Carlos Biasotti

Apelação em Liberdade
(Doutrina e Jurisprudência)

2017
São Paulo, Brasil
O Autor

Carlos Biasotti foi advogado criminalista, presidente da
Acrimesp (Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de
São Paulo) e membro efetivo de diversas entidades (OAB, AASP,
IASP, ADESG, UBE, IBCCrim, Sociedade Brasileira de
Criminologia, Associação Americana de Juristas, Academia
Brasileira de Direito Criminal, Academia Brasileira de Arte, Cultura
e História, etc.).

Premiado pelo Instituto dos Advogados de São Paulo, no
concurso O Melhor Arrazoado Forense, realizado em 1982, é autor de
Lições Práticas de Processo Penal, O Crime da Pedra, Tributo aos
Advogados Criminalistas, Advocacia Criminal (Teoria e Prática), além
de numerosos artigos jurídicos publicados em jornais e revistas.

Juiz do Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo
(nomeado pelo critério do quinto constitucional, classe dos
advogados), desde 30.8.1996, foi promovido, por merecimento, em
14.4.2004, ao cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça.

Condecorações e títulos honoríficos: Colar do Mérito
Judiciário (instituído e conferido pelo Poder Judiciário do Estado de
São Paulo); medalha cívica da Ordem dos Nobres Cavaleiros de São
Paulo; medalha “Prof. Dr. Antonio Chaves”, etc.
Apelação em Liberdade
(Doutrina e Jurisprudência)
Carlos Biasotti

Apelação em Liberdade
(Doutrina e Jurisprudência)

2017
São Paulo, Brasil
Índice

I. Prefácio.............................................................................................11

II. Apelação em Liberdade: Doutrina e Jurisprudência
(Ementas)........................................................................................13

III. Casos Especiais...............................................................................87

IV. O Direito de Recorrer em Liberdade...........................................149

V. Modelos:

a) Apelação: Petição de Interposição de Recurso.......................153

b) Petição de Juntada de Razões de Apelação.............................155

c) Razões de Apelação...................................................................157

d) Petição de Juntada de Contrarrazões de Apelação.................161

e) Contrarrazões de Apelação.......................................................163

VI. A Linguagem do Advogado.........................................................169
Prefácio

“O bom senso humano, em todos os tempos” — escreveu Rui
—, “tem reconhecido não ser lícito abandonar a sorte da lei comum e
dos direitos por ela assegurados às contingências do julgamento por
um só tribunal. Daí a concepção das instâncias, dos recursos e,
especialmente, das apelações, destinadas a corrigirem, mediante
segundo exame do caso em cada lide, os vícios, omissões e nulidades do
processo, os erros, abusos e injustiças da sentença” (Obras Completas,
vol. XLV, t. IV, p. 169).

Embora se inclua entre os efeitos da sentença
condenatória recorrível “ser o réu preso ou conservado na prisão”
(art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal), pode o Magistrado, sem
afronta ao direito positivo nem à razão lógica, deferir-lhe o
benefício de apelar em liberdade. É que, antes do trânsito em
julgado de sentença condenatória, tem a prisão natureza
cautelar e, pois, somente se deve decretar quando presentes
seus requisitos legais, a saber: necessidade absoluta de ordem
social e conveniência da instrução do processo.
12

Se o acusado respondeu ao processo em liberdade e
nenhum empecilho opôs à instrução criminal, é de razão
aguarde solto o julgamento do recurso, na ausência dos
pressupostos da decretação da prisão preventiva (art. 312 do
Cód. Proc. Penal) e em obséquio ao princípio da presunção de
inocência (art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.).

É o sentimento comum dos melhores intérpretes:

“O princípio do duplo grau de jurisdição atribui ao réu o
direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação do
tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 1996,
p. 422).

Nada obsta que o Tribunal conheça de apelação, ainda
que desacompanhada de razões, pois “irrestrito é o poder
jurisdicional do Juízo ad quem no tocante à decisão que deva
proferir”, desde que não exceda às raias da imputação (cf. José
Frederico Marques, Elementos de Direito Processual Penal, 1a. ed.,
vol. IV, p. 71).

Estas páginas de prática forense e doutrina processual,
dedico-lhas, gentil leitor, como preito de homenagem, na
esperança de que sua leitura o adiante e conserve sempre na
estrada real do Direito e da Justiça!
O Autor
Ementário Forense
(Votos que, em matéria criminal, proferiu o Desembargador
Carlos Biasotti, do Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo. Veja a íntegra dos votos no Portal do Tribunal de
Justiça: www.tjsp.jus.br).

• Apelação em Liberdade

Voto nº 1111

“Habeas Corpus” nº 328.124/3
Art. 171 do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– No sistema legal vigente, enquanto não transite em julgado a sentença
condenatória, prepondera o princípio da liberdade do réu, a menos
represente sua prisão o único meio a que o Estado deva recorrer para a
efetivação da Justiça.
– Se o réu respondeu solto ao processo (porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do “status libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício de apelar em liberdade (art. 594 do
Cód. Proc. Penal).
– Exceto na hipótese de necessidade cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação
do tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 1996, p. 422).
14

Voto nº 1121

“Habeas Corpus” nº 328.896/1
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal

– Não tem caráter absoluto a regra de que o réu que respondeu ao
processo em liberdade possa aguardar solto o julgamento da apelação,
antes deve interpretar-se à luz das circunstâncias do fato criminoso e da
personalidade do agente.
– À ordem jurídica repugna, em princípio, conceder benefício de
liberdade provisória a autor de crime grave, máxime depois de
condenado, visto que um dos efeitos da sentença condenatória
recorrível é conservar-se o réu na prisão, nos casos de infração
inafiançável (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal).

Voto nº 1208

“Habeas Corpus” nº 330.860/1
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Segundo diretriz judiciária de voga desembaraçada, é de bom exemplo
assegurar ao réu que respondeu em liberdade ao processo-crime o
direito de apelar sem recolher-se à prisão. Decorre tal entendimento
da concepção, hoje firmemente arraigada no seio da Doutrina e da
Jurisprudência, de que a prisão a que alude o art. 594 do Cód. Proc. Penal
tem cunho acentuadamente cautelar, de sorte que apenas se justifica e
legitima, se demonstrada sua imperiosa necessidade.
– Nota: Revogado pela Lei nº 11.719, de 20.6.2008, tinha o art. 594 do Cód.
Proc. Penal a seguinte redação: “O réu não poderá apelar sem recolher-se à
prisão, ou prestar fiança, salvo se for primário e de bons antecedentes, assim
reconhecido na sentença condenatória, ou condenado por crime de que se livre
solto”.
15

Voto nº 1494

Apelação Criminal nº 1.128.675/1
Art. 171 do Cód. Penal

– Nada obsta que o Tribunal conheça de apelação, ainda que
desacompanhada de razões, pois “irrestrito é o poder jurisdicional do Juízo
ad quem no tocante à decisão que deva proferir”, desde que não exceda às
raias da imputação (cf. José Frederico Marques, Elementos de Direito
Processual Penal, 1a. ed., vol. IV, p. 271).
– Pratica estelionato (art. 171, “caput”, do Cód. Penal) o sujeito que vende
linha telefônica e recebe do comprador de boa-fé o preço total da
transação, mas, usando de meio fraudulento, protela a transferência da
assinatura perante a empresa concessionária e, sobre isso, aliena o bem a
terceiro.

Voto nº 363

“Habeas Corpus” nº 304.768/4
Art. 593 do Cód. Proc. Penal;
art. 366 do Cód. Proc. Penal

– As disposições do art. 366 do Cód. Proc. Penal, com a nova redação que
lhe deu a Lei no 9.271/96, não se aplicam às infrações penais anteriores à
data de sua vigência: 17.6.96.
– Se o réu respondeu em liberdade ao processo, a regra é que assim
aguarde o julgamento de seu recurso, exceto se fato grave sobrevier, que
lhe justifique o recolhimento prévio. “Não pode ser, evidentemente, a
simples condenação” (STJ; HC nº 3.356-8-PA; 6a. T.; rel. Min. Luiz
Vicente Cernicchiaro; j. 11.4.94; v.u.).
16

Voto nº 364

Recurso em Sentido Estrito nº 1.053.883/5
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
arts. 581, nº XV, e 594 do Cód. Proc. Penal

– Mantida a custódia cautelar do réu durante a instrução do processo,
por presentes os pressupostos que lhe autorizavam a decretação, será de
rigor subsista após a sentença condenatória. É que à prisão legítima,
decorrente do flagrante delito, acresceu argumento muito de atender:
a condenação do réu.
– Seria matar a lógica isso de o Magistrado conceder liberdade ao réu,
após a decisão condenatória, se antes lha recusara, e com sólido
fundamento: legalidade da prisão em flagrante de roubo, crime grave e
inafiançável.
–“Réu que por ocasião da sentença condenatória se encontrava preso em razão de
flagrante ou preventiva, embora primário e de bons antecedentes, não pode
apelar em liberdade” (Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal
Anotado, 1996, p. 422).
17

Voto nº 775

“Habeas Corpus” nº 317.196/6
Arts. 155, § 4º, ns. I e IV, e 14, nº II, do Cód. Penal

– Apelar em liberdade é benefício que a lei defere unicamente ao réu
primário e de bons antecedentes (art. 594 do Cód. Proc. Penal). Nesse
número não é contado quem ostenta em sua biografia penal notas
desabonadoras de alto calibre.
–“A exigência da prisão provisória, para apelar, não ofende a garantia
constitucional da presunção de inocência” (Súmula nº 9 do STJ).
– Se estava encarcerado o réu quando o seu processo corria os trâmites
da lei, por mais forte argumento houvera de subsistir-lhe a clausura
depois de condenado. É que à causa determinante da primitiva custódia
cautelar — prisão em flagrante delito — juntou-se o título mesmo da
condenação, que a torna justificável, sobre necessária.

Voto nº 1098

“Habeas Corpus” nº 328.276/4
Arts. 155, § 4º, nº IV, e 14, nº II, do Cód. Penal

– O direito de apelar em liberdade (art. 594 do Cód. Proc. Penal)
unicamente se reconhece ao réu que, primário e de bons antecedentes,
não se achava preso ao tempo da prolação da sentença condenatória.
– Constitui desmarcado ilogismo conservar a Justiça Criminal preso o réu
antes da sentença (quando ainda há expectativa de absolvição) e
deferir-lhe a liberdade depois de condenado, quando a presunção de
inocência por força que cedeu à de culpabilidade.
18

Voto nº 1251

“Habeas Corpus” nº 332.270/1
Art. 180 do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Apelar em liberdade é direito só do réu que atende, estritamente, ao
preceito do art. 594 do Cód. Proc. Penal, convém a saber: primário e de
bons antecedentes.
– Se o réu carece de um dos predicados que lhe autorizam o recurso em
liberdade, i.e., primariedade ou bons antecedentes, há de prevalecer o
efeito precípuo da sentença condenatória: “ser preso ou conservado na
prisão” (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal).

Voto nº 1417

“Habeas Corpus” nº 340.228/9
Art. 171 do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Segundo diretriz judiciária de voga desembaraçada, é de bom exemplo
assegurar ao réu que respondeu em liberdade ao processo-crime o
direito de apelar sem recolher-se à prisão. Decorre tal entendimento
da concepção, hoje firmemente arraigada no seio da Doutrina e da
Jurisprudência, de que a prisão a que alude o art. 594 do Cód. Proc. Penal
tem cunho acentuadamente cautelar, de sorte que apenas se justifica e
legitima, se demonstrada sua imperiosa necessidade.
– A jurisprudência do Colendo Supremo Tribunal Federal admite a
extensão ao corréu, na forma do art. 580 do Cód. Proc. Penal, da decisão
proferida em “habeas corpus” (cf. Rev. Trim. Jurisp., vol. 101, p. 127;
apud Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 13a. ed.,
p. 401).
19

Voto nº 2197

“Habeas Corpus” nº 364.242/2
Arts. 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal

– Para que aguarde em liberdade o julgamento de seu recurso, não basta
que o réu tenha respondido solto ao processo, mas que méritos pessoais
o recomendem (v.g., primariedade e bons antecedentes), pois entre os
efeitos da sentença penal condenatória conta-se o de ser preso ou
conservado na prisão (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal).
– Não comete ilegalidade nem abuso de poder o Magistrado que denega
o benefício de recorrer em liberdade a réu que ostenta alentada folha
de serviços prestados a sociedades criminosas.

Voto nº 2450

“Habeas Corpus” nº 369.698/4
Art. 171, “caput”, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Embora se inclua entre os efeitos da sentença condenatória recorrível
o de “ser o réu preso ou conservado na prisão” (art. 393, nº I, do Cód. Proc.
Penal), pode o Magistrado, sem afronta ao direito positivo nem à razão
lógica, deferir-lhe o benefício de apelar em liberdade. É que, antes do
trânsito em julgado de sentença condenatória, tem a prisão natureza
cautelar e, pois, somente se deve decretar se presentes seus requisitos
legais, convém a saber: necessidade absoluta de ordem social e
conveniência da instrução do processo.
– Se o acusado respondeu ao processo em liberdade e nenhum
empecilho opôs à instrução criminal, é de razão aguarde solto o
julgamento de seu recurso, ante a ausência dos pressupostos da
decretação da prisão preventiva (art. 312 do Cód. Proc. Penal) e em
obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVII, da
Const. Fed.).
20

Voto nº 1418

“Habeas Corpus” nº 340.022/1
Art. 180 do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Segundo diretriz judiciária de voga desembaraçada, é de bom exemplo
assegurar ao réu que respondeu em liberdade ao processo-crime o
direito de apelar sem recolher-se à prisão. Decorre tal entendimento
da concepção, hoje firmemente arraigada no seio da Doutrina e da
Jurisprudência, de que a prisão a que alude o art. 594 do Cód. Proc. Penal
tem cunho acentuadamente cautelar, de sorte que apenas se justifica e
legitima, se demonstrada sua imperiosa necessidade.
– Isto de ter ficado solto o réu durante a instrução criminal faz a seu
favor, porque, segundo a jurisprudência dos Tribunais, a decisão
condenatória, enquanto recorrível, não obra efeito algum contra ele;
assim, não pode ser obrigado a recolher-se à prisão como condição para
apelar.
21

Voto nº 2451

“Habeas Corpus” nº 369.674/1
Art. 180, “caput”, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Se o réu respondeu solto ao processo (porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do “status libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício de apelar em liberdade (art. 594 do
Cód. Proc. Penal).
– Exceto na hipótese de necessidade cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação
do tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 1996, p. 422).
22

Voto nº 2532

“Habeas Corpus” nº 370.568/7
Art. 272, § 2º, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Apelar em liberdade é benefício que a lei reserva somente aos réus
primários e de bons antecedentes (art. 594 do Cód. Proc. Penal).
– Entre os efeitos da sentença condenatória conta-se o de “ser o réu preso”
(art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal).
– No raio angusto do “habeas corpus”, somente é possível o exame de
matéria de fato se demonstrada, ao primeiro súbito de vista, a
ilegalidade da coação.
– Ainda que reincidente, o condenado a pena de detenção tem o direito
de cumpri-la sob o regime semiaberto (art. 33, § 2º, alínea b, do Cód.
Penal).

Voto nº 2534

“Habeas Corpus” nº 370.570/5
Art. 272, § 2º, do Cód. Penal;
art. 33, § 2º, alínea b, do Cód. Penal

– Isto de apelar em liberdade é benefício que a lei concede somente ao
réu primário e de bons antecedentes (art. 594 do Cód. Proc. Penal).
–“A prisão do réu, julgado procedente o pedido, passa a ser efeito da sentença
condenatória (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal), seu novo título legal”
(Revista do Superior Tribunal de Justiça, vol. 133, p. 557; rel. Min.
Hamilton Carvalhido).
– O condenado a pena de detenção, ainda que reincidente, deverá
cumpri-la, no início, em regime semiaberto (que não fechado),
conforme lei expressa (art. 33, § 2º, alínea b, do Cód. Penal).
23

Voto nº 10.576

“Habeas Corpus” nº 990.08.030983-8
Art. 331 do Cód. Penal;
arts. 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.

– Se o réu respondeu solto ao processo (porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do “status libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício de apelar em liberdade (art. 594
do Cód. Proc. Penal).
– Exceto na hipótese de necessidade cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação
do tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 22a. ed.,
p. 473).
–“Sem que se caracterize situação de real necessidade, não se legitima a privação
cautelar da liberdade individual do indiciado ou do réu. Ausentes razões de
necessidade, revela-se incabível, ante a sua excepcionalidade, a decretação ou a
subsistência da prisão preventiva (...)” (STF; Rev. Trim. Jurisp., vol. 180,
pp. 262-264; rel. Min. Celso de Mello).
24

Voto nº 1607
“Habeas Corpus” nº 347.440/9
Art. 155, “caput”, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Segundo diretriz judiciária de voga desembaraçada, é de bom exemplo
assegurar ao réu que respondeu em liberdade ao processo-crime o
direito de apelar sem recolher-se à prisão. Decorre tal entendimento
da concepção, hoje firmemente arraigada no seio da Doutrina e da
Jurisprudência, de que a prisão a que alude o art. 594 do Cód. Proc. Penal
tem cunho acentuadamente cautelar, de sorte que apenas se justifica e
legitima, se demonstrada sua imperiosa necessidade.
– Isto de ter ficado solto o réu durante a instrução criminal faz a seu
favor, porque, segundo a jurisprudência dos Tribunais, a decisão
condenatória, enquanto recorrível, não obra efeito algum contra ele;
assim, não pode ser obrigado a recolher-se à prisão, como condição para
apelar.

