REALINHAR-SE

SE COM O ESPÍRITO DA SAGRADA
SAGRADA LITURGIA:
LITURGIA
NECESSÁRIA E DESAFIANTE TAREFA ECLESIAL
Alguns elementos para reflexão

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

1. Para pensarmos a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II e entendê--la em profundidade, em
meio a seus sucessos e percalços, é bom que estejamos antenados com o que veio antes da
reforma, a saber, com o movimento litúrgico. E para entendermos
entende mos o movimento litúrgico, com
seus percalços e sucessos, é bom que estejamos
estejamo bem antenados com as origens de um grande mal-
estar litúrgico que,, talvez tarde demais, levou à necessidade de reformas.
2. Mas creio que não caberia aqui falar ex-professo
professo sobre o movimento litúrgico,
litúrgico caindo até no risco
de ser repetitivo . Nem vou falar das origens do dito mal-estar litúrgico2. Aliás, nem temos tempo
1

para tudo isso. O que eu quero é partilhar um pouco com vocês sobre algo que está no meu
1
Muito se escreveu até agora em torno doo movimento, a bibliografia é imensa. Basta folhear as principais revistas litúrgicas,
tipo La Maison-Dieu (Paris, 1945ss), Phase (Barcelona, 1961ss), Rivista Liturgica (Finalpia, Finalpia, 1914ss / Nova série 1964ss),
1964ss
Rivista di Pastorale Liturgica (Brescia, 1963ss), Questions Liturgiques (et Paroissiales) (Louvain, (Louvain 1921ss), Paroisse et
Liturgie (Bruges, 1919ss), Notitiae (Roma,
(Roma 1965ss), Liturgiewissenschaftliche Quellen und Forschungen (Münster, 1928ss),
Liturgisches Jahrbuch (Münster,, 1951ss),
1951ss Jahrbuch für Liturgiewissenschaft 1-15 15 (Münster, 1921-1941),
1921 Archiv für
Liturgiewissenschaft (Ratisbona, 1950ss), Ephemerides Liturgicae (Roma, 1887ss), Ecclesia Orans (Roma, 1984ss). Indico
aqui alguns escritos sobre o movimento litúrgico,
litú antigos e atuais: VV.AA. Le cenquentenaire du mouviment liturgique.liturgique In:
Les Questionis Liturgiques et Paroissiales,
Paroissiales Louvain, 40, n. 3-4, 4, 1959; NEUNHEUSER Burckhard. O movimento litúrgico:
panorama histórico e linhas teológicas.. In: VV.AA. Liturgia, momento histórico da salvação (= Anámnesis 1). São Paulo:
Paulinas, 1987, p. 9-36;
36; Id. Movimento litúrgico. In: SARTORE Domenico – TRIACCA A. M. (Org.). Dicionário de Liturgia.
São Paulo: Paulinas, 1992, p. 787-799,
799, com boa listagem bibliográfica (completada
(completada na edição espanhola, Nuevo Diccionario de
Liturgia.. Madrid: Paulinas, 1987, p. 1365-1388);
1365 SILVA José Ariovaldo da. O movimento litúrgico no Brasil. Estudo
histórico. Petrópolis:
rópolis: Vozes, 1983; Id. Id. Avanços e retrocessos do movimento to litúrgico no Brasil. In: Revista de Cultura
Teológica, São Paulo, n. 31, 2000, p. 109--131. Algumas publicações mais recentes,, cada qual com farta bibliografia:
bibliografia CONTI
L. Paolo VI. Dal movimento litúrgico alla riforma: uma liturgia eucarística e pasquale. In: Rivista Liturgica,
Liturgica Torino/Neuman,
2003, p. 713-728; FLORISTAN SAMANES, Casiano. A los cuarenta años de inaugurarse el Vaticano II. In: Phase, Barcelona,
n. 253, p. 85-87, 2003; MISERACHS V. El Motu próprio “Tra le sollecitudini” de san Pio X. Historia e contenido. In: Phase,
Barcelona, 2004, p. 9-28; PRETOT Patrick. Actualité du Moviment liturgique. In: La Maison-Dieu Dieu, Paris, n. 238, 2004/2, p.
37-43; GRILLO, Andrea. 40 anni prima e 40 anni dopo Sacrosanctum Concilium: una considerazione inattuale sulla sull attualitá
del movimento liturgico. In: Ecclesia Orans,
Orans Roma, v.21, n. 3, 2004, p.269-300; LAMBERTS Jozef. L’évolution de la notion
de “participation active” dans le Mouvement liturgique du XXe siécle. In: La Maison-Dieu,, Paris, n. 241, 2005, p. 77-120;
BASURKO Xabier. Movimento litúrgico em el siglo XX (1903-1963).
