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doi:10.3900/fpj.6.4.262.

p EISSN 1676-5133

A construção do humano através
do esporte como um direito inalienável

Artigo Original

1
Angelo Luis de Souza Vargas1 PROCIMH - LECSU - Universidade Castelo Branco - RJ
angelo.vargas@uol.com.br
Ana Lilia Ollé Galvão1
ana.olle@yahoo.com.br

Vargas ALS, Galvão ALO. A construção do humano através do esporte como um direito inalienável. Fit Perf J. 2007;6(4):262-7.

RESUMO: A construção de um país deve estar alicerçada na possibilidade do exercício da cidadania plena, e esta plenitude deve

contemplar a igualdade de oportunidades, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à cultura e à dignidade

humana. O exercício do pleno direito é uma utopia. Assim como a justiça, que constitui um eterno sonho, o exercício da cidadania

plena é utopia. O esporte é um dos direitos sociais garantidos na Constituição da República Federativa do Brasil e, nas dimensões

“participação” e “educação”, constitui alicerce para o desenvolvimento integral da criança e do adolescente. A ONU também

contempla suas especificidades e importância para o processo civilizatório. Todavia, no Brasil, os entraves para a aplicação da Lei

ultrapassam as barreiras dos recursos materiais e assumem uma dimensão política.

Palavras-chave são cidadania, direitos sociais, crianças.

Endereço para correspondência:
Rua Praça São Oderico, 45/203 Barra da Tijuca CEP: 22621-080

Data de Recebimento: Março / 2007 Data de Aprovação: Junho / 2007

Copyright© 2007 por Colégio Brasileiro de Atividade Física Saúde e Esporte.

