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ARTIGO / ARTICLE

Atenção a Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência
Doméstica: Análise de um Serviço
Care of Children and Adolescents Suffering Domestic Violence:
Analysis of a Service
Suely F. Deslandes 1

DESLANDES, S. F. Care of Children and Adolescents Suffering Domestic Violence: Analysis
of a Service. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 10 (supplement 1): 177-187, 1994.
This paper provides a partial synthesis of the study entitled “Prevent and Protect: Analysis of an
Organization to Aid Children Suffering from Domestic Violence”. The study analyzes the work of
Regional Centers Against Child Abuse (CRAMIs) in caring for children and adolescents who
have been abused through intra-family violence. In technical and methodological terms, the
study promotes a dialogue between quantitative and qualitative approaches, focusing on
structure, processes, and representations present in the work of the CRAMIs, and characterizing
the families assisted during the 1988-1992 period. It presents the profile of the families as well
as the profile of the CRAMI’s work. In light of the results, the study considers the potential
contribution of CRAMIs to the implementation of actions in the public health system.
Key words: Domestic Violence; Violence Against Children; Infant Health; Adolescent Health

INTRODUÇÃO reconhecem, em nível mais amplo, os maus-tra-
tos como um sério problema de saúde pública.
Estudiosos afirmam que, quando se tratam dos Nos E.U.A., por exemplo, na década de 70 são
aspectos de morbidade por violência contra criados programas nacionais de prevenção
crianças, o âmbito familiar é o locus privilegia- primária e secundária, além de centrais de
do destes atos sociais (Azevedo & Guerra, denúncias, tornando público um problema
1989; Guerra, 1985; Oliveira, 1989; Santos, considerado “particular”.
1987; Straus et al., 1980), infligidos quase Em inquérito realizado nos E.U.A., em 1985,
sempre pelos próprios pais ou responsáveis e apontou-se que 62% dos pais utilizavam a
exercidos de forma variadas, isto é, através de agressão, materializada em empurrões, tapas e,
violência física, violência sexual, violência até, uso de armas, no trato com os filhos
psicológica, abandono intencional e negligência, (NCCAPR, 1992). Segundo o National Inci-
ou seja, por um conjunto de atos violentos dence Study, ao longo do ano de 1986, nos
denominados “maus-tratos”. E.U.A., 311.500 crianças, ou 4,9 em cada
A questão dos maus-tratos pode ser encon- 1.000, foram abusadas fisicamente; 188.100
trada em relatos clínicos que datam de fins do crianças, ou 3 em 1.000, foram abusadas emoci-
século XIX. Contudo, somente no século XX, onalmente; 133.600 crianças, ou 2,1 em 1.000,
mais precisamente na década de 60, estes pas- foram abusadas sexualmente; e 507.700, ou 8,1
sam a constituir um problema de saúde, recon- em 1.000, foram vítimas de negligência física
hecido sob a epígrafe “síndrome do bebê espan- (U.S. Department of Health and Human Serv-
cado — SIBE” (the battered baby syndrome). ices, 1991).
Uma década após sua definição, alguns países No Brasil, somente na década de 80 a temá-
tica da violência emerge como um problema de
1
Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e saúde pública, ampliando o espaço para se
Saúde da Fundação Oswaldo Cruz. Av. Brasil, 4036, sala discutir a questão dos maus-tratos. Assim, ainda
702, Rio de Janeiro, RJ, 21040-361, Brasil. se desconhece a freqüência exata dos casos de

Cad. Saúde Públ., Rio de Janeiro, 10 (supl. 1): 177-187, 1994 177

através de telefonema. a proteção. âmbito familiar. No estudo do qual se origina doméstica” (Crami. embora poucas e iniciantes. de que. instituição para a proteção da criança é sua pios do Estado de São Paulo: Itapira. o Crami opta por uma ação educativa e O Crami foi fundado em 1985. entização e sensibilização” (Crami. 3) verificação da situação real da prevenção. que fenômeno dos maus-tratos na realidade brasilei.5 criança vítima de maus-tratos. Há hoje. para sugerir ações ao Sistema Público O Crami fundamenta-se principalmente numa de Saúde. bem como a promoção da de Advocacia da Criança (SAC) da Secretaria criança junto à família. o presente artigo analisou-se a atuação de uma A família “maltratante” é compreendida como organização pioneira no atendimento de famílias “partícipe de um problema que envolve uma que praticam a violência doméstica: os Centros complexidade de determinantes culturais. religiosos e Infância (Cramis). organizações não-gover. Rio de Janeiro. portanto. 5) encaminhamentos. O Crami dirige-se ao atendimento de crianças tratos. 1991). no Brasil. S. Sua atuação visa. econômicos. Destes. milhões de crianças vítimas de abuso e negli. Sorocaba. 