O DEUS SUPREMO IORUBÁ;

UMA REVISÁO DAS FONTES *
Pierre Verger
(Universidade Federal da Bahia)

Uma definição d o conceito do Deus supremo entre os iorubás não
pode ser tentada sem uma referência de conjunto à religião iorubá.
Existe uma vasta literatura sobre o assunto; mas antes de aceitarmos
as idéias e conclusões ali oferecidas, devemos investigar as circuns-
tâncias e os preconceitos que influenciaram os autores que trataram
da matéria.
Dispomos de três fontes principais de informações: antigos viajan-
tes, missionários cristãos e antropólogos. Os relatos dos primeiros
estão frequentemente enfeitados com elementos pitorescos destina-
dos a divertir os leitores ávidos do exótico.
Os relatórios dos segundos refletem geralmente uma bem fun-
dada fé cristã, uma austera moralidade e noções seguras do bem e
do mal, tudo isto pesando duramente no seu conteúdo apesar do
esforço para a compreensão do objetivo em vista.
Os informes dos terceiros dificilmente deixam claro que parte da
informação obtida está isenta da influência dos missionários cristãos
ou muçulmanos. Isto porque, na parte da África de que tratamos, o
encontro das religiões animistas, como podemos também chamá-las,
com o cristianismo, ocorreu ao tempo da chegada dos primeiros
navegadores portugueses no século XV, no sudoeste, sob a bandeira
do tráfico de escravos; enquanto que o encontro com o Islã ocorreu
no lado oposto, sob a mesma bandeira, e muitas vezes sob o intole-
rante disfarce de guerra santa.
As circunstâncias em nenhum dos casos Foram favoráveis ao
estabelecimento de um espírito de compreensão e respeito para as
convicções religiosas das comunidades nativas. Onde o Islã estava
interessado, a conversão era um dever sagrado, e para o traficante
de escravos era mais satisfatório e digno de louvor proclamar que ele
estava desempenhando uma tarefa piedosa, resgatando a alma dos
negros dos abismos impenetráveis da idolatria. Os católicos acrescen-
taram que era seu dever ajudar os negros a livrarem-se de cair nas
Publicado e m Odu, University of Ife, Journal ofAfrican Studies, vol. 2, no3, 1966.

e os protestantes felicitavam-se por deixá-los livres do abismo. idéias gerais avulta- vam com referência às religiões das nações vizinhas. Para não ser prolixo. 1956. Os primeiros viajantes de todos. Duarte Pacheco PereiraY2falando do rio Lagos em 1506-1508. Para aquela gente. Mauny. onde se tornou escravo de um francês. descrevendo o rio Formoso. As divindades africanas foram batizadas com o nome de feitiço. 1734. "Sua religião é tão ridícula e tão confusa" (Nyendael).garras dos hereges. elas eram: "Uma massa confusa de superstições ridículas" (d'Elbée). d e R. Baseavam-se elas em observações feitas pelos primeiros navegadores portugueses. nada de preciso se sabia a respeito da religião iorubá. não cuidaram geralmente do assunto da religião dos povos que encontraram. palavra portuguesa que significa algo que era feito. mas como isto são coisas sem muito interesse. trad. ridícula e sem fundamento" (Des Marchais). dentes de elefantes e outras mercadorias" (Snelgrave)? falavam dessas reli- giões da maneira mais desdenhosa. . "coisa feita". antes do século XIX. compilada das narrativas de um Osifekuede. Mas todos concordavam em que o animismo era uma religião desprezível. "Supersticiosa. Mais adiante. Levado para Paris por seu senhor em 1836. "Eu não creio que haja na terra um povo mais supersticioso" (Bosman). Navarre. evitaremos mencioná-las". nascido na vila de Omaku. Foi exatamente em 1845 que se publicou a primeira informação por d'Avezacl numa descrição da nação dos ijebus. Amsterdão. Nouvelles rdationr de quelques endroiis de Cuinée et du Commuce da Esclaves qu'on y fail. Mr. não nos esclarece nada melhor: "Há muitos usos errados na maneira com que vivem. diz simplesmente: "Os negros deste país são idólatras. Paris. Do século XVII em diante. "Um mundo de cos- tumes supersticiosos" (Snelgrave). não falarei de seus feitiços e ídolos".Fetiche e fetichismo Se nada então era sabido da religião dos iorubás. p. 135. com a idade de 22 anos e levado para o Brasil. Bissao. 1845. tornou-se livre de direito.M h i r e de lu Socielé d'Ethnologie. os traficantes de escravos informavam sobre as religiões que nos interessam. Relatos dos antigos viajantes . mas. e serviu de informante a d'Avezac. "formado". Fora da &rica. Esmeraido de Silu O r k (1506-1508). "Uma espécie de idolatria de "Notice s ur le pays e t le peuple des Yébous e n Afriquen. Guillaume Snelgrave. como eles estavam mais preocupados em "fazer um tráfico lucrativo com negros. raptado por volta de 1820.