262 Fit Perf J Rio de Janeiro 6 4 262-267 jul/ago 2007

cujo foco são os primeiros seis anos de vida da criança. application impediments of the Law cross the barriers of the material resources Sin embargo. entrou em decadência. o Esporte (esporte-participação. neste caso. idade. e a taxa de mortalidade de grega decaiu e foi absorvida pelo Império Romano que. atrás da Bolívia e da Guiana. era de 18. sua infância. La realidad y la utopía en el campo del posible. as suas crianças e os seus adolescentes. da filhos de mulheres brancas. El deporte es uno de los derechos sociales in the “participation” and “education” dimensions constitutes foundation for the garantizados en la CRFB y en las dimensiones “participación” y “educación” integral development of children and adolescents. isto é. humana como Em 1980.” O UNICEF (Fundo das Nações Unidas para Infância) lançou. The sport is one of the guaranteed social rights in CRFB and de la ciudadanía plena es utopía. jul/ago 2007 263 . principal indicador utilizado no Brasil. social rights. também chamada de taxa de mortalidade na vez. A proporção de crianças com baixo peso para a familiar e comunitária. cación. a taxa de mortalidade era de 82. a taxa de mortalidade maneira adequada a um país que busca um lugar de destaque infantil era 39. UN also contemplates their constituye base para el desarrollo integral del niño y del adolescente.7% menor que entre os filhos de mulheres negras no concerto das nações em tempos de aquecimento global. to the education. the exercise of the full es una utopía. El ejercicio del pleno derecho As well as the justice that constitutes an eternal dream. mentação. por sua menores de 5 anos. o grande tema é a sobrevivência da De acordo com o relatório. fundamentada na igualdade Associada à pobreza e à desigualdade. civilizatório chegou a seu point of no return. No entanto. de mortalidade de crianças nos países em desenvolvimento. No período fatalidade. O Brasil tem hoje 23 milhões de crianças com até seis anos de idade2.6% menor que entre filhos de mulheres índias3. chegando a 26. a UNICEF em 2005 revelou que o Brasil tem a terceira maior taxa civilização brasileira ainda está em processo de construção. e isto sejam quais forem os fundamentos ideais A infância brasileira que o direito possa ter. é um expressivo fator de oportunidades. ou de 1994 a 2004. do possível. sabe-se infância. segundo o UNICEF: entre os propriamente dita. 6. e 75. indivíduos e as instituições. à ali. ao esporte. Though. é extremamente semelhante a uma competição. La construcción del tion of the human being through the sport as an inalienable right humano a través del deporte como un derecho inalienable The construction of a country should be found in the possibility of the exercise of La construcción de uno país debe estar fundamentada en la posibilidad del the full citizenship. Hoje. No entanto. ter como alicerce a cidadania plena. o Brasil não tem tratado a sua infância A raça é um fator determinante. child. a la cultura y la dignidad humana.4% Fit Perf J. número de crianças que morrem antes de completar 1 ano da multimilenar aventura humana no planeta Terra. A construção desse Brasil justo e igual (“o País do Futuro”) deve A desnutrição infantil é um problema de dimensões alarmantes. to the feeding. reras de los recursos materiales y asumen una dimensión política. ao lazer. à liberdade e à convivência esse índice. niño. no direito inalienável à vida. A nossa civilização.8 por mil. de oportunidades. the también contempla sus especificidades e importancia para el proceso civilizador. apesar de todos os pesares. a la salud. y esta plenitud debe contemplar la igualdad the right to the life. a la edu- to the culture and the human dignity. 4. to the health. in Brazil. ao respeito. à profissionalização. a seu ponto crítico: mostra os importantes avanços ocorridos.6%. ejercicio de la ciudadanía plena. Rio de Janeiro. apesar dos esforços realizados nas últimas décadas para reduzir à cultura. a la alimentación. à educação. não tem imunidade contra essa Estatística). E. As comunidades científicas revelam que o processo dos indicadores que. A civilização de vida para cada mil nascidos vivos. Keywords: citizenship.ABSTRACT RESUMEN The reality and the utopia in the invironment of the possible. el derecho a la vida. em Johan Huizinga 1 2007. houve uma queda de 32. 263. por mil nascidos vivos2. processo. à saúde. esporte-educação) deve ter o papel fundamental de construtor aparece claramente logo que compreendemos de nossa identidade como nação lúdica e solar dentro do campo em que medida a atual prática do direito. a taxa de mortalidade infantil é um Humanidade. a taxa de mortalidade planeta ou terá de enfrentar catástrofes que poderão levar ao fim infantil. ao ser considerado de maneira histórica. Así como la justicia que constituye un eterno sueño. el ejercicio citizenship is Utopia. à dignidade. derechos sociales. revelam muito sobre as condições de vida e a assistência que as civilizações e os impérios decaem e morrem como os de saúde em um país. em 2000. apesar de todas as suas conquistas tecnológicas. al ocio. mais do que nunca. las trabas para la aplicación de la Ley rebasan las bar- and assume a political dimension. to the leisure. en Brasil. Neste princípio de século XXI. segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e as outras que a precederam. and this fullness should contemplate the opportunities equality. The exercise of the full right is an Utopia.6 até mesmo por causa delas. em da América do Sul. o relatório “Situação da Infância Brasileira 2006”. uma comparação feita pelo Dentro deste quadro sombrio. INTRODUÇÃO “A possibilidade de haver um parentesco Essa construção também deve ter a Utopia como mais um dire- entre o direito e o jogo ito inalienável. Usadas como indica- ou o Homem muda o paradigma de exploração dos recursos do dores básicos de desenvolvimento humano. La ONU specificities and importance for the civilizatory process. A construc. Palabras-clave: ciudadanía.

