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Fausto Curto

A mãe
de Dom Bosco
3ª edição

EDUCADORA DE UM SANTO

2006 © Titulo original em italiano: La mamma di Don Bosco, CAPRIGLIO, UM PUNHADO DE CASAS
Editrice Elle Di Ci.
A 17 quilômetros de Chieri, uma pequena extensão de
terreno rodeado de colinas amenas e de bosques, 400
habitantes ao todo.
No dia 1º de abril de 1788, nascia Margarida Occhiena.
Em 1888, passado um século, morrerá seu filho João,
sua glória, sua obra-prima.
Foram seus pais: Melchiorre e Domenica Bossone,
camponeses de algumas posses, ricos de amor de Deus.
Margarida foi a terceira de cinco irmãos e irmãs.

TOQUE DESABALADO DE SINOS

Margarida tem 9 anos e assiste à revolta dos
republicanos contra o rei Carlos Emanuel IV. Os camponeses
empunham forcados e tridentes para ajudar as tropas reais. Em
1799, marcham sobre Asti ao grito de "Viva o Rei!". Mas são
rechaçados pelos franceses que os perseguem de herdade em
herdade, fazendo enorme carnificina.
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EDITORA DOM BOSCO CRISTO PRISIONEIRO
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3

24 para 25 de abril de 1799, é encerrado na cidadela de Turim. Margarida está vigiando o milho posto a secar ao sol.
O calvário espera-o no Delfinado: o ancião vestido de branco Alguns cavalos tomam de assalto a preciosa graminácea, — Fora daqui,
será conduzido através da neve e do gelo dos Alpes. seus brutos! Fora daqui! — e vocês (dirigindo-se aos soldados) suas
O coração dos católicos — entre os mais fervorosos os baratas descascadas de lá do outro lado dos Alpes, que é que vocês
da casa Occhiena — gemem impotentes pelo que acontece com estão olhando?
o sucessor de Pedro. — “Ja, ja” — responderam os soldados, rindo como costumam fazer os
que não entendem o que dizem os outros.
FOME E VEXAME — Vocês estão rindo, seus trouxas! E nós, o que vamos comer neste
inverno, hem?
Pelo que ocorre a seu soberano, por causa da tirania dos — “Ja! Ja! Ja!”
franceses, o Piemonte vive dias duríssimos. Impostos muito — “Bo! Bo!”
altos, serviços prestados à força, presentes dados sob — “Ja! Ja!”
intimação, requisição de mantimentos e de peças de vestuário, — “Boja”, sim e que “boja”! Esperem aí! Eu é que vou tomar conta dos
escassez de víveres e epidemias dizimando o gado. Angústia seus cavalos.
por todo o lado. A pequena Margarida, na escola da mãe, Sem esperar respostas, com o cabo do tridente, tocou os cavalos,
passará uma infância dura, entre oração e trabalho. espetando-lhes os flancos com as pontas de ferro. Os cavalos saíram em
Possui decisão e força de vontade, a par de inato bom senso. disparada e os soldados atrás deles.
Auxiliada pela graça divina, cresce desenvolta, franca e leal. — “Ja! Ja!” — gritava Margarida, rindo por sua vez.
— Boja! Boja! 1
“JA, JA! Bo, BO! BOJA!”
1
Faremos frequentes citações, sem indicar as páginas, de "Mamãe Margarida", a vida
Setembro de 1799. Margarida tem apenas onze anos. escrita por G. Battista Lemoyne e impressa em 1886 pela Tipografia e Libreria Salesiana. Foi
certamente o melhor presente que este grande filho de Dom Bosco pôde oferecer a seu querido Pai.
Os austro-russos tomaram a Lombardia aos franceses e
invadiram o Piemonte.
Os invasores são alvo de ódio e desprezo.

vivia Francisco Bosco. você não é mais uma menina. Há de mais talhada para isso e não quer absolutamente casar. o 7º O CHAMADO cinquentenário do milagre eucarístico de Turim. podem finalmente dormir cristão. não está mais prisioneiro: — Minha querida Margarida. que era tratada com toda veneração. E que Deus me ajude! Os Becchi: um punhado de casas na orla de um bosque. bom bandos semelhantes aos de Mayno. afinal. pela querida velhinha? Para Margarida houve momentos de consolação e alegria. . tem demorar-se algumas horas no Castelo do Barão Rignon. onde coroou Napoleão. obediente. a meio caminho da estrada que vai companheira afetuosa e fiel. ele fica três dias na cidade de Turim. Em casa Francisco há um lugar Ponticelli. Você é robusta. Em 1803. desta vez. Cinco anos mais tarde o mesmo Papa tornará a passar por ali — — Mas. entre Santena e Chieri. Quem olhará pelo filho e tranquilos. na terra de Margarida! vazio que você poderia ocupar. já tinha um filho Antônio. Morava com ordem. Já está é Pio VII que volta de Paris. gostaria de ficar em casa De todo o Pie monte vem gente para festejar o Papa. a passagem de um Papa que. — Mas eu não tenho vontade de me casar. os ele sua velha mãe. restabelece a paz e a aos dezoito anos e. em força de vontade e um grande coração. Casara-se intuição. camponeses podem trabalhar protegidos contra as incursões de Passados poucos anos. em 1804. Numa daquelas pobres casas. Em meio com vinte e quatro anos. Sua vontade férrea nivela tudo. um ano depois. temos as outras filhas. muito chegado à Igreja — perde a esposa. ao entusiasmo geral.PAZ DEPOIS DA TEMPESTADE Napoleão rechaça os austríacos. uma mestra de penetrante Era quatro anos mais velho do que Margarida. Francisco Bosco recebia a departamento de Murialdo. Antônio passou a ter ao seu lado um anjo vigilante e destemido. Em seguida. Diante de Deus. — Obedeço. José terá uma guia segura. parece-me ser A COLINA LUMINOSA este o caminho que você deve seguir. João. Faria de mãe para Antônio e também para outros filhos que Deus lhe quisesse mandar. No dia 16 de junho de 1812. para isso. Mariana parece-me a desta vez prisioneiro — com destino a Grenoble. para cuidar do senhor e da mão na sua velhice. sua mãe ganhava uma filha respeitosa e de Capriglio a Castelnuovo. minha filha. mas. depois de tantas angústias. Francisco — homem trabalhador.

ajoelhemo-nos e rezemos. chora Joãozinho. Os dois santos se formaram sobre os joelhos de suas — Ao morrer. respirando o mesmo hálito da graça que nelas morava. Ficava órfão aos dois anos. não há mais nada para comprar. obedeciam aos mesmos princípios de educação. Com a carestia. ele. “Nada. Um amigo. tinha recebido em casa com indizível alegria e nela havia Fazendo um último esforço. dirige-se aos mercados na anos. nos Becchi. desanima. os nossos filhos! Mas Margarida pagava a sogra com amor e obediência sobretudo Joãozinho! filial. a fome. cada um segundo a própria índole. um túmulo. SOFRENDO O PESO DA CARESTIA DOIS SANTOS Uma terrível carestia cai sobre a região em 1816. ambos com o mesmo DE JOELHOS. confiança em Deus. MEUS FILHOS! ardor de santos. A velha mãe de Francisco a Venha. Francisco tinha dito. os dois meninos lutarão juntos contra o mal. tarde Castelnuovo Dom Bosco). depositado grande afeição e confiança. pela sua precoce bondade e atitude na igreja. você não tem mais pai. meu marido recomendou-me ter sempre mães. Uma pneumonia fulminante. milhares de órfãos! a economia e a caridade. Margarida não Ao passo que na pobre casa de Margarida. Homens feitos.DUAS MULHERES CEIFADO PELA MORTE Moram agora juntas sogra e nora. pelo mesmo nome: “Margarida”.. Tem algum dinheiro guardado.. um meninozinho de quatro com a bolsa de Margarida na mão. ambas respondendo Deus é misterioso nos seus desígnios. venha comigo. como num suspiro: — Margarida. é a resposta do amigo ao retornar. o mesmo amor as orientava: o amor de Deus. em Castelnuovo (que será chamado mais Em Murialdo. Dois dias de fome e de agonia. Venham. não se chamado de “santinho”: José Cafasso. Vida difícil e monótona? Não. o futuro pai de Tinham ambas as mesmas inclinações para o trabalho. Vamos matar o vitelo! . Joãozinho. encontra nada”. era vizinhança. as epidemias.

Era o olhar de Mamãe Margarida. há de perguntar. tempestade. prepara-se para se deitar. SUA MÃE SABE MAIS DO QUE VOCÊ UM OLHAR DE DEUS Rezava-se com frequência na casa de Margarida.. O pão está cheiroso sobre a mesa: "Deus é pai de verdade. Com o DEUS NO UNIVERSO auxílio de um vizinho. rezou. Se os via às vezes pensativos e receava que estivessem alimentando algum rancorzinho: “Deus os vê e até os seus pensamentos”. “O Senhor deu-nos muitas coisas boas.. como não será o Paraíso?” DEPOIS DA CARESTIA Olhando o prado florido: “Que coisas bonitas Nosso Senhor fez para nós!”. “Como Deus é poderoso! Quem lhe pode feliz. Ele é o dono. para dar-lhe prazer. o Senhor no-las — Deus me deu um marido e mo tirou: morrendo. Se o firmamento é tão belo. pão de cada dia.. ele tira. caindo de sono. . mas.lhes: “Já rezou as orações?”. poderá Margarida suportar sozinha o resistir? A gente não deve nunca fazer pecado!” peso dos filhos? Granizo: é a fome.. uma voz — vizinhos. um tal Bernardo. Pai nosso. serena e Trovoada. responde: “Vou rezá-las agora mesmo”... é logo reduzido a pedaços e cozido na panela. parte os seus filhos. O que acontece é sempre o melhor. O filho já as vendo”. não de um tutor. advertia: “Lembrem-se de que Deus os está sempre a mesma voz — ressoa-lhe aos ouvidos: “Já rezou as orações?”. Mesmo quando já forem homens feitos.” me confiou três filhos que eu nunca hei de abandonar. a minha velhinha? Ficou no seu lugar de mãe e de filha. Se os mandava brincar nos prados depois de um dia de intenso apostolado. Noite estrelada. Jovem como é. — Hurra! — E o estábulo é tomado de assalto. o vitelo. que estais — Os filhos precisam de uma mãe. Ele nos dá o — Mas você poderia confiá-los a um bom tutor!. “Foi Deus quem criou o mundo e pôs lá em cima tantas estrelas. E no céu". Seguia por toda Dom Bosco é sacerdote: que importa? Quando. A vida retoma o ritmo normal de cada dia.

você sabe: estude o seu latim. Qual o mais generoso? O filho ou a mãe? .. quero saber: como se comportaram? Obedeceram à vovó? Você foi fazer o que mandei?. fazem todos a minha vontade e A arte do diálogo entre pais e filhos é a arte de educar.. ficam mais sossegados. ERA MUITO RIGOROSA bastante a sua teologia. não vou mais.” Não queria que os filhos andassem atrás de desconhecidos nem saíssem de Quem reza se salva! casa sem licença. Um sorriso e depois: — Então vá!. Joãozinho. dirá: maus? “Quem é o Senhor? Minha mãe não quer que eu fale com pessoas que não conheço”.. não dizem O PÃO BENTO certas palavras! — Mas você vem para casa com a cabeça quebrada! Os três estão lá em cima da colina. — O sol está tão bonito! Por que não vão brincar lá fora? CABEÇA QUEBRADA — Para não contrariar mamãe. Alongam o olhar para ver se a mãe já está — Foi falta de sorte. segurar os cestos. mas — Devagar. mas sua mãe sabe mais do que você: sabe que deve rezar.. Quando ela aparece. quando estou no meio deles. Mas não ande mais com eles. aprenda POR OUTRO LADO.. — É por isso mesmo que vou com eles: se estou junto deles. antes. de volta do mercado. — Trouxe o pão bento para vocês! (Era um docinho. — Mas. dão gritos de alegria e correm para — Está bem..) — Entendeu? — Eu! Eu! — Se a senhora não quer mesmo. são mais bonzinhos. no sonho dos nove anos. embora sonhando.. “Muito bem! Porque.. Aliás. este vai — Mas será possível! Todos os dias você arranja uma. não brigam tanto. ser o sinal de predestinação: a obediência à mãe! Mesmo na presença do Senhor de Por que procura aqueles meninos? Não está vendo que são majestoso aspecto e da Virgem resplandecente. Era a resposta habitual que davam.

ficava no ar. para você.AQUELE QUE POUPA A VARA NÃO AMA SEU FILHO ESTAVA COM SEDE? É o que lemos na Bíblia. na casa — Estou com sede.. grita. como é que vai fugir? — Mas estão no Pai-nosso! . mesmo que fosse preciso ficar aqui o dia inteiro. — Mamãe! SOU MAIS FORTE DO QUE VOCÊ — Que é? — A senhora não vai me dar água? José está fazendo capricho. — Para você. assim. É você quem deve PERDOAI AS NOSSAS OFENSAS ceder.. aliás. Antônio.) — Venha cá. tribunal. mamãe! de Margarida havia a vara. muito bem! Tome a água. José.”. E então. — Primeiro eu! (É Joãozinho quem grita. Uma verdadeira vara. — Pode gritar à vontade. que você? Fique sabendo que não vai vencer-me e se continuar — Esperem um pouco. Não deixo você ir. calma! Aqui está a água! Ficava perto da vovó. esperem um pouco. Se — Mamãe. despeitado por ter sido o quando ela se preparava para dar o primeiro golpe. Antônio. O menino atira-se ao chão. Mamãe oferece depois água a Joãozinho. seguida não raramente de uma carícia. Margarida não diz nada e repõe a bilha no seu lugar. — Pensei que não quisesse. mas ele. — Perdão. mamãe! esperneia. manda Margarida. Nosso Senhor vai segurar você e levar para o seu você não pode dizer estas palavras. Lá iam eles buscar a vara e entregá-la à avó.. embora não — Água! Água! fosse nodosa. paralítica.. apanhe a vara. faz sinal que não quer.. José continuava a espernear. — Calma. Margarida toma-o pela mão. Vinha então a palavra severa de repreensão. no livro dos Provérbios. Mas. — Ah. — Será que não compreende que eu sou mais forte do Chega a vez de os meninos dizerem: "Perdoai as nossas ofensas.. lá estava também. a vara último. estou com sede. por vara se entende a repreensão e às vezes o castigo. Todas as noites o terço.

Cercado por um grupo de rapazolas que riem descaradamente. Poucas horas de sono. você não deve dizê-las. um velho os — Escute. quando entretém com conversas indecentes.. DE MILITAR você não quer perdoar os outros? De militar? Certamente.. teria de ceder. Está esquecendo Antônio abaixava a cabeça. A vida não é um combate? —. disse isto a primeira vez. João entrará no Seminário. pão seco e nada de frutas. dirigindo-se aos filhos: porque é filho de Francisco. mas você é que está errado! — Seria uma mentira na sua boca. bem que poderia fazê-lo: você . Você é meu filho Chega-se ao velho e o desmascara indignada.. Depois. e afastava-se. Longas mamãe! caminhadas. A senhora me perdoe também. nas férias. vai dormir de novo no enxergão. Mas não quero abusar da minha força. se VIDA DURA. foi para sempre. — Não. Se quisesse bater-lhe. Antônio ficava tão furioso que não — No seminário. sabe esperar! — Mas ele me ofendeu! — Como você quer que Nosso Senhor o perdoe. Quantas vezes Margarida teve de que não quis perdoar àquele menino? E até quebrou-lhe a suportar seus rompantes de raiva? Raciocinar com ele? cabeça? A caridade é paciente. MÃE SEM ENTRANHAS? Margarida fixava no enteado um olhar tão penetrante que ele ficava imóvel. João se desenvolve como os carvalhos. esticava os braços e atirava-se depressa a elas! contra Mamãe Margarida. — Por quê? Faça como quiser. urrando: "Madrasta! Madrasta!".. pão somente.. porque eu o amo como filho. aqui. você tem colchão. Teriam bastado àquela robusta camponesa dois bofetões bem dados. sobre o enxergão duro. às vezes. Voltando para casa. UM BOIZINHO BRAVO Um dia. então eu perdoo. porque Francisco entregou você a mim. Trabalho duro no campo. Margarida volta da missa com os filhos. É entendia mais nada. ouvirá de sua mãe: Mas. seu pai. melhor que se acostume a dormir com menos comodidades: a gente se habitua Cerrava os punhos.. Antônio: eu o chamei de filho e. Para a primeira refeição.

bem como José. põem-se a gritar a plenos pulmões: “MAMÃE. não estou mostrando nenhuma preferência. teria ficado Está ali? Estava ali!. depois da graça de Deus. Hoje. De noite narra o fato! Estão boquiabertos. Antônio vinte. Margarida tem a intuição de que João não tornar-se semelhantes àquele velho. nos invernos de 1824 e 1825.. Calados! Quando eu der o — Chega! Essa história de estudos.. mas na sua idade. Os tempos mudaram. João Uma sombra movendo-se nos limites do vinhedo. gritem com toda força: “Ladrão! Pega ladrão!”. muita gente faz o intenções. curso superior. Desapareceu na escuridão. estupefata com semelhante proposta. — E ele também! . os três. Mamãe Margarida resolveu esperar. Margarida cerca Antônio de todas as atenções: fá-lo seu conselheiro. Pegue na enxada como eu! GENTE CORAJOSA! — Mandando João estudar. Margarida dá o sinal. REUNIÃO DE FAMÍLIA Embora não o mereça. escola! Mamãe Margarida observa-o e adivinha suas — Não tem importância. deixar roubar. Ao entardecer. — Vocês sabem quanto os amo! Se tivessem de 1823. Occhiena. QUERO SER SALTIMBANCO!” — Ladrão! Pega ladrão! Polícia! Daquele lado! O ladrão está ali! Qualquer aldeã. Sua parte na herança não ficará prejudicada. preferiria que Deus os foi feito para os trabalhos do campo e quer mandá-lo estudar em Castelnuovo.. padre Lacqua. — O homem vai voltar esta noite... que ficara solteira. três com as minhas próprias mãos! — Por que mandar João estudar? — resmunga Antônio. poderá fazer os estudos elementares. Já fizesse morrer agora mesmo.. um homem suspeito ronda o vinhedo — Certo. A paz numa família é o primeiro tesouro. Logo. Você também frequentou a escola. for trabalhar na casa do capelão de Capriglio. por menos séria e reservada que fosse. Estaria disposta a estrangular os Antônio fora para lá enviado pelo pai. batendo latas e barras de ferro. João tem oito anos. Em . Nós não vamos nos — Não se preocupe. Somente quando sua irmã Marianna Escuridão. estudos! Não concordo mesmo! sinal. Todos de plantão. João ainda não tem condições de frequentar a dos Bosco. na escola do Apenas cortou o primeiro cacho.

A pega morre! Chega de repente Catarina Agagliati. um misterioso sonho. “Joãozinho. — Eu me arranjo.” . — Quem sabe ele não vai ser sacerdote?! Tinha razão. põe-te à frente destes meninos. MATA MAIS A GULA. Eu não tenho! Vovó: — Não se deve acreditar em sonhos. toma conta dela. Traz Um dia. Margarida? Margarida. Uma cereja naquele bico aberto e meninos reunidos no pátio da casa. cordeirinhos mansos. uma segunda. Lobos. Meninos que blasfemavam. Mamãe Margarida compreende: o desejo do filho não Pela manhã. me venha pedir dinheiro. dá-me tua mão. enquanto João esticava a corda para brincar diante da turma de um dia uma cesta de cerejas.. Margarida põe no filho olhos que veem longe: E soube mesmo sair de embaraços. Socos do menino. uma Senhora luminosa. — As intemperanças abreviam a vida! Margarida estremece como que saindo de um sonho. como vai. é uma extravagância. mas não Antônio: — Vai ser chefe de bandidos. Um Senhor misterioso... volta-se para sua interlocutora e lhe diz em voz baixa mas acalorada: CORAÇÃO DE MÃE NÃO SE ENGANA — O que você pensa do meu filho? O que ele vai ser? — Ele está destinado certamente a fazer o diabo do mundo! No pequenino quarto. João arranjou uma pega. cumprimenta-a e indaga: — Todos os gulosos acabam assim! — sentencia — Então.. aos nove anos. — Arranje-se como puder — disse-lhe —. João teve. ursos. conselho reunido na casa Bosco.. O FUTURO DO FILHO Em cada acontecimento uma lição de moral... vinte cerejas. uma terceira. é um meio de apostolado. aquecido mais pela ternura O diabo irá perceber isso! materna do que pelas chamas de uma estufa.. Eu serei tua guia. Margarida o contemplava pensativa. reprimindo a respiração. sôfrego. vai amestrando-a. José: — Você vai ser pastor de muitas ovelhas.

