Autonomia, cooperativismo e autogestão em Freinet

:
fundamentos de uma pedagogia solidária internacional

Antonio Takao KanamaruI

Resumo

A moderna educação pública, a partir de fins do século XX, passou
a sofrer novas influências de políticas hegemônicas de vieses
tecnocrático, mercadológico e financeiro. Diante desse quadro, um
de seus principais fundamentos, a autonomia pedagógica, encontra-
se sob pressão e condicionamento no mundo. Assim, defendemos
que o estudo da autonomia na educação moderna pode auxiliar
a esclarecer criticamente as condições e seu desenvolvimento na
história. Nessa perspectiva, uma das reconhecidas obras pedagógicas
reside na chamada Pedagogia do trabalho ou escola moderna, de
Célestin Freinet (1896-1966), a qual procuramos analisar a partir
de revisão da literatura. Neste trabalho, portanto, enfocamos seus
meios e fundamentos teórico-metodológicos como a livre expressão,
o livre trabalho, a livre cooperação, as técnicas de trabalho, a livre
pesquisa, a comunicação interescolar. Na análise, observamos a
presença teórica de um quadro marxiano heterodoxo implícito na
metodologia freinetiana, particularmente relacionada à teoria das
relações materiais de produção, à teoria da alienação e à doutrina
internacionalista. Tais fundamentos, somados à originalidade de
Freinet, permitiram a criação de meios técnicos e a cooperação
internacional, que subjazem à autonomia radical de sua pedagogia.
Como resultados, observamos e descrevemos fundamentos pouco
analisados em Freinet, devido ao caráter embrionário em seu tempo
e espaço: o cooperativismo internacional e a autogestão da escola
moderna, os quais revelam a relevância e atualidade do autor para o
resgate e o desenvolvimento da autonomia pedagógica, bem como
a ampliação da dimensão da obra freinetiana como uma pedagogia
solidária internacional, frente ao difícil contexto histórico presente.

Palavras-chave

Autonomia pedagógica — Cooperativismo — Autogestão escolar —
Pedagogia solidária.
I- Universidade de São Paulo, São
Paulo, SP, Brasil.
Contato: kanamaru@usp.br

Educ. Pesqui., São Paulo, v. 40, n. 3, p. 767-781, jul./set. 2014. http://dx.doi.org/10.1590/s1517-97022014005000007 767

Autonomy. free inquiry. In the analysis. which I sought to analyze through literature review. 2014. cooperativeness and self-management in Freinet: foundations of an international solidarity pedagogy Antonio Takao KanamaruI Abstract Since the late twentieth century. given their embryonic nature in his time and space: the international cooperativeness and self-management of the modern school. interschool communication. I argue that the study of autonomy in modern education may help critically clarify the conditions and its development in history. particularly related to the theory of the material relations of production. I observe and describe foundations which have been little analyzed in Freinet. p. by Célestin Freinet (1896-1966). Brazil.doi. is under pressure and conditioning in the world. As for findings. modern public education has come under new influences of hegemonic policies with technocratic. SP. one of the recognized pedagogical works is the so-called pedagogy of work or modern school. Keywords Pedagogical autonomy — Cooperativeness — School self-management — Solidarity pedagogy. From this perspective. Thus. n. v.1590/s1517-97022014005000007 Educ. which underlie the radical autonomy of his pedagogy. Pesqui. the theory of alienation and the internationalist doctrine./set. Given this scenario. . one of its main foundations. enabled the creation of technical means and international cooperation. Such foundations reveal not only the relevance and timeliness of the author to the rescue and development of pedagogical autonomy but also the expansion of the size of Freinet’s work as an international solidarity pedagogy in the difficult current historical context.Universidade de São Paulo. Contact: kanamaru@usp.br 768 http://dx. work techniques. pedagogical autonomy. coupled with the originality of Freinet. 40. free work.. Such foundations. I. free cooperation. jul. São Paulo. 3. in this study I focus on its means and theoretical and methodological foundations such as free speech. 767-781. I have observed the presence of a heterodox Marxist theoretical framework implicit in Freinet’s methodology. marketing and financial biases.org/10. São Paulo. Therefore.

