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Comunidades terapêuticas

BOLONHEIS-RAMOS, Renata Cristina
Marques; BOARINI, Maria Lucia.
Comunidades terapêuticas: “novas”
perspectivas e propostas higienistas.
História, Ciências, Saúde – Manguinhos,
Rio de Janeiro, v.22, n.4, out.-dez. 2015,
p.1231-1248.

Comunidades Resumo

terapêuticas: “novas” Problemas decorrentes do uso/
abuso de álcool e outras drogas
perspectivas e propostas agravam-se continuamente. Existem,
atualmente, medidas polêmicas que
higienistas visam a soluções imediatas, como o
financiamento público das comunidades
terapêuticas. Analisam-se, aqui,

Therapeutic communities: possíveis aproximações do legado
higienista do início do século XX em

“new” outlooks and public questões que envolvem o uso/abuso de
substâncias psicoativas com as propostas

health proposals de intervenção das comunidades
terapêuticas atuais. Realizou-se pesquisa
com fontes primárias, inspirada na
vertente do materialismo histórico.
Entende-se que os problemas decorrentes
do uso/abuso de drogas continuam
deixando o ônus maior aos usuários, às
pessoas ao redor e à saúde pública.
Palavras-chave: comunidades
terapêuticas; políticas públicas; usuários
de drogas; alcoólicos; higiene mental.

Abstract
Problems related to alcohol and other
substance abuse are on a steady rise. Certain
controversial measures currently aim at
Renata Cristina Marques Bolonheis-Ramos immediate solutions, such as the public
Psicóloga, Prefeitura Municipal de Maringá, Paraná. funding of therapeutic communities. The
renatabolonheis@hotmail.com article draws comparisons between the
legacy of early twentieth-century public
health practices in psychoactive substance
Maria Lucia Boarini abuse and current proposals for intervention
Professora, Programa de Pós-graduação em through therapeutic communities. The
Psicologia/Universidade Estadual de Maringá. study researched primary sources from
UEM the perspective of historical materialism.
Avenida Colombo, 5790
87302-220 – Maringá – PR – Brasil Historically produced by society as a whole,
problems stemming from substance abuse
mlboarini@uol.com.br
continue to place the greatest burden on
users, the people around them, and public
health.
Keywords: therapeutic communities; public
policy; drug users; alcoholics; mental health.
Recebido para publicação em agosto de 2013.
Aprovado para publicação em abril de 2014.

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-59702015000400005

v.22, n.4, out.-dez. 2015, p.1231-1248 1231

o consumo de outras drogas. Ciências. 2. formas de prevenção e tratamento 1232 História. justiça. verificamos que a questão acaba sendo muitas vezes tratada. com o objetivo de educar a população sobre os males provocados pelo álcool. Diante do clamor da sociedade e da mobilização de alguns segmentos em busca de soluções para o problema. Exemplo de que a preocupação com o uso/abuso de substâncias psicoativas não é exclusividade dos dias atuais é a mobilização dos higienistas junto à Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM) no início do século XX. Boarini. assistência social. entre elas a transição do trabalho escravo para o trabalho livre. entre outras áreas. não eram consideradas ilícitas e os seus fins terapêuticos eram divulgados abertamente nos meios de comunicação (ARU. Lopes. indústrias. resultando em cerca de 200 mil mortes a cada ano. era bem menor se comparado ao álcool e. 1997). bem como suas consequências. 2012). 2012) informa que aproximadamente 27 milhões de pessoas apresentam problemas decorrentes do consumo de drogas ilícitas em todo o mundo. que culminou em aumento progressivo dos centros urbanos. inviabiliza- se o debate democrático e se desvincula o problema de seu contexto e desenvolvimento sócio-histórico. mas em diversos países do mundo. especialmente pela mídia. E. até o início do século XX. além do álcool. como o ópio. Saúde – Manguinhos. importantes avanços em termos de sanitarismo e saúde. destacamos as campanhas antialcoólicas. como a Primeira Guerra Mundial e a crise econômica de 1929. igrejas e outros ambientes públicos. faculdades. também era abordado pelos higienistas (Bittencourt. a mudança da sociedade rural agrária para a urbano-industrial e o processo imigratório. como a cocaína e a heroína. segundo Gomes e Capponi (2012). de acordo com dados da Organização Mundial de Saúde. Mas isso não parecia ser preocupação contundente naquela época. o alcoolismo passou a ser visto como um importante problema de saúde. mais ainda. de forma superficial. Lembramos que. especialmente da psiquiatria. 2001). Influenciado por acontecimentos de abrangência mundial. o Brasil no início do século XX experimentava importantes mudanças sociais e econômicas. com viés moralista e preconceituoso. como se fosse um fenômeno da atualidade. 1934). segurança pública.Renata Cristina Marques Bolonheis-Ramos. em grande parte. Rio de Janeiro . por meio das quais profissionais divulgavam seus estudos junto à imprensa. Com isso. Certamente. 2012). que afligia a sociedade brasileira naquele período. social e econômico. a questão vem-se constituindo ao longo de décadas uma importante problemática e preocupação de diversos setores não só no Brasil. Dentre as atividades da LBHM.5 milhões de pessoas morrem por ano em consequência do abuso do álcool (WHO. as propostas e intervenções dos higienistas possibilitaram. e. algumas dessas drogas. 1935. Essa entidade era composta por profissionais de diversas áreas. que normalmente se dava em meio à população mais abastada economicamente. O Relatório Mundial sobre Drogas (UNODC. a cocaína e a morfina. Maria Lucia Boarini Os tortuosos e centenários caminhos do mercado da “alegria” Observamos que nos últimos anos o uso/abuso das drogas lícitas e ilícitas tem sido tema recorrente nas discussões que envolvem saúde. Nesse contexto. Diante dessa demanda. visto que o consumo dessas substâncias. ainda que entender a historicidade dessas questões não fosse o forte desse grupo (Moura. realizavam conferências e palestras nas escolas. e muitos foram os seus investimentos e campanhas à causa do combate ao alcoolismo. resultando em sérios problemas sociais e sanitários (Basbaum. educação.

