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Realidade & Fantasia

- Mundos que se tocam

Autor: Vinícius G. Ferreira

Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes -1 Co 1:27

Prólogo

Três dedos enrugados passeavam pela parede de frios blocos de pedra. A escuridão era densa. Voraz. Os olhos do Rei mal conseguiam ver a palma de sua mão colocada à sua frente. Tudo ali era vultoso e sombrio. No centro do salão, rente às paredes, objetos indistinguíveis modelavam-se de sombras, como se uma criança brincasse com argila. Finalmente aqueles dedos deram contra o interruptor de luz. Pressionaram-no e uma explosão uma luz fulminou pelo ambiente. Genocydo I olhou ao seu redor e viu gigantes de madeira rodeá-lo. Eram enormes prateleiras contendo toda a sorte de livros que se podia encontrar naquele reino e até mesmo fora dele. Adiante, ao centro do átrio bibliotecário havia uma minúscula escrivaninha ante as colossais estantes de livros, cuja matéria-prima era mogno vermelho escuro, finíssimo. Genocydo finalmente tirou a pressão do dedo do interruptor e caminhou para aquela escrivaninha. Arrastou uma cadeira acolchoada para junto dela e assentou-se. Por cima da escrivaninha havia uma pilha de três grossos livros e outro, não mais fino, separado da pilha. Genocydo apanhou o livro de cima da pilha, um livro de capa preta com letras douradas escritas Holy Bible, Bíblia Sagrada. Encarou a capa por certo tempo e depois, com o dedão sobre as páginas, passou-as rapidamente como fazem os jogadores numa mesa de jogo de cartas. ― Um Deus fabuloso, capaz de dar um filho unigênito por uma humanidade destruída. ― ele coçou o nariz e pigarreou ― Isto é muito fictício para que eu possa acreditar. Jogou de novo a Bíblia sobre a pilha de livros ― ela não ficou mais simétrica à pilha como estava antes ― e pegou o outro livro em cima da escrivaninha, aquele que estava separado. Procurou com as mãos um interruptor sobre a escrivaninha sem que, no entanto, usasse a visão. Clicou nele e uma luminária reverberou um foco de luz sobre o livro, onde na capa havia as iniciais M. K. e o nome Diário. Levantou a capa grossa e folheou o livro até quase no meio dele. Pegou uma pena ali próxima e enfiou seu bico num tubinho de tinta negra, começando a escrever logo em seguida.

Daily,

Dia 4221 de meu Reinado. Estou mais próximo da apoteose do que nunca... São três garotos. Mancebos ainda, mas prestes a enfrentar todo um mundo contra eles. Como será que reagirão? Ah, eles vivem uma vida tão pacata. Um desperdício tremendo. Se eles soubessem quanto poder os recônditos das almas deles guardam! É uma pena ter que sacrificá-los, mas é para um bem maior. Minha deificação.

Prévios acontecimentos
Um pútrido cheiro de morte subia aos ares. Mário caminhava por entre as pilhas de corpos espalhados por uma terra árida e avançava sempre

