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Morfologia urbana como um campo interdisciplinar

emergente

Anne Vernez Moudon
College of Architecture and Urban Planning, University of Washington, Seattle, WA
98195, USA. E-mail: moudon@u.washington.edu

Artigo originalmente publicado na Urban Morphology em Outubro de 1997

Resumo. Neste artigo identificam-se as forças e os acontecimentos que
conduziram à formação do International Seminar on Urban Form (ISUF). O
ISUF tem vindo a expandir o campo da morfologia urbana para além dos
seus limites originais na área da geografia particularmente em direção aos
domínios da arquitetura e do planeamento. Três escolas de morfologia
urbana, em Inglaterra, Itália e França, têm vindo a desenvolver um processo
de aproximação, seguindo o trabalho seminal de dois morfologistas, M. R. G.
Conzen e Saverio Muratori. A aproximação destas escolas fornece as bases
para a definição de um campo interdisciplinar e a oportunidade de
estabelecer fundações teóricas comuns para um conjunto crescente de
morfologistas em diferentes partes do mundo. A ambiciosa missão do ISUF é
abordar um conjunto de temas atuais e concretos relacionados com o
processo de construção da cidade, fornecendo um fórum de reflexão e ação
que inclui disciplinas, e profissões relacionadas, provenientes de diferentes
culturas. Neste artigo discute-se o potencial de um campo interdisciplinar de
morfologia urbana e o seu contributo para a compreensão e para a gestão
dos processos de desenvolvimento urbano num período de transformação
sem precedentes.

Palavras-chave: morfologia urbana, interdisciplinaridade, construção da
cidade, geografia, arquitetura

Morfologia urbana é o estudo da cidade forma sobre o solo moldando as nossas
como habitat humano. O etnógrafo Lévi- cidades. Edifícios, jardins, ruas, parques e
Strauss (1954, pp.137-8) descreveu a cidade monumentos, estão entre os principais
como ‘a mais complexa das invenções elementos da análise morfológica. No
humanas,…na confluência entre natureza e entanto, estes elementos são considerados
artefacto’. Os morfologistas analisam a organismos que vão sendo constantemente
evolução da cidade desde o seu assentamento utilizados e transformados ao longo do
até às subsequentes transformações, tempo. Estes elementos também existem
identificando e dissecando os seus vários num estado de inter-relação próxima e
componentes. A cidade resulta da dinâmica: estruturas construídas que moldam
acumulação e da integração de muitas ações e que são moldadas pelos espaços abertos à
individuais, ou de pequenos grupos – ações sua volta; ruas de carácter público servindo e
determinadas por tradições culturais e sendo utilizadas por proprietários de parcelas
moldadas por forças sociais e económicas privadas dispostas ao longo dessas ruas. O
desenvolvidas ao longo do tempo. estado dinâmico da cidade, e a relação
Os morfologistas centram-se nos próxima dos seus elementos, levou a que
resultados tangíveis das forças sociais e muitos morfologistas preferissem o termo
económicas: estudam a concretização de ‘morfogénese urbana’ para descrever o seu
ideias e intenções à medida que estas tomam campo de estudo.

Revista de Morfologia Urbana (2015) 3(1), 41-9 Rede Lusófona de Morfologia Urbana ISSN 2182-7214