O apoio e o financiamento a essas instituições têm alimentado várias polêmicas e discussões por parte de entidades e categorias interessadas no assunto. indicam-nos que precisamos avançar nas discussões e no enfrentamento dessa situação. 23 dez. 1931. v. De qualquer forma. “a urgência do tema não pode prescindir da amplitude de nossas discussões”. tem gerado ações caóticas. Como defendido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP. própria da ultrapassada cultura manicomial.4. 2011b. n. das quais participam profissio- nais.1231-1248 1233 . conforme discutem Pitta (2011) e Andrade (2011). Kehl. que nos últimos anos passaram a receber financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS) e a fazer parte da rede de atenção em saúde mental (Brasil. Nublat. ao lançar planos. p. 2012. como as comunidades terapêuticas (CTs). o objetivo do presente estudo é analisar possíveis aproximações do legado higienista em relação às questões que envolvem o uso/abuso de substâncias psicoativas. 2013). 2011). Obviamente. Como Delgado (2011) nos alerta. Lopes. visto que ideias e fatos de uma época passada não podem ser mecanicamente transpostos para a atualidade e interpretados exclusivamente sob as lentes do contexto atual (Gephe. com as propostas de intervenção das CTs atuais. comercialização e consumo dessa substância. segundo Andrade (2011). A falta de diálogo que ainda se observa entre instâncias federais. por outro verificamos a mobilização descompassada de governos e diversas áreas da sociedade civil em torno da questão. se essa rede ainda é insuficiente para a demanda levantada pelas consequências do uso/abuso das drogas lícitas e ilícitas. Comunidades terapêuticas dos dependentes. segundo Maierovitch (14 jan. No entanto. as medidas que vêm sendo tomadas em torno dos usuários de drogas constituem ações de caráter higienista (Maierovitch. junto com as instituições que os promovem. a limpeza do território e a dispersão dos “indesejados” para a periferia.22. 14 jan. principalmente das áreas da saúde. 2011).12). As iniciativas dos governos. se a sociedade não dispõe de forma eficaz de serviços de atenção psicossocial distribuídos nos territórios. a internação e o isolamento acabam encontrando aceitação social (Delgado. apesar da gravidade da situação. 1930a). Assim. 2012). 1934. estudiosos e autoridades. segurança pública. Tais discussões levantam a questão de que. nos âmbitos da saúde. como podemos em parte observar pelo trabalho desenvolvido pelos higienistas no início do século XX. justiça e assistência social. reforçando o quão atual é a relação desse ideário com a questão das drogas. decretos. Isso porque se por um lado temos as consequências desse consumo atropelando o cotidiano de todos. constituem passos importantes no enfrentamento desse problema. propondo. Diante do exposto.-dez. 2015. não podemos usar o terror e o pânico gerados pela questão das drogas para legitimar a internação prolongada. por exemplo. o aumento dos impostos sobre o álcool e a proibição da sua venda aos domingos e feriados (Cunha. a abrangência e a complexidade das questões que envolvem o uso de substâncias psicoativas. assistência social. a análise de fenômenos referentes a períodos históricos distintos deve ser feita com muita cautela. em algumas situações. 11 dez. essas políticas vêm sendo instituídas num contexto de pânico social relacionado ao uso do crack. A LBHM também discutia medidas de regulamentação e proibição da fabricação. Sadi. out. 2011). estaduais e municipais. o histórico. p. que têm como alguns dos principais propósitos. portarias relativas à política de álcool e outras drogas.

entendemos ser necessário pontuar algumas características gerais dessas instituições. Saúde – Manguinhos. consideramos que a recuperação da história enquanto cenário de construção do conhecimento é um dos compromissos da pesquisa e. nos possibilita observar e discutir possíveis avanços. pretendemos esboçar em nossa discussão o entendimento do uso/abuso de substâncias psicoativas como um fenômeno datado historicamente e construído socialmente. bem como algumas críticas a esse modelo por parte de autores contemporâneos. Igualmente. Rio de Janeiro . como Amarante (1994. Pitta (2011) e outros. Assim. Na investigação das propostas dos higienistas. com enfoque nas CTs. e das CTs e fazendas de recuperação atuais. que é considerado um dos principais autores nesse assunto. partimos do pressuposto de que essa relação existe. tampouco meramente criticar as propostas existentes. De qualquer forma. desde o início do século XX até as discussões atuais. essa expressão parece ter sido popularizada somente a partir da década de 1960. Para atender ao objetivo proposto. a ideia de comunidade terapêutica é verificada ao longo da história sob diferentes formatos. limitações e repetições sobre a forma como o Estado e a sociedade contemporânea têm enfrentado o problema das drogas. Até porque não encontramos o termo comunidade terapêutica nos documentos elaborados naquele período e. Ciências. além de obras de autores contemporâneos que pesquisam no campo da saúde mental. Isso não significa apontar soluções imediatas para um problema que há décadas vem se configurando. levantamos alguns documentos oficiais relativos às políticas públicas sobre álcool e outras drogas. podemos dizer que surgiram duas grandes variantes dessas instituições: uma no campo da psiquiatria social. Segundo De Leon (2003). mas aprender com os seus impasses e limites. Em sua forma contemporânea. pos- sibilita a observação das semelhanças entre seus fundamentos. Como já defendido por Queiroz (2001). é importante ressaltar que a relação que estabelecemos entre as CTs atuais e as instituições do início do século XX estão circunscritas a algumas de suas características e fundamentos de seu modelo de atenção. Na sequência. A conversão institucionalizada Antes de analisar o legado higienista nas questões que envolvem o uso de drogas e as propostas das CTs. apresentaremos as discussões atuais em torno do seu financiamento pelo SUS. que se agrava continuamente e traz a urgência de repensarmos esse fenômeno e as possíveis e necessárias estratégias de enfrentamento. já evidenciados pela história.Renata Cristina Marques Bolonheis-Ramos. Para fundamentar a discussão sobre a questão das drogas na atualidade. uma leitura atenta das propostas de tratamento moral e das colônias agrícolas (século XIX e início do século XX). 1995). nos EUA. Bezerra Júnior (2007). ideologias e visões de mundo. Delgado (2011). trabalhamos principalmente com De Leon (2003). trabalhamos com fontes primárias da primeira metade do século XX. como sugere De Leon (2003). Destacamos ainda que as leituras e análises que realizamos para o desenvolvimento desse estudo foram inspiradas na vertente do materialismo histórico. Maria Lucia Boarini Assim. Para abordar o tema das CTs. nestes termos. que consiste 1234 História. realizamos uma pesquisa bibliográfica e documental com materiais que abordam a questão do álcool e de outras drogas. principalmente os Arquivos Brasileiros de Higiene Mental (de 1925 a 1947) – periódico publicado pela Liga Brasileira de Higiene Mental.