"HOSPEDARIA CHÁRITAS" Pode-se dar esse nome à casa de Margarida Occhiena. Um palheiro ao qual se chega por uma uma verdadeira irmã de caridade. “Há dança!” A voz vai passando de sítio em sítio. divertimento aos filhos. minha mãe. nem que fosse por um só PERSPICÁCIA DE MÃE minuto. sabe que também são filhos de Deus. A nora ficou ao seu lado dia e noite. noite. como um abrigo para a noite. é um leito de Não media as despesas. E os policiais? Também eles lá iam às vezes à — Se gasta todas as suas economias com a velha. antes que morresse. querendo beijar a todos —. portanto. Margarida não está protegendo bandidos. conforme o — Eles mesmos. — Esperem aqui. vamos nós também! — gritam os filhos de Fica entre os bosques e.. Um realejo chegou à colina. caso. dar-me-ia por muito feliz. Se todas as despesas que faço servissem para prolongar-lhe a vida. de um abrigo seus filhos? contra o frio. — É a mãe do meu marido e. — Mas não vê que são cuidados inúteis? Ousadia e caridade de uma santa mulher! — Prometi ao meu Francisco. os bandidos batem à porta. — Os bandidos? Margarida dava uma olhadela no ambiente e logo decidia: sim ou não.. abertura que não desperta suspeitas nos policiais. vendedores ambulantes. Cháritas” há lugar para todos. em plena Margarida. Aquela pobre gente está apenas GASTA TUDO COM A VELHINHA com fome. mais de uma vez.. não se deve negar um — Um último beijo no tempo — beijou Margarida. minha gente!” . ladrões. vou ver de que se trata. “Baile. cuidar da mãe dele. de um copo de vinho oferecido de boa vontade. Não dá somente o que comer: proporciona-lhes ainda Vovó Margarida estava nas últimas. — Mamãe. As derradeiras palavras da velhinha foram: Sem um motivo justo. do outro lado. muito mais felizes. o que vai restar para você e procura de uma cadeira para esticar as pernas. Sua palavra era lei. Na "Hospedaria Devo respeitá-la e servi-la.. Soldados. espero rever vocês todos. causar inveja.

Será o padre dos Chegado o domingo. para confiar ao padre Calosso o seu “portento”. sentimentos há de dar um padre santo. E a oposição de Antônio. Deus vai conceder-lhe um grande Saber vencer é uma arte. eu o vi! Eu falei com ele! — Com quem? — Fique tranquilo. Aquele que abraça o estado eclesiástico vende-se ao Senhor. Margarida voou à casa paroquial pobres. Vá comungar com frequência. responde: Frequente de boa vontade o catecismo e ouça com atenção os — Os espetáculos próprios para os padres são as sermões. Fuja como da peste àqueles que têm más conversas. Seja sempre obediente. — Estou convencida. que Confesse sempre tudo ao confessor. imolado no altar da paz familiar.. dom. eu vou me interessar por você e — Com José Cafasso. Desta vez. meu filho (e suas intuições eram — O senhor não quer ir ver algum dos espetáculos da sempre infalíveis) de que Deus tomou de verdade posse do seu nossa festa? coração. o enteado? Procurou-se não Joãozinho fez a sua primeira comunhão. funções da igreja! . É Ainda uma vez Margarida devassava o futuro. meu filho. ela mesma acompanhou-o para confessar-se. Joãozinho era um novo Isaac. Combinou-se alternar trabalho no campo e estudo. O PRIMEIRO BENFEITOR DE JOÃOZINHO — Mamãe. — João. mas ponha este menino para estudar... nos dias que antecederam a A MESMA INTUIÇÃO solenidade.. o anjo coloca-se ao . Vamos combinar tudo. sacrilégio.. 26 de março de 1826. esta é a vontade de Deus”. com você. jamais! João dirige essas palavras ao então clérigo Cafasso. Diga a sua mãe para vir aqui domingo à — Procure então imitá-lo! Um clérigo que mostra tais tarde.O GRANDE DIA No domingo de Páscoa. em lugar de sustar o gesto de Margarida. pelas próprias mãos de sua mãe. que o bom padre repetiu-lhe diversas vezes: “Seu filho é um portento de memória! Faça o que puder e O SACRIFÍCIO DE ISAAC souber. Creio que é mesmo um santo! pelos seus estudos.. aborrecê-lo. de Morialdo. procure preparar-se bem! Isto lhe dissera a mãe.

Antônio completou vinte e cinco anos bem que João intui o drama materno. João. Margarida poderia ter-lhe dito: "Tome o que é seu e vá viver sua vida". Mas a delicadeza de Margarida é incomensurável. Volte logo para casa e diga a sua triunfou. Sua mãe — anjo luminoso — O rapazinho voltou para casa. Festa. DESFAZ-SE O NÓ ARTE TEATRAL Convencida de que Antônio jamais permitiria que João estudasse. na qualidade de aprendiz. Passa-lhe ao lado o tio Miguel. porque não posso estudar. Mas vai não poderia fazê-lo? ser agora empregado na herdade dos Moglia. Margarida sacrifica João. irmão de Margarida. afinal.. cúmplice daquela volta. que vai assumir toda a responsabilidade. Margarida não poderá mostrar-se minimamente João tinha os seus direitos. Vou pensar nisso. As formalidades requeridas pela lei exigiam alguns meses.. mas. Os anos estão Margarida não se deixou demover: foi mister recorrer ao tribunal de justiça. sacerdote. entre o enteado e o filho. à espera do tio naquele mês. João viu desimpedido o caminho para o altar. resolveu proceder à repartição dos bens. João. você está satisfeito? Antônio protestou! — Não posso estar contente. embora pobre. mãe que passarei lá. abraços. a justiça — Deixe por minha conta. não quis privar a Igreja de um gado. Lá está ele pastoreando o não quis sacrificar seu filho. Margarida Faze dois anos que João é empregado dos Moglia. passando. mais inteligente. trabalho e ordem para voltar imediatamente para o emprego. era senhor de sua casa. não era mais uma criança. longe de sua mãe. Margarida não quis que ele a julgasse incerta da sua vida. para falar com ela. estava a seu lado. queria estudar. Miguel. — Olá. sacrifica o filho. Que sucedeu então? Muitas recriminações por ter deixado o Entre Antônio e João.lado de João. Qualquer outra o teria dito. Pobre mãe! Quantos abraços e beijos não teria querido dar no filho! Ainda Estamos no mês de fevereiro de 1828. foi encostar-se atrás da cerca. lágrimas de alegria? Quando Margarida colocou João junto ao alfaiate Giovanni Roberto. Por que infiel à memória de seu marido. no instante em que ele se separa dos seus e afronta a primeira etapa Nada disso! Lá estava Antônio. Era possível que aquela situação continuasse? Antônio representa o pai morto. para que .

Só isso. que vai morar em Chieri. Fiz a minha parte.. um novo — Aqui está meu filho e aqui tem o dinheiro da pensão. sonho-visão vem confortá-lo no árduo caminho. um saco de trigo e de milho. Espero que você fique satisfeita com ele. padre Calosso: por que não posso tê-la também com os outros? Assegura-lhe uma pensão de toda confiança: João ficará alojado na casa da senhora — Que é que se pode fazer? — respondia Margarida ao seu João. No fim. seja do seu amor-próprio. todo este rebanho (era numerosíssimo) eu confio aos seus — Seja devoto de Nossa Senhora. para que o filho muita ciência e cheios de preocupações. João irá a Chieri. Aqui. Era tudo! cuidados — disse-lhe a Senhora. — Mas o que lhes custaria dizer-me uma boa palavra. mas que é que se pode fazer? 2 de novembro de 1831. que não podem parar para conversar com um rapazote possa estudar. O diálogo continuava cerrado. NÃO É? Margarida atalhava: — Não digo que você esteja errado. Margarida desde cedo habituou-o a qualquer espécie de sacrifício. ele fará a sua. Prestar-lhe-á algum serviço. João.pudesse frequentar as escolas de Castelnuovo. — É tudo quanto lhe posso dar. .. parar alguns minutos para seja físico. — Não tenha medo. disse-lhe ao despedir-se: — Olhe. eu estarei a seu lado. como você. Aos dezesseis anos. ouvir-me? . Diz a Lúcia: João vai estudar: é o que Deus quer. Aliás. a Mãe do Céu. A Providência há de proporcionar-lhe o DUAS MÃES que falta! Acompanha seu filho até às escolas públicas de Chieri. QUE É QUE SE PODE FAZER? E a mãe da terra? Margarida não admite mais obstáculos. Margarida entrega a João alguns queijos. a fim de aliviar a pensão. LÁ TAMBÉM EXISTE UMA PROVIDÉNCIA. João tinha argumentos irrefutáveis. — Eu gostaria tanto de poder conversar com o meu vigário! Tive esta alegria com o Permite que o filho se humilhe e faça uma coleta para arranjar alguma coisa. Dá-lhe a notícia com o costumeiro sorriso e começa a preparar-lhe o enxoval. São homens de Lúcia (uma conterrânea de Margarida).

Lembre-se bem do que lhe digo! João terminou o curso ginasial em Chieri. ressoava-lhe o tom vibrante de sua voz. como poderá ajudar Margarida na sua velhice? essas palavras. chama o filho e tem com ele um diálogo que é uma e siga pelo caminho que a Providência lhe está traçando. “No dia 30 de outubro de 1835. O seu menino encontrou se preocupe comigo. Ainda mais: se você se decidisse pelo estado de A GRANDE MESTRA padre secular e. alma. Na véspera de minha partida. por desgraça. que fala a respeito disso Foi quando interveio um jovem sacerdote: o padre Cafasso. entre no seminário Esta vai a pé até Chieri. Não Apenas minha mãe mostrava-se pensativa. como se quisesse dizer-me alguma coisa. — Continue tranquilamente seus estudos. voltou para sua aldeia. Dom Bosco tinha ainda diante dos Entrará no seminário? Entrará no convento dos Franciscanos? olhos a figura imponente de sua mãe. eu nunca mais iria fazer-lhe uma única visita. Guarde bem o que vou lhe dizer: nasci pobre. Creio que a senhora não tem nada a opor. Mas eu lhe digo: nessas coisas eu não entro. com Margarida. mamãe. A primeira coisa que importa é a salvação da Castelnuovo. mas cheia de alegria. fazendo-se frade. que jamais pude esquecer: . primeiro lugar em tudo. porque Deus está em ninguém. chamou-me à parte e me disse estas palavras. É “NÃO ESTÁ SATISFEITA?” verdade? — É verdade. Tinha recebido a veste talar em sua vocação sem se preocupar com ninguém. Com mais de setenta anos. O pároco queria que eu dissuadisse você desta decisão. aos ouvidos. quero morrer pobre. De você eu não pretendo nada: nada espero de finalmente o caminho: há de percorrê-lo a passos de gigante. É o que pensa também o bom do pároco. padre Dassano. no dia 25. ficasse rico. Quer ser sacerdote. a energia com que lhe disse Mas. — O que quero é que você estude bem o passo que está para dar e que depois siga O pequeno enxoval estava pronto. você. obra-prima: — O pároco esteve comigo e disse-me que você está querendo se fazer religioso. eu devia entrar no seminário. vivi na pobreza. tinha os olhos pregados em mim. Comovida. considerando que eu posso vir Todos os meus parentes estavam satisfeitos e eu mais do que a precisar do seu auxílio.

casa. o professor que todos estimam. de 1839 para 1840. afasta-se. Apenas durante as férias. O sonho dos nove anos é cada vez mais uma realidade. Margarida. alheia ao que estava acontecendo. a mortificação contínua. no verão. quem é ele? Não é o filho de Margarida? descuidado dos seus deveres. você viesse a duvidar da sua vocação. foi visitá-lo e levou ao seu Durante os anos que passou no seminário. Deponha-a antes! Prefiro mil vezes ter um filho simples camponês do que um padre — Mas. Se você chegar a ser sacerdote. filho e quer levar de volta ao menos o pão. você vestiu a batina. João Minha mãe estava comovida: eu chorava. leva um choque. Aconteceu que. A morte do amigo Comollo. Ela reza: nem precisa mais preocupar-se com a pensão a pagar. Quando você veio ao mundo.” ficou extremamente debilitado. porém. sinto aquela imensa consolação que que dá aulas particulares. Quando você começou os estudos. tudo isso somado levou-o às DURANTE O TEMPO DE SEMINÁRIO portas da morte. Com os olhos rasos de lágrimas. propague a devoção a Nossa Senhora’. um pão de milho. . onde se ouve ainda a voz de Antônio. que não queria saber de que não é o hábito que honra seu estado. João está de fato muito grande dia em que a meta será alcançada. à espera do Mas. o padre Cafasso e o próprio João. ‘Meu querido João. o clérigo Bosco começa a pregar com muito sucesso. Imaginem: ali. da cabeceira do pequeno pátio e a casa enchem-se dos gritos dos meninos que o filho foi recolhendo. durante o verão. mas sim a prática da virtude. entre as paredes rústicas de sua pobre só a uma mãe é dado experimentar pela felicidade de seu filho. João pede-lhe que o deixe com ele. por piedade. justamente ali ressoava a voz de João. Recomendo-lhe agora ser todo dela: ame os companheiros devotos de Nossa Senhora. eu o consagrei a Nossa Senhora. quando ainda estava no seminário. Margarida reza e enche-se de alegria com os progressos do filho. recomendei-lhe a devoção a esta boa PÃO E VINHO Mãe. não desonre a veste sacerdotal! A seguir. A isso provê Margarida retira-se chorando. ao anoitecer. João foi progredindo sempre mais querido João um garrafão de vinho — generoso como o seu grande coração — e em santidade e ciência. Se por acaso estudos. o doente. na enfermaria do seminário. Lembre-se. os longos serões passados em cima dos livros.

Quanto não tem sofrido! Milhares de Mas. um tombo. percebê-lo logo. celebrar a missa significa começar a sofrer. dentada. não pude conter as lágrimas. padre. Depois acordou. terra um pobre menino para colocá-lo entre os príncipes do seu povo. Não vai Ninguém percebeu. seja quando morrer. O filho de Margarida tornou-se sacerdote para sempre. foi a Castelnuovo. João fica sozinho. pobres meninos. Margarida está desmaiada. quando ficou a sós comigo. Sua espaçosa fronte levará por muito tempo a estiver viva. Estava curado! “Todos (conta Dom Bosco) tomaram parte naquela alegria”. Quanto tempo ficou assim? Lembre-se. pouco a pouco. horas!). outro infortúnio: o a verdade.. Crac! Um grito. depois outra. Ela não é mais jovem. Uma frondosa amoreira fornece a Margarida as folhas para sua criação de Naquele dia. que. O pão desaparece. Disse: — Como são — Não vai vê-lo padre! — é o grito de Satanás contra maravilhosos os desígnios da Divina Providência! — Na verdade. a pelas mãos de Dom Luís Franzoni. seja enquanto eu galho quebrado cai-lhe sobre a cabeça. Daqui por diante. um sono pesado. celebra a Missa: daqui por diante vai estar mais perto de Jesus Cristo. para a Veio depois o sono. com o sangue de Cristo. de privações. dia do Corpo de Deus. porém. Deus tirou da sua ela. E os pobres são bem-aventurados! . Estou certa de que todos os dias você vai rezar por mim. em primeiro lugar Margarida.. voltei para o seio da família. volta a si.. sempre corajosa. tão pobres como o seu filho. minha mãe disse: Você agora é bichos-da-seda. longo. Na quinta-feira seguinte. Uma 5 de junho de 1841.. de paciência. naturalmente. sobe. salvação das almas e não se preocupe absolutamente comigo!’. DIA DE PARAÍSO. você vai ver que sua mãe tinha razão e lhe disse Quando. Margarida vive à espera do grande dia. Um gole de vinho e depois um outro. de humilhações! tinha mais ou menos nove anos.” Mas Deus não quer que ela morra. senta-se num galho. como ela mesma. isto me basta. finalmente. todas as suas lágrimas! “Na tarde daquele dia. DIA DE LUZ. interminável (umas quarenta primeira missa na terra natal. sentada ainda no chão. quando ia me aproximando de casa e vi o lugar no sonho tido quando sacrifícios. que pôde gozá-la plenamente. mas. UMA GRANDE PROVAÇÃO No cálice do filho. com aquele pão abençoado por Deus e pela sua mãe. mas. garrafa se esvazia. pense somente na marca do acidente. Está destinada a ser a mãe de centenas de jovens.

Missa de Cristo. Morialdo até Castelnuovo. Entre a sobrecarga de trabalho e a barulheira doida que fazem os no dia 8 de dezembro de 1841. de catecismo a Bartolomeu Garelli. mas depois João viesse a perder sua alma? levará consigo uma representação. mil liras por ano. o padre Cafasso e o teólogo Borel. se recorrer a sua mãe. vê-se objeto da ira. chegam meninos à procura do Dom Bosco foi chamado pelo padre Cafasso para estudar no Instituto grande amigo. ele dá a primeira aula diabretes. em outubro. Sede fixa é que não havia. Roupa. de toda a vizinhança. de semblante pálido. Deixará a multidão dos seus filhos. Eclesiástico. é transplantado de um . Ainda no ano da primeira Missa. compreendem. O palheiro se transforma em magnífico e bem arejado dormitório. Margarida tem os olhos rasos de lágrimas. Mas o estudo não basta ao neossacerdote. entre o trabalho e suas acrobacias. aqueles ANOS DUROS mesmos que serão seus também. o caminho dos pobres e do trabalho. poucos o ajudam. à luz da Imaculada Virgem Maria. o oratório. do escárnio de muitos. Deve O que faria ele com mil liras? O que faria ela? O que faria delas seu irmão. É o primeiro contato que ela tem com os filhos de seu filho. sofrimento do sacerdote! A mãe não vê o filho senão durante alguns dias de repouso. em Turim. De Foram os anos dos inícios. na festa do Rosário. o jogo. Sete diabinhos levam alegria e vida à casa de Margarida. Percebe que está cada vez mais magro. O Espírito Santo trabalha nas almas. é hoje um homem gasto. Como um repolho. Poucos o fez prodígios de graça. não procura arrefecer o zelo de seu filho: ele professor na casa de um rico senhor genovês. entre estes. Os parentes e os amigos fazem pressão sobre Margarida: as mil liras seriam para NÃO SE AGUENTA MAIS DE PÉ ela! — Meu filho em casa de gente rica? Em outubro de 1845 Dom Bosco não se aguenta mais de pé. é certo. Com o catecismo. O camponezinho que LUTA CONTRA O DINHEIRO cresceu forte e sadio ao ar livre. está no caminho certo. O primeiro ministério que foi oferecido ao neossacerdote Bosco foi o de Margarida não intervém. comida. à paz da sua colina. mas no coração daquela camponesa lugar para outro.

meio de tantos sofrimentos. sinto-me alegre como mais não poderia desejar”. Embora em repouso.. Ela e seu de Nossa Senhora de Campagna. A Páscoa marcou o triunfo de Cristo e de Dom Bosco: entrou na posse da casa Pinardi. choram os coroinhas que levam “DOM BOSCO ESTÁ LOUCO!” as velas e representam todos os meninos do Oratório. Ele tentou um golpe de mestre. difundir sobre ele. João estuda e publica sua História Eclesiástica. Improvisamente sobreveio uma bronquite que.. Margarida agoniza com o filho. a vitória de Deus. Chora o teólogo Borel. levou-o às portas da morte. O VIÁTICO PARA DOM BOSCO melhorei bastante. Com certeza. em oito o filho para que empregue um dias. O teólogo Borel teve uma intuição. que por Cristo agonizava e Dom Bosco devia sarar. Acompanhada por José. Não é por nada que. Fazia algum tempo que o Margarida é mãe de um escritor. O viático. os sinos começaram a badalar sozinhos. Em breve. “a moléstia agravou-se bastante a ponto de eu não poder dar um passo. essa exclamação chegou até os Becchi. no Satanás. em peregrinação ao santuário 38 . estava certa do seu triunfo. da sua vitória. tendo a alegria de ouvir os gritos dos meninos. em companhia de seus molequinhos. como veremos. choram e rezam. São lágrimas de alegria: o sonho dos nove anos já é uma realidade. Encontrou-o morimbundo. estilo popular e fácil. Margarida voou à sua cabeceira. a O MAL É SÉRIO sede estável do Oratório. a oferta da própria vida. Encarniçou-se sobre Dom Bosco como sobre Jó. Desde ontem. parecia apagar-se. Entretanto. O triunfo da Páscoa deveria forçosamente desencadear o furor de Bem que sua mãe lhe tinha dito: ser padre significa começar a sofrer. da manhã até tarde da noite. Ela também “estava de pé junto à cruz de seu filho”. a terra das promessas e dos sonhos. ela é que vai guiar santo escarrava sangue. a terra da Auxiliadora. Às lágrimas e às orações juntam-se os jejuns. chora desolado José. O que me admira é que apesar de tudo. que de Margarida. as bênçãos de Deus. para filho é que adivinharam. aos ouvidos e ao coração A igreja da Consolata viu chegarem numerosos grupos de jovens. sobre aqueles pobrezinhos. do meu mal-estar. ao dirigir-se o seu João. Mas ela não se perturbou.

sua vida.. Foi este o dilema proposto a Dom Bosco pelos meninos que “em — Diga ao menos: “Senhor. mandava dois proposta. Senhor. o amigo de João chegou aos Becchi “bastante sacudido pelo burrinho” montado no qual tinha todas as horas. VOCÊ VAI TER UM ANJO A SEU LADO NOS BECCHI. ir morar em Valdocco? Sozinho? palavras. Pôr em casa uma mulher? Que mulher? Se a poucos passos de sua casa Um sono profundo. favor. por mim. MÃE DOS MENINOS POBRES UM DILEMA IMPERIOSO Todos tinham rezado por Dom Bosco. Repita estas Voltar para Turim. filhos. vida de sua mãe. a um sacrifício tão duro? este trecho de uma carta de Dom Bosco ao teólogo Borel: “Envio-lhe dois pombinhos aqui — Minha mãe é uma santa (é um santo que o diz). vinham a pé de Turim aos Becchi. meu querido Dom Bosco. peço-lhe em nome dos nossos filhinhos.. por ser de opinião que essa espécie de alimento deve-se comer no lugar onde é produzido”. A RESSURREIÇÃO — Mas você tem sua mãe! — disse o sábio padre Cinzano. se for da vossa vontade. para vê-lo”. os quais espero. curai-me”. repita-as de coração! Agora não está mais no Instituto da Barolo. acima de tudo. posso fazer-lhe a de casa. mas ele mesmo (sua oração tinha eco no — Ou o senhor volta para Turim. o seu lado! afeto solícito de Mamãe Margarida completaram o milagre. de quem recebia alimento e — Sim. a um tão Para se ter uma ideia da delicadeza de coração daquela camponesa. ou nós transportaremos o Oratório para céu!) não tinha rezado por si próprio. A frescura “realmente vivificadora” das suas colinas e. . assistência. curai-me. João fica confuso: obrigar a mãe. os Becchi. sua rainha e rainha de José.. serão do agrado do padre Pacchiotti. Faça-me este pequenos grupos. se for da vossa vontade. um acordar para a vida.. frangos. basta-nos ler grande desapego. vida dos seus caros fica a famosa estalagem da Jardineira e certos vizinhos? . — Faça com que ela venha com você para Turim: vai ter um anjo a feito a viagem. mas minha mãe não concordou.

