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XIX
A Projeção Internacional – O Império e os
seus Vizinhos – Fatalidade Histórica –
A Guerra de 1827

T ornando-se independente, o Brasil recebia do passado um grave
problema internacional para resolver: era o da fronteira do sul.
As três guerras externas que o Império sustentou, em 1825 –
28, em 1852 e em 1864 – 70, contra argentinos e uruguaios, contra o
ditador Rosa e contra o Paraguai, foram uma conseqüência, mais ou menos
distante, da política portuguesa no rio da Prata.
Sempre Portugal considerara o Prata como fronteira meridional
do Brasil, e por isso, a partir de 1679, até a guerra contra Artigas
(1816–20) disputara aos espanhóis, depois a argentinos e orientais, as
campinas em volta da colônia do Sacramento, de trágica história.
D. João VI prevalecera-se, em 1816, da situação de anarquia
em que se achava a Banda Oriental, depois da vitória de Artigas sobre
os espanhóis, e instigado pelo político de Buenos Aires, que temiam
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aquele general, fez invadir e conquistar todo o território do Uruguai.
Exilou-se Artigas para o Paraguai e o cabildo de Montevidéu (1821)

330 TELMO MANACORDA, Fructuoso Rivera, p. 42, Madri, 1938.

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votou a anexação do país ao Brasil português, com o nome de Província
Cisplatina.

A CISPLATINA
A nova província mandou ao Rio de Janeiro dois deputados,
em 1823, e até 1825 ocultou os sentimentos de emancipação, que um
grupo de patriotas cultivava nas conspirações nativistas. Essa trama não
podia lavrar em Montevidéu, ocupada por guarnição portuguesa; medrou
em Buenos Aires, cujo governo alimentava a esperança de reabsorver o
Uruguai; foi o sonho dos estadistas argentinos a recomposição do
vice-reinado, fragmentado nas guerras da Independência. A rivalidade
também decorria da tradição colonial. Estava em jogo o domínio das
águas do Paraná, que levavam ao Paraguai e a Mato Grosso. O Brasil,
com a sua forma de governo monárquico, era o vizinho poderoso e incô-
modo; a segurança da República parecia ameaçada pelo Império, naque-
le desbordamento sobre o pampa, defronte mesmo de Buenos Aires.
Cem anos de guerrilhas antecipavam a atitude argentina, em relação aos
conjurados uruguaios: com o apoio argentino puseram na Cisplatina as
armas audazes e iniciaram a sua campanha de libertação.
De começo, foram “trinta e três”.
Frutuoso Rivera, um dos chefes do Uruguai e servidor do
Império, desde 1820, abandonou a este e deu aos insurretos a oportuni-
dade da vitória. Um exército imperial foi batido em Sarandi, de surpresa.
O congresso “dos povos orientais”, reunido em Flórida, não
podendo declarar tão-somente a Independência, 331 votou – em 25 de
agosto de 1825 – a incorporação da Cisplatina às Províncias Unidas.
Em 4 de novembro, o governo de Buenos Aires notificou ao
do imperador que ajudaria por todos os meios os insurgentes, no afã de
expungir de tropas brasileiras o território uruguaio: “acelerará la evacua-
cion de los dos unicos puntos militares que quarnecen aun las tropas de
332
S. M. I...”.

331 Vd. H. D. Ensayo de Historia Patria, p. 470, Montevidéu, 1923.
332 CALÓGERAS, Política Exterior do Império, II, 416. Doc. in Assembleas Constituintes
Argentinas, II, 208 (edição organizada por Emilio Ravignani), Buenos Aires,
1937.

História da Civilização Brasileira 193

D. Pedro I declarou guerra à República, em 10 de dezembro.

INDEPENDÊNCIA DO URUGUAI
A esquadra brasileira bloqueou Buenos Aires. Mas, sem o
auxílio imediato de outras tropas, as da guarnição da Cisplatina conti-
nuaram a ceder aos independentes, chefiados por Lavaleja e Rivera.
Concentraram-se em Sant’Ana e aí se imobilizaram. Do seu pasmo as retirou
o marquês de Barbacena, nomeado para dirigir as operações contra um
exército invasor mais numeroso, comandado pelo General Carlos Maria
de Alvear.
Não podiam ser mais infelizes as condições da luta, se era
impopular em todo o Brasil e mesmo no Rio Grande do Sul; as províncias
não forneciam suficiente voluntariado; o parlamento combatia a política
do governo e este não atendia cabalmente as solicitações de Barbacena.
Resolveu D. Pedro I, em pessoa, observar a situação do seu
exército. Não pôde, entretanto, demorar-se no Rio Grande, devido à
notícia do inesperado falecimento da imperatriz.
Barbacena saiu contra Alvear, que investira pelas cochilas, e a
batalha se feriu no Passo do Rosário, a 20 de fevereiro de 1827. Foi o
único combate vultoso da campanha. A superioridade da cavalaria
argentina e oriental fez-se sentir no início da refrega, mas os quadrados
da infantaria brasileira não foram desmanchados. O prélio ocupou todas
as forças beligerantes até ao entardecer, quando, deitando o inimigo
fogo à macega, mandou Barbacena retirar, rumo ao Passo de S. Lourenço.
Alvear não tentou perseguir as forças imperiais; a batalha de Passo do
Rosário (ou Ituzaingó) interrompeu-se, sem resultados decisivos. No
mar, entretanto, sérios revezes sofrera a marinha do Império, na Patagônia
e no Juncal, compensados pela Vitória de Monte Santiago. O bloqueio
de Buenos Aires não pôde ser completo e houve o Brasil de responder a
franceses e ingleses pelos danos que lhes causou ao comércio. Por outro
lado, as dificuldades internas, que se agravavam, impedindo, do lado dos
argentinos, a continuação da campanha, induziram o governo de Buenos
Aires a oferecer a paz ao do Rio de Janeiro, antes que exércitos mais
numerosos entrassem em ação, e se realizasse o plano de Barbacena,
que era uma incursão pela província de Entre-Rios. Foi ao Rio o pleni-
potenciário Manuel José Garcia com a sua proposta de paz. Desde 10 de

194 Pedro Calmon

fevereiro de 28 o governo brasileiro manifestara a intenção de erigir a
Cisplatina em “Estado livre, separado e independente”.333 Aprovei-
tou-se da missão de Garcia para obter dele um tratado, que convertia a
Cisplatina numa província autônoma, mas protegida pelo Império. 334 O
povo de Buenos Aires fez romper as negociações. Lord Ponsonby,
ministro da Inglaterra, conduziu-as como mediador e, em resultado
delas, concertaram o Império e as Províncias Unidas a independência
completa do Uruguai (25 de agosto de 1828), que o Brasil defenderia,
em caso de agressão externa.

ROSAS
Terminava o conflito por uma vitória do espírito liberal e
generoso, destinado a caracterizar, pelo tempo adiante, a diplomacia bra-
sileira. 335
Apenas a nova República do Uruguai não podia manter a sua
soberania sem a forte, contínua vigilância do Império. Era um país mi -
núsculo, 336 de 72 mil habitantes (em 1850 eram 110 mil), cujos vizi-
nhos, em virtude das últimas lutas, se tinham ar mado excessivamente.
De fato, tanto que, no período regencial, as guerras civis desviaram o
Brasil da sua tradição diplomática, se viu que o perigo que ameaçava a
independência do Uruguai não fora um vão receio. Estalou, em 1885, a
revolução do Rio Grande do Sul. O governo da Confederação Argentina
caiu em mãos de João Manoel Rosa, réplica portenha do Dr. Francia, do
Paraguai. Rosa representava a outra face da mentalidade sul-americana,

333 SOUZA DOCCA, A Missão Ponsonby, p. 123, Porto Alegre, 1933. A intervenção
inglesa fora pedida de ambas as par tes. LUIS ALBERTO HERRERA, La Mision
Ponsonby, I, 11, Montevidéu, 1930.
334 ADOLFO I. BAEZ, Convencion pre liminar de paz en tre el Imperio del Brasil y la Re-
publica Argentina. p. 27, Bu e nos Ai res, 1929.
335 Vd. CARLOS ONETE Y VIANA, La Diplomacia del Brasil en el Rio de la Plata,
p. 9, Montevidéu, 1903. Palavras de Andrea Lamas: “No conosco um solo estadista
brasileño que no repila com horror la idéia de la incorporatión del Estado oriental
al Imperio del Brasil” (ARIOSTO D. GONZALES, El Manifiesto de Lamas en
1855, p. 19, Montevidéu, 1937).
336 Em 1821, rendia a Cisplatina 27.500 pesos mensais, e o exército português de
ocupação custava 97.567. Diário do Governo, cf. Argos de Buenos Ai res, 21 Dez,
1822, edição fac-similar, de Junta de Hist. y Numimatica, 1937.

as populações rurais.337 Em 1845. o governo imperial decidiu auxiliar diretamente os sitiados de Montevidéu: recomeçava a sua política intervencionista. Justo José Urquista. p. Fomentou a guerra entre os dois partidos. Rosas mandou sitiar Montevidéu. De- pois. com as suas esquadras. Rio. exigiram do governo de Buenos Aires o respeito aos princípios de direito internacional. 338 ANDRÉ LAMAS. 96. Oriental. 26. Foi preciso que o Brasil retomasse o ritmo das suas insti- tuições. O seu poder era absorvente. por algum tempo. Burlou a própria intervenção inglesa e francesa. gover- 337 A política brasileira na Rep. na própria Argentina. Manoel Oribe. e a procura. Não perdoava a Montevidéu o asilo que ali tinham os seus inimigos. uma guerra de agressão. . como reconheceu André Lamas. Enfrentou. para que as coisas mudassem de feição. a sua popularidade raiava em fanatismo e a sua ditadura era uma alternativa de terror e patriarcalismo. em bloqueio. D. Esta teve duas faces: o custeio da defesa de Montevidéu. 56–2. A Inglaterra e a França pouco ou nada obtiveram com as suas esquadras que. 1855. História da Civilização Brasileira 195 o pampa. O que não conseguiram. o europeísmo. em contraste com a capital. a pacificação do Rio Grande do Sul concluiu-se à voz de que no horizonte nacional o inimigo externo se levantava: seria Rosas. Notice sur la Republique orientale de Uruguay. p.338 obteve o Império com a sua diplomacia e uma divisão de exército. em 1844 (missão do Visconde de Abrantes). Paris. acolhidos e protegidos por Frutuoso Rivera. promover o reconhecimento da independência do Paraguai. Foi um assédio de dez anos. Buenos Aires. Vd. a Inglaterra e a França. o “gaúcho”. Em 1849. feito pelo Brasil em 14 de setembro do mesmo ano. a temeridade crioula. o liberalismo francês. Pedro II. 1854. mediante empréstimos ao governo uruguaio. por um brasileiro. p. Rosas tinha a malícia. e uma demonstração conjunta contra o governo de Rosas. de um apoio para a guerra a Buenos Aires. RICARDO FONT EZCURRA. a perseverança. Era a transição entre a expectativa e a ação. 1938. La Unidad Nacional. desafiou as grandes potências. precisamente por não terem grangeado a cooperação militar brasileira. que não fosse. Fez seu aliado o adversário e competidor de Rivera. simplesmente. com o advento de D. Um embaixador foi à Europa.

