Considerações sobre o Juiz de Garantias no Projeto de lei 156/2009

Victor Sampaio Linhares de Oliveira

Resumo

Considerando-se a figura do juiz de garantias, introduzida na redação final do Projeto
de Lei 156/2009, aprovada pelo senado e encaminhada à Câmara dos Deputados, o juiz de
garantias é aquele que participará apenas da fase de investigação, controlando a legalidade da
investigação criminal e tutelando as garantias fundamentais do cidadão submetido ao
inquérito, é aquele que ira cuidar para que os direitos dos presos sejam respeitados, decidindo
sobre o pedido de prisão provisória ou de outra medida cautelar e também sobre os pedidos de
intercpetação telefônica, quebra dos sigilos fical, bancário e telefônico. Analisa-se também a
inconveniência e a inadimissibilidade do juiz de garantias fruto do garantismo exarcebado
dominante no meio acadêmico, que leva em conta somente o interesse do réu. Busca-se assim
abordar o tema em questão, trazendo os diferentes pontos de vistas em relação ao tema
tratado.

Palavras-chaves: Processo penal, juiz de garantias, eficácia, aplicabilidade, novo código de
processo penal.

Introdução

estabelece que ao juiz de garantias caberá o controle da legalidade da ação da polícia e a preservação dos direitos do investigado. depois de julgar os investigados. já na visão de advogados criminalistas e juristas. Juiz de Garantias O juiz de garantias é um sistema que separa atribuições e responsabilidades. que cuida de ações sobre crimes financeiros. pois segundo eles alguns magistrados federais agem com parcialidade exercendo dois papéis: o de dirigir as investigações e. "A proposta não traz qualquer vantagem visível.ª Vara Federal Criminal de Curitiba. Neste Texto. titular da 2. as características. 1. Esse modelo introduzido no projeto do novo código de processo já é utilizado pela Justiça estadual de São Paulo. cerca de 40% das comarcas no Brasil só têm um magistrado. busca-se uma reflexão sobre as principais questões que dizem respeito aos temas ligados ao Juizo de garantias. a quem se submete a policia federal. por melhores . e. autoriza interceptações telefônicas. A emenda 17. aprovada pela comissão especial do senado. foi aplicado a Justiça federal. ordena buscas e apreensões não mais poderá presidir a ação penal e julgar os alvos daquela apuração policial por ele deflagrada. pois de acordo com levantamento do Conselho Nacional de Justiça. é baseada em argumentos questionáveis. sua aplicação no direito e suas repercussões no meio jurídico. e sobre a qual recaem muitas expectativas positivas. destinatário dos autos por distribuição. Para o juiz Sérgio Fernando Moro. trará dificuldades práticas severas. o ponto mais marcante da mudança que se pretende operar no Código de Processo Penal. o juiz de garantias pode acabar com supostos abusos. Hoje. Partes dos juízes federais criticam a iniciativa. O julgamento ficará sobre responsabilidade de outro juiz. 1. fraudes e outros crimes contra a União. instituição responsável pelos inquéritos relacionados a corrupção. A nova figura é. o que inviabiliza o juiz de garantias para todo o País. Questões como os objetivos. tanto por parte da Comissão de juristas encarregada da elaboração do projeto e sua exposição de motivos quanto de vários autores de artigos que procuram pronunciar doutrina em torno do próprio texto da lei projetada. o mesmo juiz que atua na fase de investigação é o mesmo que realiza o julgamento na primeira instância. reconhecidamente. O juiz de primeiro grau que decreta prisões temporárias ou preventivas. Nunca. porém.

Também é necessário anotar que há outros motivos de afastamentos dos magistrados de suas unidades judiciais. pp. sob duas preocupações básicas. a par de um perigo iminente de prescrição de muitas ações penais. nesses locais. férias. apoiando a implementação do sistema de juiz de garantias. diante de tais dificuldades. com a eventual implementação de tal medida haverá riscos ao atendimento do princípio da razoável duração do processo. Contudo. sob o aspecto operacional. O levantamento efetuado pela Corregedoria Nacional de Justiça no sistema Justiça Aberta revela que 40% das varas da Justiça Estadual no Brasil constituem-se de comarca única. a consolidação dessa ideia. como nos casos de licença. bem como no que tange ao gasto com deslocamentos e diárias dos magistrados que deverão atender outras comarcas. mostra-se incompatível com a atual estrutura das justiças estadual e federal. institui a figura do ‘juiz das garantias'. que será o responsável pelo exercício das funções jurisdicionais alusivas à tutela imediata e direta das inviolabilidades pessoais. mas quem acha que isso representa um alto custo é porque ainda não parou para quantificar o prejuízo ." Em sentido contrário.Assim.que sejam as intenções dos parlamentares. convocações para Turmas Recursais ou para composição de Tribunais. em 01/09/2010. ficará automaticamente impedido de jurisdicionar no processo. segundo a exposição de motivos. a adoção de tal regramento acarretará ônus ao já minguado orçamento da maioria dos judiciários estaduais quanto ao aumento do quadro de juízes e servidores. Ademais. a saber: a de otimizar a atuação jurisdicional criminal e a de manter o distanciamento do juiz incumbido de julgar o processo. o Conselho Nacional de Justiça emitiu a Nota Técnica nº 10 (publicada no DJ-e nº 160/2010. parece ser dirigida ao enfraquecimento dos poderes dos juízes de primeira instância" No mesmo sentido. GOMES. com apenas um magistrado encarregado da jurisdição. sempre que o único magistrado da comarca atuar na fase do inquérito. considerando as limitações da estrutura judiciária brasileira. afirma o seguinte entendimento: "Ainda que haja dificuldade para a implementação dessa novidade. Logo. limitados que estão pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Claro que alguns tribunais alegarão razões orçamentárias para não se implantar o juiz das garantias. 2-4) que deixa claro os riscos da adoção do modelo de "juiz das garantias". Eis os termos utilizados pelo respeitável Conselho quanto a este ponto: "O Projeto. preocupando-se com a consolidação de um modelo acusatório. impondo-se o deslocamento de outro magistrado de comarca distinta. todo esforço deve ser feito para que ela se concretize irrestrita e prontamente em todo país.