(1903 In: Historia de la liturgia (Biblioteca Litúrgica 28).
Barcelona: Centre de Pastoral Litúrgica, 2006, p. 383-445;
383 AUGÉ Matias. Il movimento litúrgico. Alla ricerca della
fondazione “spirituale” della liturgia. In: Ecclesia Orans, Roma, 24, 2007, p. 335-350; VV.AA. El siglo de la liturgia.
Congreso Internacional de Liturgia. Barcelona, 4-5 4 de septiembre de 2008. In: Phase,, Barcelona, n. 287-288,
287 2008; VV.AA.
1909-2009. Le Mouvement liturgique. In: La Maison-Dieu,
Maison Paris, n. 260, 2009; GRILLO Andrea.
Andrea Le Mouvement liturgique et
les tournants épistémologiques du XXe siècle. Une petite considération inactuelle. In: La Maison-Dieu,
Maison Paris, n. 260, 2009, p.
123-152; GRILLO Andrea. Il pensiero di Cipriano Vagaggini, tra eredità tomista e confronto con la modernità. Profilo e
fortuna de un grande “liturgista”. In: Rivista Liturgica,
Liturgica 2009, p. 362-384; DALMAU Bernabé. El momento litúrgico actual (=
Dossiers CPL 117). Barcelona: Centre tre de Pastoral Litúrgica, 2010; DE CLERCK Paul.. Pierre-Marie Pierre Gy: souvenirs et
témoignage d’un liturgiste au temps de Vaticano II. In: La Maison-Dieu, Paris, n. 261, 2010, p. 127-160; 127 METZGER M. La
reforme liturgique du Concile Vatican II et les idéologies qui résistent. In: Révue des Sciences Religieuses,
Religieuses Strasbourg, 85, n. 1,
2011, p. 101-110.
2
Neste sentido me deliciei com um interessante artigo publicado por F. Vandenbroucke, publicado por ocasião do
cinqüentenário do movimento litúrgico clássico, em 1959;1959; portanto, já às vésperas do Concílio Vaticano II. Título do artigo:
Aux origines du malaise liturgique. In: Les Questions Liturgiques e Paroissiales,
Paroissiales 40, 1959/3-4, 4, p. 252-270.
252 Aliás, o artigo faz
parte de um número especial da revista, dedicado ao cinqüentenário,
cin em que a figura e obra de Lambert Beauduin vem
destacada, inclusive com uma simpática fotografia sua em página inteira.

e para voltar a uma equilibrada e sadia convivência social. tiranias opressoras. foi precisamente no segundo milênio. Debilitados pela falta do verdadeiro espírito da liturgia e anestesiados pela cobiça do ouro e a sede de poder.. Assim... In: Revista de Cultura Teológica. 109-131. . Creio que uma tomada de consciência do que está nos bastidores históricos de nosso inconsciente coletivo cristão ocidental.. libertadora. Il movimento litúrgico. novenas etc. escravizações. enfim. n. ajude a contribuir para... 1983. Alla ricerca della fondazione “spirituale” della liturgia.. eventuais lacunas. Significou a reação paulatina e benéfica a um mal-estar litúrgico que havia tomado conta do corpo eclesial do Ocidente. entra na sua fase clássica e de expansão com o pontificado de Pio X (1903-1914). Roma. e a grande massa popular. Pensemos no que cristãos (batizados. agressiva. teve de ‘sobreviver’ (ainda bem!) com o apoio dos mais variados tipos de devoções.. bem como de comportamento ‘litúrgico’ e ‘espiritual’ que. sobretudo sobre o movimento litúrgico no Brasil3. Petrópolis:Vozes. tem enorme dificuldade em assumir tais padrões como nocivos à sua saúde e à dos outros e em retornar ao essencial para viver com qualidade de vida. sofrendo como consequência a perseguição e a deportação!. Avanços e retrocessos do movimento litúrgico no Brasil. para aproar depois nas soleiras do concílio Vaticano II”4. São Paulo... autoritária. Voltar à liturgia.) fizeram com os índios nesta nossa América Latina e com os escravos negros!. a alienação do verdadeiro espírito da liturgia levou a tudo isso.é um fenômeno eclesial e até mesmo histórico- cultural que afunda suas raízes na época do Iluminismo. continua a ser o grande desafio.!. 