Estudo Sobre a Violência Doméstica Contra

a Criança em Unidades Básicas de Saúde do
Município de São Paulo – Brasil
Study About Domestic Violence Against Children in Primary
Health Care Units in São Paulo - Brazil

Martha Lucia Cabrera Ortiz Ramos Resumo
Psicóloga. Mestranda do Programa de Pós-graduação em Edu-
cação e Saúde na Infância e na Adolescência da Universidade Objetivo: Saber como profissionais da Estratégia
Federal de São Paulo. Saúde da Família atuam ao se deparar com situações
Endereço: Caixa Postal 26026, CEP 05513-970, São Paulo, SP, de violência doméstica contra a criança. Método:
Brasil.
Trata-se de estudo qualitativo de investigação, rea-
E-mail: marthalcor@yahoo.com.br
lizado por meio de entrevista do tipo semidirigido.
Ana Lúcia da Silva A pesquisa desenvolveu-se na cidade de São Paulo,
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Pesquisadora científica III em cinco Unidades Básicas de Saúde (UBS) de cinco
do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São
regiões. Foram entrevistados 21 profissionais e uti-
Paulo.
Endereço: Rua Santo Antonio, 590, CEP 01314-000, São Paulo, SP,
lizou-se a análise de conteúdo temática. Resultados:
Brasil. A análise temática apontou quatro categorias: iden-
E-mail: analu@isaude.sp.gov.br tificação da violência doméstica; tipos de violência
doméstica; dificuldades no atendimento em situa-
ções de violência doméstica e ações profissionais
diante da violência doméstica. A identificação da
violência aconteceu em visitas que os profissionais
realizaram na comunidade, em especial, os Agentes
Comunitários de Saúde (ACS), sendo corroborada
em consulta clínica, mediante observação e exame
físico da criança. Uma das ações mais presentes no
discurso dos profissionais é a de encaminhamento da
criança vitimizada ao Conselho Tutelar. Conclusões:
Os resultados refletem uma realidade da Atenção Bá-
sica em Saúde que gera angústia nos profissionais,
que se sentem despreparados e desprotegidos para
atender e resolver demandas de crianças vítimas por
violência doméstica. Constatou-se que o Sistema Úni-
co de Saúde/Estratégia Saúde da Família (SUS/ESF)
tem de avançar no atendimento dessas situações. A
intersetorialidade, a integralidade e a resolutividade
foram mencionadas pelos entrevistados, evidencian-
do lacunas geradoras de sofrimento, que precisam
ser reencaminhadas aos órgãos competentes.
Palavras-chave: Violência Doméstica; Estratégia
Saúde da Família; Saúde da Criança; Análise de
Conteúdo Temática; Violência na Família; Maus-
tratos infantis.

136 Saúde Soc. São Paulo, v.20, n.1, p.136-146, 2011

types of do. exige professionals’ discourse is referring the victimized intervenção de uma equipe multiprofissional e in- child to the Guardianship Council. em um aspecto da organização das sociedades. já que as experiências vividas na community.136-146. que afeta todos os níveis socioeconômicos the child. and professionals’ actions in traz prejuízos a curto. Child Health. showing that there are gaps esse tipo de violência pode ser de ordem física. Desde o século XX. É um problema Agents. à medida que se percebe o impacto negativo da violência doméstica no bem-estar da criança.. por essas razões. integrality têm de serem tratadas como pessoas em condição and problem-solving capacity were present in the peculiar de desenvolvimento. Violence in the Family. São Paulo. Segundo Aron (2001).Abstract Introdução Objective: To investigate how professionals with the O fenômeno da violência doméstica contra a criança Family Health Strategy act when confronted with acompanha a história da humanidade e se constituiu situations of domestic violence against children. impacto no âmbito da saúde. em uma negação do direito que elas to these situations. de ordem física como psicossocial. esse fenômeno vem developed in the city of São Paulo. que Method: This is a qualitative research. ao revelar mestic violence. p. The data durante séculos não recebeu nenhuma ação exter- were collected through semi-structured interviews na ao contexto doméstico. The analysis pointed to four thematic categories: A violência doméstica contra a criança. isto é. One of the most present actions in the e culturais da sociedade e. que podem ser ppens during visits made by professionals in the devastadores. violence situations.20. Family Health Strate. educação e dos direitos das pessoas. de abandono e negligência e tem to the competent agencies. sexual. Abused cadas podem levar