agressivos e mortais parece não haver distância. certeira ou equivocada. dos efeitos de presentificação. ele morreu” ) e em Apocalipse now -. Porque. a representação do horror não mais decorre. que corresponda “a situações completamente indeterminadas. São Paulo. cada vez com mais frequência e intensidade. p. aleatórias. que é a lingua­ gem do sujeito . Folha de S. como antídoto à pró­ pria crença de que o real pode ser representado.Paulo. Celso Do horror: a cena contemporânea . constantes na arte desde sempre. da miséria. Entrevista. inclusive com a contribuição das várias tecnologias da comunicação. do excesso e da espetacula- rização que compõem o seu regime estético. artísticos ou culturais. vem ocor­ rendo alguma coisa semelhante ao que na psicanálise é designado como passagem ao ato: entre a representação e os atos impulsivos. das torres de Nova Iorque ao Iraque. Das referências de Conrad e Eliot a Coppola . flutuantes”. tal enfraque­ cimento resulta da potência das imagens que circulam. 23 dez.o horror pelo menos tal como ela aparece nos vários teatros da representação.1Ela não serve para falar daquilo que nos perturba . às falsificações do real. ressoa o grito terrificante: “O horror. da sim­ ples multiplicação dos teatros da memória e da perda de eficácia dos dispositivos da representação. ou ainda. Atualmente. dos modos de experimentar as coisas em presença ou da tentativa de instaurar a presença como antídoto às da representação. efetuados pelo enfraquecimento do simbólico. das hecatombes naturais aos desastres aéreos. violentos. Ilustrada. Hoje. Assim.O coração das trevas . aliás. passou no século xx por uma rápida transformação: da crença na morte da representação à sua reaparição. inversamente. A ausência do efeito de choque e do sentimento de estranheza pa­ rece derivar de uma espécie de naturalização da violência e da morte. citado na epí­ grafe de Os hom ens ocos (“O senhor Kurtz. aos acontecimentos históricos e na vida de todo dia. A-37. percebe-se que a questão agora é outra: não temos ainda “uma linguagem que esteja à altura de traduzir o estado atual das coisas”. O que temos “é a linguagem da representação.o que. como já se acreditou. o tempo de circulação de teorias e experiências de fechamento da representação. o horror!” A representação do horror e da morte. O horror de Conrad e de Coppola parece também atualizar o que diz Eliot em Quatro quartetos : “o gênero humano/ não pode suportar tanta realidade”. ela é simbólica. o horror. e. esta potência depende da aplicação. Especificamente. da representação da morte à efetivação das imagens da morte na realidade. 1987. BAUDRILLARD. Passados. sempre interessados em i Cf. 8 2 * FAVARETTO. ambivalente”. na arte e na filosofia da modernidade. das epidemias aos genocídios em Ruanda e outras mazelas que grassam nos diversos continentes. Jean. de Auschwitz ao Vietnam. é bom.

Lo représentation de l'horreur.com o seu perspectivismo e experimentalismo científico. Eduardo Prado. p. assim dificulta a articulação de uma crítica da cultura. com a invenção do espaço pictural. resgatando. uma tela {écran) que nos separa e nos protege do fluxo caótico do devir” 2O horror é. Cf. ou da terapia. esta arte exercita-se na tensão com os limites da modernidade. p.83 . 5. Desidealizada. Jornal do Brasil. como se diz. Não prometendo nenhuma experiência de completude. em cada caso. A recuperação da presença. Pois “a linguagem que dá valor objetivo à repre­ sentação é um processo de identificação e de sublimação que funciona no medo e se constitui como um véu. assim. Ideias/ Ensaios. WARIN. particularmente vanguardista. COELHO. portanto. o irrepresentável. São Paulo. por um preenchimento que dê conta da irrisão dos projetos modernos. remetendo-se a um “sujeito operativo” e não mais a um “sujeito focal”4 como o herdado da Renascença. op. Cf. de propor a ruptura e buscar o novo. tendo que definir. 1991. 2010. com a destruição das convenções que presidiam à produção da ilusão. São Paulo: Planeta. muita arte dita contemporânea vaga no indeterminado. Teresa revista de Literatura Brasileira [10| 11 ]. 2003. 