LITERATURA

“Músico nenhum leu ou escreveu mais” (Lloyd-Jones, 1976). Wagner é uma figura ímpar na
história da música, no que se refere a seu conhecimento de literatura, tanto das eras passadas quanto
de seu próprio tempo. Adolescente, absorveu as obras dos clássicos alemães (e Shakespeare) bem
como o mundo fascinante dos romances; manteve uma ligação estreita com os escritores conhecidos
como Junges Deutschland (Jovem Alemanha) partilhando de muitas de suas crenças; penetrou nas
sombras do pessimismo de Schopenhauer e endossou a crítica de Nietzsche aos valores culturais;
seus últimos anos foram encenados contra o pano de fundo do expansionismo do imperador
Guilherme. Suas bibliotecas não eram mera ostentação, mas sim testemunho de um desejo notável de
acompanhar as evoluções literárias e filosóficas, e os Diários de Cosima Wagner registram muitas
noites de discussões e leituras. (Para uma perspectiva alternativa, ver “Gostos Literários”, pp. 166-
8).
Duas influências precoces, Ludwig Geyer e Adolf Wagner, tiveram grande importância. As
ambições e os talentos teatrais de Geyer deram ao jovem adolescente consciência da grandeza dos
autores clássicos alemães, e acima de todos, Goethe. O jovem Wagner cresceu cercado pelo teatro,
com vários de seus colegas ligados de uma maneira ou de outra ao palco. Pôde ver em cena as peças
de Shakespeare, esse dramaturgo cuja influência sobre a literatura alemã (através das traduções
Wieland e, mais tarde, a mais famosa, Schlegel-Tieck) não há como exagerar. O Leubald, de Wagner,
pode ser encarado como uma tentativa juvenil de emular o Gõt7. von Berlichingen, de Goethe, e
outras peças de cavalaria e intriga cuja inspiração é atribuída a Shakespeare. O dramaturgo inglês era
encarado por muitos como um liberador, um autor mais próximo do espírito alemão do que do
espírito francês; foi assim que o jovem Goethe e o jovem Wagner o consideraram. O Wagner maduro
nunca deixou de admirar o génio do dramaturgo inglês, vendo em Shakespeare o mentor supremo.
“Ele é o meu único amigo espiritual”, afirmaria mais tarde (CT, 22 de maio de 1882).
A outra influência importante foi a do tio, Adolf Wagner. Este excêntrico era não apenas um
especialista em Shakespeare e nos gregos: estava impregnado dos textos românticos e fora
companheiro de E.T.A. Hoffmann. Wagner foi chamado de o beneficiário mais favorecido do
romantismo alemão, e reagia com entusiasmo ao mundo dos espíritos, medievalismo, figuras
artísticas e marginais, que esse movimento se comprazia em retratar. O romantismo na Alemanha
durou cerca de 30 anos, e Wagner o absorveu como nenhum outro músico. E Hoffmann, Tieck e
Fouqué o impressionaram profundamente, sendo Hoffmann uma influência poderosíssima. Em Der
Dichter und der Komponist (O poeta e o compositor) Wagner aprendeu a necessidade de uma ligação
indissolúvel entre libreto e música; Meister Martin der Kiifner und seine Gesellen (Mestre Martin, o
tanoeiro, e seus aprendizes) falava da Nuremberg do medievo tardio e seus mestres cantores; Die
Bergwerke zu Falun (As minas de Falun) o fascinou com sua descrição de minas e espíritos
subterrâneos; Der Kampf der Sanger (O torneio dos menestréis) descrevia um torneio de canções.
A admiração de Hoffmann por Cario Gozzi levou Wagner a usar La donna serpente (A mulher
serpente), deste último, como libreto para Die Feen. E Hoffmann foi também um compositor de uma

