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Segunda-feira, 24 de agosto de 2009


ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 539 - 18/8/2009

Armazém Literário
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Machado Vianna

MATERNIDADE NA MÍDIA Professora do Curso de


Comunicação Social da
Significados distorcidos, idéias retrógradas UFMG, mestre em Direito
pela PUC-MG e bacharel
em Direito pela UFMG,
Por Cynthia Semíramis Machado Vianna em 26/5/2009
Belo Horizonte, MG

Confissões de mãe , de Maria Mariana Plonczynki de Oliveira, Editora Agir,


Rio de Janeiro, 2009
Outros artigos desta
Seção

A atriz e escritora Maria Mariana optou por afastar-se do trabalho por dez anos, GENERACIÓN Y
Yoani Sanchez e a vida na
dedicando-se aos cuidados com quatro filhos. Agora, retoma a carreira lançando um ilha
livro sobre seus pensamentos como mãe. Em entrevistas, tanto ela quanto Sandro Vaia
entrevistadores falam que suas opiniões são polêmicas. E polêmica, aqui deve ser 26/5/2009
entendida com o sentido de controvérsia, de proposta ou questão sobre a qual muitos
MÍDIA & HEGEMONIA
divergem (Houaiss). Mas será que se tratam realmente de idéias polêmicas?
A batalha das idéias
Dênis de Moraes
Desde Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que abandonou nos Enfants-Trouvés todos 26/5/2009
os cinco filhos que teve com Thèrese Levasseur), a maternidade tornou-se a única
realização possível para mulheres. Sofia, no livro V do Emílio, só se realiza na MATERNIDADE NA
maternidade e nos cuidados com marido e família. Durante o século 19, cientistas e MÍDIA
Significados distorcidos,
médicos negavam estudos às mulheres, pois o estímulo ao uso do cérebro poderia lhes idéias retrógradas
atrofiar os ovários, impedindo a maternidade. A primeira metade do século 20 Cynthia Semíramis
recorreu ao elogio à maternidade e incentivo à família nuclear para, em tempos de Machado Vianna
26/5/2009
guerra, aumentar o número de soldados e, em tempos de paz, incrementar o mercado
consumidor. ESTANTE
Walter Lippmann e
A "missão" feminina a verdade factual
Plínio Bortolotti
A única interrupção nesses elogios rasgados à maternidade ocorreu em meados do 26/5/2009
século 20, com o movimento feminista. Foram questionadas a maternidade
obrigatória, a proibição da interrupção da gravidez por vontade da gestante, a
necessidade de casamento para constituir família, as dificuldades para conciliar Últimos 5 artigos de
trabalho e maternidade, a falta de políticas públicas para mães solteiras, os limites e Cynthia Semíramis
possibilidades da paternidade, a falta de individualidade e autonomia das mulheres, Machado Vianna
que eram apenas mães e esposas, e até se chegou a analisar se o tão falado CRIME, RPG E
sentimento maternal seria algo inato ou construído socialmente. Dentre vários IMPRENSA
trabalhos, acadêmicos ou ativistas, merece destaque o clássico escrito pela filósofa Os erros no caso de Ouro
Preto
Elisabeth Badinter, que dissecou o tema para concluir que a maternidade é um 14/7/2009
aprendizado social. Tudo isso para pregar uma nova forma de sociedade, em que a
CASO SANTO ANDRÉ
liberdade de escolha da mulher é fundamental, com a sociedade e o Estado se Violência contra mulheres
organizando para facilitar essas opções, sejam elas a maternidade, o trabalho incentivada pela mídia
remunerado ou ambas as possibilidades. 28/10/2008