Voto nº 2695

“Habeas Corpus” nº 376.078/9
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– É princípio altamente reputado que o réu que respondeu a processo em
liberdade assim deve aguardar seu julgamento definitivo, exceto se o
obstarem motivos supervenientes de grande vulto (art. 594 do Cód. Proc.
Penal).
– Não entra em dúvida que passa por um dos efeitos da sentença
condenatória ser o réu preso (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal). Mas, se
a sentença reconheceu às expressas que o réu é primário e de bons
antecedentes, já lhe franqueou, “ipso facto”, o direito ao benefício de
apelar em liberdade.
25

Voto nº 2702

“Habeas Corpus” nº 375.954/4
Art. 309 do Código de Trânsito;
arts. 594 e 654, § 2º, do Cód. Proc. Penal

– Dispõe o art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal que, entre os efeitos da
sentença condenatória, está o de “ser o réu preso”. Donde se infere que,
uma vez convicto de crime e condenado, somente poderá apelar sem
recolher-se à prisão se primário e de bons antecedentes (art. 594).
– O condenado a pena de detenção, ainda que reincidente, deverá
cumpri-la, no início, em regime semiaberto (que não fechado),
conforme a lei expressa (art. 33, 2a. parte, do Cód. Penal).
– Consoante máxima de Jurisprudência, ninguém pode ser punido duas
vezes pelo mesmo crime (“non bis in idem”). Decidido o feito pelo
mérito, é defeso intentar nova lide sobre o mesmo objeto (art. 110 do
Cód. Proc. Penal).
–“Sentença que passou em julgado não se deve outra vez meter em disputa”
(Cândido Mendes de Almeida, Auxiliar Jurídico, 1985, vol. II, p. 588).
26

Voto nº 2706

“Habeas Corpus” nº 375.946/5
Art. 157, § 2º, nº I, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Nos pleitos judiciais, como em tudo o mais na vida, prepondera o
princípio da provocação da parte interessada.
– Se, intimado da sentença condenatória por edital, deixou o réu
transcorrer “in albis” o prazo legal para impugná-la, não pode retomar o
caminho que, a seu tempo, não quis percorrer: o processo “é movimento
para diante” (cf. Vicente de Azevedo, Curso de Direito Judiciário Penal,
1958, vol. I, p. 24).
–“A exigência de prisão provisória para apelar não ofende a garantia
constitucional da presunção de inocência” (Súmula nº 9 do STJ).
– Suposto aspiração natural de todo o indivíduo preso, a conquista da
liberdade pela fuga sempre se interpretou como ato de insubordinação,
que lhe macula a biografia e descobre o intento de subtrair-se ao rigor
da Lei e à ação da Justiça.
27

Voto nº 3616

Apelação Criminal nº 1.277.167/3
Art. 593, nº I, do Cód. Proc. Penal;
art. 22 da Lei nº 5.250/67 (Lei de Imprensa)

– Ainda que desacompanhada de razões escritas, pode o Tribunal, em
obséquio ao princípio de ampla defesa, conhecer e julgar da apelação
tempestiva do réu (art. 593, nº I, do Cód. Proc. Penal).
– Não obsta à persecução criminal em Juízo, por crime contra a honra, a
circunstância de, na publicação considerada injuriosa, não ter sido
expressamente declinado o nome do ofendido, se lhe foi apurada a
identidade.
– Chamar “nefasto” a advogado, em artigo de jornal, constitui crime de
injúria (art. 22 da Lei de Imprensa), pois o vocábulo argui a ideia do que
é “nocivo, prejudicial, danoso”, etc. Dar “nefasto” a alguém, com efeito, é
incluí-lo entre os símbolos ou agentes do mal.
– Injúria “é um insulto que macula a honra subjetiva, arranhando o conceito
que a vítima faz de si mesma” (Guilherme de Souza Nucci, Código Penal
Comentado, 2000, p. 375).
28

Voto nº 3912

Apelação Criminal nº 1.312.643/0
Art. 180, “caput”, do Cód. Penal;
art. 48 do Cód. Penal

– A renúncia do réu ao direito de recurso vale por pedra de toque da boa
fundamentação e justiça da sentença que o condenou.
–“Quando não for possível, pelas condições materiais da Comarca, a execução da
pena de limitação de fim de semana, o juiz deverá proceder à concessão do sursis
(Lei nº 7.290, de 11.7.1984, que instituiu a nova Parte Geral do CP, art. 3º,
parágrafo único)” (Damásio E. de Jesus, Código Penal Anotado, 9a. ed.,
p. 168).
–“Nessa quadra da vida (18-21 anos) o crime costuma ser episódio isolado, para
o qual não há necessidade, nem conveniência, de excessivo rigor” (Basileu
Garcia, Instituições de Direito Penal, 1975, vol. I, t. II, p. 482).
29

Voto nº 4362

“Habeas Corpus” nº 429.654/1
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Na esfera do “habeas corpus”, é possível discutir a legitimidade da
“persecutio criminis” para efeito de trancamento da ação penal, desde
que manifesta a ilegalidade do ato ou a falta de justa causa.
– É princípio altamente reputado que o réu que respondeu a processo em
liberdade assim deve aguardar seu julgamento definitivo, exceto se o
obstarem motivos supervenientes de grande vulto (art. 594 do Cód. Proc.
Penal).
– Não entra em dúvida que passa por um dos efeitos da sentença
condenatória ser o réu preso (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal). Mas, se
o Juiz da causa não decretou a prisão preventiva do réu, por julgá-la
desnecessária (se não ilegítima), nisto mesmo deu a conhecer que lhe
franqueara o direito ao recurso em liberdade.
30

Voto nº 4549

Apelação Criminal nº 1.332.423/8
Art. 180, “caput”, do Cód. Penal

– Nada obsta que o Tribunal conheça de apelação, ainda que
desacompanhada de razões, pois “irrestrito é o poder jurisdicional do Juízo
ad quem no tocante à decisão que deva proferir”, desde que não exceda às
raias da imputação (cf. José Frederico Marques, Elementos de Direito
Processual Penal, 1a. ed., vol. IV, p. 271).
–“O valor probante dos indícios e presunções, no sistema de livre convencimento
que o Código adota, é em tudo igual ao das provas diretas” (José Frederico
Marques, Elementos de Direito Processual Penal, 2a. ed., vol. II, p. 378).
– Em se tratando de receptação (art. 180 do Cód. Penal), é coisa em
extremo difícil perquirir o dolo do agente, que isto implicaria penetrar-
-lhe o recesso da consciência; daqui por que se deve aferir pela
personalidade do agente e circunstâncias do fato criminoso.
31

Voto nº 4631

Apelação Criminal nº 1.364.473/7
Art. 155, § 4º, ns. I e IV, do Cód. Penal;
art. 24 do Cód. Penal

– Em obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVII,
da Const. Fed.) e do devido processo legal (nº LV), não é defeso à
Segunda Instância conhecer do recurso do réu, ainda que intempestivo,
se o despacho de prelibação (ou admissibilidade) do Juízo da
condenação lhe determinou o regular processamento.
–“A confissão livre é, sem contradição, a prova mais peremptória, aquela que
esclarece, convence e satisfaz, no mais alto grau, a consciência do Juiz: omnium
probationum maxima” (Cons. Vicente Alves de Paula Pessoa, Código do
Processo Criminal, 1882, p. 157).
– Àquele que invoca a descriminante legal do estado de necessidade
cabe demonstrá-la acima de toda a dúvida, pois aqui a falta de prova faz
as vezes de confissão do crime (art. 24 do Cód. Penal).
32

Voto nº 5138

Apelação Criminal nº 1.355.071/8
Art. 180, “caput”, do Cód. Penal
art. 44 do Cód. Penal

– Nada obsta que o Tribunal conheça de apelação, ainda que
desacompanhada de razões, pois “irrestrito é o poder jurisdicional do Juízo
ad quem no tocante à decisão que deva proferir”, desde que não exceda às
raias da imputação (cf. José Frederico Marques, Elementos de Direito
Processual Penal, 1a. ed., vol. IV, p. 271).
– Em obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVII,
da Const. Fed.) e do devido processo legal (nº LV), não é defeso à
Segunda Instância conhecer do recurso do réu, ainda que intempestivo,
se o despacho de prelibação (ou admissibilidade) do Juízo da
condenação lhe determinou o regular processamento.
33

Voto nº 5164

Recurso em Sentido Estrito nº 1.378.569/2
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal

– Embora se inclua entre os efeitos da sentença condenatória recorrível o
de “ser o réu preso ou conservado na prisão” (art. 393, nº I, do Cód. Proc.
Penal), pode o Magistrado, sem afronta ao direito positivo nem à razão
lógica, deferir-lhe o benefício de apelar em liberdade. É que, antes do
trânsito em julgado de sentença condenatória, tem a prisão natureza
cautelar e, pois, somente se deve decretar se presentes seus requisitos
legais, convém a saber: necessidade absoluta de ordem social e
conveniência da instrução do processo.
– Se o acusado respondeu ao processo em liberdade e nenhum
empecilho opôs à instrução criminal, é de razão aguarde solto o
julgamento de seu recurso, ante a ausência dos pressupostos da
decretação da prisão preventiva (art. 312 do Cód. Proc. Penal) e em
obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVII, da
Const. Fed.).
34

Voto nº 6192

“Habeas Corpus” nº 498.771-3/7-00
Art. 157, § 2º, nº II, do Cód. Penal;
arts. 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 66, nº III, alíneas b e f, da Lei de Execução Penal

– Passa por desmarcada abusão lógica manter no cárcere acusado de
roubo, enquanto lhe corre o processo-crime e sonha com eventual
absolvição, e deferir-lhe, depois de condenado, o benefício da
liberdade provisória para poder apelar (art. 594 do Cód. Proc. Penal).
– Embora primário e portador de bons antecedentes, cumpre atender a
que, entre os efeitos da sentença condenatória, inscreve-se o de “ser o réu
preso ou conservado na prisão” (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal).
– Segundo entendimento pacífico do STF, a disposição do art. 594 do
Cód. Proc. Penal não se aplica a réu preso em razão de flagrante ou
preventiva (cf. Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado,
21a. ed., p. 470).
– Questões relativas à progressão de regime prisional e a outros
incidentes de execução da pena são da competência originária do
Juízo das Execuções Criminais (art. 66, nº III, alíneas b e f, da Lei de
Execução Penal); ao Tribunal, apenas em grau de recurso, cabe o
reexame do ponto ali decidido, sendo-lhe defeso deferi-lo na via
sumaríssima e estreita do “habeas corpus”.
– O instituto do “habeas corpus”, em vista de seu rito sumaríssimo e
natureza específica, não se presta a aferir requisitos subjetivos para a
concessão de regime prisional, tarefa em que somente haverá entender
o Juízo da causa ou das Execuções Criminais.
35

Voto nº 6208

“Habeas Corpus” nº 846.390-3/9-00
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
arts. 315 e 394 do Cód. Proc. Penal

– Se o réu respondeu solto ao processo (porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do “status libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício de apelar em liberdade (art. 594 do
Cód. Proc. Penal).
– Exceto na hipótese de necessidade cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação
do tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 21a. ed.,
p. 470).
36

Voto nº 6441

“Habeas Corpus” nº 856.241-3/8-00
Art. 12 da Lei nº 6.368/76 (Lei de Tóxicos);
arts. 310, parág. único; 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 2º, nº II, da Lei nº 8.072/90 (Lei de Crimes Hediondos)

– É regra de direito positivo que o réu não pode apelar sem recolher-se à
prisão (art. 594 do Cód. Proc. Penal), por força do que estatui o art. 393,
nº I, do mencionado diploma legal, convém a saber: entre os efeitos da
sentença condenatória inscreve-se o de “ser o réu preso ou conservado na
prisão”.
– Se o réu carece dos requisitos subjetivos, não há dispensar-lhe o
benefício do apelo em liberdade sem grave afronta ao Direito e à boa
razão, sendo legítima a sentença que o denega.
– Por expressa disposição legal, não tem direito a liberdade provisória o
acusado de tráfico de entorpecentes, crime do número dos “hediondos”
(art. 2º, nº II, da Lei nº 8.072/90).
37

Voto nº 9694

“Habeas Corpus” nº 1.161.325-3/1-00
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
arts. 312; 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.

– Se o réu respondeu solto ao processo (porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do “status libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício de apelar em liberdade (art. 594
do Cód. Proc. Penal).
– Exceto na hipótese de necessidade cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação
do tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 22a. ed.,
p. 473).
–“Sem que se caracterize situação de real necessidade, não se legitima a privação
cautelar da liberdade individual do indiciado ou do réu. Ausentes razões de
necessidade, revela-se incabível, ante a sua excepcionalidade, a decretação ou a
subsistência da prisão preventiva (...)” (STF; Rev. Trim. Jurisp., vol. 180,
pp. 262-264; rel. Min. Celso de Mello).
38

Voto nº 9944

“Habeas Corpus” nº 1.184.720-3/2-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
arts. 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.

– É princípio altamente reputado que o réu que respondeu a processo em
liberdade assim deve aguardar seu julgamento definitivo, exceto se o
obstarem motivos supervenientes de grande vulto (art. 594 do Cód. Proc.
Penal).
– Não entra em dúvida que passa por um dos efeitos da sentença
condenatória ser o réu preso (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal). Mas, se o
Juiz da causa lhe não decretou a prisão preventiva, por julgá-la
desnecessária (se não ilegítima), nisto mesmo deu a conhecer que lhe
franqueara o direito ao recurso em liberdade.
–“A melhor interpretação da lei é a que se preocupa com a solução justa, não
podendo o seu aplicador esquecer que o rigorismo na exegese dos textos legais
pode levar a injustiças” (Rev. Tribs., vol. 656, p. 188).
39

Voto nº 2627

Apelação Criminal nº 1.236.093/4
Arts. 155, § 4º, nº IV, e 28, nº II, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Em obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVIII,
da Const. Fed.) e do devido processo legal (nº LV), não é defeso à
Segunda Instância, ainda que foragido o réu, conhecer-lhe do recurso
recebido pelo Juízo “a quo”.
–“A lei, para efeito de responsabilidade penal, equipara a conduta do partícipe à
do autor material” (Damásio E. de Jesus, Teoria do Domínio do Fato no
Concurso de Pessoas, 1999, p. 13).
– A embriaguez voluntária ou culposa pelo álcool não exclui a
imputabilidade penal (art. 28, nº II, do Cód. Penal).
– A exasperação da pena pelos maus antecedentes do réu e pela nota de
reincidência não configura violação do preceito do “non bis in idem”, o
que unicamente ocorre quando a mesma condenação é a causa do
duplo aumento.
40

Voto nº 3023

Apelação Criminal nº 1.266.187/9
Art. 157, “caput”, do Cód. Penal;
arts. 381, nº II, e 563 do Cód. Proc. Penal

– A palavra da vítima de roubo, sobretudo quando em harmonia com
outros elementos de convicção do processo, pode justificar decreto
condenatório. Protagonista do fato criminoso, é pessoa a mais
capacitada para dele discorrer e indicar seu autor.
– A inobservância do preceito do art. 381 do Cód. Proc. Penal — “exposição
sucinta da acusação e da defesa” — apenas anula a sentença quando causa
prejuízo ao réu, que o deve comprovar (art. 563), conforme
entendimento do STF (Rev. Trim. Jurisp., vol. 60, p. 405).
– A simulação de porte de arma de fogo, suposto constitua meio
executório do roubo, não lhe é causa de agravação da pena, segundo a
melhor jurisprudência (cf. Damásio E. de Jesus, Código Penal Anotado,
8a. ed., p. 522).

Voto nº 3031

Apelação Criminal nº 1.252.675/7
Art. 155, § 4º, ns. I e IV, do Cód. Penal

– A titularidade do direito de apelar não é do defensor, senão do réu, ao
qual toca portanto a decisão de fazê-lo. Desde que o réu se oponha ao
exercício de tal direito, haverá o advogado de catar-lhe respeito à
vontade, pois o que procura em Juízo está sujeito ao princípio geral que
informa o mandato: só procede segundo a lei aquele que pratica o ato a
que está expressamente autorizado (e o réu que renuncia ao direito de
recurso por isto mesmo desautoriza expressamente que outrem o
exercite).
41

Voto nº 9523

“Habeas Corpus” nº 1.124.383-3/4-00
Arts. 180, §§ 1º e 2º, e 311 do Cód. Penal;
arts. 310, parág. único; 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal

– É regra de direito positivo que o réu não pode apelar sem recolher-se à
prisão (art. 594 do Cód. Proc. Penal), por força do que estatui o art. 393,
nº I, do mencionado diploma legal, convém a saber: entre os efeitos da
sentença condenatória inscreve-se o de “ser o réu preso ou conservado na
prisão”.
– Se o réu carece dos requisitos subjetivos, não há dispensar-lhe o
benefício do apelo em liberdade sem grave afronta ao Direito e à boa
razão, sendo legítima a sentença que o denega.
42

Voto nº 3905

Apelação Criminal nº 1.220.519/9
Art. 157, § 2º, nº II, do Cód. Penal;
art. 226, nº II, do Cód. Proc. Penal

– Em obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVIII,
da Const. Fed.) e do devido processo legal (nº LV), não é defeso à
Segunda Instância, em caso de dúvida acerca de sua tempestividade,
conhecer de recurso do réu, recebido pelo Juízo “a quo”.
– Não é inepta a denúncia que descreve fato que, em tese, constitui
crime e permite ao acusado o exercício da ampla defesa (art. 41 do Cód.
Proc. Penal).
– Conforme a lição de renomados juristas, a regra do art. 226, nº II, do
Cód. Proc. Penal é de caráter apenas suasório, não imperativo. Não se
anula o ato de reconhecimento por não ter sido colocado o réu junto
de outras pessoas: tal se observará, diz a lei, “quando possível”. “Trata-se de
uma recomendação, não de uma exigência” (Damásio E. de Jesus, Código de
Processo Penal, 13a. ed., p. 171).
– A vítima, atenta sua relevante posição no episódio criminoso, é a mais
capacitada a depor das circunstâncias em que ocorreu e apontar-lhe o
verdadeiro autor.
– Não há proibição legal de o Juiz conceder regime semiaberto a
condenado não-reincidente a pena inferior a 8 anos (art. 33, § 2º, alínea
b, do Cód. Penal); a concessão de tal benefício unicamente é defesa
ao réu condenado a pena que exceda a 8 anos (não importando se
primário), ou ao reincidente, cuja pena seja superior a 4 anos.
43

Voto nº 3961

Apelação Criminal nº 1.316.961/1
Arts. 157, § 2º, nº I, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 617 do Cód. Proc. Penal

– A confissão judicial, por seu valor absoluto — visto se presume feita
espontaneamente —, basta à fundamentação do edito condenatório.
– A incriminação firme e segura da vítima, que reconheceu o réu sem
hesitar como ao autor do roubo, é certamente a pedra fundamental do
edifício da Acusação e justifica a edição de decreto condenatório.
– Ao julgar apelação do Ministério Público, pode o Tribunal não só
agravar a pena do réu, senão reduzi-la e ainda absolvê-lo, pois que, à
luz do art. 617 do Cód. Proc. Penal, unicamente lhe é defesa a “reformatio
in pejus”, não a “reformatio in melius”.
– Cancelada a Súmula nº 174 da jurisprudência do STJ (cf. REsp nº
213.054-SP; DJU 7.11.2001), já não pode prevalecer o entendimento de
que o emprego de arma de brinquedo (“arma ficta”) seja causa de
agravamento da pena do roubo. Ainda que idôneo para caracterizar
ameaça à vítima, por infundir-lhe temor, o simulacro de arma de fogo
não qualifica o roubo (art. 157, “caput”, do Cód. Penal). Inteligência
diversa do texto legal implicaria considerável prejuízo para os interesses
do réu, pois o obrigaria a recorrer ao STJ para alcançar o que lhe
recusaram outros Juízos ou Tribunais.
– Ao autor de roubo simples, primário e de nenhuma ou escassa
periculosidade, permite a lei conceda o Juiz regime aberto, se inferior a
4 anos sua pena e o recomendarem as circunstâncias do processo como
estímulo à reeducação para o convívio social (art. 33, § 2º, alínea c, do
Cód. Penal).
44

Voto nº 3980

Apelação Criminal nº 1.305.137/4
Art. 129 do Cód. Penal;
art. 72 da Lei nº 9.099/95

– Na ação penal, legitimado para recorrer é o Ministério Público
(“dominus litis”), não a vítima, exceto se habilitada nos autos como seu
assistente, conforme a regra do art. 268 do Cód. Proc. Penal. O agente da
ação penal pública será sempre o Promotor de Justiça; o ofendido, este,
nos casos em que a lei o admite, será assistente ou auxiliar de acusação.