Rio. Urquisa e Porto Alegre concluíram.. um congresso deu-lhe uma construção sábia.000 soldados de elite. 1923. Mais lhe comprávamos do que vendíamos. . O imperialismo decorre de necessi- dades econômicas: no século XIX – induzido pela Inglaterra do XVIII – tomou a figura do expansionismo industrial. à obtenção e conservação de uma freguesia. O imperialismo brasileiro nunca existiu de fato: nem o soberano era um guerreiro. naturalmente. disfarçado em marinheiro. pôs em armas um exército de cerca de 20 mil homens e recebeu a ajuda de um corpo de exército brasileiro. inspirada por Alberdi. “secretamente ajustados”. as operações. 1926. e a República Argentina recuperou. se dirige. excessivamente aparelhados para o fornecimento comercial. subsídios e aliança. e o banqueiro brasileiro Ireneu Evangelista de Souza. foi a luta pelo mercado. 606. 296.339 por cinco tratados. comércio. 4. Aquele contrato foi substituído. 340 Foi o início da guerra a João Manoel Rosas. Mauá. para libertar Montevidéu e extinguir o consulado de Rosas. O Império não cobiçava terras alheias. de limites. em 12 de outubro de 1851. e a política exterior dos paí- ses. extra- dição. deu ao Brasil aquele apoio (tratado de 29 de maio de 1851): revoltou-se com a sua província. necessária. A superestrutura industrial conduz à conquista. p. nem a classe militar preponderava na política nacional. nos moldes da norte-americana. nem uma imposição aos povos limítrofes dos seus interesses. com um êxito fulminante. p. Em 6 de setembro de 1850 era assinado no Rio de Janeiro o contrato entre o representante dos sitiados de Montevidéu. Os sacrifícios de toda espécie feitos pelo Brasil. Urquisa reintegrou o seu país na civilização liberal. incumbido pelo go- verno imperial de fazer os fornecimentos em dinheiro. Montevidéu. Mas o Brasil não tinha indústrias que proteger nem o rio da Prata era seu mer- cado predileto. André Lamas. não visaram a outro lucro. Ensayo de Historia Pátria. 339 ALBERTO DE FARIA. se não afastar das fronteiras um vizinho indesejável. sob o comando do General Manoel Marques de Souza (depois conde de Porto Alegre). com o mesmo governo. em poucos anos. 340 H.196 Pedro Calmon nador de Entre-Rios. o largo tempo perdido. Em Santos Lugares – a 3 de fevereiro de 1852 – o exército do ditador foi completamente desbaratado e Rosas fugiu. num navio inglês. D.

que foi um violento apelo às forças vivas da nação e impressionou-lhe todas as fibras. de- clarou guerra ao Brasil.. cujas forças armadas somavam 80 mil ho- mens disciplinados por instrutores ingleses. era a negação de “classe”. De D. em 1831.”. em 1855 fora em missão à França. contentes dos seus galões. O PARAGUAI O Paraguai. que eram os senhores de engenho e os fazendeiros. os recrutamentos. Quando o Paraguai. A Guarda Nacional. pas- sara à presidência de Carlos Antonio Lopez.. .341 Rosas desafiou por muito tempo o Império. Nomeado ministro da Guerra de seu pai. tendo sucedido às antigas ordenanças. O militarismo não en- contrara ambiente no Brasil. em 1703. o 2º Lopez voltou imbuído das idéias francesas quanto a organização militar. deu-lhes escolas especiais. Brasil Pitoresco. No regime colonial. alemães e até brasileiros. cujo filho. que datavam das expedições de socorro à Colônia do Sacramento. 1859. Francisco Solano Lopez. porque nela mi litavam todos os cidadãos. Pedro II disse Ribeyrolles: “Jamais vieille tête de roi fut-elle plus tranquille. organizou um exército e uma armada nos moldes europeus. onde a aristocracia era agrícola e a indepen- dência e suavidade dos costumes se opunham à vida severa da caserna. O império desenvolveu o gosto pelo uniforme. com a morte do Dr. 139. ao esplendor do governo pessoal. Além disso. História da Civilização Brasileira 197 nem concordavam os partidos constitucionais numa intervenção siste- mática no rio da Prata. que não poderiam re sistir a poderosa artilharia das fortalezas inimigas. ao espírito napoleônico. satisfeitos na sua vaidade. Francia. Jovem. tinham impopularizado a carreira das armas nas classes intermediárias. mas não chegou a formar uma “classe” senão depois da guerra do Paraguai. muito mais numerosa do que o exército. ambici oso. nada fizera o go- ver no para modificar a situação. o nosso exército era de 15 mil homens dissemi- nados pelo país. por isso infensos a qualquer outro serviço militar. I. “El Supremo”. em reforço das fragatas de rodas. tratou de criar no seu país um 341 CHARLES RIBEYROLLES. Rio. Com os postos de ordenanças criara um vasto corpo de oficiais honorários. Apenas a marinha era pujante: porém só no decurso dessa guerra de 1864–70 adquiriu o Império monitores fluviais e navios encouraçados. inteligente.

correndo em auxílio de Aguirre. Este era amigo. A Argentina não a estranhou. Morreu o velho Lopez em 1862 e herdou-lhe o governo o filho. o destino da fronteira seca. Los Origines de la guerra del Paraguay. como ditador e marechal da nação paraguaia. III. 1933. Curuzu e Curupaiti.198 Pedro Calmon exército formidável. Corporifi- cou o sonho grandioso. o novo presidente convocou engenheiros e técnicos de várias procedências. 107. vingar mortes de brasileiros no país vizinho. sobre a origem próxima do conflito.. O Paraguai achava-se pronto para a guerra – a sua grande aventura – quando o Uruguai. que tornavam impossível a subida do rio Paraguai para Assunção. em 1864. 233. 1936. hostil ao Brasil. Já no governo do primeiro Lopez. punitiva. de P. depois da fundição de Ponta de Areia. tanto que Paisandu foi tomada e o exército imperial entrou em Montevidéu. EDUARDO ACEVEDO. achou azado o momento para agir. trad. em águas do rio Paraguai. p. troços irregulares do Rio Grande do Sul agravariam a situação. o vapor Marquês de Olinda. Foi o pretexto. com as próprias mãos. aquele. Análes Historicos del Uruguay.. teremos de ir às mãos com o Brasil em outro momento me nos favorável para nós! PELHAM HORTON BOX. a cujo bordo viajava o presi- 342 Insuspe ito autor diz que ao apresar o navio brasileiro Marquês de Olinda excla- mara Lopez: “Se não pegarmos agora. Foi a fatalidade de uma política de intervenção. aparelhou as fortalezas de Humaitá. Sem prévia declaração de guerra apresou. organizou uma frota fluvial de oito vapores modernos. não houvesse outras comparáveis às de Ibicuí e do arsenal de Assunção. mais uma vez suscitou a interferência brasileira. em 1861. montou ótimas oficinas metalúrgicas para fundição de canhões e fabrico de armamentos. Talvez na América do Sul. Montevidéu. 343 Vd. não se decidisse àquela atitude. . na previsão de um bloqueio que isolasse a República. Assunción. no Rio. Era uma questão entre o Uruguai e o Brasil e prendia-se a qua- renta anos de história diplomática. Numerosos vexames sofridos por brasilei- ros residentes na República determinaram uma demonstração militar. mas Francisco Solano Lopez. 343 Se o governo imperial. Ynsfran. uma missão de oficiais brasileiros de artilharia instruíra os oficiais paraguaios. tentando.342 A CAMPANHA DOS CINCO ANOS Desencadeara-se a guerra civil entre Aguirre e Flores.

o engajamento de batalhões de “voluntários da pátria”. retirando sobre Cuiabá – a retirada da Laguna – vítima da imprecisão dos conhecimentos geográficos. Desenvolveu-se em todo o país um entusiasmo marcial sem precedentes. que lhes levassem facilmente o socorro das guarnições do norte. no século anterior. Por isso chegaram os invasores. cortada a comu- nicação no rio Uruguai por barcas artilhadas.467). S. seguindo-se a Corte (11. Verificava-se. comandada pelo Coronel Camisão. onde corriam os rios Apa e Miranda. Mas de Uruguaiana.648). o Ceará (5. Pernambuco (7. iniciou a marcha uma divisão de 11 mil sobre o Rio Grande do Sul. que pôs cerco aos paraguaios naquela cidade. Pedro II e seus genros (conde d’Eu e duque de Saxe) quiseram presidir às operações. à fome. para cortar o caminho aos paraguaios.483). D.. .504). NOGUEIRA JAGUARIBE. na sua incursão pelo Rio Grande. Somente a Bahia enviou para o campo da luta 18 mil homens. Nenhuma das duas províncias se previnira contra a agressão. os atacantes não passaram. de um lado até Corum- bá. pela primeira vez depois da época brilhante de D. e tudo era des - conhecido naquelas regiões alagadiças. que as fronteiras meridionais de Mato Grosso não se ligavam aos centros de povoamento por estradas. a remessa das polícias. ∗ ∗ ∗ Imediatamente após a declaração de guerra. O governo imperial exigira de todos os presidentes de pro- víncias a convocação da guarda nacional.851).218 homens. Paulo (6. que impediram se juntasse a Estigarribia (coluna vanguardeira) o Major Duarte (retaguarda). levando de vencida a frágil resistência local. à fadiga. Luiz de Albuquerque. Paulo. A gente gaúcha deu os contingentes volantes que fizeram a vanguarda de um exército nacional. o Rio Grande do Sul (4.136). e. do outro até Uruguaiana. o governo para- guaio fez invadir Mato Grosso por uma expedição de mais de 3 mil homens.344 344 Dados estatísticos do Dr. coronel Frederico Carneiro de Campos – e dis - pôs-se a invadir com um corpo de exército a fronteira brasileira. História da Civilização Brasileira 199 dente de Mato Grosso. quantos de dez províncias marcharam. A expedição que partiu de S. a província do Rio (7. através de Corrientes. num total de 91.. foi imolada à peste.

passou debaixo dos fogos de Curupaiti e Humaitá. para cair à retaguarda das formidáveis posições inimigas das Lomas Valentinas. derrotou sucessivamente o exército de Lopez em Itororó. Esse assalto malogrou-se e caro custou aos aliados. desde 1867. por PINHEIRO GUIMARÃES. e. Triunfo preliminar. que acamparam diante da praça forte. Assunção rendeu-se. Atravessou o exército o Chaco. Sem marinha. Em ofício confiden- cial ao visconde do Rio Branco. conseguira a diplomacia brasileira o tratado de 1º de maio de 1865. infligiu ao exército inimigo o grande revés de Tuiuti (24 de maio de 66). na entrevista de Iataiti-Corá. Um Voluntário da Pátria. 1936). Avaí. com o auxílio da esquadra. Operou uma marcha de flanco. e havia de aceitar a guerra dentro de seu território. O ponto de vista do Império. Lopez não podia evitar o bloqueio. e a esquadra. Indignou-o até a primeira notícia sobre o fim trágico do pre- sidente paraguaio. Ele recusou essa única solução. subia embarcado o rio Paraguai. Estigarribia e o Major Duarte renderam-se. Bartolomé Mitre. e a frota paraguaia foi destruída pela armada brasileira em Riachuelo (11 de junho de 1865). Um exército de 40 mil soldados invadiu o território paraguaio.” (Cit. fora a paz antecedida da saída de Lopez do Paraguai. Era a terceira fase da guerra: a perseguição. não pensou em render-se.345 345 Não é verdade que fosse intenção do Imperador concluir a guerra com a morte do marechal Lopez. morreu Lopez. Rio. tomava Curuzu e atacava Curupaiti. que se robustecera com navios encouraçados e próprios para a navegação fluvial. Assumiu o comando em chefe o marquês de Caxias (18 de outubro de 1866). p. com a espada em punho. coligando a Argentina. O desenvolvimento posterior da luta – prolongada por tanto tempo em virtude da desesperada resistência de Lopez e das excelentes posições em que se entrincheirou – não foi mais de jeito a fazer duvidar dos seus destinos. o Uruguai e o Império na campanha contra o governo de Assunção. realmente. enquanto o 2º grupo (do conde de Porto Alegre). . ou de “tríplice aliança”. Angustura – e forçou o ditador a abrigar-se nas montanhas com os restos das suas forças. de 4 de abril de 1870. 178. onde se fixou. com o General D. com todos os seus soldados. Alcançado em 1º de março de 1870 às margens do Aquidaban-nigui.200 Pedro Calmon A guerra seria sem mais tardança ganha pelo Brasil. se ela se limitasse aos corpos expedicionários e à ação da esquadra. Ultimou-a o marechal conde d’Eu. que. o barão de Muritiba decla- rou: “Ao Cabo Chico (indigitado matador) não quer o Imperador consentir que se dêem honras militares ao menos enquanto não se desaparecerem as suspeitas a que me referi.

