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p. tít.R. somente o último se referiu às mulheres.abandonados pela Inquisição em 1646. aludia à punição das mulheres compreen. não esclarecendo mais. Que a Vida do vizinho e da vizinha sidade Federal da Bahia. BNL. Lígia. 1987. A coisa obscura. Coimbra. fls. a CAPÍTULO 7 recomendar discrição na punição das sentenciadas. apedrejavam-nos no cada- falso. 13. XXV. e recebiam ao mesmo tempo.2 Com exceção das improvisadas 214 215 . Mulher. lembra-nos Sônia Siqueira. Liv. o Brasil ficaria mesmo sem sua própria Inquisição.III. Évora e Goa. México (1571) e Carta- gena (1610). sem prejuízo da ação inqui- sitorial. julgava-se apta a controlar os desvios de fé no trópico distante. porém. 62.Regimento. eao Terreiro no Regimento de 1640. Gregório de Matos. cogitou-se seriamente o estabelecimento de um tribunal da Inquisição no Brasil. contudo. códice 869. no tempo em que Filipe IV da Espanha governava Portugal. E na segunda metade do século XVII. jamais em atos lésbicos . Apud Bellini. mul- tidões que escarneciam os condenados. 4. O tribunal da Colônia não foi. Para levar à Praça. contemplavam-nos na fogueira. distribuídos em lugares estratégicos daquele império colonial..Da fogueira ao fogo do Inferno: a alforria do lesbianismo em Portugal. onde funcionavam tribunais do Santo Ofício em Lima (570). MORALIDADES sodomia in quo exponitur doctrina nova de sodomia joeminarum a tribadismo distincta (J 700). didas em sodomia. sodomia e Inquisição Em cada canto um freqüentado olheiro no Brasil Colonial. Dissertação de mestrado apresentada na Univer.B. parág. espreita e esquadrinha 65. Limitava-se. além do projeto. em Lisboa. Comunicação E SOCIEDADE COLONIAL apresentada na International Conference on Lesbian and Gay His- tory. XXV dedicados à praxis judiciária no nefan- do. 1985. XXVque. É o que nos informa o padre Luigi-MariaSinistrari em sua obra De - INQUISIÇAO. escuta. (1640). Ação inquisitorial na Colônia: instituições Entre 1621 e 1622. permanente e com idênticas prerrogativas às dos tribunais de Lisboa. Dos 13 capítulos de tít.61. Ao contrário da América espanhola. já era passada "a oportunidade de ereção de tribunais nas colônias". Claro está que a manutenção do parágrafo em 1774 visava somente às mulheres compreendidas em nefandos hete- rossexuais. Salvador. especialmente em função da resistência da Inquisição lisboeta que. Mott. extasiadas. Pesquisa.1 Nunca houve no Brasil o extraordinário e mórbido auto-da- fé. espetáculo que aglutinava no terreiro do Paço. 361-364. L. O Regimento de 1774 manteve o mesmo parág. De nada valeriam as insistências do Rei Filipe: as invasões flamengas no Nordeste e a ascensão dos Bragança ao trono português em 1640 enterrariam definitivamente aquele projeto. autônomo. Cf. 1646. a lição intimidatória que o Santo Ofício apreciava ministrar ao povo católico. Cf. 63. p. Toronto. 64..Seçãode Reservados. 36-37. 13 do tít. criados entre 1541 e 1560.

a estrutura eclesiástica seus propósitos originalmente anti-semitas o espírito da Contra- 216 217 . que se inaugurou efetivamente a indiretos" daquele tribunal. Nunes. o fato é que também em Portugal adotou-se igual nossos moradores. assim. nem passavam pelos minuciosos visita especial à Colônia em fins do século XVI. o poder de julgar. os documentos . pois. Também faltaram à Colônia os temíveis tuava suas próprias visitações nas diversas regiões de PortugaU "cárceres secretos". Já no final pos andaram visitando os territórios diocesanos. 6 Enquanto mentos esclarecedores do episódio. e remetendo uns poucos suspeitos para parecia representar. o que poderia ter despertado a cobiça dos Filipes. Pedro Leitão. Santos. o Santo Ofício no Brasil. eis Segundo Francisco Bethencourt. Muito se José Gonçalves Salvador. novos. Antônio Barreiros visitou Olinda. e acrescentando a como inquisidores". não pertenciam necessaria- especula sobre as razões que teriam levado Lisboa a ordenar uma mente aos quadros inquisitoriais. abrir devassas. programa expansionista efetivado pelo Santo Ofício na última "estratégia acompanhada da nomeação de bispos e vigários locais década dos quinhentos. D. antes que lá chegasse o primeiro visitador inquisitoria1. miriam oficialmente semelhante função.ao qual também recorriam Reino. pelo menos até o final do século XVII. Coimbra. simultaneamente efe- Brasil foi bem modesta. por conse- Somente na década de 1560 é que se reduziriam os tribunais in- guinte. mas não podiam sentenciar nenhum expressivo o número de comerciantes e senhores de engenho de "herege". ânimo de expandir o catolicismo. Mas foi sobretudo a partir de 1579 que os bispos assu- Bertioga e Rio de Janeiro. foi com a visitação inquisitorial à Bahia e a os julgassem afetos à Inquisição. Pedro Leitão esteve em Itaparica. entre 1591 e 1595. D.o que longe esteve de eliminar a estreita deixou a Inquisição de atuar no Brasil desde meados do século colaboração prestada pela justiça eclesiástica. Pedro Sardinha visitou Ilhéus. mas nem por isso se escusaram de prender suspeitos de heresia e instruir processos Apesar de agirem em nome do Santo Ofício. E. a partir da instalação da diocese baiana. XVI. inclusive as visitas e inspeções diocesanas.lO Perseguições rapaces contra os cristãos- procedimento na segunda metade do século XVI. subordinados ao Conselho bem guardados cofres do Santo Ofício lisboeta. para donça nos finais do século XVI. frei em 1590. há anos dedicado à recons- objetivos que norteariam tanto a visitação ao Brasil quanto a tituição detalhada da máquina inquisitorial lusitana. em nome da dos anos 1560 o segundo Bispo de Salvador.9 Sônia Siqueira a vincula afirmar-se que a função inquisitorial dos bispos foi o mecanismo ao interesse da Igreja em "integrar o Brasil no mundo cristão" e utilizado para suprir a ausência de um tribunal do Santo Ofício na ao objetivo de "investigar sobre que estruturas calcava-se a fé" de Colônia. possuíam alçada sobre visita às notícias da prosperidade colonial que então chegavam ao rodos os crimes do foro eclesiástico . e sujeitos à cia de um tribunal na vasta Colônia. ao" menos em princípio. Igreja e do Santo Ofício. à falta de docu- exames exigidos aos membros do Santo Ofício. segundo a apropriada expressão de atuação mais formalizada do Santo Ofício no Brasil. em- Igreja Colonial. padre Mateus Santo. e D. Pernambuco e Espírito inquisitoriais ao vigário e cura do Rio de Janeiro. e autorizados a contra eles a exemplo do que ocorreu com alguns réus de Heitor ouvir denúncias. que a controvertida visitação não quenos tribunais distritais sobrepostos "à malha administrativa possuiu qualquer atributo especial senão o de incluir-se no vasto eclesiástica" (Évora. iam os prelados a inspecionar lico "para conhecer das causas que nas ditas partes do Brasil" fossem "tocantes à Santa Inquisição". São Vicente.4 os problemas da catequese e do povoamento.8 Antônio Barreiros delegado do Santo Ofício e inquisidor apostó- É certo que. e a ausên- bora com poderes limitados à instrução de processos. Consolidada no Reino. nomeando-se D. Coimbra e Lisboa. Tomar. . Estratégia análoga seria adotada no Brasil em meados dos Sônia Siqueira nos informa que desde aquela época eram os quinhentos. não obstante seja correto origem judaica estabelecidos na região. Mas desde 1551 nossos bis- jurisdição de eventuais visitadores enviados de Lisboa. investigação da fé. Parece-nos. os primeiros atuação inquisitorial portuguesa no conjunto até meados do sé- ensaios do Santo Ofício reinol deram-se pela organização de pe- culo XVIII. Mas nem por isso Geral do Santo Ofício . Aproveitou-se. presos encaminhados pelos vigários.5 A rigor. D. sendo criminosos do foro civil -. Anita Novinsky vincula a supremas autoridades da Igreja Colonial. ressalvadas a enorme debilidade característica da bispos encarregados dos negócios inquisitoriais na Colônia. a encenação do Santo Ofício no agilizar a instituição do Santo Ofício que. prender suspeitos. receber os Furtado de Mendonça oriundos de visitas realizadas em 1590. Lisboa. os bispos eram apenas "agentes Pernambuco. Lamego e Porto). "procissões de fé"3 organizadas pelo visitador Furtado de Men- pré-existente. ao fazerem tais visitas. a tortura e. delegando poderes Lisboa.depositados quase sem exceção nos quisitoriais a Évora. remetê-los a Lisboa quando No entanto.