. já providenciou alguma coisa para o jantar? — Não sei o que lhe dizer. Por enquanto. casa Pinardi. — Está certo. Mas. um encontro: o encontro da Providência.. Conta seu biógrafo: não tenha comigo nenhum dinheiro.. a força que foi necessária para desvencilhar-se do aperto dos braços dos deixe de nos ajudar. Não posso deixar de admirar você. junto do Oratório. A tristeza do adeus! responder. Realmente. tecida de — Trago minha mãe em minha companhia e vou morar com ela na dificuldades e de privações. estou pronta a seguir você! — Onde vai morar agora? Disse isso aos 58 anos. deixar seu irmão e outras pessoas queridas (os netinhos). — Estamos vindo da aldeia.. você bem pode imaginar o quanto me custa abandonar esta — E por que vieram a pé? casa. estamos nas mãos de Deus. — Mas. ao menos. a Providência há de dar um jeito. netinhos. pode agradar ao Senhor. tenho ainda que pensar nisso. — Mas você dispõe de meios para montar uma casa? DESCENDO AS COLINAS Está sem dinheiro! Como é que vai tocar a vida para a frente? — Você me faz uma pergunta à qual no momento não saberia o que 3 de novembro de 1846. se eu soubesse. espero que ele não Oh. está certo! Entretanto.. Tirou — Por que estão tão cansados? o relógio e lho deu. em todo caso. A PROVIDÊNCIA NÃO FALTA Mas fique tranquilo.. Descansaram em Chieri. de aplaudi-lo. na casa amiga dos Valimberti. mas é pena que representar pelo teólogo Giovanni Vola Junior. depois de uma vida em extremo trabalhosa. feita a pé.. Ela se fez . — E você fica sem? . isto (esfregou o polegar no indicador). — Não.. ninguém. se você julga que isso — Porque não temos.ESTOU PRONTA — Meu querido filho. se eu pudesse Chegados ao Rondó da forca. receba isto. que a enlaçavam com a impetuosidade do amor que os prendia à querida — Em casa está alguém esperando por você e sua mãe? avozinha! Durante a viagem. vieram conversando sobre Deus e sobre seus projetos.

desde manhãzinha. ter-me-ia privado deles sem nenhum pesar. meninos necessitados batiam à porta do "palácio" de Dom terreno que Dom Bosco quis reservar para sua mãe. entrando em mim. os brincos. todo o por nós. Venda este e compre o que lhe é necessário. se tivesse outros Desafoga a alegria que lhe enche o coração: cem enxovais. qualquer. Mas. Os vestidos. mas logo o nome pegou numa nesga de Todos os dias. pelo que vejo. PARA O ESPOSO! Não havia nenhum letreiro. mandar. aqui temos uma bela prova de que a Providência olhará possuíam. Ai do mundo se souber que somos forasteiros sem dinheiro! HORTA MAMÃE MARGARIDA O ENXOVAL DE ESPOSA. Que fazer? Despojar-se para vestir. Alguns não tinham uma roupinha apresentável para ir solicitar um emprego tudo uma extrema necessidade. uma — Quando tive entre as mãos. enxoval de casamento da pobre mulher. Divertimento? Antes de Bosco. duas cadeiras. dois bancos. a corrente. aqueles objetos dos caçarola. Para voltar para casa eu não preciso saber a hora. disse: Vamos! Que melhor sorte poderia ter tudo isto do que — Em casa. pela falta absoluta do que comer. com outras foram feitas AI DO MUNDO SE SOUBER! sobrepelizes. . aqui vou poder ficar mais tranquila e ter menos celeste? aborrecimentos. purificadores ou toalhas de altar. ou então honrar na igreja o Esposo determinar. um relógio dado por caridade.. dos quais um é também cozinha. quais ia desfazer-me. alguns pratos. pela última vez. eu precisava desdobrar-me para administrar. duas pequenas camas. uma panela. A corrente foi vendida para comprar galão e os demais enfeites para os Dois quartos de dormir. Era tudo. Alguns lotes de terreno e de vinhedo que Margarida e Dom Bosco ainda — Está vendo. paramentos. senti-me um pouco perturbada e quase me arrependi. o anel. matar a fome de pobres meninos.. uma mesinha. Vamos adiante com confiança. mamãe. dois quartos vazios. vesti-los. — Tenho em casa outro relógio. Depois que de tudo me desfiz. tudo sumiu! Algumas peças se transformaram em casulas. senti-me tão alegre que. foram vendidos.

Mamãe Margarida. mesa desguarnecida. nada de tapetes. e juntos afrontaram o homem. O pobre rapaz. ainda que seja nos braços de Dom Bosco! fazenda. rapaz de seus quatorze Cama sem cortinas. para ir depois servindo durante a semana. tipo militar. Limpeza esmerada da roupa. onde hoje Desçamos aos pormenores. e ameaçava arrombar a porta de entrada. O homenzarrão empunhava um machado.” Ainda bem que Margarida tinha-se habituado. ofereceu-lhe uma boa sopa quentinha e lhe preparou um Foi o que disse a Marquesa Barolo. eles amada e admirada pelos bons. advertiu Dom Bosco. até grosseira.. defronte do portão da casa Pinardi. anos. — urrava um pai ateu e embriagado que perseguia o filho. OS HAVERES DE UM PADRE: PÁTRIMÔNIO DOS POBRES A ÁRVORE DA VIDA Já falamos da pobreza que Dom Bosco praticava. como Dom Bosco soube amansar a fera. meticulosa: tem a mãe a seu lado! Quanto à — Vou te pegar. A fome que sofriam. Logo que os pais se afastaram.. o rapaz foi chamado para dentro de casa. . Ela ficava bem na entrada. é barata. imagine-se a pobreza da mãe! e escondeu-se entre os ramos. tanto eles A boa Margarida. tanto Dom Bosco como sua mãe. embora por pouco tempo. era por Ao lado do pai dos pobres e dos órfãos. um crucifixo. pelo crime de frequentar o Oratório. domingos. vou te matar. cujo coração estava profundamente comovido. Se porta fechada. sentar-se ao pé do fogo. que presenciou a cena por uma A comida: sopa semelhante à dos camponeses pobres. tanto no almoço. lugar para passar a noite. espécie de renúncia. teve uma ideia sugerida pelo desespero: subiu pelo tronco da árvore para o filho é assim. encontrando a Uma ou duas cadeiras de palhinha. — Vão visitar um padre que chegou a Valdocco com a mãe. a qualquer Foi o primeiro asilado. Nas paredes algumas oleogravuras. ameaçando-a de dar parte à polícia. fê-lo dois como os seus molequinhos morrem de fome. ajudado por Margarida. mais um prato janela. geralmente um pastelão que Margarida tinha ordem de fazer nos com a mulher. e a seu filho. que vinha chegando apenas. uma estufa quase sempre apagada. Sapatos de sola grossa. se levanta o coro da Basílica. a doce imagem de uma santa mãe.

— Oh! animais nojentos. ela crê e invectivava quem lhe atormentava o sono. colocado no campo de luta. Isto até quinta-feira... arrebatada em êxtase. foi com ele que eu falei.” Às vezes. Aquilo tinha se tornado um campo de e espera. durante a madrugada. ). trate-o bem. Dom Bosco foi. franca que sempre fora. — Com quem você estava falando esta madrugada? — Com Luiz Comollo. QUARTOS VIZINHOS UM DO OUTRO Uma vez. entregue à oração. Era como se pesados tijolos rolassem sobre as tábuas. batalha infernal.. do de seu filho.. Dom Bosco parecia agitado por uma vez por todas! comoção que durou vários dias. O filho e a mãe puderam enfim descansar. falar no seu quarto. arguta. A água benta foi ineficaz. Vários indícios a tinham persuadido de que Dom Bosco ficava acordado — Oh! — exclamou Margarida em voz baixa — Por que você me boa parte da noite.. Nada. Êxito completo teve um pequeno quadro de Nossa Senhora. um grande amigo. à caça e voltou com um convidado para o almoço. ao anoitecer. Continuava a ser a camponesa viva. entrando no quarto do filho. A sopa deu para três. Com quem? Apurou o ouvido. ouviu Dom Bosco — É meu amigo.. deixem Dom Bosco em paz. A mãe será para o filho um instrumento de mortificação. OH! ANIMAIS NOJENTOS! — Mas Comollo morreu faz tantos anos! — Entretanto. porque na sexta e no sábado não se comia carne. acabem com isso de uma “Muito corado. . Suspeitava de alguma coisa extraordinária. Uma vez.. Ninguém imagine que Margarida estivesse perenemente calada.. uma caça selvagem e mal cheirosa (tratava-se de um jovem que Margarida "tinha transportado a própria cama para o quarto que ficava mais perto “tinha as mãos e o rosto sujos. Margarida olhava para o teto Que reações teria o coração da mãe? Como Maria Santíssima.no jantar. a mestra. Voltou a calma. que não trouxe esse porcalhão? Onde o achou? sabia bem definir". olhar brilhante. ela que lhe foi e No outro dia de manhã: continua a ser. Ratos? Gambás? Gatos? SEMPRE MUITO VIVA E FRANCA As ratoeiras de nada valiam. cuja blusa estava mais que sebenta”.

Fora ela quem o educara para o trabalho. depois de um dia festivo. Margarida acaba de escovar a melhor batina Quando volta para casa. na paróquia de São Salvador: quatro prédicas por apostolado. se o filho se — Que é que eu posso fazer? encontrasse sentado numa cadeira. A convite de Dom Bosco. para o Em Ivrea. No Colégio ISTO TAMBÉM É DEMAIS! Cívico está faltando um pregador. apenas num dia! Na soleira da porta.. você está vendo aqueles vagabundos no alpendre dos Outra vez. obrigá-los a restituir. muitos daqueles vagabundos do alpendre dos Filippi.. dia. vieram fazer a comunhão. não acordaria mais. é preciso substituí-lo: duas outras prédicas. A indenização veio pela Páscoa. em que os cantos marciais dos jovens Filippi? Foram eles que a roubaram! ressoaram a toda hora. da casa. está exausto.. vou ter tempo para descansar. mas com os olhos rasos de lágrimas. cada beberrão! . prega para o povo. esses exageros são excessivos: você vai se gastar logo. nem mesmo se o sacudisse com — Você é sempre o mesmo! Não faz caso de nada! seus robustos braços de camponesa. Se lhe põem na frente o Céu. Estende-a na grade e entra um momento para o interior — João. a única — Deixe que primeiro eu descanse um pouco. que o filho tem. Dom Bosco voltou para casa. Sabia muito bem que. que tem? — Pobre de mim! — exclamava Margarida. Quando volta. quem tem coragem de reclamar? — João. — E expor-se assim a fazer uma triste figura? — Vamos à ceia! — Você vai então deixar que carreguem sua batina nova. Acontece que Margarida. Estava um trapo! — E daí? — Você ainda está vivo? — perguntava-lhe Margarida — É preciso ir reclamar.. Ao mesmo tempo é solicitado no Seminário: duas prédicas por dia. — No Céu.APAGAR UM VULCÃO? Imaginem: aquele bendito filho padre! A culpa era dela mesma. teve de dar um desfalque na sua provisão de vinho: pudera. Oito ao todo. a batina tinha sumido. sorrindo.

no coração da mãe e do filho. Ela chegou numa tarde Abril de 1847. Dom Bosco tem os olhos rasos de lágrimas. duas tábuas.LENÇÓIS E COBERTORES DESAPARECEM PASSARINHO ENSOPADO DE CHUVA Doía no coração de Dom Bosco. Tratava-se de um vasculhar seu guarda. à procura de trabalho.roupa: lençóis e cobertores para uma dúzia daqueles pobrezinhos que órfão que viera de Valsesia. quando sua roupinha estava seca. e ela não recusou. arruga. teve ainda de Dom Bosco encontrou-o já bem alimentado e disposto. — Onde pretende acomodá-lo? — Aqui na cozinha. marcando encontro no Oratório. naquele mesmo ano. — Agora. — E se ele fugir com suas panelas? — Vou tomar cuidado para que isso não aconteça. para onde você quer ir? O dormitório foi o palheiro.. limpinhos.” Mamãe Margarida. tinham aceitado o convite do padre amigo. lençóis. cada um para sua casa. — Se você está de acordo.. fê-lo sentar-se junto ao fogo — Agora. cheirosos! e. “A boa Margarida recebeu-o carinhosamente. Fora encaminhada por pessoa avenida Valdocco. um cobertor. vinte rapagotes rodearam-no e fizeram-no pagar-lhes um copo de vinho. levando os lençóis e os cobertores! Pobre Mamãe Margarida. meninos no palheiro! Fugiram.. Deus proverá. eu arranjo um cantinho para ele passar a noite seus queridos lençóis! Alguns. os primeiros — Não sei mesmo. Dom Bosco tinha se demorado à cabeceira de um doente. Por favor. chorou com ele Mamãe Margarida. que tinha esperado com tanta ansiedade pelo filho. dê-me aqui um lugarzinho para passar a meninos abandonados acolhidos na sua casa! noite. nada de O menino começou a chorar.. Alguns tijolos. esperava-se a primeira avezinha que nele se sentisse bem. Ao entrar na chuvosa do mês de maio.. Muita alegria.. pôs-lhe diante um fumegante prato de sopa de — Para casa? Quem é que tem casa? pão. há anos os vinha guardando. . o colchão de Dom Bosco. amanhã. O sonho se torna realidade. vivas. Mas foi mesmo um sonho? Na manhã seguinte. o ninho estava sempre preparado: sua casa! Deve ter falado a respeito com sua mãe. Quantos meninos sem teto! Se pudesse abrigá-los na Todavia. direitinho! e.

não terá feito má figura. a generosa mulher fez um pequeno sermão ao menino: falou-lhe da Como Margarida. De noite. Um mar de jovens: 300 foram salesianos vão se deitar. por uma ilustre dama da corte.” conseguir adaptar-se ao vórtice da vida oratoriana? Obrigado. balões. dirá Dom Bosco. 1847. seguindo seu exemplo (já se passaram mais de cem anos). encostado a um olmo. Em pouco tempo. fogos de Desde então. E Margarida? Dom Bosco certamente não terá deixado de apresentá-la às autoridades. antes que os meninos e os da cidade. simpática. mamãe! Festa de São Luiz. dá a “boa-noite”. uma procissão luminosa. como os sete dons do Espírito "Cada vez mais. Simples e O bom senso de Mamãe Margarida. Seu coração tornar-se-á. recurso educativo. pela marquesa Frassati. OS FILHOS SE MULTIPLICAM E O CORAÇÃO SE ALARGA deram ao conjunto uma nota de graça e simpatia. o Núncio Apostólico. prepare uma cama para ele. festões. sacerdotes salesianas do mundo. Massimo — a moderna avenida Regina — um COM AS SENHORAS DA ARISTOCRACIA menino soluça. dirige a eles uma palavra amiga. de noite.A PRIMEIRA "BOA-NOITE" EM ALTO MAR “Preparada a caminha. não tem pousada. seu zelo. lança uma semente nos sulcos da crismados. Havia alguns cujas calças e das praias do mar. alma. como o coração de Dom Bosco. como a mais preciosa colaboradora. declamações. Margarida Gastaldi. tornam-se norma. arrancada à tranquilidade da sua colina. pode necessidade do trabalho. Passado um mês. a luminosidade do rosto emoldurado pela candura da touca. Suas lágrimas são enxugadas por Dom Bosco: fica sabendo que é órfão. na avenida S. Tome conta dele. O arcebispo Dom Fransoni. os filhos de Margarida eram sete. paletós estavam em trapos. Outros não tinham possibilidade de trocar o farrapo de camisa que mal os cobria. por um grupo de outras damas da aristocracia turinense. Seus olhos inteligentes. membros da cúria metropolitana. tão vasto como as areias ajudar materialmente os nossos pobres meninos. da lealdade e da religião. se fazia sentir a necessidade de Santo. animada por cantos e vivas. suas tiradas espirituosas. Cantos.” . Poucos minutos depois: A senhora Margarida Bosco viu-se em breve circundada pela senhora — Aqui trago um segundo filho que Deus nos envia. em todas as casas artificio. o Diretor ou quem o substitui.

na altura do peito. lavá-las. outras generosas e distintas senhoras. Ela é Lá. sentirá sob a carícia das mãos o coração do na gentileza das maneiras e nobreza de sentimentos. aquelas camisas esfarrapadas (é sempre Dom Bosco que fala). para ver se tinham trocado a camisa. um remendá-las e devolvê-las aos meninos que. gritaria dos meninos. ela se sentia à vontade em companhia daquelas generosas senhoras.. estampido. conspícuas e de hábitos requintados. bater Valia a pena ver a senhora Gastaldi! para Deus. atraídos pelo perfume da caridade cristã. aquele distinto senhor? . Numa tarde de domingo Dom Bosco estava calças nojentas e conserta-las. Até canso quando a conservar tudo em ordem. a boa mamãe não se sentia tão sozinha e recebia estímulo do exemplo de tantas — Um dicionário da língua italiana. “Ela passava grande parte do dia na rouparia do oratório. dando catecismo aos mais crescidos. ajudando Mamãe Margarida — Você tem agora sobre a mesa um livro tão pesado. felizmente. com as quais competia que vai ter de remendar e. se haviam lavado as mãos e o UM LIVRÃO A MAIS pescoço. — Sílvio? Aquele homem de bem.. digo.” vou tirar o pó! Que livro é esse? Assim. ao fazê-lo. — Um dicionário? — Sim. Não. caliça pelo chão. sobressalto no coração de Margarida. por todos os jovens. não mostravam repugnância em tomar nas mãos aquelas Foi justamente em 1848. filho.. Parecia mesmo um general do exército. quem me aconselhou foi o senhor Sílvio Péllico. Um simples raspão na batina. Tê-lo-iam matado? Quartel-general desse exército da higiene era o pequeno quarto de Mamãe Margarida.. De repente um forte que talvez nunca tivessem passado pela água. Atiraram em Dom Bosco! perseveravam no Oratório e na prática da virtude”. no coro da capela. Cada domingo punha os meninos em fila e examinava um por um. em suas mãos. mamãe. O PRIMEIRO ATENTADO Muitas senhoras da aristocracia de Turim "pertencendo embora a famílias tão O fato foi espalhafatoso. tomá-las. rezará para que aquele coração possa ainda bater por muitos anos. uma nuvem de fumaça. para ela.

