O reencantamento do mundo

Arte e identidade cultural
na construção de um
mundo solidário

Agradecimentos especiais à Anna Leonor Ostrower que gentilmente cedeu o
direito de reprodução das obras de Fayga Ostrower que aparecem nessa publicação.

O Instituto Pólis conta com o apoio solidário de:
Action Aid
Christian Aid
EED
Fondation Charles Lèopold-Mayer
Frères des Hommes
Fundação Ford
Fundação Friedrich Ebert - ILDES
IDRC
NOVIB
OXFAM

Os textos que compõem essa revista foram apresentados pelos autores no Encontro
Mundial de Artistas realizado em Itapecerica da Serra, em maio de 2001, e no Fórum
Eletrônico preparatório para esse encontro.

Publicações Pólis
ISSN – 0104-2335

FAR FARIA , Hamilton; GARCIA, Pedro, (Org.)
O reencantamento do mundo: arte e identidade cultural na
construção de um mundo solidário .
São Paulo: Pólis, 2002. 152p. (Publicações Pólis, 41)

1 . Cultura. 2 . Arte Pública. 3 . Política Cultural. 4 . Cultura Política .
5 . Identidade Cultural. 6 . Cidadania Cultural. 7 . Movimento
Cultural. 8 . Experiências Inovadoras em Cultura.
I . FARIA, Hamilton. I I . GARCIA, Pedro . I I I . Instituto Pólis . I V . Aliança
por um Mundo Responsável. V . Título . I I I . Série .

Fonte: Vocabulário Pólis/CDI

Pólis 41
Autores: Hamilton Faria e Pedro Garcia
Coordenação editorial: Paula Santoro e Renato Cymbalista
Projeto gráfico Original: Luciana Pinto
Ilustrações: elaboradas a partir das reproduções do livro “Fayga Ostrower”, organizado
por Carlos Martins, Rio de Janeiro, Editora Sextante, 2001.
Revisão ortográfica: Thyago Nogueira, Sônia Oliveira e Hamilton Faria
Editoração: Renato Fabriga
Fotolitos: À Jato
Impressão: Gráfica Peres

Agradecimentos
À equipe do Instituto Pólis
Aos participantes do Encontro Mundial da Rede de Artistas e do Fórum Eletrônico
À Foundation Charles Lèopold-Mayer
À Gustavo Marin, Pierre Calame e Michael Sauquet
Ao Projeto Barracões Culturais da Cidadania (Itapecerica da Serra)

Arte e Identidade Cultural Arte-culturas-conflitos Gustavo Marin 31 A globalização do gueto Miguel Ángel Echegaray 34 A arte. Arte como Reencantamento do Mundo O Reencantamento do Mundo Octavio Ianni 77 Utopia. XX Fayga Ostrower 11 A função da arte? Bené Fonteles 16 Competitividade da arte Fayga Ostrower 25 II. o artista e a identidade cultural na construção de uma Montreuil solidária Olivier Petitjean 42 O escritor pode ser útil ao progresso da humanidade? Michel Sauquet 64 III. Arte e Identidade Cultural na Construção de um Mundo Solidário Hamilton Faria e Pedro Garcia 105 V. Arte e Artistas Arte e artistas no séc. A arte como linguagem da humanidade Rede Mundial Artistas em Aliança 143 . Conhecimento e Alegoria Octavio Ianni 87 A Arte e o Reencantamento do Mundo Vanda Chalyvopoulou 99 IV. Sumário I.

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nas salas de refle- xão. Estive- ram presentes organizações não-governamentais. o Encontro Mundial da Aliança por um Mundo Responsável. do poeta indiano Makarand Paranjab. Artistas de várias nacionalidades — indianos. impossibi- litado de comparecer. africanos. organizações de solida- riedade. realizada em Lille. enviou por seu representante uma carta emociona- da à organização do Encontro. educadores. com a coordenação do Instituto Pólis. se manifestaram através das artes plásticas. ministros. do artista Bené Fonteles. pensadores. França. poetas. realizamos. em Bertioga e em São Paulo. do Sesc-SP e da Fundação Charles Léopold Mayer. com a presença de 62 países de todos os continentes e representantes das várias áreas sociais e culturais. realizamos em São Paulo o encon- tro Desenvolver-se com Arte. enriquecendo-o com contribui- ções de seus participantes. sonha- dores de todos os imaginários. com o apoio da Prefeitura de Itapecerica da Serra através do projeto Barracões Culturais da Cidadania. O Encontro Mundial de Artistas contou com a presença da consagrada artista plástica Fayga Ostrower. brasileiros etc. ecologistas. deixando suas marcas nas paredes. Plural e Solidá- rio. durante dois meses ininterruptos. realizado em maio de 2001. —. Terminada a Assembléia da Aliança. que reuniu artistas e pensadores da arte de todo o país. O lema era inspirado em um verso de Neruda: “¿ Si se termina el amarillo con que vamos a hacer el pan ?”. no município de Itapece- rica da Serra. da poesia. fili- pinos. com outras entidades parceiras. da música. Estávamos animados e queríamos mais: durante os preparativos da As- sembléia da Aliança. Antes havíamos debatido o papel da arte no mundo contempo- râneo. Em dezembro de 1997. Apresentação Esta publicação é resultado das reflexões do Encontro Mundial Arte e Identidade Cultural. franceses. França. ativistas e pesquisadores da cultura. universidades. do 5 . do escritor e teatrólogo João das Neves. de Octávio Ianni. Aperfeiçoamos o texto final do Encontro durante o ano de 2002. do cartunista Claudius Ceccon. Mikhail Gorbachev. nos corredores e na emoção de todos. artistas. coordenou um encontro com representantes de dezessete países em torno do tema “Arte e identidade cultural na construção de um mundo solidário”. o Instituto Pólis. economistas. E chamamos de reencanta- mento do mundo a grande missão da arte. através de um Fórum Eletrônico. Vamos contar um pouco dessa história. da artista plástica chinesa Jiang Jie.