formalizaram o International arquitetónico. no pós. Suíça. Em 1974. W.42 Morfologia urbana como um campo interdisciplinar emergente No verão de 1996. Caniggia continuou a domínios. Slater. inicialmente para Kropf e Keith Lilley. que é mais ‘processual tipológica’ devido ao enfoque conhecido pelo seu estudo detalhado sobre nos tipos edificados enquanto raiz elementar Alnwick (1960). que tinha Italiano que lecionou primeiro em Veneza e orientado o seu estudo de 1963 sobre a depois em Roma. Na sua prática de ensino e excecionais e não conformados nos seus nas suas publicações. nomeadamente a diversas gerações de académicos tinham pesquisa conduzida por T. Um também em Itália e em França. a força dos ensinamentos de Forma Urbana). tradição Muratoriana que ele chamou respetivamente. ajudou a disseminar a estudar e exercer a atividade de planeamento influência do grupo. Ambos eram homens cidade de Como. neste campo: M. Seminario Internazzionale de la No entanto. Irlanda. história e teóricas para as suas aulas de desenho planeamento. Como Muratori. Morphology Research Group num centro de Dois indivíduos figuram de modo investigação de exceção. um grupo de ‘histórias operativas’ de Veneza e Roma morfologistas com formações diversas (Muratori. os seus habitantes. e a sua emergência desenvolvimento das suas ideias. a geografia e a arquitetura. guerra. em Itália e no Norte de Africa. e que muitos programa sustentado de conferências e investigadores. desconsideração intelectual por parte dos Séminaire International de la Forme seus colegas modernistas na arquitetura. mas transformação suburbana do século XX. R. que incluía Conzen e Muratori atraiu seguidores que investigadores de Inglaterra. dinâmicas da indústria de construção. como Peter Larkham. estavam também últimos 25 anos. Urbaine. Karl Segunda Guerra Mundial. teve de conviver com a da forma urbana. Conzen . Por outro lado. como um campo interdisciplinar. Estes R. Japão e EUA que os mestres chamavam de genius loci e as tinha-se reunido nos dois verões anteriores singulares capacidades mnemônicas da no mesmo local. a título individual. G. Os um académico da geografia histórica e encontros sublinharam a necessidade de urbana. bem estado ativas no campo da morfologia como estudos sobre a expansão e a urbana. complementando as proeminente como investigadores pioneiros principais tradições em morfologia urbana. e as campo. desenvolvido ao longo dos variedade de outros países. explicar e comparar o seu trabalho. um arquiteto assumiu a tradição de Muratori. sofreu um isolamento e uma Seminar on Urban Form (ISUF – ou SIFU. A sua alegadamente pouco rigorosa e com pouca investigação estendeu-se a diferentes cidades capacidade preditiva. tornou o Urban a contribuir para o seu desenvolvimento. Lausanne. R. Whitehand formou o Urban Três escolas de morfologia urbana Morphology Research Group na University of Birmingham. Gianfranco Caniggia (1933-87) Saverio Muratori (1910-1973). Caniggia revolução quantitativa da geografia. arquiteto ao longo da sua vida. 1963) como as bases incluindo arquitetura. e depois para ensinar geografia. Whitehand (1981) assegurou o legado de encontros reconheceram a expansão da Conzen ao compilar alguns dos seus morfologia urbana para além dos seus limites trabalhos e ao investigar o significado e o originais na geografia. O grupo. França. para cidade enquanto palimpsesto cultural. urbano. um geógrafo Um fluxo constante de distintos doutorados Alemão que emigrou para Inglaterra antes da de Birmingham. numa publicações. ao investigar a relação investigar o âmbito das bases teóricas deste entre a cidade. que em larga medida passou por cima permanecendo ativamente envolvido como da sua investigação indutiva e empírica. J. não apenas em Inglaterra. Suíça. sendo Muratori que usava as suas conduzida com colegas e estudantes que . 1959. e Em Itália. Conzen. Whitehand. geografia. que inclui investigação sobre As reuniões do ISUF vieram a confirmar que cidades medievais. alargou os limites da morfologia até promover um diálogo internacional e de à economia urbana. colocou a sua teoria em prática. perceberam a importância de capturar aquilo Alemanha.

