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Segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

ISSN 1519-7670 - Ano 14 - nº 576 - 16/2/2010

Caderno da Cidadania
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Machado Vianna

SENSACIONALISMO Professora universitária,


Belo Horizonte, MG
O tratamento jornalístico da violência
Por Cynthia Semíramis Machado Vianna em 9/2/2010
Outros artigos desta
Seção
Em Belo Horizonte, no dia 20 de janeiro, a cabeleireira Maria Islaine de Morais foi SENSACIONALISMO
morta pelo ex-marido. Ele invadiu o salão de beleza de Islaine e desferiu sete tiros O tratamento
nela. As imagens do homicídio foram registradas pelo circuito interno de televisão que jornalístico da violência
Cynthia Semíramis
teoricamente deveria garantir a segurança do local. Machado Vianna
9/2/2010
Embora o caso mereça muitas críticas aos policiais e ao poder Judiciário, que
estavam cientes das ameaças que o ex-marido de Islaine lhe fazia e não tomaram PROGRAMAÇÃO
providências suficientes para protegê-la, o meu foco aqui é apontar pontos INFANTIL
A conturbada relação
problemáticos da postura jornalística em algumas reportagens sobre o caso e que entre a criança e a mídia
acabam por, nas entrelinhas, perpetuar a violência contra mulheres. Eduardo Fernandes
9/2/2010
Primeiramente, é necessário questionar por que o vídeo do salão foi exibido, com
tanto destaque, como nesta matéria do Jornal da Globo. A versão do Uai é mais LIBERDADE DE
EXPRESSÃO
detalhada, com imagens de duas câmeras diferentes e vídeo integral). Em ambos os Dez desafios cruciais
casos, não havia motivo algum para isso, além de ganhar audiência explorando uma Artigo 19
morte trágica. 9/2/2010

Reforçando o ciclo de violência MÍDIA & EDUCAÇÃO


Empresas de comunicação
e projetos educativos
Trata-se de violação clara do Código de Ética dos Jornalistas:
Michelle Prazeres
9/2/2010
"Art. 11. O jornalista não pode divulgar informações:
CONSUMO &
II - de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, CIDADANIA
especialmente em cobertura de crimes e acidentes." A tríade regulatória do
acesso à informação
Questões que não foram respondidas: em poder de quem estavam as imagens? Quem Guilherme Varella e
Estela Guerrini
editou as imagens das duas câmeras que resultou no vídeo divulgado? Quem autorizou 9/2/2010
a edição? Quem autorizou a divulgação do vídeo na mídia? Por que jornalistas
violaram o Código de Ética e aceitaram ganhar audiência em cima de uma pessoa CENSURA NO ESTADÃO
morta de forma bárbara? Com a divulgação e posterior análise do vídeo, não houve A liberdade de informar
continua suspensa
ganho algum para a vítima. Ela foi exposta em todos os meios de comunicação, nos Benoit Hervieu
quais houve ainda interpretações que procuraram explorar o sensacionalismo e 9/2/2010
minimizar a violência sofrida.

O jornal Hoje em Dia, em uma matéria extremamente infeliz (ver aqui), chegou ao
Últimos 5 artigos de
ponto de dar voz a um perito que descreveu o vídeo de forma completamente Cynthia Semíramis
inadequada e desrespeitosa para com a vítima: "As cenas mostram que, quando Silva Machado Vianna
entra, a mulher fica numa postura de afronta, como se já estivesse acostumada com
CRIME, RPG E
as ameaças constantes do ex-marido. Ele não demorou dez minutos para executá-la. IMPRENSA
Foi tudo muito rápido" (os grifos são meus). Os erros no caso de Ouro
Preto
Quando uma pessoa que deveria estar longe de outra desobedece ordens judiciais e 14/7/2009
invade o espaço proibido, é de se esperar uma "postura de afronta", de questionar
MATERNIDADE NA
veementemente a desobediência a ordens expressas para se afastar dela. Esse tipo de
MÍDIA
observação em uma reportagem, no entanto, faz parecer que a vítima não deveria ter Significados distorcidos,
se indignado ao ver o desafeto invadindo seu espaço. Sutilmente, é uma mensagem idéias retrógradas
que reforça o ciclo de violência ao passar a ideia de que vítimas de violência não têm 26/5/2009

muita escolha e precisam se conformar com situações nas quais suas vontades são
CASO SANTO ANDRÉ
desrespeitadas e devem ser humildes com seus agressores. Violência contra mulheres
incentivada pela mídia
Execução, qualificação impossível 28/10/2008

Mais artigos de
Outro termo utilizado de forma infeliz é "execução" e este não é exclusivo do perito
Cynthia Semíramis Machado
supracitado. É bastante comum encontrar nas páginas policiais a utilização Vianna >>
inadequada das palavras (especialmente as de vocabulário jurídico), distorcendo seu

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significado original em nome de uma dramaticidade não condizente com o discurso
jornalístico. Para aumentar o impacto, uma morte causada por muitos tiros de pistola
ou revólver é transformada em fuzilamento (quando este termo deveria ser aplicado
apenas à arma fuzil), um crime de vingança (pela mulher ter desistido do
relacionamento) é minimizado como crime passional e um homicídio passa a ser
chamado de execução.