etc. o inquisidor era recebido com a sujeição de todas as portuguesa deixou de enviar visitadores especiais para o Brasil. Por acabaria recambiado para Lisboa antes de visitar as capitanias do meio de coações. Talvez por sua conduta arbitrária aos olhos do Conselho. dos membros da Câmara. a Inquisição ordenaria diversas inspeções nos domínios nial era. rol minucioso dos crimes que deviam ser. Jerônimo Teixeira percorria os Açores convocando os fiéis a confessarem e denunciarem as culpas ati- e a Madeira. sobretudo dos decurso do século XVII. Pedro da Silva. da ocorrida em 1618-1620. Inquisição. fez o que colaboração com o Poder. uma "forte experiência visual e auditiva às populações" e avi- Seja como for. fazia apregoar o famoso monitório. ambas em rados com a simples notícia de que se ~proximava a comitiva in. e era deputado do Santo Ofício quando guardar o sábado . do governa. ou mesmo os indícios de tais crimes. efetuada pelo licenciado Marcos dos em potenciais hereges pela temível Inquisição. rezar orações judaicas.14 Pernambuco da. utilizava-se o o nomeou o inquisidor-geral para visitar não só a Bahia e Per. A década de 1590. mecanismo essencial para provocar remetendo-os presos para Lisboa. Diogo Silva em 1576. proporcionavam Sul e as ilhas do Atlântico. Rio de Janeiro e as ilhas de tava nenhum dos delitos morais e sexuais que vimos pertencer à Cabo Verde e São Tomé. abandonando por que os confitentes espontaneamente apresentados ficariam livres completo as instruções do Conselho Geral. mas também São Vicente. mesma.y examinou denúncias e processos da quisitorial ou com a perspectiva de que algum preso recente os "grande inquirição" realizada na Bahia. monitório organizado por D. de- créscimo das atividades do Santo Ofício na Colônia. mas também dos cristãos-velhos. À época da primeira visitação. Enfim. blasfêmias e culpas me. um extenso ro- nores e apenas instruir os processos contra os demais acusados. autoridades coloniais ao seu poder. período de até 30 dias em coloniais" -. inclusive a bestialidade e a molície. do Santo Ofício e ordens do Bispo D. forma que os demais visitadores o seriam Outras visitações inquisitoriais seriam enviadas à Colônia no nos séculos seguintes: com o pânico da população. completamente submetida à autoridade do Santo lusitanos do além-mar. Negro. nem foi fenô- 218 219 . assinalou "uma viragem na orientação das visitas". do desembargo do Paço. muitos fugiriam das capitanias inspecionadas..Reforma. o visi- lhe pareceu conveniente ou razoável . assim. então Em todas as cidades e vilas Heitor Furtado faria o que era a dirigidas às ilhas e aos territórios ultramarinos. Tamaracá e Paraíba. feitas as admoestações. visitas enviadas a Pernambuco e às capitanias do Sul. Maranhão e Rio de homenagens. cluídas da jurisdição inquisitorial.lJ seguida à convocação geral. tumes suspeitos de criptojudaísmo: escusar-se de comer carne de do para o cargo.J7 dor. Ao mesmo tempo praxe das visitações inquisitoriais. Solene. Angola e outros lugares. O quase total desaparecimento das visitas inquisitoriais ao Brasil dos ouvidores. Em Jorge Pereira visitar o reino de Angola por comissão do inquisi- dor-geral. convertidos to.. contudo. Assim agiu Heitor Fur- trópico. juramentos e reverências do bispo. foi tão subjetivo em sua atuação. dos funcionários da administração. "jejuar o jejum da Rainha Esther".13 Fixava-se. 162715. censuras e roteiros de culpas.16 Mas a para o sertão. e pouco depois 0596-1598) seria a vez do padre nentes ao Santo Ofício sob pena de excomunhão maior. teiro de "pecados heréticos". assim agiriam os visita dores inquisitoriais. buco. afixava o Edital da Fé à em que Heitor Furtado de Mendonça visitava a Bahia. em 1646. e ali não fal- nambuco. José Gonçalves Salvador fala-nos de duas século XVI. expresso num sem-número com exceção da extemporânea visitação do Pará. bandeando-se para as capitanias do Sul. o auto-exame da comunidade. atemorizando-a e estimulando sua gou doente na Colônia e tardou a iniciar os trabalhos. posteriormente ex- cabendo-lhe julgar os casos de bigamia. tudo nos indica que a Inquisição outro lado. embora só conheçamos a documentação cristãos-novos. De partir de meados dos seiscentos. Pernam- porta das igrejas e mandava lê-lo semanalmente aos domingos. court. pois. a exemplo dos cos- acompanhado do governador Fernando de Souza.12 Mas Heitor Furtado. informa-nos Bethen- Ofício enquanto duravam os trabalhos. Heitor Furtado foi recebido na Bahia e em vavam a memória coletiva de acordo com as verdades da Igreja. Exercera funções de capelão fidalgo d'el Rei e porco. Na visita do Teixeira na Bahia. na segunda metade do século XVII não significou. as Antilhas de Castela. apavo. porém. recém-nomea. notificados ao Santo Heitor Furtado chegou à Bahia aos 9 de julho de 1591. A estrutura civil e eclesiástica do poder colo. que só lhe faltaram de penas corporais e do confisco de bens desde que fizessem mesmo a ereção de cadafalsos e a exemção de penas capitais no plena e verdadeira confissão de seus erros. que che. Ofício. tado de Mendonça. confiada a Geraldo José de Abranches entre 1763 e 1769. sob encomenda viesse acusar na mesa. limitadas. e Anita Novinsk.vício das "autoridades tador anunciava o tempo da Graça. Suas atribuições eram.

embora variados procedimentos as afastas- Guardadas as proporções. convocava os acusados rial. isentava os cio no Brasil. E de outro do réu. tor. simultaneamente à estruturação da Igreja culpados afetos à Inquisição é que o visitado r procedia à prisão Colonial. máquina inquisitorial e organizou-se a estrutura judiciária da Igre. funcionando a segunda como mecanismo ancilar da primeira quisição e da Igreja no Brasil reproduzir-se-ia também no estilo naquilbque extrapolava a competência do Juízo Eclesiástico. lembra-nos Luciano Figueiredo. também a Igreja portuguesa apresentava melhor organização E nada disso. XVII. para os quais se previam o envio do "sumário de testemunhas" liares" do Santo Ofício em todo o país. aperfeiçoou-se a procediam. paz e ino- XVI. Segundo Caio Boschi.rigorosos. emendar os Com efeito. em relação ao pecado nefando e à bigamia. permaneceu "letra morta": vários administrativa nessa época. vemo-Ia no o visitador pouco argüísse as testemunhas e os culpados. o que. que. adultérios.18 E tribunal de Lisboa e eventual prisão dos futuros réus. "regimento do auditório". reproduziu-se aqui o mesmo fenômeno que vimos sumário. Infonna-nos Francisco Bethencourt tório que incluía 40 crimes passíveis de serem delatados aos que também em Portugal e nas ilhas se interromperam definitiva. caso em que os acusados eram seqüência da Restauração até 1660 e dos encargos crescentes que entregues aos comissários do Santo Ofício para notificação ao tais visitas representavam numa conjuntura financeira difícil. como diz Londofio. a prender suspeitos e sobre eles colher informações para a ratificação e dava-lhes penas correspondentes. encontrava-se já consolidada "a rede de comissários e fami. na segunda metade do século ocorria.). incestos. porém. no mais.. etc. a visita diocesana em muito acabariam "alimentando o Tribunal do Santo Ofício lisboeta com lembrava a inquirição do Santo Ofício. como bem notou Caio César Boschi. convém frisar. foi a partir de mea. Além dis. A denúncia era. comunidade contra os indivíduos incursos nos itens do De um ládo. as visitas encontradas pelas agências oficiais de poder para funcionarem na diocesanas apresentavam um rito processual mais simples e vasta Colônia.me no exclusivamente colonial. limitadas basicamente a colher testemunhos da ocorrer na Metrópole. rição diocesana ostentava. implementando regularmente suas sodomitas e bígamos coloniais que encontramos presos e próprias visitas pastorais e alimentando os tribunais do Santo Ofí. desde os atinentes ao Juízo Eclesiástico - mente as visitas desse gênero após 1637. à medida que se aperfeiçoava a estrutura eclesiástica. mostra-nos Siqueira e Novinsky. visitadores do Bispo.20 Paralelamente ao desdobramento de pecuniárias. pois. que se mul.21 de todas as heresias. por exemplo. conforme a natureza do navam-sefreqüentes e periódicas as visitas pastorais. A articulação concreta entre os aparelhos judiciários da In- ja. a "razão de ser da dos dos seiscentos. juízo eclesiástico até que os inquisidores os mandassem buscar. Em outros aspectos. proceder a confitentes dos castigos mais . a1covitagens. um certo "modus 220 221 . das visitas diocesanas. passava em segredo. para os comissários do Santo.espécie de moni. tudo se visitas diocesanas praticamente substituiriam. inexistindo praticamente as confissões e o chamado tiplicaram as habilitações de comissários e familiares do Santo Ofí. delito. Ofício. remetendo os autos para o vigário da Vara Eclesiástica ou lado. época em que a Igreja Colonial era ainda incipiente. . incitar o povo com admoestações à religião.24 Somente nos casos de terceiro ou quarto lapso e de dioceses e prelazias. embora auxiliar dessas visitas à engrenagem do Santo Ofício. e outros. "período da graça" que. condenados na Inquisição durante os séculos XVII e XVIII cio de réus ". de sorte que as visitas aos oficiais do Santo Ofício e a prisão dos culpados no aljube do inquisitoriais tornar-se-iam cada vez mais dispensáveis. repressivos e pedagógicos: "ensinar a fé e católica doutrina fora rantes" e complementares da instituição inquisitoriaJ. o visitador lavrava os termos de culpa.22 A função explicitado na lavratura do termo de culpa.fato só mentação que lhes deu o sínodo baiano de 1707. encarregados uns de instruir processos. . das visitas diocesanas. se já funcionavam nesse sentido desde o século maus.até os resultou parcialmente do estado de guerra vivido pelo Reino na delitos da alçada inquisitorial.19 Em resumo. em geral a mando dos comissários. e conservar bons costumes. identidade dos delatores e o próprio teor de seu crime .suspeitos de heresia". ordenadas pelos bispos. Assim lembra-nos ainda Bethencourt que. na visita do Santo Ofício. inquirições e ordenar prisões de réus tocantes ao foro inquisito. de fato. de modo que o acusado desconhecia a as antigas visitações inquisitoriais. ainda que atrasado em algumas décadas. especialmente após a regula. montava-se a máquina inquisitorial no Brasil. as cência (."25Além disso. e consideradas as dificuldades sem da visitação inquisitorial. agindo como "tribunais itine. Coligidos os depoimentos. concubinatos. a começar pelos objetivos culpados de crimes mais gravosos". como em Portugal. ou devassas.. visita". segundo o autor. a inqui- próprio "Regimento do Auditório Eclesiástico".26 E. e sobretudo no século XVIII.23 so.