chama-se cooperação”. Educ. portanto. objetiva. 2002). objetivos e métodos. seus pressupostos conceituais e condições 2. a livre pesquisa e as como solidária é incipiente. […] a radicalização (grifo nosso) é crítica. Educadores do ICEM são os únicos res- 26). 767-781. ponsáveis pela direção e esforços de co- relacionado à ideia de raiz. Solidária devido ao compromisso cooperação2 e a autogestão escolar a essa rela- ético e socialmente transformador assumido ção de trabalho. Libertadora porque. que. (ICEM. […] Estamos interessados pro- fundamente na vida da nossa cooperativa. em seu conjunto. conforme o sétimo princípio em sua pedagogia popular. a nosso ver. o jornal escolar. ao estender coerentemente a meios e fins. concreta. literatura. portanto. se aprofundar e a se estender para áreas além rádio-gravador) e a revisão do layout do da economia. 1968). Na extensa obra do francês Célestin Mas. da solidariedade e colaboradores consideraram que o objetivo radical. Freinet Trata-se. devemos alimentar nossos fundos. mas (Departamentp de Educação – IA/UNESP). da responsabilidade enraizada em sua do movimento cooperativo da Escola Moderna missão. como a impressão gráfica. p. 246).Para Marx (1988. na literatura. São Paulo. 40. o com as crises estruturais da segunda metade do correio interescolar. v. corresponde ao ato de “[…] desenvolver o Essa dimensão pouco estudada na obra trabalho em fraternidades e para o destino de de Freinet pode ser observada em aspectos auxiliar profundamente e de forma eficaz todas já analisados e amplamente reconhecidos as obras de paz”. mas a análise e a discussão crítica a bem como de livre expressão. 2014. alcançando também a pedagogia interior arquitetônico e mobiliário escolares. 769 . p. quanto à etimologia do próprio termo. o diário coletivo (livro de século XX (SINGER. conexos. no mesmo 1-Dedicado ao freinetiano Profofessor Titular José de Arruda Penteado processo de produção ou em processos de produção diferentes./set. Isso porque suas respectivas técnicas (técnicas de vida). “a forma de trabalho em que muitos trabalham planejadamente lado a lado e conjuntamente. o nos- implicando o enraizamento (grifo nosso) so esforço. nas quais o debate vida). que a reflexões nesse campo tornaram-se mais efetivas notabilizaram. junto respeito do caráter dessa relação a qual definimos com a livre cooperação. segundo o qual: operação. no clássico Pedagogia do oprimido (2005. entre concorrência e solidariedade começaram a os audiovisuais (documentário cinematográfico. 2009. a obra freinetiana Freinet1. os engaja cada vez mais no pessoa que iria prejudicar os nossos inte- esforço de transformação da realidade resses. constituem. Pesqui. 3. jul. Radical em sentido da Carta da Escola Moderna. 1968). (ICEM. observamos. (SINGER. a partir da revisão da não se limitou à celula mater didática da rela- literatura. GADOTTI. n. 2009). in memoriam. os meios e fins Com o desenvolvimento da livre da pedagogia freinetiana. cooperação entre educandos e. um aspecto pouco abordado em ção educador-educando.. p. Fundamentalmente. Compreendemos que sua teoria e práxis pedagógicas baseadas em Freinet interveio também nas próprias relações métodos ativos: a solidariedade radical em seus entre educadores. porque é a nossa casa.Introdução técnicas têm por objetivo conduzir educandos didaticamente ao trabalho coletivo e criador. que descreve que: análogo ao levantado por Paulo Freire. como aqueles relacionados às Tal aspecto é comumente descrito na centralidades dos conceitos de livre trabalho. nossos pensamentos e estamos que os homens fazem na opção que prontos para se defender contra qualquer fizeram. Junto com o décimo princípio. nosso quintal que por isto libertadora. fichas e fichário escolares.

antecedentes históricos de Freinet revelam Nesse ponto. na qual se estabelece que a pedagogia Freinet é Esse caráter heterodoxo acerca do “inerentemente internacional”. 770 Antonio Takao KANAMARU. . […] O pensamento justificar o tema também a partir da influência marxista esclareceu para ele a revolta de condicionante de políticas e critérios 1917. caracterizando-a em um aspecto renovado: posteriormente verificável em um dos princípios a de uma pedagogia solidária de caráter na Carta da Escola Moderna. vivida nas trincheiras e ligada à tecnocráticos.Análise crítica presente em Warmling.Vide Carlota Boto (1996) e Freire (1996). termos teórico-metodológicos e praxiológicos: considerado “pai do cooperativismo”4.. vivo o movimento da Escola Moderna após o Nesse panorama geral acerca da obra falecimento de Freinet. e. desde fins do século XX. a partir do qual nos propomos a […] Fora de seu domínio pedagógico. cooperativismo e da autogestão na análise Procuramos evidenciar também outro freinetiana.Para o acratismo e o cooperativismo mutualista de Proudhon. em tese. capital das condições objetivas das relações particularmente a partir de Rousseau5. não obstante o seu caráter popular. a carta revela a princípio presente na Carta da Escola Moderna. reformas de ensino na França. 2007. observamos o caráter crítico e analisado por Élise Freinet (1979). a respeito dos fundamentos da pedagogia O marxismo na obra de Freinet foi freinetiana. procuramos demonstrar a sua Célestin Freinet. as noções de cooperativismo e autogestão. cooperativismo e autogestão em Freinet: fundamentos de uma pedagogia. da URSS. mercadológicos e financeiros6 Revolução da URSS. de características heterodoxas. sem mudanças estruturais. para seu 4. reuniu contribuições da sujeito produtor. p. Freinet já tem uma ampla cultura humana No presente contexto da educação e uma filosofia de orientação decorrente do pública. aventamos como hipótese também o seu desligamento do antigo PCF – o cooperativismo e a autogestão como a Partido Comunista Francês. repousa na consciência de Freinet quanto mas que a fundamenta implicitamente em à discussão crítica entre Marx e Proudhon. E era. […] Era na prática um sobre o grau de autonomia da pedagogia engajamento que justificava sua adesão moderna. ao Partido Comunista e sua militância na a relevância crítica e a atualidade da obra Internacional do Ensino3. Astier (1997) sobre pseudo- documentação presente em Lenine (1981). a teoria das relações materiais autonomia e livre expressão provenientes de produção. São Paulo: Escala. 120) existente na pedagogia freinetiana tanto em suas relações didáticas quanto em seu projeto Embora fiel ao pensamento marxista. a doutrina processo articulado de análise e reflexão internacionalista de Marx. (FREINET. entendemos a coerência da solidariedade […]. Nessa a presença de uma interpretação marxista discussão.também entre educadores sob autogestão das contradições de qualquer sistema escolar. em contrapartida. que atribuímos contribuição original na obra de Freinet. Junto com a defesa internacional. pensamento. observamos a 6 . Élise afirma: relevância e atualidade no presente contexto histórico.. que manteve heterodoxo em sua teoria e metodologia. 3. político-pedagógico em sociedade. procuramos materialismo dialético. finalmente. à discordância ao dogmatismo partidário. particularmente sobre a teoria da alienação do Ao mesmo tempo. Na obra O Itinerário de freinetiana. Sobre essa política e seu caráter modernizador. heterodoxia no pensamento e ação do pedagogo. aspecto pouco abordado na obra de Freinet.Freinet excursionou para a Rússia e teve contatos com a política 5. estudar e analisar esses referidos aspectos. Esse caráter é frisado no décimo do cooperativismo e autogestão. entrar sem cessar no centro referenciamo-nos em seu Sistemas das contradições econômicas ou filosofia da miséria. Observamos. 1979. Nesse sociais históricas. o autor preservou e desenvolveu original. que fundamenta a noção de ideais revolucionários iluministas. Autonomia.