Mais artigos de
No entanto, apesar de tantos estudos e críticas, a lógica de Rousseau permanece em Cynthia Semíramis Machado
nossa sociedade. O elogio à maternidade está presente em toda a publicidade de dia Vianna >>
das mães, e os cadernos de saúde e femininos são enfáticos em sugerir e traçar
estratégias para a melhor gravidez possível: desde tratamentos contra infertilidade,
até idades adequadas para engravidar, bem como cuidados maternos para se ter
crianças saudáveis e inteligentes. Nas novelas, a maternidade é sempre o sentimento
mais forte e poderoso, quebrando barreiras e salvando pessoas da ruína. A
interrupção voluntária da gravidez é tratada como tabu. No noticiário, homens
bradam contra mulheres que "violaram" seus instintos "naturais" de mãe,
abandonando ou maltratando suas crias, enquanto nada dizem sobre os homens que
geraram e abandonaram aquelas crianças. Mulheres que têm trabalho remunerado,
seja por satisfação pessoal ou pura necessidade econômica, são pressionadas a se
sentirem culpadas por não se dedicarem integralmente às crianças. A todo momento,
as mulheres são lembradas de que "só as mães são felizes" e que fugir da
maternidade em tempo integral significa estar fora de uma "missão" feminina.

Discurso centenário e simplificador

Curiosamente, são essas opiniões tradicionalistas que são veiculadas na mídia como
polêmicas e transgressoras. Jornalistas têm usado com freqüência o termo
"polêmico" para se referir a idéias antigas, do século 18. As idéias realmente
polêmicas, que questionam esse padrão santificado e obrigatório de maternidade, não
estão solidificadas na sociedade. Mas a mídia ignora isso, tratando-as como se fossem
padrão e parte da sociedade clamasse por um retorno à tradição. De forma sutil,
subvertem o dicionário para reforçar o conservadorismo.
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É por causa dessa inversão de significados que temos Maria Mariana sendo chamada Garantia de Arroz
de polêmica por defender que "amamentação é para a mãe que merece" e que "Há Perfeito. Prove e
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mulheres que passam nove meses no shopping, comprando roupinhas, aí depois Soltinho. Veja!
marcam a cesárea e pronto. Acabou o processo. Aí sabe o que acontece? Elas têm www.MeuArroz.com.br
depressão pós-parto" (ambas são transcrições de entrevista para a revista Época).

Estas são afirmações dignas da tradição que afirma que a realização das mulheres só
ocorre na maternidade. Em princípio, não há nada de polêmico aí, tanto que muitas
pessoas, inclusive na área de saúde, repetem esse mesmo discurso centenário e Publicar Artigos e
Textos
simplificador, depreciando as mulheres que não seguem o que se espera delas como Publique seus Artigos
mães, ou mesmo acreditando que a doença é uma rejeição ao papel de mãe. gratuitamente e traga
mais usuários ao seu
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Polêmica legítima é libertadora www.Artigonal.com

E, se há gente reclamando dessas afirmações (há muitas pessoas fazendo isso,


inclusive eu), estão preferindo uma nova abordagem de maternidade, que, esta sim, é
polêmica, pois questiona essa lógica antiga de maternidade necessária que torna as
mulheres obrigatoriamente felizes, abrindo espaço para a diversidade e para o
Meu Arroz Knorr
questionamento, trazendo conforto e apoio para milhares de mães que não se Ganhe uma Cozinha
enquadram dessa lógica tradicional. Nota-se aqui a mudança de paradigma, mas é para sua Família.
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necessário reconhecer que somos poucas ainda: uma minoria em expansão, e Promoção já!
bastante controversa, posto que destoa do status quo. www.MeuArroz.com.br

Repetir argumentos de 300 anos atrás como se fossem uma nova tendência
comportamental não é polemizar, é fingir modernidade enquanto se mantém o padrão
conservador. Se o objetivo é mesmo criar polêmica, que tal dar voz a pensamentos
que questionam e abrem novas interpretações para significados antigos? Ainda há
muito a ser discutido, libertando as pessoas de visões estereotipadas e preconcebidas
e possibilitando que, no caso da maternidade, este não seja o único caminho aceitável
na vida de uma mulher. E, caso a escolha seja pela maternidade, que lhe sejam
proporcionadas condições (e não julgamentos) para que ela tenha a vida que
escolheu, seja se dedicando a cuidar das crianças, seja também desenvolvendo
atividade profissional paralela.

Portanto, fica a sugestão para profissionais da comunicação: querem falar de


polêmica? Procurem idéias que fujam dos papéis sociais tradicionais e falem do
potencial dessas idéias para estimular uma vida mais livre e feliz. Se querem
credibilidade, não confundam as palavras, chamando conservador de polêmico. A
polêmica legítima é libertadora e está bem longe de ser um modelo único para a vida
de todas as pessoas.

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