente. as Idéias. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. por punição de alguma falta. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso. as simples impressões sensíveis (eikasia). um pouco mais acima. como fazem os geômetras. pode ser redespertada . a iluminação direta pela Idéia (noesis).que. Platão dá realidade ao conceito socrático. A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. por exemplo. elas continuam capazes de reminiscência. pela tranqüilidade quase contente de sua morte. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". A ascensão dialética. A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. a emoção que rebata a alma diante da Beleza . segundo a doutrina órfico-pitagórica. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras.

A política de Platão distingue..é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . mas Deus é que é a medida de todas as coisas. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . Finalmente. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. Uma vez que a alma é feita para as Idéias . contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça. objeta Platão a Protágoras .uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. a vontade e o espírito.não o homem. Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos. A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo. à imagem de todas as sociedades indo-européias primitivas. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. Entre todas as formas de governo.. nele. "esse belo risco a ser corrido". Platão prefere a aristocracia e. os militares nos quais a Justiça será coragem.a sensibilidade. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). os chefes cuja Justiça é. podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . antes de tudo. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). em seguida pelos belos corpos.

As Almas. traduz uma espécie de narração poética legendária. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. existem entre a poesia e a verdade. o mito ressalta as relações que.As Idéias. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. procedimento pedagógico paradoxal. d) Finalmente. O Mundo . isto é. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). a) O mito. Platão A Vida e as Obras O Pensamento: A Gnosiologia Teoria das Idéias A Metafísica . segundo Platão.

até o tempo do imperador Justiniano (529 d. uma herdade. Platão estudou também os maiores pré-socráticos. Platão fundava a sua célebre escola. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .. voltou a Atenas. Daí deu início a suas viagens. a Sicília. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois. pelo ano de 387. na desgraça do tirano pela sua fraqueza. Depois da morte do mestre. Platão travou relação com Sócrates . cunhado daquele. que o acompanhou durante a vida toda. entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento. tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion. Libertado graças a um amigo. livre curso ao seu talento poético. Aos vinte anos. que. onde surgiu.deu. porém.). e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). Temperamento artístico e dialético . Platão retirou- se com outros socráticos para junto de Euclides. Em Atenas. de antiga e nobre prosápia. foi vendido como escravo. em Mégara. dos jardins de Academo. povoado da Ática. Adquiriu.mais velho do que ele quarenta anos . Platão nasceu em Atenas. tomou o nome famoso de Academia. tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico.C. que era filho do povo. onde conheceu Dionísio o Antigo. que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio. em 428 ou 427 a. onde levantou um templo às Musas. manifestação característica e suma do gênio grego . manifestando-se na expressão estética de seus escritos. de pais aristocráticos e abastados. onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento). na mocidade. Visitou o Egito. a Itália meridional.e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. Caído.C. de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política. perto de Colona. A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates .

lógica e formal. que . a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita.C.. até a sua morte. o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. então. a precisão. Estas duas viagens políticas a Siracusa. porém. que correm sob o seu nome. o método. Platão foi preso por Dionísio. ao contrário de Sócrates. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. A forma dos escritos platônicos é o diálogo. após a morte de Dionísio o Antigo. com oitenta anos de idade. estando. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos . outros de autenticidade duvidosa. na segunda. não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion. Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. Voltando para Atenas. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates . segundo certa ordem cronológica. Dos 35 diálogos. interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. Foi assim que o filósofo.como lemos no Fédon - não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo.à Dion. muitos são apócrifos. Platão. Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica. voltou duas vezes .em três grupos principais. da qual a filosofia . porém.em 366 e em 361 . transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. Faltam-lhe ainda o rigor. No fundador da Academia. esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. ao ensino filosófico e à redação de suas obras.

no entanto. angustioso. pois. através da especulação. onde o corpo é inimigo do espírito. apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. Este caráter íntimo. que falta a gnosiologia socrática. isto é. ainda que as conclusões sejam. como efetivamente. universal e imutável. para chegar ao conhecimento intelectual. filosófico. O conhecimento sensível. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento. a paixão contrasta com a razão. idênticas. transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim. Deve. o conhecimento conceptual. considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. em Platão é tornado especialmente vivo. tem o caráter científico. conceptual. para o qual é atraído por um amor nostálgico. porquanto no conhecimento humano. nascer e perecer de todas as coisas. isto é. parte do conhecimento empírico.representa a evolução do pensamento platônico. da opinião do vulgo e dos sofistas. do conhecimento da ciência. do socratismo ao aristotelismo . particular. que limitava a pesquisa filosófica. chegar à contemplação do inteligível. moral. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates. é a grande ciência que resolve o problema da vida. ao campo antropológico e moral . Assim. mutável e relativo. da desordem que se manifesta em especial no homem. pelo eros platônico. mais ou menos.diversamente de Sócrates. porém. religioso da filosofia. conceptual. Mas .Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico. Este fim prático realiza-se. o sentido se opõe ao intelecto. sensível. a toda a realidade. em face do mal. A gnosiologia platônica. intelectualmente. não pode explicar o conhecimento O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . assim em Platão a filosofia tem um fim prático. pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser. humano. Platão como Sócrates.

não admite que da sensação . verdade e bondade. diz que os conceitos são a priori. donde têm de ser oportunamente tirados. que tem por sua característica a universalidade. isto é.se possa de algum modo tirar o conceito universal. Sócrates estava convencido. não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso. mas julgava. particular. erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. Platão. fealdade. não sabe que o é. absoluto. a imutabilidade. poder construir indutivamente o conceito da sensação. que estão efetivamente presentes no espírito humano. conhecimento das coisas pelas causas. A diferença essencial entre o conhecimento sensível. exagerando. precisamente porque é ciência. no seu valor. ao contrário. e sustenta que as sensações correspondentes aos . e se distinguem diametralmente de seus opostos. racional em geral.intelectual. sabe que o é. universal. imutável. como também Platão. ao passo que o segundo. errôneo. mutável. mas que dele não se pode derivar. donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim. mutável e relativo. o saber sensível. exasperando a doutrina da maiêutica socrática.particular. os valores de beleza. e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser. o absoluto (do conceito). sem saber porque o estão. da opinião. Segundo Platão. inatos no espírito humano. imutável. desenvolvendo. todavia. e o conhecimento intelectual. embora verdadeiro. E. além de ser um conhecimento verdadeiro. relativa . absoluto. cair no erro sem o saber. o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. está nisto: o conhecimento sensível. de que o saber intelectual transcende. a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual. que ilumina o primeiro conhecimento.

conceitos não lhes constituem a origem. além do fenomenal. do outro. relembrar conforme a lei da associação. racional . conceptual. mas apenas é possível. material. sensível. uma base e um fundamento reais. em que vivemos. são realidades objetivas. uma base real. personalizados. Deste mundo material e contigente. os nossos conceitos são universais. Deve. um conhecimento sensível verdadeiro . Este mundo ideal. necessários. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . formas abstratas do pensamento. dá ao conhecimento racional.no dizer de Platão - transcende inteiramente o mundo empírico. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. no sentido platônico. A ciência é objetiva. no máximo. Ora. As idéias não são. e sim a ocasião para fazê-los reviver. tudo no mundo é individual. contigente e transitório (Heráclito). objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. dá ao conhecimento empírico. um outro mundo de realidades. pois. portanto. um objeto próprio: as idéias eternas e universais. diversamente de Sócrates. que são os conceitos. Estas realidades chamam-se Idéias. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. devido à sua natureza inferior.opinião verdadeira . Aqui devemos lembrar que Platão. ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. Do mesmo modo. ou alguns conceitos da mente. de um lado.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. logo. representações intelectuais. não há ciência. científico. imutáveis e eternos (Sócrates). como as concebiam Heráclito e os sofistas . Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. à opinião verdadeira. existir. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia.

aliás. com ele. sem. negar a existência do fieri. A Metafísica As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. transferidos da ordem lógica à ontológica. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível. que está no vértice. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. o mundo dos inteligíveis. o dever ser. para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. E.e fugazes. um objeto adequado ao conhecimento conceptual. isto é. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. serão universais. centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. imutáveis. que se obtém mediante a divisão e a classificação. situado na esfera celeste. são ordenadas em sistema . o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. Tal a célebre teoria das idéias. e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada. em geral. Esse conhecimento. alma de toda filosofia platônica. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. Além disso. Visto serem as idéias conceitos personalizados. Todas as idéias existem num mundo separado.

que é papel da dialética (lógica real. Deve portanto. As Almas A alma. separando-se. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. assim como o Demiurgo. é a realidade suprema. libertar-se do corpo. na realidade. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas. no sistema platônico. religiosos e místicos. a idéia do Bem. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. que é separação espiritual da alma do corpo. durante a vida terrena.é.ou. Portanto. todavia. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. de natureza espiritual. estando no vértice a idéia do Bem. Ele. é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. para ser verdadeiramente tal. dotado o Demiurgo o qual. ordenadora . O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . deveria ser. embora superior à matéria. de um mal radical. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. inteligível. então. ao Demiurgo e à matéria). quer dizer. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. pelo contrário. a alma humana. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. e se realiza com a morte. donde dependem todas as demais idéias. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte.hierárquico. Desta personalidade e atividade criadora . em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. e todos os valores (éticos. à qual comunica o movimento e a vida. começa e progride mediante a filosofia. Assim. porquanto Platão é um pampsiquista. como de um cárcere. a ordem e a harmonia. ontológica) esclarecer. No entanto. tanto no homem como nos outros seres. Logo. melhor. anima toda a realidade. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. esta libertação. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. de superioridade. é inferior às idéias. a alma do corpo.

Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. deve existir um princípio de uma e outra. segundo Platão. e a concupiscível (apetite). está entre o ser (idéia) e o não- ser (matéria). princípio de movimento e de ordem. as idéias e a matéria. Mas a alma está no corpo como num cárcere. sendo que a alma racional é. resulta da síntese de dois princípios opostos. Logo. A alma não encontra no corpo o seu complemento. e mediante a morte libertadora. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. Entretanto. haveria. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. O Mundo O mundo material. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. que residiria no peito. E. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. pois. que residiria no abdome .ou partes da alma: a irascível (ímpeto). antes de tudo. de fato. introduzindo no caos a alma. A faculdade principal. transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. e é a opinião verdadeira. o seu instrumento adequado. O mundo. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. que o mortifica inteiramente. e da qual depende totalmente a ação moral. que devem ser trabalhosamente relembradas. uma alma do . e é o devir ordenado. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. unida a um corpo. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber. o cosmos platônico. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . dotado de atividade sensitiva e vegetativa. que desvencilha para sempre a alma do corpo. a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. até violenta. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas.assim como a alma racional residiria na cabeça. Segundo Platão.

depende tudo quanto há de positivo. terminados os quais. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. a natureza do homem é racional. ao redor. em forma de esfera e. os astros. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. depois. mas um obstáculo . tudo que há de negativo na experiência. passiva. que aparecem no mundo. Consoante a astronomia platônica.que Platão explica mediante um dualismo O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . etc. cravados em esferas ou anéis rodantes. por conseqüência.ser. No seu conjunto. Da matéria - indeterminada.mundo e. partes da alma. o mundo físico percorre uma grande evolução. ao contrário. explicando-se deste modo o movimento circular deles. É a clássica concepção grega do eterno retorno. do bem e do mal. informe. não no sentido do progresso. tudo recomeça de novo. mas no da decadência. um ciclo de dez mil anos. ao mesmo tempo. as almas dos astros. que domina também a grande concepção platônica. bondade. dos homens. Entretanto. A terra está no centro.depende. Platão Moral Política A Religião e a Arte A Academia Moral Segundo a psicologia platônica. que é. espacial . chegado o grande ano do mundo. felicidade e virtude. conexa ao clássico dualismo grego. verdade. irracional. da ordem e da desordem. o mundo. a saber. Da idéia . beleza . de racional no vir-a-ser da experiência. as estrelas e os planetas. transparentes. são esféricos. dependentes e inferiores. e. o universo sensível. mutável.

Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. Em todo caso. e agir racionalmente é filosofar. mas na sua final supressão. Temos. dos mistérios órfico-dionisíacos. morrer aos sentidos. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. depende da religião. unida ao corpo e aos sentidos. em especial. pois. antes de tudo. distingue ele três categorias de alma: 1. uma classificação. segundo Platão. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. visto que a alma humana racional se acha. a virtude suma.prudência. embora a esta naturalmente inferior. ao mundo. a contemplação. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. condenadas eternamente. é necessário que a alma racional domine. a vontade no impulso. justiça . Agir moralmente é agir racionalmente. chamadas depois cardeais . e filosofar é suprimir o sensível. fortaleza. para o espírito. temperança. Noutras palavras. ao corpo. o destino da alma depende da sua filosofia. de fato. para que se realize a sabedoria. a idéia.filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. destarte. na separação da alma do corpo. derivando daí a virtude da temperança. Em geral. a justiça. virtude fundamental. . Quanto ao destino das almas depois da morte. na morte. As que cometeram pecados expiáveis. eis o pensamento de Platão: em geral. a filosofia. da razão. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. o inteligível. a única virtude verdadeiramente humana e racional. juntamente com a sapiência. e domine também a alma irascível. neste mundo.sobre a base da metafísica platônica da alma. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo. e assim por diante. 2. donde a virtude da fortaleza. As que cometeram pecados inexpiáveis. a alma concupiscível.

Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. tal instituição. Qual é. por conseqüência. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. da razão. traça o seu estado ideal. 3. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais. as quais. no organismo do estado. as dos filósofos. a dos guerreiros. contemplam eles o mundo das idéias. são a República. mas dessemelhantes e desiguais. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão. A essência do estado seria então. As que viveram conforme à justiça. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. a distinção em classes. para receber a pena ou o prêmio merecidos. é necessária porquanto os trabalhos materiais. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. Com efeito. Na República. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. encarnam-se de novo. consoante Platão. A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política. a dos produtores. a O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . pois. em castas. corresponderiam respectivamente às almas racional. As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. servis. irascível e concupiscível no organismo humano. conhecem a realidade das coisas. porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. pois. videntes de idéias. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. o reino do espírito. estas classes: a dos filósofos. À classe dos filósofos cabe dirigir a república. dos filósofos. Três são. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais. libertados da vida temporal para sempre. Segundo Platão. o Político e as Leis.

tornada depois sinônimo de imanentismo. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos. a família.agricultores e artesãos - submetida às duas precedentes. pode causar impressão. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. Na concepção ideal. a ordem da sociedade humana.ordem ideal do mundo e. o indivíduo ao estado. por conseguinte. portanto. também das outras duas classes. pelo desprezo com que era considerado por Platão . ateísmo . ética. sendo estes naturalmente superiores àqueles .consoante seu pensamento . ascética do estado platônico. espiritual. À classe dos produtores.o trabalho material. econômicos e.um . especialmente. privados. e estão. e. que Platão propugna para as classes superiores. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. Na hierarquia das classes. das mulheres e dos filhos. o fim supremo. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. porém. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. domésticos.e pelos gregos em geral . Entretanto. . não. sociais. enfim. dos quais e juntamente com os quais. a riqueza. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. cabe a conservação econômica do estado. Platão foi levado a esta concepção política . porquanto representa precisamente . pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. o comunismo dos bens. consequentemente.eticamente considerados. estatais. à primeira vista. representado pelos filósofos. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar.não certamente por estes motivos. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos. mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. materialismo. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. os guerreiros receberam a educação.

se preocupa com espiritualizar os homens. e. como única e total expressão da eticidade transcendente.especialmente aos filósofos.altíssimo valor moral terreno. a quem cabem as virtudes mais elevadas. o estado em nada se interessa . e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente. Deveria ela equilibrar. a sua finalidade primordial é pedagógico-espiritual. segundo as virtudes que se referem a cada classe. o pensador. música e ginástica. mas não passa de uma importância instrumental e parcial. então. promover. O estado deve. em geral. A música .abrangendo também a poesia. visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional.o homem prático e empírico. antes de tudo. a história. mas. estar substancialmente nas mãos do estado. fundamentalmente.é. a educação deve. por isso. a ação oposta. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores . etc. A educação das classes superiores importa. Se a natureza do estado é. portanto. todas as atividades presididas pelas Musas . pela plebe. não realiza tanto as obras exteriores. pelo vulgo.ao menos positivamente . Ao contrário.. essencialmente. mas o sábio. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. cuja formação é inteiramente material e subordinada. e. educá-los para a virtude. consistindo sua virtude apenas na obediência. respectivamente. da ginástica. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. fortificadora. a de organismo ético- transcendente. com a sua natureza gentil e civilizadora. Platão reconhece a importância da ginástica. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . idolatrando a grandeza moral.pelo povo. O grande. cultivada apenas para fins práticos e morais. a direção da república. sobretudo. político-religioso. todavia. a dominação e a riqueza. o bem espiritual dos cidadãos.diz Platão . o verdadeiro político não é .

até querer banidos de seu estado ideal os poetas. teorético um. deuses eternos. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica. este absoluto . narrados em torno dos deuses e dos heróis. Quanto à avaliação da religião positiva. Por conseqüência. cujas divindades são os astros e o cosmo.o Bem e as idéias .reformada e purificada . pois. Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética.homens grosseiros e materiais. Seu culto essencial é representado pela ciência e. estão as demais idéias. O motivo prático é que a arte . portanto. prevalece a desvalorização por dois motivos.dada . a arte deveria ser. e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. os assim chamados deuses visíveis.embora transcendente. Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. pelos mitos fantásticos e imorais. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. aceita francamente o politeísmo. pela virtude que deriva necessariamente da ciência. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego. que é já uma cópia do mundo ideal. prático outro. inferior à ciência. bem como à idéia do Bem e às outras idéias. espiritual e ético. Ao lado. subordinados ao Demiurgo. Platão hostiliza o antromorfismo. denominadas por Platão. É um politeísmo estranho. Em todo caso. dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo. gnosiologicamente. cópia não de essências. animados e racionais. como religião do seu estado ideal. no conjunto do seu pensamento.a religião helênica. nem sequer da religião assim chamada natural. conservar . como a ciência. O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico. Platão pode. Entretanto. que foi um dos indícios da decadência grega. inclusive Homero. mas de fenômenos. não pode tornar-se objeto de religião.

). quase um século. encarnada em formas sensíveis. sucessores de Platão.. aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente.C.como o amor.deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. a arte nos atrai para o verdadeiro. Atuando cegamente sobre o sentimento. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo. depois. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico. ou seja. na sua pureza lógica. semelhante à religião e ao amor. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si. A arte. Segue-se na média academia. A antiga academia dura até o ano de 260 a. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . porquanto deveria atingir intuitivamente. de mania. pois . a Academia. Costuma-se dividi-la - cronologicamente e logicamente . Vai-se acentuando a importância da experiência. como para o falso. segundo os interesses do último Platão. até o VI século d. uma espécie de revelação superior. No entanto.C. A Academia A escola filosófica fundada por Platão.em antiga. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina. provavelmente também pela influência de Aristóteles . sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina.esta sua inferior natureza teorética. para o bem como para o mal. conceptual. É este o último esforço grandioso O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . média e nova. Seja como for. É governada por discípulos. mais ou menos. orienta-se para o ecletismo.C. sobreviveu-lhe por quase um milênio. impura fonte gnosiológica . algo como que uma filosofia.torna-se outro tanto danosa no campo moral. isto é. Chegamos assim ao princípio da era vulgar. reitores. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. que toma uma orientação cética. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e. Finalmente. prevalecendo simpatias pitagóricas .

treze anos depois da morte de Platão. em 367. chefiada por Demóstenes. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. De volta a Atenas. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista. perto do templo de Apolo Lício. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. até à famosa expedição asiática. no ano seguinte. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. onde ficou por vinte anos. A respeito do caráter de Aristóteles. passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. em amena palestra.C. Aos dezoito anos. como preceptor do Príncipe Alexandre. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. que Platão não conseguiu. malvisto pelos atenienses. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. médico de Amintas. Aristóteles. Morto Alexandre em 323. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. no litoral setentrional do mar Egeu.do pensamento grego para resolver o problema filosófico. que Platão já tinha valorizado no mito. a sua escola. então jovem de treze anos. rei da Macedônia. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. retirando-se voluntariamente para Eubéia. inteiramente recolhido na . e valorizando o elemento religioso positivo. Aristóteles faleceu. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. em 335. foi acusado de ateísmo. após enfermidade. até à morte do Mestre. estourando uma reação nacional. Preveniu ele a condenação. Aí ficou três anos. em Siracusa. nasceu em Estagira. colônia grega da Trácia. em 384 a. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. Aristóteles fundava. filho de Nicômaco. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. por certo. no verão de 322.

C. que se foi isolando da vida prática. de estudo. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. social e política. poder admirável de síntese. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. Escreveu sobre todas as ciências. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. Do diferente caráter dos dois filósofos. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". éticos.elaboração crítica do seu sistema filosófico. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. em que. agudeza de penetração. de pensamento. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. salvo uns apócrifos e umas interpolações. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . ao contrário. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. para se dedicar à investigação científica. os motivos políticos. fruto de muita observação e de profundas meditações. mais uniforme e linear a de Aristóteles. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. vigor de raciocínio. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. como a sua cultura e seu gênio universal. variada e romanesca a de Platão. substancialmente autêntica. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. de pesquisas. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. estéticos e místicos tiveram grande influência.

seu filho. e pertencentes à filosofia teorética. a Ética a Eudemo. juntamente com a metafísica. não por Aristóteles. I. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. O seu problema fundamental é o problema do ser. de que foi ele o criador. que. refazimento da ética de Aristóteles. a Política. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico. em catorze livros. a Grande Ética. devido a Eudemo. O objeto próprio da filosofia.manifestam um grande rigor científico. isto é. que considerava a lógica instrumento da ciência. em dez livros. referentes à metafísica geral e à teologia. clara e ordenada. no seu estado atual. são as essências imutáveis e a razão última das coisas. . Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. inacabada. que a colocou depois da física. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. compêndio das duas precedentes. em dois livros. corresponde muito bem à intenção do autor. entretanto. não o problema da vida. sem enfeites míticos ou poéticos. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. a Poética. II. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. em três livros. em que está a solução do seu problema. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. provavelmente publicada por Nicômaco. incompleta. III. O nome. exposição e expressão breve e aguda. em especial da segunda. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. em oito livros. ao qual é dedicada. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . V. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde. IV.

de que constituem a essência. a filosofia prática divide-se em ética e política. em geral. que corresponde a uma derivação real. conhecidos sensivelmente. A filosofia aristotélica é. Limitar-nos-emos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. demonstrativa. A lógica aristotélica. abrangendo. bem como a platônica. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. por sua vez. A teorética. Sob o ponto de vista metafísico. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. o objeto da ciência aristotélica é a forma. bem como segundo Platão . Foi dito que. prática e poética. porque aí está a sua gnosiologia. é dedutiva. a filosofia . como ciência especial.conforme Aristóteles. é essencialmente dedutiva. racional. explicação do condicionado mediante a condição. nos indivíduos. Entretanto. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. a ciência. Também aqui se segue a ordem da realidade. a poética em estética e técnica. sobre a base socrático-platônica. portanto. destarte. Aristóteles é o criador da lógica. ambas objetivas. mas o ponto de partida da dedução é tirado - mediante o intelecto da experiência. dividir-se-ia em teorética. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. as formas e suas relações. No sentido estrito. portanto. divide-se em física. A filosofia. as formas são imanentes na experiência.tem como objeto o universal e o necessário.o universal e o necessário. como idéia era o objeto da ciência platônica. pois. portanto. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. segundo Aristóteles. A ciência platônica e aristotélica são. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . conceptual como a de Platão mas parte da experiência. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. todo o saber humano.

clássico. são fruto de uma visão imediata. intuição intelectual. a "desindividualização" do universal do particular. do inteligível. tirada da experiência. isto é. na lógica. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível.devem ser. A formação do conceito é. é anterior ao particular. ontologicamente.apodíctica. seja constrangido a elaborar. cuja verdade imediata ele defende. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução . é sempre verdadeira. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. consoante Platão. de um modo e de outro. a posteriori. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias - reminiscência. da representação sensível. O seu processo característico. metafisicamente. a saber. tirados da experiência. Por certo. da representação sensível. os princípios supremos. é o silogismo. que é o nosso primeiro conhecimento. Quanto ao juízo. Segundo Aristóteles. os conceitos. uma doutrina da indução. ao sensível: mas. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. Assim sendo. também os elementos primeiros do conhecimento - conceito e juízos . Os elementos primeiros. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo. gnosiologicamente. psicologicamente existe primeiro o particular. Como é que se formam os princípios da demonstração. o universal. o contigente. e que é o elemento constitutivo da ciência. Por certo. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. o sensível. ao contigente. a coisa parece mais complicada. ela não está efetivamente acabada. em que unicamente temos ou não temos a verdade. as verdades evidentes. entretanto. em que o universal é imanente. os juízos imediatamente evidentes. o inteligível. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. o necessário. como o conceito. entretanto. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. compreende-se que Aristóteles.

substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. 2. porém. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. 3. se correspondem. com rara habilidade. Aristóteles. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. Rigor no método  Depois de estudas as leis do pensamento.completa. e) refuta. mas certíssima. Todas as partes se compõem. c) propõe depois as dúvidas. Geralmente. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. necessidade objetiva. a própria solução. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. em todas as suas obras. o processo dedutivo e indutivo aplica-os. analítico. por último. em seguida. Observação fiel da natureza  Platão. é a priori.Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. idealista. Então só resta possível uma indução incompleta. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. se confirmam. seu nexo. A Teologia O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. no estudo de uma questão. mais positivo. Os caracteres desta grande síntese são: 1. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. a posteriori. d) indica. isto é. as sentenças contrárias. Unidade do conjunto . colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. mas abandonando a solução do mestre. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. uma verdadeira síntese.

Se o agir. ato puro. e menos ainda opera sobre ele. passagem da potência ao ato. motor imóvel. como ato puro. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. Deus é. Com efeito. mas unicamente conhecer e pensar. Deus. do movimento. realidade do vir-a-ser. antes de tudo. voltando-se para ele. contraditório. Se Deus é mera atividade teorética. pois. passagem da potência ao ato. razão metafísica de todo devir. enquanto é vir-a-ser. sem se mover a si mesmo. portanto. que é pensamento puro. Da análise do conceito de Deus. é aquilo que move sem ser movido. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. origem extra-temporal. E nesta autocontemplação imutável e ativa. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". que não tem princípio e fim no tempo. Deus. Aristóteles. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. da passagem da potência ao ato. baseada sobre a imediata experiência. do mundo. está a beatitude divina. Este vir- a-ser. um ato puro enfim. pensamento de si. o possível puro. não conhece o mundo imperfeito. conquistado através do precedente raciocínio. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. consequentemente. atividade teorética. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. com o . o pensamento do pensamento. um motor já em ato. causa absoluta. é aquilo que é movido. como pensamento de si mesmo. a matéria. fica eternamente inexplicável. auto-suficiente. e. indiscutível. concebido. requer finalmente um não-vir-a-ser. Deus não pode agir e querer. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. o real puro. de outra forma teria que ser movido por sua vez. incompatível com o ser perfeito. isto é. sem um primeiro motor imóvel. isto é. concebido como primeiro motor imóvel. pensamento de pensamento. no dizer de Aristóteles. Deus não atua sobre o mundo. Deus é unicamente pensamento.

por natureza. que deve ser governado pela razão. ele. A característica fundamental da moral aristotélica é. metafísico. e só assim. por conseqüência. que exige o conhecimento absoluto. Logo. De Deus depende a ordem. isto é. por conseqüência. como as virtudes intelectuais. mas unicamente como o fim último. e. o seu bem. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. permanece o dualismo. afetivo. e não pode. um elemento sentimental. que é precisamente uma atividade conforme à razão. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. de que se falou quando das obras dele. passional. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. a que é necessária à virtude. As virtudes éticas. mas implicam. como causa final. a sua lei. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. não as aniquila e destrói. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. no mesmo tempo. não são mera atividade racional. a sua felicidade. e. o racionalismo. portanto. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. não é criador. a vida. morais. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. domina as paixões. como causa eficiente e formal (exemplar). todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. ser completamente resolvido na razão. todavia. como queria o O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. o fim do homem é a felicidade. teoréticas. e a esta é necessária a razão. consegue a felicidade mediante a virtude. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. a racionalidade do mundo. da natureza e do universo. atraente. Visto ser a razão a essência característica do homem. A razão aristotélica governa.pensamento e a vontade. mas. isto é. porém. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. isto é. nem providência do mundo.

ascetismo platônico. A virtude ética não é, pois, razão pura, mas uma
aplicação da razão; não é unicamente ciência, mas uma ação com ciência.
Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve
muita doutrina prática, popular, embora se apresente especulativamente
assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como
um justo meio entre dois extremos, isto é, entre duas paixões opostas:
porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças
suficientes. Naturalmente, este justo meio, na ação de um homem, não é
abstrato, igual para todos e sempre; mas concreto, relativo a cada qual, e
variável conforme as circunstâncias, as diversas paixões predominantes dos
vários indivíduos.
Pelo que diz respeito à virtude, tem, ao contrário, certamente,
maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude
concebida como hábito racional. Se a virtude é, fundamentalmente, uma
atividade segundo a razão, mais precisamente é ela um hábito segundo a
razão, um costume moral, uma disposição constante, reta, da vontade, isto é,
a virtude não é inata, como não é inata a ciência; mas adquiri-se mediante a
ação, a prática, o exercício e, uma vez adquirida, estabiliza-se, mecaniza-se;
torna-se quase uma segunda natureza e, logo, torna-se de fácil execução -
como o vício.
Como já foi mencionado, Aristóteles distingue duas categorias
fundamentais de virtudes: as éticas, que constituem propriamente o objeto da
moral, e as dianoéticas, que a transcendem. É uma distinção e uma
hierarquia, que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e
especialmente à moral. As virtudes intelectuais, teoréticas, contemplativas,
são superiores às virtudes éticas, práticas, ativas. Noutras palavras,
Aristóteles sustenta o primado do conhecimento, do intelecto, da filosofia,
sobre a ação, a vontade, a política.

A Política
A política aristotélica é essencialmente unida à moral, porque o fim
último do estado é a virtude, isto é, a formação moral dos cidadãos e o
conjunto dos meios necessários para isso. O estado é um organismo moral,
condição e complemento da atividade moral individual, e fundamento primeiro
da suprema atividade contemplativa. A política, contudo, é distinta da moral,
porquanto esta tem como objetivo o indivíduo, aquela a coletividade. A ética é
a doutrina moral individual, a política é a doutrina moral social. Desta ciência
trata Aristóteles precisamente na Política, de que acima se falou.
O estado, então, é superior ao indivíduo, porquanto a coletividade é
superior ao indivíduo, o bem comum superior ao bem particular. Unicamente
no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades, pois o homem,
sendo naturalmente animal social, político, não pode realizar a sua perfeição
sem a sociedade do estado.
Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias,
assim como estas se compõem de muitos indivíduos, antes de tratar
propriamente do estado será mister falar da família, que precede
cronologicamente o estado, como as partes precedem o todo. Segundo
Aristóteles, a família compõe-se de quatro elementos: os filhos, a mulher, os
bens, os escravos; além, naturalmente, do chefe a que pertence a direção da
família. Deve ele guiar os filhos e as mulheres, em razão da imperfeição
destes. Deve fazer frutificar seus bens, porquanto a família, além de um fim
educativo, tem também um fim econômico. E, como ao estado, é-lhe
essencial a propriedade, pois os homens têm necessidades materiais. No
entanto, para que a propriedade seja produtora, são necessários instrumentos
inanimados e animados; estes últimos seriam os escravos.
Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo; mas constata
que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais, que exigem

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

indivíduos particulares, a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de
providenciar a cultura da alma, visto ser necessário, para tanto, tempo e
liberdade, bem como aptas qualidades espirituais, excluídas pelas próprias
características qualidades materiais de tais indivíduos. Daí a escravidão.
Vejamos, agora, o estado em particular. O estado surge, pelo fato
de ser o homem um animal naturalmente social, político. O estado provê,
inicialmente, a satisfação daquelas necessidades materiais, negativas e
positivas, defesa e segurança, conservação e engrandecimento, de outro
modo irrealizáveis. Mas o seu fim essencial é espiritual, isto é, deve promover
a virtude e, conseqüentemente, a felicidade dos súditos mediante a ciência.
Compreende-se, então, como seja tarefa essencial do estado a
educação, que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as
faculdades: antes de tudo as espirituais, intelectuais e, subordinadamente, as
materiais, físicas. O fim da educação é formar homens mediante as artes
liberais, importantíssimas a poesia e a música, e não máquinas, mediante um
treinamento profissional. Eis porque Aristóteles, como Platão, condena o
estado que, ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e
moral, visa a conquista e a guerra. E critica, dessa forma, a educação militar
de Esparta, que faz da guerra a tarefa precípua do estado, e põe a conquista
acima da virtude, enquanto a guerra, como o trabalho, são apenas meios para
a paz e o lazer sapiente.
Não obstante a sua concepção ética do estado, Aristóteles,
diversamente de Platão, salva o direito privado, a propriedade particular e a
família. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no
estado é fantástico e irrealizável. O estado não é uma unidade substancial, e
sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. Se se quiser a
unidade absoluta, será mister reduzir o estado à família e a família ao
indivíduo; só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois

precedentes. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas, e,
precisamente, duas classes reconhece: a dos homens livres, possuidores, isto
é, a dos cidadãos e a dos escravos, dos trabalhadores, sem direitos políticos.
Quanto à forma exterior do estado, Aristóteles distingue três
principais: a monarquia, que é o governo de um só, cujo caráter e valor estão
na unidade, e cuja degeneração é a tirania; a aristocracia, que é o governo de
poucos, cujo caráter e valor estão na qualidade, e cuja degeneração é a
oligarquia; a democracia, que é o governo de muitos, cujo caráter e valor
estão na liberdade, e cuja degeneração é a demagogia. As preferências de
Aristóteles vão para uma forma de república democrático-intelectual, a forma
de governo clássica da Grécia, particularmente de Atenas. No entanto, com o
seu profundo realismo, reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo
não é abstrata, e sim concreta: deve ser relativa, acomodada às situações
históricas, às circunstâncias de um determinado povo. De qualquer maneira a
condição indispensável para uma boa constituição, é que o fim da atividade
estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa
despoticamente.
A Religião e a Arte
Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. No entanto, este
Deus, pelo seu efetivo isolamento do mundo, que ele não conhece, não cria,
não governa, não está em condições de se tornar objeto de religião, mais do
que as transcendentes idéias platônicas. E não fica nenhum outro objeto
religioso. Também Aristóteles, como Platão, se exclui filosoficamente o
antropomorfismo, não exclui uma espécie de politeísmo, e admite, ao lado do
Ato Puro e a ele subordinado, os deuses astrais, isto é, admite que os corpos
celestes são animados por espíritos racionais. Entretanto, esses seres divinos
não parecem e não podem ter função religiosa e sem física.

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

Não obstante esta concepção filosófica da divindade, Aristóteles
admite a religião positiva do povo, até sem correção alguma. Explica e
justifica a religião positiva, tradicional, mítica, como obra política para
moralizar o povo, e como fruto da tendência humana para as representações
antropomórficas; e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade
filosófica da existência da divindade, a que o homem se teria facilmente
elevado através do espetáculo da ordem celeste.
Aristóteles como Platão considera a arte como imitação, de
conformidade com o fundamental realismo grego. Não, porém, imitação de
uma imitação, como é o fenômeno, o sensível, platônicos; e sim imitação
direta da própria idéia, do inteligível imanente no sensível, imitação da forma
imanente na matéria. Na arte, esse inteligível, universal é encarnado,
concretizado num sensível, num particular e, destarte, tornando intuitivo,
graças ao artista. Por isso, Aristóteles considera a arte a poesia de Homero
que tem por conteúdo o universal, o imutável, ainda que encarnado
fantasticamente num particular, como superior à história e mais filosófica do
que a história de Heródoto que tem como objeto o particular, o mutável, seja
embora real. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso
da história , mas o que por natureza deve, necessária e universalmente,
acontecer. Deste seu conteúdo inteligível, universal, depende a eficácia
espiritual pedagógica, purificadora da arte.
Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento
essencial, a forma, o inteligível, este inteligível recebe como que uma nova
vida através da fantasia criadora do artista, isto precisamente porque o
inteligível, o universal, deve ser encarnado, concretizado pelo artista num
sensível, num particular. As leis da obra de arte serão, portanto, além de
imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos
elementos da representação artística, íntimo sentimento do conteúdo,

evidência e vivacidade de expressão. A arte é, pois, produção mediante a
imitação; e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no
objeto ou no instrumento de tal imitação.
A Metafísica
A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser, ou dos
princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". Ela abrange
ainda o ser imóvel e incorpóreo, princípio dos movimentos e das formas do
mundo, bem como o mundo mutável e material, mas em seus aspectos
universais e necessários. Exporemos portanto, antes de tudo, as questões
gerais da metafísica, para depois chegarmos àquela que foi chamada, mais
tarde, metafísica especial; tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser -
natureza e homem - e culmina no que não pode vir-a-ser, isto é, Deus.
Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da
metafísica aristotélica: potência e ato, matéria e forma, particular e universal,
movido e motor. A primeira e a última abraçam todo o ser, a segunda e a
terceira todo o ser em que está presente a matéria.
I. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica
aristotélica: potência significa possibilidade, capacidade de ser, não-ser atual;
e ato significa realidade, perfeição, ser efetivo. Todo ser, que não seja o Ser
perfeitíssimo, é portanto uma síntese - um sínolo - de potência e de ato, em
diversas proporções, conforme o grau de perfeição, de realidade dos vários
seres. Um ser desenvolve-se, aperfeiçoa-se, passando da potência ao ato;
esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade, de uma
potencialidade anterior. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é
aplicada - e desenvolvida - por Aristóteles especialmente quando da doutrina
da matéria e da forma, que representam a potência e o ato no mundo, na
natureza em que vivemos. Desta doutrina da matéria e da forma, vamos logo
falar.

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

II. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Heráclito, nem o ser de
Parmênides, mas une-os em uma síntese conclusiva, já iniciada pelos últimos
pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. Segundo
Aristóteles, a mudança, que é intuitiva, pressupõe uma realidade imutável,
que é de duas espécies. Um substrato comum, elemento imutável da
mudança, em que a mudança se realiza; e as determinações que se realizam
neste substrato, a essência, a natureza que ele assume. O primeiro elemento
é chamado matéria (prima), o segundo forma (substancial). O primeiro é
potência, possibilidade de assumir várias formas, imperfeição; o segundo é
atualidade - realizadora, especificadora da matéria - , perfeição. A síntese - o
sinolo - da matéria e da forma constitui a substância, e esta, por sua vez, é o
substrato imutável, em que se sucedem os acidentes, as qualidades
acidentais. A mudança, portanto, consiste ou na sucessão de várias formas na
mesma essência, forma concretizada da matéria, que constitui precisamente a
substância.
A matéria sem forma, a pura matéria, chamada matéria-prima, é
um mero possível, não existe por si, é um absolutamente interminado, em
que a forma introduz as determinações. A matéria aristotélica, porém, não é o
puro não-ser de Platão, mero princípio de decadência, pois ela é também
condição indispensável para concretizar a forma, ingrediente necessário para
a existência da realidade material, causa concomitante de todos os seres
reais.
Então não existe, propriamente, a forma sem a matéria, ainda que
a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. Com
respeito à matéria, a forma é, portanto, princípio de ordem e finalidade,
racional, inteligível. Diversamente da idéia platônica, a forma aristotélica não
é separada da matéria, e sim imanente e operante nela. Ao contrário, as

portanto. IV. é composta de indivíduos. matéria enformada. A realidade. produzindo esta síntese o indivíduo. Daí uma quarta causa. que é precisamente síntese . portanto. a substância física.de matéria e de forma. porém. que são uma síntese . Os elementos constitutivos da realidade são. potência realizada. o vir-a-ser.bem como a matéria não pode ser atuada . Daí a necessidade de um terceiro princípio. a individualidade. Aristóteles faz o primeiro .a matéria.de matéria e forma. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. a causa eficiente. A mudança é. Mediante a doutrina da matéria e da forma. como as idéias platônicas. Esta realização do possível. A essência . que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. a realização do possível. que tanto atormenta Platão.a não ser por um outro indivíduo.sínolo . a que é submetido tudo que tem matéria. portanto. universal particularizado. Aristóteles explica o indivíduo.a idéia . substâncias. a mudança. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma. para poder explicar a realidade efetiva das coisas. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. isto é. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados . depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. entre a matéria e a forma. III. Por conseqüência. surge o movimento. porém. eternas. por sua vez. depende da matéria.deriva da forma.um sínolo . A causa eficiente. a única realidade efetiva no mundo. O indivíduo é. Da relação entre a potência e o ato.formas aristotélicas são universais. potência. por uma substância em ato. pode ser levada a efeito unicamente por um O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . a forma e a matéria. deve operar para um fim.imanente no segundo . imutáveis. a causa final.igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie .

que é a forma do corpo. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. isto é. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. a alma é que move o corpo. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas porquanto se dão atos diversos. a coisa movida . pois. Por exemplo. é o pensamento. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica.enquanto tal . a característica da vida do homem. mas vice-versa. que tem por princípio a alma racional. e. mas instrumento da alma racional.ser que já está em ato. que tem por objeto específico o homem. matéria. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. visto ser impossível que o menos produza o mais. o imperfeito o perfeito. diversamente de Platão. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. Eis a grande doutrina aristotélica do motor e da coisa movida. A Psicologia Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. absolutamente imóvel. . A característica da vida animal.pode ser unicamente potência. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. o corpo humano não é obstáculo. conforme Aristóteles. que é precisamente a alma. ato puro. a potência o ato. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. doutrina que culmina no motor primeiro. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. E assim. Deus. é a nutrição e a reprodução. que tem por princípio a alma sensitiva. que tem por princípio a alma vegetativa. Aqui nos limitamos à psicologia racional. forma do corpo. em geral. forma. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. Mesmo que um ser se mova a si mesmo. Enfim. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico. De sorte que. isto é. vivente. O motor pode ser unicamente ato.

através do movimento de um meio. A sensação embora limitada é objetiva. a inteligência. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. respectivamente. na sensação propriamente dita. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. contemplativa e ativa. representações. O senso comum é uma faculdade interna. o pensamento. pois. Cada uma destas. funções. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. repouso. cognoscitiva e operativa. a alma humana. O conhecimento sensível. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. sendo embora uma e única. por isso. sendo superior a estas. as qualidades gerais das coisas tamanho. Assim. começa com a síntese. se se tiver presente que o homem é um animal racional. a saber. isto é. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. unificar as várias sensações isoladas. movimento. isto é. percepções. as sensações específicas são percebidas. ou a possibilidade da falsidade. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. mas um espírito que anima um corpo animal. imediata ou à distância. figura. o sensível comum. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. tem várias faculdades. se desdobra em dois graus. e se tornam. são percebidas por mais sentidos. pelo que ela é espírito. a sensação. que a ele confluem. O sensível próprio é percebido por um só sentido. pressupões um fato físico. quer dizer. com o juízo. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. que é constituída pelo segundo. pelos vários sentidos. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. sensitivo e intelectivo. etc. tendo a função de coordenar. não é um espírito puro. a falsidade.

nascimento e morte. o apetite guiado pela razão. e é próprio da alma animal. deve ser espiritual e. conhecendo o imaterial. Movimento quantitativo . o imutável. o contingente. Analogamente às atividades teoréticas. Movimento qualitativo . é a análise dos vários tipos de movimento. como filosofia da natureza. condicionando todas as demais espécies de mudança. o material. . a atividade fundamental da alma é teorética. contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. Objeto do sentido é o particular.mudança de forma. realização de uma possibilidade. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. quanto a tal. segundo Aristóteles. A vontade é o impulso. o necessário.mudança de propriedade. Movimento espacial .acrescimento e diminuição. especificamente diverso do primeiro. que. ainda que rejeite o inatismo platônico. e dessa depende a prática. o mutável. e é própria da alma racional. o ser absoluto. por sua vez depende do conhecimento sensível. a alma humana. cognoscitiva. Objeto do intelecto é o universal. 3. sem idéias inatas. A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. 4. deve ser imperecível. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. ativa. o imaterial. Como se vê. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. Por conseqüência. dependente do sentimento. O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. Movimento substancial . mudança. as essências. no grau sensível bem como no grau inteligível.mudança de lugar. 2. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento.

Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo .isto é. autor do primeiro tratado de psicologia científica. metafísico. "A natureza faz.por ele propugnado com base na finalidade. político. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. Quanto às ciências químicas. porém. e são logicamente separáveis da sua filosofia. que tem um valor teorético.finalismo . Criador da lógica. primeiro escritor da história da filosofia. o aspecto. que ele descortina em a natureza. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dá-nos. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo . as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. físicas e especialmente astronômicas. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. do "antes" e do "depois". Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato.é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. enquanto possível. O tempo é definido como sendo o número . sempre o que é mais belo".do movimento segundo a razão. moralista. em torno dos quais fez ele investigações profundas. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. a realização da forma na matéria. de fenômenos . Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. a medida . patriarca das ciências naturais.como sendo relações de substâncias. isto é.

se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal. a psicologia e a lógica. sem obrigação nem sanção. Aristóteles. princípio potencial. nas suas linhas gerais. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. que entende com a metafísica. de outro. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia.linguagem científica não somente às nossas cogitações. e a matéria. nas extravagâncias dum idealismo extremo. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. Platão dá um passo além. pela doutrina do conceito. senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". Sua moral. uma verdadeira contradição e deixa subsistir. Vista Retrospectiva Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. com o seu espírito positivo e observador. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. a existência dos seres fora de Deus. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. como enigma insolúvel e inexplicável. Em torno desta questão fundamental. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. na própria teoria aristotélica. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. dum lado. ato puro. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. Aristóteles A Teologia A Moral A Política . mas encalha. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. é.

origem extra-temporal. realidade do vir-a-ser. incompatível com o ser perfeito. fica eternamente inexplicável. Deus. concebido como primeiro motor imóvel. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. atividade teorética. que é pensamento puro. indiscutível. mas unicamente conhecer e pensar. a matéria. sem um primeiro motor imóvel. ato puro. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Deus é unicamente pensamento. antes de tudo. o possível puro. é aquilo que é movido. um ato puro enfim. Deus. isto é. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. Da análise do conceito de Deus. no dizer de Aristóteles. da passagem da potência ao ato. passagem da potência ao ato. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. requer finalmente um não-vir-a-ser. o pensamento do pensamento. A Religião e a Arte A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". o real puro. Deus não pode agir e querer. Este vir- a-ser. do movimento. pois. como ato puro. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. sem se mover a si mesmo. de outra forma teria que ser movido por sua vez. conquistado através do precedente raciocínio. Deus é. e. enquanto é vir-a-ser. baseada sobre a imediata experiência. concebido. um motor já em ato. auto-suficiente. motor imóvel. E nesta autocontemplação imutável e ativa. está a beatitude divina. Se o agir. como pensamento de si mesmo. do mundo. que não tem princípio e fim no tempo. é aquilo que move sem ser movido. Com efeito. consequentemente. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. Aristóteles. isto é. passagem da potência ao ato. razão metafísica de todo devir. pensamento de pensamento. causa absoluta. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. pensamento de si. portanto. contraditório.

Logo. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. permanece o dualismo. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. Se Deus é mera atividade teorética. mas unicamente como o fim último. e só assim. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. a que é necessária à virtude. De Deus depende a ordem. porém. Visto ser a razão a essência característica do homem. a sua lei. consegue a felicidade mediante a virtude. a racionalidade do mundo. e a esta é necessária a razão. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. . o fim do homem é a felicidade. isto é. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. mas. metafísico. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. e. ele. como causa eficiente e formal (exemplar). o racionalismo. com o pensamento e a vontade. isto é. de que se falou quando das obras dele. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. isto é. A característica fundamental da moral aristotélica é. o seu bem. por conseqüência. nem providência do mundo. não é criador. atraente. que é precisamente uma atividade conforme à razão. Deus não atua sobre o mundo. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. a vida. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. e. por conseqüência. no mesmo tempo. não conhece o mundo imperfeito. da natureza e do universo. portanto. e menos ainda opera sobre ele. que exige o conhecimento absoluto. como causa final. voltando-se para ele. a sua felicidade.

a virtude não é inata. logo. uma vez adquirida. da vontade. certamente. É uma distinção e uma O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . afetivo. teoréticas. passional. mas uma aplicação da razão. As virtudes éticas. tem. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. isto é. mas uma ação com ciência. não as aniquila e destrói. ser completamente resolvido na razão. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. mas concreto. a prática. não é unicamente ciência. fundamentalmente. domina as paixões. como queria o ascetismo platônico. o exercício e. como as virtudes intelectuais. na ação de um homem. não é abstrato. e não pode. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. e as dianoéticas. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. por natureza. Se a virtude é. popular. A razão aristotélica governa. que constituem propriamente o objeto da moral. pois. A virtude ética não é. que a transcendem. estabiliza-se. Como já foi mencionado. um elemento sentimental. não são mera atividade racional. torna-se de fácil execução - como o vício. e variável conforme as circunstâncias. que deve ser governado pela razão. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. torna-se quase uma segunda natureza e. razão pura. mas adquiri-se mediante a ação. mas implicam. Pelo que diz respeito à virtude. igual para todos e sempre. este justo meio. relativo a cada qual. reta. Naturalmente. ao contrário. morais. mecaniza-se. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. isto é. uma disposição constante. como não é inata a ciência. todavia. uma atividade segundo a razão. um costume moral.

teoréticas. além. a política. do chefe a que pertence a direção da família. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. os bens. ativas. isto é. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. são superiores às virtudes éticas. da filosofia. contemplativas. de que acima se falou. é distinta da moral. que precede cronologicamente o estado. práticas. Segundo Aristóteles. aquela a coletividade. A ética é a doutrina moral individual. político. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. a vontade. O estado. a política é a doutrina moral social. As virtudes intelectuais. pois o homem. condição e complemento da atividade moral individual. o bem comum superior ao bem particular. como as partes precedem o todo. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. Deve ele guiar os filhos e as mulheres. Deve fazer frutificar seus bens. porquanto a família. sobre a ação. em razão da imperfeição destes. sendo naturalmente animal social. O estado é um organismo moral. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. os escravos. porque o fim último do estado é a virtude. do intelecto. A política. contudo. além de um fim . porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. Noutras palavras. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. naturalmente. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. então. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. é superior ao indivíduo. a mulher. assim como estas se compõem de muitos indivíduos.hierarquia. A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral.

bem como aptas qualidades espirituais. visa a conquista e a guerra. político. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. a educação militar de Esparta. para que a propriedade seja produtora. defesa e segurança. Mas o seu fim essencial é espiritual. então. condena o estado que. dessa forma. enquanto a guerra. pois os homens têm necessidades materiais. negativas e positivas. importantíssimas a poesia e a música. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. conservação e engrandecimento. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. como Platão. as materiais. são necessários instrumentos inanimados e animados. subordinadamente. E. como o trabalho. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . visto ser necessário. e põe a conquista acima da virtude. a felicidade dos súditos mediante a ciência. inicialmente. Daí a escravidão. a satisfação daquelas necessidades materiais. O estado provê. como ao estado. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. que exigem indivíduos particulares. como seja tarefa essencial do estado a educação.educativo. estes últimos seriam os escravos. deve promover a virtude e. mediante um treinamento profissional. de outro modo irrealizáveis. para tanto. E critica. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. Eis porque Aristóteles. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. o estado em particular. Vejamos. isto é. intelectuais e. tem também um fim econômico. No entanto. agora. consequentemente. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. tempo e liberdade. e não máquinas. O estado surge. físicas. é-lhe essencial a propriedade. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. Compreende-se.

possuidores. . a aristocracia. e cuja degeneração é a oligarquia. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. e. a propriedade particular e a família. diversamente de Platão. O estado não é uma unidade substancial. a dos cidadãos e a dos escravos. e cuja degeneração é a demagogia. isto é. que é o governo de um só. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. cujo caráter e valor estão na qualidade. Aristóteles. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. às circunstâncias de um determinado povo. precisamente. que é o governo de poucos. e cuja degeneração é a tirania. que é o governo de muitos. não cria. este Deus. Não obstante a sua concepção ética do estado. cujo caráter e valor estão na liberdade. particularmente de Atenas. dos trabalhadores. Se se quiser a unidade absoluta. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. duas classes reconhece: a dos homens livres. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. com o seu profundo realismo. cujo caráter e valor estão na unidade. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. que ele não conhece. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. No entanto. salva o direito privado. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. e sim concreta: deve ser relativa. a democracia. a forma de governo clássica da Grécia. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democrático-intelectual. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. sem direitos políticos. Quanto à forma exterior do estado. pelo seu efetivo isolamento do mundo. No entanto. acomodada às situações históricas.

os deuses astrais. mítica. platônicos. Entretanto. mais do que as transcendentes idéias platônicas. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. como obra política para moralizar o povo. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. como Platão. necessária e universalmente. E não fica nenhum outro objeto religioso. o mutável. isto é. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. o sensível. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. num particular e. depende a eficácia espiritual pedagógica. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. não exclui uma espécie de politeísmo. imitação da forma imanente na matéria. Deste seu conteúdo inteligível. seja embora real. tradicional. como é o fenômeno. Também Aristóteles. destarte. e admite. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Não. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história . Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. graças ao artista. não está em condições de se tornar objeto de religião. e sim imitação direta da própria idéia. Aristóteles admite a religião positiva do povo. purificadora da arte. ainda que encarnado fantasticamente num particular. tornando intuitivo. universal. até sem correção alguma. do inteligível imanente no sensível. Por isso. Explica e justifica a religião positiva. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas.não governa. porém. mas o que por natureza deve. acontecer. o imutável. imitação de uma imitação. de conformidade com o fundamental realismo grego. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. universal é encarnado. Na arte. concretizado num sensível. esse inteligível. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular.

I. mais tarde. Deus. Exporemos portanto. princípio dos movimentos e das formas do mundo. concretizado pelo artista num sensível. matéria e forma. capacidade de ser. particular e universal. pois. A arte é. produção mediante a imitação. portanto. metafísica especial. antes de tudo. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. a forma. íntimo sentimento do conteúdo. bem como o mundo mutável e material. não-ser atual. movido e motor. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. deve ser encarnado. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. Aristóteles A Metafísica A Psicologia A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. . as questões gerais da metafísica. As leis da obra de arte serão. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". isto precisamente porque o inteligível. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. para depois chegarmos àquela que foi chamada. mas em seus aspectos universais e necessários. A primeira e a última abraçam todo o ser. num particular. evidência e vivacidade de expressão. o universal. isto é. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser  natureza e homem  e culmina no que não pode vir-a-ser. o inteligível. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria.

em que a mudança se realiza. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. de realidade dos vários seres. perfeição. em que a forma introduz as determinações. pressupõe uma realidade imutável. que constitui precisamente a substância. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Heráclito. já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. e esta. é um mero possível. passando da potência ao ato. na natureza em que vivemos.e ato significa realidade. não existe por si. Desta doutrina da matéria e da forma. em que se sucedem os acidentes. a natureza que ele assume. A matéria sem forma. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada  e desenvolvida . por sua vez. é portanto uma síntese  um sínolo  de potência e de ato. possibilidade de assumir várias formas. que não seja o Ser perfeitíssimo. que é de duas espécies. que representam a potência e o ato no mundo. de uma potencialidade anterior. imperfeição. perfeição. A mudança. Todo ser. as qualidades acidentais. A síntese  o sinolo  da matéria e da forma constitui a substância. não é o O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . portanto. forma concretizada da matéria. especificadora da matéria  . o segundo é atualidade . consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. conforme o grau de perfeição. em diversas proporções. A matéria aristotélica. a mudança. Segundo Aristóteles. e as determinações que se realizam neste substrato. II. Um ser desenvolve-se. é o substrato imutável.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. O primeiro é potência. aperfeiçoa-se. a essência. Um substrato comum. elemento imutável da mudança. mas une-os em uma síntese conclusiva. que é intuitiva.realizadora. ser efetivo. o segundo forma (substancial). porém. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). a pura matéria. é um absolutamente interminado. vamos logo falar. chamada matéria-prima. nem o ser de Parmênides.

a substância física. por sua vez. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados  bem como a matéria não pode ser atuada  a não ser por um outro indivíduo. ingrediente necessário para a existência da realidade material. causa concomitante de todos os seres reais. a individualidade. a causa eficiente. Diversamente da idéia platônica. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. princípio de ordem e finalidade. O indivíduo é. Mediante a doutrina da matéria e da forma. A essência  igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie  deriva da forma. A causa eficiente. Aristóteles explica o indivíduo. racional. III. a forma sem a matéria. isto é. portanto. . a causa final. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. A realidade. por uma substância em ato. Ao contrário. depende da matéria. substâncias. porém. e sim imanente e operante nela. é composta de indivíduos. portanto. Daí a necessidade de um terceiro princípio. Por conseqüência.puro não-ser de Platão. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. inteligível. que é precisamente síntese  sínolo  de matéria e de forma. a forma e a matéria. Com respeito à matéria. portanto. eternas. propriamente. potência realizada. mero princípio de decadência. a forma é. para poder explicar a realidade efetiva das coisas. a forma aristotélica não é separada da matéria. imutáveis. Daí uma quarta causa. como as idéias platônicas. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma. a única realidade efetiva no mundo. produzindo esta síntese o indivíduo. que são uma síntese  um sínolo  de matéria e forma. as formas aristotélicas são universais. deve operar para um fim. Então não existe. Os elementos constitutivos da realidade são.