nos ideais na Revolução Francesa e na Declaração Alpes Marítimos. 1997. essenciais para a “ascensão da vida”. iniciou sua atuação como Freinet: a autonomia frente às educador em Bar-sur-Loup e nessa nova etapa adversidades começou a pesquisa e a discussão de uma nova pedagogia assumidamente popular. Nessa fase. então baseada no verbalismo in- verdadeiramente risonha e franca. à segurança do rebanho. v. sidades dos educandos e às famílias de aldeões. quando foi pastor de ovelhas. a sua dimensão maior como conformar-se com a deficiência. ao por gases tóxicos em Verdun. 2014. 771 . segundo o qual “nada é se tornariam base para a consideração da tão delicado e fugidio. Embora fatigado e extenuado fisicamen- dirigida ao desenvolvimento do educando pelo te. jul. Em 1920. de vida (FREINET./set. p. não foi elaborada a natureza peculiar infantil. teve vem daí sua ponderação acerca da defesa da influência de sua experiência de vida desde os autonomia e da livre expressão presentes como primórdios. Pelo contrário.-J. São Paulo. quanto um importância da livre expressão e da livre pesquisa. Montaigne e J. uma pedagogia solidária internacional. tem a influência de Teilhard influenciou a concepção e o desenvolvimento de de Chardin quanto à aproximação científica sua obra pedagógica. para uma escola à escolástica. A experiência histórica adversa na Essa pesquisa adquiriu articulações mais biografia de Freinet também deve ser considerada. Nesse sentido.1966). 3. com sequelas livre cooperativismo e à autogestão escolar. irreversíveis à respiração. 2011). ao lado do fundamento Pensamos que essa experiência profissional baseado na razão. Freinet buscou terapia desenvolvidos estruturalmente em seu projeto médica ao longo de quatro anos (SAMPAIO. p. influenciada pelas experiências-limite construção da pedagogia do trabalho ou da que viveu. já nos seus primeiros anos Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão. importantes devido ao novo e moderno órgão visto que aos dezoito anos iniciou sua experiência traumática como soldado nas batalhas da I Guerra 7 . principal fonte de Por outro lado. técnicas objetivas. em geral estranho às neces- comumente atribuída ao autor.1896. do francês Célestin Freinet de Rousseau a respeito do reconhecimento da (Gars. observamos seu viés sustento de sua família humilde. em autonomia e a livre descoberta. 1979). Pesqui. Podemos dizer que priori e academicamente. mas também de condições a seu ver. 1979). multifacetado que. por natureza. Após um ano de combates. Esses seriam valores importantes também para eis a valorização por Freinet do papel da livre educandos superarem o difícil isolamento rural e pesquisa e da livre expressão como meios provinciano a que estavam submetidos. observamos. baseada no Conforme a literatura existente. algo. político-pedagógico da chamada escola moderna. que ulteriormente termos antropológicos. a trabalho.Rousseau […] (mas) tais idéias que os intelectuais julgam ter descoberto não Mundial (1914). era lhe exigido ser objetivo e comunicar ver- trabalho. principalmente a partir de condições balmente o essencial (PENTEADO. LEGRAND. para monopolizá-la […]?” (FREINET. n. 1989. levando-o a valorizar a entre razão e espiritualidade humanista.“[…] E é tradição referir-se a Rabelais. 1979). começo” (apud FREINET. […] deformou a essência. mas a ineficácia Nessa perspectiva geral.3) Educ. 40. necessário à pedagogia moderna ba- organizativas de administração e gestão seada na experiência e em contraposição direta democráticas diretas ou reais. expressão telectual e abstrato. 1979.. conheceu primeiro a obra escola moderna. ELIAS. devido à contribuição seus pulmões foram seriamente lesionados original relacionada à plena autonomia. dos tratamentos o fez assumir essa realidade e por decorrência. Vence. Essa profissão lhe embora considerasse uma referência em geral exigia tomar decisões importantes relacionadas distorcida das elites7.pedagógica de Freinet. 767-781. mesmo ano em que iria iniciar o correm desde sempre entre o povo […] não foi o erro escolástico que magistério em Nice.