Voto nº 4353

“Habeas Corpus” nº 429.486/5
Art. 157, § 3º, última parte, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– É regra de direito positivo que o réu não pode apelar sem recolher-se à
prisão (art. 594 do Cód. Proc. Penal), por força do que estatui o art. 393,
nº I, do mencionado diploma legal, convém a saber: entre os efeitos da
sentença condenatória inscreve-se o de “ser o réu preso ou conservado na
prisão”.
– Se o réu carece dos requisitos subjetivos, não há dispensar-lhe o
benefício do apelo em liberdade, sem grave afronta ao Direito e à boa
razão, sendo legítima a sentença que o denega.
45

Voto nº 4637

Apelação Criminal nº 1.365.763/0
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
art. 600, § 4º, do Cód. Proc. Penal

– Nada obsta que o Tribunal conheça de apelação, ainda que
desacompanhada de razões, pois “irrestrito é o poder jurisdicional do Juízo
ad quem no tocante à decisão que deva proferir”, desde que não exceda às
raias da imputação (cf. José Frederico Marques, Elementos de Direito
Processual Penal, 1a. ed., vol. IV, p. 271).
– Em obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVII,
da Const. Fed.) e do devido processo legal (nº LV), não é defeso à
Segunda Instância conhecer do recurso do réu, ainda que intempestivo,
se o despacho de prelibação (ou admissibilidade) do Juízo da
condenação lhe determinou o regular processamento.
– É a palavra da vítima fundamental na apuração das circunstâncias do
fato criminoso, porque seu interesse coincide, salvo raras exceções, com
o escopo mesmo da Justiça: a busca da verdade real.
46

Voto nº 4725

Recurso em Sentido Estrito nº 1.370.433/3
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
art. 593, nº I, do Cód. Proc. Penal

– Não cabe censura à decisão que inadmite, por intempestiva, apelação
da Defesa. Como em tudo o mais nas relações jurídicas, prevalece aqui
o adágio “dormientibus non succurrit jus” (art. 593, nº I, do Cód. Proc. Penal).
– Ainda que praxe mui salutar saber do réu se deseja recorrer da sentença
condenatória — e, em caso afirmativo, tomar-lhe por termo a
declaração da vontade —, não é nula a certidão que apenas menciona
tê-lo o oficial de justiça “intimado do inteiro teor da sentença condenatória”,
que mais não pede a lei. Além de que, a intimação da sentença ao réu
não dispensa a de seu advogado, e este se presume saberá sempre que
fazer em prol do assistido (art. 392 do Cód. Proc. Penal).
47

Voto nº 5061
“Habeas Corpus” nº 451.978/4
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
arts. 594 e 648, nº I, do Cód. Proc. Penal

– É regra de direito positivo que o réu não pode apelar sem recolher-se à
prisão (art. 594 do Cód. Proc. Penal), por força do que estatui o art. 393,
nº I, do mencionado diploma legal, convém a saber: entre os efeitos da
sentença condenatória inscreve-se o de “ser o réu preso ou conservado na
prisão”.
– Se o réu carece dos requisitos subjetivos, não há dispensar-lhe o
benefício do apelo em liberdade, sem grave afronta ao Direito e à boa
razão, sendo legítima a sentença que o denega.
– Remédio processual específico para a tutela das garantias e direitos
fundamentais do indivíduo, é o “habeas corpus” instrumento idôneo
para o exame da existência de justa causa para ação penal. Por seu rito
sumário, entretanto, somente enseja o trancamento de inquérito ou
ação penal quando salte aos olhos desde logo a atipicidade do fato
arguido de criminoso (art. 647 do Cód. Proc. Penal).
– A apuração da responsabilidade criminal do réu é própria da instância
penal do contraditório; transferi-la para a via heroica do “habeas corpus”
seria decidir a questão de mérito, atribuição privativa do Juízo da
causa.
48

Voto nº 108

“Habeas Corpus” nº 297.462/9
Art. 155, § 4º, nº IV, do Cód. Penal;
Súmula nº 9 do STJ

– A obrigatoriedade de recolhimento para apelar não repugna ao
princípio da presunção de inocência, expressamente consagrado na
Constituição da República (art. 5º, nº LVII). Enfatiza-o a Súmula nº 9 da
jurisprudência do STJ: “A exigência de prisão provisória, para apelar, não
ofende a garantia constitucional da presunção de inocência”.

Voto nº 109

“Habeas Corpus” nº 297.454/0
Art. 157, § 2º, nº II, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– É subverter as regras do raciocínio lógico deferir a réu preso liberdade
provisória, por ausência de motivos que lhe justifiquem o
encarceramento e, de seguida, outra vez decretá-lo, sem para isso haja
dado causa relevante. Decisão que o determine dificilmente se eximirá
da nota de carecedora de fundamentação.
–“Tendo o agente permanecido solto no curso do processo, sem que a sentença
tivesse aludido a motivos que autorizassem a sua prisão preventiva, deve ser
admitido o recurso em liberdade” (RJDTACrimSP, vol. 13, p. 172; rel.
Ribeiro dos Santos).
–“Gravidade objetiva e forma de execução do crime não podem ser consideradas
para efeito de não ser aplicada a disposição do art. 594 do Cód. Proc. Penal”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 9a. ed., p. 390).
49

Voto nº 1305

“Habeas Corpus” nº 333.498/3
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– A presunção de não-culpabilidade (que, enquanto não julgada a
causa-crime diz em seu crédito) faz contra o réu após a edição do
decreto condenatório.
– Passaria por supina contradição estabelecer o Juiz ao sentenciado
regime da última severidade (fechado), à conta de ser sujeito perigoso
(autor de roubo a mão armada) e, em seguida, conceder-lhe o benefício
do art. 594 do Cód. Proc. Penal, cuja pedra de toque é a ausência de
periculosidade.
– Não configura constrangimento ilegal a denegação de recurso em
liberdade, se o impuserem circunstâncias do processo, pois um dos
efeitos da sentença condenatória consiste em conservar-se o réu na
prisão, nas infrações inafiançáveis (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal).

Voto nº 1308

“Habeas Corpus” nº 338.542/5
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal

– Se a prisão do réu era tida por necessária e conveniente antes da
sentença — quando ainda o alentava a esperança de absolvição —, com
muito mais razão houvera de sê-lo depois de condenado: pois a
presunção de inocência já cedera à de sua culpabilidade.
– Por implicar reexame da sentença e do acervo probatório, não cabe nos
raios estreitos do processo de “habeas corpus” discussão a respeito da
alteração do regime prisional do réu.
50

Voto nº 1939

Recurso em Sentido Estrito nº 1.182.397/5
Arts. 593, nº II, e 502 do Cód. Proc. Penal

– Não cabe apelação da decisão que, por escusada, indefere pedido de
realização de perícia complementar formulado no prazo de defesa
prévia: à uma, porque não se trata de “decisão definitiva, ou com força de
definitiva”, que constituem requisito de sua interposição (art. 593, nº II,
do Cód. Proc. Penal); à outra, porque, ao cabo da instrução criminal, o
Juiz “poderá ordenar diligências para sanar qualquer nulidade ou suprir falta
que prejudique o esclarecimento da verdade” (art. 502).

Voto nº 7262

“Habeas Corpus” nº 986.763-3/3-00
Art. 180, “caput”, do Cód. Penal;
arts. 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal

– É regra de direito positivo que o réu não pode apelar sem recolher-se à
prisão (art. 594 do Cód. Proc. Penal), por força do que estatui o art. 393,
nº I, do mencionado diploma legal, convém a saber: entre os efeitos da
sentença condenatória inscreve-se o de “ser o réu preso ou conservado na
prisão”.
– Se o réu carece dos requisitos subjetivos, não há dispensar-lhe o
benefício do apelo em liberdade, sem grave afronta ao Direito e à boa
razão, sendo legítima a sentença que o denega.
51

Voto nº 1977

“Habeas Corpus” nº 357.532/9
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal

–“A revelia é uma conduta assumida pelo réu, a seu risco, porque defender-se é
ônus e não obrigação” (Eliézer Rosa, Dicionário de Processo Penal, 1975,
p. 75).
– O roubo, como é crime grave, que a sociedade justamente repudia por
infundir em seus membros insegurança e medo, não repugna à
consciência jurídica negar a seu autor o direito de recurso em
liberdade.

Voto nº 2537

Apelação Criminal nº 1.217.211/0
Art. 392 do Cód. Proc. Penal

– É presunção comum que a parte não se conforme com a sentença
adversa; donde se segue a obrigatoriedade de sua intimação (art. 392 do
Cód. Proc. Penal), a fim de que apele, querendo.
52

Voto nº 2641

“Habeas Corpus” nº 375.564/2
Art. 10, “caput”, da Lei nº 9.437/97;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Ao benefício do art. 594 do Cód. Proc. Penal tem jus apenas o condenado
que preencha o requisito do mérito.
– Ainda que apenado com detenção, não tem direito a recurso em
liberdade o réu cujo teor de proceder evidencie decidida vocação para a
delinquência, sobretudo violenta. A custódia cautelar, nesse caso, faz as
vezes de legítima defesa social.
–“Ao acusado preso em flagrante não assiste direito de apelar em liberdade, pois
um dos efeitos da sentença condenatória é conservar na prisão quem nela se
encontra” (STJ; HC nº 6.890; rel. Min. Fernando Gonçalves; DJU
4.5.98, p. 204).

Voto nº 2967

“Habeas Corpus” nº 384.336/1
Arts. 155, § 4º, nº I, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 594 do Cód. Proc. Penal

– Dispõe expressamente a lei que, para apelar em liberdade, deve o réu
satisfazer a dois quesitos primordiais: ser primário e ter bons
antecedentes (art. 594 do Cód. Proc. Penal).
– Isto de o réu reincidente recolher-se à prisão para poder apelar não
ofende o princípio constitucional da presunção de inocência, como
assentou a Súmula nº 9, do STJ: “A exigência da prisão provisória para
apelar não ofende a garantia constitucional da presunção de inocência”.
53

Voto nº 2993

“Habeas Corpus” nº 384.252/6
Art. 157, § 2º, ns. I, II e V, do Cód. Penal;
arts. 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal

– Passa por desmarcado abuso lógico manter no cárcere acusado de
roubo, enquanto lhe corre o processo-crime e sonha com eventual
absolvição, e deferir-lhe, depois de condenado, o benefício da
liberdade provisória para poder apelar (art. 594 do Cód. Proc. Penal).
– Embora primário e portador de bons antecedentes, cumpre atender a
que, entre os efeitos da sentença condenatória, inscreve-se o de “ser o réu
preso ou conservado na prisão” (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal).
– Segundo entendimento pacífico do STF, a disposição do art. 594 do
Cód. Proc. Penal não se aplica a réu preso em razão de flagrante ou
preventiva (cf. Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado,
17a. ed., p. 430).

Voto nº 4085

Apelação Criminal nº 1.314.781/0
Art. 129, § 3º, do Cód. Penal;
art. 33, § 2º, alínea b, do Cód. Penal

– Em obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVIII,
da Const. Fed.) e do devido processo legal (nº LV), não é defeso à
Segunda Instância conhecer do recurso do réu, ainda que intempestivo,
se o despacho de prelibação (ou admissibilidade) do Juízo da
condenação lhe determinou o regular processamento.
– Feita em Juízo, a confissão do réu tem valor absoluto, que não pode ser
postergado, exceto em casos anormais, que se não presumem.
54

–“É sumamente tranquilizador para a consciência do Juiz ouvir dos lábios do réu
uma narrativa convincente do fato criminoso com a declaração de havê-lo
praticado” (Hélio Tornaghi, Curso de Processo Penal, 1980, vol. I, p. 381).
– O réu que confessa em Juízo seu delito revela qualidade sumamente
elogiável, pois demonstra haver aborrecido a vida criminosa e descobre
seu propósito de emenda; por isso, ainda que reincidente, desde que
não superior a 4 anos sua pena, tem jus ao benefício do regime
semiaberto (art. 33, § 2º, alínea b, do Cód. Penal).
– Não há proibição legal de o Juiz conceder regime semiaberto a
condenado não-reincidente a pena inferior a 8 anos (art. 33, § 2º, alínea
b, do Cód. Penal); a concessão de tal benefício unicamente é defesa ao
réu condenado a pena que exceda a 8 anos (não importando se
primário), ou ao reincidente, cuja pena seja superior a 4 anos.

Voto nº 85

“Habeas Corpus” nº 294.624/5
Art. 157, § 2º, ns. I e II, do Cód. Penal;
art. 647 do Cód. Proc. Penal

– Com fixar-lhe o regime prisional fechado, nisto mesmo a sentença deu
a conhecer que denegava ao réu o benefício do recurso em liberdade.
Fê-lo pelo processo lógico da oposição: se lhe impunha o cumprimento
da pena em presídio de segurança máxima, estava-lhe, “ipso facto”,
indeferindo apelar solto. E escusava mesmo encarecê-lo, porquanto,
segundo regra de Hermenêutica, a afirmativa num caso implica a
negativa noutro (“quid de uno dicit, de altero negat”). Regime fechado e
apelo em liberdade são, com efeito, ideias que se encontram e repelem.
55

Voto nº 5138

Apelação Criminal nº 1.355.071/8
Art. 180, “caput”, do Cód. Penal;
art. 44 do Cód. Penal

– Nada obsta que o Tribunal conheça de apelação, ainda que desacom-
panhada de razões, pois “irrestrito é o poder jurisdicional do Juízo ad quem
no tocante à decisão que deva proferir”, desde que não exceda às raias da
imputação (cf. José Frederico Marques, Elementos de Direito Processual
Penal, 1a. ed., vol. IV, p. 271).
– Em obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVII,
da Const. Fed.) e do devido processo legal (nº LV), não é defeso à
Segunda Instância conhecer do recurso do réu, ainda que intempestivo,
se o despacho de prelibação (ou admissibilidade) do Juízo da
condenação lhe determinou o regular processamento.
56

Voto nº 5183

“Habeas Corpus” nº 454.042/6
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– Se o acusado respondeu preso ao processo-crime por roubo, será
verdadeira abusão lógica deferir-lhe o benefício da liberdade
provisória após sua condenação, pois entre os efeitos da sentença
condenatória recorrível inclui-se precisamente o de “ser o réu
conservado na prisão” (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal).
– Se a Justiça o não reputou digno do benefício da liberdade, quando
ainda contava ser absolvido, com mais forte razão carecerá o acusado
de requisito subjetivo depois de condenado, quando a presunção de
inocência terá cedido à de sua culpabilidade.
– Rendida a prestação jurisdicional, com a prolação da sentença
condenatória, já não tem lugar o clamor do paciente acerca de
eventual constrangimento ilegítimo pela demora na instrução
criminal. Foi o que assentou o Colendo Superior Tribunal de Justiça
na Súmula nº 52 de sua jurisprudência: “Encerrada a instrução
criminal, fica superada a alegação de constrangimento por excesso de prazo”.
– A concessão de liberdade provisória ao réu preso a lei subordina à
satisfação de requisito indeclinável: inocorrência de motivo que
autorize a prisão preventiva (cf. art. 310, parág. único, do Cód. Proc.
Penal). Ora, por sua periculosidade, o autor de roubo incide na
cláusula restritiva; pelo que, não tem jus ao benefício.
57

Voto nº 5380

“Habeas Corpus” nº 462.392/7
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– Nos Tribunais predomina hoje a inteligência de que, se ausentes os
requisitos que lhe justificam a decretação da prisão preventiva, tem o
réu o direito de apelar em liberdade (art. 594 do Cód. Proc. Penal).

– A Justiça, ao conceder liberdade provisória a réu condenado por
tentativa de roubo simples (arts. 157, ”caput”, e 14, nº II, do Cód. Penal),
não está subestimando a necessidade da repressão da delinquência nem
fazendo tábua rasa do direito positivo, mas olhando ao intuito mesmo
da lei, que reserva o “carcer ad custodiam” para aquelas hipóteses em que,
extrema sua periculosidade e extraordinária a gravidade do delito que
lhe é imputado, deva o réu manter-se apartado do convívio social.
58

Voto nº 5454

Apelação Criminal nº 1.401.397/6
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– A titularidade do direito de apelar não é do defensor, senão do réu, ao
qual toca portanto a decisão de fazê-lo. Desde que o réu se oponha ao
exercício de tal direito, haverá o advogado de catar-lhe respeito à
vontade, pois o que procura em Juízo está sujeito ao princípio geral que
informa o mandato: só procede segundo a lei aquele que pratica o ato a
que está expressamente autorizado (e o réu que renuncia ao direito de
recurso por isto mesmo desautoriza expressamente que outrem o
exercite).
59

Voto nº 5920

“Habeas Corpus” nº 470.628-3/0-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– Se o acusado respondeu preso ao processo-crime por homicídio, será
verdadeira abusão lógica deferir-lhe o benefício da liberdade
provisória após sua condenação, pois entre os efeitos da sentença
condenatória recorrível inclui-se precisamente o de “ser o réu conservado
na prisão” (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal).