entre eles. talvez menos antigo. e o culto.um incrível absurdo" (Pruneau de Pomegorge). os exploradores começaram a investigar o continente africano. d á pela primeira vez o nome de "fetichismo" àquelas religiões. publicado em 1760. mas não conheciam o culto do sol. . declara que "Um estudo mais profundo daquilo que é chamado fetichismo negro. "Um fetichismo bru~alizadore supersticioso" (de Monleon). [Adiante ele escreve:] Os negros. d'Avezac. Missionários e antropólogos Do começo d o século XIX em diante. A descrição do fetichismo praticado em Uidá. de fetichismo. não conhecem a idolatria de homens dkficados. o Sol ou os fetiches são as verdada'ras divindades. seruirá bem como uma ilustração de fenômenos singulares onde quer que ocorra. o culto de demônios e outras práticas abomináveis" (Lander). baseado nas informações de Ousifekuede de quem já falamos há pouco. como a maioria dos povos selvagens. é este livro baseado em pontos falsos que estabeleceu uma noção de fetichismo que teve influência sobre os autores que trataram da questão depois. 1760. e falavam delas com as mesmas antigas expressões: "Superstição é a filha da ignorân- cia.culto que eu chamarei. podemos observar que os arricanos da parte d o continente que ele descreve na verdade conheciam o culto de homens deificados. Em meados d o século XIX. 8. Mas por toda a última parte d o século encontramos as mesmas velhas atitudes de indignado desprezo * Du Culte des D i w Féliches ou Parallele de I'Ancienne Rdigion de 1'Egypte avec lu Rdigion actudle de le Nigrilie.Paris. p. Partindo dessas informações. entre os q u i s este culto subsiste . pois. e bem se poderia esperar que a devoção de pobres africanos deseducados Tosse uma grosseira idolatria" (Adan-is). "Uma embrulhada de superstições absurdas" (Dalzel). Porém. ou vodun e orixá. por todo o resto da Africa. mas eles se orientavam mais para os problemas geográficos de descobrir a direção de um rio ou a alti- tude de uma montanha do que as religiões africanas. um pequeno reino da costa da Guiné. o presidente Charles de Brosses4 num livro intitulado O culto dos deuses fetiches ou paralelo entre a antiga religião do Egito e a atual religiáo da Negricia. Contrariamente ao que o presidente de Brosses afirma. sem dúvida nos levaria a uma atitude menos desdenhosa para com os princípios religiosos daquelas populações". Escreve ele: Os dois pólos da teologia pagã são o culto dos corpos celestes conhecido como sabásmo. de certos objetos mderiais e terrestres chamados fetiches pelos pretos."O pior tipo de paganismo.

p. na verdade. monstruoso e imodesto" para os leitores de revistas e periódicos "bem pensantes": "Politeísmo grosseiro. ainda assini.. Ele os dirige para um poder mais alto. madeira ou ferro torna-se um orixá. e sua atual unifor- Le Dahomé. isto é. sua própria religião despertava nele uma "sagrada indignação" que o impedia de tratar essas questões com a con~pletaabertura de espírito que era necessária. a mesma atitude de des- prezo é expressa numa comparação das religiões indígenas com o catolocismo.. souvenirs de 1700yge et de hlission. Assim é que o Rev. entretanto.. Townsend. p. têm geralmente uma aparência suja. em Bouche. como este termo tem sido geralmente entendido. alguns missionários mostraram um vislumbre de uma atitude mais simpática. 18. 117. Não pode Iiaver muita diferença entre papismo e paganismo". com lábios grossos. o feiticeiro é um ser desprezível. donde não se pode dizer que a religião dos daomeanos e dos nagôs é. ~ estátuas e símbolos dos deuses são como as divindades que representam mons- tros.. 1884. e queixo fugidio. La Cole des Esclaves et 1s Dahomey. Ídolos copiados dos mais horrorosos tipos de negros. fetichismo. 1872. o egoísmo e o crime" (R. existe no Daomé" (Abbé ~ a f i t t e ) "As . ~ a u d i n ) . verdadeiras faces de velhos niacacos" (R. Vejamos. o que era apenas terra. Liáo.P. N a realidade não é simples material que recebe o respeito do Feio.7 A despeito do desprezo e indignação dominantes. e essas representações são muitas vezes licenciosas e indecentes. Enganadores. répteis e outros animais. Padre Borghero). hipócritas. que tenta colocar as coisas numa inellior perspectiva: Cada objeto torna-se um orixá logo que tenha sofrido a consagrqáo apropriada.8 Mas. 104. objetos ridículos. o Abbé Pierre Bouche. diz: "Os orixás são suas imagens e crucifixos. está na raiz de toda verda- deira civilização. Um enfoquc mais consistentemente compreensivo nos vem de Frobcnius. luxuriosos. nariz chato. bestial e feroz. inci- tando o ódio. vestes ridícu- las e esfarrapadas. ladrões acabados. que escreve: "A religião dos iorubás torna-se gradualnleiite liomogênea. Fétichisme e1 Felicheurs. Church Afissionary Gleamer.propagadas agora numa florescente literatura missionária que fala de um "fetichismo grosseiro.. p. Tours. p. O objeto orixá adquire uma espécie de personalidade. o primeiro antropólogo na região.. 1849. por exemplo. censurando a religião do povo de Abeokuta. "Liberdade religiosa. 87. Londres. este chamado progresso das sociedades modernas. um poder sobre-humano. e os que mergulliam suas niãos no sangue humano têm um aspecto repulsivo. e que para certos intelectuais de vistas curtas. ~ Para alguns niissionários protestantes. Paris. . imagens de pássaros. 1885.