Autonomia. O estado de saúde do pedagogo se (1946). Mas. concentração. escola-canteiro ou escola-laboratório de John alfabetizou outros presos. Como resistência a esse jogo político A pedagoga e artista Elise. permitindo reunir recursos e conquistar Escola Moderna. e encaminhado ao campo de concentração baseado no ensino ao ar livre. como o uso da imprensa de tipos móveis e por discordâncias burocráticas e ideológicas a correspondência interescolar de alcance (LEGRAND. 772 Antonio Takao KANAMARU. manteve a Educação Cooperativa nos anos 1930. bem como da de Var. tomou a na qual liderou um movimento e fundou decisão de atuar como guerrilheiro maquisard. a oposição conservadora campanha nacional da crítica à superlotação de local mais interessada na rentabilidade turística classes e à reivindicação da defesa de turmas forjou uma falsa acusação com intenções discentes de no máximo vinte e cinco alunos políticas (LEGRAND. com a Casa dei Bambini. na em defesa da instalação da energia elétrica Resistência Francesa9. 1989)... 1989). 1979). demonstrou cidadania ativa em sua aldeia. Freinet. contato com os debates liderados por Lênin no baseada no cooperativismo para a fabricação campo da educação operária8. bem como o Congresso Assim. exonerá-lo do sistema municipal. Freinet foi expulso do PCF. Ferrière Mundial. . infantis e o interesse em Claparède. 2011). sua atuante dominante. Detento. em 1934. 2011) . 1979. cooperativismo e autogestão em Freinet: fundamentos de uma pedagogia. Como tal. Foi retirado por Elise Dewey. em Saint-Paul de Vence. SAMPAIO. de material didático e pedagógico acessível Freinet retornou mais bem preparado e (PENTEADO. sua obra. inclusive excursionando à a Cooperativa de Educação Laica foi rebatizada antiga URSS (União das Repúblicas Socialistas como ICEM – Institut Coopératif de l’École Soviéticas). Posteriormente. que continuidade de sua obra. mesmo sem para uma melhor interação didática e qualidade provas. autonomia financeira. Freinet e encaminhado ao hospital do campo de no campo pedagógico-moderno. 2011). assim. Em 1966. de famílias operárias e do serviço assistencial os centros de interesse de Decroly.Nouvelle Éducation. (SAMPAIO. nas Forces Françaises de l’Intérieur (FFI).Para consulta mais consequente aos planos educacionais da antiga 9. tornou-se líder (LEGRAND. consolidando. 2011). uma primeira cooperativa. da qual destacou a obteve sucesso de publicações de material livre expressão como essência da pedagogia da didático. eclodiram os conflitos da II Guerra livre de Bovet. cidade na qual fundou a na cidade de Nice. conduziu a câmara arbitrariamente a do ensino público. resistente à condição. vide Lenine (1981). Em 1956. participou da internacional. Foi nesse período que tomou Moderne (LEGRAND.Sobre Freinet maquisard consideramos a introdução de Elise URSS. fundou entre pais e docentes chegou a vinte mil a Cooperativa de Ensino Laico. em 1932. revisando-as crítica e dialeticamente. para atendimento de filhos Maria Montessori. nessa fase. principais meios de produção de sua pedagogia. Freinet teve contato com própria escola cooperativa experimental e os conceitos e materiais fundamentais de autogerenciada. militância sindical e partidária comunista Três anos após o fim guerra. o texto em 1939. em 1950. Iniciou também sua na comuna e zona do Briançonnais. sendo preso conhecimento do escotismo de Baden-Powell. O número de participantes já em 1928. sendo libertado apenas em 1941 Paralelamente. a escola ativa de A. Freinet fundou o Movimento de colaboradora e companheira. (LEGRAND. já em 1948. com os (PENTEADO. migrou para Vence Internacional de Educação Nova. Freinet também tomou deteriorou (SAMPAIO. 2011). Freinet (1969).agora em Cannes. que. Como libertário engajado. Mas. (LEGRAND. 8 . 1989). Freinet faleceu em Vence. Mas. em Bar-su-Loup. 2011). mas. as reservas de Paris.

mas um valor resultante de uma série de de educandos. Em Para uma escola do povo. de outro. Tal conceito opunha-se ao Consideramos na análise freinetiana a dominante jogo-trabalho. das necessidades reais priori. a qual considerava traumática e domesticadora lho. o ersatz. […] A Escola Na análise desse histórico de Freinet. pensamento e análise freinetianos. contrária ao trabalho real . a autonomia e dogmática. Desse modo. o livre trabalho tradicional dominante: Educ. cujo desenvol. aspecto geral apenas sujeitava educandos à vimento lógico e coerente conduziu sua obra ao passividade. 773 . e autogestão como resultado coerente e lógico baseado na necessidade natural na psicologia dessa experiência teórico-metodológica. esse aspecto influenciará a sua em função da separação. assim Em Ensaio de psicologia sensível II. la ou atingir um objetivo concreto. Antes de alcançar esse desenvolvimento ensão de sua personalidade e história. popular. campo e para a vida. própria experiência na escola dominante à época./set. entre conteúdo e forma didáticas em sua vida não constitui uma ideia surgida a de um lado e. p.. las resumidamente como a autonomia. teórico-metodológico. a cooperação . de caráter intelectualista obra. p. como fundamento está no objetivo concreto do consequência do trabalho como meio gerador de labor. como condição para a plena autonomia educando. notamos e a livre organização. a defesa da trabalho pedagógico. pensamento e ação. finalmente. Pesqui. Freinet defendeu o livre expressão. São Paulo. revendo sua necessidade de decidir e enfrentar permanente. resultante da a prática da pedagogia escolástica. as colunas centrais de seu pensamento e ação: a autonomia como razão última e o trabalho como Para a fundamentação desse novo atitude vital diante de adversidades. v. 767-781. tornou-se crítico acerbo experiências de vida e de dificuldades superadas e pesquisador pedagógico para a construção por meio do trabalho. e a livre pesquisa. des por Freinet. 19) considerou que: A autonomia radical. categorias centrais no o engajamento e o enfrentamento das adversida. da construção do conhecimento sensível. em estabelecimento do cooperativismo e autogestão frontal contradição quanto à autonomia do escolar. a vida. o livre trabalho e a livre organização Esta escola já não prepara para a vida. conhecimento novo e. obstina-se num passado que não volta […]. que simula a autonomia e a livre expressão como elementos atividade laboral sem necessariamente realizá- indissociáveis. já não serve bem como de suas influências pedagógicas. e é essa a sua definitiva e radical observamos alguns aspectos que se constituirão condenação […]. em seus primeiros anos riência viva revela a construção e a valorização Freinet analisou criticamente os fundamentos e de sua autonomia e independência. a cooperação do trabalho como meio lúdico em si mesmo. Essa expe. como o livre trabalho e livre pesquisa apenas o autor assim se refere ao conceito de ersatz como o trabalho e. A nosso ver. 2014. Freinet (1998.relacionada à escola resumimos a autonomia radical. que não prepara para a vida. mente realidades adversas por meio do traba.a lógica substitutiva ou simulada de vida. pesquisa e engajamento de uma pedagogia efetivamente científica. do educando. Portanto. traço importante para a compre. como consequência necessária conceito psicológico de trabalho-jogo cujo da autonomia. para a liberdade pedagógica não está voltada nem para o futuro. n. e autogestão como organização. Assim. Retrospectivamente na análise. finalmente. razão pela qual enunciamo. 3. 40. Tais aspectos tornam-se centrais na Observava que a pedagogia escolástica no construção da pedagogia Freinet. à repetição e à subordinação. nem moderna mesmo para o presente. jul. fundamental para o rigor da vida no da escola moderna.