pois despendera mais de 600 mil contos. As suas forças armadas obtiveram. Não indicamos outras fontes. 5 vols. para com pre en são de toda a campanha. 156 (1929) e a completa História da Guerra da Tríplice Aliança. . a desilusão dos jovens militares condenados à vida medíocre e à estreiteza dos quadros dos tempos de paz. da qual não soube abusar.. 346 Ver. Foi a impaciência. História da Civilização Brasileira 201 Um lustro de guerra tão porfiada havia de influir grandemente nos destinos do Império. Porém a entrada de capitais estrangeiros. e influiu. Hist. do General TASSO FRAGOSO. aspirações novas. que acusava os políticos do sacrifício do exército com a maior prosperidade da burguesia. vol. O Império dispunha da hegemonia sul-americana. Mas importara do rio da Prata novas idéias. do descontentamento que lavrara no exército às vésperas da República). novas tendências. Entre 1870 e 1889. animados pelas concessões do governo imperial. um prestígio novo: veremos como foi o lento cerceamento desse prestígio que precipitou a queda da monarquia. a indiferança desta pela sorte das instituições – que armaram o ambiente às agitações dos últimos anos do Império. foram os melhores resultados econômicos de uma 346 luta tão ampla e sangrenta.. em contraste com as carreiras vertiginosas que se fizeram no Para- guai (uma das causas. Rev. apontou Cristiano Otoni. do Inst. de suprir as deficiências materiais que a guerra do Paraguai mostrara. recompôs em dez anos as finanças abaladas. pela popularidade dos seus generais. houve o desgaste gradual dos partidos políticos. uma maré montante de democracia. (1935). O Brasil. como mal-estar prenunciativo do dissídio entre o exército e o governo. e a orien- tação que este seguiu. dezenove anos de ebulição doutrinária. a História da Guerra do Paraguai. graças à sua capacidade econômica. limitando-se a consolidar as suas fronteiras históricas. de OTÁVIO PEREIRA DE SOUZA. Bras. por de ma is co nhe ci das. a irritação da classe militar. que nos consumiu 50 mil vidas.

. . . mimetismo e preocupação de conceitos “da moda”. exercido pelo soberano. . inspirado por Benjamin Constant. . para a qual tendia o Legislativo brasileiro. . nem as tendências da evolução nacional. que para cá se transplantaram. no seu permanente conflito com os Poderes Executivo e Moderador. . . . . Estabelecera uma nação unitária. o moderador. . 1880 e 1888. . quando ela se manisfestara descentralizada em todo o seu desenvolvimento. daltonismo político. resultante tanto das instituições portuguesas. como dos fatores sociais-geográficos do Brasil. . como as de 1832. . . . XX A Política Brasileira do 1º Re inado e da Regência – Evolução Democrática A organização política do Império tinha por base a velha municipalidade. corrigida no corredor do tempo pela revisão de 1834 e pelas leis ordinárias. . belo documento de liberalismo do tipo frânces. . cujo quarto poder. . A Constituição de 25 de março de 1824. . . que o imperador outorgou. 1847. . . foi o Brasil o primeiro Estado a adotar – não refletira o meio. O regime político seria inevitavelmente aquele parlamentarismo britânico. . Pouco sentimento econômico. . literários – inquinaram a Constituição da monarquia de uma imperfeição fundamental. 1841. .

347 Com os atritos e querelas entre a Câmara e o Governo. O Ato Adi- cional consagrou o federalismo moderado. e sentira o governo a necessidade de amparar-se aos próprios oradores. A forma unitária do Estado. Bernardo de Vasconcelos. De começo o imperador julgara dispensável a colaboração dos parlamentares no governo e limitara-se a lhes pedir leis: os códigos judiciários. A Câmara. dos ministros da Coroa. antes da reformra de 1847. propondo que comparecessem os ministros às discussões da Assembléia. . todas as suas forças econômi- cas e humanas. na política brasileira. que lhes permitiria desenvol- ver. assídua fiscalização dos negócios administrativos. a índole inglesa do sistema se acentuou. Isto até 20 de novembro de 1827. em 1826. 2ª ed. não pôde ser quebrada sem a queda do trono. Em parte a abdicação de D. 16. o julgamento severo 347 BERNARDO DE VANCONCELOS. que passa- vam a exercer direta. as amplas funções desta e a responsabilidade. municipal. vendo-se menosprezada. a monarquia era implicitamente parla- mentar – dadas as atribuições que tinha o imperante. quando se reuniu o parlamento. em contraste com o fato do cresci- mento e da civilização do país. inaugurando a primeira legislatura. não apenas para apresentar as propostas do governo. criminal. porém. conseqüente ao regime de 25 de março de 1824. p. perante ela. Pedro I prendeu-se ao mal-estar das províncias. Carta aos srs. A Câmara aprovara a indicação de Vasconcelos (em 9 de agosto de 1826) para que assistissem aos debates parlamentares os ministros. num crescente relevo. pagou a imperial indiferença com a censura eloqüente. as impertinências das comissões e de vários deputados cuja inteligência lhes grangeara excepcional prestígio. e 7 de abril de 1831. em harmonia com o poder nacional. fim do reinado. de dissolver a Câmara. O impulso para a forma inglesa do Parlamento deu-o. A DEMOCRACIA E O ABSOLUTISMO Entre 3 de maio de 1826.204 Pedro Calmon Realmente. se deu na Câmara e no Senado. o choque das correntes adversárias. eleitores da província de Minas Gerais. que criou a figura do presidente do conselho de ministro.

Instituía a prática de as- sociar-se o parlamento ao governo e fazer-se este dependente daquele: certamente o novo gabinete se manteria enquanto contasse com a maio- ria legislativa. Com a deportação do “Chalaça”. que de Londres lhe mandou o “Chalaça”. . acabara com o “gabinete secreto”. Barbacena governou prudente e lucida- mente. Maria II e para trazer a nova imperatriz. para seus ministros. contra os “conservadores”. no seu sono. sentia-se incompleta a Independência. abrira-se a questão portuguesa. caiu pela pressão e escândalos dessas críticas. cuja convivência comprazia a D. o horizonte (assim era na Europa). Maria II. sempre vista com inquietação e antipatia pelo Parlamento. cuja principal figura era José Clemente Pereira. o republicanismo. profe- rindo apenas estas palavras: “Augustos e digníssimos representantes da Nação Brasileira. Em 1828 começara Bernardo Pereira de Vas- concelos a evangelização liberal em Minas: contra o autoritarismo do poder supremo. Encerrara o imperador a sessão de 1829. Pe dro I pressentia aquela oposição uma tentativa de distrato constitucional. Nem D.” Em dezembro de 1829 lem - brou-se de pedir ao marquês de Barbacena – cheio de influência por duas felizes missões em que fora à Europa. está encerrada a sessão. Pedro. com o agrado dos deputados e a confiança das províncias. O gabinete. sobre as grandes despesas feitas por Barbacena nas suas missões à Europa.. para levar D. De fato. Pedro I naquele dia. secretário privado do imperador. contra os cerceadores da vontade popular. Em todos os atos de D. História da Civilização Brasileira 205 dos ministros da Coroa. Mas os planos do imperador eram outros. A fim de amainar a tempestade. Depois da guerra das Pro - víncias Unidas. Mas não era o imperador homem de cingir-se à mediocri- dade das suas funções de rei constitucional. como era chamado a roda de fâmulos portu- gueses. Foi o primeiro gabinete organizado por um ministro. Pedro. pejado de ameaças absolutistas. O Imperador irritava-se. encarre- gado de convidar os demais. D.. o federalismo. esqueci- das as promessas nacionalistas do Imperador. Amélia de Leuchtenberg – para formar governo. A mesma trepidação estendia-se ao norte e ao sul. chamou D. era a torrente filosófica da Independência que continuava a correr. despertando. três deputados. nem a Câmara cediam. resolveu demiti-lo para que. Ouvindo as denúncias. a maçonaria política. e a oposição se prevalecera do desassos- sego geral para verberar as transações feitas ou projetadas pelo Império com o partido da Rainha D.

Ocorrera. Paulo. Desaparecera. Cristóvão. da província de Minas Gerais. a indiferença ou a hostilidade dos mineiros. 13 de março de 1831. Por toda a parte o acolheram a frieza. Ecos das brigas. iria até às armas para restabelecer uma situação quase republicana. a Santa Aliança. como se obedecesse a esse plano. . Miguel. acariciasse D. Os brasileiros protestaram contra as luminárias. D. falto desse apoio formidável.. a retirada do poderoso titular alienou a tolerân- cia parlamentar. Talvez. e nomeou. para combater o irmão e restaurar o trono da filha. os portugueses iluminaram as ruas. Em Ouro Preto. poder vencer também o jacobinismo nascente no Brasil. já então. Estava-se em pleno romantismo político. porque era um dos poucos monarcas realmente consti- tucionais. Foi uma noite trágica. Pedro vencia a partida.206 Pedro Calmon fora do ministério. Em 5 de abril. fes - tejando a suas majestades. a vitória sorria-lhe na Europa. O Brasil dividiu-se em duas facções irreconciliáveis: a maior. D. em Portugal. seria incapaz de manter a ordem. De fato. assassinado em S. sinos dobraram afinados quando se avizinhavam o cortejo. Julgou. cada vez maior. a revolução de julho. Caíra Wellington na Inglaterra. em Paris. Minas não elegeu o próprio ministro do Império que acompa- nhou o imperador na sua viagem às montanhas – viagem impopular e melancólica. Não o con- seguiu.. Pedro a idéia. de abandonar o Brasil. que se lhe metera no cérebro desde 1829. porém. que produziu resultados contrários aos que obtivera ele em 1822. que se mostravam fracos. cairia em Portugal.. a indisposição dos patriotas e a prevenção. com a expulsão dos Bourbons e o advento de Luiz Felipe. Das sedições liberais. provasse a aplicação de importantes quantias. a das “garrafadas”. movida pelos chefes maçônicos e pelos autonomistas provinciais. intempestivamente. investindo os manifestantes. desde 13 de março. assaltos e tumultos chegaram a S. dizia-se que a mando do imperador. o susto. Pelo menos ele agiu. Pedro demitiu os ministros. O Ministério mostrava-se débil e as sustadíssimo. nos entrementes. na confusão dos acontecimentos. mas tolerantes. Era em memória do jornalista Líbero Badaró.. ABDICAÇÃO DO IMPERADOR De regresso à Corte. nacionalista. assim. O motivo era mesquinho. D. exaltadamente liberal.

A revo- lução de 1830. nas províncias. a filha. o pequeno D. História da Civilização Brasileira 207 um gabinete todo de cortesãos. feito de seus amigos pessoais. Em 6 de abril juntou-se no campo de Sant’Ana. na ante- manhã de 7 de abril. co - mum aos países sul-americanos. Embarcou. Pedro II. imperador menor. que foram os ideais dominantes em 1820 e 1821. o Major Miguel de Frias levou ao Imperador a intimação do povo. decretasse medidas de franco brasileirismo. Afinal passou para os revo- lucionários o governador das armas. e o espírito colonial. Estava-se na era da sociedade secreta. sangrento e dramático. do republicanismo e do feudalismo. com a violência dos seus processos de governo. O povo levantou-se. Brigadeiro Francisco de Lima e Silva. devia imediatamente seguir viagem. Também a guarda de S. Dir-se-ia que a nação se assenhoreara dos seus destinos. e a entregou ao Major Frias. Mas o seu impetuoso gênio não encontrou outra solução: apressadamente escreveu a sua abdicação à Coroa em favor do filho. para que demitisse os “marqueses” e. Renunciara. reputados palacianos e reacionários. Precipitava a crise. Pedro de Alcântara. D. unitária. D. exagerado até o jacobinismo. O imperador enfrentou-a. a revolta intelectual. porque aos insurretos faltavam um programa de governo e homens. porém igualmente sobre os destroços da maçonaria. despojou o regime do seu invólucro português e lhe definiu a mentalidade indígena e a cultura européia: foi. A guarnição aderiu pacificamente. o dualismo. os representantes da nação elegeram uma regência provisória (Lima e Silva. de estilo velho. não conseguiria jugular. fundada sobre os votos municipais. alguns fidalgos e criados portugueses. EXPERIÊNCIA REPUBLICANA A luta entre o espírito nacional. de 5 anos. exagerado até o despotismo. ela lhe derrubou o trono. D. Pedro podia transigir e agüentar-se. A nau inglesa Volage levou-o à Inglaterra. Reunidos no Senado. derramara sobre o Brasil os exemplos da . chamando os ministros despedidos em 5 de abril. pessoal. Vergueiro e Caravelas). Maria II. que pretendessem substituir o soberano. com a mu- lher. no século XIX. Cristóvão desertou. enfren- tando-a. em França. o dos “marqueses”. Noite velha. A monarquia. que governaria o Brasil em nome do Sr.