10 (supl. cas regionais devem conduzir a uma atuação Santo André e Bauru. A Associação Brasileira de Prote. O Crami tem como ação básica o Programa dimento de 6. Através do Programa Emergencial. estabelece o grau de prioridade para a entrevista ra como estratégia para encontrar formas de em domicílio. São José do Rio Preto. cujas diferenças regionais interfe- namentais que existem há 9 anos em vários rem na sua compreensão” (Santos.981 atendimentos adolescentes. 4) Neste trabalho. o qual é gerador dos demais violência na Capital. do Menor de São Paulo registraram o aten. o jurídicos da comunidade. 1992: 02). no período de 1991 “é realizada com a família e as crianças e a março de 93. Piracica.. e encaminham as famílias rias para o crescimento e desenvolvimento das aos recursos de saúde. 1): 177-187. parte-se da premissa diagnóstico. só- Regionais de Atenção aos Maus-Tratos na cio-psicológicos. Apontam. pois privilegia projetos de atuação segundo as neces- conta-se basicamente com o registro dos poucos sidades da comunidade a que atende e segundo serviços existentes no país para a identificação e suas possibilidades de infra-estrutura. Assim. 1994 . sociais e psicólogas. pela consciência da visitas domiciliares e diagnósticos. realizou 3. 1992: 02). 64% eram casos de violência vítimas de maus-tratos são atendidos dentro do doméstica. F. 178 Cad. os desafios de conhecer melhor o 2) encaminhamento ao serviço social. atuam nas freqüência com que se apresenta e pelo reco. abuso contra a criança e o adolescente. em Campinas. municípios de São Paulo. própria família e que as diferentes característi- ba.Deslandes. criança e da família em relação ao problema. Saúde Públ. fundamentalmente. psiquiátricos. o problema sionais registram os casos notificados. é necessário primeiro delinear o premissa de “descentralização de ações. no período de 1988 a programas: nele a criança e o adolescente 1990. portanto. entendendo que a melhor e posteriormente implantado em outros municí. se. envol- perfil dos sujeitos sociais envolvidos na prática vendo diferentes instituições sociais numa dos maus-tratos. Estatísticas do Serviço tratamento dos casos. atendimento das famílias que praticam maus. carta ou pessoalmente. Cada Crami regional regionalizada diferenciada. não-criminalizadora.056 casos de crianças vítimas de Emergencial. A abordagem no atendimento ção à Infância (Abrapia). torno do tema da proteção à infância. famílias por meio de orientação com assistentes nhecimento científico das conseqüências deleté. vítimas de maus-tratos e de suas famílias. o registro e o gência por ano no país. neiro. de assistência social e crianças vitimizadas. bem como avaliar as formas de gestão de co-responsabilidades na proteção da atuação que. efetuando um trabalho de consci- de crianças vitimizadas no lar no Rio de Ja. como objetivos a proteção e a assistência à das e Negligenciadas estima a ocorrência de 4. Botucatu. O Programa se proce- desenvolvimento de uma consciência social em ssa nos seguintes momentos: 1) notificação. tendo A Associação Brasileira de Crianças Abusa. fazem tem se mostrado relevante. já criança e adolescentes vítimas de violência existem no país. os profis- Apesar da inexatidão dos dados.

e não a popula- na atuação dos Cramis. foram obtidas ex. Contudo. Dados da Pesquisa Nacional por casos. auxiliando a separadamente. 10 (supl.0. no ano de 1989. versão 5. 1981). a população atendida nos vários Cramis ao longo do período. São José do Rio Preto. Bauru. Piracicaba. Para o cálculo do tamanho da amostra soluta (sempre acima de 70. optou-se pela utilização de Garbarino & Gilliam. A amostra foi renda no Brasil tem crescido cada vez mais composta da seguinte maneira: Campinas. 1994 179 . considerado a população isolada de cada Crami ra. que se salário mínimo (SM)” a “três salários mínimos”. agravando a situação Sorocaba e São José do Rio Preto) foi utilizada de pobreza constatada (Quadro 1). Vale comentar este aspecto mais demorada- miais. Em seguida. cerca de 80. retêm a vivência destas relações experimentadas pelos atores e as significações por eles atribuí- das às suas ações. a fórmula que se aplica a distribuições bino. Botucatu. com a análise qualitativa de 45 depo. Violência Doméstica METODOLOGIA EMPREGADA seja. COMPLEXA primeiramente. lias brasileiras recebiam rendimento mensal na As freqüências e proporções. tou-se numa abordagem que conjugou a análise Para os cruzamentos de variáveis.0% outros Cramis (Piracicaba. nos Cramis de Campinas e Bauru. atendidas. 172. dois (Sorocaba e abordagem quantitativa. é nas duas fórmulas diferentes (binomial e multi. enquanto para os testes de concor- imentos dos atores sociais envolvidos na atua. 1988). os cálculos estatísticos foram feitos so- mente com as informações realmente verifica- A opção metodológica da pesquisa fundamen. Buscou-se dar conta Itapira) apresentaram sérias deficiências no tanto das relações que constituem a base estru.645 famílias e proporções foi utilizado o software Epi-Info. determinan. foram A Família analisadas as amostras pilotos. 1993). Para os Dessas famílias investigadas. mente. Itapira. 228. 