– Se a Justiça o não reputou digno do benefício da liberdade, quando
ainda contava ser absolvido, com mais forte razão carecerá o acusado de
requisito subjetivo depois de condenado, quando a presunção de
inocência terá cedido à de sua culpabilidade.

– Se reincidente e já preso ao tempo da sentença, não tem direito de
apelar em liberdade o réu condenado por homicídio doloso a pena de
longa duração, para cumprimento sob regime inicial fechado, por
expressa disposição do art. 408, § 2º, do Cód. Proc. Penal.
60

Voto nº 5954

Apelação Criminal nº 453.289-3/8-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– O argumento da embriaguez não aproveita ao infrator, exceto se
completa e involuntária. A embriaguez voluntária, dispõe a lei que não
elide a responsabilidade criminal do agente, porque não lhe exclui a
imputabilidade (art. 28, nº II, do Cód. Penal). Também não lhe autoriza a
atenuação da pena privativa de liberdade, por não ser hipótese de
responsabilidade diminuída (art. 26, parág. único).

– Nada obsta que a 2a. Instância conceda ao réu mais do que pleiteou
em seu recurso. É que, sobre favorecê-lo, isso não causa dano à
sociedade, empenhada também na realização da justiça, que se resume
na fórmula “dar a cada um o que lhe corresponde em direito” (“jus suum
cuique tribuere”).

– Ao apreciar o mérito da apelação interposta pelo réu contra decisão do
Júri, pode o Tribunal — à luz de jurisprudência consagrada pelo
Excelso Pretório — excluir qualificadora do homicídio, se não
caracterizada (cf. RTJSTF, vol. 103, p. 697; rel. Min. Soares Muñoz).

– A embriaguez, mesmo incompleta, exclui a futilidade da motivação na
prática de homicídio (art. 121, § 2º, nº II, do Cód. Penal).

– Não se configura a qualificadora da surpresa, no caso de ter sido
praticado o homicídio durante discussão entre réu e vítima (art. 121,
§ 2º, nº IV, do Cód. Penal).
61

Voto nº 5989

“Habeas Corpus” nº 474.590-3/5-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– É princípio altamente reputado que o réu que respondeu a processo em
liberdade assim deve aguardar seu julgamento definitivo, exceto se o
obstarem motivos supervenientes de grande vulto (art. 594 do Cód. Proc.
Penal).
– Não entra em dúvida que passa por um dos efeitos da sentença
condenatória ser o réu preso (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal). Mas, se
o Juiz da causa não lhe decretou a prisão preventiva, por julgá-la
desnecessária (se não ilegítima), nisto mesmo deu a conhecer que lhe
franqueara o direito ao recurso em liberdade.
–“A melhor interpretação da lei é a que se preocupa com a solução justa, não
podendo o seu aplicador esquecer que o rigorismo na exegese dos textos legais
pode levar a injustiças” (Rev. Tribs., vol. 656, p. 188).
62

Voto nº 6060

“Habeas Corpus” nº 474.689-3/7-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– É regra de direito positivo que o réu não pode apelar sem recolher-se à
prisão (art. 594 do Cód. Proc. Penal), por força do que estatui o art. 393,
nº I, do mencionado diploma legal, convém a saber: entre os efeitos da
sentença condenatória inscreve-se o de “ser o réu preso ou conservado na
prisão”.

– Por vontade expressa da lei, o autor de crime hediondo (v.g.: homicídio
qualificado) não pode, em princípio, apelar sem recolher-se à prisão
(art. 2º, nº II, da Lei nº 8.072/90).
63

Voto nº 6300

“Habeas Corpus” nº 848.845-3/0-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– Se o réu respondeu solto ao processo (porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do “status libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício de apelar em liberdade (art. 594 do
Cód. Proc. Penal).

– Exceto na hipótese de necessidade cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação
do tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 21a. ed.,
p. 470).
64

Voto nº 6401

“Habeas Corpus” nº 869.916-3/9-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– É regra de direito positivo que o réu não pode apelar sem recolher-se à
prisão (art. 594 do Cód. Proc. Penal), por força do que estatui o art. 393,
nº I, do mencionado diploma legal, convém a saber: entre os efeitos da
sentença condenatória inscreve-se o de “ser o réu preso ou conservado na
prisão”.
– Se o réu carece dos requisitos subjetivos, não há dispensar-lhe o
benefício do apelo em liberdade sem grave afronta ao Direito e à boa
razão, sendo legítima a sentença que o denega.
– Proclamou Saulo Ramos (e com assaz de razão) que “o receptador é o
empresário do crime” e o ladrão, “sua mão-de-obra barata e desqualificada”
(apud Damásio E. de Jesus, Código Penal Anotado, 9a. ed., p. 630).
65

Voto nº 6936
“Habeas Corpus” nº 956.231-3/1-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– É regra de direito positivo que o réu não pode apelar sem recolher-se à
prisão (art. 594 do Cód. Proc. Penal), por força do que estatui o art. 393,
nº I, do mencionado diploma legal, convém a saber: entre os efeitos da
sentença condenatória inscreve-se o de “ser o réu preso ou conservado na
prisão”.
– Se o réu carece dos requisitos subjetivos, não há dispensar-lhe o
benefício do apelo em liberdade sem grave afronta ao Direito e à boa
razão, sendo legítima a sentença que o denega.
– Dispõe expressamente a lei que, para apelar em liberdade, deve o
réu satisfazer a dois quesitos primordiais: ser primário e ter bons
antecedentes (art. 594 do Cód. Proc. Penal).
–“A exigência de prisão provisória para apelar não ofende a garantia
constitucional da presunção de inocência” (Súmula nº 9 do STJ).
66

Voto nº 7142
“Habeas Corpus” nº 979.023-3/0-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– É princípio altamente reputado que o réu que respondeu a processo em
liberdade assim deve aguardar seu julgamento definitivo, exceto se o
obstarem motivos supervenientes de grande vulto (art. 594 do Cód. Proc.
Penal).
– Não entra em dúvida que passa por um dos efeitos da sentença
condenatória ser o réu preso (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal). Mas, se
o Juiz da causa lhe não decretou a prisão preventiva, por julgá-la
desnecessária (se não ilegítima), nisto mesmo deu a conhecer que lhe
franqueara o direito ao recurso em liberdade.
–“A melhor interpretação da lei é a que se preocupa com a solução justa, não
podendo o seu aplicador esquecer que o rigorismo na exegese dos textos legais
pode levar a injustiças” (Rev. Tribs., vol. 656, p. 188).
– É tendência doutrinária de graves autores “desvincular o direito de apelar
da obrigatoriedade de o condenado recolher-se à prisão como condição do
recurso. O princípio do duplo grau de jurisdição atribui ao réu o direito de ver a
sentença condenatória submetida à apreciação do tribunal, independentemente
da condição do recolhimento à prisão. Este somente se justifica na hipótese de
necessidade cautelar” (STF; HC nº 29.879; DJU 3.11.2003, p. 336; apud
Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 22a. ed., p. 473).
67

Voto nº 7457
Apelação Criminal nº 341.522-3/0-00
Arts. 202, 563 e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 12 da Lei nº 6.368/76;
art. 2º, § 1º, da Lei nº 8.072/90;
art. 5º, ns. LV, LVII e LXIII, da Const. Fed.

– Em obséquio ao princípio da presunção de inocência (art. 5º, nº LVII,
da Const. Fed.) e do devido processo legal (nº LV), não é defeso
à Segunda Instância conhecer do recurso do réu, sem prévio
recolhimento ao cárcere, se o despacho de prelibação (ou
admissibilidade) do Juízo da condenação lhe determinou o regular
processamento.
– Nenhum homem inocente, podendo falar, prefere o silêncio para
defender-se de injusta acusação. Se permaneceu calado, ainda que
direito seu garantido pela Constituição da República (art. 5º, nº LXIII),
dificilmente se eximirá de juízo de culpa.
– A inidoneidade das testemunhas não se presume; ao arguente impõe-se
demonstrar, além de toda a controvérsia, que faltaram à verdade ou
caíram em erro de informação. É que, na busca da verdade real — alma
e escopo do processo —, “toda pessoa poderá ser testemunha” (art. 202
do Cód. Proc. Penal).
– O autor de tráfico de entorpecentes (art. 12 da Lei nº 6.368/76), crime
da classe dos hediondos, deve cumprir sua pena sob o regime integralmente
fechado, por força do preceito do art. 2º, § 1º, da Lei nº 8.072/90.
68

Voto nº 7530
“Habeas Corpus” nº 987.715-3/2-00
Arts. 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 12 da Lei nº 6.368/76;
art. 2º, § 2º, da Lei nº 8.072/90;
art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.

– É princípio altamente reputado que o réu que respondeu a processo em
liberdade assim deve aguardar seu julgamento definitivo, exceto se o
obstarem motivos supervenientes de grande vulto (art. 594 do Cód. Proc.
Penal).
– Não entra em dúvida que passa por um dos efeitos da sentença
condenatória ser o réu preso (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal). Mas, se
o Juiz da causa não lhe decretou a prisão preventiva, por julgá-la
desnecessária (se não ilegítima), nisto mesmo deu a conhecer que lhe
franqueara o direito ao recurso em liberdade.
–“A melhor interpretação da lei é a que se preocupa com a solução justa, não
podendo o seu aplicador esquecer que o rigorismo na exegese dos textos legais
pode levar a injustiças” (Rev. Tribs., vol. 656, p. 188).
69

Voto nº 7760

“Habeas Corpus” nº 1.027.960-3/0-00
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal

– É regra de direito positivo que o réu não pode apelar sem recolher-se à
prisão (art. 594 do Cód. Proc. Penal), por força do que estatui o art. 393,
nº I, do mencionado diploma legal, convém a saber: entre os efeitos da
sentença condenatória inscreve-se o de “ser o réu preso ou conservado na
prisão”.
– Se o réu carece dos requisitos subjetivos, não há dispensar-lhe o
benefício do apelo em liberdade sem grave afronta ao Direito e à boa
razão, sendo legítima a sentença que o denega.
– Dispõe expressamente a lei que, para apelar em liberdade, deve o réu
satisfazer a dois quesitos primordiais: ser primário e ter bons
antecedentes (art. 594 do Cód. Proc. Penal).
– “A exigência de prisão provisória para apelar não ofende a garantia
constitucional da presunção de inocência” (Súmula nº 9 do STJ).
– Ainda que instrumento processual de dignidade constitucional, próprio
a tutelar a liberdade do indivíduo, não pode o “habeas corpus” substituir
o recurso ordinário, máxime quando a “causa petendi” respeita a
questões de alta indagação.
–“O habeas corpus não é meio idôneo para corrigir possível injustiça da sentença
condenatória” (Rev. Forense, vol. 119, p. 242; rel. Nélson Hungria).
–“A pena para crime considerado hediondo deve ser cumprida em regime
integralmente fechado” (STJ; rel. Min. José Arnaldo; in Revista do
Superior Tribunal de Justiça, vol. 105, p. 403).
–“É inútil censurar a lei, pois, enquanto não revogada, tem que ser cumprida"
(Antão de Moraes, Problemas e Negócios Jurídicos, 1a. ed., vol. I, p. 12).
70

– Cai a lanço notar que a constitucionalidade do art. 2º, § 1º, da Lei dos
Crimes Hediondos já foi afirmada pelo Supremo Tribunal Federal.
– O condenado por tráfico de entorpecentes (art. 12 da Lei nº 6.368/76),
crime da classe dos hediondos, deve cumprir sua pena integralmente em
regime fechado, por força do preceito do art. 2º, § 1º, da Lei nº 8.072/90.

Voto nº 8935

“Habeas Corpus” nº 1.087.912-3/1-00
Arts. 157, “caput”, e 14, nº II, do Cód. Penal;
arts. 312, 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.

– Se o réu respondeu solto ao processo (porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do “status libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício de apelar em liberdade (art. 594 do
Cód. Proc. Penal).
– Exceto na hipótese de necessidade cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação
do tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 22a. ed.,
p. 473).
–“Sem que se caracterize situação de real necessidade, não se legitima a privação
cautelar da liberdade individual do indiciado ou do réu. Ausentes razões de
necessidade, revela-se incabível, ante a sua excepcionalidade, a decretação ou a
subsistência da prisão preventiva (...)” (STF; Rev. Trim. Jurisp., vol. 180,
pp. 262-264; rel. Min. Celso de Mello).
71

Voto nº 8939

Apelação Criminal nº 413.621-3/1-00
Arts. 107, nº IV, 1ª. figura; 109, nº IV; 110, § 1º, e 115 do Cód. Penal;
art. 202 do Cód. Proc. Penal;
art. 12 da Lei nº 6.368/76

– A confissão do réu na Polícia, ainda que repudiada em Juízo, pode
justificar decreto condenatório, se em harmonia com os mais elementos
de convicção dos autos; ao seu aspecto intrínseco é que se deve atender,
não à circunstância do lugar onde a presta o confitente.
–“Para os chamados penalistas práticos, a confissão do acusado se equiparava à
própria coisa julgada, como ensinava Farinácio: Confessio habet vim rei
judicatae” (José Frederico Marques, Estudos de Direito Processual Penal,
1a. ed., p. 290).
– A crítica irrogada ao testemunho policial com o intuito de desmerecê-
lo constitui solene despropósito, pois toda a pessoa pode ser
testemunha (art. 202 do Cód. Proc. Penal) e aquela que, depondo sob
juramento, falta à verdade incorre nas penas da lei, donde a inépcia do
raciocínio apriorístico de que o policial vem a Juízo para mentir.
– A tese do crime putativo (ou flagrante preparado), em que o autor “é
apenas o protagonista inconsciente de uma comédia” (cf. Nélson Hungria,
Comentários ao Código Penal, 1978, vol. I, t. II, p. 107), não tem lugar
nem prevalece nos casos de tráfico, porque a posse pretérita de
substância entorpecente para consumo de terceiro já aperfeiçoa o tipo
do art. 12 da Lei nº 6.368/76.
– A Lei nº 11.464, de 28.3.2007, atenuou o rigor da Lei dos Crimes
Hediondos (Lei nº 8.072/90), no que respeita à progressão no regime
prisional de cumprimento de pena. Se o sentenciado primário tiver dela
descontado já 2/5 — ou 3/5, se reincidente — e conspiram os mais
requisitos legais, faz jus ao benefício (art. 2º, § 2º).
72

– A prescrição intercorrente (art. 110, § 1º, do Cód. Penal) “constitui forma
de prescrição da pretensão punitiva (da ação), que rescinde a própria sentença
condenatória” (Damásio E. de Jesus, Código Penal Anotado, 17a. ed.,
p. 358).
– Decretada a extinção da punibilidade do apelante pela prescrição da
pretensão punitiva estatal, já nenhuma outra matéria poderá ser objeto
de exame ou deliberação.
73

Voto nº 9041

Apelação Criminal nº 1.024.798-3/9-00
Arts. 12 e 18, nº III, da Lei nº 6.368/76;
art. 35 da Lei nº 11.343/06;
art. 593, nº I, do Cód. Proc. Penal;
art. 501 do Código de Processo Civil;
art. 5º, nº LXIII, da Const. Fed.

– É jurisprudência consagrada em nossos Tribunais que o réu não pode
desistir da apelação interposta, sem prévia concordância de seu
patrono (art. 593, nº I, do Cód. Proc. Penal).
– Nenhum homem inocente, podendo falar, prefere o silêncio para
defender-se de injusta acusação. Se permaneceu calado, ainda que
direito seu garantido pela Constituição da República (art. 5º, nº LXIII),
dificilmente se eximirá de juízo adverso.
– A apreensão de grande quantidade de tóxico em poder do acusado
argui para logo a ideia de tráfico (art. 12 da Lei nº 6.368/76).
– A inidoneidade das testemunhas não se presume; ao arguente impõe-se
demonstrar, além de toda a controvérsia, que faltaram à verdade ou
caíram em erro de informação. É que, na busca da verdade real — alma e
escopo do processo —, “toda pessoa poderá ser testemunha” (art. 202 do Cód.
Proc. Penal).
– A causa de aumento de pena do art. 18, nº III, da Lei nº 6.368/76 já não
subsiste (e deve ser excluída), uma vez não consta da nova Lei de
Drogas (Lei nº 11.343/06), que previu a circunstância apenas como crime
autônomo de associação para o tráfico (art. 35).
– A Lei nº 11.464, de 28.3.2007, atenuou o rigor da Lei dos Crimes
Hediondos (Lei nº 8.072/90) no que respeita à progressão no regime
prisional de cumprimento de pena. Se o sentenciado primário tiver dela
descontado já 2/5 — ou 3/5, se reincidente — e conspiram os mais
requisitos legais, faz jus ao benefício (art. 2º, § 2º).
74

– O STJ firmou a inteligência de que, nos casos de tráfico de
entorpecentes, é impossível a substituição da pena corporal por
restritiva de direitos (cf. HC nº 33.081-PE; 5a. T.; rel. Min. Félix
Fischer; DJU 13.9.04, p. 267).

Voto nº 9267

“Habeas Corpus” nº 1.116.174-3/7-00
Art. 61 da Lei nº 9.099/95;
art. 4º, alínea a, da Lei nº 1.521/51;
art. 84, § 1º, da Const. Estadual

– Se o processo tramitou perante o Juizado Especial Criminal, por ser a
infração de menor potencial ofensivo (art. 61 da Lei nº 9.099/95), será
competente (“ratione materiae”) para conhecer de eventual recurso o
Colégio Recursal, não o Tribunal de Justiça.
–“As Turmas de Recurso constituem-se em órgão de segunda instância, cuja
competência é vinculada aos Juizados Especiais e de Pequenas Causas” (art. 84,
§ 1º, da Const. Estadual).
75

Voto nº 9596

Recurso em Sentido Estrito nº 930.629-3/8-00
Art. 312 do Cód. Proc. Penal

– Sentença condenatória torna despropositada e estéril toda a
controvérsia a respeito de eventual ilegalidade do despacho que,
durante a instrução criminal, relaxa prisão em flagrante do réu.
–“Cessa o interesse processual se decisão anterior apreciou a matéria deduzida”
(STJ; HC nº 7.294; 6a. T.; rel. Luiz Vicente Cernicchiaro; j. 19.8.98).
–“Sem que se caracterize situação de real necessidade, não se legitima a privação
cautelar da liberdade individual do indiciado ou do réu. Ausentes razões de
necessidade, revela-se incabível, ante a sua excepcionalidade, a decretação ou a
subsistência da prisão preventiva (...)” (STF; Rev. Trim. Jurisp., vol. 180,
pp. 262-264; rel. Min. Celso de Mello).
76

Voto nº 9796

“Habeas Corpus” nº 1.166.338-3/7-00
Art. 155, § 4º, ns. I e IV, do Cód. Penal;
arts. 310, parág. único; 312, 393 e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, nº LXVIII, da Const. Fed.