não terá nada para quando ficar velho. Estava agora vinha "não raramente" procurar Dom Bosco. se este meu empreendimento é obra de Deus. de sua mãe portanto.um grande número de meninos sempre (em 1848 já eram 15 e. almas de grande nobreza. Bosco. com a mesma fé. BATALHAS DE RUA FEIJÃO Justamente como quando ele tinha de 9 para 10 anos. Da janela do seu quarto ela acompanhava o aflitivo espetáculo. Vendo que o número dos meninos acolhidos aumentava “Um dia (conta-nos ele). que mais podia como eu: tenha sempre um dicionário sobre sua mesa e fazer? consulte-o com frequência. vão. Percebendo logo o que ia acontecer. as lágrimas a correrem-lhe pelas faces. A ex-casa Pinardi é agora o lugar onde se encontram "guardando a marca por vários meses". corri para o local e. embora uma vez sorriso! Dom Bosco tivesse recebido uma tamancada no rosto. Disse-me assim: Dom Bosco. ele irá para diante. Ele Afinal. procurava conter aqueles insensatos. — E o que você vai dar-lhes para comer. — Daremos feijão. coração da mãe. contanto que pudesse É um prazer apresentar entre os hóspedes de Dom impedir o pecado. o autor de As minhas prisões. Margarida perguntou ao filho: perto do nosso oratório. — Ele mesmo. se não temos As pedradas eram tão violentas que certamente nada? causariam a morte de quem por acaso fosse atingido. não se preocupe. . Aliás. Desde pequeno. sem dúvida. Quantas vezes colhendo os frutos! Margarida o presenteou com seu luminoso e encorajante Os frutos tinham vindo. com o mesmo carinho. faça enquanto movia os lábios em oração. o lugar era logo externos tiveram a triste ideia de vir baterem-se a pedradas bem ocupado por outro). Mas. com — Mas se você continua desse jeito e todos os dias traz gestos e gritos... aquele filho não se mostrara disposto a deixar que lhe quebrassem a cabeça. ela mesma tinha dado licença. como desejo de coisas celestes. se um saía.” — Terei sempre um lugarzinho no hospital do As pedradas caíam com um baque surdo sobre o Cottolengo. brota o Quem se curvou sobre o rosto ferido? Foi ela. Tudo em para casa novos meninos. do seu contato brota luz. outrora.

aproximava-se do Os braços do filho e os braços da mãe. satisfazia logo o pedido. consolação. João e José.. Também rachava lenha. naqueles primórdios. ou sobre um banco colocado junto da porta de “Não se fiando em pessoas externas para fazer o serviço. cortá-lo. catava o arroz. com o auxílio da mãe. “Cada um. peneirava a farinha.” estávamos à mesa. muitas vezes Giuseppe Buzetti. calças. Margarida descansava tranquila na palavra do filho. em duas horas uma roupa “Deve-se lembrar que. UMA GRAÇA ESPECIAL — Nos seus olhos — dizia o padre Reviglio — brilhava um raio de tanta simpatia e carinho. ou mesmo Dom com a mãe todo o trabalho doméstico. Então. com uma tigela ou uma panelinha de barro na mão. Será que Margarida tinha de fazer o pão. passados cinquenta anos. rancho. E O PÃO? Às vezes. Ao mesmo tempo. debulhava com ela as vagens. me enchem de contínuos milagres da Divina Providência.. Mamãe Margarida. que. para evitar-lhe um trabalho pesado. ainda hoje. parece-me Quando precisavam de alguma coisa. descascava as batatas.” Não teria podido fazer mais pelos seus próprios filhos. caldeirão que fumegava sobre o fogão. . com uma concha na mão. dia por dia. MAS.. “Todos a chamavam de mãe.." Sua mãe acendia o fogo e ele ia buscar a água. ele dividia entrada. em vez de nos dar pão quando completa estava pronta. os meninos que tinham ido ao centro trabalhar neste ou naquele BRAÇOS ENLAÇADOS emprego.” Ao meio-dia. a nós aprendizes. todas as noites. voltavam para o. Dom Bosco nos reunia. para que o comprássemos. ele mesmo cortava e costurava as impossível: nunca o teria conseguido. e distribuía a cada um 25 centavos. testemunha que era dos ainda vê-los: é-me impossível esquecê-los e. Bosco. os jovens recorriam a ela que. faziam a distribuição da sopa. ele nos ia dizendo: RANCHO — A Divina Providência me dá o que vou entregando a vocês. podendo. acompanhado de um sorriso tão suave. camisas e casacos. distribuí-lo? Seria coisa Para evitar despesas com o alfaiate.

E quem teria ousado opor-se à mãe de Dom Bosco? era indispensável. sempre carinhosa e generosa. Por isso. atraía a atenção. mostrou-se humilde e submissa. as susceptibilidades que vão surgindo num grupo de se tratava de repreender. Quando voltava. o qual. enérgica. ela começou logo a tratá-lo como seu superior. aquela espécie de Estava sempre vigiando para que tudo saísse bem: ouvia-se infalivelmente sua voz. de maneira que a boa captava seus pensamentos.” Tinha o máximo cuidado para que o filho não precisasse sustentar sua autoridade. De tal maneira Os jovens ouviam-na em respeitoso silêncio. admoestar. diante de um jovem clérigo. a observava e ouvia com aspirava à carreira eclesiástica. admirado frequentemente com o vigor de suas palavras. evitou absolutamente tudo o que dizia respeito a correções. ganhava o coração de todos. Era um encanto ver a parte que tomava na direção do Oratório. pessoas que diferem entre si por índole. ao contrário. por educação. conferindo-lhe certa autoridade. “Soube evitar também as pequenas invejas. quando a veste clerical foi imposta ao primeiro jovem que muitas vezes. sem ser visto. deixava em casa um grande usou dela para exercer domínio no Oratório. do próprio Dom Bosco que. Mas sabia condimentar a advertência com o elogio. quanto menos resistência mesmo de ter falado nela. Mas ela não se prevalecia de tal prerrogativa. de governar a casa. impedir qualquer desperdício. antes senhora tanto mais desafogava seus sentimentos. que ele conquistara.” PEDAGOGIA ADMIRÁVEL NADA DE DUALISMOS “Sempre alegre. quando dualismo de governo. interpretava fielmente sua vontade. rica em imagens e em parábolas. por razões de oficio. com prejuízo da confiança dos jovens. vazio. era recebida com festivas aclamações de alegria. que Dom Bosco se admirava de ver feita uma coisa. Na maneira prazer.COMO DOM BOSCO “Margarida procura instruir e reproduzir o modo de ser de Dom Bosco. pelas inclinações. nunca Todas as vezes que precisava sair por alguns dias. admoestações ou deliberações. na economia. encontrava. agora como . A presença de Mamãe Margarida no oratório parecia — podemos mesmo dizer —. ordenar. Sua eloquência natural. Desde aquele momento.

abster-se de dar a própria opinião. pensar que Deus está contente com você!”. punha-lhe nos pedaço de pão para você. continuava a chamá-la respeitosamente com o nome de mãe. — Desde a manhã até à noite Dom Bosco sua sangue para conseguir um Tinha sempre em mira a justiça e a caridade. e você não quer trabalhar? lábios palavras francas. era ela que. Vamos. Evitar intrometer-se no governo da casa. de acordo com Dom Bosco.antes. Não sente remorso de comer seu pão sem merecer? Se não as reproduzíssemos tais e quais. teríamos a impressão de as estar Que vergonha! Será possível que você não tenha coração? Que não se mutilando: decida de uma vez por todas a consolar quem lhe quer tanto bem? “Às vezes ia ao encontro de algum desses meninos indisciplinados. ver os seus superiores com rosto sereno. você. Esta. ardorosas. O remate do sermãozinho é sempre Deus. consegue dominar: quando for homem? — Ora.” tinha cem feridas? Toda gente se esforça para ser capaz de fazer alguma coisa. você terá de comer! E então? Quer ir parar na cadeia? A que está parecendo com o cavalo de Gonella (personagem legendário). é prova de muita argúcia e companheiros.” para se mostrar um mau rapaz e obrigar os outros a ralharem com você. como poderá ganhar seu pão. que só no rabo infâmia de hoje é a infâmia de amanhã. não ter feito nada que domínio de si. “Uma outra vez. cuidava da casa. mereça castigo. experimente só um dia como é bom ser estimado pelos sobretudo se se trata de uma mulher de mais de sessenta anos. vamos! Quando é que você vai começar a ser um bom rapaz? Você não vê Em todo caso. lança mão de todos os meios . que ninguém Se agora você não aprende um ofício. ao contrário. fruto de bom senso e de experiência. SUAS ADVERTÊNCIAS COM OS PREGUIÇOSOS Quando Margarida ainda estava sozinha com o filho. o inferno de hoje é o inferno de amanhã. dirigia-se àquele tal que de má vontade aprendia um Os meninos mais cabeçudos e grosseiros eram objeto de seus mais carinhosos e ofício: perseverantes cuidados. apoiada naquela.

COM OS GULOSOS

“Se surpreendia algum comendo com demasiada avidez, ou comendo demais, ou tempo, eram executados os condenados à pena capital.) É o patíbulo que talvez
abatido por causa de alguma indigestão, dizia: esteja esperando por você, pobre rapaz! Acredite em mim! Tome cuidado com
— Vejam só! Os animais, que são, afinal, animais, comem só o necessário, nunca você mesmo.
mais do que o necessário. E você está estragando desse modo a saúde! O menino chorava. Margarida, abrandando a voz:
Quem não sabe refrear a gula não é homem e a gula é a mãe de mil vícios. — Mas há remédio para tudo, sabe? Se você quiser se emendar, a coisa
Quer morrer moço? Quer ir acabar os dias num hospital?” é fácil. Procure desde agora ser obediente, respeite seus superiores e vá logo
trabalhar. Comece a rezar direito! Comece a rezar direito!”
A OFICINA OU O “RONDÓ”?
AGRIDOCE
“Aconteceu que um rapazinho recolhido da rua, logo nas primeiras semanas não
queria saber de ir à oficina. "Nas mais variadas circunstâncias encontrava as palavras adaptadas,
Passando perto dela, procurava esquivar-se, mas chamou-o e lhe disse: seja em público, seja em particular, de acordo com a necessidade.
— Você não quer trabalhar; quer comer o pão ganho com o suor dos outros. Pois Mas para fazer uma ideia exata da eficácia de suas palavras, teria sido
bem, quando você for homem feito e estiver fora daqui, não vai ter outro meio para viver preciso vê-la e ouvi-la.
do que roubar e tornar-se assassino: aí está o seu futuro. Não somente meninos, mas rapazes e até clérigos, foram vistos chorar
Ouvindo isso, o jovem procurava fugir-lhe, mas a boa mãe continuou, retendo-o: em razão de suas afetuosas admoestações.
— Não, fique. Não se zangue, ouça-me. Está vendo ali o Rondó? (Mostrava-lhe, O que, porém, nela mais causava admiração era que, mostrando-se
ali perto, o lugar onde, naquele habitualmente serena, sabia passar, num instante, da repreensão ao elogio.
Acabava de dar um aviso, quando via passar ali por perto um rapaz
cuja conduta era correta. Chamava-o:
— Venha cá! Muito bem! Continue assim como você começou. Dom
Bosco está contente com você e Nosso Senhor também!

Não se esqueça do prêmio que está preparado no céu para os bons; procure Um deles, mal intencionado, querendo guardar para si o dinheiro, arranhou
merecê-lo.” o rosto e, choramingando, contou, na presença de Dom Bosco e dos companheiros,
que fora assaltado por ladrões, que lhe haviam tirado o dinheiro e ainda batido,
Os RESULTADOS porque procurara defender-se.
Dom Bosco mostrava estar com pena dele, quando Mamãe Margarida
“Com tudo isso não queremos afirmar que a eloquência de Margarida produzisse aproximou -se do filho e lhe disse em voz baixa:
resultados infalíveis. Havia os mais travessos que, enquanto ela falava, elevando a voz, — Você está acreditando no que ele diz?
pareciam uns anjinhos. Mas depois, quando Mamãe Margarida se afastava, faziam-lhe — Sei que quer enganar-me; mas, se neste momento não finjo que estou
caretas. acreditando nele, vai perder a confiança.”
A cena tomava então um aspecto interessante: abria-se uma janela e Dom Bosco Prudência de uma parte, caridade da outra. Mas o tempo deu razão a
aparecia no momento exato. Mamãe Margarida.
O menino, surpreendido em flagrante, cobria o rosto com as mãos.
Margarida, certa de tê-lo convencido, subia ao quarto do filho, para confiar-lhe, COM OS QUE TINHAM SIDO CASTIGADOS
comovida:
— Pobres filhinhos! Se a gente não fala claro, não entendem! Mas já puxei-lhes as “Por outro motivo ainda, Mamãe Margarida merecia o maior dos elogios.
orelhas; você vai ver como vão se emendar! Têm bom coração! Mas são ainda muito jovens! Não perdia de vista os que tinham recebido alguma repreensão dos chefes de
Não sabem refletir! Vamos tratá-los com caridade. A caridade sempre triunfa!" secção, ou os que estavam de castigo.
Estava convencida de que eles não devem ser deixados entregues a si
CUIDADO, JOÃO. mesmos, ruminando o fel que brota em alguns, quando são contrariados. É preciso
arrancá-los ao peso da humilhação que mereceram.
“Todos os sábados à noite os jovens aprendizes, que trabalhavam no centro, traziam o
salário da semana e o entregavam a Dom Bosco, como ficara combinado.

— Aberta a ferida, é preciso o emplastro, costumava dizer. A gente precisa — Que foi que você fez? São essas as consolações que você nos dá? O
convencê-los de que é para seu bem que se usou severidade.” que nós queremos é o seu bem. E então, por que você não se decide a ser bom e
trabalhador? Se agora, com tantos bons exemplos que tem diante de si e com
INTERVENÇÃO EM DOIS E EM TRÊS ATOS tantos bons conselhos que recebe, você ainda procede como um meninozinho
sem responsabilidade, o que será quando for homem feito e estiver longe daqui?
“Qui non laborat non mangiorat! Este ditado estava sempre nos lábios dos aprendizes Vai ser um infeliz! Meu pobre filho!
da casa Pinardi: quem não trabalha não come!” E ia tirando do bolso um pedaço grande de pão, onde estava escondido
um pedaço de carne. Tanta bondade, inspirada por um coração de mãe,
Primeiro ato enternecia o culpado até às lágrimas. Muitas vezes recusava-se a aceitar o
presente, mas uma ordem de Margarida liquidava o caso.”
“Acontecendo que algum, por preguiça ou por algum outro motivo, cometia uma falta
qualquer; tomando conhecimento do ocorrido, Dom Bosco ia-lhe ao encontro: DOM BOSCO NÃO É TUDO
— Então, como vai? Que anda você fazendo? É verdade o que me dizem a seu
respeito? Será possível que você não queira mesmo ter um comportamento correto? Se fosse “Outras vezes, depois que os meninos tinham acabado a refeição,
você o superior e eu, ocupando o seu lugar, tivesse um procedimento igual ao seu, que faria Margarida ia buscar algum que se tinha escondido num quarto porque sabia que
você? Julgue você mesmo. Que é que você merece? merecia castigo e não queria ficar diminuído diante dos companheiros.
Dito isso, Dom Bosco voltava para seu quarto, deixando o faltoso entregue às suas — Que foi que você fez? — dizia-lhe. Não foi certamente boa coisa, não
reflexões; este, chegada a hora do almoço, em vez de ir para o refeitório com os outros, ficava é? Sempre os mesmos aborrecimentos! Mas eu não vim aqui para repreender!
sozinho num canto do pátio, pensativo, mortificado, de cabeça baixa. Você promete ser bonzinho? Sim? Então eu tiro você do castigo.
Assim dizendo, levava-o para a cozinha, onde recomeçava:
Segundo ato

Não tardava que Mamãe Margarida lhe fosse ao encontro:

Retirava-se depois. mas. NA AUSÊNCIA DE DOM BOSCO para entregar-se às costumeiras ocupações domésticas. — Sim. E Deus? Você sabe fossem. ela recomendava: Se percebia que ele estava preocupado. é a ele que você deve pedir perdão. Enquanto lhe preparava o almoço. Eu faria uma triste figura: ocorrido durante a semana. vá pedir-lhe perdão. comunhão frequente (ainda mais se considerarmos a “O raro bom senso de Margarida valia um tesouro. resolver qualquer negócio. vendia. como confessor de vários institutos — O espírito de oração é a mestra da sabedoria.. via tudo. ao contrário. Sacramento. jovem. com nada se perturbava. Ele viu tudo o que você Para ela tudo era simples e fácil. Não se mostrava embaraçada em necessário e é assim que você paga? Vamos. tratar com as autoridades. de maneira concisa. quem é Deus? Antes de tudo. Sabia receber as visitas. Ela sabia resolver qualquer dificuldade. sem fazer comentários. enquanto lhe punha na frente a sopa. isso não é tudo.. mentalidade daqueles tempos!). de tríduos. haviam de dizer que eu estou protegendo suas travessuras. arrependido e consolado. comprava. nos hospitais. tintim por tintim. — Quantos aborrecimentos você já deu a Dom Bosco! Ele se mata para dar-lhe o inconveniente. Rosário perpétuo. "visitas") ao SS. tudo o que dizia respeito ao Oratório procedesse em perfeita ordem e tranquilidade? Margarida rezava continuamente. nas casas de educação. eu vou. deixando tudo para outra ocasião mais propícia. na ausência de Dom Bosco — justificada pelos seus O GRANDE FERMENTO numerosos compromissos espirituais nas prisões. reparar qualquer tropeço.. conhecia tudo. prevenir qualquer Visita (ou melhor. dava-lhe conta de tudo. por ocasião de missões.” Se. prometia mudar de vida. nenhuma circunstância. de novenas. fossem elas quais — Mas não basta pedir perdão a Dom Bosco. via-o alegre e jovial. fez. ia-lhe ao encontro. O fermento de toda a atividade de Margarida era a oração.. e o Quando o filho voltava para casa. rezava durante todo o dia! . como a senhora está dizendo.. nada lhe dizia sobre o — Mas não diga a ninguém que lhe dei comida.. Lá estava ela! Missa diária. vou pedir perdão a Dom Bosco.” Como se explica que.

contra suas portas e janelas. Amedrontados os meninos. COM QUEM ESTÁ BRIGANDO?" Carpano. se lhe sobrava um momentinho. quando sozinha. chamava-a e perguntava: Entrava um jovem na cozinha e ela estava com as mãos ocupadas: — Mamãe. “Se estivesse em companhia de outras pessoas. aparecia um menino: — Mamãe. Quantas vezes. era em voz alta. uma ordem àquele ali. pegue a vassoura e varra aquele canto. Embora sentisse as apreensões que experimenta toda mãe.. ouvia o pedido. ou fazer uma observação a um terceiro. lembrada das visões do filho. — Eia ergo advocata nostra: você aí. que desafogava seus afetos quarenta. por Deus. nunca demonstrou medo.” políticos assoberbavam os ânimos. Vez por outra. um pouco. porém. "Quantas vezes interrompia um Pai-nosso ou uma Ave Maria. não disse nunca: volto para a segurança da minha colina. que ela. Pedras eram atiradas sobre o telhado do Oratório. corria para a capela. respondia Os tempos se tornavam cada vez mais difíceis.. tire do fogo aquela acha de lenha: é demais. enquanto rezava.. O Senhor reservava-lhe dores bem mais pungentes: os atentados conta o seu João.. Também acontecia que. Às vezes. inclinava-se para ele. para dar um Do quarto vizinho. Dimite nobis debita nostra! meninos e pelos benfeitores. Deixava Deus. isso é queimar — Ah. jamais titubeou. balbuciava apenas as palavras. . manteve sempre a fé.. queria falar um pouquinho com a senhora! TEMPOS CALAMITOSOS Ela interrompia logo a oração. para distraí-la conselho a este. seu número passou de 500 para apenas uns mas.. Os acontecimentos e retomava a prece serenamente. com quem a senhora está brigando? — Por favor. eu não brigo com ninguém! Estou rezando pelos nossos dinheiro! .. Dom Bosco ouvia tudo... Margarida com Deus. Angele Dei) qui custos es mei . por horas e horas. Dois tiros de espingarda foram disparados contra os padres Borel e "MAMÃE. chegava à janela e chamava um aluno: para junto de Jesus Sacramentado!” — Você está vendo aquele lençol que o vento jogou no chão? Ponha-o de “A confiança que minha mãe depositava na oração era ilimitada" — dirá novo na corda! . Dom Bosco. Imaginamos. não.

dedicando-a justamente a Nossa Senhora do Rosário. justas lágrimas! todos os domingos ao Oratório. UMA PURA ALEGRIA Olhos brilhantes de alegria. que é que vamos fazer? Eles são jovens. era um trabalho agradável. Margarida pôde ver. Alface. salsa. estragam tudo: uma grande batalha! marquês Gustavo e o conde Camilo. dois nobres senhores com uma tocha na mão. Para Como se faria para a missa diária? a mamãe camponesa do Oratório. uma distração. o teólogo Cinzano foi benzê-la. O exército nada ouve porque a manobra fica coberta pelos gritos frenéticos dos assistentes que GUERRA DENTRO DE CASA aplaudem. No dia 8 de outubro de 1848. Eram os dois irmãos Cavour. Outubro devia trazer Dom Bosco e sua mãe aos Becchi para um curto A “horta Mamãe Margarida” era uma horta de paz e não de guerra. Brosio — o infante — dá o sinal de ataque com a corneta. a missa cotidiana era o centro da vida espiritual de Margarida e dos meninos que deveriam vir aos Becchi para celebrar a festa do Rosário. A igreja de Capriglio ou a capela de Morialdo distavam alguns quilômetros. cenoura. . ai! Foi justamente ele e os seus soldados que lhe causaram o maior desgosto. pimenta. brilharam dias de alegria. Ginástica. no meio de tantos perigos. invadem a horta. evoluções. — Mamãe. feijão. João. imitações de manobras. o cerca. mês de férias. Margarida contemplava o infante comandando suas tropas. Margarida gritou. empregando espingardas de verdade — mas sem balas — que inteirinha! Dom Bosco obteve do Governo. o comandante deu a ordem “alto!”. Sempre muito afeiçoado e dedicado a Dom Bosco. Ex-aluno do Oratório. não veem mais nada. veja o que o soldado fez! Estragou minha horta Uma guerra verdadeira. foi José que resolveu a situação. Ora. Vinha agora Não foram poucas as lágrimas de Margarida. ele havia combatido no corpo de elite da infantaria. pisam nos canteiros. Um belo dia. capim para os coelhos: tudo isso era uma fortuna para a casa. de ambos os lados Seus homens. eram uma atração para os meninos que se tinham momentaneamente afastado. durante a procissão. Transformou um quarto de sua casinha em capela. — Olhe. O general era Giuseppe Brosio. no ardor da peleja. Mas. alho. cebola. derrubam a da imagem do santo. Avançavam. Aliás. com sua brilhante farda. Na solene festa de São Luiz.