A mudança é. A Psicologia Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. Aristóteles faz o primeiro  a idéia  imanente no segundo  a matéria. surge o movimento. Por exemplo. forma. isto é. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. o vir-a-ser. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. a potência o ato. entre a matéria e a forma. ato puro. Enfim. pois. vivente. que tem por princípio a alma sensitiva. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. isto é. a característica da vida do homem. potência. que é precisamente a alma. A característica da vida animal. Eis a grande doutrina aristotélica do motor e da coisa movida. o imperfeito o perfeito. que O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . porém. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. O motor pode ser unicamente ato. matéria. a realização do possível. é a nutrição e a reprodução. absolutamente imóvel. visto ser impossível que o menos produza o mais. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. Mesmo que um ser se mova a si mesmo. universal particularizado. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. forma do corpo. que tem por princípio a alma vegetativa. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. Da relação entre a potência e o ato. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. IV. que tanto atormenta Platão. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. a que é submetido tudo que tem matéria. Deus. doutrina que culmina no motor primeiro.matéria enformada. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. mas vice-versa. a coisa movida  enquanto tal  pode ser unicamente potência. Esta realização do possível. a alma é que move o corpo. portanto. a mudança.

tem várias faculdades. a alma humana. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas porquanto se dão atos diversos. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. sensitivo e intelectivo. Assim.tem por princípio a alma racional. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. não é um espírito puro. contemplativa e ativa. a saber. funções. imediata ou à distância. pressupões um fato físico. sendo superior a estas. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. que é a forma do corpo. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica. pois. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. a sensação. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. o corpo humano não é obstáculo. e. mas um espírito que anima um corpo animal. a inteligência. o pensamento. sendo embora uma e única. diversamente de Platão. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. conforme Aristóteles. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. se desdobra em dois graus. cognoscitiva e operativa. Aqui nos limitamos à psicologia racional. em geral. na sensação propriamente dita. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. como a cera recebe a impressão do . através do movimento de um meio. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. se se tiver presente que o homem é um animal racional. E assim. quer dizer. Cada uma destas. que tem por objeto específico o homem. pelo que ela é espírito. O conhecimento sensível. é o pensamento. isto é. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. De sorte que. que é constituída pelo segundo. mas instrumento da alma racional.

segundo Aristóteles. no grau sensível bem como no grau inteligível. Como se vê. dependente do sentimento. e é próprio da alma animal. com o juízo. a alma humana. Analogamente às atividades teoréticas. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. a falsidade. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. ativa. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. quanto a tal. cognoscitiva. movimento. A sensação embora limitada é objetiva. ainda que rejeite o inatismo platônico. são percebidas por mais sentidos. sem idéias inatas. deve ser imperecível. o imutável. o ser absoluto. A vontade é o impulso. o mutável. percepções. a atividade fundamental da alma é teorética. repouso. por isso. O sensível próprio é percebido por um só sentido. o necessário. representações. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. pelos vários sentidos. conhecendo o imaterial. que. as essências. deve ser espiritual e. unificar as várias sensações isoladas. que a ele confluem. e é própria da alma racional. e se tornam. o material. figura. tendo a função de coordenar. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. O senso comum é uma faculdade interna. contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. Aristóteles O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . respectivamente. o sensível comum. Objeto do sentido é o particular. o contingente. isto é. as sensações específicas são percebidas. por sua vez depende do conhecimento sensível. O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível.selo sem a sua matéria. as qualidades gerais das coisas tamanho. e dessa depende a prática. ou a possibilidade da falsidade. Por conseqüência. o apetite guiado pela razão. Objeto do intelecto é o universal. começa com a síntese. especificamente diverso do primeiro. o imaterial. etc.

o aspecto. 4. de fenômenos  é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. isto é. 3. Quanto às ciências químicas. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. Movimento espacial  mudança de lugar. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. condicionando todas as demais espécies de mudança. em torno dos quais fez ele investigações profundas. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. O tempo é definido como sendo o número  isto é. a medida  do movimento segundo a razão. Movimento quantitativo  acrescimento e diminuição. que ele descortina em a natureza.mudança de forma. "A natureza faz. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo  finalismo  por ele propugnado com base na finalidade. nascimento e morte. a realização da forma na matéria. enquanto possível. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo  como sendo relações de substâncias. Juízo sobre Aristóteles Vista Retrospectiva A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. é a análise dos vários tipos de movimento. mudança. Movimento substancial . sempre o que é mais belo". Movimento qualitativo  mudança de propriedade. as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. realização de uma possibilidade. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. 2. como filosofia da natureza. do "antes" e do "depois". e são logicamente . físicas e especialmente astronômicas.

princípio potencial. ato puro. Sua moral. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações. nas suas linhas gerais.separáveis da sua filosofia. senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". político. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. na própria teoria aristotélica. moralista. metafísico. e a matéria. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. pela doutrina do conceito. Criador da lógica. primeiro escritor da história da filosofia. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dá-nos. Platão dá um passo além. autor do primeiro tratado de psicologia científica. que tem um valor teorético. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. Vista Retrospectiva Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. nas dificuldades insolúveis de um realismo O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. a existência dos seres fora de Deus. como enigma insolúvel e inexplicável. patriarca das ciências naturais. é. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. mas encalha. uma verdadeira contradição e deixa subsistir. porém. dum lado. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. sem obrigação nem sanção.

Abril Cultural. com o seu espírito positivo e observador. Diálogos / Platão. DURANT. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. Editora Freitas Bastos. Coleção Os Pensadores. 1. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. História da Filosofia ..exagerado. 5. 1980. Padre Leonel. Nova Cultural. São Paulo. São Paulo.II. de outro. Em torno desta questão fundamental. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal. que entende com a metafísica. nas extravagâncias dum idealismo extremo. São Paulo. Nova Cultural. 1. História da Filosofia Ilustrada pelos Textos. São Paulo. 1991. História da Filosofia. Apologia de Sócrates / Platão.ª edição. Noções de História da Filosofia. 4. Referências Bibliográficas: Coleção Os Pensadores. André e HUISMAN. vol.ª edição.ª edição. Editora Nacional. São Paulo. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. março 1999. Aristóteles.ª edição. Defesa de Sócrates / Platão. Abril Cultural.A Vida e as Idéias dos Grandes Filósofos. Edições Melhoramentos. Luís. vol. São Paulo.I. 1. 10. Coleção Os Pensadores. J. Mitologia Greco-romana . retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe. PADOVANI. Will. VERGEZ. Coleção Os Pensadores. agosto 1973. a psicologia e a lógica. Os Pré-socráticos. Denis. 1974.ª edição.ª edição. Rio de Janeiro. FRANCA S. 1926. Umberto e CASTAGNOLA.

4. São Paulo: Melhoramentos. Thomas.ª edição. Zahar Editores. Gallimard. III. Mitologia Grega e Romana. Mitologia Grega.Mitos Gregos. 1941. Junito de Souza. 1965. Vol. 1992. A Idade da Fábula. 1989. Rio de Janeiro. 15.ª edição. p. Paris. O Passado Lendário . Junito de Souza. Rio de Janeiro: Tecnoprint. Volumes I. Petrópolis: Vozes. Deuses. 1991. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. vol. Mitologia Grega. II. BURN. René. II. Mitologia Greco-romana. História das Crenças e das Idéias Religiosas. essai sur la conception indo-européenne de la société et sur les origines de Rome. Georges. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . BRANDÃO. Jupiter Mars Quirinus. 7. Petrópolis: Vozes. A. Vol. Rio de Janeiro: Tecnoprint. Ouranós . ELIADE. étude de mythologie comparée indo-européenne. 19. Maisonnneuve. Túmulos e Sábios.Varuna. Paris. tomo I. 1934. 1991. DUMÉZIL. C. I.W. Georges. 1978. Lucilla. Mircea. 1992. DUMÉZIL.ª edição. BRANDÃO. COMMELIN. São Paulo: Opus. São Paulo: Moraes. P. BULFINCH. III. CERAM. MÉNARD.

racional. não é uma construção teórica. Roma não desnatura o seu gênio político original. Roma teve que superar a própria nacionalidade. Filosofia Latina Direito e Educação A Educação Romana Período Religioso O Direito Romano A obra universal e imperecível. em Roma foi o direito. mas realiza-o. para chegar à construção de um direito universal. humano. O direito romano não é uma filosofia do direito. segundo a índole prática do gênio romano. do mesmo modo que Roma sozinha construiu o seu império. numa filosofia do direito. paralelamente. o direito romano . na Grécia a filosofia. Tal sistematização jurídica. Certamente. mas a codificação de uma longa e vasta prática. natural. Instaurado o Império. O pensamento grego serviu à codificação do direito romano próprio e verdadeiro. pois Roma era naturalmente feita para se tornar a capital do mundo. todavia. num direito natural. que o pensamento grego pode deduzir da sistematização jurídica romana. se bem que os grandes jurisconsultos romanos teriam chegado sozinhos a esta codificação. implica numa concepção filosófica. desenvolve-o. mas uma sistematização jurídica. que no Oriente foi a religião. valoriza-o. E. caput mundi.

A Educação Romana O espírito prático romano manifesta-se também na educação. que se reduzia a uma aprendizagem mnemônica de prescrições jurídicas. Na história da educação romana podem-se distinguir três fases principais: pré-helenista. que vai da cidade ao império: os patres governam a coisa pública. sendo a religião. militar e civil.salus reipublicae suprema lex esto. germe de uma sociedade mais vasta. econômica.no corpus juris justiniano é o lógico desenvolvimento do original germe jurídico. helenista-republicana. E tudo isso sob uma disciplina severa. mais considerada a mulher do que na Grécia. prático-social era o próprio conteúdo teorético da educação. dadas as suas predominantes qualidades práticas. do cidadão. que na sociedade familiar romana desempenha também as funções de senhor e de sacerdote . nos ideais práticos e sociais. o treinamento ministrado pelo pai que faz o filho participar na sua atividade agrícola. do guerreiro . e a religião . especialmente nos primeiros anos e no concernente aos primeiros cuidados dos filhos. surgindo na família. O fim da educação é prático-social: a formação do agricultor. e culmina no Império.entendida como prática litúrgica. em Roma. a instrução propriamente dita.mos maiorum.pietas . sumamente pobre de arte e de pensamento. até aquele direito natural. a que chega a filosofia pelos caminhos da razão. expande-se através da cidade e do estado. Enfim. que se inspirou. concisas O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . A primeira e fundamental instituição romana de educação é a família de tipo patriarcal. diversamente do que era na Grécia. antes. Nesta obra educativa colaborava também a mãe. entre os romanos. Do direito civil chega até ao direito das gentes. em Roma. que. a tradição doméstica e política . Educador é o pai. Essencialmente práticos e sociais são os meios: o exemplo.paterfamilias. helenista-imperial. sendo.

e afinal. em que a instrução. Primeiro são traduzidas para o latim as obras literárias e poéticas gregas . . Essas escolas são de dois graus: elementares .onde se ensinava a língua latina .porquanto estava pelo menos nas possibilidades do caráter latino. escrever e calcular.por exemplo. especialmente literária. mediante a literatura.e conceituosas . a princípio é a literatura grega que se difunde em Roma. tivesse o seu lugar. quando o antigo estado-cidade. E. a família não estava mais à altura de ministrar esta nova e mais elevada instrução.pedagogus ou litteratus.a escola do grammaticus . Evidentemente. geralmente grego . As famílias das mais altas classes sociais hospedam em casa um mestre.veio em contato com a nova civilização helênica. desenvolvendo-se e expandindo- se para a nova forma do estado imperial .C. Esta instrução literária partiu precisamente da cultura helênica. médias . aos poucos. enfim se forma pouco a pouco uma literatura nacional romana sobre o modelo formal da grega. deste modo. A educação romana sofreu necessariamente uma profunda modificação.a escola do litterator onde se aprendia a ler. constituindo escolas .as leis das doze tábuas . Sentiu-se então a exigência de um novo sistema educativo. cuja irresistível fascinação também Roma sofreu.que regulavam os direitos e os deveres recíprocos naquela elementar mas forte sociedade agrícola-político- militar.de instituição privada sem ingerência alguma do estado. E. vão-se. através do pensamento. depois. a Odisséia -.entre o terceiro e o segundo século a. é o pensamento grego que penetra e se difunde.ludi . entra e se espalha a concepção grega da vida . depois estudam-se os autores gregos no texto original. para atender às exigências culturais e pedagógicas das famílias menos abastadas.

se estudavam os autores das duas literaturas. coisa muito séria. transformando-se em meios de ornamento intelectual entre os lazeres de uma aristocracia cultural. através das quais se aprendia a cultura helênica em geral. enquanto a elite dos jovens romanos vai se aperfeiçoar nos centros de cultura helenista. constituído mediante as escolas de retórica.negotium e. vem a faltar o interesse político da cultura. o ideal supremo.). enfim. logo. Um terceiro grau será.e a grega. grego. Acabam. para o espírito prático romano. por ser "novidade contrária aos costumes e aos preceitos dos maiores". para os romanos. em que a cultura é instrumento de ação .C. o que. que surgem com uma diferenciação e uma especialização superior da escola de gramática. vindo a faltar a liberdade. e não simples distração - otium. especialmente em Atenas. do direito até à filosofia. Na reação dos conservadores contra a helenização da vida romana. em relação com a seriedade da ação. o ensino da eloqüência abrangia toda a cultura. Juntamente com a organização do império organizam-se também as escolas romanas. Por certo. todavia. O orador romano será o tipo do homem de ação. relativamente ao espírito prático-social romano. por triunfar os inovadores. as escolas de retórica perdem a função prática e social. dianoético. E. e a cultura helênica e os mestres gregos afluem a Roma sempre mais numerosos e bem acolhidos. os censores publicavam um decreto que condenava a escola latina de retórica (92 a. uma espécie de institutos universitários. significa uma decadência para O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . representa uma purificação da cultura no sentido especulativo. A sua finalidade era formar o orador. portanto. mas. e é definida até como ludus impudentiae. absolutamente falando. do político culto. porquanto a carreira política representava.

para o engrandecimento do império. transformando-se em escolas eclesiásticas graças ao monaquismo cristão. que muitas sobreviveram à queda do império romano ocidental. Seja como for.cuja figura ideal já delineara Cícero no De Oratore. embora modestamente. depois o estado passa a favorecer e promover a instituição de escolas municipais de gramática e de retórica nas províncias. Um dos principais motivos de interesse imperial pela cultura e a sua difusão foi o fato de se ver nela um eficaz instrumento de romanização dos povos. aqueles povos . e conservaram acesa na noite barbárica a chama da cultura clássica. Na Instituição Oratória. em doze livros. porquanto foi ela levada. o primeiro docente pago pelo estado. foi professor de retórica em Roma. enfim são fundadas cátedras imperiais. províncias danubianas.o diletantismo. especialmente de direito. expõe o processo de formação do orador . E o resultado foi fecundo também para a cultura como tal. propondo programas e métodos que foram em grande parte adotados sucessivamente nas escolas do império. nos grandes institutos universitários.. em suma. um meio. quando Vespasiano era imperador. A instituição . Faz Quintiliano uma exposição completa.a que o helenismo não pudera chegar. Germânia. um instrumento de penetração e de expansão da língua e dos jus romano. Começam os imperadores romanos por conceder imunidade e retribuições aos mestres de retórica ainda docentes em casas particulares. Nasceu na Espanha no II século d. o estado romano mostra agora apreciar a cultura. África setentrional . preparadora dos esplêndidos renascimentos posteriores. Gália. O teórico da pedagogia romana pode ser considerado Quintiliano.C.Espanha. Tais escolas municipais foram tão vitais nas províncias. Grã- Bretanha.

devido aos seus limites naturalistas. porque o espírito humano procura a solução integral do problema da vida na religião ou nas religiões. O problema da vida é agudamente sentido. da morte. políticos. para a revelação.e dos oradores . olímpica. segundo o espírito prático-político romana. Período Religioso Características Gerais O quarto e último período do pensamento grego denomina-se religioso. Assim.Cícero -. da realidade absoluta. Trata-se. intuitivo. imediato. e a demoliu paulatina e criticamente nos grandes sistemas clássicos. da dor. ao contrário. se recorre à concepção de uma queda arcana. que partiu de uma religião . Deste problema não se acha. volta. no seu término. o êxtase.escolástica compreende os dois graus tradicionais de gramática e retórica. Já não se trata. racionalmente. porém. do espírito. das O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . o fim supremo da educação romana. A desconfiança do conhecimento racional impede à evasão para um conhecimento supra-racional. e.Vergílio e Homero . absolutamente incapaz. pelo fato de ser profundamente sentido o problema do mal. do pecado . de resolver os grandes problemas transcendentes . místico. humanistas.que nem sequer se propõe. e de uma purificação e libertação ascética e mística. a interpretação dos poetas .e as noções necessárias para este fim. Um lugar de destaque ocupam as normas e as exercitações de eloqüência. de um conseqüente encarceramento do espírito no corpo. No curso de retórica ensinam-se a interpretação dos historiadores - Lívio . o direito e a filosofia.positiva -. da velha religião grega. homérica. por conseguinte. para a religião.do mal. o pensamento grego. original. enquanto fornecem o conteúdo essencial à arte oratória. No curso de gramática ensinam-se a língua latina e a língua grega. uma explicação plena.

religiões orientais, semitas, místicas, misteriosóficas, especialmente propensas
a estes problemas e fecundas em soluções do mais vivo interesse.

No período religioso permanecem os problemas do período ético,
mas singularmente acentuados; procura-se-lhes a solução mediante uma
metafísica completada pela religião. Tentar-se-á a síntese filosófica do
dualismo platônico, do racionalismo aristotélico, do monismo estóico, e mais
precisamente do transcendente divino platônico, do logos racional aristotélico,
da alma estóica do mundo, em uma forma de triteísmo, em uma característica
espécie de trindade divina. Nesta síntese metafísica prevalece o platonismo,
com a sua radical separação entre o mundo sensível e inteligível, com a sua
extrema transcendência da divindade, com a sua doutrina de uma queda
original, com a sua religiosidade e o seu misticismo. Mas na metafísica
neoplatônica - obra-prima deste período religioso - tal transcendência,
característica do clássico dualismo grego, terminará no monismo emanatista.

O último período do pensamento grego abrange os primeiros cinco
séculos da era vulgar: substancialmente, a idade do império romano, de que a
filosofia religiosa neoplatônica forma como que a estruturação ideal; e
também a idade da patrística cristã, com que o neoplatonismo tem contatos,
intercâmbio e polêmicas. O centro deste movimento filosófico é Alexandria do
Egito, capital comercial, cultural, religiosa do mundo cosmopolita helenista-
romano, encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente, sede do famoso Museu.

O sistema metafísico predominante no período religioso é o
neoplatonismo, e o seu maior expoente é Plotino (III século d.C.), cuja vida e
pensamento nos foram transmitidos pelo discípulo Porfírio. O neoplatonismo,
todavia, tem rumos precursores nos primeiros séculos da era vulgar: I -
oriental, em Filo de Alexandria, que tenta a síntese do pensamento grego com

a revelação hebraica, interpretada à luz do pensamento grego, mas a este
supra-ordenada; II - ocidental, no novo pitagorismo, cujo maior
representante é Apolônio de Tiana, e no platonismo religioso, cujo maior
expoente é Plutarco de Queronéia. E também teve o neoplatonismo
desenvolvimento nos últimos séculos do império romano: 1°. - na assim
chamada escola siríaca, cuja mais notável expressão é Jâmblico, e exerceu
também certa influência política com o imperador Juliano Apóstata; 2°. - na
chamada escola ateniense, cuja mais notável expressão é Proclo, que
sistematizou definitivamente e transmitiu aos pósteros o pensamento
neoplatônico. Com a escola ateniense acaba, também historicamente, o
pensamento grego, pelo encerramento dessa escola ordenado por Justiniano
imperador (529 d.C.). Entretanto, o pensamento grego - o pensamento
platônico, pelo menos - já tinha sido assimilado pelo pensamento cristão
patrístico, e a sua parte vital tinha sido transfundida e valorizada no
cristianismo.

As Ciências Naturais da Idade Helenista

O Pensamento Latino

Ecletismo e Estoicismo

Como já salientamos, na idade helenista declina o vigor
especulativo filosófico até ao ceticismo, e se despedaça, tornando-se empírico
nas ciências particulares. Concretiza-se nestas ciências o interesse teorético
da época, incentivado também pela descoberta de países novos, fenômenos e
fatos novos, graças às expedições de Alexandre, que chega até as Índias. As
ciências particulares, por sua vez, vão terminar fatalmente na prática, na
técnica, para a satisfação das necessidades imediatas da vida empírica,

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

porquanto é impossível a consistência teórica dessas ciências sem a filosofia.
O centro principal dessa cultura científica é Alexandria - como Atenas foi o
grande centro da especulação filosófica. Em Alexandria congregavam-se, e daí
partiam cientistas de todo o mundo civilizado, atingindo esta cidade seu maior
esplendor nos séculos III e II a.C. (Euclides, Arquimedes, Hiparco) e no II
século d.C. (Ptolomeu). Em Alexandria havia o famoso Museu, rico de
recursos científicos - bibliotecas, observatórios, gabinetes, jardins botânicos,
jardins zoológicos, salas anatômicas, etc. - e que teve uma longa e gloriosa
vida desde o III século a.C. até o IV século d.C.

No presente parágrafo examinamos brevemente as principais
ciências naturais cultivadas nesta época - matemática, física, astronomia,
geografia, ciências naturais, medicina - particularmente em relação com o
saber enciclopédico. A contribuição da filosofia clássica; tal contribuição limita-
se essencialmente à matemática, ciência no sentido estrito como a filosofia, e
a um certo complexo de observações empíricas, que serão valorizadas e
sistematizadas na ciência moderna.

Dos dois ramos da matemática floresceu, no mundo antigo,
primeiro a geometria - III e II séculos a.C. - e depois a aritmética - séculos II
e II d.C. Quanto à física, após um interesse teórico para com esta ciência,
prevaleceram interesses práticos, técnicos. Lembre-se a escola mecânica de
Alexandria, já famosa no III século a.C., em que foram inventados relógios de
água, máquinas hidráulicas, máquinas de guerra acionadas por ar
comprimido, etc. A matemática e a física tiveram grandes cultores em
Euclides e Arquimedes.

Euclides viveu em Alexandria no III século a.C., onde passou a
vida toda entre o ensino, a sistematização das descobertas matemáticas de

seus predecessores e as suas pesquisas originais. É o autor dos afamados
Elementos de Geometria, onde se trata com grande clareza e rigor científico
de geometria plana, aritmética e estereogrande matemático e físico. Natural
de Siracusa, estudou em Alexandria, voltando depois à pátria, aí dedicando-se
por toda a vida a estudos e pesquisas de matemática, geometria e mecânica.
De suas descobertas aproveitou-se também para a construção de máquinas
de guerra, em defesa de Siracusa cercada pelos romanos durante a II guerra
púnica. Apesar de ter o cônsul Marcelo ordenado aos soldados poupar a vida
ao grande sábio, durante o saque da cidade foi morto por um soldado
ignorante, repreendido pelo grande sábio porque perturbava seus estudos.
"Noli turbare circulos meos", teriam sido as suas últimas palavras.

Quanto à astronomia e à geografia, floresceu antes e mais
viçosamente aquela do que esta. A geografia começou a ser cultivada no seu
aspecto astronômico-matemático; só com Estrabão afirmou-se o caráter
antrópico da geografia. Estrabão - 63 a.C. - 30 d.C., mais ou menos - nascido
no Ponto, estudou em Alexandria e em Roma. Escreveu uma grande obra de
Geografia, onde descreve sistematicamente, em dezessete livros, as regiões
então conhecidas - Europa, Ásia, África - pondo especialmente em foco a
influência do clima sobre o temperamento e o caráter humanos e sobre a
organização social e política.

A astronomia antiga conheceu a hipótese heliocêntrica, mas aderiu,
em geral, ao geocentrismo. A hipótese heliocêntrica é devida a Aristarco de
Samos, pouco posterior a Aristóteles e de pouco anterior a Arquimedes - III
século a.C. O geocentrismo foi elaborado por Eudóxio de Cnido (408-355 a.C.)
discípulo de Platão, e por Aristóteles no sistema das esferas homocêntricas; o
sistema astronômico era composto de cinqüenta e seis esferas concêntricas. A

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

seguir foi desenvolvido e corrigido por Apolônio de Perga (260-200 a.C.), que
ensinou em Alexandria e em Pérgamo e foi um grande geômetra da
Antigüidade juntamente com Euclides e Arquimedes; e também, mediante a
teoria dos excêntricos, por Hiparco de Nicéia do II século a.C., o qual viveu
em Alexandria e em Rodes. Esta teoria desloca a terra do centro das órbitas
astrais para a circunferência, para poder explicar melhor e mais simplesmente
os movimentos celestes. Entretanto, o sistematizador definitivo do
geocentrismo é Ptolomeu, vivido em Alexandria no II século d.C., autor do
assim chamado Almagesto, mediante o qual a astronomia antiga foi
transmitida e seguida até à Renascença. Ptolomeu julgou que devia integrar a
astronomia com a astrologia, que seria o estudo dos influxos astrais sobre os
fenômenos terrestres e, particularmente, sobre as vicissitudes humanas.

As ciências naturais propriamente ditas, já cultivadas por Aristóteles
(zoologia) e Teofrasto (botânica), tiveram incremento na idade helenista.
Primeiro, por meio das expedições militares de Alexandre, as quais levaram ao
conhecimento da flora e da fauna das regiões novas, depois pelas grandes
coleções do Museu de Alexandria, dotada de jardins botânicos e zoológicos,
como acima já dissemos. As ciências naturais progrediram entretanto na idade
helenista particularmente como ciências auxiliares da medicina - anatomia e
fisiologia - que, por sua vez, nesta época fez grandes progressos.

Ao lado da antiga escola de Hipócrates, a qual explicava o
organismo animal mediante a relação dos quatro humores fundamentais e é
chamada escola dos dogmáticos, afirmam-se no século III a.C. em Alexandria
outras escolas, firmadas em princípios diferentes. Temos, por exemplo, a
escola que tenta explicar os fenômenos da vida pelas quatro forças
fundamentais; esta escola fez descobertas importantes sobre a circulação do

sangue e sobre o sistema nervoso. Mais importante é a escola médica
chamada empírica que, em oposição à orientação teórica e especulativa das
escolas precedentes, afirma o valor da experiência direta, da observação dos
sintomas do mal e do efeito dos remédios. Foi, inversamente, eclético com
tendências dogmáticas e hipocráticas Cláudio Galeno (131-210 d.C.), o maior
médico da Antigüidade. Natural de Pérgamo, viveu longamente em Roma na
qualidade de médico imperial e deixou numerosos escritos, que dominaram a
cultura médica européia até além da Idade Média. Tenta ele sintetizar a
doutrina hipocrática dos quatro humores com a física aristotélica dos quatro
elementos e das quatro qualidades fundamentais da matéria - o calor, o frio,
a secura, a umidade. Alicerça a medicina na fisiologia e na anatomia; afirma
uma fisiologia teleológica, finalista, para explicar a formação e o
funcionamento dos órgãos; reconhece a vis medicatrix como fator essencial
da terapia, não podendo o médico fazer outra coisa senão auxiliar esta força
medicatrix. Tendo Galeno procurado coligar os fatos particulares observados
no mundo biológico aos princípios da física e da metafísica, segue-se que foi
também um filósofo. A sua filosofia é uma síntese do platonismo, estoicismo
e, sobretudo, aristotelismo.

O Pensamento Latino

Características Gerais

Julgamos seja preciso tratar do pensamento romano juntamente
com a filosofia grega, porquanto também o pensamento romano depende -
em seus motivos teóricos, especulativos, metafísicos - da filosofia grega; e
precisamente depende da filosofia grega do terceiro período, de caráter
pregmatista e moral, que colimava com o temperamento prático dos romanos.
Antes, dos dois quesitos fundamentais da filosofia moral grega - que coisa é o

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

sumo bem, e como se realiza - os romanos se interessaram propriamente
apenas pelo segundo.

O gênio romano é oposto ao gênio grego, apesar de ambos os
povos se originarem do mesmo tronco indo-europeu. O gênio romano cultua a
primazia da prática, da atividade, do negotium (nos campos, nos quartéis, no
foro), considerando o estudo, a especulação, a contemplação - que, segundo
os gregos, representavam a mais alta tarefa da vida - como passatempos,
lazeres, otia.

E como as obras primas do gênio grego foram a filosofia e a arte,
que sobrevivem imperecíveis ao acontecimento empírico da queda política da
Grécia, base e germe de toda sólida construção especulativa e de toda
verdadeira obra artística, em oposição a todos os desvios passados e
presentes, assim a obra-prima do gênio romano é o jus, o direito, a idéia
imperial, universal, que sobrevivem imperecíveis ao empírico fim político do
império romano - do Ocidente e do Oriente -, norma e fundamento de uma
vida civilizada ideal, humana, justa, razoável, de permeio a toda a barbárie
antiga e moderna.

Após a conquista romana da Macedônia (168 a.C.), a Grécia
tornava-se efetivamente parte do império romano. Começa, portanto, a
influência grega sobre o mundo romano. Com meios coativos, políticos, é
impedida pelos conservadores - estando à frente Catão, o Antigo - os quais
justamente percebiam o perigo da perversão dos costumes na vida romana,
acelerada pelo contato com a refinada civilização helenista. Um senatus-
consulto, em 161 a.C., vedava a morada em Roma aos filósofos; é, porém, a
última vitória dos conservadores; Roma procede fatalmente para o Império.
Entre Roma e a Grécia estabelecem-se e desenvolvem-se intensas relações

para se aperfeiçoarem nos estudos. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . O epicurismo teve imediata. peripatético e Diógenes. elegância. Atenas e Rodes. acadêmico. E fazem isto não por interesses científicos. rápida e grande influência em Roma. Paulo Emílio. o segundo condiz com o pragmatismo negativo. despertou grande contrariedade no velho Catão. a famosa embaixada dos filósofos gregos ao senado romano em 155 a. testemunho do entusiasmo vivo e sincero com que foi aceito em Roma o epicurismo por um determinado grupo cultural . estóico. também a filosofia grega dirige-se para Roma. Ambos correspondem à índole prática do gênio romano: o primeiro condiz com o pragmatismo positivo. moda. mas porque o helenismo é considerado bom gosto. da idade republicana.culturais. elemento indispensável da alta cultura romana. composta de Carnéades. pessimista. e.. a qual segundo Plutarco. começados geralmente na pátria sob direção de educadores gregos. favorecidas pelo partido iluminado chefiado por Cipião Emiliano. Antes de tudo. Ecletismo e Estoicismo As duas correntes mais importantes do pensamento romano são o ecletismo e o estoicismo. por conseqüência. Aliás. Os jovens mais conspícuos das famílias aristocráticas romanas vão à Grécia e à Ásia Menor. da idade imperial. É esta uma das maiores obras da literatura latina. otimista. juntamente com Critolaus. Quíncio Flamínio.C. autor de De rerum natura.ainda que a obra lucreciana seja desprovida de importância especulativa. o epicurista foi o primeiro romano que nos deixou um escrito filosófico: Lucrécio Caro.

Em Atenas e em Rodes. Carece de interesse especulativo. O mais destacado expoente da primeira corrente é Marco Túlio Cícero (106-43 a. O seu pensamento é. de que representa uma fonte essencial. Cícero tem mérito também como historiador da filosofia antiga. porém. traduzindo-o para a língua latina. Os romanos. e de Fedro epicurista. que fazem parte da oposição e se apegam à liberdade espiritual do pensamento. Daí uma superioridade do estoicismo romano sobre o estoicismo grego. Seu mérito principal está no fato de que ele fez ampla e eficazmente conhecer a Roma o pensamento helênico. criando um verdadeiro dicionário filosófico latino. assim. porquanto . uma confirmação de alto valor. estóico.deixando na . de Possidônio. sendo critério de verdade o útil moral. jurídico. dada a sua cultura vasta e eclética. pela sua aceitação por parte de uma mentalidade positiva. O estoicismo romano difere do estoicismo grego. tendo renunciado a todo o resto. pelo menos os romanos da idade imperial. . um ecletismo com tendências acadêmicas e para finalidades morais . aliás. o sistema filosófico de Cícero é uma forma de pragmatismo eclético. Não é. qual era a mentalidade romana. de crítica e de sistema. portanto.conforme a segunda escola estóica grega. jurista e homem político literato e orador famoso. que constituem o caráter essencial do estoicismo. Cícero foi discípulo de Filo. político. Não é de admirar.).C. a profunda praxe ascética do estoicismo recebe. às vezes a única fonte. prática. aonde não pode chegar o poder exterior.limita-se quase exclusivamente aos problemas morais. por conseguinte. acadêmico. descuidando quase que completamente dos problemas teoréticos. igualmente ilustre no mundo filosófico. realista.segundo a índole prática do gênio romano . podem considerar-se quase naturalmente estóicos. que no estoicismo são resolvidos segundo uma metafísica elementar e contraditória.

têm uma personalidade própria. Sêneca é o maior como pensador. como mais tarde terá o seu capelão. Epicteto e Marco Aurélio . toda grande casa terá um filósofo. Musônio Rufo.C. como os cristãos procurarão um padre.terem os estóicos romanos exercido uma função prática. entre estes. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Sêneca e Epicteto pertencem a esta classe de diretores espirituais. Entre os numerosos estóicos da idade imperial. moralista e escritor epigramático. moral. Procurar-se-á um filósofo.pertencentes ao primeiro e segundo século d. apenas Sêneca. -.sombra as questões teoréticas . quase religiosa. E.

se o cristianismo não se apresenta. Filosofia cristã O Cristianismo As Características Filosóficas do Cristianismo Características Gerais do Pensamento Cristão A Filosofia Medieval e o Cristianismo Conflitos e Conciliação entre Fé e Saber Patrística Escolástica A Questão dos Universais As Características Filosóficas do Cristianismo Não há propriamente uma história da filosofia cristã. de fato. O cristianismo fornece ainda uma  imprescindível  integração à filosofia. uma sabedoria. É o teísmo e o cristianismo. pois no pensamento cristão. no tocante à solução do problema do mal. pressupõe uma específica concepção do mundo e da vida. E. mediante os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. Entretanto. o máximo valor. pressupõe uma precisa solução do problema filosófico. e sim a religião. não é a filosofia. o interesse central. uma doutrina. como uma filosofia. mas como uma religião. . assim como há uma história da filosofia grega ou da filosofia moderna.

a O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . dedicada à história do pensamento cristão. este problema sem o poder solucionar  frisamos que essa representa a grande originalidade teórica e prática. uma demonstração racional. Soluciona este o problema do mal precisamente mediante os dogmas fundamentais do pecado original e da redenção da cruz. dividida do seguinte modo: o Cristianismo. Foi esta. portanto. e a determinação. isto é. Esta parte. em Aristóteles. sobretudo. filosófica e moral. dilucidação. salientamos que o cristianismo o deve. Pelo que diz respeito à solução do problema do mal. o cristianismo implica uma determinação. o pensamento cristão desde o II ao VIII século. Finalmente. a Israel. a que é devida particularmente a construção da teologia. por exemplo. sistematização racional do próprio conteúdo sobrenatural da Revelação. em definitivo. a saber. além de uma justificação histórica e doutrinal da revelação judaico- cristã em geral. como. sobretudo. historicamente. elucidação. de sorte que. sistematização racional do conteúdo da mesma. dramaticamente.enfim. solução que constitui a integração filosófica proporcionada pelo cristianismo ao pensamento antigo  que sentiu profundamente. da dogmática católica. que será a teologia dogmática. porquanto implicam sempre numa intervenção da razão. a justificação da Revelação em geral. Isto se realizará graças especialmente à Escolástica e. será. de Agostinho. mediante uma disciplina específica. a obra da Patrística e. Pelo que diz respeito ao teísmo. o pensamento do Novo Testamento. a Patrística. o pensamento cristão tomará na grande tradição especulativa grega esta justificação e a filosofia em geral. a Tomás de Aquino. especialmente. têm uma importância indireta com respeito à filosofia. do cristianismo. enquanto soluciona o problema filosófico do mal. Mas entre os hebreus o teísmo não tem uma justificação.

econômica e social do Ocidente. como se acreditava.Escolástica. A avalancha dos bárbaros arrasou também grande parte das conquistas culturais do mundo antigo. a "Idade das Trevas". Sob a influência da Igreja. as especulações se concentram em questões filosófico-teológicas. O aristotelismo dissemina-se pelo Oriente bizantino. tentando conciliar a fé e a razão. A filosofia clássica sobrevive. fazendo florescer os estudos filosóficos e as realizações científicas. e as obras de Aristóteles são traduzidas para o latim. Características Gerais do Pensamento Cristão Foi conquistada a cidade que conquistou o universo. A diminuição da atividade cultural transforma o homem comum num ser dominado por crenças e superstições. A Idade Média inicia-se com a desorganização da vida política. a saber. O período medieval não foi. fundam-se as primeiras universidades. Assim definiu São Jerônimo o momento que marcaria a virada de uma época. E é nesse . Era a invasão de Roma pelos germanos e a queda do Império Romano. a fome e as grandes epidemias. porém. No Ocidente. o pensamento cristão desde o século IX até o século XV. confinada nos mosteiros religiosos. criadora da filosofia cristã verdadeira e própria. cristãos e germânicos. O cristianismo propaga-se por diversos povos. Depois vieram as guerras. agora transformado num mosaico de reinos bárbaros. ocorre a fusão de elementos culturais greco- romanos.

política e econômica. que corresponde ao período medieval. A Filosofia Medieval e o Cristianismo Ao longo do século V d. pôde estender seu manto de poder "universalista" sobre diferentes regiões européias.C. preservando muitos elementos da cultura pagã greco-romana. Assim. Conflitos e Conciliação entre a Fé e Saber O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . das invasões germânicas. Do confronto desses povos invasores com a civilização romana decadente desenvolveu-se uma nova estruturação européia de vida social. a função de órgão supranacional. Conquistou. conciliador das elites dominantes. por exemplo. também. numa época em que a terra era a principal base de riqueza. Em meio ao esfacelamento do Império Romano.. a Igreja passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. em grande parte. contornando os problemas da fragmentação política e das rivalidades internas da nobreza feudal. Ela consolidou sua estrutura religiosa e difundiu o cristianismo entre os povos bárbaros. vasta riqueza material: tornou-se dona de aproximadamente um terço das áreas cultiváveis da Europa ocidental. decorrente. a Igreja católica conseguiu manter-se como instituição social mais organizada. Desempenhou.esforço que Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino trazem à luz reflexões fundamentais para a história do pensamento cristão. Apoiada em sua crescente influência religiosa. o Império Romano do Ocidente sofreu ataques constantes dos povos bárbaros.

a Igreja exerceu amplo domínio. demonstrar racionalmente as verdades da fé. Não foram poucos. trançando um quadro intelectual em que a fé cristã era o pressuposto fundamental de toda sabedoria humana. porém. "A Bíblia era tão preciosa que recebia as mais ricas encadernações". os filósofos não precisavam se dedicar à busca da verdade. Restava-lhes. é do Espírito Santo. Neste sentido. Verdades expressas nas Sagradas Escrituras (Bíblia) e devidamente interpretadas segundo a autoridade da Igreja. Em que consistia essa fé? Consistia na crença irrestrita ou na adesão incondicional às verdades reveladas por Deus aos homens. No plano cultural. dita por quem quer que seja. Assim. toda investigação filosófica ou científica não poderia. De acordo com a doutrina católica. Segundo essa orientação. pois ela já havia sido revelada por Deus aos homens. afirmava Santo Ambrósio (340-397. aqueles que dispensaram até mesmo essa comprovação racional da fé. a fé representava a fonte mais elevada das verdades reveladas  especialmente aquelas verdades essenciais ao homem e que dizem respeito à sua salvação. apenas. Eram os religiosos que desprezavam a filosofia grega. aproximadamente): Toda verdade. sobretudo porque viam nessa forma pagã de pensamento uma . de modo algum. contrariar as verdades estabelecidas pela fé católica.

somente acessíveis à fé. o descaminho e a heresia (doutrina contrária ao estabelecido pela Igreja. "Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganadoras especulações da "filosofia". Entre os grandes nomes da filosofia católica medieval destacam-se Agostinho e Tomás de Aquino. Eles foram os responsáveis pelo resgate cristão das filosofias de Platão e de Aristóteles." (São Paulo). segundo os elementos do mundo. a Igreja católica sabia O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . em termos de fé). e não segundo Cristo. Patrística "A fé em busca de argumentos racionais a partir de uma matriz platônica" Desde que surgiu o cristianismo. pela razão. tornou-se necessário explicar seus ensinamentos às autoridades romanas e ao povo em geral. tento quanto possível. segundo a tradição dos homens.porta aberta para o pecado. Mesmo com o estabelecimento e a consolidação da doutrina cristã. na medida em que sentiam a possibilidade de utilizá-la como instrumento a serviço do cristianismo. Por outro lado. O objetivo era convencer os descrentes. para depois fazê-los aceitar a imensidão dos mistérios divinos. o estudo da filosofia grega permitiria à Igreja enfrentar os descrentes e demolir os hereges com as armas racionais da argumentação lógica. Conciliado com a fé cristã. respectivamente. surgiram pensadores cristãos que defendiam o conhecimento da filosofia grega. a dúvida.

No século VIII. "Compreender para crer. voltou a ser divulgada. Era a renascença carolíngia. Eles tinham de ser apresentados de maneira convincente. Tendo a educação romana como modelo. retórica e dialética (o trivium) e . mediante um trabalho de conquista espiritual. inspirada na filosofia greco-romana. Carlos Magno resolveu organizar o ensino por todo o seu império e fundar escolas ligadas às instituições católicas. A cultura greco-romana. guardada nos mosteiros até então. começaram a ser ensinadas as seguintes matérias: gramática.que esses preceitos não podiam simplesmente ser impostos pela força. passando a Ter uma influência mais marcante nas reflexões da época. tentou munir a fé de argumentos racionais. Foi assim que os primeiros Padres da Igreja se empenharam na elaboração de inúmeros textos sobre a fé e a revelação cristãs. crer para compreender". Esse projeto de conciliação entre o cristianismo e o pensamento pagão teve como principal expoente o Padre Agostinho. O conjunto desses textos ficou conhecido como patrística por terem sido escritos principalmente pelos grandes Padres da Igreja. Uma das principais correntes da filosofia patrística. (Santo Agostinho) Escolástica "Os caminhos de inspiração aristotélica levam até Deus".

no entanto. o período escolástico pode ser dividido em três fases: Primeira fase  (do século IX ao fim do século XII): caracterizada pela confiança na perfeita harmonia entre fé e razão. A fundação dessas escolas e das primeiras universidades do século XI fez surgir uma produção filosófico-teológica denominada escolástica (de escola). no entanto. diretamente do grego. astronomia e música (o quadrivium). o aristotelismo penetrou de forma profunda no pensamento escolástico. descobertas até então. considera-se que a harmonização entre fé e razão pôde ser parcialmente obtida. Isso se deveu à descoberta de muitas obras de Aristóteles. submetidas à teologia. A partir do século XIII. merecendo destaques nas obras de Tomás de Aquino. Segunda fase  (do século XIII ao princípio do século XIV): caracterizada pela elaboração de grandes sistemas filosóficos. caracterizada pela afirmação das diferenças fundamentais entre fé e razão. como problema básico de especulação filosófica. Nesse sentido. aritmética. Nesta fase. A Questão dos Universais: O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Todas elas estavam.geometria. A busca da harmonização entre a fé cristã e a razão manteve-se. Terceira fase  (do século XIV até o século XVI): decadência da escolástica. marcando-o definitivamente. e à tradução para o latim de algumas delas.

O Cristianismo Os Precedentes do Cristianismo Jesus Cristo O Novo Testamento A Solução do Problema do Mal . sse problema filosófico gerou muitas disputas. os chamados universais de Aristóteles. O que há entre as palavras e as coisas O método escolástico de investigação. é o nome de uma flor. nem se existem separados dos objetos sensíveis ou nestes objetos. a palavra fala de uma coisa inexistente. formando parte dos mesmos". nem. de uma idéia geral. Desse modo surgiu a seguinte pergunta: qual a relação entre as palavras e as coisas? Rosa. se são corpóreos ou incorpóreos. no caso de subsistirem. Quando a flor morre. segundo o historiador francês Jacques Le Goff. isto é. Mas como isso acontece? O grande inspirador da questão foi o inspirador neoplatônico Porfírio. em sua obra Isagoge: "Não tentarei enunciar se os gêneros e as espécies existem por si mesmos ou na pura inteligência. por exemplo. Nesse caso. Era a grande discussão sobre a existência ou não das idéias gerais. a palavra rosa continua existindo. privilegiava o estudo da linguagem (o trivium) para depois passar para o exame das coisas (o quadrivium).

enfim. o conceito de uma queda original do homem no começo da sua história. e. Conceitos indispensáveis para explicar o problema do mal. especialmente pelo mundo grego. que o chamavam O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . um reparador. as satisfações conjugais e domésticas. politeístas. racionalmente premente e racionalmente insolúvel. No entanto. É o teísmo um privilégio único deste povo pequeno. ainda que poderosos e ilustres. um redentor. ou. são. à idéia de uma moral ascética. o estado autônomo e privilegiado. Na revelação cristã é filosoficamente fundamental. e também o conceito de um Messias.até esquecer-se de Deus. Daí a idéia de uma história. Idolatrou a vida longa e próspera. De Israel o cristianismo toma o teísmo. que é desenvolvimento providencial da humanidade. básico. o conceito de uma revelação e assistência especial de Deus. De Israel toma o cristianismo. religiosamente. obscuro e desprezado. em segundo lugar. o poder e a glória . idéia peculiar ao cristianismo e desconhecida pelo mundo antigo. O Pecado Original A Redenção pela Cruz Os Precedentes do Cristianismo Os fatores históricos do cristianismo são: em primeiro lugar. Perseguiu os Profetas. no máximo dualistas ou panteístas. o mundano e carnal Israel resistiu tenaz e longamente a esta idéia de uma radical miséria humana -. a religião israelita. o pensamento grego e. também. as riquezas da natureza e a prosperidade dos negócios. por conseqüência. os outros povos e civilizações. o direito romano.

Diferentemente. o Verbo de Deus encarnado e redentor pela cruz. e como justificador dos pressupostos metafísicos do cristianismo. a Igreja. e não como constitutivo de seus elementos essenciais e característicos. porém.cristã do problema do mal seria vã. Basta lembrar que. em geral. é Jesus Cristo. filosófico e histórico.unicamente se é Homem-Deus. tendo adquirido. foi submetido à sujeição e à renúncia. Jesus Cristo Entretanto. A solução integral do problema do mal viria unicamente do mistério da redenção pela cruz - necessário complemento do mistério do pecado original. Não é este o momento de fazer um exame crítico. que são próprios e originais do cristianismo. ainda que contra a sua vontade. portanto. porquanto este é hebraico e cristão. Pode ele dar plena solução ao problema do mal - solução que representa o maior valor filosófico no cristianismo . Quanto ao pensamento grego. até que Israel. através de dolorosas experiências. deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador das verdades reveladas. a pessoa de Cristo tornar- se-ia inteiramente ininteligível. para determinar a personalidade de Cristo. uma . a solução . em sua novidade e originalidade. E. que ficaria. E quanto ao direito romano. não. o triste sentido da vaidade do mundo. o verdadeiro criador do cristianismo. como a estóica e todas as demais soluções filosóficas de tal problema. essencial e característico. sem solução alguma. como elemento constitutivo. se ele não fosse Homem-Deus.ascética . deve-se dizer que entrará no cristianismo como sistematizador do novo organismo social. e recalcitrou contra os flagelos com que Jeová o castigava.ao temor de Deus e à penitência.

O Novo Testamento Como é notório. históricos. dependem de uma filosofia racionalista e atéia em geral.esta sua divindade.o Velho Testamento . filosóficos. senão de provas históricas. a várias interpretações. porém. Estas últimas. logo se segue a possibilidade de uma revelação divina e da divindade de Cristo. Cristo não deixou nada escrito. caberá interpretar infalivelmente a revelação judaico-cristã e.vez admitido e firmado o teísmo. humanamente. por certo. relativos à revelação cristã .. pode dar origem.os milagres e as profecias . também se responsabiliza por uma instituição que a ele se segue . Temos de Cristo testemunhas também pagãs. portanto.a Igreja católica. E como Jesus Cristo se torna garantia de toda uma tradição que o precedeu . também a parte que diz respeito à queda original e à relativa reparação. a qual. para tanto não precisando. que ensina uma grande doutrina. são fundamentais e mais do que suficientes O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .Novo Testamento. estas são extracanônicas e canônicas. afirma-se a si mesma como divina e comprova explicitamente com prodígios e sinais . humanista e imanentista em especial. A esta. leva uma vida santa. Os argumentos em contrário não são positivos. quer dizer. E achamo-nos diante de uma personalidade extraordinária . Devem ser examinados à luz da crítica histórica. antes de tudo.. de sorte que o nosso conhecimento mais imediato em torno da sua personalidade se realiza através dos escritos dos seus discípulos. Eis o esquema lógico da demonstração da divindade de Jesus Cristo. evidentemente.Jesus Cristo . mas apriorísticos. propriamente. além das testemunhas cristãs. os documentos fundamentais.

de que acha a solução em Cristo redentor. não tirava o pecado. relacionados com ele. convertido ao cristianismo e mudado o nome de Saulo para o de Paulo. Quanto às Epístolas . realizadas para finalidades apostólicas. de sorte que é ele. Atenas e Roma. Cronologicamente.e não acharam. Para o mesmo fim escreveu Paulo as famosas cartas às comunidades cristãs dos vários centros da Antigüidade. As grandes viagens apostólicas de Paulo são três e têm como ponto de irradiação Antioquia. na Cilícia. crucificado e ressuscitado. Não conheceu Jesus Cristo durante sua vida terrena. são elas as seguintes: Paulo de Tarso. de forma incisiva e eficaz. No Novo Testamento. vítima e Salvador. Nesta cidade encerra a sua vida mortal com o martírio. tocando os centros mais importantes do mundo antigo: Jerusalém. sobretudo. por excelência. fôra um inteligente e zeloso israelita.devemos dizer que não são cartas logicamente orgânicas e ordenadas. até o agradava. . No Velho Testamento Deus tinha dado aos homens a lei que. É este o aspecto do cristianismo que mais o impressionou. que eles procuravam em suas religiões misteriosóficas .escritas em grego . Paulo de Tarso. do sofrimento. os Evangelhos sinópticos e o Evangelho de São João. Destarte ele se pôs em contato com todas as formas de civilização do Oriente helenista e do mundo greco-romano. tornou-se o maior apóstolo do cristianismo entre os gentios ou pagãos. tanto assim que podiam desagradar a um helenista refinado como Porfírio. nem literariamente aprimoradas. são porém.para o nosso fim. o teólogo da Redenção. A vida de Paulo é caracterizada por muitas e longas viagens. preocupa Paulo é o do mal. revelando-lhes em Cristo crucificado o Deus padecente. devido à miséria do homem decaído. densas de conteúdo. O problema que. tornando o homem consciente de sua falta. do pecado. pelo contrário. embora fosse uma lei moral. mas.

foi em seguida traduzido para o grego e. Como Paulo pode ser considerado o teólogo da Redenção. embora nos deixando na luta e no sofrimento. que os torna comuns e os distingue do quarto evangelho. nesta língua. Foi escrito em grego e destinado a um público não palestino. o predileto do Mestre. Os Evangelhos de Mateus. enfim. o publicano. companheiro de Paulo. Escrito. teológico. mediante a graça de Cristo. O quarto evangelho. transmitido. Cristo é o Verbo de Deus encarnado para a redenção do gênero humano. inversamente . O terceiro dos Evangelhos sinópticos é.podem se O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .formam um grupo à parte. o de Lucas. cronologicamente. o de João. um dos doze apóstolos: João. Também o Evangelho de João foi escrito em grego. originariamente.no seu conjunto . e o seu evangelho foi também escrito em grego. O quarto Evangelho. tem um especial valor especulativo.chamados evangelhos sinópticos .Deus. mas nos transmitiu o ensinamento de Pedro.como o primeiro . por certa característica histórica e didática. que Paulo sentia tão profundamente. os quais . É o mais amplos dos Evangelhos e relata amplamente os ensinamentos de Cristo. de caráter mais especulativo e teológico. tornando em seguida um dos doze apóstolos. O primeiro em ordem de tempo é o Evangelho de Mateus. testemunha da sua vida e da sua morte. que o chamava o caro médico. em aramaico e destinado ao ambiente palestino. O segundo é o Evangelho de Marcos.foi escrito por um discípulo direto de Cristo. juntamente com este valor histórico. João pode ser considerado o teólogo da Encarnação. Marcos e Lucas . Também ele não foi discípulo imediato de Cristo. que não foi discípulo direto de Cristo. e. tira o pecado do mundo. é o último dos Evangelhos e dos escritos do Novo Testamento.

Não resta. do material ao espiritual. como qualquer outra filosofia. pois esse gênero de mal. precisamente se se considerar a natureza específica do homem. teisticamente concebido como transcendente e criador. O mal. tomada com certa amplidão. por certo. o que não significa certamente lhe pertença a racionalidade pura. a saber. visto ser o mal um problema racionalmente insolúvel. no teísmo. exige que o corpo humano e a natureza em geral sejam submetidos às imposições do espírito. . A Solução do Problema do Mal Não há dúvida de que o problema do mal foi o escolho contra o qual debalde se bateu a grande filosofia grega. Isto significa exigir que os sentidos sejam instrumentos do intelecto e o instinto seja instrumento da vontade. devida ao puro espírito. é plenamente explicável. e praticamente dolorosa a vida? Não é. naquele característico processo que é o conhecimento e a operação humana. a qual é a natureza do animal racional. verdadeira imperfeição de um determinado ser.considerar compostos na Segunda metade do primeiro século. senão o mal. que tem o poder de tornar teoricamente inexplicável a realidade. Que coisa é. isto é. a necessária limitação de todo ser criado: porquanto esta limitação nada tira à perfeição dos vários seres a eles devida por natureza. que pertence unicamente a Deus. físico e moral. mas certamente exige a subordinação do sensível ao inteligível. mas apenas aquela plenitude do ser. precisamente este mal. porquanto é limitação da natureza. o mal assim chamado metafísico. o chamado físico e moral. rigorosamente. pois. então. como deveria ser em uma hierarquia racional dos valores. é um problema.

É antiga e famosa a objeção: de que modo O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . precisamente por causa do mal. . deve reconhecer-lhe também a desordem. não se quer dizer que a impassibilidade e a imortalidade sejam uma exigência da natureza humana. demais vezes o sentido . chegada ao seu vértice.do qual o conhecimento deve no entanto partir . a coisa é ainda mais patente: basta lembrar o sofrimento e a morte.bem como a ignorância e a concupiscência . se se considerar. metafísica. a psicologia e a história. Ora. mas. Com isto. E bem poucos homens e só com muitas dificuldades e não sem graves erros. mas ignora-lhe a causa. todavia. isto é. deve tornar-se crítica.sobrepuja o intelecto. o instinto assenhoreia-se da vontade.que são. o problema da vida. Com efeito. Este é o mal moral. como tal. naturalmente. porquanto não consegue resolver plenamente o seu problema.em sua atual intensidade. Temos. contra as exigências da própria natureza racional. que domina o mundo humano. desta maneira. E. entretanto. A filosofia é certamente construtiva. chegam ao conhecimento daquelas verdades racionais .Deus. mais freqüentemente ainda. o indivíduo e a humanidade. as coisas serão bem diferentes. indispensáveis para uma solução humana do problema da vida. se evidenciam como um estado inatural com respeito ao nosso ser espiritual e racional. uma natureza. já que. a natureza humana. espiritual. pois. que nos parece desordenada. a alma. mesmo quando a verdade é conhecida pelo intelecto. Pelo que diz respeito ao mal físico. deve reconhecer os próprios limites. renunciar absolutamente à solução deste problema. mas unicamente se quer frisar que a dor e a morte . e a maioria dos homens viveu e vive cegamente. A filosofia conhece a essência metafísica dessa natureza humana. etc. Não pode. sem preconceitos. comprometeria também a sua maior conquista: Deus.

do pecado. basta lembrar que o ser criado pode.concordar a absoluta sabedoria e poder de Deus com todo o mal que há no mundo. e especialmente uma religião entre as religiões. outro meio a que pode o espírito humano razoavelmente recorrer para a solução de um problema tão premente? Apresenta-se a religião. Da Escritura e da Tradição. porventura.bem como todo o sistema dos seus dogmas . Noutras palavras. remetemos ao fato da Revelação em que é contida. a qual nos fala de uma queda do homem no começo de sua história. desviar-se da ordem: porquanto há nele algo de não-ser. evidencia-se. quanto à possibilidade do mal moral. enveredando pelo não-ser.como divinamente revelada. por sua natureza. isto é. O Pecado Original Se a filosofia é impotente para resolver plenamente o seu próprio problema. Quanto à possibilidade de uma queda do espírito. e este propriamente em relação ao homem. de que agora é privado. E o livre arbítrio proporciona-lhe o modo de realizar essa possibilidade. e afirma esta verdade . como o homem primigênio não só teria possuído aquela harmonia natural. em geral. garantidas pela interpretação da Igreja e sistematizadas pela teologia. o mal físico e moral. com um conveniente conjunto de dons preternaturais.com uma . como que por nova criação. a saber. pela irracionalidade. há. naturalmente. Quanto à realidade de uma queda original do homem. da racionalidade. mas teria sido outrossim elevado. precisamente pelo fato de ser ele um ser criado. de potência. fundamentalmente. à ordem sobrenatural. proporciona-lhe o modo de desviar-se efetivamente do ser. o homem teria participado . por ele criado? Deve-se entender.

se podem transmitir deficiências materiais e. Com efeito. devia descender toda a humanidade . E. isto é. Há. nem a perda dos dons praternaturais.da vida de Deus. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . enquanto não quiserem servir-se das misérias provindas do pecado original como estímulo para a Redenção. pois . visto que eles a sofrem. e que deve. aqui não interessa. cometida pelo primeiro homem. gratuita. até à vulneração da própria natureza . provinda do pecado. do qual. logo.devido a uma culpa de orgulho contra Deus. seria culpado em seus descendentes. uma enfermidade. pela lei da hereditariedade. isto é. concernente à elevação sobrenatural. E evidencia-se também que .teria o homem perdido aquela harmonia e a dignidade sobrenatural. não podia suscitar o problema do mal. por conseguinte.que importa na privação da ordem sobrenatural. por definição. lembrar como. até ao sofrimento e à concupiscência. O pecado original. praticando o Cristianismo. por mais supereminente e central que seja no cristianismo. por exemplo. quer dizer. uma debilitação espiritual e física na natureza humana. O aspecto da condição primitiva do homem. ser herdada. pela natureza humana. essencial desde o nosso nascimento.natureza extraordinariamente dotada . na privação do único fim humano efetivo. teria gozado de uma espécie de deificação. bem como a nenhuma natureza criada. mas por graça. a privação da mesma. também morais: deficiências que não dependem dos indivíduos.voluntário e culpado em Adão. não devida à natureza humana. não por direito. que temos considerado insolúvel pela filosofia. ingressando na Igreja. juntamente com os dons conexos. a elevação à ordem sobrenatural sendo. portanto. por conseqüência. Basta. não podia causar vulneração em a natureza humana.