rumo ao castelo à sua frente. Não estava muito longe. Já podia ver suas torres montadas tijolos sobre tijolos esgueirarem-se pelos céus avermelhados. Mais abaixo apareciam janelas espalhadas por todo ele e uma porta muito grandiosa, a qual era precedida de um belo arco em seu estilo mais gótico. Sentia um ódio muito grande. Um sentimento que queimava dentro dele e era de modo tão intenso que o chegava a controlar. Ele atravessou o vão de entrada, caminhou furtivamente pelos corredores do castelo e com muito cuidado passou por uma bela porta de madeira. Olhou odioso para o homem que estava adormecido numa cama dentro daquele cômodo. Tinha a katana em mãos. Levantou-a e a desceu como guilhotina voraz procurando por vida. Ele abriu os olhos. Virou-se para os lados e viu sua irmã que olhava diretamente para frente, vendo alguma coisa através da janela de um carro. Virou-se para frente e viu sua mãe e seu pai sentados nas poltronas dianteiras. Percebeu então que aquele não passava do mesmo pesadelo que tinha todas as noites desde quando sofreu o acidente. Virou-se para a janela lateral do carro. Não podia discernir muita coisa, pois o vidro daquela janela estava bastante embaçado e as gotas de chuva impossibilitavam ainda mais qualquer tipo de visão. Mas ainda assim ele era capaz de ver alguns borrões de luzes em que apareciam e fugiam de seu campo de visão. Ele estava tão concentrado naquele infinito movimento de pintura abstrata passando pela janela do carro, que foi preciso que Rubens, seu pai, chamasse-o três vezes para conseguir arrancar dele alguns minutos de atenção. ― Por que sempre que saímos de carro você passa o tempo todo olhando pra essa janela, admirando esta mesma paisagem? ― tentava puxar um diálogo com o filho enquanto malabaristicamente dirigia o carro. ― Sei lá. Fazendo isto me dá uma sensação estranha de liberdade meio que misturada com melancolia. Eu gosto disso, não sei por quê. Mário não percebe, mas sua irmã, ao seu lado no banco o olha naquele instante quase falando com as feições do rosto: “Às vezes tenho até medo dele quando ele fala essas coisas”. O carro estaciona. Mário tateia os bancos escuros do carro procurando por sua Bíblia enquanto Camilla desajeitadamente tenta sair do carro com seu guarda-chuva de modo que nenhuma gota venha a molhar e estragar sua maquiagem. Mário acha o livro, mas nem tem tempo de expressar satisfação com a descoberta, pois Camilla lá fora já reclamava de sua demora dizendo que não iria mais esperar por ele e que não estava nem

aí se ele não tinha sombrinha. Ele fez uma careta risonha para Camilla e desceu do carro acomodando-se debaixo do guarda-chuva. Aqueles momentos já haviam virado tradição para a família Gouveia. Em quase todos os domingos, assiduamente, eles paravam seus afazeres e se dirigiam para a cerimônia eclesiástica. Era assim desde que Mário nasceu e com aquela rotina, o jovem de 18 anos aprendeu a gostar de escutar a palavra de Deus e de transitá-la para o mundo real. Por mais difícil que isso parece aos olhos dos outros, para ele já era normal. Mário entrando no templo logo avista Suzane sentada no penúltimo banco da segunda fileira. Ela, sempre com seus longos cachos louros soltos, acena timidamente para o namorado e irradia um belo sorriso. Mário se senta naquele banco e minutos depois o culto se inicia. Naquela noite o pastor Cipriano, elegante como sempre, em um de seus ternos clássicos, discorreria sobre o assunto missões. As pessoas atentas escutaram quando ele começou: ― “Mas recebereis virtude do Espírito Santo, Deus há de vir sobre vós, e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até os confins da terra” Assim dizia Lucas na epístola sobre os atos dos apóstolos. Portanto, irmãos, não tenham vergonha de testemunhar em favor de Cristo, pois se fizerem assim, ele não terá vergonha de testemunhar sobre ti diante do Pai... As horas se vão. Mário já nem as via mais passar, pois estava muito interessado a cada palavra dita da pelo reverendo. Todavia não era assim que Suzane se sentia. Achava que aquelas horas e horas sentada naquele banco eram muito tediosas. Ia aos domingos somente para aproveitar o final de semana junto ao namorado, mesmo que ele não desse a mínima atenção para ela durante as pregações. Pelo menos, pensava ela, após a sessão poderia arrastá-lo para uma pizzaria, um pit dog ou qualquer vendinha de ponta de esquina para que pudesse desfrutar das carícias dele. Depois de quase 2 horas o culto se encerrou e a chuva já havia findado. Suzane puxa o namorado para junto de uma rodinha de jovens e com alguns recursos persuasivos convence a maioria deles a dar um passeio e aproveitar “aquele clima agradável e aquela linda noite”. Pelo menos assim ela se certificava de que Mário iria aceitar. Ele até aceita sem muita resistência. Achava que estava mesmo precisando sair e poderia usar aqueles momentos para espairecer e mudar de ares. Estava muito ligado aos livros e à faculdade.