A difusão das ideias Muratorianas seguiu o aumento da popularidade da arquitetura ISUF: uma geneologia Italiana por todo o mundo. continuam a conjunto de contactos pessoais e tradição em Florença. continua por documentar. O resultado deste diálogo neste campo ii. no Egipto. Apesar de Rossi tinha havido alguma promoção individual. Paolo Maretto. Giancarlo Cataldi. Alemanha. particularmente na toda a comunidade de arquitetos na Europa. com uma grande força na bairros parisienses. por Lucien Bonillo. Por outro lado. Ao longo da última ironicamente. Gian Luigi – Conzeniana. Berkley. Espanha e Áustria. também a Escola Francesa emergiu filho de Conzen. A Maffei. incluindo na University of Berlin desconhecidas em França. uma internacional: a sistemática disseminação de terceira escola emergiu em França no final publicações por parte dos geógrafos de dos anos 60. estabeleceram restando. área da conservação urbana e património. como Elisabeth Lichtenberger e Itália. e com vida urbana que então atravessava a Deryck Holdsworth. A escola beneficiou continuados com James Vance Jr na ainda do vibrante debate intelectual sobre a University of California. M. mas também em Espanha e na Dietrich Denecke. Muratoriana e Versalhesi. Do mesmo modo que a Escola internacionalmente da participação ativa do Italiana. Roma. os contactos com preparar uma segunda geração de arquitetos emergiram de forma lenta e. Britânico e Americano. quando os arquitetos Philippe língua Inglesa e a crescente popularidade Panerai e Jean Castex. investigadores na Irlanda. entre outros. Quando já estavam envolvidos na Polónia. e de contactos rejeição da história. e ideias de Conzen sobre gestão da paisagem a cidade do Cairo. sociólogo Jean-Charles Depaule. P. Mas nos anos 80. ter escolhido não assumir a influência de mas poucas trocas e ligações formais entre as Muratori na fase inicial da sua prática . as bastides Francesas. Ao longo dos anos. Panerai e Castex geografia da Europa Central no período entre descobriram as obras de Muratori. beneficiando Artes. poucos contactos com investigadores não apenas em académicos. comparativamente. morfologistas em França. criação do ISUF foi conduzida por um Giuseppe Strappa. as O grupo de Birmingham desenvolveu anteriores publicações de Castex e Panerai também laços com a prática profissional de exerceram uma considerável influência por planeamento Britânica. O grupo de Birmingham como o sociólogo Henri Lefebvre e o estabeleceu também ligações com historiador André Chastel.Morfologia urbana como um campo interdisciplinar emergente 43 prolongaram o legado de Muratori. foram-se consolidando à década fundaram-se grupos de investigação medida que os arquitetos Britânicos se foram em Nantes. um geógrafo como reação à arquitetura modernista e à sua da University of Chicago. particularmente com a tradução para Inglês dos trabalhos de Até à primeira reunião do ISUF em 1994. um Os subsequentes estudos detalhados sobre a interesse diretamente relacionado com as cidade de Versalhes. juntamente com o global da arquitetura Italiana. que permaneceram ativos América Latina. Aldo Rossi nos anos 80 iii. Génova e circunstanciais particulares. então guerras. agora na Pennsylvania arquitetura envolvendo críticos proeminentes State University. A tradição investigação sobre a evolução histórica dos Stadtlandschaft. continuou a ter ímpeto para o aprofundamento das os seus seguidores. Conzen. convergência fortuita de duas tentativas Depois de Conzen e Muratori lançarem as isoladas de promoção e cobertura bases para as duas escolas anteriores. ajudaram a urbana. meados dos anos 80. o dimensões teórica e metodológica do seu número destes seguidores tinha encolhido trabalho. três principais escolas de morfologia urbana Atualmente. que forneceram o onde Conzen tinha estudado. e em familiarizando com a Escola Muratoriana em Marselha. fundaram a O grupo Conzeniano manteve um perfil Escola de Arquitetura de Versalhes como consistente nos círculos geográficos parte do processo de separação das Belas. Pelo contrário. por Michael Darin. Maria Grazia Corsini. bem como pela Siena.