abordagens psicanalíticas. Entre os ideais e práticas defendidos por esse grupo estavam a ética no trabalho. psiquiatria. Ásia e África. técnicas de autoajuda. p. 2003. e outra que são os programas de tratamento residencial para dependentes de álcool e outras drogas.p. em sua maioria instituições não governamentais. Para o autor citado. Pozas (1998) e De Leon (2003) reconhecem as influências genéticas. out. para então ser entendida como uma “modalidade de atenção humana inserida na corrente principal” (p. Comunidades terapêuticas em unidades destinadas ao tratamento psicológico e guarda de pacientes psiquiátricos. Fefferman e Morais (2011) que o modelo moral é predominante no atendimento disponível na maioria delas. mas também dos princípios preconizados pelos Alcoólicos Anônimos. medicina. Apesar essas mudanças não terem modificado os princípios essenciais da abordagem das CTs. ocupando a lacuna deixada pelos serviços públicos. Com a multiplicação de iniciativas desse tipo na América do Norte. verifica-se em Raupp. Como destacado por Araújo (15 ago. essa proposta foi reconhecida quando o psiquiatra do exército inglês Maxwell Jones desenvolveu um modelo de internação para tratamento de soldados que estiveram na Segunda Guerra Mundial e que apresentavam traumas diversos (Raupp. religião e ciências sociais. No Brasil. segundo Alves (2009). No que se refere aos princípios que embasam o atendimento proposto pelas CTs. 2015. São estes programas que constituem objeto do presente estudo. Para Costa (2009). mas entendem que a pessoa é considerada v. 2008). direito. podendo ser marcadas por princípios religiosos. Milnitisky-Sapiro. originado em 1935 (De Leon. tais entidades foram implantadas antes da efetivação das políticas públicas sobre álcool e outras drogas no país. o cuidado mútuo. Obid.27).4. a metodologia básica das CTs tem forte influência do modelo originá- rio do grupo de Oxford. elas possibilitaram que a mesma deixasse de ser considerada uma abordagem de autoajuda esotérica e alternativa. Durante os anos de 1950. que tinham influência não só do grupo de Oxford. iniciaram na década de 1970 e tiveram maior expansão na década de 1990.1 De Leon (2003) discute ainda que os primeiros responsáveis pelo tratamento em CTs eram os dependentes químicos e alcoólicos em recuperação. valores como honestidade e altruísmo. para a América Latina.p. especialmente nos EUA. mas em seu formato mais recente essas instituições passaram a sofrer influência das áreas da educação. “a forma assumida por uma comunidade terapêutica reflete a filosofia subjacente da organização que a fundou”.1231-1248 1235 . s. surgiram as primeiras comunidades dedicadas exclusivamente ao tratamento da dependência de álcool e outras drogas. entre outras. grande maioria delas tem por objetivo a abstinência completa de qualquer tipo de substância” (Araújo. terapia comportamental. Por volta da década de 1960. 2003. s.). 2007).-dez. as CTs tiveram repercussão como alternativa ao tratamento psiquiátrico manicomial. fundada na década de 1920. 15 ago. as CTs. uma organização religiosa sediada em Nova York. n. Em 1953.). inicialmente destinada ao tratamento de transtornos psiquiátricos. Na década de 1940. dentro ou fora de ambientes hospitalares.22. a experiência foi exportada para alguns países da Europa e. essa modalidade de intervenção se desenvolveu consideravelmente na Grã-Bretanha. fisiológicas e químicas que predispõem o indivíduo à dependência. Mas. sendo posteriormente adaptada ao tratamento para usuários de drogas. posteriormente. 2003. “independente da linha adotada e do nível de especialização do atendimento. o reconhecimento dos defeitos de caráter e a reparação dos danos causados.