No entanto, é importante lembrar que, juridicamente, só é possível executar alguém


se existir uma sentença de morte determinando este procedimento. Ao anunciar que
alguém foi executado, o que se está afirmando é que o homicida tornou-se o executor,
o carrasco que cumpre uma ordem legal para matar alguém. No entanto, a
Constituição da República Federativa do Brasil é bastante clara:

"XLVII - não haverá penas:

a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84,


XIX."

Em tempos de paz no Brasil (como atualmente), é impossível um juiz sentenciar


alguém à pena de morte e, portanto, não será possível executar uma sentença de
morte.

Divulgação descontextualizada

O uso do termo execução para se referir a homicídios brutais é uma imprecisão que
deve ser evitada, até porque pode trazer consigo a ideia de que a morte foi merecida
ou legitimada pelo Estado. Especificamente nos casos de violência contra mulheres,
pode estimular o preconceito (errôneo e inconstitucional) de que homens são
superiores às mulheres e têm poder de vida e morte sobre elas. Em todos os casos,
trata-se de uma distorção grave do significado original, totalmente incompatível com
um Estado de Direito.

Como se não bastassem os erros de abordagem, há ainda o problema de se divulgar


apenas notícias de violência nas quais as mulheres acabam mortas ou sem proteção
do Estado ou da família. Nos dias seguintes à morte de Islaine, diversas reportagens
enfocavam apenas casos semelhantes, dando visibilidade a esses crimes. Porém,
faltou contrabalançar essas notícias com casos nos quais as mulheres saíram da
situação de violência, além de problematizar melhor a situação e apontar outras
soluções.

Da forma como a mídia faz a abordagem de violência contra mulheres, o que ela
estimula é mais violência ou medo. Violência porque homens se sentirão estimulados a
serem mais agressivos, pois resolverão sua situação a partir da violência e ainda
podem virar celebridades, mesmo no sentido negativo do termo (como aconteceu com
Lindemberg, que se tornou celebridade por manter Eloá em cárcere privado antes de
matá-la). Medo porque as mulheres pensarão várias vezes antes de denunciar a Milícia, Lda
situação em que vivem, optando por manter em uma relação opressiva e violenta por Bens de Segurança e
Tecnologias Militares.
não perceberem alternativas viáveis e seguras para suas vidas. Fardamento,
Cutelaria...
Notícias sobre violência contra mulheres ainda estão focadas na divulgação www.milicia.pt
descontextualizada da violência, mais como uma narrativa de desabafo contra a ação
(ou falta de ação) do poder público do que algo que efetivamente explique o quadro de
violência e auxilie as vítimas a se livrarem de uma situação de opressão.

Solução satisfatória é possível

Se o objetivo é (ou deveria ser, como definem declarações de direitos humanos, a


Constituição e até mesmo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros) a valorização
dos direitos humanos e o combate à violência contra mulheres (tanto pela promoção
das garantias individuais quanto por estimular o combate da perseguição e
discriminação de gênero), a abordagem da mídia precisa mudar. Para isso, deve
problematizar a situação e fugir dos lugares-comuns e vocabulário inadequado, que
reforçam situações de submissão ou merecimento da violência.
Emagreça 4kg em
22 Dias
Seria muito mais benéfico se, ao invés de divulgar somente casos parecidos sobre Tenha Bons
Resultados Com
violência que resultaram na morte de mulheres, fossem feitas reportagens explicando
Nossa Dieta,Receba
as formas de violência, quais as providências que devem ser tomadas e o que em Casa e Pague
aconteceu com quem conseguiu se livrar da violência, seja por terapia, por Depois
www.Dieta2010.com.br/E
intervenção familiar, ou pela aplicação da Lei Maria da Penha. Se há poucas
informações, ou poucos casos de sucesso, estes são pontos que merecem
problematização, mais atenção da mídia e podem render excelentes reportagens.

É importante frisar que não estou pretendendo esconder a violência, que é real e
ainda é pouco visível, especialmente nas classes média e alta. O que é necessário é
matizar a situação para não passar a impressão, nas entrelinhas, que mulheres que
sofrem violência não têm escapatória além de se conformar com sua vida violenta.

2 de 3
Melhorar a abordagem (e, para isso, o artigo "Dez regras para uma notícia não
sexista" é fundamental) e mostrar alternativas são formas importantes de amparar as
vítimas de violência, mostrando-lhes que sua situação pode ter uma solução
satisfatória sem envolver o risco de sofrerem mais violência ou morte.

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