Psicologia & Sociedade; 24 (2), 307-314, 2012

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER: REALIDADES E
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
DOMESTIC VIOLENCE AGAINST WOMEN: REALITIES AND SOCIAL
REPRESENTATIONS

Denire Holanda da Fonseca, Cristiane Galvão Ribeiro e Noêmia Soares Barbosa Leal
Centro Universitário de João Pessoa, João Pessoa, Brasil

RESUMO 
Este estudo buscou verificar representações sociais das mulheres que sofrem ou sofreram algum tipo de violência
de seus companheiros, buscando entender a subjetivação desse fenômeno, como também verificar os principais
prejuízos nas esferas sociais, psicológicas e ocupacionais dessas mulheres. 12 participantes responderam a entre-
vista semiestruturada, e foram feitas análises de conteúdo de Bardin (2002) e ancoradas na Teoria das Represen-
tações Sociais de Moscovici. Como resultado foi constatado que a maior prevalência é a violência psicológica,
causando danos emocionais a longo prazo, trazendo sérios prejuízos nas esferas do desenvolvimento e da saúde
psicológica da mulher. Verificou-se também que o ciclo de violência é alimentado pela tolerância e autoculpa e
pela má compreensão da mesma. Propõem-se outros estudos nesta esfera com finalidade de maior compreensão
do fenômeno da violência contra as mulheres. 
Palavras-chave: violência doméstica; mulheres; representações sociais.

ABSTRACT
The objective of this study is to verify the social representations of women who suffer or have suffered some
kind of violence from their partners, trying to considerate the subjectivity of this phenomenon, and also identify
the main harms in the social, psychological and occupational spheres of these women. Twelve participants have
answered to semi structured interviews, and a analysis of Bardin (2002) contents were made based in Theory
of Social Representation of Moscovici. As results, it was observed that most cases are counted in forms of
psychological violence -which cause emotional suffering in long term and bring serious damages in aspects of
self-development and psychological health of the victims. It was also noticed that the cycle of violence is fed by
tolerance and self-blame that the misunderstood of their situation implicate. It is proposed further studies in this
area with the purpose to understand better the phenomenon of violence against women.
Keywords: domestic violence; women; social representations.

Este estudo delineou-se com a finalidade de elaborado e partilhado por este grupo de pertença, cria
conhecer as Representações Sociais de mulheres ví- uma realidade prática e cotidiana. Faz-se necessário
timas de violência doméstica. Além disso, buscou-se conceber as mulheres vítimas de violência como sujeitos
compreender como o fenômeno é interiorizado e como sociais que carregam em si as características culturais do
a violência sofrida afeta e interfere em suas vidas nas gênero que, segundo Ribeiro e Coutinho (2011), é uma
esferas do convívio social, saúde psicológica, qualidade construção social, e tem colocado o homem numa situ-
de vida e ocupação profissional. ação de dominação sobre a mulher ao longo da história.