nos Cadernos de Proposição da Aliança. À Fayga Ostrower. da pintora grega Vanda Chalyvo- poulou. também. poderá contribuir para impulsionar as práticas culturais de artistas e arte-educadores preocupa- dos com a mudança solidária do mundo. entre tantos outros. mas. como nos ensina Octávio Paz. Sentimos a importância de vi- ver num universo poeticamente habitável e. Hamilton Faria e Pedro Garcia Instituto Pólis Poetas e animadores da Rede Mundial Artistas em Aliança 6 . O resultado desse trabalho é o que publicamos nesta edição e. poesia e reflexão. também. buscan- do a magia da arte em um mundo de razões enlouquecidas. do pintor equatoriano Eduardo Kingman. da escritora franco-brasileira Pauline Alphen. envolver os seres humanos no extraordiná- rio ato de nos maravilharmos. artista-xamã gabonês Brice Parfait. Durante esse processo criamos a Rede Mundial de Artistas em Alian- ça. que circularão por todo o mundo em sete idiomas. Miguel Angel Echegaray. que na fala inaugural deste encontro direcionou nossas reflexões — no que talvez tenha sido sua última aparição pública —. Foram dias de encantamento e traba- lho. fruto da inteligên- cia e sensibilidade coletiva de dezenas de pessoas. que se propõe a reencantar o mundo através da arte em suas múlti- plas linguagens. com seu poder de encantamento. pode. Percebemos que a arte pode contribuir não apenas para revelar mun- dos ou criar outros. do professor de crítica de arte e de política cultural da Universidad Iberoamericana do México. que agora vem a público. reencantado. em que enriquecemos nossa visão sobre a responsabi- lidade ética e estética do artista. Acreditamos que a revista. com o mundo cotidiano e os sonhos que povoam os territórios da utopia. portanto. do escritor francês Michel Sauquet. com a vida e o imaginário. seu compromisso com a arte e com a con- dição humana. dedica- mos este número em nome de todos que o transformaram em realidade.

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Arte e artistas 9 .Detalhe da obra Casas. de Fayga Ostrower. I. linóleo. 1947.

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teórica da arte e dos pro- cessos criativos. não-verbal. Cabe entendê-la como sendo. em última instância. tanta informação. En. tanto no sentido de ultrapassar o período histórico e o con- texto cultural em que as obras foram criadas. Trata-se. Sem considerar essa expressividade inerente às formas artísticas. a desejos. com vári- os prêmios internacionais. que não faz uso de palavras nem conceitos). de uma linguagem formal (ou seja. E o resultado? Mediocridade. Assim. a arte têm esse estra- nho poder de nos comover tão profundamente. a visões de mundo. à mera técnica. são conteúdos gerais da própria consciência humana. como também por seus con- teúdos se referirem. é igualmente difícil ignorar o crescente senso de perplexi- dade do público diante de tais obras. Nunca. todas as formas de arte incorporam conteúdos existenciais. acessível a todos os homens – e não somente a meia dú- zia de especialistas. É esta problemática de idéias e valores que está sendo posta em discussão. O referencial para nossas reflexões só poderá ser a própria linguagem da arte. fim. sobre o nosso mais íntimo ser. Por outro lado. em sua essência. ainda mais quando acompanhadas de explicações tão grandiloqüentes quanto vazias. na história da humanidade. Atravessando séculos. as pessoas sentem no íntimo – embora talvez lhes faltem palavras para defini-lo – que as questões artísticas envolvem sem- pre questões existenciais. tais conteúdos conti- nuam válidos e atuais para cada um de nós. consti- tuída por formas visuais. aspirações e Todas as formas de arte incorporam sentimentos. tantas escolas de arte e alunos que se formam a cada ano. É difícil ignorar o baixo nível e a pobreza espiritual (com poucas honrosas exceções) da maioria das obras produzidas em nossa época. a dis- cussão se limitaria apenas a aspectos externos. a linguagem natural da humanidade. desde sempre. Arte e artistas no século XX Fayga Ostrower Artista plástica. falecida em 2001. em si expressivas e comunicativas.conteúdos existenciais. É uma lingua- gem universal. sobre nós. sociedades e culturas. e nunca 11 . Algo deve estar muito errado. existiram tantos museus e exposições. Por isso. à própria condição humana. Estes se referem à experiência do viver. Sem dúvida. a estados de ser. e aos valores espirituais da vida. Ela fala a nós. Vivemos em tempos contraditórios. “futuros artistas”.

Soa absurdo? Exagerado? Pois a realidade nos mostra que é assim mesmo. Nem todo novo é criativo. Quando nos referimos a valores. finalmente. dignidade. Qualquer que seja o preço. Compram-se e vendem-se. Assim. seu trabalho. Nas obras de arte. que acompanha o criativo. Cabe entender. E tudo tem o seu preço. está sendo reduzido ao nível de mercadorias a serem vendidas e compradas. em sua busca incansá- vel. os termos de avaliação da sociedade de consumo? A jul- gar por sua visão de mundo. Preço não é igual a valor. fa- lamos de conquistas de nossa consciência. O preço é a medida das coisas. que tais equivalências não existem. de imprevisível e mesmo de inesperado. para ser original. compaixão. Tampouco se deve confundir originalidade com sensacionalismo. ele representa apenas um dado circunstancial e artificial. Cézanne pintou a montanha Sainte Victoire mais de cento e vinte vezes. porém. parece que o processo de evolução da espé- cie humana necessitou de mais de três milhões de anos para poder che- gar a realizar. Nada mais do que isso. Não são compráveis nem vendáveis. material e espiritual. Portanto. consumidas o mais rapi- damente possível para. Unicamente o valor é real. Vemos que tudo. Não têm preço. a ética integrando a estética e. o amor e a ter- nura. qualidade autêntica e inerente à própria realização de algo. Também os seres humanos. aquilo que realmente está em jogo na arte: os valores de vida. bastaria ser autêntico e verdadeiro consigo mesmo. Solidariedade. absolutamente tudo.. Nem a novidade é igual à criatividade. já surge um problema de ordem maior. ao passo que o criativo sempre se renova e se reestrutura dentro de nós. nosso mundo de imagina- ção e criatividade – estes são valores. Já o sensacionalismo. Porém. Quais seriam os valores de vida. alcançaria o âmago da questão. Mas a equação não pode ser invertida. Ele não estava à procura de novidades. seu potencial criador. inteligência. E a simples novidade se esgota no primeiro instante em que for percebida. um aventurar-se no desco- nhecido. suas obras de arte não passam de mercadorias. originalidade é igual a sensacionalismo. respeito.. de nosso ser sensível e afetivo. porém. cada quadro representou um novo começo. Quando vemos essas obras. transformou-se num vasto merca- do. o novo repre- senta apenas um aspecto secundário. A originalidade vem de dentro. O mundo inteiro. Precisam ser conquistados por cada pessoa nos seus en- contros com a vida e seus desafios. logo em seguida. sobretudo. com novas criações. antes de existir. sua meta gloriosa: o perfil do consumidor. Cada pessoa é um indivíduo único. proclama-se: preço é igual a valor. 12 . E ainda surgem outras equivalências: novidade é igual a criativida- de. a excitação de suas descobertas perpassa nosso olhar e algo novo se reestrutura dentro de nós. Aqui. serem descartadas e novamen- te substituídas. Toda cria- ção contém em si algo de novo.