5. Id. vaidosa. depois. pensarmos juntos possíveis caminhos ‘terapêuticos’ para sanar padrões ‘litúrgicos’ e ‘espirituais’ distorcidos do inconsciente coletivo em nosso corpo eclesial. perseguições contra não-cristãos. irresponsável e até violenta. p. “O movimento litúrgico – resume Matías Augé .. a partir de minhas pesquisas. Enfim. quando a liturgia se transformou num formal fator clerical. ciumenta. inclusive – arrisco dizer – para a sobrevivência do nosso planeta. Por exemplo (coincidência? penso que não!). dificuldades em sua recepção e. O movimento litúrgico no Brasil. incorporou padrões de comportamento que a levaram a tornar-se inflexível. em torno de seus eixos principais. conversarmos em profundidade sobre a Sacrosanctum Concilium. que se agravou nos séculos 12 até o 16 e ainda perdurou pelos 3 Cf. freqüentadores de missas. por exemplo.. invasões e destruição de terras alheias. Mais ou menos como uma pessoa que. a partir dos séculos 8 e 9. E como um Bartolomeu de las Casas. casados na igreja. coração e não para de me incomodar. isolada da “fonte primeira e indispensável do espírito cristão” (que é a liturgia!). esses cristãos não conseguiram enxergar mais nem a sua própria insanidade torturante!.. p. tem suas primeiras manifestações tangíveis na renovação do monacato beneditino de Solesmes no século 19 por obra de Dom Prosper Guéranger (1805-1875). ao nosso planeta e à sociedade humana como um todo. 31. sangrentas ditaduras. Estudo histórico. em guerras fratricidas. 2007. agora resgatada pela reforma do concílio Vaticano II. neste Seminário. foi então que o Ocidente cristão perpetrou os piores desmandos morais e as mais intensas destruições de vidas humanas. não deixaram de ser nocivos à Igreja. historicamente foram assimilados padrões de compreensão da liturgia. egoísta. 24. soube reagir profeticamente contra a insanidade escravizadora. num dado momento de sua história pessoal. 2000. causando muito sofrimento e dor a si e aos outros. 3. Refiro-me a elementos sutilmente agarrados no inconsciente coletivo do corpo eclesial como padrão antigo que sempre dificultou e vem dificultando todo o processo de reforma.. inquisições. ou melhor ainda. direta ou indiretamente. a uma espiritualidade de fato litúrgica. In: Ecclesia Orans. 4 AUGÉ Matías. procissões. 335.. rezas.. exatamente a partir do espírito da celebração da Eucaristia. no corpo eclesial. 4.

em se tratando de religião cristã católica com seus rituais.. relativamente muito pequeno. 85. Bem que profetizou o iniciador do movimento litúrgico clássico. cinquenta anos da Sacrosanctum Concilium. 8. sufocada que fora por um frio corpo doutrinal “sobre” Deus e seus mistérios. fora ou dentro dos quadros da organização eclesiástica. Faz-me lembrar outro fato pitoresco: um registro do cronista do Convento do Sagrado Coração de Jesus. Dai se entende a gritante e permanente defasagem existente entre o que um grupo de cristãos. In: Revue des Sciences Religieuses. p... Barcelona: Centre de Pastoral Litúrgica. o bispo de Lérida (Espanha) durante o concílio Vaticano II. p. Barcelona: Centre de Pastoral Litúrgica. É muita coisa. O que se busca resgatar: a) a divina Liturgia (com maiúsculo) celebrada. c) a divina Liturgia (com maiúsculo) celebrada como escuta. em Petrópolis. Podemos ilustrar o que quero dizer. 2010. quando se sublinhava a importância do culto cristão. poderíamos evocar a reação pitoresca de um bispo. Explico-me: a partir de então os próprios frades começaram. 1996. presente na própria ação ritual. La reforme liturgique du concile Vatican II et les idéologies qui résistent. Lambert Beaduin. fonte primeira e indispensável do verdadeiro espírito cristão. 7 Cf. há quase 100 anos: “O trabalho de renovação litúrgica será árduo: é bom se convencer disso. El momento litúrgico actual (Dossiers CPL 117). por meio de alguns exemplos. acolhimento. o beneditino Dom Martinho Michler.. sufocada que fora pelo desesperado esforço meramente humano de “chegar até Deus” e salvar a própria alma6. veio assimilando e já assimilou do espírito da liturgia resgatado pelo movimento litúrgico ou expresso pelos documentos oficiais da Igreja.. louvor e ação de graças pelas maravilhas operadas por Deus. Marcel Metzger. contemplação. 