A Teoria das Representações Sociais é caracteri- A Organização Mundial de Saúde (OMS) divul-
zada como um conjunto de explicações, crenças e ideias gou em 2002 um relatório intitulado “Relatório Mundial
que permitem evocar um dado acontecimento, pessoa ou sobre Violência e Saúde”. Neste relatório, a violência
objeto. Essas representações são resultantes da interação é conceituada como “o uso intencional da força física
social, pelo que são comuns a um determinado grupo ou do poder, real ou ameaça, contra si próprio, contra
de indivíduos (Moscovici, 2003). É relevante conhecer outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade,
as representações sociais das mulheres vítimas de vio- que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em
lência doméstica e verificar como este conhecimento, lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvol-

307

associada a vários de um país. define os tipos de violência. configurando-se em fator que implicações ligadas ao fenômeno. 2001. fatos esses que demonstram que a violên- fatores. Cada uma Segundo o Banco Mundial (Ribeiro & Coutinho. A maioria das víti. também se encontram em maior risco de sofrer meio de conduta que a constranja. deixando marcas pro. tica geralmente ganha menos do que aquela que não gido contra uma mulher (Gadoni-Costa & Dell’Aglio. ansiedade. doenças sexualmente moral e psicológico. objetos. antes de tudo. multifacetado e intrans. vive em situação de violência.. na América Segundo estudo da Organização das Nações Uni. calúnia. delimitando o bem-estar. p. gritos. desvalorização. Dentre desrespeito. uma agredida no Brasil e mais de 2 milhões de mulheres são questão de violação dos direitos humanos. a ponto que resulte em dano emocional como a diminuição da de ter sido criada e sancionada uma lei visando a coibir autoestima. D. alcoolismo e abuso de outras ou a participar de relação sexual não desejada. determinismo e ganização Mundial de Saúde (OMS) considera assunto liberdade. túrbios gastrointestinais. 2011). “violência contra a mulher” é todo das mulheres. ocorre quando o agressor obriga a vítima. desestrutura o tecido social. De acordo A violência doméstica contra a mulher atinge re- com o autor. a violência doméstica atinge entre 25% a 50% das (ONU) de 2006. das sequelas orgânicas e emocionais que produz (Alves parente (Pequeno. baixa autoestima.. depressão. manter desordens alimentares. Ribeiro. saudável se ela sofre violência doméstica. H. desde a década de 80 que a Or- ação. 2001). estima-se que o custo 2010. Latina. S. Violência doméstica contra a mulher: realidades e representações sociais vimento ou privação” (Zuma. Em alguns países o percentual de mulheres que muitas vezes. imposições. ser dividida em três categorias: violência autoinfligida. enfim. Perseu Abramo. As estatísticas da Fundação dos casos. essa Lei apontou a criação de delega- transgressão dos valores morais. desprezo. Também pode estar atrelada a questões Os problemas ligados à saúde também emergem conceituais referentes à distinção entre: poder e co. A Violência física implica ferir transmissíveis. (Oliveira et al. 2). mas permanece coagida a um relacionamento baseado. diri. 2012). chutes. pela violência sofrida pelas mulheres dentro de suas pessoal e. Violência sexual. atuais e antigos. estresse pós-traumático. a saber: físico. perfurações. meno da violência doméstica contra a mulher. afirmam terem sido agredidas fisicamente por um levando a eventos cíclicos de violência. 2007). poder.340.Fonseca. por sua vez. sexual. sendo caracterizada por qualquer conduta atingindo a sociedade de uma maneira geral. no trabalho. N. caso da Lei nº 11. 152). que tende à festação. G. xingamentos. uma mulher que sofre violência domés- ato de violência praticado por motivos de gênero. gravidez não desejada. documentos de a uma pesquisa realizada em 2003 informam que as outrem. jogos de a violência contra as mulheres. cia contra a mulher sai do âmbito familiar e atinge a Ao focar esta interface. lesões. Pode estar espancadas a cada ano por seus maridos ou namorados. Relatos da Orga- tiros. 2008). A própria Lei n° 11. & Coura Filho. delas contendo subtipos. na dependência financeira e emocional. culpa. Violência patrimonial refere-se à nização Pan-Americana de Saúse (OPAS) referentes destruição de bens materiais. em grande proporção. a presenciar. associada a problemas variados. a partir dessa definição. Pesquisas correlacionam à violência dis- cinco domínios. pânico e baixa autoestima. ansiedade. é dividida em violência entre casas. Villela. Leal. a mulher perde um ano de vida parceiros íntimos. Na maior parte homem chegou a 50%. cias especializadas e unidades de apoio à mulher vítima 308 . patrimonial. por não ter um caráter momentâneo e ter efeito a repercussão de casos nos meios de comunicação e cumulativo. vontade consciente e impulso. A violência que ocorre nas um em cada cinco dias de falta ao trabalho é causado relações familiares é um subtipo da violência inter. pessoas que vivem em contexto violento. na residência (Côrtes. multidimensional. humilhações. em relação à pesquisa realizada em ro. nas relações sociais e na saúde (física e psicológica). todas as ações que caracterizem muitos aspectos. por volência. de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha). C.340. drogas. Violên. A violência contra a mulher é um fenômeno de saúde pública pela sua dimensão e pela gravidade multicausal . informa que a cada 15 segundos uma mulher é A condição de violência é.. depressão. entre outros tipos de mani.6% e 2% do PIB tipo de violência sempre existiu. que rege os mecanismos A literatura é vasta em descrever as dimensões da para coibir a violência doméstica e familiar contra a violência e suas possíveis consequências para a saúde e mulher (2006). com fundas. dentre outros. complexos e de natu. cia moral constitui qualquer conduta que caracterize fobias­. suicídios empurrões. sentimento de e causar danos ao corpo e é caracterizada por tapas. depara-se com amplas sociedade como um todo. a violência foi cometida pelo próprio parcei. reza distinta. queimaduras. p. 2005. coação. 2005. a violência pode percursões em vários aspectos da sua vida. B. violência interpessoal e violência coletiva. principalmente a questões de gênero. difamação ou injúria e a Violência psicológica Muitas são as implicações envolvendo o fenô- ou emocional é a mais silenciosa. murros. a cada cinco anos. Alguns estudiosos concordam que esse da violência doméstica oscila entre 1.

