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A criação, a cosmologia e o

pensamento de São Tomás de Aquino
Dr. William E. Carroll* (Tradução: Áquila Mazzinghy)
Desenvolvimentos na cosmologia são muitas vezes utilizados para argumentar que a
ciência contemporânea eliminou a necessidade de se apelar para um criador para
explicar a origem e o desenvolvimento do universo. Livros como os de Stephen
Hawking e Leonard Mlodinow [The Grand Design (2010)] e Lawrence Krauss [A
universe from nothing. Why there is something rather than nothing (2012)] ilustram
bem o tema de que a origem do universo (na verdade, a antiga questão filosófica de “por
que existe algo ao invés do nada”) agora se encaixa no alcance explicativo da
cosmologia e da física quântica. Hawking e Mlodinow negam a inteligibilidade de um
“começo” para o universo, uma vez que o próprio tempo (time) emergiu no universo.
Abraçando uma versão da hipótese do multiverso, eles concluem: “A criação espontânea
é a razão por que existe algo ao invés de nada; é a razão por que o universo existe e por
que existimos. Portanto não é necessário invocar a Deus para colocar o Universo em
marcha…”. Notoriamente, eles observam que “a filosofia está morta”, e quando
entrevistado por Larry king na CNN, Hawking opinou que “a teologia é irrelevante.”

Para Lawrence Krauss, o sentido do “nada”, empregado por aqueles que defendem a
criação “a partir do nada”, pode agora ser adequadamente explicado em termos da física
contemporânea. Como resultado, ele acha que a questão “por que existe algo ao invés
do nada?” é realmente uma questão científica, e não uma questão religiosa ou filosófica.
Nenhuma “causa divina” é necessária, afirma.

Reivindicações por autores como Hawking e Krauss sobre o alcance explicativo da
ciência são ostensivamente feitas com base nos desenvolvimentos da ciência, mas tais
reivindicações são juízos metafísicos, frequentemente delineados sem quaisquer
fundamentos filosóficos. E, caso haja uma suposição metafísica à espreita por trás dessa
visão, é que a mera existência das coisas não precisa de explicação.

Seja ao falarmos de explicações do próprio Big Bang – como o tunelamento quântico a
partir do nada [efeito túnel (quantum tunneling)], ou de alguma versão de uma hipótese
do multiverso, ou de princípios de auto-organização em mudança biológica (incluindo,
por vezes, a aleatoriedade como explicação última), a conclusão que parece inevitável
para muitos é de que não há necessidade de um criador; isto é, não há a necessidade de
qualquer causa que esteja fora da ordem natural. Para eles, a natureza é autossuficiente,
não só no que diz respeito aos efeitos que produz, mas na medida em que de alguma
forma gera a sua própria existência. Assim, a noção tradicional do ato criativo de Deus
desaparece e torna-se um mero artefato de uma era menos esclarecida.

O uso de insights da cosmologia para negar a necessidade de um criador é, às vezes,
contrariado por estudiosos que usam a tradicional cosmologia do Big Bang para
sustentar a doutrina da criação. William Lane Craig é talvez o mais famoso defensor de
tal visão. Mas podemos acrescentar o recente trabalho de Robert Spitzer, que em New
proofs for the existence of God: Contributions of contemporary physics and
philosophy (“Novas provas da existência de Deus: Contribuições da física
contemporânea e da Filosofia”, tradução livre) afirma que a física moderna nos mostra
que o tempo passado do universo é finito. O argumento geral é que uma “singularidade”
inicial (Big Bang), fora das categorias de espaço e de tempo, aponta para uma causa
sobrenatural do início do universo. Até o Papa Pio XII observou uma vez (em 1951) que
essa cosmologia oferecia apoio para o que estava revelado em Gênesis. Se o universo
tem um tal princípio, ele deve ter sido criado.

Assim, há alguns cosmólogos que negam a inteligibilidade da própria noção de um
começo e outros que defendem variações de um universo eterno. Nesse caso, como não
haveria um começo real para o universo, não haveria a necessidade de se falar em um
criador. Por outro lado, há outros que dizem que a ciência afirma um começo absoluto
do universo, que serve como uma garantia para a doutrina da criação. Apesar das
diferenças fundamentais sobre o que a cosmologia contemporânea nos aponta acerca do
universo (sem começo ou com começo), todos esses pontos de vista tendem a identificar
o que significa para o universo ter sido criado com um marco temporal (começo). Esta
ênfase no começo leva à confusão sobre a criação.