agindo os Colônia ou nas metrópoles ibéricas como ante-sala de numerosos jesuítas como freqüentes colaboradores do Santo Ofício. trabalhos. padre Francisco Carneiro. nada disso faltou às controvérsias entre a Companhia e os siásticos. muitas vezes recusavam-se a absolver os nefandos. senão externas e crimi. casamento e celibato. apesar de serem justiças diferentes e de ser o Juízo neo salientarmos a prestimosa colaboração que sempre deram os . efetuando dili- instando para que se apresentassem à Inquisição. encontramo-los sempre a rece. do sacramento. embora recusasse o cargo de inquisidor Bahia no final do século XVII e no início do XVIII. Na visitação do século XVI encontramos de Heitor Furtado de Mendonça. feitas na mesa do santo tribunal e usadas como prova cias à parte. a Igreja para o "êxito da missão inquisito. acumulando-a. sição e os Jesuítas. sacra- confessionário. a denunciar cristãos-novos como susp.por meio de outros mecanismos. jesuítas judiciária de delitos contra a Igreja. No século XVII o experiência judiciária na Igreja. inacianos e delegados sacramental. delatar os colegas de ofício às autoridades inquisitoriais. sobre- Mas a Igreja colaboraria ainda com a Inquisição . Vários dos que ouviam confissões de mulheres outrora pro- culos de solidariedade internos. E. vários indivíduos que.sobretudo je.31 Mendonça ou Marcos Teixeira. a baiana de 1640 ninguém menos do que o provincial da Com- confissão sacramental transformava-se. eis funções que na prática não Inquisidores na segunda metade dos seiscentos . que.34 Divergên- nais.27 vocadas por "maus confessores" não hesitavam em mandá-las Colaborava. Divergências sobre métodos com a função de comissário do Santo Ofício. maculando a pureza dogmático da Igreja sobre as moralidades e as crenças do coti.30 De mecanismo gências e prisões desde 1653. trabalhara em prol do estabelecimento do plos ilustres: João Calmon. a eram muito distintas. isto é. nando suas acusações como raiz de diligências e processos contra deiros substitutivos das clássicas visitações de Heitor Furtado de os chamados solicitantes.29 Juízes ecle. obrigatória e periódica. jaciendi inquisitorial".eitos de papel dos confessores.um capítulo. Já em Portugal a convivência do Santo Ofício majoritariamente saídos da hierarquia eclesiástica? entre as mais poderosas agências eclesiásticas do Reino fora por Não estiveram muitos pt:elados a alternarem cargos na. Eclesiástico subordinado aos bispos e a Inquisição ao Rei.32 nentemente . urdida pelos inacianos. principal comissário da Inquisição na Santo Ofício em Portugal. fazendo as vezes de inquisidor no trópico. não mais íntimas e espirituais. devedor de Eclesiástica e no Santo Ofício? Para citarmos apenas dois exem. embora sentenças. inquisidores. cientes do forte cunho heretical da. funcio- rial" no Brasil. orientados por confessores .justamente os que.em seus domínios. antes de obter o de julgar e punir. ou sobre o papel dos cristãos-novos em Por- cargo de deputado da Inquisição postulado em 1760.33e na chamada "grande inquirição" expiador dos pecados e reconciliador do fiel com Deus. do qual fizeram parte o famoso processo sitorial. ber penitentes enviados pelo visitador para as longas "confissões suítas -. 222 223 . parece ter e inquisidores foram grandes aliados na cruzada tridentina patro- sido essencial o papel dos confessores no desvendamento de cinada pela Monarquia lusitana . afinal. em fonte de outras panhia. tugal. mumente exerceram comissarias do Santo Ofício. inclusive. visitadores. especialmente por meio de suas devassas. funcionava na inquisitoriais andariam ombro a ombro na Colônia. a recomendar que alguns pecadores fossem à mesa do muitos viessem já absoltos e penitenciados espiritualmente do Santo Ofício para lá externarem suas culpas confessadas na.perma. em termos especificamente coloniais. o próprio Inácio de Loyola. tendo sido desembargador da quadro iria mudar. paradoxalmente. pois. verda. possuía vasta de Lisboa para um membro da Companhia. criptojudeus. No Pará e no Maranhão. não milicianos da Companhia de Jesus ao "reto ministério do Santo perseguiam todos os mesmos propósitos? Não eram os quadros Ofício" desde o primeiro século. da luta pela hegemonia no interior da Igreja portuguesa. Justiça muito tempo amigável. 1674 e 1681. A confissão Mas. bem da verdade. erradas" sobre fornicação. ção.28 e Geraldo José de Abranches. os reitores dos colégios co- queles atos. Na visita processos inquisitoriais. procuravam a mesa inquisitorial para relatarem suas gerais de toda a vida" que a Inquisição saía incluir em suas "opiniões. agarravam as penitentes no próprio ato da expia- diano. trabalhando para a afirmação do núcleo inúmeros solicitantes . favores a D. se brigavam na Metrópole. tudo. e. por exemplo. especialmente quanto ao "problema judaico". célebre visitador do Pará. Em casos de sodomia agigantava-se ainda mais o mental. fora incumbido de presidir os confissões. então. alterando a vida das comunidades e rompendo seus vín. não seria errô- fosse. contra Antônio Vieira e a própria suspensão do tribunal entre exercera a vigairaria-geral em São Paulo e Mariana. João UI. instalando-se um grave conflito entre a Inqui- Relação Eclesiástica antes de pleitear e obter a comissaria inqui. E não é de admirar que assim o Enfim. das rusgas entre jesuítas e dominicanos e.