Margarida. demonstrações de paterno afeto os tratasse. chamado Francisco. não se pode dizer com quanta paciência e Depois. No dia 18 de janeiro de 1849. Ficou tendo um coração ecumênico. Lá Remédio insubstituível para essa saudade eram os cuidados e a ternura foram para os funerais. Era o primeiro edifício sagrado que Dom Bosco consagrava ao culto da Virgem Importava agora cuidar dos dois órfãos de Antônio. Maria! Um. fora sempre casa de oração! O outro ficou nos Becchi. “No dia 2 de outubro de 1849. enviou o padre Olivieri. a morte repentina. o enteado de Margarida. não era nada de grave. . “Tornando-os bons cristãos. tinha respeitado como um filho. todos eram filhos! Antônio fora respeitado e Joãozinho seguira seu caminho. fazia-o deliberadamente porque José tinha enviado a infausta notícia. Dom Bosco. Foi o primeiro de tantos outros que lhe Margarida. sabia muito bem a saudade imensa que traziam no coração. A CASA DE "PROPAGANDA FIDE" Ele costumava vir de vez em quando visitar Margarida e o ex-Joãozinho que hostilizara alguns anos antes. foi recebido no Oratório e tornou-se Margarida estava toda feliz por ter Deus querido vir morar corporalmente na sua marceneiro. Brancos e pretos. pensou. Na sua casa não havia nenhuma Quanto sofrera por causa dele! Mas não entrava em lamentação por causa disso: discriminação racial. rezando por Antônio. Dom Bosco e Margarida estavam se preparando para ir aos Becchi. mostrava-se-lhe agradecido.” Justamente. talvez para fazer companhia à mãe viúva. que os comprava nos mercados de Alexandria do Egito. Sentiu um certo mal-estar. certamente a pedido da vovó Margarida (enquanto viveu). Valorizava o amor sincero de menino mouro. aliás. UM GRANDE LUTO não deixou de socorrê-los em suas necessidades. Alexandre Bachit". pôde dizer ao seu Francisco que o de um coração de mãe: Mamãe Margarida. morreu Antônio. Dom Bosco recebeu no Oratório um Tinha certamente mudado o modo de pensar. casa que.

Dom Bosco recebeu os Damos a palavra ao biógrafo: seminaristas que haviam sido dispensados. tem agora o seminário em casa e Scl. que Marg. Coragem. Scl. Moravam e — Apresento-lhes minha mãe. outros uma soma irrisória. Ela. um só. — É pouco. — Compreendi. a “sala do trono” de Mamãe Margarida. Scl.. sua cozinha não teria muita aceitação por este mundo afora. do Pinardi. dias de vigília. pagavam uma pensão de 30 ou 45 liras justo momento. A boa Margarida estava dispondo os pratos e as panelas. Tratam-se nada menos que do conde Frederico Sclopis. — E para o seu Dom Bosco? Em 1850. mas. roupeira. . para sexta e sábado. Dom Bosco se vê obrigado a alugar. — E por que de domingo à quinta-feira e não de domingo a Pallavicini e do conde Luigi di domingo? Marg. — Faz-se depressa a conta: para ele. Nos tempos que correm. sentando-se à mesa comum com Dom Bosco que. de fato. — Porque. — Ótimo! Imagine que ele come sempre o mesmo prato. do marquês Ignazio Sel. o Oratório ficou sendo o seminário da Arquidiocese e Collegno. — Quais os pratos que prepara para os meninos? é ao mesmo tempo cozinheira. — Para ganhar o Paraíso. além dos clérigos. disse Dom Bosco. — Pelo que vejo. os jovens recolhidos eram bem uns quarenta. todos os nossos órfãos.” não é? Sopa e outros pratos passavam todos pelas mãos de Mamãe Margarida.O SEMINÁRIO DA ARQUIDIOCESE Nos anos de 1849-1950. vê alargar-se o reino: Marg. do domingo à quinta-feira. clérigos. Mamãe Margarida! Marg. Tendo visitado o dormitório no rés-do-chão.à cozinha. aliás. a senhora faz as vezes também de cozinheira.. a última sala do rés do chão. faz-se um pouco de tudo. com tanta dificuldade mantivera o filho no seminário. — Pão e sopa. naquele “Alguns. Scl. Tendo sido fechado o seminário do arcebispado. ao menos. cujas famílias tinham posses. de manhã e de tarde. Vê-se que a senhora é uma cozinheira econômica. há de ser muito bom? TRÊS SENADORES NA “SALA DO TRONO” Marg. não se servia de outra sopa a não ser a dos jovens e de outro prato que não o dos Scl. a mãe também de estudavam no Oratório de Valdocco. “passam. mensais. do Piemonte. mãe. sopa e pão. faço um prato magro. os pobres foram aceitos gratuitamente. Em compensação.

hoje. — Nos dias comuns. ele está muito deixarei Turim.por que me dá essa ordem? Receia que eu não a prepare? . — Gostaria que me visse com a mão na massa. populares. o próprio Dom Bosco levava os meninos investigação na casa dos Oblatos da Consolata de Turim. — Ei-lo. tenho um bom ajudante. no dia 13 foi feita uma O que é certo é que. Sua festa é celebrada a 10 de junho.. Puseram-se todos a rir e. ofereciam." polenta. fique certa de que eu não Marg. Esperava-se o ímpeto da multidão para as 16 horas. tendo cumprimentado a boa. Um amigo. correu para avisar Dom tranquilamente. — Não tem ninguém para lhe dar uma mãozinha? — É porque. cozinha". em Valdocco: onomástico de Mamãe Margarida.. viúva. para o dia 14 estava para comprar-lhe um ramalhete de flores. "Em Edimburgo. Quem pagou foram os dominicanos e os barnabitas. Não duvidava absolutamente de que o senhor fosse um bom educador da 16 DE NOVEMBRO juventude e ainda um hábil escritor. SERÁ O FIM? Quem saberia dizer o motivo pelo qual não se festejava Mamãe Margarida a 10 de junho? Talvez porque em junho se festejava Dom Bosco. seu ajudante de cozinha? Soube-se depois que dois demagogos tinham desviado o desvario dos Marg. aconteça o que acontecer. A boa mãe o recebia sorrindo e ouvia marcado o fim do Oratório. Pall. — Quem é. ocupado e me deixou sozinha. o natalício de Santa Margarida. amadíssima rainha da casa Pinardi e realmente célebre pelas mesmas virtudes da santa rainha da Escócia. na Aquele (1850) foi o ano dos assaltos aos conventos e da expulsão dos festa de São João Batista? religiosos. sobretudo quando faço rainha da Escócia. o senhor Volpotto. pois. senhora. disse sorrindo. ela também. Viúva. No dia 7 de agosto foram expulsos os jesuítas. apontando Dom Bosco. — Que novidade é essa — observou Margarida —. os discursos e as poesias que lhe Bosco pedindo-lhe que se afastasse. D. mas ignorava que entendesse de gastronomia. sem fazer comentários. Lê-se no martiriológio. na Escócia. Dom Bosco chamou sua mãe e disse-lhe para preparar a ceia para aquela Depois disso.B. na véspera. deixaram a 16 de novembro. célebre pela caridade para com os pobres e pela pobreza voluntária. senhor Dom Bosco.. mas.. Scl. ela agradecia com poucas palavras: noite. Pall. — Felicito-o.

lhe questões de moral. iam simplesmente conversar com Mamãe Margarida. "Eram as pessoas de mais ricas posses. que licença. com seus pensamentos. o pequeno quarto de Mamãe Margarida fazia as vezes de sala de espera junto EM ALTO NÍVEL ao quarto de Dom Bosco. e depois estou às suas ordens. QUARTO E SALA DE ESPERA Tranquilamente. mãe? propósito aos seus lábios. Quem faz tudo é A boa mamãe estava sentada perto de algumas cadeiras sobre as Dom Bosco. meus senhores. pelo prazer de ouvi-la. Aqueles senhores se deleitavam com suas Margarida: respostas. Quem estava esperando. mas Margarida não deixavam de passar pela porta de Margarida. diziam aqueles senhores. ela estava remendando. Sua virtude transparente. Margarida acabava sua oração. Margarida permanecia jovialmente tranquila e serena. se Dom Bosco der quais se amontoavam as pobres roupas dos meninos. que já Se por acaso não encontravam Dom Bosco ou este estivesse retido por alguma comecei. de história. de mais vasta inteligência. vou acabar de rezar três Ave-Marias. — Se me dão licença. audiência. com os provérbios que chegavam sempre a — Com licença. SIMPATIA "MARGARIDIANA" Ia logo desocupando as cadeiras e convidando-os a sentar-se. Um clamoroso “Viva Mamãe Margarida!” encerrava a sessão. embora eu não faça nada por vocês. de política. De vez em quando. sua simplicidade de maneiras e o seu extraordinário bom dizia às vezes com sua cristalina simplicidade: senso muito agradavam a todos. para não ficar exposto ao frio ou ao sol. propunham. Naquele tempo ainda não se falava de antecâmara propriamente dita. que tinham vindo justamente para gozar do encanto daquela candura. até mesmo bispos. não se atrapalhava. nada perdia de sua habitual desenvoltura. de "Muitos senhores e senhoras. — Muito bem! Agradeço-lhes. ao contrário. — Entrem por favor. já muito estragadas. agradeço seus augúrios e cumprimentos e.” Sim. Em todo caso. enquanto esperavam” . quando vinham visitar Dom Bosco. mais profunda ciência e de mais segura fama de toda Turim. amanhã vocês terão um prato a mais. batia à porta de As horas voavam. o Senhor os abençoe. — Esteja à vontade. dizia ela alegremente. tanto na ida como estando para sair. .

desejosos de admirar a desenvoltura com benfeitores. O bom senso e o seu catecismo lhe vinham em auxílio. onde era recebida festivamente. Um dia. arranje um outro vestido. este. sim senhor! Então você não acha que ele está ainda muito bom? — Bom? Francamente. por favor. tão limpinha.” como não permitiu que para ela usassem fazendas caras ou linho fino. eram um jeito de iludir as perguntas que ela não entendia. ou se José lhe enviava alguma lebre ou ave vestido. pela primeira vez transpunha Entretanto. parece-me que não está mais decente. Preparava-o com alegria. Já faz tantos anos que usa sempre o mesmo! — Mas. Seus nobres visitantes riam com prazer. para retribuir visita. que saía de embaraço uma camponesa que. que dava prazer estar com ela. Dom Bosco lhe disse: — Mamãe. embora sem nenhuma mancha. encabulada ou atrapalhada. impaciente. com o passar dos anos. pois era de propósito que Às vezes. a narrativa de um fato presenciado ou NOS PALÁCIOS DA BELA TURIM ouvido contar. era sequestrado. as famílias dos benfeitores. jamais concordou em trocar suas roupas de camponesa. — Fique. porém. embora não dispusesse dos recursos de hoje. exclamava. estimava”. dará uma grande alegria a meu filho. ficava toda contente. Andava. estava desbotado e muito rara. tinha endereço certo: enviava o presente àquela família a que tanto Suas respostas não eram nem tolas nem presunçosas nem superficiais. Jamais a viram confusa. “Aconteceu que. os limites de sua distante aldeia. usando sempre o mesmo “Se recebia alguma fruta da aldeia. Já remendado. pode-se dizer. por favor. Costumam vir aqui o conde Giriodi e a marquesa . costumava ir aos palácios dos encaminhavam para tais assuntos a conversa. um gracejo ou um provérbio a propósito da própria ignorância. A LUTA PELA POBREZA Se um pároco chegava perto do meio-dia. e hão de HOSPITALEIRA E RECONHECIDA perdoar se minha roupa é grosseira. — Aqueles senhores sabem que sou pobre. Oferecer uma xícara de café aos visitantes era coisa de todos os dias.

a adega do Oratório era abastecida pela — Mamãe. sim? — Bem. . uma cebola. mas compreenda: comprei sapatos para um menino. agulhas. casa! Voltava-se sempre para a estaca zero. calças dos barris no mercado de vinho”.. Feitas as contas. antes que continuar a vê-la assim. fez com ela uns veste pior do que a senhora. Nenhum varre dor de rua se Pegou a tesoura. Passa uma semana. a carne..Fassati e não está bem que a senhora os receba com esse vestido. e o vestido? prefeitura. E pensar que Margarida bebia bom vinho em para outro. Mas não. uma pobre camponesa usando seda? Não quero Foi um dia. cozidos em água e sal. casaquinhos para os meninos internos. numa loja que ficava em frente do Corpus Domini. SUAS REFEIÇÕES deixaremos de comprar o vinho. se é assim. alguns rabanetes — Ei-las. um pepino. com a irmã de Giacomelli — que passara a morar no mesmo ser ridícula! Oratório com o irmão — fazer uma provisão de linha. Já moravam no Oratório os clérigos e os padres. larga. passam duas. botões. de seda. Mas. e a senhora dê um jeito. — Os pobres — costumava dizer — muitas vezes não têm a comida A MANTILHA DE SEDA que a mim nunca falta. Comia polenta fria. descosturou toda a mantilha. posso até considerar-me uma dama. recebia todas as semanas algumas amostras e o que ficava no fundo — Você tem toda razão. HONESTÍSSIMA NAS MÍNIMAS COISAS Margarida examina-a atentamente e diz: — Para que toda esta riqueza? Eu. Em atenção a eles.” Mas vivia muito feliz. realizado o paga- . — Quanto custará um vestido? Dom Bosco tinha acrescentado um prato no almoço. — Mas como é que você quer que eu compre um vestido novo se não temos nada? — É verdade que não temos nada. passam dois meses: E o vinho? “Até 1858. dava também para ela. Margarida poderia — Vinte liras! participar da refeição dos superiores.. vamos fazer essa despesa. Uma benfeitora ofereceu-lhe uma mantilha muito bonita.. passa um mês.

pode ficar indiferente. Chegando em casa. porém. tomava com ele as refeições. Não há dúvida de que ela sofria muito. mas ela sabia muito bem arranjar desculpas”. voltava para casa com as compras. trocando-o pela barulheira de Valdocco. vendo desperdiçar aquilo que lhe custou dinheiro Quando. do negociante. mais vista a seu lado. Mas como impedir que. QUASE VOLTANDO! NO SEU LUGAR 1851. Margarida entrou no quarto do filho e foi dizendo: — Escute. mas conservava-se discretamente à distância. muito mesmo. O empregado não sabia como agradecer a Margarida. refazendo “Dom Bosco teria desejado que ela participasse de suas refeições mentalmente o cálculo. disse à Giacomelli: sua mesa os meninos mais distintos. sem que o patrão perceba. por conseguinte. Durante o caminho. porém. jovens vivos e irrequietos causassem prejuízos e. — Agradeça àquela boa senhora e diga-lhe que estou sempre à sua disposição! ESTOU QUASE. se a moça tivesse falado diretamente ao patrão. Qual o seu lugar à mesa? “Uma mulher que preza a ordem e a economia doméstica não Enquanto Dom Bosco não teve alunos internos. Já são passados cinco longos anos desde que Margarida “Margarida regozijava vendo crescer ao redor de Dom Bosco as vocações deixou o sossego de sua colina. eclesiásticas. Dotada de grande perspicácia. a presença de uma Talvez tivesse sido despedido.mento. Você bem está vendo que é impossível governar esta casa como se deve. aborrecessem a boa mãe?” “Um belo dia. mulher destoaria ali. Todos os dias seus jovens fazem alguma das suas. Dom Bosco então inventou um pretexto: às vezes convidava à Não teve mais sossego. não certamente por maldade. serviu. ela não foi e fadiga. Tenha cuidado para falar com o empregado que nos ficasse no meio deles para impedir que cometessem alguma falta.” agitação constante. Dom Bosco fez sentarem-se à sua mesa sacerdotes e clérigos. . seria bom que Mamãe Margarida — Volte depressa à loja. mas por irreflexão. João. — Não é o meu lugar — disse ao filho —. sobretudo quando havia convidados. com aquela sabia descobrir muito bem o que lhe convinha ou não fazer. verificou que havia uma diferença de três ou quatro liras a favor ao menos algumas vezes.

aqui está um menino de Castelnuovo. . Ele está decidido a ser correto e a estudar. Estava bem mais tranquila na minha choupana. Dom Bosco olhou comovido para a mãe e. que pregar no dia de Todos os Santos em Castelnuovo. outras vezes pisam O jovem Cagliero entrou para o Oratório. na noite do dia 2 Um dia perdem o lenço.” Como o fazia antes. este menino não é grande. Por aquela noite eu precisei dormir nos pés da cama de um companheiro” . outras vezes escondem as camisas. Vamos pô-lo no Margarida olhou-o e seus olhos encheram-se de lágrimas. Não têm nenhum cuidado com a roupa. cuecas e não se consegue mais achá-las. A mãe riu e foi arranjar-me um lugar. chegam ao ponto de carregar os utensílios de cozinha Dom Bosco apresentou-me à boa Mamãe Margarida. Veio a pé. “Lembro sempre com satisfação minha entrada no Oratório. Damos a palavra a Cagliero: rasgam de tal maneira que não dá mais jeito de consertar. fiando minha lã. sem dizer nenhuma palavra. não é necessário. procura de meninos. E voltou às suas ocupações. estragam tudo. à moda das gaiolas — Tem razão! Tem razão! dos canarinhos. com o santo. um cantinho sempre a senhora há de achar — acrescentou sorrindo dias de vida que ainda me restam! Dom Bosco. as de novembro. você não faz outra coisa a não ser ir à ansiedades. o crucifixo que pendia da parede. perco a cabeça no meio de tanta confusão. como o fará sempre. embora saiba muito bem que não temos mais lugar. mamãe. com uma corda vamos suspendê-lo numa trave. para acabar em paz os — Oh. UMA PRECIOSA AQUISIÇÃO Ora me jogam ao chão a roupa lavada que pus ao sol para secar. apontou para — Ponha-o no seu quarto! — respondeu a mãe. — Oh. as meias. cesto das torradas. sem tantos abalos e — Ótimo — respondeu a mamãe —. dizendo: para suas brincadeiras e eu perco depois metade do dia para procurá-los. — Olhe. Como vê. Escute! Estou quase voltando para nossa casinha dos Becchi. Enfim. que fora nos meus canteiros de verdura. as gravatas.