107. E. E isso até mesmo entre as elites mais eruditas. de fato participada por todo povo. Cem anos de movimento litúrgico. agora. com um mare magnum de publicações em torno do espírito da divina Liturgia (a bibliografia é imensa e as pesquisas ainda continuam!. séculos afora. 6.. em 1934.). Então o cronista deixou registrado que o povo estava gostando das “missas litúrgicas” (sic) que os freis celebravam! 5 Cf. da liturgia como a verdadeira oração da Igreja. experimentada como Presença libertadora do mistério pascal na própria ação ritual. e o que uma imensa multidão.. p. a grande massa popular. b) a divina Liturgia (com maiúsculo) celebrada como experiência orante por excelência de cada cristão em particular e de todo povo reunido. De saída. muito tempo agora será necessário para aprendê-lo de novo”5. mas que continuam (como já disse) agarrados no inconsciente coletivo do nosso corpo eclesial. versus mil anos de diáspora litúrgica por parte das massas populares e até mesmo das elites eruditas. . sobretudo pelo mistério pascal.. primeira e indispensável fonte do verdadeiro espírito cristão. a celebrar missas versus populum.. no corpo eclesial.. as multidões levaram séculos para desaprender o verdadeiro espírito cristão. ainda tem como padrão inconsciente agarrado em seus corpos. 2011/1. sufocada que fora pelo acúmulo de manifestações piedosas extra-litúrgicas e pelo individualismo religioso. Aquilo que está para além de todos os padrões humanos que. BEAUDUIN Lambert. 19. cá e lá. isto é. DALMAU Bernabé. a reforma do concílio Vaticano II? No fundo.. E já se passaram quase 50 anos!. contido na liturgia.. 7. acabaram roubando a cena do Espírito que anima este corpo. cá entre nós. 101-110. 6 Cf. Mil anos de deserto mistagógico!. admiração. para um curto centenário de retomada do caminho!. Strasbourg. La piedad de la Iglesia (Cuadernos Phase 74).. Nem o Concílio de Trento conseguiu sanar o mal-estar. até mesmo a reforma do Concílio Vaticano II está enfrentando dificuldades na implantação do verdadeiro espírito litúrgico.. O que quis o movimento litúrgico e. resgatar o Essencial na vida cultual da Igreja. Reagiu assim: “Imaginem! Estão chegando ao cúmulo de por a liturgia dentro da missa!”7. a partir de um contato dos frades com o iniciador do movimento litúrgico no Brasil.

“A missa de sétimo dia celebrada ontem no Rio em homenagem ao deputado Ulysses Guimarães comprovou que ele ainda simboliza o consenso nacional. seja para “homenagear” alguém (vivo ou falecido).. Lembro-me de uma dura advertência do reacionário Plínio Correia de Oliveira. Missa homenageia Princesa Isabel pela Lei Áurea e apoio à Catedral” (Tribuna de Petrópolis 13. 1066-1209) se trata da celebração da liturgia como “obra da Trindade”.92. 9 Alguns exemplos. Lembro-me também de quando pesquisei sobre o movimento litúrgico no Brasil.. em se repetir inúmeros padrões medievais e pós-tridentinos de comportamento litúrgico e espiritual. p. 1210-1690). “A população petropolitana está convidada para assistir. na segunda sessão (nn. p. e ao mesmo tempo fonte donde emana toda a sua força”.2008. Os 60 anos do Sindicato dos Vendedores de Jornais do Estado do Rio de Janeiro foram comemorados ontem com missa em ação de graças” (O Globo 26.. durante dez minutos ouvi na igreja o relato da listagem de intenções da missa a ser celebrada: intenções por inúmeros falecidos com 8 Cf.. no caso..2010. 13). seja para celebrar ou abrilhantar a “memória” de alguma pessoa ou evento importante e. os dois (Alckmin e Kassab) declararam ter vontade de disputar eleição (. 1 e 13). em memória dele” (Idem 12. missa é uma “cerimônia” que se “encomenda” ou se “promove”. (O Estado de São Paulo 20.99. 