Não é de se admirar. ele nem sempre significa o verdadeiro sucesso e a realização de um artista. Os valores mercadológicos em nada correspondem a critérios e valores artísticos. expressionismo. músi- ca. sobretudo. dadaísmo. Ainda que física. ouvir sons. há razões para isso. então. a sensualidade torna-se uma qualidade espiritual. Ao invés disso. ela passa a ser destrutiva na expressivas dos artistas passa a ser destrutiva na segunda metade do segunda metade do século XX. De fato. Até a metade do século XX. Não só se cuidava em preservar a integridade física da obra. como cubismo. se nas décadas iniciais. Não mais pensará nem perguntará. Estes serão aferidos pelo desenvolvi- mento e crescimento estilístico em suas obras. na arte. estimulando o potencial imaginativo – este diálogo apaixonado entre criação e criador –. século XX. perceber movimentos e ritmos. Podemos observá-la nos diversos estilos e. diante de si mesmos. como também se enaltecia o caráter altamente sensual da maté- ria pictórica. A profunda crise de valores por que passa nossa sociedade manifesta- se também. legítima e mais poderosa motivação para alguém querer criar. como não poderia deixar de ser. ou também poesia – que as distingue de lingua- gens conceituais. o fascínio que ela exerce sobre o seu ser sensível e inteligente. material e também espiritualmente. Ou seja. É justamente a sensualidade das linguagens artísticas – pintura. arquitetura. Os espetaculares avan- ços da tecnologia deveriam enriquecer as pessoas. que na arte venham surgir tendências que reflitam essa mentalidade. como. a filosofia ou a matemática. No sentido humanista. o homem não passa de um mini-robô a ser transformado em maxi- robô. Apenas consumirá. somos testemunhas de um processo paradoxal. suas formas e cores. que não está no programa. O problema não está na tecnologia em si. por exemplo. de identificação afetiva com a lin- guagem da arte. tais avanços antes pare- cem empobrecer o ser sensível e espiritual das pessoas. Porém. é que constitui a úni- ca. E nada de sensibilidade. encontramos em todos os artistas uma atitude de empatia. sur- realismo. faz favor. Encan- ta-nos ver cores. Evidentemente. Por mais importante que o sucesso de mercado seja para a vida material das pessoas. dança. a atitude dos artistas era construtiva em sua busca de novas A busca de novas formas formas expressivas. Assim será perfeito. deveriam permitir uma vida mais plena – cada um realizando sua personalidade através da realização de suas potencialidades criativas. embora criando em diferentes estilos figurativos e abstratos. Vale frisar ainda que a identificação do artista com sua matéria. Acontece que na visão da sociedade de consu- mo. Elas procuram destituir as formas de arte de 13 . na postura de artistas diante de seu pró- prio fazer. tanto a motivação como o sucesso são de naturezas totalmente diferentes. Na arte. concretismo e abstracionismo livre.

Ainda recentemente. embora tenha sido um gênio do marketing. Isso é acompanhado pela mais perfeita hipocrisia ao se “explicar” ao público esse empobrecimento como um generoso ato de de- mocratização e “popularização” da arte. feridas com san- gue e pus (body art). E os curadores. Muito menos há a possibilidade de se verificar um desenvolvimento estilístico. vemos a linguagem artística banalizada. é abolido. exibem-se matérias de modo repulsivo. além de um certo aspecto decorativo que tenham. despejando toneladas de profundos pensamentos metafísicos a respeito? E o diretor da Bi- enal. Tudo permanece como (boas?) intenções. Na arte. Quanto mais nojentos. das idéias e conceitos. nem mesmo de conceitos artísticos. com tripas e intestinos in natura. e eventualmente ilustrá-las me- diante fotografias ou instalações sugestivas. A propósito. as formas só existem no âmbito do imaginário. Primeiro. dentro de uma caixa de acrílico com formol. Já em outras tendências. Porém. pintá-lo. Haja vista a obra de Andy Warhol que. Não posso imaginar em que sentido isto possa acrescentar algo à sensibilidade de uma pessoa ou enriquecer sua experiência de vida e arte. Na arte conceitual. para. Ela é expres- siva. a linguagem artística nunca é ilustrativa. Propaga-se que não existem mais critérios na arte. fica tudo no nível de associações de conceitos. quer de conceitos. No movimento co- nhecido como pop art. Basta pensá-las. suas qualidades mais nobres e humanizadoras. não há como avaliar qualidades artísticas ou seus significados. que aceitou tais obras? 14 . e enviá-las para a Bienal de Veneza. chegando às raias de ódio pela matéria do seu fazer. colocar cada metade. O próprio ato criativo. e assim por diante. a ação de elaborar formas visuais que sejam expressivas em si. Lá foram expostas como obras de arte. Mais tarde houve quem analisasse e conceituasse os prin- cípios formais do estilo e seus conteúdos expressivos. Os pintores renascentistas. cadáveres em estado de putrefação. não conceituaram. sua rique- za e complexidade reduzidas ao simplório e rebaixadas ao nível de mero jargão publicitário. quer seja de ob- jetos. vieram as obras. em termos artísticos. a conceitu- ação nunca poderá substituir o próprio ato de fazer. por exemplo. então. a postura agora é de indiferença. Em vez de empatia e busca criativa de novas possibilidades formais da matéria. Assim. o que depois seria o estilo do Renascimento. crescente desamor e até agressividade. tanto mais de vanguarda e “pra frente” se julgam os autores de tais “obras”. Só posso pensar que o autor deva ser uma pessoa bastante doente. antes. houve o caso de um “artista” que mandou cortar um boi ao meio. introduzindo elementos que jamais poderiam ser formalmente elabo- rados em termos de uma linguagem: excrementos. nunca passou de uma mediocridade.