Suzane e Mário acompanham um jovem casal e dois solteiros. Param na primeira pizzaria que vêem e pedem uma à moda da casa com duas garrafas de Coca-cola. Enquanto esperam, os casais tentam amenizar o frio em abraços e discretos beijos e os solteiros o fazem contando piadas e gargalhando alto. A noite se segue. Finalmente os pratos chegam, com alguma demora como já era de praxe nas mais diversas pizzarias. Eles comem, contam mais piadas, conversam sobre esoterismo (fantasmas, morto-vivos e vampiros) ― Mário sempre em sua postura opositora acerca da crença naquelas coisas ― e se despedem quando percebem que o sino da catedral anunciava a meia-noite. Mário acompanha Suzane até a casa dela que não ficava muito longe dali e chegando a hora da despedida a beija. Ela em resposta afetuosamente sussurra no ouvido dele: “Eu te amo”. Mário coloca a mão no bolso do casaco e de lá tira seu aparelho celular. Olha no relógio e este marcava 00h38min. Já era tarde e não era seguro para uma pessoa na idade dele ir sozinho para casa na tão violenta Goiânia em que ele morava. Na verdade ele nunca havia sofrido atentado algum naqueles 18 anos em que ele morava ali. Nem mesmo tinha medo algum de sofrer, pois tinha bastante confiança em si mesmo e imaginava que poderia lidar com qualquer tipo de pessoa. Mas achava melhor não preocupar seus pais, então, por isso, resolve chamar um moto-táxi. No instante em que seu dedo desce ao encontro da primeira tecla, uma vibração proveniente do celular balança sua mão. No display indicava: Pai. Mário atende. ― Não se preocupe pai. Já estou ligando para um... ― Ele interrompe assim que percebe a respiração ofegante do pai. ― Não é sobre isso meu filho. É outra coisa... Sua mãe pediu para que eu ligasse porque ela nem consegue falar de tão desesperada que ela tá. ― O que foi pai? O que aconteceu? Dentro de um quarto escuro com as portas trancadas Erick se divertia com mais um de seus sangrentos filmes de terror. Alguns gritos provindos do headphone em sua cabeça faziam a emoção inundar a mente dele. À medida que as cenas passavam e a bela protagonista aparecia, mesmo que toda mutilada, ele imaginava como seria se ela estivesse fazendo um filme pornográfico ao invés de um de terror. E com aquela pervertida idéia ficava louco à espera de uma cena de sexo que envolvesse ela e qualquer ator do filme.