à perda de sua identidade e a intenso sofrimento. juntamente com os movimentos da psicoterapia institucional e psiquiatria comunitária. Assim. como: deficit de percepção e julgamento. permeados por valores como “espiritualidade. Maria Lucia Boarini primordialmente responsável pelo seu transtorno e recuperação. Por outro lado. Ciências. as modalidades de atenção 1236 História. dificuldade de tomar decisões e de resolver problemas. Valderrutén (2008) discute o fato de que. uma vez que este normalmente está associado à perda de controle e a um estilo de vida disfuncional. Também se entende que. requer mais estudos para se verificar se a readaptação social tende a suscitar recaídas nos dependentes. e permite que eles se vinculem gradativamente à CT e à sua filosofia de vida. as CTs. desse modo. cuja facilidade de acesso constitui uma das principais razões para a desistência do tratamento. Em pesquisa realizada por Oliveira (2009). para onde devem ir os seres humanos considerados “interditados”. sociais e interpessoais. já que a abstinência nem sempre é possível e desejada por todos os usuários. as CTs atuais. social e psicológico.172) entendem que as CTs têm como objetivo possibilitar aos pacientes “amadurecimento pessoal” e reinserção social. sociais e psicológicos. a maioria das que estão em CTs partilha determinadas características. que se desenrolaram principalmente na década de 1960. verificou-se que. Mas apesar de se diferenciar em alguns pontos. apesar das CTs serem as opções de tratamento mais conhecidas pelos usuários de drogas em situação de rua. ainda que situacionais. Rio de Janeiro . Como defende De Leon (2003). incorporação dos princípios e reinserção social. Quanto à organização do tempo de tratamento observado nas CTs. mas não alteram a meta de mudar a pessoa por inteiro. De Leon (2003) reconhece. aqueles que haviam passado por esse tipo de intervenção alegavam que o haviam abandonado em função da rigidez das normas dessas instituições. apesar de algumas variações existentes. que em geral é a internação em isolamento por alguns meses. Para Birman e Costa (1994). bem como falta de capacidades educacionais. verifica-se que a vinculação e o enquadramento aos pressupostos de uma instituição fechada levam o indivíduo a uma “mortificação do eu”. responsabilidade. solidariedade”. desintoxicação. com suas práticas psicoterapêuticas e discursos moralizantes. Trabalha-se normalmente com nove a 12 meses de internação. semelhantes ao papel dos asilos como destino para leprosos e loucos de séculos anteriores. vocacionais. consideram que a metodologia de tratamento. essa separação possibilita aos usuários estar longe das drogas. verificamos que em geral o processo é dividido em estágios. embora as pessoas se distingam em termos demográficos. No estudo de Goffman (2008) sobre “instituições totais”. Saúde – Manguinhos. que a maioria dos residentes internados acaba saindo nos noventa dias de admissão. da rotina “enfadonha” de orações ao longo do dia. porém. Sabino e Cazenave (2005.Renata Cristina Marques Bolonheis-Ramos. de aprendizagem. o processo de mudança esperado. Assim. p. honestidade. o que inviabiliza sua preparação efetiva para a vida na sociedade e. as diferenças individuais que se observam podem modificar planos específicos de tratamento. como triagem. tiveram início dentro do processo de crítica à estrutura asilar de tratamento dos transtornos mentais. constituem uma das formas contemporâneas de exclusão. para as CTs é fundamental separar o dependente de seu ambiente físico. além da dificuldade de adaptação e permanência.

a entrada dessas entidades no SUS. 30 maio 2001). out. Em dezembro de 2011. estando dentro dos pressupostos da reforma psiquiátrica. uma vez que se criam condições ideais dentro da instituição que não se sustentam quando o egresso se depara com o mundo real. 2015.2 não fazendo parte da cobertura do SUS. orientação sexual (Brasil. p. por exemplo. O Conselho Federal de Psicologia (2011a) também se manifestou contra o financiamento das CTs pelo SUS. que substituiu a resolução n. tendo em vista o avanço do problema das drogas no país – especialmente do crack –. o governo federal lançou um plano com o slogan “Crack.1231-1248 1237 . a rede de atenção psicossocial incompleta e as pressões da sociedade em geral clamando por uma solução. as CTs podem elaborar projetos para receber verbas federais.101 (Brasil. a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou a resolução da Diretoria Colegiada n. Em 30 de junho de 2011.4. 30 jun. Ainda no final de 2011. consultórios de rua. Com isso. 2014). 2012). unidades de acolhimento. diferente do que se observa nas CTs. Sabemos que a inclusão das CTs no SUS e outras medidas atuais relativas ao tratamento dos usuários de drogas têm levantado críticas e debates por parte de profissionais de saúde. concentrando as ações em três eixos: cuidado. O Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria. Tais entidades destacaram também que muitas CTs substituem o tratamento médico por um programa terapêutico cuja eficácia não é comprovada cientificamente (Brasil. conselhos de categorias profissionais e outras entidades interessadas. 2010).29 (Brasil. Esses serviços.-dez. 2011). set. desde que atendam a alguns critérios. ideologia. com os centros de atenção psicossocial. é possível vencer”. Amarante (1995) complementa tal ideia. apesar de as CTs representarem uma proposta diferente dos manicômios. Entretanto.088 (Brasil. n. observamos que as CTs até 2010 estavam ligadas somente ao Sistema Único de Assistência Social. a permanência voluntária do interno na instituição. como a presença de um responsável técnico de nível superior legalmente habilitado. os quais deixam de ser investidos na ampliação da rede pública de saúde. que poderia contar com as equipes de saúde mental na atenção básica. Comunidades terapêuticas que surgiram como contraponto ao modelo asilar contemplam em si a mesma ideia: de que promover a saúde mental consiste num processo de adaptação social. nesse sentido. o Ministério da Saúde estipulou o apoio financeiro com recursos do SUS às CTs (Brasil. contestaram as propostas de financiamento das CTs com recursos públicos. o respeito à sua crença religiosa. buscam preservar e resgatar os laços e o apoio sociofamiliar. e consequentemente do tratamento dos internos. 23 dez.3. defendendo que. em uma rede diversificada e territorializada de serviços. v. 2011). através da portaria n. Em um breve percurso pelos documentos oficiais que abordam as políticas públicas sobre álcool e outras drogas no Brasil. propondo modificações para que essa norma se adequasse à realidade das CTs e possibilitando. alegando que o cuidado dos usuários de drogas deve ser feito em liberdade. as CTs foram oficialmente incluídas na rede de atenção psicossocial.22. 2011). autoridade e prevenção (Brasil. tais instituições não deram conta de resolver a questão da exclusão. leitos em hospitais gerais para os quadros de intoxicação e/ou abstinência grave e outros.