Nesse rumo. Ou ainda de alguma forma de suicídio. de uma arte de contestação. porém. chegaram atrasados. não tem significado algum na arte. portanto. destruindo tanto a imagem como seu suporte. adquiriram poderes supremos para “criarem artistas” e decretarem o que é arte – leia-se. Ele é sério demais. A mídia já se encarregou de liquidar com os últimos escrúpulos estéticos e éticos. que a burguesia não é mais chocável. Não se trata. A mídia já se encarregou rem novas formas expressivas. então também não se consegue saber quem são os bons artistas que existem em todos os países. de exibicionismo doentio ou de drogas. a última moda da estação. pós-trans-vanguardista. é possível que se trate de uma problemática de ordem pessoal. “para chocar os burgueses”. muito menos. Mas suici- dar-se não é um ato artístico. Estas inventaram seu próprio Olimpo e real- mente acham que. Esses vanguar- distas. A fim de chamar atenção. só restaria a destruição física total. traduzindo a expressão que se tor- nou famosa. como de liquidar com os últimos alguns pretendem. 15 . é o que está acontecendo. Não foram considerados bastante interessantes para o marketing das galerias. Ele é sério demais. quando qualquer coisa passa. quando não se consegue mais distinguir entre arte e não-arte. sem colocar nada em seu lugar. os torna menos sérios. Penso que. artistas.desbravadores do futuro. melhor ainda. ousados e. ou contemporâneo ou. através de jogadas de marketing. De fato. Mas e daí? Isto não Penso que. Raramente eles são encontrados nas galerias do gran- de circuito internacional. que não há nisto tudo a mais leve intenção de questionamento ou crítica Esses vanguardistas. ousados desbravadores do futuro. incine- ra-se tudo. despedaça-se. sem enfoque e sem sentido formal. Em tais manifestações. Acontece. Só assim poderá alguém ser considerado moderno. Agora. É escrúpulos estéticos e éticos. Cabe frisar também. Não há nada que ainda possa chocá-la. Eu conheço alguns bons artistas. chegaram atrasados. Cézanne não teria a menor chance. a “grife”. nos dias de hoje. retalha-se. não passa de mero vandalismo. apenas um sensacionalismo a todo custo e do mais baixo nível. “pour épater les bourgeois”. menos criativos. ou pós-moderno. nos dias de hoje. a possibilidade de se encontra. menos Cézanne não teria a menor chance. o outro lado da medalha: quando se proclama que hoje não existem mais critérios artísticos. E destruir.

dadeiro artista está sempre pleno para se utili- zar da poesia. O artista está para si mesmo e. o algum momento ele consegue condensá-lo em verdadeiro artista está sempre sua obra. é para o outro e no outro: o Eterno Um. Na verdade. Riscarei no vazio do espaço o gráfi- co do canto dos pássaros. Esse objetivo é subjetivamente perseguido. Em 1940. a utilidade não é viável. Isso remete-nos à “inutili- dade do útil”. Tudo o que ele mais evoca na arte é um meditando sobre a natureza mutante do cosmos. para compreender a alma apaixonada do artista pelo misterioso sacro-ofício da existência. pois ele mesmo recomenda: “entender é parede/ procure ser uma árvore”. com gran- de obsessão na arte. A frase instigou-me a escrever sobre a função do artista no “inteiro ambien- te”. irei até à praia e farei grafismos com um bambu sobre a areia. “O artista é um erro da natureza” Confesso que fiquei cismado quando li esse desacerto verbal do poeta- rente-ao-chão Manoel de Barros. Tão cheio de si ou do universo. o barulho da água e do vento. o ver- pleno para se utilizar da poesia. por exemplo. seu ofício de a nada servir e para tudo ser. Desenharei com um jato de urina sobre a terra seca. e da roda 16 . poeta. ou via. por conseqüência. Miró. Procurar entender não era uma boa. a guerra faz o artista abandonar Paris e retornar à Espanha. Nada pode impedir este “erro/criatura” de chegar e checar a natu- reza da criação. compositor e coordenador do Movimento Artistas pela Natureza. Ele se de- fendeu com poesia: “Se chegar a me faltar material de trabalho. O franquismo quis proi- bi-lo de pintar limitando seu acesso ao material de pintura. para a genuína arte. A função da Arte? Bené Fonteles Artista plástico. Diz o mesmo Barros que essas coisas só servem mesmo como uten- sílios frugais para um poema. por aqueles que praticam alternativas poéticas para driblar a realidade. que Chang-Tzu falava há um milênio. que em Tão cheio de si ou do universo. das coisas que não servem para nada. das coisas que não servem para nada.

De forma clara e ousadamente humana. Joseph Beuys. da imaginação e do sentir. de sabedoria. con- seguiu. “a arte não é uma categoria separada do viver. deu um genial xeque-mate na arte moderna. Duchamp. artista e educador. com afiada inteligência. de forma pioneira na arte. beirando a utopia de um paraíso imaginário. necessariamente. no mesmo espaço. Em seu tabuleiro de idéias. E terei a convicção de que todas estas realizações puras do meu espírito repercutirão por magia e milagre no espírito dos homens”. Para esses tempos quase vazios. ser poético e político. obter da obra de arte. O fim da atividade artística não é a obra. acima de tudo. isto é. quando o artista se deixa levar apenas pelo apego ao próprio ofí- cio e por vaidade do reconhecimento de seu discurso estético. na década de 70. a forma do pensamento. mas uma forma de procedimento que afirma que o olho interior tem mais poder de decisão que as imagens externas imediatas. Assim. pousavam peças-substratos para jo- gadas cheias de essências que alimentam ainda muitos frascos (infeliz- mente. O pintor catalão era o operário de um fazer libertador. sua cidadania planetária. Foi também um visionário ao escrever. É preciso autoconhecer-se através da verdadeira arte. mas a liberdade. de contemplação e de conhecimento”. e. junto com Duchamp e Malevi- tch. um deles –. ser muito afinado com seu tempo. no qual coerência ecológica exercita. do carro e o canto dos insetos. Outro imenso alquimista e bruxo. a qual Marcel Duchamp dizia ser “um meio de libertação. Beuys com- pôs este “Manifesto” cheio de plenitudes: “O conceito ampliado de arte não é uma teoria. Segundo ele. Ele. Essa utopia também nos conduz aos seus infernos – a impotência criativa. porque não estava a serviço da obra apenas como matéria estética. Beuys tor- nou-se sim um mestre da sobrevivência (começou sua arte depois de um acidente na segunda guerra mundial). possua a qualida- de que é preciso. remeto a obra ao seu lugar de origem e volto à frase: ‘No princípio 17 . transcendendo os discursos teóricos do esteticismo da academia a qual pertencia como mestre. mas o que dele emana”. nem sempre sinceros e adequados vasos para conter uma reflexiva arte contemporânea). E por uma arte que está. A liberda- de não é o saber. cruamente divina. o grande jogador de xadrez. o “Manifesto por uma alternativa global”. no caldeirão de sua época. a mais consciente porção lúdica: a lógica transmutadora para o deserto fas- cinante e trágico do século XX. Um importante requisito para que uma obra se torne passível de ser colocada em um museu é que a sua imagem interior. soube como nenhum outro fazer ferver.