o seu trabalho tinha sido traduzido edificados tradicionais. Nos últimos anos de vida. num seminário em Christine Boyer e o académico da paisagem homenagem ao trabalho de Kevin Lynch. Estes arquitetos leram também os internacional dos franceses. urbana Paul Groth. No atuais problemas urbanos e como impotente entanto. tendo partilhado pensamentos e com um dos meus colegas. No o programa de reabilitação do centro entanto. O Instituto morfologia’ estimularam o interesse pelo organizou um simpósio sobre morfologia desenho da cidade. do na ligação das três principais escolas de Oxford Polytechnic. estudante de James Caniggia visitou ainda o Federal Polytechnic Vance. após um encontro comigo uma década. como parte de uma o seu trabalho (em co-autoria com Maffei) tentativa de ‘fechar o círculo’ entre as sobre Florença que foi traduzido e editado escolas Italiana e Francesa de morfologia por Sylvain Malfroy. Caniggia desenvolveu um extensivo e em Seattle. histórico de Bolonha. para apresentar palestra em Roma. Samuels tinha então retornar em 1988. A Rossi e Aymonino vieram a rejeitar a lista de convidados incluiu muitos morfologia urbana. planeadores e arquitetos de que promovia soluções ultrapassadas para os renome. Eu tinha conhecido Castex e abrangente programa. o retorno aos tipos de 1970. potenciando assim para várias línguas europeias e circulava nos um renovado interesse pela cidade histórica e Estados Unidos para uma possível promovendo o seu significado na arquitetura. na morfologia textos de outro arquiteto Italiano. nessa altura. em Nápoles. como Professor Visitante à começado a colaborar com os seus University of Oregon. em conhecesse o seu trabalho (e de Panerai) há Seattle. Lecionou também compatriotas. em 1986. que havia passado uma pelo arquiteto e Italianófilo Ivor Samuels no temporada em Nova Iorque no final dos anos início dos anos 80. Apesar de Caniggia não 1960. à exceção de Ivor Samuels. modernismo no desenho da nova cidade. ao por altura desta visita. nem os membros da Escola de na resolução de um conjunto de temas da Versalhes. ajudou a desenvolver Castex e Panerai a lecionar no Instituto. deu-se pela primeira vez em 1986 Aymonino. na Suíça. e Albert Levy. cujo estudo sobre Pádua e outros através do prestigiado Institut d’Urbanisme textos que ele designou como ‘tipo. a impulso para estabelecer relações com os Escola de Versalhes manteve contactos nos seus colegas em Florença. vendo-a como um campo académicos. No final da década promover. conduzindo da sua implementação. no ano anterior sobre morfologia com Francófilos como M. para o projeto. A súbita morte de Caniggia foi um Como mencionado anteriormente. contactos entre morfologistas em diferentes Também a nova geração de geógrafos partes do mundo. eu tinha planeado dar uma Institute of Zurich. a verdade é que acabou por mundos Latino e Árabe. pouco depois do simpósio. ajudou a reforçar o desenvolvimento ter encontrado os geógrafos de Birmingham de laços com a América do Norte. convidado para visitar o Oxford Polytechnic Castex. colaboradores mais próximos das escolas de No entanto. nem qualquer um dos arquitetura moderna. Roma e Génova. Americanos e a audiências de língua inglesa . da Universidade de Paris. Incidentalmente.44 Morfologia urbana como um campo interdisciplinar emergente profissional. que morfologia urbana e na criação do ISUF. até à data. o seu interessante âmbito e o sucesso estudo da região parisiense. A afirmação Franceses. que teve Caniggia estabeleceram-se ligações entre a Escola de como consultor. na University of Washington. . este trabalho não está acessível arquitetos Britânicos. urbana. Caniggia passou três visitado Versalhes um ano antes. urbanos franceses tem vindo a desenvolver Foi neste contexto que Caniggia foi relações de trabalho mais estreitas. publicação em Inglês – esta tentativa falhou A mensagem de Rossi teve eco nos e. em retrospetiva. da Europa e América do Norte. embora meses na University of Washington. na Suíça. mas urbana abordando a questão do fracasso do com significado para a estrutura do ISUF. Itália. foi então lecionava em Genebra. o contributo Birmingham e Muratoriana participaram no italiano com um carácter mais instrumental simpósio. Carlo urbana. com sucesso. Em 1987. A rápida difusão deste Versalhes e o Institut d’Urbanisme.