– Ainda que instrumento processual de dignidade constitucional, próprio
a tutelar a liberdade do indivíduo, não pode o “habeas corpus” substituir
o recurso ordinário, máxime quando a “causa petendi” respeita a
questões de alta indagação.
–“O habeas corpus não é meio idôneo para corrigir possível injustiça da sentença
condenatória” (Rev. Forense, vol. 119, p. 242; rel. Nélson Hungria).
– Conforme a comum opinião dos doutores, toda prisão cautelar, que se
não sustente em indeclinável necessidade, passa por abusiva e ilegítima
e, pois, quer-se revogada. Nesse número merecem contados os casos de
encarceramento de réu, quando ausentes os requisitos da decretação da
prisão preventiva (art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal).
77

Voto nº 10.012

“Habeas Corpus” nº 1.185.106-3/8-00
Arts. 157, ns. I e II, e 14, nº II, do Cód. Penal;
arts. 312; 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.

– Se o réu respondeu solto ao processo (porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do “status libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício de apelar em liberdade (art. 594 do
Cód. Proc. Penal).
– Exceto na hipótese de necessidade cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação
do tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 22a. ed.,
p. 473).
–“Sem que se caracterize situação de real necessidade, não se legitima a privação
cautelar da liberdade individual do indiciado ou do réu. Ausentes razões de
necessidade, revela-se incabível, ante a sua excepcionalidade, a decretação ou a
subsistência da prisão preventiva (...)” (STF; Rev. Trim. Jurisp., vol. 180,
pp. 262-264; rel. Min. Celso de Mello).
78

Voto nº 10.022

“Habeas Corpus” nº 1.171.942-3/5-00
Arts. 121, “caput”, e 14, nº II, do Cód. Penal;
arts. 310, parág. único, e 312 do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.

– À luz da nova ordem constitucional instaurada no País, a regra geral é
que se defenda o réu em liberdade. Consectário do princípio do
estado de inocência (art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.), só por exceção deve
o acusado responder preso ao processo.
– Conforme a comum opinião dos doutores, toda prisão cautelar, que se
não sustente em indeclinável necessidade, passa por abusiva e ilegítima
e, pois, quer-se revogada. Nesse número merecem contados os casos de
encarceramento de réu, quando ausentes os requisitos da decretação da
prisão preventiva (art. 310, parág. único, do Cód. Proc. Penal).
79

Voto nº 10.786

Apelação Criminal nº 990.08.045218-5
Arts. 155, § 4º, nº III, e 14, nº II, do Cód. Penal;
arts. 594 e 600 do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, ns. LXVIII e LVII, da Const. Fed.

– Segundo o magistério dos Tribunais, não induz nulidade o processo a
falta de razões, no caso de apelante com advogado constituído e
regularmente intimado para manifestar-se nos termos do art. 600 do
Cód. Proc. Penal.
– Embora o silêncio do acusado seja direito que lhe assegura a
Constituição Federal (art. 5º, nº LXVIII), recebe-se de ordinário por
confissão de culpa, em face de sua repugnância com a alegação de
inocência. O inocente, quando injustamente incriminado, esse não
apenas se revolta contra o acusador, mas também protesta em altos
brados. Donde a consequência lógica de que, salvo se mudo “a
nativitate” ou inibido por invencível coação física ou moral, aquele que
se refugiou no silêncio nisto mesmo deu a conhecer seu delito.
– Para a caracterização da qualificadora de chave falsa (art. 155, § 4º, nº III,
do Cód. Penal), é irrelevante não tenha sido apreendido o instrumento
que fez as vezes da chave verdadeira, se o exame pericial lhe comprovou
a utilização na prática do furto.
– O regime de máximo rigor é unicamente o compatível com a
personalidade daquele que, por sua extensa biografia penal, revela
decidida vocação para a vida de crimes.
80

Voto nº 10.864

“Habeas Corpus” nº 990.08.030649-9
Arts. 159, § 1º, e 288, parág. único, do Cód. Penal;
arts. 310, parág. único; 312 e 393, nº I, do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.

– Unicamente faz jus à liberdade provisória o preso que, havendo
cometido delito afiançável, reúna méritos pessoais; importa ainda não
seja o caso de decretação de prisão preventiva (art. 310, parág. único, do
Cód. Proc. Penal).
– Não entra em dúvida que, a despeito do princípio da presunção de
inocência, consagrado na Constituição da República (art. 5º, nº LVII),
subsiste a providência da prisão cautelar, quando conspiram os
requisitos legais do art. 312 do Código de Processo Penal: garantia da ordem
pública, conveniência da instrução criminal ou para assegurar a
aplicação da lei penal, desde que comprovada a materialidade da
infração penal e veementes indícios de sua autoria.
–“O conhecimento de recurso de apelação do réu independe de sua prisão”
(Súmula nº 347 do STJ).
81

Voto nº 10.995

“Habeas Corpus” nº 990.08.078297-5
Arts. 180, § 1º, e 29 do Cód. Penal;
arts. 310, parág. único; 393, nº I, e 594 do Cód. Proc. Penal;
art. 16, parág. único, nº IV, da Lei nº 10.826/03;
art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.

– É princípio altamente reputado que o réu que respondeu a processo em
liberdade assim deve aguardar seu julgamento definitivo, exceto se o
obstarem motivos supervenientes de grande vulto (art. 594 do Cód. Proc.
Penal).
– Não entra em dúvida que passa por um dos efeitos da sentença
condenatória ser o réu preso (art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal). Mas, se
o Juiz da causa não lhe decretou a prisão preventiva, por julgá-la
desnecessária (se não ilegítima), nisto mesmo deu a conhecer que lhe
franqueara o direito ao recurso em liberdade. “A melhor interpretação da
lei é a que se preocupa com a solução justa, não podendo o seu aplicador esquecer
que o rigorismo na exegese dos textos legais pode levar a injustiças” (Rev. Tribs.,
vol. 656, p. 188).
82

Voto nº 11.385

Apelação Criminal nº 993.05066697-2
Arts. 12 e 16 da Lei nº 6.368/76;
arts. 302; 514, 563 e 566 do Cód. Proc. Penal;
arts. 38 e 41 da Lei nº 10.409/2002;
art. 55 da Lei nº 11.343/06

– A Lei nº 10.409/02 não revogou os arts. 12 e seguintes da Lei nº 6.368/76. É
que uma lei revoga outra, quando expressamente o disponha, ou
quando, em relação à lei nova, a anterior se torne antagônica e
antinômica, gerando com ela incompatibilidade.
–“O rito especial previsto na Lei nº 10.409/02 aplica-se apenas aos crimes nela
previstos, os quais, insertos nos arts. 14 a 26, que integram a seção única do
Capítulo III, foram integralmente vetados, por vício de inconstitucionalidade”
(STJ; HC nº 28.300-RJ; 6a. Turma; rel. Min. Paulo Medina; j.
16.12.2003; DJU 3.11.2004, p. 245).
–“A ausência de demonstração de prejuízo, por parte da defesa, decorrente da
inobservância do rito previsto no art. 38 da Lei nº 10.409/2002, impede a
declaração de nulidade do processo” (STF, HC nº 85.155/SP; relª Minª Ellen
Gracie; j. 22.3.2005).
–“Nenhum ato será declarado nulo, se da nulidade não resultar prejuízo para a
acusação ou para a defesa” (art. 563 do Cód. Proc. Penal).
– Aquele que mantém em depósito substância entorpecente ou que
determine dependência física e psíquica, sem autorização e em
desacordo com determinação legal e regulamentar, está em situação de
flagrante delito, e esse de caráter permanente. Assim, é óbvia a
legalidade da busca domiciliar, a todo o tempo e sem mandado
judicial, e da prisão do infrator realizada nessas condições (art. 12 da Lei
nº 6.368/76; art. 302 do Cód. Proc. Penal).
83

– Reza o art. 501 do Cód. Proc. Civil (aplicável ao processo penal por força
do preceito do art. 3º do Cód. Proc. Penal) que “o recorrente poderá, a
qualquer tempo, sem a anuência do recorrido ou dos litisconsortes, desistir do
recurso”; pelo que, negócio jurídico unilateral, não há que opor ao
pedido de desistência de recurso de apelação, subscrito pela parte e seu
advogado.
84

Voto nº 11.422

Apelação Criminal nº 993.07.033932-2
Arts. 159, § 1º; 214, "caput”, e 288, parág. único, do Cód. Penal;
art. 386 do Cód. Proc. Penal;
arts. 1º, ns. V e VI, e 2º, § 1º, da Lei nº 8.072/90

– É cabível o recurso de apelação, contra sentença absolutória, com o
fim exclusivo de modificar-lhe o fundamento legal (cf. José Frederico
Marques, Elementos de Direito Processual Penal, 2a. ed., vol. IV, p. 312;
Millennium Editora).
– A palavra da vítima passa por excelente meio de prova e autoriza
decreto condenatório, se em conformidade com os outros elementos
de convicção reunidos no processado.
–“A palavra da vítima em sede de crime contra os costumes, por conseguinte,
representa elemento de suma valia e significativa importância” (Fernando de
Almeida Pedroso, Prova Penal, 2a. ed., p. 79).
– O autor de extorsão mediante sequestro (art. 159 do Cód. Penal), crime
da classe dos hediondos, deve cumprir sua pena sob o regime inicial
fechado, por expressa disposição do art. 2º, § 1º, da Lei nº 8.072/90.
– Em bom direito, é princípio inconcusso que, sem a certeza da
materialidade e da autoria da infração penal, ninguém pode ser
condenado. Esta é a regra de ouro de todo o julgador.
– Dúvida, em Direito Penal, é o outro nome da falta de prova, o que
obriga à absolvição, conforme aquilo do venerável prolóquio: “In dubio
pro reo”.
85

Voto nº 11.545
Apelação Criminal nº 993.05.029175-8
Arts. 157, § 2º, ns. I e II, e 29 do Cód. Penal;
art. 386, nº VI, e 393 do Cód. Proc. Penal;
art. 5º, nº LXIII, da Const. Fed.

– Exceto na hipótese de necessidade cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença condenatória submetida à apreciação
do tribunal, independentemente da condição do recolhimento à prisão”
(Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 22a. ed.,
p. 473).
–“Sem que se caracterize situação de real necessidade, não se legitima a privação
cautelar da liberdade individual do indiciado ou do réu. Ausentes razões de
necessidade, revela-se incabível, ante a sua excepcionalidade, a decretação ou a
subsistência da prisão preventiva (...)” (STF; Rev. Trim. Jurisp., vol. 180,
pp. 262-264; rel. Min. Celso de Mello).
– Embora direito do réu manter-se calado (art. 5º, nº LXIII, da Const.
Fed.), ordena a razão natural que todo o indivíduo se defenda com
bravura de injusta acusação; em silêncio e indiferente, quando arguido
de crime, só permanece o que foi achado em culpa.
– Pedra angular do edifício probatório, a palavra da vítima, nos crimes
violentos contra o patrimônio, é fonte valiosíssima de convicção e, se
em harmonia com os mais elementos dos autos, pode justificar a
condenação do réu (art. 157 do Cód. Penal).
– Constitui a majorante do inc. I do § 2º do art. 157 do Cód. Penal a ameaça
com arma desmuniciada, se a vítima o ignorava (porque instrumento
apto a intimidá-la e, pois, render-lhe o ânimo).
86

– Ao autor de roubo, crime grave entre os que mais o sejam, não convém
senão o regime prisional fechado. É a própria natureza da infração
penal que o exige e a notável deformação de sua personalidade,
inconciliável com regime diverso de cumprimento de pena.
Casos Especiais
(Reprodução integral do voto)
PODER JUDICIÁRIO

1
TRIBUNAL DE ALÇADA CRIMINAL

DÉCIMA QUINTA CÂMARA

“Habeas Corpus” nº 369.674/1
Comarca: São Paulo
Impetrante: Dr. Edson Faria
Paciente: JID

Voto nº 2451
Relator

– Se o réu respondeu solto ao processo
(porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e
nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do “status
libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao
magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício de
apelar em liberdade (art. 594 do Cód.
Proc. Penal).
90

– Exceto na hipótese de necessidade
cautelar, não é de bom exemplo
(nem talvez legítimo) condicionar o
recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O
princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença
condenatória submetida à apreciação do
tribunal, independentemente da condição
do recolhimento à prisão” (Damásio E. de
Jesus, Código de Processo Penal Anotado,
1996, p. 422).

1. O ilustre advogado Dr. Edison Faria impetrou ordem
de “habeas corpus” com pedido de liminar em favor de JID,
sob a alegação de que padece constrangimento ilegal da
parte do MM. Juízo de Direito da 11a. Vara Criminal da
Comarca da Capital.

Alega, na petição inicial (fls. 2/4), que o paciente,
incurso nas sanções do art. 180, “caput”, do Código Penal, foi
condenado a cumprir, sob o regime fechado, a pena de 2
anos de reclusão, além de 16 dias-multa.

Acrescenta que o edito judicial condenatório lhe
denegou o benefício de recorrer em liberdade por amor de
seus maus antecedentes.
91

Afirmou ainda que, havendo respondido a seu
processo em liberdade, seria não só injusto senão iníquo ter
de recolher-se ao cárcere para apelar.

Pelo que, pede e espera que a colenda Câmara lhe
conceda a ordem impetrada para que, em liberdade,
aguarde o processamento de seu recurso.

Instrui o processo cópia da r. sentença condenatória
(fls. 5/17).

O Excelentíssimo Senhor Vice-Presidente do
Tribunal, Dr. Alceu Penteado Navarro, foi servido denegar
a medida liminar pleiteada (fl. 19).

A mui digna autoridade indicada como coatora
prestou informações, nas quais ratificou os termos do
pedido inicial.

Esclareceu Sua Excelência que ao paciente, à conta de
seus maus antecedentes, não lhe foi facultado apelasse em
liberdade (fls. 22/23).

Acompanha-se o pedido de informações das
principais peças dos autos da ação penal (fls. 24/55).
92

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em
esmerado e notável parecer do Dr. Rui Prado, grande vulto
de sua Instituição, opina pela concessão da ordem,
deferindo-se ao paciente o direito de apelar em liberdade (fls.
57/59).

É o relatório.

2. A r. sentença, juntada a esses autos por cópia (fls.
5/17), condenou o paciente a cumprir, sob o regime
fechado, a pena de 2 anos de reclusão, além de 16 dias-
multa, por infração do art. 180, “caput”, do Código Penal.

Averbando-lhe de maus os antecedentes, o MM. Juízo
denegou ao paciente o direito de apelar em liberdade;
daqui sua irresignação.

3. É verdade que o teor literal do art. 594 do Código de
Processo Penal permite apelar em liberdade só ao réu
primário e de bons antecedentes; ao paciente, já
condenado, faleceriam, portanto, a “contrario sensu”,
requisitos subjetivos para merecê-lo.

No entanto, nenhum empecilho criou à instrução
criminal, antes compareceu a todos os atos processuais. Em
resumo: defendeu-se em liberdade.
93

Isto de haver permanecido em liberdade faz a seu
favor, pois argui ausência dos pressupostos que justificam a
decretação da prisão preventiva.

O crime por que foi condenado, ao demais, não
evidencia periculosidade nem apresenta risco ou ameaça à
incolumidade pública.

Destarte, em obséquio ao princípio da coerência das
decisões, é força manter o “status libertatis” do réu até o
julgamento definitivo de seu recurso.

Por outra parte, como o advertiu o lúcido parecer (fl.
59), é voz comum que, “antes do trânsito em julgado da
sentença condenatória, tem a prisão natureza cautelar”, de sorte
que devem ser rigorosamente satisfeitos os requisitos de
sua necessidade e conveniência (Luiz Flávio Gomes,
Direito de Apelar em Liberdade, 2a. ed., p. 34).

Ora, no sistema legal vigente, enquanto não transite
em julgado a sentença condenatória, prepondera o
princípio da liberdade do réu, a menos que sua prisão
represente o único meio a que o Estado deve recorrer para
a efetivação da Justiça.

A lição de Antonio Magalhães Gomes Filho vem aqui
a ponto:
94

“Não é legítima a prisão anterior à condenação transitada
em julgado, senão por exigências cautelares indeclináveis
de natureza instrumental ou final, e, depois de efetiva
apreciação judicial, que deve vir expressa através de
decisão motivada” (Presunção de Inocência e Prisão
Cautelar, 1991, p. 86).

No particular de que se trata, estando o réu em
liberdade (porque razões não havia que lhe justificassem a
prisão cautelar), nenhum ato perpetrou que o fizesse decair
de seu “status libertatis”.

4. Além de que, tem merecido sufrágios numerosos a
tendência doutrinária de não condicionar o recebimento
do recurso ao recolhimento prévio do réu:

“O princípio do duplo grau de jurisdição atribui ao réu o
direito de ver a sentença condenatória submetida à
apreciação do tribunal, independentemente da condição
do recolhimento à prisão. Este somente se justifica na
hipótese de necessidade cautelar” (Damásio E. de Jesus,
Código de Processo Penal Anotado, 1996, p. 422).

Esse mesmo padrão de prudência e legalidade têm
adotado os Tribunais:
95

a) “A prisão a que alude o art. 594 do Cód. Proc. Penal tem
natureza nitidamente preventiva. Assim, a decisão que
impõe a exigência do recolhimento à prisão, para o
exercício do apelo, há de estar fundamentada, como
preceitua o art. 315 do mesmo diploma legal” (Rev.
Tribs., vol. 726, p. 649);

b) “O recebimento do recurso de apelação não pode ser
condicionado à prisão, por evidente ofensa ao direito de
defesa e, consequentemente, ao devido processo legal,
pois aí está inserido o duplo grau de jurisdição. O
recurso nada mais é do que o desdobramento do direito
de defesa, que se faz num segundo momento, perante os
Tribunais” (Rev. Tribs., vol. 737, p. 697).