que se torna figuração e possui sua matemática interna. Sem arte os seres humanos não existem. Nenhuma revolução que vise o desenvolvimento do homem pode prescindir da arte. de que somos seres es- pirituais e o que é contemplável em nosso espírito. onde se tornam contempláveis. quando conseguir como as compreendemos hoje. era o Verbo’. é uma figuração. pois tudo será arte. Nos daremos conta então. ela deixará de existir. Esse estado de espírito do criativo requer mais que as espertezas verbais/visuais da mente. ou como diz o artista Bené Fonteles. do desenvolvi- mento da imaginação criadora”. ela deixará de existir. Por isso eu exijo uma melhor forma de pensar. nem as nações. Esse Verbo/Ativo é a forma/redenção para a crise contemporânea. porque a antiga criação já foi concluída. é o princípio criativo”. O verbo. pois então a be- afastar o sentido trágico da vida. Esta é a razão da crise. E ela. pois tudo será arte”. mas também terão que ser julgados no interior do ser humano. Ele pode surgir. Até os espertos executivos já sabem. isto é. ‘antes arte do que tarde’. Estes são os verdadeiros critérios. Tudo que de novo acontecer sobre a Terra terá que consumar-se através do homem. Contra a força e o obscurantismo. isto é. com a arte do discernimento que faz de cada artista um ser solidário e responsável com a Vida. Não poderão porém ser julga- dos somente por suas formas externas. tome arte. Era isso que sugeria Mondrian em 1922 – ano em que os intelectuais e artistas brasileiros inauguravam sua estética modernista de olho na universalidade: Quando o ser humano conseguir “O futuro dirá que haverá um tempo em que realizar em si o equilíbrio dos seremos capazes de renunciar a todas as artes contrários. quando conseguir afastar o sentido trágico da vida. amedronta. Porém nada acontecerá se ele estiver cego. 18 . A isso se soma o emocionante texto que Frederico Moraes escreveu há mais de uma década. E quando a arte estiver perfeitamente integrada na vida. É o princípio cria- tivo. conseguir realizar em si o equilíbrio dos contrá- rios. achincalha e menos- preza. E leza alcançando a maturidade terá chegado a quando a arte estiver perfeitamente uma realidade tangível. Quando o ser humano integrada na vida. a palavra. subitamente. nada mais. irromper no ser humano. A arte é tudo. As sutilezas da alma precisam ser ativadas para que tudo seja Arte. a crise. de sentir e de que- rer. só será resolvida em parte. se na origem não houver uma forma. para o livro Chorei em Bruges: “a arte é a resposta que temos contra tudo que nos diminui.

enfim. dirigi-las. as aparências exteriores da natureza não apresentam nenhum interesse: essencial é a sensibilidade em si mesma. Salientava ainda a sabedoria antropofágica pau-brasil de Oswald de Andrade: “O ser humano é o animal que vive entre dois grandes brinquedos: o amor onde ganha e a morte onde perde. fazê-las servirem uma causa ou uma razão de estado. Malevitch nos impressiona pela sacação antecipada do que. que penetra tudo. suas obras como decoração de ambientes. o cinema. basta de representações ide- ais – nada mais que o deserto! Mas esse deserto está pleno do espírito da sensibilidade inobje- tiva. [. sacar a sensível proposta do “Manifesto do Suprematismo”. Fazer arte é jogar com esses misteriosos arcanos de um tarô pleno de lucidez. Os “biscoitos finos” desse poderoso imaginário devem ser repartidos com todos. E sacar uma poderosa arma que o poder político teme e por isso tenta coibir sua força e também sua poética. 19 . independentemente do meio em que teve origem.. e suas imagens como estra- tégia para reforçar mitos e perpetuar o escuro rito do poder. A arte. Do ponto de vista dos suprematistas. Essa ausência não era a falta. [.. o teatro. Segundo ele. com conceitos tão fundamentais a ungir a matéria e suas con- figurações emblemáticas. A arte livre ressurgirá sempre porque sua última motivação reside nos arcanos da alma lúdica”. oprimi-las. quase invisível. escrito em 1927 por Kasimir Malevitch: “Por suprematismo entendo a supremacia da pura sensibilidade na arte. mais uma vez. Por isso. no puro ato de sinceridade do momento criador. inventou as artes plás- ticas. “somos seres espirituais”. É inútil... a dança. a música. eles são utilizados como geradores de núme- ros. a poesia. Ela. que devem ser usados através da mídia no momento oportuno.] Basta de imagens da realidade. Numa política cultural equivocada. nos revela sua auto-existência.] O quadrado que tinha exposto não era um quadrado vazio. o circo e. e o que é sensível dá forma a uma outra figuração. mas a sensibilidade da ausência do objeto”. Beuys explicitaria em seu “Conceito ampliado de arte”. tornando- a uma perfeita “matemática interna” para reforçar “o princípio criativo”. O sistema cultural gerado pela indústria do entretenimento encara os artistas como joguetes margi- nais. só muitas décadas depois. Cabe aos artistas despertos. Ainda uma vez hoje se procura justificar politicamente as artes. ganha com esses essencialistas e co-criadores do universo uma nova dimensão a serviço da verdade.

