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A AUTOFICÇÃO NO BRASIL ANTES DA ORIGEM DO TERMO

Francine Mariê Alves Higashi (Mestranda em pós-graduação stricto sensu),Prof. Dr.Miguel
Sanches Neto (Orientador) msn@interponta.com.br

Universidade Estadual de Ponta Grossa/Mestrado em Linguagem, Identidade e Subjetividade

Área do conhecimento: Linguística, Letras e Artes
Sub área: Literatura Brasileira

Palavras-chave: Autoficção. José Carlos Oliveira. Romance.

Resumo:

Este trabalho propõe um estudo sobre a prática de autoficção no Brasil, anterior ao conceito que surgiu
na França em 1977 por Serge Doubrovsky a partir das elucidações do teórico francês Phillippe
Lejeune. O objeto de estudo dessa pesquisa se constitui na investigação da prática literária do escritor
brasileiro José Carlos Oliveira que culminaria no seu primeiro romance, O pavão desiludido
(1972).Para isso, procuramos percorrer um estudo sobre o caminho da crônica brasileira,gênero muito
praticado pelo escritor,e suas principais características, para isso, nos fundamentamos nas reflexões do
escritor italiano Italo Calvino, além dos estudos dos teóricos Michel Foucault e Phillippe Lejeune, que
trazem como objeto de estudos as noções de autor e autobiografia.Nesse contexto, percorremos um
análise sobre a escrita de si e o culto do eu nas crônicas do escritor brasileiro José Carlos Oliveira.

Introdução:

Em 1972, foi lançado pela editora Bloch o romance O pavão desiludido (1972) de autoria do
escritor capixaba José Carlos Oliveira (1934-1986). O que nos chama a atenção são os traços
marcadamente autoficcionais que são estruturados na elaboração desse romance brasileiro.
Elucidamos que esse gênero só ganhou força no ano de 1977, com o romance Fils (1977) de
Serge Doubrovsky (nasc.1928), em um período do retorno do eu, antes liquidado pelo
estruturalismo.
O termo autoficção,foi dado por Doubrovsky a partir de indagações do pensador
Phillipe Lejeune, que em um dos seus estudos pensou em um gênero totalmente novo em que
se fundissem autobiografia e romance, no entanto, anos antes que viessem à público os
estudos de Lejeune e o romance Fils (1977), foi publicado no Brasil O pavão desiludido
(1972), de José Carlos Oliveira.A. Alvarez (2006) reflete que o culto do eu tem retorno
significativo a partir da geração dos beats, no entanto, antes disso, Freud ao tentar encontrar
a cura para os seus pacientes, voltou-se para o eu do indivíduo e sua história, abrindo uma
nova perspectiva dentro da psicanálise. Alvarez acredita que o processo do escritor que
procura a sua voz é similar ao psicanalista em busca da cura por intermédio da conversa.
O crítico tem um receio quanto à figura midiática do escritor, porém colocar em cena o
eu, certamente contribuiu para que se desenvolvesse na literatura o campo da
autoficção.Diana Klinger (2006) atesta que “o retorno do autor” não se opõe, mas, pelo
contrário, dá continuidade à crítica do sujeito, mostrando sua inacessibilidade.
Se Doubrovsky estabeleceu a configuração do nome próprio como pacto selado entre
autor e leitor para que o seu romance fosse lido como autoficção, notamos que antes mesmo
que essas discussões viessem a público, no Brasil, temos um escritor que já trazia em suas