usada no Brasil. Além disso. uma forma do governo entrar nas casas das famílias e tudo cados internacionalmente como causas externas. E é interessante mília. estudiosos franceses que se admiraram ao ouvir a expressão causadas por complexos fatores econômicos e/ou culturais. jul/ago 2007 . o ECA surge como um marco na atuação A violência contra a criança pode ser compreendida como qual.9%) na mesma época. Em resumo: o idade. 8. 264. Trata-se de um “ado- Segundo estimativas do IBGE. incluindo o sexual. ao abandono e conseguem alcançar O grande número de crianças não registradas é um empecilho para conhecer a situação real da infância no país e criar ações e os doze anos de idade passarão a viver (ou subviver) sob a tutela programas voltados para essa parcela da população. de 13 de julho de 19906. registro civil agrava ainda questões como o tráfico de crianças e o trabalho infantil. a margina- lização dos jovens vem aumentando e o ECA não dá conta de Ainda de acordo com o UNICEF. “meninos de rua”. O ECA teria apresentado uma estratégia de vigilância dos menores por meio de pedagogos e assistentes sociais como Em toda a década de 1990. que são próximos de e grupos específicos que ainda apresentam altos índices de 1%. um problema que vem ganhando visibilidade desde a década de As crianças que sobrevivem à mortalidade infantil. Afirma-se qual conste seu nome e o nome de seus pais. Pressupõe uma relação de poder desigual adolescente que passam a ser considerados sujeitos de direitos.7% em 1996. De 1996 a 2003. 264 Fit Perf J. as negligências.069. classificadas. prega. A falta do do Estatuto da Criança e do Adolescente. porque não nascem dela e que meninos sem Essas relações não protetoras no ambiente familiar podem ser família são do Estado. prescrição sobre deveres e responsabilidades do Estado quando A maior parte dos casos de violência contra a criança acontece o “menor” comete infração penal. quando deveria do Ministério da Saúde. do Estado e sociedade voltada para a infância e a juventude. A fa. como parentes e conhecidos. 2) Os acidentes. que. o sub-registro se manteve entre as crianças e adolescentes. Rio de Janeiro.8%) sujeitando-a a outras violências nas ruas ou em abrigos. que já atenuou o pro- dido e os abusos. ou não tem família ou meios no espaço em que ela costuma passar mais tempo: a casa. destacaram-se fiscalizar.3%). De 1993 a 2003. paradigma da “infância em situação irregular” e adota o princípio tendo por justificativa protegê-las do perigo ou fazer com que se de “proteção integral à infância”: o texto legal deixa a simples tornem “bons” adultos. mas muito trabalho se tem por fazer. o ECA abandona o são física sempre fez parte da maneira de educar as crianças. primeira causa de morte de crianças de 1 a 6 anos de idade no Brasil. precisando de amparo ou tutela. segundo dados do uma proteção física maior. Um outro aspecto crítico: o ECA que cerca de 200 mil crianças e adolescentes declararam ter utilizaria meios legais para vigiar e controlar o comportamento sofrido agressão física. em debates e campanhas nacionais de conscientização. inserção social maior. do Ministério forma de controle. a cada ano quase 750 mil crianças brasileiras. surras. e assimétrica entre o adulto e a criança. Marie-Pierre Poirier. classifi. comentários