Entretanto. em 1831) e lavraram. no “regresso. À superstição do nacionalismo – contra a orientação portuguesa e européia da política exterior do Império depois de 1828 – se seguira a superstição democrá- tica. Eles fizeram de Evaristo da Veiga. inju- riava a dinastia.” Operou-se. Paulo. resolvida a crise pelo êxito do imperante. convertido à “conservação”. isto é. nem o federa- lismo se fez. porque o jacobinismo se insurgia contra o alto comércio. que em todo o mundo. como se a pátria estivesse em perigo. que na Aurora Fluminense construía a sua doutrina política. as autoridades. diríamos o leader. os políticos conservadores. inaugurou e encerrou uma fase de tentativas e experiência política. Os seus membros eram os delegados do exército. Pedro I no manifesto de Ouro Preto. estratégia. incendiando. associado a Bernardo de Vasconcelos. na Bahia e em Recife. nem se instituiu a democracia. imediatamente. pela prudência. que havia de terminar na aclamação prematura do segundo imperador. precipitou. sem peias. eleita pelo parlamento em 17 de junho de 1831 (Lima e Silva. Pedro I. galho do romantismo francês enxertado na árvore indígena. alarmada pela ideologia revolucionária (também acatólica e antiburguesa. A Abdicação foi por isso chamada de journée des dupes. unitaris- ta por excelência. via sobretudo idéias. comandada por Evaristo da Veiga. monarquista. Tanto a regência provisória como a permanente.208 Pedro Calmon insurreição popular. A imprensa açulou. embora essa ordem não fosse monárquica. para obviar à “destruição o seu agente político. na sua maior porção portuguesa). o reduto inex- . conduziu os aconte- cimentos. talento. e tiveram no Senado. que se editava no Rio. que encarnava a oposição de Minas Gerais. a imitar o Republico. que lhe sucedeu. e pregava o sistema americano. correndo em socorro da ordem. e da burguesia agrícola fanática da disciplina social. com a democracia e as idéias liberais que aqui. da aristocracia. Costa Carvalho e João Bráulio Muniz). temeu a repetição dos desastres do rio da Prata e se armou contra a dissolução nacional. Em 1830–31 a sentimentalidade política. apoiado pela ação maçônica e liberal em S. não exprimiam os sentimentos extremados da propaganda antimonárquica. As causas econômicas da Abdicação não eram claras. virulenta. a reação conservadora. A sociedade. que por ser vitalício reunia ainda devotados amigos de D. A im- prensa. fizeram “moda” (reconhecia-o o próprio D.

consolidou o respeito às instituições. Em 1831 a Câmara elaborou o seu projeto de reforma constitucional. foi destituído do cargo. em dias incertos de agitação. Houve mister de recorrer-se ao golpe de Estado. consideraram impossível o governo. e confinado na ilha de Paquetá. Foi o golpe de 30 de julho. Pedro II. que decidiriam a situação. que conservava a vitaliciedade do . Os deputados mineiros. que destruiria o Senado. e indebeláveis as crises supervenientes. Feijó. Uma Câmara em que predominavam os “abrilistas” votou o Ato Adicional (24 de agosto de 1834). As eleições de 1833 deram maioria absoluta aos liberais. nitidamente federalista. depois de lançado o ardil dos regentes. em 18 de agosto de 1831. porém cada vez mais enérgico em face das sucessivas revoltas militares. Mas a regência e os seus ministros. História da Civilização Brasileira 209 pugnável da ordem antiga. tutor de D. Foi-lhe para isto de decisiva importância a criação. o golpe falhou. a exigir do Legislativo excepcionais providências. em que todo o futuro político dependia da dissolução do Senado. quando o golpe de Estado fracassou. que pretendiam esclarecer a situação e for - çá-lo a aceitar. inclinado às contemporizações com a inquietação democrático-republicana. derrotado. em todas as conseqüências. entre estes o da justiça. chefe ostensivo do partido restaurador ou “caramuru”. teve-se medo à aventura. da Guarda Nacional. qual o da sua demissão conjunta. O Senado não aprovou o projeto. As urnas tornaram desnecessária e revolução branca. Até 30 de junho de 1832. possi- velmente. Entraram em acordo as partes desavindas. que o singularizava entre as forças constitucionais. o Padre Diogo Antônio Feijó. sem a transformação do parlamento em Convenção. agravadas pela existência de um partido restaurador. fiel às autoridades. que abolia a vitaliciedade do Senado e dava autonomia às províncias. tirando-se ao Senado aquela vitaliciedade. o programa dos extremistas. Voltaria ao poder em 1835. que se distinguira como implacável mantenedor da ordem pública na Corte. A consciência conservadora da Câmara reagiu em tempo de repelir a proposta de Convenção. auxiliar do exército e. mista de civil e militar. recuaram no momento preciso. exonerou-se. substituta dele. dos sectários de D. José Bonifácio. o governo do Brasil. Pedro I.

Ainda em 1835 eram extintos os morgadios. . chefiados por Evaristo. cujos principais dirigentes eram Costa Carvalho. Cairu. que ven- cera a jornada de 7 de abril. a sua vida financeira. Por isso ao segundo reinado faltou. o econo- mista de 1808. em virtude da doença de João Braulio Muniz. A regência trina desaparecera praticamente. com que ameaçou os políticos. criada pelo Ato Adicional. FEIJÓ Os adversários de Feijó não conseguiram opôr-lhe um nome. conservador e reacionário. qual uma fidal- guia-proprietária. que o afastara do governo. que congregasse os grupos moderado. o Brigadeiro Francisco de Lima e Silva. senhora da gleba. apesar do seu regime de feitio inglês. no Senado. a hierarquia. Somente os privilégios da primogenitura poderiam conservar uma nobreza territorial hereditária. Falecera em Lisboa (24 de setembro de 1834) D. Transformou-se em facção conservadora. Este representava o elemento militar da Corte. O candidato de Evaristo à regência una foi Diogo Antônio Feijó. Desaparecia com ele a facção restauradora. a sua polícia. Pedro I. de eleger Araújo Lima para a regência una. com a continuidade. que havia de vencer parlamentarmente o governo em 37 – Lima e Silva oscilava entre as suas funções consulares e a ditadura militar. a característica das monarquias européias. antes portanto da defecção de Bernardo de Vasconcelos. triunfante. mas concedia às províncias uma autonomia razoável. ficando elas com a sua Assembléia legislativa. fazendo regente. Holanda Cavalcanti e os Andradas. o homem que descobrira ao Brasil Adam Smith. Cairu foi vencido. a defesa ar mada da nova ordem de coisas contra a esboçada reação conservadora. a solidificar. e a teimosia de Costa Carvalho em conservar-se em S. no poder. Os liberais. e abolidas as restrições tradicionais à livre divisão da terra. que toda ficara aos ombros do terceiro-regente. à extinção dos morgadios: era a monarquia aristocrática que se bania do Império.210 Pedro Calmon Senado. opôs-se. e significava. Em 1834. caso levassem por diante o plano da elite conservadora. Paulo. que deu origem ao “partido do centro”. alheio à administração. completaram a tarefa.

História da Civilização Brasileira 211 O episódio ficou nos bastidores. em conf. 20 de setembro de 1932. rebelados contra a carestia 348 Doc. A. em ambas as províncias é um partido que tenta esmagar o outro. p. em descontentamento social. de Ho nó rio Her me to. no Inst. o Regente Lima e Silva acusava o Marechal Barreto de solidário com a conspiração reacionária. por H. 1ª sé rie. etc. 351 Este apela para as armas. 15. os homens das cidades. LEÃO TEIXEIRA. em 20 de janeiro de 34. destinada a elevar ao Governo Pedro de Araújo Lima. de que não entregaria a regência àquele adversário. 31. MARINHO. p. A revolução continuava a sua ronda. conferência sobre a ideologia federalista na re vo lu ção far rou pi lha. No Pará e no Rio Grande do Sul estouraram as sedições. cit. revelado por SOUSA DOCCA. Escrevendo ao Coronel Bento Gonçalves. repu- blicana e separatista.350 Pisava-se em um terreno vulcânico. Rio. O desequilíbrio. no Instituto Histórico. estendia-se às mais longínquas províncias. pobres contra ricos. no Rio Grande. feita pelos inimigos do 7 de abril. Tanto no Pará como no Rio Grande. Por to Ale gre. Mas o norte não abria mão do nome de Holanda Cavalcanti. naturalmente desviou o rumo da política no sentido de uma candidatura francamente liberal – a que se contrapuseram outras. e a guerra civil ensangüenta vastas regiões. História do movimento político. Fala-se. WALTER SPALDING. 1932. produzido em 1831. . e avisava ao caudilho que no ano seguinte seria o chefe da revolução farroupilha. 351 Vd. 1844.348 A ameaça de Francisco de Lima e Silva. de não entregar o governo a um regente da facção contrária aos abrilistas. Farrapos. porém o antigo ministro da justiça não tinha probabilidades de um governo sereno e útil. A divisão dos votos importou a vitória de Feijó. Hist. 350 J. 349 Doc. 1931. afinal. conforme a cabala desenvolvida por Almeida Torres (futuro visconde de Macaé) e Manoel Antonio Galvão. pela primeira vez. que a traíra no seu ministério de 3 de agosto – 13 de setembro de 32. a revolta se define.. Até a última hora. de transação ou acomodação. e uma milícia indisciplinada era o reflexo de uma política violenta. a candidatura de Costa Car valho era a predileta dos ele mentos in termediários en tre a es querda-abrilista e a 349 direita-retrógrada.

Desde 7 de abril de 1831 as “rusgas”. os seus governichos. o mais inteligente e popular dos colaboradores de feijó. em que se emparceiravam soldados e desordeiros.. as tropelias. O quadro do Império. a revolta de Ouro Preto. Foram no Rio as sedições de 12 de julho de 31. que explora o dissídio aberto entre a Igreja e Feijó. Daí o “terceiro partido”. S. a revolução gaúcha e a explosão revolucionária da Bahia. nem a sociedade parecia firme nos seus recentes alicerces. como sendo as mais sombrias.353 gênese do “conservador”. isto é. a crise financeira. G. e daí a tempestade parlamentar. Nem a união nacional estava assegurada. p. a “Setembrizada” de Pernambuco. e também opostos a aristocracia de barões – fazendeiros. Campos. 352 Vd. o enfraquecimento do governo em face dos aconteci- mentos do extremo norte e do extremo sul. a saudade dos tempos pacíficos. sobre o assunto. Em alguns pontos é a anarquia apenas que se manifesta em atos de banditismo e licença. Duas palavras imparciais sobre o terceiro partido. e. a “reforma”. em 1834. que em 1837 se desempenhou sobre a regência. os tumultos. em Pernambuco e Alagoas e no Pará. em 1837. preconizado por Vasconcelos. Ensaia-se. vacilante.352 Por outro lado. o ambiente político da Corte se turva com a reação conservadora. 7 e 16 de abril de 32. em outros é a imitação da América espanhola. S. a defecção de Vasconcelos. Espírito da So ci edade Imperial. Paulo. o desprezo por novas aventuras. 4. o saque de Vitória pelo batalhão 26. . o do “regresso”. que acompanha o período de lutas. 1835. confusão e pessimismo. a matança dos portugueses em Mato Grosso (1834). a desilusão.212 Pedro Calmon dos gêneros e os negociantes. os motins da Bahia. as execuções dos pri- sioneiros. esmagando-a. 1937. enfim o levante dos “cabanos”. 353 J. a lei marcial. oferecia ao estrangeiro perspectiva de insegurança. a morte do Evaristo. que em 1836 se declara por um “partido do centro”.... ou “terceiro partido”. a barbárie na luta e o idealismo na doutrinação.. nossa História Social do Brasil. que eram as quarteladas. por toda parte. com as suas “ditaduras”. ao morrer Evaristo da Veiga. 2º volume. ameaçavam o Estado.. que Alcide d’Orbigny interpretara. em 37. Mas a crise externa e profunda determina a impaciência. o ódio político.