ainda que sem tribunais. embora contrariassem as instruções de rogados. a Inquisição logrou impor mais rigorosas o réu pecador. às galés e a outros castigos. averiguações poli- séculos XVI e XVIII. expiação coletiva. À ameaça geral que o simples nome do Santo Ofício repre. e mesmo de faltas do Conselho Geral: promoveu "procissões de fé" na Bahia e em graves externadas com sincero arrependimento. livrariam de penas vida de todos ao julgamento público. o que por si só já carregava em para confessar pecadilhos. eram suficientes para expiatório das inquirições. ao conclamarem os fiéis à gia do medo". --- Lentamente. fissões de culpas exigidas pelo visitador lembravam a muitos a dações cotidianas. Hei.. após assistirem a tais episódios nos domingos e feriados daqueles anos . como vimos. ficava a população espremida entre os obstante' faltassem à Colônia os ritos espetaculares que o Santo castigos do Céu e da Terra e. ainda que "a negra casa do colidissem com eventuais denúncias de outrem. que as de. heresias. incluindo a leitura pública das sentenças e fez cristalizando na sociedade colonial. expondo a no "peóodo da graça". ou se sua sinistra presença. descalços. senão provas judiciárias transcritas nos autos. e diante da confissão de miudezas. ou a Cumplicidades. eis o que o visitador houve por bem realizar na jovem Colônia. Desnorteada. os visitadores as faziam passar por grandes momentos de seriam as visitas. sorvedouro de réus em toda a Colônia. ou mesmo observamos essa confusão popular entre os aspectos judicial e as narrativas da vizinha América espanhola. "alívio da consciência". a Inquisição se foi Pernambuco. pânicos: confessar e delatar delatar amigos e parentes. tradicional expiação da Quaresma. recolhendo enorme confusão nos espíritos. mas se feitas com atraso. Homens e mulheres com vela na mão. aplicavam peni- 224 225 . Ofício. pois. não eram falas de reconciliação do Santo Ofício se fazia sentir na própria vizinhança. Não é de admirar que muitos procurassem o visitador sob pena de excomunhão maior. É nas visitações do Santo Ofício que melhor vaivém de notícias e pessoas entre Portugal e o Brasil. comissários e familiares. apregoavam seus objetivos doutrinários e pedagógicos. visíveis por exemplo no ritual das visitações. uma tidão da América portuguesa e outras dificuldades. E à medida que se organizavam as engrenagens inquisitorial magia sacramental: confissões em tudo distintas do sacramento da e eclesiástica no Brasil. Não por acaso. envolvidas numa falsa dor. no .35 Não e crenças". regados de pregar a palavra divina. criavam a ilusão de serem meros sacerdotes encar- resultava. Se feitas vassas na Igreja se tornaram freqüentes e periódicas. as tais con- sentava para os súditos de Portugal juntavam-se variadas intimi. tolices que mal interessavam ao Santo demasia a consciência da população. Mas quer-nos parecer que de pouca valia ciais. Embora muito distintas da confissão sacramental. Embora fossem elas expedições centena de réus dos mais longínquos rincões brasileiros entre os judiciárias. antes de tudo. episcopais. vendo-se no juiz da Inquisição um simples confessor de tor Furtado acrescentaria às censuras de praxe outras tantas que almas pecadoras. desbarre-. forjando-se uma atmosfera de Tanto nas devassas eclesiásticas como nas visitas inquisitoriais. Os hábeis inquisidores também não se faziam se revelaram muito eficazes. onde só havia pesquisa inquisitorial de eram todos obrigados a delatar os crimes inscritos nos monitórios. Pela ação de seus próprios executar vários condenados a açoites pelas ruas das vilas e das visitadores. tribunais itinerantes ou. vergava-se às Ofício utilizava no Reino para alimentar sua imagem terrificante. vários indivíduos apressaram-se a confessar. plenas e verdadeiras. se considerarmos a vas.mínimo. Os ritos exteriores das visitações provocavam. do que Bennassar chamou de "pedago. as devassas ou os comissários. o vontades do Poder. espectro da Inquisição associado ao segredo dos delação. Na visita de 1591-1595. poderiam levá-lo Rocio" ficasse na distante Lisboa. Juízes da Igreja com o poder de aplicar penas nhadas em descobrir os "hereges". dades e abjurarem de "leve suspeitos na fé" à vista da multidão.36 ao desterro. sobretudo porque nelas se abria a manter aceso em nossos colonos o pânico inspirado pelo inquisi. que a vigilância dos múltiplos "familiares" penitência. tados. no trópico. não fosse a rela. ou pelas periódias devassas cidades visitadas. aliás.tempo em que Heitor Fur- A complexa máquina inquisitorial organizada na Colônia tado de Mendonça assombrou o Nordeste. lubri. aos açoites. rem com Deus. temerosa de ambos. a ouvirem consternados o relato de suas intimi- ficada pelo apoio dos jesuítas e dos confessores sacramentais . montaria uma fabulosa máquina de vigilância.com Deus. abrindo a possibilidade de todos se reconcilia- tiva adesão popular ao apelo das autoridades eclesiásticas empe. pôde funcionar com alguma eficiência. voltados para a "emenda dos costumes da infâmia que recaía sobre os condenados do Santo Ofício. oportunidade de confissões espontâneas. -----------------_ . A conivência da sociedade seculares. ao pavor da morte na fogueira. do confisco de bens e sem omitir os repressivos. processos. .

Bartolomeu zinhança. Surpreendemos. segundo disse. E aproveitou o ensejo para também acusar que deles faziam os incautos.. examinando certas preferiu omitir. atiçavam velhas desavenças. era homem de 32 anos. escravo Guiné. vam os dois de tibiras . casado e morador na Os que atendiam à convocação do visitador. reavivavam ini. dez cruzados mal falava o português e teve de acusar por meio de um chegaram às mãos do escrivão para subtrair os autos da Justiça e intérprete. sentimentos de culpa e mava os fanchonos? Seja como for.o que Antônio Gomes confessou ter feito antes que era perseguido por Joane. Inquisição. que <lo Inquisição era um tribunal de fé. para escapar à fogueira do Santo Ofício. Mas deixemos de lado as conjecturas: temeroso de ser denun- versas preguiçosas. para com ele cometer o o processo fosse despachado pelo vigário da Vara. era escrivão da câ- motivações do confessar e do acusar na visitação dos quinhentos. Numa serviço" à Inquisição. Mas o que ambos confessaram ao visitador. ho- pulas passadas. fossem do coisa em tal situação: o que disse Duarte em sua língua fora Santo Ofício. usando Duarte o "papel de macho". chegavam a cerca de 4. mas pelo fato de a moça ser useira em proferir as É-nos possível recopstituir um pouco dessa massa de sen. sitorial para confessar seus erros e acusar os alheios.37 devassadas. Duarte resolveu denunciantes . gum consentia. Antes de tudo pelo medo de ser acu. por sua vez.testemunhas dos segundos casa. assumindo a imagem para os queimarem". contou que queimá-los . traduzidos na linguagem do Poder. eximir-se de culpa? Dificilmente poderíamos assegurar qualquer Contudo. Gaspar Rodrigues . ainda. homossexuais a relembrarem o número de có. Bígamos a rem nefandices no Colégio. Também por recearem delações. rapaz de 20 anos que fora intermediada por Bartolomeu de Vasconcelos. paixões. quantia que não dava por 226 227 . era o pânico generalizado. que disso não tratava a sociedade em geral. as solenidades da convocatória Guiné e deles não gostava .o que viria a ocorrer no dia seguinte -. a quem engravidara sete ou oito meses antes. onde servia aos jesuítas. insistindo com os amigos . um atiçar de memórias. desfazendo amizades. rompendo laços de vi. Saberia realmente o escravo boçal ao povo. e mais. português de 30 anos. Aguçavam. antes de estimular cumplicidades ou resistências.800 réis. Um dos raros escravos a fazer denúncias a operação que envolvera vários amigos e ex-amos de Gaspar e Furtado de Mendonça foi o angola Duarte.e falsas . o que mais provocavam as visitas.. A traduzido por um português que bem conhecia os jimbandas da simples chegada dos visitadores. primeira mulher. e possíveis ciado . Muitos colonos agiam com essa de sodomia a Francisco Manicongo. cruzados uma soma elevada? Em moedas de prata portuguesas. quiçá solidárias. Mas.que jamais defenderam a fornicação: eis atitudes acusar os possíveis amantes e parceiros de infortúnio. sendo mecanismos de defesa individuais ou coletivos: fugas. antigos Violante Carneira. que vimos ocorrerem nas populações África como ele. cônego da Sé de Salvador e amante de mizades. se O romance com Violante bem podia trazer problemas para o convertiam em perigosas ameaças para cada indivíduo e para a cônego. Antônio Gomes. até os índios do lugar chama- convencer antigas . embora quase todos infamado por travestir-se nas ruas de Salvador. não pelo amancebamento em si.. que Duarte tivesse andado com o próprio Manicongo. siástica que cinco anos antes haviam perpetrado em favor de sado. Duarte sempre andava com o acessos de culpabilização. no fundo. indivíduos a mem que facilmente cedia a quantos negros lho requestassem . escravos da defensivas.. palavras da sacra na boca do amado . Duarte mentia ao soubessem.sinal de que seus hábitos sexuais eram mentos de que nada havia a temer se confirmassem a morte da claramente identificados à moda nativa.feitor que perseguira e violentara um es~ sentando-se ao visitador ou a delatarem os outros para "mostrar cravo negro. temerosos de delatar erros alheios ou confessar os próprios.tências espirituais aos pobres pecadores. afetos. Bartolomeu de Vasconce- as inquirições e visitas minavam as solidariedades. arruinando los e Antônio Gomes compareceram no mesmo dia à mesa inqui- lealdades familiares. desdizerem' o que haviam dito sobre os prazeres do sexo em con. E não seria impossível. reinvenção de histórias a serem contadas . notáveis tal Joane no tempo em que ambos serviam à Companhia. sendo por isso acusado no foro diocesano. ciente de que o nefando "era caso. Despertavam rancores. o que leva"a muitos a se anteciparem às denúncias apre. enfim.. preconceitos morais que. foram atos de corrupção na Justiça Ecle- algumas espécies de medo. por vezes. jimbanda que vimos candura apavorada em face dos visitadores. eram movidos por grandes complicações. pactos de fama geral que os jesuítas tinham vendido o segundo para evita- silêncio. fossem da Igreja. a fim de acertarem as confissões. os monitórios e os pregões iogo geravam uma atmosfera recém-chegado de Angola que o Santo Ofício português quei- de vigilância.o que nosso clérigo timentos contraditórios que a todos assolava. apressando-se a Bahia. Eram dez nefando. o que de modo al. Morador na Bahia. mara do Bispo..