noções.. as artes poderão recuperar seu lugar como espaço privilegiado para um tríplice reencontro: do humano com a nature- za.. O objeto em si não significa nada para ele. esta- va a serviço da religião e do Estado. buscado- res da verdade. dos humanos entre si e do indivíduo consigo mesmo. A arte do passado. A arte chega a um ‘deserto’ onde a única coisa reconhecível que há é a sensibilidade. de que nos falava Mondrian.] Para o suprematismo. que. Malevitch do e da religião. não quer mais ilustrar a história dizia ser ela a inspiradora do dos usos e dos costumes. Tudo o que determinou a estrutura representativa da vida e da arte: idéias. chega à expressão pura sem representação. de vida que o provou ser durante muito tempo’”. não quer saber mais supremo gesto: a sensibilidade em nada dos objetos enquanto tais e crê poder exis- si. tudo isso foi rejeitado pelo artista. Por si mesma. Poderia dizer-se que essa arte não está a serviço de nada. para se voltar somente para a sensibilidade pura. entretanto. um projeto tir em si e por si sem o objeto. principalmente quando sua proposta chega ao cerne da questão: a busca do ser sensível por uma “realidade tangível” que encontra o “equilíbrio dos contrários” e afasta o “sentido trágico da vida”. ser a fonte construtivo de transformação da alma e da inteligência coletiva.. e que ignora a habitual representação. o mundo da sensibilidade”. Um projeto construtivo de transformação da alma e da inteligência coletiva. [. ao afirmar que “a arte é um meio de libertação. A sensibilidade é a única coisa que conta e é através dela que a arte.. isto é. Provar de nascentes que matam outras sedes tem sido o objetivo e a obsessão pelos quais a essência da arte é perseguida. Malevitch permanecerá sempre na vanguarda. 20 . despertará na arte pura (não aplicada) do suprematismo para uma nova vida e para construir um mundo novo. de contempla- ção e de conhecimento”. ao menos por seu aspecto exterior. de sabedoria. sacando na prática a observação oportuna de José Tadeu Arantes escrita na década de 1980: “Libertadas da fútil banalidade a que foram reduzidas pelo mer- cado capitalista. Os artistas. E assim finalizava o seu ainda tão atual manifesto: Poderia dizer-se que essa arte não “A arte não quer mais ficar a serviço do Esta- está a serviço de nada. ativam os sensores da consciência. o meio de expressão será sempre o dado que permite à sensibilidade exprimir-se como tal e plenamente. ou Duchamp. Malevitch dizia ser ela a inspiradora do supremo gesto: a sensibilidade em si. no suprematismo. imagens.

Buscavam palavras destrutivas para apagar o símbolo do deser- to e ver sobre o ‘quadro morto’ a imagem amada da realidade re- presentativa e do sentimento. de várias tradições religiosas ou místicas. beleza e mistério são quase equações indignado toda manhã ao abrir a aritméticas. de um arrojo sem igual. inspiradora e vasta por tantas e múlti. Mais uma vez. um Miró indignado toda manhã ao abrir a porta do ateliê e gritar à fábrica poluidora que o cercava: “MERDA!”. acordado em sua Barcelona.para o espírito dos humanos. Era assim que sonhava. com ela. Visionar o invisível é o papel de quem busca o princípio criativo e não quer só fazer magia e milagre para o espírito dos humanos. é o mistério que nos acerca em meio às atitudes de libertação de que muitos nos falam – não só os mestres. fico imaginando esse começo de século XX habitado por ar- tistas com a grandeza de um Kasimir.Visionar o invisível é o papel de plas verdades. aplicáveis e práticas utopias. enfrentando o imenso preconceito que ele denuncia em seu manifesto: “Quando em 1913. E ela. e aos espaços misterio- sos de seu próprio interior”. ao Outro. Há cinco mil anos o alquímico Hermes Trimegis- tos disse: “Afirmar a verdade já é criar”. E o imagino também pos- suído de indignação e coragem. diante de nós há um quadrado preto sobre um fundo branco!’. cujas obras. muito bem acordado em sua Barcelona. E a arte existe pelo prazer de harmo.porta do atelier e gritar à fábrica nizar os contrários. incompreen- sível e perigoso – não se devia esperar outra reação. muito bem mentar: o misterioso”. para vivê-lo. também é necessário um olhar bem aberto. a crítica o deplorou e. a verdade. O quadrado perfeito parecia à crítica e ao público. o artista precisará romper com as cadeias de seu ego e voltar a uma atitude receptiva que o permita ter acesso à dimensão não-humana do mundo natural. ocupavam desordenadas as paredes neoclássicas. E. Para isso. Às vezes. buscar soluções para manter poluidora que o cercava: “ MERDA!” acesas suas eternas. um Miró Verdade. em minha tentativa desesperada de livrar a arte do peso inútil do objeto. Era assim que sonhava. mas os outros artistas. 21 . busquei refúgio na forma do quadra- do e expus um quadro que representava apenas um quadrado negro sobre fundo branco. o público: ‘Tudo o que nós amávamos se perdeu: estamos num deserto. mesmo que para isso se faça o que proclamava Gauguin: “eu fecho os olhos para ver”. Era Modigliani quem dizia: “o real dever do artista é salvar o sonho”. é também vista pelo ângulo da quem busca o princípio criativo e beleza e da ciência sensível de Einstein como “a não quer só fazer magia e milagre coisa mais bela que o ser humano pode experi. no decorrer do tempo das diversas civilizações.