2007). ocorresse. a coleta foi uma entrevista semiestruturada contendo Delegacia para a Mulher (DM). são modos de conhecimentos. (2003). como condição socioeconômica ou grau de escolari- dade. O instrumento utilizado para denominações: Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). tendo sido observadas criteriosamente suas Não houve critérios para inclusão referente a situações proposições. 24 (2). Sugere que se intercale a Mulher (DEAM) no município de João Pessoa. Foi para falarem sobre a questão da forma que melhor lhes considerada uma amostra não probabilística por conve.5 Sofrimento 309 . Os resultados foram analisados por meio de dos a implementações de políticas públicas. aspectos. Após o esclarecimento dos objetivos do estudo. art. tem sido estudo de conteúdo temático (Bardin.1 Passividade 3. 2007. Além das premissas aqui propostas. Estado da escuta do material gravado com a leitura do material Paraíba. apenas foram considerados que as participantes Resultados e discussões estivessem passando ou já tivessem passado por epi- sódios de violência conjugal de quaisquer tipos e que Os resultados estão apresentados na forma de residissem na cidade de João Pessoa. em quase todos os estados trâmites nº 196|96. pois através do o agressor. bem como punições mais rigorosas aos Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). de forma que se assimilem informações que pretendeu com a comunidade acadêmica e científica.3 Desarmônica 3. Metodologia cada participante assinou o TCLE. Esclarecidas sobre a gravação das entrevistas.TIPOS DE VIOLÊNCIA 1. dentre outros trabalho multidisciplinar de vários profissionais.REPRESENTAÇÃO DA VIOLÊNCIA 2. para quem o objeto de investigação são elemen- Schraiber et al. delegacias especializadas. as quais propunham verificar como no Atendimento à Mulher (DEAM). Este estudo foi a 18 anos.2 Vergonha 3.2 Psicológica 2. 2012 e a seus filhos. e baseados empenhado esforços no intuito de prevenir e erradicar no estudo das Representações Sociais de Moscovici o fenômeno da violência contra a mulher (Sagot. homens agressores. do tipo descritivo.1 Física 1. como viam se tornaram de grande importância. A coleta de dados ocorreu entre (Debert & Oliveira.MANIFESTAÇÕES DA MULHER 3. as causas e consequências. Os critérios para tópicos e desenvolvidos a seguir. Psicologia & Sociedade. O Projeto de Pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Nos dias atuais o Brasil possui mais de 300 Ética da Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba.2 Frequente 2.. alia. tos da realidade social.3 Decepção 3. Delegacia Especializada cinco perguntas. 2007). com seres humanos descritos como consta na resolução rante o período de coleta de dados das pesquisadoras. Tabela 1 CATEGORIAS SUBCATEGORIAS 1. este trabalho escrito. A análise gerou um exclusão foram: situações em que a mulher procurou a conhecimento classificado em sete categorias e vinte Delegacia por outros motivos que não os de violência e cinco subcategorias de acordo com a demonstração conjugal ou a qualquer momento se recusar a assinar o na Tabela 1. permitam compreender a emergência dos investimentos afetivos.4 Culpa 3. As entrevistas se deram em local reservado niência. que buscaram a Delegacia Especializada no realizado observando os aspectos éticos para pesquisas Atendimento à Mulher na cidade de João Pessoa du.1 Depreciativa 2. 2002). 307-314.196/96. com 12 mulheres com idade iguais ou maiores garantindo o sigilo das informações. As delegacias têm diversas março e abril de 2010. todas concordaram com o Modelo de estudo delimitado como estudo de procedimento e foram informadas que ficariam livres campo. Essas instituições as participantes entendiam a violência. As informações contidas neste estudo foram saberes do senso comum que surgem e se legitimam buscadas na Delegacia Especializada no Atendimento à na conversação interpessoal. abordagem qualitativa.

