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ENQUANTO HOUVER TEMPO

A noite chegou, como que de repente, lançando suas sombras escuras sobre a cidade. Era uma noite fria, quase gélida, nevoenta, que
confirmava para dentro de poucos dias a intensificação do inverno castigador que os noticiários estavam prevendo para aquele ano. A lua,
opalescente, parecia lutar para se manter luminosa, envolta numa espécie de esponja negra que a tudo tentava enegrecer. Naquela rua de um
bairro de casas luxuosas, a tranqüilidade já se podia notar; apenas uns poucos garotos brincavam de bola, bem no meio dela, aproveitando a
quase total ausência de veículos àquela hora. Sérgio Andrade, com um lento caminhar, caminhava em direção à sua casa. Andava com as mãos
enfiadas nos bolsos de seu sobretudo e seu pescoço contraía-se sobre os ombros, numa manifestação de frio. Olhou para as crianças gritando
e deteve-se por um instante para apreciar a energia daqueles meninos, que indiferentes ao frio, brincavam animadamente. Nenhum deles
pareceu notar a presença um tanto quanto estranha de Sérgio, que ali estacara para observa-los. Sérgio passou a observar especificamente um
daqueles garotos, pois aquela criança o fazia lembrar em muito o seu próprio filho, Gustavo de oito anos. Achou graça enquanto via o menino
gritando, xingando os seus colegas na disputa pela bola. Lembrou-se do quanto Gustavo gostava de futebol e nas inúmeras vezes em que ele
havia prometido leva-lo ao estádio para ver o seu time jogando. E de repente o sorriso morreu em seu rosto e sua fisionomia tornou-se vazia,
empedernida. Abaixou a cabeça e retomou a sua caminhada. Ao chegar em frente a sua casa, poucos metros à frente, estacou novamente e
passou a vislumbrar toda aquela fachada, de dois pavimentos. Em seu peito, ardia um terrível sentimento de dívida para com seu filho e sua
mulher, Lúcia. Depois de um tempo de contemplação, ele entrou. Ao chegar a sala, que se encontrava quase que totalmente submersa na
escuridão, avistou sua mulher na cozinha de costas, à pia, preparando alguma coisa. Pensou em ir até lá, mas sentiu que não era conveniente.
Não naquele momento. Então, exausto emocionalmente, ele deixou-se sentar no sofá e se perguntou o que poderia fazer para consertar suas
faltas perante a sua família. Era claro que aquele acidente automobilístico que ele sofrera três dias antes era uma sacudida de Deus. Batera o
carro por causa do excesso de trabalho, isso era inquestionável. A batida fora uma forma de mostrar que bens materiais não são tudo na vida.
Tais bens são todos perecíveis, voláteis ao passo que valores como o amor, a família, são imensuráveis, são eternos. Tanto era verdade que
agora ele estava ali, sem o seu luxuoso carro, que tivera perda total e, como se não bastasse, com uma dívida emocional enorme para com sua
mulher e filho, numa relação tão estranha e distante que parecia existir um gigantesco muro entre eles.
Sérgio vinha levando uma vida profissional muito agitada nos últimos tempos. Advogado obtivera oportunidades muito tentadoras no
grande escritório em que trabalhava. Como viera de uma família de parcos recursos financeiros, sabia bem o que era viver sem dinheiro, o que,
obviamente, o levou a agarrar exageradamente a primeira oportunidade que aparecera para sair daquela situação. Quando ainda era recém-
casado, com muito sacrifício, ele custeou a faculdade de direito enquanto trabalhava durante o dia. A relação conjugal neste período de arrocho
financeiro, por mais incrível que pudesse parecer, era maravilhosa, totalmente adversa de quando Sérgio iniciou a sua ascensão profissional,
logo depois de formado. Naquela época de estudante, Sérgio mostrava-se extremamente carinhoso e cuidadoso para com Lúcia. Tinha poucos
horários livres, era verdade, mas ela compreendia muito bem tudo aquilo. É que nos momentos em que estavam juntos, tudo era vivido
intensamente, de maneira que ela nunca se sentira relegada a segundo plano. Gustavo nasceu depois de um ano de casados e já contava com
seus cinco anos quando Sérgio se formou. Uma vez tendo se tornado advogado, a presença do marido continuou inevitavelmente esporádica,
mas agora sob outra alegação: a de conseguir uma vida digna para a família com a nova profissão. Lúcia, com uma certa angústia, aceitou
aquela situação como necessária, achando que tão logo Sérgio começasse a ter uma estabilidade, ele iria poder enfim diminuir o ritmo de
trabalho e assim se dedicar mais à família. Mas não foi o que aconteceu nos anos seguintes. O padrão de vida realmente se elevou visivelmente:
casa nova, carro novo e a melhor escola para Gustavo. Mas a presença de Sérgio era cada vez mais rara em casa e conseqüentemente na vida
do filho que crescia. Quando Lúcia resolveu alertar-lhe sobre isso, ele se exaltou e acusou-a de não estar querendo o bem de todos, inclusive o
do próprio filho, Gustavo. Ela prometeu que nunca mais iria lhe falar mais nada em relação àquele assunto.