Ciências. 24 jul.. desajustamento. estava relacionado a algum tipo de desvio. por exemplo. nesse momento. Maria Lucia Boarini Segundo o psiquiatra Marcelo Kimati Dias (Drogas. responsabilidade e honra desaparecem .. Além disso. Para Carlos Augusto Lopes (1944. A noção do cumprimento do dever. desequilibrados psiquicamente. conflito ou inutilidade por parte do dependente (Lima. Torna-se ele. com o financiamento dos leitos nas CTs não se fortalece a rede de atenção psicossocial.Renata Cristina Marques Bolonheis-Ramos. sóbrias e trabalhadoras. mas se cria uma rede paralela. Carlos Penafiel. Nesse sentido. Aos dependentes de cocaína e ópio também era atribuído um determinado perfil psicológico. que. Rio de Janeiro . segundo Pitta (2011). como destacou Cunha Lopes (1925. abordar as concepções dos higienistas sobre questões que envolvem o uso/abuso de substâncias psicoativas. 2010). 2011). os dispositivos existentes ainda estão longe de dar conta de toda a demanda de atendimento aos usuários de álcool e outras drogas. que em geral traziam a pecha de “espíritos débeis”. Em linhas gerais. aponta 1238 História. Saúde – Manguinhos. Acrescentamos que a última Conferência Nacional de Saúde Mental..122-123). no alcoolismo “esquece-se facilmente de tudo. Discussões que atravessam décadas Buscamos. portadores de taras degenerativas ou “loucos morais”. respeito à família. p. uma vez que sinaliza a ideia de que deve existir um local específico para atender aos usuários de drogas. Sendo assim. os serviços que se pautam unicamente na abstinência acabam tendo uma adesão baixa por parte dos usuários. 1944). assim. abre-se um espaço para a entrada de outros serviços no sistema público de saúde. têm a oferecer apenas o enclausuramento do problema.105-106). seria precipitado trazer tais entidades para a rede pública de saúde com o argumento de que os serviços atuais não estão dando certo. para os higienistas. observamos que o uso/abuso do álcool ou de outras substâncias psicoativas. médico psiquiatra e membro da Comissão de Legislação Social da Câmara dos Deputados (1923. o que contribui ainda mais para sua estigmatização. Como sugerem alguns autores. p. Verificamos. as próprias comunidades não deram provas de sua eficácia. realizada em 2010. citado por Ernani Lopes. uma vez que. o raciocínio preguiçoso. Daúd Júnior (2011) e Luzio (2011). isolados de sua comunidade. O mesmo argumenta que o incentivo às CTs com recursos públicos constitui um retrocesso com consequências muito sérias.. Diante desse quadro. analisando o legado desse ideário em relação aos princípios das CTs e às discussões atuais acerca do álcool e de outras drogas. apesar de existirem há algum tempo. então. que a imagem pejorativa e disfuncional dos usuários de drogas parece não ter sofrido alterações ao longo da história. apesar de a rede de atenção comunitária ter sido ampliada no Brasil nos últimos anos. teve como um dos motes principais a garantia de que o cuidado dos usuários de álcool e outras drogas ocorra em rede diversificada de ações e serviços de base comunitária e territorial.. defendia que uma medida importante seria retirar os filhos de pais notoriamente ébrios e entregar as crianças para famílias honestas. não complementar. a inteligência torna-se embotada. De Leon (2003). defendendo-se então o não credenciamento pelo SUS de serviços especializados em alcoolismo e drogadição que impliquem internação de longa permanência (Brasil. peso morto para a sociedade. 1925). como as CTs. inútil e nocivo à pátria”. como Bezerra Júnior (2007).

as medidas de controle do avanço do alcoolismo e o tratamento dos dependentes deveriam partir tanto das entidades públicas como da iniciativa privada. como defendido por Delgado. p. Assim. 1931).22. quando o consumo do álcool era maior (Tavares. na lógica da exclusão. esse consumo deveria ser entendido como sintoma dos problemas sociais. Pitta. acaba por legitimar a internação prolongada dos usuários de drogas em hospitais psiquiátricos e CTs. como exem- plificamos pelos seguintes dizeres de Penafiel (1923. com a diferença de que naquele período a história ainda deixava dúvidas sobre a eficácia do isolamento dessas pessoas. a internação dos dependentes. em meio ao pânico gerado pelas questões atuais do crack e outras drogas. para Gustavo de Rezende (1934). afirmou a importância de se incen- tivarem iniciativas particulares na organização do combate ao alcoolismo. já que o meio familiar ao qual voltariam os egressos muitas vezes não lhes forneceria condições adequadas para a manutenção do seu tratamento. Cordeiro e Rodrigues (Brasil. além de necessária. os problemas que envolviam a vida dos dependentes de álcool e outras drogas decorriam do seu vício. a vulnerabilidade social em que vivem os usuários de crack e outras drogas na atualidade normalmente é vista como consequência desse consumo. Moraes Mello publicou alguns estudos que indicavam o álcool como principal fator das causas da criminalidade e que a violência aumentava consideravelmente nos dias de folga. a prática de se retirar do Estado a responsabilidade pela atenção e tratamento dos usuários de drogas. Na lei antialcoólica proposta pela LBHM em 1931. como discute Silveira (Nassif. Para Cunha Lopes (1925). a alta dos pacientes internados em manicômios deveria ser muito bem ponderada. enquanto que. No início do século XX não era muito diferente. Essa falta de estrutura social. era fundamental para prevenir os crimes que ele pudesse vir a causar. 2011). Delgado. problemas no âmbito educacional. essa era uma forma conveniente de se realizar a higiene social. Vale acrescentar que. no entendimento de grande parte dos higienistas. dentro dos serviços assistenciais. Em 1931. Macedo. encontra fácil aceitação social (Andrade. Comunidades terapêuticas o perfil clínico típico das pessoas que utilizam drogas e frequentam as CTs. Leitão da Cunha (1934). out. consta como prioridade. 17 jan.-dez. Da mesma forma. a sociedade deveria recorrer até à interdição ampla ou limitada dessas pessoas.148): v. p. 2011. 2015. a internação de um dependente de drogas no manicômio. De qualquer forma.1231-1248 1239 . As dificuldades sociais em que vivia a população também ajudavam a justificar a internação prolongada dos pacientes psiquiátricos. por uma perspectiva sócio-histórica. o mais cedo possível. como exemplo.4. deveria ser obrigatória para evitar que esses indivíduos cometessem crimes ou que se perdessem moralmente por completo. Nesse sentido. dependendo do seu estado mental. a criação de reformatórios para alcoolistas e toxicômanos e o amparo das famílias dessas pessoas no meio social (LBHM. 1931). internação essa que. n. 2004). 2011. na sua capacidade de percepção e julgamento. E. tem raízes históricas e estruturais. Assim. Segundo Juliano Moreira (1925). Outro ponto que também não é exclusividade das discussões atuais é a associação entre o uso de substâncias psicoativas e a criminalidade. mesmo sem dados concretos que atestassem a efetividade da interna- ção prolongada. 2012). para os higienistas. como tem ocorrido com o incentivo às CTs atuais pelo setor público. citado por Ernani Lopes. 1925. identificando nesses usuários disfunções sociais e interpessoais.