Em suma: como quer que se defendia em liberdade, e
a custódia cautelar unicamente se recomenda nos casos de
necessidade absoluta de ordem social — a que se não
equipara o dos autos —, tenho por mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao magistério da
jurisprudência dos Tribunais a concessão ao paciente do
benefício do art. 594 do Código de Processo Penal.

Fica-lhe, por isso, deferida a ordem de “habeas corpus”.
96

5. Pelo exposto, concedo ao paciente ordem de “habeas
corpus”, a fim de que aguarde em liberdade o julgamento de
seu recurso, expendindo-se-lhe contramandado de prisão.

São Paulo, 11 de setembro de 2000
Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

2
TRIBUNAL DE ALÇADA CRIMINAL

DÉCIMA QUINTA CÂMARA

Apelação Criminal nº 1.236.093/4
Comarca: Itapeva
Apelantes: LCSV e DMO
Apelado: Ministério Público

Voto nº 2627
Relator

– Em obséquio ao princípio da
presunção de inocência (art. 5º, nº
LVIII, da Const. Fed.) e do devido
processo legal (nº LV), não é defeso à
Segunda Instância, ainda que foragido
o réu, conhecer-lhe do recurso recebido
pelo Juízo “a quo”.

–“A lei, para efeito de responsabilidade penal,
equipara a conduta do partícipe à do autor
material” (Damásio E. de Jesus, Teoria
do Domínio do Fato no Concurso de
Pessoas, 1999, p. 13).
98

– A embriaguez voluntária ou culposa
pelo álcool não exclui a imputabilidade
penal (art. 28, nº II, do Cód. Penal).

– A exasperação da pena pelos maus
antecedentes do réu e pela nota de
reincidência não configura violação do
preceito do “non bis in idem”, o que
unicamente ocorre quando a mesma
condenação é a causa do duplo
aumento.

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito
da 3a. Vara da Comarca de Itapeva, condenando-os a
cumprir, sob o regime fechado, por infração do art. 155,
§ 4º, nº IV, do Código Penal, as penas, respectivamente, de
2 anos e 8 meses de reclusão, além de 30 dias-multa, e 2
anos e 6 meses de reclusão e 25 dias-multa, apelam para
esse Egrégio Tribunal, com o intuito de reformá-la, LCSV
e DMO.

Em suas razões de recurso, LC alega que a prova
produzida na instrução criminal, frágil e insegura, não
autorizava a edição de decreto condenatório; pelo que,
pleiteia à colenda Câmara a absolvição, com fundamento
no art. 386, ns. IV e VI, do Código de Processo Penal
(fls. 191/192).
99

DMO, esse, nas razões de fls. 207/209, ao mesmo
tempo que argumenta com a precariedade do conjunto
probatório (e, por isso, pleiteia a absolvição), afirma que
não houve prova cabal da existência das qualificadoras.

Em caso de confirmação da sentença condenatória,
requeria a desclassificação do furto para sua forma simples.

A douta Promotoria de Justiça apresentou
contrarrazões de recurso, nas quais arguiu preliminar
de não-conhecimento do recurso interposto pelo corréu
DMO; no mérito, repeliu a pretensão da nobre Defesa e
encareceu a manutenção da r. sentença de Primeiro Grau
(fls. 213/215).

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em
apurado e criterioso parecer do Dr. Antonio Augusto
Mello de Camargo Ferraz, opina pelo improvimento dos
recursos (fls. 220/223).

É o relatório.

2. Aos réus imputou o Ministério Público a acusação
de, na madrugada de 4 de março de 1998, na cidade
de Itapeva, obrando em concurso e com unidade de
propósitos, terem subtraído para si, mediante rompimento
de obstáculos, da residência localizada na Rua Licínio Aires
de Camargo, 104 (Conjunto São Rafael), uma bicicleta da
100

marca Monark, no valor de R$ 90,00, pertencente à vítima
Rosalina Ferreira de Albuquerque.

Consta dos autos que, após arrombar o portão de
madeira que dava acesso ao quintal da residência, deitaram
a mão à bicicleta que ali estava e a guardaram na casa do
corréu Luiz César. O irmão deste, porém, como se
inteirasse do furto, comunicou-o à Polícia, que logrou
apreender a “res” e devolvê-la à proprietária.

Transcorreu o processo em forma legal; a r. sentença
de fls. 155/158, tendo por bem provada a denúncia,
condenou os réus, os quais, insatisfeitos com o desfecho da
lide penal, apelam para esta augusta Corte de Justiça, na
expectativa de absolvição.

3. Afasto, “data venia”, a preliminar de não-
-conhecimento do recurso do corréu Daniel Martins de
Oliveira, arguida pela douta Promotoria de Justiça nas
contrarrazões (fl. 214). É que, embora a r. sentença
condenatória condicionasse eventual interposição de
recurso do réu a seu prévio recolhimento ao cárcere
(fl. 158), expediu-se-lhe mandado de prisão; desta sorte,
não é improvável que a Polícia o tenha já cumprido.

Ao demais, o r. despacho de prelibação de fl. 210
admitiu o processamento do apelo do réu.
101

À derradeira, em obséquio ao princípio da presunção
de inocência (art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.) e do devido
processo legal (nº LV), não é defeso à Segunda Instância,
ainda que foragido o réu, conhecer-lhe do recurso recebido
pelo Juízo “a quo”.

Tal exegese tem-na adotado o Colendo Superior
Tribunal de Justiça, como o persuade o ven. aresto abaixo
transcrito por sua ementa:

“O princípio da presunção de inocência, hoje, está
literalmente consagrado na Constituição da República
(art. 5º, LVII). Não pode haver, assim, antes desse termo
final, cumprimento da sanção penal. As cautelas
processuais penais buscam, no correr do processo, prevenir o
interesse público. A Carta Política, outrossim, registra o
devido processo legal; compreende o contraditório e ampla
defesa, com os meios e recursos a ela inerentes. Não se pode
condicionar o exercício de direito constitucional — ampla
defesa e duplo grau de jurisdição — ao cumprimento da
cautela processual. Impossibilidade de não receber a
apelação, ou declará-la deserta porque o réu está foragido.
Releitura do art. 594 do Cód. Penal em face à
Constituição” (STJ; RHC nº 6.110-SP; rel. Anselmo
Santiago; apud Alberto Silva Franco et alii, Código de
Processo Penal e sua Interpretação Jurisprudencial, 1999,
vol. II, p. 2.875).
102

Rejeito, pois, a questão prejudicial.

4. A prova dos autos, firme e conclusiva, contrapõe-se à
pretensão da nobre Defesa. É que, assim a materialidade
como a autoria da infração penal ficaram demonstradas
acima de dúvida.

De feito, ouvido em declarações na Polícia, Alexandre
Antônio dos Santos Vieira afirmou que lhe chegara ao
conhecimento haver seu irmão Luiz César, na companhia
de Ducha (alcunha de DMO), praticado o furto da bicicleta
(fls. 8 e 104).

O auto de fl. 9 evidencia, de outra parte, que a Polícia
a apreendeu em poder de Luiz César. Este mesmo,
interrogado na fase inquisitorial, admitiu a autoria do
furto, conquanto esclarecesse que o fizera após haver-se
enfrascado no álcool. Acompanhava-se do corréu, a quem
delatou (fls. 51 e 69).

A testemunha Elisângela depôs que a bicicleta estava
entre os pertencentes de seu cunhado (o corréu Luiz
César), e aí policiais a apreenderam (fl. 49 e 99).

Em vista do conjunto probatório, passa por
induvidosa a responsabilidade dos réus.
103

Mostrou-se debalde o esforço inaudito de Luiz César
de eximir-se das consequências de seu ato, alegando que o
corréu foi quem cometera o furto e que, nesse dia, estava
embriagado.

É inegável que os réus, animados da intenção de
delinqüir, furtaram a bicicleta da vítima; também o é que a
Polícia a encontrou na casa do réu Luiz César.

Ora:

“A lei, para efeito de responsabilidade penal, equipara a
conduta do partícipe à do autor material. Dessa forma,
a causalidade, na participação, apresenta natureza
normativa e não objetiva. É a norma do art. 29, caput,
que determina: responde pelo crime não só o executor físico,
que produz o resultado, mas também o partícipe, que acede
sua conduta à ação principal” (Damásio E. de Jesus,
Teoria do Domínio do Fato no Concurso de Pessoas,
1999, p. 13).

A circunstância de haver-se entregue a beberronias,
primeiro que perpetrasse o furto, não lhe aproveita; a razão
é que a embriaguez voluntária ou culposa pelo álcool não
exclui a imputabilidade penal (art. 28, nº II, do Cód. Penal).

O decreto condenatório guarda-se, portanto, de
censura.
104

As penas, criteriosamente fixadas, querem-se
mantidas.

Improcede o argumento expendido pela combativa
Defesa de que, no caso, houvera violação do princípio do
“non bis in idem”, uma vez a sentença exasperara as penas
aos réus por seus maus antecedentes e pela reincidência.

Com efeito, a jurisprudência deste Egrégio Tribunal
já proclamou:

“É possível o duplo aumento da pena em face da
reincidência e dos maus antecedentes se derivados de
fatos diversos, ocorrendo bis in idem apenas quando a
mesma condenação é levada em conta para esse fim”
(RJTACrimSP, vol. 46, p. 100; rel. Damião Cogan).

5. Pelo exposto, rejeito a preliminar e nego provimento
aos recursos.

São Paulo, 22 de novembro de 2000
Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

3
TRIBUNAL DE ALÇADA CRIMINAL

DÉCIMA QUINTA CÂMARA

Apelação Criminal nº 1.277.167/3
Comarca: São Sebastião
Apelante: GRMS (Querelado)
Apelado: JFP (Querelante)

Voto nº 3616
Relator

– Ainda que desacompanhada de razões
escritas, pode o Tribunal, em obséquio
ao princípio de ampla defesa, conhecer
e julgar da apelação tempestiva do réu
(art. 593, nº I, do Cód. Proc. Penal).

– Não obsta à persecução criminal em
Juízo, por crime contra a honra,
a circunstância de, na publicação
considerada injuriosa, não ter sido
expressamente declinado o nome
do ofendido, se lhe foi apurada a
identidade.
106

– Chamar “nefasto” a advogado, em
artigo de jornal, constitui crime de
injúria (art. 22 da Lei de Imprensa),
pois o vocábulo argui a ideia do
que é “nocivo, prejudicial, danoso”, etc.
Dar “nefasto” a alguém, com efeito, é
incluí-lo entre os símbolos ou agentes
do mal.

– Injúria “é um insulto que macula a honra
subjetiva, arranhando o conceito que a
vítima faz de si mesma” (Guilherme de
Souza Nucci, Código Penal Comentado,
2000, p. 375).

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito
da 1a. Vara da Comarca de São Sebastião, condenando-o à
pena de 6 meses de detenção, substituída por restritiva de
direitos (prestação de serviços à comunidade), por infração
do art. 22 da Lei nº 5.250/67 (Lei de Imprensa), apelou
para este Egrégio Tribunal, com o intuito de reformá-la,
GRMS.

Em lacônica petição (fl. 137), afirma que se retraía
aos protestos de inocência já lançados nos autos.

Apresentou o apelado, por seus distintos e cultos
patronos, contrarrazões de recurso, nas quais repeliu a
pretensão da Defesa e propugnou a manutenção da r.
sentença de Primeiro Grau (fls. 150/153).
107

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em detido
e esmerado parecer do Dr. Carlos Roberto Barretto, opina
pelo improvimento do recurso (fls. 177/180).

É o relatório.

2. O apelado JFP, advogado de profissão, ajuizou
queixa-crime contra GRMS, imputando-lhe a prática do
crime definido e punido pelo art. 22 da Lei de Imprensa.

Foi o caso que o querelado, no dia 22 de julho de
1998, mandara publicar no jornal Imprensa Livre, como
matéria paga, escrito no qual dirigia ao apelado-querelante
expressões injuriosas, “scilicet”: “advogado nefasto”;
“incompetente advogado”; “profissional desqualificado na área
jurídica, desconhecedor e desrespeitador de leis e decretos federais”
(fls. 2/8).

Instruiu a queixa com um exemplar do jornal em que
veio a público a matéria reputada injuriosa (fl. 9).

Instaurada a persecução criminal em Juízo,
transcorreu o processo na forma da lei; ao cabo, a r.
sentença de fls. 109/112, acolhendo os termos da querela,
decretou a condenação do réu.
108

Seu patrono, inconformado com o desate da lide
penal, manifestou recurso, protestando pelo oferecimento
de razões na Superior Instância (fl. 118).

Não satisfez o querelante ao pregão de que
apresentaria suas razões de recurso nesta Corte de Justiça;
no entanto, em obséquio ao princípio de que, interposta a
apelação tempestivamente, cabe ao Tribunal dela conhecer
e julgar (cf. Rev. Tribs., vol 776, p. 571), entro a examinar a
controvérsia agitada nos autos.

3. Não acho que emendar na r. decisão recorrida, visto
dirimiu à justa luz, mediante escorreita análise da prova, a
lide penal.

De feito, é questão superior a toda a dúvida que o
apelante mandara publicar em órgão da imprensa matéria
de cunho injurioso ao querelante.

Ainda que embuçado o nome do ofendido na
publicação, foi possível individualizá-lo, pois o apelante
deu “nefasto advogado” ao profissional que assistia o Sindicato
dos Estivadores, que não era outro senão o querelante.

As testemunhas não hesitaram em mencioná-lo como
a pessoa a quem se referiam as expressões contumeliosas.
109

Ora:

“Basta, para efeito de caracterização típica dos delitos
contra a honra, que o ofendido seja designado de maneira
tal que se torne possível a sua identificação, ainda que na
limitada esfera de suas relações pessoais, profissionais ou
sociais” (Rev. Tribs., vol. 694, p. 412; rel. Min. Celso
de Mello).

A afirmação de “advogado nefasto”, endereçada ao
querelante — e bem o ressaltou a r. decisão apelada —,
“vai muito além de qualquer opinião desfavorável”, pois argui a
ideia daquilo que “causa desgraça” ou é “danoso” (fl. 111). É o
vocábulo geralmente usado na acepção pejorativa: o que
“pode trazer dano, prejuízo; desfavorável, nocivo, prejudicial”
(cf. Antônio Houaiss, Dicionário, 2001; v. nefasto).

Destarte, chamar a alguém nefasto é dá-lo por um dos
símbolos ou agentes do mal.

Inegável, assim, o caráter injurioso da publicação de
autoria do apelante, na qual ofendeu a dignidade do
recorrido.

Cometeu, pois, o delito de injúria, que, na definição
do acatado penalista Guilherme de Souza Nucci, “é um
insulto que macula a honra subjetiva, arranhando o conceito que
a vítima faz de si mesma” (Código Penal Comentado, 2000,
p. 375).
110

À derradeira, não se abroquela contra os golpes da
Justiça punitiva a alegação de que os termos depreciativos
foram lançados contra o ofendido à maneira de “desabafo”.

Pela excelente doutrina que contém, merece
reproduzido, por sua ementa, o ven. acórdão citado pela
douta Promotoria de Justiça (fl. 175):

“(...) o assomo emocional da discussão não é de molde
a excluir a tipicidade (...). O Direito Penal tem uma
missão ético-jurídica consistente em evitar lesões a direitos
subjetivos; e tal missão ficaria irremediavelmente
comprometida no instante em que se admitisse que alguém,
por pouco educado e dado a acessos de incontinência
verbal, se beneficiasse de sua própria incivilidade. A
hermenêutica levaria a peregrina conjuntura de
imunidade penal, exatamente pessoas as mais carentes
de severa intervenção pedagógica estatal” (JTACrimSP,
vol. 79, p.335; rel. Roberto Grassi).

Ainda:

“Quem publica artigo que revela não o exercício do direito
de criticar, mas o abuso de liberdade de expressão, com
manifesta intenção de ferir a honra alheia ou o decoro,
incide nas penas do art. 22 c/c o art. 23 da Lei nº
5.250/67” (Rev. Tribs., vol. 738, p. 662; rel. Francisco
Praça).
111

Confirmo, destarte, por seus jurídicos e lógicos
fundamentos, a r. sentença que proferiu o distinto e culto
Magistrado Dr. Rodrigo César Müller Valente.

4. Pelo exposto, nego provimento ao recurso.

São Paulo, 13 de março de 2002
Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUINTA CÂMARA – SEÇÃO CRIMINAL

Apelação Criminal nº 453.289-3/8-00
Comarca: São Paulo
Apelante: JRC
Apelada: Justiça Pública

Voto nº 5954
Relator Sorteado

Declaração de Voto (vencido)

– O argumento da embriaguez não
aproveita ao infrator, exceto se
completa e involuntária. A embriaguez
voluntária, dispõe a lei que não elide a
responsabilidade criminal do agente,
porque não lhe exclui a imputabilidade
(art. 28, nº II, do Cód. Penal). Também
não lhe autoriza a atenuação da pena
privativa de liberdade, por não ser
hipótese de responsabilidade diminuída
(art. 26, parág. único).
113

– Nada obsta que a 2a. Instância
conceda ao réu mais do que pleiteou
em seu recurso. É que, sobre favorecê-
lo, isso não causa dano à sociedade,
empenhada também na realização da
justiça, que se resume na fórmula “dar
a cada um o que lhe corresponde em
direito” (“jus suum cuique tribuere”).

– Ao apreciar o mérito da apelação
interposta pelo réu contra decisão
do Júri, pode o Tribunal — à
luz de jurisprudência consagrada
pelo Excelso Pretório — excluir
qualificadora do homicídio, se não
caracterizada (cf. RTJSTF, vol. 103,
p. 697; rel. Min. Soares Muñoz).

– A embriaguez, mesmo incompleta,
exclui a futilidade da motivação na
prática de homicídio (art. 121, § 2º,
nº II, do Cód. Penal).

– Não se configura a qualificadora da
surpresa, no caso de ter sido praticado
o homicídio durante discussão entre
réu e vítima (art. 121, § 2º, nº IV, do
Cód. Penal).
114

1. Da r. decisão que proferiu o MM. Juízo de Direito do
Tribunal do Júri do Foro Regional de Pinheiros (Comarca
da Capital), condenando-o à pena de 16 anos e 4 meses de
reclusão, sob o regime integralmente fechado, por infração
do art. 121, § 2º, ns. II e IV, do Código Penal, interpôs recurso
para este Egrégio Tribunal, no intuito de reformá-la, JRC.

