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Artigo Revisão

Compreendendo a violência doméstica a partir das
categorias gênero e geração

Understanding domestic violence from the categories gender and generation

Comprendiendo la violencia doméstica a partir de las categorías género y generación

Nadielene Pereira Gomes1, Normélia Maria Freire Diniz2, Anne Jacob de Souza
Araújo3, Tâmara Maria de Freitas Coelho3
RESUMO
Trata-se de uma revisão de literatura realizada a partir de 20 textos, entre artigos, livros, dissertações e teses entre 1996 a 2007 com o objetivo
de compreender como as categorias gênero e geração influenciam na construção da violência doméstica contra a mulher. Foram estabelecidas
duas categorias: violência de gênero e violência intergeracional. A análise dos textos indicou que o núcleo familiar, permeado pela visão
patriarcal, configura-se enquanto um espaço de construção da violência de gênero e da violência intergeracional. Faz-se, portanto, necessária
a re-estruturação da família com base em relações mais simétricas entre homens e mulheres e entre pais e filhos.
Descritores: Violência doméstica; Violência contra a mulher; Identidade de gênero; Relações familiares

ABSTRACT
This article is a literature review of 20 bibliographic sources, among them articles, books and thesis from 1996 to 2007. Regarding articles,
Scielo represented the database consulted most often. The objective consisted of understanding how the categories ‘gender’ and ‘generation’
influence the occurrence of domestic violence against women. Two categories had been established about the topic: gender-based violence
and intergenerational-based violence. The study showed that the familiar nucleus, in the patriarchal view, is configured as a space prone to
occurrences of gender-based violence and intergenerational-based violence. Therefore, it is necessary to reorganize the family, based on more
symmetrical relations between men and women, parents and children.
Keywords: Domestic violence; Violence against women; Gender identity; Familiar relations

RESUMEN
El presente estudio trata de una revisión de literatura realizada a partir de 20 textos, entre artículos, libros, tesis de Maestria y de Doctorado
existentes entre 1996 al 2007 con el objetivo de comprender cómo las categorías género y generación influyen en la construcción de la
violencia doméstica contra la mujer. Fueron establecidas dos categorías: violencia de género y violencia intergeneracional. El análisis de los
textos permitió concluir que el núcleo familiar, impregnado por una visión patriarcal, se configura como un espacio de construcción de la
violencia de género y de la violencia intergeneracional. Se hace, por tanto, necesaria la reestructuración de la familia teniendo como base
relaciones más simétricas entre hombres y mujeres y entre padres e hijos.
Descriptores: Violencia doméstica; Violencia contra la mujer; Identidad de género; Relaciones familiares.

1
Professora Assistente da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). Petrolina (PE), Brasil. Doutoranda pela Escola de Enfermagem da
Universidade Federal da Bahia (EEUFBA); Integrante do Grupo de Pesquisa: Violência, Saúde e Qualidade de Vida e do Grupo de Estudos sobre Saúde
da Mulher (GEM) da EEUFBA. Salvador (BA), Brasil.
2
Doutora, Professora Adjunta da EEUFBA; Líder do Grupo de Pesquisa: Violência, saúde e qualidade de vida e Pesquisadora do Grupo de Estudos sobre
Saúde da Mulher (GEM). Salvador (BA), Brasil.
3
Acadêmicas de enfermagem pela UNIVASF – Juazeiro (BA), Brasil.