o que conseguir mover o indivíduo do seu condicionamento opressivo. os sentidos. ou quem sabe Duchamp completaria este dito de Soto. A posição é. entrea- bre brechas pelos Penetráveis que construiu ou desconstruiu: “Toda essa experiência em que desemboca a arte. aquele que nos remete a Malevitch. Esta é a causa da decepção que muitos sofrem quando visitam um espaço museológico dedicado a Duchamp. o que resta. pois. dando-lhe uma nova dimensão que encontre uma resposta no seu comportamento. do dilatamento da consciência do indivíduo. pois era instrumento de domínio. Hélio Oiticica. como se contemplassem picassos. o corpo. A arte já não é mais instrumento de domínio intelectual. inatingível. e reinventá-la pela sabedoria ao mesmo tempo contemplativa e transformadora. pois seremos tachados de loucos a todo instante: isto faz parte do esquema de reação. Que- rem ver a “obra monumento”. já que é ela (a experiência) a libertação dos prejuízos do condicionamento social a que está submetido o indivíduo. O resto cairá. o próprio pro- blema da liberdade. a nós como arma de conhecimento direto. prazer do burguês tomador de whisky ou do intelectual especulativo: só restará da arte passada o que puder ser apreendido como emoção direta. Mas de- param-se com o “deserto”. levanta de imediato a reação dos conformistas de toda espécie. Herdeiro de todos esses mestres. Marcel sabia disso por não viver apenas o ilusório da “grande obra”. um brasileiro. Gauguin talvez fechasse os olhos para ver o que Jesús Soto visiona: “O imaterial é a realidade sensível do universo. da volta ao mito. enfim. Uma coisa é definitiva e certa: a busca do supra-sensorial. John Cage diria que isso é conhecer a arte musical do silêncio. pleno de ideais. já não poderá mais ser usada como algo ‘supremo’. Um deser- to. Por certo Gauguin adoraria ter aberto os olhos para ler isto. participante. revolucionária no sentido total do comporta- mento – não se iludam. desiludindo visões apai- xonadas pela mitificação da “grande arte” e dos utensílios do fetiche e da miopia cultural de cada um. das vi- vências do humano. rompendo as místicas. redescobrindo o ritmo. E só precisaria escutá-lo através da vacuidade da arte sempre contemporânea do zen. contudo. percepti- vo. meditando entre um e outro lance de xadrez. A capacidade de indignação e não-conformação com o real é o que move o artista na sua busca de libertar o conhecimento da ilusão. é a descoberta da vontade pelo ‘exercício experi- 22 . a dança. do que se chama apenas de realidade. A arte é o conhecimento sensível do imaterial”.

Michelangelo disse “Parla!”. E se “o artista é um erro da natureza” – como versava o poeta aos pântanos Manoel de Barros –. Ele já Leonardo da Vinci disse que essa sabia que esta mente é aquela que nunca Verdade/Arte “é uma coisa da mente. Leonardo da Vinci disse que essa verdade/arte “é uma coisa da mente”. colo- cando na boca dele a frase: “mais importante do que uma obra acabada é a aventura humana de fazê-la”. Mas é também com elas que a busca acontece e que se colhe o saber maduro dos artistas. Isso seria “uma traição à natureza” como queria Pessoa. sem transposição metafórica”. nelas mesmas. Ela pertence à esfera do supra-mental. É por tudo isso e pelo todo que a arte pode ter a sublime pretensão de buscar o fogo imortal. maravilhado. É o que dizem maravilhados os cientistas. Aqui só as verdades contam. É não se iludir. Tal- vez seja porque ela. Ela. Continuam as mesmas questões no ar. É o estado de estar além como Paramahansa Yogananda e Sri da mente e nela mesma. dela. natural e simples. nela mesma. Essa mente aberta ao novo fez de Leonardo o visionário que adentrou no corpo da vida e da morte. mental da liberdade’ (Mário Pedrosa). pela invenção eterna do re-experimentar ou- tras formas de ser e estar no mundo. nem Aurobindo alcançaram neste século. pois ele termina falando da mesma verdade que Hermes Trimegistos inscreve em sua “Tábua de Esmeralda”. estar inoculado pela vã mentira que acomete É o estado de estar além da mente e todos os seres vivos: a coisificação. ao poetizar que “a natureza de ontem não é mais a natureza de hoje/ e lembrar é não ver”. que errata maravilhosa! É certo: a natureza produz muitas aberrações. Muitas vezes é também com essas chamas que os prometeus modernos acendem fogueiras e nelas ardem as indescritíveis vaidades. dissecando o real. está sempre a esperar dele no momento do improviso: o imprevi- sível erro. O artista é apenas o co-criador. Ela pertence à esfera do supramental. rachando seu Moisés de pedra. a pergunta: “porque fazer uma obra quando é tão mais belo apenas imaginá-la?”. Ele já sabia que essa mente estágio que só místicos e filósofos como Pa. São essas as mesmas buscas vivenciais do suprematismo de Malevitch. Por isso. o instante ideal para contagiar a matéria dos maiores acertos que só são permitidos ao imaginário dos deuses. pelo indivíduo que a elas se abre. mente”. então. A arte sempre pede um renascimento. o Fernando. Pasolini recria Giotto em seu filme Decameron. E ele. como grande força nutriz.é aquela que nunca mente. ramahansa Yogananda e Sri Aurobindo alcan- estágio que só místicos e filósofos çaram neste século. é pensar que ela está completa. Oiticica escreveu isso em 1968 e foi profético. e os mesmos sonhos a salvar de Modigliani. O verdadeiro erro. Eles são aqueles que peregrinam há milênios 23 . Assim. Ou. gera matéria-prima ao so- nho estelar das criaturas.

Anuncia-se. Brasília – S. Só pintarão com os pincéis do vasto delí- lucidez da loucura genial dos que não têm limites: os semelhantes a rio. aqueles que tiverem a lucidez da loucura Van Gogh. seus obje- tos e seu culto à procura da “claridade. Fonteles 24 . a luz da Luz”.Paulo 1996/99 “Antes arte do que tarde” Tempo é arte / Arte cura! Agradecimentos a Yara Magalhães e Luiz Carlos A. É “a contribuição milionária de todos os erros” (Oswald Andrade). fica a herança do reino do invisível. Aquele que não era só genial dos que não têm limites: os semelhantes um pintor. ou riscado com uma vara de bambu no ar de Kyoto pelo gesto simples do anônimo mestre zen. uma arte de contagiante alegria. a pintura e a própria arte. em busca das essências raras. aqueles que tiverem a rial. e passe ao novo milênio com uma cara mais saudável e sem máscaras. Arte é verdade. um lugar cada vez mais vasto para o “artista da luz”. como quis Gauguin. assim. palparem o imate- delírio. como Soto. Este que não era só um pintor. E ele pode ser desenhado pela urina fresca de Miró por sobre a areia da Espa- nha. O resto é ilusão. Só podem mirar essas sutilezas aqueles que fecharem os olhos para ver. confiante de que haverá futuro e. que esses ar- tistas deixaram suas obras mais marcantes. E é principalmente no século do admirável mundo velho. Só se tornarão maté- Só pintarão com os pincéis do vasto ria. mas própria arte. mas a pintura e a a Van Gogh. aqueles que. Aquele que perguntará à pedra o que ela quer ser e não irá impor uma forma à sua vontade orgânica. Era essa vontade luminosa que permeava Rubem Valentim. Para os artistas do essencial. as quase inatingíveis fragrâncias para o con- teúdo dos frascos invisíveis. nele. Elas existem para que o espíri- to elegante do princípio criativo permaneça.