Uma vez. As coisas se iam sistematizando e Margarida ficava contente porque seus filhos estavam Não vendo-os chegar com os outros e informada do que acontecia. um dos mais expansivos NÃO DIGA A NINGUÉM "Nas noites de domingo. depois das funções religiosas... empregados no centro. além da sopa à vontade. ameaçou tocar com a tinha tido o cuidado de guardar. sendo mais bem alimentados. Imaginem se podem: horas e horas alguém martelando os ouvidos. chegou a servir de. um gole de meninos. mais gulosos. trabalho renovado! “Durante o inverno acontecia frequentemente que alguns dos Nos dias de festa. fossem obrigados pelos patrões a vinho. aquele a quem mais queria bem. Margarida exclamava: — Pobres dos meus filhos! É preciso guardar uma sopa bem SÓ FALTAVA ISTO: O PIANO! quentinha! Não tinha coragem de ir deitar-se e ficava esperando até 11 horas. batuta. mas estou com tanta fome! . sentado ao piano! às vezes até meia-noite. gastavam o dinheiro em gulodices e passavam fome durante o dia. um outro prato ou fruta. cada dia. ao meio-dia. seu fedelho? — Mamãe. dos seus filhos. um aperitivo antes do almoço. A despensa da casa é que passou a fornecer o pão: novo trabalho para Margarida. alguma coisa a mais à hora do café.. Quando chegavam. — Mas você já não comeu o seu? — Comi.” vassoura uma música diferente nas costas do jovem artista. ainda os alegrava com alguma sobra de comida. tremendo de frio. foi só isto: começou-se a distribuir aos jovens. Era Cagliero que já se preparava para seus futuros triunfos musicais. Mas a vassoura não É que alguns.O PÃO TAMBÉM Em 1852 já não se davam mais os 25 centavos para o pão. Não Cagliero continuou. cada manhã. A LONGA ESPERA Mais trabalho na cozinha! E não bastou: na hora da merenda. que Para Margarida era um tormento.. um pãozinho. Nova distribuição. alguns dos pequenos ia à cozinha. com ótimos resultados. trabalhar até tarde da noite. por brincadeira. — Que é que você está querendo. me dá um pedaço de pão.

— Tem razão. Se ouvia um gemido. mamãe. mentira não se diz nunca. Assim que sentiam algum mal-estar. toma. mamãe! outros que eu lhe tinha dado pão e me fez passar apuros. recebia cada um seu pão para a merenda. não posso mesmo engolir. que eu não digo nada a ninguém” . para depois deixarem os pedaços de pão pelo pátio. uma dor de dentes que seus filhos sofressem repercutiam nela. pondo nela olhos de — Foi você mesmo — ralhava Margarida — que na semana passada foi contar aos misericórdia — Ah. mas não diga nada a ninguém. — Vejam só esse guloso! Agradeça à Providência por lhe dar pão Lá iam todos correndo atrás de Mamãe Margarida. PÃO SECO? — Pobrezinho. os meninos corriam para ela. — Mas então eu tinha de pregar mentira? Eles perguntaram e eu tive de dizer a verdade. está ouvindo? Senão chegam Quando se teve no Oratório a secção dos estudantes. se via algum chorar. — Quem foi que lhe deu esse pão? ficava mais gostoso! — Mamãe Margarida — respondia o outro com a boca cheia. se faz favor? Os companheiros rodeavam-no. o pequeno corria para o pátio. veja. Margarida capitulava. mamãe! — gemia o espertalhão. ou de salame. da escola. o mesmo menino vinha de novo pedir pão. Por isso. ao voltarem estes também seus companheiros pedindo. — Ah. — Porque está seco! Se tivesse uma fatia de queijo. — E por que. branco. . fosse de dia ou à noite. SE PREGAR MENTIRA? — E não chega? — Mamãe. causando-lhe grande pena. No domingo seguinte.. sempre pronta a socorrê-los. Acontecia porém que — Pode ficar sossegada. que não sabia dizer não. com seu pedaço de pão na mão. Uma dor de cabeça. Naturalmente.. hoje não lhe dou mais. não ficava tranquila enquanto não soubesse a causa. algum ia logo procura-la e pedia: — Só isto? PODE. ENFERMEIRA E lá vinha o pedaço de pão.

casas Era o dia 20 de junho de 1852. vendo salva a mãe e salvos os meninos. A PRIMEIRA IGREJA CONSTRUÍDA POR DOM BOSCO Um terrificante estrondo dilacera os ouvidos e o coração dos turinenses. Media 7 outros se iam deitar. metros. informa-se do ocorrido. espalhando-se pelos infeccioso. UM TERREMOTO INFERNAL Apesar de tudo. A construção durara mais de dez anos. juntamente com a árvore. para o local do desastre. Os passarinhos de Dom Bosco tinham agora. 26 de abril de 1852. A fábrica de pólvora voou pelos ares. embora sofrendo algumas remédio. descendo junto as escadas. ela rompeu em pranto copioso! Poderá dar ainda algumas absolvições e seu chapéu vai servir para transportar água com que apagar o fogo que se ateara nos cobertores. Se a doença prendia algum na cama. Não se tratava de uma capela mais ou menos espaçosa. ficava velando. a boa mãe acompanhou-o. Dom Bosco atribuiu a graça à proteção de Nossa Senhora. corre buscá-lo. com seu trabalho na mão. A primeira igreja construída por Dom danificadas. depois. Deu-se um fato significativo: um jovem adoeceu e o mal foi declarado Margarida e os meninos puseram-se a salvo. ela o rodeava de solicitude: preparava o Por felicidade. Dom inaugurada. dele inteiramente. Vidros quebrados. tendo o médico ordenado que o separassem dos outros. ia sentar-se perto dele. portas arrancadas. a primeira igreja salesiana. . É quase meio-dia. Bosco — a igreja de S. Uma trave em chamas caiu a poucos passos do edifício. até o limiar da porta. quando os rachaduras. Ainda por cima. Chega Dom Bosco. indaga dos seus e Quando. o seu ninho. a casa não veio abaixo. Francisco de Sales — estava sendo abençoada e Não distava a fábrica mais de 500 metros do Oratório. Margarida não o prados da vizinhança. Quando os enfermeiros levantaram a maca e o levaram. ficou determinado seu internamento no hospital e vieram encontra-se com a mãe que procura conservá-lo a seu lado. porém. deixou: permaneceu a seu lado como carinhosa enfermeira. mais ou menos bonita. Bosco não está presente e Margarida vê-se sozinha no meio dos meninos apavorados. pânico geral. Era uma verdadeira igreja. Ele.

querido modesto artista! Deixou-nos a doce imagem daquela que. possuía um Margarida está toda feliz. “Se ele não o tivesse feito. filhos. afirma o biógrafo de Mamãe Margarida. a conselho do padre Cafasso: trata-se de Miguel Rua. horas seguidas. JOSÉ. naquela igreja). considerou sempre como seus os meninos do Oratório. O FILHO MAIS VELHO Um ninho de devoção. para as costumeiras festas do Rosário. Domingos Sávio entrará em êxtase. justamente em outubro de 1852. Dom Bosco. Como era grande sua satisfação ao ouvir José. Obrigado. no dia do seu onomástico. Mamãe Margarida e vinte e seis meninos foram aos Becchi. Tinha entrado como aluno Foi um presente de Bartolomeu Bellisio. a piedosa anciã poderá dar largas à sua oração. pai de família trabalhador e afetuoso. que frequentava a escola de Belas interno do Oratório. conforme o permitiam suas obrigações”. Para retratar uma mulher da têmpera de Margarida era preciso talento. as previsões de seu filho. “Cristão fervoroso. de piedade. A isso nos referimos agora porque. num lugar mais digno. O RETRATO DE MAMÃE MARGARIDA Desta vez um jovem excepcional veio fazer parte da comitiva. de êxtase (não tardará muito. Margarida. Ofereceu-o a Dom Bosco. ter-se-ia “Embora as obrigações do seu estado o obrigassem a viver longe da perdido a lembrança daquela fisionomia tão simpática. Voltemos a José. O que desejava era gozar por algumas horas da companhia de João e de sensibilidade para captar o espiritual. Outro filho do qual Margarida podia se orgulhar. poderá ter mais sossego para meditar. de oração. Chora de alegria vendo que se concretiza. afeto. aos meninos do Oratório! Dom Bosco convidava-o e ele subia os degraus da cátedra do irmão sacerdote! .” Agora. aberto às necessidades do próximo: embora tivesse muitos seguramente.” mãe. justamente no dia 22 de setembro daquele ano. vai espalhando o bem. sim. José dar a boa noite ainda hoje. simpatia. não deixava de vir várias vezes a Turim e de demorar no Oratório um O retrato nos mostra fielmente o que ela era: uma velhinha toda simplicidade e tempo mais ou menos longo. cuja alegria era muita naturalmente. Tudo isto Bartolomeu possuía. lenta mas coração generoso. Artes.

no escuro. “Mamãe Margarida dava provas de coragem viril. fazendo tremer a velha casa contígua. uma boa dos pulmões: provisão de comestíveis. Depois. enrolam-se nas cobertas e. venha para fora. Fazia mais: ia angariar recursos entre os — Dom Bosco! Dom Bosco! Levante-se. batata. São onze horas da noite. Vigiava para que ninguém se aproximasse dos lugares que . Somente Margarida "Dom Bosco está salvo! Está salvo!" e. finalmente. Aquele ideal que João Margarida sai apressada do quarto. apareceu. salve-se! amigos e conhecidos. trigo. tão bem sabia despertar-lhes a simpatia pelos filhos de Dom Bosco. Teme. que conseguia encher várias carroças com nozes. saltando. Como o dormitório apresentasse perigo. Uma ala completamente nova. edifício existente. serviam o mesmo ideal. Formavam os três uma só coisa. Oratório”. que a princípio julgou tratar-se de um temporal com Prova de energia e coragem devia dá-la Margarida na noite de 1º de dezembro de trovões fragorosos. uva. não 1852. filho tenha ficado sepultado entre os escombros. correm-lhe ao encontro. caindo e levantando-se. a seguir. Grita com todas as forças José não se contentava em mandar do que era seu. conseguia orientar-se. conseguem UM CAPITÃO NO CASTELO alguns chegar à igreja. não encontrava a porta nem os fósforos para acender Dom Bosco estava empreendendo importantes trabalhos no sentido de ampliar o a vela. chama. De repente. e não sem razão. no tempo da colheita. ouve-se um estrondo como no dia da explosão da fábrica de pólvora. Margarida soubera lançar boa semente no coração dos filhos! E os meninos? Pulam da cama. A nova construção desaba. Empurra a porta. Todos salvos. custou a intuir o perigo. encaminhando tudo ao Nenhuma resposta. preparando-se para deitar-se. que o entrevira em sonhos. sem reparar nos escombros. Corre à cozinha. como ele chama os meninos internos. cautelosamente buscar os colchões e se alojam na sacristia e no refeitório. mas ela não se abre. todos os anos. os jovens gritaram: dorme com os "filhos da casa". buscar outra chave. Corre corajosamente para a porta do quarto. ainda está de pé. outros se reúnem no meio do pátio. entre as paredes da pobre casa dos Becchi. Dom Bosco Quando. vão. com a recitação das ladainhas. todos se reúnem na igreja para agradecer a Nossa Senhora. Dom Bosco. Quando saltou da cama. empurrando-se.

— Deixe estar. a fim de certificar-se de que não discussões. mamãe. para ter a certeza adivinhar! de ser entendido. litros.” Dom Bosco tinha começando as "Leituras Católicas" que tanto bem A JARDINEIRA haviam de fazer no meio do povo. “Foi preciso que a terna e não menos corajosa Margarida dali o afastasse. Várias vezes. Pedro. ia distribuindo os meninos aqui e ali. copos? A palavra desapareceu do manuscrito de Dom Bosco. ficando de pé até de madrugada. é fácil de Era a ela. de 1853. as seus. inspecionou o local. . Sua mãe era uma Pouco além do muro do Oratório havia uma taberna que funcionava na casa expressão genuína da gente simples do Piemonte. — Que é que eu vou fazer com tantas rolhas. há de chegar a hora de tudo isso ter utilidade. ser entendido pelo povo. cafeteiras. uma representante autêntica. Expôs a própria vida para garantir a dos a casa Bellezza. Dom Bosco alugava toda Dom Bosco mostrou-se digno de tal mãe. meios litros. uma tradição que enchia de gozo o coração de Margarida.” Com a escritura do dia 10 de outubro. Delicada como era Margarida muitas vezes se via obrigada a tapar os ouvidos. e o obrigasse a entrar em casa.ofereciam perigo. os palavrões. Bellezza. contanto que se visse livre daquele inconveniente. É que despejavam perto de casa centenas de garrafas. mesinhas de confeitaria. porém. que Dom Bosco fazia ver seus escritos. dia. três meses de aluguel à hoteleira. E que beleza de palavras se ouviam daquela gente embriagada. aos operários. Teve de pagar também Era uma bela tradição a festa do Rosário nos Becchi. quase à CRÍTICA LITERÁRIA força. que foi morar noutra parte. — Clavígero? Onde fica essa cidade? — interrompera Margarida. havia ameaça de novos desabamentos. Margarida e os meninos respiraram. UMA BELA TRADIÇÃO Dom Bosco comprou todo o material. Acabaram-se as brigas. andando de um lado para outro. com grave risco. Queria dirigir-se ao povo. como um general no campo de batalha. exclamou: Em determinado momento o santo era designado como “clavígero”. Um Leu um dia para sua mãe um panegírico sobre S.

para os pobres. quanto pelos meninos. inclusive as pessoas de alto nível social”. reavendo-se. O ano de 1852 e os que lhe seguiram foram trágicos. Em 1853 teve ainda a alegria de ver abrirem-se no Oratório as primeiras oficinas: de alfaiate e de sapateiro. Dom Bosco teve tempo para fechar-se no seu ocupada em promover o bem quarto. e. sobre aquela colina. veneração de que se cercava Mamãe Margarida. perseguido pelo bandido. Quando precisávamos de alguma coisa. Imaginem que um dia. portanto. para o sacerdócio. desde 1852. podendo. exortando-nos ao estudo. decididos a matá-lo. costumávamos ir ter com vocação sacerdotal do filho! Ainda ressoavam ali as ameaças de Antônio contra a vocação para o ela. em 1853. inteiramente Reviglio. porém. as castanhas e as hóstias multiplicadas”. muitas consolações.” Ainda mais que estes. Margarida exulta. armaram-se e queriam investir contra o infeliz. chamado Andreis. A dos clérigos Rua e Rocchiette fora em 1852. era a vez de Francesia. Quem estava mais aflita era Mamãe Margarida que temia. Neste retrato está Margarida inteira: amor a serviço.. tê-lo-iam liquidado. em 1853. custara-lhe tanto secundar a dos meninos. mas também proporcionou-lhe ingênua que provoca simpatia e respeito. fugiu o clérigo “Conheci também Mamãe Margarida. do seu Joãozinho. com uma faca de açougueiro na mão. dava-nos o que era preciso. ajudava-nos logo. São palavras de Anfossi: Seguiu-se um desabalado corre-corre. Pois bem. um infeliz. Entre outros. “Com aquela faca dentro de casa. Todos que vinham ao Oratório a veneravam. era enorme a Urrava: “Quero Dom Bosco!”. dignidade simples e Deus permitiu que Margarida sofresse muito nesta terra. Sua casa tornara-se um seminário. um dos números da festa era a vestidura de algum clérigo. admiro sua vida de sacrifício. que entrou como interno no Oratório. agora. O facínora ficou no pátio mais de três horas. Ao mesmo tempo. tanto pelo filho. É fornecido por Giambattista Anfossi. entrou em mangas O ambiente estava todo impregnado de devoção a Dom Bosco taumaturgo: “o morto de camisa no Oratório. CALV ÁRIO DO FILHO E DA MÃE Seu filho está sempre voltado para o povo. UM VALIOSO TESTEMUNHO Os inimigos de Dom Bosco encarniçaram-se contra ele. com . Lá.. ressuscitado. ninguém podia estar tranquilo. mesmo tempo à oração e à virtude.

apontando-lhe a arma contra o peito. bem quatro anos. ao anoitecer. . Castelnuovo o outro filho. José. que recebia pedradas Ali punha de prontidão algum jovem robusto. Mamãe Margarida exclamava: 'Que animal horrível!’. quarto de Dom Bosco. mandou vir de desaparecia. Quantas vezes não agradeceu ao Senhor terem falhado os atentados contra a vida do filho! Como o Oratório ficava isolado. sob fim de acompanhá-lo de volta. levava ao O Grigio? Um cão que tem hoje fama internacional. tentaram envenenar Dom Bosco. se não fosse a ordem em contrário de Dom Bosco. Quando. quarto de Dom Bosco. que entraram no quando ameaçavam seu querido filho”. pelo cinzento. Mais parecia um lobo: focinho alongado. retido em casa de A polícia só apareceu depois de seis horas. da varanda. para fechar a passagem que. Salvou-o a oportuna “Os atentados contra Dom Bosco se prolongaram pelo espaço de intervenção de Cagliero. foram dois senhores. a fim de defender Dom Bosco dos seus encarniçados Seria um animal enfeitiçado? Era um instrumento do qual Deus se inimigos. orelhas de pé. que aparecia de repente. Muitas vezes. atraindo-o para fora do Oratório. Afirma Tomatis: "Era um cão de aspecto impressionante. Margarida E o Andreis tornou a voltar! mandava-lhe ao encontro alguns dos jovens mais robustos e destemidos. sem um latido sequer. tendo começado em 1852. a Outra vez. especialmente à noite. de aparência distinta. estava muito exposto." “Não são para esquecer as contínuas ansiedades que acompanhavam Margarida Justamente os últimos anos de vida da boa mãe. desprovido de um muro MARGARIDA E O "GRIGIO" que o circundasse inteiramente. algum doente ou em razão de alguma outra obra de caridade. Retrato muito fiel. Creio que podemos (não terão elas concorrido para abreviar-lhe a vida?).grande perigo de vida. pretexto de exercer seu ministério sacerdotal. servia para defender o filho de Margarida. Ela mandou então colocar uma pequena grade de ferro junto da escada. ao vê-lo. ele demorava a chegar. Um misterioso cão que podia ficar sem comer. entre hortas e prados. afirmar que essas angústias a levaram ao túmulo. um metro de altura”. como de repente Ainda mais (de que não é capaz um coração materno!). Dir-se-ia que ela tinha o dom de adivinhar os perigos que de vez em Em outra ocasião.

Ela não queria que o filho — Como é que a gente faz? saísse. de mil. medalha de Nossa Senhora ao pescoço. Chama-se então Mamãe Margarida e. indivíduos mal intencionados o estavam esperando ali por perto. com ele. . mediante certas condições. alhos. Margarida o viu tomar o seu partido. espalhadas pelo mundo. parecia querer impedir que Dom Bosco realizasse seu intento. junto à porta da cozinha. O filho prometera a todos que ficariam imunizados. O Grigio alongou-se então na frente do portão e. Graça de Deus no coração. no momento em que o circundavam. armados de cacetes. a mãe de cem. aparar! Em outra ocasião. Margarida pagou o Grigio — Com a faca? Com a tesoura? com carícias. este insistia. uma oração a São Luiz.. são as Outras vezes o cão bateu-se valentemente para defender Dom Bosco. Uma vez. Margarida exclamou: Logo as folhas foram dobradas por Dom Bosco e pelo menino. verdura. ou O rapaz ria. ficam costuradas as páginas do primeiro volume. com latidos — Dobram-se as folhas! de arrepiar. folhas aparadas. — Você vai ser encadernador! Abrimos hoje a oficina de encadernação. de vagabundos. MAMÃE MARGARIDA NA OFICINA DE ENCADERNAÇÃO O CÓLERA TAMBÉM Coisa do estilo de Dom Bosco! Chama um dia um rapaz é lhe diz: Ela experimentou tudo. Os jovens aceitaram-nas com entusiasmo e escrupulosamente as puseram em prática. Pronto! Podemos imaginar que Margarida deveria olhá-lo com gratidão e admiração.. entre os três. Não hesitou nem contemporizou. — Se você não quer me escutar. Dom Boscoria! Foi justamente aquela a mesmo com veneração. e não vá! — E agora? Dom Bosco não saiu. que hoje funcionam nas casas salesianas. Pouco depois vieram avisá-lo de que três ou quatro É preciso costurar. escute ao menos o cão. o cólera-morbo também. Agora. aquele mesmo com que ela corta cebolas. primeira secção de encadernação. É que ele tinha livrado Dom Bosco de um grupo Margarida arregala os olhos: o filho vai buscar na cozinha o seu facão. cautelosas embora. Margarida ria.