Visto a ofensa feita a Deus pelo pecado ser infinita com respeito ao Infinito ofendido. Sendo. o homem que devia pagar. Ao contrário. devido à dignidade do operante. pois. porém. A Redenção pela Cruz Mas. ele se sacrifica até à morte de cruz. é. que unicamente Deus podia dar. o bem e até um bem maior? É o que explica um segundo dogma da revelação cristã. suas conseqüências naturais também. a Segunda pessoa da Trindade divina. Fez isto para dar toda a glória possível à infinita majestade de Deus no reino do mal e da dor proveniente do pecado. o Verbo de Deus. Deus precisava de uma reparação infinita. Deus. tendo todo ato seu um valor infinito. a glória de Deus o fim último de toda atividade divina. Para a Redenção. assume natureza humana. que sentido tem o mal no mundo? Conseguiu o homem. por conseguinte. precisamente para reparar o pecado original e. teria sido suficiente o mínimo ato expiatório de Cristo. Segundo este dogma. isto é. entende-se como o verbo de Deus assuma em Cristo a natureza humana. A Patrística Pré-agostiniana O II Século: Os Apologistas e os Controversistas O III Século: Os Alexandrinos e os Africanos O IV Século: Os Luminares de Capadócia Características Gerais . mediante o pecado. mediante uma divina dialética. o dogma da redenção operada por Cristo. frustar o plano divino da criação? Ou o próprio mal soube Deus tirar.

O II Século Os Apologistas e os Controvertistas A Patrística do II século é caracterizada pela defesa que faz do cristianismo contra o paganismo. o período religioso. se a Patrística interessa sumamente à história do dogma. mestres da doutrina cristã. Agostinho. e que terminará por se cristianizar depois de Constantino. a Patrística será dividida em três períodos: antes de Agostinho. depois de Agostinho vem o período que. entretanto dele diferenciado-se profundamente. Este período da cultura cristã é designado com o nome de Patrística. porquanto representa o pensamento dos Padres da Igreja. e chega até ao começo da Escolástica: isto é. A Patrística é contemporânea do último período do pensamento grego. interessam especialmente os chamados apologistas e os padres alexandrinos. E é também contemporâneo do império romano. sobretudo como o teísmo se diferencia do panteísmo. guias. Interessam-nos particularmente os O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Dada a culminante grandeza de Agostinho. que são os construtores da teologia católica. Os padres deste período podem-se dividir em três grupos: os chamados padres apostólicos. visto ser o maior dos Padres. os séculos II-VIII da era vulgar. com o qual também polemiza. em que terá importância fundamental a Escolástica. representa a decadência da Patrística. com o qual tem fecundo contato. o hebraísmo e as heresias. filosoficamente. os apologistas e os controversistas. logo após a sistematização. Com o nome de patrística entende-se o período do pensamento cristão que se seguiu à época neotestamentária. que merece um desenvolvimento à parte. período em que. Portanto. interessa assaz menos à história.

E são dirigidas às vezes contra os pagãos. ou os conheceram diretamente. São Justino Mártir . recebem o apelido de padres apostólicos.ainda que não apresentem uma unidade sistemática. no âmbito do próprio cristianismo. apologias propriamente ditas. e . ao passo que os primeiros e os últimos têm uma importância religiosa. Seus autores. são. que nos legaram as duas primeiras gerações cristãs. como a sabedoria mais perfeita. e provar do outro lado o valor da religião cristã para lhe granjear discípulos. Flávio Justino Mártir nasceu em Siquém na Palestina em princípios do segundo século. quando conhecidos. Seus escritos. por vezes. Costuma-se designar como o nome de apologistas os escritores cristãos dos fins do segundo século. teses. às vezes. Para bem compreendê-lo. pela defesa racional do cristianismo contra o paganismo. Chamam-se apostólicos os escritos não canônicos. gradualmente. que procuram de um lado demonstrar a inocência dos cristãos para obter em favor deles a tolerância das autoridades públicas. entre o cristianismo e a filosofia. é mister lembrar que o escopo por eles visado era. por em focos os pontos de contato existentes entre o cristianismo e a razão. freqüentemente são filósofos . portanto. dogmática. outras vezes contra os hebreus.por exemplo. desde o fim do primeiro século até a metade do segundo. Os apologistas. aliás. continuam filósofos também depois da conversão. O maior dos apologistas é certamente São Justino. E apresentavam o cristianismo como uma sabedoria.segundos. mais cultos do que os padres apostólicos. obras de controvérsia. porquanto floresceram no templo dos Apóstolos. até à conversão os pagãos. e se esforçam por defender a fé mediante a filosofia. sobretudo. para levarem. por vezes. ou foram discípulos imediatos deles.

E julga achá-la. onde encontrou a paz. entrou no cristianismo. Depois de Ter peregrinado pelas mais diversas escolas filosóficas . Suas obras são duas Apologias . estóica. Ufana-se ele de ser filósofo e cristão. encarnado pessoalmente em Cristo. último estádio da sua peregrinação filosófica. O III Século: Os Alexandrinos e os Africanos O terceiro século apresenta um interesse particular pelo que diz respeito ao pensamento cristão. abriu em Roma uma escola para o ensino da doutrina cristã.especialmente Platão . primeiro. a conciliação entre paganismo e cristianismo. fundidos numa característica síntese filosófico-religiosa em oposição ao cristianismo. pitagórica . Os Padres deste período polemizam filosoficamente com os pensadores pagãos. que já ia afirmando mesmo culturalmente. depois da doutrina famosa dos germes do Verbo.contra os hebreus. Escreveu suas obras nos meados do segundo século. abandonando o platonismo.em busca da verdade para a solução do problema da vida. Justino procura a unidade. levados a estimarem seus adversários.dependem de Moisés e dos profetas. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .e um Diálogo com o judeu Trifão . entre filosofia e revelação. Imitando os filósofos. mas difundidos mais ou menos em todos os filósofos antigos.peripatética. na crença de que os filósofos clássicos . leigo embora. Justino dedicou sua vida à difusão e ao ensino do cristianismo. Tentou-se um renovamento do paganismo com bases no panteísmo neoplatônico e nos cultos orientais.contra os pagãos .morreu mártir no ano 170.

uma filosofia. O cristianismo filosófico é próprio e característico dos padres alexandrinos. Este gnosticismo cristão se afirmou especialmente em Alexandria do Egito. para Alexandria do Egito.sábios . o primeiro sistema orgânico de teologia cristã.em oposição ao gênio grego. por conseguinte. os padres africanos . hostilizado pelos padres chamados africanos. que se ressentem. graças a Orígenes.Tito Flávio Clemente . naquela celebrizada escola catequética. enaltecedora e potenciadora dos valores intelectuais. especulativos. Converteu-se ao cristianismo talvez levado por exigências filosóficas. pragmatista. moralista latino . como por exemplo Tertuliano. Se bem que entres os padres africano-latinos apareçam vulto notáveis. mesmo do ponto de vista católico. entretanto. teoréticos.que produziu os estóicos e os cínicos romanos . foi. do espírito prático. O cristianismo. sem mudar a sua fisionomia original. desejoso de um conhecimento mais profundo do cristianismo. que representarão a sua essência doutrinal. de família pagã. mas África ocidental. Naquele famoso didascaléion. está em condições de desenvolver do seu seio um pensamento. Depois de ter visitado a Magna Grécia. onde o seu espírito achou .não apresentam interesse particular para a história da filosofia. jurídico. foram luminares Clemente e Orígenes. metafísicos. que vivem na tradição cultural helenista. em tempo oportuno. pertencentes não à África oriental. dos quais teremos. a Síria e a Palestina. Daí a distinção que então se afirmou entre os simples fiéis e os gnósticos . empreendeu uma série de viagens em busca de mestres cristãos.nasceu no ano 150. Clemente Alexandrino . ao Egito.bem como os padres latinos em geral . É. o grande centro cultural da época.cristãos. pelo ano 180. latina. espécie de faculdade teológica. uma teologia. provavelmente em Atenas.

religiosos e cristãos sobretudo. Clemente foi chamado para dirigir a famosa escola catequética. apresentado no primeiro o Verbo como educador das almas. cabendo-lhe a glória de ter o grande Orígines entre seus discípulos. perfeitos.tapetes . o Pedagogo. Embora as preocupações de Clemente sejam sobretudo morais e pedagógicas. Retirou-se para a Ásia Menor. Orígenes. Discípulo de Clemente. diversamente do simples fiel ou crente. filosoficamente. é o maior expoente filosófico da escola alexandrina. que os cristãos devem evitar. em três livros. perfeitamente acabada na forma e no conteúdo.finalmente paz junto do eminente mestre Panteno.que é uma coleção de pensamentos. os Strômata . e grandemente. de interesse especialmente ético. junto de um seu antigo discípulo. acentuava demasiadamente a última. a filosofia.isto é. sendo ademais dotado de uma erudição prodigiosa e de uma cultura incomparável. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . à maneira de Justino. que mandou fechar a escola. considerações. valoriza ele também. O gnóstico cristão. e indicando nos demais dois livros os vícios mais graves. "Querendo harmonizar a doutrina cristã com a filosofia pagã. dissertações filosóficas. As obras principais de Clemente são: o Protréptico . chamado adamantino por sua energia incomparável. Clemente teve de suspender o seu ensino alguns anos depois. o bispo Alexandre de Capadócia. Filosoficamente importante e característica é a distinção que faz Clemente dos cristãos em simples fiéis e gnósticos. morais e religiosas.pequena apologia em doze capítulos. o Verbo promotor da vida cristã . é consciente de sua fé. e morreu nessa cidade entre 211 e 216. justificando-a e organizando-a racionalmente. Falecido este no ano 200. negligenciando um tanto a Sagrada Escritura e a Tradição". sábios. isto é. satisfatoriamente. Devido às perseguições anticristãs do imperador Setímio Severo. e os meios empregados.

A obra Sobre os Princípios nos proporciona a ciência baseada na Revelação. Empreendeu então longas viagens para se instruir. desprezando os mais graves perigos. no dizer de São Jerônimo. A atividade literária de Orígenes não conhece igual. O precoce menino recebeu do pai. de volta à pátria. abrindo em Cesaréia uma escola teológica ( chamada depois neo-alexandrina . Tinha então Orígenes dezoito anos. e para atender aos desejos de grandes personagens que queriam consultá-lo. que superou a de Alexandria pelo seu caráter científico. talvez. contra a vontade de seu bispo. a primeira formação literária e. de família cristã. da direção da famosa escola didascaléion. devido também a algumas opiniões heterodoxas contidas na sua grande obra Sobre os Princípios. religiosa. sentindo a necessidade de conhecer profundamente as doutrinas que desejava combater e querendo completar a sua formação. foi encarregado pelo bispo de Alexandria. Representa. pelo ano 185. religiosamente. e as verdades primordiais deduzidas mediante a razão teológica das premissas reveladas. sobretudo. Prescindindo dos escritos exegéticos e as céticos. sobretudo. Durante a perseguição de Septímio Severo. mencionamos a obra Sobre os Princípios e os oito livros Contra Celso.as lições de Amônio Saca. Demétrio. Aos vinte e cinco. e também por ciúme.Nasceu em Alexandria do Egito. Por princípios Orígenes entende os artigos principais do ensino da Igreja. foi proibido por este de ensinar e foi condenado.como Plotino . falecendo em Tiro pelo ano 254. Ordenado sacerdote no ano 230 pelos bispos de Cesaréia e de Jerusalém. Leônidas. que não nos interessam.. atribuindo-se- lhe milhares de obras. a primeira grande síntese . que o seu mestre Clemente teve que abandonar. Retirou-se então Orígenes para a Palestina. e representa uma suma teológica verdadeira e própria. escutou . por falta de revelação formal. talvez. Aí lecionou ainda durante vinte anos. Orígenes.

às altas classes sociais. geralmente. declarada livre pelo Edito de Milão. bem como o primeiro sistematizador do pensamento cristão em uma vasta síntese filosófica. para a igreja ocidental. todavia. para a igreja oriental.Basílio. especialmente a Segunda metade. A maior parte do escrito é. que depois suscitou a grande polêmica origenista. pela sua força e virtude para a reforma moral dos homens e pela sua difusão universal.doutrinal da Igreja. filósofo pagão. declara Orígenes que a melhor apologia do cristianismo é constituída pela vitalidade divina da Igreja. dos milagres e das afirmações solenes de Cristo. O IV Século: Os Luminares de Capadócia O século quarto. Orígenes pode ser considerado o verdadeiro fundador da teologia científica. o ataca em todos os pontos. Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa . os luminares de Capadócia . e João Crisóstomo. apesar dos ataques dos adversários. Atanásio. Granjeou ao autor grande nomeada e contém o origenismo. o malho do arianismo. É uma resposta à obra Sermão Verdadeiro de Celso. bem como uma fé inabalável. Antes de tudo.. segundo a tendência metafísica dos doutores orientais. que tinha estudado as fontes do cristianismo. Nesta obra. visto que Celso. isto é. dedicada ao exame atento e pormenorizado das profecias. Orígenes ostenta uma erudição extraordinária. representa a idade de ouro da Patrística. Os padres dessa época se exprimem em aprimorada forma clássica e possuem uma profunda cultura filosófica. Os maiores dentre eles são solidamente formados na solidão monástica e ascética e pertencem. A igreja católica. uma serenidade nobre e inigualável. Basta lembrar. A obra Contra Celso é a mais célebre de Orígenes sob o aspecto apologético. Ambrósio de Milão e Jerônimo. protegida O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . o mais celebrado representante da escola de Antioquia.

Padre em Antioquia.arianismo . pelo ano 344. fez longos e aprofundados estudos. quanto dogmática. imponente. no quarto século. Recebido o batismo. A heresia ariana . os luminares de Capadócia. A teologia. torna-se uma construção intelectual sistemática. eram certamente favoráveis à cultura cristã. nascido em Cesaréia de Capadócia pelo ano de 330 de família rica e cristã. concebido como ascética. direito. teológica. a doutrina católica. aperfeiçoando-se em Atenas. sendo Atanásio o mais destacado e forte opositor. Estas condições de paz e de privilégio. a grandeza da Patrística. que. degredado pela fé. É significativo neste grande prelado o senso profundo da vaidade do mundo. à lógica aristotélica. depois de batizado. nasceu de família ilustre. o método. negador da divindade do Verbo. para a precisão e a organização do dogma. e a grande estima do cristianismo. e escrevendo uma Grande Regra e uma Pequena . As grandes heresias da época obrigaram os padres a defender racionalmente. não é tanto científica. Recebeu uma educação clássica aprimorada. que proporcionam o instrumento. São Basílio.por Constantino. sobretudo graças aos luminares de Capadócia. faleceu. abandona o mundo e se retira para a vida ascética. devido naturalmente à filosofia.foi condenada pelo concílio de Nicéia (325). filosofia. de Antioquia. filosoficamente. e depois bispo de Constantinopla. padre alexandrino oriundo da Líbia. foram grandes testemunhas do caráter fundamentalmente ascético do Cristianismo. organizando a vida solitária dos que o seguiram. atacada especialmente por Ário (256-336). Entretanto. Também os grandes representantes da escola neo-alexandrina. valorizou cristãmente na solidão e no ascetismo. torna-se religião do estado com Teodósio. estudando retórica. em 407. São João Crisóstomo.

foi feito bispo de Nissa. pelo que será considerado o legislador do monaquismo oriental. de Constantinopla. para a vida monástica. provavelmente. o gosto das definições claras e das O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . o estudo. em 395. deixou-se desviar da sua vocação. falecendo pelo ano 390. de regras morais. destinadas a um monaquismo culto. a oração. Possui. Em seguida. Faleceu. foi destinado ao estado eclesiástico. Gregório de Nissa é o maior filósofo dos padres gregos. em seguida. Aristocrático e delicado. e organizador da vida monástica na Capadócia. Irmão de Basílio. chamado Nizianzeno. de todos os padres gregos sob o aspecto especulativo e filosófico. em que a atividade dos monges é distribuída entre o trabalho. entretanto.Regra. retirou-se depois para a solidão. Grande admirador de Orígenes. nasceu pelo ano 330 em Capadócia. São Gregório de Nissa foi o maior dos luminares de Capadócia e. Bispo de Sásima antes e. cidadezinha da Capadócia. e não jurídicas. Também ele admirou e praticou a vida ascética com o amigo Basílio. As exortações do irmão e de Gregório Nazianzeno persuadiram-no da vaidade do mundo. faleceu em 379. porém. talvez. que aperfeiçoou em Atenas. fez estudos aprofundados. abandonando a cátedra de retórica. em conformidade com o seu ideal ascético e contemplativo. Esforça-se para mostrar que os dados da razão e os ensinamentos da fé não se hostilizam. retirou-se para a vida ascética contemplativa. Também São Gregório. de família cristã. compartilhando com ele a admiração para com Orígenes. inflamou os fiéis com a sua pregação brilhante e comovedora. aristocrático. até que afinal. pouco afeito à vida prática. mas se harmonizam reciprocamente. Trata-se. primando pela sua cultura teológica e filosófica. foi professor de retórica e casou-se. nasceu pelo ano 355 em Cesaréia e recebida uma informação cultural aprimorada. insigne promotor da beneficência cristã quando bispo de Cesaréia. como verdadeiro filósofo.

em filosofia é neoplatônico. Como em teologia é origenista. Agostinho. fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina. no neoplatonismo. a liberdade. E como Tomás de Aquino se inspira na filosofia de Aristóteles.classificações metódicas. a graça. Santo Agostinho A Vida e as Obras O Pensamento: A Gnosiologia A Metafísica A Moral O Mal A História A Vida e as Obras Aurélio Agostinho destaca-se entre os Padres como Tomás de Aquino se destaca entre os Escolásticos. . Agostinho inspira-se em Platão. e será o maior vulto da filosofia metafísica cristã. a predestinação. pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo. ou melhor. ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupam sejam sempre os problemas práticos e morais: o mal.

e exercia sobre o filho uma notável influência religiosa. do filho e dalguns discípulos. recebeu o batismo em O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . mais ainda. julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e. moral e intelectualmente. Caiu em uma profunda sensualidade. a fim de aperfeiçoar seus estudos. Entretanto a conversão moral demorou ainda. recebido o batismo pouco antes de morrer. Aí escreveu seus diálogos filosóficos.abandonara o maniqueísmo. por razões de ordem espiritual. Destarte chegara a uma concepção cristã da vida . abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. dominou-o longamente. perto de Milão. fazendo com que aderisse ao maniqueísmo. por razões de saúde e. na Páscoa do ano 387. Finalmente. Seu pai. cidade da Numídia. durante alguns meses. para Milão. Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta. por conseqüência. donde partiu para Roma e. desviou-se moralmente. Tendo terminado os estudos. no mês de setembro do ano 386. começados na pátria. Mônica. Indo para Cartago. Afastou-se definitivamente do ensino em 386. para a solidão e o recolhimento. aos trinta e dois anos. e. retira-se. abriu uma escola em Cartago. em seguida. a 13 de novembro do ano 354. como por uma fulguração do céu. que atribuía realidade substancial tanto ao bem como ao mal. Agostinho renuncia inteiramente ao mundo. Patrício. à carreira. era pagão. que. Entrementes . em companhia da mãe. pelo contrário.no começo do ano 386. sobreveio a conversão moral e absoluta. sua mãe. de uma família burguesa. é uma das maiores conseqüências do pecado original. ao matrimônio.depois de maduro exame crítico . juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio. segundo ele. uma justificação da sua vida. por razões de luxúria. era uma cristã fervorosa.

governou a igreja de Hipona até à morte. Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura. entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. Os solilóquios. O Pensamento: A Gnosiologia Agostinho considera a filosofia praticamente. Da Trindade. Sobre a quantidade da alma. Sobre a música. sobretudo. Aí vendeu todos os haveres e. e consagrado bispo em 395. Sobre as duas almas. Tinha setenta e cinco anos de idade. circunscrito aos . funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. e. Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes. Ordenado padre em 391. A Cidade de Deus. compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas. As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são. Agostinho abandona Milão. Dada. Do livre arbítrio. Sobre a imortalidade da alma. que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos. a 28 de agosto do ano 430. da teologia revelada. Da natureza do bem. Após a sua conversão. As Confissões. Sobre o mestre. Da vida beata. os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos.Milão das mãos de Santo Ambrósio. cuja doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. e à redação de suas obras. Da Mentira. como solucionadora do problema da vida. Depois da conversão. Todo o seu interesse central está portanto. falecida a mãe em Óstia. em que a filosofia e a teologia andam juntas. especialmente: Da Verdadeira Religião. distribuído o dinheiro entre os pobres. ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral. volta para Tagasta. Tinha trinta e três anos de idade. porém. a mentalidade agostiniana. platonicamente.

a priori . admite Agostinho que os sentidos. superando o ceticismo acadêmico mediante o iluminismo platônico. Como se vê. O problema gnosiológico é profundamente sentido por Agostinho. é a Verdade de Deus. A Metafísica Em relação com esta gnosiologia. o Verbo de Deus. a característica fundamental. daí tira uma verdade superior. seria necessária uma luz espiritual. os princípios formais das coisas. em sentido teísta e cristão. que o resolve. Embora desvalorizando. segundo a gnosiologia platônica-agostiniana. são fontes de conhecimento. Ao lado desta prova a priori. Permanece. as idéias. como o intelecto. para o qual são transferidas as idéias platônicas. as forças naturais do espírito. No Verbo de Deus existem as verdades eternas. visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a solução integral do problema da vida. da reminiscência platônica.problemas de Deus e da alma. que distingue a gnosiologia platônica da aristotélica e tomista. do mesmo modo. e dependente dela. platonicamente. ele conquista uma certeza: a certeza da própria existência espiritual. o conhecimento sensível em relação ao conhecimento intelectual. é necessária a luz física. mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus. para que se realize o conhecimento intelectual humano. e são os modelos dos seres criados. E como para a visão sensível além do olho e da coisa. porém. imutável. não bastam. é a transformação do inatismo. Inicialmente. Esta vem de Deus. para o conhecimento intelectual. enquanto no espírito humano haveria uma presença particular de Deus. não O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . as espécies. pois. a existência de Deus é provada. e conhecemos as verdades eternas e as idéias das coisas reais por meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. fundamentalmente. condição e origem de toda verdade particular.

No cristianismo. preferindo o mundo a Deus. Mas a união do corpo com a alma é. Deus é concebido exatamente como livre criador. negação. ou provém da alma dos pais. é o das relações entre Deus e o tempo. é uma específica criatura divina. às relações com o mundo. Quanto à natureza de Deus. como todas as demais. privação. dependendo o tempo da existência de coisas que vem-a-ser e são. Agostinho fica indeciso entre o criacionismo e o traducionismo. amor. A alma nasce com o indivíduo humano e. que fez boas todas as coisas. se a alma é criada diretamente por Deus. porém moral. no pensamento cristão . Agostinho. sendo criada por Deus. Quanto. pelo pecado dos espíritos livres. criadas. porquanto a matéria não pode ser essencialmente má. . cristã: Deus é poder racional infinito. isto é.agostiniano . em virtude da doutrina da forma e da matéria. Por certo. de certo modo. portanto. No pensamento clássico grego. Antes da criação não há tempo. em especial. tem uma realidade na vontade má. como na concepção aristotélico-tomista. o corpo não é mau por natureza. O problema que Agostinho tratou. Também a psicologia agostiniana harmonizou-se com o seu platonismo cristão. moralmente. ortodoxa. consciência. enfim. em especial a que se afirma sobre a mudança e a imperfeição de todas as coisas. saber. absolutamente.temos ainda um dualismo. tínhamos um dualismo metafísico. Deus não é no tempo. substancial. portanto. extrínseca. Entretanto. Certo é que a alma é imortal. aberrante de Deus. pessoa. o mal é. o que era excluído pelo platonismo. simples. imutável. eterno.nega Agostinho as provas a posteriori da existência de Deus. o qual é uma criatura de Deus: o tempo começa com a criação. pois. porém. espírito. pela sua simplicidade. Deus é ainda ser. Agostinho possui uma noção exata. metafisicamente. acidental: alma e corpo não formam aquela unidade metafísica. insurgidos orgulhosamente contra Deus e.

preso pelos problemas éticos.própria do pensamento latino . mas afirma que elas são fundidas em uma substância humana. nos seres inferiores cego apetite. religiosos. mais tarde. contrariamente ao primado do teorético. como dizia Aristóteles.distingue. mas uma ordem do amor. sensitiva e intelectiva. e é atribuída a primazia à vontade. Deus e a alma. a primazia do prático. do conhecimento . Esta concepção nada tem que ver com o moderno evolucionismo.. hábito conforme à razão. a princípio. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . pouco temos a dizer. a moral agostiniana é teísta e cristã e. Deus. Quanto à cosmologia. criou alguns seres já completamente realizados. A inteligência é divina em intelecto intuitivo e razão discursiva. Mencionaremos a sua famosa doutrina dos germes específicos dos seres . negada pelo moderno evolucionismo.rationes seminales. é possuído por um ato de inteligência. a natureza não entra nos interesses filosóficos de Agostinho. logo. Como já mais acima se salientou. A vontade não é determinada pelo intelecto.próprio do pensamento grego. Agostinho tem também atitudes teoréticas como. transcendente e ascética. porquanto Agostinho admite a imutabilidade das espécies. No homem a vontade é amor. A Moral Evidentemente. desenvolvendo-se. deram origem às existências dos seres específicos. por exemplo. da ação . Não obstante. a saber. como alguns erroneamente pensaram. de outros criou as causas que. quando afirma que Deus. platonicamente. A virtude não é uma ordem de razão. fim último das criaturas. no animal é instinto. a alma em vegetativa. mas precede-o. Nota característica da sua moral é o voluntarismo.

o Estado seria inútil. se o mundo terminasse por causa do celibato. Quanto à política. pois. a propriedade seria de direito positivo. Agostinho. porquanto a criatura. individual e social. Nem a escravidão é de direito natural.que tanto preocupa Agostinho . O Mal . imoralmente. pois é um ser limitado. depois do pecado original é: não poder não pecar. que perturbou a natureza humana. asceticamente.é: poder não pecar. portanto. ele alegrar-se-ia. Quanto à família. e não natural. porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem.antes do pecado original . mediante a conformação cristã de quem é escravo e a caridade de quem é amo. considera o celibato superior ao matrimônio.tem. para salvar o primeiro elemento. O pecado. porquanto a natureza humana já é corrompida. também um interesse filosófico. Como é sabido. como Paulo apóstolo. não podendo lesar a Deus. mas deficiente da sua ação viciosa. pode ser superada sobrenaturalmente. tende a descurar o segundo. tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem. e pode querer o mal. E deve-se considerar não causa eficiente. contra a vontade de Deus. A fórmula agostiniana em torno da liberdade em Adão . racionalmente. O problema da graça . mas conseqüência do pecado original. porquanto o mal não tem realidade metafísica. Entretanto a vontade é livre. além de um interesse teológico. ele tem uma concepção negativa da função estatal. Ela não pode ser superada naturalmente. nos bem-aventurados será: não poder pecar. A vontade humana. como da passagem do tempo para a eternidade. já é impotente sem a graça. Agostinho. podendo agir desordenadamente. Consoante Agostinho. determinando a dilaceração da sua natureza. se não houvesse pecado e os homens fossem todos justos. prejudica a si mesma.

deste modo. mas deficiente. livre e limitado. que é puro ser e produz unicamente o ser. físico e moral. E O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . conseqüência do pecado. como a obscuridade é ausência de luz. porquanto não tira aos seres o lhes é devido por natureza. e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão. nega a realidade metafísica do mal. que atinge também a perfeição natural dos seres. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico. Como se vê. finalmente existe realmente a má vontade que livremente faz o mal. como meio de purificação e expiação. além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus. Foi também longamente desviado pela solução dualista dos maniqueus. Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal - de que dá uma vasta e viva fenomenologia. porém. mas privação de ser. uma outra explicação mais profunda. que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral. a humanidade foi punida com o sofrimento. Homem-Deus. Agostinho procura justificá-lo mediante um velho argumento. Quanto ao mal moral. digamos assim. por isso. Antes de tudo. O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original e atual. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica. Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus. Mas é esta a parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal. Este não-ser pode unicamente provir do homem. sendo o mal não-ser. ela. limitado. o mal físico tem. Remediou este mal moral a redenção de Cristo. que lhe impediu o conhecimento do justo conceito de Deus e da possibilidade da vida moral. que não é verdadeiro mal. O mal não é ser. mas deixou permanecer o sofrimento. e não de Deus. estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto. não é causa eficiente. enquanto criado. Quanto ao mal físico.

e resolve-o ainda com os conceitos de criação. Entretanto. a solução deste problema é estética para o mal físico. do que não permitir o mal. necessário. que é uma visão orgânica e inteligível da história humana. é representada pelo povo de Israel antes da sua vinda sobre a terra.do mal moral e de suas conseqüências - estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal. se o bem é devido nasce o verdadeiro problema do mal. privação de bem (de ser). satânica. Nesta obra é contida a metafísica original do cristianismo. Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino. A Cidade de Deus representa. o plano da história. A História Como é notório. mundana. diremos: o mal é.a explicação última de tudo isso . que será absolutamente separada e eternamente punida nos fins dos tempos. Contra este cidade se ergue a cidade terrena. plenamente. Agostinho trata do problema da história na Cidade de Deus. e pela Igreja depois de seu advento. Resumindo a doutrina agostiniana a respeito do mal. graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua função. moral (pecado original e Redenção) para o mal moral (e físico). fundamentalmente. para entender realmente. O conceito de providência era impossível no pensamento clássico. a cidade de Deus. . certamente. de pecado original e de Redenção. é mister a Redenção. por sua vez. a fim de que a história seja suscetível de racionalidade. o maior monumento da antigüidade cristã e. a obra prima de Agostinho. por causa do basilar dualismo metafísico. este conceito de providência é. O conceito de criação é indispensável para o conceito de providência. que é o governo divino do mundo. este bem pode ser não devido (mal metafísico) ou devido (mal físico e moral) a uma determinada natureza. talvez.

onde parece que Satanás e o mal têm o seu reino. porém. lhe preparavam diretamente o caminho. no fundo. Esta história. realizar-se-á nos fins dos tempos. para tratar paralela e separadamente da Cidade do mundo. os confins do mundo terreno. também às almas de boa vontade que. e chega até a Abraão. elas se confundem como nos primeiros tempos da humanidade. isto é. além do qual está a pátria verdadeira. no paraíso e no inferno. desde Abraão. Depois de Cristo cessa a divisão política entre as duas cidades. predestinados e ímpios. A primeira concerne à história das duas cidades. É o progresso para Cristo. absoluta.a divisão definitiva. É uma grande visão unitária da história. Agostinho distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. recolhida e configurada em Israel. pois. até que ficaram confundidas em um único caos humano. após o pecado original. de que já não é mais união caótica. Entretanto. consciente ou inconscientemente. A terceira retoma. exteriormente. A Igreja. e profetizado também. sempre mais claramente. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . ainda. é acessível. que culmina no império romano. mas configurada na unidade da Igreja.ainda que só na unidade dialética das duas cidades. de Abraão até Cristo. com a diferença. eterna. depois da morte. depois do juízo universal. em separado. Esta não é limitada por nenhuma divisão política. se encontram empiricamente confundidos na Igreja . a seu modo. pelos povos pagãos. mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na unidade dos homens com Deus. visto que todos. a narrativa do ponto em que começa a história da Cidade de Deus separada. A Igreja transcende. para o triunfo da Cidade de Deus . dela não podem participar. pois. uma unidade e um progresso. conscientemente e divinamente esperado e profetizado em Israel. fragmentária e dividida. Na Segunda descreve Agostinho a história da cidade de Deus. representa. invisivelmente. justíssima. que. época em que começou a separação.

chega a Tomás de Aquino enriquecido com os comentários pormenorizados. mas também o pensamento patrístico.(A Natureza. pois. Adquire plena consciência dos poderes da razão. na Campânia. Deus) A Vida e as Obras Após uma longa preparação e um desenvolvimento promissor. O Espírito. e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia. Nasceu Tomás em 1225. além do patrimônio de revelação judaico-cristã.não é uma visão filosófica. porém. não uma filosofia da história. bem mais importante. rico de elementos helenistas e neoplatônicos. que culminou com Agostinho. da família feudal dos condes de Aquino. O pensamento de Aristóteles. converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico. Para Tomás de Aquino. Tomás de Aquino A Vida e as Obras O Pensamento: A Gnosiologia A Metafísica . Assim. no castelo de Roccasecca. Era unido pelos laços de sangue à . converge diretamente o pensamento helênico. especialmente árabes. mas teológica: é uma teologia. a escolástica chega ao seu ápice com Tomás de Aquino. na sistematização imponente de Aristóteles.

onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante. primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia.família imperial e às famílias reais de França. chamado à corte papal. Ensinou em Colônia. Sicília e Aragão. As obras do Aquinate podem-se dividir em quatro grupos: O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . que o acompanhou a Colônia. filosofia. Em 1269 foi de novo à universidade de Paris.ciências naturais. passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade. em 1272. ascética. entre Nápoles e Roma. abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana. Friburgo. Depois de ter estudado as artes liberais. quando regressou à Itália. viajando para tomar parte no Concílio de Lião. onde ensinou até 1269. em 1274. Em 1252 Tomás voltou para a universidade de Paris. voltou a Nápoles. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados . lecionou teologia na universidade de Paris. salvo à ciência. Também Alberto. entrou na ordem dominicana. Dois anos depois. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade. entretanto. tendo como mestre Alberto Magno. teologia. Estrasburgo. Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino. aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem. onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino. faleceu no mosteiro de Fossanova. onde lecionou teologia. filho da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280). exegese. renunciando a tudo. Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia. por ordem de Gregório X.

Da Eternidade do Mundo. que está fora de nós. Comentários: à lógica. etc. realiza-se mediante a assim chamada espécie sensível. 3. Do mal. O conhecimento sensível do objeto.não oposta - visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado. Sumas: Suma Contra os Gentios. aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo. Opúsculos: Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas. para resolver o problema do mundo.é empírica e racional. O Pensamento: A Gnosiologia Diversamente do agostinianismo. Esta é a impressão. 4. a imagem. A gnosiologia tomista . sem inatismos e iluminações divinas. etc. o da filosofia evidente e racional.). . começada em 1265. baseada substancialmente em demonstrações racionais. ficando inacabada devido à morte prematura do autor. Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia. . a Dionísio pseudo-areopagita. Suma Teológica. à ética de Aristóteles. sensível e intelectual. 2. a forma do objeto material na alma. O conhecimento humano tem dois momentos. à física. 1. e em harmonia com o pensamento aristotélico. Tomás considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética. Questões: Questões Disputadas (Da verdade. Da alma. e o segundo pressupõe o primeiro. à Sagrada Escritura. Questões várias.diversamente da agostiniana e em harmonia com a aristotélica . à metafísica.

deste modo.o inteligível. a essência. a essência das coisas é contida apenas implicitamente. espacialidade. desindividualizada pelo intelecto agente. mas transcende-o. no entanto. o universal. é o intelecto passivo. e não noa advém de fora. o objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera. mas sem a matéria . sem a materialidade do sinete. temporalidade. mediante a qual ilumina ela o mundo sensível para conhecê-lo. potencialmente. sem a materialidade do ouro.isto é. isto é. a cor do ouro percebido pelo olho. Pelo fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível. a forma universal das coisas.. E. sobre os quais exerce a sua atividade. Para que tal inteligível se torne explícito. feita explícita. representando precisamente o elemento essencial. é preciso extraí-lo.mais profundamente do que os sentidos. O intelecto que propriamente entende o inteligível. O intelecto vê em a natureza das coisas . é mister um intelecto agente que abstraia. como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo averroísta.intus legit . Tem- se. abstraí-lo. a espécie inteligível. O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível. desindividualize o inteligível do fantasma ou representação sensível. Na espécie sensível . a idéia. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . ademais.que representa o objeto material na sua individualidade. a que pertencem as operações racionais humanas: conceber. é absolutamente desprovido de conteúdo ideal. elaborar as ciências até à filosofia. etc. sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo agostiniano. desindividualizá-lo das condições materiais. raciocinar. desmaterialize. é uma faculdade da alma individual. julgar. Este intelecto agente é como que uma luz espiritual da alma. atual.

as formas. id quo intelligitur). mediante a espécie inteligível. logo. destarte. intuitivos. É preciso claramente salientar que. a representação da coisa (id quod intelligitur). visto que muitos conhecimentos nossos não são evidentes. mas os conhecimentos das coisas. que nos garante conhecermos coisas e não idéias. a idéia. neste caso. no fenomenismo. que contêm um elemento inteligível. e. O sinal pelo qual a verdade se manifesta à nossa mente. Compreendendo as coisas. E tal adequação é possível pela semelhança entre o intelecto e as coisas. a coisa sentida e o sujeito que sente. o espírito se torna todas as coisas. a essência. quer dizer. Como no conhecimento sensível. tornam-se verdadeiros quando levados à evidência mediante a demonstração. entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece. formam uma unidade mediante a espécie sensível. . é a evidência. possui em si. A verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto. do mesmo modo e ainda mais perfeitamente. mas na adequação entre a coisa e o intelecto: veritas est adaequatio speculativa mentis et rei. acabando. pois. O conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção realista do mundo. acontece no conhecimento intelectual. E isto corresponde perfeitamente aos dados do conhecimento. a espécie inteligível não é a coisa entendida. a forma. Mas. a espécie inteligível é o meio pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é. e não podem entrar fisicamente no nosso cérebro. mas as coisas podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens. e é justificado experimentalmente e racionalmente. tem em si mesmo imanentes todas as coisas. conheceríamos não as coisas. compreendendo-lhes as essências. na filosofia de Tomás de Aquino.

contradição. e levando. Todos os conhecimentos sensíveis são evidentes. Pelo contrário. Os chamados erros dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis. o mundo. que colhe a essência das coisas. É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro. uma passagem necessária do universal para o particular. A metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus. as idéias.). o espírito. por si. Daí temos a teologia racional - assim chamada. etc. mediante a indução.tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica. não são inatas na mente humana. Os conhecimentos não evidentes são reconduzidos à evidência mediante a demonstração. poucos são os nossos conhecimentos evidentes. A ciência tem como objeto esta essência das coisas. todos os conhecimentos sensíveis são. e nem sequer são inatas suas relações lógicas. destarte. no campo intelectual. a cosmologia ou filosofia da natureza O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . que é ciência experimental). universal e necessária.ou ontologia . A demonstração é um processo dedutivo. A metafísica geral . devidas ao intelecto. à discrepância entre o intelecto e as coisas. os universais. intuitivos. A Metafísica A metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. No entanto. isto é. mas se tiram fundamentalmente da experiência. consistindo em uma falsa passagem na demonstração. a psicologia racional (racional. São certamente evidentes os princípios primeiros (identidade. por conseqüência. como já dissemos. para distingui-la da teologia revelada. como pretendia o agostinianismo. e. verdadeiros. os conceitos.

perfeição. Este princípio vale unicamente para a realidade material. Não significa. como a potência é determinada. Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser. toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares. que portanto representa o princípio de individuação no mundo físico. mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição. uma . a concretização da forma. Resume claramente Maritain esta doutrina com as palavras seguintes: "Na filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino.(que estuda a natureza em suas causas primeiras. A Natureza Uma determinação. este ouro. especificação do princípio de potência e ato. mas pode tornar-se todas as coisas. é. irrealidade absoluta. de per si. Opõe-se ao ato puro a potência pura que. A individuação. este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. e chama-se matéria. naturalmente é irreal. para o mundo físico. potência quer dizer não- realidade. é o princípio da matéria e de forma. é nada. A matéria não é absoluto. É necessária para a forma. irreal sem a forma. Ato significa realidade. que depende do ser que é ato puro. em vários indivíduos. A forma é a essência das coisas (água. O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. depende da matéria. ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas). porém. que só realmente existem (esta água. vidro) e é universal. este vidro). porém. a fim de que possa existir um ser completo e real (substância). e interessa portanto especialmente à cosmologia tomista. essência. válida para toda a realidade. não-ente. pela qual é determinada. capacidade de concretizar-se. imperfeição. como a potência é determinada pelo ato. ouro.

que são materiais. A causa final é o fim para que opera a causa eficiente. a mais da alma vegetativa. a saber. é a que realiza o sínolo. final. os seres materiais têm outras duas causas: a causa eficiente e a causa final. A causa eficiente é a que faz surgir um determinado ser na realidade. a alma racional entende e quer. por conseguinte. formal. se manifestam nele também atividades espirituais. Portanto. e a alma superior cumpre as funções da alma inferior. O Espírito Quando a forma é princípio da vida. que é uma atividade cuja origem está dentro do ser.unida com o corpo. que diz respeito ao homem. a síntese daquela determinada matéria com a forma que a especifica. como o ato O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . mas ranscendendo-o . sente e se move). estas causas constituem todo ser na realidade e na ordem com os demais seres do universo físico. Entretanto. outra ativa e determinante (a forma)". No homem existe uma alma espiritual . têm uma alma as plantas (alma vegetativa: que se alimenta. pois segundo Tomás de Aquino. eficiente. Em conclusão: todo ser material existe pelo concurso de quatro causas .material. chama-se alma. cresce e se reproduz). existe uma forma só e. como a mais contém o menos. Além destas duas causas constitutivas (matéria e forma). e os animais (alma sensitiva: que. a psicologia racional. é esta causa final que determina a ordem observada no universo. uma alma só em cada indivíduo.passiva e em si mesma absolutamente indeterminada (a matéria). interessa apenas a alma racional. Além de desempenhar as funções da alma vegetativa e sensitiva.porquanto além das atividades vegetativa e sensitiva.

por conseguinte. ainda que imortal. que a individualiza. não tem uma vida plena sem o corpo. com relação ao respectivo corpo já formado. Como a alma espiritual transcende a vida do corpo depois da morte deste.do intelecto e o ato da vontade. esta atividade tem que depender de um princípio imaterial. espiritual. Desse modo o corpo não pode existir sem a alma. Assim. a vontade humana é livre. não é composta de partes e. Tomás sustenta que a alma. partindo da experiência. indeterminada . Contrariamente à doutrina agostiniana que pretendia ser Deus conhecido imediatamente por intuição. é imortal. que é o seu instrumento indispensável. de que é a forma. isto é. mediante a doutrina da matéria e da forma. é unida substancialmente ao corpo material. assim transcende a origem material do corpo e é criada imediatamente por Deus. . espiritual. mas unicamente a posteriori. nem viver. e também a alma.da doutrina da potência e do ato.e mais intimamente ainda . Deus Como a cosmologia e a psicologia tomistas dependem da doutrina fundamental da potência e do ato. A atividade intelectiva é orientada para entidades imateriais.ao passo que o mundo material é regido por leis necessárias. por sua vez. portanto. Mas. que é precisamente a alma racional. por conseqüência. ou seja. assim a teologia racional tomista depende . como os conceitos. e. Tomás sustenta que Deus não é conhecido por intuição. é imortal. isto é. não recorre a argumentações a priori. da alma racional. a vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial. espiritual. que pelo fato de ser imaterial. E. mas é cognoscível unicamente por demonstração. que sem Deus seria contraditória. diversamente do dualismo platônico-agostiniano. entretanto esta demonstração é sólida e racional. espiritual embora.

mas apenas incompleto. dos graus de perfeição das coisas ou da ordem que entre elas reina. tirando. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . E a primeira dessas provas . das causas. e não é falso. Esta doutrina é solidamente baseada no fato de que o conhecimento certo de Deus se deve realizar partindo das criaturas. como sendo a que transcende infinitamente o intelecto humano. as causas segundas à causa primeira. o imperfeito ao perfeito. O que conhecemos a respeito de Deus é. cuja solidez e evidência são igualmente incontestáveis: uma experiência sensível. que suspende o movimento ao imóvel. do contingente. ainda mais limitado é o conhecimento que temos da essência divina. graças precisamente à famosa doutrina da analogia. As provas tomistas da experiência de Deus são cinco: mas todas têm em comum a característica de se firmar em evidência (sensível e racional). "Cada uma delas se firma em dois elementos. pelas provas. Se conhecermos apenas indiretamente. antes de tudo sabemos o que Deus não é (teologia negativa). porquanto o efeito deve Ter semelhança com a causa. as imperfeições. A doutrina da analogia consiste precisamente em atribuir a Deus as perfeições criadas positivas. isto é. Segundo o Aquinate. toda limitação e toda potencialidade. um conjunto de negações e de analogias. portanto. como a lógica exige.que é fundamental e como que norma para as outras - baseia-se diretamente na doutrina da potência e do ato. para proceder à demonstração. e uma aplicação do princípio de causalidade. entretanto conhecemos também algo de positivo em torno da natureza de Deus. a ordem à inteligência ordenadora". a existência de Deus. porém. o contingente ao necessário. que pode ser a constatação do movimento.

a vontade não é condição de conhecimento. que é uma determinada imagem da essência divina. isto é. não depende da vontade arbitrária de Deus. ao passo que a moral agostiniana é voluntarista. Quanto ao problemas das relações entre Deus e o mundo. . Tomás de Aquino A Moral Filosofia e Teologia O Tomismo A Existência de Deus é Evidente? A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja? A Moral Também no campo da moral. pois a moral tomista é essencialmente intelectualista. que Deus quis realizar no mundo. é resolvido com base no conceito de criação. Desta sorte. quer dizer. a ordem moral é imanente. Tomás se distingue do agostinianismo. essencial. livre e do nada. em harmonia com a natureza racional do homem. e sim da necessidade racional da divina essência. mas tem como fim o conhecimento. total. que consiste numa produção do mundo por parte de Deus. A ordem moral. agir moralmente significa agir racionalmente. pois. inseparável da natureza humana.

fica. no mundo a vontade está em relação imediata apenas com seres e bens finitos que. Entretanto. à Igreja. em tudo quanto diz respeito à religião e à moral. A primeira forma da sociedade humana é a família. Se o intelecto tivesse a intuição do bem absoluto. Embora o estado seja completo em seu gênero. a Segunda forma é o estado. de que depende a conservação do gênero humano. de Deus. se a vontade não determina a ordem moral. é a vontade todavia que executa livremente esta ordem moral. logo. recorrendo a um argumento metafísico fundamental. resulta que o homem é um animal social (político) e portanto forçado a viver em sociedade com os outros homens. que depende da vontade. A vontade tende necessariamente para o bem em geral. a vontade seria determinada por este bem infinito. mas o estado um meio para o indivíduo. mas também positiva (organizadora) e espiritual (moral). Segundo Tomás de Aquino. se compreende como o indivíduo não é um meio para o estado. isto é. Sendo que apenas o indivíduo tem realidade substancial e transcendente. são necessários dois elementos: o elemento objetivo. conhecido intuitivamente pelo intelecto. Analisando a natureza humana. Não é mister acrescentar que. Ao invés. Filosofia e Teologia O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . não podem determinar a sua infinita capacidade de bem. porém. ao passo que o estado tem apenas como escopo o bem temporal dos indivíduos. Tomás afirma e demonstra a liberdade da vontade. a lei. a intenção. de que depende o bem comum dos indivíduos. subordinado. que se atinge mediante a razão. o estado não tem apenas função negativa (repressiva) e material (econômica). portanto. e o elemento subjetivo. que tem como escopo o bem eterno das almas. para a integridade do ato moral. é livre.

segundo o sistema tomista. Em torno do problema das relações entre filosofia e teologia. etc. porquanto procede da mesma Verdade eterna. agostiniana. razão e revelação. é eliminada a doutrina da iluminação.). e ciência em grau eminente. Tomás de Aquino dá uma solução precisa e definitiva mediante uma distinção clara entre as duas ordens. 3. e igualmente ininteligíveis suas condições lógicas. mistérios. Com base no sólido sistema aristotélico. que garantem a autenticidade divina da Revelação. é finalmente conquistada a consciência do que é conhecimento racional e demonstração racional. ciência e fé. de credibilidade (profecias. milagres. ciência e filosofia: é um lógico procedimento de princípios evidentes para conclusões inteligíveis. com relação à fé. e mais precisamente em torno do problema da função da razão no âmbito da fé. portanto. onde os princípios são. para nós. A demonstração da não irracionalidade do mistério e da sua conveniência. mediante argumentos prováveis. E. deve a razão desempenhar os papéis seguintes: 1. não com argumentos intrínsecos. transcendentes à razão. porquanto . pelo que a sacra teologia é ciência. a razão não é estranha à fé. A determinação. enucleação e sistematização das verdades de fé. de evidência. que não é possível demonstração racional em matéria de fé. E compreende-se. Destarte. mas com argumentos extrínsecos. 2. o que é impossível. que levava inevitavelmente a uma confusão da teologia com a filosofia. Em todo caso. A demonstração da fé. não evidentes.

efetivas vulnerações da natureza humana. Tomás. não confunde  como faz o agostinianismo . que pareceu um escândalo. estas vulnerações são filosoficamente. como o início do pensamento moderno. E demandam. por conseguinte. ao passo que. por conseguinte. Sabemos que. esta determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana tornou possível a averiguação das reais. o espírito humano está em relação imediata com o inteligível. e tem. De modo que nasce uma unidade dialética profunda entre a razão e a fé. tal unidade dialética nasce da determinação tomista do conceito metafísico de natureza humana. inexplicáveis. racionalmente. portanto. os dogmas do pecado original e da redenção pela cruz. é essencialmente prática. Ademais.essencialmente especulativa. no campo católico. de certo modo. portanto. intuição do inteligível. enquanto a filosofia é concebida qual construção autônoma e crítica da razão humana. para os agostinianos. segundo a concepção platônico-agostiniana.nem opõe  como faz o averroísmo  razão e fé. segundo esta doutrina. precisamente. em virtude da qual o campo do conhecimento humano verdadeiro e próprio é O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Tomás opõe francamente a gnosiologia empírica aristotélica. O Tomismo O tomismo afirma-se e caracteriza-se como uma crítica que valoriza a orientação do pensamento platônico-agostiniano em nome do racionalismo aristotélico. o tomismo se afirma e se caracteriza como o início da filosofia no pensamento cristão e. a Revelação e. o conhecimento humano depende de uma particular iluminação divina. mas distingue-as e as harmoniza. A esta gnosiologia inatista. ao misticismo agostiniano.

com todas as relativas conseqüências. . Acima do sentido há. Essa gnosiologia é naturalmente conexa a uma metafísica e. um inteligível. ainda que destinada a sobreviver-lhe pela sua natureza racional. sem idéias inatas  é uma tabula rasa. mediante contato direto com o mundo inteligível. por conseqüência. uma espécie de natureza angélica. sim. é mais perfeito do que a ação. em especial. a alma é concebida como a forma substancial do corpo. O conhecimento. este intelecto atinge. A característica do tomismo. A alma é. segundo a antropologia aristotélico- tomista. mas é um intelecto concebido como uma faculdade vazia. Por conseguinte. idéias inatas. precisamente como as inteligências angélicas. logo. portanto. o corpo é um instrumento indispensável ao conhecimento humano. com todas as conseqüências de correntes da primazia da vontade sobre o intelecto. que. incompleta sem o corpo.limitado ao mundo sensível. tem o seu ponto de partida nos sentidos. sobre a base metafísica geral da grande doutrina da forma. com a primazia do intelecto sobre a vontade. assim como a gnosiologia platônico-agostiniana era conexa a uma correspondente metafísica e antropologia. e a materialidade do corpo era- lhe mais de obstáculo do que instrumento. que conhecem mediante as espécies impressas. abstraída pelo intelecto das coisas materiais sensíveis. é o intelectualismo. Terceira característica do agostinianismo é o assim chamado voluntarismo. unida extrinsecamente a um corpo. Por isso a alma era concebida quase como um ser autônomo. no homem. e o inteligível nada mais é que a forma imanente às coisas materiais. um intelecto. pois. Essa forma é enucleada. mas ao lado e acima dos sentidos. o conhecimento humano se realizava não através dos sentidos. sim. ao contrário. a uma antropologia. segundo a famosa expressão  . Vice-versa.

são ditas evidentes as verdades que conhecemos desde que compreendamos os termos que as exprimem.porquanto o intelecto possui o próprio objeto. De fato. chamamos verdades evidentes aquelas cujo conhecimento está em nós naturalmente. mas na visão beatífica da Essência divina. Ela pode ser demonstrada? 3. de imediato. o que existe na realidade e no pensamento é maior do que o que existe apenas no pensamento. três questões se colocam: 1. de sorte que a bem-aventurança não consiste no gozo afetivo de Deus. 2. estabelece-se. De fato. sabemos.  Por outro lado. como é o caso dos primeiros princípios. Deus existe? 1. Esta doutrina é aplicada tanto na ordem natural como na ordem sobrenatural. Por conseguinte. Ora. essa palavra designa uma coisa de tal ordem que não podemos conceber algo que lhe seja maior. A Existência de Deus é Evidente? Sobre a existência de Deus. que o todo é maior que a parte. de imediato. É o que o Filósofo (Últimos Analíticos. desde que tenhamos compreendido o sentido da palavra "Deus". que Deus existe. Ora. 3) atribui aos primeiros princípios da demonstração. a existência de Deus é evidente. Com efeito. de acordo com o que diz Damasceno: "O conhecimento da existência de Deus é inato em todos". A existência de Deus é uma verdade evidente? 2. Parece que a existência de Deus é evidente. Daí O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Ora. quando sabemos o significado de todo o significado da parte. ao passo que a vontade o persegue sem conquistá-lo. I.

6: "Eu sou o caminho. 1: "O insensato diz em seu coração que não há Deus". concorda que a verdade não existe. É verdadeiro. Mas. essa proposição será conhecida de todos. E se alguma coisa há de verdadeira. desde que se compreenda a palavra. portanto. Ora. também existe na realidade. 4 e Últimos Analíticos. 10). a propósito dos primeiros princípios da demonstração. Além disso. Se. todos sabem o que são o sujeito e o atributo de uma proposição. Mas se a verdade não existe. se alguns não sabem o que são o atributo e o sujeito de uma proposição.resulta que o objeto designado pela palavra Deus. a não-existência da verdade é uma afirmação verdadeira. Ela o pode ser em si mesma e não por nós. de fato. segundo o que diz São João. Resposta  Temos duas maneiras para dizer que uma coisa é evidente. pertence à noção de homem. em compensação. ela o pode ser em si mesma e por nós. etc. a verdade e a vida". por exemplo: o homem é um animal. Mas. conforme nos mostra o Filósofo (Metafísica. Animal. é certo que a proposição será evidente em si mesma. De fato. que existe no pensamento. mas não para aqueles que ignoram o que são sujeito e atributo. conforme diz o salmo 52. aquele que nega a existência da verdade. como o ser e o não-ser. pelos princípios das demonstrações. a existência de Deus é evidente. 14. a existência da verdade é evidente. Pois. que os termos são coisas gerais que todos conhecem. a existência de Deus é evidente. a existência de Deus não é evidente. o oposto da existência de Deus pode ser pensado. Ora. Por conseguinte. Por conseguinte. a verdade existe. É por isso que Boécio . Logo. ninguém pode pensar o oposto do que é evidente. uma proposição é evidente quanto o atributo está incluído no sujeito. 3. o todo e a parte. Deus é a própria verdade. I.

tem necessidade de ser demonstrada pelas coisas que. Alguns. Mas como não sabemos o que é Deus. propriamente falando. isso não é admitido por aqueles que rejeitam a existência de Deus. ela não é evidente para nós. Por conseguinte. isto não significa que todos representam a existência dessa coisa como real e não como representação da inteligência. Deus. outros o colocam nos prazeres. o homem deseja naturalmente a felicidade e. À primeira objeção devemos responder que. Ora. exatamente como se pudéssemos saber que alguém chega. conhecer a existência de Deus. Mas isto não é. o são mais para nós. aquele segundo o qual os seres incorpóreos não estão num mesmo lugar". de fato. menos conhecidas na realidade. no sentido de uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior.diz: "Certos juízos só são conhecidos pelos sábios. colocam o supremo bem do homem nas riquezas. com efeito. acreditaram que Deus fosse um corpo. isto é. pelos efeitos. quando é o próprio Pedro que chega. À segunda. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . por exemplo. aquilo que ele deseja naturalmente. considerada em si mesma. em estado vago e confuso. ele conhece naturalmente. outros alhures. eu afirmo que a proposição "Deus é". é seu ser. Mesmo que sustentemos que todos entendem a palavra Deus nesse sentido. uma vez que Deus é a felicidade do homem. podemos responder que aquele que ouve pronunciar a palavra Deus pode ignorar que essa palavra designa uma coisa tal que não se possa conceber algo que lhe seja maior. de fato. Muitos. uma vez que o atributo é idêntico ao sujeito. De fato. E não se pode concluir sua existência real salvo se se admite que essa coisa existe realmente. é evidente por si mesma. o conhecimento da existência é naturalmente inato em nós. isto é. sem conhecer Pedro.

ela tende necessariamente para o bem que lhe é proposto. Mas o objeto dos sentidos move. Por conseguinte. Por conseguinte. Assim como a inteligência adere. Por conseguinte. tais são as proposições contingentes . Desse modo. o objeto da vontade move-a necessariamente. À terceira. Conclusão: Eis como podemos prová-lo. Entretanto: Santo Agostinho diz que a vontade é a faculdade pela qual pecamos ou vivemos segundo a justiça. assim o que é conhecido pela inteligência é objeto do apetite intelectual ou vontade. de fato Dionísio diz que o mal está fora do objeto da vontade. ela é capaz de desejar coisas contrárias. aos primeiros princípios. o impulso do motor. Ora. os animais são arrastados pelo que vêem. existem verdades que não possuem relação necessária com os primeiros princípios. A Vontade Quer Necessariamente Tudo o Que Deseja? Dificuldades: Isso parece exato. ela não quer. Por conseguinte. necessariamente. assim a vontade adere ao fim último. parece que o objeto conhecido pela inteligência move a vontade necessariamente. o movimento do móvel segue. devemos responder que a existência da verdade indeterminada é evidente por si mesma. mas que a existência da primeira verdade não é evidente em si mesma para nós. a afetividade sensível. Ora. segundo Santo Agostinho. por necessidade. tudo o que deseja. O objeto está para a vontade assim como o motor está para o móvel. necessariamente. necessária e naturalmente. Assim como o que é conhecido pelos sentidos é objeto da afetividade sensível.