constituem as três componentes académicos e investigadores Suíços tinham. à cidade. o grupo organizou assenta sobre uma base comum. Bruno Marchand e Sylvain desenvolvidos por geógrafos ou por Malfroy ofereceram-se para acolher arquitetos. desenvolvido laços com urbana. existe um amplo reconhecimento Finalmente. Estas componentes estão presentes as escolas de morfologia Italiana e Francesa. a diferentes disciplinas e áreas linguísticas partir de 1987. e à região. As Morphology. Federal Polytechnic School of Lausanne. a neutralidade e centralidade sofrem uma contínua transformação e geográfica – não por acaso – foi chamada substituição. Até então. fundamentais da investigação em morfologia de um modo natural. além disso. complexa. fratura natural entre geografia e arquitetura. A forma urbana só pode ser publicação da Storia Operante di Venezia de compreendida na sua dimensão histórica uma Muratori e de Alnwick de Conzen. uma por diferentes classes sociais – nova geração de morfologistas está a emergir transformados fisicamente. desde 1995 sob os auspícios momento de desenvolvimento inicial. quer da função quer da forma . juntamente com o seu edifício ou em 1997. em três anos consecutivos. características da célula definem a Os primeiros encontros do ISUF em configuração e a densidade da forma urbana. A forma urbana é definida por três A genealogia do ISUF é. mas também as conferências anuais em Cambridge. ii. Lausanne incrementaram a intensidade das bem como a sua utilização efetiva ou trocas entre as escolas. no seu nível mais elementar. Asiáticos e Australianos princípios. parcelas ou lotes. Reconhece-se que a mais pequena célula da que culminaram com a confirmação do ISUF cidade é constituída pela combinação dos como organização. comunidade do ISUF. à é uma feliz surpresa poder ver a criação do rua/quarteirão. Em resultado. como seria elementos físicos fundamentais: edifícios e expectável. a forma. Attilio Petruccioli. nas quais longo do tempo. organizou período de tempo na história. transformação. condições socioeconómicas presentes no Massachusetts. desde o final dos anos 80. importante. com as suas diferentes missões e intenções. A forma urbana pode ser compreendida as habituais disputas territoriais e. quer sejam Léopolde Veuve. Mais potencial ao longo do tempo. o anúncio de uma seguintes elementos: a parcela de solo primeira conferência aberta em Birmingham individual. e ruas. a contactos individuais entre investigadores análise morfológica é baseada em três Norte-Americanos. para as três primeiras reuniões do ISUF que Assim. que mostram que os atributos da célula e dos estudou sob o enquadramento da Escola seus elementos refletem não apenas um Muratoriana em Itália. esses elementos são participaram muitos dos membros da utilizados de forma diferente – por exemplo. No entanto. é uma conferência internacional e editou um consensual que a cidade pode ser ‘lida’ e livro reunindo contributos de vários Norte. dada a os espaços abertos relacionados com estes. que correspondem ao edifício/parcela. a resolução e o tempo tiveram lugar na Suíça. reconhecem-se quatro níveis. eliminados ou rapidamente e a produzir trabalho substituídos por novas formas. barroca ou contemporânea. e a criação da revista Urban edifícios e com os espaços abertos. vez que os elementos que ela compreende Curiosamente. O ritmo de comparativo sobre as três escolas. Estudos especificamente. na medieval. Em 1990. i. Para Americanos e Europeus ‘continentais’.Morfologia urbana como um campo interdisciplinar emergente 45 A promoção e o alcance no mundo de As bases teóricas língua inglesa foram facilitados pela publicação da Urban Morphology Esta convergência de investigadores de Newsletter. têm vindo a desenvolver-se de que. mais em diferentes níveis de resolução. Ao do MIT Aga Khan Program. em todos os estudos. linguístico entre Anglo-Saxónicos e Latinos. dado o fosso cultural e Normalmente. quer se centrem na cidade reuniões. Primeiro. analisada através da sua forma física. do grupo de Birmingham. ISUF apenas quatro décadas depois da iii.

preocupados com o modo como as cidades algumas das questões específicas sobre o são construídas e com o porquê. Francesa tem defendido esta utilização da espaços abertos. ciclos relacionados com a economia e a iii. Essas intenções são as que se ser proposto. Os cientistas portanto. morfológicas. de um modo geral. Discutamos primeiro construção da cidade’ (théorie de algumas das questões gerais relacionadas l’édification de la ville). as raízes do modernismo no construídos num mesmo tempo ou com as desenho urbano no século XVIII. história. Estes estudos centram-se no modo conjunto de profissões. e da Escola A missão do ISUF é ambiciosa e. e consequentemente pelas desenvolver uma ‘teoria de desenho da humanidades.46 Morfologia urbana como um campo interdisciplinar emergente das células. e se bem que todas as tendem a não perder tempo a avaliar o análises morfológicas são desenvolvidas com impacto das suas ações sobre a vida (em um objetivo de construção de teoria. pela descrição e pela prescrição. existem termos de longo prazo) das cidades. Os ciclos de construção e de o ‘impacto de teorias de desenho do passado transformação são processos importantes que na construção da cidade’. estudo e pela ação. Estes estudos avaliam as diferenças ou Alguns estudos também se focam no que semelhanças entre diretivas sobre o que deve Conzen chama ‘unidade de plano’ e que os ser construído (teorias normativas) e aquilo Italianos designam por ‘tecido’. Cada Questões e potencial uma das três escolas tem tido diferentes intenções nos seus esforços de ‘construção Como é frequente quando algo novo está a de teoria’. O estudo da forma urbana com de um campo interdisciplinar de morfologia propósitos ‘descritivos’ e ‘explicativos’. O estudo da forma urbana com geografia. distinção entre ‘teoria do desenho como raramente são estudados nas cidades ideia’ e ‘teoria do desenho como prática’. Estes estudos estão com a morfologia urbana e. mental difícil para muitos planeadores. jornais. arquitetura e propósitos ‘prescritivos’. no entanto. os pontos fortes da inovação seguem: são também as suas fraquezas. ou porque sofreram entanto. ou porque foram todos sucesso. em seguida. estende-se pelo como as cidades deveriam ser construídas. O ISUF morfológicos. este continua a ser um exercício um mesmo processo de transformação. mas du projet basée sur les traditions também se enquadra. pelo conhecimento e pela Este é o enfoque principal da Escola Italiana decisão. entre as habituais disputas sobre poder e Alguns investigadores Franceses têm tido ideias. em d’édification de la ville. A fundação i. com um todo coeso. A Escola plano ou tecidos são conjuntos de edifícios. estabeleceu um domínio que se estende pela ii. varia de cidade para cidade. Este é o estado atual do campo. livros. etc. que deu a este propósito uma direção Este domínio é atualmente constituído por particular. ciências sociais e por um cidade’. O estudo da forma urbana para avaliar cultura. tendo como propósito do seu organizações com as suas conferências trabalho o desenvolvimento de uma théorie associadas. propósitos distintos entre as diferentes tradições em morfologia urbana que produzem diferentes tipos de teorias. o desenvolvimento de uma teoria um vasto mosaico de territórios intelectuais. sendo tudo isto representado em intenções semelhantes nas suas análises inúmeras revistas. Do lado . Este é o domínio devem ser explorados pelo planeamento da crítica de desenho. parcelas e ruas. cheia de potenciais conflitos com sociais da Escola Francesa também têm este as estruturas existentes nos mundos da propósito quando desenvolvem estudos investigação e da prática. de desenho do edificado assente nas ajustando lentamente os seus limites por tradições históricas de construção da cidade. com urbana cria tensões e oportunidades que o o objetivo de desenvolver uma ‘teoria de ISUF terá de enfrentar. Unidades de que é realmente construído. que Para além disso. de Birmingham em particular. arqueologia. objetivo principal dos geógrafos. páginas web. No mesmas condicionantes. com o objetivo de planeamento. que formam análise morfológica identificando. contemporâneas. que faz a sofisticada urbano e pelo imobiliário.