10. à qual a gente assiste. p.. “Sindicato festeja 60 anos com missa. esquece-se de certa maneira o seu aspecto celebrativo (dimensão mais mistagógica) e privilegiam-se.. “Amigos do traficante Uê encomendaram missa pelo primeiro aniversário de sua morte” (O Globo 11. Enquanto na primeira sessão (nn..12. para a grande massa popular. “ACM pede ordem e vai à missa em homenagem ao filho” (Jornal do Brasil 22...03. para “festejar” e “comemorar” algum aniversário significativo.09. missa. 6). p. Portanto. 1).. p.2003. “Ontem de manhã. como “fonte e ápice”. como tenho observado inúmeras vezes9. p. continua a ser entendida como sendo isso mesmo!.96. 2). a missa em homenagem ao prefeito eleito Leandro Sampaio. Constatei que o que mais me saltou aos olhos foram os violentos conflitos entre duas concepções de espiritualidade: a apaixonante espiritualidade litúrgica sendo descoberta.” (Folha de São Paulo 19.09... 9. repete-se neste caso.05.1992.94. . homenageado com uma missa. Por exemplo. 8).. que é a preocupação acima de tudo doutrinal10.. 10). um velho padrão apologético. Esse é o padrão comum de compreensão.. os dois assistiram juntos à missa em homenagem ao governador Mário Covas.” (Folha de São Paulo 07. cit. Dom José Carlos de Lima Vaz confessou ser torcedor do Botafogo” (Diário de Petrópolis 18... A missa das 8h na Catedral São Pedro de Alcântara será em homenagem à Princesa Isabel. “A Faculdade de Direito da UCP promove Missa de Ação de Graças em homenagem aos desembargadores Miguel Pachá e Marcus Faver” (Tribuna de Petrópolis 21.. as “verdades de fé” sobre eles. Avanços e retrocessos do movimento litúrgico no Brasil. A missa foi encomendada pela presidente do Museu de Arte Moderna” (Idem 12. A problemática é encontrável na própria elaboração do Catecismo da Igreja Católica. Há poucos dias. p. p. cad..03.2003.05.. “Na missa em homenagem aos 156 anos de Petrópolis. p.. p. “Em missa de homenagem a Covas (ou: “em missa em memória dos sete anos de morte de Covas”). p.03. A partir daí comecei a entender o porquê da fortíssima tendência. 18). se é que a linguagem da imprensa expressa a cultura de um povo e..09. A4).. o imaginário religioso de um povo ou. quando se trata dos sete sacramentos da Igreja (mormente a Eucaristia!).. “Tumulto e prisão na missa por Uê. p.. e as centenárias espiritualidades devocionais medievais e pós-tridentinas padronizadoras do tecido cultural da nossa nação brasileira8.. em prejuízo de uma visão preferentemente mistagógica dos sacramentos! 12. saindo em defesa das devoções..98. 1 e 16). anti-herético. Nada contra homenagens à princesa Isabel e outros personagens históricos.” (Tribuna de Petrópolis 31... “Homenagem à princesa na Catedral. a respeito da Eucaristia: No linguajar comum da imprensa brasileira (escrita e falada). 11. 1 e 4).03. 10 Ibid. contra os chamados “ataques do liturgicismo exclusivista” (que prega a espiritualidade litúrgica como a única e necessária na Igreja) ameaçadores da própria solidez cultural da nossa nação: “Vocês querem acabar com a nação brasileira? Arranquem a sua fé!”.. veladamente. algo bem longe do que o movimento litúrgico compreendeu e os documentos da Igreja definiram. 5).. SILVA José Ariovaldo. Art. 109-131.. p.. “fonte e ápice para o qual tende a ação da Igreja.12. Uma cerimônia feita por um profissional religioso contratado (padre ou bispo).. foi rezada uma missa na Casa da Dinda em homenagem a Pedro. não obstante o imenso trabalho já realizado no campo da reforma litúrgica.09. as doutrinas (em moldes escolásticos). Apenas me pergunto se é para isso que missa existe. Voltando para a questão da Eucaristia. p.10. Em outras palavras. 102-106.. o inconsciente coletivo dos católicos do nosso país. “Missa em memória de Roberto Marinho reúne cem pessoas em igreja paulista..).. existente até hoje. inclusive. Ora.03. 1. então.