Chegando a uma cena silenciosa ele percebe que um pequeno ruído ainda reincidia no quarto. Ficou intrigado com isso. Deu um pause no filme e silenciou-se a fim de identificar de onde vinha o ruído. Era um ruído estremecido que permanecia por alguns segundos depois se calava. E voltava a soar no momento seguinte. Percebendo que este vinha de sua esquerda, ele voltou-se para lá. Só então notou que era seu celular que vibrava em cima de sua cama. Desvencilhou-se do cobertor macio que o encobria e a partir de então sentiu um frio arrepiar-lhe os pelos de todo o corpo. Deu uma parada naquele momento para recompor-se e depois continuou. Pegou o telefone e olhou fixamente para o display tentando identificar aquelas letras que apareciam. Ele não conseguiu, mas decidiu atender. Dependendo da voz saberia de quem se tratava. Atendeu, porém ao invés de um “alô”, como o esperado, sua audição foi recepcionada com suspiros angustiados do outro lado da linha que alimentaram escabrosamente o monstro de sua curiosidade. ― Quem? ― averigua receoso diante das circunstâncias. ― Sou eu Mário. Sei que já está de madrugada e não seria a hora mais correta para te ligar, mas tenho que contar isso para você, afinal tem sido meu companheiro desde muito tempo. ― Contar o quê? Que aconteceu, Mário? ― Camilla. Minha irmãzinha. Foi levada por sequestradores. ― Falava numa voz trêmula. ― M-meu Deus!― aterrorizou-se. Um desconforto intermitente o atingiu como uma descarga elétrica. Foi pego de tal modo de surpresa que as palavras pareciam se atropelar na garganta dele e a mente dele falhar. Naquelas circunstâncias não havia nenhuma condolência que ele achasse suficientemente boa para dizer. ― Cara... Não tenho nem o que te dizer. Que notícia péssima... ― Tudo bem. Obrigado por sua compreensão. ― Erick notava que apesar da voz meio trêmula de Mário, ele não perdia o senso de educação ― Só lhe peço que não ligue para Suzane. Quero contar eu mesmo para ela, depois que eu próprio tenha digerido esta história. Preciso desligar agora. Tenha uma boa noite. ― Boa noite... Erick olha para novamente para o visor do aparelho celular enfim entendendo o que estava escrito: Mário - Ligação Estabelecida, todavia logo mudou para Ligação Finalizada. Com aquela notícia, aquele garoto enérgico e pervertido de outrora se moveu de imensa compaixão. Sabia o

quanto Mário gostava da irmã e quão difícil iria ser para ele sem a presença dela. Depois de tão grave notícia, a excitação com o filme se foi totalmente. Desligou o computador e foi deitar-se. Passou-se um bom tempo até que sua mente pudesse se acalmar e ele poder cair finalmente no sono. As horas se passaram severas tanto para Mário quanto para Erick no dia seguinte. Não era fácil aceitar que Camilla agora era mais uma nas estatísticas dos crimes de cidade grande. E o que aconteceria com ela nos próximos dias? E se algo acontecesse a ela o que seria de Mário e de seus pais? Uma nuvem sombria de pesar pairava sobre suas mentes, consumindo muito além da alegria, suas forças de vontade. Contudo o tenebroso véu da dúvida não encobria de todo a razão em Erick e principalmente em Mário. Havia ainda um lampejo de esperança. A pedido de Mário, Erick não telefonou a Suzane a fim de que não a preocupasse. Até aquele exato momento, se nenhuma outra pessoa tivesse ido deixá-la a par da situação, ela não sabia de nada. Levantou-se da cama pela terceira vez naquele dia e enxugou os olhos que apesar de não derramarem lágrimas estavam carregados. Foi até a cozinha para beber algo. Seus pés se arrastavam pelo assoalho como escravos maltratados implorando clemência enquanto caminhava ao seu destino. Desanimado olhou pela janela da cozinha e viu que as pessoas indiferentes lá fora levavam sua vida calmamente, rotineiramente. Imaginou naquele instante como Mário estaria. Normalmente, Erick àquela hora já teria ido para as ruas em busca de flertes, mas mesmo com a vontade gritando ele não o fazia por respeito a seu melhor amigo. Caminhou com seus dedos pela pia molhada e ficou a espera que algo novo acontecesse. Um ruído. Seu telefone vibra em cima da mesa de vidro da cozinha. Ele vai até ele, o recolhe e vê a chamada. Mário o ligava novamente. ― Alô, Mário? Algo novo sobre Camilla? ― Sim. Venha para minha casa e eu lhe darei mais detalhes. Acomodado sob a cabeceira de sua cama, Mário analisava uma carteira preta, feita de couro e visivelmente bela. Aquele era um objeto que havia encontrado hoje de manhã, quando tinha ido ao contêiner aguçar as memórias sobre sua irmã. Ele se lembrava de quando tocou aquela carteira pela primeira vez e a sensação que sentiu ao fazê-lo. Abriu-a naquele momento e notou, engranzado no meio de uma porção de papéis inúteis, um que tinha seu valor. Puxou-o de imediato e ficou perscrutando-o com

veemência. Era um papel amassado, desgastado e parcialmente sujo. Dividindo seu espaço com as dobras que evidenciava já ter sido amassado, haviam alguns escritos que diziam: Galpão Abandonado, saída para Aparecida de Goiânia. Daí em diante ignorou totalmente a carteira. Jogo-a em cima de sua cama e mirou o papel como um minerador iniciante miraria uma pepita de ouro de 60 kilos. Então sorriu um sorriso de satisfação, pois cria ele, estava próximo de uma solução.