cuja intervenção é necessária em caso de guerras. 193 1. E quando a varíola está grassando. (Entretanto. 'O Rev. formar um panteão como os deuses gregos. por exemplo. dos ferreiros. d a terra ou d o céu. Assim que eles morrem. quatro- . . . Cada divindade é adorada não apenas pelos seus filhos.midade é o resultado d e uma longa evolução e d a confluência de muitas correntes provindas d e muitas fonte^". Lagos. The Mistety ofthe Yoruba Gods. Por essa época os orixás são também comparados aos santos da Igreja Católica e considerados como intermediários entre a huma- nidade e Deus. Onadele ~ ~ e g aem ~ se diz serem conhecidos seiscentos imalé. de um ponto de vista do crente nos orixás.^ Seu sistema religioso se baseia na concepção de que cada ser humano é um representante d o deus ancestral. ao observador. Todos os membros d a mesma família são a posteridade d o mesmo deus. de um rio. D. procuram. O orixá é o agente da procriação que decide sobre a aparição d e toda criança. de acordo com Epega. não importa que seja ele o deus das tempestades. pes- soas que não são do sangue de Xangô. devemos mencionar o livro do Rev. os orixás parecem. 1912. retornam a esta divindade e cada criança recém-nascida representa o novo nascimento de um membro falecido d a mesma família. não obstante. e contém a imagem e os materiais para o seu culto. inacessível às súplicas dos homens e cujos atributos comentaremos mais tarde. mas também por estranhos que procuram seu poder. Leo Frobenius. p. Na comunidade há o deus d o clã e na cidade existem templos para outras divindades. Cada deus é o fundador de uma família. 154. Com a reabilitação do Fetiche e sua ascensão à categoria de Divin- dade. Orixá significa. The V o i c e o f A f ~ c aLondres. a ajuda de Xangô contra a tempestade. Este pote é chamado odu orisa. "o que enterrou um pote na terra". t. varíola etc. Um Deus remoto. todos buscam o socorro de Xapanã. A descendência é através d a linha masculina. porque é o costume dos imalê enterrar a quarta parte de um pote na terra para seus seguidores. Para encerrar esta série de opiniões expressas sobre as divinda- des intermediárias. ' que centos e um à direita e duzentos à esquerda.D. que é geralmente devoto de um determinado orixá. Os quatrocentos e um d a direita (um a mais porque Ogum é considerado parte de ambos os grupos) são os orixás enquanto que os duzentos outros não podem ser conhecidos ou ter seus nomes mencionados. Porque cada divindade tem uma linhagem. a reunião de cultos de orixás deve parecer uma reunião de monoteísmos). I. Onadele Epega.

e que um esp'rito. an Ancimt Wesl African Kingdom. l1 A resposta de um leigo daomeano inquerido sobre a natureza do vodum foi a seguinte: "O vodum mesmo está no chão. 496. durante o século XV na Costa do Ouro e em Benin. num santuário apontarão para um determinado lugar em que u m grande vaso está enterrado e diráo que o uodum está ali. Tanto Epega como Herskovits acentuam a importância atri- buída ao poder do orixá ou do vodum. capuchinhos bretões tentaram fundar uma missão em Uidá. p. o poder que anda no templo". vol.l2 Influência do Cristianismo e do Islã Se muitos antigos escritores falam de uma crença no Deus supremo mantida pelos habitantes da antiga Costa dos Escravos e Baía de Benin. "The Notion of Magic". Não é segredo. como aquele que diz estarem os poderes da natu- reza sujeitos ao seu controle e sua manipulação -uma posição distinta da posição do homem religioso. dá uma definição da natureza do vodum que é muito próxima da de Epega: Os nativos traduzem vodum fiela palavra Deus. mas. os comerciantes ingleses e holandeses estabelecidos ali suspeitaram das atividades dos padres católicos. dez. O vodum tem um jarro junto dele que está na casa de culto. entretanto. Herskovits. 17. dando assim à relação homem-divindade um elemento de caráter "mágico" oposto ao "religioso". perma- nece o fato que um vodum é também considerado pelos daomeanos como alguma coisa localizada . e de onde possam partir para conseguir as coisas desejadas. 1963.170. É a força. enquanto filosoficamente concebido como existente em toda a parte no espaço. e eles tiveram de l 1 Dahomey. É uma força. '2 Murray e Rosalie Wax. que pode apenas adorar e implorar os poderes que ele crê serem incorrigíveis e incompreensíveis). Herskovits diz que este poder pode ser dominado e que a ação da divindade pode ser influenciada. devemos notar que quase todos a atribuem à influência estrangeira. Nova York. com resultados variáveis. no 5. os portugueses iniciaram a evangelizaç20 cristã. Em 1644. . (Aqui estou usando a definição de Frazer para mágico. depois de ter descrito os vários panteões de voduns (seres derivados dos orixás iorubás) em seu livro sobre o Daomé. deve possuir também lugares p/ecsos em que possa ser chamado. 1928. Na verdade. Current Anthropology. A gente não sabe o que ele é. pp. 4. onde possa ser comandado pelas fbrmuias pr6pnas para ajudar seus crentes. Bem distante do conceito de vodum que o encera como uma divindade.