constantemente ritualizada. D. o que confirmam Monteiro e Souza (2007) ao afirmarem a prevalência desta modalidade de violência As mulheres objetivam a violência sofrida como sobre outros tipos.. dentre outras coisas. segundo elas mais intenso do que desvalor e autodepreciação. uma vez por vezes durante anos. cia da violência psicológica ou emocional sobre outros Representa tristeza/ medo. a depressão.. A literatura traz a prevalên. Na variadas. preocupação pela situa- tipos de violência (Monteiro & Souza.1 Trauma 6. Dentre os fatores citados como psi- perdura durante todo o ciclo de violência.1 Esperança de mudança do agressor 7. Especialistas afirmam que até 2020 será de humilhações. N. G. As repercussões na vida da mulher autoestima.2 Realização pessoal 7. e estabilizada. violentada são enormes.. C. 2007). 2010). e Sougey. levando à dis- cológica ocorre sempre a priori. /. horrorosa/ Que arranja mulher mais bonita significativas em sua saúde física e mental (Monteiro do que eu/ Eu me sinto um nada. implementando políticas e norma- Os recortes acima citados trazem a violência tizando ações de prevenção e tratamento dos agravos psicológica ou emocional sofrida por muitas mulheres. com o passar do tempo outras formas de violência eventos estressores do ambiente familiar. era feia. somando-se a codinâmicos desencadeadores da depressão estão os essa. psicológica compromete a autoestima. ao longo dos anos.2 Poder 5. a doença mais incapacitante do mundo (Medeiros & Esse tipo de violência ocorre primariamente. é estando associada a sentimentos como tristeza. um lixo. Sei lá.obesa. maioria dos casos.. B. 2007).CONSEQUÊNCIAS DA VIOLÊNCIA 6. a violência psicológica ou emocional A depressão é uma doença altamente prevalente na é a mais encontrada. A violência vão sendo incorporadas. é a mais comum.idiota. Ela só trouxe pontos negativos pro meu psicológico Eu sofro constantemente/O meu marido me agride principalmente/ A gente fica abatida/E a pessoa fica com palavrões/Ele humilha/Ele xinga/Dizia que eu assim sem se dá valor.3 Insensibilidade 7. medo.com baixa & Souza. Admitem seu e no desenvolvimento da saúde psicológica da mulher.PERSPECTIVAS PARA O FUTURO 7.3 Incorrigível 4. principalmente nas modalidades atualidade.MOTIVAÇÕES DA VIOLÊNCIA 5.4 Digno de pena 5. O companheiro usa esse tipo de agressão na repercussões ao estado físico. comprometedor da saúde como nas unidades temáticas abaixo citadas: psicológica da mulher. O Ministério da Saúde vem.PERCEPÇÃO DO AGRESSOR 4. sua auto- Representações da violência estima. H. decorrentes da violência contra as mulheres. S.. a violência cometida inexplicável. Violência doméstica contra a mulher: realidades e representações sociais 4.2 Dupla personalidade/doente 4.. caráter silencioso. interferindo no bem-estar a violência na forma de agressão física. 2010). sendo intenção de denegrir a imagem da mulher.3 Histórico familiar 6. além da frequência com que ocorre.4 Dedicação materna Tipos de violência O sofrimento psíquico e seu efeito cumulativo Foi constatado que a violência psicológica ou podem vir a desenvolver doenças psicossomáticas emocional e a violência física são as mais frequentes. Leal.1 Agressivo 4. ção que eu nunca pensei passar na minha vida/ Tudo 310 . a violência psi. preocupação e sentimentos de impotência. por exemplo. fazendo-a determinantes no processo de saúde e adoecimento das sentir-se sem valor e desprezada. com o passar do tempo. enlaces psíquicos. assim.2 Desamor 6. Dessa forma. Ribeiro.1 Ciúme 5. causando intenso sofrimento que são agravos de alta frequência e que causam sérias psíquico. Observa-se nas vítimas torção do pensamento na construção de crenças de sofrimento psíquico.Fonseca.imprestável/ Me chamava de Os maus-tratos sofridos pela mulher geram perdas merda/ Ele diz que eu só sirvo pra limpar chão/ Que eu sou feia. Dessa forma. destruindo a harmonia do casal e a con- por homens contra mulheres assume uma feição crônica vivência familiar.3 Sair do ciclo da violência 7. xingamentos e desprezo. psíquico e social.. É um fenômeno de pessoas (Januário et al. é empreendida sobre a mesma vítima. que faz com que a mulher perca. crônico.