em oposição às restrições paralisantes: os primeiros esboços do Anel também devem muito à visão wagneriana de uma humanidade liberada. lendo a literatura de apoio. publicado pela primeira vez em 1818 e ignorado até a década de 1850. Wagner. em 1816. que continha a história Der getreue Eckart und der Tannhãuser (O fiel Eckart e Tannhãuser). O surgimento. da morte e da noite podem muito bem ter tido origem em Friedrich Schlegel e Novalis. Die deutsche Heldensage (As sagas heróicas alemãs). que buscou igualarem seus artigos para os jornais. As idéias de Heinse (Ardinghello) e da Jovem Alemanha haviam preparado o caminho: Wagner também conhecia Proudhon (lera O que é a propriedade? no verão de I 849) e. 1829). porém O mundo como vontade e. representava a contratendência que.certa reputação: sua ópera Undine. 1828. de Schopenhauer. O romantismo foi suplantado pela Jovem Alemanha. 1844). Em Dresden. admirando particularmente a coletânea Phantasus. desviou- . em 1854. Wienbarg. em 1835. ao lado das de Heine. de Wilhelm Grimm (Gottingen. de Karl Gutzkow. O regime conservador de Metternich (a época conhecida como Vormdrz) havia garantido a estabilidade política na Alemanha e na Áustria. agora Kapellmeister.54). Os temas do amor. sua biblioteca em Dresden conteria os 20 primeiros volumes dos Schriften de Tieck (Berlim. representação. baseada na cativante história de Fouqué sobre o espírito do elemento das águas (uma história que Wagner leu em voz alta à noite. um grupo informal de jovens escritores que buscavam rejeitar o fantástico e retratar os problemas contemporâneos: a revolução parisiense de 1830 fora sintomática da tentativa de se alcançar maior emancipação e liberdade política. De grande importância para Wagner seriam também a Deutsche Mythologie (Mitologia alemã). livre de restrições tanto políticas quanto sexuais. mais tarde. mais socialmente orientado. na véspera de sua morte) foi encenada em Berlim. foram proibidas pela censura. traduções e outras versões das sagas. 1819-22). do romance Wally die Zweiflerin (A mulher desconfiada). em Paris e outras cidades européias. em seu pessimismo. exultou com o fervor revolucionário daquele ano. mas os tremores de 1830 prefiguravam a explosão maior de atividades revolucionárias de 1848. tinha grande apelo para muitos que se haviam desiludido com o fracasso das revoluções de 1848-9. também simpatizava com muitas das idéias novas. Os textos de Wagner em Zurique eram originalmente inspirados pelo desejo de reformar a cultura alemã e retornar às entidades míticas da Antiguidade grega: sua leitura de Schopenhauer. com Bakunin. Mundt e Laube. de Jacob Grimm. Os fragmentos dramáticos de Jesus von Nazareth e Achilleus pretendiam retratar a liberdade e a moralidade naturais. da qual ele possuía a segunda edição (Gottingen. As filosofias materialistas de Feuerbach e Ludwig Bíichner correspondiam a uma perspectiva estimulada por um Weltanschauung anti-ro nântico. dos dois irmãos (Berlim. causara um autêntico tumulto e suas obras. dedicava-se a estudos intensos para o projeto Nibelungen. Admirava imensamente a capacidade jornalística deste último. Wagner chegou a Paris em 1839 e lá conheceu Heine (tiraria a idéia para O navio fantasma de Heine). sua leitura dos gregos e de Feuerbach concentrou-lhe o pensamento numa visão de humanidade emancipada. e a edição em três volumes dos Kinder. Wagner também leu muita coisa de Tieck.und Hausmãrchen (Contos de fadas).

vis o “problema” Wagner. Da literatura das eras passadas e da sua própria ele ganhou muito: para a literatura do século que chegava. apesar de Wagner não ter levado a sério a trilogia Nibelungen. aquela época de expansionismo comercial prussiano.r sjçofanJa aos Hohenzollem. de Hebbel. cujos retratos da opulência. exigia a autoglorificação. cria uma cena estereotipada óbvia. F. como Thomas Mann entendeu muito bem. dos valores materiais e das ambições predatórias daqueles anos constituem leitura exemplar. A apostasia posterior de Nietzsche é notória. Paul Heyse. orgulhoso de suas conquistas no campo de batalha e seguro na sua força industrial. mas no provincialismo. Vischer e Theodor Fontane freqiientemente se divertiam com sátiras e ironias vis- à. romance que rapidamente se tornou bestseller ao ser publicado. de Gottfried Keller cm Zurique. como a que era fabricada por Ernst von Wildenbruch. de Felix Dahn. Nietzsche ticou pasmo diante do conhecimento de Wagner da Antiguidade grega. RAYMOND FURNESS . Os mestres cantores de Nuremberg exalta aquela cidade durante o final da Idade Média. o conhecimento de Ludwig Tieck em Dresden. e a desilusão sentida diante dos fracassos das revoluções de 1848-9. proporcionando aos colaboradores da Revue Wagné. em 1876. uma literatura de louy<. E Parsifal já é uma obra que pressagia os requintes do simbolismo francês e da decadence. Monumentalismo e atitudes grandiloqiientes caracterizam grande parte da arte da década de 1870: o segundo Reich.lhe o pensamento para outros canais. levaram a um culto da renúncia entre muitos autores alemães e a uma ênfase não na sofisticação urbana. Gottfried Keller pode muito bem ter detectado um “senso de tragédia antiga” no poema Nibelungen. mas outros viram Wagner como um exemplo típico do Griinderzeit. O trabalho realizado por Wagner em Tristão e Isolda exemplificava a tendência à concentração numa introspecção arrebatada. e autores da estatura de Grillparzer. No que diz respeito ao contato de Wagner com figuras literárias. e comovido ao ver em sua obra o renascimento da tradição mítica grega.Th. A conquista da França pela Prussia suscitou grande fervor nacionalista e textos que louvavam o poderio alemão e o “Nibelungentreue”: o final de Ein Kampf um Rom (A luta por Roma).rienne um prisma místico para refletir em seu próprio brilho.niscente dos quadros históricos de Conrad Ferdinand Meyer. remi. Muito populares foram os romances de Friedrich Spielhagen. Sua amizade mais importante foi com Friedrich Nietzsche. A doutrina schopenhaueriana da negação da vontade. e de ter sido extremamente sarcástico sobre a Sappho. e dos dramaturgos Franz Grillparzer e Friedrich Hebbel em Viena são significativos. mas é ao mesmo tempo atávico e ultramoderno na sua fusão de mito e psicologia. A fama de Wagner começava a se espalhar: os sucessos de Tristão e Mestres cantores fizeram dele um fenómeno europeu. Mas Wagner é farinha de outro saco: O anel dos nibelungos pode parecer que cheira a Griinderzeit. deu incomparavelmente mais. de Grillparzer.