452 (Saboia.. Entretanto. Botucatu. Coutinho. As condições econômicas das famílias atendi- do-se o tamanho amostral de cada um dos das neste serviço apontam que a maioria ab- Cramis. Amostra de Domicílios — PNAD (IBGE. renda familiar variando entre “menos de um a fórmula indicada por Tortora (1978). das.7% das famí- e Sorocaba. aumentando ainda mais o tempo para a ma da violência doméstica (Straus et al. famílias e profis. dância o programa “CONCORD” (Klein & ção: técnicos dos Cramis. este percentual eleva-se a Cad. 1990) 272. estendido o rendimento familiar à faixa de 0 a cluindo-se respostas ignoradas nos registros. mas seus tural quanto das representações sociais que dados merecem ser relativizados. a partir da defi- nição das variáveis de interesse. não se pôde estimar os resultados para A análise qualitativa foi um procedimento todos os Cramis em conjunto. Rio de Janeiro. sionais de outras instituições que participam nos Em virtude de o plano amostral do estudo ter encaminhamentos. O estudo focalizou a estrutu. compreensão e sugerindo novas questões à Dos Cramis estudados. além de caracterizar as ção de todos os Cramis como uma única popu- famílias atendidas no período de 1988 a 1992. apontam que. Em virtude de as distribuições multino. mais indicada. CARACTERIZANDO UMA REALIDADE Para definir a amostra quantitativa obteve-se. 113. Saúde Públ. Esses não foram excluídos. análise dos casos. e sim estimá-los importante nesta investigação. bem como os faixa de 0 a 2 salários mínimos. lação. por permitir estimar para mais não se pode esquecer que a concentração de de duas categorias de abuso. 239. aplica a distribuições multinomiais. 1): 177-187. freqüências quantitativa de dados referentes a 1. têm dois ou mais filhos. classes populares que se encontram os maiores nomial).0%) percebe uma foi utilizada. 1980. 30. os processos e as representações presentes (amostragem aleatória simples).. e uma vez cruzamentos de variáveis. Itapira. ou 5 salários mínimos. A literatura clássica sobre o tema afirma miais gerarem um tamanho de amostra muito que todas as classes sociais vivenciam o proble- grande. registro. 169. embora a análise multinomial fosse a percentuais de registros colhidos.

fato que reforça tais hipóteses. que são de grande importância. da “etiologia dos maus-tratos” aponta para uma A própria população atendida pelos Cramis é perspectiva dinâmica onde uma rede de fatores predominantemente composta por famílias de estão interligados. Além disso.3 74. Saúde Públ.0 84. Botucatu. Piracicaba. contribuírem com a maioria dos psicológico e de educação. dos poderes locais.6 Somente Mãe 36. realidade. por mulheres em populações de baixa renda. F.2 38.1 98. tra.5 39.7 78.1 78. lembrar o nível elevado de pressões. Características Familiares das Crianças e Adolescentes Atendidos no Cramis. Itapira.2% das famílias. Cabe. Outro aspecto importante é o acesso mais Estudo de Gil (1978) também verifica a “facilitado” dos serviços sociais às famílias ausência do pai em cerca de 50% de sua amos- mais pobres. baixa renda. que. 1994 . 40.4 82.8 38.0% das famílias a criança vive somente com res e camadas de baixa renda.66 N = 437 N = 169 N = 113 N = 228 N = 272 N = 239 N = 171 Fonte: Cramis de Campinas. e em cerca de 30. São José do Rio Preto e Sorocaba.2 40.6 61. 40. a mãe.7 81.7 N = 419 N = 167 N = 106 N = 215 N = 269 N = 228 N = 160 Número Total de Crianças Agredidas 891 323 241 422 541 363 416 N = 450 N = 169 N = 111 N = 228 N = 270 N = 238 N = 172 Pais que Residem com a Criança Pai e Mãe 47.1 48. mais ça de ambos os pais. verificou-se análises não cotejarem as questões culturais. Bauru. dos poderes paralelos). não há contradição à mercê de serem notificadas. porém se as Quanto à composição familiar.0% a 50. As famílias de maior Portanto. Seria temente adequadas à complexidade do tema.9 N = 268 N = 119 N = 49 N = 183 N = 168 N = 177 N = 21 Presença de 2 ou Mais Filhos 79. QUADRO 1. S.6 80.1 83.4 38.8 83. ao utiliza- no fato de as “famílias pobres”.1 41. carece de pesquisas com metodologias suficien- estresse e frustrações que a miséria traz. por serem mais rem serviços privados de atendimento médico. “pagam” também casos registrados.2 12. Por outro lado.8 46. até ingênuo descartar tais fatos. Logo.9 38.Deslandes. 1988-1992..0% a uma vez com prejuízos para as classes popula.7 82. dados recentes para o Brasil tes e variadas intervenções nas suas vidas apontam para o aumento de famílias chefiadas privadas (do poder público. 10 (supl. 1988-1992 C R A M I Características Campinas Botucatu Itapira Piracicaba Bauru São José Sorocaba Familiares Renda Familiar Faixa de 1 a 3 SMs 71.3 31. em todos os Cramis. corre-se o risco chegar a famílias investigadas não contam com a presen- conclusões eminentemente ideológicas. este perfil de separações conjugais poder aquisitivo geralmente estão muito menos também indica um processo agravante da 180 Cad. Na cos.0% das psicológicas e sociais. 1): 177-187. numerosas. Rio de Janeiro. este campo de discussões ainda contudo. pois. inclusive os socio-econômi.3 37. a análise atual pela discrição. pois essas convivem com constan. 61.