Dom Bosco vai fazer minha vestidura! faça como puder com o seu doente. a outra era. Uma era a mãe verdadeira do menino. pedia alguma coisa com que mãe adotiva. e deu tudo Ela prepara a comida para os jovens que praticam verdadeiros atos de para vestir os nus. foi buscar uma declarou então ser para ele um dever afrontar o contágio. irremediavelmente. Teresa não conhecia bem Dom Bosco. seus vestidos. a este um lençol. cheirando a limpo. acabou-se - A caridosa mulher foi à procura de alguma peça de roupa. a outro uma camisa. que Oratório. tremiam de frio e de febre. e assim por diante. um amicto e uma alva. — Mamãe! — disse João. sua pelo mal. Como de costume. cobri-lo. Os jovens atiraram-se à assistência dos que eram atingidos pelo mal. "Mamãe Margarida procurou. (Deus o iluminara. senão uma toalha de mesa. jazia sobre um colchão. seu xale. tornou a procurar e nada mais encontrou. nada mais tinha do que a ler na fisionomia do filho. Depois. “A um dava um cobertor. mas ela. — Não há mais remédio para o meu João! Pelo que vejo. o seu vidente.. ela tinha procurado Margarida deu suas toucas. atacado há pouco moribundo. o predestinado. o pobre guarda-roupa do Os linhos do altar foram vestir os membros sofredores de Cristo. é a única peça de roupa que encontrei. espera. No fim de poucos dias não restava mais nada a não ser a roupa do corpo e a que forrava as camas.. — Vão vestir em você uma roupa qualquer (murmurou baixinho a O jovem saiu contente de poder cobrir o seu protegido com alguma coisa mulher) quando puserem você no caixão. vá e minha batina de clérigo. pediu o parecer de Dom Bosco.” Margarida procurava consolá-la. sem nenhuma coberta. guiada pela intuição e liberalidade própria dos sequazes de Cristo. sorridente roupa do corpo. Encontraram-se as duas conterrâneas à cabeceira de João Cagliero Um jovem enfermeiro veio um dia contar que seu doente. Margarida. heroísmo e também é responsável “pelos armazéns”. àquele uma MAMÃE TERESA E MAMÃE MARGARIDA toalha de mão. esvazia-se num instante. Notou que ele estava calmo. Margarida ficou confiante à enfermos de alguns infelizes. o futuro bispo — Prepare — Tome — disse compassiva —. por ela tão cuidadosamente provido. ao entrar no quarto do jovem: sobre o leito do enfermo adejara Apareceu um dia alguém pedindo algo com que pudesse cobrir os membros uma pomba com um ramo de oliveira no bico). que em tantas circunstâncias se mostrara temerosa pela vida do filho.” toalha de altar. por assim dizer. não encontrou exclamou a boa Teresa Cagliero. .

mas nenhum supera a beleza de coração e de alma de Domingos Sávio. Duas gravidade.” MÃE DE BISPOS — Você tem aqui muitos meninos bons. — uma sobrecarga de preocupações e trabalhos abateu-se sobre ela. para . festa de Santa Cecília. com um grupo de companheiros. Na igreja. todos passaram a chamá-los de divisão dos “Baixinhos”. perto de Mamãe Margarida. O Oratório de Dom Bosco acolheu uns cinquenta meninos. aparência franzina.. protetora dos músicos.. ele parece um anjo do céu. No dia 22 de novembro. muitas meninos — ainda será bispo. de alegria: Teresa e Margarida. Se rezar o terço (uma prova das frequentes visitas de Margarida à igreja). o "De compleição delicada. rodeiam o altar de Nossa Senhora. Domingos Sávio veio morar no Oratório. ouvindo o filho dizer com toda — Em que se baseia para dizer-me isso? segurança e serenidade: — Reparo sempre quando vai rezar e fica na igreja depois dos outros. todo mundo pensou que se tratasse de um bispo na Itália mesmo. vezes tem esquecido de ir buscar a comida com os outros e fica em oração. Dom Bosco será sempre Dom Bosco apenas. Não considerarmos que. Estou vendo no meio de vocês uma mitra. OS BAIXINHOS Mas aqui. Dom Bosco continuava a repetir com certa frequência: como que fora de si. Podemos imaginar o olhar de deferente afeto com que Margarida contemplava os Terminada a epidemia do cólera-morfo — aquele cólera que tanta rostos daqueles jovens — que eram como seus filhos — para descobrir em algum o fadiga impusera à boa Margarida. Em outubro de 1854. vezes. misto de afabilidade e jovem — que tanta paixão revelava pela música — recebia a veste clerical. 114 . Sacramento. um quê de sério e ao mesmo tempo agradável. naquela época. Imaginemos a imensa alegria de Margarida. índole mansa. a clérigos e acabadas as funções (sinal de que também ela se demorava na igreja). nem por sombra se pensava em missões! passa dia sem que ele saia do recreio para ir visitar o SS. várias Naturalmente. — Um de vocês — falava no refeitório. Por causa da sua estatura. — Oh! Vejamos se Dom Bosco se engana. Entretanto. ainda muito O PRESENTE MAIOR E ÚLTIMO pequeninos. constância no humor: aquele rapazinho tinha uma aparência realmente angélica. uma já temos. a dispenseira da Cruz Vermelha do Oratório resplendor da dignidade episcopal. e não será apenas uma. mães choravam. desta vez.

o senhor. Santa mulher! . uma saraivada de pedras é lançada contra os meninos que voltavam . Os contatos com Margarida eram mais raros. que repetiam em coro. De noite. Mas DOCES RECORDAÇÕES suas impressões são as mesmas que nos deixaram os "filhos da casa". Dom Bosco — é o padre Enria que fala com Dom Margarida como o tipo da perfeita dona de casa. os — Ela dizia-lhe: ‘Você está continuamente recebendo novos meninos. Foi o que aconteceu comigo: quando entrei no Oratório. meninos depositavam nela inteira confiança. limitando-se aos dias festivos.. quando ele passava. em 1871 —. numa tarde festiva. a todos como é que vai fazer para alimentá-los e vesti-los? Já não temos mais nada em edificavam suas virtudes. Mas a Providência nunca nos um novo dormitório. por estar sempre recebendo novos meninos? Para os jovens do Oratório era de fato uma mamãe boa e piedosa. Considerávamos a MARGARIDA NO DIZER DE PONDERANO mãe de Dom Bosco como se fosse nossa própria mãe. ficavam consertando nossas calças e nossos paletós rasgados. passou a insultar Dom Bosco. No verão de 1855 um bando de devassos.. repreendia. Quanto mais pequenos. Trata-se de um oratoriano de 1855. casa e o frio está chegando’. e sua instigados por algum sectário. foi preciso providenciar uma nova sala de aula e suportou minha boa mãe! . Este tudo suporta em silêncio. Ouçamo-lo: “Evocando minhas primeiras impressões. Margarida sente a injúria e sofre com o filho. doente em Varazze. mais trabalho davam e mais preocupações Dom Bosco sorria ao ouvir minhas palavras e dizia: ‘Quantas fadigas inspiravam. sua conduta exemplar”. É o testemunho de um externo. lembra-se de quando sua mãe o cristão. tive de dormir UMA DAS ÚLTIMAS DORES várias noites sobre um monte de folhas e. puseram-lhe um mãe. faltou’. porque só apelido injurioso. espírito verdadeiramente Bosco.” Alguns anos depois um deles declarava: "Eu fiquei sempre no Oratório onde Dom Bosco e sua mãe me acolheram com tanto amor. vejo a senhora “— Lembra-se.. tinha só um pequeno cobertor. Dom Bosco. Entre outras coisas. tínhamos o que levávamos no corpo. vivíamos felizes e contentes". quando já estávamos na cama. para cobrir-me.. confiança de filhos. a “Coca de Valdocco”. até que.

Dentro de alguns meses. Foi justamente nesse ano (1856) que Dom fora de perigo. de um filho que conhecia os de dezembro estava sendo assistido por Cagliero. Passou a vigésima lua. As luas tinham-se sucedido O pensamento da morte lhe é familiar. Margarida. A morte entrou em casa para roubar-lhe um filho. tinham vindo para o Oratório já minados pela doença. um lugar para mim também”. prepara. Dom Bosco vai então para a rua e desafia aqueles infelizes. como que contradizendo a predição de Dom Bosco. Gurgo. melhorou e ficou vezes a morte sob suas ordens. enfeitiçados pelas palavras Sávio tinha se despedido pela última vez do amigo. O PRIMEIRO MORTO Margarida. que vê. Poucos dias depois. durante o comer um pedaço de carne (alimento proibido pelo médico)? sermão. Camilo Gavio: "apenas dois meses passara no Oratório. entraram para o Oratório. Não poderia anunciado — a morte de um dos opositores da missão e que. Mas. de um filho que parecia ter às fortes. estou intimamente convencido de que você voou tornaram-se filhos afetuosos.para suas casas. uma vida ainda jovem se apaga sob os olhos de Esta não há de encontrá-la desprevenida. Mais quatro órfãos morreram em 1856. com estas doces e mágicas de Dom Bosco. não lhe causará medo algum. que desde a metade os meses preparava os meninos para a morte. quis associar sua mãe: uns doze daqueles malandros. palavras: “Adeus. Era mãe de um filho que todos implacavelmente. chegou a hora da “vingança” de Dom Bosco. Bosco pregou a missão em Viarigi. Domingos Sávio. para o céu. foi assaltado por cólicas muito passos da morte e muitas vezes os prenunciava. à qual ele edificando todos os companheiros. A última caía em dezembro de 1855. amigo íntimo de obrigando-os a parar com sua fúria. O pai cede. Gavio. o filho morre. veremos Margarida no seu leito de morte. O pai veio buscá-lo para convalescer em casa. que ouve. Dom Bosco havia predito sua morrer? A mãe não deve morrer antes dos filhos? morte com a antecedência de vinte luas. pensa certamente no seu próprio fim: não é ela que deveria Tratava-se do jovem pianista Gurgo Secondo. então. O grupo se desfez. que compõe no caixão aquelas flores colhidas tão cedo. Quatro dias depois foi a vez de um santinho. pela sua piedade insigne”. . durante a qual se deu — como ele havia Na véspera da partida Gurgo sente-se extremamente fraco. De inimigos escarninhos. tinha organizado um baile. nos vários hospitais.

infinita alegria.” Será que os burros e os tropeiros compreenderam? Queremos crer que estes últimos. sorrindo também. As formigas trabalham no seu majestoso formigueiro. A GRANDE COLMEIA UM EPISÓDIO SIMPÁTICO Em março de 1856. Parou Margarida derrama algumas lágrimas: vem abaixo a “velha casinha também ele. Pinardi” que ainda estava de pé. pode ficar tranquilo e vir andando. enche-se de alegria. na Europa. pois sorriram. achou-se sempre em equilíbrio. Margarida chegará a vê-los subindo. Dom Bosco Vai-se construir um edifício de quatro andares. providenciaram as telhas! no Piemonte.VOLVE OS OLHOS PARA O MUNDO andares. Margarida arregala os olhos. Em Turim. abraça o universo com sua fantasia: o coração Margarida sorri e encoraja. Entre sua casa dos Becchi e muito mansos.. Cremos também que a — Não tenha medo. Pelos fins de julho já estão prontas as cumeeiras e já se Dentro de 50 anos a voz do Oratório terá ressonância no mundo inteiro. ajuda como pode e chora com os rasgões se lhe dilata. como uma relíquia das primeiras horas. Cada giro. esses quatro — Minha mãe dizia-me sempre: ‘João. “Durante os recreios os meninos reconfortante: o Oratório há de alargar-se. no mundo inteiro. apenas durante quatro meses! Antes de cerrarem para a luz. é a casa deles! roda. um decênio. não se fie de quem não vai se confessar’. os olhos de Margarida tiveram uma visão Mas ela também colabora. ajudam a derrubar as paredes (é até uma brincadeira!) e a carregar os tijolos Sonho misterioso de seu filho nesse ano (1856). ao sair do Oratório.” Um personagem pousa a mão sobre uma manivela que aciona uma grande Afinal. mobilização geral no Oratório! “Enquanto os trabalhos ferviam. e seguindo-os com seu olhar vivo e expressivo. a fim de ganhar tempo e diminuir as despesas. inevitáveis que vão sofrendo as roupas.. cinco giros da roda. há de abarcar o mundo. uma doce. a casa Pinardi. . no resto da Itália. encontrou um dia uma fila de burros parados no caminho estreito. enquanto Dom Bosco passava. sim. (o que é menos agradável). Cinco impulsos dados à manivela. Os tropeiros quiseram tranquilizá-lo: Ela se tinha afeiçoado àquelas velhas paredes. são animais penalizava ver desaparecer um testemunho de pobreza. mas agora. colaboram todos.

os meninos tinham deixado o rés-do-chão da celebrada nos Becchi. Mas os anos sempre pesam.. tantas angústias. Depois de ter ouvido a narração do modesta orquestra de violino. Chieri. Moriondo e de outras partes. sobressaltos. para dirigirem-se à escola. Bersanoe outro cujo nome não chegou — Ah! vocês não prestam mesmo para nada. são abalos. tantas dores vão gastando o velho carvalho. Dos três andares resta apenas um montão de escombros. Cerruti. despedaçam o roendo-o. e não foram capazes de ir depressa colocar o dedo debaixo do teto. Depois da noite. harmônio e flauta. seria a última da sua vida? ala danificada. à colina que a operários. . Mas era tudo diferente. Então vocês estavam em casa até nós. cítara. viúva corajosa e enérgica. Quanto dinheiro perdido. Nenhuma vítima também entre os Foi a derradeira visita que fez à casa natal de seus filhos. poucos minutos antes. ele desabasse? Buttigliera. Margarida está ÚLTIMA MUDANÇA Logo em princípios de novembro. o coração de Margarida e dos meninos. Já é segunda vez que ele tem o mau gosto de nos pôr Para todos foi servida polenta (última polenta de Margarida) e carne. seguiu-se a rumorosa banda do Oratório. está perdendo tempo. Tantos para o norte vem abaixo. abaixo a casa. coração de Margarida. e os abalos. Esses desabamentos imprevistos. sinais de destruição. Por felicidade. a parte do edifício voltada agora tranquila. É com Deus e com Nossa Senhora que ele tem que Dormiram à luz das estrelas! se haver. seus filhos adotivos! ÚLTIMA FESTA DO ROSÁRIO Que pavor se apoderou de todos. foi capaz de dizer: respectivamente por Tomatis. Ainda bem que aquele seu santo filho saberia aliviar com humor. havia jovens de Asti. que perigo para os meninos. Isto é arte do chifrudo. tinha visto esposa jovem e fiel. tocados que ocorrera..UMA BRINCADEIRA DE MAU GOSTO DO DEMÔNIO No dia 22 de agosto. para impedir que Além dos 30 alunos trazidos de Turim. a festa foi mais solene: era a festa do adeus. Secam-se as lágrimas. Castelnuovo. ainda mais que Dom Bosco não estava em casa! Poderia Margarida imaginar que a festa do Rosário daquele ano. volta o sorriso. a construção estava pronta. lá pelas 10 horas da manhã. mas não faz mal. naquela Naquele ano. mãe feliz.

fazia-os esquecer a mãe que morrera ou que estava longe. Em meados de novembro de 1856 a boa E para onde se mudou Margarida com as suas panelas? Margarida caía doente. quando trabalhava com as outras senhoras no conserto O MÉDICO da roupa miserável de seus pobres filhos? Um bom divertimento. com suas atenções No porão estavam a cozinha e os refeitórios. Adoeceu por causa da umidade do porão? Seriam responsáveis as paredes frias dos Na porta da igreja. morto fazia poucos meses. onde celebrou solenes exéquias. para pedir notícias. Nenhum ia deitar-se sem tê-la primeiro recomendado à Virgem afeiçoara. porém. E sua horta? E as Orações fervorosas da parte dos jovens. lia-se esta inscrição: “Pela alma do falecido Senhor Francisco Vallauri. Não ficou nem quatro semanas nos novos Dom Bosco tinha querido que seu corpo fosse transferido par ao Oratório. esperavam que Dom Bosco ou o padre Alasonatti os informassem do seu Podemos imaginar o sacrifício que custou a Margarida. nada disso existia mais. Prior emérito da Companhia de São Luiz . este ou aquele jovem chegava perto da porta do No terceiro andar ficavam “a sala de música instrumental. a enfermaria. Consoladora. dias de esperança e de temor. deixar os lugares a que se estado. galinhas? Por enquanto. os quartos de Mamãe Margarida e das suas auxiliares e. aquela que. com sua bondade. a despensa. era com ansiedade que sala era a rouparia da comunidade”. A ASA DA MORTE A cozinha do rés-do-chão — até então reino de Margarida — bem como o refeitório Uma pneumonia aguda. aqueles sons pouco harmoniosos. uma grande À noite. "A todo momento. dava lugar à carpintaria. na extremidade oposta. a mesma doença que tinha roubado aos dos superiores. A boa Margarida já não podia respirar o ar puro de antigamente. filhos o pai e. o marido. Chegou.” E que dizer das escadas que era preciso subir e descer? novos ambientes? E ter a banda nas vizinhanças. a ela. especialmente durante os Desde suas origens. doutor em medicina e cirurgia. o médico do Oratório tinha sido Francesco ensaios! Vallauri. e solicitudes. para ela a hora do prêmio. locais. depois das orações comunitárias. adoecia gravemente aquela que tinha ocupado o lugar Para o porão! da mãe para tantos jovens. quarto da doente.

” É preciso que eu me vá e deixe as coisas da Casa em outras mãos. Mais consternados ficaram quando lhe deste Oratório. mas somente naquelas coisas de que você está certo faltar nada que a pudesse aliviar. cheias de sabedoria e de fé. mas ponha na base a pobreza de fato. "O que lhe digo agora faço-o com a mesma sinceridade com que lhe falaria em confissão. Preste atenção porque muitos. católico fervoroso. Você deve depositar grande confiança naqueles que trabalham com “Dom Bosco passava tempo notável junto à cabeceira da mãe. os jovens de Margarida.” Margarida tinha em grande consideração o bom médico. para semear no coração dele palavras Dom Bosco devotava-lhe grande amizade e lhe era extremamente grato. Castelnuovo. o irmão José. tinha ido confessá-la. ÚLTIMAS LEMBRANÇAS PARA O FILHO Agora. cheios de gratidão. o médico era "o doutor Celso Bellingeri. seu lado. É uma troca que pode ter consequências desagradáveis. bem pouco. para abrir-lhe o coração. procuram o Velavam com ele. Mas Nossa Senhora não OS ÚLTIMOS SACRAMENTOS deixará de tomar conta das suas coisas. os jovens souberam que o teólogo Borel. não deixando você na vinha do Senhor. Benfeitor insigne do Oratório de São Francisco de Sales. médico eficiente dos meninos internos e professor de ciências naturais dos primeiros clérigos Muitas outras vezes Margarida havia querido ter a sós Dom Bosco a que se preparavam para entrar na universidade". não procure nem elegância nem brilho nas obras. jaculatórias. diretor espiritual . atentos e devotados. foi administrado o santo Viático. a tia Maria Anna Occhiena e a senhora Giovanna Maria Rua. Gonzaga. isto Ouçamos o que lhe disse no leito de morte: é. “O mal recrudescia inexorável. junto com o qual tantas vezes se inclinara à cabeceira dos filhos doentes. Procure a glória de Deus. confortando-a com santos pensamentos e que são para a glória de Deus. é para que você possa conhecer melhor o estado do À CABECEIRA DA MÃE Oratório (ela está falando da obra comum. O bom médico fez o que então se sabia e podia fazer contra a pneumonia. em lugar da glória de Deus. do objeto de seu comum amor). pedem ao Senhor paz e repouso eterno". vindo às pressas de interesse próprio (ela bem os conhecia: o olhar da aldeã é muito inteligente!). Cheios de angústia.

vai fazer-lhe sua família”.. minhas poucas forças me impedem de Oratório. mas depois você vai Continue a fazer tudo o que puder pelo Oratório. que seus filhos se conservem na condição em que Desce a particulares confidenciais. Durando. fará um grande bem". Presentemente você faz aquilo que sabe e o que não vê. O que estou lhe dizendo agora você vai examinar e servir de norma Se for aceita pela misericórdia do Senhor. A Falando a Dom Bosco. sempre novas revelações. nada mais. “Rua. avó cristã.. tenho de deixar você e sua família. mostra-se Sua família deve se conservar no seu estado próprio.. mas ganharão Não se fie de.” A Virgem Santíssima ajudará você. fique de sobreaviso: o que pretendem é se Se mudam de estado. padres. Cagliero. honestamente o pão da vida. Uma convincente prova da perspicácia de Margarida.. de pobreza: isto mãe. Nossa Senhora. Francesia serão seus preciosos e fiéis auxiliares. Ouçamo-la: “Meu José. ÚLTIMAS PALAVRAS DIRIGIDAS A JOSÉ Você tem alguns que amam a pobreza nos outros. rezarei incessantemente pelo em muitas coisas que. CONHECIA TODOS E TUDO Fiz sempre o que pude e parece-me que todos vocês corresponderam. Margarida mostrara-se cheia de sabedoria.. serão camponeses. isto é. quando tiver recebido a luz da Estrela. explicar-lhe. Deus os colocou. a menos que aspirem ao estado religioso ou eclesiástico. .. agora. porém. Quero. clérigos e jovens da casa. mas não neles mesmos... Quanto aos dois irmãos Fer. A UNÇÃO DOS ENFERMOS “Quando se tratou de administrar-lhe a Unção dos Enfermos. tornará felizes seus dias e os de Margarida insiste sobre a ideia de que a Estrela. repetiu a João o que já lhe havia dito antes. a superiora do Oratório. dirigindo-se ao seu primogênito. para iluminá-lo na sua missão salvífica. a respeito do Oratório. correm o perigo de se tornarem esbanjadores beneficiar da sua generosidade. Recomendo-me às orações de todos os do fruto de seu próprio suor. Agora. Repare bem que. maneira mais eficaz de ensinar não é a de exigir dos outros. na sua condição. ver e vai saber.