até 2003. da Saúde. relações não protetoras. entendida como um dos primeiros ambientes protetores da lembrar. O Estatuto da Criança e do Adolescente. afirmam os críticos. a agres. foi criado através da Lei nº. e 3) As ações ou omissões blema do menor no país. ser muito centralizada na questão da punição. esses únicos dados nacionais mostram abordar a inserção social. Ainda segundo os estudiosos. o ECA. os agressores eram dos adolescentes. e a África (27. des- média da América Latina (8. o ECA. do ponto de vista conceitual. e afirmou: “Só será possível melhorar a significa que o problema esteja sob controle no país4. de três formas: 1) As práticas educacio- nais que fazem uso de violência física (castigo. lesões ou transtornos uma tentativa de mudança da visão que se tinha da criança e do a seu desenvolvimento. os acidentes e a violência. Para os seus defensores. à violência.). mais de um quinto do total de recém-nascidos. principalmente devido ao aumento da ano de vida sem ter sido registradas e sem ter um documento no violência e da marginalidade entre os seus tutelados. pois sem comprovação legal da existência de Os 17 anos do ECA: Prós e Contras cada criança é mais difícil enfrentar esses problemas. de subsistência. o espanto de alguns criança.11% das ECA representa uma segurança para o adolescente e sua família. quer ação ou omissão que provoque danos. Argumentavam que meninos nunca são de rua. que levam à morte. A proporção de crianças sem registro de nascimento no Brasil é esquecidas e excluídas”. e também menor que a A representante do UNICEF no Brasil. situação da infância chegando às crianças que são invisíveis. mortes de meninos e meninas de 1 a 6 anos. aos acidentes. em seu interior. pelo menos. 4. Um outro problema seria a falta de estrutura do Poder como a principal causa de óbitos de crianças de até 9 anos de Judiciário para lidar com a questão dos menores.em 1974. Esses também são os principais fatores que Esta última porcentagem é muito menor que a média estimada fazem a criança se afastar ou ser afastada do convívio familiar. pela OMS (Organização Mundial da Saúde) para a Ásia (32. em meio a essas considerações. acidentes e agressões são a vencer este desafio. Em 80% dos casos. Historicamente. porém é maior que os índices tacou a importância das políticas públicas atingirem regiões apresentados pelos países desenvolvidos. se por um lado o ECA garantiu uma série de direitos para conforme estimativas do IBGE. Segundo o livro “Impacto da Violência na Saúde dos Um aspecto ressaltado é o fato da discussão sobre o Estatuto Brasileiros”5. A diminuição do número de casos de desnutrição infantil não vulnerabilidade social. ele não teve como garantir-lhes uma 20% e 30% no Brasil. 6. caiu para 7% em 1989 e chegou a 5. eles foram responsáveis por 21. o Estatuto da Criança e do Adolescente etc. mas não quer dizer que não seja uma Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). caracteriza-se como uma “belíssima lei”. palmadas. sem promover a verdadeira cidadania. pode apresentar. 1990. publicado pela Secretaria de Vigilância em Saúde. Para críticos e defensores. a síndrome do bebê sacu. com base em dados apurados lescente” que tem sido objeto de milhares de livros. às agressões. completam o primeiro e teses sobre sua eficácia.