Se os fazemos compreender seus absurdos. P. l4 Description Histo%ue de la Cole d'Or. p. diz: "O Rei. 111. 232. Description et Recit Hislon'd du Royaume d'Or de Guinea. convertido em 1'7'70. onde adquiriu noções da religião cristã num convento em que fora educado. Voyagedu Cheualier des M a r c h on Guinée. citado por Labouret Le Royaumme dilrdre e1 son euangelisat'on au XVIllne siècle. Nadel mostra que no país Nupe o primeiro rei a tornar-se muçulmano foi Jibril. 487. l6 Voyage de Guinée. Eles nunca oferecem qualquer sacrijkio a Deus nem se dirigem a ele nos momentos de necessidade. era capaz de falar e escrever perfeitamente em português. como se isto fosse possível.T. 1705. S. l4 D'Elbée. tentando converter os nativos. não parece preso às loucas superstições de seu povo". a presença do Islã na região é sem dúvida antiga. Labat.. que tentaram imprimir-lhes estas crençaspouco apouco . t. da terra. mas imploram ao seu yetiche' nos momentos de afliição. 1954. u m bando deles aprenderam esta língua e tornaram-se mais n'vilimdos. 148. a atividade missionária naquela parte da Costa começou dois séculos mais tarde. 1605. 11. Utrecht.abandonar o país. 324.. eles apenas respondem que seus fetiches os ensinaram ou ordenaram assim. Pelo tempo em que eu estava em Fida (Uidá). Assim.13 Quando os primeiros viajantes diziam que os africanos eram idólatras. 1730. l7 NnpeReligion. i. apud Peter d e Marees. não possuem esta crença por eles prbprios.. Londres. p. Desde a chegada dos portugueses aqui. escrevendo sobre o reino de Ardra. nem as mantêm pela tradição de seus avós. Paris. 1875.16 Sabemos menos sobre os planos de converter os pagãos ao Islã e sobre as possíveis repercussões que isto pode ter tido nas suas idéias do Deus supremo.. acrescentavam que sua idéia de um Deus supremo fora emprestada dos portugueses. mas apenas pela Jrequentaçáo dos europeus. Por isso. Comerciando com os holandeses. Um deles. Mas. começaram também a por de lado suas extravagânn'as e a aprender os princípios do Cristianismo.17 Mas ele explica que há l 3 Rocco da Cesinale. l5 Rev. que passou sua juventude na ilha de São Tomé. Paris. p. 17. Gotard Artus de Danzig escreve: Eles dão respostas que os fazem parecer inteiramente desprovidos de qualquer principio de razão. Stona ddle Missionii dei Cappuccini. p. Mas. 192 1. do mar e de tudo que eles contêm. Roma.15 Guillaume Bosman diz: Os negros que vivem na Costa em gerai acreditam em um único e verdadeiro Deus a quem atribuem a criação do céu. Amsterdáo. da ordem dos agostinianos. e era tão familiarizado com as Santas Escrituras que era capaz de discutí- las com os holandeses e de citar trechos delas para justificar a Religião de Roma. p. tendo sido educado por um monge da Mina. havia lá u m padre de São Tomé. uma possessão portugue- sa. .

148. mandinga. vol. que eles são unânimes em atribuírem-lhe uma situação singular em sua religião. 2. Deus remoto Os antigos viajantes também concordam em que os povos dos países que nos interessam acreditam todos num Deus supremo. Smith18 mostra que os historiadores europeus estudaram especialmente a influência européia na costa ocidental da África.J. William Bosman escreve: E m Uidá eles possuem uma idéia de verdadeiro Deus e julgam que ele está em toda parte. l9 David Nyendael escreve: Eles possuem uma idéia bastante boa de Deus. e que ele criou o universo.F. que sabe todas as coisas e que é invisivel. H. foi ali notada pelo Chevalier des Marchais. l9 Bosman. p. 1961. .. que é todo-poderoso. mas eles não o adoram nem lhe oferecem sacriflcios A razão que dão para isto é que este Deus é muito grande e muito alto para se envolver com coisas tão pquenas como o mundo e os homens. épor isso que ele entregou o governo aos seus d m e s . Sua presença em Uidá. àqueles ministros de Deus que são seus representantes. mas esta não era sentida além de duzentas milhas do mar até 1880.que viviam espalhados entre os pagãos. que governa a tudo com a s u a providhcia. dez. eles dizem. Os cultos são celebrados.além mesmo do atual limite dos estados islâmicos. havia pequenos grupos islâmicos. hauçá . que está presente em toda parte.. O fato de os autores dos séculos XVII e XVIII se referirem às vezes aos "sacerdotes de fetiches" como "marabouts" é também significativo. que disse terem eles chegado àquele ponto em 1704. no 2. que não lhe prestam nenhum culto. cit.C. Fora das comunidades islâmicas. l8 "The Islamicrevolution of the 19th centuryn. a quem as pessoas recorrem.. o que os leva a dizer que não seria bom representar Deus por qualquer tipo de imagem. op.fulani. dai viverem todos em calma e sem a menor ansiedade.H..N.. que eles o concebem como muito remoto e poderoso..os orixás dos iorubás ou os voduns dos daomeanos. pois acreditam que ele é todo-poderoso. como Abdul Waliyi (16'79-1'700) ou Ibrahim (1713-1717). vivendo sob governos islâmi- cos. nômades .S.indicações de influências islâmicas nos nomes de anteriores reis de Nupe. e que por esse tempo a influência islâmica já havia se feito sentir muito profundamente . O Deus supremo. porque é impossivel reproduzir o que ninguém nunca viu. A infiltração dos mercadores muçulmanos em direção à Costa deve ser muito antiga. e que acreditam que ele delegou seus pode- res aos deuses secundários .