“vida selvagem”. Veja-se o tema da seleção natural na evolução das espécies. é unicamente esta a versão apresentada ao público. num combate implacável e sem tréguas. é perfeita- mente natural. 25 . trata-se de um princípio seletivo fundamental. basta um olhar sobre a sangren- ta história de tantas batalhas na luta pelo poder e pela conquista de mais um pedacinho de terra. com uma certeza absoluta e categórica – já se tem a resposta pronta para to- dos os questionamentos deste mundo. Aliás. Não há como negar que os homens são capazes de violência e agressividade. Competitividade e arte Fayga Ostrower É artista plástica. Assim está sendo rotulado o caráter da natureza. Ma- tar para não morrer. teórica da arte e dos processos criativos. Tema fas- cinante. O que vemos? Em programa após programa mostra-se o reino animal com uma ênfase – impossível de ser ignorada – sobre a necessida- de de competição e agressividade brutal na luta que se trava de cada um contra todos. Por exemplo. Trazemos em nós um lado animal. E não nos colocamos fora das leis da natureza. Ela nos diz: matar é a lei da natureza. veiculados pela mídia televisiva a título de aprofun- dar conhecimentos gerais. mostrando-se o mais forte extermi- nando o mais fraco. uma mensagem subliminar. É nossa herança biológica. para que o mais forte possa sobreviver e se reproduzir. talvez. Nessas ima- gens. há também em nós um outro lado – um lado humano –. Dessa forma se justificariam. todos os massacres e genocídios. É a lei da natureza. que nada tem a ver com a lei do mais forte ou com competição agressiva. faleci- da em 2001. banalizando-os. No entanto. Comer para não ser comido. ilustrada sempre e de novo com cenas da vida animal. Só que a seletividade opera de modo bem mais complexo e em níveis mais profundos do que na luta corporal. a glorificação da vitória do mais agressivo é tão evidente. em se tratando de questões de criatividade e suas motivações na arte e na ciência. com vá- rios prêmios internacio- nais. é a maneira como se abordam certos assuntos culturais. descoberto pelo genial Charles Darwin. que dá para suspeitar se não existiria aí. Sem dúvida. tão explí- cita e dogmática. na mídia. Um dos aspectos que me impressionam particularmente nos progra- mas ditos educativos. e as atrocidades cometidas por nossa sociedade. sempre num tom olímpico. Entretanto.

que haverão de trans- formar-se em verdadeiras necessidades espirituais. procurando superar-se e dar o melhor de si. É nosso lado espiritual e sensível. a própria experiência do viver. no final da adolescência. de sua identidade como indivíduo único. seu ser intelectual e emocio- nal. A noção de competitividade é totalmente alheia à busca da verdade nos processos criativos da arte. desta vez espiritual. Essas são qualidades unicamente humanas. Cada um só pode encontrar suas formas expres- sivas a partir de sua própria experiência de viver. das formas de arte. Essa busca interior o impulsiona – e jamais uma competitividade artificialmente imposta de fora. Van Gogh não compete com Gauguin. então. de culpa e perdão. inicia-se. Tornam-se. a solidariedade e a genero- sidade. que constitui a legítima motivação do artista. que constitui a legítima mas expressivas. o amor e a ternura. de compaixão. Não precisaria de nenhum sensacionalismo barato. o artista só poderia fazê-lo consigo mesmo. tados pelos marketings da vida e pela hipocri- sia e total falta de escrúpulos dos manipulado- res da arte como mero produto comercial. uma busca interior. a criação da imen- sa riqueza de formas expressivas. inclinações. Tudo: a consciência. poder sorrir entre lágrimas. bastaria o artista ser autênti- motivação do artista. um novo ciclo de crescimen- to. para ser “original” na criação de for- potencial. a dignidade e a coragem. E para esse crescimento não existem prazos nem fim. as infinitas nuances de alegria e tristeza. Embora influenciando-se mutuamente. a percepção de si mesmo e dos outros. assim. Ele envolve a personalidade toda do indivíduo. nem Gauguin com Van Gogh. Competir. a reflexão e o raciocínio. Privilegiam os homens com a percepção de um universo externo. seus valores e sua visão 26 . É a busca de realização de seu Portanto. mas cada um tem que descobri-las. É o que nos eleva acima do animal e nos confere a condição de seres hu- manos. de um ontem e amanhã – o saber da própria morte. em cada pes- soa. É a busca de realização de seu potencial. como que exigindo sua realização. os sentimentos complexos de esperança e desespero. uma busca de si mesmo. memórias associati- vas e linguagens simbólicas – enfim. Tais potencialidades são inatas na pessoa. de emoções. ao qual corresponde. O milagre que se dá no ser humano – e que tampouco tem a ver com a lei do mais forte – é que. quando está terminando o ciclo de crescimento bioló- gico. um universo interno. Essa busca co e verdadeiro consigo mesmo. Cabe frisar este aspecto e acen- tuá-lo: tudo o que nos distingue como seres humanos é não-agressivo e não-competitivo. a sensibi- lidade. e também suas potencialidades criativas. pensamentos. Dispensaria a interior o impulsiona – e jamais uma competitividade artificialmente competição com os últimos modismos decre- imposta de fora. É nela que se originam as potencialidades criativas das pessoas. Elas se lhe revelam através de certos interesses. para cada um. a noção do tempo. anseios – anseios estes.

de vida. Seus bilidade não existe uma reta de chegada. Nem mesmo. Cada pessoa tem o seu ritmo interno e o sucesso na vida. como caminho de realização da pessoa e de seu rápido. então. como caminho de realização da pessoa e de seu sucesso na vida.mentalidade do mercado. Resumindo: a noção de competitividade. a mera novidade com a criação – pois a novidade se esgota no primeiro instante.Resumindo: a noção de to de corridas. Nem esperteza com inteligência. ca mais distante.aos da arte. porque nós nos reestruturamos nela. em que vence quem corre mais competitividade. É preciso não confundir estilo com moda. 27 . Assim se formula o estilo individual. pertence à mentalidade do mercado. pois a princípios e valores são contrários cada realização o horizonte se amplia e se colo. que será reconhecível em qualquer de suas obras. pertence à seu próprio caminho. Seus princípios e valores são contrários aos da arte. ao passo que a criação se renova e se reestrutura cada vez mais em nós. E nos caminhos da sensi. A criação não é uma espécie de campeona.