A fim de separar grande parte da confusão evidente nas discussões contemporâneas
sobre a criação e a cosmologia, é útil relembrar as claras distinções de São Tomás de
Aquino (1224-1274) sobre a criação e as ciências naturais. Para Tomás de Aquino, a
criação é um tema para a metafísica e para a teologia. A doutrina da criação afirma que
tudo o que é, sob qualquer forma ou maneira que seja, depende de Deus como causa. As
ciências naturais têm como tema o mundo mutável das coisas: a partir de partículas
subatômicas até galáxias. Sempre que há uma mudança, alguma coisa foi mudada. Se
essas mudanças são biológicas ou cosmológicas, sem começo nem fim, ou
temporalmente finitas, elas continuam como um processo. A criação, por outro lado, é
a causa radical trazendo à existência tudo quanto existe. A criação não é uma mudança.
Para fazer com que algo possa completamente existir não basta produzir uma mudança
em alguma outra coisa. Não se trata de trabalhar em algum material existente. Quando o
ato criativo de Deus é verbalizado “a partir do nada,” o que se quer dizer é que Deus
não usou absolutamente nada para criar tudo o que aí está: não houve
uma mudança do nada para o “alguma coisa”.

A cosmologia e todas as outras ciências naturais não abordam as questões metafísicas e
teológicas da criação; elas não falam de por que existe algo ao invés do nada. É um erro
usar argumentos das ciências naturais para negar criação. Da mesma forma, é um erro
usar argumentos da cosmologia para tentar confirmar a doutrina da criação.

Tomás de Aquino reflete que apenas a razão pode nos levar a um reconhecimento de
que Deus é a causa de tudo, mas o caminho para tal conclusão está na metafísica, e não
nas ciências naturais. Argumentos de um Deus como Criador são diferentes dos
argumentos em filosofia natural para um Deus como a fonte da ordem e da
inteligibilidade do universo. Declarações e perguntas sobre ordem e design na natureza
são diferentes daquelas de por que existe algo ao invés de nada.
A criação não é primariamente um evento distante, ao contrário, é a contínua e completa
causação da existência de todas as coisas. Neste preciso momento, se não fosse Deus a
causa de tudo o que está existindo, nada existiria. As questões relacionadas à criação
remetem, em primeiro lugar, à origem (fonte de ser) do universo, e não o seu início
temporal. Tomás de Aquino pensou que, em princípio, a razão por si só não poderia
concluir definitivamente sobre se o universo teve ou não um começo. Ele acreditava
que, como uma questão de fé (confirmado pelo decreto do Concílio de Latrão, em
1215), o universo teve um começo temporal, mas, para ele, não haveria contradição na
noção de um universo eterno, criado. Afinal, mesmo se o universo não tivesse um
começo, ele ainda teria uma origem, ele ainda teria sido criado, ele ainda dependeria de
Deus para a sua existência. Se o universo é eterno ou temporalmente finito é uma
questão que tem a ver com o tipo de universo que Deus cria. O sentido fundamental do
que significa para o mundo depender de Deus como sua causa última deve ser
distinguido da noção de um universo ter tido um começo ou não. Caso contrário,
poderíamos ser levados para o erro de pensar que negar um começo é negar a
dependência de Deus.

Foi Tomás de Aquino quem distinguiu entre a criação compreendida filosoficamente,
sem qualquer referência à temporalidade, e criação entendida teologicamente, que
incluía, entre outras coisas, o reconhecimento de que o universo tem um começo
temporal absoluto.

O poder criativo de Deus é exercido ao longo de todo o curso da história cósmica, de
todas as maneiras que a história se desenrolou. Deus cria um universo em que as coisas
têm sua própria força causal, a sua verdadeira autossuficiência – uma natureza que é
suscetível à análise científica. Nenhuma explicação dos processos cosmológicos, nem
uma mudança biológica, independentemente de quão rápida, aleatória ou contingente
essa teoria possa invocar, desafia a explicação metafísica da criação, isto é, da
dependência da existência de todas as coisas de Deus como causa.
*Dr. William E. Carroll é membro da Faculdade de Teologia da University of Oxford. É
autor de Creation and Science; Galileo: Science and Faith; La Creación y las Ciencias
Naturales: Actualidad de Santo Tomás de Aquino; Co-autor com Steven Baldner
de Aquinas on Creation.
Post original: http://biologos.org/blogs/archive/creation-cosmology-and-the-insights-
of-thomas-aquinas

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