Sérgio, ali sentado no escuro da sala, passou as mãos aflitivamente nos cabelos e suspirou fundo ao se lembrar das várias situações
em que errara feio com eles, sem ter a noção de que os estava magoando profundamente. Aliás, foram somente erros…Ele não mais dava a
mínima atenção para Lúcia. Chegava tarde em casa e pegava Gustavo já dormindo e a esposa a espera-lo. Depois de um rápido lanche, caía
esbodegado na cama, reclamando que estava terrivelmente cansado, deixando-a acordada, solitária. Acordava cedo, tomava um rápido café e
saía, dando um insignificante aceno para a esposa, pois já estava com o celular colado na orelha, debatendo-se com sócios e clientes. Houve
um restaurante, ao qual Lúcia tanto queria ir, que chegou a ponto de fechar suas portas sem ela ter conhecido, por causa dos constantes
adiamentos que Sérgio promovia por causa das sucessivas reuniões de clientes. Com lágrimas nos olhos, lembrou-se dos meninos que
brincavam na rua, o que lhe trouxe inevitavelmente à mente o semblante de frustração e decepção que o filho apresentava no rosto nas
constantes ocasiões em que estava pronto para ir ao estádio, com o uniforme de seu time favorito, e recebia a notícia do pai de que não mais
poderiam ir conforme o combinado, por causa de um imprevisto profissional. Erros… Somente erros.
Sérgio levantou os olhos e viu Gustavo descendo as escadas rapidamente, com o rosto molhado de lágrimas. Seu coração disparou de
emoção, mas permaneceu ali, no escuro da sala; observou calado o garoto correndo para a cozinha, chamando pela mãe. Lúcia virou-se e o
abraçou fortemente. Sérgio então se levantou e caminhou até eles, não conseguindo conter também suas lágrimas.
Pouco tempo depois, os meninos ainda brincavam na rua quando Sérgio passou por eles, desesperado, chorando alto num lamento de
remorso e arrependimento. Mas nenhum dos garotos podia escutar nada daqueles urros de dor, e continuaram todos compenetrados na
brincadeira. Sérgio continuou correndo sem rumo, pois era-lhe insuportável permanecer em sua casa e escutar seu filho desconsolado, chorando
nos ombros da mãe, que tentava conforta-lo pacientemente. E ele, como pai, sem poder fazer nada. Absolutamente nada.
—Por que ele foi dormir ao volante, mãe?—lamentava o garoto em prantos.— Por que, por que…?