as Significativamente. territórios desconhecidos. a relacionados com o ato de fazer cidade. como é que os quarteirões são profissões que prosperam na ação e no alterados. No entanto. mas que implantados numa fase inicial e do tipo e da deixam pouco espaço para a investigação e intensidade de desenvolvimento em seu para a avaliação. Por outro lado. São profissões que não redor. Quaisquer que alargado tem as suas próprias fragilidades. por exemplo. a arquitetura. o ISUF está a criar um domínio que de teoria por parte da morfologia urbana vêm reúne peças de todos estes territórios para se de dois lados opostos. os construção. Existe estas profissões. uma necessidade de a investigação abordar a tendo de captar a atenção destas profissões. definir e ilustrar os princípios de isoladamente ou em conjunto. desafio do ISUF é demonstrar os processos Primeiro. o imobiliário e a comportamento humano. porque a natureza reducionista desta a ocorrer dentro da geografia e transcender abordagem não tem sido eficaz no as contendas adolescentes que assolam o tratamento das questões relativas ao planeamento. o ISUF é uma interpretado como o determinismo físico da oportunidade para estabelecer um fórum de morfologia urbana pode também ser pensamento e ação sobre como moldar e silenciada: a morfologia urbana aborda a gerir os nossos habitats – um assunto cidade não como um artefacto. sejam as razões para a existência de uma Uma parte significativa da investigação em abordagem artística no que se refere à morfologia urbana tem-se centrado em tomada de decisão em arquitetura e cidades Europeias históricas. cresceram em culturas não-Europeias. mas como oportuno neste momento da história da organismo. ou como diferentes condições seguiram outras no desenvolvimento de uma definirão se uma determinada área é sujeita a abordagem sistemática e empírica de um desenvolvimento de densificação ou a aprendizagem e construção de uma base de um completo re-desenvolvimento. planeamento têm ainda que desenvolver. os focar num fenómeno real: James Vance positivistas questionam o modo empírico e designa este fenómeno real como indutivo de investigar a cidade e apontam a ‘construção da cidade’. e uma necessidade de abordagem morfológica na identificação de dirigir esta investigação para cidades que relações de causa-efeito. expansão sem precedentes das cidades ao para demonstrar a validade e a eficácia da longo deste século.Morfologia urbana como um campo interdisciplinar emergente 47 positivo. São profissões que têm Segundo. este estado de coisas significa limitação que pode parecer dificultar que os morfologistas irão percorrer. o caminho futuro do ISUF físico enquanto ‘resultado’ de forças sociais será provavelmente árduo. no entanto. um conjunto dúvidas sobre as capacidades de construção de estudos recentes sobre as cidades do . Ambas são exemplo. crítica relacionada com o que pode ser Consequentemente. com aplicações práticas no mundo atual. da correntes que suportam o modo como as engenharia e da medicina. Do ponto de vista das ciências sociais. Por um lado. o material de investigação que o poucos – se é que têm algum – mecanismos ISUF oferece a este mundo agora mais para relacionar estudo e ação. dependendo de como são projetar de futuros possíveis. Significa ainda que a morfologia grupos artísticos e literários desconfiam do urbana poderá preencher um vazio que enfoque único da morfologia urbana na atualmente debilita tanto a investigação realidade física da cidade. por um conjunto e económicas com uma natureza dinâmica. Isto própria capacidade de previsão da significa que a morfologia urbana pode virar investigação positivista tem sido alvo de costas às lutas internas pelo poder que estão crítica. onde o mundo físico é civilização. No entanto. Todavia. de modo a incluir as fraca capacidade de previsão de uma teoria formas físicas e todos os processos de construção da cidade. ao contrário. O de razões. a como a prática de ‘construção da cidade’. O enfoque está no mundo seja o objetivo. a arquitetura e o cidades são construídas e transformadas. conhecimento. uma base de transformação em diferentes contextos – por conhecimento partilhada. uma dupla planeamento. por mais excitante que inseparável dos processos de transformação a seja a oportunidade e por mais nobre que que está sujeito.