Autor Correspondente: Nadirlene Pereira Gomes Artigo recebido em 12/07/2007 e aprovado em 13/09/2007
Jardim Vera Cruz, Q: 05, Lote 08, IAPI - Salvador - BA
Cep: 40360-590. E-mail: nadirlene.gomes@univasf.edu.br
Acta Paul Enferm 2007;20(4):504-8.

teses e dissertações divulgadas entre 1996 e 2007. Gênero é um conceito das Ciências Sociais que surge considera a violência no âmbito doméstico como aquela enquanto referencial teórico para análise e compreensão “compreendida como espaço de convívio permanente da desigualdade entre o que é atribuído à mulher e ao de pessoas. . inclusive. Vários estudos confirmam esta percepção. atribuindo harmonia e proteção de seus membros. processo civilizatório. os papéis de gênero nos são esporadicamente agregadas”. considerando que o núcleo familiar Nesse modelo de família. este estudo teve como objetivo compreender como as legitimando. constituindo-se enquanto elemento nas Bases de Dados Scielo. a mulher é destituída de autonomia e do direito de decidir. mas também pela violência sofrida pelos sofreram violência desde a infância. A partir da análise. na qual o agressor conviva ou comportamento de homens e mulheres. Por sua vez. por qualquer coisa de errado que acontece(7). Esses papéis sociais são. 5º. é de fundamental importância com- idealizada. passividade. manifestando-se de diversas formas(2-3). visa o outro categorias gênero e/ou geração. mas atinge a humanidade como um elegeram-se os seguintes descritores: violência doméstica. de modo que aparentados. em suas formas destrutivas. na homens tendem a reproduzi-la nas relações sociais. presenciando a filhos(8-9). ato de violência de gênero que resulte em qualquer ação a partir das quais apresentamos a síntese dos textos física. inclusive sobre o seu próprio corpo(12-14). devido a sua Nesta perspectiva. reforçados por culturas patriarcais reproduzidas especial nas relações com suas companheiras e filhos(6). a família consiste no micro-sistema no sociedade também delegou à mulher o cuidado com o qual cada membro tem uma posição e um papel socialmente marido. VIOLÊNCIA DE GÊNERO No que tange às denominações violência doméstica e violência familiar. METODOLOGIA A introdução da categoria gênero foi fundamental para perceber as relações de violência no espaço familiar. a todas as classes sociais. gênero valorizam o homem em detrimento da mulher. A Lei ainda faz referência à A família moderna reproduz a desigualdade social violência conjugal como aquela que se dá “em qualquer existente no que se refere às expectativas geradas sobre o relação íntima de afeto. estudo à mulher-mãe a responsabilidade. até mesmo. por afinidade ou não percebemos sua produção e reprodução social (7). na família(11). vem se constituindo em cenários de relações preender que a construção da violência no âmbito violentas. foram construídas duas categorias A violência direcionada à mulher consiste em todo temáticas: Violência de gênero e Violência intergeracional. relação familiar. a Lei Maria da Penha. Para a busca bibliográfica para destruí-lo. historicamente. à virilidade. gênero.20(4):504-8. tenha convivido com a ofendida. a inferioridade da mulher. Todavia. sofrendo violência espaço público. por ser o primeiro sistema que o condição biológica de engravidar e amamentar. violência contra a mulher. não só pela educação. ou se consideram. responsabilizada definido. configurando-se enquanto uma imagem formada por indivíduos que são. ensinados como próprios da condição de ser homem como aquela “compreendida como a comunidade ou mulher. todo (1) . o lar e os filhos sendo. coragem e agressividade(7-10). física. idealizada do masculino e do feminino. A vivência de violência familiar interfere na doméstico não tem relação com as diferenças biológicas construção da identidade masculina. a individuo interage. como vez que esta categoria possibilita compreender os papéis Acta Paul Enferm 2007. diferentemente da família Entretanto. incluindo a ameaça(4). Nesta perspectiva. a papéis como provedor e chefe da casa. independente de esperam-se das mulheres delicadeza. Assim sendo.Compreendendo a violência doméstica a partir das categorias gênero e geração 505 INTRODUÇÃO critério de inclusão. sociedades. Percebe-se que a família vivida. por um lado. no seu Art. Este fenômeno é uma herança comum. por vontade expressa”. Sendo assim. A idéia da família remete a um espaço de afetividade. coabitação”(5). um fenômeno intrínseco ao livros. a dominação do homem e categorias gênero e geração influenciam na construção por outro. E. Neste sentido. e no âmbito da família. o que caracteriza a violência intergeracional. Lilacs e Banco de Teses da estrutural que participa da própria organização das CAPES. mostra que homens que violentam suas companheiras alimentação. uma Para essa revisão bibliográfica adotou-se. subordinação e obediência. deste fenômeno. textos que versavam sobre a temática violência doméstica contra a mulher na perspectiva das A violência. com ou sem vínculo familiar. haja vista que os entre homens e mulheres. sociedades e. os atributos e os papéis de encontra-se permeado pelas relações desiguais de poder. em realidade. sensibilidade. os homens estão relacionados ao agressão entre os pais e. portanto. as formas de violência contra a mulher. unidos por laços naturais. sexual ou psicológica. Dentre analisados. que reflete sua organização estrutural e funcional. culturas e Foram selecionados 20 textos dentre os quais: artigos. encontra-se a violência doméstica. inclusive as homem.

