UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM ARTES VISUAIS
INSTITUTO DE ARTES
MESTRADO

Michele T. Philomena Bohnenberger

Projeto Fabíola – Francis Alÿs e a Aura da Cópia
Uma mulher branca, de perfil sobre um fundo escuro, coberta por um
manto vermelho que deixa aparecer uma pequena mecha do cabelo castanho,
a figura representada está voltada para a esquerda da tela com olhar
melancólico. A imagem corresponde a representação de uma santa católica,
criada originalmente em 1885 pelo pintor francês Jean – Jacques Henner (1829
-1905). A santa em questão é Fabíola, que viveu no século IV e é conhecida
como padroeira das enfermeiras e das mulheres maltratadas pelo marido, pois
divorciou-se no seu primeiro casamento com um homem rude por ser vítima
violência, casando-se novamente e causando um escândalo para o período.
Entretanto, após ficar viúva deste, pediu perdão público e apresentando-se,
vestida com tecido de saco, na Basílica de São João de Latrão. Concedendo-
lhe o perdão, o papa Sirício (384-399) admitiu-a de novo à comunhão. Fabíola
dedicou-se então aos estudos religiosos, vendeu seus bens e fundou com a
verba adquirida um hospital de amparo aos doentes abandonados.
O próprio Jean Henner não adquiriu grande notoriedade como pintor na
história da arte e o paradeiro de sua pintura é desconhecido desde 1912.
Depois que foi exibida no Salão de Paris de 1885, esta imagem espalhou-se
em todo o continente europeu e de tão venerada passou a ser copiada por
amadores e profissionais.
Quase cem anos se passam
até que o artista belga Francis Alÿs
perceba a grande profusão da
imagem da santa, o que se dá em
uma visita a um mercado europeu.
Desde então tomou a decisão de
colecionar as diferentes reproduções
da pintura henneriana. Em uma
mostra intitulada Fabíola, o artista
dispões essa coleção de reproduções
as quais ou foram adquiridas por ele
próprio, ou foram ou trazidas por
amigos em viagens pelo mundo.
Ao se passar os olhos pela
“coleção” de Alÿs pode-se por uma

A política de valorização de determinada obra por esse sistema também está implícita pois artistas esquecidos ou renegados tem adquirido novos valores pela redescoberta de suas produções. No entanto. Cada uma parece conter uma história. mais de um século após ter feito sua pintura. Entra em cheque a questão da autoria da obra de Alÿs. atrelada aquele que a construiu. Apesar de à primeira vista parecer que o interesse de Alÿs esteja em explorar o sucesso tardio do produtor de Fabíola. pois. a obra de Alÿs demonstra uma oposição a esses valores: a difusão reprodutiva propiciou a existência da aura da imagem apenas anos após sua criação. o aqui e agora cederia lugar para uma imagem carente de elementos essenciais que só se poderia apreciar na presença do original.fração pensar que se trata sempre da mesma imagem e que é apenas um acúmulo de cópias. portanto. com o passar do tempo as diferenças entre as imagens passam a ser mais evidentes que as semelhanças. foram quase ícones. permitindo que a mesma permaneça viva no imaginário coletivo. pois o nome desse vem de novo à tona pela repercussão de seu trabalho. sendo que sua existência está condicionada a profusão das reproduções construídas e interpretadas por pessoas comuns. remetendo a um ex-voto. uma imagem fantasiosa da santa. Este sucesso também resultou em ele ser amplamente copiado Henner obviamente não imaginaria que estava a criar uma iconografia para a Santa Fabíola e que. Benjamim defende que a obra perde a aura com as possibilidades criadas pelos métodos reprodutivos. Há registros de que a mesma foi baseada em romances históricos sendo. ela estaria presente no imaginário popular e servindo de material. O site do artista Henner. De quem é a obra? De Francis Alÿs? De Henner? Dos autores anônimos? Também se inverte a posição do artista. pois o objeto original não possuí grande valor no sistema das artes e nem ao menos tem paradeiro confirmado. seja pelo tratamento. pelo material empregado ou pela expressão que o feitor da obra deixou transparecer. São cópias da representação ficcional da imagem da santa. pintada originalmente por um artista com prestigio mediano. Elle Participar ou Fabiola. Henner era um artista famoso cujas obras foram amplamente conhecidas através de gravuras e fotografias: L'Alsace. de veículo compositivo para obra de outro artista. em 1905. . intitulado “ A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técinica”. menciona que a fama que lhe foi atribuída deve-se justamente as reproduções dessas imagens: No momento da sua morte. a real importância da obra está na criação de um paradoxo ao ensaio de Walter Benjamim. Uma imagem perdida deixou de herança sua essência. porém. que cai no gosto popular do religioso. Esse seria autor da obra? Ccurador da mostra de muitas Fabíolas? Seria um historiador da repercussão de Henner? Aqui estão em jogo as contextualizações do sistema artístico contemporâneo e as margens dos papéis dos indivíduos nele envolvidos.