6 41.7 40. Tal observação confirma os estudos nacionais gadas foi possível. que a guma espécie de drogadição. recai sobre o comportamento do agressor. masculino como alvo das práticas abusivas aponta que.0 38..5 49.4 33..1 N = 447 N = 165 N = 109 N = 227 N = 261 N = 239 N = 169 Sexo Masculino 51. Contudo. agressão física desempenha papel central na O primogênito é a vítima preferencial na educação dos filhos.3 32. Saúde Públ.5 51. uma alta foram.2 43. porém. associado à perpetração dos maus-tratos (Justice São vários os estudos que buscam compre.6 80. através da história de aten.1 41. 1976.6 77.0 31. 1985). No presente As faixas etárias das crianças vitimizadas estudo. porém. como vítimas mais freqüentes da vio- Percebeu-se que a maioria das justificativas lência doméstica (Gil. ça/adolescente abusada enfatiza a escolha.8 30.1 0a6 41.7 76.9 50.8 51. A sutil diferença observada entre os sexos é mento rebelde e a necessidade de educá-las.8 76. 1994 181 . Botucatu. também é referendada na 2).2 76. Justice & Justice.6 47.2 31.2 10 a 14 27. 1976). especial. percebe-se que esta ocupa um figura do pai. QUADRO 2.3 Feminino 48. ainda. podendo o mesmo ainda estar percentual muito elevado. Violência Doméstica situação de pobreza relacionado à falta da de 0-6 anos. A drogadição.3 53. maus-tratos. maioria dos casos em todos os Cramis (Quadro mente o alcoolismo. analisando casos de maus-tratos.1 34. a (Gelles. Ruiz. Bauru. ainda. 1): 177-187. Oates et al. alvo dos maus-tratos. 45% das crianças atendidas em todos os Cramis. que inconsciente.1 26. As explicações faixa de 10-14 anos é alvo significativo dos que apontam a própria criança como “respo.1 50. A literatura sobre as características da crian- literatura como um importante fator desencade. 1988 a 1992 Características C R A M I da Criança/Adolescente Campinas Botucatu Itapira Piracicaba Bauru São José Sorocaba Vitimizado Faixa Etária 5a9 35. Cramis apresentados sugerem.4 30.7 46. Rio de Janeiro. 1978.2 48. São José do Rio Preto e Sorocaba. Características das Crianças/Adolescentes Vitimizadas Atendidas nos Cramis. sobretudo as de 0-6 anos e de familiares para explicar o abuso cometido. os dados dos enfatizando-se o envolvimento deste com al. Em menos da metade das famílias investi. Piracicaba. de cerca de 41% a associado à violência doméstica. 6-9 anos. Cad.0 36. Esta criança/adolescente seria eleita por suas características pessoais ou A Criança e o Adolescente Vitimizados a ela atribuídas por seus pais (Giovannoni & Becerra. que aparecendo com menor freqüência a explicação concluem que o sexo não é em si um fator de “distúrbios comportamentais” da criança.6 N = 394 N = 167 N = 111 N = 228 N = 272 N = 239 N = 170 Primogênito 43.5 41. 1992).1 49. & Justice. encon- ender as possíveis explicações para o abuso. nas famílias onde acontecem.9 48. a de 5-9 anos e a tendência da prática abusiva extensiva a mais de 10-14 anos. Monteiro. Itapira. 1984). Entretanto. 1982.5 50.5 32. verificou-se. e internacionais sobre o tema. 1979).4 80. nsável” pelo abuso indicam o seu comporta.5 33.5 39.9 49. 1988 a 1992.1 44. tram um maior número de crianças do sexo Guerra (1985). 10 (supl. ainda ante dos maus-tratos (Giovannoni & Becerra.1 32. separando-se a faixa de um dos filhos da família. recuperar os motivos alegados pelos crianças menores. mais freqüentemente.7 N = 452 N = 169 N = 113 N = 228 N = 268 N = 239 N = 172 Posição Filho biológico 77.9 42. Outros estudos. também encontrada por alguns autores.5 48.4 N = 398 N = 157 N = 99 N = 210 N = 256 N = 229 N = 152 Fonte: Cramis de Campinas.7 37. de um filho específico para 1982. que apontam as dimento.