à morte e são consequências de Child. Sendo o primeiro a causa mais comum de morte em crianças menores de dois anos de idade. particularly the Community Health infância refletem na vida adulta. The research was familiar. Intersectoriality. tanto domestic violence situations. and is corroborated in clinical consultations multicausal. já que qualquer evento performed with twenty-one professionals. cujos procedimentos possibilitem um The results reflect a reality within Primary Health atendimento integral. Conclusions: terdisciplinar. se constituir em uma realidade dolorosa. devido à vulnerabilidade nos primeiros anos de vida (Krug e col. in five primary sendo tratado como problema social e de atenção health care units located in five regions. 2003). Thematic Content Analysis. que implica em transgressão do poder/ Único de Saúde (SUS . vem aumentando o reconhecimento do importante papel dos profissionais e serviços de saúde para Saúde Soc. da Keywords: Domestic Violence.1. assistance difficulties in domestic os maus-tratos perpetrados no mundo intrafamiliar. It was verified that Sistema tra crianças. médio e longo prazos. constituído por uma diversidade de through observation and physical examination of variáveis. interviewees’ discourse. Results: em saúde pública. Nesse sentido. traumatismos cranioencefálicos ou lesões internas nos órgãos. que ali surgisse deveria contar com a privacidade matic content analysis was used. n. do bem-estar social.National Health System) / dever de proteção do adulto e em coisificação da Family Health Strategy has to advance in response infância. Identification ha. psi- that generate suffering and need to be re-conducted cológica. segundo Moura e colaboradores (2008). além de identification of domestic violence. v. Care that generates anguish in the professionals A violência doméstica contra a criança é definida as they feel unprotected and unprepared to assist por Azevedo e Guerra (2005) como o ato ou a omissão and solve demands of children who are victims praticado por pais. and the. 2011 137 . parentes e/ou responsáveis con- of domestic violence. As lesões provo- gy.

20. descrever os diferen- físico. notificados no Brasil 137. 2008. crenças e opiniões de educação e saúde (Gomes e col. 12% do Adolescente (ECA) registra a obrigatoriedade da dos 55. tados Unidos.. já em 2001. 2002). atitudes. Na Inglaterra. sendo estas últimas tomadas. 2004). presença das marcas dolorosas da violência (Moura tanto em seu advento quanto em sua transformação. É de Estudos da Criança. Dados apresentados pela Sociedade Internacional chenheim. o que dificulta. anualmente.. revelam que no Brasil. em da ESF de 25%. as ví. 1993. entre outras coisas.000 e uma cobertura populacional quais 28% foram confirmados. São Paulo. esses profissionais nas comunidades onde atuam e analisar suas ações no atendimento à criança e Perfil Epidemiológico da Violência Doméstica sua família. v. mento. 2005). que possibilita a davia. dos lação de 10. 2009). no ano de 1990. segundo o Ministério da Saúde (Brasil tribuídos em violência física. p. por motivos que vão desde o desconhecimento negligência e violência fatal. No entanto. dis- sente no país. estabele. podem mil (Azevedo e Guerra 2005). porque estes são espaços pri. assim como Esses dados revelam que cerca de 18 mil crianças o Ministério de Saúde.927. humanas particulares de determinado grupo. Laboratório (Minayo e Sanches. sabe-se que milhares de crianças e adolescentes compreensão de fenômenos. toriedade do preenchimento da Ficha de Notificação Dados extraídos do Laboratório de Estudos da de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra Criança da Universidade de São Paulo − Lacri (2009) crianças e adolescentes e seu encaminhamento para indicam que. 10). e col. no período de 2000 a 2007. além de identificar e tratar. às relações por outros agravos cujo atendimento atento revela a e às estruturas sociais. p. por profissionais vinculados às áreas trabalha com valores. 