vivo. no mesmo padrão antigo.. Nela o corpo de Cristo. limpinho e lisinho como o corpo de uma criança recém-nascida. Outra questão que ainda continua me intrigando. e assim por diante. Como que dando-nos esta impressão: Somos presididos por um cadáver!. . de maneira geral a oração dos padres e os ritos que realizam não convenciam. sétimo dia. Numa palavra.. realizada pelo profissional do culto. em honra de Santo Expedito (e outros santos). de qualquer jeito. A reforma conciliar nos resgata que Cristo é o verdadeiro sacerdote que preside e age na ação litúrgica. aos poucos. re-presentada pelo Cristo pantocrator na abside. 66). nomes citados. Tudo tão solene e apaixonante que dá a nítida impressão de que aquele momento eucarístico é muito mais importante que a própria celebração da eucaristia. com os olhos abertos (olhem este detalhe!) aparece em primeiro plano. sendo que o resto. voltado para o povo (como devia mesmo ser!). não é um corpo desfigurado. mesmo com o texto traduzido para o vernáculo. nas tradições mais antigas e genuínas da Igreja. o povo cria que o padre estava rezando (orando mesmo!) em estreito e profundo contato com Deus. pois percebe que na verdade os padres de maneira geral. a saber. apaixonadamente. nos sacramentos em geral) é que nos preside.. Altar cheio de velas. a partir das propostas do Sínodo sobre a Eucaristia: “A adoração eucarística é apenas o prolongamento visível da celebração eucarística. Esquecemos!. às vezes enorme. conectando-me num canal de televisão católico. a qual. Antigamente. cruz e sepultura (morte!). antes do Vaticano II. mecânica. sua presença viva nos sinais (na assembleia. em ação de graças a Santo Antônio por graça alcançada. como algo que já passou.. O padre com paramentos suntuosos (capa magna imensa etc. misturadas com intenções pelas almas em geral. quando o sacerdote rezava a missa de costas para o povo (e em latim).. todo luz. ainda. Esquecemos que aquele que passou pela morte. pelas treze almas benditas. E como o Cristo é representado? De olhos abertos! Só este detalhe já nos diz que somos presididos por Alguém que está vivo. E mais: seu corpo. com tanta paixão que. mas um corpo sadio. no pão e vinho consagrados. pela recuperação da saúde de N. assim (vivo!).. mas simplesmente liam um livro e continuavam lendo o missal do mesmo jeito que antes..!). na Palavra proclamada. contrastando com o que nos apresenta a reforma pós-conciliar11. com as marcas dos cravos e da lança. o padre se expõe.. Dá-nos a impressão de que somos de fato presididos por Alguém que. Porém. pois não 11 Como nos ensina Bento XVI. que a gente “encomenda” numa determinada intenção. um Cristo crucificado. Padre orando piedosamente. ou na forma de uma cruz pascal (expressando morte-e-ressurreição) pendurada sobre o altar12. Pois é! É um padrão medieval que assimilamos e não nos damos conta do quanto ele nos limita em termos de mistagogia do espaço litúrgico! 15. passada a paixão e morte.. do espaço em que acontece a Eucaristia. intenções de aniversário de falecidos. de um mês.. Há poucos dias. se desdobra numa extensa oração em língua estranha. o que ainda vemos em muitos espaços litúrgicos? Lá na frente. Uma reza. Ele!) está vivo. mostra a sua cara e. em ação de graças pela recuperação da saúde de N. é claro! Depois do concílio. “no piloto automático”. na pessoa do ministro ordenado. deparo-me com uma solene adoração ao Santíssimo Sacramento. desfalecido. n. pela conversão de N. pois não via a cara do padre! Sem querer generalizar. agora vive e. pelas almas do purgatório. o povo sente como que uma decepção.. aparece atrás dele. sem manifestar convicção naquilo que estavam lendo.. pelo anjo da guarda. morto. de maneira formal.. ao microfone e transmitido pela TV. olhos fechados. Em outras palavras.. Na boa fé.. orações feitas às carreiras e os ritos realizados igualmente de maneira muito formal. (sim. é o maior ato de adoração da Igreja” (Exortação apostólica pós-sinodal “Sacramentum Caritatis”. que nos preside!. 13. e é assim. 12 Muito significativa a chamada “Cruz de São Damião” da tradição franciscana. em si mesma. nos fala e nos interpela para o seu seguimento.. uma listagem imensa!. Tal presença foi. sobretudo em se tratando da oração eucarística (a oração mais importante!).. aquela cruz bizantina que falou a Francisco de Assis. 14.. Ostensório imponente. não rezavam.. em primeiro plano sobre a cruz. É a compreensão que a grande massa popular tem ainda de celebração da Eucaristia como padrão assimilado.