03 nov. a análise de 0 coração das trevas em: LIMA.3 Talvez seja este o grande desafio colocado para todas as artes depois do grande tra­ balho das vanguardas. a aposta na transformação da vida. tem em vista re- propor o sentido da representação. efetuada pelo trabalho das vanguardas. p. o inominável. Livre do imperativo moderno. p. . vive de incertezas e surpresas. entre a inquietação e a indiferença. que levou ao fim as possibilidades da crítica da representação. 212-27. que pôs em causa a representação como sistema. O redemunho do horror: as margens do Ocidente. François. Depois da assepsia. do espaço literário e da escala musical -. essa arte. La représentation de l'horreur. a possibilidade de WARIN. Porque não propõe ideias suficientemente fortes para fundamentar práticas. com o alargamento das fronteiras geográficas e culturais. cit. de um lado. Marseille: Lycée St. a presença e a pura materialidade da forma são reivindicadas como possi­ bilidades de reencontro com uma realidade aquém ou além da simulação do real. 79-88. do espaço teatral. agora entretanto uma espécie de aura transmutada. François. 4. enquanto se inventa. talvez.5 Assim. Luiz Costa. nov. 2001. as regras e as categorias que a singulari­ zam e que propiciam a fruição e o julgamento. Para comer a sopa até 0 fim.responder a exigências diversas de identificação dos espectadores ou dos protago­ nistas de uma realidade em cena. Cf. linguagem e modo artístico produzidos nos tempos modernos . ansiando. Rio de Janeiro. Charles. vaga entre desejos de restauração de projetos e ope­ rações que outrora tiveram sentido.

Ou então. Talvez. sistema de representação coletiva e. de que um claro emblema é a chamada crise do 84 •FAVARETTO. dedica-se a recodificar. das supressões promovidos pelos dispositivos vanguardistas e pelo projetualismo moderno. tudo aqui vem enunciado pela partícula re. lançamos mão da linguagem da representação. Trata-se. uma tática para voos futuros. que afirmam as potências do puro viver. A representação. Um re que significa elaboração: levantamento dos esquecimentos. é preciso sempre lembrar. a representação é a matriz de nossa identidade.articulação entre criação e crítica. conjuração das potências invisíveis. Todo o drama contemporâneo. como diz Deleuze. o insuportável da exis­ tência contemporânea. do horror. a ponto de não termos linguagem que dê conta de nossa realidade. por outro lado. Pois é disto que se trata hoje na arte: reinventar a arte de viver. a representação do insuportável. a representação. está na tentativa de lidar com esta velha doença ocidental. dos recalques. foi a reversão da noção e do modelo da representa­ ção no pensamento. simultaneamente. Por isso. assim. das personagens com que se institui socialmente e nas imagens que a sociedade dá de si mesma em espetáculo permanente. As noções de sujeito e de consciência aí estão para atestar o primado da representação: nas imagens que o homem faz de si em espelho. o seu grande feito. está no centro das posições filosóficas no que diz respeito às relações entre o pensamento e a realidade. Curiosamente. Assim. Celso. reiterar e eventuar. Do horror: a cena contemporânea . de indiciar com este re que agora estamos em pleno processo de elaboração. então. cifrada nas imagens. no pensamento e na arte. São estes lampejos. modos suplementares de produção do sentido da existência. uma reinterpretação que vira um modo inédito de enunciar. uma reinscrição do simbólico onde só havia repetição. O que a modernidade fez muito bem. Mas a experiência do horror põe em causa a distância que implica a representação. Aqui e ali surpresas acontecem: um tensionamento de signos da experiência. estes acontecimentos. repropondo a arte com sentido de intervenção cultural. Ora. como se sabe. para suportar esta condição é que inventamos as re­ presentações. ou de alguma coisa . analisando os processos modernos. As im a­ gens assim constituídas foram desde sempre a matriz das instituições. especial­ mente os de vanguarda. um nexo surpreendentemente de sensibilidade e pensamento que interferem no circuito da razão comunicativa. lembrando Artaud. a vida é sempre a morte de alguém.podemos acrescentar. na linguagem e nas artes. para que possamos suportar o incomensurável. embalde foram as estratégias e as operações da arte da modernidade: o fundo permanece. Pois sabemos que o grande horror é a morte e que. E sabemos também que a arte nos é dada para de alguma forma dar conta do fundo horrível das coisas.

