FORMAS DE GOVERNO

1) CLASSIFICAÇÕES ANTIGAS E MODERNAS

1.1) Platão (Arístocles)

Bibliografia: l in a r e s q u in t a n a , Segundo V. Sistemas cie partidos y sistemas políticos,
Buenos Aires, Plus Ultra, 1976. p l a t Ão . La República, Madrid, Centro de Estúdios
Constitucionales, 1981, v. I; e Las leyes, Madrid, Centro de Estúdios Constituciona-
les, v. I. r o b in , Léon. Platão, trad. Adolfo Casais Monteiro, Lisboa, Inquérito.

É imperioso distinguir entre form a de Estado, form a de governo e regime de
governo . A expressão form a de Estado indica a maior ou menor irradiação do po­
der político. Se este é centralizado ou centrípeto, temos o Estado unitário, caracte­
rizado pela centralização político-adm inistrativa; se é descentralizado ou centrífu­
go, teremos o Estado federal, de nítida descentralização político-administrativa. Em
face disso, as expressões Estado unitário e Estado federal indicam formas de Esta­
do . Já a expressão form a de governo revela se o poder é exercido temporária ou vi-
taliciamente. No primeiro caso, teremos como forma de governo a República; no
segundo, a M onarquia. Ora, em cada form a de governo democrática desenvolve-se
um relacionamento peculiar entre as funções executiva c legislativa. Tal relaciona­
mento é chamado regime de governo, dc modo que esta expressão afere qual ór­
gão exerce a função governamental.
Na série de classificações de formas de governo que ora iniciamos, ocorre-nos
a sugestiva tirada do poeta inglês Percy B. Shelley (1792-1822): “Somos todos gre­
gos”. Quis este famoso literato enfatizar a importância da herança cultural helêni-

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C. que revela seu pensamento definitivo. a aceitar as ideias que expôs no Livro Quinto de sua obra D a república. Na timo­ cracia surge agudo conflito entre o bem e o mal. degenera em oligarquia. então. Da aristocracia (de aristoi. Assim: timocracia (de tim os. considerados perigosos para a nova ordem. pertencia a uma famí­ lia aristocrática. as Constituições políticas abundam e as boas leis são desprezadas. poder). pelo sangue materno. A timocracia. honra.) e mestre de Aristóteles (384-322 a. democracia (dc demos. povo. oligarquia (de oligoi.). forma que considera a melhor de todas. Platão morreu em 347 a. literárias ou esportivas. por sua vez. forma em que os ricos são expulsos do poder. Platão idealiza um processo dinâmico de rodízio das formas de governo. partem. poucos.94 Teoria Geral do Estado ca. mesclando-se uma sã filosofia dc vida com a sede crescente de honras e bens materiais. e kratos.C. no que são impedidos pelos militares. sendo. Em homenagem a Academus. Todavia. Denis o ex­ pulsou da cidade.do qual tornou-se grande conhecedor . ex­ pressão que passou a designar as sociedades científicas.C. evocando o termo om oplata ). o Antigo. descrê da organização política tradicional de sua pátria. e kratos. de modo que logo a desordem campeia irrefreada. às suas expensas. e kratos . Tal situação insustentável vem abai­ xo quando se instala a democracia.C. Platão. Em 404 a.C. com a tomada de Atenas por Lisandro. sendo o dinheiro. favorecendo a ascensão política de Platão. a escola platônica foi denominada Academia.. colocação à qual aderimos sem hesitar. entretanto. Por isso. A corrupção cam­ peia. começaremos este tópico com um panorama das ideias de Platão (429-347 a. a aristocracia chega ao poder. Incomodado. Dedica-se à filosofia. aos 82 anos dc idade. poder) ou autocracia militar. conhecida como o parque do herói Academus. outras formas. numa seqüência inevitável.. Surge a timocracia quando indivíduos de condição social inferior enriquecem e tentam chegar ao poder pela astúcia. uma mino­ ria abastada impõe sua arrogância a toda a sociedade. cujo verdadeiro nome era Arístocles (o apelido derivou do fato de este filósofo ter as espáduas largas. Em 387 a. com a conseqüente ascensão da massa. enaltecendo o valor dos filó­ sofos e criticando a frivolidade e a devassidão da corte. quando. tentou persuadir o tirano Denis. numa bela propriedade arborizada e regada por nascentes. . também ocorrem graves disfun- ções sociais. melhores. viajando pelo Egito . pois além dos ricos são banidos os sábios. em meio à qual se eleva­ va um ginásio. No livro D a república. parente do grande legislador Sólon.C..). Tudo isso leva à tirania. nos arredores dc Ate­ nas. fundado num determinismo inafastável. pois a liberdade tornada licenciosa só pode levar à escravidão. que passam a exercer o poder oprimindo aqueles a quem deveriam proteção.e pela Mag­ na Grécia. poder) e tirania . e arche. desiludido com a condena­ ção de Sócrates. a única chave para as portas da ascensão social e política. discípulo de Sócrates (470-399 a. implantando-se a mais grosseira mediocridade. gover­ no). Em Siracusa. quando concluía sua obra As leis. Platão fundou sua própria escola. secunda­ do pela corrupção.