. culto e hábil. sem as classes conservadoras. . no fundo. O homem indicado para substituí-lo era o presidente da Câmara. . cedeu afinal Feijó. . na ordem. . . cerceado e investido por todos os meios. . . . uma revolução democrática na Bahia. Rompeu. pelos mais brilhantes oradores da legislatura. desde 1823. conceituado entre os conservadores-moderados. Pedro II A Câmara passou a dominar. . Nomeou-o Feijó ministro do Império e transferiu-lhe o poder. . . Pedro de Araújo Lima. em 7 de novembro. . Não podia governar sem orçamentos. . mas. XXI O Advento de D. Intentava proclamar a independência da província. . Araújo Lima escolheu para ministros alguns dos mais famosos adversários parlamentares de Feijó e iniciou com eles o reajustamento do Império na monarquia. . . . . . no “regresso” (como à nova política chamaram os “abrilistas”). . sem as províncias. . os insucessos das tropas legais no Rio Grande do Sul formaram um ambiente insustentável para o governo. enquanto fosse menor o imperador. . . Era em 19 de setembro de 1837. tinha índole semelhante à de . . filho do norte e.

(Docs. Desde que não tinha podido fazer uma república temporã. seus inimigos. os dramas da regência. 355 O meio era-lhes propício.. mandando um exército que reconquistasse o sul de Santa Catarina e atacasse pelo norte os “farrapos”.. 1937. na dedicação à monarquia. no Instituto Histórico da Bahia. Chapel Hill. Tramaram a conspiração da Maioridade. que divulgamos em conferência. para onde o transferira preso o governo. explodiu a rovolta do Sabino. Bahia. em 8 de março de 1937. depois da derrota do Fanfa. vd. de 1837–1840. 1937 (livro perfeita- mente documentado). a 7 de novembro. 355 Em dezembro de 1835 já assim pensava o general Francisco de Lima e Silva.214 Pedro Calmon Piratini. a reação contra oito anos de uma experiência democrática violenta.” Também no Brasil foi o horror ao caudilhismo que desenca- deou a reação monárquica. logicamente. extemporâneo também.354 Em quatro meses a dominou. Dom Pe dro the Mag na ni mous. o governo cen- tral. Mobilizou os recursos bélicos de que podia dispor contra os republi- canos do Rio Grande. Rio. e a idéia monárquica. Fatigara-se o Brasil com os incidentes.. os motins. cf. Pedro II. A CONSPIRAÇÃO DA MAIORIDADE Os liberais de 1831 e 34. Queriam que D. 48. an tes de voltar ao Rio Gran- de. prepararam a desforra adian- tando-se aos conservadores. Disse Proudhon: “Em 1848 o horror ao comunismo precipitou a sociedade européia numa retrogradação da qual apenas se percebe o fim. transformados. e uma armada que os expulsasse das cidades litorâneas. restabeleceriam um trono. p. os antigos extremistas. já e já. a 1ª da Série comemorativa do centenário da “Sabinada”. MARY W. devia o caudilho ter doutrinado os seus correligionários. e LUIZ VIANNA FILHO. que ensejara todas as manifestações da fragilidade nacional e da deseducação das massas. 354 Bento Gonçalves da Silva fugira do forte do Mar. BRAZ DO AMARAL. as atas das “lojas” Vir tu de e Fidelidade e Benefi- cência). os partidários do padre Feijó. graças aos au- xílios da maçonaria da Bahia. ms. fora gi do. voltara a dominar o país. o governo da nação. pela influência de Evaristo. em 5 de outubro de 1837. que interromperia o período regencial. WILLIAMS. A Sabinada. Vd. 1909. em campeões da regência democrática e do Estado federal. . com 14 anos de idade. No pouco tempo em que aí esteve. Foi. propagada pelas classes conservadoras. Sobre esta. a ferro e fogo. A Sabinada . assumisse.

Uma delegação do parlamento levou a D. Pedro II o ofereci- mento da sua imediata “maioridade”. segundo Teófilo Otoni. razões do seu êxito. com os quais subiu o partido liberal. Pedro II foi aclamado. D. conseguiram amainar os ódios facciosos que se extremavam – fenômeno comum ao sistema – nas eleições de renovação da Câmara. graças à iniciativa de José Martiniano de Alencar. nem a prudência do soberano. REAÇÃO MONÁRQUICA A política graças à substituição de um regente. Antônio Carlos a propor . o club da “maioridade”. partidário. como Aureliano Coutinho. maçonicamente. Era o fim da regência. pela instituição do Conselho de Estado vitalício. um antigo democrata. e o marquês de Itanhaen. Já. A “reação” monárquica. Obteve a simpatia das pessoas íntimas do Paço. A ação intempestiva dos “maioristas” teve oportunidade e veemência. que saíra à mãe austríaca. tão populares em 1831. Formou-se. sensibilizou. Tentara em vão o regente conjurar a crise. o colapso da situação conservadora. e convi- dou para seus ministros alguns dos chefes “maioristas”. que passava por ser o homem mais chegado ao menino imperador. a queda de Araújo Lima. Com a forma de sociedade secreta. Incorporou às suas fileiras os deputados em posição ao governo. irresponsável. conduzida para a frente pelos seus adversários de 1837. História da Civilização Brasileira 215 Havia em S. querendo cada qual melhor concorrer para o seu esplendor. Desfechou o golpe a 22 de julho de 1840. precoce nos estudos e na firmeza do caráter. A incapacidade do poder temporário para manter a tranqüilidade nas províncias des - moralizara muitas das idéias. o novo partido prosperou. pela Coroa. que ele aceitou. apostavam os deputados em lisonjear o trono. porém. Cristóvão um imperador in nomine. fazia-se agora com outros fatores. experimentou conter a Câmara. quantas durou o governo. tutor deste. entusiasmou a capital. compreendia a consolidação do trono. Pedro II devia reinar. Era uma espe- rançosa criança. chamando para ministro do Império Bernardo de Vasconcelos – que por nove horas. D. salvar a regência. O golpe de Estado – a que anuíra o imperador – comoveu. Nem a popularidade do governo. enfrentar a tempestade.

no ano seguinte. fermentou em S. foi de 240 contos.. no orçamento que precedeu à maioridade.. chamados ao governo em 23 de maio de 1841. Navarro. Paulo e Mi - nas Gerais as sedições de 1842 – as mais sérias do segundo reinado – e às quais se associaram o padre Feijó e Teófilo Otoni. . recor- reram às armas..216 Pedro Calmon a dotação de 800 contos. do presidente do Conselho. tinha de atravessar provações gravíssimas. Aureliano e os válidos do Paço formavam. A coroação do imperador. A VITÓRIA DO ESPÍRITO CONSERVADOR O império. Com a dissolução da Câmara. e estas não lhes valeram. p. que desequilibrava as influências legítimas da política. o “partido áulico”. que acharia na sua simplificação o remédio para as crises periódicas. dos seus interesseiros correligionários de 1810. 2ª ed. encontrou de cima os conservadores. obviar às duas organizações que reputavam antidemocráticas e contrárias a toda a obra de descentralização e de liberalismo da regência: o Conselho de Estado (lei de 23 de novembro) e a lei de reorganização judiciária. mas nem sempre serenos servidores. a acobertar o monarca. O parlamentarismo não tinha ainda a figura essencial. Eram as lutas preparatórias de um regime apenas esboçado. que levou a data de 3 de dezembro. que sujeitara as eleições à direta influência governamental. A dotação do imperador. Os liberais debalde procuraram. Esse abandono. um jovem idealista e um velho desiludido. baldos os seus esforços. cercada de honestos. Foi elevada para 800 contos por de cre to de 28 de agos to de 1840. numa sessão legislativa memorável. Circular aos eleitores. confiado ao bom senso e à austeridade precoce de uma criança letrada. dentro de 15 dias um ministério liberal terá suspendido a lei inconstitucional de 3 de dezembro e a do Conselho de 356 TEÓFILO OTONI. à sombra deste.356 Parecia extinto o gérmem democrático na Assembléia.. nem podiam os adversários tolerar a lei de 3 de dezembro de 1841. a de 1000 contos. festa que estabeleceu uma trégua entre os políticos. pela Coroa. 151. “Dentro de três dias estamos no palácio de Ouro Preto.

a da renovação. O imperador exerceu discricionariamente essa faculdade dis - ciplinar do Poder Moderador. 1857–1868. Mas. e a das reformas. tão em desacordo com os exemplos da vizinhança.. cujo poder pessoal atravessou a larga época de 1840 a 1889 – consumou a paz e tornou possível. só dois países se manti- nham em ordem: a República do Brasil e o Império do Chile. não ultrapassou determinado prazo. a da conciliação. de S. História da Civilização Brasileira 217 Estado e terá anulado o decreto inconstitucional que dispersou os repre- sentantes da nação” – proclamara Otoni. 170 e 204 pas sim. criando molas e pára-choques que passaram a funcionar sob as vistas fiscais do imperador. ou fosse a da imperfeição do organismo parlamentar. Pedro II. Ao tombar o trono. AFONSO CELSO. Pa u lo. o apelo às urnas ou o aceno do Moderador. alguns o exílio. B. apenas suficiente para a arregimentação dos seus recursos parlamentares. . anglicanizando-se. diria Rojas Paul. derrotados que foram em Venda Grande e Santa Luzia pelo exército legal. desde que o “ostracismo”. a saúde das instituições estava no seu ritmo. sendo afinal anistiados todos. Agassis que. págs. pelo período regencial além. pre- sidente da Venezuela: “Se ha acabado la unica Republica que existia en America: el Imperio del Brasil. 1840–1847. que J. 1847–1853. A política. a que se recolhiam os grupos decaídos. Alberdi considerava o nosso caso como o “milagre do Brasil”. Evidentemente. por estas. que procurou sobrepor um interesse nacional ao dos partidos. em 1889. Escre- vera antes Mr. 1583–1857. o respeito a certos princípios que faziam a “ética” do governo. na história da América do Sul. determinando o revezamento das facções e. a dos partidos clássicos.357 Quanto à sua vida política. com o desenvolvimento dos ideais a evolução da democracia no Brasil. Comp. Melh. mais continuado período de tranqüilidade. 1868–1889. os principais conspiradores sofreram prisão e processo. aperfeiçoando-se.. outros o julgamento pelo júri. A revolução que estalou em Pernambuco em 1848 – já pacifi- cado o Rio Grande do Sul desde 1845 – fechou o ciclo das agitações de aspecto cívico-militar que perturbaram. Oito Anos de Parlamento – Poder Pessoal de D. Não há. 357 Vd. “una democracia con corona”. o Império pode ser estudado em cinco fases: a do “poder pessoal”. na América do Sul.” Chamara-lhe Mitre. quando os partidos se ajustavam aos novos problemas políticos. a vida na nação.

e a sua experiência do comércio inglês. . pelas companhias de colonização. os grandes melhoramentos técnicos que o século XIX trouxera à Esperamos trinta anos pela locomotiva. . pela indústria que. . . com operários que contrataria na Inglaterra. . 3 na Bibl. . País de matérias-primas – o Brasil contentara-se em exportar. . . em bruto. . a Europa. . dois dos estabelecimentos portugueses que mais forneciam à praça. para serem estampados nas fazendas fa bri ca das no Rato e em Torres Novas. . propusera debalde o negociante da Bahia Francisco Inácio de Siqueira Nobre. pelo maqui- nário agrícola. . o seu fumo. . . Lembrava que até então era costume mandarem os negociantes da Bahia debuchos. com os desenhos ao gosto do povo. . as suas peles. instalar uma fábrica de fiação. ms. . Em 1808. o seu açúcar. . transformara a Inglaterra – e. 358 A Inglaterra tinha de começo o virtual 358 Doc. XXII O Progresso Material – O Domínio da Máquina – O Império e As Realizações Industriais – Nova Agricultura À vida moderna. em 1820. por um regime bancário. o seu café – e importar as manufaturas inglesas. . . . América do Sul chegaram. ainda mais pela navegação de vapor.. . . durante oito anos de grosso trato. . . retardados de muitos anos. pela iluminação de gás. o seu algodão. Nac. I. . Alegava o requerente ter pago direitos no valor de 100 contos. quarenta pelas fábricas de fiação. em 1800. 31. . francesas e norte-americanas. 27.