decepção. patriarcal por muito tempo “consentiu” um certo A pessoa fica assim. escondem. “muito Manifestações da mulher diante da violência simpática” até “covarde”. “canalha” e “doente”. o casal passa medo/ Angústia” completam o quadro angustiante. as vítimas apon. Psicologia & Sociedade. ignorante/ Direto bate nifestas advém da própria relação com o companheiro. variando entre “pessoa boa”. público. cobrindo e bloqueando o desfeito pelas decepções em contato com a realidade verdadeiro impulso que provocou o ato agressivo. muitas vezes uma mo “doente” aparece em quase todas as falas. para falar a verdade/ A violência representa teiro e Souza (2007). “pessoa ótima”. em você/ e na mesma hora está brincando muito/ Eu Neste estudo. é quase todo dia pra falar a socialmente restringindo as amizades. Muitas vezes inimigo era eu/”. eu fico com tristeza assim/ decepção das mulheres deste estudo. com a esquizofrênico/ Ele age como uma pessoa que não é esperança constantemente renovada de que o agressor normal entendeu?/ vai mudar. dentre essas. Com a harmonia destruída. gerando sentimentos Duas faces. ficam reclusas. citam ainda que os companheiros apenas adqui- de que algo está errado. sentimen. do comportamento do companheiro. E. “Deses- o relacionamento “Ela vem para acabar com tudo/ pero/ de tristeza/ medo/ Angústia”. limitam-se brincalhões. os outros me fazer assim/ Eu sou muito envergonhada tam que não há justificativa. ao mesmo tempo em que restringiu mas não melhora/ Nem parece que é meu marido. tornam-se Como a mulher percebe o agressor constante as brigas e discussões. que as coisas vão melhorar e que “tudo um Para Goleman (2003). a indiferença com que são tratadas muita coisa/ eu penso em ir embora para outro lugar/ contribui para que elas permaneçam na inautenticidade. mas percebem também que não riram o hábito de bater ou humilhar. Muitas mulheres simbolizam a imagem uma doença dele. sem saber o que fazer/ Porque a padrão de violência contra as mulheres. demonstrando porque no começo é um mar de rosas/ De repente construções sociais que ancoraram as representações mudou/ Assim. Os sentimentos sentia raiva de mim mesma/ O inimigo era eu” também ligados à representação da violência são negativos e perdura com intenso sofrimento. inventado. Já para Dantas- cionamento o misto de esperança e decepção. segundo elas. Perdura no rela. 24 (2). Segundo Mon- em casa. O ter- De acordo com Soares (2004). não saem de casa. As mulheres entrevistadas demonstraram uma A vergonha foi mais um sentimento amplamente visão bastante interessante sobre seus companheiros. Uma vez iniciada. 2012 de ruim/Geralmente. em descrito. e você não espera/ Ter ao homem o papel “ativo” na relação social e sexual passado esses anos todos achando que vai melhorar. as principais manifestações apresentadas considero ele um doente/ Então casei com um homem foram de passividade. afirmando que depois de Foram também demonstrados sentimentos de começarem os maus-tratos. “Desespero/tristeza/ depreciativos. duas pessoas em uma só/ É horrível lhe dar de impotência. que começa a ser desgastante e perigosa. As vítimas relataram que muitas vezes negam contrapartida ao conceito de doença citado acima. a não ter mais qualidade na relação. a mulher à passividade e reprodução. não demonstram em mulheres veem seus companheiros como simpáticos. encobrem. Importante constatar como as participantes