Política. e arche. Aristóteles correspondeu por inteiro à expectativa do pai. seu mestre Platão. teria dito: “Hoje a inteligência faltou!”. Depois de estudar durante vinte anos com Platão. para tanto. sendo cognominado o Grande ou Alexandre Mag­ no. fi­ lho de um médico abastado. fundamentalmente. s. Las luchas de clases en el mundo grie- go antiguo. con­ terrâneo de Filipe e do filho deste. Centro de Estúdios Constitucionales. Buenos Aires. Quanto ao número de pessoas a exercer o poder (critério numérico). numa combinação harmoniosa de princípios opos­ tos. dois critérios: o critério numérico. com o qual classificou tais formas consoante o número de indivíduos que governam. que num dia em que faltou à aula. fundadas em princípios opostos. . Platão se antecipa a muitas classificações posteriores. até. Madrid. levando em conta o intuito de o governante ou gover­ nantes administrarem visando ao interesse geral ou ao benefício pessoal. e La política (passi scelti e commentati da Giuseppe Saitta). Aristóteles teve oportunidade de visitar e estudar cerca de 150 Constituições de po­ vos diversos. e o critério moral. chamado monarquia (de monos. The political thought of Plato and Aristotle. intitulada Política. Reunindo este valioso material em obra notável.C. Segundo V. em que haveria. um equilíbrio de forças políticas antagônicas. senhor de vasto império. era natural da Macedônia. de. 1947. e a democracia à obe­ diência. Cada uma dessas duas formas de governo só subsiste se faz concessões à outra: a monarquia à liberdade. 1983. Barcelona. Nicômaco.d. discípulo de Platão. que se tornaria. graças às suas conquistas mi­ litares. New York. Editorial Crítica. M. l in a r e s q u in t a n a . porém igualmente le­ gítimos: a autoridade e a liberdade. não se configuram nem poder. 1. ste. Bologna. ao observar os alunos presen­ tes e constatar a ausência de Aristóteles. formulou sua célebre classificação das formas de governo. adotando. Plus Ultra. pelo qual classificou tais formas em puras e impuras. 1988. foi encarregado por Filipe da Macedônia de educar Alexandre. barker. 6 Formas de governo 95 Na obra As leis. Acompanhando seu discípulo nas expedições que caracterizaram a vida deste. Em As leis. Então afirma existirem. temos o governo de um apenas. porque mais maduro. Platão mostra-se mais realista.2) Aristóteles Bibliografia: A r i s t ó t e l e s . nem liberdade excessivos. Zanichelli. duas formas de governo: a monarquia c a democracia. 1976. E.). Sistemas de partidos y sistemas políticos. ao preconizar uma forma mis­ ta de governo. mas aquele que mais se coadune com a praxe política. um. Aristóteles (384-322 a. que soube dar ao filho refinada formação intelectual. já não pretende descrever um Estado ideal. c r o ix . E. Alexandre Magno. governo). Assim. Era um típico aristocrata. Dover Publications. G. conta-se.