maior deve ser a parte colonial do estabelecimento. Ciências. p. por sua vez. de seus familiares e da sociedade como um todo. visando a sua própria segurança.322). especialmente aquele voltado para as atividades agrícolas. não tem sido grande coisa. p. Henrique Roxo (1925) e Carlos Werneck (1929) demonstraram a sua convicção em relação à necessidade de se instituir a lei seca no Brasil. Em todo caso trata-se de um bom paliativo. seria empregado como principal terapêutica. tanto na Suíça como na América do Norte. iniciando com atividades mecânicas mais simples e passando progressivamente a outras mais complexas. a que no interesse coletivo e dos próprios doentes a sociedade precisa recorrer. naquela sociedade. em todos os momentos da vida manicomial” (p. outro terço. Rio de Janeiro . E como lembrado por Silva Filho (2007). nem mesmo entre a classe médica. Outro ponto que buscamos destacar. Como discutido por Heitor Resende (2007. Maria Lucia Boarini É exato que o resultado obtido por estes asilos. dentro dos próprios estabelecimentos. como já existiam na Itália. Juliano Moreira (1929.322). “para melhor observação do asilado. pois vale mais ou menos pelo seguinte: doentes curados. discutia inclusive a importância de se instituir nos manicômios a possibilidade de os internos subirem na hierarquia do trabalho que desempenhavam. um terço. saídas com risco de recaídas. semelhante às CTs atuais. tendente a distraí-los o mais possível de suas tendências a se intoxicarem. tínhamos o proibicionismo como perspectiva predominante em relação ao uso de substâncias psicoativas.Renata Cristina Marques Bolonheis-Ramos. nos quais o trabalho manual.62). era ainda mais urgente para aqueles pertencentes às classes mais pobres da população. Essas oficinas serão a um tempo um centro de orientação profissional e uma verdadeira escola de aptidão a tal ofício. Muckermann (1929) defendia que uma das formas para combater os danos do alcoolismo seria a proibição do uso do álcool no período de desenvolvimento do homem até o fim da sua maturidade. essa necessidade urgente e absoluta de internação da pessoa com transtorno mental. Esse mesmo autor falava também sobre a necessidade de o enfermeiro viver junto dos internos. abordando a questão da “laborterapia”.48). O sanatório especial deve ser construído de modo a ser um verdadeiro reformatório. 1933. porém. com instalações próprias a manter os internados em atividade laboriosa. doentes que saem incuráveis. dos cidadãos e 1240 História. era um dos marcos para se estabelecerem os limites do normal e do anormal. estamos em um país agrícola. como medidas principais preconizadas por grande parte dos higienistas para tratamento dos dependentes de álcool e outras drogas. Saúde – Manguinhos. que uma de suas aspirações era a criação de casas de trabalho para “doentes mentais” convalescentes. p. Ferrer (citado por Lopes. é o trabalho como terapêutica utilizada nos asilos e colônias do início do século XX. A LBHM defendia. apesar de reconhecerem que essa opinião não era unânime na sociedade brasileira e em diversos países do mundo. um terço. Como. defendia a construção de reformatórios para alcoolistas. a capacidade para o trabalho. A valorização do trabalho como terapêutica obviamente não era uma proposta descontextualizada. Oficinas várias para os que tiverem maior aptidão para trabalhos manuais ou para os que para isto tiverem predileção. Acompanhando a defesa da internação e do isolamento. mas incorporada à ideologia do nascente capitalismo brasileiro. em 1934.