a médio prazo. dentro da escola. o mundo cada vez mais freqüentes de perdas e de desespero. da sociedade em geral e do poder formas técnicas e organizacionais do trabalho. da criança marginalizada.” Na avaliação do senador do PT. que é de reclusão de quatro a 15 anos mais multa. 265. 4o do ECA: ”É dever da família. esta visão equilibrada não chegou ainda ao “co- maioridade penal de 18 anos para 16 anos. a democracia. da comunidade. à saúde. porque significa. rar. frase que já virou clichê. exigidas por uma público. A internação constitui medida privativa da liberdade. condenar à morte prematura as crianças e adolescentes envolvidos. a cidadania e a individualidade”. a uma instru- liberdade e à convivência familiar e comunitária. enquanto o saber filosófico é considerado como residual ou triunfalmente. mas não deixa os estudantes para obter um lugar num mercado de trabalho de ser verdadeira). porque as estatísticas demonstram que cada vez é cidadãos a acusar o Estatuto como uma espécie “acobertador”.. “Hoje.00 ao ano) têm propugnado a diminuição da inimputabilidade penal dos em cada um dos 700 mil alunos8. 6. educacional entre a formação para uma vida plena e a formação plo. porque o menor infrator também é vítima de dificuldades ce”. que é no seio da própria sociedade que afunilado. fora dela instala-se a tragédia da degradação do humano. A ser o lugar de formação de verdadeiros cidadãos e tornar-se-á pena. em atividades delituosas tem aumentado significativamente nos últimos anos. passando. é um equívoco. no dia 15 de fevereiro de 2007. induzir. como defendem ração” da sociedade civil. casos. por exem. violência. à dignidade. mas. através da deficiência social.. 121. 121 e seu parágrafo 3o: sociais. à reduzido a um simples processo de treinamento. no calor dos horrores ampliados pela mídia nacional. Rio de Janeiro. ameaça comunidade. sob o pretexto de que é preciso formar desiguais do mundo. corre-se o risco de ver o ensino lazer. jul/ago 2007 265 . quando não de “cúmpli- depois. 20. ao Para o premiado geógrafo. Enquanto isso. mais precoce o ingresso de menores nas atividades criminosas. é a própria sociedade brasileira (uma das sociedades mais para o trabalho. O pomo da discórdia seria o art. mostrou uma leitura correta do citado art. à profissionalização. Os cidadãos vitimados pela violência cometida por menores não investe mais que R$ 145. “Primeiro. da sociedade em geral e do poder público assegu. o debate do pragmatismo globalizado triunfante pode destruir o equilíbrio perde toda racionalidade ao aventar a idéia de que.740. Esse jovens deficientes sociais não estaria na escassez de recursos. à alimentação. reduzir a idade da No entanto..” que detém a maior rede de educação básica da América Latina. a trágica e notória deficiência de atendimento aos aumento da pena acima dos três anos previstos pelo ECA. ao largo do art. implacável competitividade. ao uma profissionalização precoce. minosos adultos para a prática de crimes hediondos) têm levado Segundo. Se. desde a prisão em situações de corre- Fit Perf J. que estamos vivendo”7. da mesmo desnecessário.. a participação de menores e da juventude. instigar ou auxiliar” criança ou adolescente a sociais dos últimos séculos”. da infância Segundo o senador Mercadante. sujeita aos princípios de brevidade. mas Para o saudoso geógrafo Milton Santos. sobretudo. inimputabilidade para 16 anos e o aumento da pena para dez.. o saber prático tende a ocupar todo o espaço da es- são criados os monstros que ela deseja exterminar. mereceriam pura e simplesmente Vautrin Lud. para muitos. “Isso tem conseqüências extremamente graves. E “patrono” ou “protetor” de desviantes. cada menor internado custa R$ 4 mil. a sociedade não consegue ver a criança ou o adolescente. Denunciando “a difusão acelerada de propostas que levam a O fato é que a Comissão de Direitos Humanos do Senado. sim. ao respeito. aumentada em um terço se o menor participante do crime sofrer lesão corporal de natureza grave. 4o. Em meio à indignação provocada pelos crimes Competência Social x Deficiência Social cometidos. será um celeiro de deficientes cívicos”9. projeto de lei do sena- e à educação oferecida segundo diferentes níveis de qualidade. à fragmentação da formação aprovar. porque adolescentes (ou a utilização de adolescentes e crianças por cri- não ataca as raízes do problema. R$ 400. em 1994 (equivalente ao Nobel na Geografia). à educação. uma prática que. nesses episódios autor de cerca de 40 livros e 300 artigos científicos. Cabe uma não somente porque contribui para expandir e generalizar a maior movimentação da sociedade e das devidas organizações. à cultura. Os crimes cometidos por crianças e alguns setores da sociedade. à vida. do a Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. ao esporte.. vive-se o drama da deficiência cívica. paralelamente ao crescimento do chamado crime Várias alternativas têm sido tentadas para solucionar o problema organizado.00 a menos que § 3º Em nenhuma hipótese o período máximo de internação a média nacional. a República.” mentalização das pessoas. ganhador do Prêmio sim monstros que. cola. os “monstros” (mesmo “os monstros”) são responsabilidade precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das da família.00 mensais (R$ 1. 4. a um aprendizado que se exaure Sim.. dor Aloizio Mercadante (PT-SP) que altera o Estatuto da Criança situação em que a privatização do processo educativo pode cons- e do Adolescente e aumenta a punição prevista para quem tituir um modelo ideal para assegurar a anulação das conquistas “utilizar. menores (18 anos. 30 anos. a pena de morte. e sim suas manifestações.) responsável pelo Departamento Geral de Ações Sócio-educativas. com absoluta prioridade. em grande parte dos governamentais e não-governamentais.tendo o embasamento teórico totalmente à disposição. excepcionalidade e respeito E o poder público tem sido eficiente na aplicação do ECA? Segun- à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. a efetivação dos direitos referentes afirma em seu artigo “Os deficientes cívicos”8. Milton conclui: “A escola deixará de praticar crimes. a Prefeitura do Rio de Janeiro. excederá a três anos.. Nesses momentos trágicos. (. de acordo com a Constituição Brasileira) e o Nesse sentido. é vítima do processo de esgarçadura do tecido social “Art. “clamor social” não contenta com nada menos que a diminuição mas sim na estratégia usada pelo Estado.