casas-abrigo intervenções de poder por parte de outras figuras de e os centros de referência de atenção à mulher em situação autoridade(8. se dado pela busca da igualdade entre homens e mulheres.506 Gomes NP. percebe-se uma evolução da visão da sociedade Essa imposição normativa constrói relações familiares referente à participação da mulher no mercado de permeadas pelo medo. a família era considerada de violência. escola e igreja. como deverão atuar no sentido de transformar as relações. passam a ter dupla jornada de trabalho(15). exigindo respostas políticas para a estrutura familiar. seja no papel de esposo. pais que utilizam a punição como medida disciplinar Chama-se atenção.12. escolaridade. pais que exercem abuso do poder disciplinar Justiça. Pode-se falar. as mulheres continuam envolvidas politicamente. de família poderá desencadear ocupando posições sociais antes exclusivas do homem. um espaço sagrado. e Tornam-se necessárias políticas públicas transversais à desvinculada das transformações políticas e econômicas.16). Nota-se. também em espaços da mulher na família e a condição feminina na sociedade. como também de gênero. tais como família. idade. Neste sentido. que essa situação. atendia aos interesses de lucro do tendem a reproduzir história de violência vivenciada ainda processo capitalista de industrialização. esta realizados pelas feministas possibilitou dar visibilidade à sempre esteve socialmente invisível por conta da violência doméstica enquanto um fenômeno autoridade outorgada ao masculino e cristalizada na multifacetado. da violência intergeracional. não só de gênero. conflitos(8). por modelos de relações familiares. uma vez que. homens e mulheres. tido como autoridade máxima igualdade de direitos entre homens e mulheres e se no núcleo familiar. Assim sendo. como também as crianças. A vitimação responsabilidades do trabalho doméstico. Contudo. doméstico. da Saúde. Essa organização política de mulheres exige obedecem ao homem. homens e mulheres isso. de modo que qualquer desvio trabalho. as mulheres continuam assumindo as interpessoais assimétricas e hierárquicas(18). perpetradores de relações hierárquicas desiguais. opressivos. incorporando a idéia de que os Direitos das Mulheres Só no final da década de 60 do século XX. a naturalização do direito de doméstica pode-se mencionar a implantação de punir a mulher e os filhos. . a questionar os papéis que VIOLÊNCIA INTERGERACIONAL lhes são atribuídos pela condição de serem mulheres. acima do poder do Estado. portanto. as relações interpessoais de violência A discussão de gênero. Diniz NMF. violam os direitos essenciais das crianças. a depender da configurava enquanto um fator de emponderamento forma como estrutura o processo de socialização e econômico. Hoje. Araújo AJS. a partir de são Direitos Humanos(17). articuladas com os Ministérios da Todavia. da Educação.20(4):504-8. e sim por questões político-econômicas(16). esta situação se desenvolvimento do indivíduo. de modo que a população feminina vem dos padrões naturalizados. Coelho TMF. seja no anos 70. para o fato de que a mostram para seus filhos que a violência consiste numa participação da mulher no mercado de trabalho não tenha forma apropriada para resolver seus conflitos(20). o papel tradicional incorporação da dimensão gênero. nas quais as mulheres. por si educação. A maioria dos casos de violência contra Todavia. também. religião e grau de para o enfrentamento desta problemática. Estas e coercivo. na sua maioria desqualificados. Embora a saída da mulher para o espaço público não Enquanto instituição social básica que determina o tenha se dado por uma visão de gênero. como não foram aprendidos outros a mão-de-obra feminina considerada disponível e. do Planejamento. uma Acta Paul Enferm 2007. Acrescenta-se a necessidade de estudos sobre as relações familiares. papel de pai. introduzida por estudos estivessem presentes no cotidiano da relação familiar. embora ocupem espaços de trabalho no mundo crianças e adolescentes é marcada por relações do público. sem status e As relações familiares são permeadas por relações de responsáveis pelo seu enclausuramento no âmbito poder. a família. problemática. Desta forma. a partir dos socialmente legitimado. é que a violência doméstica passa a ter visibilidade como Em busca por espaços de articulação em defesa de um problema social e de saúde. então. quando crianças ou adolescentes. uma vez que física ocorre no processo de disciplinamento(19). tornando-se uma seus direitos e maior comprometimento social e categoria política de reivindicação feminista que não aperfeiçoamento das políticas públicas na perspectiva de respeita fronteira. classe social. dentre as quais as propriedade masculina. sociais. pode ao mesmo tempo ser fator protetor ou só. ambos considerados de eterna instituições de atenção específica. As mulheres passam. não é suficiente para se alcançar a igualdade entre de risco(21). afastava as possibilidades de Delegacias de Proteção às Mulheres (DPMs). portanto. Embora. mais barata. Dentre os benefícios significativos no que Ainda que a família não cumprisse seu papel de se refere a atenção à mulher em situação de violência sociabilidade e afetividade. o poder do homem é constitui através do Movimento de Mulheres. perspectiva de gênero. raça/etnia. socialmente pré-definidos para homens e mulheres.