2009). capaz de incorporar a questão do significado e da in- timas ingressam nos serviços de saúde muitas vezes tencionalidade como inerentes aos atos. sofrem violência por dia. o que di- Método ficulta conhecer a real incidência desse fenômeno. que apoiado no ECA.585 por parte do profissional do dever de notificar até a foram notificados no Estado de São Paulo e 14. conhecer Esta pesquisa tem como objetivo saber como o perfil epidemiológico desse tipo de violência (Gon. 1995. serviços de proteção à infância 1 milhão e 700 mil de acordo com o Departamento de Atenção Básica casos envolvendo violência doméstica. pois principalmente. Estatísticas internacionais revelam que nos Es. atuam ao se depararem com situações de violência para cada notificação de criança vítima de abuso doméstica contra a criança. Krippendorff. o Estatuto da Criança e (Sipani).1. foram o Conselho Tutelar local (Brasil. psicológica. foram notificados aos O estudo foi realizado na cidade de São Paulo que.117 dificuldade em praticá-la em sua rotina de atendi. do Ministério da saúde (Brasil 2004). 138 Saúde Soc. no município de São Paulo. sexual. processos e atividades sofrem violência e que a identificação do fato ocorre. Desse total. n. estima-se que. de 10 a 20 outras situações desse tipo não são tes tipos de violência doméstica identificados por notificadas (Pascolat e col. como construções humanas significativas (Minayo. de Prevenção ao Abuso e Negligência na Infância Em relação à legislação.136-146. Contra a Criança A literatura revela a escassez de dados estatísticos sobre a violência doméstica contra a criança. 2001). violência contra a criança (Brasil 2005). 2004. profissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF) çalves e Ferreira. Moura e Reichenheim. criar estratégias de ação e prevenção (Moura e Rei. 2002. possui popu- esse número aumentou para 3 milhões de casos. a subnotificação é uma realidade pre.6 milhões de crianças menores de 14 anos notificação de situações constatadas ou suspeitas de são vítimas de alguma forma de violência doméstica. To. Cecovi. doméstica contra a criança e o adolescente. 60. 2002).. Trata-se de pesquisa qualitativa. 750 por hora e 12 por ce para todos os profissionais e instituições de saúde minuto (Centro de Combate à violência Infantil − que atendem pelo Sistema Único de Saúde a obriga. 2005).189 casos de violência Todavia.seu enfrentamento. os casos notificados chegavam a cerca de 34 vilegiados que. 2011 . Na área da saúde. 2002).

136-146. Esse recurso se constitui em partir da qual foram nomeadas segundo o conteúdo um conjunto de técnicas de análise que se aplica ao que revelaram. A análise temática de con. literatura. sendo acompanhar o encadeamento de associações em cinco agentes comunitários de saúde. foram realizadas relei- sentante de cada categoria profissional que fizesse turas cuidadosas das transcrições. Na fase 2 − Quais os diferentes tipos de violência doméstica final. para este estudo tificação de quatro categorias de análise. 2003). Na fase Foi convidado a participar da pesquisa um repre. usando diretamente seus órgãos do sentido para apreender os objetos em estudo [. o que possibilitou maior compreensão da nal? 3 − Como é realizado o atendimento tanto para realidade relacionada ao objeto de estudo (Bardin. bem como a familiarização apro. cinco médicos cada entrevista e entre as entrevistas. Identificaram-se As entrevistas foram semidirigidas. a teúdo foi aplicada. sob parecer nº 0102/2006/CEP/SMS. permitindo efetuar bilidades relacionadas ao objeto de pesquisa de inferências a partir de uma lógica explicitada e de forma contextualizada. 2007). Existem ações de prevenção da violência doméstica Este estudo obedeceu às diretrizes da Resolução nº contra a criança pelo grupo do Programa Saúde da 196/96 do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisa Família? Que ações são estas? com seres humanos (Brasil. de exploração do material. uma nova releitura já tratados pelo entrevistado. 2004). Para este estudo optamos por pesquisar uma processo de comunicação verbal e objetiva identifi- Unidade Básica de Saúde (UBS) de cada região do car os núcleos de sentido presentes em determinado município. Identificaram- 1 − Como o senhor(a) percebe a violência doméstica se unidades de análise em cada entrevista e entre contra a criança na sua área de atuação profissional? as entrevistas e nomearam-se categorias. p. O projeto foi apro- Considerando que em pesquisa qualitativa “o vado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Prefeitura pesquisador é o próprio instrumento de pesquisa. foram entrevistados 21 profissionais. Resultados e Discussão ção do mundo em ambientes naturais (Fontanella e O relato dos profissionais de saúde permitiu a iden- col. Procedeu- generalistas.. p. Silva e Camillo. Na Enfermeiro. 2004. Foram retomados assuntos cada entrevista. . com pergun. visando à livre associação de ideias por o primeiro recorte de palavras e frases grifadas em parte do entrevistado. 