filho do acu. terminaria condenada a ouvir sua filhos. lançara grande carga ziam-no em meio às confissões. sendo que o cônego estavam já casadas pela segunda vez na Bahia. revelando-se autênticos colaboradores da Inquisição. teriam ocorrido pena na igreja e degredada quatro anos para fora da Bahia. com a única desculpa de que. e na segunda.. absolvido! Somente Violante Carneira sairia tada. "simplesmente". exemplo de Ana e Manoel.41 Assim o fez Francisca Fernandes. ou dela não fossem infamados era. muitos outros confessariam vezes a penetrara em lugar proibido. tornara a deixá-la sem dar notícia. Por outro lado. se apressavam a delatar amigos e parentes com confissões e denúncias ansiosamente esperadas pelo visitador. qualquer hipótese de sodomia consumada. difi. estava lhes impossível garantir que algum rapazola não fosse à ~esa bêbado. Mesmo que não fossem são da esposa e assumir a responsabilidade pelas remotas nefan- vistos na prática do nefando.38 Mas também não era uma soma há quase cinco anos. Entre os praticantes da so. lavrando-se em separado o bigamia no Peru e. que. anteriormente livrara da Justiça. mostrando-se subservientes fazer a vontade de seu marido". dices. clérigos. asseguraram acolhidas pelo Santo Ofício como prova de submissão ao Poder. taram as numerosas confissões no período da graça. ao mesmo tempo. Mas nossos antigos corruptos Misto de pavor e sentimento de culpa foram as confissões temeram mais que o necessário: o visitador ouviu suas confissões de Ana Seixas e seu marido.40E triste destino era reser- outrem podiam chegar aos ouvidos do inquisidor. Fa- pelo marido.44 Pobre casal para denunciá-los de perfeitas sodomias.42 E algo parecido foi a denúncia de Méscia desprezível. crítica ao 228 229 . a exemplo do ocorrido apavorado . às vezes. "trabalhador de e mandou-os seguir em paz. admitiu a pobre moça. mas. tivessem deixado de confes- por gente tão temerosa do Santo Ofício como do Inferno.39 Quanto ao acusado Gaspar Ro- enxada e foice" na capitania de Tamaracá.43 Acusar para de- aproveitou a oportunidade para acusar de somítigo o feitor que fender: eis o que muitos faziam. então inquisitorial. Até mesmo intimidades conjugais jamais vistas por com o fanchono André de Freitas Lessa. Manoel jamais derramara sêmen em seu "vaso posterior". associava a Fernandes. na primeira ocasião. acabaria vítima de um longo processo. Passados dois dias denúncias e as confissões dos quatro "delitos morais e sexuais" Francisca apressou-se a desmentir a irmã aflfffiando que. -. a sarno período' da graça ou omitido detalhes em suas confissões .. no tempo em que eram recém-casados. o cunhado ao denunciá-lo.. Contudo . para comprar um escravo. infâmia e morte. empurravam a população para as Salvador e Olinda. tão logo ou- viam o monitório ou assistiam a qualquer penitência pública em Medos variados. esposa do tarem suas idas à mesa inquisitorial para delatarem outras pes- marinheiro Antônio Monteiro. im- culpas de entes queridos. que valia no mínimo 12 a 13 de bígamo. das quais resultaram inclusive três para "suas torpezas e luxúrias". minorar as Mas sobre todos os medos. desconcer- do qual seria. Assim o fizeram Manoel Álvares e Pero perava" um pânico difuso e geral. pois ambas julgamento de "tão abominável crime". Antônio voltara para sua companhia e com ela vivia mil-réis naquela época. Manoel Franco.defesa de fornicação. ceramente. que falara "sem malícia". mal conheciam pelo nome. dizendo que fora já punido por ou por via de acusações formais. quando Manoel por duas Escravos. o fito de aliviar suas consciências e. sempre bem sado. hábil ou sin- useiros em trocar de amantes em curtíssimo espaço de tempo. pauperização. que durante os 14 anos de casamento sempre mantivera "có- chamuscada dessa história: acusada de usar palavras sagradas pulas naturais" com o marido. já o dissemos. Domingas Fernandes. voltando a viver com Francisca após fazê-la vir termo de denúncia.. não faltaram indivíduos que. embora admitissem a culpa de Domingos. no que consentira Ana "para e delatariam com medo de acusações. fora "instigado pela carne". O primeiro era genro. domia isso foi absolutamente corriqueiro.. fossem quiméricos ou razoáveis. pois. abandonada havia mais de 20 anos soas. Bartolomeu e Antônio confessaram sua participação Barbosa contra. delatores do velho Domingos Fernandes por "defesa Inquisição à tortura. a modo de minorar suas culpas. trêmula à presença de Heitor Furtado para confessar.afastando. tratando-se inclusive de E a isso ligava-se o hábito de boa parte dos confitentes aprovei- "muito bom cristão". funcionários. portanto. e o segundo. No mesmo cilmente poderiam assegurar-se do absoluto silêncio de parceiros dia da confissão de Ana apresentou-se Manoel a confirmar a ver- que. mais recorrentes nessa visitação . se avaliarmos globalmente as de Portugal. apavorados com a inquisição.fez questão de frisar e arrependidos em face do inquisidor. enfim. acusados de sodomia. c?ntra. sendo vários deles "cumprindo sempre no vaso natural" . apesa.exemplo. Disso resul- da fornicação". Com efeito. confessadas vado aos que. os ex-maridos de duas amigas. Ana deve ter chegado drigues.. Sua irmã. Os únicos deslizes. a quem acusou de no caso e pediram perdão ao visitador por terem obstruído o bígamos objetivando livrá-las de idêntica acusação.

motivos de fé ou moral do que por atraso de pagamentos e coisas neira espontânea. suas Motivada por ódio confesso foi também a denúncia do mercador tripas. ex-alfaiate Pero Dominguez . que valia menos centenas de relatos apresentados ao visitador. compareceu o lavrador Diogo Mon. ao dos acusados: 78 confitentes contra 208 denunciados. ao voltar buiu a calúnia a um inimigo capital. rastreamento dos próprios erros. dizer".e por frustrada paixão por outro gou à mesa uma certidão de bons costumes assinada por Fernão homem.O piores inimigos para o acusarem no eclesiástico. sodomia parecem-nos muitas vezes eivadas de mágoa e obsessão teiro dizendo que Gaspar.celibato eclesiástico.45 Meses depois. porque pelo menos. menos por despercebidos aos vizinhos. eis algumas razões número de indivíduos apresentados "na graça" foi muito inferior para várias denúncias feitas ao visitador. também movida por ftlrte desprezo pelo marido . levando o amigo a denunciá-lo ao Santo Ofício por conversas antigas e fatos remotos. embora fosse pecado. que. lembrando-se cido o prazo da graça.convocando seus sogro. e não rixas de vizinhos. a jovem Maria Grega acusaria o esposo de só possuí-Ia Cardim. lembrança de que devia. a extraordinária vigilância que carac. Por uma simples galinha. finalmente. sem privilégio dos bem aquinhoados.46 várias vezes acusado. bigamia e sodomia -...47 preconceitos e o reavivar de rancores . estariam a confirmar esses números? Especialmente o medo de Embora incitasse desavenças na comunidade. Desfeita a dúvida. mortal.49 E. a Inquisição dese- confessar. "dando a entende). era dado a pra. que detestava o nada fez senão lembrar ao intrépido senhor que era grave heresia rapaz a ponto de tentar matá-lo à base de "frechadas". a maioria da popu. Acu- denunciá-lo na mesa inquisitélrial. então reitor do Colégio baiano. com o aval da família. dá-nos boa medida dessas motivações. e pagando "dez cruzados para as despesas do confirmar a ruína das solidariedades locais. Francisco Luiz. a ser alvo de denúncias de sodomia e ali. reforçando um processo que sações de bigamia. assim. Foi esta. Diante de tamanha petulância. ofício de sirgueiro em Salvador. Exames assunto. pois ouvira-o di. apesar de todas as garantias dadas pelo Santo Ofício java acusações verdadeiras e fundamentadas. seu amigo e compadre. ainda que "no ouvir aos que se apresentassem voluntariamente. de longa viagem. entre. A denúncia de Luíza d'Almeida contra seu compadre zer certa vez que preferia ser chamdo de "cabrão cornudo" que Fernão Cabral. a bem da verdade. o afloramento de Santo Ofício". de uso profano de palavras sagradas e até de corria na Justiça Eclesiástica. baraçosas. que o era".condição sine qua non para o êxito do Santo Ofício em sua luta contra a comunidade.50 230 231 . dívidas. e pediu ao visitador que por detrás. nosso "fornicário" acabaria abjurando de leve extenso número de indivíduos acusados nos vem outra vez suspeito na fé. levando os pobres acusados a situações no mínimo em- guejar contra Deus e talvez a praticar sodomias. o de 80 réis em 1590. padre Bastião da Luz. apresentC1U-se Gaspar Pacheco ao visitador que a tal "heresia" não passara de inábil tentativa de sedução. O que sempre inquiria os delatores sobre suas relações com os acusados. Arrogante. mãos e pés. por ela acusado de "defeRder que o incesto não de somítigo. lavradores e senhores lação parecia cultivar a vã esperança de que seus erros passariam costumavam. Gaspar Pacheco. que. veremos que o Inimizades. aqui de Taparica. achou-a casad~ segunda vez por arranjo do geral que lhe fabricara "falsamente os autos" . Fortes inimizades teriam levado um rico senhor de engenho outros tantos o faziam por rancor sentimental.48 admitindo que. a versão de nosso humilde réu. teimara com o sapateiro Francisco ros confirmam-nos. Francisco Luiz recusou-se a pagar o de consciência. ainda. Heitor Mendes contra sua esposa IS'lbel Gomes quando. terminaria absolvido pelo visitador. acusar-se com alguma freqüência. mesmo preso e Deus não tinha corpo . E a contribuir decisivamente para a defasagem do gênero. E nem sempre as querelas envolvendo dívidas eram entre confitentes e acusados despontavam os "sodomitas". eximindo-se de confessá-los de ma. pequenas disputas. vigário. jurar pelo corpo imortal. mas jamais cometera o pecado nefando. E. ressuscitado e glorioso de Cristo. costumava jurar pelo corpo de Deus. Se muitos delatavam por se verem lesados na vida material. de fato. Atri. vingativa. A lheres abandonados e destratados por cônjuges ou amantes. acusações que bem nos sugerem ciúmes de homens e mu- e blasfêmias durante a visitação do Santo Ofício e antes dela. Fernandes em que dormir com uma prostituta não era pecado terizava a nascente sociedade colonial. vação popular. Igual acusação faria ainda agisse com justiça. jamais pelo "vaso natural". que usava o dúvida os mais apavorados com as penas inquisitoriais. e como não dirimiam a questão. ven. tudo isso se achava na base das "defesa da fornicação". o senso agudo da obser. as murmurações e o exercício de memória que resolveram apostar uma galinha e perguntar a religiosos sobre o todos eram instados a fazer por exigência do inquisidor. era pecado". Mercadores. Encontramos. Heitor Furtado sua irmã Francisca Grega. Os núme.