58(2): 176-9. Gebara I. 2000. Rompendo o silêncio: uma fenomenologia mobilização por parte das políticas públicas. entre pais e filhos que desconstruam Rio Grande do Sul. Ribas FF. e que se reconhece este fenômeno município de Campinas-SP [tese]. faz presente no Estatuto da Criança e do Adolescente. Brasília (DF) 2006.datasus. Gomes NP.pe/spanish/260ameri/oitreg/activid/ Acta Paul Enferm 2007. Cad Saúde Pública = que emerge da dinâmica familiar. . como também para toda a família. 2005. União. Gomes NP. justificando. Seção 1:1. Todavia. [citado 2007 Mar 17]. Petrópolis: Vozes. Meneghel SN. Percebe-se. o que também se integral. a criança pode ser REFERÊNCIAS vítima de violência doméstica. implementadas constitui-se como uma limitação deste 14. Ministério da Saúde. educação e exclusão social: memória e representações da população em uma micro-região do da violência doméstica. Koller SH. Dispõe violência de gênero e da violência intergeracional. Salvador: Escola de simétricas entre homens e mulheres. para toda família que a compartilha. Enfermagem da Universidade Federal da Bahia. daí. Agora (Rio J). sobre a criação dos juizados de violência doméstica e familiar a violência doméstica contra a mulher constrói-se a partir contra a mulher e dá outras providências. do outro. Leis.org. Camargo M. Violência física contra crianças e adolescentes: comportamentos sociais. Silva significativas ofereçam novos modelos de interação e RCR. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Mulheres cuidando de mulheres: inter-relações baseados em relações mais simétricas entre um estudo sobre a Casa de Apoio Viva Maria. 8 ago. invisível de um olhar androcêntrico. Belo Horizonte. nega-se o direito garantido a mulher. et al. Camargo CL. A Discriminação de gênero entre os jovens [texto na trabalho. a violência nas relações vítimas e não vítimas de violência doméstica. que só a partir de estudos sobre 2006. Oliveira L. 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