que nesse caso. A questão da adoração obsessiva aparece na obra já em 2013. a coleção de Alÿs é uma coleção de cópias. feijão. onde encontram alento aos abusos sofridos. O uso da imagem dentro da religião pode ser bastante controverso. mas sim do homem devotado à arte. Muitas são feitas com materiais populares. investiga a validação das imagens através do culto ao objeto artístico. condição que trouxe sérias consequências para o jornal parisiense Charlie Hebdo. ao publicar uma charge com uma representação do profeta. é importante ressaltar que reflete ações comportamentais das mazelas sociais. grãos. a obra de Alÿs apresenta a mulher dentro do conceito cristão. Se esta imagem ainda permanece em profusão deve-se ao eco dessa significação. bordados. em seu colecionismo essa devoção não é a do cristão que adora o santo. mantendo a obra em crescente expansão com a busca novas representações da santa. pois em uma atitude semelhante à de um colecionador. Mas cada cópia contém sua própria história. Embora algumas sociedades aceitem a submissão. as mulheres que sofrem violência doméstica ajudam a manter viva a propagação da imagem da santa. Buscando a salvação pela fé. Alÿs trabalha com o funcionamento das intervenções públicas sobre o sistema das artes. O objeto artístico passa as mãos do artesão. Nunca se falou tanto na liberação da mulher das amarras da violência doméstica como nos dias de hoje e a obra de Alÿs pressupõe que as relações sociais com a imagem permitem a resistência da obra como um espelho da resistência a dor. Mas o que poderia fazer. como no caso do islamismo que proíbe a representação do profeta Maomé. contando com 400 imagens e em maio deste ano. atribui maior valor a sua coleção conforme ela se amplia e é admirada. A redação . o que gera na obra de Alÿs um método investigativo. o artista já havia coletado para o Projeto Fabiola cerca de 500 reproduções. Fabíola é símbolo de resistência e resignação católica. tornando-se devotas. que deveriam ser ausentes de aura. porém. submissa a um casamento eterno que só pode se salvar pela oração e na adoração a santa. O próprio artista realiza uma espécie de devoção. Porém. são cópias “autênticas”. na vida cotidiana. levantando questões de funcionamento dos valores da imagem na vida cotidiana. segundo Benjamin. que a pintura perdida de uma santa ainda possuísse aura em pleno 2016? Se a obra investiga o próprio sistema artístico. A imagem de Henner desdobra sua aura em um poder transcendental. Determinadas religiões impedem a criação imagética de mentores religiosos. o tema sobrepõe a técnica.

única fonte visual da época. idolatramos as figuras. proibindo a adoração de imagens. desconsideram a construção de ícones de santos. atar. Os deuses e santos da sociedade contemporânea são outros. diria que o valor da imagem perde o culto quando a tecnologia propicia sua propagação. mas onde seus executores mostram-se dedicados. colagens e pinturas. trazendo o que está fora do circuito para dentro e borrando os limites entre a imagem artística e a artesania popular. mas a “aura” da iconografia imposta pela santa de Henner se sobrepõe . religar. Benjamin. Essa atitude antiga. Especula-se também que possa surgir do latim religio que significa “prestar louvor aos deuses”. mas relação do espectador e o culto se mantem a mesma. Ainda como os fiéis do renascimento. mesmo sem conseguir grande sucesso estético .em algumas pode- se ver o tempo empregado na execução dos bordados. dando lugar a cópias sem aura. cantores e youtubers. que atua com o poder da imagem para propagar seus ideais. alguns permanecem inalterados. mantem viva a imagem que deveria ter desaparecido do imaginário com o sumiço do original em 1912. onde a maneira de atrair fiéis a igreja era através das pinturas. ele refere-se ao culto da imagem única. vinculando o popular ao erudito. Pode-se indagar sobre o valor artístico da pintura original. Porém. O trabalho de Alÿs levanta assim mais uma questão. O artista era uma pessoa que possuía um dom divino. Se surgiram outros santos. entre culto artístico e culto religioso. Outras religiões. A violência doméstica que já existia durante a vida de Fabíola mante-se perene. por vezes são artistas. A devoção a imagem da santa transparece na individualidade de cada reprodução. A palavra religião tem origem etimológica com o sentido de unir. que não possuem valor estilístico. O intuito era fazer o crente enxergar as figuras do céu e buscar sua redenção. O tema (a figura da santa) se apresenta infinitamente mais relevante que a qualidade da pintura original na propagação da aura que questionava Benjamin e continua da mesma forma nas cópias. É a interdisciplinaridade da arte. pois o culto a reprodução forma um ícone. remonta ao período anterior ao renascimento. em Alÿs essa verdade é questionável. por vezes toscas. e a torna um ícone dessa resistência. Porém Alÿs tange as questões do culto católico de adoração. assim como as mazelas seculares. Agora a profusão das diversas formas de imagens modificou o papel do artista. cultuados por sentirmos com eles alguma ligação e conhecidos pela propagação incessante da autoimagem. entre o valor da técnica e o valor do conteúdo. era o veículo de Deus para representar esses seres e lugares.foi atacada por extremistas islâmicos em um atentado que teve repercussão internacional.

A maioria das pessoas que são devotas da santa ou criaram as reproduções da mesma.as qualidades artísticas de seu trabalho.br/2012/12/santa-fabiola- de-roma-matrona-27-de. Como a obra está em crescente desenvolvimento.com. Vol. 1994. Brasiliense.org/o_atirador_de_palavras/2013/01/a- imagem-perdida-de-santa-fabiola.obviousmag.musee-henner. as abordagens podem desdobrar-se juntamente com as novas aquisições de cópias para o Projeto Fabíola.wordpress. coloca em jogo diversos diálogos presentes na arte contemporânea em uma só obra.fr/en .com/2013/05/ http://www. Walter.html https://exposicaoartesrtv. Ensaios Sobre Literatura e História da Cultura.html#ixzz4MXR321Ya http://heroinasdacristandade. Sites: http://lounge. deixando os limites abertos para discussões. A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica. Arte e Política. 1. assim como não acharão importância na pintura além da representação do seu tema. São Paulo. Referências Bibliográficas: BENJAMIN. Obras Escolhidas. Alÿs portanto.blogspot. nem ao menos devem ter ideia de quem foi Henner. In: Magia e Técnica.