Eles procuram fazê-lo voltar-se a seu favor por meio de seus fetiches. 6. Que o branco sirva a Deus é natural. de modo que a mesma coisa é usada por eles para dois usos opostos. 22 Voyage li la Cote de Guinke. 21 Voyage au Royaume d'lssiny. Qzcanto aos pretos. depois de começar a organizaçúo do mundo. Senhor do Céu. ~ ~ R.. o mais alto de todos que criou e governa todas as coisas". &L. 1774. p.. 482. op. Mzuto grande para envolver-se com os negócios do mundo. eles pensam ser mediadora entre D m e a humanidade. Deus desfruta de abundância e de u m amável descanso.22 D'Avczac escreve: "Eles conhecem um Deus. o povo tem uma confusa idéia de um ser supremo. nem templos. Eles não possuem nenhuma estátua especial representando o Diabo. p. Esla é a raZáO parque eles têm muitas imagens de seus falsos d mes. . estão convencidos de que Deus é bom demais para causar-lhes mal. cap. p. 25 Baudin. e a única dqerença deve s w encontrada nas sucw intenções. encarregou Obatalá de o concluir e de governá-lo.21 P.J. retirou-se para u m eterno repozuo a cuidar de sua própria felicidade. Ao mesmo lempo eles pensam que Deus. op. ele pwmanece como rei negro dormindo ociosamente. p.P. z4 A Grammar and Dictionaly ofthe Yoruba Ldngi~age. e em ozdras vezes eles o fazem para o diabo em frente da mesma imagem. Bouche escreve: Ele pensa que Deus é grande demais para tratar-se com ele e que Ele delegou o czudado dos pretos aos orixás. 23 Op. Godefroy Loyer escreve: ''Os negros acreditam num Deus único que é o criador de todas as coisas. superior a qualquer outro. 183. e que é especialmente o autor dos fetiches que ele pôs na terra à disposição dos homens".23 Rev. único. ilimitado..P. Paris. 242. Labarthe escreve: "A despeito dessas superstições. Paris. gostam de receber oferendas. todo-poderoso.25 R. pois que às vezes realizam sacrifícios para Deus defronte de uma imagem. Consideram-no u m s w supremo primordial autor e pai dos deuses e dos espiritos.. mas pelo poder de ~ e u s " .20 R. 1803. Eles tentam conciliar os mediadores ou orixás. Bowen escreve: "Eles não oferecem nenhum sacrifício a Deus porque ele não necessita de nada. 84. ele é um ser imaterial. T. eterno. invisível. 1858. Baudin escreve: Os pretos não possuem estátuas nem símbolos para representar D m . Não erigem estátuas para ele. n'l.Washington. XVI. reservando seus favores para o homem branco. que são semelhantes aos homens. esta é a razão por que não lhe prestam nenhum culto". mas os orixás. e então. eles devem seus sacnflcios. não pelo próprio poder dos orixás. para que eles os façam felizes. p. suas orações e oferendas apenas 20 Ver Bosrnan.P. cit..

Samuel Johnson. bispo protestante. Onadele Epega. Lagos. 1894 . 1884 . inglês. missionário protestante e professor.Rev. 1885 .S. p. 1852 . Frobenius. p. 26 Bouche. 35. iorubá. mas muito remoto para estar em conexão direta com os homens e seus negócios. missionário protestante. 1937. 1894. iorubá. Bolaji Idowu. Ellis. Ellis escreve: "Muito distante e muito indiferente para en- volver-se com os negócios da terra. iorubá. 106.Kev. oficial inglês.Rev. iorubá (livro escrito no fim do século passado).A. aos orixás. cit. 28 Rev. 1921 . 27 A. antropólogo alemão.27 Rev.Rev. Burton. Reconhecem-no como criador d o céu e d a terra.B. Ellis. 1949 . op. missionário católico. 1948 . 1912 . Farrow. ~ ~ A.L. . Elas são assim classificadas pela ordem d e sua publicação: 1845 . p. pastor protestante. Baudin. quase sempre dormindo" .B.R. The HLtLoly of Lhe Y o r u h .Abbé Pierre Bouche. bispo protestante. missionário católico. 1863 . Parrinder. Londres. cônsul inglês em Fernando Pó. americano. ~ ~ Enfoque etimológico da definição do Deus supremo Os autores que trataram do problema do nome d o Deus supremo entre os iorubás. missionário protestante. 1858 .R. E.James Johnson. padre católico. 193 1 . 1925 . 1962 . antropólogo francês. Dennett.Rev. iorubá. pastor protestante.B. mais tarde bispo. 1890 . 1926 .D'Avezac.P. Samuel Johnson. The Yoruba Speahing People. Samuel Johnson escreve: "'Eles acreditam na existência de um Deus todo-poderoso. pastor protestante e professor.§. 26. assim admitem a existência de muitos deuses como intermediários e a esses chamam de o r i ~ á s " . iorubá.Richard F.Rev. Os nativos dizem que ele passa os seus dias em completa indolência e descanso. Moulero.Rev. Deus o qum assim. francês. inglês. missionário batista. Samuel Crowther. Bowen..Rev. francês.P. iorubá (nagô). oferecem numerosas e inteligentes hipóteses basea- das em etimologias. 1910 . inglês. Ele despreza suas homenagens e por isso todos os seus esforços devem ser dirigidos para tornar os orixás~ a u o r á v e i s . Lucas.