e de aplicações habitats mas também. Roma). S. Para além disso. os atuais avanços nos SIG atividades de construção da cidade constituir baseados na parcela podem ajudar a mover o uma grande promessa para a análise centro da investigação em morfologia urbana morfológica. Significativamente. Londres). Como (George Philip. mesma base. uma região. estas bases de dados urbana são os mesmos. e Marinucci. e formas urbanas.. ligar atributos em conservação urbana e património até à espaciais a dados quantitativos de modo a gestão do desenvolvimento urbano futuro. que. S. de solo individual. i Para uma lista de referências sobre o trabalho estes dados empíricos abrem imensas das três escolas ver Moudon. resultado. Muratori. Bollati. . K. exemplo. para a gestão de áreas urbanizadas. Eles crescente de cidades Asiáticas.) Ordering space: types in baseados na parcela combinam dados que architecture and design (Van Nostrand são úteis às indústrias de construção e do Reinhold. permitindo assim uma Northumberland: a study in town-plan analysis. R.48 Morfologia urbana como um campo interdisciplinar emergente século XX na Europa. curso no modo como se registam as No entanto. Esta possibilidade tem enormes G.. Por último. As expectativas devem necessariamente De grande importância em relação a esta ser cautelosas – a tecnologia demonstrou ser e a outras tarefas é o facto de a revolução em um ‘excelente servo. em Franck . com bastante facilidade. os SIG Schneekloth. V. ou inversamente. não apenas cidades históricas até às grandes regiões registar as características espaciais dos urbanizadas da atualidade. (1959) Studi per una operante storia com dados detalhados. e da Europa. L. Roma). mas um pobre mestre’. Nova Iorque) 289-311. dados dos censos podem agora ser ligados. confirma a oferecem a capacidade de coordenar as validade dos princípios de construção da atividades destes campos tradicionalmente cidade identificados anteriormente pelas três separados. Para além Referências disso. e talvez mais escolas: os elementos básicos da forma importante. América do Norte e imobiliário bem como aos planeadores Austrália. Recolhidos de modo longitudinal. análise urbana à escala de trabalho Institute of British Geographers Publication 27 privilegiada pelos morfologistas. bem como sobre um número urbanos e aos decisores políticos. G. pela primeira vez. e os processos de espacialmente codificadas permitem aos formação e transformação partilham a morfologistas estudar. S. o espaço físico possa Certamente. estes novos mapas ‘inteligentes’ Lévi-Strauss. (1963) Studi per una operante storia urbana implicações. M. Esta é a parte emocionante e vastas áreas de desenvolvimento urbano ou abrangente da morfologia urbana: o seu suburbano. R. (1960) Alnwick. análises ao Stato. Paris). os SIG baseados na parcela oferecem os dados empíricos que os morfologistas necessitam (e que até agora Notas adquiriam meticulosamente de forma manual). tanto para a investigação como di Roma (Consiglio Nazionale delle Riceche. muitas unidades administrativas recolhem os seus registos ao nível da parcela Conzen. pela primeira vez. A. a análise em potencial para ajudar a enfrentar o boom de morfologia urbana tem os instrumentos para construção da cidade das próximas décadas abordar as áreas metropolitanas noutras áreas para além da América do Norte contemporâneas. C. (1994) oportunidades de investigação para ‘Getting to know the built landscape: monitorizar e explicar a transformação das typomorphology’ . (1955) Tristes Tropiques (Terre permitem análises regionais desenvolvidas Humaine. as oportunidades para a ser medido e analisado em relação às forças construção de teoria que o ISUF oferece socioeconómicas que o moldam – por pode tornar este num futuro tangível. Bollati. nível da parcela podem ser aplicadas a toda Muratori. Pela primeira vez. A. disponíveis ao nível urbana di Venezia (Istituto Poligraphico dello da parcela. (eds. Os Sistemas de Informação da sua fundação no estudo de pequenas Geográfica (SIG) podem agora. às formas construídas e aos usos de solo.