6. cognitiva e motivacional” (p. reforçando-o ou atenuando-o: os gestos. com comporta. e realizar um procedimento multidisciplinar e interativo. Ao adjetivar o jogo com os valores do seu tempo. Rio de Janeiro. Assim. jul/ago 2007 . apresentada por jogo pode ser vislumbrado como conseqüência ecológica. enfim. constituídos por indivíduos radical- Esta “reorientação” é a condição indispensável para facilitar a mente isolados. 266. a postura. sição de estratégias explícitas de generalização de competências adquiridas no contexto relacional do indivíduo14. pois que são deficiente social. entre outras coisas. Ressocializar o que é trazer a terceira dimensão para o mundo da representação”. aparece cada vez mais ligada a seu contexto social. doenças psicossomáticas. são sublinhados os modelos sociais disponíveis na vida vai influenciar na construção da personalidade. transforma-se naturalmente em ato político. como houvesse a mediação da reaquisição de uma identidade pelo tal. principalmente durante o trabalho com crian- O centro do problema seria a deficiência social. Mas como “padronizar” uma anormalidade Porque se trata de algo anterior ao construtivismo: o lúdico é fora da esfera da convivência social? Como socializar erguendo inerente à natureza humana.. a prática desportiva deve ser abordada sob o ponto de comunicação e integração. funcionar como parte integrante de um grupo social”12. mento desviante que inclui roubo. é uma cons- como o indivíduo se sente protegido. efeitos as expressões faciais. Todas as propos. a eficácia pessoal que a criança faz tem sentido. e a sua capacidade individual para naturalmente não só porque gosta. o contato visual. disponíveis. tivas de sucesso ou insucesso em relação à competência social e tas procuram implantar. trução do jogo natural com finalidade educativa. os projetos devem voltar-se para a organização sem dúvida. a comunidade na busca de novas formas de relacionamento. sentido a essas ações. a para uma leitura do corpo em ação. etc. “Há uma relação direta entre o modo vista dialético. quando joga. centrada no indivíduo uma melhor integração da criança e do adolescente. tais como falta de modelos adequados verbal da comunicação. 4. deficiente social significa estar próximo da comunidade de base Brincar não seria uma forma de escape. um simulacro. tem se Dentro de uma ontologia do Desporto. de cada indivíduo e o modo como o sucesso na satisfação de Para Brougère. já que Bandura. o mundo imaginário em circuito fechado? Pelo contrário: “A brincadeira é. um esplêndido espaço Se a competência se realiza dentro do contexto da comunidade. A brincadeira envolve todo o ser e pode prescindir da palavra: o corpo “fala”. assim. 59)16. o homem construiu o esporte. A criança joga reconhecido e valorizado. sem intercorporeidade. principal função informar sobre a atitude emocional. o Dentro da teoria da Aprendizagem Social. já que ele também. O brinquedo é. um meio de a criança viver Desenvolver um processo educativo e de estimulação requer a cultura que a cerca. tendo como sócio-cultural. Abre-se. responsabilidade e a educação de competências sociais visando A abordagem do desenvolvimento humano. deficiência social se contrai na exterioridade do ser comunitário. como ela deveria ser” (p. institucionalizada e com regras e. por exemplo. de imagens com volume: está aí. O esporte na escola. “Os sinais da comunicação não verbal são usados para encetar se a falta de competência social. assim. aprende-se que o homem só exerce a sua inteireza aprendizagem onde se desenvolve o projeto pessoal de expecta. Atribui. difícil se torna entender revelado “deficiente”11. apoiado emocionalmente. A Construção da Utopia: Virando o Jogo A deficiência social é considerada como um padrão anormal Por que o jogo é fundamental para a competência do homem? do comportamento. e mesmo as atividades que visam à satisfação ime- 266 Fit Perf J. 150)17. é a lógica do fazer de conta e de do indivíduo. o Estado. “a brincadeira não pode ser limitada ao agir: o necessidades pessoais pode ocorrer13. a necessidade de jogar.). isolamento. a grande originalidade e especificidade do brinquedo interativa da prevenção e do desajuste social. Matos leciona: A deficiência social é o lado negro da competência social. neste caso. conseguir construir uma ponte humanista que leve a deficiência geralmente nascidos na pobreza e na carência. efeitos da privação indicadores de um estado. a competência social. signos culturais. tal como ela verdadeiramente é. um mundo de seres humanos. falta de vivências consideradas satisfatórias. agressão. ças deficientes sociais em situação de risco.ção até projetos abertos de educação social10. “o Desporto é uma práxis lúdico- de e no Estado. O objeto tem o papel de despertar imagens que permitirão dar à sua comunidade. etc. a mente “decodifica”. (Aqui. e não estimular as capacidades pessoais e relacionais através da aqui. a uma carência na e manter a relação interpessoal. prevenção do desajuste social dos indivíduos e envolveria toda não há Desporto”15. marginalização. representar. Nesse sentido. Assim. A mensagem não verbal é a história pessoal de aprendizagem das repostas necessárias para primeira impressão sobre a qual se vai inscrever todo o conteúdo uma auto-realização. cação do próprio homem à humanidade quando sistematizou o dividualizar através da massificação? jogo. são assim de ansiedade e inibição do comportamento. uma fuga. e no seu contexto. social até o seu lado luminoso. tanto no que ele sabe fazer como no que sabe tudo o que Piaget chama de brincadeira simbólica (ou semiótica). de uma intencionalidade. mas também porque sente. um fornecedor de Para que ocorra a intervenção e a efetiva consolidação de com. Destarte. de forma mais ou menos autoritária. a à eficácia desta para garantir uma integração satisfatória12. consumo de drogas e álcool. representações manipuláveis. como qualquer ser humano. deveria ser reorientada. petências sociais. e a ele emprestou valores e o impregnou de A resposta a estas perguntas deve ser encontrada na socieda. A própria capacidade socializante do Estado também coletivas ou sociais as suas causas ou conseqüências. Sem intersubjetividade. uma vez que o contexto social fornece ao indivíduo modelos de Em Huizinga. através de um sistema de compensação onde agonística e corporal. Para Sergio. em geral. O esporte é construção humana e muros e impondo normas que contribuem para uma crescente teve sua gênese na instância lúdica da cultura através da codifi- “anormalidade”? Como incluir através da exclusão? Como in. só será vitoriosa se definiremos o deficiente social como crianças e adolescentes.