quando se esgotou o prazo do tratado de comércio. a que se se - guiu. a universal industrialização. sem os riscos do embarque nem as surpresas do câmbio. . Complicou-se o problema com a política colonial britânica. se assinala por uma série de incidentes diplomáticos com a Inglaterra. A guerra ao tráfico negreiro tornou odiosa às nossas populações a bandeira inglesa. a situação não foi particularmente danosa ao Brasil. e donde melhor empregar o capital ganho.220 Pedro Calmon monopólio do nosso comércio graças ao tratado de 1810. equiparando de vez aquela às demais nações que conosco tratavam. com o lento trabalho de emancipação econômica. a pressão da opinião exigiu uma atitude de reservas para com o poderoso Império. e pelo número destes (300 a 400 para os engenhos. e não há. por dois anos. invertia-o o lavrador em escravos. interesses mais divergentes que os da indústria e da agricultura – da manufatura de Manchester e da matéria-prima brasileira. 80 e 100 para as fazendas sertanejas) estimava a sua fortuna. substituía o homem pela máquina. a suspensão de relações diplomáticas entre o Brasil e a Inglaterra – teve o mérito de finalizar as pendências que vinham do reinado de D. O equilíbrio era satisfatório então porque ao interesse do comprador se juntava o do vendedor. a 1863. e desse estremecimento de relações se aproveitaram as indústrias nor- te-americana e francesa. Mas essa rotina desafiava a ampla. e os produtores achavam pronto consumo para a sua mercadoria. que. João VI. com a exportação progressiva do algodão para suas fábricas. como no de Paranaguá em 1850. restringindo gradualmente a capacidade aquisitiva dos povos entre si. que preferiam ter aqui o seu escritório de correta- gem. por toda parte. sim a Portugal e aos concorrentes industriais dos ingleses. À falta de bancos reguladores da circulação. Isto até 1823. mas. acorriam às nossas praças os negociantes ingleses. em 1862. o parlamento fez-se eco dos sucessivos atentados à propriedade particular brasileira cometidos pelos cruzeiros ingleses até dentro dos nossos portos. A questão de Christie. Os monopólios são impopulares. afinal. Ocorreu o inevitável. que de 1813.

Em 1841. não havia na Corte quem pudesse suceder-lhe. Em 1835 o parlamento votara a construção de estradas de ferro que ligassem à Corte S. no Rio. Paulo. o Wilkinson brasileiro).. Somente a partir de 1847. 1. Minas e Bahia: esse sonho não começou a realizar-se senão dezessete anos mais tarde. confessava nunca ter visto. Mas o primeiro navio de vapor adquirido pelo governo imperial tivera de ser abandonado – diz nas suas Memórias o Almirante Jaceguai – porque. professor da Academia de Marinha. 359 CRISTIANO OTONI. 1 ª parte. quando a América do Norte já era um irradiante empório industrial. a mais poderosa das quais a da fundição de Ponta da Areia. Sem esse favor aduaneiro. e em 1817 Felisberto Caldeira (Barbacena) fizera vir para a Bahia uma barca de vapor. 76. em Pernambuco surgiram as grandes indústrias. ms. Memórias. que ainda em 1824 conduzira à Cachoeira D. morrendo-lhe o maquinista. Cristiano Otoni. eliminaria a nacional. História da Civilização Brasileira 221 Pois a industrialização do Brasil decorreu dessa reação nacio- nalista e foi possível a partir de 1844. início da nossa verdadeira inde- pendência alfandegária. razão do desenvolvimento industrial da Alemanha no século XIX. p. A fórmula vitoriosa tinha sido a de Bernardo de Vasconcelos (1828): “Favor e opressão significam o mesmo em matéria de indústria. Bastara para isto a adoção de uma pauta alfandegária prote- tora.” Agora se entendia que o favor significava aparelhamento do país para a própria defesa (com a indústria metalúrgica) e a sua emanci- pação do produtor estrangeiro. na Bahia. em funcionamento. no ministério Caravelas (1844). a exemplo do que acabava de ser feito na Prússia. cada vez mais abundante. mais cara e ainda grosseira. . 359 É verdade que desde 1815 os senhores de engenho introduziam nas suas fábricas os maquinismos que tinham aumentado prodigiosa- mente a produção açucareira de Cuba.. a manufatura estrangeira. barata e excelente. uma máquina de va - por. Pedro I. criada por Ireneu Evangelista de Souza (depois visconde de Mauá.

tornaram-se a obsessão de alguns homens arrojados. Mariano Procópio. de vez que a fizera com os seus próprios recursos. em 1841. O problema das comunicações seduz os espíritos. inaugurando a estrada – que nada devia ainda ao governo. são os gigantes da idéia ferro e rodoviária: e arrastam no seu entusiasmo e na sua audácia os governos. sempre lerda e in- crédula. .360 Antecipava-se o realizador à administração. que tanto lembravam os séculos XVII e XVIII. a rica família de Vassouras que sonhava o prolongamento dos trilhos da primeira estrada de ferro do governo – a “D.222 Pedro Calmon O problema industrial brasileiro cingia-se a essas condições econômicas. ligando o litoral às montanhas centrais. Bernardo de Vasconcelos dissera que uma estrada para Minas teria de malograr-se por falta de cargas. a quem resistem os estadistas forrados de ceticismo. ao exemplo de Mauá. quando. lançou-os Ireneu Evangelista de Souza. Em 30 de abril de 1854 correu a primeira locomotiva. Joaquim Teixeira Leite. A lavoura cafeeira progride extraordinariamente. Pedro II” – até o seu município. que lhes dá ganho de causa. AS ESTRADAS Em 1850. principalmente na praça do Rio. Diz Pereira da Silva que. Ferreira Lage. p. Mauá. e 1. ajudados pelo imperador. entre o porto de Estrela e a raiz da Serra de Petró- polis.200 contos subscritos por amigos pessoais. Os velhos projetos de estradas de ferro ou caminhos carro- çáveis. Os primeiros quinze quilômetros de trilhos. Paraná não queria atender às pretensões dos Teixeira Leite. mas o escoamento das safras é difícil. Mauá. 165. a abolição do tráfico desocupou importantes capi- tais. “exaltaram-se os 360 ALBERTO DE FARIA. a agricultura continuaria a ser a riqueza real e característica. Os ricos armadores e os comanditários do negócio negreiro sentiram-se atraídos pelas iniciativas industriais. que repetem Thiers. através das serras de Minas. Cristiano Otoni. achava que as vias fér- reas não convinham à França.

tornou possível a formação de empresas de construção ferroviária: garantia o governo o juro de 5% ao capital despendido na mesma construção e dilatava. o concessionário primitivo teve um prazo para a apre - sentação dos estudos nesta base. De- balde o concessionário procurara capitais estrangeiros. Viu-se então que o número de candidatos era considerável. até 90 anos. e sem uma garantia de juros – pedida por Coch rane ao par- lamento em 1848 – os recursos financeiros não viriam. Em 1840 obtivera Tomaz Cochrane a concessão exclusiva de uma linha férrea da Pavuna a Rezende. História da Civilização Brasileira 223 espíritos e por toda parte requereram-se idênticas empresas”. e porque já houvesse quem se animasse a fazer a estrada sem garantia de juros. com um privilégio de 50 anos em 7 de agosto de 1852. na opinião de Agassiz. ano XIX. p. vo tada pela assembléia. Tornava-se preciso transpor a serrania: foi a companhia União e Indústria. O milagre surgiu graças ao sistema – posto em prática pelo governo russo e adotado em 1850 pela própria Inglaterra – da garantia de juros ao capital empregado. A lei. que Mauá também se obrigara a instalar na Corte. em que seria o preferido em igualdade de condições. o prazo do privilégio. doze milhões de arrobas de gêneros de Minas Gerais. que no regime anterior era de 40 anos. Em menos de dez anos ela comunicaria a Raiz da Serra a Juiz de Fora. . Pedro II. natural de Barbacena. atravessando a Serra do Mar. sujeitou-se Cochrane à concorrência. iniciados os trabalhos em 12 de abril de 56. e sancionada em 26 de junho de 1852. dificultando-lhe sobremodo a exportação dos produtos de sua abundante agricultura. Nova concorrência foi feita em Londres. que isolava aquela província. chegava a Juiz de Fora em 23 de junho de 1861 – e desciam por ela. 138.361 O máximo problema da viação brasileira parecia a Mantiqueira. Resolveu-o a Estrada de Ferro D. a iluminação de gás. a melhor estrada do mundo. Foi um símbolo da nova era. e afinal abriu mão dos seus direitos. Os favores da lei ainda eram inferiores aos que na Europa se prometiam. e inaugurou em 25 de março de 1854. Concedida. para a realização dos seus projetos. cujo animador era o engenheiro Mariano Procópio. que assumiu o encargo de construir uma excelente estrada para carros. Em má hora – porque a Guerra 361 Revista do Arquivo Público Mineiro.

futuros realizadores de equivalentes audácias de engenharia. correndo depois o financiamento por conta de companhia nacional que se organizasse. garantido. disse Cristiano Otoni.. transpondo a serra do Cubatão por uma série de planos inclinados pelo sistema funicular.224 Pedro Calmon da Criméia causara o retraimento dos banqueiros e não havia ca pita- lista que quisesse arriscar. Assinado o contrato em Londres. o dividendo mínimo de 7%. Foi o engenheiro Brunlees – que depois iria estudar e orçar o túnel sob o mar da Mancha – quem construiu a linha nas encostas de . entre os seus técnicos. pronta a linha. Verificava-se que a fórmula financeira adotada era a melhor. com o capital vencendo o juro. atingindo aquela cidade em 1863 (123 quilômetros). Iniciava-se. Ainda não possuía o Brasil. a construção da estrada de ferro de Santos a Jundiaí. Edward Price. a garantia de juros. em 1860. Havia no Brasil uma estrada-tipo. foi inaugurada em 16 de fevereiro de 1867. A Belém chegaram os trilhos em novembro daquele ano. que abriram os túneis da Manti- queira e conceberam os planos inclinados do Cubatão. Assim teve a Bahia a linha ferroviária de Salvador a Alagoi- nhas. cujos 13 primeiros quilômetros se inauguraram em 10 de fevereiro de 1858.”. que assim conseguiram chamar os capitais ingleses. contratada com um técnico inglês. em 9 de maio de 1855. a juro baixo. “engenheiros nacionais capazes de bem resolver o problema da passagem da cordilhei- ra. Entre 1858 e 1862 construía-se a estrada de ferro de Recife à estação de Una (124 quilômetros). Resultou disto elevar-se a 7%. Pernambuco e S. por empreitada. Aplicaram-na as províncias. Paulo não lhe fica- ram atrás. As províncias do Rio. as suas reservas. 2% que saíram dos cofres provinciais. aos 5% de garantia de juros oferecidos pelo governo central.. em empreendimentos ferroviários no Brasil. Na escola dos profissionais. de 5% e. Os engenheiros estrangeiros acompanhavam os capitais es- trangeiros. em toda parte. puderam ser inaugurados 48 quilômetros da Estrada de Ferro D. já agora interessados pelo Brasil: a Bahia juntou. Ocorreu ao governo imperial encetar a cons- trução com sua própria responsabilidade. havia de edu- car-se uma plêiade de moços. Pedro II em 29 de março de 1858. a preço fixo. rumo franco de Juazeiro. então o maior ferroviário patrício.