" Diante do exposto. de natureza inquisitiva. p. assegurando de forma ampla os direito individuais. fica a dúvida sobre a real aplicabilidade desse instituto. contraditório ou ampra defesa. contribui para o aprimoramento do nosso Estado constitucional e humanista de direito. Daí porque. 1. tem-se lição de NUCCI (2008. sem que lhe seja conferida a possibilidade de produção de provas. Com efeito. evidentemente. O Inquérito Policial No período inquisitivo. p. no decorrer da investigação criminal. colhe-se posição de FELDENS e SCHIMIDT (2007. sendo o procedimento dotado de natureza inquisitiva. HC 86. fundado na legalidade. portanto".que vem causando o sistema atual. segundo ele. 93) de que o acusado "não pode. 2. a ausência de advogado no interrogatório policial não acarreta a nulidade do processo" (STJ. que tem dado ensejo a muitos e exorbitantes abusos (que geram nulidades). 17) que concluem. No mesmo sentido. e não observa os princípios do contraditório e ampla defesa. constitucionalidade e convencionalidade do seu ordenamento jurídico. Contrapondo-se a esse pensamento. .800/SP). predomina o entendimento de que o eventual acusado não possui as garantias processuais. num ambiente iluminado pela Constituição. que o "investigado é sujeito de direitos. ou sejam. já outros vêm como um importante avanço da própria justiça criminal. apontando alguns para desorganização da estrutura do judiciário e a capacidade de fazer valer tudo o que é esperado. o investigado é considerado "objeto de investigação". o Superior Tribunal de Justiça tem posicionamento pacífico no sentido de que "como o inquérito policial é um procedimento administrativo informativo. influenciando a percepção negativa da população quanto ao funcionamento da Justiça). Nada disso. exercitar o contraditório nem a ampla defesa. pois encontra-se uma grande dúvida em relação a sua verdadeira eficácia. e não mero objeto de investigação". sem contar o desprestígio para a própria justiça criminal (que é posto em relevo pela mídia. pois melhoraria a prestação jurisdicional. dando maior credibilidade a justiça.

dando uma víeis mas constitucional a persecução penal. agindo sempre por provocação. pois esse contato pode provaocar uma mácula no seu convencimento. . 1. 3. O entendimento encontra-se cristalizado na conclusão de que o magistrado "preside o inquérito. o quanto posssível. a contaminação subjetiva do magistrado julgador e com isso garantir uma maior imparcialidade. Conclusão Dessa maneira. no que concerne à montagem do acervo probatório e às providências acautelatórias. Essa questão esbarra no grande problema que é a real possibilidade de sua aplicação. visa garantir uma maior imparcialidade do juiz julgador e também uma maior atenção aos direitos individuais do acusado em questão. criando. O problema em questão é o contato do magistrado com a prova. um supervisor. a figura de um juiz responsável para assegurar e verificar a fase do inquérito policial. jamais de ofício. uma vez que poderá ser ele quem julgará o mesmo acusado durante a ação penal posteriormente proposta. A aparente contradição entre o afastamento e proximidade do magistrado vislumbra aparente solução no que diz respeito a criação dos juiz de garantias. HC 97553). Resolvendo-se a questão da estrutura para a efetiva prestação jurisdicional. conclui-se que o juiz de garantias é um instituto que tem como finalidade garantir um distanciamento entre o juiz responsável pela prolação da sentença penal dos elementos indiciários colhidos durante o inquérito policial. como visto. podendo assim comprometer a prestação jurisdicional. O Supremo Tribunal Federal. é visto com bons olhos a criação desse instituto pois. apenas como um administrador. um coordenador. não vislumbra óbice nessa dupla participação judicial. Não a exteriorização de qualquer juízo de valor acerca dos fatos ou das questões de direito emergentes na fase preliminar que o impeça de atuar com imparcialidade no curso da ação penal" (STF. pois. buscando minimizar. existe um grande déficit de juízes e servidores públicos para a real efetivação. por seu lado.

Porto Alegre: Livraria do Advogado. HC 97553.09. Código de Processo Penal Comentado. 8ª ed. Curso de Processo Penal. Rio de Janeiro: Lumen Juris. Boletim Jurídico. DJe 10. Eugênio Pacelli. Guilherme de Souza. 15ª ed. 4. 5. LUZ. Referência Bibliografica FELDENS Luciano. SCHIMIDT. Investigação criminal e ação penal. Ministro Dias Toffoli.2010. Disponível em: Acesso em: 13 nov. Supremo Tribunal Federal.1. Rel. 2011 NUCCI. Gustavo de Oliveira da. . 2007. São Paulo: Revista dos Tribunais.2010. 2008. 2010. no 752. julgado em 16. Uberaba/MG.06. OLIVEIRA. Primeira Turma. Andrei Zenkher. a. Juiz das garantias": ainda na busca do Sistema Constitucional Acusatório.