Baudin. onisciente. que afirma terem os iorubás uma clara concepção de um Deus supremo e depois de uma sutil e talvez muito engenhosa argumentação declara que a origem das idéias sublimes sobre Olorum deve ser buscada no Egito. Ele é um deus da natureza. Ele toma então o partido de Farrow. Ele não é nenhum sentido onipotente. mas não diz quem é Erê. Crowther define este nome como significando "Deus todo- poderoso". possui atributos muito altos. Ellis pensa que os nativos vêem nele o firmamento deificado. Dennett. Leo Frobenius possui uma opinião oposta: "Para prepará-los para admitir o Deus cristão. o assimila a Jacutá. O Rev. Ele enumera certos nomes e epítetos dados a Olorum que mencionarei depois e termina por afirmar que as idéias sublimes que esses nomes implicam são evidên- cia contra a possibilidade de terem eles sido concebidos pelo pensa- mento iorubá. J. o trovão. Ele diz com grande convicção que Olorum é conside- rado pelos iorubás como o Deus supremo. muito abstratos e refinados para ter sua origem na mente de um povo primitivo. Mas. com exceção de Idowu que coloca este nome em primeiro lugar. o céu sendo considerado como sólido e cobrindo a terra. Jarnes Johnson traduz como "o filho de Erê". o Deus supremo. o deus pessoal do céu deificado e controla os fenômenos associados com o telhado do mundo. os missionários dizem logo: 'Nosso Deus é O mesmo que o seu Olorum' ". bom. e que sua posição é única entre os objetos da crença deles e isto sem a influência do cristianismo. O quarto capitulo dá uma série de interpretações e possíveis traduções deste nome. Todos esses autores dão Olodumarê como um segundo nome do Deus supremo. possuindo um poder absoluto. Nisto ele é seguido por Burton. S. Todos esses autores concordam em dar o nome de Olorum ao Deus supremo e em traduzir o seu nome como "o dono do céu".justo. por sua vez. treze eram sacerdotes e apenas dois antropólogos. Farrow. Idowu escreveu um livro de 222 páginas sobre Olodumaré. benévolo e onipresente. Podemos notar de passagem que em dezoito autores.S. oferece duas interpretações para a primeira parte e quatro para a segunda. Analisando e dividindo o nome em dois. Farrow pensa que ambos esses autores são observadores superficiais. Bowen traduz o nome como "aquele que está sempre certo". Olumide Lucas acha que Olorum. . Johnson.

o altissimo. todas sublimes idéias que ele julga vindas do Egito.. senhor do alento. Este nome é traduzido por Idowu como dono do espírito. fiel. dono da terra e do céu. Ele é também chamado de Ogá-Ogô. Para Ellis. "o rei da glória". senhor da terra e do céu. superlativamente grande. Ele é c h m a d o ainda de Eledá.a chuva pára)". o senhor da glória. senhor da vida. Olore." O Deus supremo é também chamado Olodumaiê. Para o Abbé Bouche. Johnson. . Ellis. ele é o "ser que existe por si mesmo". diz que o termo significa "o que controla as chuvas (de dá . a que traduz como o venerável. mas farrow diz que o título não é bastante digno para Olorum desde que pode ser dado a outro orixá. que julga que o Deus supremo deve ser chamado Alaye. ogá . Um que é supremo. por Bowen e pelo Abbé Bouche. O nome de Aiaiyê (Eniti oni Aiye). em qualquer lugar ou templo. que para Bowen é "o glorioso que está no alto". o misericordioso.. Lucas o qualifica também como Adakedajo. Para Crowther.uma pessoa de distinção. palavra que todos os autores concordam em traduzir como "criador" ou "dono da criação". Farrow e Lucas também concordam em chamá-lo de Elemi. o senhor no resplendor. ele é provavelmente "o que supre os rios". excelente de atributos. com a exceção de Elis que sempre mostrando singularidade. Esta opinião é seguida por Lucas. Ele é chamado ainda de Oluwá. Alanu. embora seja dificil saber-se porque.louvação maravi- lhosa. Para Lucas. constante. Para Idowu. o benfazejo. o juiz ativo e silencio- so.em lugar de escolher entre elas. incomparável e inultrapassável em majestade. estável. senhor da vida (e não do mundo). ogô . o Senhor. como dado por J. "O nome de Olodumaré sempre trouxe consigo a idéia de Um com quem o homem pode entrar em entendimento ou comunhão. Para Ellis. Só Ellis o chama de Olowo. ou Oluwa Aiye. o autor decide aceitá-las todas apesar do fato de os tons nem sempre se ajustarem exatamente. é também comentado por Farrow. Para o Abbé Bouche. nome que originou uma série de traduções por nossos vários autores. imutável. ele é "o senhor da boa terra".

p. Mais particularmente. Uma fonte de dificuldade é sugerida pelo Padre Thomas Moulero. uma situação embaraçosa surge sempre entre o pesquisador e os informantes . no 4 . é chamada a mãe que salva. 30 Rev. p. Mas parece que adquiriu seu uso corrente através d o impacto dos cristãos e muçulmanos sobre o pensamento iorubá: é o nome mais usado em obras evangelísticas e na l i t e r a t ~ r a " . 272. Mesmo quando o informante não tenta distorcer os fatos. 31 Op. como ela segura uma criança nos braços.. Cotonu. Olodumare. ~ ~ Na procura de uma definição para o Deus supremo. Londres. que parece tanto com a Santa Virgem. como em muitos outros campos de inquérito. com o objetivo final de as levar para a verdadeira religião. Lu Réconnaissance Afn'caine. p. o primeiro nagô-iorubá ordenado padre católico no Daomé. escreve: "Esta deusa. ~ ~ 29 "Le Catechisme expliqué". a tendên- cia frequentemente é estabelecer uma comparação entre a religião do pesquisador e a d a população em estudo. D a m o s fazer uma exceção para os Nagôs (Iorubiís). para Deus é que essas populações se entregam apenas ao culto dos fetiches e não conhecem Deus. 1925. se o pesquisador é um sacerdote. As conseqüências são aquelas sugeridas por Frobenius: "Nosso Deus é o mesmo que Olorum". O informan- te. Outro exem- plo desta situação podemos encontrar no livro de Abbé Bouche. ela salvou a h ~ m a n i d a d e " . ou sem explicação. Idowu. mais ligeiro d o que se espera. distorcendo dessa maneira o alvo do exercício e deixando significados essenciais permanecerem sem expressão .situação que qualquer pessoa que tenha trabalhado "no campo" conhece bem. 1962.. E. 37. ele tenta se exprimir de uma maneira com- preensível para o investigador. aprende o estilo d o pensamento do pesquisador. Godin Yoruba Belief. e as respostas que dá muito frequentemente correspon- dem às preferências deste último. cil. que escreve: A razão porque os Fons e os Guns (Daomeanos)possuem tantos nome. Dificuldades da investigação e fontes possíveis de contradições É muito dificil extrair uma conclusão de tantas e tão diversas opiniões sobre a concepção de um Deus supremo residindo no céu..B. . que descrevendo o orixá Iyagba. adquiriram um conhecimento de Deus que se aproxima da noçãof2losd~cae Idowu sustenta essa idéia quando escreve: "O nome de Olorum é o único usado comumente na linguagem popular (para o Deus supre- mo). que pela influência dos mupdmanos. 4.