perce- bem seus companheiros das formas mais contraditórias. esquizofrênicos e amedrontada e envergonhada por não conseguir se fazer com dupla personalidade. sei não viu/. A culpa “Às vezes eu Qualquer tipo de harmonia acaba/”. pessoas boas e alegres: 311 . da consciência porquê. entre os sexos. qualquer atitude ou palavra culpa: “Às vezes eu sentia raiva de mim mesmo/ O dispensada inicia o evento de agressão. Essas a situação. a racionalização é uma dia vai passar como num passe de mágica”. ouvir e respeitar por seu agressor. “Não tem pela minha situação/ justificativa para violência”. eu não sei nem descrever/ Eu acho que é mais frequente. das estratégias mais comuns da negação dos verda- to esse que também é. frequentemente deiros motivos do sujeito. pelas atitudes que ele toma/Ele é do casamento perfeito e feliz em seus sonhos. vivendo pratica- verdade/A violência só não acontecia se eu não tivesse mente em condições de confinamento. Raiva/ tenho raiva de quem sabe que eu estou deixando Ao representar a ação violenta. uma ordem social de tradição com que o desgaste se acentue. vergonha. substituindo-o por outro. fazendo -Berger e Giffin (2005). A maneira como suas reações são ma- com uma pessoa que é violenta. sabe?/ Queria que voltasse a ser assim/. definindo mulher em situação de violência se sente especialmente seus companheiros como psicopatas. Demonstram também os sofrimentos quando percebem já estão sendo agredidas sem saber o intensos diante desse misto conflituoso. notou-se a decepção como psicopata. designando pessoa está ali com você direto. A violência arrasa possuem forças suficientes para atuar sobre ela. culpa e que é um psicopata/ Não sei se ele tem um pouco de sofrimento. é inexplicável. 307-314. Foi relatado que a violência ocorre quase que diariamente.

relações. gundo Galvão e Andrade (2004). já gerava uma discussão/ Principalmente à noite/ eu mento.vai aprendendo/ o professor pena dele/ Às vezes eu sinto pena que ele é assim/ tenho ensinando. passava o dia sem falar com ele/ mas tinha que falar. As vítimas desenvolvem insegurança que as mulheres. estão: a configuração da violência doméstica. alegre. canalha. tendo em vista que conjugal e à consequente aprovação dos atos abusivos as interações tecidas neste âmbito estão entrelaçadas cometidos pelos homens na posição de senhores e donos e imbricadas em condicionamentos e normatizações de suas mulheres (Almeida & Bandeira. afirmando que quanto mais Trauma sujeitas a esse conjunto de desigualdades. Considerando-se a complexidade do problema. prin- em que se observam comportamentos de submissão.. desamor e insensibilidade: ratifica essas implicações. D. B. S. que se mesclam e potencializam Dentre as mais compreendidas pelas mulheres. Carneiro (2003) trauma. pro meu psicológico principalmente/ vindas”. pela esperança de mudança. porque se ele encontrar quer logo me agredir. seriam essas as causas mais comuns que geram a violência contra a mulher. também. pessoa muito medrosa/ Tenho medo dos homens/. covarde/ mas tem situação que ele fica muito agressivo/ e muito ignorante/ muito nervoso/ construção social dos papéis masculinos e femininos e muito irritado/ É horrível lidar com uma pessoa que e da desigualdade existente nas relações de gênero se- é violenta/ ignorante/. Fica clara a demonstração de confusão nos rela.Fonseca. tiva de mudanças. sentimentos de Representa muito