e apenas 9% dos bígamos acusados eram social. lhante transgressão. eram os bem-aquinhoados que e negras. oprimidos . mais que de indivíduos precipuamente visados pelos Inquisição e sociedade: espelho das hierarquias denunciantes. juntamente com os setores sarem ou delatarem na mesa inquisitorial. Já os pobres da Colônia. Assim agia a Inqui. (48%) e confessavam na graça 07%). mal ousavam fazer denúncias 07%) ou confissões Metrópole. a rigor."[queixosas] de se não exe. autoridades dos confitentes e 48% dos acusados de se casarem segunda vez eclesiásticas. portanto. pequenos funcionários. a sodomia foi entre esses se e delatar os suspeitos de heresia. Escusavam-se os ou dito de outro modo. de numerosos criados. e sobretudo contra os sodomitas mento em face do visitador. o jogo das confissões e denúncias exprimia nhamento de tipo sociológico. e deles se aproveitaria a Inquisição para levar avante ções sexuais com gente poderosa. voltada contra a própria sociedade que pobres e subalternos da primeira visitação compunha-se. convém mais Mas. fanchonos. Amedrontada pelo intermediários de advogados. a bigamia era um crime popular. No extremo oposto das culpas. altos funcionários da governança local. a comunidade tam.foi muito acusada de faltas morais e Já no século XVI. dos 32 acusados da mesma grei. abria-se o caminho para o "reto ministério do Santo Ofício" gente da governança ou do grande comércio. escravos. mente 15% dos acusados pertenciam à grei dos senhores de enge. índios. ao menos que confessaram desvios morais ao visitador. clérigos. preconceitos contra as mulheres solteiras garem que tinham muito a perder. sujeitos às vontades sexuais dos que sobre eles tinham do- 1591 não estabelecia discriminação de nenhuma espécie ao con. já o dissemos. Por temerem mais o Santo Ofício.em particular. lhe alimentava de réus. Por outro lado. Afinal. preferindo amancebar-se sem maiores riscos. privilégios e as lealdades em favor da nova ordem inquisitorial. no entanto. ticado sobretudo por pequenos comerciantes. e. ultrapassando 50% dos cutar o castigo neles". escravos e forros sodomizados por amos e senhores. so. 75% nho. as hierarquias sociais. sodomias. (20%). desconhecendo. Os miseráveis da Bahia e de Pernambuco foram acusados anotou o funcionário' dos Estaos . envolver os principais da terra: dos 29 indivíduos da elite colonial sição em todos os tempos e lugares. uma vez salientar. Medos e ódios. por jul- moralidades do trópico. para sua ação desbastadora de crenças e ricos de admitir segundos casamentos? Evitava a população de m~ralidades em nome da Fé e da Igreja. veremos que todas as precauções e fielmente a realidade social: indivíduos de posses e status dificil- vontades do Santo Ofício não passavam de ilusão. A população mente expunham os interesses envolvidos no casamento a seme- miserável e superexplorada da Colônia . ção do século XVI. apostasia e transgressão dos crimes o mais denunciado e o mais confessado em toda a visita- "costumes de fiéis cristãos". mas o foram sobretudo por suas rela- da Colônia. os principais grupos sociais de ne- fandos arrolados na visita foram os servidores (20%) e os cativos o Edital da Fé afixado por Heitor Furtado de Mendonça em 03%). também a sodomia foi o grande crime a vocar o povo para os trabalhos da visitação. Qualquer que fosse o "grau.ge pertenciam às camadas médias da 232 233 . unidos em regra por laços sendo vivo o primeiro cônju. Na distante no cotidiano. vinganças e desagravos. • acusá-los desse crime? Decerto que não. "principalmente as mulheres" . mínio. contra os que preferencialmente davam mostras de aquiescência e arrependi- exaltavam as virtudes da luxúria. autoridade e obediência no plano confessou bigamias. os que mais delatavam eram inúmeras as razões que levavam os indivíduos a confes. O elevado índice de nefandos sua missão pedagógica. 48% o fizeram por em princípio. nenhum potentado colonial Suspensos os laços de afeto. se submetermos a população visitada a um 5Squadri. todos deveriam confessar. provocada em suas rixas internas. tibiras e quimbandas. artesãos ou funcionários menores da administração pública. perfazendo 41% dos denunciados. criados . temerosos de que houvesse represálias vindas de cima ou o povo esteve à beira de revoltar-se nas ruas de Lisboa ao ver de que a engrenagem do Santo Ofício viesse ajuntar-se à opressão suspensa a aplicação de açoites em 24 sodomitas recém. condenados pela Inquisição.5l Os preconceitos do Reino seriam ainda os delatados por esse crime. que lhes moviam seus algozes do dia-a-dia. Não por acaso. 50% o foram por estado e preeminência" dos indivíduos. donde vinha a mor parte dos estigmas aqui adotados. dissolvendo-se provisoriamente os. invejas e clUmes. visitador. especialmente pela prática do nefando. contra os que depreciavam o casamento. pra- sexuais. em contra partida. desclassificados. de parentesco. mercadores e fazendeiros. Nesse caso. Eram esses.forros. religiosos e trabalhadores livres assalariados: 35% dos delatores e bém deixaria aflorar os preconceitos que vimos caracterizarem as 40% dos confitentes. trabalhadores livres. juízes. idêntica razão.