4 41. dos maus-tratos indica.7 32. pois esta se vê obrigada.4 82. 1): 177-187. 1980). presente em 31% a 48% dos atendimentos nos Quando o agressor é a mãe. observa-se que a diferentes Cramis (Quadro 3).6 83. Itapira. 1988-1992 Características C R A M I do Agente Agressor Campinas Botucatu Itapira Piracicaba Bauru São José Sorocaba Agressor Mãe 42.9 70. entre outros) como fatores que podem por ter filhos pequenos ou por determinação do levar ao estresse e à frustração pessoal. Azevedo & e a convivência doméstica. podem propiciar a prática culturalmente o manejo das decisões cotidianas abusiva (Justice & Justice. Botucatu.0 82. afirma que.9 15. lho (extensa jornada..3 74.Deslandes.5 77. estando maioria (sempre mais de 50%) está empregada. tempo passa junto aos filhos.9 29. Meyer.6 35.4 58.5 83. ção do filho abusado é que a maioria destes quando também desejaria para si outros hori- (cerca de 77% a 80%) é filho biológico de seu zontes de realização pessoal. a de maus-tratos praticados foi a mãe. a se restringir à “vida doméstica”. é aquela que mais responsáveis pela frustração e pelo estresse. por sua vez. 1985.1 56. via de regra. Outra observação importante quanto à situa.3 60. companheiro. o pai se configura O Agente Agressor como agressor mais freqüente. Ruiz.9 45.7 N = 86 N = 40 N = 18 N = 27 N = 44 N = 70 N = 30 Mãe Empregada 45.9 34. A mãe.1 25.8 36. Saúde Públ.4 Pai 27.7 19.6 16.3 82.0 26.0 42. F. fatores.0 N = 137 N = 43 N = 31 N = 78 N = 103 N = 71 N = 50 * Pai + mãe + ambos + outros agressor associado a um dos pais.0 Pai Não Trabalha 22. 1988-1992..5 8. QUADRO 3. Rio de Janeiro. Caracterização do Agente Agressor das Famílias Atendidas pelos Cramis.1 22. cabendo-lhe que. merecendo ser dis.5 11. 10 (supl. 1994 .7 40. 1979. 1976.8 28.0 Mãe Não Trabalha** 48.1 52. Guerra. a permanên. como se viu no estudo qualitativo. Piracicaba. entre muitos outros Gil.5 78.3 72. Este destaque da mãe enquanto agressor é Grande parte dos estudos sobre a causalidade referendado por muitos estudos (Gelles.5 48.6 20. Por outro lado.8 31. ** Desempregada ou do lar Fonte: Cramis de Campinas.2 55. 182 Cad. rígida.3 56. quando o agressor é o pai.6 N = 366 N = 161 N = 86 N = 204 N = 232 N = 231 N = 140 Inserção no Mercado de Trabalho Pai Empregado 73. maioria é “do lar” ou está desempregada. São José do Rio Preto e Sorocaba.7 40. Bauru. insalubridade. uma vez igualado o tempo de per- manência junto aos filhos. o desemprego e a baixa renda como cutido. O agressor mais freqüente no conjunto global observa-se que. Quanto à inserção no mercado de trabalho. 1989. Há ainda que se discutir as condições de traba- cia no lar muitas vezes acarreta sérias frustra. disciplina ções para a mulher. 1988). 1978. Condon (1986) agente agressor.4 84.4 Pais* 77. Straus et al.7 48. S.0 46.5 41.