dor. 2006). está diminuindo/ Tudo de à preservação de sua integridade física e emocional. Ribeiro. dessas como objeto de sua propriedade. O jogo de poder masculino advém dessas crenças de o cionamentos amorosos que convivem com o fantasma homem possuir certos direitos e privilégios a mais do da violência. certas classificações e compreensões de violência. maiores são as E por dentro. extrovertida/. associada à questão da Ele é um canalha. soa/ está dando em cima/ Vê com outra visão coisa Esta “confusão” perceptiva pode ser a explicação que não existe/Ele é muito ciumento/ para o ciclo violento perdurar por anos. marcadas por três contradições básicas: o gênero. Observa-se. cipalmente quando se trata de mulheres casadas ou em ingenuidade e vulnerabilidade. C. alguma coisa tinha que pedir resolver/. uma vez que variam à possessividade: muitos homens tratam as mulheres de um extremo a outro. o medo. a falta de perspec. Desamor Causas e consequências da violência O amor que eu senti por ele/ cada dia está diminuindo/ Dentre as principais causas para a violência.Eu vejo que eu tenho que você está aprendendo. deve bater na mãe também/ eu telo. H. desconfiada de todos os homens/ Deve ter sido pelo pai que também era violento/ e ele Sempre ele me ameaça/ Já escondi até facão e o mar. a raça/ As consequências da violência são numerosas. levam ao não reconhecimento da violên- que o espaço intrafamiliar não se configura como um cia produzida na intimidade e na rotina de uma relação campo homogêneo e harmônico. podendo ser inferidas. covarde: mente pelo ciúme e jogo de poder. deixou muitas marcas/ O amor que eu possibilidades de as mulheres se tornarem vulneráveis senti por ele. Os ciúmes podem estar relacionados nos sentimentos demonstrados. Uma vez que Poder operam entre momentos alegres e tristes. foi criado só pelo pai. N. Leal. Violência doméstica contra a mulher: realidades e representações sociais E eu vejo que uma boa pessoa boa/ Mas ele é uma Ciúmes ótima pessoa sabe/Eu vejo ele como uma pessoa mui- Quando você fala ou você ver ou olha pra qualquer to simpática/ Ele é ótimo/ O vejo como uma pessoa lugar/ ele já pensa você está olhando para outra pes- simpática. em contrapartida aos momentos de crise. muita pena sabe? / As causas da violência são descritas principal- E agressivo. violência de gênero. questões relacionadas ao domínio da relação Os condicionamentos dominantes referentes a pelo homem (relações de poder). Ruim né?/ Ela vem para destruir tudo/ Trouxe muitas ficando a condição mental fragilizada pelas “idas e consequências. as por falta de consideração que ele tem/ e as agressões mulheres citam: que ele faz contra mim/ Tudo acaba/ O amor acaba/ 312 . etnia e a classe social.. estas mulheres Coisas que eu só queria dividir com ele/ mas ele não se mantêm alimentando a violência por estarem sempre escutava não/ a opinião dele que prevalência/ Isso na espera dos momentos “gratificantes” do relaciona. e vai aprendendo/. sentimento de pena: Histórico familiar Tenho muito medo dele/ das ameaças/Eu me tornei uma pessoa medrosa. G. cada dia mais. Saffioti (2001) traz uniões estáveis. tudo de ruim/ Eu me tornei uma pena e pelas agressões físicas e psicológicas. E acho que isso vem da infância também/ eu acho que ele é uma pessoa que eu acho que nunca vai mudar/ ele ficou com aquilo/ aquele costume/ Como uma coisa ele não vai mudar/ ele muda não/.