A carteira
Era apenas um endereço e poderia ser de qualquer lugar. Mas Mário tinha consigo que aquele endereço indicava algo importante. Que

talvez pudesse até ser o do cativeiro de Camilla. “É só uma intuição, mas já é alguma coisa”. Refletiu. O resto daquele dia se passou tumultuado. Alguns policiais e amigos da família saiam e entravam a toda hora na casa. Estes amigos e alguns parentes vinham dar seus pêsames e tentar consolar o senhor e a senhora Gouvêa, pais de Mário. O jovem não saiu de seu quarto durante bastante tempo. Ficava horas e horas olhando aquele papel que era a única pista de onde sua tão amada irmã poderia estar. Analisava o estado do papel e as circunstâncias a que ele havia sido submetido. Buscou novamente a carteira com os olhos. Não a avistou de primazia, mas logo percebeu que ela havia pulado do colchão para o chão quando a arremessara para cima da cama. Abaixou-se e a pegou. Abriu, fechou e notou nela outro detalhe importante que anteriormente não havia notado. Era uma fotografia em formato 3x4 e nela havia um homem moreno e calvo, com olhos puxados e uma cicatriz na boca. Teve para si que aquela poderia ser a imagem do dono da carteira e do possível sequestrador de sua irmã. Tentou encaixar num quebra cabeças dedutivo tudo o que podia ver com seus olhos e tudo quanto podia formar por conjetura acerca do acontecimento. Exercitava o que sabia melhor fazer e o que o curso de Direito tratou de aperfeiçoar: a dedução investigativa. Ao final de tanta análise, tirou o papel com endereço da carteira, guardou-o no bolso, pegou o telefone fixo de seu quarto e discou o número de Erick. Tuuu... Tuu... ― Alô, Erick? Preciso que venha urgente para minha casa. Foi a única coisa que disse e com o “Okay” de Erick, desligou. Em seguida saiu de seu quarto, desceu as escadas e se dirigiu à sala. Lá seus pais conversavam com um policial que atento anotava tudo que era dito pelo casal. Mário, discreto, sinalizou para que seu pai viesse até ele. Ao vêlo aproximar-se, deu-lhe a carteira, porém escondeu o papel com o endereço. Apertou o bolso onde estava o papel e mordeu o lábio inferior. Ele tinha intenções particulares e maiores com aquele pedaço de papel amassado. ― Pai. Olha o que eu encontrei jogado lá fora, perto do contêiner de lixo. O senhor Gouvêa pegou a carteira e devorou-a com os olhos. Girou e a abriu desajeitadamente, quase a deixando cair devido ao nervosismo. Ao perceber que aquela carteira poderia ser o primeiro passo do resgate de sua filha, sorriu eufórico.