que duvidavam mesmo de mens que as haviam hostilizadô no passado. na prediletos da Inquisição. dependendo dos acusados. Longe de suspendê-los. indica-nos mais uma vez que as somente poucos ousaram delatar os desvios de outrem. ses crimes. a visitação confitentes em. delatora das fanchonices de Maria de Lucena. quanto grupo. denunciaram bastante (23%). Mônica. já nessa época o casamento na igreja estava bem mais morta a suspensão dos privilégiEls apregoada no Edito da Fé. e ao final do testemu. tificados pela população em geral. da capacidade colaboracionista de "homens naturalmente para incriminá-los ou levá-los a confessar na mesa de Heitor Fur- inferiores". recebendo a No tocante à cor ou à etnia dos personagens da visita. a bem da verdade. os delitos morais pareciam ser.seriam poucos. 81% dos confitentes e 77% dos delatores. se "era que por supostas condutas heréticas. difundido entre o povo do que normalmente se supõe. ou a índia boradoras da Inquisição. à primeira vista. como iriam defender a forni. especialmente os ho- fitentes. foram pouco acusadas (18%) e confessaram em pe- eram ampla maioria entre os delatores (68%) e alternavam com quena .sociedade. em diver- cos. camos um exato equilíbrio entre casados e solteiros acusados de pular. assuntos morais e sexuais. surpreenderíamos outros nativos ou afri. acusador de dois escravos nefandos. escusando-se de incriminar os 234 235 . longe de sugerir sua e negros não confessaram nenhum crime moral ao visitador. que mais apareciam nos processos co- sobre a posição social. e alvos . exceto quando sodomizados por bran. tado. fitentes e 91% dos delatores. foram eles os mais acusados Quanto à participação das mulheres. proposições errôneas sobre o sexo. a 20% que também para elas o Santo Ofício era perigoso e. os que assumiriam atitude tão do os cristãos-novos um quase sinônimo de judaizantes. se apareciam pouco como delatores des- cia. sido justamente por fraudarem o sacramento matrimonial.o que. corajoso angola que denunciou Francisco Senão novos. Menos visados pelos colonos. e maior adequação à moral oficial. No entanto. somados. paradoxalmente. Com respeito à naturalidade. quando se reunia a mesa para avaliar o crédito do depoi. por serem mais iden. Mas morais ou sexuais? Outra deve ser a reposta: possivelmente. espelhava-os fielmente. Sempre que um "boçal" ou nativo depunha. mais mento. Em sintonia eram marinheiros. e possivelmente noutros quinhentista só poderia se concentrar na população masculina: domínios do monitório inquisitorial. 83% dos acusados. E. respectivamente 53 e 57%'. o visitador cos. contra a opressão misógina que lhes impunham os cometeriam celtas infrações contidas no monitório. a Inquisição não deixou de ajudá-las. já bem oprimidas no plano (57%). era porque certamente evitavam expor-se à visitação tumava tratá-lo com desprezo e ceticismo. o Santo Ofício tornava letra Pelo visto. índios e negros não chegaram. os colaboração das frações dominantes da sociedade e excluindo os resultados de nossa avaliação em parte confirmam o que vimos deserdados e explorados. Não resta dúvida de sua humanidade. era comum discutir-se a capacidade do depoente.escala (19%). um assunto de cristãos-velhos: 60% dos acusad6s 87% dos con- canos a exporem seus amos à Inquisição. E também o Santo Ofício duvidaria. o casamento e o celibato. Mas cação ou duvidar da castidade sacerdotal? entre os confitentes e os denunciantes sempre 'predominaram os À margem da religiosidade e da cultura colonizadora. que índios e negros jamais sas situações. verifi- menos que fossem crioulos extensamente aculturados à moda po. suspeitos de acusar por motivo de rancor ou ignorân. se apesar de sua cor fugir dos contatos com o visitador. superados até pelos neófitos entre os acusados de crimes de Castro. prova da escassa atenção que se lhes dava em do quanto pecassem. sen- .ao menos para eles en- nho. os brancos perfizeram 89% dos delatores e 78% dos Em colônia de poucas mulheres brancas. por outro lado. e nada menos do que 25% dos delatas por bigamia e degradação dava "mostras de bom entendimento". com os valores do colonialismo. sez numérica. perigosa para suas vidas. homens sem ofício e até escravos. a exemplo das lusitanos e os brasileiros d'além-mar. índios casados. Suspeitos de heresia por sua origem judaica. os cristãos-novos pareciam ou não ladino". como no caso de Joa. Mas. No decurso E. dos séculos XVII e XVIII. os originários de Portugal doméstico. como fez pessoas mais estabelecidas na sociedade eram as melhores cola- o angola Duarte. por fim. por questões de somenos importância . embora alguns denunciados (17%) o tenham pecado e sequer falavam português. soldados. É forçoso reconhecer. no entanto. se "falava bem o português". a Com relação ao estado civil de nossos personagens. no final dos setecentos. levando-se em conta sua escas- seus descendentes "mazombos" a primazia entre acusados e con. não faltariam atitudes "criptojudaicas prática. matéria moral e sexual. inquisitorial. se desconheciam a noção cristã de crimes morais (43%). Na maioria dos casos. Por temerem mais que os outros a devassa mo vítimas ou réus. podia levá-las a graves penitências. mas. Acaso não pecav~m os cristãos- quim Antônio. cruel nefando do Pará.

In Abreu. ignorar as regras básicas da estratificação social. Garcia. caráter anti-semita que animava o Santo Ofício em todo o mundo 3. Moreira. São Paulo.o trabalhador manual e o servil. rompendo solidariedades.. 3) a razão de ser do Santo Ofício. p. Bethencourt. Op. mais heterogêneo. Cristãos-novos na Bahia. de. por certo alterava o fluir do cotidiano. 135-139.G. 110. exemblar mimeografdo.. Op. ao menos na visita 7. Lisboa. mas não era capaz de dissolver o tecido social. (org. 85. 1929. P 12. 5. Sônia. cit. 1969. p. cit. nal de la Inquisición en México (siglo XVI). p.. Op. As mulheres compareciam pouco.o que 236 237 . uma pálida lembrança da poderosa insti- NOTAS tuição que fora até o iníco do século XVIII . Op. p. era.D. 15. 3. Salvador. 145.. lb. A 12. verticalizando em seu único proveito o sentido de obediência. p. cruzando-se os poderes. jesuítas e Inquisição. além de violentada no cotidiano. México. Ofício como instrumento de desagravos pessoais contra homens 9. Pires da Veiga (Sul). 142. na cultura popular. Cristãos-novos. Perspectiva. p. Op. Inquisição e cristãos-novos. cit. Sônia. o colono po. 150. p. Siqueira. V1I. p. Siqueira. Henrique . 2. Rodolfo.. Salvador. Bethencourt. tít. p. p.). Inquisição e controle social. Siqueira.alvos privilegiados pelas acusações de 1591 a 1595. Op. e até 11. 101-112. o grau.que presidiam o sinistro jogo Portugal).perfil próximo ao do 6. Op. 1986. p. Vozes. S. estava em vias de desaparecer .delatot típico era o branco português bem posicionado 5. Eduardo Prado. português.. agia a Inquisição ao lado dos senho. Santo Ofício como inimiga da Igreja. Imprensa Nacional/Casa da Moeda. El Tribu- que rezava o Edital. São Paulo.). em Dissemo-la extemporânea por três razões básicas: 1) a Inquisição múltiplos aspectos. D. Op. . ]. Denunciações de Pemambuco que. limitado e cerceado de antemão. O livro dessa visitação foi descoberto por acaso pelo historiador José res e dos potentados.. portuguesa havia muito abandonara esse expediente em todos os domínios lusitanos quando enviou o visitador ao Pará. Monitório referido em Garcia. Exclusão da A tarefa aculturadora da Inquisição não pôde nem quis. cit. eram as regras da 4. 1985. do Amaral Lapa. José. Sua atuação gica da legislação portuguesa: Lisboa. O rastreamento das heresias ficaria.. V. Siqueira. p. cit. A Inquisição portuguesa e a sociedade colonial. a distinção entre Paulo. Quanto ao perfil dos denunciados. Introdução. 17.Rei e Inquisidor-Geral de e as exigências da colonização . p. Ver Livro da privilégios. hostis ou indesejáveis. O autor nos esclarece muito sobre o episódio no capítulo introdutório. Novinsky. São funções.G. F. p. 10. Bethencourt.• transgressores da moral. Ática. 184-185. 1855. foi ainda indiciada pelo (1593-1595). S. ]. 129 e segs. 96 e p. homem casado e cristão-velho. Vulnerável. Livro I. Yolanda. Desse modo. 105-107. A. cit. 33 e duos tornavam-se elementos decisivos nos atos de acusar e con. mazombo. segs. disseminando o medo. XX e segs. na sociedade. 1979. numa visão de conjunto. que muito tinha a Pioneira/Edusp. colonial do século XVI. p. Ao contrário do da instalação dos tribunais. Op. 2) a máquina inquisitorial era. R. 2. actos e procedimentos da Inquisição em Portugal. Afinal. às hierarquias. lhes difícil acusar espontaneamente na Inquisição. Capistrano de. a bestialidade e da molície no Regimento do Santo Ofício de Portugal em 1613: In Silva. cit. pesquisando no ANTI em 1963. p. Anita. fessar. ativando inimizades e despertando pre. Siqueira. 14. ainda que o quisessem fazer.confitente. cit. Novinsky. gente meira visitação do Santo Oficio. José Justino de Andrade e (org. "A visita oculta". Sujeitava a sociedade comissários do Santo Ofício: Antônio Rosado (Pernambuco) e Luiz a seu domínio. Petrópolis. Coleção cronoló- rigor. então. cit. Delegação idêntica ocorreu na América Espanhola antes de confissões e denúncias exigidas pelo visita dor.. Foram confiadas a dois conceitos. nota 3 e p.. isto é. 199. Saraiva. Francisco. sem o que tornar-se-ia impotente. 149. colônia como na Metrópole.. mestiço . parág. perder se virasse réu do Santo Ofício . sabedores do Estampa/Imprensa Universitária. destacavam-se o homem simples.. Siqueira. F. Antônio]. 1978. V. 13. Na 16. decerto 1972.. Op. S. Lisboa. José L. p. A. Lisboa. História dos principais ibérico. Pri- rivalizar com eles somente os escravos e desclassificados. o. p. 19-38. a Inquisição seria também visitação do Santo Oficio da Inquisição ao Estado do Grão-Pará penetrada por vasta gama de preconceitos gerados na sociedade e (1763-1769). S. cit. 1978. J. o estado e a preeminência dos indiví. 150 (comissão passada sociedade . e Mendonça. bre. mas não hesitavam em utilizar o Santo 8. cristãos-velhos e novos. fundindo-se os R. Mariel de Ibáflez. 5' edição.mistos de valores metroplitanos com as hierarquias ao Bispo pelo Cardeal D."diluiu-se" no Estado reformado do Marquês de Pombal e ficou limitadíssima em suas 1. São Paulo.

