Gangaji e o compromisso com a Verdade

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essa mestra implacável: o que você
realmente realmente busca?
Publicado em 1 de abril de 2014 por Nando Pereira

Algumas pessoas às vezes me perguntam, “mas o que é a Verdade?“, como se
estivessem duvidando da existência de uma ou questionando algum tipo de fanatismo
religioso ou filosófico (do tipo “não existe uma só verdade”). Uma resposta sintética é
essa que a mestra Gangaji, ou Antoinette Roberson Varner, discípula do mestre
indiano Hariwansh Lal Poonja (1910-1997), escreve no artigo “O Coração Pode
Suportar Tudo” (The Heart Can Bear It All), publicado originalmente em inglês no site
Awaken Teachers há duas semanas e traduzido para o português na íntegra abaixo. A
verdade é tudo que não é mentira, oras, e se quisermos realmente buscar a verdade do
que é a vida, do que é o mundo, de quem somos nós, que sofrimento é esse, que
mistério é isso, então a busca da resposta não pode tolerar mentiras, ou então não se
saberá resposta nenhuma. E de mentiras, como diz ela logo na primeira frase do artigo,
estamos cheios.

O que propõe Gangaji é um exame frontal, destemido e completo do que quer que a
verdade seja e exija para ser encontrada, e isso inclui todos os nossos medos e nossos
desejos subliminares. Começando pelos desejos subliminares, implícitos, e verdadeiros:
“Primeiro você tem que encontrar a verdade sobre o que é que é realmente buscado. O
que você realmente quer? Liberdade e iluminação? Realmente? Fale a verdade. Se
você tiver liberdade e iluminação, o que ela vai te dar?“. A partir daí a cebola
começa a ser descascada até o abismo, num texto que é forte e que talvez transmita um
certo temor a muitas pessoas, pelo menos as que buscam apenas um sentido de
felicidade ou uma calma ante a confusão do mundo, mas para aqueles que estão
seriamente metidos no caminho espiritual, então esse enfrentamento é inevitável.

Duas notas sobre expressões contidas no texto. A primeira é sobre “sermos
completamente inúteis“. Sinto que essa é uma afirmação bastante forte e como é feita
por uma mestra, pode ser tomada com certo grau de verdade e angústia, e, se assim for,
o que deixo como observação é, antes de tomar isso como verdade, adotar o
questionamento interior, que é mais importante, e então, se isso vier a se confirmar no
decorrer dos questionamentos, tudo bem. A segunda é sobre o título, “o coração pode
suportar tudo“, que está bem colocado no texto, mas como vivemos numa cultura
acostumada ao auto-flagelo sentimental, não custa ressaltar que não tem nada a ver com
isso, tem a ver sim com o coração como centro da consciência, e como ele pode
entender a verdade, pode suportar as respostas e a revelação das mentiras, sem graves
problemas.

O texto segue abaixo.

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“O CORAÇÃO PODE SUPORTAR TUDO”
Por Gangaji (tradução: Nando Pereira)

Como humanos fomos treinados para mentir. Mentir é uma grande parte da
sobrevivência. Ser capaz de dizer a verdade é arriscar perder tudo.

Quando você faz a escolha de se comprometer com a verdade, então a verdade é uma
mestra implacável. Esse compromisso vai expor cada aspecto que se esconde e cada
justificativa de se esconder.

Nesse compromisso com a descoberta da completa verdade, tem que haver um exame
implacável de nossas mentiras. O que tem que ser enfrentado é o que você pensa que a
verdade sobre você mesmo é, e como temos mentido para nós mesmos para encobri-la.
Ao descobrir o que é que estamos negando, pode existir um espaço – um espaço que é o
conduto para descobrir a verdade mais profunda.

O que está mais frequentemente sendo evitado é a experiência da nossa própria
inutilidade. A maioria das pessoas suspeita que elas são as piores coisas imagináveis,
uma criatura da imperfeição, da feiúra e da estupidez. Mesmo se houver o pensamento
ou a experiência de si mesmo como uma criatura divina com um conhecimento superior
e com plenitude de ser, por trás disso não há nada além de uma alma perdida, retorcida e
irremediável flutuando no espaço, separada de Deus.