ed. como a caça. Fit Perf J.diata das necessidades vitais. [1 tela]. passando a ser responsabilidade da iniciativa www. [acesso em 2007 mai 14]. 2a ed. Estatuto da Criança e do Adolescente. Aliás. na isso dizer que o jogo se transforma em cultura. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2007 fev [acesso em 2007 jun 24]. na educação. coordenação unidade do jogo e da cultura. doutrinas. 1976. São Paulo: Cortez. Bandura A. tem que exigir 10. Ag Brasil. E como equacionar esporte (a socialização da brincadeira e do 4. e é através deste último que a sociedade grandes categorias de organização social: o lazer e o trabalho. Carvalhosa SF. Costa infere Cambridge University Press. Rio de Janeiro: Manole. formação. 85)1. pertencer unicamente ao passado” (p. Homo ludens. Matos M. Disponível em: investimentos.2007-02-15. T. 267. Motricidade e jogo na infância. Os deficientes cívicos. Tubino MJG. Huizinga J.org/brazil/Pags_008_019_Mortalidade.ibge. jul/ago 2007 267 . tela]. principalmente crianças e adolescentes. UNICEF. que se nutre dos simbolismos que habitam os conjuntos 16. Cambridge: imperativos. Burton. Brasília.gov. Direitos humanos . 34-42)19. Social cognitive development: Frontiers and possible futures.br/fol/brasil500/dc_3_9. sociais do esporte. Dimensões sociais do esporte. Aragão S. Rio de Janeiro: Renovar. Relatório Anual do Brasil. Não queremos com Estas categorias da vida projetam-se na arte. Mazenotti P.folha. grandes da Criança. desenvolvimento e Disponível em: http://www. São Paulo: Perspectiva. par desse jogo essencial para a construção da cidadania plena. que. Esporte de aventura e risco na montanha. 3. 2004 fev [acesso de ser considerado uma manifestação comprometida com os em 2007 mai 15]. social pela criança. Social learning perspective on behavior change. Para Pires (In: Sérgio) “é 20. de acordo convenções que perderam já toda e qualquer ligação direta com com Huizinga. Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos. 2001.uol. Neto assevera que “estas mudanças operadas na mobilidade do tecido social levam-nos a considerar que se REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS torna dar à criança o direito de praticar o desporto. [1 tela].br/home/estatistica/populacao/registrocivil/2005/ default. educativo” (pp. Lisboa: Compendium. o que o impede 8. 17. O “esporte-participação” (“referenciado 2005. por isto o esporte é fundamento do estado 18. habita. ela todos. e sim que em suas saúde.gov. o “esporte-perfomance” (ou 7. Brasília: Ministério da Saúde. 1995. 1990.int/water_sanitation_health/diseases/malnutrition/en/ . BRASIL. Cultura é civilização. Disponível em: http://www. concluir também que o fenômeno desportivo é complexo 1. “A vida social reveste-se de humana. 4. Lei 8069. da Justiça. espírito lúdico) e educação? Tubino vislumbra três dimensões 5. Rio de Janeiro: UNICEF. talvez constitua um dos únicos 12. que ela dora.gov. Organização Mundial da Saúde.algumas considerações sobre o ECA. Assim é também na aventura lúdico. [acesso em 2007 set 01]. dos arquétipos e dos mitos. “a 9. São Paulo: Cortez. bem-estar social dos praticantes”). privada. asp?ident=28 .agenciabrasil. Disponível em: http:/www1. ou imaginação simbólica. 181)18. Neto C. tem de ser portador do plano global do sistema social formas suprabiológicas. 1992. Brinquedo e Cultura. [1 educação. In A. o jogo e o direito têm um profundo parentesco. Situação da Infância Brasileira 2006. O jogo como elemento de cultura. e o “esporte-educação”.br/detalhe_noticia. possa vivenciar sua plenitude lúdica. OMS. 2001. é ao jogo que cabe a primazia” (p. Simões C. 1981. BRASIL. regras e regulamentos. [acesso em 2007 mai 14]. [1 tela]. 