bem impulsos e motivações do educando. para anular o meio do trabalho (FREINET. motivo pelo qual procurou retirar Para defender o caráter científico dessa os educandos desses locais. educandos em salas de aula. necessário ao educando. Para ele. mas livre do caráter tecnicista dos antigos cujos fundamentos conceituais se assentam liceus.. estabeleceu uma de suas leis psicopedagógicas que constituía uma das principais ferramentas (vigésima-quarta). ser benéfico se em segui. Elise Freinet (1979). da livre pesquisa. constitui. técnicas didáticas para trabalho livre e Por essa razão e para a coerência ao princípio cooperado. era real do trabalho-jogo. O que é mais grave ainda é que essas dos Alpes Marítimos. elas não passam de uma atitude e comunidade por meio de rudimentos da excepcional e irregular em face de uma pesquisa de campo. (1969) descreveu em a Pedagogia do bom Com a construção pedagógica da senso ou Les dits de Mathieu. A produção de livre escrita e de pesquisa ersatz. cooperativismo e autogestão em Freinet: fundamentos de uma pedagogia. 1979). estimular a observação sensível consoante às necessidades. em livre direção aos teoria objetivamente formulada e baseada em um limites da aldeia e do campo. coerente impotência também acidental e irregular. e a descoberta da realidade e da natureza. opiniões e impressões do educando respectiva sublimação.. uma das principais atividades discentes. interesses. discente e docente acabavam por constituir como assim denominou. aberto à comunidade como uma reserva tava a função do ersatz (substitutivo) como um infantil em oposição à edificação fechada e sem todo. animal. para Freinet (1977). . como das atividades produtivas (SAMPAIO. Freinet (1969) considerou essa nova e moderna noção de espaço escolar Mas Freinet dialeticamente não descar. A experiência da aula-passeio. poderia. Freinet desenvolveu complementarmente o próprio material didático. o estudo do meio. à noção do educando como sujeito ativo nesse (FREINET. confinar abolição de manuais escolares (FREINET. levando-os para pedagogia crítica. intuições. p. Autonomia. 1979). eram expressas e discutidas em livres textos e Diante desse quadro geral. Freinet registradas em um diário escolar (livro de vida). jogo em si. Freinet a explanou como uma fora dos muros escolares. da livre criticamente como parte de uma “pedagogia expressão. soluções ersatz não estão na ordem natural também a aproximação mútua entre escola das coisas. sem. criador. ferramenta central da separação escolástica entre Esse problema em particular Freinet vida e realidade. segundo a qual o trabalho de livre expressão e reflexão autônoma da constitui corretor de regras ou lógicas de vida criança. descoberta ou tateio experimental do educando. 1976. Sob a teoria do tateamento experimental. cujas da permitisse a realização do trabalho-jogo e indagações. em determinadas circunstâncias impeditivas do semelhante à de uma pequena expedição. Compreendia que o trabalho enquanto comunicação com o mundo exterior. tratava-se de uma decorrente do modelo escolástico necessitava das primeiras contradições da escolástica. ser abolido e reorganizado a partir da lógica Assemelhou esse confinamento a um campo e dinâmica do trabalho livre.11) processo didático. o educador elaborou o procedimento diretamente na construção da autonomia por didático da aula-passeio. classificando-o autonomia por meio do livre trabalho. o espaço escolar de casaca”. Esse processo isolamento de educandos em salas de aula e. nessa técnica. contudo. na obra O Itinerário 1989) existentes na aldeia em torno da escola e de Célestin Freinet. considerou principalmente 774 Antonio Takao KANAMARU. Freinet defendeu a quanto à expressão. de concentração e de condicionamento quase sob livre cooperação. coletivo. com fins libertadores principalmente pedagógico moderno. empirismo experimental a partir do trabalho de Analogamente à antiga peripatética. um método natural principalmente. Procurava.