já dotado. a estrada de Paranaguá–Curitiba. atravessando a Mantiqueira. de Jundiaí a Campinas. Pedro II” prosseguisse. Da Corte à fazenda de Santa Fé. 95. 363 De então por diante a nossa principal via férrea não encontra mais obs - táculos para o seu incessante desenvolvimento. Obra nacional tão admirável como a linha de Santos–Jundiaí. pelo engenheiro Chappmann. O planalto paranaense. de Recife a Beberibe. e abertos em sete anos. As estradas de ferro remodelam. acha o seu escoadouro para o oceano. a estrada de Ferro Leopoldina. nos seguintes anos as estradas de Campos a S. CORRÊA JUNIOR. ligam em 1881–2 Cruzeiro a Três Corações. rival da União e Indústria pela sua primorosa técnica). Por todo o país rompem estradas de ferro. em 1855. por meio de maravilhoso traçado. E o engenheiro Astier em Sapucaia. . concessionários da rede sul-mineira. Paulo que de Paranaguá. F. p.. Sebastião. de Macaé a Campos. P. em 1878. principal cons- trutor daqueles túneis. História da Civilização Brasileira 225 Paranapiacaba. iniciada em 1882. vivendo patriarcalmente da sua in- dústria pastoral. atrás da Serra. sob a chefia do Coronel Charles Garnett: o seu braço direito foi o Major Elison. seria a E. Central do Brasil.. mais próximos de S. e sem o emprego de cremalheira. na estrada da Raiz da Serra–Petrópolis – em 3 de fevereiro de 1885.. comunica-se S.. e a prosperidade que lhe resulta de um transporte fácil. descendo penosa- mente ao litoral por terríveis caminhos. razão de súbita riqueza de povos que se conservavam segregados da civilização. etc. 1870. inaugurada em 1882. Os ingleses. estudados em 1860. criam regiões prós- 362 A. afinal. caracterizam. Em 1877. transformam completamente a fisionomia econômica do Império. foram contratados engenheiros norte-americanos. A “Central da Bahia” começava a ser construída naquele ano. Eram 718 quilômetros em tráfego em 1868. grimpa as asperezas da serra do Mar e alcança o planalto. Rio. Autobiografia. Antes da empreitada de Price. 363 CRISTIANO OTONI.362 Para que a “D. de Porto Alegre a Novo Hamburgo. os Teixeira Leite tinham feito estudar o Vale do Paraíba pelo engenheiro Waring e os ingleses. Paulo com o Rio de Janeiro. da estrada de roda- gem da Graciosa (Curitiba–Antonina.

se tinham renovado por completo. havia 9. encravado no território brasileiro. levam no seu traçado os lineamentos das ci- dades futuras. Temia que se repetissem in cursões aliení- genas pelo vale amazônico quase desconhecido nos seus trechos mais ricos. Enquanto o Paraná estava su jeito a um regime internacional por depender o seu acesso da Argentina e do Paraguai.200 quilômetros em tráfego e 9 mil em construção. têm uma história à parte. valori- zando-lhes as terras e os produtos. províncias mais beneficiadas pelo melhoramento em virtude de suas condições geográficas especiais. aproximando-lhe os centros vitais. para ter assegu- rado o caminho do Mato Grosso. Paulo. a carga. o Amazonas. nas extremas do país. O Paraná e o Amazonas pe savam desigualmente nos interesses nacionais. povoam. Franqueou a navegação no Paraná destruindo os obstáculos criados pelos governos inamistosos de Rosas e Lopez. fora sempre conside- rado um rio por onde não deviam en trar navios estrangeiros. Com a queda do ditador Rosas se instalara em Buenos Aires um governo de princípios liberais. Minas. sobeja nas estações. numa animação universal. S. que continuava a ser a via fluvial dos “bandeirantes”. E só abriu o Amazonas à concorrência universal quando se sentiu suficientemente forte para garantir a “nacionalidade” daquelas terras longínquas. fertilizam. ABERTURA DOS RIOS As comunicações fluviais. aberto somente para as nações ribeirinhas. e.. precisava forçar o trânsito pelo Paraná. o Rio Grande do Sul. o Paraná. egoísta e intra- tável quanto ao segundo. em alguns anos. São braços de aço que estreitam o país. todavia. modificando os hábitos sertanejos. Em 1889.226 Pedro Calmon peras onde havia o deserto. A monarquia resolveu com prudência e energia as duas questões.. A diplomacia imperial tinha de agir com duplicidade. despertando populações adormecidas nos seus defesos interiores. li beral em relação ao primeiro. as lavouras seguem a penetração ferroviária e. que Ber- nardo de Vasconcelos pensava que não desse frete para mais de dois dias em cada mês. A colonização entra com os trilhos de ferro. O tratado de 7 de março de 1856 .

numa época em que os conflitos do Prata distraíam as forças navais do Império. em 1850. logo em seguida. A extração da borracha. A primeira advertência feita ao Império para que facilitasse as explorações amazônicas partiu dos Estados Unidos. recalcitrou muito tempo a nossa chancelaria. FERNANDO SABÓIA DE MEDEIROS. resguardado contra essa polí- tica pelo nosso nacionalismo desconfiado e esquivo. a exploração dos seringais. o Saraiva levou um projeto neste sentido ao conselho de Estado. p. O tenente da armada norte-americana Maury empreendeu importante viagem que esclareceu a opinião do seu país acerca dos re - cursos naturais e das possibilidades econômicas daquele imenso vale. 1939. O primeiro discurso parlamentar de Tavares Bastos sobre a abertura do Amazonas foi em 8 de julho de 1862. Converteu-se no decreto de 7 de dezembro de 1866. fácil e remuneradora ocupação do solo. História da Civilização Brasileira 227 franqueou a navegação dos rios Paraná. 365 CARLOS PONTES. 1938. 45. depois visconde do Rio Branco. as secas do Ceará que expulsavam dos 364 Vd. Paulo. o Conselheiro Silva Paranhos. A guerra da Triplíce Aliança teve como uma de suas conseqüências políticas a liberdade total. o afluxo de população resultante desse encadeamento de fatores propícios – abundante transporte. que permitiu o comércio de todas as nações no grande caudal.364 Mas o Império resistiu a todas as propostas. S. Foi obtida (plenipotenciários: do Brasil. para os navios brasileiros. S. Pa u lo. p. Em relação ao Amazonas. assaz reduzidas – por outro lado – para contrariarem uma formal agressão no extremo norte. Restava a adesão do Paraguai e esse acordo definitivo. Aliás o governo e alguns particulares norte-americanos entre 1850 e 66 foram os principais defensores do sis- tema de “livre navegação” para o rio-mar.365 Em 1865. e cujo mentor foi Tavares Bastos. do Paraguai. temendo uma insidiosa infiltração estrangeira. Cedeu apenas diante da cam- panha que se fez na imprensa brasileira. A emigração nordestina. A Liberdade de navegação do Ama- zo nas. Uruguai e Paraguai. daria enorme importância a essa província até aí desvalida e humilde. filho do presidente) em 12 de fevereiro de 1858. Tavares Bastos. . 203. o General Francisco Solano Lopez. desse itinerário indispensável às regiões do sul e do oeste. A Amazônia surge então para a economia mundial.

Cristóvão. já em comunicação com a Europa. as experiências de Paula Cândido. Paula Cândido.366 Eusébio de Queiroz. Ao contrário: a terra amazonense continuou cada vez mais brasileira. com êxito. entretanto. Capanema inaugurou. Para o norte. Fortaleza em 1881. a fim de melhor reprimir o tráfico negreiro extinto. com a troca de telegramas entre o Imperador. o Brasil se integrava no siste- ma universal da civilização. D. com fios de cobre. Belém em 1886. interessado em estabelecer uma comunica- ção segura com os portos do litoral. por inspi- ração direta do Imperador. pois alcançaram Vitória em 1874. apaixonado então pelos assuntos de físi- ca. Natal em 1878. continuou. Em 1855 as linhas iam até Petrópolis.228 Pedro Calmon sertões milhares de homens resistentes ao clima equinocial e habituados a uma vida sóbria e dura – revelaram uma das mais prodigiosas zonas econômicas do globo. Pedro II) cap. havia 18. O lente de física da Escola Militar. A guerra do Paraguai facilitou – tais as exigências militares – a construção rápida de linhas para o sul. Pedro II animou-o com incessantes estímulos. Paraíba em 1875. incum- bindo o lente de física da Faculdade de Medicina. Nomeado para dirigir os trabalhos de instalação das primeiras linhas telegráficas do país (Quinta da Boa Vista ao Quartel-General). Goiás e Mato Grosso liga- ram-se ao Rio de Janeiro por fios telegráficos depois da República.925 quilômetros de linhas tele- gráficas no Império. no ministério da Guerra. em 11 de maio de 52. e Eusébio de Queiroz. o desenvolvimento foi mais de - morado. desde 1874. em S. . de fazer a primeira ligação. por intermédio do cabo submarino. e não deixaram que se desprendesse do Brasil. articulando-se com o serviço telegráfico do Uruguai e da Argentina. Em 1889. em 1890 e 91. Corrigido o mal das distâncias. em 1883 chegavam a Jaguarão. 366 Vd. na Corte: fora. entre o posto semafórico do Cas- telo (único telégrafo existente) e o quartel de polícia dos Barbonos. XVI. quem introduziu no Rio aquele melhoramento. Guilherme Schuch de Capanema. O TELÉGRAFO Surgira o telégrafo elétrico em 1852. nosso O Rei Filósofo (Vida de D. tão importante serviço.

COLONIZAÇÃO O Senador Vergueiro. do trabalhador cativo pelo trabalhador livre. operando uma revolução na econo- mia tradicional. História da Civilização Brasileira 229 A INDÚSTRIA O mesmo regime de garantia de juros promove a pronta substituição dos velhos enge nhos de açúcar por usinas de pesado maquinário. Por todo o país a invasão da máquina é acompanhada do estrangeiro. . que inaugura a fase dos “engenhos centrais”. principalmente a guerra de secessão. O engenho de Quissaman foi o primeiro que se aproveitou da garantia de 7% para o capital empregado na sua transformação: depois. dando ao trabalhador parceria no granjeio e frutos da fazenda. estendia-a. 1861–1864. a média da entrada deles fora de 15 mil por ano. determinando a centralização da indústria. o total do capital garantido subia a 55. graças ao desenvolvimento das indústrias européias e ao fechamento dos mercados do sul dos Estados Unidos (como no período de 1776–1783. pois o torna mais atraente para o imi - grante europeu. como as de Cuba: é a Lei de 6 de novembro de 1875. substituída pelas novas formas do trabalho nos seus redutos mais defesos. a valorização dos nossos produtos tropicais. As perturbações econômicas e políticas da Europa e da América do Norte auxiliam-lhes os planos. sustentada pelos políticos liberais desde 1831. Até 1850 recebera o Brasil uns 19 mil imigrantes. Ao mesmo passo. favorece o Império. em São Paulo. de que o futuro do Brasil dependia da troca. iniciou a colonização estrangeira em outros moldes. Rompem-se os últimos empecilhos à franca emigração e os governos adotam a tese. As usinas passaram a absorver (como no 1º século os “engenhos d’el-rei”) as antigas fábricas de açúcar.300:000$000. que lentamente se operava. quando a Inglaterra se viu igualmente privada da maté- ria-prima americana). Entre 1855 e 1862. encorajava a lavoura. animava o co- mércio e fazia surgir vilas e cidades no conquistado deserto.

reduzi- dos em 1888 a menos de 40 mil. conduzidos na mesma corrente. o sentido vertical da sua civilização e a adaptabilidade aos ideais econômicos do nosso tempo. em 1853. A grande imigração assinalou. Havia em 1886.. como Alberdi quisera a Argentina. acarretando ao comércio avultados prejuízos. com o influxo do colono. quantos a abolição redimiu: pois em 1887 lá entraram 27 mil italianos e. em 1838 no Rio.230 Pedro Calmon Inaugurou com a colônia de Ibiacaba a época imigrantista. Processa-se a arianização apressada das populações e. Paulo.749. esta- tuíra a paridade em 27 “pence” por mil réis. A circulação é insuficiente. a separação entre o Brasil luso-americano. em 1847 na Bahia e no Pará. o Conde de Parnaíba é digno suces- sor de Vergueiro. e ressen- tem-se os bancos da timidez antiga. A Lei de 1846. como uma doença cíclica. a que deveu a sua província o rápido incremento. 80. a intervalos. a reforma das cidades. Logo várias instituições bancárias se fundaram. se inclui no ritmo administrativo. histórico. em 1836. em S. Não conseguem alargar tanto quanto seria de desejar os recursos financeiros do Estado. mais que outra qualquer dife- rença. mas as síncopes que sofreu o crédito em 1857.. no Ceará. quebrando o padrão monetário. Paulo. em 1888. o reaparelhamento da agricul- tura. a criação das indústrias e. O CRÉDITO Os governos tratam de dotar o país de um serviço de crédito e de um meio circulante próprios. os capi- tais estrangeiros vêm colocar-se no Brasil. A circulação metálica era apenas de 30 mil contos. e a crise bancária. e o Brasil contemporâneo. O seu poder emissor foi abolido em 1853 e devolvido em 1857. . 107. em 1860 e principalmente em 1864. a legislação atrasada. em 1851 ainda no Rio (o famoso banco Mauá). no Mara- nhão em 1846.329 escravos em S. determinaram a revisão do sistema bancário e o monopólio – estabelecido em 1866 – das emissões oficiais pelo Te - souro. do braço escravo pelo braço europeu. O ano de 1881 marca a decisiva substituição.