Rio de Janeiro.1 1.1 29.6 3. Vale ressaltar a baixa participação da escola ções limítrofes entre pobreza e maus-tratos. Tipos de Maus-Tratos Praticados Contra Crianças/Adolescentes Atendidas pelos Cramis.6 6.9 Abuso Sexual 7. Ou seja.3%) foi no município de São José do reforça a punição corporal como medida educa.8 24.9 45. o tipo Os principais notificantes dos abusos nos de abuso predominante entre os notificados foi diferentes Cramis foram a própria família.9 33. um A desinformação. anônimos e a comunidade.2 14.4 19.2 3. 1994 183 . O percentual dos casos de abuso sexual. 10 (supl.2 9. Violência Doméstica Tipos de Maus-tratos Praticados Caracterização da Atuação dos Cramis Como pode ser verificado no Quadro 4. notificante privilegiado (Quadro 5).0 9.6 4.5 31. uma vez que a negligência se define pela notificantes). Bauru. Cad. o receio de represálias apresenta-se baixo se comparado às outras e o não-reconhecimento do papel do professor modalidades de violência. 1991).5 21. o que sugere a necessidade de significância qualitativa. o único Crami que funciona dentro tiva.8 0. como já observado.9 Abuso Psicológico 16. o medo de se envolver em dos menos notificados em todos os Cramis. 1988-1992.7 2.7 N = 440 N = 167 N = 83 N = 217 N = 248 N = 235 N = 154 Fonte: Cramis de Campinas. Itapira.4 6. Ou (aparecendo entre 4% e 10% no conjunto de seja.1 Outros Tipos 9. cia. o físico. anos de que tenham conhecimento (MS. a identificação dos casos e QUADRO 4. dade de notificação de qualquer abuso (confir- culta um julgamento mais preciso entre prática mado ou suspeito) contra menores de até 17 abusiva e impossibilidade de prover a atenção. visando o reconhecimento de seu papel cerca as questões acerca da sexualidade. ao que tudo indica. Botucatu.4 1.9 + de 1 Tipo Associado ? 38. Piracicaba. uma instituição cujos profissionais omissão no trato dos cuidados e necessidades são apontados pelo Estatuto da Criança e do da criança. A participação dos Esta preponderância do abuso físico muito serviços de saúde nas notificações variou em provavelmente associa-se.5 Negligência/Abandono 23.6 7. de uma unidade de saúde.9 16. torno de 7% a 24%. Rio Preto. está associada a situa. 1): 177-187. Saúde Públ.0 25. São José do Rio Preto e Sorocaba.3 1. O maior percentual obser- a um modelo cultural arraigado que justifica e vado (24.. diante do problema.0 35.2 48. a reconhecida ausência de condições Adolescente como em situação de obrigatorie- econômicas dessas famílias muitas vezes difi. seguido de negligência/abandono.7 19.8 0.2 19.9 32.5 1. a escassa programas de capacitação para estes profis- notificação está associada ao tabu cultural que sionais.2 45.4 3.5 5. 1988-1992 C R A M I Tipo de Maus-Tratos Praticados Campinas Botucatu Itapira Piracicaba Bauru São José Sorocaba Abuso Físico 43. a pouca neste problema são fatores que colaboram para significância do dado quantitativo revela sua este quadro. sendo ela própria um A relevância da percentagem para a negligên.1 26.8 2. No entanto. “conflitos particulares”.

no que diz tos posteriores. A grande maioria mesmo” agiliza o trabalho e o torna mais das notificações.6 9.0 3. enfatizando a positivi- Pode-se inferir. 1991). Piracicaba. são destinados orientação. associada à observação ações vê-se restringido. orientações com os agentes da própria insti- dimento emergencial. O que se deduz é que. isto é.8 32. S. ser quando a severidade da agressão beira Os procedimentos mais freqüentes dos Cramis extremos. F. 1): 177-187.2 11.5 1. na orientação falava-se sobre assuntos ao buscar envolver outros recursos comunitários que desconheciam. A análise qualitativa Todos os Cramis envolveram outras institui. por limita.5 13.8 15. como características do (creches. Os atendimen.1 20. via de regra.0 10.8 2.Deslandes.5 24.3 15. São José do Rio Preto e Sorocaba. é a sua própria acompanhamento das famílias. QUADRO 5.3 10. indica que a maior base dos proce- ções infra-estruturais do serviço. logo na primeira de uma rede de atuação em maus-tratos envol- semana. vendo outros serviços. 1988-1992.3 26. 1988-1992 Características C R A M I da Atuação Campinas Botucatu Itapira Piracicaba Bauru São José Sorocaba dos Cramis Notificante Família 21.7 6.3 1. referente a este aspecto trouxe uma nova di- ções no atendimento às famílias (variando entre mensão às características do serviço. realizando.7 Comunidade 17. entre outros). escolas. Botucatu. que a orientação do dade deste tipo de ação.7 Serviços de Saúde 15. o encaminhamento aos serviços adequados básica. Saúde Públ. a maioria das famílias convive maioria dos casos de maus-tratos contra crian.4 23.3 26. dimentos do serviço dos Cramis. teve um auto-suficiente diante do frágil aparelhamento pronto atendimento.6 2. Este fato reforça a tese de que a além do abuso.8 21.8 23. Esta opção por “contar consigo aos casos “mais complexos”. Itapira.9 N = 451 N = 167 N = 111 N = 226 N = 260 N = 230 N = 168 Fonte: Cramis de Campinas.4 27. geralmente de natureza ças e adolescentes que chegam às instituições sócio-econômica.7 2.7 Anônimo 25.1 18. Rio de Janeiro.3 19.6 3.4 1. que seriam necessários para o respeito ao agente agressor.7 Outras Instituições 15. Ao entre- 58% a 82% dos casos). 