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p. terra. declarou Gedegbe a ~ a u ~ o iP. enquanto muitos vivem até uma idade muito a v a n ~ a d a " E. d d . Este título originariamente pertencia a Olodumarê. "o cetro". Neste caso sign$ca zcm atributo concedido de suprema autoridade para falar e agir e ser implicitamente obedecido. P. nem moral nem perverso. de outro modo as pessoas não voltariam tão depressa. símbolo da autoridade: O Orixá(1á) é também chamado de Abalad. Mas nossa tradição oral diz que quando Orixalá estava descendo para o mundo. 72. à de orenda entre os iroqueses. vida. mas ele restringe seu significado ao de cetro. Este odu encerra axé.42 37 Op. e ara araiye é a humanidade. 1926. p. nem puro nem impuro. 105. e a religião dos orixás e d o axé. A noção de axé entre os iorubás pode ser comparada à de mana.39 Axé . ~mesmo ~ o Rev. inglesa. A mesma oposição existe entre uma religião de salvação baseada na explicação do pecado original e dirigida para a preparação de uma boa morte. ~ ~ Talbot cita outro informante da região que diz: "A vida no céu não pode ser agradáve. à de deng entre os banar d o Laos. não é bom nem mau. Tal sacerdote é encarregado de tomar conta de axé. Londres. p.. 42 "Esquisse d'une théorie d e Ia Magien. . 11. c i t . à de wakun entre os sioux de Dakota. o poder vital de que falaremos mais adiante. O que ele lhe deu se chama odu. cit.Année Sociologique. E axé é o poder vital. * O Op. "A vida na terra é melhor do que a vida no além". o título que indica suas funções. estudados por Codrington. p. as pessoas vivas. 402. 268. 1902-1903. mas muito mais sombria".Arnaury l . é ialaxé ou babalaxé. Olodumarê investiu-o de um de s e w atributos para prttpará-10 para seu trabalho de criaçM e ordenaçáo dos complaentos da terra. "o proponente que porta o cetro".todos referidos por Durkheim41 e por Hubert e Maus. 1915. mãe ou pai-de-santo. cit. 39 Op..os mortos. não mais do que a energia elétrica ou nuclear. t. às vezes até no ano seguinte. 38 The PeopLes of Southern Nigha. à de manitou entre os algonquinos. entre os melanésios. trad. enquanto que azye significa mundo.poder vital O título real de um sacerdote de orixá. 41 The Elemataiy F o m of the Religiour Life. Londres. ou à de hasina em Madagascar . Idowu concorda de chamar a força do orixá de axé. a energia.40 Axé. uma religião de exaltação voltada para a vida e sua continuidade. Baudin escreve: "Os pretos acreditam que a terra dos mortos é semelhante à que nós vivemos. . de mantê-lo ativo. a grande força de todas as coisas.

Não é um poder definido nem definível.teoria que recebeu o nome de pré-animismo. sem nenhum qualificativo ou determinação de qualquer espécie. podemos escrever que os iorubás não viram o axé e não podem pretender representá-lo.embora não a seu aspecto desenfreado ou descontrolado. Citando as palavras de Durkheim e aplicando-as à noção de axé. num sentido absoluto. os segredos que lhes dão poder sobre o orixá. controlada. Periodicamente. ossos de animais etc. Este último foi capaz de estabelecer o controle sobre a força natural. e dirigia seu poder destrutivo sobre seus inimigos. e que foi mais tarde deificado. Para conseguir este fim. Nenhuma enumeração pode exaurir esta idéia infinitamente complexa. todo o poder secreto. ou age ou se move. zelador do axé. Este transmite. é que se fazem sacrifícios e oferendas ao aspecto controlado da força como se fora necessário manter a potencialidade do axé. Os vários poderes divinos são apenas suas manifestações e perso- nificações particulares: cada um deles é este poder visto sob um de seus inumeráveis aspectos. O axé das forças da natureza é parte do orixá. porque o culto dos orixás é dirigido às forças da natureza . e criar um laço de interpendência com o qual atraía para si mesmo e sua gente a ação benéfica do axé. Outro elo é constituído por um ser humano que viveu na terra nos dias remotos. a parte que forma um elo nas relações da humanidade com o indefinível. Toda vida é axé como axé é tudo que exibe poder. a parte que é disciplinada. ele- mentos que entram em sua constituição mística. terra. Tampouco os deuses são os únicos seres animados desse poder: o axé é o princípio de tudo que vive. definir por determinados atributos e características. de geração a geração. acalmada. toda a divindade. Encerra o axé todo o misté- rio. conhecidos como axé. o poder do axé do orixá é revificado com banhos de infusões das mesmas variedades de folhas que foram usadas pela . seja em ação ou nos ventos ou na direção das nuvens. folhas. ou na passiva resistência como a das pedras na beira dos caminhos. Roger Bastide mostra como a publicação do livro de Codrington deu origem à teoria que sustenta a prioridade das forças impessoais mágico-religiosas sobre os espíritos . são guardados pelos descen- dentes do primeiro alaxé. palavras coercitivas pronunciadas ao tempo de estabelecimento do culto. Estes objetos. O orixá é apenas uma parte de tais forças. Nem o podem tampouco. é o Poder ele próprio.