quando é exercido no próprio interesse do governante. e kra- tos. termo que. poucos. Finalmente. visando tão somente seu próprio be­ nefício. governo).96 Teoria Geral do Estado quando o poder é exercido no interesse geral. quando o poder é exercido por muitos no interesse de todos. surge a oligarquia (de oligoi. sendo as massas. e kratos. Sendo o poder exercido por uma minoria no interesse geral. as multidões desorganizadas. poder). cujas formas corrompidas são a democracia (de demos. povo. porem. poder). situação gravíssima em que todos se julgam aptos a governar. quando a minoria dominante se sustenta na força do dinheiro ou na hereditariedade. forma pura . em que os pobres governam no próprio interesse. graças a uma empolgante e astuta oratória. podemos esquematizar as formas de governo aristotéli- cas assim: Critério numérico (Leva-se em conta o número dc pessoas que governam) Monarquia: governo de um Aristocracia: governo de poucos Politeia: governo de muitos Tirania: governo de um Oligarquia: governo de poucos Democracia: governo de muitos Demagogia: governo de todos Critério moral (Leva-se cm conta a intenção dos que governam) • Formas puras Monarquia: governo de um no interesse geral Aristocracia: governo de poucos no interesse geral Politeia: governo de muitos no interesse geral • Formas impuras Tirania: governo de um no interesse pessoal Oligarquia: governo de poucos no próprio interesse Democracia: governo de muitos no próprio interesse Demagogia: governo de todos. e agost orador). ou a demagogia (de demos. forma impura. melhores. cor­ rupção da aristocracia. Em face do exposto. em que predominam as paixões e a desordem . sur­ ge a politeia . povo. portanto. ou tirania. e arche. levadas à deriva por aven­ tureiros inescrupulosos. como se vê. tem sentido original bem diferente do atual. temos a aristo­ cracia (de aristoi.

Muntaner. p o l íb io de m e g a l ó p o l is . G. . Por outro lado. Seu trabalho. Livro III. Ele afirma que cada Estado deve adotar a forma de governo que mais se coa­ dune com suas peculiaridades. Natural da Arcádia. porque nos regimes oli- gárquicos a revolução pode operar contra os próprios governantes ou contra o povo. na teoria. Livro VIII. cit. lançou-se à empre­ sa de escrever a história deste período da civilização romana. 1976. Sc. na prática. Mareei. Políbio (205-125 a. foi conduzido à condição de escravo após o conflito. a monarquia é.3) Políbio de M egalópolis Bibliografia: l in a r e s q u in t a n a . acha-se estribado em séria e copiosa documentação. c r o ix . Impressionado com a organização da República romana. diretamente. 1. As doutrinas po­ líticas. 6 Formas de governo 97 Aristóteles não propende. Buenos Aires. na democracia. Embora bem-nascido e exercesse importante papel durante a guerra entre Roma e a Macedônia (171 a 168 a. Em sua obra (da qual. 1973. E. viajou e escreveu livremente. identificando na sadia concepção e organização da ordem jurídico-política a razão maior de seu sucesso. ste. Historia universal duran­ te Ia república romana. Presença. embora afetado em alguns pontos por naturais deficiências.). restaram os primeiros cinco li­ vros e anotações dos Livros I e XIII) tentou explicar como Roma. porque a virtude e o poder raramente andam juntos. a forma ideal de governo. prélot. Sistemas de partidos y sistemas políticos. em menos de duas gerações. obtendo a proteção dos Cipiões. Iberia. Todavia. Lisboa. Barcelona. M . até porque a melhor forma de governo é aquela que tem os melhores governantes (Política . Capítulo V). v. a subversão atua apenas contra a minoria oli- gárquica. a monarquia é mais suscetí­ vel de corrupção. Capítulo I). sendo-lhe conferida a administração da Acaia. 1988. La Incha de clases en el mundo griego antiguo. enquanto a do tirano é o prazer. é também a mais estável de todas estas formas de governo ( Política . num total de quarenta.) foi um historiador grego que recebeu profunda influência das instituições romanas de seu tempo. ao passo que. Segundo V.C. ao comandar a cavalaria da liga aqueia. de. Barcelona. para esta ou aquela forma pura de go­ verno. Um povo jamais se volta contra si próprio. seu talento logo foi percebido nos altos círculos dc Roma e. por um lado. mais precisamente de Megalópolis. Plus Ultra. e a politeia.C. Editorial Crítica. pois a aspiração maior do rei é a virtude. forma cm que predomina a classe média e que tem mais afinidades com a democracia do que com a oligarquia. a própria democracia é mais estável que a oligarquia.. conquistou o mundo conhecido na época. 1.