― Obrigado, filho. Isso vai ser de grande ajuda. Com isso os policiais vão descobrir onde sua irmã está. Se Deus quiser meu filho, e eu a cada hora que passa, tenho mais fé de que Ele quer! Mário disse “Sim, Ele quer” silenciosamente com um sorriso. Seu pai o abraçou feliz e Mário retribuiu o gesto com um semblante caridoso. Na casa dos Martín pairava um clima pesado no ar. Ninguém falava em tom alto ou médio, eram apenas sussurros de um canto a outro da casa. Talvez um respeito inconsciente ao sumiço de Camilla. Erick estava deitado no sofá, imerso em reflexão quando Mário ligou. Mário pediu que Erick viesse a sua casa, lhe afirmando que tinha uma coisa que ele gostaria de lhe falar. Depois de encerrada a ligação Erick levantou-se de súbito e enveredou-se para seu quarto. Trocou sua camisa, pegou seu capacete e saiu apressado. Sua mãe, ao ver a agitação dele ainda perguntou aonde ia, mas não obteve nada mais que um “ali” como resposta. Atravessou a porta, ligou a moto e foi-se. Chegando à casa dos Gouveias nem precisou tocar o interfone, pois encontrou o portão e a porta aberta. Ele entrou e procurou Mário com os olhos. Viu os pais dele e o policial que lhes interrogavam. Dona Sônia, supondo a que Erick havia vindo, apontou com o dedo o quarto de Mário. Erick sorriu com o canto da boca e subiu apressado. Entrou no quarto e viu Mário em frente ao computador, pesquisando imagens de um galpão na internet ― aquele que estava no endereço grafado no papel. ― Cheguei Mário. E aí, boas notícias? Mário sem tirar os olhos do monitor, chamou Erick como movimento de seu indicador e ele mesmo sem entender o que se passava atendeu ao chamado. Ao se aproximar, Mário empurrou com o indicador da outra mão o papel com o endereço para mais perto de Erick, fazendo o amigo criar uma atenção especial para o papel. Erick pegou aquele papel, olhou sua frente e seu verso e ainda sem entender perguntou: ― E aí? ―Vê o endereço escrito no papel? ―Aham... ― É onde Camilla está. Mário sorri pela primeira vez depois de muito tempo. Erick espantado fez uma careta engraçada fazendo com que Mário sentisse graça e desse outro sorriso disfarçado.

Erick sabia da poderosa dedução que Mário tinha e sabia que ele nunca falaria que aquele era o endereço de Camilla sem ter realmente certeza. Não para uma coisa tão grave. Mas ainda assim, de certo que por curiosidade, teve de perguntar como ele chegou àquela conclusão. Mário explicou tudo em detalhes para ele. Começou descrevendo como havia encontrado a carteira e como ela estava, depois relatou que após análises e mais análises associou suas suposições concluindo que o seqüestrador não queria um resgate em dinheiro, mas tinha outro objetivo particular. Disse também que levou em consideração o fato de a carteira estar aberta no momento que a encontrara e o endereço estar em evidência mostrando claramente que o seqüestrador queria que quem a encontrasse soubesse exatamente a localização deles. Para Mário, um alguém tão inteligente a ponto de sequestrar uma pessoa em plena luz do dia nunca perderia uma carteira no local do crime. Outro fator que pesou foi o fato de a carteira estar aberta. Ele achava que para que ela pudesse ser pedida ela teria que estar guardada em algum lugar, seja no bolso ou em qualquer outro lugar: ou seja, pela regra geral a carteira deveria estar fechada. Mário ainda relatou a Erick que considerou o fato de que os sequestradores passadas 7 horas do sequestro ainda não procuraram manter contato para negociar a liberdade de Camilla e que isso era muito estranho. Erick, antes de toda aquela explicação, não apresentava dúvidas sobre a certeza de Mário, mas com as conclusões aparentemente precipitadas dele, passou a ter desconfiança no que ele afirmava. Passou por sua cabeça que talvez Mário pudesse estar tendo alucinações devido às emoções fortes do sequestro de Camilla. Algum tipo de delírio ou coisa parecida. Mário, percebendo a dúvida estampada no rosto de Erick, indignou-se. ―Não acredita, não é? Diga-me... Quando errei nas minhas deduções? ― Que eu me lembre, nunca Mário, mas... Na realidade, Mário havia errado sim, e diversas vezes em suas deduções, porém fazia de tudo para que estes erros não ficassem transparentes para os outros. Mário tinha muito orgulho dele mesmo e de sua capacidade mental e sentia-se muito frustrado quando não conseguia resolver alguma coisa sozinho. Ele era incapaz de pedir ajuda e poderia sofrer com o problema por muito tempo até que alguém descobrisse o que estava havendo com ele. Isso era seu pior defeito. Em suma, Mário tinha vergonha de errar.