79-88. Ricardo Corrêa Barbosa. aquele que se impõe no hori­ zonte mais imediato da cultura: em sua instância predominante. Opós-moderno. De um fragmento ao outro. 5-6. LYOTARD. p. Cf.9 Ou então.sujeito. Jean-François. que acredita ser possível reorganizar os elementos da vida cotidiana numa unidade sociocultural?10 Aquela prometida pela restauração da unidade perdida agenciada pelos museus e teatros da memória? Ou a que apela para o mito do vivencial? Ou aquela que ante a confusão do espaço LYOTARD. com as repercussões na arte. COELHO. p. Rio de Janeiro: José Olympio. onde estamos quando consideramos que a arte serve para aguçar nossa sensi­ bilidade e reforçar nossa capacidade de suportar o incomensurável?6 Onde estamos. p. 1986. François. 31. Para comer a sopa até o fim. a do mercado e a do lazer que. já que este fato não mais deriva das exigências daquela subjetividade inventadas na filosofia moderna. Por exemplo. cit. a pro­ liferação de teses. é bom relembrar. a ponto de Nietzsche. xvii. declarar que “temos a arte para não morrermos de verdade”. de que é possível um acesso imediato à realidade . Sem astros que nos guiem. em que o real e o sujeito se recobrem. Jean-François. BAUDRILLARD. é irrepresentável -. quando constatamos que “nenhuma ideia nos assegura a salvação. ao mesmo tempo que exaltam o vivido. o recolhimento e abolem a mediação que a representação necessariamente introduz. Jraó. deparamos com uma paisagem desconhecida que é preciso configurar e decifrar” 7 Nesta paisagem desconhecida. deslocações. Conhecemos toda a discus­ são aí implicada. derivas e invenções. Trad. 0 pós-moderno explicado às crianças.Tereza Coelho. avançamos agora num mar de surpresas e incertezas”. Eduardo Prado. conceitos. p. Então. a crença absoluta na ex­ periência.através dos signos que aparecem em toda parte. João Guilherme de Freitas. para funcionar como ciência rigorosa da práxis. 2010. WARIN. p. Contudo. que é preciso configurar . nenhuma ideia nos dispensa de sermos nós próprios a criarmos o nosso modelo e itinerário de salvação” ? E ainda: que “nenhuma ideia é suficientemente forte para fundamentar uma prática. neutralizam a distância.que. m úl­ tiplas e simultâneas. Lisboa: Dom Quixote. 15- Teresa revista de Literatura Brasileira [10| 11 ]. sem uma ciência da navegação que apenas seja preciso aplicar. já que o essencial “está no instante da aparição das coisas” -. ou o reencontro com um eu. Jean. La représentation de l'horreur. diz Lyotard. cit. Cf.. 1987. mítica fonte de unidade.85 . mas sim. São Paulo. sintomatica­ mente. “se não procurarmos ideias que salvem ou fundamentem. das dificuldades da afirmação de subjetividades. Trad. sobreposições. São Paulo: Zouk. Mas com que unidade sonhamos? Aquela. nenhuma ideia é portadora de uma verdade que salve. op. . as experiências mutáveis. redes.8há cenários que se delineiam. de Descartes a Kant. 2003. op.