67). tipos de vio- visitas a campo. 1 cronológicas. em que enfermeiros e um cirurgião dentista. 2006. com o propósito de contemplar possi. São Paulo. n. que possibilitaram modo. 2011 139 . 1 Auxiliar de Enfermagem ou Técnico de fase de pré-análise. a criança quanto para a família nestes casos? 4 − 2004. de São Paulo. lência doméstica. Como critério de escolha.. a partir de uma atenção flutuante. a saber: a houve uma preparação especial: foram realizadas identificação da violência doméstica. v.]” (Turato. A análise do material foi realizada em três fases ção do Ministério da Saúde: “1 médico generalista. Saúde Soc. procedeu-se à discussão das categorias com a que vocês têm identificado em sua prática profissio. Cada categoria foi submetida à análise qualitativa.. Estratégia Saúde da Família. permitindo obter de maneira mais realização das entrevistas teve como base o roteiro: apurada seus significados e sentidos. unidades deveriam ter a equipe mínima completa da Graneheim e Lundman. 2001. realizou-se leitura dos textos Enfermagem. acompanhadas parte da equipe há pelo menos seis meses. Posteriormente. p. Realizou-se tas abertas. Denzin e Lincoln. palavras e frases foram grifadas. A frases e palavras. temas relacionados ao objeto do estudo. trecho do material transcrito. (ACS)” (Brasil.1. situações de violência doméstica e ações profissio- As entrevistas semidirigidas foram gravadas e nais diante da violência doméstica contra a criança. 4 a 6 Agentes Comunitários de Saúde transcritos. conforme recomenda. visando apreender ideias e significados. Desse da escuta do material gravado.20. cinco se a nova leitura de todas as entrevistas. dificuldades no atendimento em fundada com o instrumento de pesquisa. 510) e que a pesquisa qualitativa envolve interpreta. como proposto por Bardin (2004). as acordo com o objeto a ser analisado (Bardin. 2007). transcritas na íntegra. quando não foram dos recortes deu lugar a um segundo recorte das claramente compreendidos pela pesquisadora. 2005. cinco auxiliares de enfermagem.

.. 140 Saúde Soc.. v. a criança que está sem a carteira de um pouco e quando você chega perto dela.] é uma criança muito triste [.. a partir de sinais físicos... Sanchez e Minayo.]... Você coloca ela apoiada cuida . e do comportamento ia fazer três ano e a irmã dela era uma criança apresentado pela criança. criança que está e mexe nos objetos e conversa com você e depois abaixo do peso. Sempre o olhar baixo. ela não vacina atualizada. Procurei conversar muito [. ela constitui sobrecarga para a família e liberdade porque estão dentro da casa.. Aí a gente ouvia ceiros (Iglesias. ou seja. foi da criança e/ou a informação obtida a partir de ter. 2011 . 1998.. passividade. ausên- calendário de vacina desatualizado. 2001). os profissionais entrevistados hematomas ou ferimentos que não podem ser ade- referiram agravos principalmente advindos de quadamente explicados ou que não são compatíveis comportamentos negligentes por parte da família com a história fornecida pelos pais. Alguns desses indicativos foram iden- pes. no exame físico. assim como as lesões detectadas na pele demonstra-se assustada (Huertas e col. baixa autoestima. 2001).. hematomas e lesões cutâneas. criança que está sem ir para senta... conversam com os vizinhos... educação.]. a gente vê se tem sáveis (Pfeiffer.. A identificação refere-se ao conhecimento ou sive teve uma vez que ela bateu no menino com à suspeita da existência de situações de violência um pedaço de madeira que tinha um prego que doméstica contra a criança. hipervigília timidez. estão na rua. (Entrevistado 9). como (Benetti.. p.. que fica não é uma criança ativa que entra no consultório suja. omissão de cia de resposta a estímulos sociais. A desculpa. criança. onde você toca nela. mostram os trechos a seguir: [. ela. 2004). n. cheias de hematomas..]. Segue recorte ilustrativo: os grito das crianças. que podem ser causadas por gol. a criança que está recebendo chora. com ela. e Viar. ela rejeita você..] os agentes comunitários vão nas casas... alimentação. pois. que a criança tropeçou e caiu [. como a verbalização direta por parte aí ele teve que ser socorrido [. também corre o risco de não ter seus cuidados assegurados têm as crianças que vêm em consultório.. ela regride a escola.. a gente. tificar situações de violência a partir de sinais lência doméstica contra a criança são aqueles em comportamentais da criança. São Paulo.] teve aquele primeiro caso [. 