―Olhe, eu te chamei aqui, Erick, por que eu acharia que poderia me ajudar, mas acho que me enganei. ―Não... Nem é isso... É que... Está bem, eu confio em você, mas como eu vou te ajudar? ―Esta noite... ―Mário pára e antes de concluir o que ia dizer fecha os olhos. Hesita por alguns segundos, imaginando a reação de Erick quando ele descarregasse a bomba que tinha para falar. Depois continua ―...vamos resgatar Camilla. E como previsto houve um baque enorme em Erick. Tão grande que as palavras se atropelaram em sua garganta e ele por alguns segundos não conseguiu falar nada. Quando enfim recuperou-se parcialmente, esbravejou asperamente com Mário: ― Cara. Você tá louco? Isso não está certo, doido. Você só pode estar brincando! Como é que a gente vai fazer isso? Você quer morrer, é? Metralhou críticas à decisão de Mário, uma atrás da outra, sem parar. Tamanha foi a agitação que ele não mediu o volume de sua voz e não via que explodia em gritos. Só depois percebeu que excedeu o limite quando Mário sinalizou para que ele se acalmasse. Mário coça a cabeça e olha com um olhar descrente para o chão. Sabia que Erick não toparia de primeira instância, mas não imaginaria que ele reagiria de tal forma. ― Erick, escute aqui... ― empenhava maior calma possível―...para se conseguir os melhores frutos de uma árvore devemos subir às alturas dela. Para que nós possamos ver Camilla livre precisamos fazer sacrifícios também. É assim que funciona. ― Sim... Entrega o endereço pra polícia. Isso já é uma grande coisa! ―Será que você não entende Erick?! É isso que eles querem! Deixa eu te explicar. Há algum tempo atrás um grupo de pessoas invadiram a casa do Delegado Souza e tentaram assassiná-lo, mas para azar deles, estava tendo uma festa dos colegas policias do Delegado e então eles foram interceptados e levados para a prisão. Um deles jurou matar o Delegado custe o que custasse quando estava sendo preso. Então passados dois meses da prisão, dois deles fugiram. Um mês depois, minha irmã, que coincidentemente é vizinha do Delegado desaparece... Isso te diz algo? ―Hm... E por que você não diz isso pra ele e só? ―E ele acreditaria? Você que me conhece bem não está acreditando, acha que ele vai acreditar..? Silêncio. Erick nada diz apesar de não concordar e Mário remói-se por dentro com a indiferença de Erick. “Por que motivo Erick tem uma

mente tão limitada?”, se pergunta Mário “Quisera eu que ele compreendesse um terço de minha suposição." Suas tentativas de retórica foram falhas, pois Erick, por mais que apresentasse um arquétipo de coragem, não conseguia se ver confrontando com bandidos e saindo vivo da situação. Mário reprovou Erick com o olhar e viu que isto o fez ficar amargado. Para completar disse: ― Então tudo bem. Se não quer me acompanhar não forçarei você. Eu faço isso sozinho. Agora... Peço que me deixe a sós com minhas idéias, preciso colocá-las em ordem. Estendeu a mão para Erick e o levou para fora de seu quarto. Ao soltar sua mão, criou um clima gélido usando um olhar de negatividade para com o amigo. Isso era arriscado porque se isso não funcionasse nada mais funcionaria e, além de tudo, poderia perder o amigo. Fechou a porta devagar, orando em silêncio para que seu plano funcionasse e Erick voltasse atrás em sua decisão. Para sua sorte foi o que aconteceu. Erick impediu que a porta se fechasse e entrou de novo para dentro do quarto, olhou no fundo dos olhos de Mário e viu uma certeza. Certeza não sabia de quê, mas viu que era uma boa certeza. ― Pode contar comigo, Mário.