Assim. Esta tanto se afasta das categorias tradicionais. do maravilhoso. (col. Celso. Diogène. da alteridade. embora pretendessem. obras etc. Participar. Do horror: a cena contemporânea . na cena contemporânea. para concentrar-se nos comportamentos dos participantes de um acontecimento cultural . que é a categoria do “ interessante”. O evento. o sistema artístico. Campinas: Papirus. diz Lyotard. Mas o que querem dizer estas noções. perdem o valor crítico pretendido. 1996. quanto das modernas. daria lugar à exploração de signos de resistência. da estetização generalizada da cul­ tura das metrópoles. explorando a força do instante. 119. obviamente. das mesmas categorias das instalações. da intimidade. Repères por l'élargissement de l'expérience esthétique. para não serem entendidas como recaídas na idealidade. às es­ peranças colocadas atualmente na recuperação da interioridade. Os trabalhos artísticos que funcionam segundo a modalidade do evento.público e do espaço privado quer dar consistência àquilo que agora são simples efeitos de uma suposta ordem objetiva. GALARD. do belo. não tem a ver aqui com a categoria artística moderna que surge com a desestetização. entretanto.partici­ pando. do novo e da ruptura.12é exatamente uma maneira de exibição de objetos ou de situações esteti- zadas. simul­ taneamente. Assim. isto é. Marina Appenzeller. p. 94- Cf. 86 • FAVARETTO. com a abertura da obra de arte. a estetização generalizada é simultaneamente Cf. interferir. até mesmo dialetizar. manifestação da carência de ideal e. da subjetividade. Trad. convertem-se frequentemente em instâncias de comunicação. vulto de dispositivos de suplência do ideal? A modalidade de manifestação artística e atividade cultural típica da sociedade do consumo é o evento. ele mesmo tornando-se o próprio acontecimento artístico. aliás. da lei? Referimo-nos. ou alguma eficácia crítica. sabe-se que o que é interessante é indiferenciado. inicialmente. Travessia do Século). Moralidades pós-modernas. Dessa forma. entendendo-se este trabalho como explicitação da angústia causada pela perda do próprio objeto da arte em virtude do aprisionamento dos objetos e do desejo pelo consumo. p.11Ora. 29 e ss. 1982. funcionando como elemento essencial da estetização da vida cotidiana processada pela cultura do consumo. o meio de arte. Jean-François. Jean. qual seja: provocar um acontecimento localizado que. inclusive com poder de transgressão. quando se pretendem identificar questões artísticas e práticas culturais renovadas. percebe-se uma grande dificuldade: a arte fundida à vida sob a modalidade do evento acaba por dissolver os signos numa categoria típica da arte dessublimada. Nele o interesse estético desloca-se dos objetos. Paris: Gallimard. implicando sempre um teor reflexivo. LYOTARD.

La représentation de 1'horreur. como o horror. criticar é jogar. Não será também isto que se procura em alguns rituais musicais e festas selvagens?14Tais exemplos provocam-nos a pensar se a von­ tade de fazer coincidir arte e vida não é apenas um jogo. p. resistir. em sua literalidade. cit. ao invés dos desenvolvimentos críticos habituais. São Paulo.. Cf. substitui BAUDRILLARD.fruto da desestetização moderna e perda do vigor de nexos e tensões dos dispositi­ vos modernos. da teleologia dos sistemas de pensamento. uma tonalidade. exibe algo. na brecha) do vazio. um timbre. Criticar. Assim. François. por exemplo. enfim dos sistemas de representação. de um lado torna visível. Des­ cobrir. . op. e que só podemos nos aproximar dos acontecimentos. Mas o conceito de representação é ambíguo: acentua os efeitos de presença que a tornam possível e o de ausência.87 . Na linguagem. num espaço cultural em que as representações simbólicas foram afetadas até a raiz? Em suma: seria possível pensar em outra ordem do simbólico no nível dessa cultura dessublimada? Ou então: quais as possibilidades de reinstau- ração da simbolização e do espírito crítico na cultura do espetáculo? Ao se recusarem as promessas redentoras da totalidade. de outro. ao mesmo tempo. uma dicção. op. a título de exemplo. da totalidade. quando representados e não quando imediatamente vividos. 39. pela repetição. entre construtividade e vivência. mas. ao explorar a ruptura entre os signos e as coisas e ao propor um re­ torno para antes da representação. ou seja. Lembremos apenas. não seria possível pensar outra maneira de se entender a estetiza- ção do cotidiano. trata-se de assumir as coisas em sua singularidade e. como na música. que a funda. p. do qual não se sai nunca. por exemplo. 7. trata-se de explorar a resistência na forma (da linguagem. como a tensão entre o sensível e o racional. o que é. como seu emprego no teatro. Mas não seria possível pensar outra posição da experiência dos acontecimentos que não se submetesse a esta estética generalizada presa do consumo. por exemplo. 79-88. descobrir e trabalhar nos interstícios (na falha. De um fragmento ao outro. desde que se enunciem as regras do jogo. em que o que é pensado como resistência ainda vive das ilusões do sujeito. expõe. do pensamento. E o que é criar? Sabemos que diversas proposições artísticas tentaram esta façanha. uma aposta. repito. pois “só a forma ataca o sistema em sua própria lógica” 13Nesta perspectiva. o jogo da representação. cit. da arte). Teresa revista de Literatura Brasileira [ 10111 ]. a aposta que se tem de fazer é não se render à tentação de preencher o vazio que então se instala. das promessas da razão iluminista. WARIN. Jean. na forma.. é uma aposta. colmatar o vazio. no pensamento e na arte. a busca da eficácia do ato simbólico no teatro da cruel­ dade de Artaud. p. 2010.