J. Italy and France. Moderne. and Shaw. (1988) ‘Recent Fevereiro de 2000. (ed. e referências sobre este Panerai. Three schools of urban morphology. (2004) Urban forms. Michael Conzen (University of centenas de participantes irão discutir a ‘cidade Chicago). R. following seminal work by two morphologists. are coming together. foi entretanto adaptada e traduzida para Inglês - Cambridge) 285-96. . W. M. (1980) Eléments d’analyse approaches to the urban landscape’. Vítor quatro escalas da escola Italiana. e Samuels. R. ISUF is expanding the field of urban morphology beyond its original confines in geography. Panerai. 331-49. The potential of an interdisciplinary urban morphology to contribute to the understanding and management of urban development in a period of unprecedented change is discussed. P. (ed. acolherá no próximo mês Todi. Slater. Conzen (1907-2000) faleceu a 4 de Iorque). The bringing together of these schools provides the basis for an interdisciplinary field and the opportunity to establish common theoretical foundations for the growing number of urban morphologists in many parts of the world. iii Para uma discussão sobre o papel da I. resumo e palavras-chave Urban morphology as an emerging interdisciplinary field Abstract. W. J. R. interdisciplinarity.) Dimensions of human geography. M. (eds) Urban Depaule. V. Jean- para a vida urbana’. M. Oliveira (Universidade do Porto). the death and life of the morfologia urbana no desenho urbano e na urban block (Architectural Press. P. The forces and events leading to the formation of the International Seminar on Urban Form (ISUF) are identified. Piero Ositilio As excursões pós-conferência incluem visitas Rossi (Sapienza Università di Roma) e Jeremy a ‘Roma Moderna e Contemporânea’. que agradece a Anne Vernez Moudon a disponibilidade permanente para esclarecer todas as questões relacionadas com este processo. A Comissão Científica da conferência de Setembro o 22º International Seminar on inclui: Giancarlo Cataldi (Università degli Studi Urban Form. (1978) ‘Analytical Veyrenche. J.Morfologia urbana como um campo interdisciplinar emergente 49 ii Para uma discussão sobre o papel da morfologia arquitetura. G. urbaine (Editions Archives d’Architecture K. ver urbana na geografia. Entre os dias 22 e 26. (1992) ‘A University of Chicago Department of catholic approach to organizing what urban Geography Research Paper 186.-C. R. Whitehand. em A publicação da Escola de Versalhes Castex. geography. Kai Gu (University of Auckland). C. city building. A. Castex. G. e Panerai. ISUF’s ambitious mission is to address real and timely issues concerning city building by providing a forum for thought and action which includes related disciplines and professions in different cultures. Depaule. Tradução do título. Nova M. e respetivas referências. G. R. cities (Leicester University Press. Conzen and Saverio Muratori. Denecke.. Moudon. J. developments in urban morphology’. Paris) and Germany (Cambridge University Press. P. 22nd International Seminar on Urban Form A cidade de Roma. num debate estruturado nas François Lejeune (University of Miami).) (1981) The urban landscape: historical development and Notas de tradução management Institute of British Geographers Special Publication 13 (Academic Press. ver Conzen.. architecture Tradução Este texto foi traduzido por Vítor Oliveira. Journal of Planning T. cerca de duas di Firenze). W. Keywords: urban morphology. P. e à cidade histórica de Architettura Sapienza. J.. em Butzer. Demorgon. in England. particularly into the domains of architecture and planning. D. à Villa Whitehand (University of Birmingham). Depaule. Whitehand.. (ed. e em particular a Facoltà di Adriana e Villa D’Este.) (1990) The built form of Western Literature 6. M. e papel. J. (1970) Formes historical geography: recent progress in Britain urbaines: De l'îlot à la barre de (Dunod. Oxford). Bruxelas). C. designers should know’.. 128-65. Leicester). Ivor enquanto organismo’ e desenhar ‘novas visões Samuels (University of Birmingham). J.