Análise teórica e metodológica do papel do desenho e o estudo Feuerbach. sobretudo crítica quanto plantas mecanicistas do interior arquitetônico às origens da desigualdade. a partir de seus interesses e às condições objetivas geradas pelas técnicas necessidades. Educ. mas condições objetivas da relação infraestrutura. 45-78 e p. O pedagogo originalmente buscava também submeter processos e resultados 10 . podemos prensa gráfica de tipos móveis para a impressão considerar alguns aspectos fundamentais de livres textos e livres desenhos12. para Freinet. Freinet (1969) orientou didaticamente crítica e prevenção pedagógica. a partir da Nesta etapa de análise. p. 767-781. na biografia de Freinet.. em Por uma escola do valorização da autonomia. trabalho presentes na formulação teórico-crítica e que permitiu também a elaboração de suportes praxiológica de Freinet. Reiteramos a influência comunicativos (jornal. Além condições de vida e produção dessa população. observamos a autoavaliação coletiva baseada em indicadores crítica marxista à alienação10 nos métodos de produção para livre uso. educandos e educadores e pais. com técnicas de documentação de vida.a livre expressão como elemento distintivo e introduz técnicas de trabalho (técnicas de crítico em seu método natural. Com isso. em contraposição vida). a da experiência concreta do trabalho presente partir da técnica complementar do silk screen. psicopedagógico desenvolvido por Fa a partir de Freinet (1977). 254-276) 11. Nesse contexto. estruturais da classe escolar: aboliu estrados e presente em Rousseau. Coerentemente. marxista. Oposição das concepções materialista e idealista (MARX. científicas de colaboradores e pesquisadores p. o autor. Reunindo a Essencialmente. 2) na teoria as crianças a uma espécie de pré-iniciação das relações materiais de produção. superestrutura ou às relações materiais Ao mesmo tempo.). 40. cujo resultado foi a Freinet (1969). da tradição escolástica. organizadas quase tacitamente como um a outros métodos e teorias psicopedagógicas sistema para apropriação e uso coletivo entre orgânicas ao escolasticismo. observamos uma que tornou a sala de aula semelhante a um influência marxista que se manifesta ateliê de trabalho e criação multidisciplinar. 12. também promoveu e registrou mudanças compromisso com a razão sensível e humana. de produção11. 1982). Sua sensibilidade docente e não à noção da criança como sujeito se voltava à consciência da desigualdade e às ativo do processo de ensino-aprendizagem.Referimo-nos particularmente à análise de Marx sobre a sistematicamente à avaliação e conferência mercadoria e a divisão de trabalho e manufatura. Acrescentamos nesta passagem. disso. presente nos correios interescolares. o escolasticismo condição objetiva da técnica e a sua respectiva era baseado na separação da escola da realidade apropriação coletiva. implicitamente em três aspectos: 1) na presença Para auxílio à metodologia da livre da teoria da alienação do sujeito./set. internacionalista de seu sistema. 775 . criou o conceito de cantos pedagógicos. Pesqui. folhetos etc. sobretudo da doutrina internacional de Marx. em referência de vida da criança e da sua família e em à crítica ao isolamento rural e provinciano. quanto científica.Marx (1988). cujo espaço servia Freinet estava consciente de sua origem funcionalmente à centralização da autoridade trabalhadora. no qual o O terceiro aspecto marxista em objetivo pedagógico da autonomia da criança Freinet refere-se ao caráter assumidamente não era visado. São Paulo. cartazes. v. estabeleceu um processo de livre No primeiro aspecto. inspirada em etapas e nas consequências negativas dos dogmas gerais de desenvolvimento. o texto A ideologia alemã. camponesa. Nesse aspecto. promoveu o uso e desenvolvimento de correios A segunda evidência marxista em interescolares. repetições e memorizações. 3. Confira Marx (1988. pedagógicos do escolasticismo. Freinet se aproximava Freinet reside na consciência quanto às da noção iluminista de cidadão do mundo. como cientista da educação. jul. e 3) na doutrina internacionalista sistemática por fichas e consulta em fichários. 2014. n. mas sim a sua passividade. mas também o povo. na forma de pesquisa.

mas avançou princípio da Carta da Escola Moderna.Referenciamo-nos nos fundamentos gerais da solidariedade. entre os Retrospectivamente. mas principalmente do livre administração política-pedagógica da escola trabalho e suas técnicas. Autonomia. razão pela qual o consideramos marxiano e Baseados na análise dos fundamentos da menos marxista no sentido dogmático do termo. Nesse ponto. consequentemente. originais e decisivas do pedagogo. “[…] subentende a existência de autonomia críticos em Sobre Proudhon. porém. ENGELS. A também contribuiu para uma original análise e única relação social possível para essa pedagogia interpretação do marxismo e se aproximou de da autonomia radical. perfazendo uma comunidade de (FREINET. sofrida por divergências. 1983. pedagógica moderna. solidário e internacionalista. p. Freinet no décimo entre educador-educandos. da moderna pedagogia do trabalho freinetiano. consideramos do homem pela própria perspectiva marxista.. mas uma necessidade para o trabalho”.Referimo-nos à crítica da Miséria da Filosofia de Marx. como as técnicas de vida. portanto. consequentemente Dialeticamente. Freinet se aproxima nesse essa relação se estendeu mutuamente entre aspecto da querela entre Marx e Proudhon14 educadores. 2009) Livres relações autônomas: uma Observamos. Benjamin e outros. do empreendimento coletivo. corresponde ao autores como Gramsci. p. consolidando a considerava que a pedagogia é inerentemente sua obra estrutural e efetivamente como um internacional: “[…] para nós. nessa perspectiva geral. restringiu a solidariedade às relações didáticas Nesse aspecto. autonomia radical na pedagogia Freinet. a sua expulsão partidária.Marx (1988) em uma primeira análise considerou que “A cooperação tão não é um processo educativo restrito permanece a forma básica do modo de produção capitalista. para a produção social da livre Nessa análise geral acerca dos relação de trabalho entre pares. p. 20-28. e […] capacitação para administração coletiva […] direito à informação e 15. 1979) em contraposição às relações caráter aberto. (MARX. Freinet não vistas a uma nova sociedade. . 10). bem como os fundamentais e decisivos meios e a busca pela coerência radical para a libertação concretos. Nesse mesmo fundamentos da escola moderna. 776 Antonio Takao KANAMARU. por extensão três contribuições científicas Essa heterodoxia possivelmente se decorrentes. a horizontalidade necessária para autonomia radical. que Freinet desenvolve pedagogia solidária internacional uma análise e interpretação heterodoxa de Marx. da livre organização moderna. em democracia nas decisões. observamos a principal e reafirma a importância da autonomia em consequência humana. mais do que uma projeto politico-pedagógico maior. política e social sua análise. 14 . Freinet. com competitivas e meritocráticas. em original e peculiar na obra de Freinet: a sua Educar para a cooperação. Se essas são dirigidas à do trabalho.Para Brasil (2005. reflete o significado ampla dimensão solidária15. a formação para a ges- 13 . […] como partilha de poder e controle da vida Singer (2002). 32-33).. cooperativismo. relaciona à organização geral baseada no A primeira reside no esforço de coerência cooperativismo13 e na autogestão para a lógica quanto às relações didáticas críticas entre produção social da escola moderna ou pedagogia educador e educandos. A formação para a figura simples mesma apareça como forma particular ao lado de suas gestão em empreendimentos autogestioná- formas mais desenvolvidas”. realizou esclarecimentos 16 . cujo autor observava essencial desse sistema: como fenômeno inerente as “solidariedades fundamentais de todas as formas de Vida” […] na autogestão.internacionais. vide nota 4). cooperativismo e autogestão em Freinet: fundamentos de uma pedagogia. embora sua ao setor administrativo. referenciamo-nos em Gadotti (2009). implicou a defesa como condições reais para a liberdade e a construção da autogestão escolar16. resposta à Filosofia da Miséria de Proudhon. a partir da raciocínio. teórica. também às relações docentes. Marx. em carta. observamos como sintomática quais o da livre expressão e o do livre trabalho. Em pedagogia. observamos um caráter Mas Moacir Gadotti (2009. profissão de fé. construção da real autonomia. (BEAUNIS.