Assim. na verdade. já que a representação é um prin­ cípio de inteligibilidade. É por isso que um acontecimento grave.17 Então duas atitudes convergentes e simultâneas comparecem: a resistência. que esteticamente se refere à categoria do sublime: a transformação do horror em espetáculo. prazer e desprazer. mas um prazer feito de inquietante estranheza. pois o que existe 15 Idem. 8. hoje. Então. Mas também permite um efeito surpreendente. por meio da astúcia da representação. por outro lado. Em síntese: criar é resistir.16 Esta espécie de confusão é.. situando-nos. 26. p. indiciando o inapresen- tável. neutralizam o distanciamento reflexivo e perceptivo. tratar-se de violentar estas fronteiras para tentar apresentar o que não pode ser apresentado. cit. como presença e au­ sência. “se o horror é o fundo das coisas. do horror. o que não pode ser representado . mas que de uma maneira ou de outra é possível apresentar. de irrepresentável. uma espécie de lou­ cura. Jean-François. ao privilegiarem o vivido. op. 88 •FAVARETTO. de modo que o desprazer converte-se em prazer (o prazer no desprazer). valoriza o irrepresentável da experiência contemporânea. que consegue elidir a morte. tem em vista exa­ tamente não só criticar a cultura do consumo como tentar afirmar que há qualquer coisa que pode ser concebida e que não se pode representar. não se pode ver nem fazer ver. quando a imaginação falha ao presentificar um objeto. vicário. de representação do real. ou seja. de negação do simbólico. do que pode ser apresentado. 20. como nestas fron­ teiras. de um lado. Nada tem com comunicar. devido ao desacordo com a razão. de tornar sensível o inteligível) tenta ultrapassar os limites do possível. como vimos recentemente. antes com “nomear o informe. podemos dizer. 17 Idem. incide sobre as representações da cultura de consumo pondo em relevo a ima- gerie das sociedades democráticas que.15Embora um sentido remeta ao outro. nas fronteiras. põe em questão a representação que temos do mundo. p.já que não existe mais a possibilidade de projetos de domínio. nos limites expressivos. p. pois de- sestabiliza toda a compreensão que a ela propicia. Celso Do horror: a cena contemporânea . 0 pós-moderno explicado às crianças. temos o sentimento do sublime. A outra atitude. 16 ldem( p. o pensamento desafia a sua própria finitude. a ausência de forma (de representação) como índice possível do inapresentávelT8 Conforme ainda observa Lyotard. a criação. aquilo que é da ordem do horror. ou seja. das coisas. 27. a imaginação (faculdade de presentificar algo. algo ausente. a cultura e a linguagem [a arte] estariam aí para conter o horror”. 18 LYOTARD. de razão.