Se você parar lá – Eu sou essa coisa crua, sem valor e não amável – parece inicialmente
intolerável. Começamos a mentir em cima disso, ou aprendemos afirmações, ou então
fazemos uma maquiagem… qualquer coisa que não seja encarar a inutilidade. Mas só
depois que aquela aparente inutilidade essencial seja encontrada e experimentada na sua
totalidade, você será capaz de conhecer a absoluta verdade de quem você é.

Primeiro você tem que encontrar a verdade sobre o que é que é realmente buscado. O
que você realmente quer? Liberdade e iluminação? Realmente? Fale a verdade. Se você
tiver liberdade e iluminação, o que ela vai te dar? Talvez a resposta seja, “Vai me dar
respeito, ou amabilidade, ou fama, ou felicidade eterna, ou poder, ou alívio do
sofrimento do mundo”. Ao dizer a verdade você pode descobrir o que é realmente
desejado. Você descobre o que você quer que a iluminação lhe proporcione. Geralmente
não é uma verdade bonita, mas é necessário revelá-la pra você mesmo.

Isso não é o fim. Há mais. Se você estiver disposto a dizer a verdade sobre que fama,
que amabilidade, ou força você vai obter, você descobre o desejo por trás disso: pode
ser algo como “todos irão me amar” ou “as pessoas finalmente verão quem eu sou e me
darão o que eu quero”. E se você disser a verdade sobre o que isso vai lhe dar, então
você começa a chegar perto de qual é realmente o desejo essencial.

Você está disposto a dizer toda a verdade até o fundo das profundezas? Está disposto a
desnudar o que sua vida realmente é, onde sua atenção realmente está, em nome da
iluminação ou da paz? Está disposto a ser honesto e ver o mecanismo que está
funcionando por baixo de nossas orações por iluminação e paz? Essa é a oportunidade
para encontrar o abismo; o enorme e mais evitado buraco da vida, a intimação que você
seja pior do que inútil, que você seja realmente nada.
Nesse ponto, susrge uma forte tentação de fugir para a superfície emocional. Pode
aparecer um breve reconhecimento, e então uma volta à segurança da mentira. A
mentira é mais confortável. Tem mais esperança, mais promessa. Imaginamos que se
formos nada nós não existimos, e isso é horripilante. Então nós preferimos existir como
algo inútil que talvez um dia possa desenvolver valor do que existir como nada.

Se você for sincero na sua intenção de realmente saber a verdade, e se você estiver
disposto que esse conhecimento da verdade possa lhe dar nada além do que você mesmo
– nenhuma fama, nenhum reconhecimento, nenhuma felicidade, nenhuma isenção,
nenhum amor universal – se você quiser a verdade tanto assim, então você está disposto
a cair no abismo, a encontrar o abismo com sua atenção total, a encontrar a verdade que
você é nada.

O convite é apenas largar todas as mentiras. Soltar sua consciência sobre elas. Sinta o
queimor, a dor, o ardor, o horror, a ilusão, a mentira e a tentação de enganar com mais
algumas mentiras. “Meu Deus, sou pior do que tudo aquilo, pior que nada”. E lá está o
segredo, a grande revelação.

Encontrar o abismo é o círculo completo. É voltar pra casa, voltar para si mesmo. O
relato extraordinário de todos que encontraram o que o abismo traz de volta para você é
que o nada que você é é consciência desperto, viva. Consciência desperta, viva e imersa
em amor. Ser nenhuma-coisa (no-thingness) é tudo que você tem procurado para se
definir como algo que vale algo, ou algo inútil. Tudo que você vinha procurando está
aqui na profundeza do seu ser, debaixo de todas as mentiras. É o que tem sido procurado
e escapado todo o tempo! É a simplicidade e a pureza de quem você, aqui agora e
sempre.

A espaçosidade que é a consciência, o coração daquela espaçosidade que é sua
verdadeira natureza, tem a capacidade de suportar qualquer idéia, conceito o sentimento
que você pensa que você é. Cada limitação. Cada dimensão do inferno. Cada dimensão
do paraíso. Tudo. O coração pode suportar tudo. Não importa qual seja sua história, não
importa que circunstâncias você esteja, não importa quantas mentiras você se contou o
encobriu, neste momento você tem a capacidade de voltar a si mesmo e descobrir a
completa verdade do seu ser.