Enquanto houver tempo
Paulo Henrique Gomes Gontijo

Assim como o cofre. Em seguida. chamou o filho: _ Venha aqui. meu filho. o melhor jeito que encontrei para escolher um de vocês é lançá-los um desafio. Deus me deu três filhos maravilhosos e sei que qualquer um de vocês será um ótimo rei. compaixão e atitude! Esse meu filho possui todas as qualidade que um rei temente a Deus deve ter. Garanto-lhes que não há outro objeto que simbolize tão bem a nossa história! O segundo filho. O príncipe pensou no desafio do pai e na possibilidade de se tornar o novo rei. desde que me tragam o símbolo escolhido até a hora do jantar. Já o terceiro resolveu caminhar pelo reino. conversou com as pessoas humildes e conheceu um pouco da vida dura que elas levavam. fiquei muito cansado e não tive forças para voltar ao seu desafio. bondade. Um deles decidiu procurar dentro do próprio castelo. um importante símbolo da família real. Eu preciso arar este campo até o fim da tarde se quiser receber um pouco de pão para levar para casa. Durante suas andanças. decidiu ajudar o pobre menino . Ele explicou: _ Meu pai e senhores nobres.. o maior símbolo do nosso reino! Satisfeito com as duas primeiras apresentações. a espada também tinha um grande significado de coragem e valentia. Terceiro: ele foi sensível ao sofrimento do menino e de sua mãe. Porém. Os príncipes. esse cofre simboliza a estabilidade e o poder do nosso reino. A história do menino mexeu tanto comigo que parei minha busca para ajudá-lo. Vocês podem procurar onde quiserem. por favor. o rapaz falou ao pai sobre como foi o seu dia: _ Não trouxe nada. Assim que terminaram o serviço. então. essa espada simboliza os tempos difíceis em que o senhor arriscou a própria vida para que a força e a grandeza no nosso reino fossem estabelecidas. O segundo. Ele sabia que não podia perder tempo. Um rei de verdade nunca pode deixar de estar com o seu povo. o filho que havia ficado no castelo apresentou ao pai e aos nobres um antigo cofre de ouro maciço cravejado com diamantes e rubis. meu pai. então. mas vários: _ Em primeiro lugar: ele foi até o povo. ele foi visitar a mãe do garoto. pois todos tinham bom coração e eram dignos de receber a coroa. O rei continuou: _ Os símbolos trazidos ao nosso reino por ele foram: amor. por isso. . foi até a vila dos sábios do reino e passou o dia todo discutindo o assunto com eles. A tarefa não era nada fácil. O rei. um rei temente a Deus e muito amado pelo seu povo. digam: Viva o rei! E todos os que estavam no salão gritaram “viva o rei”.. Me deixe ver as suas mãos! Ao notar que as mãos do rapaz estava cheia de bolhas. saíram em busca do melhor símbolo do reino.nem que fosse um pouco. Deixei o castelo para visitar o nosso povo e me dei de frente com um órfão de pai que. resolveu decidir qual dos seus três filhos iria herdar o seu trono. meu filho. apresentou uma antiga espada que pertencia ao seu pai. eu já estou velho e não tenho mais forças para governar. Sensibilizado. em meio a lágrimas. garoto? _ Meu pai morreu na semana passada e minha mãe está muito doente. o rei ergueu o braço do príncipe e disse a todos os nobres: _ Senhores. Queria terminar logo para poder dar o que comer à minha mãe. com certeza. buscava no arado da terra um pouco de pão para alimentar a mãe. eu não posso coroar os três. E para que não haja dúvidas sobre a minha decisão. este é o meu escolhido! Ele herdará a minha coroa! Este rapaz não trouxe apenas um símbolo do nosso reino. aquele que foi procurar os sábios. Era. Depois fui visitar a senhora doente. Segundo: ele foi capaz de escutar uma criança. sem dúvida. Me perdoe. por sua vez. Só que eu não consigo fazer isso sozinho. no museu e no cofre onde ficavam guardadas as maiores riquezas do reino. o rei perguntou ao último filho: _ E você. Como ele era muito gentil e educado. Ele visitou o seu povo. o rei teve uma grande ideia. o príncipe encontrou um menino que chorava enquanto arava a terra de uma plantação. Depois de muito pensar em uma forma de não ser injusto com seus filhos. Os que concordam comigo. ele perguntou: _ Por que você está chorando. porém.Certa vez. Na hora do jantar. O filho disse: _ Meu rei. o que trouxe para nós? Sem jeito e meio desapontado (pois sabia que não seria o escolhido). nos tempos em que ele ainda era príncipe. Como não estou acostumado ao trabalho braçal. chamarei os nobres do reino para me ajudarem. Quarto: ele demonstrou que é capaz de colocar os interesses dos necessitados acima dos seus interesses. percebendo que estava envelhecendo. E explicou qual seria a missão: _ Saiam agora e procurem aquilo que vocês acreditam ser o melhor símbolo do nosso reino. inclusive os seus irmãos. Este é. que muito agradeceu a sua ajuda (a mãe e o filho não sabiam que ele era filho do rei). passou horas e horas arando o campo com o menino. mandou chamar os três e lhes disse: _ Meus filhos amados.

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