Mas como existe uma infinidade de bens. a vontade não adere necessariamente. ela não é necessariamente determinada por um só. se este não se lhe apresenta como um bem. Solução: A vontade não pode tender para nenhum objeto. Existem bens particulares que não possuem relação necessária com a felicidade. na medida em que se dirige para o bem universal e O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . na medida em que reconhece a conexão das conclusões com os princípios por meio de uma demonstração. Mas existem proposições necessárias que possuem esta relação necessária. A causa motora produz. é evidente que a vontade não quer. Mas existem outros bens que implicam nessa relação. tudo o que deseja. a vontade não adere necessariamente a Deus nem aos bens que a ele se relacionam. necessariamente. no caso em que a força dessa causa ultrapassa de tal maneira o móvel que toda capacidade que este tem de agir fica submetida à causa. A tais bens. seu assentimento a tais verdades. o movimento do móvel. necessariamente. O mesmo acontece com relação à vontade. Por conseguinte. o assentimento não é necessário.cuja negação não implica na negação desses princípios. visto que se pode ser feliz sem eles. Todavia. A inteligência não concede. A estas últimas a inteligência concede seu assentimento necessariamente. Mas a capacidade da vontade. Faltando isto. são aqueles pelos quais o homem adere a Deus. antes que essa conexão seja demonstrada como necessária pela certeza da visão divina. necessariamente. ser felizes. do mesmo modo como agora nós queremos. pois é só nele que se acha a verdadeira felicidade. Mas a vontade daquele que vê Deus em sua essência adere necessariamente a Ele. tais são as conclusões demonstrativas cuja negação significa a negação dos princípios. por necessidade.

Desse modo. acionada por ele. . não pode estar inteiramente subordinada a qualquer bem particular. necessariamente. ela não é.perfeito.

não cria. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . mas Deus é feito criador e regedor do mundo: o mundo não pode ter explicação a não ser em um Deus que transcende o mundo. mas Deus é resolvido num mundo natural e humano. religiosos e políticos. pois "ser" e "dever ser" são a mesma coisa. finaliza em uma concepção monista-imanentista do mundo e da vida: não somente Deus e o mundo são a mesma coisa. É evidente que a passagem da concepção dualista (clássica) à concepção teísta (cristã) é um desenvolvimento lógico. que se manifesta especulativamente no desenvolvimento tomista de Aristóteles. não governa o mundo. Pelo contrário. Filosofia Moderna O Pensamento Moderno Os Precedentes do Pensamento Moderno Os Períodos do Pensamento Moderno Transcendência Cristã e Imanência Moderna Achamos a característica específica do pensamento clássico na solução dualista do problema metafísico. ao contrário. não se pode mais falar em transcendência de valores teoréticos e morais. Tal dualismo não será negado. mas desenvolvido no pensamento cristão mediante o conceito de criação. mas são separados entre si: Deus não conhece. O pensamento moderno. Consequentemente. o "dever ser" coincide com o "ser". em virtude da qual é ainda afirmada a realidade e a distinção entre o mundo e Deus. Existem o mundo e Deus.

E a ciência natural da Idade Média não está absolutamente em conexão com o pensamento filosófico medieval. o novo tomismo. teísta. a técnica. por outra parte. não teve dificuldade alguma em aceitar toda a ciência natural moderna. especialmente o pensamento da Renascença. representa teoricamente uma ruptura. e. Além disso. todavia. a política) sua integração lógica. O pensamento moderno. Scoto Erígena. indiferente à filosofia. Não se julgue demolir a filosofia medieval. pois não é a ciência natural  capaz apenas de resolver os problemas da vida material. de fato. helênico-escolástico. isto é. a escolástica pós-tomista. ao passo que admitia a possibilidade de uma ciência natural diversa daquela do seu tempo. encontrará nos grandes valores da civilização moderna (a ciência natural.a passagem da concepção tradicional. E. tem seu precedente lógico no panteísmo neoplatônico. se. à concepção moderna. porquanto esta representa uma valor infra-filosófico. que  após ter-se afirmado como extrema expressão do pensamento clássico  permanece através de todo o pensamento cristão em tentativas mais ou menos ortodoxas de síntese entre cristianismo e neoplatonismo (Pseudo Dionísio. alimentou suspeitas e combateu longamente contra a nascente ciência moderna. e. a metafísica tomista. o próprio Tomás de Aquino julgava logicamente que a filosofia podia ser uma só.). a nova escolástica. opondo à sua elementar e fantástica ciência da natureza a ciência moderna com suas grandes aplicações técnicas. aristotélico- tomista. morais. religiosos  que pode decidir do valor de uma civilização. o pensamento tradicional. a história. etc. decadente. a favor da velha ciência natural aristotélica. em adequação à realidade. imanentista. Mestre Eckart. como tal. à metafísica. como tal. mas incapaz de resolver os problemas máximos da vida. . espirituais.

naturalmente. ingênua. descuidada. E destes conhecimentos experimentais e matemáticos de fenômenos naturais derivava ele as primeiras grandes aplicações técnicas da ciência moderna. Aplicações técnicas que possuem também um valor espiritual. isto não foi senão uma expressão exterior daquela estrutura profunda que se chama a cristandade: equivalente civil da igreja católica. No entanto. A historiografia medieval é. Galileu Galilei. Deus. orgânico. como o Sacro Império Romano. podemos dizê-lo analogamente da história. acima de si e de tudo. O que dissemos da ciência. sem o qual não é possível a história verdadeira e própria. especulativo. O valor da ciência moderna não é teorético. para construir uma unidade política grandiosa. mas empírico e técnico. o seu interesse pela concretidade. Costuma-se inculpar a civilização medieval por ter aniquilado o estado nacional concreto. metafísico. e sim os fenômenos naturais. que é a cristã e já teve a sua expressão clássica na Cidade de Deus de Agostinho é perfeitamente conciliável com a indagação histórica moderna. uma utopia universalista. pois. experimentalmente provados e matematicamente conexos. mas abstrata. capaz de abraçar os mais diversos organismos políticos. o do domínio natural do homem sobre a natureza: contanto que o homem reconheça. Mas a concepção medieval da história. sem dúvida. insuficiente. Tal era também o pensamento do grande fundador da ciência moderna. devendo esta última fornecer à primeira a sua rica contribuição de fatos. que afirmava ser o objeto da ciência não as essências metafísicas das coisas. era escasso na mentalidade medieval o senso da concretidade e da individualidade. Nem se deve esquecer que precisamente na comuna medieval se encontra a primeira O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . o seu profundo senso histórico.

bem como o laicado distinto do clero e organizado civilmente em graus de corporações. E é na Idade Média que se formam as grandes nações modernas. imanentista. Poder-se-ia fazer notar que tal efetiva distinção e relativa autonomia do Estado (e do laicado) com respeito à Igreja (e ao clero) foram alcançadas através de uma longa luta contra o predomínio e a invasão destes últimos. no período bárbaro. desde os comunas medievais até às grandes monarquias européias do século XVII e ainda além. por exemplo. e o pensamento moderno. é na Idade Média que se formou o Estado distinto da Igreja. a assistência hospitalar. romano. a este respeito. Noutras palavras. interiormente organizado e politicamente soberano. teísta. etc. Os Precedentes do Pensamento Moderno Dada a ruptura lógica entre o pensamento tradicional. as comunicações. mas não leigo.origem do estado moderno. o comércio. E é devido a isso que a civilização não pereceu. Mas cumpre ter presente que. compreensiva e ativa com respeito ao Estado. quando os homens e os tempos estivessem maduros. praticamente liberal. a instrução cultural. como.. Aliás. e até a agricultura. ateu. a Igreja católica estava apta e disposta  a prescindir-se das intenções dos homens e de suas fraquezas fatais  a livrar-se desses cuidados estranhos gravosos e perigosos para o seu ministério transcendente e sobrenatural. não se podem achar causas racionais . a atitude da Igreja. imanentista. Basta lembrar. nos séculos de ferro. mas cristão. e foi conservada para a idade moderna. pelo fato de que ninguém estava em condições de fazê-lo. católico. a indústria. na alta Idade Média. a igreja romana e o clero católico desempenharam funções também leigas e profanas.

cristão). O panteísmo neoplatônico teve a sua primeira grande manifestação. destruído pelo humanismo imanentista. que será constituída por todo o pensamento moderno em seu desenvolvimento lógico. Igreja e Estado. O grandioso edifício ideal da Idade Média. e. teísta. em que a religião e civilização. se não há causas lógicas do pensamento moderno. estavam harmonizados na transcendente unidade cristã. porém. há. por sua vez. Tentará afirmar-se de novo na O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . com que se acham em oposição. em seguida. Em seguida virá a justificação teórica da nova atitude espiritual. especialmente tomista. E tal decadência cultural é acompanhada. com o conseqüente esquecimento dos interesses e ideais espirituais e religiosos. É precisamente o que acontece com os homens inteiramente entregues aos cuidados mundanos: primeiro se esquecem das coisas transcendentes.dessa mudança. valorizados pela nova atitude espiritual. se tornarão fontes especulativas do próprio pensamento moderno. Tais precedentes especulativos podem ser resumidos desta forma: o panteísmo neoplatônico. Este pensamento começa com a prevalência dada aos interesses e aos ideais materiais e terrenos. precedentes especulativos. Entretanto. foi. o aristotelismo averroísta e o nominalismo ocamista. querendo ser coerentes. os quais foram-se afirmando contemporaneamente a uma gradual decadência do genuíno pensamento escolástico (racional. teologia e filosofia. clero e laicado. negam-nas. no âmbito do cristianismo. com Scoto Erígena. que. mas apenas práticas e morais. que constitui o espírito característico do pensamento moderno. de fato. pela decadência da Igreja e do Papado  o exílio avinhonês e o cisma do ocidente. e torna-se completo com a justificação dos primeiros e a exclusão dos segundos.

bem como da ciência. E. nos sistemas deles. E receberá uma nova original elaboração do Humanismo com Nicolau de Cusa. Como é sabido. porquanto não se pode provar racionalmente a existência de Deus. consequentemente. porque  sendo desconhecida a essência de Deus e destruída a do homem  a moral fica reduzida a um conjunto de preceitos arbitrários de Deus. como na Renascença. que não pouco deve aos precedentes. apresenta um elemento fundamental da filosofia moderna com o seu empirismo e nominalismo. portanto. a afirmação religiosa podia Ter a prevalência sobre a negação filosófica. Bruno. com Giordano Bruno. impossíveis de nominalismo. segundo Occam. torna-se impossível a ética racional. Em uma idade cristã. o conhecimento humano é reduzido ao conhecimento sensível do singular e. que se combina. Nicolau de Cusa. o maior pensador da Renascença. por sua vez. com uma metafísica aventurosa de cunho particularmente neoplatônico. pelo mesmo motivo. devia prevalecer uma concepção anti-cristã. sensível. O averroísmo latino afirmara na Idade Média a sua famosa doutrina das duas verdades: o que não é verdadeiro em filosofia pode ser verdadeiro em religião e vice-versa. sobretudo. E. apesar de seus partidários se comprazerem em denominá-la via modernorum. e a psicologia racional. o iniciador da mística alemã.própria época de Tomás de Aquino com Mestre Eckart. e. Telésio. ao mesmo tempo. nem conhecer a sua natureza. ao nominalismo. de Nicolau de Cusa. que transcende o mundo empírico. aristotélica ou não. O occamismo marca a conclusão lógica da decadente escolástica pós-tomista. Campanella serão também herdeiros do nominalismo empirista de Occam. que é entretecida de conceitos. como a Idade Média. o qual depende. de sorte que se esvai da teodicéia. obscurecendo-se a fé. que o homem tem . Conseqüência lógica e consciente é a destruição da metafísica.

Occam procurará salvar-se do ceticismo  conclusão do seu sistema. se seguem o racionalismo e o empirismo. que. Entretanto é uma posição insustentável. porquanto a fé  não podendo mais ser um racional obséquio  torna-se uma adesão cega. Este.que observar por fé.  Antes de tudo a Renascença. porém. é potentemente afirmada e vivida. Portanto. com todas as conseqüências práticas  mediante a fé. e tem como seu equivalente religioso a reforma protestante. Mas ruirá quando a fé vier a faltar. que abrangem os séculos XVII e XVIII. naturalmente não se manifesta na sua significação imanentista senão na plenitude do seu desenvolvimento. abrange os séculos XV e XVI. Em época de religiosidade ainda viva. humanista ou naturalista. Os Períodos do Pensamento Moderno Este grande movimento especulativo. substancialmente. deixando o terreno livre ao empirismo. A Renascença é preparada pelo Humanismo. imanentes ao ocamismo. prevalece. e que constituirão tão grande parte do pensamento da Renascença. muitas vezes. 2. que é o pensamento moderno. em que o novo é misturado com o velho. que se podem historicamente (e dialeticamente) indicar assim: 1. Após a revolução O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . em que a concepção imanentista. ao ceticismo. de uma afirmação ainda não plenamente consciente e sistemática. da Reforma e também do pensamento posterior.  A este primeiro período do pensamento moderno. esse fideísmo ocamista pôde praticamente ficar de pé. ao nominalismo. ao menos na exterioridade da forma lógica e literária. ao naturalismo. manifesta-se através de uma série de períodos. Trata-se.

sente-se a necessidade de uma séria indagação crítica. 3. em ambos. na Alemanha e na Itália. Esse movimento começa na Inglaterra. triunfa na França e se espalha. portanto. na revolução francesa (Segunda metade do século XVIII). ao contrário. para dar-lhes uma sistematização lógica.renascentista e protestante.  Empirismo e racionalismo. opostas entre si. não para demolir aquelas intuições revolucionárias. social. religiosa no iluminismo e. após uma lenta. o sujeito é isolado do ser e fechado no mundo das suas representações. gnosiológicas. concordam em um comum fenomenismo. gradual e silenciosa maturação. mas. em seguida. moral. pois. política. 4. esta representa a concreta realização do pensamento moderno na civilização moderna. encontrarão uma saída prática.  E outro tanto fará e empirismo em relação ao conhecimento sensível. Entretanto. Empirismo e racionalismo são tendências especulativas. A Renascença Nicolau Machiavelli Galileu Galilei A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional . É o que fará especialmente o racionalismo em relação ao conhecimento racional. Não se conhecem as coisas e sim o nosso conhecimento das coisas. como a gnosiologia sensista está certamente em oposição à gnosiologia intelectualista.

ficando no âmbito da experiência. humanista. É o fruto do vivo interesse e da penetrante observação da experiência e da concretidade. ainda que o seu pensamento seja alicerçado na metafísica do humanismo e do imanentismo renascentista. A expressão clássica da nova ciência política é Nicolau Machiavelli. a maior conquista do pensamento da Renascença. são independentes de qualquer filosofia: porquanto. E a maior expressão da ciência nova é Galileu Galilei. em seguida. inteiramente absorvidos pelo universal e pela transcendência. a ciência política e a técnica científica (ciência aplicada) que tiveram. o seu grande início. não filósofo. não resolvem. de direito são dela independentes. nem podem resolver o problema filosófico. está na história humana. mesmo que tenha veleidades e faça afirmações de alcance metafísico. A Política Nova e a Ciência Nova A prescindir da arte e da literatura. história e ciência. e na ciência natural. necessariamente. cuja solução. Daí derivam. aliás. quase que desconhecidos do pensamento clássico e do pensamento medieval. como. e sim teórico da técnica política. tem que transcender o próprio campo da experiência. o grande valor. naturalista da época. mas teórico e técnico da renovada ciência da natureza. Estas duas grandes conquistas  história e ciência  embora se apresentem em conexão com a filosofia imanentista. na Renascença. Nicolau Machiavelli O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Ele também não foi filósofo.

e podem ser aniquilados pelo estado. Indivíduos e valores devem servir unicamente como instrumentos de governo. em que tudo é subordinado ao estado. Daí a máxima famosa: o fim justifica os meios. A experiência histórica lhe diz que a natureza do homem é profundamente egoísta e malvada. voltou ainda à pátria. chamado pelos amigos. Entre seus escritos têm particular interesse filosófico Il Principe e os Discorsi sopra la prima deca di Tito Livio. mundanas. ético e religioso. obscuro e abandonado. o do príncipe e do estado. Precisamente pelo fato de que o paganismo representa uma concepção e uma praxe humanistas. Ele tem do homem uma concepção pessimista. Foi secretário e historiador da república florentina. A este propósito é característica e intuitiva a comparação que Machiavelli faz entre o cristianismo católico e o paganismo antigo. ao passo que o cristianismo é uma concepção e uma praxe transcendentes e ascéticas. Faleceu em 1527. semelhante à cristã. O fim último é o estado. mas sem a explicação (o pecado original) e sem o remédio (a redenção pela cruz). É preciso constituir uma ciência política sobre a base de um utilitarismo rigoroso. tanto os indivíduos como todos os valores. concluindo em favor da superioridade (política) do segundo. partindo do terreno realista da experiência e prescindindo de qualquer valor espiritual e transcendente. Machiavelli propõe-se o problema: como constituir um estado. Nicolau Machiavelli nasceu em Florença em 1469. a que tudo deve ser subordinado. até os morais e religiosos. e não reconhece poder algum humano superior a ele. que o cristianismo oferece. . Destituído e exilado. Então é preciso organizar naturalisticamente e subordinar mecanicamente um complexo de paixões e de egoísmos a um egoísmo maior.

pisar na realidade concreta. valorizar os homens efetivamente egoístas e inclinados ao mal. Entretanto. ainda que deva mirar a um ideal superior e imutável. conserva um grande valor também para a concepção transcendente do mundo e da vida. não é o estado e sim Deus. como é a teísta e a cristã. aliás. Deve organizar. terá de agir com força decidida e com refinada prudência. variável. de conformidade com o espírito O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . A doutrina política de Machiavelli todavia. muitas vezes. a política de Machiavelli não está em contraste com uma ética humanista e imanentista. o que é verdade. é indispensável a fim de que o homem realize a sua natureza racional: é ético o estado. deverá ser leão ou raposa  no dizer de Machiavelli. como de Deus. na sua essência. se se confrontar com uma concepção transcendente e ascética do mundo e da vida. deriva da natureza racional do homem. acontece também na moral individual no caso do assim chamado conflito dos deveres). aliás. essencialmente imutável. por vezes. que não tem fins transcendentes e leis morais estáveis. dependem todos os valores e todo o ser. para a concretização dessa concepção transcendente da vida. A política de Machiavelli foi acusada. Por isso. de imoralidade. com base na profunda experiência humana. histórica. Entretanto. Neste sentido conceberá a política o piemontês João Botero (1540- 1617) na sua obra Della ragione di stato. será preciso subordinar um princípio moral a outro princípio superior da moral (como. tem que ter os pés sobre a terra. e os meios para atingir o fim último não são substancialmente variáveis conforme as circunstâncias dos tempos e dos lugares. disciplinar. porquanto a moralidade. E. embora receba de Deus a sua eticidade transcendente. pois o estado. o estado. e sim transcendentes (como todos os valores absolutos).

católico e concreto da Contra-Reforma. Nesta obra, por exemplo aconselha
ele ao Príncipe ocultar prudentemente suas fraquezas eventuais, para
conservar a reputação real; aconselha-o a respeitar plenamente a religião
(católica), instrumento precioso, indispensável para tornar politicamente
dóceis os homens, inclinados profundamente para o mal; bem como o
aconselha a encaminhar para a milícia e para a guerra, a instintiva ferocidade
humana.

Galileu Galilei

As ciências físicas e naturais, em geral, têm na Renascença a sua
maior expressão em Leonardo da Vinci e, sobretudo em Galileu Galilei; pelo
que diz respeito em especial à astronomia, em Copérnico e Kepler.

Leonardo da Vinci, nascido perto de Florença em 1452, exercitou a
sua profissão de artista e técnico em Milão, em Florença, em Roma e na
França onde faleceu em 1519. Não nos interessa como artista, mas como
cientista, técnico e teórico da ciência. Leonardo não deixou obras sistemáticas
e editadas, e sim uma grande quantidade de apontamentos e bosquejos
preciosos, publicados mais tarde, em que se revela um gênio soberano e um
teórico genial. Aplicou ele imediatamente à técnica, ao domínio da natureza,
seus princípios teóricos, em harmonia com os ideais e as conquistas da idade
nova.

Leonardo fez uma notável quantidade de pesquisas e de invenções
preciosas no campo das ciências: em matemática, física, mecânica,
astronomia, geologia, botânica, anatomia, fisiologia, etc. Aplicou a matemática
à física, convencido de que era mister partir da experiência, para chegar à
razão, isto é, à matemática, que seria a razão que governa o mundo natural.

Entretanto, o grande metodólogo da ciência natural é Galileu Galilei,
nascido em Tosacana (Pisa) em 1564. Ensinou nas universidades de Pisa e de
Pádua; as seguir, em Florença, como matemático e filósofo. Pela sua defesa
do sistema astronômico de Copérnico (heliocêntrico) foi para Roma onde foi
processado pelo Santo Ofício, que condenou aquele sistema (1616). Galileu,
tendo defendido com persistência o supradito sistema, foi processado e
condenado novamente em 1633. Passou seus últimos anos de vida na vila de
Arcetri, perto de Florença, onde faleceu em 1642. Entre suas obras são
famosas: O Saggiatore (1623), livro polêmico contra os aristotélicos; o
Diálogo sopra i due massimi sistemi del mondo (1632), que foi causa do
segundo processo; e o Diálogo delle scienze nuove (1638).

Como Aristóteles e Tomás de Aquino, Galileu está convencido de
que o conhecimento humano deve firmar-se na experiência; mas,
diversamente daqueles dois filósofos que partem da experiência para
transcendê-la e construir uma metafísica geral e especial, Galileu fica no
âmbito da própria experiência; Galileu estuda o mundo não para conhecê-lo
metafisicamente, isto é, para colher as essências imutáveis das coisas, mas
fisicamente, isto é, para colher os fenômenos e suas leis. Tais leis julga
Galileu sejam as matemáticas; pois, o livro da natureza é escrito com
caracteres que são "triângulos, quadrados, círculos, esferas, cones, pirâmides
e outras figuras matemáticas muito aptas para tal leitura". Daí a explicação da
matemática à física, resultando assim a físico-matemática: o que constituirá o
elemento verdadeiramente racional, universal e necessário da ciência
moderna, e será tão fecundo em resultados práticos, técnicos.

Para constituir a ciência, portanto, é mister a experiência e a razão,
sentido e discurso, como diz Galileu. Quanto ao procedimento metódico e

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

particular para construir a ciência, Galileu distingue três momentos principais:
a) a observação; b) a hipótese; c) a experimentação, que é a verificação da
hipótese. Esta, quando confirmada experimentalmente, transforma-se em lei.

A ciência galileiana é, por conseguinte, quantitativa, a saber, o seu
princípio racional é matemático: é físico-matemática, mecânica. O que é
irredutível à quantidade é considerado como subjetivo, escapando ao alcance
da físico-matemática. Galileu considera objetivas as propriedades geométrico-
mecânicas: a figura, o tamanho, a posição, o movimento, o número - que
serão mais tarde chamadas qualidades primárias; ao passo que considera
subjetivas (transformação das objetivas por obra dos nossos órgãos
sensoriais) as propriedades qualitativas: a cor, o som, o sabor, o frio, o calor -
que serão mais tarde chamadas qualidades secundárias.

Como é sabido, a doutrina astronômica heliocêntrica chama-se
copernicana, sendo seu verdadeiro fundador Copérnico. Nicolau Copérnico
nasceu em Thorn, na Polônia, em 1473. Estudou em vários lugares,
especialmente na Itália. De volta à pátria, retirou-se para Frauenburg, onde
era cônego, e dedicou-se às meditações astronômicas, cujo resultado publicou
na famosa obra De obrium coelestium revolutionibus, publicada em 1543 e
dedicada ao papa. O seu sistema astronômico pode ser assim resumido: o
mundo é esférico, finito; todos os corpos celestes são esféricos; o
movimento dos corpos celestes é circular e uniforme; o Sol está
imóvel no centro do sistema e giram-lhe em volta os planetas e
também a Terra que tem duplo movimento: diurno em volta do
próprio eixo, anual em volta do Sol. Ele também segue o princípio de que
a natureza é governada por leis matemáticas: ubi materia, ibi geometria.

Caberá mais tarde a Newton completar o sistema com a grande lei da
gravitação universal, que explica o equilíbrio dos corpos celestes.

A Ciência Nova e a Metafísica Tradicional

O atomismo mecânico, que Galileu pressupôs para a sua
gnosiologia empirista-matemática, está evidentemente em contraste com o
seu fenomenismo, porquanto constitui sempre uma filosofia da natureza,
contrariamente ao afirmado agnosticismo galileiano sob este aspecto
cientificamente fecundo. E tal atomismo mecânico está logicamente em
contraste com a convicção religiosa de Galileu, pois o atomismo mecânico
implica evidentemente uma concepção materialista da realidade.

Com Galileu começa a tendência da filosofia moderna - que se
manifestará claramente no racionalismo de Descartes, Spinoza, Leibniz, etc. -
de reduzir a metafísica à física, pela pretensão de explicar tudo
matematicamente e considerar a ordem matemática como a ordem ideal da
realidade. Pretensão evidentemente infundada, porquanto não se podem
reduzir à quantidade o espirito, Deus, a alma nem sequer o elemento
qualitativo da realidade empírica. Será mister, portanto, que a ciência
moderna, mesmo no seu aspecto racional-matemático, adquira consciência da
sua limitação, permanecendo entre os limites da experiência, e não pretenda
tornar-se metafísica. E destarte será ela inteiramente valorizável e conciliável
com a metafísica tradicional aristotélico-tomista. Esta, por sua parte, terá de
se libertar de igualmente infundada pretensão de que também a ciência
natural seja filosofia, metafísica. Deste modo, poderá logicamente separar-se
da física aristotélica e da astronomia ptolemaica, com que estava de fato, e se
julgava de direito, ligada, liame este que, historicamente, sobremaneira

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

prejudicou à metafísica tradicional na idade moderna, como ficou evidente
também pelo famoso processo de Galileu.

Neste processo não há duvidar da boa fé de Galileu, católico
convicto, nem da dos seus juizes, entre os quais se destaca São Roberto
Belarmino. Em todo caso devemos prescindir de tais questões práticas,
pessoais, que não concernem à história da filosofia, cujo objeto próprio são as
idéias, os sistemas, e não os homens e suas intenções. Temos, de um lado,
uma sólida filosofia, que se julgava, sem razão, conexa necessariamente com
a ciência da época, cuja ruína, julgava-se erroneamente, acarretaria consigo a
ruína da filosofia, que constituía a base racional da religião. E temos, do outro
lado, uma ciência prodigiosa, que, erradamente, se punha em contradição
com a filosofia tradicional e em conexão com a nova filosofia humanista e
imanentista. Tenha-se, acima de tudo, presente a tese geral do matematismo
universal, com suas inevitáveis conseqüências materialistas, e a outra tese da
infinidade dos mundos, que, erradamente, se julgava derivar do sistema
copernicano, heliocêntrico. Acrescenta-se a tudo isso, por parte da igreja
católica, o temor da crítica demolidora, que teve tão grave manifestação no
livre exame protestante - temor confirmado pela veleidade de interpretação
da Sagrada Escritura, por parte de Galileu, para ajustá-la à nova astronomia.
E se compreenderá então historicamente o processo e a condenação de
Galileu.

A oposição entre sistema ptoleimaco e sistema copernicano, entre a
filosofia tradicional e a ciência nova, cessaria no dia em que se adquirisse
consciência da natureza infrafilosófica, afilosófica, indiferente, da ciência, se
permanecer nos limites da experiência - como deve ser - e se tivesse
consciência da sua relatividade. A ciência, portanto, não pode vir a estar em

contraste com a filosofia e a teologia, cujo objeto é metafísico;
conseqüentemente pode-se e deve-se compor a filosofia tradicional com a
ciência nova.

René Descartes

O Problema do Homem. A Moral

O Programa Cartesiano

Deus, a Ciência e o Livre-arbítrio

Para Descartes, o Deus criador transcende radicalmente a natureza.
Deus Foi "inteiramente indiferente ao criar as coisas que criou". Não se
submeteu a nenhuma verdade prévia. Em virtude do poder de seu livre-
arbítrio, criou as verdades. Eis por que Deus quer que a soma dos ângulos de
um triângulo seja igual a dois ângulos retos.

Acrescentemos que, para Descartes, Deus criou o mundo instante
por instante (é a "criação contínua"). O tempo é descontínuo e a natureza não
tem nenhum poder próprio. As leis da natureza só são o que são a cada
momento, em virtude da vontade do criador. É importante compreender que
essa transcendência radical de Deus possui duas conseqüências
fundamentais. O livre-arbítrio humano e a independência da ciência.

1.°  O homem não é uma parte de Deus. A transcendência do
criador afasta qualquer panteísmo. O homem, simples criatura ultrapassada
por seu criador (concebo Deus porque descubro em mim a marca de sua

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

infinitude, mas não o compreendo), recebo, assim, uma autonomia que será
perdida no sistema panteísta de Spinoza. O homem é livre, pode dizer sim ou
não às ordens de Deus. É certo que, na Quarta Meditação, Descartes fala da
liberdade esclarecida, dessa liberdade que não pode tratar da verdade ou do
bem, dessa liberdade que é antes um estado de libertação do que uma
decisão pura, situada além de todas as razões. Mas nos Princípios e sobretudo
nas cartas ao Pe. Mesland, de 2 de maio de 1644 e 9 de fevereiro de 1645,
Descartes afirma radicalmente o livre-arbítrio, o poder de recusar a Verdade e
o Bem até mesmo na presença da evidência que se manifesta. Esses textos
esclarecem a teoria do juízo presente na Quarta meditação. O entendimento
concebe a verdade e é a vontade que dá as costas a ou afirma essa verdade.
Deus propõe e o homem, por intermédio de seu livre-arbítrio, dispõe. Desse
modo, Deus não é o culpado dos meus erros nem dos meus pecados. Sou eu
que me engano, sou eu que peco. Meu livre-arbítrio me faz merecedor ou
culpado.

2.°  Do mesmo modo, a transcendência de Deus vai tornar possível
uma ciência puramente racional e mecanicista da natureza.

a) A natureza, segundo Descartes, já o vimos, não possui
dinamismo próprio. Todo dinamismo pertence ao criador. Na medida em que
a natureza é despojada de toda profundidade metafísica, Descartes pode
eliminar as noções aristotélicas e medievais de forma, alma, ato e potência.
Toda finalidade desaparece e a natureza é reduzida a um mecanicismo
inteiramente transparente para a linguagem matemática. A natureza nada
tem de divino, é um objeto criado, situado no mesmo plano da inteligência
humana, e, por conseguinte, inteiramente entregue à sua exploração. Isto
consiste, ao mesmo tempo, na rejeição de todo naturalismo pagão (a

Quando Descartes declara que os animais são máquinas. Mas a direção tomada é a ciência moderna. O Problema do Homem: a Moral 1. As coisas se determinam reciprocamente (leis do choque). Mas o espírito dessa física e da fisiologia cartesiana  que não passa de um capítulo da física  nada mais é do que o espírito do mecanicismo. em princípio. que é possível explicar as funções fisiológicas por intermédio de mecanismos semelhantes àqueles que fazem mover os autômatos que vemos "nos jardins de nossos reis". sua física (dada. mais como uma possibilidade racional do que como a verdade certa) não passa de um romance. b) Nem tudo tem o mesmo valor na obra científica de Descartes. num espaço em que não existe o vazio. ele coloca. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . juntamente com Fermat. o inventor da geometria analítica) constituem incontestável contribuição científica.°  No Discurso dobre o Método. o mundo físico não possui mistérios.natureza não é uma deusa) e na fundamentação metafísica do racionalismo científico. aliás. Se sua ótica e suas considerações sobre a expressão algébrica das curvas (ele é. b) Antes mudar os próprios desejos que a ordem do mundo e vencer-se a si próprio do que à fortuna. O detalhe das explicações não passa de um sonho. Para Descartes. por contato direto. Descartes adota uma moral provisória  pois a ação não pode esperar que a filosofia cartesiana engendre uma nova moral! Recordemos seus três preceitos: a) Submeter-se aos usos e costumes de seu país.

isto é. . puramente vivido e ininteligível. é uma filosofia da vontade). ou quando se ocupa do composto humano. "A verdadeira generosidade que faz com que um homem se estime. exceto essa livre disposição de suas vontades. Na medida em que Descartes considera o homem no que ele tem de essencial. de nunca lhe faltar vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar melhores. ao invés de ficar fazendo voltas. sua moral assume aspectos diferentes: a) Consideremos o homem enquanto espírito. enquanto espírito.. no ponto máximo em que ele pode legitimamente estimar-se. enquanto liberdade: o valor supremo é a generosidade. o ponto de aplicação da alma ao corpo é a glândula pineal. em parte. e em parte no sentimento de uma firme e constante resolução de bem usá-la. a do corpo é ser um objeto no espaço. epicuristas e cristãs estão presentes nela. a epífise. E no entanto. Na plano das idéias claras e distintas. isto é. na realidade. (Para Descartes.°  É certo que a moral definitiva de Descartes não apresenta uma unidade perfeita. antes de ser uma filosofia da inteligência.) Mas isso não esclarece a união da alma e do corpo. Influências estóicas. na consciência de que nada lhe pertence verdadeiramente. c) Ser sempre firme e resoluto em suas ações. o que é seguir a virtude perfeitamente". adota uma direção qualquer e nela se mantém! (O cartesianismo. saber decidir-se mesmo na ausência de toda evidência. à semelhança do viajante perdido na floresta que. essa complexidade reflete a própria complexidade da condição humana. A alma age sobre o corpo e este age sobre ela. Mas. Descartes separa claramente as duas substâncias. consiste. o pensamento está preso a esse fragmento de extensão. que é um fato de experiência. 2. alma e corpo: a essência da alma é pensar..

tudo o que o corpo determina na alma. ele deve começar a aplicar-se O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . isto é. desse modo. acha que devemos antes dominá-las do que desenvolvê-las. ela antes corrompe o bom-senso do que o desenvolve  mas aquela que ensina a bem conduzir a razão na descoberta de verdades que se ignora. devemos seguir para que nos instruamos. deve. sem julgamento. a afetividade em sentido amplo. sobre as que não se sabe. b) Se considerarmos o homem enquanto espírito unido a um corpo. as ligações harmoniosas entre os espíritos animais e os pensamentos humanos são altamente desejáveis. E porque ela depende muito do uso. não a da Escola  pois ela nada mais é do que uma dialética que ensina os meios para fazer entender a outrem as coisas que já se sabe ou então de emitir opiniões. como uma técnica de felicidade e. A moral surge aqui como uma aplicação direta ao mecanicismo cartesiano. A moral surge. Paixão é. nessa técnica. quando já tiver adquirido o hábito de encontrar a verdade nessas questões. por muito tempo. Isso porque ele se coloca do ponto de vista da felicidade. na prática de regras pernitentes a questões fáceis e simples como as da matemática. que nada tem de asceta. também deve estudar lógica. Primeiramente. é bom que ele se exercite. a medicina desempenha importante papel. encarregar-se de formar uma moral que seja suficiente para ordenar as ações da vida. para Descartes. o homem que ainda só possui conhecimento vulgar e imperfeito. Depois. então. antes de tudo. O bom funcionamento do corpo. Após isso. somos obrigados a levar em conta as paixões. O Programa Cartesiano "De acordo com o prefácio dos Princípios" Gostaria de explicar aqui a ordem que. parece-me. porque isso não deve ser adiado e porque devemos sobretudo procurar viver bem. E Ele.

que contém os princípios do conhecimento. A segunda é a física. sobretudo.à verdadeira filosofia cuja primeira parte é a metafísica. mas da extremidade dos ramos. Mas. a filosofia é como uma árvore cujas raízes são a metafísica. após ter encontrado os verdadeiros princípios das coisas materiais. o zelo que sempre tive no sentido de prestar algum serviço ao público levou-me a publicar. examinamos em geral como o universo é composto. Ora. assim a principal utilidade da filosofia depende das utilidades de suas partes. alguns ensaios sobre as coisas que me parecera ter aprendido. na qual. o tronco a física e os ramos que daí saem todas as outras ciências. Após o que também é necessário examinar em particular a natureza das plantas. dos animais e. encontrar as outras ciências que lhe são úteis. a saber: a medicina. que se reduzem a três principais. do homem. em particular. da imaterialidade de nossas almas e de todas as noções claras e simples que estão em nós. é o último grau da sabedoria. as quais só podemos aprender por último. que pressupõe inteiro conhecimento das outras ciências. entre as quais está a explicação dos principais atributos de Deus. na qual apresentei sumariamente as principais regras da lógica e de uma moral imperfeita que pode ser seguida provisoriamente. depois. depois. a mecânica e a moral. há uns dez ou doze anos. assim como não é das raízes nem do tronco que colhemos os frutos. eu acho que a mais elevada e mais perfeita moral. a fim de que se seja capaz de. enquanto ainda não se estabelece algo de melhor. As outras partes foram três tratados: um da Dióptrica. qual a natureza da terra e de todos os corpos que se encontram mais comumente em torno dela como o ar. a água. outro dos . embora eu as ignore quase todas. o ímã e outros minerais. Desse modo. o fogo. A primeira parte desses ensaios foi um discurso sobre o método de bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências.

é preciso ler antes as Meditações que escrevi sobre o mesmo assunto. os planetas. penso ter O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Finalmente. incitando. a natureza desta terra. os cometas e o universo em geral são compostos. da água. do ar. pela Geometria. quando me pareceu que esses tratados procedentes haviam preparado bem o espírito dos leitores para receber os Princípios da Filosofia. As outras três partes contêm tudo o que há de mais geral na física. dividi o livro em quatro partes. depois. prevendo a dificuldade que muitos teriam para conceber os fundamentos da metafísica. o peso e semelhantes.Meteoros e o último da Geometria. mas cujo volume foi aumentado e cuja matéria foi muito clarificada pelas objeções que várias pessoas muito doutas me enviaram sobre o assunto e pelas respostas que lhes dei. do fogo e do ímã  que são os corpos que podemos encontrar mais comumente em torno dela  e de todas as qualidades que observamos nesses corpos como o são a luz. Depois disso. o calor. as estrelas fixas. pretendi mostrar que se pode avançar bastante em filosofia para se chegar. das quais a primeira contém os princípios do conhecimento e que podemos denominar filosofia primeira ou metafísica. Finalmente. por seu intermédio. nesse campo. a saber. eu os publiquei então. é uma das mais difíceis das que já foram procuradas. procurei explicar seus pontos principais num livro de Meditações que não é grande. pretendi demonstrar que eu descobrira várias coisas ignoradas até então e. ao conhecimento das artes que são úteis à vida e porque a invenção das lunetas de aproximação. por meio disso. todos os homens a procurarem a verdade. dessa forma. procurei fazer com que se reconhecesse a diferença existente entre a filosofia que eu cultivo e aquela ensinada nas escolas em que se tem o hábito de tratar da mesma matéria. descobrir várias outras. em particular. Eis por que. a explicação das primeiras leis ou princípios da natureza e a maneira pela qual os céus. que eu aí explico. fazer acreditar que ainda podemos. Pelos Meteoros. Pela Dióptrica. a fim de bem compreendê-la. desse modo.

Aí gozará de um regime de privilégio. no "Discurso sobre o Método". "Não encontramos aí nenhuma coisa sobre a qual não se dispute". Só as matemáticas demonstram o que afirmam: "As matemáticas agradavam-me sobretudo por causa da certeza e da evidência de seus raciocínios". Eis por que o jovem Descartes. sem ter admitido nenhuma das coisas que devem preceder as últimas sobre as quais escrevi. decepcionado com a escola. Mas as matemáticas são uma exceção. Apesar de apreciado por seus professores. o que o leva a adquirir um hábito que o acompanhará por toda sua vida: meditar no próprio leito. A Filosofia de Descartes Sua Vida O Método A Metafísica Sua Vida René Descartes. numa família nobre  terá o título de senhor de Perron. estuda no colégio jesuíta de La Flèche. daí o aposto "fidalgo poitevino".começado a explicar toda a filosofia ordenadamente. decepcionado com o ensino que lhe foi ministrado: a filosofia escolástica não conduz a nenhuma verdade indiscutível. mas um povoado da Touraine. nascido em 1596 em La Haye  não a cidade dos Países-Baixos. uma vez que ainda não se tentou aplicar seu rigoroso método a outros domínios. parte à procura de novas fontes de . pois levanta-se quando quer. De 1604 a 1614. pequeno domínio do Poitou. ele se declara.

Na Holanda. aquartela-se às margens do Danúbio. sonhos maravilhosos advertem que está destinado a unificar todos os conhecimentos humanos por meio de uma "ciência admirável" da qual será o inventor. Mas ele aguardará até 1628 para escrever um pequeno livro em latim. Eu caminho mascarado. as "Regras O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Segundo Pierre Frederix. Após alguns meses de elegante lazer com sua família em Rennes. Mas é um estranho oficial que recusa qualquer soldo. isto é. vamos encontrá-lo na Holanda engajado no exército do príncipe Maurício de Nassau. ei-lo a serviço do Duque de Baviera. a experiência da vida e a reflexão pessoal: "Assim que a idade me permitiu sair da sujeição a meus preceptores. que mantém seus equipamentos e suas despesas e que se declara menos um "ator" do que um "espectador": antes ouvinte numa escola de guerra do que verdadeiro militar. abandonei inteiramente o estudo das letras. ao lado de Isaac Beeckman. Em virtude do inverno. em ver cortes e exércitos. servido por um criado e inteiramente entregue à meditação. A 10 de novembro de 1619. hoje perdido). e resolvendo não procurar outra ciência que aquela que poderia ser encontrada em mim mesmo ou no grande livro do mundo. É dessa época (tem cerca de 23 anos) que data sua misteriosa divisa "Larvatus prodeo". Descartes quer apenas significar que é um jovem sábio disfarçado de soldado. empreguei o resto de minha juventude em viajar. Podemos facilmente imaginá-lo alojado "numa estufa". Em 1619. a saber. ocupa-se sobretudo com matemática. conviver com pessoas de diversos temperamentos e condições". num quarto bem aquecido por um desses fogareiros de porcelana cujo uso começa a se difundir. longe dos livros e dos regentes de colégio. onde se ocupa com equitação e esgrima (chega mesmo a redigir um tratado de esgrima.conhecimento.

para a direção do espírito" (Regulae ad directionem ingenii). A idéia
fundamental que aí se encontra é a de que a unidade do espírito humano
(qualquer que seja a diversidade dos objetos da pesquisa) deve permitir a
invenção de um método universal. Em seguida, Descartes prepara uma obra
de física, o Tratado do Mundo, a cuja publicação ele renuncia visto que em
1633 toma conhecimento da condenação de Galileu. É certo que ele nada tem
a temer da Inquisição. Entre 1629 e 1649, ele vive na Holanda, país
protestante. Mas Descartes, de um lado é católico sincero (embora pouco
devoto), de outro, ele antes de tudo quer fugir às querelas e preservar a
própria paz.

Finalmente, em 1637, ele se decide a publicar três pequenos
resumos de sua obra científica: A Dióptrica, Os Meteoros e A Geometria. Esses
resumos, que quase não são lidos atualmente, são acompanhados por um
prefácio e esse prefácio foi que se tornou famoso: é o Discurso sobre o
Método. Ele faz ver que o seu método, inspirado nas matemáticas, é capaz de
provar rigorosamente a existência de Deus e o primado da alma sobre o
corpo. Desse modo, ele quer preparar os espíritos para, um dia, aceitarem
todas as conseqüências do método  inclusive o movimento da Terra em torno
do Sol! Isto não quer dizer que a metafísica seja, para Descartes, um simples
acessório. Muito pelo contrário! Em 1641, aparecem as Meditações
Metafísicas, sua obra-prima, acompanhadas de respostas às objeções. Em
1644, ele publica uma espécie de manual cartesiano. Os Princípios de
Filosofia, dedicado à princesa palatina Elisabeth, de quem ele é, em certo
sentido, o diretor de consciência e com quem troca importante
correspondência. Em 1644, por ocasião da rápida viagem a Paris, Descartes
encontra o embaixador da frança junto à corte sueca, Chanut, que o põe em
contato com a rainha Cristina.

Esta última chama Descartes para junto de si. Após muitas
tergiversações, o filósofo, não antes de encarregar seu editor de imprimir,
para antes do outono, seu Tratado das Paixões  embarca para Amsterdã e
chega a Estocolmo em outubro de 1649. É ao surgir da aurora (5 da manhã!)
que ele dá lições de filosofia cartesiana à sua real discípula. Descartes, que
sofre atrozmente com o frio, logo se arrepende, ele que "nasceu nos jardins
da Touraine", de ter vindo "viver no país dos ursos, entre rochedos e
geleiras". Mas é demasiado tarde. Contrai uma pneumonia e se recusa a
ingerir as drogas dos charlatões e a sofrer sangrias sistemáticas ("Poupai o
sangue francês, senhores"), morrendo a 9 de fevereiro de 1650. Seu ataúde,
alguns anos mais tarde, será transportado para a França. Luís XIV proibirá os
funerais solenes e o elogio público do defunto: desde 1662 a Igreja Católica
Romana, à qual ele parece Ter-se submetido sempre e com humildade,
colocará todas as suas obras no Index.

O Método

Descartes quer estabelecer um método universal, inspirado no rigor
matemático e em suas "longas cadeias de razão".

1.  A primeira regra é a evidência: não admitir "nenhuma coisa
como verdadeira se não a reconheço evidentemente como tal". Em outras
palavras, evitar toda "precipitação" e toda "prevenção" (preconceitos) e só ter
por verdadeiro o que for claro e distinto, isto é, o que "eu não tenho a menor
oportunidade de duvidar". Por conseguinte, a evidência é o que salta aos
olhos, é aquilo de que não posso duvidar, apesar de todos os meus esforços,
é o que resiste a todos os assaltos da dúvida, apesar de todos os resíduos, o
produto do espírito crítico. Não, como diz bem Jankélévitch, "uma evidência
juvenil, mas quadragenária".

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

2.  A segunda, é a regra da análise: "dividir cada uma das
dificuldades em tantas parcelas quantas forem possíveis".

3.  A terceira, é a regra da síntese: "concluir por ordem meus
pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de
conhecer para, aos poucos, ascender, como que por meio de degraus, aos
mais complexos".

4.  A última á a dos "desmembramentos tão complexos... a ponto
de estar certo de nada ter omitido".

Se esse método tornou-se muito célebre, foi porque os séculos
posteriores viram nele uma manifestação do livre exame e do racionalismo.

a) Ele não afirma a independência da razão e a rejeição de
qualquer autoridade? "Aristóteles disse" não é mais um argumento sem
réplica! Só contam a clareza e a distinção das idéias. Os filósofos do século
XVIII estenderão esse método a dois domínios de que Descartes, é
importante ressaltar, o excluiu expressamente: o político e o religioso
(Descartes é conservador em política e coloca as "verdades da fé" ao abrigo
de seu método).

b) O método é racionalista porque a evidência de que Descartes
parte não é, de modo algum, a evidência sensível e empírica. Os sentidos nos
enganam, suas indicações são confusas e obscuras, só as idéias da razão são
claras e distintas. O ato da razão que percebe diretamente os primeiros
princípios é a intuição. A dedução limita-se a veicular, ao longo das belas
cadeias da razão, a evidência intuitiva das "naturezas simples". A dedução
nada mais é do que uma intuição continuada.

A Metafísica

No Discurso sobre o Método, Descartes pensa sobretudo na ciência.
Para bem compreender sua metafísica, é necessário ler as Meditações.

1.°  Todos sabem que Descartes inicia seu itinerário espiritual com
a dúvida. Mas é necessário compreender que essa dúvida tem um outro
alcance que a dúvida metódica do cientista. Descartes duvida voluntária e
sistematicamente de tudo, desde que possa encontrar um argumento, por
mais frágil que seja. Por conseguinte, os instrumentos da dúvida nada mais
são do que os auxiliares psicológicos, de uma ascese, os instrumentos de um
verdadeiro "exército espiritual". Duvidemos dos sentidos, uma vez que eles
freqüentemente nos enganam, pois, diz Descartes, nunca tenho certeza de
estar sonhando ou de estar desperto! (Quantas vezes acreditei-me vestido
com o "robe de chambre", ocupado em escrever algo junto à lareira; na
verdade, "estava despido em meu leito").

Duvidemos também das próprias evidências científicas e das
verdades matemáticas! Mas quê? Não é verdade  quer eu sonhe ou esteja
desperto  que 2 + 2 = 4? Mas se um gênio maligno me enganasse, se Deus
fosse mau e me iludisse quanto às minhas evidências matemáticas e físicas?
Tanto quanto duvido do Ser, sempre posso duvidar do objeto (permitam-me
retomar os termos do mais lúcido intérprete de Descartes, Ferdinand Alquié).

2. °  Existe, porém, uma coisa de que não posso duvidar, mesmo
que o demônio queira sempre me enganar. Mesmo que tudo o que penso seja
falso, resta a certeza de que eu penso. Nenhum objeto de pensamento resiste
à dúvida, mas o próprio ato de duvidar é indubitável. "Penso, cogito, logo
existo, ergo sum". Não é um raciocínio (apesar do logo, do ergo), mas uma

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

intuição, e mais sólida que a do matemático, pois é uma intuição metafísica,
metamatemática. Ela trata não de um objeto, mas de um ser. Eu penso, Ego
cogito (e o ego, sem aborrecer Brunschvicg, é muito mais que um simples
acidente gramatical do verbo cogitare). O cogito de Descartes, portanto, não
é, como já se disse, o ato de nascimento do que, em filosofia, chamamos de
idealismo (o sujeito pensante e suas idéias como o fundamento de todo
conhecimento), mas a descoberta do domínio ontológico (estes objetos que
são as evidências matemáticas remetem a este ser que é meu pensamento).

3. °  Nesse nível, entretanto, nesse momento de seu itinerário
espiritual, Descartes é solipsista. Ele só tem certeza de seu ser, isto é, de seu
ser pensante (pois, sempre duvido desse objeto que é meu corpo; a alma, diz
Descartes nesse sentido, "é mais fácil de ser conhecida que o corpo").

É pelo aprofundamento de sua solidão que Descartes escapará
dessa solidão. Dentre as idéias do meu cogito existe uma inteiramente
extraordinária. É a idéia de perfeição, de infinito. Não posso tê-la tirado de
mim mesmo, visto que sou finito e imperfeito. Eu, tão imperfeito, que tenho a
idéia de Perfeição, só posso tê-la recebido de um Ser perfeito que me
ultrapassa e que é o autor do meu ser. Por conseguinte, eis demonstrada a
existência de Deus. E nota-se que se trata de um Deus perfeito, que, por
conseguinte, é todo bondade. Eis o fantasma do gênio maligno exorcizado. Se
Deus é perfeito, ele não pode ter querido enganar-me e todas as minhas
idéias claras e distintas são garantidas pela veracidade divina. Uma vez que
Deus existe, eu então posso crer na existência do mundo. O caminho é
exatamente o inverso do seguido por São Tomás. Compreenda-se que, para
tanto, não tenho o direito de guiar-me pelos sentidos (cujas mensagens
permanecem confusas e que só têm um valor de sinal para os instintos do ser

vivo). Só posso crer no que me é claro e distinto (por exemplo: na matéria, o
que existe verdadeiramente é o que é claramente pensável, isto é, a extensão
e o movimento). Alguns acham que Descartes fazia um circulo vicioso: a
evidência me conduz a Deus e Deus me garante a evidência! Mas não se trata
da mesma evidência. A evidência ontológica que, pelo cogito, me conduz a
Deus fundamenta a evidência dos objetos matemáticos. Por conseguinte, a
metafísica tem, para Descartes, uma evidência mais profunda que a ciência. É
ela que fundamenta a ciência (um ateu, dirá Descartes, não pode ser
geômetra!).

4. °  A Quinta meditação apresenta uma outra maneira de provar a
existência de Deus. Não mais se trata de partir de mim, que tenho a idéia de
Deus, mas antes da idéia de Deus que há em mim. Apreender a idéia de
perfeição e afirmar a existência do ser perfeito é a mesma coisa. Pois uma
perfeição não-existente não seria uma perfeição. É o argumento ontológico, o
argumento de Santo Anselmo que Descartes (que não leu Santo Anselmo)
reencontra: trata-se, ainda aqui, mais de uma intuição, de uma experiência
espiritual (a de um infinito que me ultrapassa) do que de um raciocínio.

Leibniz

Racionalismo e Finalismo

Os Fundamentos da Monadologia

O Melhor dos Mundos Possíveis

Vida e Obra

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA

Gottfried Wilhelm Leibniz nasceu em Leipzig, a 1° de julho de 1646,
filho de um professor de filosofia moral. Desde muito cedo, teve contato, na
biblioteca paterna, com filósofos e escritores antigos, como Platão (428-347
a.C.), Aristóteles (384-322 a.C.) e Virgílio (c. 70-19 a.C.), e com a filosofia e a
teologia escolásticas. Aos quinze anos começou a ler Bacon (1561-1626),
Hobbes (1588-1679), Galileu (1564-1642) e Descartes (1596-1650), passando
a dedicar-se às matemáticas. Ainda aluno da Universidade de Leipzig,
escreveu, em 1663, um trabalho sobre o princípio da individuação; depois foi
para Iena, a fim de seguir os cursos do matemático Ehrard Wigel. Desde essa
época, Leibniz se preocupou em vincular a filosofia às matemáticas
escrevendo uma Dissertação Sobre a Arte Combinatória. Nesse trabalho
procurou encontrar para a filosofia leis tão certas quanto as matemáticas e
esboçou as premissas do cálculo diferencial, que inventaria ao mesmo tempo
que Newton. Por outro lado, no estudo da lógica aristotélica, Leibniz
encontrou os elementos que o levaram à idéia de uma análise combinatória
filosófica, vislumbrando a possibilidade de cria um alfabeto dos pensamentos
humanos, com o qual tudo poderia ser descoberto.

Nos anos seguintes, doutorou-se em direito na Universidade de
Altdorf e, em Nuremberg, filiou-se à Sociedade Rosa-Cruz. O ingresso nessa
Sociedade valeu-lhe uma pensão e, ao que tudo indica, permitiu que ele se
iniciasse na vida política.

A partir de então, a vida de Leibniz, segundo o historiador
Windelband, apresenta muitas semelhanças com a de Bacon: Leibniz sabia
mover-se agilmente em meio às intrigas da corte a fim de realizar seus
grandes planos, sendo dotado também daquela "ardente ambição que levara
Bacon à ruína".

a idéia de velocidade que fundamentava seu cálculo. Pretendia convencer o rei Luís XIV a conquistar o Egito. sendo. Em 1676. a Alemanha O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Leibniz. introduzindo a noção de quantidades infinitamente pequenas. Por causa desse trabalho. o método das fluxões. No mesmo ano torna-se bibliotecário- chefe em Hanôver. Huygens (1629- 1695). cidade na qual passaria ao restantes quarenta anos de sua vida. com quem discute problemas metafísicos. em 1672. no entanto. Em 1667. foi nomeado conselheiro da Alta Corte de Justiça de Mogúncia. situando-se entre os maiores matemáticos da época. assim. que. Em 1670. portanto. desde 1665. parte de uma colocação metafísica. a Turquia e protegendo a Europa das invasões "bárbaras". Fora. Em Newton. Com esse título. Esperava. precedido por Newton. Em 1676. durante três anos. embora sob ponto de vista diferente. o que o leva a empregar o algoritmo. já inventara. Leibniz encontra-se em Amsterdam com Espinosa. Leibniz descobriu o cálculo diferencial. Leibniz dedicou ao príncipe-eleitor de Mogúncia um trabalho no qual mostrava a necessidade de uma filosofia e uma aritmética do direito e uma tabela de correspondência jurídica. ao contrário. foi convidado para fazer a revisão do "corpus juris latini". aniquilando. Entrou em contato com alguns dos mais conhecidos intelectuais da época: Arnauld (1612-1694). mas os três anos de estada em Paris não lhe foram inúteis. desviar as atenções do rei e evitar que ele utilizasse sua potência militar contra a Alemanha. as variações das funções são comparadas ao movimento dos corpos. Leibniz foi encarregado de uma missão em Paris. Saiu de Hanôver apenas para percorrer. um novo método de cálculo. Seu projeto foi rejeitado. desse modo.