4a ed. Deve-se. Algumas teses sobre o desporto.shtm . Brougère G.unicef. enquanto subcategoria da motricidade sociedades primitivas uma forma lúdica. percebem o berto por uma nova camada de idéias.. facetas bastantes polêmicas e discutíveis 1971. para ele. Sérgio M. Costa VL. 1994. portanto. Rio de Janeiro: Sprint. preceitos democráticos”). quando se trata de equacionar o desporto em crianças jovens 2. 1993 do chamado esporte-educação um conteúdo fundamentalmente 11. Folhaonline. Santos M. o processo de formação do cidadão. e que tem como finalidade o 6. Estatuto da Criança e do Adolescente: Estudos sócio-jurídicos. com o princípio do prazer lúdico. e que as técnicas de desenvolvimento do País” (p. ender o esporte como manifestação educacional. Desenvolvimento de competências de vida na prevenção do desajustamento social. produção e a própria vida social vão-se organizando de maneira Tanto a Constituição da República Federativa do Brasil quanto mais perfeita. SEASDH. Bandura A.. o velho solo cultural vai sendo gradualmente co- o Estatuto da Criança e do Adolescente. Corpo e jogo na infância. por vezes. [1 tela]. que lhe conferem uma dignidade superior de maneira a nele se poder integrar. quanto ao seu enquadramento. Impacto da violência na saúde dos brasileiros. repleto de regras e 13. 2000. comparação de diferentes 53)1. 6. tendem a assumir nas evidente que o desporto. É indubitável que o jogo como prática desportiva é capaz de alicerçada na profunda dignidade humana. 6)20. 1999 jun [acesso em 2007 abr 12]. [1 tela]. que a imaginação criadora. é bom que se refira que esta preocupação integra- fases mais primitivas a cultura possui um caráter lúdico. Dizemos. envolvendo organização complexas. Para Tubino. e apresenta. What makes behavior change possible? New York: Brunner/Mazel. tendo em conta as duas sob a forma de jogo. Terminou o período heróico. um contributo para 19. espaços onde o homem do nosso tempo. Rio de Janeiro. humano.who. que tem um fim eminentemente social. O jogo esportivo. não faz mais do que cumprir uma das quatro funções do se processa segundo as formas e no ambiente do jogo. UNICEF.social. e a fase agonística parece. que “é nesse processo de atualização de um mundo imaginário 14. de diferentes categorias de objetivos. o ECA. hodiernamente. 2000. Lisboa: FMH/Inst de Reinserção Social/Ministério esportiva da natureza” (p. sistemas de pensamento e esporte como um instrumento de cidadania. democrático de direito. IBGE. normas morais e contempla sua especificidade e sua importância. Disponivel em: http://www. exprime sua interpretação da vida e do mundo. possam partici- também.br/notivias/2007/02/15/materia. nesse momento. Dis- Como retornar ao jogo original? É possível voltar às origens? ponível em: http://www.rj. praticado pelos “talentos esportivos.com. o jogo. 19)15.htm . não pode ser confundido com os dois anteriores. devido ao fato de atribuir ao jogo apenas um lugar secun- inalienável e transformar essa utopia em realidade para que dário. sendo. antes que a barbárie proporcionar múltiplas formas para compreensão do contexto invada o campo do possível1. E leciona: “À medida que uma civilização vai-se tornando políticas desportivas e integração do desporto na política de e revestindo-se de formas mais variadas. Rio de Janeiro: Sprint.pdf .8147504404/ view . Na dupla conceito de nível desportivo – visão estratégica. ao compre. manifestação de valores ético-desportivos” (p. A ONU também conhecimento. Comissão do Senado aprova projeto de Mercadante que altera Estatuto de rendimento. no entanto. In: PEREIRA. que a civilização se tornou mais resta caminhar para a constituição do esporte como um direito séria. 2001. É lá que reside o fator da humanização e aperfeiçoamento do ser 15. Matos M. Se.