1994 .1 8. em relação à criança foram as conversas e Constatou-se que os Cramis prestam um aten.1 Própria Criança/ Adolescente 1.0 20. a não conflito familiar. portanto.5 23. em todos os Cramis.2 0.9 7. O número de comparação dos dados. com outros problemas. necessidade de afeto 184 Cad. Dessas instituições vistar as famílias atendidas. Bauru.8 17.4 19. sobretudo.3 24. 10 (supl. Notificantes dos Casos Atendidos pelos Cramis. A de uma a cinco ações por caso.9 20.2 1. agravando a situação de de saúde e das escolas não é reportada. cesta crescimento da criança. de campo.0 15. entre 24% e 42% foram serviços de nificativa a valorização que estas concederam à saúde (na sua maioria hospitais). tuição e os recursos dos serviços de saúde..7 10.4 17.8 0. foi muito sig- envolvidas. serviços de saúde. (Assis.7 35. orientação dos Cramis.2 Escola 4. Segundo os entrevis- Crami tem um papel mobilizador fundamental tados.

adolescente vitimizada e o agente agressor devido à ausência de estabilidade financeira permaneceram junto à sua família original após destas instituições. em contrapartida. o que leva a repensar visões de convivência familiar a triagens dos casos que terão maior prioridade. 1): 177-187. através de sua ex- damente atendida e apoiada (Olds. das principais características das famílias que Observou-se também um baixo percentual de vivenciam os maus-tratos. na maioria dos Cramis. tais como: demanda muito grande de aten- presentes e futuras dos maus-tratos. do serviço ou foi suficientemente eficaz ou não Quanto à atuação propriamente dita. a criança/ grande rotatividade dos agentes dos Cramis. sendo a maioria o me- lhor ambiente para a criança. agente agressor como princípio para a atuação lidade nos municípios em que atua. Por outro lado. como espaço das relações primárias hecimento da população demandante. na grande maioria dos tendo o acompanhamento das famílias. Violência Doméstica nas relações entre pais e filhos. ainda que precária. dada a existência de uma rede de notifi. não sendo possível comprovar se dos Cramis. desde que devi. levando-os dimentos para poucos profissionais. vítimas e abusadores. isto é. de desagregação familiar. O contato com as tos. consolidadas e criando um clima de apoio. A análise que permite à criança crescer e se desenvolver dos casos atendidos pelos Cramis ao longo dos física. 1990). últimos 4 anos pode ser um primeiro passo. É periência. A mais básica para este tipo de ação é o con- ção. contanto que devidamen- papel que estes desempenham em mobilizar e te atendida. conseqüências rais. como já tem sido feito em pensar como atuar no problema da violência outros trabalhos (Minayo. assim como novamente reportado. Contudo. algumas desenvolveu mecanismos adequados para captar “lições” podem ser aprendidas através da análi- as reincidências. acredita-se vivenciam a violência doméstica não devem ser que.. Rio de Janeiro. a experiência dos Cramis cada mês. sobretudo por motivos infra-estrutu. que se assume doméstica. em todos os Cramis. o aumento considerável de novas notificações a Em segundo lugar. públicos (especialmente os de saúde) em rela. Saúde Públ. O terceiro ponto é a constatação da complexi- ção à importância da prevenção dos maus-tra. emocional e espiritualmente. e não somente à profissionais de outras instituições. A ação dos constitui-se apenas em um paliativo para o Cramis aponta para uma atuação possível em problema e pode. vamente as premissas que têm orientado as atuações mais consolidadas no país e no ex- terior: a família deve ser preservada e tratada CONCLUSÕES como alvo de atenção. A primeira é que as famílias que nenhuma das hipóteses. O agente agressor tam- bilidades de que um caso reincidente seja bém deve ser envolvido na atuação. continua a ser a principal referência conscientizar outros profissionais dos serviços afetiva para aquela criança ou adolescente. evasão e atendimentos. Conclui-se que a atenção Os depoimentos das famílias atendidas e dos deve ser integral à família. dade da violência doméstica. A avaliação dos Cramis. aqui o termo família dentro de uma conceitua. vistas como dicotomicamente divididas entre cação. na sua maioria cerca de 6 meses depois novos casos como a atuação nos casos já de encerrada a atuação. traz várias contribuições para se importante lembrar. para esta compreensão acerca família nuclear. ser um fator que a família é tida como alvo da atenção. bem como criança e ao adolescente abusados. A família que experi- Outra contribuição relevante dos Cramis é o menta os maus-tratos. A ausência desta reincidências notificadas ( de 10% a 24% dos informação compromete tanto a identificação de casos). e falta de um treinamento a atuação do serviço (em cerca de 75% a 88% em serviço e de uma supervisão do atendimento dos atendimentos). 1994 185 . eles também possuem famílias maltratantes mostra uma série de limitações. questões distintas que reforçam as condições Cad. Especula-se que a ação conhecidos. 10 (supl. indicam que o experiência deste adverte que a criminalização da família ou do serviço conquistou uma grande credibi. não poden. 1993). prejudicando outros atendimentos e comprome- Pode-se observar que. os demais familiares. do o mesmo ser confundido apenas com a ainda que básico. Estes fatos reforçam positi. aumentam as proba.