Todo o painel cultural da vida urbana carioca da segunda metade do século XX pode ser encontrada nas crônicas de José Carlos Oliveira. ao contrário. aliada à imaginação e memória. que Calvino reflete no segundo capítulo de Seis propostas para o próximo milênio (1998) nos mostra uma literatura que encontra o seu valor na rapidez da leitura. Os estudos dos teóricos franceses. o da brevidade. mobilidade. que lhe forneceram assuntos para suas crônicas. onde ele morava. versões eletrônicas e pesquisas relacionadas ao campo de estudo.As referências foram importante ferramenta para se compreender a prática literária do autor. porém de acordo com Lejeune (2008) não existe uma verdade pura na autobiografia. vemos um escritor que praticou intensamente uma escrita de si. uma presença do eu e também características essenciais para que seu romance fosse classificado hoje como autoficção.além de críticos da área de Literatura. Esclarecemos ainda que o termo autoficção é posterior ao lançamento do romance de José Carlos Oliveira. . essa brevidade não retira o seu valor literário. procuramos estudos em materiais bibliográficos. como cronista. quanto mais tempo economizamos. porque. desenvoltura. Esse valor. Resultados e Discussões: O romance O pavão desiludido (1972) pode ser considerado hoje como um romance de autoficção. e o convívio com intelectuais e artistas de seu tempo. restaurantes. Materiais e Métodos: Para o desenvolvimento desse trabalho. diversos eus cindidos. conforme nos lembra Sarlo (2007).e pela formação estrutural do próprio romance. pelo cotidiano no qual o cronista se inseriu:bares. qualidades essas que se combinam a uma escrita propensa à divagações. a economia de tempo é um fator positivo.impressa diariamente no Caderno B do Jornal do Brasil. principalmente referentes aos de Phillippe Lejeune e Michel Foucault. o que rejeita a ideia de um relato autobiográfico.ficções. muitos dos quais eus espelhados do autor se configuram na ficção. Para Calvino (1998). acrescenta. praias. O levantamento teórico foi feito com base na bibliografia que permitiu a análise dos materiais propostos como fonte de investigação da escrita literária do autor. Pode-se constatar que essa tradição literária do uso da primeira pessoa nas crônicas contribuiu para que se formasse uma literatura marcada pela experiência pessoal. transparecendo portanto. e pesquisas recentes sobre o termo autoficção foram fundamentais para essa pesquisa. onde seus personagens. por ser xamente sucinta. mais tempo poderemos perder: “A rapidez de estilo e de pensamento quer dizer antes de mais nada agilidade. Ao lançar um gênero literário que antecipa o próprio conceito. narrador e personagem.A autoficção seria portanto. uma variante moderna da autobiografia. Calvino (1998) elege como um dos valores na literatura moderna a brevidade. porém. pessoas do bairro de Ipanema. desde a década de 1960 até o início da década de 1980. selado pelo uso do nome próprio entre autor. a perder o fio do relato para reencontrá-lo ao fim”. a saltar de um assunto para o outro. pois ela seria uma atualização do presente. Vemos que o autor lançou o livro como um gênero romanesco. que teve na crônica a sua principal fonte de desenvolvimento. na literatura. buscamos aqui investigar quais circunstâncias levaram o autor a antecipar um gênero literário que vem ganhando cada vez mais força em nossa literatura ociedental. Porém. artigos. Podemos notar que quase todas as crônicas de José Carlos Oliveira são pautadas pela experiência. segundo ele.embora na época que foi lançado muitos leram o romance como uma autobiografia.