Afirma, nas razões de apelação, subscritas por
dedicado patrono, que a decisão do júri afrontara a prova
dos autos; pelo que, era força decretar-lhe a nulidade.

Mas, a confirmar-se o veredicto condenatório, pleiteia
o reconhecimento da legítima defesa putativa; se não,
redução da pena pela semi-imputabilidade (fls. 560/562).

A douta Promotoria de Justiça respondeu ao recurso
da Defesa, refutando-lhe os argumentos; propugnou, ao
mesmo tempo, a manutenção da r. decisão apelada (fls.
564/572).

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em
meticuloso, esmerado e escorreito parecer do Dr. Agenor
Nakazone, opina pelo improvimento do recurso (fls.
574/581).

É o relatório.
115

2. Foi o réu submetido a processo porque, no dia 10 de
junho de 2002, pelas 21h35, na Rua Joaquim Machado,
nesta Capital, com manifesta intenção homicida, efetuou
disparos de arma de fogo contra a vítima Abdiel Pereira da
Silva, causando-lhe ferimentos de natureza grave, que lhe
foram a causa eficiente da morte.

Reza a denúncia que, na data dos fatos, em razão de
desavença, o réu sacou do revólver que trazia consigo e
disparou-o contra a vítima, que fazia menção de telefonar
para a Polícia.

Instaurada a persecução penal, transcorreu o processo
na forma da lei; ao cabo, submetido a julgamento pelo
júri e convicto de homicídio duplamente qualificado
(fls. 527/532), impôs-lhe a r. sentença de fls. 533/534
a pena de 16 anos e 4 meses de reclusão.

Inconformado com o desfecho adverso da lide penal,
comparece perante esta augusta Corte de Justiça, na
expectativa de anular o julgamento ou obter o
reconhecimento da legítima defesa putativa.

3. A despeito dos bons empenhos de seu patrono, o
inconformismo do réu quanto à condenação não se mostra
atendível, pois que não assenta em fundamento sério.
116

Deveras, não se afigura arrazoada a alegação de que o
veredicto do Conselho de Sentença contraviera à prova dos
autos; ao revés, examinados com tento e imparcialidade, os
autos dão a conhecer, além de dúvida, a responsabilidade
criminal do réu.

Interrogado em Juízo, confessou a autoria do crime,
ajuntando-lhe a motivação: efetuara um disparo “para
cima”, no intento de “assustar a vítima”, porém –– ainda mal!
–– atingiu-a no pescoço (fls. 69/70).

A prova oral retratou os fatos e suas circunstâncias: o
réu, integrante da Guarda Municipal Metropolitana,
desaviera-se com a vítima por questiúncula de trânsito e,
conforme a testemunha Adaílton Ventura da Silva,
efetuara-lhe disparo com arma de fogo (fl. 492).

Com suas palavras concordam as de Alírio Batista
Filho. Testemunha presencial dos fatos, declarou que, ao
tentar a vítima comunicar-se com a Polícia para que
interviesse no caso, o réu acercou-se dela e desferiu-lhe um
tiro no pescoço, a curta distância (fls. 499/509).

Maria Aparecida depôs em consonância com seu
marido, o réu: atravessava a rua quando o veículo da vítima
a atingiu e deu com ela em terra. Esclareceu mais que
durante os fatos houve exaltação dos ânimos e ofensas
(fls. 510/515).
117

A testemunha Nilson Kiss Chiuratto, esta discorreu
dos fatos por modo vário e inseguro e, por isso, os jurados
arguiram-na de falso testemunho (fl. 534).

Os jurados, por ampla maioria de 6 votos contra 1,
rejeitaram a tese de que o réu obrara sob a égide de
legítima defesa putativa.

Em verdade, os elementos informativos e probatórios
entranhados nos autos não delineiam os contornos daquela
excludente de ilicitude jurídica.

As testemunhas Adaílton e Alírio, ajudantes da
vítima, já declararam, no auto de prisão em flagrante, que o
réu, durante a discussão, encaminhara-se, arma em punho,
na direção da vítima (que estava a telefonar) e, ato
contínuo, desferiu-lhe um tiro (fls. 10/11).

Exame com tento e de espaço do conjunto probatório
não prestigia a alegação da Defesa, de que o réu atuara sob
falsa impressão da realidade (supunha estivesse a vítima
armada e o fosse agredir).

Não há negar, decaíram inteiramente de vigor as
palavras do réu: se verdadeira sua versão, já a teria
apresentado na Polícia, onde preferiu recolher-se a
profundo silêncio (fl. 10).
118

Ao demais, indício claro de que não falara verdade
está em que, pretendendo justificar-se, afirmou disparara a
arma “para cima”, com a intenção de intimidar a vítima.
Contudo, aquele que desfecha um tiro “ad astra” não é
costume venha a acertar alvo situado no chão, ressalvada a
hipótese de ser o mais bisonho dos manejadores de arma
de fogo!

Os jurados, que decidem “ex informata conscientia”,
tiveram para si que o réu, sem causa que o justificasse,
tirara a vida à vítima; por isso, merecia condenado.

4. O pleito secundário da Defesa — reconhecimento
da semi-responsabilidade por embriaguez — não procede,
“data venia”.

Como estivesse embriagado ao alvejar a vítima, quer a
Defesa que o réu era isento de pena pela inconsciência de
sua atitude antissocial.

Tal fato, no entanto, não lhe serve de razão escusativa
do proceder.

Cabe notar que a alegação de embriaguez não
favorece autor de crime, exceto se completa e involuntária,
como o dispõe o art. 28, nº II, do Código Penal.
119

Donde a escorreita lição de Damásio E. de Jesus: “Se o
sujeito comete uma infração penal sob o efeito de embriaguez,
voluntária ou culposa, não há exclusão da imputabilidade e, por
consequência, não fica excluída a culpabilidade. Ele responde pelo
crime” (Código Penal Anotado, 9a. ed., p. 118).

Também lhe não autoriza a atenuação da pena
privativa de liberdade, por não ser hipótese de
responsabilidade diminuída (art. 26, parág. único, do Cód.
Penal).

5. A apelação, no entanto, quer-se provida em parte para
afastar as qualificadoras, por incaracterizadas.

Primeiramente, vem a talho ponderar que, no que
respeita à amplitude do apelo do réu, nada impede que a
2a. Instância lhe conceda “mais do que pleiteou em seu recurso.
Isso, a par de favorecê-lo, não prejudica a sociedade, porque
também ela deseja a realização da justiça, dando-se a cada um o
que realmente merece” (Rev. Tribs., vol. 522, p. 323; apud
Damásio E. de Jesus, Código de Processo Penal Anotado, 17a.
ed., p. 424).

Ao demais, que o Tribunal –– em apreciando o
mérito da apelação interposta pela Defesa contra decisão
do Júri ––, possa excluir as qualificadoras do homicídio, é
matéria superior a toda a questão, conforme o persuadem
os brilhantes arestos do Excelso Pretório, comemorados
aqui por suas ementas:
120

a) “Não é nulo o acórdão do Tribunal ad quem que, em
provendo a apelação da defesa, retificou a pena imposta
pelo Tribunal do Júri, desclassificando o crime de
homicídio qualificado para homicídio simples, pois essa
decisão encontra respaldo no item III, letra c, do art. 593
do Código de Processo Penal, combinado com o § 2º do
mesmo artigo, e, bem assim, na circunstância de descaber,
nessa hipótese, recurso pedindo novo julgamento pelo
Tribunal Popular. (...)” (RTJSTF, vol. 103, p. 696;
rel. Min. Soares Muñoz);

b) “A qualificadora do motivo fútil reconhecida pelo conselho
de sentença diz com juízo inscrito no domínio da fixação
da pena, podendo ser desautorizada pelo Tribunal de
Justiça ante apelação fundada no art. 593, III, c do
Código de Processo Penal” (RTJSTF, vol. 123, p. 338;
rel. Min. Francisco Rezek).

6. Duas qualificadoras o conselho de sentença
reconheceu contra o réu: futilidade e surpresa.

O motivo fútil, no entanto, não pode subsistir, uma vez
que, segundo a melhor corrente jurisprudencial, é tal
qualificadora incompatível com o estado de embriaguez
do autor de homicídio.
121

Ora, o laudo de exame de verificação de embriaguez
concluiu que o réu, no momento do crime, estava
“embriagado” (fl. 77 v.). Destarte, não tinha lugar a
qualificadora do motivo fútil, quesito (7º) que os jurados,
aliás, votaram com notória perplexidade: 4 x 3 (fl. 531).

As decisões que, nesses casos, repelem a qualificadora
são francamente majoritárias nos repertórios de
Jurisprudência:

a) “A embriaguez exclui o motivo fútil. Equivale a mesma a
um estado psíquico anormal, se bem que não privado o
agente do entendimento criminoso, mas de qualquer
modo, sem a responsabilidade de muitas variantes na
quantidade do dolo. Não se pode negar, pois, que
a anomalia decorrente da embriaguez prejudica a
investigação da futilidade do motivo” (RJTJSP, vol. 24,
p. 397; rel. Alves Braga);

b) “A perturbação que a embriaguez, mesmo incompleta,
produz na consciência do agente não permite juízo
de proporção entre o motivo e sua ação. Daí a
incompatibilidade existente entre a qualificadora do
motivo fútil e aquele estado” (Rev. Tribs., vol. 584,
p. 321; rel. Diwaldo Sampaio);
122

c) “A embriaguez exclui a futilidade do crime” (Rev. Tribs.,
vol. 609, p. 392; rel. Rezende Junqueira; apud
José Ruy Borges Pereira, Tribunal do Júri, 1993,
pp. 118, 123 e 125).

Fica afastada, pois, a qualificadora do motivo fútil
(art. 121, § 2º, nº II, do Cód. Penal).

7. Também é fato –– impossível de infirmar sem injúria
da verdade –– que vítima e réu discutiram, primeiro que
este a eliminasse com um tiro de revólver.

Depoimentos colhidos nos autos comprovam-no que
farte (fls. 126, 129 e 511).

Mas, é entendimento comum dos Tribunais que a
discussão que precede o crime de homicídio expunge-lhe a
nota da “surpresa”: “inesperado ataque”, mencionou o libelo-
-crime acusatório (fl. 249).

Fazem ao propósito estes acórdãos, correndo em
silêncio infinitos outros, de que estão repletos os volumes
de julgados de nossos Tribunais:
123

a) “Gramaticalmente, surpresa é ataque inopinado
juridicamente, porém não basta que o ataque
seja inopinado. É preciso, além do procedimento
inesperado, que o agredido não tivesse razão para
esperá-lo ou ao menos suspeitá-lo” (RJTJSP, vol. 1º,
p. 217; rel. Gonçalves Sobrinho);

b) “Quando dois homens discutem, com certo calor e com
ofensas recíprocas, é de se esperar qualquer agressão,
de um ou de outro, não se podendo falar em surpresa
se esta vem a ocorrer” (RJTJSP, vol. 51, p. 314; rel.
Camargo Sampaio);

c) “Para a configuração da surpresa –– ou seja o recurso
que torna impossível a defesa do ofendido ––
necessário é, além do procedimento inesperado, que
não haja razão para a espera ou, pelo menos, suspeita
da agressão” (Rev. Tribs., vol. 596, p. 324; rel.
Gentil Leite).

Visto que se não aperfeiçoaram as qualificadoras do
motivo fútil e da surpresa (art. 121, § 2º, ns. II e IV, do Cód.
Penal), cumpre arredá-las do título da condenação do réu.

Autor de homicídio simples (art. 121, “caput”, do Cód.
Penal), e adotada craveira dosimétria da r. sentença
recorrida –– que lhe estipulou a pena-base em 1/6 além do
124

mínimo legal à conta de seus maus antecedentes ––, fixo
ao réu a pena de 7 anos de reclusão.

O regime prisional será o fechado, no início, porque o
mais compatível com sua personalidade –– que encerra
aspectos negativos (cf. fls. 308, 364 e 381) ––, com a
natureza, gravidade e circunstâncias do crime que praticou
e com a quantidade de sua pena.

8. Pelo exposto, dou provimento parcial à apelação para,
desclassificado o crime para homicídio simples, fixar ao réu
a pena de 7 anos de reclusão, no regime prisional fechado,
no início.

São Paulo, 30 de junho de 2005
Des. Carlos Biasotti
Relator Sorteado
PODER JUDICIÁRIO

5
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUINTA CÂMARA – SEÇÃO CRIMINAL

“Habeas Corpus” nº 1.087.912-3/1-00
Comarca: São Paulo
Impetrante: Dr. Walter Passos Nogueira
Paciente: FDSS

Voto nº 8935
Relator

– Se o réu respondeu solto ao processo
(porque razões não havia que lhe
justificassem a custódia cautelar), e
nenhum ato perpetrou no curso da
instrução que o fizesse decair do
“status libertatis”, será mais conforme à
comum opinião dos doutores e ao
magistério da jurisprudência dos
Tribunais conceder-lhe o benefício
de apelar em liberdade (art. 594 do
Cód. Proc. Penal).
126

– Exceto na hipótese de necessidade
cautelar, não é de bom exemplo (nem
talvez legítimo) condicionar o
recebimento do recurso ao prévio
recolhimento do réu à prisão: “O
princípio do duplo grau de jurisdição
atribui ao réu o direito de ver a sentença
condenatória submetida à apreciação do
tribunal, independentemente da condição
do recolhimento à prisão” (Damásio
E. de Jesus, Código de Processo Penal
Anotado, 22a. ed., p. 473).

–“Sem que se caracterize situação de real
necessidade, não se legitima a privação
cautelar da liberdade individual do
indiciado ou do réu. Ausentes razões de
necessidade, revela-se incabível, ante a
sua excepcionalidade, a decretação ou a
subsistência da prisão preventiva (...)”
(STF; Rev. Trim. Jurisp., vol. 180, pp.
262-264; rel. Min. Celso de Mello).

1. O ilustre advogado Dr. Walter Passos Nogueira
impetra a este Egrégio Tribunal ordem de “Habeas Corpus”,
com pleito de liminar, em prol de FDSS, sob o argumento de
que padece constrangimento ilegítimo da parte do MM.
Juízo de Direito da 18a. Vara Criminal da Comarca da
Capital.
127

Alega, na petição de fls. 2/6, que o paciente foi
condenado à pena de 1 ano e 9 meses por infração do art.
157, “caput”, combinado com o art. 14, nº II, do Código Penal,
sob o regime semiaberto.

Acrescenta que não lhe concedeu a r. sentença o
benefício de apelar em liberdade e tampouco apreciara as
teses da defesa, o que, a seu aviso, configurava ilegalidade
remediável por “habeas corpus”.

Ajunta, ao demais, que o paciente é primário, tem
bons antecedentes, ocupação lícita e reside no foro da
culpa.

Pleiteia, destarte, o impetrante à colenda Câmara
tenha a bem deferir ao paciente o benefício de recorrer em
liberdade, restaurando-se o império da Justiça.

À petição inicial foram acostadas cópias de peças
processuais de interesse da ação (fls. 7/36).

O despacho de fls. 38/42 denegou a medida liminar.

A mui digna autoridade judiciária indicada como
coatora prestou as informações de praxe, nas quais
esclareceu que o paciente foi condenado por tentativa de
roubo simples, sem direito de apelar em liberdade (fl. 48).
128

O ofício de informações acompanha-se de novas
cópias de peças processuais de interesse da causa (fls.
49/60).

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em firme e
escorreito parecer do Dr. Paulo Reali Nunes, opina pela
concessão da ordem (fls. 62/65).

É o relatório.

2. A r. sentença, juntada a estes autos por cópia (fls.
28/34), condenou o paciente a cumprir, sob o regime
semiaberto, a pena de 1 ano, 9 meses e 10 dias de reclusão,
além de 5 dias-multa, por infração do art. 157, “caput”,
combinado com o art. 14, nº II, do Código Penal.

Argumentando que, no particular, conspiravam os
requisitos da prisão preventiva, denegou-lhe o MM. Juízo
o direito de apelar em liberdade; daqui sua irresignação.

3. Pelo que respeita à alegação de nulidade da sentença
por falta de apreciação de tese da defesa, é matéria que se
examinará mais de espaço, como em seu lugar, no
julgamento da apelação, já interposta (fl. 35). Fazê-lo aqui,
o mesmo seria que substituir o recurso ordinário por
“habeas corpus”, com grave afronta da sistemática processual.
129

Com efeito:

“A utilização substitutiva do recurso ordinário por
habeas corpus originário produz consequência processual
inafastável: o não-conhecimento do writ” (Rev. Tribs.,
vol. 650, p. 364; rel. Min. Celso de Mello).

Em todo o caso, nisto de sentença, apropositadas
serão sempre estas palavras do eminente Min. Luiz Vicente
Cernicchiaro:

“A sentença deve analisar as teses da defesa, a fim de
a prestação jurisdicional ser exaustiva. Urge, todavia,
ponderar. Se o julgado encerra conclusão inconciliável
com a referida tese, desnecessário fazê-lo expressamente. A
sentença precisa ser lida como discurso lógico. Não há
espaço para itens supérfluos” (STJ; REsp nº 47.474-4/RS;
6a. Turma; DJU 24.10.94, p. 28.790).

4. Assim como a distinta e culta Procuradoria-Geral de
Justiça, em seu parecer de fls. 62/65, sou que a pretensão
do impetrante merece deferida.

De feito, embora condenado por tentativa de roubo,
não está nos autos bem demonstrada a necessidade da
custódia processual do réu para apelar.
130

A r. sentença, ao propósito, exarou: “Não poderá o réu
apelar em liberdade posto que presentes os requisitos ensejadores
de sua prisão preventiva, e ainda face à expressa vedação contida
no artigo 594, do Código de Processo Penal” (fl. 33).

Mas, ainda que se conte, entre os efeitos da sentença
condenatória, o de “ser o réu preso ou conservado na prisão”
(art. 393, nº I, do Cód. Proc. Penal), tem a jurisprudência de
nossos Tribunais proclamado que, em obséquio ao
princípio da inocência (art. 5º, nº LVII, da Const. Fed.),
a regra do art. 594 do Código de Processo Penal deve entender-
-se de forma atenuada: às mais circunstâncias prefere a
indicação objetiva da necessidade do prévio recolhimento
para apelar, visto que “não é legítima a prisão anterior
à condenação transitada em julgado, senão por exigências
cautelares indeclináveis de natureza instrumental ou final”
(Antônio Magalhães Gomes Filho, Presunção de Inocência e
Prisão Cautelar, 1991, p. 86).