Sobre as Noções de Direito e de Justiça. Discurso de Metafísica. Correspondência com Clarke. realizou seus principais trabalhos filosóficos. Leibniz deixou uma obra extensa. científicos e filosóficos de seu tempo. Sobre a Liberdade e Correspondência com Padre Bosses. Racionalismo e Finalismo Apesar de sua intensa e agitada vida pública. com a morte de sua protetora. Leibniz encontrou diminuído seu prestígio. Dentre seus escritos destacam-se: Sobre a Arte Combinatória. De volta a Hanôver. um plano de organização civil e moral para o país. Monadologia. . em que trata de quase todos os assuntos políticos. Sobre o Verdadeiro Método em Filosofia e Teologia. Em seguida. onde conheceu o príncipe Eugênio de Savóia. O que é Idéia.e a Itália. esteve em Viena. o Grande. Nessa época. Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. Cálculo Diferencial e Integral. realizando pesquisas em bibliotecas e arquivos destinadas a fundamentar suas missões diplomáticas. Sobre a Origem Radical das Coisas. Considerações Sobre o Princípio da Vida. Sobre a Sabedoria. Leibniz veio a falecer a 14 de novembro de 1716. Em 1711. a princesa Sofia. Característica Universal. viajou para a Rússia a fim de propor ao czar Pedro. ao qual dedicaria a Monadologia. apesar de ter sido um dos maiores responsáveis para que Hanôver se transformasse em eleitorado e para que fosse criada a Academia de Ciências de Berlim. Ensaio de Teodicéia. Correspondência com Arnauld. Relativamente esquecido e isolado dos assuntos públicos.

espécie de cálculo filosófico que lhe permitiria encontrar o verdadeiro conhecimento e desvendar a natureza das coisas. ao contrário. fazendo todas as conciliações possíveis. Outra parte (a volumosíssima correspondência e os trabalhos publicados somente após sua morte) revela – segundo Russel e outros – um pensador bastante diferente do Leibniz público Acrescentando-se a essa dupla face de seus escritos o fato de que muitos deles sequer foram concluídos. Descartes forneceu-lhe o ideal de uma explicação matemática do mundo. De qualquer modo – e embora Leibniz tenha criado um amplo sistema de idéias dotado de "múltiplas entradas" –. Parte considerável da obra de Leibniz e constituída por escritos de circunstância. De Aristóteles e da escolástica. Leibniz pretendia lançar as bases de uma combinatória universal. pode-se tomar para ponto de partida da compreensão da sua filosofia dois temas provenientes de fontes distintas: um da filosofia de Descartes. acontece para cumprir determinados fins. outro de Aristóteles e da escolástica medieval. a partir dessa idéia. Para Leibniz. a vontade do Criador (na qual se fundamenta o finalismo) submete-se ao Seu entendimento O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . tudo aquilo que acontece. com os quais – segundo muitos historiadores – tentava apenas obter favores dos governantes. ou seja. torna-se bastante difícil uma interpretação da filosofia leibniziana que não dê margem a dúvida e não suscite polêmica. Leibniz conservou a concepção segundo a qual o universo está organizado de maneira teleológica. aparecendo unificadas na concepção de Deus. Dilthey. As duas doutrinas foram sintetizadas pela filosofia de Leibniz. considera que Leibniz perseguia um sincero ideal de síntese de todos os conhecimentos e das diferentes confissões religiosas de seu tempo.

O critério do melhor é sobretudo moral. portanto. portanto. O fim da produção das coisas é a vontade justa. possível sua existência). com ele Leibniz pretende demonstrar que o mal é a simples sombra necessária do . mas faz existir o melhor desses mundos. a Segunda é dinâmica e moral. é a razão necessária ou princípio de não- contradição. além da causa eficiente que produz as coisas segundo o princípio de razão (não-contadição e suficiência). o mundo criado por Deus estaria impregnado de racionalidade. além de explicado ou demonstrado não ser contraditório (e sendo. O finalismo é que sustenta o princípio do melhor: Deus calcula vários mundos possíveis. houver uma causa que a faça existir. A primeira funda-se no caráter não-contraditório daquilo que é explicado ou demonstrado. é a razão suficiente.(racionalismo). que deseja essa produção. Conseqüentemente. cumprindo objetivos propostos pela mente divina. além de não ser contraditória. Para Leibniz. pois estas constituem Sua natureza imutável. A Segunda exigência consiste em que. Essa síntese entre o racionalismo cartesiano e o finalismo aristotélico apresenta como núcleo uma série de princípios de conhecimento. a coisa em questão também existe realmente. que uma coisa só pode existir necessariamente se. O princípio de razão consiste em submeter toda e qualquer explicação ou demonstração a duas exigências. A primeira é de tipo matemático e mecânico. boa e perfeita de Deus. intervém também nessa produção a causa final. O primeiro desses princípios é o de razão. O princípio de razão afirma. Deus não pode romper Sua própria lógica e agir sem razões. dos quais se poderiam deduzir uma concepção do mundo e uma ética dotada inclusive de implicações políticas.

uma folha de papel em branco.bem. segundo a qual a origem das idéias encontra-se na experiência. por exemplo. Leibniz faz com que intervenham também os princípios da continuidade e dos indiscerníveis. a experiência só fornece a ocasião para o conhecimento dos princípios inatos ao intelecto: "Não se deve imaginar que se possa ler na alma. O finalismo sustenta. Para Leibniz. assim como não há vazios no espaço. ao contrário. assim também não existem descontinuidades na hierarquia dos seres. essas eternas leis da razão. da continuidade e dos indiscerníveis são considerados. O princípio da continuidade afirma que a natureza não dá saltos. que as plantas não passam de animais imperfeitos. Os princípios do melhor. A diferença é de essência e manifesta-se no plano visível das próprias coisas. da não-contradição. embora apenas virtualmente. mas é bastante que as descubramos em nós por um esforço de atenção. portanto. Leibniz afirma. O princípio dos indiscerníveis daria conta da multiplicidade e individualidade das coisas existentes. Leibniz rejeita a teoria empirista de Locke (1632-1704). por Leibniz. como o édito do pretor é lido em seu caderno. Além dos princípios de razão (não-contadição e suficiência) e do princípio do melhor. apenas uma "tabula rasa". que dão conta da produção das coisas. mas intrínseca. constitutivos da própria razão humana e. Leibniz afirma que não há no universo dois seres idênticos e que sua diferença não é numérica nem espacial ou temporal. Nos Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano. isto é. inatos. uma vez que as ocasiões O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . cada ser é em si diferente de qualquer outro. da razão suficiente. sem esforços e sem pesquisa. desse modo. o otimismo leibniziano do melhor dos mundos possíveis.

Leibniz constrói uma concepção dinâmica. a apetição e a expressão. A apercepção é a capacidade que a mônada espiritual tem de auto-representar-se. As notas que caracterizam as mônadas leibnizianas são a percepção. Nesse sentido. de refletir. Enquanto Descartes formula uma concepção geométrica e mecânica dos corpos. a apercepção. a experiência indica que o que se conserva num ciclo de movimento não é – como pensava Descartes – a quantidade do movimento. Essa noção. por sua resistência e impenetrabilidade. a mônada é a consciência. contudo. isto é. Leibniz chega à idéia de que o universo é composto por unidades de força. A apetição . mas errariam ao esquecer o papel do espírito. mas a quantidade de força viva". Leibniz completa a fórmula de Locke – "Nada há no intelecto que não tenha passado primeiro pelos sentidos" – com o adendo "a não ser o próprio intelecto". as mônadas. Leibniz chega também à noção de mônada mediante a experiência interior que cada indivíduo tem de si mesmo e que o revela como uma substância ao mesmo tempo una e indivisível. não se esgota na adição do atributo força ao conceito da matéria. Pela percepção as mônadas representam as coisas do universo. cada uma de per si espelha o universo todo. revelam-se não como extensão mas como forças. Os Fundamentos da Monadologia Os princípios do conhecimento formulados por Leibniz levaram-no a uma concepção do mundo oposta à cartesiana. Os empiristas teriam razão ao afirmar que as idéias surgem do contato com o mundo sensível. explica os seres não como máquinas que se movem. A partir da noção de matéria como essencialmente atividade.são fornecidas pelos sentidos". noção fundamental de sua metafísica. Por isso. formulado por Descartes. mas como forças vivas: "Os corpos materiais. por outro lado.

O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . de alguma forma. que se deve ouvir mesmo sem ter consciência. com exceção de Deus. a partir de si mesmas. toda mônada. "É verdade". é necessariamente finita.. "que não nos apercebemos distintamente de todos os movimentos de nosso corpo. esse grande ruído que se escuta perto do mar". jamais havendo consciência clara de todas as impressões. não é possível "que nossa alma (mônada superior) possa atingir tudo em particular". para Leibniz. a fim de poder me aperceber daquilo que resulta de seu conjunto. a mônada é um ponto de vista. Dessa forma. Assim. como o ruído do choque de duas gotas de água. Isto se deve ao fato de que o universo é múltiplo e infinito. Cada representação por parte das mônadas é um reflexo obscuro. passando de uma percepção para outra. A percepção consciente (apercepção) resulta do conjunto das "pequenas percepções". Portanto. Isso explicaria a conservação das lembranças. mas é preciso que eu tenha alguma percepção do movimento de cada vaga de um rio.consiste na tendência de cada mônada de fugir da dor e desejar o prazer. pela mudança de todos os outros. as mônadas.). é afetado. diz Leibniz.. O corpo humano. mas têm o poder interno de exprimir o resto do universo. não tendo "portas sem janelas". Finalmente. não recebem seus conhecimentos de fora. isto é. todos os seus movimentos correspondem certas "percepções" ou pensamentos mais ou menos confusos da alma. o trabalho da imaginação nos "bastidores da consciência". isto é. os estados sucessivos da alma estariam ligados uns aos outros e a todo universo. a alma também tem algum pensamento de todos os movimentos do universo. mesmo quando esquecidos no estado de vigília. como por exemplo o da linfa (. enquanto toda a substância. assim como a realidade dos sonhos.

assume feição diferente da que possuía em Descartes: desliga-se da de nexo linear e passa a se vincular à noção de "situação" (as situações resultantes das diversas séries que se entrecruzam). de uma mathesis universalis. O sistema todo. pertencente apenas aos espíritos enquanto não são apenas espelhos. cada ponto de uma das séries é definido. o sistema de Leibniz estrutura-se como um conjunto de múltiplas séries que convergem e se entrecruzam. A noção de ordem. com consciência e vontade. O inconsciente seria inerente a todas as substâncias criadas e seus diferentes graus seriam paralelos aos graus de perfeição dessas substâncias. Do ponto de vista lógico. sua posição. conduz à possibilidade de tradução de uma ordem em outra. por conseguinte. revive o modelo estóico: o . Em Leibniz. Leibniz afirma ainda que existem dois tipos de inconscientes: o inconsciente de percepção. O pluralismo das séries convergentes que constituem o universo pode assim apresentar-se como pluralismo conciliado e harmônico. e o inconsciente da imitação. assim estruturado. em Leibniz. A razão dessa diferença. por seu lugar. a continuidade existente entre os seres não anula a diferença de natureza entre as simples mônadas e os espíritos. O Melhor dos Mundos Possíveis O racionalismo leibniziano tende à constituição de um saber globalizador. próprio das simples mônadas enquanto são apenas "espelhos do universo". o conjunto todo organiza-se numa topologia. encontra-se no fato de que as mônadas não possuem o mesmo grau de perfeição: acima das "mônadas nuas" (corpos brutos que só têm percepções inconscientes e apetições cegas) existem "mônadas sensitivas" (animais dotados de apercepções e desejos) e as "mônadas racionais". dentro da complexa teia. mas espelhos dotados de reflexão.

apenas como uma não-perfeição. deixando em seguida que seus mecanismos operem sozinhos. apenas como uma não-perfeição. O mal metafísico é a imperfeição inerente à própria essência da criatura. A doutrina leibniziana da harmonia preestabelecida sustenta que Deus cria as mônadas como se fossem relógios. a cada instante. Graças a essa harmonia preestabelecida. afirmando inicialmente que o mal se manifesta de três modos: metafísico. os atos de cada mônada foram antecipadamente regulados de modo a estarem adequados aos atos de todas as outras. Ao mesmo tempo. criando-as de tal modo que cada uma se desenvolve como se estivesse só. seria o próprio Deus. organiza-os com perfeição de maneira a marcarem sempre a mesma hora e dá-lhes corda a partir do mesmo instante. todavia. físico e moral. isso constituiria a harmonia preestabelecida. exatamente ao de todas as outras. seu desenvolvimento. assim. um não-ser. Deus teria colocado em cada mônada. retomando Leibniz a concepção neoplatônica e agostiniana. Coloca-se então a questão: como explicar a presença do mal no mundo? Leibniz tentou responder a esse problema. O mal metafísico seria a fonte do mal moral. assim. e deste decorreria o mal físico. pois se ela não fosse imperfeita. corresponde. os pontos de vista de cada mônada sobre o universo concordariam entre si. Deus escolhe o melhor dos mundos dentre todos aqueles que se apresentam como possíveis. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Assim. todas as suas percepções. Para Leibniz. cujas partes convivem numa harmonia natural e onde tudo é análogo a tudo. A imperfeição metafísica original de definiria. no instante da criação. metafísica original se definiria.universo é concebido à semelhança de um organismo pleno.

podendo ser considerado. uma conseqüência física da limitação original e uma conseqüência ética. ou mecânica metafísica. mas não de seus defeitos. Não se deveria. formulada por Leibniz. Maior?" A teoria do Mal. de tal forma que o mundo comporta o máximo de bem e o mínimo de mal. Deus autoriza o sofrimento porque este é necessário para a produção de um Bem Superior: "Experimenta-se suficientemente a saúde. isto é. que a alma experimenta por causa de sua imperfeição. tem percepções inadequadas e se deixa envolver pelo confuso. exerce-se uma certa matemática divina. ao mesmo tempo. mas uma substância imperfeita não é capaz de aprender o todo. sem possibilidade de erro. isto é. concluiria assim sua tentativa de síntese sistemática de uma filosofia que concebe o mundo como rigorosamente racional e como o melhor dos mundos possíveis. assim também Deus é a causa da perfeição da Natureza. punição do pecado. Deus escolheu o menor dos males. O mal metafísico é a raiz do mal moral. Em decorrência da harmonia preestabelecida. Na própria origem das coisas. porque Deus proporciona a todos as mesmas graças. mas cada um pode se beneficiar delas de acordo com sua limitação original. responsabilizar o criador pela existência do mal. pois aquilo que é perfeito pode contemplar o Bem. Algumas . tão rigorosa quanto as dos máximos e mínimos matemáticos ou as leis do equilíbrio. Segundo Leibniz. diz Leibniz. Leibniz afirma que. responsável pela determinação do máximo de existência. Ao produzir o mundo tal como ele é. assim como a correnteza é a causa do movimento do barco. contudo. mas não de seu atraso. sem nunca se ter estado doente? Não é preciso que um pouco de Mal torne o Bem sensível. a dor física seria expressão da dor metafísica. O mal físico é entendido por Leibniz como conseqüência do mal moral.

. Enalteceu ele a experiência e o método dedutivo de tal modo. no entanto. ao menos no final de seus períodos. como a reta.passagens das obras do próprio Leibniz. ou. como a espiral. se existem aquelas que realizam períodos no final dos quais percebem não ter ganho nem perdido. Falta-lhe.Bacon Vida e Obras Os Ensaios O Pensamento: A "Instauratio Magna" O "Novum Organum" Francis Bacon O iniciador do empirismo é Francis Bacon. a consciência crítica do empirismo. O Empirismo . outras que voltam e avançam ao mesmo tempo. que foram aos poucos conquistando os seus sucessores O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . enfim. como as ovais". outras.. ou se existem também aquelas que perdem e recuam sempre. da mesma forma que existem linhas que avançam sempre. ou avançam depois de terem recuado. finalmente. deixam uma réstia de dúvida sobre seu otimismo: "Pode-se duvidar se o mundo avança sempre em perfeição ou se avança e recua por períodos. (. contudo. outras que voltam sem avançar ou recuar. como a circular. que o transcendente e a razão acabam por desaparecer na sombra.) Pode-se pois questionar se todas as criaturas avançam sempre. que recuam depois de terem avançado.

diz Maucaulay. Tornou-se instrutora do filho e não poupou esforços para que ele tivesse instrução. Entretanto. e não tinha dificuldade em se corresponder em grego com bispos. antes sob a rainha Isabel. das formas. É uma posição filosófica que apela para a metafísica tradicional. membro do Conselho particular em 1616. . que foi tesoureiro-mor de Elizabeth e um dos homens mais poderosos da Inglaterra. cunhada de sir William Cecil. lorde Burghley. Bacon freqüentou a Universidade de Cambridge. O pai dela tinha sido o tutor-chefe do rei Eduardo VI. ela mesma era lingüista e teóloga. continua a considerar a filosofia como esclarecedora da essência da realidade.e discípulos até Hume. sustentáculo e causa dos fenômenos sensíveis. aristotélica e tomista. e viveu também em Paris. sob Jaime I.mais ou menos logicamente . acabada e consciente de si mesma. e. Ademais. Vida e Obras Francis Bacon nasceu no dia 22 de janeiro de 1561 na York House." A mãe de Bacon foi lady Anne Cooke. que nos primeiros vinte anos do reinado de Elizabeth tinha sido o Guardião do Sinete.o mundo transcendente e cristão. chanceler do reino em 1618. Albano. tanto mais quanto esta é menos elaborada. Mas sir Nicholas não era um homem comum. "foi ofuscada pela do filh". subindo até aos mais altos cargos: advogado geral em 1613. Foi agraciado por Jaime I com os títulos de Barão de Verulamo e Visconde de S. antes. "A fama do pai". residência de seu pai sir Nicholas Bacon. Londres. e o que acontecerá a muitos outros pensadores do empirismo e do racionalismo: isto é. Bacon continua afirmando . Começou a sua carreira de homem político e jurista. acontece em Bacon o que aconteceu a muitos pensadores da Renascença. depois. a metafísica tradicional persiste neles todos histórica e praticamente ao lado da nova filosofia. grega e escolástica.

II - Novum organum scientiarum. Sua esperança era de ser filósofo e estadista. passo a passo com a sua subida para o poder político. Era seu lema que se vivia melhor na vida oculta . Faleceu em 1626." O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Mas terminou apenas duas. Teve uma inteligência muito esclarecida. embora desconfiasse de que essa dupla direção de sua vida fosse encurtar o seu alcance e reduzir suas realizações. retirou-se para as suas terras. da nova filosofia. trata-se de pesquisas gnosiológicas. segundo o espírito positivo e prático da mentalidade anglo-saxônia. Perdoado pelo rei. deixando sobre o resto esboços e fragmentos.Entretanto foi acusado de concussão e condenado pelo Parlamento a uma multa avultuada. Como se vê pelos títulos. É quase inacreditável que o imenso saber e as realizações literárias desse homem fossem apenas os incidentes e as digressões de uma turbulenta carreira política. convencido da sua missão de cientista. críticas e metodológicas. As duas partes acabadas são precisamente: I . Os Ensaios Sua ascensão parecia tornar realidade os sonhos de Platão de um rei-filósofo. Não conseguia chegar a uma conclusão sobre se gostava mais da vida contemplativa ou da ativa. vasta síntese que deveria ter compreendido seis grandes partes.bene vixit qui bene latuit. "É difícil dizer". como Sêneca. escreve ele. que deveria dar ao homem o domínio da realidade. A obra principal de Bacon é a Instauratio magna scientiarum. e mais ainda pelo conteúdo. também. para lançar as bases lógicas da nova ciência.De dignitate et argumentis scientiarum. dedicando- se inteiramente aos estudos. e "se a mistura de contemplações com uma vida ativa ou o retiro inteiramente dedicado a contemplações é o que mais incapacita ou prejudica a ment. Porque. Bacon estivera escalando os píncaros da filosofia.

"Meu elogio será dedicado à própria mente. e descreve a si mesmo como. "Dedicar-se em demasia aos estudos é indolência. fazer julgamentos seguindo inteiramente suas regras é o capricho de um scholar. contra a inclinação de seu gênio" (isto é caráter). o entusiasmo do trabalho pela filosofia nos obriga a uma citação. então. Não que Bacon tivesse. em palavras que lembram Sócrates. e que o conhecimento não aplicado em ação era uma pálida vaidade acadêmica. felicidade . obtida graças à observação.isto é.e coloca aquela ênfase na experiência e nos resultados que distingue a filosofia inglesa. ele escreve: "sem filosofia. são as nuvens do erro que se transformam nas tempestades das perturbações. A mente é o homem. apenas. essas avaliações desproporcionadas. de um verdadeiro e natural prazer do qual não há saciedade? Não é só esse conhecimento que livra a mente de todas as perturbações? Quantas coisas existem que imaginamos não existirem? Quantas coisas estimamos e valorizamos mais do que são? Essas vãs imaginações." Eis uma nova nota que marca o fim da escolástica . "um homem naturalmente mais propenso à literatura do que a qualquer outra coisa. Quase que a sua primeira publicação recebeu o título de O Elogio do Conhecimento (1592).) Os homens astutos condenam os estudos. (..) Não são os prazeres das afeições maiores do que os prazeres dos sentidos. "a vida ativa". os homens simples os admiram.. por um instante.. um homem é apenas aquilo que ele sabe. deixado de amar os livros e a meditação. o divórcio entre o conhecimento e o uso e a observação .Achava que os estudos não podiam ser um fim ou a sabedoria por si sós. não quero viver". e os homens sábios se utilizam deles. e culmina no pragmatismo.. (. Existirá. e levado por algum destino. afinal de contas. e o conhecimento é a mente. e não são os prazeres do intelecto maiores do que os prazeres das afeições? Não se trata. usá-los em demasia como ornamento é afetação.

Bacon abomina os recheios e detesta desperdiçar uma palavra. produzir efeitos dignos e dotar a vida do homem com uma infinidade de coisas úteis?" Sua mais bela produção literária. o conhecimento da verdade. ele dá todos os graus de honra a realizações políticas e militares. e alguns poucos para serem mastigados e digeridos".igual à possibilidade da mente do homem elevar-se acima da confusão das coisas de onde ele possa ter uma atenção especial para com a ordem da natureza e o erro dos homens? De contentamento e não de benefício? Será que não devemos perceber tanto a riqueza do armazém da natureza quanto a beleza de sua loja? Será estéril a verdade? Não poderemos. ele nos oferece uma infinita riqueza numa pequena frase. que é o elogio a ela. tão admiravelmente preparada e temperada. a destilada O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Isto é. Mas no ensaio Da Verdade. sem dúvida. No Ensaio sobre a Honra e a Reputação. mostram- no ainda indeciso entre dois amores. Raramente se encontrará uma refeição tão substanciosa. em um prato tão pequeno. se soubermos escolher os nossos livros. através dela. envenenado e afogado. "conversamos com os sábios. uma porção infinitesimal dos oceanos e cataratas de tinta nos quais o mundo é diariamente banhado. Não há dúvida de que os Ensaios devem ser incluídos entre os poucos livros que merecem ser mastigados e digeridos. todos esses grupos formam. que é gozá-la. cada um desses ensaios fornece. como na ação conversamos com tolos". nenhum a literárias e filosóficas. são o bem soberano das naturezas humanas. outros para serem engolidos. a política e a filosofia. os Ensaios (1597-1623). "Certos livros são para serem provados"." Nos livros. em uma ou duas páginas. que é namorá-la ou cortejá-la. ele escreve: "A indagação da verdade. e a crença na verdade.

o que provoca transtornos desconhecidos. compacto mas refinado. porque a experiência da idade em coisas que estejam ao alcance dessa idade os dirige.. abraçam mais do que podem segurar. e mais aptos para novos projetos do que para atividades já estabelecidas. os maltrata.) Os jovens. Mas a sua riqueza no que se refere a metáforas é caracteristicamente elizabetana e reflete a exuberância da Renascença.. (. perseguem absurdamente alguns princípios com que toparam por acaso. não se importam em "(isto é. No ensaio "Da Juventude e da Idade" ele condensa um livro em um parágrafo. arriscam-se muito pouco. mas em coisas novas. constituem o melhor alimento intelectual. Os Ensaios são como um alimento rico e pesado. mas se contentam .. arrependem-se cedo demais e raramente levam o empreendimento até o fim. alegorias e alusões caem como chicotes sobre os nossos nervos e acabam por nos exaurir.sutileza de uma mente de mestre sobre um importante aspecto da vida. É um estilo como o do vigoroso Tácito.. porque ali se acha uma linguagem de tão alta qualidade na prosa quanto é a de Shakespeare em verso. mais aptos para a execução do que para o assessoramento. nenhum homem. se a matéria ou o estilo. A excessiva sucessão dessas comparações constitui o único defeito do estilo de Bacon: as intermináveis metáforas. na literatura inglesa.) Os homens maduros fazem objeções demais. voam para o fim sem consideração para com os meios e os graus. "Os jovens são mais aptos para inventar do que para julgar. é tão fértil em comparações significativas e substanciosas. demoram- se demais em consultas. que não pode ser digerido em grandes quantidades de uma só vez. na conduta e na administração dos atos. em como)" inovar. mas tomados quatro ou cinco de cada vez. agitam mais do que podem acalmar. e na verdade uma parte de sua concisão se deve a uma habilidosa adaptação do idioma e do frasear latinos. (. É difícil dizer o que é mais excelente.

A monarquia é a melhor forma de governo. Bacon quer um forte poder central. deplora o crescimento da indústria por considerar que isso deixa os homens despreparados para a guerra. pensando que estes irão dedicar-se melhor àquilo para que estejam mais inclinados. porque as virtudes de qualquer um deles poderão corrigir os defeitos dos dois." Ele é um militarista confesso. que só o do meio fique a cargo de muitos. se chegar qualquer outro que tenha melhor ferro do que vós. Porque "o hábito é o principal magistrado da vida do homem. por ostentação. e lamenta uma paz prolongada. com o primeiro e o último ficando a cargo de uns poucos. Creso lhe mostrou o seu ouro): "Senhor. pois é nessa fase que eles são mais flexíveis. o hábito irá torná-lo agradável e fácil.escolha o melhor. mas em geral. Não há dúvida de que é bom forçar o emprego de ambos (. é bom o preceito" dos pitagóricos: "Optimum lege. reconhece a importância das matérias-primas: "Sólon disse a Creso (quando. apesar de tudo. "Se quiserdes presteza. crescer desordenadas e relaxadas. por aplacar o guerreiro que existe no homem. "Que os pais escolhem cedo as vocações e os cursos que pretendem que seus filhos sigam.com uma mediocridade de sucesso.. o debate. e em geral. e a conclusão" (ou execução). suave et facile illud faciet consuetudo" ." O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . a eficiência de um Estado varia com a concentração do poder. ele será dono de todo esse ouro.. e que não se concentrem demais no pensor dos filhos. é bom não contrariá-los. Apesar disso. "Deve haver três pontos essenciais nas atividades" do governo: "a preparação. assim. ou exame." A política dos Ensaios prega um conservantismo natural em que aspira ao governo.). que a juventude e a infância podem ter uma liberdade demasiada e." Bacon acha. É verdade que se os pendores ou a aptidão dos filhos forem extraordinários.

ao ofender um povo. mesmo. que na sua época praticamente não tinha acesso à educação. "a mais baixa das lisonjas é a lisonja do homem do povo".. porque é desesperador o caso em que aqueles que apóiam o governo estão cheios de discórdia e cisões.. e "Fócion compreendeu bem quando. e colocá-las longe uma das outras. da discussão) "com demasiada severidade deva ser o remédio para os problemas." O que Bacon quer é.. faz com que ele se una em uma casa comum. porque se o combustível estiver preparado.) A substância da sedição é de dois tipos: muita pobreza e muito descontentamento.) Tampouco se segue que a supressão dos rumores" (isto é.. Bacon não confia no povo. soldados desmobilizados. primeiro. as modificações de leis e costumes. e tudo aquilo que.) é afastar a causa. facções desesperadas. uma aristocracia para a administração." Uma receita melhor para evitar as revoluções é uma distribuição eqüitativa da riqueza: "O dinheiro é como o esterco. ou pelo menos semear a desconfiança entre elas. a opressão generalizada. perguntou o que tinha feito de errado." Mas isso não significa socialismo ou. é dividir seus inimigos e unir os amigos. (. porque muitas vezes o desprezo é a melhor forma de contê-los. uma pequena burguesia de proprietários rurais. (. é difícil dizer de onde virá a fagulha que irá atear-lhe fogo.) contrárias ao Estado. "Quando não há exemplos . "De modo geral. ao ser aplaudido pela multidão. "O meio mais seguro de evitar sedições (. o progresso de pessoas indignas. o cancelamento de privilégios. democracia. só é bom se for espalhado. (. é dividir e enfraquecer todas as facções (. Bacon dá alguns conselhos para se evitarem revoluções. e as providências para reprimi-los só fazem dar vida longa à especulação. as privações.) As causas e motivos das sedições são as inovações na religião. um rei-filósofo. os impostos. depois.. não é um dos piores remédios.." A sugestão de todos os líderes.. Tal como Aristóteles. e os que estão contra ele estão inteiros e unidos. claro.. estranhas.. e acima de todos..

A segunda diz respeito à arte de governar e às relações sociais e aos negócios. A primeira. do homem e da natureza. conhecimento racional de Deus. fantasia. espírito e matéria. A teologia natural de Bacon não exclui. 1) História tanto civil quanto natural. Antonio Pio e Aurélio. A primeira diz respeito ao homem todo." Ele cita Sêneca. e em ciência da sociedade humana (philosophia civilis). Acima das ciências O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . O Pensamento: A "Instauratio Magna" A Instauratio magna scientiarum deveria ter precisamente representado a reforma do saber. tão audazmente iniciado pela ciência e pela política da Renascença. Começa-se. por sua vez. baseada no respectivo predomínio das três faculdades que presidem à organização do saber: memória. Essa obra deveria ter abraçado a enciclopédia das ciências e compreendido também as técnicas.de que um governo não tenha prosperado com governos cultos. mas prescinde da revelação cristã e da religião positiva. que registra (memória) os dados de fato. portanto. com a classificação geral das disciplinas humanas. se divide em física especial ("que procura a causa eficiente e material"). Pertencem pois à física operativa as artes mecânicas. e sim no sujeito que conhece. isto é. Essa classificação é baseada não no objeto do conhecimento. razão. A ciência do homem divide-se em ciência do homem individual (philosophia humanitatis). 3) Ciência ou filosofia. e lançado o fundamento do regnum hominis. A filosofia natural ou física. elaboração imaginativa desses dados. segundo o novo ideal humano e prático e imanentista. deveria ter constituído a summa philosophica dos tempos novos. 2) Poesia. divide-se em especulativa e operativa. tinha a esperança de que aos nomes deles a posteridade acrescentasse o seu. e em metafísica ("que procura a causa final e a forma").

o Novum organum. e até o reconheceram como único procedimento inicial do conhecimento humano. 1) Idola tribus. muito mais a metafísica do que a ciência.e os divide em quatro grupos fundamentais. O "Novum Organum" Entretanto. pois. a ciência do ser em geral. o que transcende a experiência do que a experiência. Esta não é a ontologia tradicional. o verdadeiro porquê). e uma parte positiva ou construtiva. quando procura a conquista da ciência verdadeira. fantasmas . denominando-a philosophia prima. Como é sabido. Bacon põe uma ciência filosófica comum. portanto. o verdadeiro método da indução científica compreende uma parte negativa ou crítica. A parte negativa consiste. a saber. que deveria conter precisamente as regras para a construção da ciência da natureza. mas a ciência dos princípios comuns às várias ciências. e. o que interessa mais a Bacon não é esta ciência dos princípios comuns. Segundo Bacon. entretanto a eles interessavam muito mais as causas do que a experiência. 2) Idola specus (por alusão à caverna de Platão) determinados pelas disposições subjetivas de cada um.filosóficas particulares. os erroa da raça humana "fundamentados em a natureza como tal" (não se sabe. . o método indutivo. contra Aristóteles e a Escolática. e sim a ciência da natureza. Bacon reivindica. em alertar a mente contra os erros comuns. Na sua linguagem imaginosa Bacon chama as causas destes erros comuns.idola . Aristóteles e Tomás de Aquino afirmaram claramente este método. antes de tudo.

Para determinar de um modo certo as causas e as leis dos fenômenos . segundo um método preciso. dos fenômenos às essências . em que um determinado fenômeno aparece. Bacon passa a tratar da natureza positiva. desta maneira.isto é. pêso. aí O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . objeto da metafísica de Bacon. as formas das naturezas . Esta pesquisa. erros da praça. da genuína interpretação da natureza para dominá-la. o maior número possível de exemplos. os erros provenientes das escolas filosóficas. antes de tudo. provenientes do comércio social ou da linguagem imperfeita. depois enumera os casos que mais se assemelham às primeiras. nos casos em que o fenômeno não se manifesta. que substituem o mundo real por um mundo fantástico. isto é. em que. construtiva.bem conhecida pela filosofia tradicional . É evidente que nos casos onde uma determinada natureza ou fenômeno aparecem. para tanto. quer no mesmo objeto. etc. Mas. nas famosas tabulae baconianas. esta passagem das naturezas às formas. é mister conhecer as que Bacon chama de formas.Bacon recolhe. três espécies de registros ou tabelas: 1) tabelas de presença. quer em objetos diferentes.). Têm-se. por um jogo cênico. desconhecido dos predecessores. os princípios imanentes. calor. as essências ou causas formais. 2) tabelas de ausência. as formas são leis genéticas e organizadoras das naturezas.é determinada por Bacon. aí se encontrará também a sua causa e lei. o mesmo fenômeno não aparece. Enfim registra o aumentar ou o diminuir do fenômeno em questão. porém. objeto da física especial (luz. causa e lei da ação e da ordem das naturezas. 4) Idola theatri. isto é. 3) Idola fori. 3) tabelas de gradações. Desembaraçado o terreno destes erros. As naturezas são precisamente os fenômenos experimentais.

Hume O Método de Hume A Análise da Idéia de Causa O Ceticismo de Hume Hume e o Problema da Religião David Hume David Hume nasceu na Escócia. . averiguada pelas experimentações. Fez bons estudos no colégio de Edimburgo . diversos apenas por grandeza. em seguida transformado em universidade -. em virtude da qual se agrupam em determinados complexos. é mister estabelecê-la por hipótese. em Edimburgo em 1711. Hume pertencia a uma família abastada. O mundo material é constituído de corpúsculos. Estes corpúsculos são animados por uma força. portanto. e desta maneira pôr em evidência a causa. a princípio. atomista. qualitativamente idênticos. metodologia (empírica) é baseada em uma metafísica. aí aumentará ou diminuirá também a sua causa e lei. Essa gnosiologia. que constituem as formas baconianas.um dos melhores da Escócia. ter-se tabelas completas e isolar as naturezas simples.faltará também a sua causa e lei. mais precisamente. forma e posição. que será. A causa (forma) dos fenômenos (naturezas) será procurada. bastante semelhante à de Demócrito. em seguida. não sendo fácil. e nos casos onde o fenômeno aumenta ou diminui. uma física materialista e. com base nos fenômenos presentes na primeira tabela. O Empirismo .

era um cientista discípulo de Newton. De 1763 a 1765 ele é secretário da Embaixada em Paris e festejado no mundo dos filósofos. Seus Ensaios Morais e Políticos (1742) conhecem vivo sucesso. notadamente em La Flèche. isto é. aos vinte e três anos. uma volumosa História da Inglaterra (1754-1759) e uma História Natural da Religião (1757). O subtítulo de seu Tratado da Natureza Humana é. A obra obtém sucesso. Ele acabará por fazer uma bela carreira na diplomacia. seus Diálogos sobre a Religião Natural. nesse sentido. indispondo-se com ele em seguida. O jovem Hume. Hume se esforça por simplificar e vulgarizar a filosofia de seu tratado e publica então os Ensaios Filosóficos sobre o Entendimento Humano (1748). brilhantes. editado em Londres. Esse fracasso deu a Hume a idéia de escrever livros curtos. "já nasceu morta para a imprensa".cujo professor de "filosofia". Em 1766 ele hospeda Rosseau na Inglaterra. cujo título definitivo surgirá em edição seguinte (1758): Investigação (Inquiry) sobre o Entendimento Humano. que sonha tornar-se homem de letras e filósofo célebre. passa alguns anos na França. Stewart. mas não deixa de inquietar os cristãos. rapidamente renuncia aos estudos jurídicos e comerciais. Nesse meio tempo. em 1779. O Método de Hume Hume quis ser o Newton da psicologia. seu Tratado da Natureza Humana. onde compõe. A O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . publicou uma Investigação sobre os Princípios Morais (1751). Somente após sua morte (1776) é que foram publicados. ele é Secretário de Estado em Londres. bastante esclarecedor: "Uma tentativa de introdução do método de raciocínio experimental nas ciências morais. em 1739. de física e ciências naturais. e Hume vê lhe recusarem uma cadeira de filosofia na Universidade de Glasgow. diz-nos o autor. A obra. acessíveis ao público mundano. Em 1768.

mas. a noção de causalidade é muito enigmática porque. muito próxima da de Locke. o método de Hume pode ser apresentado de maneira mais moderna. Por . impressões de reflexão (emoções e paixões). de causas e efeitos etc. Que existe verdadeiramente no pensamento quando se discorre sobre isso? As quais impressões vividas correspondem todas essas palavras? Aquilo que Hume chama de impressão e que ele caracteriza pelos termos "vividness". Ao falar de fenomenologia contemporânea. ir da idéia à impressão consiste em apenas perguntar qual é o conteúdo da consciência que se oculta sob as palavras. não cessamos de ultrapassar a experiência imediata. aquilo que Bergson mais tarde denominará os dados imediatos da consciência e que os fenomenologistas denominarão a intuição originária ou o vivido. que se precisa redescobrir sob as palavras (no empirismo de Hume. Sua filosofia coloca. dos dados empíricos: impressões de sensação. "liveliness" é o pensamento atual. Para Hume. há que ver "antes o ódio ao verbalismo do que o preconceito do sensualismo"). Ele parte do princípio de que todas as nossas "idéias" são ópias das nossas "impressões". à intuição direta e concreta da idéia. isto é. Gaton Berger escrevia: "É preciso ir dos conceitos vazios. diz Laporte. exatamente como Hume nos ensina a retornar das idéias para as impressões". em nome desse princípio de causalidade. Fala-se de substância. pelos quais uma idéia é apenas visada. à primeira vista. também. A Análise da Idéia de Causa Aos olhos de Hume.análise psicológica do entendimento operada por Hume parece. sob o nome de "impressões". vivo. Não é este o ponto de vista tradicional do empirismo que vê na experiência a fonte de todo saber? Na realidade. a todo momento afirmamos mais do que vemos. de princípios.

na esperança de que sua boa sorte irá orientá-las no sentido do objeto de suas buscas". de início. Todo raciocínio experimental. vasculham todos os lugares vizinhos sem visão nem propósitos determinados. tiro "de um objeto uma conclusão que o ultrapassa".exemplo. então. afirmo que a água que acabo de pôr no fogo vai ferver. que o fenômeno A é seguido do fenômeno B. Vejamos para onde nos conduzirá essa busca filosófica. portanto. É certo que posso repetir a experiência e que. De onde me vem esse princípio? A qual impressão corresponde essa idéia? A "investigação" filosófica vai se apresentar aqui como uma pesquisa em todas as direções: "Nós devemos proceder como essas pessoas que. pelo qual do presente se conclui o futuro (a água vai ferver. a experiência externa: vejo que o movimento de uma bola de bilhar é seguido do movimento de outra bola com que a primeira se chocou. ao procurarem um objeto que lhes está oculto e quando não o encontram no lugar que esperavam. o fenômeno B se segue ao O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Hume não encontrará. em nome do princípio de causalidade (as mesmas causas produzem os mesmos efeitos ou o aquecimento da água é causa da ebulição). repousa nesse princípio de causalidade.). Mas o que não vejo é o porquê dessa sucessão. prevejo a ebulição dessa água. uma impressão concreta de causalidade que torne legítima essa idéia de causa que pretendemos ter: a) Consideremos. assim como vejo que o aquecimento é seguido da ebulição: vejo. amanhã fará dia etc. em nenhum setor da experiência. cada vez em que a repito. a barra de metal vai se dilatar.

quer levantar o braço e. entre os fenômenos A e B. Um paralítico. não tenho o menor poder sobre meu coração ou sobre meu fígado. constata que nenhum movimento se segue ao seu desejo. constato com surpresa que quero efetuar certos movimentos e depois que esses movimentos se realizam. levanto-o. não me dá a origem do porquê. não tenho . Aos olhos de Hume. Lembramo-nos como a sucessão de meu querer e de meus movimentos espantava Malebranche a tal ponto que ele via em minha vontade apenas uma ocasião a partir da qual Deus produzia o movimento de meu corpo. em seguida. A experiência externa apenas me fornece o e depois. Mas não constato o porquê. mas não vejo conexão necessária.fenômeno A. que ele se levanta. simultaneamente interna e externa. que faço a todo momento em que sinto o poder da minha consciência sobre meu corpo. Não terei aqui a chave do princípio de causalidade. que quero levantar o braço. Constato duas coisas: inicialmente. Mas isto não esclarece nada. mas ele retém a análise psicológica do grande filósofo francês. b) Examinemos agora essa experiência. Não é evidente que minha vontade é a causa do movimento de meu corpo? Mas. filósofo do século XVIII. Não sei absolutamente por meio de que engrenagem neuromuscular complexa se opera o movimento de meu braço. há uma conjunção constante. essa hipótese é extravagante. cuja língua ou cujos dedos se movem segundo minha vontade. Vejo bem que. para surpresa sua. E eu. se refletirmos bem. Ainda aqui. como eu. Se quero levantar o braço. Constato que A se mostra e que. B aparece. depois. A repetição constante de um enigma não é o mesmo que sua solução. Mas não constato que B aparece porque A se mostra. essa experiência não é menos clara do que a precedente.

experiência de uma conexão necessária. aquecimento e ebulição sempre estiveram associados em minha experiência e essa associação determinou um hábito em mim. Pela manhã. Permanece enigmática a ação da alma sobre o corpo: "Se tivéssemos o poder de afastar as montanhas ou controlar os planetas. Não existe nenhuma impressão autêntica da causalidade." O Ceticismo de Hume O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . resvala de um evento dado àquele que comumente o acompanha. Ainda aqui constato a existência de uma sucessão entre meu esforço de atenção e minhas idéias. Por que será que espero ver a água ferver quando a aqueço? É porque. Se estabeleço "uma conclusão que projeta no futuro os casos passados de que tive experiência". mas não vejo conexão necessária entre os dois fatos. esse poder não seria mais extraordinário". "A necessidade é algo que existe no espírito. Por conseguinte. Aparento antecipar a experiência quando. partindo do hábito e da associação das idéias. Coloco a água no fogo e afirmo. responde Hume. não nos objetos. a necessidade causal não existe realmente nas coisas. c) Quer dizer enfim da esperiência puramente interior da sucessão de minhas próprias idéias? Deve admitir que minha reflexão atenta é causa das idéias que me ocorrem? Mas. cedo a uma tendência criada pelo hábito. na verdade. as idéias ocorrem ou não. segundo os casos ou os momentos. irresistivelmente arrastada pelo peso do costume. a conclusão se impõe. de saída. é porque a imaginação. O que acontece é que eu acredito na causalidade e Hume explica essa crença. Por conseguinte. elas ocorrem melhor do que à tarde (em alguns) e melhor antes da refeição do que após. em virtude de poderoso hábito: vai ferver.

as verdades da ciência experimental. A não pode ser não-A. Em suma. Espero invencivelmente a ebulição da água que coloquei no fogo.de que Hume seria o corifeu . não existe. pode produzir qualquer coisa. anula-o". dirá Hegel mais tarde. Segundo . poderia ocorrer . os rios se tornavam tão duros que se podia fazer deslizar trenós sobre os mesmos!!). tudo pode acontecer. portanto. Até a unidade do eu . opõe-se um ceticismo moderno . Pascal. senão o peso do meu hábito e da minha expectativa. ao abolir o princípio de causalidade. Em todos os princípios do conhecimento ele descobre as ilusões da imaginação e do hábito." No domínio das proposições lógicas. inteiramente explicado por uma ilusão psicológica. dizia em fórmula surpreendente: "Quem reduz o costume a seu princípio. diz Hume. na idéia de causalidade.que se nos apresenta ingenuamente como uma evidência .que essa água aquecida se transformasse em gelo! "Qualquer coisa. que duvida sobretudo dos sentidos para preparar a conversão do espírito ao mundo das verdades eternas. Mas nas "matters of fact". solidamente.é ilusória para ele. como um ceticismo absoluto. ao ceticismo antigo. o ceticismo de Hume. Na realidade.que nega apenas as afirmações da metafísica e fundamenta. errara muito ao negar um fato contrário à sua experiência. O empirismo de Hume surge então como um ceticismo. surge-nos. De fato.sem contradição . Mas essa expectativa não tem fundamento racional. Para Hegel. que condenara à morte o embaixador norueguês em sua corte (porque este último zombara dele ao afirmar que em seu país. O princípio de causalidade. lança a suspeita em toda ciência experimental. não tem o menor valor de verdade. Aquele rei de Sião. no inverno. que já esboçara essa análise psicológica da indução. explicar psicologicamente a crença no princípio de causalidade é recusar todo valor a esse princípio. O ceticismo de Hume.

ele é cético. Se.Hume. Podemos então qualificar. ousou dizer que convinha a um cavalheiro pensar como os whigs. eu quisesse retornar às minhas especulações. de certo modo. Pois. Ninguém mais do que ele separou filosofia e vida. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . "após três ou quatro horas de diversão. como dizemos. ou então sou eu mesmo e nada mais. É simplesmente a imaginação. quando coloca a água no fogo. é artificial. Ele filosofa ceticamente segundo uma reflexão rigorosa e dissolvente. Quando mergulha na vida corrente. suas "conclusões filosóficas parecem desvanecer-se como os fantasmas da noite ao nascer do dia". por outro lado. como "humorístico" o ceticismo desse filósofo inglês que. instintiva. e votar como os tories. em seu gabinete. como todo mundo. Ceticismo e dogmatismo não se apresentam nele segundo os domínios do saber. eu tenho reputação e mesmo lembranças. diz ele curiosamente. o ser e o ter. é natural. mas segundo os níveis do pensamento. absurda no plano da reflexão.. por mais absoluto que seja. coleção de haveres heteróclitos que é dado como um ser. Só que Hume é o primeiro a reconhecer que seu ceticismo. Quando reflete como filósofo. estas me pareceriam tão frias. hábil em mascarar a descontinuidade de todas as coisas. é também a imaginação que identifica o eu com o que ele possui ou. por conseguinte. Em última instância. A teoria de Hume. é simultaneamente um dogmatismo instintivo e um ceticismo reflexivo. Hume. está persuadido de que ela vai ferver. idéias e sonhos do mesmo modo que tenho esta roupa ou esta casa. A crença no princípio de causalidade. tão forçadas e ridículas que não poderia encontrar coragem e retomá-las por pouco que fosse". ou eu sou meus "estados" e minhas "qualidades" e não sou eu mesmo.. que facilmente desliza de um estado psíquico a outro e constrói o mito da personalidade.

em que cada personagem sustenta seu ponto de vista com argumentos sérios. o próprio Hume afirma ter . o célebre Ensaio Sobre os Milagres. as leis da natureza. Mas como Hume pode apoiar-se no determinismo. Em suma.perfeitamente explicável pelas leis que governam a imaginação crédula dos homens . Consideremos. Ressuscitar. Hume se apóia no determinismo físico para rejeitar a realidade do milagre e no determinismo psicológico para explicar sua ilusão tenaz. dizia. Hume e o Problema da Religião Essa complexidade da filosofia de Hume torna mais difícil a elucidação de sua filosofia religiosa. Os Diálogos sobre a Religião Natural são difíceis de interpretar porque se trata de verdadeiros diálogos. não é mais misterioso do que nascer. ao invés de admitir uma inverossímil violação das leis da natureza". fundamentava-se precisamente numa crítica análoga à de Hume para afirmar a possibilidade do milagre. não estará pensando ao nível da imaginação e do costume. Ele parece ter sido escrito sob a ótica da filosofia das luzes: o milagre é impossível porque contraria a experiência. Em compensação. que eu antes acreditaria que os acontecimentos mais extraordinários nascem do seu concurso.é muito natural! "A velhacaria e a idiotice humanas são fenômenos tão correntes. não estará julgando "popularmente"? Seu combate pelas luzes situar-se-ia então no plano da reflexão filosófica que justamente anula o prestígio do costume e do bom- senso indutivo. sua falta torna o outro impossível: popular maneira de julgar" Quando Hume rejeita o milagre. uma vez que sua crítica da causalidade fez desse próprio determinismo uma ilusão psicológica? Pascal. "O costume torna um fácil. por exemplo. a crença popular nos milagres .

Cleanto."querido evitar esse erro vulgar que consiste em só colocar absurdos na boca dos adversários". ele declara que. O Empirismo . o papel de Filon e Demea estão sempre de acordo quando se trata de demolir o racionalismo. O mesmo fato. Os três personagens são: um deísta racionalista. no povo. numa carta de 1751 a Gilbert Elliot of Minto. Enquanto muitos filósofos do século das luzes reservam sua ironia crítica para a religião revelada e encontram na ordem do mundo. Por outro lado. a crítica da razão teológica tem.O Estado Natural e o Pacto Social Tomás Hobbes O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Em ambos os casos. é precisamente esse sofrimento que conduz o povo a buscar as consolações da religião. A noção de um Deus-Providência parece-lhe pouco compatível com os sofrimentos e os males de que os homens são vítimas neste mundo. como a forca essencial da crença! Finalmente. tem-se a impressão de que Hume multiplica suas críticas "céticas" à religião natural. e o cético Filon. que para o filósofo é uma objeção maior à religião. observa Hume sutilmente. o mesmo sentido que a crítica da razão experimental. surge. Ao fim da obra. O ceticismo de Hume é um psicologismo. ele substitui a pesquisa de um fundamento lógico .Hobbes Texto de Hobbes . que demonstra a existência de Deus partindo das maravilhas do universo.que se apresenta impossível . argumentos para a religião natural. se a verdade do sofrimento humano é. um argumento decisivo contra a Providência. para o filósofo. Mas. Demea.pela pesquisa de origem psicológica da crença. na finalidade. no momento da redação de seus Diálogos. místico anti-racionalista. em Hume. o antropomorfismo e o otimismo de Cleanto. Hume afirma que está mais próximo de Cleanto. portanto.

A origem de todo conhecimento é a sensação. de um raciocínio demonstrativo muito rigoroso. podemos chegar a conclusões rigorosas. forma e autoridade de uma comunidade eclesiástica e civil. Antes mesmo da revolução de 1648. . perfeitamente racional. onde se sente ameaçado por causa de suas convicções monarquistas. Todavia. Hobbes admite a existência de uma lógica pura. Viajará por diversos países da Europa. sem prova decisiva. o que se passará amanhã (e que não tem outro fundamento além da associação de idéias. Mas a essa lógica só concernem símbolos. que da experiência passada conclui. mas nunca foi integralmente traduzido para o francês. Em 1642. Hobbes crê na possibilidade de uma lógica pura. sai da Universidade de Oxford e se torna preceptor do filho de Lord Cavendish. ele será o amigo devotado dos Stuarts. ele foge da Inglaterra. ele publica em Paris o De Cive e. faz publicar em Londres o Leviatã ou matéria. em 1651. em 1588. Se definirmos rigorosamente as palavras e as regras do emprego dos signos. em Amsterdam. Hobbes é um empirista inglês e nele encontramos os temas fundamentais que serão sempre os da escola. Ao lado de uma indução empírica aproximativa. Durante toda sua vida. Filho de clérigo. palavras (Hobbes é nominalista). Hobbes. que vai suprimir o poder real. Retornará à Inglaterra por ocasião da restauração de Carlos II em 1660. em 1608. O Leviatã será traduzido para o latim em 1688. princípio original do conhecimento dos próprios princípios: a imaginação é um agrupamento inédito de fragmentos de sensação e a memória nada mais é do que o reflexo de antigas sensações. the trayan of imagination). Tomás Hobbes nasceu em Westport. notadamente pela Itália (encontrará Galileu em Florença) e sobretudo pela França (encontrará o padre Mersenne em Paris).

o O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . É partindo de tais fundamentos psicológicos que Hobbes elabora sua justificação do despotismo. idênticas aos princípios de que partimos. o direito. em inglês. isto é. Assim como a percepção é explicada mecanicamente a partir das excitações transmitidas pelo cérebro. Para Hobbes. Mas trata-se de um jogo do pensamento. mas distingue dois momentos na história da humanidade: o estado natural e o estado político. o homem se distingue dos insetos sociais.isto é. cada um tem exatamente tanto de direito quanto de força e todos só pensam na própria conservação e nos interesses pessoais. o homem não possui instinto social. o instinto de conservação ou. o poder de cada um é medido por seu poder real. por isso. Ele não é sociável por natureza e só o será por acidente. estranho às realidades concretas. esforço próprio a todos os seres para unir-se ao que lhes agrada e fugir do que lhes desagrada (esse tema do conatus será reencontrado no spinozismo). e conatus. Para ele. basta descrever o que se passa no estado natural. Hobbes. No estado natural. assim a moral se reduz ao interesse e à paixão. Na fonte de todos os nossos valores. O absolutismo da época de Hobbes geralmente se apóia na teologia (Deus teria investido os reis de seu poder absoluto). de afirmação e de crescimento de si próprio. reduz-se à força. Para compreender como o homem se resolve a criar a instituição artificial do governo. há o que Hobbes denomina endeavour. ao justificar o poder absoluto do soberano. mais exatamente. em todos os casos. descobre-lhe uma origem natural. como as abelhas e as formigas. em latim. A filosofia de Hobbes é materialista e mecanicista.

Este último . O maior sofrimento é ser desprezado.por maquinação secreta ou a partir de hábeis alianças . . o ofendido procura vingar-se. em definitivo. o reconhecimento de sua própria superioridade. antecipando aqui os temas hegelianos . é a guerra de todos contra todos. ao invés de uma desigualdade. o homem é o lobo do homem.) É o medo. Por conseguinte.sempre é o suficientemente forte para vencer o mais forte.observa Hobbes. (Essa psicologia da vaidade e do medo é. "Bellum omnium contra omnes". mas sobretudo as alegrias da vaidade (pride). ao menos a sujeição do outro. É claro que esse estado. o estado natural é. procura ultrapassar todos os seus semelhantes: ele não busca apenas a satisfação de suas necessidades naturais. Assim sendo.homem. Aquele que possui grande força muscular não está ao abrigo da astúcia do mais fraco. Assim sendo. Pois. um estado de insegurança e de angústia.comumente não deseja a morte de seu adversário e deseja seu cativeiro a fim de poder ler. em última instância mais poderoso do que o orgulho. em seu olhar atemorizado e submisso. o homem sempre tem medo de ser morto ou escravizado e esse temor. mas . por natureza. para todos. As expressões pelas quais Hobbes o descreve são célebres: "Homo homini lupus". é um estado extremamente infeliz. é uma espécie de igualdade dos homens no estado natural que faz sua infelicidade. é a paixão que vai dar a palavra à razão. em que cada um procura senão a morte. em Hobbes. Não pensemos que mesmo os homens mais robustos desfrutem tranqüilamente as vitórias que sua força lhe assegura. uma espécie de laicização da oposição teológica entre o orgulho espiritual e o temor a Deus ou humildade. ninguém está protegido.

a força é a única medida do direito. de fato. Os homens. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Isto só será possível se cada um abdicar de seus direitos absolutos em favor de um soberano que. esta á a origem psicológica que Hobbes atribui ao poder despótico. uma vez que o soberano terá. Mas não houve pacto nem contrato. Quanto a este último. Em todo caso. portanto. Ele chama de Leviatã ao seu estado totalitário em lembrança de uma passagem da Bíblia (Jó XLI) em que tal palavra designa um animal monstruoso. Simplesmente o medo é maior do que a vaidade e os homens concordam em transmitir todos os seus poderes a um soberano. que vai obrigar os homens a fundarem um estado social e a autoridade política. uma atemorizada renúncia do seu próprio poder. No estado de sociedade. na segurança. Apesar de tudo. para todos. esse poder absoluto permanece um poder de fato que encontrará seus limites no dia em que os súditos preferirem morrer do que obedecer. mas não possui o menor compromisso em relação a seus súditos. notemo-lo bem. ao herdar os direitos de todos. o que houve. Seu direito não tem outro limite que seu poder e sua vontade. como diz Halbwachs. foi "uma alienação e não uma delegação de poderes". como no de natureza. terá um poder absoluto. o maior interesse em fazer reinar a ordem se quiser permanecer no poder. o monopólio da força pertence ao soberano. O efeito comum do poder consistirá. Não existe aí a intervenção de uma exigência moral. Houve. vão se encarregar de estabelecer a paz e a segurança. cruel e invencível que é o rei dos orgulhosos. Só haverá paz concretizável se cada um renunciar ao direito absoluto que tem sobre todas as coisas. da parte de cada indivíduo. ele é o senhor absoluto desde então.portanto. No estado social.

Justiça e injustiça não pertencem à lista das faculdades naturais do Espírito ou do Corpo. não há injustiça: força e astúcia são virtudes cardeais na guerra. e por muito tempo. Na realidade.ª parte: Do Homem Cap. elas poderiam ser encontradas num homem que estivesse sozinho no mundo (como acontece com seus sentidos ou suas paixões). As paixões que inclinam o homem para a paz são o temor à morte violenta e o desejo de tudo o que é . Eis então. Finalmente. mas apenas no fato de que a cada um pertence aquilo que for capaz de o guardar. XIII . nem na distinção entre o Meu e o Teu... A mesma situação de guerra não implica na existência da propriedade. não ao homem solitário. essa guerra de todos contra todos tem por conseqüência o fato de nada ser injusto.. em suas dioceses. por um lado. nesse caso. se apóia na Paixões e. possibilidade que.apesar de prudentes reservas . é bem verdade. 1. querem usurpar". não há lei. de justiça e de injustiça não têm lugar nessa situação. a triste condição em que o homem é colocado pela natureza com a possibilidade. o totalitarismo de Hobbes submete . Onde não há Poder comum.o poder religioso ao poder político. onde não há lei. por outro. As noções de certo e errado. de sair dela. em sua Razão. justiça e injustiça são qualidades relativas aos homens em sociedade. pois. O Estado Natural e o Pacto Social Leviatã. O Estado de natureza. Assim é que ele exclui o "papismo" e o "presbiterianismo" por causa "dessa autoridade que alguns concedem ao papa em reinos que não lhe pertencem ou que alguns bispos..