onde a pressa de uma leitura de jornal. Em outra crônica. o uso da primeira pessoa do singular. estilos e formas que podem mudar a imagem que temos do mundo. é . mostrando uma nova perspectiva da possibilidade da criação de um romance em que se privilegia a primeira pessoa em detrimento de uma terceira pessoa.permanecendo apenas no campo da ficção. são aspectos de valor dentro da literatura. efetivamente esse “eu textual” não remete com precisão a um “um da experiência vivida”. que está sujeito a uma mortalidade física. um personagem que vai sobreviver ao eu real. como ponderou Calvino(1998) é o que ocorre com os textos brasileiros.porém cindido.. algo praticado por José Carlos Oliveira. Na crônica publicada no Jornal do Brasil.) Como é que Carlinhos poderia imaginar que aquele casalzinho estava ali por causa dele” (OLIVEIRA. entre o meio jornalístico e o universo literário”(SIMON.Era exatamente isto que estava em curso nas crônicas de José Carlos Oliveira.172). subvertendo a própria constituição romanesca. p. em que ele se revela para o leitor como um eu que se apresenta como personagem de ficção. muitas vezes se encontram “uma farta produção de textos que tratam do próprio fazer poético. 2004. A autoficção pode ser compreendida aqui como um gênero devedor da crônica. Conclusões: Klinger (2006) define que a autoficção se insere no universo do romance. p. sempre se abrem outros caminhos a explorar. utilizando o uso do singular da primeira pessoa e o tempo presente. no infinito universo literário.. p. na sua variedade de assuntos. mostrando justamente esta separação entre dois seres que são a mesma pessoa e que no entanto guardam autonomia: “A realidade bruta é a seguinte – Carlinhos Oliveira e seus companheiros começaram a beber no Veloso e estão esticando no Antonio’s (. minha solidão musicalizada. mas uma separação destes dois eus. publicada em 4/3/1969. José Carlos Oliveira é personagem mas se coloca na terceira pessoa. e são essencias ao gênero crônica.Vemos que a leveza e a brevidade. e relatos que já esboçam marcas autoficcionais. o material literário de José Carlos Oliveira. se insere nesse campo onde há uma forte representatividade do “eu” e sua relação com o “nome próprio”. do cotidiano do escritor e da ambiguidade experimentada pelo cronista. disse ele. 2011. não se pode desvincular o caráter autobiográfico da crônica. Fui ao espelho e. o cronista faz uso da primeira pessoa e traz a si mesmo. Há uma sobreposição de nomes. ali.O autor em algumas crônicas. 2004. “porque mais cedo ou mais tarde você morre e eles te põem numa gaveta e acabou-se o que era doce.95). pois. remete à figura de um outro eu espelhado. Nas suas crônicas podemos verificar os primeiros traços que marcariam mais tarde o seu primeiro romance. enquanto o outro seria o autor das experiências vividas. “Vamos andando para a rua”. O pavão desiludido(1972). no campo da linguagem. em 29/11/1964. a leveza sempre em contraponto com o peso. no entanto. José Carlos Oliveira me deu um sorriso grave. Para o crítico. O nome próprio assegura o contrato com o leitor.54).Ao surgimento do outro “eu” refletido. novissímos ou bem antigos. com nome e sobrenome.”(OLIVEIRA. temos um mesmo ser. o que possibilitou uma contaminação do cronista para o romancista. além do uso do nome próprio como um contrato entre autor e leitor. e outro consciente de sua brevidade carnal. um feito para durar. ganhou leveza no seu lirismo em contraponto com o peso do cotidiano. porém. para dentro do texto: Acordei cedo no sábado e continuei a escrever sobre a minha vida particular – meus devaneios surrealistas.

de Rosseau à Internet. EDUEL. 2007. Diana. Belo Horizonte: Humanitas/UEMG.crônica da boêmia carioca nos agitados anos 60/70. 1998. _____________________. escritas do outro: o retorno do autor e a virada etnográfica. 2011. KLINGER. . São Paulo: Cultrix.E vice-versa. Companhia. SARLO. A crônica. O grau zero da escritura. Tempo passado: cultura de memória e guinada subjetiva. nomeando-se.A crônica. 1971. 2008. REFERÊNCIAS: ALVAREZ. Jorge de. 2009. sabemos que aquele ser real é notadamente uma ficção. FOCAULT. SÁ. Seis propostas para o próximo milênio.Londrina.como afirma Lejeune (2008) um pacto selado pelo nome próprio para questionar a escrita estritamente autobiográfica. criando uma máscara. Rubem Braga e outros cronistas. 2007. Tradução de Anne Arnichand e Álvaro Lorencini. Rio de Janeiro: 7 Letras. pelo uso do nome próprio. Phillipe. Cia das Letras. BARTHES. 1987. Escritas de si. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. permitindo a construção de peça ambíguas. São Paulo: Editora Ática. Mesmo quando o cronista utiliza a terceira pessoa. São Paulo. 2004. Belo Horizonte: UEMG. Tradução de Rosa Freire d’ Aguiar. Michel. sabemos que aquele personagem é notadamente autoficcional. Roland. OLIVEIRA. In: Ditos e escritos III. Tradução de Ivo Barroso. A voz do escritor. Duas ou três páginas despretensiosas. Luiz Carlos.Editora Bloch. 2006. Beatriz. Italo. 1972. LEJEUNE. Mesmo quando ele usa uma primeira pessoa declaradamente. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. O pavão desiludido. Organização de Jason Tércio. O pacto autobiográfico. CALVINO. SIMON. O homem na varanda do Antonio’s. O que e um autor?. Rio de Janeiro: Forense Universitária. José Carlos. A.