767-781. opunha-se à escola nova no papel. nosso) capaz de administrar a quase das ao empreendimento. sistematizou o uso e a apropriação Laico e no Instituto Cooperativo de Escola coletiva das técnicas em torno da imprensa escolar Moderna. embora tenha que totalidade da vida escolar. um agrupamento formal real. São Paulo. como visto anteriormente. em de educandos e também de educadores. coerência ética estrutural nessas relações consciente das relações materiais concretas de discentes e docentes na Cooperativa de Ensino produção. e o coletivo. p. existir formação específica e professional para certos quadros institucionais de acor. Freinet (1969. Freinet manteve a pedagogicamente a partir de ideias puras. n. Freinet vai mais longe: e impedir o funcionamento dos diversos sua pedagogia circula entre o individual modos de produção. Trata-se de no Prólogo de a Economia solidária como praxis uma formação para a gestão colaborativa pedagógica. […] Ela não se res- tringe a aspectos informativos e formati. em Montreaux (1924). 1985). Convém recordar que um dos princípios vos. reais de autonomia. do com suas responsabilidades. portanto. p. constituição de uma real cooperativa escolar: proporcionou a organização da escola popular como um centro de comunicação por […] não se trata de fundar. Ao mesmo tempo. rios dirige-se ao conjunto das pessoas liga. Pesqui. jul. p. Paul Singer (2009. basilares do cooperativismo […] é que. novos trabalhadores todos participam das decisões independen. O primeiro país. mas de uma canteiro ou escola-laboratório. principalmente. nesse aspecto. de Moacir Gadotti (2009). Enfatiza-se. 149). mas envolve também aspectos orga. de John Dewey verdadeira sociedade de crianças (grifo (1971). Para uma escola do povo./set. documentados no órgão L’Educateur e de outras novas mídias daquele contexto. afirma: e o trabalho de equipe. com o objectivo de comprar um cujas considerações gerais já eram existentes material qualquer mediante o pagamento mais amplamente na teoria liberal da escola- de uma cotização mensal. alertou que para a A pedagogia de Freinet. obrigatória pela eliminação de todos os idéia reforçada no encontro com Cousinet outros modos de produção de determinado e Profit. qualquer momento. os trabalhadores não seriam mais os preconiza o trabalho em pequenos grupos donos do seu destino. 12). 3. procurando desenvolver ao máximo o senso cooperativo. Com a autogestão. 777 . além de oferecer as condições objetivas essa perspectiva ética radical não se restringiu concretas para a produção dessas relações à cooperação e à autogestão administrativas didáticas. mas. em empreendimentos solidários se tornasse em seu lugar propôs a vida cooperativa.. 65): de deixá-los […]. que ficaria sujeito à e Profit propõe a solidariedade pela vontade dos que teriam poder para autorizar cooperativa escolar. como por excelência. p. 2014. Se a participação nosso) individual que existia nas escolas. empreendimentos solidários e que associados a tais empreendimentos tenham o direito Para Elias (1997. v. Nesse aspecto. A autogestão só é válida enquanto os trabalhadores participarem dela Freinet jamais aceitou a competição (grifo por sua própria vontade. livre trabalho e livre expressão para os educandos. conforme interpretação de Élise Educ. gerava principalmente as condições apenas entre educadores. a nizativos e produtivos. Freinet não operava didática e Nesse aspecto. que medida. mas. mas baseado no trabalho cooperado vezes acontece. tenham o direito de se associar a temente da função que executam. 40. Essa (FREINET. Mas. Nesse aspecto.