out. contendo histórias. terapêutica pelo reflexo condicionador . Isso sem falar na crescente industrialização e urbanização pelas quais passava o país. como alternativa para melhorar a sua situação financeira. 2015. com o objetivo de arrecadar verbas para o custeio das despesas da instituição. 1932) levantou algumas objeções nesse sentido. Segundo Resende (2007.1231-1248 1241 . Do mesmo modo.22. Por outro lado. que tornavam a reeducação para o trabalho rural um anacronismo. onde. fará tratamento para as perturbações orgânicas nele encontradas e se sujeitará ao tratamento moral. Oswaldo de Camargo (1944. seria necessário proporcionar aos “doentes” ocupações de caráter coletivo e em harmonia com algumas das tendências neles predominantes. outra contradição observada na adoção do trabalho. detenção legal por um período indeterminado. apontando que o trabalho na maioria dos asilos era mecânico. mas é duvidoso que o hospício pudesse lhe fornecer o material humano eficiente e disciplinado de que necessitava”. alguns hospitais-colônias adotavam o método de trabalho para os internos. recreação. já no início do século XX também havia aqueles que questionavam o valor terapêutico do trabalho para os “alienados”. leituras especiais. p. os internos reclamavam da exploração que sofriam ao trabalhar sem remuneração direta (Caldas.51). Segundo esse autor. psicoterapia. encontramos na atualidade críticas ao trabalho empregado aos residentes nas CTs. observamos que não é só pelo emprego do trabalho nas instituições de tratamento dos dependentes que as propostas dos higienistas se aproximam das intervenções realizadas nas CTs atuais. essencial para o sucesso do tratamento.. a prática psiquiátrica teria que se empenhar para devolver ao meio social indivíduos tratados e aptos para o trabalho. que em geral era agrícola. sobretudo.3 Del Greco (citado por Lopes.. para obter resultados favoráveis. p. Apesar de ser usado o argumento de que não se tratava de um trabalho forçado. p.4. monografias e publicações a respeito dos desperdícios que o álcool é capaz de produzir. uma vez que esse recurso muitas vezes não é utilizado com fins terapêuticos. dentro das colônias. o qual poderia servir de exemplo para o Brasil. v. o seguinte: fisioterapia.-dez.84) apresentou como seriam as casas de saúde para recuperação dos dependentes do álcool. No início do século XX. ele terá adequada psicoterapia. como verificado pelo Conselho Federal de Psicologia (2011b). 1935).96) também apresentou um modelo de hospital-colônia já em funcionamento nos EUA em 1944. p. abordando os tratamentos psiquiátrico. n. e o tratamento compreende. Comunidades terapêuticas “pré-cidadãos”. reeducação. coercitivo e sem relação com as disposições psicológicas dos internos. mas uma ocupação suave e benéfica para a saúde. Nesses estabelecimentos é feito acurado estudo da personalidade de cada paciente. Portanto. Flávio de Souza (1943. Ademais. mas também pelo pessoal do próprio estabelecimento. é certo. localização desta (instituição) em zona rural. estava no fato de que “a nova e dinâmica lavoura cafeeira exportadora paulista pedia braços. feito não somente pelo médico especializado. mas como forma de manter o funcionamento da própria instituição. psicológico e moral pelos quais deveria passar o paciente durante a internação: Aí ele será submetido à cura de abstinência. terapêutica ocupacional pelo trabalho. além da abstinência completa.

então. aliás. a maioria deles poderia ser tratada preservando-se o seu vínculo familiar e social. Maria Lucia Boarini Cumpre apontar que não encontramos relatos que mencionem o trabalho sistemático com a religião. especialmente a partir de meados da década de 1950. e por Mirandolino Caldas (1935. p. Podemos dizer que esses pensadores apontavam. como o modelo de sociedade cooperativa do médico argentino Vidal Abal. para outra forma de atender as pessoas com transtornos mentais e usuários de substâncias psicoativas. apesar do saber médico predominante no ideário higienista. Pontos esses pautados fundamentalmente no isolamento. outras propostas e necessidades ajudaram a compor a história e. parte dos higienistas já defendia um tratamento às pessoas com transtornos mentais e dependentes de álcool e outras drogas diferente daquilo que o modelo manicomial tinha a oferecer. grande parte dos profissionais que compunham a LBHM entendia o alcoolismo não exclusivamente como uma doença médica.95). se o ambiente dessas Colônias é artificial e não satisfaz as exigências da vida normal do homem!?” Esse mesmo autor argumentava ainda que apenas um pequeno número de “doentes mentais” e alcoolistas oferecia perigo à coletividade e. 2007). modelos de assistência aos “alienados” propostos em outros países. tem em suas 1242 História. quando os distúrbios mentais puderam ser mais facilmente controlados (Silva Filho. seja por vislumbrar. Enfim. foi possível observar por meio desta pesquisa vários pontos defendidos pelos higienistas no início do século XX que convergem para as propostas das CTs. os rumos da assistência aos usuários de drogas. Também não podemos deixar de mencionar que essa nova concepção sobre as práticas psiquiátricas foi ganhando corpo com o desenvolvimento da psicofarmacologia. que fez o seguinte questionamento: “De que vale toda a liberdade de ambulatória de que desfrutam dentro das Colônias. assim. e com o devido cuidado que devemos ter ao analisar fenômenos distantes no tempo. como exemplificado por Ernani Lopes (1930b).Renata Cristina Marques Bolonheis-Ramos. Caldas (1935) apresentou. no tratamento dispensado aos internos dos hospitais-colônias do início do século XX. assim como em qualquer momento histórico. ao discutir como o tratamento dispensado aos alcoolistas internados nos hospícios não trazia resultados. que. seja por entender que o tratamento ambulatorial poderia ser menos custoso que a internação prolongada nos hospícios. E. Atenção essa que se aproximava de uma assistência intersetorial e buscava a convivência social e familiar dos egressos do manicômio. na internação prolongada e no proibicionismo em relação ao uso de álcool e outras drogas. como um problema social (LBHM. condições mais humanas nessa atenção. Apesar disso. nesse caso. Ciências. segundo Amarante (1994). mas. apresentavam críticas ao modelo manicomial. característico de grande parte das CTs brasileiras. de fato. 1930). Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro . Mas apesar das diferenças entre as instituições do passado e as atuais. Alguns estudiosos do início do século XX. resgatar o conhecimento produzido por esse grupo de pensadores do início do século XX nos ajuda a compreender um pouco mais da história da atenção aos usuários de drogas e da própria reforma psiquiátrica no Brasil. Desse modo. que contribuiria para desonerar o governo dos altos custos que tinha para manter os hospitais psiquiátricos. portanto. sobretudo. que também faziam parte da LBHM.