”. O povo é por natureza orante. Numa palavra. paixão. da forma como as celebrações 13 BENTO XVI. n. a ritualidade como lugar de experiência de Deus.. também para os demais atores das celebrações (leitores etc.. amor. É nossa tradição cristã que. São Paulo: Paulinas. sobretudo os principais. em termos de ritualidade. Privilegiamos a ritualidade como lugar de especial de experiência de encontro do Mestre conosco. fonte di spiritualità del presbitero. desperta no cristão o forte desejo de anunciar o Evangelho o testemunhá- lo à sociedade para que seja mais justa e fraterna. Andréas. 5.). por falta de qualificação dos nossos agentes celebrativos para a ritualidade (em seu sentido teológico. fonte e ápice da vida e da missão da igreja (A voz do papa 190). não se nota este “encontro deles com o mistério”. que mostra fé naquilo que prega.. ainda não se assimilou satisfatoriamente o espírito da reforma do Concílio Vaticano II. manifestavam fé. no exercício de suas funções. vol. coisa que normalmente não acontece ainda de maneira satisfatória nas celebrações litúrgicas católicas. Outros tantos. pascal e sócio-transformador). 83. que convence. oração). 107-126. p. buscam outros ambientes mais “convincentes” que não a Liturgia: nas seitas e em manifestações piedosas mesmo dentro da Igreja Católica. Ora. E no discurso de abertura da V Conferência.. p. continuam a repetir padrões antigos e não conseguem contribuir para a formação e animação de discípulos e missionários de Jesus Cristo a partir da Liturgia. [Original italiano in: Rivista Liturgica 2003/4].. Exortação apostolica pós-sinodal “Sacramentum caritatis” sobre a eucaristia. No meu entender. um pregador da Palavra. 2008.. na mente. 256. In: La Rivista del clero italiano n. Ars celebrandi. 325-339. o povo não consegue saborear o mistério presente nos ritos. die Liturgie der Kirche zu feiern. o êxodo dos católicos é motivado pelo não convencimento dos principais atores em seu agir nas celebrações litúrgicas. p. Resultado: Porque os atores das celebrações litúrgicas (mormente na missa). .. Pelo contrário. entusiasmo. Le langage non verbal dans le nouveau Missale Romanum: “ars celebrandi” ou “ritus servandus”? In: La Maison-Dieu. Vai para as igrejas para ter um encontro com Deus. BIANCHI Enzo. no coração. 2007. 2002. mais que a Liturgia. eu me pergunto. ouvir Deus falar. entre nós católicos. Questions Liturgiques. Lembro-me do que Bento XVI disse em seu discurso aos bispos do Brasil: que “a celebração eucarística é a melhor escola da fé”. L’eucaristia. Só que isso. a sacramentalidade da Liturgia como expressão do mistério salvador.. p. vai ser muito difícil para uma assembleia. sentir Deus falando. 38-42: Arte da celebração).. e são milhares. com este tremendo “ruído” à sua frente. no corpo dos agentes das celebrações. em grande parte. além da rigorosa formação técnica para se comunicar com o público.. o povo “escapa” e vai valorizar mais as devoções (ao Santíssimo Sacramento. se investe pesado na sua formação. Eles são rigorosamente formados para ser um bom pregador. Paris. fazer a experiência de um encontro verdadeiro com o Mestre que nos chama para a missão! 18. aos Santos etc. E depois diz: “O encontro com Cristo na Eucaristia suscita o compromisso da evangelização e o impulso à solidariedade. 60-66 (n. Ora. 16.. testemunhando inclusive que aí de fato “encontraram Jesus”. não estão qualificados como pessoas de fato orantes em seu agir ritual. “tiveram uma experiência de Deus”. 2007. além da pregação da Palavra privilegiamos também a ritualidade. E continuamos assim ainda hoje. HEINZ.). se nos próprios ministros. Resultado. espiritual. Entre os evangélicos. CIBIEN Carlo. o papa chama a atenção que “a assistência dos pais com seus filhos à celebração eucarística dominical é uma pedagogia eficaz para comunicar a fé e um estreito vínculo que mantém a unidade entre eles”. enfadam os participantes das assembleias que. aos poucos. portanto. sabemos que. testemunham que “encontram Jesus” ouvindo a pregação convincente do pastor evangélico e participando de manifestações orantes mais convincentes ainda. 55-89. O espírito da reforma não penetrou ainda no sangue. que mostra diálogo pessoal com Deus nas suas ações rituais (pregação. em grande parte. 17. Ars celebrandi: Übverlegungen zur Kunst. herdamos da tradição hebraica. repetindo os mesmo padrões antigos. Como já se insistiu ultimamente sobre a ars celebrandi da Sagrada Liturgia!13 No entanto. para um pastor ser pastor e. Louvain.