é preciso que haja um Poder constrangedor. O direito natural que os escritores comumente chamam de Jus naturale é a Liberdade que tem cada um de se servir da própria força segundo sua vontade.. É o que também resulta da definição que as Escolas dão geralmente da justiça. Antes que se possa utilizar das palavras justo e injusto. enquanto não há Estado. E não existe tal poder constrangedor antes da instituição de um Estado. E porque a condição humana é uma condição de guerra de cada um contra cada um. isto é. quando não há propriedade.necessário a uma vida confortável. sua própria vida.. E a Razão sugere artigos de paz convenientes sobre os quais os homens podem ser levados a concordar. XIV . não há injustiça. Por conseguinte. inicialmente. para forçar os homens a executar seus pactos pelo temor de uma punição maior do que o benefício que poderiam esperar se os violassem. Cap. XV . a saber.. cada um tem direito sobre todas as coisas. ou seja.. que a justiça é a vontade de atribuir a cada um o que lhe cabe pertencer. quando nada é próprio.. daí resulta que. para salvaguardar sua própria natureza. não há Propriedade e cada homem tem direito a todas as coisas.. e onde não há Poder Constrangedor estabelecido. onde não há Estado. Cap... para garantir-lhes a propriedade do que adquirem por Contrato mútuo em substituição e no lugar do Direito universal que perdem. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . nessa situação.. mesmo até o corpo dos outros... em outras palavras. em seguida.. nada há que seja Injusto. pois. não pode existir para nenhum homem (por mais forte ou astucioso que seja) a menor segurança. Enquanto dura esse direito natural de cada um sobre tudo e todos.

entrou em contato com movimentos filosóficos diversos. porquanto é baseada na razão. históricas. Tornou-se mais consciente do seu empirismo. Locke viajou fora da Inglaterra. Com relação à religião natural. O Empirismo . positivas. não muito diferente do deísmo abstrato da época. Locke professa a tolerância e o respeito às religiões particulares. Locke representa um progresso em confronto com os precedentes: no sentido de que a sua gnosiologia fenomenista-empirista não é dogmaticamente acompanhada de uma metafísica mais ou menos materialista. à moral e à religião.Locke John Locke . à alma. filosoficamente. uma teoria do conhecimento. onde ampliou o seu horizonte cultural. que procurou completar com elementos . em especial com o racionalismo. o poder político tem o direito de impor essa religião. mesmo aceitando a metafísica tradicional. Limita-se a nos oferecer. especialmente em França.Vida e Obras O Pensamento: A Gnosiologia Idéias Metafísicas Moral e Política Idéias Pedagógicas John Locke Sobre a linha do desenvolvimento do empirismo. e do senso comum pelo que concerne a Deus.

que o fim da filosofia é prático. entretanto. As dontes principais do pensamento de Locke são: o nominalismo escolástico. Passou. o empirismo inglês da época. o racionalismo cartesiano e a filosofia de Malebranche. quer dizer: a filosofia deve O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . procedente de Bacon até Hume). em 1632. em seguida. que julgava fim da filosofia o conhecimento da natureza para dominá-la (fim econômico) . Entretanto . ciências naturais e medicina. morais. O Pensamento: A Gnosiologia Locke julga.Locke pensa que o fim da filosofia é essencialmente moral. Passou seus últimos anos de vida no castelo de Oates (Essex). Em 1683 refugiou-se na Holanda. políticos. Foi. representa um desvio na linha do desenvolvimento do empirismo. o Ensaio sobre o Intelecto Humano (1690). os Pensamentos sobre a Educação (1693). Estudou na Universidade de Oxford filosofia.diversamente de Bacon. As suas obras filosóficas mais notáveis são: o Tratado do Governo Civil (1689). De volta à pátria. Vida e Obras João Locke nasceu em Wrington. Em 1665 foi enviado para Brandenburgo como secretário de legação.racionalistas (o que. portanto. cujo centro famoso era Oxford. futuro conde de Shaftesbury. a quem ficou fiel também nas desgraças políticas. recusou o cargo de embaixador e dedicou-se inteiramente aos estudos filosóficos. onde conheceu as personalidades mais destacadas da cultura francesa do "grand siècle". para a França. como Bacon. Faleceu em 1704. ao serviço de Loed Ashley. junto de Sir Francisco Masham. aí participando no movimento político que levou ao trono da Inglaterra Guilherme de Orange.

Perante as idéias simples . movimento. sons. odores. derivam da experiência. crer. lembrar. sabores. do pensamento. realisticamente. duvidar. antes da experiência o espírito é como uma folha em branco. é ele ativo na formação das . No entanto. pelo contrário.proporcionar uma norma racional para a vida do homem. E. a experiência é dúplice: externa e interna. Podemos dizer que a sua filosofia se limita a este problema gnosiológico. uma tabula rasa. do ser. como: conhecer. etc. fenomenisticamente. ele sente. A segunda realiza-se através da reflexão. querer. extensão. forma.o espírito é puramente passivo. e as qualidades secundárias.que constituem o material primitivo e fundamental do conhecimento . Locke não parte. que nos proporciona a representação das próprias operações exercidas pelo espírito sobre os objetos da sensação. pedagógica. Nas idéias proporcionadas pela sensibilidade externa. a necessidade de instituir uma investigação sobre o conhecimento humano. e nos proporciona a representação dos objetos (chamados) externos: cores. religiosa). para achar um critério de verdade. antes de mais nada. absolutamente objetivas. elaborar uma gnosiologia. No nosso pensamento acham-se apenas idéias (no sentido genérico das representações): qual é a sua origem e o seu valor? Locke exclui absolutamente as idéias e os princípios que deles se formam. que são uma combinação das primeiras. etc. subjetivas (objetivas apenas em sua causa). como os seus predecessores empiristas. para logo passar a uma filosofia moral (e política. e sim. A primeira realiza-se através da sensação. sem uma adequada e intermédia metafísica. As idéias ou representações dividem-se em idéias simples e idéias complexas. Locke distingue as qualidades primárias.

propriamente. e as idéias gerais não passam de nomes. É mister agora propor a questão do seu valor lógico. os nomes que designam uma idéia abstrata. obtendo-se. E esta relação.reconhecendo-lhe embora o caráter de verdadeira ciência . só indivíduos com uma essência individual. desse modo. Às idéias de ralação pertencem as relações temporais e espaciais e de idéias simples dos complexos a que pertencem e da universalização da idéia assim isolada. a idéia abstrata (por exemplo. considerada como conhecimento das leis universais e necessárias. Até aqui foram analisados e descritos os conteúdos de consciência. à maneira de Galileu. a opinião. e nas análises que são as idéias gerais. Costuma-se dizer que as idéias são "verdadeiras ou falsas". pode ser precisamente falsa ou verdadeira. a brancura). não acredita na físico-matemática. compreende-se como.isto é. a mais importante é a substância: que nada mais seria que uma coleção constante de idéias simples. Locke julga também inaplicável à natureza a matemática . Entretanto. que designam caracteres comuns a muitos indivíduos. mesmo que a ciência da natureza não nos desse senão a probabilidade. mais ou menos. Entretanto. referida pelo espírito a um misterioso substrato unificador. para ele. porque. é impossível a ciência verdadeira da natureza. Entre estas últimas. afirmada ou negada. isto é. nominalista: existem. Locke é. melhor seria chamá-las "justas ou erradas". propriamente. "a verdade e a falsidade pertencem às proposições". têm um valor e um escopo práticos: auxiliar os homens a se conduzirem na vida. Dado o nominalismo de Locke. em que se afirma ou se nega uma relação entre duas idéias. uma propriedade semelhante em muitas coisas. O O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . O espírito é também ativo nas sínteses que são as idéias de relação. seria útil enquanto prática.idéias complexas.

de dois tipos: intuitivo e demonstrativo. finalmente. ao raciocínio. segundo Locke. o nosso ser. como este conhecimento do mundo externo possa concordar com a sua geral (fenomenista) concepção e definição do conhecimento. porém. Locke acredita poder atingir. Por exemplo: 3 = 2 + 1. No segundo caso a relação é colhida mediatamente. imediata e evidentemente. Por exemplo: a existência de Deus demonstrada pela nossa existência e pelo princípio de causalidade. entretanto. mas tem ainda saudade desse ser do qual se isolou. a demonstração é inferior à intuição. porque nos sentimos passivos em nossas sensações. podemos conhecê-lo imediatamente ou mediatamente na sua existência e na sua natureza? Locke afirma-o. partindo do conhecimento imediato de uma outra existência (a nossa). A existência de Deus seria racionalmente demonstrada mediante o princípio de causa. concordes ou desacordes com as idéias. sem mostrar. . Em todo caso. alfim. isto é. ainda fechados no mundo subjetivo. o das coisas. e. Idéias Metafísicas Estamos. fenomênico. A existência das coisas. tratou-se. até agora. antes de tudo.conhecimento da relação positiva ou negativa entre as idéias é. No primeiro caso a relação é colhida intuitiva. recorrendo às idéias intermediárias. É a sólita posição de um fenomenismo ainda não plenamente consciente de si mesmo. seria sentida invencivelmente. Naturalmente. de fato. O nosso ser seria intuitivamente percebido através da reflexão. Corta as relações com o ser e vai para o fenomenismo absoluto. depois o de Deus. de relações positivas ou negativas. Podemos nós sair desse mundo subjetivo e atingir o mundo objetivo. que deveriam ser causadas por seres externos a nós.

como seres racionais . Entretanto. racional. que precisamente lhe impedem tal realização. Pelo que diz respeito a Deus. que se imponha à nossa vontade. pois ele lhe reconhece o caráter de verdadeira ciência. a prova da sua existência vale. Entretanto.o que Locke não demonstrou. Enfim.são livre iguais. universal e necessária. naturalmente. Ora. em virtude da qual todos os homens . é muito mais intelectualista do que empirista. e sim as suas atividades. e. não sabemos se as idéias da natureza das coisas correspondem à realidade das coisas. não O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Locke deriva a lei civil da lei natural. De fato. faz-se mister uma obrigação moral. têm direito à vida e à propriedade. Quanto à política.tal prova vale apenas pelo que concerne à existência das coisas. pelo que diz respeito às coisas externas. segundo a filosofia de Locke. porquanto nós nos inclinamos necessariamente para um bem determinado e devemos desejar o bem maior. Moral e Política Locke não admite. o livre arbítrio. moral. A sua moral. no homem. pelo que diz respeito ao nosso ser. propriamente. mesmo admitida a prova aduzida por Locke . idéias e princípios inatos nem sequer no campo da moral. Que parte tem a liberdade da vontade em tudo isto? Locke nega.segundo a confissão do próprio filósofo . isto é. todavia. não basta ter construído uma moral em abstrato. embora racional. é mister ter presente que nós não conhecemos intuitivamente a substância da alma. é natural que ele seja atingido pelas penas. pelas sanções. É preciso torná-la praticamente eficaz. a tendência para o próprio bem-estar. entretanto na vida política. e não pelo que concerne à natureza delas. se vale absolutamente o princípio de causa . visto que é natural.

contida no seu Tratado sobre o Governo Civil. em contraste com a doutrina do absolutismo naturalista de Hobbes. Locke admite um originário estado de natureza antes do estado civilizado. porquanto. em virtude do qual cada um sente o dever racional de respeitar nos outros a mesma personalidade que nele se encontra. mas renunciam unicamente ao direito de defesa e de fazer justiça. Também Locke admite a passagem do estado de natureza ao estado civilizado. liberdade. sem renunciar à própria dignidade. porquanto os direitos que constituem a natureza humana (vida. Locke toma uma atitude racionalista moderada. é a expressão teórica do constitucionalismo liberal inglês. Admite uma religião natural. os indivíduos não renunciam a todos os direitos. . no sentido brutal e egoísta de inimizade universal. Idéias Pedagógicas Com respeito à religião. como dizia Hobbes. Não. Entretanto.podem renunciar a estes direitos. porém. no primeiro. Antes. E professa a tolerância a respeito das religiões particulares. mas em um sentido moral. que existe no segundo. porquanto fundamentada na razão. bens). estipulando este contrato social. exigível também politicamente. se o estado violasse esses direitos inalienáveis. são inalienáveis. para conseguir que os direitos inalienáveis sejam melhor garantidos. à natureza humana. os indivíduos teriam o direito e o dever de a ele resistir e de se revoltar contra o poder usurpador. falta a certeza e a regularidade da defesa e da punição. históricas. positivas. graças à autoridade do superior. A doutrina política de Locke.

A formação educacional consiste. mas. afirma a nossa parte ativa. portanto. Locke interessou-se especialmente pelos problemas pedagógicos. a educação deve ser formativa. que é. precisamente pelo fato de que se trata de formar seres conscientes. elaborando as idéias simples. mas é fundamental a colaboração do discípulo. da razão. enriquecer a própria personalidade. escrevendo os Pensamentos sobre a Educação. fundamentalmente. a formação social. e não informativa. ao mesmo tempo. enquanto o intelecto constrói a experiência. Por conseguinte. todos temos temperamentos diferentes. autônoma. Afirma-se que todos nascemos iguais. no desenvolvimento do intelecto mediante a moral. erudita. pois nascemos todos ignorantes e recebemos tudo da experiência. necessariamente. para ampliar. Tem muita importância a obra do educador. dotados de razão. mas como o meio para o domínio de si mesmo O Iluminismo Francês Condillac (1715-1780) Montesquieu (1689-1755) Voltaire (1694-1778) O Iluminismo Francês O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . mas. Esta educação individual não exclui. que devem ser desenvolvidos de conformidade com o temperamento de cada um. mas implica a educação. livres. desenvolvendo o intelecto. pois trata- se da formação do intelecto. mnemônica. senhores de si mesmos. Igualmente Locke é fautor de educação física. ao mesmo tempo. Aí afirma a nossa passividade.

ela ignora as grandes sínteses. as marés. a física de Newton destrona a de Descartes. A substância doutrinal de quase todos os filósofos desse século provém de sistemas anteriores. "o esforço de perseverar em seu ser". e os do século XIX .a filosofia do século XVIII ocupa um lugar original. não forjo imagens metafísicas. Malebranche. há que acrescentar a influência capital de Spinoza. Newton não faz o romance da matéria. Leibnitz. "Hypotheses non fingo". a idéia de que o motor de todos os sêres é o desejo. isto é. segundo d'Alembert. como os de Spinoza. possantes e originais. a) Já na metade do século. ele explica o movimento dos planetas. "Newton criou a física e Locke a metafísica". b) Locke passa por ser o criador da "metafísica". e marca o triunfo da inteligência crítica. as grandes "visões do mundo". mas exprime os fatos realmente dados na linguagem rigorosa da matemática. da ciência do espírito humano. ao descrever o "como" dos fenômenos. dizia Newton. Entre os grandes sistemas do século XVII. c) Sem dúvida. por exemplo. O século XVIII caracteriza-se por uma tendência empírica e analítica: procura-se explicar as idéias complexas a partir das simples e as idéias a partir dos fatos. a . Podemos dizer que a física de Newton contribuiu largamente para a formação do espírito moderno.doutrinas de Hegel ou de Auguso Comte . De sua doutrina evidenciar-se-á sobretudo o naturalismo. ao relatar os fatos reais em linguagem matemática. a gravidade. renunciando a imaginar o longínquo "por que" metafísico. A matemática do infinitesimal descreve adequadamente as variações contínuas dos fenômenos. simultaneamente racionalista e experimental.

) Daí o tom particular desses filósofos que fazem panfletos contra o poder.e as leis ditas eventos sobrenaturais. filósofos engajados. Deus é identificado com a natureza . na trapaça de uns e na credulidade de outros. de Spinoza. Aufklärung. Condillac (1715-1780) O filósofo mais notável do iluminismo francês é Estevão Bannot de Condillac (1715-1780). os pensadores do século XVIII farão suas armas: eles são. orientando-a paa o sensismo. de Locke. herdeiro daquele trono. privada de toda sensação (tabula rasa) e que. na corte de Parma.idéia de que o homem não é "um império num império". devido ao fato de ter ele sido. e também de Descartes (cuja "visão"metafísica é rejeitada. profecias. de Fernando de Bourbon. encontram. preceptor. Ele desenvolveu o empirismo de Locke num sentido francamente sensista. do racionalismo. em que desenvolve a sua concepção sensista. Consideram-se os artífices da felicidade humana e se empenham na destruição dos preconceitos e na difusão das "luzes".Deus sive natura .sem reflexão - toda a experiência. Condillac imagina o homem como uma estátua. explicação suficiente e perfeitamente natural. mas que é regido pelas leis de todo o universo. isto é. contra a Igreja. começa a ter uma sensação O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . em dado momento. prodígios. durante um decênio (1758-1767). derivando da mera sensação . Condillac exerceu uma influência particular sobre a cultura italiana. (É o século das luzes. e que querem criar movimentos de opinião: a ironia e a clareza do estilo adquirem eficácia particular para tais empreendimentos. milagres. Com as idéias de Newton. dir-se-ia hoje. mas cujo método racionalista é bem acolhido). A obra filosófica mais importante de Condillac é o Traité des sensations.

constituindo a sensação o primeiro grau. Uma lembrança vivaz torna-se imaginação. o mundo externo é afirmado dogmaticamente. porquanto se trata sempre de sensações. que é o mais pobre dos sentidos. a memória o segundo. o eu. adquire consciência do mundo físico. isto é. estamos perante um ceticismo metafísico. que é comparação entre sensações presentes e passadas. uma série de três graus de atenção. a existência. o juízo. Da sensação (agradável ou dolorosa) nasce o sentimento (de prazer ou de dor). a reflexão. quando. a distinção entre atividade (na memória) e passividade (na sensação). assim. Isto não prova. isto é. entretanto. Paralelamente ao desenvolvimento teórico do espírito procede o desenvolvimento prático. a separação de uma idéia de outra. deste modo. Comparando a sensação atual com a sensação lembrada. de sorte que. mediante o tato. a imaginação o terceiro. mediante um só sentido. o desejo estável torna-se vontade. tornam-se desejo. a abstração. a capacidade de noções gerais. . pela resistência que o nosso esforço encontra no mundo externo. a consciência. Tem- se. o exercício de todas as suas faculdades. do mundo externo.idéia ou relação. a direção voluntária de atenção sobre uma determinada sensação . afastada a primeira sensação e sobrevindo outra.de olfato. a realidade. filosoficamente. o olfato. do próprio corpo e dos demais corpos.em uma série de idéias e juízos. A lembrança de sensações agradáveis e a comparação com as presentes. juízo . O espírito adquire. isto é. A sensação odorosa (de uma rosa) torna-se memória. de atividade do espírito. nasce a distinção entre presente e passado. O espírito. contudo. e a generalização. o desejo preponderante torna-se paixão. a primeira permanece com uma intensidade atenuada. que é uma coleção de sensações atuais e lembradas.

A monarquia tradicional repousa num sistema hierárquico de suseranos e vassalos que só funciona a partir de uma moral da honra. porém. pela disposição das coisas. as "relações necessárias". entre certos tipos de governo e certas leis possíveis. nunca afirmou que o clima determina. necessariamente. ao passo que o despotismo só subsiste com a manutenção. em toda parte. Todavia. este ou aquele tipo de lei. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . "a variável aqui é a forma de governo de que as legislações políticas. civil e outras são as funções". isto é. Montesquieu. esta ou aquela psicologia para com os cidadãos: a democracia da cidade antiga só é viável em função da "virtude". mas são "relações necessárias que derivam da natureza das coisas". harmônica. de que fala Montesquieu. Ela se caracteriza pela busca de um justo equilíbrio entre a autoridade do poder e a liberdade do cidadão. Montesquieu (1689-1755) A política de Montesquieu. Daí a separação entre poder legislativo. Como diz muito bem Brehier. surge como essencialmente racionalista. possui sobretudo concepção racionalista das leis que não resultam dos caprichos arbitrários do soberano. são muito menos a expressão de um determinismo sociológico de tipo materialista do que a afirmação de uma ligação ideal. pelo espírito cívico da população. poder executivo e poder judiciário. sendo que as melhores pertencem a este ou aquele governo. por exemplo. Assim é que cada forma de governo determina. da força do medo. Montesquieu. cabendo ao legislador descobri-las e aplicá-las. o poder detenha o poder". Não vemos como na Inglaterra a liberdade política conduz à existência de leis particulares que não encontramos em outros regimes? As leis obedecem a um determinismo racional. Para que ninguém possa abusar da autoridade. exposta no Espírito das Leis (1748). "é preciso que.

"A verdadeira lei da humanidade é a razão humana enquanto governa todos os povos da terra. dizer que só o que as leis positivas ordenam ou proíbem é que constitui o que há de justo e injusto. antes de Voltaire. uma vez que lhes servem de guia. tirada de Locke e de Newton. que a história se explica mais pelo jogo das paixões humanas do que pelo decreto da Providência. É preciso encontrar em cada clima. é uma prodigiosa colocação de teses que testemunha sua incomparável erudição e que será possuído por todos os intelectuais do século XVIII). Fontenelle (1657-1757) mostrou. Só os maus legisladores favorecem os vícios do clima. As idéias filosóficas de Voltaire. O "direito natural". a justiça ideal preexistem às leis escritas. antes de Voltaire. O próprio espírito voltairiano teve seus precursores. não são originais. quais as leis melhor adaptadas. é o tipo acabado do "filósofo" do século XVIII. estas ou aquelas instituições. em cada circunstância em que se está colocado. Bayle já apresenta ardis tipicamente . mais harmonioso. possuía a arte de. antes que se tivesse traçado os círculos. todos os raios eram desiguais". E Fontenelle já colocara (Conversações sobre a pluralidade dos mundos) a nova astronomia ao alcance dos marqueses. Em seus Pensamentos sobre o cometa. em cada forma de governo. Pierre Bayle (1647-1707). opor os sistemas metafísicos entre si. Voltaire (1694-1778) Voltaire. realizarão o conjunto mais justo. na situação considerada. a fim de ressaltar de suas contradições a necessidade da tolerância (o Dicionário histórico e crítico de Bayle. quais aquelas que. de certo modo. protestante francês exilado em Roterdam. significa dizer que. 1697.necessariamente.

(Ele também teme que esses fósseis marinhos nas montanhas só sirvam para os cristãos provarem a história do dilúvio!). O célebre verso de Voltaire "Se Deus não existisse precisaria ser inventado" deve. para ser bem compreendido. Recusa-se a crer nos fósseis de animais marinhos descobertos nas montanhas por aquela época. sua finalidade interna. só se explicam pela existência de um Criador inteligente ("Este mundo me espanta e não posso imaginar / Que este relógio exista e não tenha relojoeiro"). no entanto. pagar-te-á melhor?" É certo. após o terremoto de Lisboa. ele acha que o homem. ele rejeita as idéias evolucionistas que começam a se difundir. Apesar de negar o pecado original. que Voltaire crê na ordem do mundo. em sua crítica aos prodígios e superstições populares. é um deísta convicto: a organização do mundo. a fé nos milagres do cristianismo. Voltaire. mantém o princípio de um Deus justiceiro. "misantropo sublime".voltairianos para comprometer. ser citado com seu comentário: "e teu novo arrendatário / Por não crer em Deus. pode estabelecer uma certa justiça sobre a terra e alcançar uma certa felicidade. seria negar a estabilidade e a finalidade da ordem atual do mundo. a estrutura geográfica da terra. as espécies vivas são fixas. É certo que esse Deus policial é sobretudo requisitado para manter a ordem social e as vantagens econômicas aproveitadas por Voltaire e os outros grandes burgueses. Para ele. contra Pascal. inimigo encarniçado do cristianismo. Admitir que as montanhas outrora estiveram submersas. permanece otimista. Jean-Jacques Rosseau O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . no entanto. numa finalidade providencial. em nome desse finalismo estático. Voltaire. reduzido apenas aos seus recursos. Criticou Leibnitz e seu "melhor dos mundos possíveis" que.

a sua terra clássica é a França. político. E logo se desperta na França uma verdadeira anglomania: pelo constitucionalismo inglês. em que a razão certamente não domina. É o que fez desabusadamente e desapiedadamente a revolução francesa. por Locke e Newton. Se o iluminismo demole toda a história. no homem primitivo para o qual . Daí a guerra a qualquer atividade e instituição que não sejam puramente racionais. às divisões nacionais e à guerra. ao sentimento. religioso. já bem disposta para assimilá-lo e valorizá-lo. pela ciência nova. às desigualdades sociais. Os Homens e os Problemas Jean-Jacques Rosseau Texto de Rosseau . realizado o seu ideal racional no começo da humanidade. déspota absoluta. a deusa razão da revolução francesa.A Consciência segundo Rosseau O Iluminismo Francês Voltaire traz o iluminismo da Inglaterra para a França. à história e à tradição em geral. Aí assumirá aquele caráter extremado e difusivo pelo qual o iluminismo ficará definitivamente individuado. econômico. ao estado. A razão (humana) deve dominar acima de tudo e acima de todos. à destruição da ordem constituída. pelo livre pensamento. todavia. escrevendo as famosas Lettres sur les Anglais. No campo social. porque a razão é universal. à paixão. à fantasia. tudo isto levará à demolição. Assim. julga. se a terra de origem do iluminismo é a Inglaterra. quando conculca os direitos naturais do indivíduo. O traço específico do iluminismo francês é o culto da razão.

Foi dirigida por João D'Alembert (1717-1783). autor do famoso Discours préliminaire. A figura dominante do iluminismo francês é Francisco Maria Arouet. foi acolhido (1750-1753) por Frederico II. a esta religião a religião humanista e imanentista da razão. chamados por isso enciclopedistas. todavia. perto de Genebra. inclusive o cristianismo. Réponse ou Système de la nature (1777). e aí escreveu as famosas Lettres sur les Anglais. E se ele demole toda religião positiva. em 34 volumes.se deverá. ou mais ou menos. Viveu em Londres entre 1726 e 1729. Entretanto colaboraram na enciclopédia os iluministas mais famosos. em geral. Caído na desgraça do Rei e da Corte da França. cujo reino. em 1755. e. as que mais interessam à filosofia. des arts et des métiers. Candide ou de L'optimisme (1756). dito Voltaire (1694-1778). na França e no estrangeiro. substitui. é a Enciclopédia: Enciclopédie ou dictionaire des sciences. voltar. retirou-se para Ferney. e por Denis Diderot (1713-1784) autor também de alguns escritos filosóficos . etc. são: Lettres sur les Anglais (1734). Entre eles Voltaire e Rosseau. Foi publicada entre 1751 e 1780. também a religião natural de um Deus transcendente. daí dominando o mundo da cultura européia. Métaphysique de Newton (1740). se encontra neste mundo e na vida terrena. O movimento dos enciclopedistas foi um poderoso meio para a difusão e vulgarização das idéias iluministas. Entre as suas obras. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Os Homens e os Problemas A obra fundamental do iluminismo francês e europeu. porém.Pensées sur l'interprétation de la nature (1754). Éléments de la Philosophie de Newton (1741). trazendo para a França o iluminismo. Dictionnaire Philosophique (1764). em definitivo.

como sendo necessárias para a conservação da ordem moral e política. manifestam-se também duas atitudes: a do assim chamado despotismo iluminado. ou até no ceticismo. que pretendia mostrar a necessidade de se apoiar na Fé em face dos máximos problemas. Pelo que concerne aos problemas sociais e políticos. Julião Offrai de La Mettrie (1709-1751) é o autor do famoso livro L'homme machine. Assim. o barão Teodorico D'Holbach (1723-1789). um alemão que viveu em Paris. sendo a razão humana impotente para solucioná-los. autor do livro De l'Esprit. Bayle propagou a incredulidade pela Europa toda. para os quais o iluminismo tinha naturalmente um interesse especial. nas sanções ultraterrenas. com a crença em Deus. o mecanismo (empirista e racionalista) é levado até o materialismo por La Mettrie e D'Holbach. onde o materialismo se manifesta em cheio. sustentando a irracionalidade da Revelação: mesmo contra a própria intenção do autor. meio eficaz de difusão do iluminismo antes da grande enciclopédia. enfim. como. Pertence a esta última tendência Pedro Bayle (1647- 1706). a corrente iluminista chefiada por Cláudio Helvetius (1715-1771). atacados por Voltaire. por exemplo. isto é. na imortalidade da alma. o iluminismo francês adere ao empirismo de Locke desenvolvido no sensismo de Condillac. Pelo que diz respeito ao problema filosófico em geral. a atitude iluminista é decididamente hostil à igreja católica e se propõe a si mesma esmagá-la (écraser l'infâme): quer admita uma religião natural. é o autor do não menos famoso Système de la nature. Acerca do problema religioso. segundo o ideal deísta (Voltaire). do . quer chegue até ao ateísmo e ao hedonismo. autor do Dictionnaire Historique et Critique.

pelo contrário. Nestes escritos se manifesta um racionalismo iluminista temperado. É o autor das Lettres persanes. mas não no povo que se quer elevar. Característica desta concepção política é a divisão absoluta dos poderes supremos: legislativo. Em seu primeiro livro.absolutismo racional.acredita-se na razão. ele escreve para responder a uma questão que a Academia de Dijon colocara em concurso: Rosseau declara-se inimigo do progresso. Freqüentemente se resume a tese de Rosseau aos seguintes termos: o homem é bom por natureza. Daí a necessidade da força a serviço da razão. no Emílio. Para ele. desses filósofos do "conventículo holbáquico" que ele destacava e pelos quais era odiado. das Considérations sur les causes de la grandeur des Romains et de leur décadence. a sociedade o corrompeu. melhor. O maior expoente dessa corrente é Carlos de Secondat. o progresso das ciências e das artes tornou o homem vicioso e mau. que atende às suas necessidades mais O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Barão de Montesquieu (1689-1755). na burguesia. Não se fará. manifesta confiança no povo ou. na realidade representa uma reação espiritualista contra a filosofia das luzes e o otimismo dos enciclopedistas. o campeão de uma pedagogia naturalista que confia nas tendências espontâneas da criança. e do Esprit des lois. executivo e juduciário. para o bem dos povos e da humanidade . desenvolvido em sentido historicista. pelo sentido de variedade das leis em relação às condições dos povos. concreto. A outra atitude ou tendência é a que deriva do liberalismo constitucional. corrompendo sua natureza íntima. desejosa e capaz de liberdade. Esta corrente. Discurso sobre as Ciências e as Artes. Jean-Jacques Rosseau A obra de Rosseau (1712-1778) que foi mal compreendida e que ainda o é nos meios do catolicismo tradicional.

profundas. aliás. o reflexo do costume. a moral e a filosofia de Rosseau. Também é certo que ele desconfia das interpretações que a Igreja possa dar dos Evangelhos ("quantos homens entre mim e Deus!"). fundada nas tendências e nos centros de interesse espontâneos da criança. ao invés de submetê-la a constrangimentos difíceis? (Nesse sentido. são melhores atestados do que os da vida de Sócrates. Mas seria uma grave erro confundir o "naturalismo" de Rosseau com o dos filósofos das luzes. A obra será solenemente queimada. como dizia Montaigne. ao passo que o justo é infeliz. peça mestra do Emílio (1762). se desentenderá pouco depois). É certo que a profissão de fé do Vigário suscitou as iras dos poderes públicos e das igrejas constituídas. deve ser uma resposta"). O arcebispo de Paris condena-lo-á em célebre ordenação (perseguido por toda parte. era pensado nas igrejas católicas e protestantes). "Somos tentados pelas paixões e detidos pela consciência". os maus triunfam neste mundo. junto a Hume. essa consciência moral que. diz. É censurado por escolher a religião natural (aquela que o homem encontra no próprio coração) e rejeitar a religião revelada. é uma exigência inata em nós e não. é uma pedagogia rousseauniana: "Toda lição. a pedagogia da chamada Escola Nova. com quem. recaem nos temas do espiritualismo mais tradicional. Rosseau adota o dualismo moral popular. tais como se encontram em seu romance A Nova Heloísa (1761) e na Profissão de fé do Vigário saboiano. na época. segundo ele. No entanto. Para Rosseau. a justiça divina . Na realidade. Todavia. prende-se ao ensinamento de Jesus. um mês apenas após sua publicação. dirá Dewey em nossos dias. cujos atos. Não há dúvida de que ele declara que todas as religiões são boas e que cada crente pode conseguir a salvação na sua (o que é contrário ao que. Rosseau só encontra refúgio na Inglaterra. em Paris e em Genebra.

aproxima- se bastante. não obedeça. o desejo de felicidade. nos debates do povo reunido) uma vontade geral. senão a si próprio e permaneça tão livre quanto antes. Rosseau pesquisa as condições de um Estado social que fosse legítimo. Por conseguinte. etc. ete. dessa "lei divina do dever e da virtude" em nome da qual a paixão amorosa se sacrifica heroicamente. nessa vontade geral descobriremos outra coisa que não o interesse. Nessa obra. Todavia. mas antes depreender (o que é possível com a maioria das vozes. Entenda-se bem: "cada indivíduo pode. quando dissipa seus desejos egoístas "no silêncio das paixões". esse juízo inato do bem e do mal que cada um descobre em si mesmo. o pacto social não tem por fim conciliar todos os interesses egoístas. A Consciência segundo Rosseau (Profissão de Fé do Vigário Saboiano) O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . porém.recompensará os bons ("a vida da alma só começa com a morte do corpo") e punirá os maus que são culpados de serem assim ("dependia deles não se tornarem maus"). Encontraremos aí. A Nova Heloísa apresenta-se como uma apologia da religião e da moral. exposta no Contrato Social. A teoria política de Rosseau. das idéias dos filósofos racionalistas. o problema fundamental cuja solução é dada pelo contrato social". unindo-se a todos. ter uma vontade particular contrária ou dessemelhante da vontade geral que ele tem como cidadão". como homem. aparentemente ao menos. a regra da consciência. que não mais corrompesse o homem. Esta última faz abstração dos interesses divergentes e das paixões de cada um para só cuidar do bem comum. O problema que ele coloca recai no de Locke ou de d'Holbach: "Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja de toda força comum a pessoa e os bens da cada associado e pela qual cada um. no fundo.

ao fazer nosso bem a expensas de outrem. desprezamos o que diz aos nossos corações. no fundo do meu coração. A consciência é a voz da alma. proseguiu meu benfeitor. mas a consciência nunca engana. nem bem constituído. O primeiro de todos os cuidados é o consigo mesmo: todavia. A moralidade de nossas ações está no juízo que delas fazemos. vendo que eu ia interrompê-lo: esperai que eu me detenha um pouco mais a esclarecê-lo. a bondade não seria senão um vício contra a natureza. e o maior prêmio da justiça é sentir que a praticamos. Feito para prejudicar seus semelhantes. Se é verdade que o bem seja bem. então o homem é naturalmente mau e não o pode deixar de ser sem se corromper. quantas vezes a voz interior nos diz que. escutando o que ela diz dos nossos sentidos. tudo o que sinto ser bem é bem e tudo o que sinto ser mal é mal: o melhor de todos os casuístas é a consciência. Basta-me consultar-me sobre o que quero fazer. fazemos o mal! Acreditamos seguir o impulso da natureza e lhe resistimos. os princípios de uma alta filosofia. se não fosse bom. o homem não poderia ser são de espírito. escritas pela natureza em caracteres indeléveis. é o verdadeiro guia do homem: ela está para a alma assim como o instinto está para o corpo(¹). quem a segue. Este ponto é importante. Se a bondade moral concorda com nossa natureza. É espantoso que muitas vezes essas duas linguagens se contradigam? A qual delas se deve ouvir? A razão freqüentemente nos engana. ele o deve ser tanto no fundo de nossos corações quanto em nossas obras. não temos senão o direito de recusá-la. obedece a natureza e não teme se perder. as paixões são a voz do corpo. assim como o lobo para devorar sua . mas as encontro. Se não concorda. o ser ativo obedece e o ser passivo ordena. Não tiro dessas regras. e só quando se comercia com ela é que se recorre às sutilezas do raciocínio.

e mesmo em nossos prazeres. quando. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . assim como uma doce trnura nunca umedece seus olhos. qual a relação que ele tem com nosso interesse privado? Por que eu preferiria ser Catão. não mais tem transportes e seu coração congelado não mais palpita de alegria. e a virtude só nos deixaria remorsos.presa. oh. Esse entusiasmo da virtude. Aquele cujas paixões vis sufocaram esses sentimentos deliciosos em sua alma estreita. não goza mais nada. à força de se concentrar dentro de si. de onde. Penetremos em nós mesmos. esses transportes de amor pelas grandes almas. exceto nosso interesse. estaríamos demaisados sós e seríamos demasiados miseráveis se não tivéssemos com quem os dividir. então. ao contrário. que tirareis todo o encanto da vida. que só admite o que explica. provêm esses transportes de admiração pelas ações heróicas. Qual o espetáculo que mais nos envaidece. um ato benfazejo ou um ato malfazejo? Por quem vos interessais mais em vossos teatros? É com a maldade que vos divertis? É com seus autores punidos que derramais lágrimas? Tudo nos é indiferente. não deixa de admitir essa obscura faculdade chamada instinto que parece guiar os animais. (¹) A filosofia moderna. aquele que. dizem eles. meu jovem amigo! Examinemos. do que César triunfante? Tirai de nossos corações esse amor ao belo. o homem humano seria um animal tão depravado quanto um lobo desprezível. as doçuras da amizade humana nos consolam em nossas penas. não vive mais. acaba por amar apenas a si mesmo. o dos tormentos ou o da felicidade de outrem? Que é que nos é mais doce fazer e que nos deixa agradável impressão após o ter feito. que rasga as entranhas. deixando à parte qualquer interesse pessoal. para onde nossas tendências nos conduzem. Se nada existe de moral no coração do homem. já está morto. o infeliz não sente mais.

postura em que não permaneceria se.sem qualquer conhecimento adquirido. mas adquirido por reflexão. jogando-as por terra no momento em que saltam. nada mais é do que um hábito privado de reflexão. abandonando-se assim à minha discrição? Todos os cães do mundo fazem quase o mesmo no mesmo caso. eu lhe batesse. queiram explicar esse fato apenas pelo jogo das sensações e dos conhecimentos que elas nos fazem adquirir. sem que jamais alguém o tenha dirigido para essa caça ou lhe ensinado que existem toupeiras. Sem entrar aqui nessa discussão. Que os filósofos. O instinto. pergunto que nome devo dar ao ardor com que meu cão faz guerra às toupeiras que não come. na primeira vez em que ameacei esse mesmo cão. e nada falo aqui que não possa ser verificado por todos. as patas dobradas. a maneira pela qual ele explica esse progresso obriga-nos a concluir que as crianças refletem mais do que os adultos. numa atitude suplicante e mais própria para me comover. ele se atirou de costas no chão. então não teria mais nada a dizer e não mais falarei de instinto. sem me deixar dobrar. (Nota de Rosseau) . paradoxo muito estranho para valer a pena ser examinado. à paciência com que as guarda. pequenino. mal acabado de nascer. segundo um de nossos mais sábios filósofos (Condillac). Pergunto ainda. Quê?! meu cão. que tão desdenhosamente rejeitam o instinto. por que. e isso é mais importante. matando-as em seguida para deixá-las ali. que o expliquem de maneira satisfatória para todo homem sensato. já teria adquirido idéias morais? Sabia o que era clemência e generosidade? Em virtude de que luzes adquiridas esperava me acalmar. no sentido de algum fim.

o Ensaio sobre o mal radical . A vida de Kant foi austera (e regular como um relógio). em 1762.consagra-o ao problema do mal: o Ensaio para O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . estudou. e o da Aufklärung (a Universidade de Koenigsberg mantinha relações com a Academia Real de Berlim. Levantava-se às 5 horas da manhã. Segundo Fichte. ingleses. cidade universitária e também centro comercial muito ativo para onde afluíam homens de nacionalidade diversa: poloneses. Jamais deixou essa grande cidade da Prússia Oriental. A primeira obra importante de Kant . lecionou e morreu em Koenigsberg. Duas circunstâncias fizeram-no perder a hora: a publicação do Contrato Social de Rosseau. deitava-se todas as noites às dez horas e seguia o mesmo itinerário para ir de sua casa à Universidade. em 1792.assim como uma das últimas. Acrescentemos a literatura de Hume que "despertou Kant de seu sono dogmático" e a literatura de Russeau. e a notícia da vitória francesa em Valmy. tomada pelas novas idéias). Kant foi "a razão pura encarnada". que Wolf ensinara brilhantemente. Kant sofreu duas influências contraditórias: a influência do pietismo. Emmanuel Kant A Ciência e a Metafísica Vida e Obras Kant nasceu. protestantismo luterano de tendência mística e pessimista (que põe em relevo o poder do pecado e a necessidade de regeneração). fosse inverno ou verão. que o sensibilizou em relação do poder interior da consciência moral. e a influência do racionalismo: o de Leibnitz. holandeses. que foi a religião da mãe de Kant e de vários de seus mestres.

Finalmente. buscando. temos a Crítica da Razão Pura. menos independente dos meios devotos. ao mundo moral onde reina a liberdade. Em seguida. a Crítica do Juízo (1790) trata das noções de beleza (e da arte) e de finalidade. Em 1781. assim como do da Aufklärung. mas o objeto muito positivo de uma liberdade malfazeja. cuja segunda edição.introduzir em filosofia a noção de grandeza negativa (1763) opõe-se ao otimismo de Leibnitz. A moral de Kant é exposta nas obras que se seguem: o Fundamento da Metafísica dos Costumes (1785) e a Crítica da Razão Prática (1788). Nela. uma passagem que una o mundo da natureza. O mal não é a simples "privatio bone". segue-se a Dissertação de 1770. Kant distingue o conhecimento sensível (que abrange as instituições sensíveis) e o conhecimento inteligível (que trata das idéias metafísicas). Após uma obra em que Kant critica as ilusões de "visionário" de Swedenborg (que pretende tudo saber sobre o além). A Crítica da Razão Pura explica essencialmente porque as metafísicas são voltadas ao fracasso e porque a razão humana é impotente para conhecer o fundo das coisas. explicará suas intenções "críticas" (um estudo sobre os limites do conhecimento). Kant encontrara proteção e admiração em Frederico II. submetido à necessidade. onde o criticismo kantiano é exposto. herdeiro do otimismo dos escoláticos. desse modo. em 1787. . Os prolegômenos a toda metafísica futura (1783) estão para a Crítica da Razão Pura assim como a Investigação sobre o entendimento de Hume está para o Tratado da Natureza Humana: uma simplificação brilhante para o uso de um público mais amplo. como se diz nas universidades alemãs). surgem as grandes obras da maturidade. que vale a seu autor a nomeação para o cargo de professor titular (professor "ordinário". Frederico-Guilherme II. Seu sucessor.

todos os bons espíritos. apesar do título. que a coragem vale mais do que do que a covardia. de acordo quanto à verdade das leis de Newton? Do mesmo modo todos concordam que é preciso ser justo. Em nenhum momento Kant duvida da verdade da física de Newton. achou que essa promessa só o obrigaria durante o reinado desse príncipe! E.. assim como do valor das regras morais que sua mãe e seus mestres lhe haviam ensinado. Por que esse fracasso? O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . A doutrina da virtude e seu Ensaio filosófico sobre a paz perpétua (1795). Consiste em remontar do conhecimento às condições que o tornam eventualmente legítimo. A Ciência e a Metafísica O método de Kant é a "crítica".. Não estão. As verdades da ciência newtoniana. isto é. Os maiores pensadores estão em desacordo quanto às proposições da metafísica. não hesitou em tratar. Kant. era profundamente espiritualista e anti-Aufklärung: A religião nos limites da simples razão. as verdades da metafísica são objeto de incessantes discussões. por mais inimigo que fosse da restrição mental. Ele fez com que Kant se obrigasse a nunca mais escrever sobre religião. Mas. que não se deve mentir. do problema das relações entre a religião natural e a religião revelada! Dentre suas últimas obras citamos A doutrina do direito.inquietou-se com a obra publicada por Kant em 1793 e que. a análise reflexiva. "como súdito fiel de Sua Majestade". sobre que se fundam tais verdades? Em que condições são elas racionalmente justificadas? Em compensação. assim como as verdades morais. no Conflito das Faculdades (1798). são necessárias (não podem não ser) e universais (valem para todos os homens e em todos os tempos). após o advento de Frederico-Guilherme III. etc.

Os juízos rigorosamente verdadeiros. no entanto. Um triângulo é uma figura de três ângulos: basta-me analisar a própria definição desse termo para dizê-lo. isto é independentes dos azares da experiência. Mas por que a demonstração se opera tão bem em minha folha de papel quanto no quadro negro. Eis um conhecimento sintético a posteirori que nada tem de necessário (pois sei que a régua poderia não ser verde) nem de universal (pois todas as réguas não são verdes). são naturalmente a posteriori. eu digo que o aquecimento da água é a causa necessária de sua ebulição (se não houvesse aí senão uma constatação empírica. como acreditou Hume. Faço-o por intermédio de uma demonstração rigorosa. Em compensação. parece evidente que esses juízos a priori são juízos analíticos. Entretanto. toda ciência. Eis um juízo sintético (o valor dessa soma de ângulos acrescenta algo à idéia de triângulo) que. aqueles cujo atributo enriquece o sujeito (por exemplo: esta régua é verde). sempre particular e contigente. De fato eu não tenho necessidade de uma constatação experimental para conhecer essa propriedade. Como se explica que tais juízos sintéticos e a priori sejam possíveis? Eu demonstro o valor da soma dos ângulos do triângulo fazendo uma construção no espaço. À primeira vista. isto é. sintéticos e a priori! Por exemplo:a soma dos ângulos de um triângulo equivale a dois retos.. também existem (este enigma é o ponto de partida de Kant) juízos que são. é a priori. enquanto verdade necessária e universal. os juízos sintéticos. são a priori. Tomo conhecimento dela sem ter necessidade de medir os ângulos com um transferidor. só sei que a régua é verde porque a vi. estaria anulada). Também em física. necessários e universais. ao mesmo tempo. ou quanto no solo em .. Juízo analítico é aquele cujo predicado está contido no sujeito.

Eis por que as construções espaciais do geômetra. Essas categorias são necessárias e universais. aquisições da experiência. Para dizer que o calor faz ferver a água. ainda. é preciso que eu constate. as categorias. então. Como. eu falo não só do quadro a priori da experiência. enquanto transcendental significa a priori. as regras. O espaço e o tempo são quadros a priori. necessários e universais? É porque. Mas o caso da física é mais complexo. dos próprios fenômenos que nela ocorrem. por um lado. uma exigência de explicação por meio de causas e efeitos. necessários e universais de minha percepção (o que Kant mostra na primeira parte da Crítica da Razão Pura. são exigências a priori do nosso espírito. ao pretender que o hábito é a causa de nossa crença na causalidade. mas é nosso espírito que. para mim. mas o espírito possui. O espaço e o tempo não são. nos quais a experiência vem se depositar. assim como o tempo. Aqui. responde Kant. por mais sintéticas que sejam. simultaneamente anterior à experiência e condição da experiência). a experiência nos fornece a matéria de nosso conhecimento. denominada Estética transcendental. mas.que Sócrates traçava figuras geométricas para um escravo? É porque o espaço. os juízos do físico podem ser a priori. são dados a posteriori. dispõe a O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . não emprega necessariamente a categoria a priori de causa na crítica que nos oferece? "Todas as intuições sensíveis estão submetidas às categorias como às únicas condições sob as quais a diversidade da intuição pode unificar-se em uma consciência". necessárias e universais. São quadros a priori de meu espírito. Assim sendo. Os fenômenos. uma exigência de unificação dos fenômenos entre si. Estética significa teoria da percepção. isto é. antes de toda experiência concreta. são a priori. O próprio Hume. pelas quais unificamos os fenômenos esparsos na experiência. é um quadro que faz parte da própria estrutura de meu espírito. eles próprios.

não teriam nada para unificar. na dialética transcendental. É o próprio espírito que. limitam o seu alcance. Só conhecemos os fenômenos e não as coisas em si ou noumenos. Kant se interroga sobre o valor do conhecimento metafísico. O que é fundamentado é o conhecimento científico. O conhecimento. é por isso que não conhecemos o fundo das coisas. No entanto. As únicas intuições de que dispomos são as intuições sensíveis. diz Kant. Sem as categorias. que gira em torno da Terra. mas é esta que gira em torno daquele. ao fundamentar solidamente o conhecimento. Só conhecemos o mundo refratado através dos quadros subjetivos do espaço e do tempo. Tudo o que nos aparece bem relacionado na natureza. graças às suas estruturas a priori. isto é. as intuições sensíveis seriam "cegas". É a isto que Kant chama de sua revolução copernicana. Pretender como Platão. Não é o Sol.experiência em seu quadro espacio-temporal (o que Kant mostrará na Estética transcendental) e. Aquilo a que denominamos experiência não é algo que o espírito. receberia passivamente. tal como cera mole. dissera Copérnico. mas sem as intuições sensíveis concretas as categorias seriam "vazias". foi relacionado pelo espírito humano. constrói a ordem do universo. os materiais que lhe são fornecidos pela intuição sensível. é passar por "visionário" e se iludir com quimeras: "A pomba .o objeto do seu saber. Descartes ou Spinoza que a razão humana tem intuições fora e acima do mundo sensível. As análises precedentes. Na terceira parte de sua Crítica da Razão Pura. desordenadas e confusas. que se limita a por em ordem. não é o reflexo do objeto exterior. É o próprio espírito humano que constrói - com os dados do conhecimento sensível . isto é. imprime-lhe ordem e coerência por intermédio de suas categorias (o que Kant mostra na Analítica transcendental). por outro. diz Kant. graças às categorias.

uma vez que não tinha ponto de apoio em que pudesse aplicar suas forças". perde-se nas antinomias. Entretanto. contrária e favoravelmente. Mas privada de qualquer ponto de apoio na experiência. que em seu vôo livre fende os ares de cuja resistência se ressente.. nos espaços vazios da razão pura. Não. a razão não deixa de construir sistemas metafísicos porque sua vocação própria é buscar unificar incessantemente. não abria nenhum caminho. Não se apercebia que. daí a necessidade de um ponto de partida. mesmo além de toda experiência possível. não deve servir de permissão para inventar.ligeira. poderia imaginar que voaria ainda melhor no vácuo. pois so o mundo é objeto de minha experiência). pois eu sempre posso me perguntar: que havia antes do começo do universo?).. como louca. convite à descoberta. apesar de todos os seus esforços. Enquanto o cientista faz um uso legítimo da causalidade. que ele emprega para unificar fenômenos dados na experiência (aquecimento e ebulição). tanto a tese quanto a antítese (por exemplo: o universo tem um começo? Sim pois o infinito para trás é impossível. o metafísico abusa da causalidade na medida em que se afasta deliberadamente da experiência concreta (quando imagino um Deus como causa do mundo. Ela inventa o mito de uma "alma-substância" porque supõe realizada a unificação completa dos meus estados d'alma no tempo e o mito de um Deus criador porque busca um fundamento do mundo que seja a unificação total do que se passa neste mundo. demonstrando. O Idealismo Pós-Kantiano O Desenvolvimento do Idealismo O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . afasto-me da experiência. Foi assim que Platão se aventurou nas asas das idéias. O princípio da causalidade. a razão.

a irredutível oposição entre a coisa e o espírito será eliminada. ao definir em uma palavra os sistemas de Fichte. particularmente o idealismo clássico alemão. a empresa kantiana só pode deixar os filósofos insatisfeitos: para Kant. de modo diferente. Fichte . Kant representa o centro do pensamento moderno. Como é então que o mundo sensível se deixa organizar. Hegel. Para ele convergem e nele se compõem em um fenomenismo absoluto o fenomenismo racionalista e o fenomenismo empírico. se ordenado pelas categorias do espírito? E por que Kant mantém essa coisa em si que. de síntese a priori.O Idealismo Ético Schelling .O Idealismo Religioso Considerações Gerais A maior parte dos filósofos (é sua vocação mais preciosa. a menos que não seja seu pecado original) visa à inteligibilidade perfeita e à unidade total. vão propor sistemas em que. que desenvolve o conceito de criatividade do sujeito. segundo afirma.O Idealismo Estético Schleiermacher . por conseguinte. Nessas condições. de Schelling. ao mesmo tempo que o seu próprio. não podemos conhecer nem designar? Os sucessores de Kant. Dele depende todo pensamento posterior. caracteriza-os sucessivamente como idealismo subjetivo. idealismo objetivo e idealismo absoluto. de autonomia do . o entendimento não pode conhecer o fundo das coisas e se limita a "soletrar os fenômenos".

mais para a arte e a poesia. em que toda realidade se resolve nos limites da experiência. bem como dele dependem artistas. o conceito de desenvolvimento. mais ou menos. pois. ao passo que se deu o contrário com o racionalismo precedente. são eles. Além de Kant. Este. de Spinoza. Schelling. Schleiermacher. que são produtos históricos. propende. Os maiores românticos alemães são Schlegel e Novalis. Schopenhauer) dependem. para uma forma de monismo imanentista. mas pertencem também ao movimento romântico. Paralelo e correspondente ao movimento filosófico do idealismo pode ser considerado o romantismo. O Desenvolvimento do Idealismo O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . com Goethe à frente. como o idealismo. também o romantismo é denominado pelo conceito de criatividade e liberdade do espírito. e esta é totalmente produzida pelo espírito. pela íntima unidade espiritual do romantismo e do idealismo. por conseguinte. em geral. A estes podem-se acrescentar Schelling e Schleiermacher. propriamente. fenômeno artístico e literário. a valorização da nacionalidade e da religião. poetas. e com o idealismo tem em comum o historicismo. e o seu pensamento encaminha decisivamente o idealismo para a trilha do monismo imanentista. e. Hegel. filósofos idealistas. do que para as ciências e a matemática. Todos os filósofos idealistas (Fichte. Este filósofo é arrancado do desprezo e do esquecimento em que jazia.espírito. especialmente alemão. Com efeito. literatos. a outra fonte essencial do idealismo alemão é Spinoza. para o qual já fora orientado por Kant.

Kant deixara ainda uns dados. ou coisa em si. entretanto. Apesar do seu conceito de criatividade do espírito. esse mundo de dados. que encaminhou decididamente o criticismo pela senda do idealismo imanentista. vive. pois Fichte mantém o conceito kantiano do primado da razão prática. o espírito seria passivo. criado pelo espírito para se realizar a si mesmo como eticidade e liberdade. em Rommenau. no qual unicamente.e não transcendente . das sensações. em face dos quais o espírito é passivo: o mundo dos noumenons. Resolve ele o mundo kantiano da sensibilidade. O Idealismo Ético: Fichte O primeiro e maior discípulo de Kant. de síntese a priori. o idealismo clássico nega todo dado. é Fichte. que o espírito não consegue conhecer. Ora. João Amadeu Fichte nasceu em 1762. Primeiro estudou teologia na universidade de Jena. se concretiza a si mesmo indefinita e livremente. O mundo da matéria. precisamente no conceito do espírito como eticidade. e de outro lado por aquele mundo inteligível.com respeito à multiplicidade e ao vir-a-ser do mundo empírico. perante o qual. e reduz tudo à mais absoluta imanência do espírito. Esse mundo de coisa em si. da natureza. é uma criação inconsciente do espírito. o espírito se realiza. este é transcendental . e é plenamente cognoscível a si mesmo. no mundo empírico. é representado especialmente de um lado por aquela misteriosa matéria. no dizer de Kant. depois dedicou-se . e portanto nega o transcendente mundo kantiano dos noumenons. perante o qual o espírito é passivo. no mundo da natureza. donde derivaria toda a atividade organizadora e criadora do espírito.