que foram questionadas por integrantes do próprio movimento higienista. toda sorte de pessoas que poderiam ameaçar a ordem pública (Amarante. continua associado a algo pejorativo. Instituições essas. compulsória em muitos casos. originam-se. out. p.75). fazem parte de um modelo pautado no isolamento e em ações de caráter proibicionista. isolado. Usando as palavras de Lima Barreto (1961. sob o pretexto de se fazer “tratamento”. marginais. p. como verificamos em nosso estudo. leis e normativas recentes. Como apontado por Costa-Rosa (2012. o usuário de drogas. lembramos primeiramente que. em geral. Observamos também que. E as práticas utilizadas nos dispositivos que atualmente são chamados para resolver o problema – como as CTs – remetem-nos aos encaminhamentos adotados nos antigos asilos. portugueses. não apresenta registros de resultados positivos. em geral pessoas menos favorecidas social e economicamente. 1994. os hospitais psiquiátricos e demais instituições de internação prolongada continuam sendo admitidos dentro das políticas públicas de saúde mental e apoiados pela sociedade.-dez. eis que surgem prontos para a clausura manicomial os novos protagonistas”. e cuja eficácia. de usuários de drogas e de outros indesejados parecem ter destino certo. Desse modo. como verificamos nos pressupostos defendidos por boa parte dos higienistas. observamos que nos últimos anos a redução de danos tem conquistado espaço na política sobre drogas.4. Comunidades terapêuticas bases o conjunto de medidas proposto pelos psiquiatras no início do século XX. começando pela implantação do modelo de colônias na assistência às pessoas com transtornos mentais. Ainda que o movimento pela reforma psiquiátrica tenha ganhado repercussão e. 2015.179). como apontado por Maierovitch (14 jan. a perspectiva proibicionista ainda se faz presente. Considerações finais Encaminhando para as considerações finais desse estudo.4 No entanto. “degenerados”. sejam esses os princípios que devem embasar o atendimento aos usuários de álcool e outras drogas. colônias e reformatórios do início do século XX. v. apesar de os cenários do início do século XX e o atual serem diferentes em certo ponto. Resende. das camadas mais pobres da nossa gente pobre. principalmente as ilícitas. “ao mesmo tempo em que a loucura vai assumindo fisionomias mais familiares que não justificam seu isolamento social. no âmbito geral. Propostas essas que. índios. Em contraposição a essa perspectiva. “os loucos são de proveniências as mais diversas. 2012). negros. E a própria história nos indica ainda que os modelos e práticas de saúde que preconizam a segregação e internação prolongada. os desocupados da atualidade. que deve ser escondido. são negros roceiros”. associada a propostas. se a clientela principal dos hospícios do início do século XX era formada por miseráveis. espanhóis e outros mais exóticos. n. em tese.22. que veiculam os interesses de uma vertente moralista bem atuante junto ao poder público. historicamente. 2007). o alvo principal das medidas atuais de internação compulsória continua sendo a “escória” da sociedade. em um claro processo de limpeza das ruas. sem contudo pretendermos esgotar essa discussão. foi possível estabelecer paralelos entre as propostas de atenção aos usuários de substâncias psicoativas de ambos os períodos. São pobres imigrantes italianos. p.1231-1248 1243 . imigrantes desocupados. em geral. desempregados.

questões essas que têm constituído importantes entraves às ações que priorizam a saúde e o desenvolvimento da autonomia dos usuários. em nosso entendimento. 2 A Norma Operacional Básica orienta sobre as ações da rede socioassistencial de proteção básica e especial. político e econômico. Pontuamos ainda que o financiamento público das CTs. a instituição de internamento serve a uma necessidade social. segundo Alves (2009. soma-se a um conjunto de forças por parte de alguns setores que tentam enfraquecer o SUS (Borges et al. Por fim. 1994). manicômios e demais instituições de internamento no início do século XX (Amarante. jan. manicômios. que é uma importante conquista social. As questões de cunho político- econômico também devem perpassar as discussões e as propostas de enfrentamento dessa problemática. Com menos investimento de recursos em dispositivos públicos. interesses de alguns setores continuam atuando na manutenção de práticas que promovem a internação e o isolamento dos usuários de álcool e outras drogas.Renata Cristina Marques Bolonheis-Ramos. queremos destacar que diferentes forças. Assim. “Doze tradições” e “Doze conceitos”. tem arcado com a maior parte dessa conta. p. uma importante estratégia de ação junto às políticas públicas de atenção aos usuários de álcool e outras drogas. hospitais-colônias.alcoolicosanonimos. não se restringem à esfera da segurança pública.2316). de assisti-lo e colocá-lo a distância. 2005). em detrimento do fortalecimento da rede pública de atenção aos usuários de álcool e outras drogas. da educação ou da saúde. a qual privilegia as ações da iniciativa privada. seja no Brasil ou em qualquer parte do mundo. Sabemos que os problemas decorrentes do uso/abuso de substâncias psicoativas. fundamentalmente a partir da década de 1990. de cunho social. comunidades terapêuticas. Por essa perspectiva. aumentam-se as dificuldades para o seu pleno funcionamento e. disponibilizadas em http://www.org. 1244 História. demonstradas pela Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil. interesses e necessidades. mas que não se coaduna ao modelo de sociedade vigente. dependentes de substâncias psicoativas e outros que poderiam perturbar a ordem social e que faziam parte da clientela dos asilos. 2011). incrementam-se as justificativas para a terceirização e privatização de outros serviços dessa natureza. os prejuízos sociais e econômicos vinculados ao consumo de drogas.br. Rio de Janeiro . sem com isso proibi-lo.. Aliado ao aumento do uso/abuso de álcool e outras drogas. como a história vem nos mostrando por meio dos asilos. que historicamente. 2012). “a explicação para este esforço de conciliação entre racionalidades divergentes no que se refere ao conteúdo e à organização das práticas de saúde pode ser remetida ao conflito de interesses entre representantes dos diferentes modelos assistenciais no país”. as intervenções propostas têm como objetivo minimizar os danos à saúde. na qual se enquadram os serviços voltados para os usuários de substâncias psicoativas (Brasil. 4 A redução de danos passou a ser considerada no Brasil. seja no apogeu do movimento higienista no Brasil ou na atualidade. Ciências. Maria Lucia Boarini Como discutido por Zenoni (2000). Saúde – Manguinhos. 3 Entendemos que os “alienados” eram as pessoas com transtornos mentais. vêm tecendo a complexa história da saúde pública brasileira e da atenção aos usuários de drogas. NOTAS 1 Esses e outros princípios estão explicitados nas cartilhas “Doze passos”. antes de existir para tratar o sujeito. com isso. partindo-se do pressuposto de que o consumo de drogas faz parte da história da humanidade e que a ideia de uma sociedade completamente livre de drogas é utopia (Brasil.

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