Destarte, parece de bom aviso conceder a ordem ao
paciente para revogar-lhe a prisão cautelar, permitindo que
aguarde solto o julgamento de sua apelação.

Fica-lhe, por isso, deferida a ordem de “habeas corpus”.
131

Faço-o após detido exame das circunstâncias do caso,
à luz da jurisprudência do Colendo Supremo Tribunal
Federal, de que é paradigma o ven. aresto a seguir
reproduzido por sua ementa:

“(...) A privação cautelar da liberdade individual reveste-se
de caráter excepcional, somente devendo ser decretada em
situações de absoluta necesssidade.

A prisão preventiva para legitimar-se em face do nosso
sistema jurídico, impõe — além da satisfação dos
pressupostos a que se refere o art. 312 do CPP (prova
da existência material do crime e indício suficiente
de autoria) — que se evidenciem, com fundamento
em base empírica idônea, razões justificadoras da
imprescindibilidade dessa extraordinária medida cautelar
de privação da liberdade do indiciado ou do réu.

Sem que se caracterize situação de real necessidade,
não se legitima a privação cautelar da liberdade
individual do indiciado ou do réu. Ausentes razões
de necessidade, revela-se incabível, ante a sua
excepcionalidade, a decretação ou a subsistência da prisão
preventiva (...).” (Rev. Trim. Jurisp., vol . 180, pp. 262-
264; rel. Min. Celso de Mello).
132

5. Pelo exposto, concedo ao paciente ordem de “habeas
corpus”, a fim de que aguarde em liberdade o julgamento de
seu recurso, expedindo-se-lhe alvará de soltura, se por al
não estiver preso, confirmada a medida liminar.

São Paulo, 6 de julho de 2007
Des. Carlos Biasotti
Relator
PODER JUDICIÁRIO

6
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

QUINTA CÂMARA – SEÇÃO CRIMINAL

Apelação Criminal nº 993.07.033932-2
Comarca: São Bernardo do Campo
Apelantes: JEG, WPR, MSS, CNS e Ministério Pùblico
Apelados: Os mesmos

Voto nº 11.422
Relator

– É cabível o recurso de apelação,
contra sentença absolutória, com o
fim exclusivo de modificar-lhe o
fundamento legal (cf. José Frederico
Marques, Elementos de Direito
Processual Penal, 2a. ed., vol. IV,
p. 312; Millennium Editora).

– A palavra da vítima passa por
excelente meio de prova e autoriza
decreto condenatório, se em
conformidade com os outros
elementos de convicção reunidos no
processado.
134

–“A palavra da vítima em sede de crime
contra os costumes, por conseguinte,
representa elemento de suma valia e
significativa importância” (Fernando de
Almeida Pedroso, Prova Penal, 2a. ed.,
p. 79).

– O autor de extorsão mediante
sequestro (art. 159 do Cód. Penal),
crime da classe dos hediondos, deve
cumprir sua pena sob o regime inicial
fechado, por expressa disposição do
art. 2º, § 1º, da Lei nº 8.072/90.

– Em bom direito, é princípio
inconcusso que, sem a certeza da
materialidade e da autoria da infração
penal, ninguém pode ser condenado.
Esta é a regra de ouro de todo o
julgador.

– Dúvida, em Direito Penal, é o outro
nome da falta de prova, o que obriga
à absolvição, conforme aquilo do
venerável prolóquio: “In dubio pro
reo”.

1. Da r. sentença que proferiu o MM. Juízo de Direito
da 1a. Vara Criminal da Comarca de São Bernardo do
Campo, condenando MSS e WPR a cumprir, sob o regime
integralmente fechado, a pena de 15 anos de reclusão, por
infração do art. 159, § 1º, do Código Penal; EG, à pena de 20
135

anos de reclusão, por infração do art. 159, § 1º, e art. 214,
"caput”, do Código Penal, e absolvendo CNS da acusação de
infratora do art. 159, § 1º, conjugado com o art. 288, parág.
único, do Código Penal, interpuseram recurso de Apelação
para este Egrégio Tribunal, no intuito de reformá-la, os
réus e o ilustre representante do Ministério Público.

a) MSS e EG, em esmeradas razões subscritas por
diligentes e cultos patronos, afirmam que o conjunto
probatório, em extremo frágil e precário, não lhes
autorizava a condenação; pelo que, pleiteiam absolvição,
ou redução da pena ao mínimo legal, facultada a
possibilidade de progressão de regime (fls. 1.501/1.505);

b) CNS, nas razões de recurso, afirma que, em tudo o
mais exemplar, num ponto a r. sentença admitia reparo: o
dispositivo legal da absolvição devia ser o inc. IV do Código
de Processo Penal, e não o VI (fls. 1.606/1.619);

c) O órgão do Ministério Público, esse pugna pelo
provimento do apelo para que sejam condenados todos os
réus conforme os termos da denúncia (fls. 1.415/1.442).

As partes responderam aos recursos (fls. 1.461/
1.464, 1.467/1.473, 1.479, 1.456/1.546, 1.569/1.595 e
1.633/1.639).
136

A ilustrada Procuradoria-Geral de Justiça, em
abalizado e magnífico parecer da Dra. Eliana Montemagni,
opina pelo provimento parcial dos recursos (fls.
1.641/1.653).

É o relatório.

2. O órgão do Ministério Público ofereceu denúncia
contra os réus porque, no mês de julho de 2005,
associaram-se em quadrilha armada, com o fim de cometer
crime de sequestro.

Reza a denúncia que os réus, entre os dias 22 e 27 de
julho de 2005, em frente à casa da vítima (com endereço
protegido pelo Provimento nº 32/00, da Corregedoria Geral
da Justiça), e também nos cativeiros da Rua Carajás
(Jardim Regina) e Rua Cachoeirinha, em São Bernardo do
Campo, obrando em concurso e unidade de propósitos
com os adolescentes EBS (vulgo “Dudu”) e ESM, e outros
seis indivíduos não-identificados, em quadrilha armada,
sequestraram por mais de 24 horas a vítima Silvana
(protegida pelo Provimento nº 32/00, da Corregedoria-Geral
da Justiça), com o fim de obter em proveito comum
vantagem pecuniária de R$ 50.000,00, como condição ou
preço do resgate.

Narra ainda a denúncia que os réus, em 22.7.2005, à
noite, em frente à casa da vítima (com endereço protegido
pelo Provimento nº 32/00, da Corregedoria-Geral da
137

Justiça), com idêntico “modus operandi”, subtraíram para si,
mediante grave ameaça exercida com emprego de arma de
fogo, uma jaqueta, carteira e telefone celular, pertencentes
ao namorado da vítima Silvana (protegida pelo Provimento
nº 32/00, da Corregedoria-Geral da Justiça).

Dela consta ainda que os réus, nas mesmas condições
de tempo e lugar, com o mesmo “modus operandi”,
subtraíram para si, mediante grave ameaça exercida com
emprego de arma de fogo, pulseiras, colar, brinco e anéis
de prata, pertencentes à vítima Silvana.

Descreve mais a denúncia que, durante o período em
que a mantiveram em cativeiro, o corréu EG constrangeu a
vítima Silvana, mediante violência e grave ameaça exercida
com emprego de arma de fogo, a praticar e permitir que
com ela se praticassem atos libidinosos diversos da
conjunção carnal.

Por fim, é dos autos que, durante o cativeiro, o corréu
EG, mediante violência e grave ameaça exercida com
emprego de arma de fogo, constrangeu a vítima Silvana à
conjunção carnal.

Instaurada a “persecutio criminis in judicio”,
transcorreu o processo em forma legal; ao cabo, a r.
sentença de fls. 1.393/1.407 condenou MSS, WPR e EG, e
absolveu a corré CNS da imputação contida na denúncia.
138

Inconformados, porém, com o êxito desfavorável da
causa-crime, apelaram as partes.

3. São dignos sempre de encômios os advogados que,
sem perdoar a trabalho nem a sacrifícios, põem timbre em
desempenhar, com desvelo, seu múnus profissional: nesse
número merecem incluídos os ilustres patronos dos réus.
As razões de apelação, contudo, não se mostram poderosas
para convelir os sólidos fundamentos da r. sentença de
Primeiro Grau.

Segundo a comum opinião dos doutores e a tradição
ininterrupta do Direito, a condenação haverá de assentar
em prova suficiente da materialidade, da autoria do fato
criminoso e da culpabilidade do agente.

No caso de que se trata, os elementos probatórios
reunidos no processado autorizam a convicção da
responsabilidade criminal dos réus.

Ao revés do que sustentam as razões de recurso, os
elementos de prova dos autos evidenciam que os réus e
seus comparsas, com a consciência de formar uma unidade,
puseram por obra a traça de perpetrar extorsão mediante
sequestro.
139

Na real verdade, em seu interrogatório policial, o
corréu Milton confessou amplamente a prática delitiva, ao
afirmar haver concorrido para a prática da extorsão
mediante sequestro, na condição de locatário do imóvel
usado como cativeiro. Ainda: nomeou seus comparsas
“Du”, “Dudu”, Cátia, Elvis e “Baguete” (fls. 99/101).

A vítima — em cujos lábios repousa, pelo comum, a
expressão real dos fatos — não apenas narrou, em Juízo,
com precisão e verossimilhança, os dolorosos transes que
viveu, senão ainda reconheceu, sem hesitar, os réus como a
seus autores (fls. 686/701): Wellington era incumbido de
cuidar da vítima (fl. 691); Milton foi quem impediu que a
vítima fosse estuprada (fl. 692); Eduardo, o que, no
cativeiro, praticou atos libidinosos na vítima (fl. 692);
Cátia, sua conhecida de infância, teria sido quem mandou
Milton ao cativeiro para manter contacto com sua família
(fl. 694); “Eduardo foi quem me estuprou” (fl. 703).

Não há estranhar tenham suas declarações granjeado
extraordinário relevo no processo!

Deveras:

“A palavra da vítima é a viga mestra da estrutura
probatória, e a sua acusação, firme e segura, em
consonância com as demais provas, autoriza a
condenação” (Rev. Tribs., vol. 750, p. 682).
140

Pelo mesmo teor, as declarações de ERL —
testemunha protegida pelo Provimento nº 32/00, da
Corregedoria-Geral da Justiça (fls. 722/740).

Em face de prova de tal jaez, as negativas dos réus,
mais do que pueris, afiguram-se injuriosas ao senso-
comum. As razões que invocaram em prol de sua defesa,
na real verdade, não deram estrutura a um fato: apenas
teceram uma fábula.

À derradeira, cabe relevar que, podendo os réus
defender-se na Polícia, embrenhara-se Wellington em
inexplicável silêncio (fl. 305), como soem obrar
unicamente os culpados.

A materialidade e a autoria do crime de extorsão
mediante sequestro ficaram comprovadas que farte pela prova
oral (coesa e homogênea), e a confissão extrajudicial do
corréu Milton.

Mesmo que, só por argumentar, lhes fosse a prova da
culpabilidade alguma coisa frágil e etérea, como inculcam
seus diligentes advogados, era a que bastava para a edição
do decreto condenatório.

Em verdade:
141

“É despropositado exigir, para o acolhimento da pretensão
punitiva, grau absoluto de certeza; basta a prova
suficiente, isto é, a que, reduzindo ao mínimo desejável a
margem de erro, conduz à formulação de juízo de certeza
possível. Significa dizer: juízo revestido de confortadora
probabilidade de exatidão” (TACrimSP; As Mais Recentes
Decisões-5, p. 4; rel. Souza Nery).

O crime de extorsão mediante sequestro foi cometido
nas circunstâncias do art. 159, § 1º, do Código Penal,
porquanto a vítima permaneceu com seus algozes por mais
de 24 horas (“rectius”, 28 dias).

Era de preceito, logo, a decretação da procedência da
denúncia.

4. Da mesma forma, não pode prosperar o pedido de
absolvição do réu com respeito ao crime do art. 214, “caput”,
do Código Penal.

Com efeito, a prova arrebanhada nos autos induz à
certeza de que o apelante Eduardo cometeu o grave delito.

Declarou-o a vítima, com desusada firmeza; levada à
presença do acusado, prontamente o reconheceu como a
seu autor (fls. 703).
142

A palavra da vítima, por isso, tem valor excepcional.

Discorrendo do ponto, escreveu Fernando de
Almeida Pedroso:

“A palavra da vítima em sede de crime contra os costumes,
por conseguinte, representa elemento de suma valia e
significativa importância” (Prova Penal, 2a. ed., p. 79).

Pelo mesmo teor, o magistério da Jurisprudência:

“Nos crimes contra os costumes, a palavra da vítima surge
com coeficiente probatório de ampla valoração, ainda mais
se corroborada pelos demais elementos dos autos” (Rev.
Tribs., vol. 666, p. 295; rel. Jarbas Mazzoni).

5. A douta Promotoria de Justiça, em minuciosa e bem
elaborada peça jurídica, pretende a condenação dos réus
CNS, MSS, WPR e EG quanto aos crimes de que foram
absolvidos.

Argumenta que as provas dos autos também lhes
definiram a responsabilidade pela prática dos crimes de
que foram absolvidos; pelo que, era bem condená-los
(fls. 1.415/1.443).
143

Louvável, por certo, muito louvável o esforço da
digna e talentosa Promotora de Justiça que firmou as
razões de apelação — Dra. Eliana Faleiros Vendramini
Carneiro —, em pugnar pela restauração da ordem legal
que reputou violada!...

Suas razões, porém, suposto deduzidas com brilho e
bravura, não lograram desvanecer as fortes e graves
dúvidas que, malferindo o conjunto probatório,
aconselharam a douta Magistrada a pronunciar o “non
liquet” e dispensar absolvição plena à ré Cátia, e parcial aos
corréus.

De que a apelada Cátia houvesse participado do
sequestro não há nos autos senão vagos e aéreos rumores,
inidôneos para justificar-lhe a condenação. A própria
“vítima e seus familiares” — conforme ressaltou a honrada
Juíza de Primeiro Grau — “não se convenceram do
envolvimento de Cátia” (fl. 1.403). Sua absolvição, portanto,
foi corolário do princípio de interpretação da dúvida.

O fundamento legal da absolvição da ré era mesmo o
inc. VI (atual VII) do art. 386 do Código de Processo Penal:
“não existir prova suficiente para a condenação”.
144

Sua alteração para o inc. IV — inexistir prova de “ter
concorrido para a infração penal” —, como postula a Defesa,
não pode ser deferida, por não ter a sentença reconhecido,
com absoluta segurança, que a ré não foi autora nem partícipe
dos crimes que lhe imputou a denúncia.

Também falecem provas de que os réus (Milton,
Wellington e Eduardo) tenham concertado com os
adolescentes a subtração dos bens “do namorado de Silvana”
e os “da própria vítima quando a levaram para o cativeiro”,
pois “não estavam presentes nestes momentos nem há evidências
que tenham sido beneficiados com eventual partilha do produto
dos crimes”, anotou a r. sentença (ibidem).

Por fim, não ficou liquidada a imputação atribuída a
Eduardo, de que, além do crime de atentado violento ao
pudor cometido contra a vítima Silvana, também a
estuprasse. O argumento da sentença não é possível
refutar, sem do mesmo passo afrontar as regras da
prudência humana: afirmou a vítima que “não houve
penetração vaginal” (fl. 1.402).

Tem esta matéria por fiador não menos que ao exímio
Nélson Hungria: “Não há estupro sem a introductio penis intra
vas” (Comentários ao Código Penal, 5a. ed., vol. VIII, p. 106).
145

6. Em bom direito, é princípio inconcusso que, sem a
certeza da materialidade e da autoria da infração penal,
ninguém pode ser condenado. Esta é a regra de ouro de
todo o julgador.

Ora, circunda o conjunto probatório, não há negá-lo,
espesso véu de dúvida. Mas, dúvida, em Direito Penal, é o
outro nome da falta de prova, o que obriga à absolvição,
conforme aquilo do venerável prolóquio: “In dubio pro reo”.

A absolvição dos réus-apelados, no caso, foi obra de
cautela, que sempre deve orientar o Magistrado perante
dúvida razoável, conforme proclama a jurisprudência dos
Tribunais:

a) “Se a prova é dividida, existindo razoável dúvida
quanto à participação do réu no crime descrito na
denúncia, a absolvição se impõe” (JTACrSP, vol. 65,
p. 327);

b) “Revelando-se precária a prova colhida na fase do
contraditório, impõe-se a aplicação do non liquet, com
a consequente absolvição do acusado” (JTACrSP, vol.
53, p. 468).

No que tange aos réus-apelantes, condenou-os a
ilustre Magistrada, forte nas provas recolhidas sob a égide
do contraditório, com notável senso crítico.
146

As penas estão corretas, já que fixadas dentro dos
limites legais, conforme as circunstâncias do caso e a
personalidade dos agentes.

O regime prisional que a r. sentença lhes estipulou
(integralmente fechado) era o que correspondia à vontade da
lei (art. 1º, ns. V e VI, e art. 2º, § 1º, da Lei nº 8.072/90).

A recente Lei nº 11.464, de 28.3.2007, contudo,
atenuou o rigor da Lei dos Crimes Hediondos (Lei nº
8.072/90) no que respeita à progressão no regime prisional
de cumprimento de pena. Se o sentenciado primário tiver
dela descontado já 2/5 — ou 3/5, se reincidente — e
conspiram os mais requisitos legais, faz jus ao benefício
(art. 2º, § 2º).

Portanto, será bem alterar a disposição da r. sentença
e reconhecer aos réus o direito à progressão de regime de
cumprimento de pena, nos termos da lei.

Salvo esse pouco, mantenho no mais, por seus
próprios e bons fundamentos, a r. sentença que proferiu a
distinta e culta Magistrada Dra. Ana Lúcia Siqueira de
Figueiredo.
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7. Pelo exposto, dou provimento parcial ao recurso da
Defesa para fixar aos réus o regime fechado, no início,
mantida no mais a r. sentença de Primeira Instância; ao
apelo da Acusação nego provimento.

São Paulo, 25 de abril de 2009
Des. Carlos Biasotti
Relator
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