2004). que fica mijada o dia inteiro. inclu- nais. (Entrevistado 20). ele acha que não está normal. eles têm res (2003).] a questão da violência inclui criança que não [.]. realmente quanto no espaço doméstico visitado pelos profissio.. queimaduras... criança que não come.. cheias de manchas. só vai sair de lá se alguém for Além disso. Kaplan e colaboradores (1997) acres.. e aí às vezes um vizinho mo segmento de entrevista diz respeito à questão conta para o agente comunitário. como [. ela vai para atrás como qualquer tipo de opressão dos pais ou de quem se tivesse com medo. de indicadores.. tirar.. alguma coisa alterada (Entrevistado 10)... Comecei a ver as crianças.1. a partir da observação furou a testa da criança [. segundo Day e colaborado- que. quando ela que existe negligência do cuidador em prover as apresenta ansiedade excessiva e/ou rejeição de re- condições mínimas de cuidado e sobrevivência da lações psicoafetivas. retraimento. Os profissionais entrevistados relataram iden- Os traumas mais frequentes advindos da vio. desnutrição tificados pelos profissionais entrevistados....] ela fica parada é trocada.. Essa criança. atenção e retraso da linguagem ou cotidiano.. nunca direito para a centam que situações de violência contra criança pessoa (Entrevistado 4). No meio da cabeça. má higiene corporal. né? E e ser vítima da perda de vínculos com seus respon- aí.. então Outra questão relevante relacionada a esse últi- eles acabam sabendo. na cama ela fica... Ela tinha um ano e quatro tanto no espaço do consultório da unidade de saúde meses [.136-146. Paggi e/ou nas mucosas.A Identificação da Violência Doméstica devem ser consideradas quando ela apresenta Nessa categoria. para com a criança.. inibição..20. 2002. diminuição atenção e de limites diante das várias situações do da capacidade. Essa verificação ocorreu com síndrome de Down. privação de afeto. então o agente da violência em relação à criança que possui algum comunitário traz para a gente alguma queixa tipo de deficiência..]. não..

. higiene. em crianças. 2001. bloqueio das ini. responsável dá para perceber [. em geral. Tipos de Violência Doméstica O abuso sexual perpetrado contra crianças é de difícil identificação... O maltrato emocional é a agressão verbal habi... de. sexual. pois segundo Silva e Hutz (2002). o abandono da Foi objetivo desta categoria compreender como criança é. p. né? As situações físicas...... e também não se abrir intensidade pode variar de leve a mortal. também assim o maltrato contra a criança. às vezes.] pode ocorrer tanto verbalmente ou o simples irritada que não quer te ouvir. já teve criança com dois a gente...] dá para levantar alguma tam hipodesenvolvimento..20. alguma humilhação ou que o adulto humilha a desqualificações. onde a mãe saía seis horas da violência doméstica contra a criança por parte dos manhã. de não conseguir cuidar dessa ou cuidadores que provoque lesão na criança... (Entrevistado 7). criança. o que per. hematomas.. pessoas não muito cordiais as crianças vítimas de negligência crônica apresen- assim com a criança [. não dar atenção. profissionais têm a oportunidade de detectar casos Em outro trecho temos: de violência em que não há evidencias físicas. profissionais de saúde ocorre também mediante a Abandono e negligência são definidos por Clara- observação dos vínculos entre pais e filhos. para nós.136-146. né?. é de várias maneiras. como também porque. praticada por parte dos pais sentido de.] por atitudes Kaplan e colaboradores (1997) acrescentam que de agressividade.. 2002). talvez se ciativas infantis.. Apresentam nanismo psicossocial. também..... Nesse conjunto agredida. 2001. não acidental.. de crescimento e desenvolvimento por ficar em Para Sanchez e Minayo (2004) a identificação da casa num berço.] essa sexual foi assim muito chocante. Assim quando eu desconfio que existe assim tual a uma criança por meio de insultos... possuem suspeita (Entrevistado 17).] acho que o problema no relacionamento assim como a falta de respostas às necessidades de quando a criança vem acompanhada do pai ou contato afetivo e estimulação cognitiva...] eu vejo muito no comportamento das crian. Minayo.. São Paulo..1. triste. é aquele olhar disperso. as impede de crescer e se desenvolver. (Entrevistado 12). O maltrato físico é definido como toda agressão [.. [. enfim. Minayo. além de agravarem o sofrimento da criança não dar alimentação.. cuja criança como ela deveria. uma vez que violências não identi. no física. [.] Existe principalmente a gente conhece os familiares [. assim como a rejeição psicológica for assim de uma maneira muito sutil já é mais (Aron... tamanho menor àquele esperado para a idade e não são capazes de estabelecer uma interação social Outra questão importante é que a identificação adequada. Fisicamente.. anos que ficava num berço.. Ela tinha retardo Hematomas (Entrevistado 6). Exemplificando: difícil (Entrevistado 19).. 