Dogmatismo significa passividade. de um eu universal. posse de si mesmo. isto é. em 1810. moral. a principal é Fundamentos da doutrina da ciência. fraqueza. acomodação. pelo qual se decide em favor do idealismo e não em favor do dogmatismo. Apesar das suas desculpas. no tempo e no espaço. Fichte concebe idealisticamente toda a realidade. em suma. Nesses eus empíricos. na universidade de Berlim. este motivo prático. do realismo. e conheceu pessoalmente Kant. que. os diversos "eus empíricos" seriam concretizações particulares. moral. procurou a sua justificação teorética em uma metafísica monista-imanentista. isto é. que . para incitar os seus patrícios contra Napoleão que humilhara e vencera a Alemanha. e não em uma metafísica transcendente e teísta. tanto espiritual quanto material. ao passo que idealismo. Em 1794 foi convidado a lecionar na universidade de Jena. isto é. Eu puro. Entre as suas obras.entusiasticamente à filosofia kantiana. e ter travado relações com um círculo romântico. debilidade. onde expõe sistematicamente o seu pensamento. Depois de ter peregrinado por várias universidades. como uma produção do eu. em 1814. de que o eu empírico. naturalmente. estabeleceu-se definitivamente. imanentismo. onde pronunciou os famosos Discursos à Nação Alemã. portanto. Trata-se. independência. absoluto. Assentado isto. Aí teve que enfrentar a oposição das autoridades religiosas e políticas.protestantes embora - tiveram intuição do seu anticristianismo e ateísmo. Sustenta Fichte que o motivo fundamental. Faleceu em Berlim. uma questão de caráter. transcendental. liberdade. de fato. enfim teve Fichte que deixar o ensino universitário. ficou sendo a base do idealismo posterior. significaria atividade. e unicamente O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . E. seria prático.

em um processo infinito. do eu cognoscitivo e do eu ativo. a dualidade do eu teorético e do eu prático. animais. era um dado e inexplicável. Fichte pensa que a natureza íntima. originária do eu seja atividade. pois. porquanto em um sistema de idealismo absoluto deveria ser tudo racionalmente justificado . deduzido do eu o mundo da matéria. a antítese que ele põe como tese. mundo que. temos. minerais. o obstáculo a superar para realizar a sua eticidade. para Kant. racionalmente indeduzível o conteúdo desse mundo da natureza. e cada indivíduo e cada ação sua. Mas. que é precisamente eticidade. para que seja superado e vencido esse mundo natural. pelo contrário. se terminasse. é necessário que a natureza seja conhecida pelo espírito. da natureza. quando. destarte. o Eu puro vive. do eu (reflexão). No conhecimento começa a manifestar-se aquela atividade consciente do espírito. Para realizá-la. eticidade. procurará fazer Hegel.neles. o eu criaria o mundo da natureza. não tem fim. porque. e a realidade cairia do nada. o espírito. profunda. a qual é atividade. isto é.como mais tarde. todavia. a fim de que seja possível a síntese ética. na antítese eu não-eu. que . julga Fichte ter justificado. tal produção do não-eu por parte do eu. Naturalmente. Daí uma terceira duplicação do eu. vegetais. oporia a si mesmo o não-eu. Fica. Desenvolvendo a doutrina kantiana do primado da razão prática. Este seria precisamente como que o campo da sua atividade. moralidade. desenvolve-se. Tal processo ascendente. para que o espírito possa aplicar a ele a sua atividade. tal produção da natureza por parte do espírito é inconsciente. prevalece o segundo elemento. ético. em que está a sua divindade infinita. Mas. opera. Temos o eu teorético. apagar-se-ia a vida do espírito. o eu prático quando prevalece o primeiro elemento.

como herdeira da cultura clássica e sede do cristianismo católico romano. que indiscutivelmente ela possui. esse estado seria a Alemanha. inconsciente no momento da produção da natureza. um estado ideal. do eu. em que o povo alemão é considerado como o povo puro e originário. superestado em face de outros estados. uma nação. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . consciente e inconsciente. do não-eu (imaginação produtora). isto é. causa de humilhação para o povo germânico . encarnando a idéia da humanidade. uma consciência de unidade e autonomia nacionais. bem como na multiplicação do "eu puro" nos "eus empíricos". em uma sociedade de seres livres. Nestes discursos esforça-se Fichte para despertar no povo alemão. das nações. a consciência da sua natureza absoluta e divina. que deveriam ter culminado em um estado alemão. mas também procura evidenciar o seu primado no mundo. dos povos. Fichte tem uma concepção ética do estado. religioso e cultural.era.com os Discursos à Nação Alemã. É um mito romântico da Alemanha. teorética e prática. Nesta obra Gioberti não somente quer dar à Itália unidade e independência nacional e política. Consciência e liberdade que encontram um progresso na sociedade humana. Essa atividade utópica-política de Fichte tem certa semelhança com a atividade desenvolvida alguns anos depois na Itália. deva ser guiada e ensinada por um povo. no estado. isto é. Segundo ele.durante a ocupação. tem por fim a sempre mais perfeita realização do próprio espírito. primado moral e civil. a sua liberdade. despedaçado e dominado. ao invés. por Gioberti que escreveu o famoso livro Primato morale e civile degli Italiani. em Berlim . Daqui se pode compreender a ação política exercida por Fichte na Prússia. Tal série ideal da atividade do espírito. a dominação de Napoleão.

enquanto Schelling assume no seu sistema a concepção romântica. em Leonberg. isto é. em um sistema imanentista . de sorte que o verdadeiro conceito de Deus é logicamente anulado. Não é preciso lembrar que o Deus de Fichte não é transcendente. mas é imanente. em seguida. isto é. Compreendem-se. sustentou pesada polêmica. denominada filosofia da identidade.acaba por coincidir com a ordem real.como é o de Fichte . como o Deus do teísmo e do cristianismo. Frederico Guilherme Schelling nasceu em 1775. do mundo. Em Tubinga teve Hegel como condiscípulo. pessoa. com o qual. essa demolição de Deus. em que o "deve ser" é reduzido ao "ser". em virtude da qual toda a natureza é espiritualizada. não é Deus no sentido verdadeiro e próprio. Entretanto. Schelling está logicamente entre Fichte e Hegel. que . deveria ser a ordem moral do mundo. do qual deriva a sua concepção idealista. O Idealismo Estético: Schelling Embora colega de Fichte e mais velho que Hegel. pelo menos na primeira grande fase da sua especulação filosófica. Ademais. O Deus de Fichte é apenas ordo ordinans. assim. criador. como justamente observa Schopenhauer. e o espírito humano atinge a essência metafísica da realidade através de uma intuição estética. as acusações de ateísmo levantadas contra Fichte. E. impessoal e gerador do mundo. Passou da teologia à filosofia e dedicou-se ao estudo de Spinoza. que aspira aos valores espirituais e morais. natural. volta ele para uma concepção de Deus absoluto e imutável. representa ele a filosofia do romantismo. O próprio Fichte notou essa grave deficiência. em uma segunda fase do seu pensamento. de Fichte. ideal para o qual tende o afanoso evolucionar humano.

afastando-se entretanto dele em seguida. As suas obras principais são: o Sistema do idealismo Transcendental. idealista: o espírito. cujo racionalismo ele demole. filosofia da liberdade). Foi sucessivamente professor nas universidades de Jena. Dessa identidade. recusa. Schelling foi um autor variado e fecundo. As faces do seu pensamento são fundamentalmente duas: o período da filosofia da identidade. espírito e natureza. é princípio de tudo. A natureza é o espírito na fase de consciência obscura. o sujeito puro). o sujeito. Como Fichte. Munique e Berlim. Würzburg. mas deverá ser um princípio mais profundo.constitui o pressuposto imediato do seu pensamento. Representação do meu Sistema (primeira fase. quando o idealismo já estava esfacelado. à consciência. o eu. anterior ao eu e ao não-eu: será precisamente a identidade absoluta do eu e do não- eu. admite que a natureza é uma produção necessária do espírito. Para ele. e o da filosofia da liberdade.embora concebida idealisticamente . a natureza . fundamentalmente. onde dominara o seu adversário Hegel.tem uma realidade autônoma com respeito ao sujeito. princípio absoluto O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . filosofia da identidade). Filosofia e Religião. A filosofia de Schelling é. em 1854. como o espírito é a natureza na fase de consciência clara. o conceito de Fichte de que a natureza tenha uma existência puramente relativa ao espírito. Pesquisas Filosóficas sobre a Essência da Liberdade Humana e os Objetos Conexos com Esta (segunda fase. porém. Então o princípio da realidade não é mais o eu de Fichte (o eu absoluto. Erlangen. sujeito e objeto. Em Leipzig integrou a sua cultura humanista e literária com estudos científicos. Nele influíram também as turvas fantasias da mística alemã. Faleceu em Berlim.

Schelling julga demonstrá-lo mediante a racionalidade imanente na própria natureza. a multiplicidade e o devir do mundo. a realidade absoluta é identidade entre natureza e espírito. uma continuação com respeito ao desenvolvimento da natureza. Logo. propende para a primeira solução: o idêntico não é a causa do universo. começa o desenvolvimento do espírito humano. A unidade. decorrerá. não no científico. No primeiro caso. Mas então surge o problema que assoma em toda concepção monista da realidade: ou a realidade verdadeira cabe ao idêntico. ser aprendida pela intuição estética expressa na obra de arte. e nada . mas como seu desenvolvimento e consciência. Que a natureza seja espiritualidade latente e progressiva. o devir do mundo tem uma realidade verdadeira. Ao surgir a sensibilidade.da realidade. e depois o espírito com toda a sua história. a natureza e o seu desenvolvimento. Mas então como se explica a visão. mesmo ilusória. e precisamente mediante a sua finalidade. são meras aparências subjetivas. Unicamente o gênio artístico atinge e revela o artista misterioso que atua no universo. mas é o próprio universo. a identidade profunda entre natureza e espírito deveria. primeiro. no segundo. que é um progresso. segundo Schelling. do universo que aparece múltiplo e in fieri? Se a realidade absoluta é una e imutável. E o gênio se encontra só no campo estético. objeto e sujeito: unidade de uma multiplicidade. a natureza e o espírito. não como sendo oposição e negação da natureza. ao uno imutável. nasce no universo a consciência espiritual. ou o multíplice. ao indistinto. que é a obra do gênio.

com todo o mal que nele existe. elas se podem destacar do Absoluto. da individualidade. o imutável. irracional da vontade. vontade inconsciente que aspira à racionalidade. Tal passagem é representada pela segunda fase do seu pensamento. tal separação aconteceu e constitui o mundo material e espiritual. E. como indiferença de irracional e racional. revelação de Deus a si mesmo. com efeito. Deus. como e donde pode surgir essa visão destruidora do Absoluto? Schelling procura resolver esse problema. da história da natureza e da humanidade.existe fora dela. de um sistema racional. do devir. o retorno das O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . possibilidade do irracional e do racional. Através. decair no mundo empírico da multiplicidade. Essa realização de racionalidade. que é liberdade e vontade. à própria auto-revelação. ao mundo empírico e contingente. porque as idéias eternas participam da natureza divina. essa revelação de Deus a si mesmo se realizam na determinação das idéias eternas em Deus. o temporal. deveria realizar-se progressivamente a redenção dessa queda original. E isto é possível. o universal e o imperfeito. Nessa segunda fase. Por conseguinte. natural e humano. do contingente. Schelling imagina o ser absoluto. a um sistema irracional. e como exemplares universais e imutáveis das existências particulares e in fieri. porquanto há essencial heterogeneidade entre o perfeito. de liberdade. pois. A passagem de Deus. passando da filosofia da identidade à filosofia da liberdade. Tal passagem se explica então mediante um ato arracional. tal queda. do mundo ideal. Schelling concebe as idéias eternas ao mesmo tempo como verbo de Deus. não se pode realizar mediante uma dedução lógica. o particular.

mas o próprio Deus: porquanto. para Schelling. portanto. e é. O Idealismo Religioso: Schleiermacher A Schelling pode-se ligar Schleiermacher. embora muito inferior a Schelling como metafísico. da multiplicidade à Unidade. Scheleiermacher teve uma influência vasta e duradoura sobre o protestantismo liberal alemão. Foi professor em Halle e Berlim. portanto. Frederico Scheleiermacher nasceu em Breslau. de sorte que a religião se torna necessariamente e ainda mais radicalmente demolida. conquistando a sua racionalidade. das idéias. ciência. ao passo que o segundo pode ser unicamente descrito com base na experiência. da realidade. Com relação ao primeiro é possível conhecimento racional. . Compreende-se. justificar a religião. em 1768. como. idealista. mas irracional o mundo da existência. Juntamente com o Romantismo. do finito ao Infinito. porquanto ele também é ligado estritamente ao movimento romântico. porém. elemento germinal da Reforma luterana. É. Essa redenção redimiria não só e não tanto o mundo e o homem. Scheleiermacher procura valorizar. ele. filosofia. filósofo do Romantismo. difícil e proteiforme. superaria o seu fundo originário arracional e irracional. assim. O pensamento de Schelling é. uma valorização no sentido imanentista. pelo que se vê. elucidando o princípio da experiência interior. As suas obras principais. desprezada e expulsa da vida do espírito pelo racionalismo iluminista. revelando-se plenamente a si mesmo. é racional o mundo das ciências.coisas a Deus. onde faleceu em 1831.

como julgava Hegel. como julgava Kant. a ética ser resolvida na dialética. Para Kant. isto é. e a raiz comum das outras atividades psíquicas. dependente e limitado. mas pelo sentimento potenciado romanticamente em sentido metafísico. Crítica das Doutrinas. Embora Scheleiermacher pense que não podemos conhecer nada a respeito de Deus. repete de muitos modos que a realidade é una. sentimento este que seria precisamente a faculdade do Absoluto.em ordem cronológica. daí ser a metafísica substituída pela moral. secundário. moral. fundamentalmente. do monismo imanentista. teoreticamente. Mas o Absoluto não é atingível sequer por via teorética. e a religião aniquilada na filosofia. daí ser a religião reduzida aos limites da razão prática. A Fé Cristã. racional. a razão prática. Monólogos. Daí o primado da razão prática. que é uma atividade coordenada ao conhecimento e à vontade. Scheleiermacher quer libertar a religião não O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . do Uno. isto é.é atingido pelo sentimento: não pelo simples sentimento entendido em sentido psicológico. e é. a atividade que atinge o Absoluto é a vontade moral.segundo Scheleiermacher . mediante a qual o autor procura justificar a religião em geral e o cristianismo em especial. O Absoluto . Estes críticos têm um interesse religioso. como o conhecimento e a vontade. e que o espírito humano na sua plena atualidade é a consciência de Deus imanente. a do idealismo romântico. dada a sua concepção panlogista-imanentista da realidade (toda a realidade é racional e toda a racionalidade é real): daí a lógica coincidir com a ontologia. A concepção filosófica de Scheleiermacher é. mas implicam também numa concepção metafísica do mundo e da vida. resolvida na moral. Segundo Scheleiermacher. o Absoluto não é atingível por via prática. são: Discursos sobre a Religião.

de fato. ele define. uma multiplicidade.que o Absoluto é atingido mediante a intuição estética. a relação do finito com o infinito não pode ser senão dependência absoluta. e nem sequer pela vontade. o qual deveria ser apreendido pelo sentimento em sentido .apreendido imediatamente pelo sentimento psicológico. que deveria ser a plena consciência do Absoluto? Propriamente pela referência do sujeito empírico . Segundo a experiência religiosa.só da ciência. pela ética. Que relação existe entre sentimento e religião. não arbitrariamente. ao Eu. e. a religião como sendo a relação do finito com o infinito. Ao sentimento ele reconhece o valor particular de imediata autoconsciência e transforma-o metafisicamente. mas também da moral. a que Schleiermacher julga poder dar um específico valor religioso. valorizado metafisicamente.não podem atingir o Absoluto. para celebrar uma religiosidade estética. E como se realiza uma relação. pela ciência. no sentimento. E julga que o privilégio de apreender a unidade metafísica do ser é devido ao sentimento.a ciência e a moral . ao Uno. E conclui finalizando na equação sentimento- religião. (sujeito e objeto). estética? Scheleiermacher parece proceder deste modo. acaba admitindo o primado da religião.ao Absoluto. E por que esta atividade deve ser considerada religiosa e não. e sim pelo sentimento. porquanto. portanto. Pensa ele . entre os quais Scheleiermacher institui uma equação? O Absoluto não é atingido pelo conhecimento. Scheleiermacher sustenta que o conhecimento e a vontade . pela consciência imediata do eu . uma excluindo a outra. por exemplo. do sentimento. que é uno. porquanto o conhecimento e a vontade implicam a multiplicidade decorrente da relativa mudança dos estados de consciência e a dualidade de duas atividades.como Schelling . isto é.

ao mais alto e mais puro Eu. é certo que. uma expressão da distinção geral idealista entre eu empírico e eu transcendental. seriam expressões inadequadas e simbólicas da religiosidade. segundo Scheleiermacher. Essa relação não é. como de criatura a Criador. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Mediante a doutrina desses dois sentimentos. a doutrina e a moral. que é a consciência do Absoluto. que é abstrata unidade. E como na vida espiritual o conhecimento e a vontade seriam secundários e derivados com respeito ao sentimento. assim na atividade religiosa a teoria e a prática. como sentimento indeterminado da Unidade indeterminada. a religião ocupa o mais alto grau da atividade humana. evidentemente. É o escolho fatal do monismo. assim como o sentimento ocupa o vértice da vida espiritual. mas como dualidade na unidade. indiferença absoluta. Parece. contra o qual Scheleiermacher em vão se bateu. mas não se compreende como no Absoluto. que seria a referência das várias e mutáveis determinações da autoconsciência ao Absoluto. se determine essa dualidade. para Scheleiermacher. poder-se distinguir em Scheleiermacher uma religiosidade em sentido amplo.metafísico. segundo Scheleiermacher. que é uno. A prescindir das críticas externas e internas que se podem fazer a essa construção metafísico-imanentista. seria explicada a relação religiosa. que constitui a nossa essência. A filosofia religiosa de Scheleiermacher teve uma grande influência sobre o protestantismo liberal alemão do século XIX. Nisto consistiria a religiosidade verdadeira e própria. e uma religiosidade em sentido específico. estético-romântica. e no sentimento. portanto. (empírico e metafísico).

desenvolvimento. porém. é racionalizado por Hegel. Nessa última universidade lecionou até há morte. Este vir-a-ser. para favorecer as tendências absolutistas e intransigentes do estado prussiano. Heidelberg e Berlim. em seguida se dedicou ao historicismo romântico. Hegel A Dialética O Idealismo Lógico: Hegel Com o idealismo absoluto de Hegel. Faleceu em 1831 vítima de cólera. entrementes. Interessou-se pelos problemas religiosos e políticos. emanentista. Na realidade. concebendo a realidade como vir-a-ser. em 1770. e sim um processo circular. simpatizando-se pelo criticismo e pelo iluminismo. Jorge Guilherme Frederico Hegel nasceu em Stutgart. Hegel fica fiel ao historicismo romântico. o idealismo fenomênico kantiano alcança logicamente o seu vértice metafísico. Renunciara. Estudou teologia e filosofia. Em seus últimos anos. Hegel era ao mesmo tempo suficientemente prudente e sufucientemente hermético para que se tornasse muito difícil fazer-lhe acusações precisas dessa ordem! O poeta . adquirindo grande renome e exercendo vasta influência. torna-se suspeito de panteísmo. e este processo dialético não é um movimento a quo adi quod. corre o boato de que ele duvida da imortalidade da alma. elevado a processo dialético. alguns o ridicularizaram (apelidando-o de Absolutus von Hegelingen). afastando-se deles em seguida até combatê-los quando professor nas universidades de Jena. Aproximou-se dos sistemas de Fichte e de Schelling. aos ideais revolucionários e críticos.

Hegel porém se distingue de Spinoza e surge para nós como um filósofo essencialmente moderno. ao mesmo tempo. Espírito. o mundo que manifesta a Idéia não é uma natureza semelhante a si mesma em todos os tempos. o entendimento humano. a de Hegel é uma filosofia da inteligibilidade total.Heinrich Heine. a essência do próprio Ser. que ele. Ela é igualmente a realidade profunda das coisas. conta. como todos os seus contemporâneos. e esta lhe mostra que as estruturas sociais. no entanto. A razão aqui não é apenas. para ele. da imanência absoluta. como em Kant. Ela é não só um modo de pensar as coisas. podem ser modificadas. muito meditou sobre a Revolução Francesa. Idéia. o futuro mostraria amplamente que a filosofia do pensador oficial da monarquia escondia um grande poder explosivo! Como a filosofia de Spinoza. que dizia que a leitura dos jornais era "sua prece matinal cotidiana". em definitivo. assim como os pensamentos dos homens. respondeu bruscamente a um estudante que lhe falava do Paraíso: "O senhor então precisa de uma gorjeta porque cuidou de sua mãe enferma e porque não envenenou ninguém!" Em todo caso. para ele. mas o próprio modo de ser das coisas: "O racional é real e o real é racional". o fundo do Ser (longe de ser uma coisa em si inacessível) é. o conjunto dos princípios e das regras segundo as quais pensamos o mundo. um dia. Sua filosofia representa. uma vez que. considerar Hegel como o filósofo idealista por excelência. subvertidas no decurso da história. portanto. com relação à crítica kantiana do conhecimento. Podemos. um retorno à ontologia. É o ser em sua totalidade que é significativo e cada acontecimento particular no mundo só tem sentido finalmente em função do Absoluto do qual não é mais do que um aspecto ou um momento. O que há O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . pois. que seguiu seus cursos de 1821 a 1823.

Deus não é o que é . bem como altera este por interesses práticos e políticos. É preciso compreender também que a história é um progresso. depois. diz Hegel. a plena posse. a plena consciência de si mesmo. A Enciclopédia das Ciências Filosóficas. para Hegel. animais. ainda há algo de hegeliano na filosofia de Teilhard de Chardin). A Filosofia do Direito.ao menos só é parcial e muito provisoriamente o que atualmente é . O panteísmo de Spinoza identificava Deus com a natureza: Deus sive natura. a idéia se manifesta como processo histórico: "A história universal nada mais é do que a manifestação da razão". só no final será o que ele é na realidade". As principais obras de Hegel são: A Fenomenologia do Espírito. é uma odisséia do Espírito Universal". "O absoluto. de início adormecido. no final. A Lógica. a história. No entanto. "alienado" no universo. dissimulado e como que estranho a si mesmo. Foi um gênio poderoso. Não temos a impressão de que seres cada vez mais complexos. freqüentemente deforma os fatos para enquadrá-los no esquema lógico do seu sistema racionalista- dialético. O panteísmo hegeliano identifica Deus com a História. uma "teodisséia". para Hegel. tanto assim que se pode considerar o Aristóteles e o Tomás de Aquino do pensamento contemporâneo. vegetais e. em suma. cada vez mais autônomos surgem no Universo? O Espírito.de original em seu idealismo é que. O vir-a-ser de muitas peripécias não é senão a história do Espírito universal que se desenvolve e se realiza por etapas sucessivas para atingir. Por conseguinte. surge cada vez mais manifestamente .Deus é o que se realizará na História. se nos permitem o jogo de palavras. cada vez mais organizados. em seguida. Consideremos a história da terra. sua cultura foi vastíssima. bem como a sua capacidade sistemática. (Neste sentido. De início só existem minerais.

ele consegue encarnar-se. Hegel é daqueles que acham que a força não "oprime" o direito (essa fórmula. nessa filosofia puramente imanentista. tem por missão realizar uma etapa desse progresso do Espírito. Desse modo. de certo modo. a lógica clássica considera que uma proposição fica demonstrada quando é reduzida. em todo caso. Após ter saudado em Napoleão "o espírito universal a cavalo". A lógica vai do idêntico ao idêntico. que pretende totalizar sob sua alçada todas as outras filosofias) como Saber Absoluto. Segundo as normas da lógica clássica. O Espírito humano é de início uma consciência confusa. naquele momento. o mais dotado de valor e que a virtude. que aquele que é vitorioso na História é. totaliza todas as obras da cultura (é só no crepúsculo. Tal é o espírito objetivo que se realiza naquilo que Hegel chama de "o mundo da cultura". Em outras palavras. a filosofia é o saber de todos os saberes: a sabedoria suprema que. Cada povo cada civilização. Deus só se realiza na história. melhor exprime o Espírito. Por conseguinte. mas que o exprime. um espírito puramente subjetivo. Compreendemos bem. diz Hegel. "exprime o curso do mundo".como ordem. essa identificação da Razão com o Devir histórico é absolutamente paradoxal. De fato. simultaneamente. como ele diz. a forma de civilização que triunfa a cada etapa da história é aquela que. identificada a uma proposição já admitida. logo como consciência. objetivar-se sob a forma de civilizações. Enfim. que o pássaro de Minerva levanta vôo). o Espírito se descobre mais claramente na consciência artística e na consciência religiosa para finalmente apreender-se na Filosofia (notadamente na filosofia de Hegel. de instituições organizadas. Esse progresso do Espírito continua e se concluirá através da história dos homens. abusivamente atribuída a Bismarck. é a sensação imediata. como liberdade. Depois. Hegel verá no estado prussiano de seu tempo a expressão mais perfeita do Espírito Absoluto. nada significa). no final. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . que.

uma "mediação" (síntese). ao mesmo tempo. é o domínio do mutável. O pensamento não é mais estático. já que esta última não é senão o Pensamento que se realiza. entre as duas precedentes. mas.o processo dialético . Aplicar a razão à história. ao contrário. transformada em outra que não ela mesma ("alienada").no qual a contradição não mais é o que deve ser evitado a qualquer preço. como num diálogo em que a verdade surge a partir da discussão e das contradições. por exemplo. ao contrário. por conseguinte. recusar o tempo. Hegel põe a contradição no próprio núcleo do pensamento e das coisas simultaneamente. contrariando tudo isso. O acontecimento de hoje é diferente do de ontem. Ora. Como é que o ser. ao mesmo tempo. à sintese. ao mesmo tempo em que é o motor da história. que no fundo tudo permanece idêntico. da tese à antítese e. se transforma no próprio motor do pensamento. uma ligação. A Dialética A dialética para Hegel é o procedimento superior do pensamento é. Como isso é possível? É possível porque Hegel concebe um processo racional original . Vejamos. o racionalismo de Hegel coloca o devir. "a marcha e o ritmo das próprias coisas".A história. seria mostrar que a mudança é aparente. em virtude do qual uma coisa não pode ser e. ele procede por meio de contradições superadas. a história. em primeiro plano. repetimo-la. Aplicar a razão à história seria negar a história. não ser. Repudiando o princípio da contradição de Aristóteles e de Leibnitz. A primeira proposição encontrar-se-á finalmente transformada e enriquecida numa nova fórmula que era. essa noção simultaneamente a mais . Uma proposição (tese) não pode se pôr sem se opor a outra (antítese) em que a primeira é negada. Ele o contradiz. daí. como o conceito fundamental de ser se enriquece dialeticamente.

O vencedor não mata o prisioneiro. é livre. não ser absolutamente nada. transforma-se em outra coisa? É em virtude da contradição que esse conceito envolve. ao passo que este último se vê despojado dos frutos de seu trabalho. é vencido. a) O senhor obriga o escravo. mas também o mais pobre. É fácil ver que essa contradição se resolve no vir-a-ser (posto que vir-a-ser é não mais ser o que se era). não acende seu fogo: ele tem o escravo para isso. não faz cozer seus alimentos. o do senhor e o escravo. aí se reencontram fundidos. ao passo que ele próprio goza os prazeres da vida. equivale ao não-ser (eis a antítese).é. o "servus". O senhor não conhece mais os rigores do mundo material. reconciliados. que não ousa arriscar a vida. Ser. porque lê o reconhecimento de sua superioridade no olhar submisso de seu escravo. conserva-o cuidadosamente como testemunha e espelho de sua vitória. Trata-se de um episódio dialético tirado da Fenomenologia do Espírito.abstrata e a mais real. Tal é o escravo. nada mais podemos dizer). O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . em última análise. aquele que. Os dois contrários que engendram o devir (síntese). Dois homens lutam entre si. sem qualquer qualidade ou determinação . Vejamos um exemplo muito célebre da dialética hegeliana que será um dos pontos de partida da reflexão de Karl Marx. O outro. numa situação de submissão absoluta. O senhor. mostrando assim que é um homem livre. superior à sua vida. ao contrário. O senhor não cultiva seu jardim. O conceito de ser é o mais geral. Aceita arriscar sua vida no combate. Um deles é pleno de coragem. uma vez que interpôs um escravo entre ele e o mundo. ao pé da letra. puro e simples. foi conservado. é não ser! O ser. a mais vazia e a mais compreensiva (essa noção em que o velho Parmênides se fechava: o ser é.

o escravo. c) De fato. ensina a seu senhor a verdadeira liberdade que é o domínio de si mesmo. Mas. a liberdade estóica se apresenta a Hegel como a reconciliação entre o domínio e a servidão. b) Entretanto. O senhor só o é porque é reconhecido como tal pela consciência do escravo e também porque vive do trabalho desse escravo. Assim. Nesse sentido. em que o espírito é constituído substancialmente como sendo o construtor da realidade e toda a sua atividade é reduzida ao âmbito da experiência. aprende a vencer a natureza ao utilizar as leis da matéria e recupera uma certa forma de liberdade (o domínio da natureza) por intermédio de seu trabalho. Por uma conversão dialética exemplar. de sorte que Hegel se achava fatalmente impelido a um monismo imanentista. sobretudo. vai encontrar uma nova forma de liberdade. que condiciona a sua. desenvolvendo uma consciência pessoal. que era mais ainda o escravo da vida do que o escravo de seu senhor (foi por medo de morrer que se submeteu). Desse modo. transcender a experiência. o escravo incessantemente ocupado com o trabalho. aprende a se afastar de todos os eventos exteriores. a libertar-se de tudo o que o oprime. fundamentalmente. ele é uma espécie de escravo de seu escravo. porquanto é da íntima natureza da síntese a priori não poder. essa situação vai se transformar dialeticamente porque a posição do senhor abriga uma contradição interna: o senhor só o é em função da existência do escravo. Hegel parte. de modo nenhum. deviam se achar na realidade única da . o trabalho servil devolve-lhe a liberdade. dialético. que devia necessariamente tornar-se panlogista. o escravo. Assim. da síntese a priori de Kant. transformado pelas provações e pelo próprio trabalho. Colocado numa situação infeliz em que só conhece provações.

de modo nenhum. portanto. declarará nada mais ser que ateísmo imanentista. para poder racionalizar o elemento potencial e negativo da experiência. antítese e síntese. do ritmo famoso de tese.experiência as características divinas do antigo Deus transcendente. divina. Apresentava-se. Hegel devia. A nova lógica hegeliana O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . E por isso Hegel inventou a dialética dos opostos. em uma realidade mais rica (síntese). que nega e o qual integra. onde um elemento gera o seu oposto. e a negação e o mal são condições de positividade e de bem. estabelecendo-se a si mesmo absolutamente (tese) e não esgotando o Absoluto de que é um momento. para daqui começar de novo o processo dialético. demanda o seu oposto (antítese). tudo que há no mundo de arracional e de irracional. que Schopenhauer. a qual. por certo. em que a positividade se realiza através da negatividade. isto é. No entanto. a negação. chegar ao panteísmo imanentista. para poder elevar a realidade da experiência à ordem da realidade absoluta. Hegel se achava obrigado a mostrar a racionalidade absoluta da realidade da experiência. portanto. a necessidade da invenção de uma nova lógica. Mas essa racionalidade absoluta da realidade da experiência devia ser concebida mediante o vir-a-ser absoluto (de Heráclito). Isto é. idêntico a si mesmo e excluindo o seu oposto. físico e moral. o grande crítico do idealismo racionalista e otimista. e onde a limitação. Essa dialética dos opostos resolve e compõe em si mesma o elemento positivo da tese e da antítese. ser concebida mediante o ser (da filosofia aristotélica). destruído por Kant. por causa do assim chamado mal metafísico. não podia. todo elemento da realidade. gerar naturalmente valores positivos de bem verdadeiro. cuja característica fundamental é a negação. não podem. o mal. sendo o mundo da experiência limitado e deficiente.

não estático. Estamos. logo.° . realmente.mas também porquanto a nova lógica é considerada como sendo a própria lei do ser. a história em geral se valoriza na filosofia. toma o lugar do conceito abstrato. e sendo também vir-a-ser. 2. conexão histórica do particular com a totalidade do real. enquanto apreende o ser imutável. que representa o elemento universal e comum dos particulares.difere da antiga. isto é. ainda que não totalmente. coincide com a ontologia. . perante um panlogismo.o monismo. ao passo que a lógica hegeliana sustenta que o conceito é universal concreto. ao passo que a lógica hegeliana sustenta que a realidade é essencialmente mudança. é levado às suas extremas conseqüências metafísicas imanentistas. igualmente não é preciso salientar como o conceito concreto. não somente pela negação do princípio de identidade e de contradição . Podemos resumir assim: 1. isto é. Quer dizer. que Hegel considerava panteísmo. em que . devir. Dispensa-se acrescentar como. o particular conexo historicamente com o todo. a experiência sendo a realidade absoluta. em que o próprio objeto já não é mais o ser. onde tudo é essencialmente conexo com tudo. passagem de um elemento ao seu oposto.através do idealismo absoluto .A lógica tradicional afirma que o conceito é universal abstrato.como eram concebidos na lógica antiga . e sim dinâmico. mas o devir absoluto.° .A lógica tradicional afirma que o ser é idêntico a si mesmo e exclui o seu oposto (princípio de identidade e de contradição). como o de Spinoza.

A lógica tradicional distingue substancialmente a filosofia.como faz o pensamento de Deus. se apreende o ser. porquanto a realidade é o desenvolvimento dialético do próprio "logos" divino.° . a realidade deveria transformar-se rigorosamente na racionalidade em um sistema coerente de pensamento idealista e imanentista. cujo objeto é o particular e o mutável. cujo objeto é o universal e o imutável. em que a Idéia teria acabado a sua odisséia. enfim. no espírito humano. dinamicamente. 3. terminar com o advento da filosofia hegeliana. 4. da sua divindade. e demonstrar a necessidade racional da história natural e humana. com efeito. a autoconsciência racional de Deus. enquanto o nosso pensamento.ainda que entendido dialeticamente. Tal história dialética deveria. ao passo que a lógica hegeliana coincide com a ontologia. segundo a conhecida tríade de tese. arbitrariamente potenciada segundo a não menos arbitrária lógica hegeliana. Mas. adquirindo consciência de si mesma. como absoluto. ao passo que a lógica hegeliana assimila a filosofia com a história. nos momentos essenciais. não o esgota totalmente . não só nos aspectos gerais. Hegel julgou dever deduzir a priori o desenvolvimento lógico da idéia. que no espírito humano adquire plena consciência de si mesmo. mas em toda particularidade da história. em uma possível assimilação do devir empírico do desenvolvimento lógico .° .A lógica tradicional distingue-se da ontologia. enquanto o ser é vir-a-ser. Visto que a realidade é o vir-a-ser dialético da Idéia. E. da história. isto é. desse modo. Não é mister dizer que essa história dialética nada mais é que a história empírica. antítese e síntese. viria a ser negada a própria essência da filosofia O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .

o pensamento. em gritos de guerra bramando: nada o pode impedir". a alma. está turva e abatida. Tão suave.. para a qual o ser. isto é. . se Karl Marx tivesse realizado seu projeto de vida original? É que o jovem Marx se considerava um porta nato. algo como "Canto dos elfos". ou seja.hegeliana. trata-se de fúteis cantilenas mitológicas. Eles trazem títulos altamente líricos. como um anjo delicada. Vale citar algumas estrofes: "A menina está ali tão reservada. "Canto dos gnomos" ou "Canto das sereias". Feriu-a no peito tão fundo. é intitulada "Tragédia do destino". tão silente e pálida. e alguns produtos de suas inspirações poéticas chegaram até nós. devotada ao céu. nos olhos um mar de amor e flechas de fogo. da inocência imagem pura. que a Graça teceu. Aí chega um nobre senhor sobre portentoso cavalo. mas ele tem de partir. nada mais é que o infinito vir-a-ser dialético. tão fiel ela era. Uma poesia particularmente comovedora. Karl Marx Como pareceria o mundo hoje.. ainda que profundamente triste.

Os pósteros. Permito-me assim observar. semanalmente com esponja e O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . cheia de mexericos e ridículos endeusamentos locais". quando segue para Bonn a fim de estudar Direito. o que é uma necessidade inevitável tanto para grandes como para pequenas casas. em Trier. Interessante é no máximo observar que o futuro ateísta fanático tenha escrito um ensaio de conclusão do curso secundário sobre o tema "A Unificação dos Crentes em Cristo". sentem-se aliviados ou angustiados por Marx ter desistido. se eu agora estiver curiosa para saber como tem administrado sua vida doméstica. ainda que sob profusos sofrimentos da alma. querido Karl. querido Karl. de cavalgar o Pégaso. Após essa amostra. se a economia representa também algum papel. entretanto. exprime-se assim: "Lamentaria ver você como um poetinha. Karl Marx nasce em 1818. dependendo de se enxergar no marxismo a salvação ou a perdição do mundo. um advogado bem- sucedido. assim lhe escreve a mãe apreensiva: "Você não deve considerar de modo algum uma fraqueza feminina. Em todo caso. surge a pergunta se a poesia alemã perdeu muito com a decisão de Marx. que o filho escreva uma "ode em grande estilo" sobre a Batalha de Waterloo. Mas Marx também encontra outro tom: "Os mundos uivam o próprio canto fúnebre. e nós somos macacos de um Deus frio". De sua juventude não se sabe nada de significativo. encontra notoriamente dificuldades em lidar com as coisas exteriores. Observe rigorosamente que seu quarto seja lavado. Em todo caso. porém. de abdicar da carreira poética. o pai." Sugere. que você nunca deve considerar limpeza e ordem coisas secundárias. Depois. pois disso depende a saúde e o bem-estar. após longo tempo. E lave-se você também. "a menor e mais desgraçada aldeia.

Acumula dívida sobre dívida. é ferido em um duelo. Ao mesmo tempo escreve "um novo sistema metafísico fundamental". Marx continua seus estudos em Berlim. embrutecimento erudito em robe de chambre em vez de embrutecimento junto da caneca de cerveja. Seus amigos atestam que ele é um "arsenal de pensamentos". Seu pai tem razão em se queixar. tudo isso ele censura no filho. mas também lá se evidencia que ele não é nenhum estudante modelar. Por semestres inteiros quase não freqüenta a universidade. meditação indolente junto da sedenta lamparina de azeite. Naturalmente. sem nem sequer ter estado lá por uma única hora. uma agremiação de jovens discípulos de Hegel. uma "alma-danada de idéias". pois as condições sob as quais Marx conduz seus estudos são tudo menos ordeiras: ingressa em uma corporação e. divagação apática por todas as áreas do saber. Para ele mais importante é pertencer ao "Clube do Doutor". e mesmo essas antes do âmbito da Filosofia e da História do que do âmbito do Direito.sabonete. Após dois semestres. os . Até seu pai o adverte sobre o "exagero e exaltação do amor de uma índole poética" de ligar-se a uma mulher. fica noivo de Jenny von Westphalen. É indiciado por "porte ilegal de arma"." Essa advertência certamente não é sem fundamento. em Jena. e lá discutir dia e noite. insociabilidade repugnante com menosprezo total pelas boas maneiras". se bem que a nobre família da noiva só tenha aceito o zé-ninguém com hesitação. É encarcerado por "perturbar a ordem com alarido noturno e bebedeira". De qualquer modo ele se forma aos 23 anos com um trabalho sobre um tema filosófico. mas desiste quando vê que seus amigos. quer se tornar professor. Marx assiste apenas a poucas aulas. se as notícias sobre isso procedem. Não obstante. "Desordem. Mas esses acontecimentos não o impressionam.

Depois de ter-se casado com sua noiva de longos anos. recusa rudemente o comunismo. funda o Novo Jornal Renano. Em Paris. à França e à Alemanha a fim de promover seus planos revolucionários. Após breve tempo. Por um tempo vive juntamente com a família Ruge em uma "comunidade comunista". Em Colônia. tem de suspender sua atividade de editor sob pressão policial. Ele redige a folha em um espírito intrépido e liberal. quase sem exceção naufragavam no governo reacionário. publicado em Colônia.hegelianos de esquerda. contudo. onde funda o primeiro partido comunista do mundo (com 17 membros). A pedido do governo prussiano é expulso da França e estabelece-se provisoriamente em Bruxelas. Marx dirigi- se para Paris. Marx entra em contato com Heine e com socialistas franceses. Mas é novamente expulso e vive até seus últimos dias. retornando então durante a Revolução de 1848 – por ocasião da qual escreve O Manifesto Comunista –. Marx torna-se redator no Jornal Renano. que porém logo se desagregaria devido à incompatibilidade de gênios. onde edita juntamente com seu amigo Arnold Ruge os Anuários Franco-Germânicos. Em vez disso. todos esses anos em Paris e Bruxelas são cheios de contendas amargas e não particularmente tolerantes conduzidas contra revolucionários dissidentes. há O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Porém. Essa atividade força-o a ocupar-se com problemas concretos de natureza política e econômica. de tendência liberal. O jornal – "a meretriz do Reno". como o rei prussiano havia por bem chamá-lo – deixa de ser publicado. em Londres. com apenas algumas interrupções para breves viagens ao continente. Marx vai por pouco tempo para Londres. Porém. Mas também sua permanência nesta cidade não é muito longa. do qual mais tarde deveria tornar-se o cabeça.

Marx tem de levar a vida em grande parte por meio de donativos. sobretudo de seu amigo Friedrich Engels. os quais em grande parte só serão publicados após sua morte. ainda que sua magnífica barba seja esquecida: "Ele representa o tipo de homem constituído por energia. Marx morre aos 65 anos. ainda que interrompido por períodos de inatividade causada por esgotamento. como quase não aparecem comentários. Ele consegue enfim publicar o primeiro volume. força de vontade e . Em Londres. Continuam também as desavenças com os correligionários. ele mesmo escreve críticas positivas e negativas. apenas algumas das crianças sobrevivem aos primeiros anos. O Capital. A senhora Jenny desespera-se freqüentemente e deseja para si e suas crianças antes a morte do que viver uma vida tão miserável. Marx vive em situações muito limitadas com uma família que se multiplica com rapidez. Em 1883 porém. A fundação de um jornal fracassa. As condições de moradia são na maioria das vezes catastróficas. Pressionado por dívidas. até a mobília é penhorada. em sua obra-prima. Acresce que Marx se envolve em um caso amoroso com a empregada doméstica. O aspecto e a personalidade de Marx são descritos por um amigo russo de modo bem intuitivo. Marx pensa em declarar bancarrota. As doenças perseguem a família. Apesar de tudo. apenas o fiel amigo Engels consegue impedir esse ato extremo. que não fica sem conseqüências e prejudica sensivelmente o clima doméstico já afetado pela miséria financeira. antes que a obra de três volumes esteja completa. ocasionalmente. Ocorre inclusive de Marx nem sequer poder sair de casa por sua roupa ter sido penhorada. Freqüentemente padecem necessidades.também um trabalho intensivo em manuscritos filosóficos e econômicos. Marx trabalha ferreamente.

Marx dedica-se a Hegel com paixão para. cujo pensamento ele chama de "a filosofia atual do mundo". O decisivo nisso é que o verdadeiro sujeito da história não são os homens que agem. Marx insere-se na maior disputa espiritual de seu tempo. depois. que suava como metal. Mas eram orgulhosas. Sua crítica inicia-se pela concepção da história de Hegel. que aliás eram ainda intensificadas por um tom que me tocava quase dolorosamente e que impregnava tudo o que falava. Diante de mim estava a encarnação de um ditador democrático. Seus movimentos eram desastrados. suas maneiras iam frontalmente de encontro a toda forma de sociabilidade. uma dialética interna. determinada pela vultosa figura de Hegel. Não falava senão em palavras imperativas. por mais esquisitos que parecessem seu aspecto e seu comportamento. com um laivo de desprezo. Esse tom expressava a firme convicção de sua missão de dominar os espíritos e de prescrever-lhes leis. porém ousados e altivos. a história não é uma mera seqüência casual de acontecimentos. possuía contudo o aspecto de um homem que tem o direito e o poder de atrair a atenção. ou seja. assim como se fosse em momentos de fantasia. Uma grossa juba negra sobre a cabeça. um tipo que também segundo a aparência era extremamente estranho. intolerantes contra toda resistência. mas um suceder racional que se desenvolve segundo um princípio imanente. distanciar-se dele com tanto maior aspereza." Desde o início de sua atividade filosófica. ao qual Hegel designa como "espírito do mundo" ou "espírito O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Para este. Na história antes dominaria um espírito que tudo abrange. e sua voz aguda. as mãos cobertas pelos pêlos. combinava-se estranhamente com os juízos radicais que fazia sobre homens e coisas. Inicialmente.convicção inflexível. o paletó abotoado totalmente.

por meio dos diferentes momentos do processo histórico. elas foram verdadeiramente conciliadas. segundo Hegel. realiza no curso da história sua autoconsciência. A última filosofia é o resultado de todas as anteriores. de volta sobre os pés – é que a visão da realidade deveria ser invertida. e o que é real é racional. o Deus que vem-a-ser. seu fervoroso trabalho. Em oposição a isso a decidida exigência de Marx – de colocar a filosofia. finalmente alcançado seu objetivo: a perfeita autoconsciência. após o surgimento da filosofia hegeliana. de que a realidade toda tinha de ser entendida a partir de um espírito absoluto. ora de ponta-cabeça. após todos seus descaminhos através da história. a si mesmo. não a partir dessa mesma. todos os princípios foram preservados. "O espírito universal chegou ora até aqui. Pois assim se filosofa a partir de um ponto acima da realidade factual. consiste para ele em um injustificado "misticismo"." Razão e realidade chegaram portanto. A realidade deste mundo não deve ser explicada com base em uma realidade divina. Esta idéia concreta é o resultado dos esforços do espírito por quase 2500 anos. o ponto de partida do pensamento tem de ser a realidade concreta. Esse é o sentido da conhecida frase do Prefácio à Filosofia do Direito: "O que é racional é real.absoluto" ou mesmo" Deus". Ele chega. Hegel era da opinião de que em seu tempo e em seu próprio sistema o espírito absoluto teria. Aquele pensamento de Hegel." Portanto. Esse. de reconhecer-se. nada está perdido. finalmente à adequação uma com a outra. não pode haver mais nada realmente inconcebível. Contrariamente. O espírito absoluto compreendeu a si mesmo como a realidade total e a realidade total como manifestação sua. Aqui entra o protesto de Marx. Esse pensamento imprime à filosofia de Marx seu .

Todo o empenho filosófico de Hegel fracassa porque ele não é capaz de incluir essa realidade efetiva em seu pensar. "O mundo é portanto um mundo dilacerado." "Parte-se do homem real que age. portanto. a realidade. segundo Marx. "A missão da história é. a realidade factual mostra-se contraditória. por mais abrangente que esse seja." Marx denomina sua filosofia por isso mesmo de "humanismo real"." A filosofia como Marx a postula – em contraposição a Hegel e em concordância com Feuerbach – é uma filosofia da existência humana. "Na práxis. Para Marx. o poder e a mundanalidade de seu pensamento. após o além da verdade ter desaparecido. da ação concreta. como o faz Hegel. trata-se decisivamente da práxis humana. porém. inconcebível e portanto não conciliada com a razão. Mas o que é o homem? O significativo aqui é que Marx não considera o homem. que se opõe a uma filosofia fechada em sua própria totalidade." O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . que o novo pensar também tem de partir. Mesmo a realidade sobre a qual ele fala. isto é. É dele. portanto. Em Hegel." Para Marx. ele não poderia. "As pressuposições com as quais iniciamos são os indivíduos reais. tudo se passa no âmbito do mero pensamento. a realidade concreta é a realidade do homem." Quando Hegel afirma que a realidade estaria conciliada com a razão.cunho ateísta. ter em vista a realidade concreta. O real primeiro e originário para o homem é o próprio homem. estabelecer a verdade do aquém. é a mera realidade pensada. "A raiz do homem é o próprio homem. o homem tem de comprovar a verdade. Ao contrário. essencialmente a partir de sua faculdade de conhecer.

a história é principalmente a história das lutas de classes. não por meio da consciência comum. para Marx. a moral. como as que Hegel atribuiu ao espírito. Por que. a religião e similares. Na base econômica reencontram-se também aquelas leis do desenvolvimento histórico. em que a história da filosofia é bastante rica. as idéias. As relações econômicas e particularmente as forças produtivas a elas subjacentes são a base (ou a "infra-estrutura") de sua existência. então." "O homem." Mas por que meio se constitui a sociedade humana? Marx responde: basicamente. É da essência da práxis humana que ela se realize na relação com o outro. o que Marx diz é tão estimulante? Como se explica que seu pensamento tenha determinado tão amplamente o tempo . mais precisamente. Apenas na medida em que essas relações econômicas se modificam. no conflito de classes. mas por meio do trabalho comum. Marx ressalta com toda clareza: o homem vive desde sempre em uma sociedade que o supera. a arte. Desta superestrutura fazem parte o Estado. "O indivíduo é o ser social. mas é seu ser social que determina sua consciência. também se desenvolvem os modos da consciência. isto é o mundo do homem: Estado. Assim deve-se entender a muito discutida frase: "Não é a consciência do homem que determina seu ser. As relações econômicas desdobram-se de modo dialético. isto é. Por isso." Essa natureza social constitui para Marx o ponto de partida para toda reflexão subseqüente. Se Feuerbach queria conceber o homem como indivíduo isolado. até interessante mas realmente apenas mais uma interpretação entre muitas outras. Pois o homem é originariamente um ser econômico. as leis. sociedade. que representam a "superestrutura ideológica". Até aqui tudo poderia parecer como uma das muitas teorias antropológicas e histórico-filosóficas.

seguinte? Isso reside obviamente em que Marx não se detém no âmbito do pensamento puro. A alienação do produto do trabalho conduz também a uma "alienação do homem". em sentido próprio. O produto do trabalho torna-se uma "mercadoria". A auto- alienação do homem tem sua raiz em uma alienação do trabalhador do produto de seu trabalho: este não pertence àquele para seu usufruto. "trabalho forçado". seu produto. trata-se de modificá-lo. uma coisa estranha ou alheia ao trabalhador. Por toda parte perdeu as autênticas possibilidades humanas de existência. Isso não vale apenas para a "luta de inimigos entre capitalista e trabalhador". o trabalho torna-se. Observa que em seus dias a verdadeira essência do homem. Por toda parte o homem é tirado a si mesmo. "O objeto que o trabalho produz. porque ele precisa compará-la para poder subsistir. que o coloca em posição de dependência. como um poder independente do produtor." Da mesma forma também o trabalho se torna "trabalho alienado": não a ele imposto de sua autoconservação. Esse é o sentido daquilo que Marx chama de "auto-alienação" do homem." Nessa intenção. apresenta-se a ele como uma essência estranha. no qual o capital assume a função de um poder separado dos homens. As relações interpessoais em geral perdem cada vez O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Esse desenvolvimento atinge sua culminância no capitalismo. Marx empreende uma crítica de seu tempo. isto é. mas ao empregador. não se podem fazer valer. Também aqui Marx recorre às relações econômicas. mas que se põe a trabalhar decisivamente na transformação da realidade: "Os filósofos têm apenas interpretado diversamente o mundo. "a atividade livre e consciente". sua liberdade e independência. Ela significa uma permanente "depreciação do mundo do homem".

segundo "leis infalíveis" – com necessidade histórica. a desumanização que. Ela se torna possível desde que o proletariado se conscientize de sua alienação. a subversão e a revolução. Enfim. com isso. É chegado o tempo do "comunismo como superação positiva da propriedade . chega-se a uma concentração do capital nas mãos de poucos. consciente de sua desumanização. sua força de trabalho é comercializada no mercado de trabalho. Ele se compreende então como "a miséria consciente de sua miséria espiritual e física. no qual se encontra à mercê do arbítrio dos compradores. superar definitivamente a alienação. sua existência é "a perda total do homem". sua "destinação humana e sua dignidade" perdem-se cada vez mais. Mas. a um crescente desemprego e empobrecimento das massas. abandonado e desprezado". segundo os prognósticos de Marx. cientificamente reconhecida e dialética –. no ápice desse desenvolvimento – o que Marx crê poder demonstrar –. escravizado. porém. Trata-se de "derrubar todas as relações em que o homem é um ser degradado. O trabalhador é "o homem extraviado de si mesmo". os próprios proletários assumem caráter de mercadoria. Pois a essa concentração de capital devem seguir-se. Marx considera tudo isso tarefa do movimento comunista. Concretamente. desenfronhar o homem em "toda a riqueza de sua essência" e. para que "o homem seja o ser supremo para o homem".mais a sua imediação. Importa realizar "o verdadeiro reino da liberdade". o capital torna-se seu próprio coveiro. sua essência é uma "essência desumanizada". Com isso. A missão dessa revolução é "transformar o homem em homem". Seu "mundo interior" torna-se "cada vez mais pobre". "a meretriz universal". tem de sobrevir a guinada. supera por isso a si mesma". Elas são mediadas pelas mercadorias e pelo dinheiro.

incluindo a relação de angústia e sofrimento que ele manteve com o cristianismo – herança de um pai extremamente religioso. Kierkegaard Filósofo ou Religioso? O Sofrimento Necessário O Salto da Fé Kierkegaard é um dos raros autores cuja vida exerceu profunda influência no desenvolvimento da obra. A verdadeira solução do conflito entre liberdade e necessidade. humano. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .privada enquanto auto-alienação do homem e por isso como apropriação real da essência humana por meio de e para o homem. As inquietações e angústias que o acompanharam estão expressas em seus textos. "encerra-se a pré- história da sociedade humana" e inicia-se a sociedade "realmente humana". Esse comunismo é a verdadeira dissolução do antagonismo entre o homem e a natureza e entre o homem e o homem. por isso. que cultuava a maneira exacerbada os rígidos princípios do protestantismo dinamarquês. ou seja. a verdadeira realização da essência do homem". do homem para si mesmo enquanto homem social. Marx não nos dá nenhuma informação adicional. como regresso – perfeito. religião de Estado. consciente e dentro da riqueza total do desenvolvimento até aqui –. Com o comunismo. Ele é o enigma decifrado da história. Mas sobre como essa sociedade comunista deve ser.

e um ano depois apresentava "Sobre o Conceito de Ironia". Esse é o momento da segunda grande mudança em sua vida. Kierkegaard escolheu a solidão. os teatros. rico comerciante de Copenhague. tinha 56 e a mãe 44 –. quando o pai. essa era a única maneira de vivenciar sua fé. em 1846. Na Alemanha. o Post-scriptum a Migalhas Filosóficas. A crise vivida por um homem que. A partir daí seus textos tornaram-se mais profundos e seu pensamento. que sua vida mudou. Temor e Tremor e A Repetição. ainda em 1841. Para ele. Rompido o noivado. Foi só em 1837. e a ele mesmo. Trocou a Universidade de Copenhague. para a Alemanha. A maior parte desses textos constitui uma tentativa de explicar a Regina. viajou. Kierkegaard elabora seu pensamento a partir do exame concreto do homem religioso historicamente . a vida social. pelos cafés da cidade. exerceria uma influência decisiva em sua obra. onde entrara em 1830 para estudar filosofia e teologia. Um ano depois. Volta a Copenhague em 1842. foi aluno de Schelling e esboça alguns de seus textos mais importantes. Também em 1840 ele conclui o curso de teologia. chamava a si mesmo de "filho da velhice" e teria seguido a carreira de pastor caso não houvesse se revelado um estudante indisciplinado e boêmio. é editado As Etapas no Caminho da Vida e. Em 1844 saem Migalhas Filosóficas e O Conceito de Angústia. ao optar pelo compromisso radical com a transcendência. e em 1843 publica A Alternativa. está em Diários. sua tese de doutorado. O noivado. os paradoxos da existência religiosa. Em vez de pastor e pai de família. descobre a necessidade da solidão e do distanciamento mundano. Sétimo filho de um casamento que já durava muitos anos – nasceu em 1813. em particular. com a morte do pai e o relacionamento com Regina Oslen (de quem se tornaria noivo em 1840). mais religioso.

qual a finalidade que ele intencionalmente deu à sua obra. Escola do Cristianismo. de Copenhague. cabe verificar o que ela pode trazer de esclarecedor acerca do estilo de pensamento de Kierkegaard. Para além das minúcias que essa distinção envolveria. Assim. nenhuma dessas motivações tradicionais. Em 1849. estritamente. Trata-se muito mais de rebelar-se contra a própria idéia de sistema e aquilo que ela representa. o caráter socrático do autoconhecimento e o esclarecimento reflexivo da posição do indivíduo diante da verdade cristã. em que analisa a deterioração do sentimento religioso. Isso fica bem evidenciado quando ele reage às filosofias de sua época – em especial à de Hegel. Não se trata de questionar as incorreções ou as inconsistências do sistema hegeliano. então. Pra elas. da moral.situado. Kierkegaard criticou a Igreja oficial da Dinamarca. com a qual travou um debate acirrado. e foi execrado pelo semanário satírico O Corsário. Filósofo ou Religioso? A posição de Kierkegaard leva algumas pessoas a levantar dúvidas a respeito do caráter filosófico de seu pensamento. quais as questões fundamentais que lhe motivam a reflexão. Polemista por excelência. por exemplo. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . a filosofia assume. tratar-se-ia muito mais de um pensador religioso do que de um filósofo. Pode-se perguntar. Em Kierkegaard não encontramos. na raiz das tentativas filosóficas que se deram ao longo da história. ou. a um só tempo. da política. Estamos habituados a ver. publicou Doença Mortal e. razões da ordem da reforma do conhecimento. em 1850. Morreu em 1855.

essa defesa arraigada daquilo que é único? Não de uma contraposição teórico-filosófica a Hegel. sim. Não devemos buscar o sentido do indivíduo numa harmonia racional que anula as singularidades. Em Kierkegaard há um forte sentimento de irredutibilidade do indivíduo. ele encontra sua realização. mas de uma concepção muito profunda da situação do homem. o infinito. a divindade. o indivíduo é um momento de uma totalidade sistemática que o ultrapassa e na qual. Para Kierkegaard. O individual se explica pelo sistema. Mas o homem que se coloca frente a si e a seu destino desnudado do aparato lógico não se vê diante de um sistema de idéias mas diante de fatos. Para Hegel. De onde provém. a partir de uma dimensão sobre-humana. Esta não é o sucedâneo afetivo daquilo que não posso compreender racionalmente. A individualidade não deve portanto ser entendida primordialmente como um conceito lógico. A individualidade define a existência. na afirmação radical da própria individualidade. de sua especificidade e do caráter insuperável de sua realidade. é dissolver a singularidade do destino humano num curso histórico guiado por uma finalidade que. dá coerência ao sistema e aplaca as vicissitudes do tempo. Ora. ao mesmo tempo. o homem que se reconhece finito enquanto parte e momento da realização de uma totalidade infinita se compraz na finitude. mas como a solidão característica do homem que se coloca como finito perante o infinito. enquanto ser individual. tampouco é um estágio provisório que dure . cujo sentido é infinito. mas. no entanto. mais precisamente de um fato fundamental que nenhuma lógica pode explicar: a fé. no mundo e perante aquilo que o ultrapassa. comprazer-se na finitude é admitir a necessidade lógica de nossa condição. o particular pelo geral. porque a vê como uma etapa de algo maior.