História da Civilização Brasileira 231 O COMÉRCIO A curva do comércio exterior revela um novo Brasil. Itaboraí. que se definem favoráveis à manufatura nacional depois da pauta Alves Branco. entre a sua tradicional política de fomento agrícola. outras de 40% e a maioria de 30%. quando se nos apresenta deprimida. mas a elevação dos direitos aduaneiros realizava satisfatoriamente a sua missão de incitamento das iniciativas industriais no Império. diz um ensaísta. em 1879 e 1884. limitam a capacidade de aquisição da mercadoria estrangeira e tendem a subtrair o Brasil ao despotismo dos seus preços. 157 mil (contra 137). Realmente. as tarifas alfandegárias. Em 1860 Ferraz adota algumas razões de 50%.720 contos e exportávamos 123. “De 1844 a 1879 o protecionimso não existiu”. 1900 (tarifa Murtinho). em 1865. que era igualmente o . não o de mera proteção da indústria indígena. 131 mil. principalmente do algodão. em 1869. Por outro lado. Hesitava o Brasil. contrariadas em 1874 e em 1884 pelas tarifas baixas de Rio Branco e Saraiva. No ano seguinte.. reforça a agravação daqueles direitos. Citamos a guerra de secessão na América do Norte como uma das causas do fenômeno. de fato. 89 e 90. pela primeira vez. mantendo-a e acentuando-a nas reformas de 1890 (tarifa Rui Barbosa). a alta dos preços. 1897 (tarifa da comissão Bulhões). as dominasse). Afonso Celso e Saraiva. extinguindo as razões superiores a 30%.. de 60%. em 1844 (embora o pensamento fiscal. A balança comercial continuaria com saldo até 1885. 1893 (tarifa Bernardino de Campos). pela sedução do importador estrangeiro. assim permanecendo (o câmbio alto esti- mulando as importações) em 1888. restabelecem as de 40%. na balança comercial. permitia-nos encontrar o paradeiro dos déficits que. exportávamos 120 mil (contra 110 mil). não havia maquinismos nem capitais imobilizados que reclamassem tarifas de amparo. Em 1860 importávamos 127. Rio Branco a destrói. a partir de 1860. retomando as de 50% e. erige a barreira alfandegária em princípio de política econômica no Brasil. E em 1888 Belisário.171. em 1863. A República não se desviou dessa orientação. foram regra até então.

que se limi- tava ao quadro das indústrias rurais e ainda admitia a escravatura como uma condição do seu êxito. à cuja sombra se iriam desenvolver inúmeras tentati- vas de grande industrialização. e diferir para 1893 as lutas decisivas. uma antinomia entre a mentali- dade progressista. da nova lei de sociedades anônimas. tornar possível a pronta consolidação da República. e a mentalidade conservadora. transformando a fisionomia financeira da administração e legando à República uma situação comercial impressionada por todas as sugestões da audácia..440 em 1885. principalmente em S. 55. da faculdade pluri-emissionária dos bancos. desviar as paixões do terreno dos partidos para o dos negócios. que foram os produtos do crédito abundante. (35. se desenvolve. Estabeleceu-se. dera o golpe de morte no estabelecimento da Ponta de Areia). da vertigem dos negócios conduzidos aos impulsos da bolsa. em 1888. O “ensilhamento”. da concorrência estran- geira (orientação não-protecionista. de 1888. que não podem prosperar em razão da deficiência de crédito e numerário (orientação anti-inflacionista). . e da falta de plasticidade da legislação brasileira. que vibrava da ansiedade universal e copiava à America do Norte o surto irresistível. que em 1860. havia de amortecer o choque político de 1889. naturalmente. do “ensilha- mento” enfim. quanto à indústria náutica. Paulo. pelos auxílios à lavoura oferecidos pelo governo.253. quando a campanha abo- licionista se tornou nacional. da iniciativa. Venceu a primeira. 133. da técnica. da aventura. a despeito da indecisão legislativa e da esmagadora coação do ambiente econômico. depois da abolição. pela tarifa Belisário.. um dos maiores números da estatística imigrantista do país). pela revolução que abalou a economia indígena nos gabinetes João Alfredo e Ouro Preto. desequilíbrio resultante da profunda alte- ração que sofrera a vida econômica do Brasil. Distinguiu-se pelo formidável aumento da imigração. facilitada a mesma concorrência pelo câmbio ao par.232 Pedro Calmon fornecedor de todas as utilidades manufaturadas – e a criação de um espírito industrial que.965 em 1887. a partir de 1885. entre a nova ordem de coisas e os sentimen- tos que ela contrariara. As instituições sentem-se ameaçadas pela impaciência dos novos industriais.

ainda há pouco cobertos de florestas e inçados de índios. Em 1822 o produto ainda não era conhecido em Nova York. 1936. Milão. Os proprietários fluminenses tornam-se os súditos mais ricos do Império. Biografia del Caffé. e pelo volume da produção. História da Civilização Brasileira 233 NOVA AGRICULTURA: O CAFÉ A grande surpresa da vida econômica do Brasil no século XIX é. JACOB.367 em 1823 (em virtude da ameaça de guerra entre a Franca e a Espanha). destinado a exercer naquela província o mesmo papel civilizador dos engenhos de açúcar da Bahia e de Pernambuco. Introduzido o plantio no Rio de Janeiro em 1770. o Brasil adquire posição do- minante no mercado. principalmente em São Paulo. O café aparece quase com o Império. A partir de 1825. Mas já então prometia tantos interesses. debalde o incentivaram as autoridades. A extraordinária alta do produto na Europa. entretanto. viscondes e barões. pela súbita e extensa conquista de territórios. cada uma das quais foi sede de vila próspera ou centro de animação social. que em trinta anos passou a ser o elemento fundamental da nossa economia. O açúcar fez a riqueza da colônia. que na bandeira im - perial figurou um ramo de café entrelaçado com outro de fumo. O governo reconhece-lhes o espírito aristocrático e a importância política. a primazia da cultura coube à província do Rio. o café fez a fortuna do Império e da República. Numerosas famílias descidas de Minas Gerais para a bacia do Paraíba estabeleceram grandes fazendas. é um dos mais interessantes. Até 1840. o café. estimula deci- sivamente as plantações. criando titulares da monarquia. Na história dos povos o fenômeno da cultura cafeeira do Brasil. Somente em 1817 em Campinas se fundou boa fazenda de café. numa representação da vida agrícola do Norte e do Sul. 273. os cafeicul- 367 E. . como a lavoura rendosa e fixadora. Os seus domínios antecedem em conforto e esplendor as fazendas paulistas do período áureo do café (1870 em diante). Em 1810 estende-se ela pelas vertentes da província do Rio de Janeiro e pelos vales do Paraíba do Sul e do Paraibuna. p.

O transporte fácil orienta a invasão do oeste.377 mil.139 contos de réis).285 contos e 27.725 a do açúcar. sobretudo valorizadas pelo impetuoso trabalho dos pioneiros da lavoura de café. Bahia. Mas a cultura se estende. em 1872. que é auxiliada. já o café regularizava o câmbio. como forças econômicas. Estudos Econômicos. 17. Minas Gerais. em 1870. Outras províncias. Agricultura Nacional.849 contos). garantia.101. Em 1885 a febre de plantações e derru- badas de mata alcança o apogeu. atraídos pela multiplicidade das promessas de riqueza da província de S. no Sul e no Norte. Graças a esse maravilhoso surto agrícola o Sul assentara sobre uma forte base produtiva o seu trabalho rural. a exportação do açúcar não passara de 4. como parcela principal.685 mil toneladas (640.804 mil (3. o financiamento dos serviços públicos. enquanto a do café subira a 6.045 mil de açúcar. também produzem café em larga escala. Paulo. Também o número de escravos era equivalente. em toneladas a exportação fora de 3. dos negros cujo tráfico interno andaria. NORTE E SUL Ainda no período de 1821 a 1860. dos engenhos de açúcar para as fazendas de café. auxiliados em breve pelas correntes imigratórias estran- geiras que de preferência se dirigiram para as províncias meridionais. Correspondendo então a 53. Em 1861 e 1889. a exportação de café rendera 115. p. porém com a tendência para a evasão. Paulo para o oeste numa marcha constante. 1883. do norte de S. e iria. e 3.368 A influência política assim se desloca das regiões mais velhas para as mais novas. com o desenvolvimento ferroviário em direção a Ribeirão Preto. com a República. o norte e o sul.234 Pedro Calmon tores da província do Rio. e constituía a melhor perspectiva econômica do Brasil. 368 ANDRÉ REBOUÇAS.8% da massa exportada. desenvolver a vocação industrial da sua população altamente enriquecida de elementos étnicos europeus. em 1880. das zonas históricas do antigo Brasil para as terras de colonização recente. Num ano. por 30 mil indivíduos ao ano. de café. Rio. . Equilibravam-se portanto.

pois. Manaus. florescentes e modernas cidades do Brasil. entre 1821 e 1889. em 1889. em 1910. A seca que flagelou naquele ano o Ceará impeliu a imigração para o Amazonas de 5 mil cearenses. do açúcar para o café. até 1877. em conseqüência das inú- meras aplicações industriais que ia tendo o produto. que se localizaram nos seringais ao longo do rio-mar e dos seus afluentes. História da Civilização Brasileira 235 A evolução.400. e em 1890 para 16. dizem as estatísticas. para 2 milhões e 282 mil contos de café. apesar de tão internada no coração do continente.750 toneladas. tão escassamente povoada. p.330. seria cinco anos depois uma das mais alegres.679. entre 1901 e 1912. dotada de todos os recursos do progresso. em 1870. coincide com o gra- dual desdobramento da força condutora da nacionalidade. dependente da situação econômica. ao preço médio por quilo de 1. A Amazônia foi. Fatos Econômicos. a borracha nativa. 369 MIGUEL CALMON. Rio.150. Próxima página . e concentrada nos novos núcleos de atividade. Empregaram-se na extração da hevea. de 38.591 toneladas. 1913. vendemos borracha na importância de 2 milhões e 736 mil contos.334 a 3$000. aos preços de 7$000 e 11$000! O que foi essa para o Brasil uma intensiva exploração. A produção de borracha fora de 6. sobretudo nos Estados Unidos. que a receita da província pouco superava uma centena de contos. do Norte para o Sul e do litoral para o planalto e o Oeste. logo seguidos de outras levas de trabalhadores. Em 1900 a exportação seria de 26. A BORRACHA O caso da borracha oferece semelhantes proporções de ousadia e persistência colonizadoras. 239. cujo preço subiu com o aumento da exportação. Em breve prazo não havia melhor negócio no país do que a extração da borracha no Amazonas. ao preço de 2. a capital. 369 Em 1889 a receita provincial já se elevava a 3 mil contos. subira para 8.