a partir de técnicas concretas e Não se trata. da escola na sociedade. dos professores primários. segundo a classe os meios que favoreçam suas obras social a que pertença. buscou radicalizar a freinetianos. A concepção de Dewey. a seu ver John Dewey embora permanente e dinâmica de cultura de pesquisa representasse o mais prolífico pensador do fundamental baseada na livre expressão e na movimento da Escola Nova. e outros Em contraposição à escola nova. social isolada da prática. entre educandos. o autor no vilarejo em torno da escola. liberto de coerência teórica. pedagógicas. Freinet (1998. Oposição permanente entre uns. Estado de privação e de subalimentação baseada no princípio da continuidade (da da infância proletária. Freinet ainda observou e denunciou o […] uma teoria aparentemente perfeita caráter de classe presente no ensino público. Pelo contrário. p. mas essencialmente o desenvolvimento pleno Assim. quando é na prática que se pode carentes e aquelas abandonadas em serviços encontrar solução para os problemas da assistenciais. Freinet. […] Lamentamos que Dewey camponesa. Será capitalista. obsolescência simplesmente pela crítica autorizada que ele dos locais. Freinet agiu radicalmente para torná. Existe uma escola de Classe. que nunca se realizará. . discussões e articulação. em O Itinerário de de Freinet. cooperativismo e autogestão em Freinet: fundamentos de uma pedagogia. relegados do homem na natureza). diante dos estranha à experiência vivida. de cultura intelectualista. deixada ao acaso do e político voltou-se aos educandos de famílias improviso. possuidores de todos personalidade da criança. não se distingue la uma internacional. e subestima professores universitários altamente o meio social constructor ou destruidor da especializados. educadores e pedagogos nessa esfera pública. de cultura popular de sensibilidade e a escola moderna de Freinet se baseou bom gosto. demonstrando concreta e plena autogestionário com a comunidade.Freinet (1979. Falta de formação criança na escola. metodológica e praxiológica injunções extrapedagógicas: 778 Antonio Takao KANAMARU. de uma opção da relação de ensino e aprendizagem aberta pelo sistema privado. p.. aspecto. Nesse escola. distintamente no efetivo trabalho livre e cooperado. (mas) na realidade é razão pela qual seu compromisso ético. mais coerente à sua própria origem vida cotidiana. falta de instrumental educativo entrará na prática pedagógica. no plano das idéias. proporcionou a realização de independência da escola popular em nova conferências. de um regime cooperado e intercâmbios. boletins. correios interescolares. tal cooperação internacional e integral do educando em sociedade. 88). Autonomia. no sentido de uma construção Célestin Freinet. Deterioração. em não tenha feito delas nenhuma prática A educação pelo trabalho: escolar a ser promovida: a organização técnica da escola a que propõe depende de As práticas pedagógicas de educação doutrinas filosóficas. por meio da técnica de o objetivo entre os sistemas estatal e privado. que ele justificará em nova tornam ainda mais evidente as sua concepção de uma escola-laboratório alienações da escola do povo no regime ideal. mas em termos populares. avaliações. portanto. é mitológica. pela análise e de créditos. 79) denunciou. para Dallari (1998).. por outro lado geração do conhecimento novo a partir da desenvolveu pedagogicamente: cooperação internacional. Mais do que o buscava radicalizar a defesa do ensino raio geográfico montanhoso e provinciano da público. hostilidade dos poderes de escolas novas americanas. ao empirismo pedagógico. criadas públicos a toda iniciativa dos professores. à sua revelia.

segundo as técnicas da internacional e na autogestão escolar. n. teríamos que mentir moderna e mais amplamente na noção da sem parar a nossos alunos. gostariam de obrigar-nos. verdade e da liberdade. educadores proletários. a servir sem sa. ricos exploradores: mutilados. 779 . nem de regimes que da escola moderna. Somos educadores. como condição objetiva para extrapedagógicas. nosso saber a serviço dos concorrenciais. devido ao seu construção da escola do trabalho cooperado e caráter embrionário na história. a livre pesqui- a nós. o livre trabalho cooperado. em renovação”. Educ. A isso O aprofundamento desse caráter ético dizemos não. 40. torna-se possí- de apoiar-nos. a livre ex- de um regime. educá-las. Nosso da solidariedade não se restringe às relações primeiro dever é respeitar as crianças que didáticas entre educandor e educando. serviço da sociedade para a qual queremos Freinet baseou o seu trabalho no cooperativismo prepará-las. em todas as forças vel refletir a respeito da superação da polaridade que buscam o mesmo objetivo de libertação estatal-privado. mas nos são confiadas. mas do futuro. a sua estrutrutura e o demonstrar a relevância e a atualidade científicas seu funcionamento para fins de “libertação e dessa pedagogia moderna e crítica que. nós o sabemos e vemos muito Baseados em uma revisão geral.. mercadológicos e financeiros. popular. corresponde si. à justiça. a nosso ver. v. felizes e orgulhosos A partir dessa perspectiva. também. inculcar-lhes educação como direito humano essencial. Temos de servir A relevância e atualidade da pedagogia a um regime: pobres entre pobres e Freinet no presente contexto histórico adquire educando filhos de pobres. a pedagogia freinetiana se inscreve central- Trata-se então. para efetivamente construir uma e renovação. com a comunicação internacional que. Servir à verdade. se encontra também na relação docente entre Para isso. nosso educacionais baseadas em critérios tecnocráticos- devotamento. odiando a que interferem no grau de liberdade pedagógica guerra que fizemos. São Paulo. prepará-las. Isso. seria que continuássemos a utilizar mos sustentar a hipótese do caráter solidário da o sistema imoral e antipedagógico que pedagogia freinetiana a partir da verificação de prepara. pressupõe novos estudos e pesquisas para a um regime cooperativo. reservas à escola da classe burguesa. Pesqui. procura- bem. autogerido e em a superação do presente status quo. não homens mas servidores dóceis seus fundamentos como a autonomia. bem como uma perspectiva mudam. de uma perspectiva nomia e cultura baseadas no trabalho solidário. mas. somente no popular. p. qualificada por Freinet como moderna e presente contexto ganha dimensão maior. pressão. O que se gostaria. a avaliação autônoma e o correio interescolar. ao direito. 767-781. 3. procuramos desde a sua concepção. para isso. opomo-nos a todo dogmatismo educador e educador. da pedagogia mente no campo das discussões acerca da eco- do trabalho ou escola moderna. na visão de Freinet. risonha e franca. de autonomia radical e estruturalmente enraizada Com a presente consideração. (FREINET. jul. deveríamos consistência diante da hegemonia de políticas colocar a nossa ascendência moral. que se justifica por considerações Nesse aspecto. que não tem relação alguma com a verdadeira Considerações finais moral que praticamos e ensinamos. Não estamos a serviço de a execução do projeto político-pedagógico solidário governos que passam. estamos a serviço das crianças. p. 1998. ainda pouco considerada na pedagogia de Freinet: não se usa mais uma sociedade que a de uma pedagogia solidária internacional. pisoteia essas noções. uma moral essencialmente contestável. Nesse sen- tido. a política de autonomia radical pedagógica./set. 2014.82) esfera pública-democrática.

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