a quem ele possui durante as cerimônias realizadas em sua honra. adexu orixú. . Há o axé das plantas e o das folhas em que elas crescem. Ser incompreensível. O sentimento quase universal entre os pretos corresjmnde ao ponto de vista de muitospensadores. o simples nome de plantas e animais é axé. admitem tudo exceto o Criador. na M'angele. ou elegum orixá. na região de Tchetti e Deumé. Numa civilização oral em que a própria palavra é axé. preços e recitação de salvas rituais. perto da fronteira Togo- Daomé. 1864. n z ~ mfaé semítica que se tornou o credo da Europa moderna. ele só pode manifestar sua presença através de um ser humano chamado iaorixá.F. (Aqui devemos lembrar que Anagô é também o nome dado pelos daomeanos aos iorubás e que eles dizem que iorubá é o nome dado pelos hauçás aos anagôs). Burton. A idéia d e axé. até enlão. 11. via de regra. possuíam apenas o culto dos ancestrais e o culto do vodun Aizan. com libações d e sangue de certos animais. nos dá uma melhor com- preensão d o comportamento iorubá diante do Deus supremo do que a racionalização infantil de um "ocioso rei negro quase sempre adormecido". A Mission to Gelele. o adexu deve aprender a se compor- tar como o antepassado morto. que consideram D m como a causa das causas e a fonte da lei mais do que u m fato pessoal e local.uma peculiaridade da raça ariana. p. Existe o axé vital no sangue dos animais sacrificados. Durante sua iniciação. como algo que não se pode definir nem repre- sentar. e consequentemente ele nem é temido nem adorado. se aproxima de perto da idéia do filósofo. tanto antigos como modernos. o Deus supremo e julgado muito alto para o baixo nível da humanidade. Como o orixá é imaterial. com oferendas. t. E durante a primeira metade do século dezoito. Tal sentimento pelo menos salvou o africano do antropomorfismo . restabelecendo dessa maneira o elo perdido entre a humanidade e a força natural. 43 R. Dessa forma os dois extremos se tocam. a mãe do rei Tegbessu importou essa doutrina anagô para Abomé. e como o próprio imperscrutável. espírito da terra.primeira vez no culto. Esta forma não antropomórfica de teísmo pode ser encontrada no país Anagô. 88. Os daomeanos. Londres. A noção de Deus supremo considerado como uma pura força é sugerida por Burton num relato do tempo que passou em Abeokuta e no Daomé: Os africanos. O ax6 possui uma multiplicidade de formas. King of Dahomq. cuja hostilidade para com u m tdsmo puro persiste até nos dias atuais. e tão radical é a identidade da crença que a divindade dos se está dissociada de s e m símbolos físicos.

só o epíteto d e alabalaxé e o costume de axexé permanecem para sugerir a posição antiga d o axé. Diz-se que é parte d o poder (axé) de Olodumarê que se guarda em casa. . podemos ainda lembrar que os anagô foram separados do resto dos nagô- iorubás desde os começos do século XVII . No país iorubá. que entre os iorubás foi de há muito substituído pela idéia influen- ciada pelos muçulmanos e cristãos .separados. orixá torna-se lissá e axé. vá. Segurola. é o culto d o axé iorubá. Dictionnaire Fon-Français. 44 Rev. que é colocada ao lado do "assen" d o culto dos ancestrais. E também para su- pormos que é o mesmo culto do axé mantido cuidadosamente na sua forma original. podemos sugerir que sé é a deformação de axé. Cotonu. numa forma exatamente similar. Irôco torna-se Lôco.44 Maupoil escreve: "Todos recebem uma parte do grande Sé. o ser supremo dos anagôs. (Ver aqui a opinião do padre Moulero citada acima). anjo d e guarda. O Deus supremo é conhecido entre os anagôs pelo nome ?e Sé. o sé do indivíduo é representado por um pequeno pedaço de barro.P. op. Holi. d e forma cônica com uma vaga aparência humana. Para os que se inclinam para reconstruções históricas. desde antes d o tempo em que as influências islâmicas e cristãs se fizeram sentir na região. A chiante "s" torna-se a sibilante "s": como no primeiro exemplo dado. um povo em minoria. Daí termos um segundo fundamento para suspeitar que o culto de Sé.Ogum torna-se Gum. d o mesmo modo que lílssá dos daomeanos é uma deformação do iorubá orixá. 400. Para as pessoas inclinadas a provas lingüísticas. d. 1963. Du.de Olorum. pode ter guardado a noção de axé como o ser supremo.. Odu.p. 45 Maupoil. cercado por comunida- des estrangeiras geralmente se prende muito fortemente às suas tradições para melhor proteger sua identidade ameaçada. Ahori. note-se. que é feito quando um homem muito velho ou muito impor- tante morre deixando muitos filhos e netos. princípio vital. há o axexé ou ixexé. No próprio país iorubá. isolado d o país iorubá pela inva- são de povos vindos de AladTá para a terra que devia tornar-se o reino d o Daomé. Deus. Segurola n o seu dicionário como: "Parte poderosa e essencial d o ser humano. Deus é o total de todos os sé".Fá. destino. fado". Ora. A consoante "r" torna-se "l".45 No Daomé. sé. Este pequeno grupo de anagôs. A passagem de uma palavra de uma língua para outra geralmente implica na elisão da primeira vogal . cuja definição é dada por R. providência.P.