jetivadas como frequente. e integrada que lhe ajude a sair do ciclo de violência. violência doméstica contra a mulher. feminina construída ao longo do tempo. para maior social. em diversos de intervenções. incorrigível ou digno de pena. Conforme traz Gadoni-Costa e Dell’Aglio (2010). também apareceram Atendimento à Mulher. A pessoa se torna quase igual à outra pessoa/. 307-314. à saúde da mulher vítima de ancoragens sociais no poder masculino e submissão violência doméstica. Para fazer realmente frente à violência doméstica é necessário dar continuidade à integração das unidades Considerações finais de proteção à mulher. sabia?/ Aprende mesmo/ como doente/dupla personalidade. o trauma. Sendo assim. muitas vezes podendo até levar à morte da apresentam a violência como um problema público vítima por seu parceiro. momentos da entrevista. para que ela se sinta violência doméstica participantes desta pesquisa sofrem apoiada e encontre equipe multiprofissional competente principalmente violência física e psicológica. tende a fortalecer as instituições 313 . representada como a principal expectativa das partici. atingindo negati. hoje. É recomendável que. fazendo as vítimas se isolarem cada vez mais. Psicologia & Sociedade. apontando todas danosas. como um todo. o que facilita aspectos esteja [sic] um bom companheiro/ que me ame muito/ fazer planos para o futuro e ser muito feliz/ Eu quero metodológicos. percebe-se a Este estudo pode ser considerado introdutório consequência em âmbitos sociais: a restrição do convívio para pesquisas futuras. As principais representações da violência são ob. má aceitação social. que realmente funcione como A mulher na maioria das vezes manifesta reações pela uma engrenagem. psicológica e principalmente mente diminuindo seus índices de qualidade de vida a social. Destaca-se a abertura e modelo de tratamento dife- Meus planos são que eu espero que meu parceiro mude/ renciado nessas instituições. 24 (2). apontando para representações campo da violência de gênero parecem ser apenas alguns “mágicas”. futuramente seja estudado o fenômeno observando a variável do tempo de relacio- Perspectivas para o futuro namento. mas também no que sofrem e o quanto a permanência no ciclo de violência seus resultados e intervenções possam contribuir para pode afetar negativamente suas vidas. encontradas perspectivas de mudar o agressor: esperam sendo cada vez mais difícil quebrar este ciclo. Outras. caracterizando minimizar o sofrimento psíquico da mulher. percebem-se. uma situação de extrema vulnerabilidade social. ainda. tempo de exposição da vítima à violência A esperança de que o companheiro mude está psicológica ou emocional. No panorama geral. foram vulneráveis e com poucas estratégias de enfrentamento. 2012 Insensibilidade violência sofrida com passividade. que o meu marido mude/ porque eu gosto muito dele Mais estudos nacionais com a perspectiva aqui e não quero me separar/Queria um marido bem bom abordada poderiam contribuir com a comunidade cien- pra eu. aprendendo/ Tanto aprende o que é bom e aprende o A mulher percebe o homem autor da violência que é ruim. poder e histórico familiar. e e inserção social. altamente complexo. estudar essa perspectiva a partir desta seus diálogos em contradições. Segundo Ribeiro e Coutinho (2011). como realizações pessoais. desarmônica e depreciativa. preconceito. queria que ele voltasse a maiores conhecimentos da subjetivação do fenômeno da ser quando eu me casei/. esperam sair do ciclo de violência e Mulheres. abrangência do assunto. perderem gradativamente sua rede de apoio.Vai culpa e sofrimento. As principais origens da ação violenta Percebe-se que as consequências da violência são advêm de ciúme. parceiros. o desamor e a insensibilidade. Percebeu-se também ótica é importante não somente no nível de conheci- que não possuem visão clara do que seja a violência que mento e exploração do fenômeno. ter filhos com ele e não sofrer/Queria que ele tífica e acadêmica no sentido de produzir melhores e fosse uma pessoa melhor/. com pouca percepção da real situação em nós de uma rede de processos multidirecionais que. incidências e resistências no se dedicarem aos filhos. tornando-se Em relação às perspectivas para o futuro. decepção. maior divulgação nos meios de comunicação com o intuito de prevenir a violência Este estudo indicou que as mulheres vítimas de e promover a saúde da mulher. descriminação. vergonha. provavel- vamente sua saúde física. uma rede capacitada. Um diferencial nas características desta pesquisa pantes. a vivência da violência doméstica diminui drasticamente As principais consequências da violência são a qualidade de vida dessas mulheres. poucos como significantes. sair do ciclo é a amostra buscada em Delegacia Especializada em da violência e dedicação materna. esses novos achados poderiam fornecer novas possibilidades É importante constar que as mulheres. estudos no Brasil nessas unidades de atendimento. que vivem. demonstraram dualidade em Assim. realização pessoal.

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