de modo admirável. inserido na última hora. por causa de uma formação litúrgica ainda deficiente e sem cunho mistagógico. 299. uma última observação: Medellín. 302. Será mesmo? Será que a liturgia é tão sem importância assim. e não como celebração da Páscoa que nos libertou da raiz de todos os males. deixamo-nos dominar por eles. p. 2011. Corremos o risco de continuarmos com uma religião clerical. o que acarreta enormes bloqueios no trabalho de resgate e conexão com a fonte primeira do verdadeiro espírito cristão. para que todos tenham vida. corremos o risco de continuarmos no espírito cultual da cristandade medieval e pós-tridentina. Louvain. E com razão. aliada a certo poder “deformador” da mídia. 127-139. p. Barcelona. 250 do Documento final. 407-416. n. Acha-se que a metodologia de trabalho adotada na Assembleia é que prejudicou. 161-165. eucarísticas são normalmente presididas ou ritualizadas (como referi acima). Vocês mesmos podem trazê-los. LÓPEZ MARTÍN Julián. na Sagrada Liturgia. El futuro de la pastoral litúrgica: retos y esperanzas. 99- 106. a ponto de sua abordagem ser comprometida por uma metodologia de trabalho? Ou não terá sido um inconsciente coletivo ainda um tanto limitado em relação ao espírito da liturgia a causa de tal prejuízo? 20. que reza assim: “Encontramos Jesus Cristo. 2002. In: Questions Liturgiques. como vai ser possível realizar isso que o papa afirma? 19. 14 O tal parágrafo que fala especificamente da Liturgia está no n. Corremos o risco de ver os sacramentos apenas como “remédio” (uma espécie de “vacina” contra os males). MATTHEEUWS Gino. há parágrafos sobre os sacramentos. ou como “coisa de padre” que se encomenda para ‘homenagear’ pessoas (vivos ou defuntos) e destacar eventos sociais. 21. Sem dúvida. The ‘Ars celebrandi’ of the Liturgical Congregation. na hora da aprovação final do documento. “Ars celebrandi” en la dedicación de la Basílica de la Sagrada Família. Barcelona. Ao vivê-la. na vida nova em Cristo e na vida de nossos povos n’Ele”. e não como ação comunitária participada por todos. p. A constituição sobre a Sagrada Liturgia do Vaticano II nos mostra o lugar e a função da liturgia no seguimento de Cristo. com esta minha fraterna partilha e com este Seminário possamos sentir-nos provocados a de fato levar adiante esta necessária e desafiante tarefa eclesial: Realinhar-se com o verdadeiro espírito da sagrada liturgia. mágica e puramente devocional. Fala-se da Eucaristia. individualista. 213-232. In: Phase. In: Questions Liturgiques.. Oxalá. às devoções ao Santíssimo Sacramento. ou como show para ser piedosa e entusiasticamente assistido e não como ceia pascal dos cristãos em clima tranquilo de ação de graças. Corremos o risco de continuarmos a dar mais importância à “presença real”. os discípulos de Cristo penetram mais nos mistérios do Reino e expressam de modo sacramental sua vocação de discípulos e missionários. corremos o risco de vermos de certa maneira comprometida a reforma do Concílio Vaticano II. p. A Sacrosanctum Concilium é insistente no tocante à formação litúrgica. mas. Corremos o risco de continuarmos a ver a missa apenas como “remédio que cura”. com alguma tintura moderna apenas. Louvain. distante do projeto de Jesus Cristo. a meu ver. Poderíamos trazer ainda muitos outros exemplos. celebrando o mistério pascal. 2002. na ação missionária dos cristãos. 2011. Um último sentimento meu a partilhar. No existe outro misterio que Cristo. ‘Ars celebrandi’ or the Art to Celebrate the Liturgy. 2010/5. se debruçaram sobre a importância da Liturgia na evangelização e vida cristã. sem compromisso comunitário. 83. Exemplos de como limitados padrões antigos de compreensão e vivência da liturgia ainda nos dominam. e. longe do centro da nossa fé (do mistério pascal de Jesus Cristo que nos empenha a um compromisso comunitário na vivência da fé). Some Forgotten Dimensions. E Aparecida? Lamentavelmente a liturgia não ocupa o lugar que deveria no seu Documento final. essa é uma das maiores lacunas (se não a maior) do Documento de Aparecida14. In: Phase. De fato. . Santo Domingo já nem tanto. MARTINEZ SISTACH Lluís. p. n. Contentou-se apenas com um parágrafo. Puebla e Santo Domingo. inclusive com diagnóstico sobre a situação das celebrações no continente. mas longe do Espírito do Senhor. como se a celebração eucarística não fosse já a presença da salvação. 302. 83. faltou a necessária ênfase à Liturgia como lugar privilegiado de encontro com Jesus Cristo e de formação de discípulos e missionários para que nele nossos povos tenham vida. In: Phase. inconscientemente.. Medellín e Puebla tratam especificamente da Liturgia em capítulo especial. Barcelona. n. do que à Eucaristia como celebração memorial do sacrifício pascal de Cristo que nos libertou e continua nos libertando. Enfim. FLORES Juan J. Sem formação litúrgica preferentemente mistagógica. LAMBERTS Jozef.