O paradoxo de Deus feito homem e o absurdo das circunstâncias do advento da Verdade. E esse modo me põe imediatamente em relação com o absurdo e o paradoxo. Aqui se situam as circunstâncias que fazem do advento da Verdade um absurdo: a Verdade não nos foi revelada com as pompas do conceito e do sistema. outro caminho para a Verdade a não ser o da interioridade. um modo de existir. Mas o próprio Cristo é incompreensível. algum tipo de prova racional que me transporte para a compreensão da divindade. A mediação é o Cristo vivo. portanto. enquanto Deus tornado homem. o aprofundamento da subjetividade. Cristo é portanto o fato primordial para a compreensão que o homem tem de si. É por meio de Cristo que o homem se situa existencialmente perante Deus. é o absurdo que possibilita a Verdade. Somente dessa maneira nos colocamos no caminho da recuperação de uma certa afinidade com o absoluto. definitivamente. No entanto. é o mediador entre o homem e Deus. O acesso à Verdade suprema depende pois da crença no absurdo. Foi a mediação do paradoxo e do absurdo que recolocou o homem em comunicação com Deus. Se permanecesse a distância infinita que separa Deus e o homem. Não há. dotado. histórico. e o fato igualmente incompreensível do sacrifício na cruz. Ela foi encarnada por um homem obscuro que morreu na cruz como um criminoso. Por isso devemos dizer: creio porque é absurdo. Não há portanto uma mediação conceitual.apenas enquanto não se completam e fortalecem as luzes da razão. É. naquilo que São Paulo já havia chamado de "loucura". Isso porque a individualidade autêntica supõe a vivência profunda da culpa: sem esse O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Cristo. este jamais teria acesso à Verdade.

conseqüentemente. segundo ele. da mediação do Cristo.sentimento. principalmente o protestantismo dinamarquês. se realiza na vivência da religiosidade cristã. com uma concepção de existência que torna todos os homens contemporâneos de Cristo. E a compreensão irradia luz sobre a redenção e a graça. Por isso a religião só tem sentido se for vivida como comunhão com o sofrimento da cruz. A subjetividade de Kierkegaard não é tributária apenas da atmosfera romântica que envolvia sua época. de posse da verdade humana do cristianismo. somente aprofundando a subjetividade e a culpa a ela inerente é que nos aproximaremos da compreensão original de nossa natureza: o pecado original. embora histórico. O cristão é aquele que se sente continuamente em presença de Deus pela mediação do Cristo. Seu profundo significado a- histórico tem a ver. no entender de Kierkegaard. penetrado. Por isso é que Kierkegaard critica o cristianismo de sua época. Esse relato bíblico indica a solidão e o . de conceituação filosófica que esconde a brutalidade do fato religioso. possui uma dimensão que o torna referência intemporal para se vivenciar a fé. A autêntica subjetividade. igualmente fundamentais para nos sentirmos verdadeiramente humanos. minimiza a distância entre Deus e o homem e sufoca o sentimento de angústia que acompanha a fé. insuperável modo de existir. jamais nos situaremos verdadeiramente perante o fato da redenção e. O Sofrimento Necessário A subjetividade não significa a fuga da generalidade objetiva: ao contrário. estaria ilustrada no episódio do sacrifício de Abraão. Essa angústia. mais do que com essa característica do Romantismo. ou seja. O fato da redenção.

Tudo está suspenso. a dúvida permaneceria para sempre. Ele não possui razões para medir ou avaliar qual deve ser sua conduta. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . a ausência de mediação humana. âmbito em que o entendimento é cego. exceto a relação com Deus. Não se trata. A crença é inseparável da angústia. como no caso da tragédia grega. Do ponto de vista humano. Abraão é colocado diante do incompreensível e diante do infinito. Deus não está testando a sabedoria de Abraão. A força de sua fé fez com que Abraão optasse pelo infinito. Nada está em jogo. Continuaria sendo o assassino de seu filho. de optar entre dois códigos de ética. caso o sacrifício se tivesse consumado. A fé representa um salto. ou entre dois sistemas de valores. Abraão ilustra na sua radicalidade a situação de homem religioso. O que Deus pede a Abraão – que ele sacrifique o único filho para demonstrar sua fé – é absurdo e desumano segundo a ética dos homens. precisamente porque não pode haver transição racional entre o finito e o infinito. nesse caso. Mas. Poderia permanecer durante toda a vida indagando acerca das razões do sacrifício e não obteria resposta. a comunidade).abandono do indivíduo voltado unicamente para a vivência da fé. O Salto da Fé Abraão não está na situação do herói trágico que deve escolher entre valores subjetivos (individuais e familiares) e valores objetivos (a cidade. da mesma forma como os deuses testavam a sabedoria de Édipo ou de Agamenon. a não ser ele mesmo e a sua fé. No entanto Abraão não hesitou: a fé fez com que ele saltasse imediatamente da razão e da ética para o plano do absoluto. Abraão ainda assim não teria como justificá-lo à luz de uma ética humana. o temor de Deus é inseparável do tremor.

que faz com que a existência cristã se consuma num instante e ao mesmo tempo se estenda pela eternidade. A fé reúne a reflexão e o êxtase. o paradoxo de ser o pecado ao mesmo tempo a condição de salvação. Por tudo o que a existência envolve de afirmação de fé. A especulação desgarrada da realidade concreta não orientará a ação. ela não pode ser elucidada pelo conceito. A filosofia deve ser imanente à vida. muito simplesmente porque as decisões humanas não se ordenam por conceitos.Comte Características Gerais do Positivismo Augusto Comte . Não se pode apreender racionalmente a contemporaneidade do Cristo. O Positivismo . a procura infindável e a visão instantânea da Verdade.Vida e Obras A Lei dos Três Estados A Classificação das Ciências A Humanidade Características Gerais do Positivismo . já que foi por causa do pecado original que Cristo veio ao mundo. que afinal são derivadas de estar o finito e o infinito em presença um do outro. e a incompreensibilidade da infinitude divina faz com que a consciência vacile como diante de um abismo. Qualquer filosofia que não leve em conta essas tensões. não constituirá fundamento adequado da vida e da ação. mas por alternativas e saltos. Existir é existir diante de Deus. Este jamais daria conta das tensões e contradições que marcam a vida individual.

o positivismo teve impulso. o idealismo. que alterava a experiência. o positivismo fica no mesmo âmbito imanentista do idealismo e do pensamento moderno em geral. Ao idealismo da primeira metade do século XIX se segue o positivismo. o formalismo. exigindo maior respeito para a experiência e os dados positivos. produtora de bens materiais. como resolvedora do problema do mundo e da vida. com a esperança de conseguir os mesmos fecundos resultados. Além de ser uma reação contra o idealismo. Dada essa objetividade da ciência e da história do pensamento positivista. para as ideologias econômico-sociais. a ciência e a história. "O fato é divino". espalhado em todo o mundo civilizado. é natural se procure uma base filosófica positiva. que ocupa. pura. Enfim. mas também o seu maior valor como descrição e análise objetiva da experiência - através da história e da ciência . quer limitar-se à experiência imediata. uma unificação da experiência mediante a razão. naturalista.com respeito ao idealismo. do século XIX. o absoluto do fenômeno. Tenta-se aplicar os princípios e os métodos daquelas ciências à filosofia. Sendo grandemente valorizada a atividade econômica. A diferença fundamental entre idealismo e positivismo é a seguinte: o primeiro procura uma interpretação. materialista. particularmente das biológicas e fisiológicas. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . técnico. mais ou menos. graças ao desenvolvimento dos problemas econômico-sociais. que dominaram o mesmo século XIX. O positivismo representa uma reação contra o apriorismo. como já fizera o empirismo. sensível. aplicado. o segundo. compreende-se porque elas são fecundas no campo prático. Daí a sua pobreza filosófica. ao contrário. dizia Ardigò. defendendo. mais ou menos. o positivismo é ainda devido ao grande progresso das ciências naturais. a segunda metade do mesmo século. Entretanto.

produtora de bens materiais. Diferencia-se. substancialmente. o conhecimento humano ao conhecimento sensível. justificação transcendente ou imanente. portanto. como interpretação. enfim. florescidos igualmente no âmbito natural do positivismo. econômicos (materialismo histórico). também pelo país clássico de sua floração (a Inglaterra) e porquanto reduz. e a história da humanidade é acionada por interesses materiais. da enumeração material dos votos (sufrágio universal). é a evolução necessária de uma indefectível energia naturalista. O positivismo do século XIX pode semelhar ao empirismo. o positivismo admite. utilitários. também os sistemas político- econômico-sociais. em que a soberania é atribuída ao povo. que domina o mundo concebido positivisticamente. Para o socialismo. morais e religiosos. do conflito material das forças econômicas.que é a concepção política. o centro da vida humana está na atividade econômica. à massa . como fonte única de conhecimento e critério de verdade. E delas dependem. o espírito à natureza. Na democracia moderna . ao sensismo (e ao naturalismo) dos séculos XVII e XVIII. Dessas premissas teoréticas decorrem necessariamente as concepções morais hedonistas e utilitárias. O liberalismo. a experiência. Nenhuma metafísica. A lei única e suprema. mais ou menos. os dados sensíveis. e não por interesses espirituais.sustenta também a livre concorrência econômica através da lida mecânica. a metafísica à ciência. com as relativas conseqüências práticas. que sustenta a liberdade completa do indivíduo - enquanto não lesar a liberdade alheia . da experiência.a vontade popular se manifesta através do número. como resulta das ciências naturais. Gnosiologicamente. A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização das ciências. . os fatos positivos. que florescem no seio do positivismo. da quantidade.

para o bem-estar material. com esta diferença. que será uma revisão e uma crítica do positivismo. Daí uma revisão e uma crítica da ciência por parte dos mesmos cientistas. de todos os fatos humanos e naturais. determina-se uma seleção natural. como no âmbito do idealismo se determinou uma crítica ao idealismo. Tal conceito representa um equivalente naturalista do historicismo romântico da primeira metade do século XIX.porém. atinge a ciência fielmente a sua realidade. para dar lugar a outras interpretações do mundo natural no âmbito das próprias ciências positivas. Através de um conflito mecânico de seres e de forças. mediante a luta pela existência. discutível pelo menos tanto quanto a metafísica espiritualista? Nos fins do século passado e nos princípios deste século se determina uma crise interior da ciência mecaniscista. No entanto. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . nada de espírito e valores espirituais. nada de metafísica e filosofia. isto é. Daí acreditar o positismo firmemente no progresso . de um progresso concebido naturalisticamente. porém. que é a experiência? E a ciência positivista é pura ciência. Portanto. ao passo que o positivismo o concebe como evolução. que o idealismo concebia o vir-a-ser como desenvolvimento racional. sobrevivendo o mais perfeito. o cognoscível. ou não implica uma metafísica naturalista inconsciente e. o que se pode atingir cientificamente. Trata-se. uma eliminação do organismo mais imperfeito.como nele já acreditava o idealismo. é a realidade física. Mas. igualmente. involuntariamente. no âmbito do positivismo. teológico. considerada como lei fundamental dos fenômenos empíricos. ideal e ídolo do positivismo. entretanto. de evolução. desses sistemas por um elemento característico: o conceito de vir-a- ser. por causas. quer nos meios quer no fim. a única realidade existente.

(que lhe vale ser internado durante algum tempo no serviço de Esquirol). das grandes linhas de seu sistema. outra positiva. um Curso de filosofia positiva . a partir daí. Em 1844 publica o prefácio do curso sob o título: Discurso dobre o espírito positivo. de Saint-Simon: O Organizador. Dois encontros capitais presidem as duas grandes etapas desta obra. nem mesmo a cátedra de história geral das ciências positivas no Collège de France. Nessa crítica e vitória sobre o positivsmo.Vida e Obras Estudante da Politécnica aos 16 anos. curso este que ele levaria avante por sete anos consecutivos. em relação com exigências mais ou menos metafísicas ou espiritualistas. pode-se distinguir duas fases principais: uma negativa.° distrito. Já de posse. de crítica à ciência e ao positivismo. rua do Faubourg Montmartre. de reconstrução filosófica. a criação de uma ciência social e de uma política científica. não obterá o desejado cargo de professor da Politécnica. Augusto Comte . Ver-se-á retirado desta última função em 1844 e de seu posto de explicador em 1851. examinador de vestibular. numa sala da prefeitura do 3. que quisera criar em benefício próprio. Apesar de seus reiterados pedidos. em 1837. depois. e concebe.rapidamente interrompido por uma depressão nervosa . ele conhece H. Retoma o ensino em 1829. Desde 1831 Comte abrirá. Comte abre em sua casa. o Sistema Industrial. Comte é nomeado em 1832 explicador de análise e de mecânica nessa mesma escola e. A publicação do Curso inicia- se em 1830 e se distribui em 6 volumes até 1842. desde 1826. Em 1817. um curso público e gratuito de astronomia elementar destinado aos "operários de Paris". A obra de Comte guarda estreitas relações com os acontecimentos de sua vida. .

funda numerosas igrejas positivistas (ainda existem algumas como exemplo no Brasil).autor do célebre Dicionário. Comte sente então sua razão vacilar. notadamente seu discípulo Littré. mas atual e eterna". Ele morre em 1857 após ter anunciado que "antes do ano de 1860" pregaria "o positivismo em Notre- Dame como a única religião real e completas". divulgador do positivismo nos artigos do Nacional . Comte partiu de uma crítica científica da teologia para terminar como profeta. inspirado pelo amor platônico do filósofo por Clotilde. mas entrega-se corajosamente ao trabalho. forja divisas "Ordem e Progresso". Littré . "Eu a considero como minha única e verdadeira esposa não apenas futura. É em outubro de 1844 que se situa o segundo encontro capital que vai marcar uma reviravolta na filosofia de Augusto Comte. Clotilde oferece-lhe sua amizade. Institui o "Calendário positivista" (cujos santos são os grandes pensadores da história).aceita o que ele chama a primeira filosofia de Augusto Comte e vê na segunda uma espécie de delírio político- religioso. Trata-se da irmã de um de seus alunos. a ordem por base. É o "ano sem par" que termina com a morte de Clotilde a 6 de abril de 1846. nosso filósofo de 47 anos declara a esta mulher de 30 seu amor fervoroso. Compreende-se que alguns tenham contestado a unidade de sua doutrina. o progresso por fim". Na primavera de 1845. que em 1851 abandona a sociedade positivista. Entre 1851 e 1854 aparecem os enormes volumes do Sistema de política positiva ou Tratado de sociologia que intitui a religião da humanidade. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . "Viver para o próximo". Desde 1847 Comte proclamou-se grande sacerdote da Religião da Humanidade. O último volume sobre o Futuro humano prevê uma reformulação total da obra sob o título de Síntese Subjetiva. Clotilde de Vaux. esposa abandonada de um cobrador de impostos (que fugira para a Bélgica após algumas irregularidades financeiras). "O amor por princípio.

Para Comte "as idéias conduzem e transformam o mundo" e é a evolução da inteligência humana que comanda o desenrolar da história. sempre pensou que a filosofia positivista deveria terminar finalmente em aplicações políticas e nas fundação de uma nova religião. "separar Comte dele mesmo". já antes do Curso de filosofia positiva (e principalmente em seu "opúsculo fundamental" de 1822).obras de civilização e história dos conhecimentos e das ciências . pode considerar-se autorizado a afirmar a unidade essencial e profunda da doutrina de Comte. Mas o historiador.(¹) (¹) Comte. é de certa forma tão idealista quanto a de Hegel. ele foi Aristóteles e na segunda será São Paulo. Como Hegel ainda. em nome de suas próprias concepções. afirmando vigorosamente a unidade de seu sistema. é certo que Comte. A Lei dos Três Estados A filosofia da história. Assim como diz muito bem Gouhier. porque o sujeito do conhecimento confunde-se com o objeto estudado e porque pode descobrir-se apenas através das obras da cultura e particularmente através da história das ciências. Na primeira. Todavia. é a atividade científica que se desenvolve através do tempo. Littré podia sem dúvida. diz ele sem falsa modéstia.que a inteligência alternadamente produziu no curso da história. reconhece que houve duas carreiras em sua vida. O espírito não poderia conhecer-se interiormente (Comte rejeita a introspecção. Comte pensa que nós não podemos conhecer o espírito humano senão através de obras sucessivas . tal como a concebe Comte. a filosofia comtista da história é "uma filosofia da história do espírito através das ciências". que não deve considerar a obra com um julgamento pessoal. . mesmo se o encontro com Clotilde deu à obra do filósofo um novo tom. A vida espiritual autêntica não é uma vida interior.

quando O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . por longo tempo atribuído à natureza. por exemplo. Este estado é no fundo tão antropomórfico quanto o primeiro ( a natureza tem "horror" do vazio exatamente como a senhora Baronesa tem horror de chá). os revolucionários de 1789 são "metafísicos" quando evocam os "direitos" do homem . A explicação dita teológica ou metafísica é uma explicação ingenuamente psicológica. Desse modo. Tal concepção do saber desemboca diretamente na técnica: o conhecimento das leis positivas da natureza nos permite. será explicada por um capricho do deus dos ventos. O homem projeta espontaneamente sua própria psicologia sobre a natureza. será explicada pela "virtude dinâmica"do ar (²). por exemplo. Contentar-nos-emos em descrever como os fatos se passam. A explicação metafísica tem para Comte uma importância sobretudo histórica como crítica e negação da explicação teológica precedente. mas sem conteúdo real. passa sucessivamente por três estados: a) O estado teológico ou "fictício" explica os fatos por meio de vontades análogas à nossa (a tempestade. com efeito. A noção de causa (transposição abusiva de nossa expeirência interior do querer para a natureza) é por ele substituída pela noção de lei. A tempestade. em seu esforço para explicar o universo. Este estado evolui do fetichismo ao politeísmo e ao monoteísmo. O espírito humano. Eolo). c) O estado positivo é aquele em que o espírito renuncia a procurar os fins últimos e a responder aos últimos "por quês". b) O estado metafísico substitui os deuses por princípios abstratos como "o horror ao vazio".reivindicação crítica contra os deveres teológicos anteriores. em descobrir as leis (exprimíveis em linguagem matemática) segundo as quais os fenômenos se encadeiam uns nos outros.

astronomia. física. previsão donde ação"). ("Ciência donde previsão. para Comte. do mais abstrato ao mais concreto e de uma proximidade crescente em relação ao homem. química. A criança dá explicações teológicas. assim como as explicações das condutas humanas que partem da noção de "alma". prever o fenômeno que se seguirá e. As matemáticas (que com os pitagóricos eram ainda. Esta ordem corresponde à ordem histórica da aparição das ciências positivas. o adolescente é metafísico. em parte. (²) São igualmente metafísicas as tentativas de explicação dos fatos biológicos que partem do "princípio vital".um fenômeno é dado. entretanto. ao passo que o adulto chega a uma concepção "positivista" das coisas. biologia. antes um instrumento de todas as ciências do que uma ciência particular). não se tornaram "positivas" na mesma data. Acrescentemos que para Augusto Comte a lei dos três estados não é somente verdadeira para a história da nossa espécie. no decurso da história. aliás. uma metafísica e uma mística do número). sociologia. Das matemáticas à sociologia a ordem é a do mais simples ao mais complexo. numa disciplina positiva (elas são. transformar o segundo. eventualmente agindo sobre o primeiro. ela o é também para o desenvolvimento de cada indivíduo. desde a antiguidade. constituem-se. A Classificação das Ciências As ciências. A astronomia . mas numa certa ordem de sucessão que corresponde à célebre classificação: matemáticas.

físicas e químicas de todos os corpos (vivos ou inertes). Nota-se. com Galileu e Newton. os métodos de uma ciência supõem que já sejam conhecidos os das ciências que a precederam na classificação. De saída. A oportunidade da química vem no século XVIII (Lavoisier). que a psicologia não figura nesta classificação. mas a biologia não é uma química orgânica. se as ciências mais complexas dependem das mais simples. Os fenômenos psicoquímicos condicionam os fenômenos biológicos. os objetos das ciências dependem uns dos outros. Para Comte o objeto da psicologia pode ser repartido sem prejuízo entre a biologia e a sociologia. Um biólogo deve conhecer matemática. Entretanto. como também às leis mais gerais. Ele se opõe ao materialismo que é "a explicação do superior pelo inferior". não poderíamos deduzi-las de. A Humanidade A última das ciências que Comte chamara primeiramente física social. às leis da gravidade. É preciso ser matemático para saber física. enfim. Os seres vivos estão submetidos não só às leis particulares da vida. Além disso. irredutível aos precedentes. nem reduzi-las a estas últimas. tornar-se positiva. Um ser vivo está submetido. A biologia se torna uma disciplina positiva no século XIX. As ciências mais complexas e mais concretas dependem das mais abstratas. Comte afirma energicamente que cada etapa da classificação introduz um campo novo. e para a qual depois inventou o nome de sociologia reveste-se de O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . O próprio Comte acredita coroar o edifício científico criando a sociologia. como a matéria inerte.descobre bem cedo suas primeiras leis positivas. a física espera o século XVII para. física e química.

Como cada ciência depende da precedente sem a ela se reduzir.importância capital. Comte repudia a metafísica. a ciência última que supõe todas as . Nela irão se reunir o positivismo religioso. Levy-Bruhl. a própria filosofia. Significa dizer que o sociólogo é idêntico ao próprio filósofo. encerra as conquistas do espírito positivo: como diz excelentemente Gouhier . para Comte. que envolve com um olhar enciclopédico toda a evolução da inteligência. ao criar a sociologia. a sexta ciência fundamental. O nascimento da sociologia tem uma importância que não podia ter o da biologia ou o da física: ele representa o fato de que não mais existe no universo qualquer refúgio para os deuses e suas imagens metafísicas. mas não rejeita a filosofia concebida como interpretação totalizante da história e. desde o estado teológico ao estado positivo. e sobretudo. Um dos melhores comentadores de Comte."Quando a última ciência chega ao último estado. isso não significa apenas o aparecimento de uma nova ciência. Dela tudo parte. identificação com a sociologia. Sua especialização própria se confunde. a mais concreta e complexa. pois - diferentemente do que se passa para os outros sábios . fundamentalmente. o sociólogo deve conhecer o essencial de todas as disciplinas que precedem a sua.em sua admirável introdução ao Textos Escolhidos de Comte. Comte. é a criação da sociologia que. em todas as disciplinas do conhecimento. "especialista em generalidades". nos faz compreender o que é. por isto. É refletindo sobre a sociologia positiva que compreenderemos que as duas doutrinas de Comte são apenas uma. tem razão de sublinhar: "A criação da ciência social é o momento decisivo na filosofia de Comte. permitindo aquilo que Kant denominava uma "totalização da experiência".com a totalidade do saber. a ela tudo se reduz". publicados por Aubier . cujo objeto é a "humanidade". Enfim. a história do conhecimento e a política positiva.

Comte distingue a sociologia estática da sociologia dinâmica. ou ao menos a essência social dos animais reduz-se à natureza biológica. longe de se excluírem. pois. se completam. A herança do passado só torna possíveis os progressos do futuro e "a humanidade compõe- se mais de mortos que de vivos". exercem suas faculdades de invenção apenas dentro do quadro do que elas receberam.outras. e. O objeto próprio da sociologia é a humanidade e é necessário compreender que a humanidade não se reduz a uma espécie biológica: há na humanidade uma dimensão suplementar . e o inventor do arado trabalha. Gutemberg ainda imprime todos os livros do mundo. O homem. Como diz Comte. por sua vez. considerada em si mesma. Somente o homem tem uma história porque é ao mesmo tempo um inventor e um herdeiro. As abelhas não têm história. Ele cria línguas. "é um animal que tem uma história". Três instituições sempre são necessárias para fazer com que o altruísmo predomine sobre o egoísmo (condição de vida social). ao lado do lavrador. num sentido estrito. instrumentos que transmitem este patrimônio pela palavra. A propriedade (que permite ao homem produzir mais do que para as O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . do "universal concreto".a história . a ciência. a ciência da humanidade. As duas idéias de tradição e de progresso. diz-nos Comte.o que faz a originalidade da civilização (da "cultura" diriam os sociólogos do século XIX). sociedades animais. A primeira estuda as condições gerais de toda a vida social. em qualquer tempo e lugar. invisível. Aquelas de que fala Virgílio nas Geórgicas comportavam-se exatamente como as de hoje em dia. nos últimos milênios. pela escrita às gerações seguintes que. poder-se-ia dizer em termos hegelianos. A espécie das abelhas é apenas a sucessão de gerações que repetem suas condutas instintivas: não há.

por sua vez. sob a forma de escrita. que estão muito próximos de n'so. o Grão-Sacerdote da Humanidade. "planetário". à sua testa. Vê-se que é sobre a sociologia que vem articular a mudança de perspectiva. a família (educadora insubstituível para o sentimento de solidariedade e respeito às tradições). do estado militar ao industrial na ordem prática . A ciência que prepara a união de todos os espíritos concluirá a obra de unidade (que a Igreja católica havia parcialmente realizado na Idade Média) e tornará o altruísmo universal. A sociologia dinâmica estuda as condições da evolução da sociedade: do estado teológico ao estado positivo na ordem intelectual. o astrônomo deve estudar somente o Sol e a Lua. acumular um capital que será útil a todos). que terão. todos os elementos que concorreram para sua própria formação".do estado de egoísmo ao de altruísmo na ordem afetiva. por exemplo. transforma- se-á na política que guiará as outras ciências. para ter uma influência sobre a terra e sobre a humanidade e interditar-se aos estudos . isto é. a mutação que faz do filósofo um profeta. cuja aparição dependeu de todas as outras ciências tornadas positivas. fazer provisões. o próprio Augusto Comte). em nome da "humanidade". seu poder temporal (os industriais e os banqueiros) e seu pdoer espiritual (³) (os sábios. as pesquisas inúteis.suas necessidades egoístas imediatas. exatametne como a sociedade cristã da Idade Média. a constituição de um capital intelectual. (Para Comte. a sociologia regerá todas as ciências. assim. A sociologia. a linguagem (que permite a comunicação entre os indivíduos e. Assim é que. principalemtne os sociólogos. proibindo. "regenerando. o papa positivista. isto é. A sociedade positiva terá. exatamente como a propriedade cria um capital material).

pelo gênio de seus grandes homens. Agonia e Morte O Dionisíaco e o Socrático O Vôo da Águia. A terra e o ar . integrando-se inteiramente no sistema de Comte. Nietzsche O Filósofo e o Músico Solidão. de seus sábios aos quais devemos prestar culto após a morte (esta sobrevivência na veneração de nossa memória chama-se "imortalidade subjetiva"). Comte é também o filósofo da ordem.meio onde vive a humanidade . pois. transpõe .ainda mais que não as repudia . ao mesmo tempo. A religião da humanidade.podem. por isso mesmo. conservador e admirador da bela unidade dos espíritos da Idade Média.politicamente estéreis dos corpos celestes mais afastados!!) Compreende-se que esta "síntese subjetiva". a Ascensão da Montanha Os Limites do Humano: O Além-do-Homem Uma Filosofia Confiscada Assim Falou Zaratustra O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA .as idéias e até a linguagem da crenças anteriores. ser objeto de culto. Filósofo do progresso. A terra chamar-se-á o "Grande-Fetiche". ele é. Herdeiro da Revolução. tenha desencorajado os racionalistas que de saída viram no positivismo uma apologia do espírito científico! A religião positiva substitui o Deus das religiões reveladas pela própria humanidade. considerada como Grande-Ser. Compreende-se que ele tenha encontrado discípulos tanto nos pensadores "de direita" como nos "de esquerda". Este Ser do qual fazemos parte nos ultrapassa entretanto .

). III). localidade próxima a Leipzig. entre os clássicos. dócil e leal. em companhia da mãe. Em 1849. mas estudos das instituições e do pensamento. onde Nietzsche cresceu.C. seus colegas de escola o chamavam "pequeno pastor". seus autores favoritos. Hölderlin (1770-1843) e Byron (1788-1824). para a qual compôs melodias e escreveu seus primeiros versos. onde se dedicou aos estudos de teologia e filosofia. com eles criou uma pequena sociedade artística e literária. Datam dessa época suas leituras de Schiller (1759-1805). Excelente aluno em grego e brilhante em estudos bíblicos. mas.) e Ésquilo (525-456 a. pessoa culta e delicada. Durante o último ano em Pforta.) e Homero.C. Ritschl considerava a filologia não apenas história das formas literárias. escreveu um trabalho sobre o poeta Teógnis (séc. sob essa influência e a de alguns professores. VI a. e seus dois avós eram pastores protestantes. desistiu desses estudos e passou a residir em Leipzig. onde haviam estudado o poeta Novalis o filósofo Fichte (1762-1814). Nietzsche seguiu-lhe as pegadas e realizou investigações originais sobre Diógenes Laércio (séc. Partiu em seguida para Bonn. Karl Ludwig. Nietzsche obteve uma bolsa de estudos na então famosa escola de Pforta. seu pai. Hesíodo (séc.C. aluno modelo.C. foram Platão (428-348 a. seu pai e seu irmão faleceram. o próprio Nietzsche pensou em seguir a mesma carreira. duas tias e da avó. Nietzsche começou a afastar-se do cristianismo. alemão e latim. Vida e Obra Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu a 15 de outubro de 1844 em Röcken. Ritschl.). VIII a. A partir desses trabalhos foi . por causa disso a mãe mudou-se com a família para Naumburg. influenciado por seu professor predileto. pequena cidade às margens do Saale. dedicando-se à filologia. Em 1858. Criança feliz.

principalmente com Tristão e Isolda e com Os Mestres Cantores. mas por pouco tempo. Na mesma época. assim como pela posição essencial que a experiência estética ocupa em sua filosofia. Nietzsche foi atraído pelo ateísmo de Schopenhauer. A casa de campo de Tribschen. Nietzsche encantou-se com a música de Wagner e com seu drama musical. filha de Liszt (1811-1886). esboçando seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. Em cartas ao amigo Erwin Rohde. em 1869. passou a tratar das relações entre a música e a tragédia grega. Nessa época teve início sua amizade com Richard Wagner (1813-1883). onde Wagner morava. a Alemanha entrou em guerra com a França. Em 1867. pois logo adoeceu. A filosofia somente passou a interessá-lo a partir da leitura de O Mundo como Vontade e Representação. onde permaneceu por dez anos.nomeado. nessa ocasião. contraindo difteria e disenteria. a "sonhada Ariane". em obra posterior. que tinha quase 55 anos e vivia então com Cosima. Na universidade. Nietzsche serviu o exército como enfermeiro. sobretudo pelo significado metafísico que atribui à música. tornou-se para Nietzsche lugar d "refúgio e consolação". que viria a ser. Essa doença parece ter sido a origem das dores de cabeça e de estômago que acompanharam o O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . de Schopenhauer (1788-1860). Nietzsche foi chamado para prestar o serviço militar. apaixonou-se por Cosima. O Filósofo e o Músico Em 1870. escrevia: "Minha Itália chama-se Tribschen e sinto-me ali como em minha própria casa". mas um acidente em exercício de montaria livrou-o dessa obrigação. Voltou então aos estudos na cidade de Leipzig. professor de filologia em Basiléia. às margens do lago de Lucerna.

a fim de dominar os instintos contraditórios. Nietzsche estabeleceu uma distinção entre o apolíneo e o dionisíaco: Apolo é o deus da clareza. coisa tão querida pelos gregos. da desordem e da música. Nessa obra. complementares entre si. foram separados pela civilização. A tragédia grega. publicou O Nascimento da Tragédia. isto é. e tornou-se necessário que a vida ameaçada de dissolução lançasse mão de uma "razão tirânica".filósofo durante toda a vida. Nietzsche responde que isso aconteceu porque a existência grega já tinha perdido sua "bela imediatez". a respeito da qual se costuma dizer que o verdadeiro Nietzsche fala através das figuras de Schopenhauer e de Wagner. Dioniso. num povo amante da beleza.C.) um "sedutor". entre o poeta e o filósofo. a da cidade-Estado. o que o impeliu a refletir sobre a incompatibilidade entre o "pensador privado" e o "professor público". assinalou o fim da Grécia antiga e de sua força criadora. sob a influência "decadente" de Sócrates. uma nova forma de disputa (ágon). começou a declinar quando. por ter feito triunfar junto à juventude ateniense o mundo abstrato do pensamento. Nietzsche pergunta como. aos poucos. considera Sócrates (470 ou 469 a. foi invadida pelo racionalismo.C. Para ele a Grécia socrática. a do Logos e da lógica. entre o cidadão e o político. Seu livro foi mal acolhido pela crítica. o deus da exuberância. entre Eros e Logos. diz Nietzsche. da harmonia e da ordem. Em 1871.-399 a. de Dioniso e Apolo. Nietzsche restabeleceu-se lentamente e voltou a Basiléia a fim de prosseguir seus cursos. . Nietzsche trata da Grécia antes da separação entre o trabalho manual e o intelectual. o apolíneo e o dionisíaco. depois de ter atingido sua perfeição pela reconciliação da "embriaguez e da forma". Segundo Nietzsche. Assim. Sócrates pôde atrair os jovens com a dialética.

para assistir à apresentação de O Anel dos Nibelungos. é o criador dos valores. mudou de opinião. dificuldades na fala. nada de perigoso para a vida. isto é. seus amigos não o compreenderam. escrevendo Humano. Em 1879. que até então interpretara a música de Wagner como o "renascimento da grande arte da Grécia". ambos são parentes porque são a manifestação da decadência. ao mesmo tempo. iniciou sua grande crítica dos valores. achando que Wagner inclinava-se ao pessimismo sob a influência de Schopenhauer. Nessa época Wagner voltara-se. Terminada a licença da universidade para que tratasse da saúde. recusando sua noção de "vontade culpada" e substituindo-a pela de "vontade alegre". afastou-se da filosofia de Schopenhauer. para Nietzsche. isso lhe parecia necessário para destruir os obstáculos da moral e da metafísica. Nietzsche escreveu: "Não há nada de exausto. Rompeu as relações de amizade que o ligavam a Wagner e. Mas o "entusiasmo grosseiro" da multidão e a atitude de Wagner embriagado pelo sucesso o irritaram. mas esquece sua própria criação e vê neles algo de "transcendente". Nietzsche voltou à cátedra. a recusa do cristianismo e de Schopenhauer. de "eterno" e "verdadeiro". Mas sua voz agora era tão imperceptível que os ouvintes deixaram de freqüentar seus cursos. esperava-se com seu estado de saúde: dores de cabeça. Irritado com o antigo amigo. Nessa ocasião. Nietzsche. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Mesmo doente foi até Bayreuth. outrora tão brilhantes. Demasiado Humano. dizia Nietzsche. Interrompeu assim sua carreira universitária por um ano. nada de caduco. pediu demissão do cargo. ao mesmo tempo. demasiado humano". perturbações oculares. da fraqueza e da negação. quando os valores não são mais do que algo "humano. O homem. nada que calunie o mundo no reino do espírito. de Wagner.Ao mesmo tempo.

acabaram por se afastar definitivamente. onde permaneceu por insistência de Fräulein von Meysenburg. Em 1882. Solidão. não houve a esperada adesão à filosofia nietzschiana e. ele dissimula o mais negro obscurantismo nos orbes luminosos do ideal. do bem e do mal. Erwin Rohde nem chegou a agradecer-lhe o recebimento da obra. Encontraram-se mais tarde na Alemanha. e. O Caso Wagner. Nietzsche transferiu- se para Gênova. seu trabalho não foi bem acolhido por seus amigos. teve a intuição de O Eterno Retorno. com a qual se empenhou "numa luta contra a moral da auto-renúncia". Ditirambos Dionisíacos. Agonia e Morte Em 1880. Nietzsche contra Wagner (1888). Lou Andreas Salomé. Para Além de Bem e Mal (1886). Nessa obra defendeu a tese de que o mundo passa indefinidamente pela alternância da criação e da destruição. Mais uma vez. porém. . depois Assim falou Zaratustra (1884). Em 1882. Durante o verão de 1881. nem respondeu à carta que Nietzsche lhe enviara. Ecce Homo. redigido logo depois. mas Lou Andreas Salomé desejou continuar sua amiga e discípula. Ele acaricia todo o instinto niilista (budista) e embeleza-o com a música. O Anticristo e Vontade de Potência só apareceram depois de sua morte. Nietzsche publicou O Andarilho e sua Sombra: um ano depois apareceu Aurora. Nietzsche propôs-lhe casamento e foi recusado. Nietzsche residiu em Haute-Engandine. que pretendia casá-lo com uma jovem finlandesa. e depois para Roma. da alegria e do sofrimento. Crepúsculo dos Ídolos. na pequena aldeia de Silvaplana.que não tenha encontrado secretamente abrigo em sua arte. no outono de 1881. durante um passeio. De Silvaplana. acaricia toda a forma de cristianismo e toda expressão religiosa de decadência" . veio à luz A Gaia Ciência. assim.

sucedendo-se alternâncias entre euforia e depressão. partindo depois para a Suíça. que pretendia fundar uma empresa colonial no Paraguai. no entanto. Depois disso. Em princípio de abril de 1884 chegou a Veneza. veio a público a Quarta parte de Assim falou Zaratustra. onde recebeu a visita do barão Heinrich von Stein. No outono de 1883 voltou para a Alemanha e passou a residir em Naumburg. mostrava-se muito contrariado. Von Stein esperava que o filósofo o acompanhasse a Bayreuth para ouvir o Parsifal. Além disso. sentia-se cada vez mais só. retornou à Itália. que lera Assim falou Zaratustra e escrevera um artigo. "foi durante o inverno e no meio desse desconforto que nasceu o meu nobre Zaratustra". pois sua irmã tencionava casar-se com Herr Foster. o autor só encontrou sete pessoas a quem enviá-la. Por seu lado. Apesar da companhia dos familiares. como reduto da cristandade teutônica. Em Rapallo. Lanzky se dirigiu a Nietzsche tratando-o de "mestre" e Nietzsche lhe respondeu: "Sois o primeiro que me trata dessa maneira". talvez pretendendo ser o mediador para que Nietzsche não publicasse seu ataque contra Wagner. agitador anti- semita. não conseguindo influenciar a irmã. passando o inverno de 1882-1883 na baía de Rapallo. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . veio a falecer muito cedo. cada vez mais isolado. o que o amargurou profundamente. Em 1885. e. Certa vez. Von Stein. Nietzsche não se encontrava bem instalado. Nietzsche desprezava o anti-semitismo. abandonou Naumburg. Em seguida. onde veio a conhecer o intelectual alemão Paul Lanzky. viajou para Nice. publicado em um jornal de Leipzig e na Revista Européia de Florença. jovem discípulo de Wagner. Nietzsche viu no rapaz um discípulo capaz de compreender o seu Zaratustra. porém. em companhia da mãe e da irmã.

a 25 de agosto de 1900. simultaneamente. A interpretação procuraria fixar o sentido de um fenômeno. Depois de 1888. a arte de interpretar e a coisa a ser interpretada. o filósofo do futuro deveria ser artista e médico-legislador. o aforismo nietzschiano é. enfrentou o auge da crise. Um ano mais tarde. ao mesmo tempo. falando pelo poema. o avaliador seria o artista que considera e cria perspectivas. atenuar ou suprimir a pluralidade. totalizando os fragmentos. Assim. Provavelmente de origem sifilítica. a avaliação tentaria determinar o valor hierárquico desses sentidos. sem. um tipo de filósofo encontra-se entre os pré- socráticos. mas sim de interpretar e avaliar. Reunindo as duas capacidades. escrevia cartas ora assinando "Dioniso". sempre parcial e fragmentário. esta "estimulando" o pensamento. Isso trouxe como conseqüência uma nova concepção da filosofia e do filósofo: não se trata mais de procurar o ideal de um conhecimento verdadeiro. e o pensamento "afirmando" a vida. em Turim. ora "o Crucificado" e acabou sendo internado em Basiléia. Nietzsche passou a escrever cartas estranhas. e o poema constitui a arte de avaliar e a própria coisa a ser avaliada. a moléstia progrediu lentamente até a apatia e a agonia. Nietzsche faleceu em Weimar. em lugar de uma vida ativa e de um pensamento . onde foi diagnosticada uma "paralisia progressiva". O Dionisíaco e o Socrático Nietzsche enriqueceu a filosofia moderna com meios de expressão: o aforismo e o poema. Mas o desenvolvimento da filosofia teria trazido consigo a progressiva degeneração dessa característica. nos quais existe unidade entre o pensamento e a vida. aquele que considera os fenômenos como sintomas e fala por aforismos. Para Nietzsche. e. O intérprete seria uma espécie de fisiologista e de médico. no entanto.

mediando-a por eles. Segundo Sócrates. o Bem. verdadeiro e falso. Esse bem ideal concebido por Sócrates existiria em um mundo supra-sensível. medido. o Verdadeiro. Essa degeneração. apareceu claramente com Sócrates. Sócrates "inventou" a metafísica. pela oposição entre essencial e aparente. opondo a ela valores pretensamente superiores.afirmativo. que se opôs ao sentido místico de toda a tradição da época da tragédia. corresponde ao aforismo "só o homem que concebe o bem é virtuoso". no "verdadeiro mundo". quando se estabeleceu a distinção entre dois mundos. Por isso Sócrates colocou a tragédia na categoria das artes aduladoras que representam o agradável e não o útil e pedia a seus discípulos que se abstivessem dessas emoções "indignas de filósofos". inaugurando a época da razão e do homem teórico. segundo O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . fazendo da vida aquilo que deve ser julgado. diz Nietzsche. impondo-lhes limites. constitui uma "chave" que abre o caminho essencial do mundo. teria surgido um tipo de filósofo voluntário e sutilmente "submisso". surgiu o filósofo metafísico. Em lugar do filósofo-legislador. Com tal concepção. em nome de valores "superiores" como o Divino. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional. crítico de todos os valores estabelecidos e criador de novos. inacessível ao conhecimento dos sentidos. a filosofia ter-se-ia proposto como tarefa "julgar a vida". a grande tragédia grega apresenta como característica o saber místico da unidade da vida e da morte e. limitado. condenando-a. criou-se. os quais só revelariam o aparente e irreal. segundo Nietzsche. formula que. Para Nietzsche. inteligível e sensível. o Belo. nesse sentido. tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada. Com Sócrates. afirma Nietzsche. a arte da tragédia desvia o homem do caminho da verdade: "uma obra só é bela se obedecer à razão". isto é. algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos.

mas como "sinais". a Ascensão da Montanha . o homem se afastou cada vez mais desse conhecimento. e a única coisa permitida é sua interpretação. e entendendo as idéias não mais como "verdades" ou "falsidades". o aspecto lógico-racional. é a aparência e seu reverso não é mais o Ser. segundo Nietzsche. para Sócrates. A única existência. na medida em que abandonou o fenômeno do trágico. verdadeira natureza da realidade. Sócrates.Nietzsche. Perdendo-se a sabedoria instintiva da arte trágica. Assim. Para Nietzsche. Nietzsche combateu a metafísica. foi o único verdadeiro contrário do homem trágico e com ele teve início uma verdadeira mutação no entendimento do Ser. Penetrar a própria razão das coisas. Com ele. O Vôo da Águia. distinguindo o verdadeiro do aparente e do erro era. Por essa razão. esse tipo de conhecimento não tarda a encontrar seus limites: "esta sublime ilusão metafísica de um pensamento puramente racional associa-se ao conhecimento como um instinto e o conduz incessantemente a seus limites onde este se transforma em arte". retirando do mundo supra-sensível todo e qualquer valor eficiente. uma verdadeira oposição dialética entre Sócrates e Dioniso: "enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora. o "homem teórico". possuído que foi pelo instinto irrefreado de tudo transformar em pensamento abstrato. para Nietzsche. o homem está destinado à multiplicidade. e a consciência uma força crítica e negativa. lógico. racional. restou a Sócrates apenas um aspecto da vida do espírito. em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora". faltou-lhe a visão mística. a única atividade digna do homem. porém.

o inautêntico e o aparente. é a forma acabada da perversão dos instintos que caracteriza o platonismo. este desejo de fugir de tudo que é aparência. desejo mesmo. "de tudo que é 'animal' e mais ainda de tudo que é 'matéria'. à luz das idéias do outro mundo.. Segundo Nietzsche. Nietzsche propôs a si mesmo a tarefa de recuperar a vida e transmutar todos os valores do cristianismo: "munido de uma tocha cuja luz O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Trata-se. de uma vulgarização da metafísica. à dor e à luta. dever. criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. em oposição ao mundo da felicidade eterna do além. este horror da felicidade e da beleza. recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida". diz Nietzsche. esforço. uma luta acirrada contra o cristianismo. inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes. tudo isso significa. forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo. o sensível. A crítica nietzschiana à metafísica tem um sentido ontológico e um sentido moral: o combate à teoria das idéias socrático-platônicas é.. como o provisório. entende o terrestre. diz Nietzsche. O cristianismo. de "um platonismo para o povo". o corpo.. ao mesmo tempo.. e impondo a resignação e a renúncia como virtudes. vontade de aniquilamento. portanto. "Este ódio de tudo que é humano". hostilidade à vida. mudança. o cristianismo concebe o mundo terrestre como um vale de lágrimas. que é preciso desmistificar. autêntico e verdadeiro. Essa concepção constitui uma metafísica que. morte. repousando em dogmas e crenças que permitem à consciência fraca e escava escapar à vida. continua Nietzsche. São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria. este temor dos sentidos.

a consciência da culpa (momento em que as formas negativas se interiorizam. diz Nietzsche. por exemplo. do super-homem. e o ideal ascético (momento de sublimação do sofrimento e de negação da vida). eu negam a "afirmação". Do ponto de vista do intérprete que desça até os bas-fonds da consciência. Quando esse niilismo triunfa. hipocrisia e máscara. neles tudo é invertido: os fracos passam a se chamar fortes. a baixeza transforma-se em nobreza. A "profundidade da consciência" que busca o Bem e a Verdade. diz Nietzsche. outros significados precisariam ser recuperados. implica resignação. significado este que foi sepultado pelo cristianismo. na fórmula "tu és mau. Para Nietzsche essas etapas são o ressentimento ("é tua culpa se sou fraco e infeliz"). pois procura "fazer falar aquilo que gostaria de permanecer mudo". Assim como esse. no pensamento de Nietzsche. a vontade de potência torna-se vontade de nada e a vida transforma-se em fraqueza e mutilação. A imagem da tocha simboliza. logo eu sou bom". e o intérprete-filólogo. ao percorrer os signos para denunciá-las. essa é a maneira como o escravo a concebe. o método filológico. do arauto de um apelo perpétuo à verdadeira ultrapassagem dos valores estabelecidos. A partir daqui. Em latim.não treme. bonus significa também o "guerreiro". . triunfando o negativo e a reação contra a ação. Nietzsche traz à tona. com isso se poderia constituir uma genealogia da moral que explicaria as etapas das noções de "bem" e de "mal". Assim. deve ser um escavador dos submundos a fim de mostrar que a "profundidade da interioridade" é coisa diferente do que ela mesma pretende ser. um significado esquecido da palavra "bom". do "guerreiro". Nietzsche vê o triunfo da moral dos fracos que negam a vida. dizem-se culpadas e voltam-se contra si mesmas). levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal". por ele concebido como um método crítico e que se constitui no nível da patologia. o Bem é a vontade do mais forte. a vontade de potência deixa de querer significar "criar" para querer dizer "dominar".

o vôo da águia. e o "eterno retorno". concebendo o primeiro como o triunfo da afirmação da vontade de potência e o segundo como símbolo do mundo como vontade. interpretação. é o além-do-homem. Nietzsche assimila Zaratustra a Dioniso. Assim. assim. mas impõem uma interpretação. antes mesmo de serem signos. como um deus artista. e se elas só significam porque são "interpretações essenciais". Em dois momentos de Assim falou Zaratustra (Zaratustra doente e Zaratustra convalescente). a ascensão da montanha e todas as imagens de verticalidade que se encontram em Assim falou Zaratustra representam a inversão da profundidade e a descoberta de que ela não passa de um jogo de superfície. não significa uma volta do mesmo nem uma volta ao mesmo. não indicam um significado. O trabalho do etimologista. na medida em que tudo é máscara. que faz do futuro numa repetição. a arte trágica é concebida por Nietzsche como oposta à decadência e enraizada na antinomia entre a vontade de potência. sempre foram inventadas pelas classes superiores e. aberta para o futuro. esta. no entanto. o intérprete por excelência. o eterno retorno nietzschiano é essencialmente seletivo. deve centralizar-se no problema de saber o que existe para ser interpretado. segundo Nietzsche. Fazer isso é "aliviar o que vive. Zaratustra.entendida esta expressão no sentido de um ser humano que transpõe os limites do humano. portanto. Por outro lado. criar". pois as próprias palavras não passam de interpretações. dançar. A etimologia nietzschiana mostra que não existe um "sentido original". o eterno retorno causa ao personagem-título. é como Dioniso. uma repulsa e um medo O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . totalmente irresponsável. As palavras. Os Limites do Humano: O Além-do-Homem Em Ecce Homo. avaliação. primeiramente. amoral e superior ao lógico.

da alegria e do sofrimento. O eterno retorno. mesmo do mais pequeno. apesar de tudo. Para Dioniso. o verdadeiro oposto a Dioniso não é mais Sócrates. O grande desgosto do homem. Nietzsche responde ao pessimismo de Schopenhauer: em lugar do desespero de uma vida para a qual tudo se tornou vão. oferece. o homem descobre no eterno retorno a plenitude de uma existência ritmada pela alternância da criação e da destruição. Em outros termos. de um lado. o sofrimento. de outro.intoleráveis que desaparecem por ocasião de sua cura. mesmo o homem. diz Nietzsche. e apenas ele. a um ciclo. mesmo na dilaceração dos membros dispersos de Dioniso. pois o que o tornava doente era a idéia de que o eterno retorno estava ligado. aí está a causa de meu cansaço e de toda a existência. "os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas". a afirmação do devir e do múltiplo. diz Zaratustra. Por isso. portanto. e a transmutação dos valores traz consigo o novo homem que se situa além do próprio homem. do bem e do mal. aí está o que me sufocou e que me tinha entrado na garganta e também o que me tinha profetizado o adivinho: tudo é igual. a verdadeira oposição é a que contrapõe. o testemunho contra a vida e o empreendimento de vingança que consiste em negar a vida. a morte e o declínio são apenas a outra face da alegria. uma "saída fora da mentira de dois mil anos". E o eterno retorno. "mas. . o "homem pequeno". Com essa concepção. se Zaratustra se cura é porque compreende que o eterno retorno abrange o desigual e a seleção. dirão à vida: uma vez mais". e que ele faria tudo voltar. mas o Crucificado. Dessa forma. da ressurreição e da volta. diz Nietzsche. como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias. Para Nietzsche.

à moral da compaixão. humildade. objetividade. para Nietzsche. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . piedade. Oposta. a vontade de potência do super-homem nietzschiano o situa muito além do bem e do mal e o faz desprender-se de todos os produtos de uma cultura decadente. Nietzsche recusa o socialismo. mas em Vontade de Potência exorta os operários a reagirem "como soldados". bondade. porque Nietzsche desacredita das doutrinas igualitárias. da piedade. pelo orgulho. significa "criar". Vontade de potência. pela personalidade criadora. como a crítica total que acompanha a criação. da doçura feminina e cristã. Assim. diz Nietzsche. desconhece-se a natureza da vontade de potência como princípio plástico de todas as avaliações e como força criadora de novos valores. Esse super-homem nietzschiano não é um ser. uma instância a serviço daquele que cria. constituem valores inferiores. cuja vontade "deseje dominar". amor ao próximo. Se se interpreta vontade de potência. que leva a negação a seu último grau. assim. diz Nietzsche. que lhe parecem "imorais". "dar" e "avaliar". Zaratustra. é a moral oposta à do escravo e à do rebanho. o profeta do além-do-homem. Compreende-se. Com isso. fazendo dela uma ação. como desejo de dominar. faz-se dela algo dependente dos valores estabelecidos. impondo-se sua substituição pela virtù dos renascentistas italianos. pelo amor ao distante. O negativo subsiste nela apenas como agressividade própria à afirmação. que afirma. Nesse sentido. O forte é aquele em que a transmutação dos valores faz triunfar o afirmativo na vontade de potência. A moral do além-do-homem. é a pura afirmação. que vive esse constante perigo e fazendo de sua vida uma permanente luta. assim. pelo risco. portanto. pois impossibilitam que se pense a diferença entre os valores dos "senhores e dos escravos".

retendo até 1908 Ecce Homo. que não se coaduna com o nacionalismo e o racismo germânicos. Por ocasião desse conflito. Nessa época. pois. de sua própria filosofia. tentou colocá-lo a serviço do nacional-socialismo. a vitória da Alemanha sobre a França teria como conseqüência "um poder altamente perigoso para a cultura". ao assegurar a difusão de seu pensamento. Esta obra constitui uma interpretação. feita por Nietzsche. que. desenvolveu- se um pensamento nacionalista e racista. Ambos foram combatidos pelo filósofo. desde sua participação na guerra franco-prussiana (1870-1871). escrita em 1888. depois do suicídio do marido. Jacob Burckhardt (1818-1897). em sua teoria da vontade de potência e no seu elogio do super-homem. organizando o Nietzsche-Archiv. A principal responsável por essa deformação foi sua irmã Elisabeth. mas seu ardor patriótico logo se dissolveu. em Weimar. que fracassara em um projeto colonial no Paraguai. Por outro lado. Em Para Além de Bem e Mal. aplaudia as palavras de seu colega em Basiléia. para ele. reuniu arbitrariamente notas e rascunhos do irmão. que insistia junto a seus alunos para que não tomassem o triunfo militar e a expansão de um Estado como indício de verdadeira grandeza. Uma Filosofia Confiscada Apoiado na crítica nietzschiana aos valores da moral cristã. Nietzsche alistou-se no exército alemão. de tal forma que se passou a ver no autor de Assim Falou Zaratustra um percursor do nazismo. Elisabeth. Nietzsche revela o desejo de uma Europa unida para enfrentar o nacionalismo ("essa neurose") que ameaçava subverter a cultura européia. quando confiou ao "louro" a . fazendo publicar Vontade de Potência como a última e a mais representativa das obras de Nietzsche.

como conseqüência. usurpação e violência". que só sabem obedecer pesadamente. "A democracia é a forma histórica de decadência do Estado". seus alicerces encontram-se na máxima que diz: "o poder dá o primeiro direito e não há direito que no fundo não seja arrogância. disciplinados como uma cifre oculta em um número". Considero tal fato não um retrocesso ao paganismo mas um retrocesso à estupidez". Nietzsche foi ao mesmo tempo um antidemocrático e um antitotalitário. E acabou rompendo definitivamente com Wagner. Para compreender corretamente as idéias políticas de Nietzsche. sendo criação da violência e da conquista e. ao contrário. e.tarefa de "virilizar a Europa".. o Estado tem uma origem "terrível". purificá-lo de todos os desvios posteriores que foram cometidos em seu nome. No mesmo sentido. Por outro lado. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . Nietzsche não aceitava as considerações de que a origem do Estado seja o contrato ou a convenção. afirmou Nietzsche. Nietzsche levou até a caricatura seu desprezo pelos alemães. por causa do nacionalismo e anti-semitismo do autor de Tristão e Isolda: "Wagner condescende a tudo que desprezo. assim. entendendo por decadência tudo aquilo que escraviza o pensamento. para ele. sobretudo um Estado que pensa em si em lugar de pensar na cultura. essas teorias seriam apenas "fantásticas". até o anti-semitismo". homens "que introduziram no lugar da cultura a loucura política e nacional. segundo as quais o estado é o mais alto fim do homem. não há mais elevado fim do que servi-lo. portanto.. Em Considerações Extemporâneas essa tese é reforçada: "estamos sofrendo as conseqüências das doutrinas pregadas ultimamente por todos os lados. Nietzsche caracterizou os heróis wagnerianos como germanos que não passam de "obediência e longas pernas". é necessário.

O Estado. portanto. Assim Falou Zaratustra Em Ecce Homo. as oposições entre bem e mal. entre a doença e a saúde e a diferença entre as duas é apenas de grau. diz Nietzsche. para Nietzsche. Ao contrário disso. a sensualidade e o livre florescimento do eu são considerados "manifestações diabólicas". Há uma continuidade. doença e saúde são apenas jogos de superfície. Isso levou muitos a considerarem sua obra como anormal e desqualificada pela loucura. revela um superficial entendimento de seu pensamento. Essa opinião. está sempre interessado na formação de cidadãos obedientes e tem. esconde um saber fatal e "demasiado certo". tornando-a estática e estereotipada. a fisiologia e a patologia são uma única coisa. A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para a cura da loucura é a "meditação ascética". sendo a doença um desvio interior à própria vida. no entanto. não há fato patológico. "Por que sou tão sábio?". tendência a impedir o desenvolvimento da cultura livre. aniquilar as paixões é uma . o Estado deveria ser apenas um meio para a realização da cultura e para fazer nascer o além-do-homem. assim. diz Nietzsche. nem a saúde. Para entendê-lo corretamente. Nietzsche intitulou seus capítulos: "Por que sou tão finalista?". a vontade de potência. é necessário colocar-se dentro do próprio núcleo de sua concepção da filosofia: Nietzsche inverteu o sentido tradicional da filosofia. "Por que escrevo livros tão bons?". que consiste em enfraquecer os instintos e expulsar as paixões. A loucura não passa de uma máscara que esconde alguma coisa. Para ele. nem a doença são entidades. "Por que sou tão inteligente?". fazendo dela um discurso ao nível da patologia e considerando a doença "um ponto de vista" sobre a saúde e vice-versa. verdadeiro e falso. com isso. Mas.

Edições Melhoramentos..ª edição. que se deve compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche. É dentro dessa perspectiva. Em suma. rompendo os costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão dos valores. como tal. FRANCA S. pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento. Para Nietzsche. a doença pode ser útil a um homem ou a uma tarefa. da saúde à doença. diz Nietzsche. PADOVANI. São Paulo."triste loucura". portanto. pois é a loucura que torna mais plano o caminho para as idéias novas.. J. cuja decifração cabe à filosofia. ainda que para outros signifique doença. O PENSAMENTO HUMANO NA HISTÓRIA DA FILOSOFIA . e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência dos valores e aniquilamento: "Na verdade. 1. aos emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso. Umberto e CASTAGNOLA. Editora Nacional. sob o travestimento da loucura. para ele.A Vida e as Idéias dos Grandes Filósofos. São Paulo. a não ser o de proclamar as novas leis e quebrar o jugo da moralidade. Padre Leonel. Luís. Will. As últimos cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento extremo e. OBRAS UTILIZADAS: DURANT. História da Filosofia. 1974.ª edição. aos "filósofos além de bem e mal". 10. Noções de História da Filosofia.. alguma coisa de divino: "Pela loucura os maiores feitos foram espalhados foram espalhados pela Grécia". Não fui um doente nem mesmo por ocasião da maior enfermidade". A filosofia foi. a arte de deslocar as perspectivas. Sua crise final apenas marcou o momento em que a "doença" saiu de sua obra e interrompeu seu prosseguimento. História da Filosofia . 1926. os homens do passado estiveram mais próximos da idéia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria.

ª edição. Os Pré-socráticos. 1. Denis.I. . História da Filosofia Ilustrada pelos Textos. Freitas Bastos. Rio de Janeiro. vol. Abril Cultural. agosto 1973. São Paulo.VERGEZ. 1980. Coleção Os Pensadores. 4. André e HUISMAN.ª edição.