Aptos a configurar as paisagens do possível e não apenas a ficar na decifração e reiteração das paisagens da memória. Scott.para a experiência artística é uma realidade difusa e indefinida. de felicidade -.19Teríamos já nos apropriado das condições suficientes para levantar e elaborar os obstáculos modernos. sondando o abismo entre a natureza e a liberdade. em signos contraditórios. Lem ­ brando Scott Fitzgerald. de um recomeço a partir da estaca zero. o homem se reconhece nos limites e impossibilidades. . pros­ seguimos. diz W illiam Blake). Este desejo ilim i­ tado que sentimos. cit. Apalpamos uma aragem. 47. de modo que estaríamos agora aptos a realizar a experiência de uma vida toda feita à maneira da arte e da linguagem? Uma imagem de felici­ dade feita de toque. COELHO.um silêncio simples. A derrocada (The crack-up). na dimensão do sentimento do sublime. pro­ jetados em dimensão estética. “avançamos num mar de sur­ presas e incertezas” 20Ao desencanto das promessas de uma sociedade feliz segue-se. numa vasta região desértica. p. Nenhum problema . São Paulo. 2010. isto é.89 . FITZGERALD. Trad. e persegue a salvação na experiência estética da finitude e da morte. ante as forças e potências que rosnam no fundo da existência. o entusiasmo por uma ideia. uma leve brisa que passa. Neste momento em que as forças utópicas declinaram. de paixão. de apatia. de dúvida. conjurando a nossa renitente saudade do futuro com uma saudável afirmação da imanência. paradoxalmente o que se apresenta é o signo de algo inaugural. do horror. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. temos a sensação de estar parados. é o que se traduz como mescla de felicidade e infelicidade. como que retomando o fio de uma vida que julgávamos sepultada pela morte da esperança moderna e devido à persistência do terror. Cf. Em outras palavras. p. Livres do mito e da utopia. de medo.signos de melancolia. fazendo coexistir os signos de entusiasmo e tristeza. ideia que está espalhada por aí. principalmente de seu imperativo de produção do novo a todo custo e de crença num princípio unitário da história. da história da razão e do progresso. op. Teresa revista de Literatura Brasileira [10| 11 ]. o entusiasmo moral. a nossos pés. 1969. Percebe-se então por que. de acontecimento. só sabemos que estamos numa situação privilegiada. Não sabemos signo de quê. F. A derrocada e outros contos e textos autobiográficos. de ironia. ao mesmo tempo pensa­ mento e sentimento. de tristeza. alegria e dor (“a alegria e a dor são um tecido espesso/ uma veste para a alma divina”. esse estado sublime. Eduardo Prado. em que a coexistência desses signos contraditórios é manifestação do irrepresentável. cortado apenas pelo som da nossa pró­ pria respiração. com um rifle vazio nas mãos e os alvos por terra. que estão aí e que precisam ser reconhecidos e não produzidos . 79-88. Álvaro Cabral. ao cair da noite. agora.

inscrevendo.21Porque. que carreia a de pensamento crítico. cit. que temos de ser dignos com o que acontece. como propõe Baudrillard. exploram num espaço determinado a intersecção de tempos. Jean. Descontínuos. linguagens e referências. desdobrando e reiterando signos. mas que se constitui como um outro universo . funcionando como ações mais ou menos re­ gradas. Pois querer o acontecimento. Ao invés de isso parecer um canto de esperança.talvez produzindo eventos. a que somos chamados a suportar por tentativas. 2007).pois elas já estão previstas no sistema -. Contudo. 2003). se a negatividade moderna foi absorvida e neutralizada. op. A invenção de Hélio Oiticica (Edusp. os acontecimentos assim gerados exploram as potências do instante. enfim. a proposição de uma singularidade que não resiste. intervenções que. o seu brilho que é o sentido. 21 BAUDRILLARD. e. Suportar quer dizer que jamais esquecemos o acontecimento. em lugar de apostar na dissonância e nas posições alternativas . p. subversivo. o que resta de todo este trabalho de limpeza é a possibilidade de mudar as regras do jogo. só uma coisa é preciso: entrar no jogo. aparições. é a condição dos encontros e da transmutação. simultâneos. se duvidamos da própria ideia de resistência. Celso Favaretto é professor de Filosofia da Universidade de São Paulo e autor de Tropicália: alegoria alegria (Ateliê Editorial. na criação de “universos paralelos”. aposta. Do horror: a cena contemporânea . 90 • FAVARETTO. 18. alude-se aqui a outra operação: aquela que. De um fragmento ao outro. entre outros. fazer a aposta. Celso. de cuja eficácia simbólica depende a relevância de nosso redivivo fervor. revoltado..