. livro 7 (lista de autos-de-fé celebrados em Lisboa) .. Barcelona. Op. Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707). p. exemplar mimeografado. 18. 29. 420-421. p. 50. 39. ANTT/IL. Caio César.B.o que lhe rendeu gerais". tít. 107-108.. 1970. 130. cit. p. 52-53.. 406-408. Relatório final Janeiro. São Paulo. cit. F. 109-110. Universidade Federal de Pernambuco. Lapa. 6. Lisboa. O mesmo nos informa Daniela Buono 37. Op. F. capo IIl. cit. V. A~im determinou o Concílio de Trento. Devo esta informação a Lana Lage da Gama Lima. visitas diocesanas nas paróquias era um antigo mecanismo utilizado 33. p. 26-34.infor- Calmon. Las visitas pastorales. 4-5.. com a cobertura dos poderes 34. 1984.. 1982. Sobre o assunto. São Paulo. 31. ANTI/IL. p. a Inquisição.. ANTI/Ie. 149-150. Anais do Museu Paulista. guay en 1765. p. Boletim de Segunda sição. Kátia. 35. Brasiliense. Denunciações de Pernambuco. 1986. Idem. 7. 47. Eduardo Prado. Visita pastoraL . São Calainho com base em extenso levantamento de familiaturas expe. civis. Figueiredo. Atribulação de um servidor do Santo Ofício no Brasil. Maria r. 769 e 813. 44. Op. Ariel. Rio de 26. seriam aperfeiçoadas pela todos de su pedagogia dei miedo. 172-181. Recife.projeto "Inquisição e sociedade: os Familiares 38. p. 37. São Paulo. indício contra pessoa alguma". Luciano R. XVI. p. Bethencourt. p. A. V. Modelos de la mentalidad inquisitorial: mé- do de Arles em plena época carolíngia. Briguet. c. p. p. Denunciações da Bahia. 45. 30. l. Bethencourt considerou essa visita com maior rigor os nefandos que impediam seus parceiros de con- "completamente defasada da estratégia surgida no continente desde fessarem na sacramental. 73-74. S.. Cristãos-novos. 453-455. feitas por ordem do Bispo "ainda que não haja infâmia ou um longo processo e grave condenação. 50. Foi o que sugeriu José Pedro de Matos Paiva. Londono. 238. 25.. 21.G. Um nome . 17. relativo às "Devassas": previa "devassas um rapaz a quem sodomizara no dia anterior . no século XVI. de pesquisa apresentado à Fundação Carlos Chagas. Os jesuítas e a municação apresentada ao I Congresso Luso-Brasileiro sobre a Inqui.c. 309-310.. 36. cit.. Salvador.. Primeira visitação. . 1987.. cit. mações sobre o auto de 27 de maio de 1645. Novinsky. p. p. São Paulo. Dois mecanismos complementares de controle social. 70-72.I. p. p. 959 (sodomia) e parág. 75 das Constituições (bigamia). ). p. v. Primeira visitafão . Denunciações da Bahia (1591-1593). Ser escravono Brasil. 160-168 e p. Para os preços de escravos em 1572 e moedas ver Mattoso. Nome pelo qual ficou conhecido o palácio dos Estados. 43. cit. apud Londono. 49. F.. sición Espanola y Mentalidad Inquisitorial. F.. In Alcalá. Inquisição em conflito no século XVII. no Brasil Colonial. p. 24. XXXIX. p. 23. do Santo Ofício no Brasil Colonial" (mestrado/UFRJ). Co. Vol. exemplar mimeografado. 19 e segs. do A.. O avesso da memória . 1-9. 1987. p. Continuaria a 22.. processo 2525. Iglesia y transgresión. e pelo Síno. parág. 48. 1984. pastorais. e a 27 de maio de 1594 tornaria a ser acusado por 1853. 40-61. 32. Bennassar. Lisboa. onde 20.nciações da Bahia. 17p. p. p. pelo Concílio de Trento. processo 11061. situado na praça do Rocio. Primeira visitação. Mott. didas para o Brasil . 1984.. mantê-las.. 252. s/d. Idem. Azevedo. de A. Novinsky. Londono. p. exemplar mimeografado. Idem. Auditório Eclesiástico" à p. A. Visita pastoral a São Luís de Vila Maria dei Para. Livro V.I.R. 174-185. ocorreria em 1773. 365-366. p. A Igreja funcionava o tribunal lisboeta. p. Denunciações da Bahia. Op. comissário da Inquisição na Bahia setecentista. 27. As visitas diocesanas e a Inquisição na Colônia. porém. confissões de Pernambuco (1594-1595).. O caso completo acha-se em ANTT/IL. Regulamentadas nas capitulares de 742. Barcelona. tít. 1925.. Tomo XXXIII. Idem. Laertes Ediciones. Agentes da Inquisição. In Op. Salvador. Comunicação apresentada ao I Congresso Luso-Brasileiro sobre a 40.. 14. Valencia. p. 28. que observou a 19. analisando as visitas recorrência daquelas atitudes nos processos de solicitação incluídos pastorais em Portugal nos séculos XVII e XVIII: Inquisição e visitas em sua pesquisa sobre o clero colonial. Op. São Paulo. J. Torres. 1935. Atualmente é o Teatro D. Convém lembrar que o próprio instrumento das Classe da Academia de Sciências de Lisboa. secção XXIV. Boschi. s/d. Siqueira. Ángel et aliL Inqui- Inquisição dominicana e. Boschi. Denu. 90. Lisboa. 23 de novembro de 1593) várias relações nefandas. Inquisición y represión sexual en a Restauração". Também F. 341 do "Regimento do 42. 99-102. em nome do Santo Ofício: o cônego João 51. 10... Confissões da Bahia (1591-1593).R. pela Igreja desde a Alta Idade Média. João Lúcio de. . 46. O sapateiro Lessa confessaria em Pernambuco (período da graça. Rafael Carrasco afirma que a Inquisição era perfeitamente consciente da importante ajuda que representava a confissão e punia sempre 238 239 . 41. processo 8473. 5. p. Paulo. F. processo 17807. Bartolomé.

dilacerado como exemplo do que mereciam sofrer os transgressores da lei. levando-se em conta as cir- cunstâncias atenuantes ou agravantes do delito. pública. impondo-lhes castigos teoricamente proporcionais aos delitos. Tratando-se de heresias. a rigor. Presos os suspeitos. na figura do criminoso. não raro por meio de torturas. Antônio José Saraiva No vasto domínio das transgressões puníveis pelas justiças do Antigo Regime. ou mesmo do crime de lesa-majestade. Delito religioso. estupros e agressões físicas. de indícios. a heresia era de fato sui generis. levando os pode- res competentes a simplesmente apurarem as responsabilidades. pelo contrário. CAPITULO 8 DO PECADO À HERESIA A parcialidade do Tribunal do Santo Oficio é de alguma forma institucional. tão ou mais impor- tante que os atos criminosos era a consciência do transgressor ao cometê-los. traições e latrocínios. ainda que referido a comportamentos e não a crenças. os magistrados limita- vam-se a extrair a confissão dos réus. Matéria-prima essencial dos inquisidores. Homi- cídios e roubos. o proferir uma "oração diabólica" não convertiam os responsáveis em he- 241 . Assim como o "guardar o sábado". por exemplo. mas o ato de julgar incidia unicamente sobre os crimes. por certo. a punição de grandes criminosos. era sempre atroz. E.. eis alguns atos criminosos perfeitamente identificáveis pela existência de vítimas ou de vestígios materiais. o cometer um ato sodomítico. a heresia em muito se distinguia do crime comum perpetrado contra pessoas ou bens. expressiva da "vingança do Rei" e des- provida de claro sentido correcional. exemplar. os atos não passavam. ofensivo ao Rei e ao Estado. como bem nos lembra Foucault. ou culpados notórios. cujos atos implicavam a pena de morte. o defender a fornicação.! A ênfase do castigo recaía.. exigindo uma prática judiciária em alguns pontos distinta da habitualmente em- pregada em outros crimes. pistas de que o indivíduo poderia "sentir mal da fé católica". não fazia do suspeito um judaizante consumado.

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