F. que ações no sistema público de saúde. 186 Cad. é impossível empreender uma atuação que redunde em algum impacto. a fim de estabelecer uma serviços básicos. posto de mas psicológicos e afetivos. alcoolismo. trabalhar junto com os serviços da vizinhan- condutas violentas. comunidade. falta de saúde. Por fim. predisponentes às relações familiares violentas: c. bem como o perfil de atuação dos sobretudo para a viabilidade da atuação junto às serviços. A parce. é uma medida de absoluta neces- sidade na atuação junto às famílias que viven. entre outros —. valores culturais que justifiquem d. aos MausTratos na Infância (Cramis) no médicos. 1994 . mais que um princípio. F. aliada ao envolvimento com a 1): 177-187. associações). ria entre os equipamentos do Estado e da Saúde Públ. não criminalizar a família e considerar como pessoas que aí convivem — estes são alguns essencial o investimento na atenção ao am- dos dados concretos no dia-a-dia de muitas biente familiar. 1): 177-187. Rio de Janeiro. problemas e necessidades envolvidos na questão Buscou-se um diálogo teórico-metodológico da violência doméstica. proble. famílias envolvidas com os maus-tratos e de. 1994. os processos e as o fato de os distintos tipos de abuso terem representações presentes na atuação dos características diferenciadas e necessitarem de Cramis. ação. ça onde a família vive (escola. A atuação interinstitucio. ainda atendidas no período de 1988 a 1992. portanto. indica que. Em resumo. médio e longo prazos. Saúde da contribuição da experiência dos Cramis para a Criança. cimento. S. envolver os vários serviços e instituições. fa. Este artigo efetua uma síntese parcial do ciam a violência doméstica. os pontos mais sugestivos da Violência Contra a Criança. ação de vigilância das reincidências. a experiência dos Cramis alerta para focalizando a estrutura. da consolidação RESUMO de uma atuação em rede que integre vários equipamentos sociais. além da caracterização das famílias um trato adequado a estas peculiaridades.000 casos atendidos por estas instituições. ter na visitação domiciliar uma estratégia de desemprego. criando uma rede de atuação. A atuação dos Centros Regionais de Atenção equipe multiprofissional — com psicólogos. um único serviço isoladamente. a e desenvolvimento da criança e do adoles- curto. Cad. Por outro lado. DESLANDES. escolas. Saúde Públ. conflitos conjugais. a vivência direta como o mais conveniente para o crescimento com os maus-tratos e suas conseqüências.. Saúde do Adolescente discussão nos serviços de saúde seriam os seguintes: a. estudo “Prevenir e Proteger: Análise de um Outro aspecto importante é a atuação de uma serviço de atenção à criança vítima de equipe que conjugue a experiência de vários violência doméstica”. habi. b. nos 9 anos de trabalho e mais de experiência dos Cramis à implementação de 6. Há a necessidade. Apresenta-se como resultado o perfil dessas A análise da atuação dos Cramis aponta famílias. Atenção a Crianças e nal. tações condizentes com as necessidades das e. para cente. 10 (supl. assistentes sociais. 10 (suplemento sociedade civil. como creches. discute-se a potencial contribuição da monstra. entre as abordagens quantitativa e qualitativa. A pesquisa analisou a profissionais ligados a diferentes áreas. é realmente possível interceder no problema. é uma necessidade Adolescentes Vítimas de Violência diante da complexidade do problema. Rio de Janeiro. tomando-o como o espaço destas famílias. atendimento a crianças e adolescentes (e vorece uma atenção mais completa aos distintos familiares) vítimas da violência intrafamiliar. Doméstica: Análise de um Serviço. tomar a família como o alvo da atuação.Deslandes. condições de pobreza ou empobre. Palavras-Chave: Violência Doméstica. S. Diante dos dados analisados. que regido por um princípio geral..

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