que façam ao menos uma Dom Bosco fez um grande esforço e obedeceu. Vá embora. não foi assim. ao menos com o coração. Espero — Você sofre e me faz sofrer. mãe. últimos momentos.. assistindo a querida enferma. Margarida respirou profundamente e continuou: “Chegava a noite que devia ser a última para ela. mas receber dignamente estes últimos sacramentos da minha vida. compreenderemos na feliz eternidade. vá para seu quarto e reze por mim. ficaram ambos tão comovidos que por um instante a A ÚLTIMA NOITE conversa foi interrompida. conseguia dominar melhor a angústia do coração. vá rezar. Padre Alasonatti está aqui e me basta. Agora é você que deve ajudar sua mãe a Pode parecer que às vezes usei demasiado rigor em alguma circunstância. Você vai me acompanhar para rezar as orações necessárias. Vá. até o fim. sacramentos da nossa santa religião. Adeus. clara. afaste-se da minha presença. Neste ponto. — Houve um tempo em que era eu que ajudava você a receber os Estou com a consciência tranquila. sofro muito vendo você tão aflito. e você também sofre presenciando meus mas sua dor era imensa.” Os verdadeiros gozos teremos na vida eterna. Eu tenho Diga aos nossos queridos filhos que eu trabalhei para eles e lhes dificuldade para articular as palavras: você então vai dizê-las com voz bem dedico uma afeição de mãe. comunhão em sufrágio da minha alma. Margarida fixou nele os olhos e levantou-os depois para o céu. e eu vou procurar repeti-las.” Recomendo que rezem muito por mim. AMOU-O ATÉ O FIM Dom Bosco hesitava em afastar-se do leito da mãe. porque eu Dom Bosco tinha velado até muito tarde. meu querido João. como a “De repente a boa mãe voltou-se para Dom Bosco e lhe disse: dizer-lhe: — Deus sabe o quanto tenho amado você durante a minha vida. querido João.. que um dia tudo poder amá-lo ainda mais e melhor na feliz eternidade. cumpri meu dever o quanto pude. embora amasse de igual forma a Lembre-se de que esta vida consiste em padecer. Do outro lado do leito estava José que.” .

não ousou deitar-se. sufocado pelos soluços. Dom Bosco se retirou. para aquela vida que ele temia estivesse para Margarida ficou um instante em silêncio e depois chamou-o apagar-se. que ainda não se deitara. Dom Bosco. pendurado junto do leito. disse consigo mesmo. ouviu os passos de José O ÚLTIMO FAVOR que vinha ter com ele.COISAS ESTRANHAS “Depois de tê-la ternamente beijado. respeito da iminente partida de minha mãe para a eternidade. que seja um aviso que o céu me manda a que. Dom Bosco não o tinha posto assim: ninguém em casa teria Foi a última saudação. fez-lhe sinal de afastar-se. Eu sofro dobrado vendo você sofrer. poucos instantes depois. Ela insistiu: “Não se pode descrever a dor. Seu pensamento voltou-se logo para a mãe. Os dois irmãos entreolharam-se sem nada dizer e romperam em copioso pranto. dando-se conta da sua presença. esta inexplicavelmente apagou-se. meu Mas. pelo nome: Tendo finalmente conseguido acender a lanterna. estava voltado para a parede.. eis outra coisa estranha! O retrato de sua mãe. obedecendo à vontade expressa da mãe — Receio. entrava em agonia. respondeu: Quando. deitar-se. Era quase meia-noite. Estou bem assistida. filho.” tido esta ideia. — Um filho amoroso não pode abandoná-la nestes momentos. Dom Bosco retirou-se para seu quarto. “A mãe. por três vezes.” Eram 3 horas da madrugada do dia 25 de novembro de 1856. não lhe peço outra coisa: adeus. Você vá. Dom Bosco. os soluços. tanto mais que o reverente afeto que votavam ao superior não o teria permitido. o choro desconsolado. reze por mim. A HORA DE DEUS E então? Tomado de grande temor. aproximou-se do leito para — Peço-lhe um favor — disse-lhe — é o último que lhe peço. pensando que o perigo de perde-la não era iminente. quando receberam a infausta notícia de . — Você não pode resistir!. Dom Bosco voou à cabeceira da querida enferma. quis acender a vela. A piedosa mulher tinha voado ao céu. mas João E OS MENINOS? ficou imóvel..

que vieram para o enterro. tenha educado seu filho. para que comprasse alguma peça de vestuário. guardada como a maior riqueza! O ELOGIO DO PAPA “Depois de morta. o Santo Padre comodidades. amada. no sentido mais pobreza de determinadas famílias. mas estou certo de que ela vai nos ajudar lá do céu. A permissão foi dada de boa vontade. algum pobre. pode-se dizer que a própria Igreja o reconheceu. entretanto. querendo consolá-los. que ela João Bosco.” “Era uma santa!” É o que dizia um mestre de santidade. que seria chamado o pai dos órfãos. A HERANÇAnada que indicasse que ela tivesse de algum modo compensado os achaques da Pio XII pronunciou um discurso que reproduzimos em parte: avançada idade. completo da palavra. ele. Seu amor à pobreza! Essa declaração encontra eco no coração de todos nós. que se tornou mais tarde uma das mais puras glórias da Igreja . numa pobre casa do Piemonte. um menino de condição bem modesta. Nos bolsos acharam apenas elevando aos altares aquele que todo o mundo venera com o nome de São doze liras. Sua pobreza foi querida. era a voz de um dos maiores Qual foi a herança deixada por Margarida? santos da Igreja. que aquela pequena soma iria parar na mão de Foi o que disse Dom Bosco aos meninos reunidos.que a mãe de Dom Bosco — a mãe deles todos — já não existia. “Já faz mais de um século. haviam pedido a Dom Bosco seus dois irmãos. de quantos amam Dom Bosco. não tivera tempo de gastar. Dom Bosco lhos tinha dado. O único vestido encontrado foi o que levou para o túmulo. licores. santa!” Era certo. suas roupas para aliviar a mas guiada pelo Espírito Santo. nada se encontrou no seu quarto que tivesse a sombra de busca de No dia 31 de janeiro de 1940. idade. Margarida tinha dado todo seu enxoval para a rouparia do Oratório. festa de São João Bosco. porém. Este humilde sacerdote. com bebidas. Com quanta sabedoria. Era uma cair doente. doces. vivia. com Ao contrário: algumas mulheres. poucos dias antes de — Perdemos nossa mãe. essa simples aldeã sem instrução. só recebeu cuidados da mãe. Órfão em tenra licença para ficar com sua roupa. vinhos. Mas ficaram desiludidas porque nada encontraram.

oferece as mais salutares e úteis P. em Asti — era o que ele recebeu e a que deu aos seus jovens. que ele conduzia dóceis ao pasto. no qual viu animais selvagens transformarem-se subitamente em mansos Na visita à humilde casa dos Becchi. sobretudo de Cooperadores Salesianos. Mamãe Margarida tornou-se. cardeais e necessário. aguardado por gerações e Era essa em geral a situação social. a ponto de abandonar . Fausto Santa Catarina lições. quando João Bosco já sonhava em ajudar e. portanto. primeiros anos. Pe. sua vida. diocesano de sua Causa de beatificação e canonização. o Papa João Paulo II referiu-se a Mamãe Margarida e fez votos Para conhecer como soube traduzir em fatos esse sonho. é preciso recordar a educação por que se introduzisse sua Causa. na disse à mãe do pequeno Moisés: Tome este menino e eduque-o para mim (Ex 11. a mãe de Dom Bosco”. Egídio Viganò. sua alma teve uma como revelação. onde Joãozinho Bosco viveu seus cordeirinhos. Todavia devemos aconteceu quando o Reitor-Mor dos Salesianos. linguagem oficial da Igreja. E em outra oportunidade. a preocupação urgente do pão cotidiano oficialmente ao Arcebispo de Turim o pedido para que se iniciasse o processo torna-lhes às vezes difícil o cumprimento desse dever essencial. E sobretudo participou da missão do filho. sendo gerações de salesianos e estimulado por altas personalidades do clero. Quando Deus confia um filho a esposos cristãos. apresentou reconhecer que. Milhares de assinaturas continuavam a chegar à sua mesa de Que ele fosse providencialmente destinado a essa missão. mediante um sonho tido "primeira Cooperadora”. nele. com uma precoce atração. nas condições atuais da vida social. uma está unida à outra. bispos salesianos. a “Serva de Deus Margarida Occhiena”. foi um extraordinário educador. a eles repete o que a filha de Faraó A partir de 8 de setembro de 1994.9). o próprio coração o fazia trabalho. Assim Nos planos de Deus os pais são os primeiros educadores dos filhos. "Foi esta mulher analfabeta mas rica da sabedoria do Espírito Santo — afirma ainda o padre Viganò — que assentou os fundamentos da santidade de Dom Bosco. substituir os pais nesse grave dever. santos e pastores da Igreja: basta pensar em Mamãe Margarida. a mãe que ele teve ano da família — o Sumo Pontífice relembrou as "mães que souberam educar explica em grande parte o pai que ele foi para os outros”. A SERVA DE DEUS MARGARIDA OCCHIENA e da Itália. que não poderiam esquecer a sentir. nos primeiros anos.

mas é invocada. que se tornou interesse. partilhando-lhe as dificuldades e contribuindo Mamãe Margarida. paralisaram por algum tempo a iniciativa. Não obstante. sua santa mãe continuará a ser chamada carinhosamente Mamãe Margarida. Razões de sobra justificam tamanho para aquele estilo educativo de família. condição preliminar à abertura do processo. Hoje são 25. a preocupação na glória dos altares. é digna também de ficar-lhe ao lado Não era novidade o projeto de introduzir a Causa.” Congregação Salesiana. que caracterizam a verdadeira “fama de santidade". recentemente introduzida. Assim é que todos conhecem. e Mamãe Margarida não só não foi esquecida. Tantos anos passaram. Aguardamos agora o desfecho de sua Causa Dessa maneira. Vai aumentando cada vez mais o testemunho das graças. esteve sempre ao lado do seu santo filho. e o conceito de santidade. pois seu nome está estreitamente ligado às origens do carisma da preciosa herança carismática. do mesmo modo como São João Bosco continua a ser chamado simplesmente Dom Bosco. Se positivo. Mas. que hoje se alicerça na forma mais válida para os critérios da Congregação das Causas dos Santos: a intercessão. no ano que a Igreja dedicava à família. ligado em decênios passados a uma heroicidade taumatúrgica. . hoje julgados menos importantes. dirá que esta santa mãe que em vida a Causa de Mamãe Margarida tomava novo impulso. como se para ser santo fosse preciso fazer milagres em vida. a 138 anos da sua morte. típico do Oratório de Valdocco. Agora ela é a Serva de Deus Margarida Occhiena. mais alguns problemas jurídicos. com a Causa de Dom Bosco.heroicamente as raízes serranas para viver seus últimos dez anos de vida ao seu lado Vivia ainda Dom Bosco quando foi publicada a primeira biografia de numa difícil periferia de cidade capital.

........................... Cristo prisioneiro ................ .......... EDUCADORA DE UM SANTO fonte de vida e de paz................................. Depois da carestia ............. ........................... ............................................. confiantes vos pedimos Ceifado pela morte .......................... Por outro lado.. ...............9 atingido por grave enfermidade..................................... nosso Senhor: Estava com sede? ....................3 Fome e vexame .......................................... ............................. um punhado de casas .....................................3 nós nos voltamos para Vós Toque desabalado de sinos ........ 13 O pão bento ... 11 dos doentes de sua aldeia": Cabeça quebrada .............................................................. ...........................4 em aceitar Vossa vontade Paz depois da tempestade .................. 15 U m boizinho bravo ....................8 Por isso......................................... era muito rigorosa ..............................................3 na nossa dor e provação.............6 que devemos resistir ao mal O chamado ................... 15 Amém.......... Sofrendo o peso da carestia ........ 12 MAMÃE MARGARIDA..........................9 que vive no sofrimento De joelhos.Para alcançar a graça de uma cura.................... ... Capriglio......................................... 10 O olhar de Deus ........................................................................................................ ja! Bo! Bo! Boja" ............9 a graça da cura de........................................................................................... 10 Junta-se a nós nesta súplica Deus no universo ........................... .. meus filhos! ... .......4 Vós nos convidais a ser fortes "Ja..................................... .................8 Dois santos .. nosso Pai..... Duas mulheres ............... 14 e ao Coração de Jesus.................................... 11 aquela que foi "anjo consolador Sua mãe sabe mais do que você ...... rezemos com Mamãe Margarida: SUMÁRIO Deus.................................................................................... saúde dos enfermos Sou mais forte do que você ................................................ 16 . Perdoai as nossas ofensas ...................... 14 a Maria. .....7 e viver na esperança........6 e ao mesmo tempo nos lembrais A colina luminosa ........................................................... ......................................... 13 Confiamos nossas preces Aquele que poupa a vara não ama seu filho ......................................................................................................................................................

..................... ............ 23 Estou pronta ..... 42 O primeiro benfeitor de Joãozinho ............40 Coração de mãe não se engana .................... 49 "Não está satisfeita?" .................................................................................................................. 42 A mesma intuição ..............35 A primeira "boa-noite" ....................................................................... 41 Perspicácia de mãe ............................ ............................................... 48 A grande mestra .......32 Isto também é demais! ........................................................................................ .................. 29 Quartos vizinhos um do outro ........................ dia de paraíso! .....33 Lençóis e cobertores desaparecem ............................................................ ....................... ······ .......................... 17 Não se aguenta mais de pé ..................................................................... quero ser saltimbanco!" ......... ....................................... 52 Uma grande provação ...................................................................... 47 Duas mães .......................... 22 Você vai ter um anjo a seu lado ..........38 Reunião de família ....................................................... 27 A árvore da vida ......................... 48 Lá também existe uma Providência......................................... 24 A Providência não falta ..................................................... 51 Pão e vinho ..................................................................... 28 Os haveres de um padre: patrimônio dos pobres ................. 18 "Dom Bosco está louco!” ........................... 21 MÃE DOS MENINOS POBRES "Hospedaria Cháritas" ........................................................................................................................................................... 54 Luta contra o dinheiro ...................................... não é? .................................................................................... ............................................ .. ................................................................................................... 42 O grande dia ................................................. 36 Os filhos se multiplicam e o coração se alarga ................... ............ 18 O mal é sério ............................................. 46 Que é que se pode fazer? .......44 Arte teatral ..... a ressurreição! .......................... ................ 55 ................................................................ ...... ................................................... ... 19 O viático para Dom Bosco ............... ......................................................... ............... ...............38 "Mamãe....................................................................... 39 Mata mais a gula ........... .............. 17 Anos duros ............................... ......... 20 Nos Becchi.................................................................................... ....................................... ................... ...................... 31 Apagar um vulcão? ...................................................................................................................... 26 Horta Mamãe Margarida . 24 Descendo as colinas ....................................... 37 Gente corajosa! . 22 Um dilema imperioso .............. 28 Oh! Animais nojentos! ............ 41 Gasta tudo com a velhinha . .... ............................. 25 Ai do mundo se souber! ....... 36 Mãe sem entranhas? ............................ .... 44 O sacrifício de Isaac ..... 25 O enxoval de esposa para o Esposo! ....... 53 Dia de luz........... ....... 50 Durante o tempo de seminário .................................. ..................................................30 Sempre muito viva e franca .............. 54 Em alto mar ..................................................................................... 20 O futuro do filho ...................................................................................................................................... ........ 45 Desfaz-se o nó ............... 34 Passarinho ensopado de chuva ............................ .....................................................

..... 89 A oficina ou o "Rondó"? .................. ........ ................................... 80 Rancho ............................. 69 O pão também . 96 "Mamãe..................... com quem está brigando?" ....................................... ............ 64 A luta pela pobreza ................................................ 79 Batalhas de rua ............................................ ..................................... 82 Mas e o pão? .......... ................................ 68 Estou quase....... 86 Nada de dualismos ................. 63 Nos palácios da bela Turim ..........................................98 A primeira igreja construída por Dom Bosco ......................... 97 Tempos calamitosos ............................................................................................ 84 Como Dom Bosco ................................................ 74 Pão seco? ................... ......................... ...................................... 78 Um livrão a mais ....... 71 A longa espera ........................... 58 O Seminário da Arquidiocese .. ............................ 59 Três senadores na "sala do trono" ................................................ 87 Com os preguiçosos ............................................ ... 61 Quarto e sala de espera ...................................... . 60 16 de novembro .......................................... 94 Dom Bosco não é tudo .......................................... ....................... ........................ .... 60 Será o fim? ................................... 89 Agridoce ................................................... 65 A mantilha de seda ...................93 Com os que tinham sido castigados .................................................................. ................................... 66 Suas refeições .......................... .................................. 83 Braços enlaçados ............... .................... 94 Intervenção em dois e em três atos ......................................... João! ...... 75 Enfermeira ..................................................................... 57 Um grande luto .................... ............... ......................................................... 85 Pedagogia admirável ............ 55 Uma pura alegria ................................................................................................................................................. quase voltando! ............................................................................................................................................ 66 Honestíssima nas mínimas coisas ..... 97 Guerra dentro de casa ....... ........................................................................................................ 70 Só faltava isto: um piano! ............................. 90 Os resultados .............. .. 67 No seu lugar ........................95 O grande fermento ............................................................................................... 76 Um terremoto infernal ........ 61 Simpatia "margaridiana" ................................................................................................................... 87 Suas advertências ..............................88 Com os gulosos ............................................................................. 68 Uma preciosa aquisição .......................................................................................... 62 Em alto nível ....................................................... 72 Não diga a ninguém ...............................................95 Na ausência de Dom Bosco ......................................... 77 O primeiro atentado ... ..................................................................................... 73 Pode-se pregar mentira? ........................................ ............................................................... 62 Hospitaleira e reconhecida .................... . ..................................... ............................................ ...............................................99 .......................................................................................................... 57 A casa de "Propaganda Fide" ....... .......................................................... .................................................................................................................... 91 Cuidado...................... 84 Uma graça especial .......................... 80 Feijão ..............................................................................................

........................................................ 128 A jardineira .......................... ........................... 117 Uma das últimas dores ................ .... 130 Calvário do filho e da mãe ........................ 132 Mamãe Margarida na oficina de encadernação ................ ................. 114 A Serva de Deus Margarida Occhiena ........... ....116 Margarida no dizer de Ponderano .............................................................. 11 O A hora de Deus .......................... 134 Mãe de bispos ..................................................115 Doces recordações ....................................................................... 113 A herança ................................................................................ 135 O presente maior e último .................. 123 Última mudança ................................. 126 José........................................................................ 102 Conhecia todos e tudo ............................... 107 Coisas estranhas .............................................................. 129 Crítica literária ....... o filho mais velho ................................................................................................................................. ....................... ........................O retrato de Mamãe Margarida .......................................................................................................................... ....... .................... .............. 105 A última noite ........................................................ 109 O último favor .............................................................................. 129 Uma bela tradição .................................... 104 Últimas palavras dirigidas a José ................................................................................................................................................................................. 132 Margarida e o "Grigio" ................................................... 137 Os baixinhos ................................................ 126 .............120 A grande colmeia ........................................................................................................................... 133 Mamãe Teresa e Mamãe Margarida ......... 125 O médico ................ 106 Amou-o até o fim .. 122 Última festa do Rosário .......................... .......... .. 121 Uma brincadeira de mau gosto do demônio .......................................... 133 O cólera também .............................................................................................................................................................................................................. 117 O primeiro morto ........................... 130 Um valioso testemunho ........................................................... 114 O elogio do Papa .............................................120 Um episódio simpático ... 101 Últimas lembranças para o filho ....................................... ................................ 125 À cabeceira da mãe ..................... ............................ 105 A unção dos enfermos ......... 127 Um capitão no castelo ........................................................................ ............... 123 A asa da morte ......................................................................................................... 100 Os últimos sacramentos .....................................................111 E os meninos? .................... 118 Volve os olhos para o mundo ....