2011 141 . a gente percebe porque participar de uma grupo... nenhuma lógico..] a violência doméstica não é só física [. o psico- revele. munt (1999) como todo comportamento de descuido mite o reconhecimento do que poderá levar a maus. [. não só pelo medo. o abuso sexual e a negligência (Aron. vergonha A violência doméstica contra a criança se apresenta ou culpa que contribuem para que a criança não o em quatro tipos. e mortalidade nessa faixa etária. n.. [. profissionais identificam a violência doméstica né? Agressões físicas.1997). contribuem para o aumento de morbidade assim de coisas que eu deduzo ao meu olhar.. você procura ela fato do não cuidado. diretamente para você [.] aquela carência. ficadas. a saber: o maltrato físico.. no sentido não estar cuidando. ridicularizações. como verbalizado pelo profissional: não proverem as necessidades básicas da criança.. e desatenção por parte dos responsáveis e o fato de tratos físicos. os receberem alimento em quantidades suficientes. aquela criança pegajosa com uma lesão no corpo. o olhar. ela não olha assim.. que ou a suspeita de violência surge durante a consulta clínica. 2002).... v.. ela recusa [. ao se proceder à anamnese e/ou exame físi.] mui- ças. Saúde Soc.] os maus-tratos né? O desleixo. tas vezes os maus-tratos.. ela quer chamar a atenção da gente.. apesar de co da criança. violência física. evidencia o comprova (Kaplan e col. críticas.

.. né? Atuar no programa como um todo. é situações de violência doméstica descontinuado eu acho. e. situação. onde a minha atuação é.. medo de envolverem-se com o fato. medo sentimentos de impotência.] eu percebo como uma coisa assim presente. prejudica nosso podem apresentar problemas de conduta.. e..] Até (Paggi e Viar. também em saúde mental.] talvez pela descontinuidade [. brincadeiras hipersexualizadas... [.. 2001). que eu cheguei a me per- de violência relacionada à frequência com que é guntar. nós tivemos abuso sexual é importante ressaltar que esse tipo uma situação em que.] tem medo do marido nós. ela tirava a profissionais. outros profissionais como o assistente social e o diabetes. problemas Iglesias (2001) enfatiza que no trabalho com os de aprendizagem.. culpa e vergonha. acaba se prolongando assim.. hipertensão.136-146...] Eu tenho dez anos de vivência no programa com uma questão tão complexa.] essa mulher que o padrasto bate no menino (Entrevistado 19). se a gente pensar outras formas de abordar a família [. violência sexual (Entrevistado 19).. (Entrevistado 9).20.. e. 2011 . um na casa dessa criança conversar com essa avó exemplo dessa questão: [.] um preparo para isso... engloban- psicólogo [. São Paulo. (Entrevistado 10) tica de furtos.1.. 1994). assim como recebem [. enfatiza-se a importância de incor- [.. depressão.... profissionais que atendem situações de violência manifestando conhecimento atípico por assuntos doméstica são frequentes relatos de fatos que ro- sexuais incompatíveis com sua idade.. você acionar o conselho tutelar. para Grosman e Mesterman surra nela [.] Teve uma outra situação que a criança [. assim como demonstram sofrerem represálias pessoais e no trabalho. resistência e ambiguidade ao a vir (Entrevistado 19).. Primeiro. que podem prejudicar generalizado. que ência de capacitação. (1998). transtornos de conduta alimentar. né? E aí.] estava grávida de oito meses [.. Alguns desses saúde física e/ou emocional dos profissionais...] a gente tem que trabalhar a questão do aí a questão da violência doméstica. os profissionais demons. ainda mais a situação da criança e afetar a própria de entre outros (Huertas e col... como a prá. É isso [..] os profissionais as equipe [. cujas causas prováveis podem ser: defici. né? O que.]...... né? Mais assim. Crianças que sofreram ou sofrem abusos sexuais rem que a denúncia veio de nós... essa criança.. né? Não do vínculo [.] se os profissionais do Programa Saúde da conta.. No recorte.] ele deu uma Nesse sentido. deficiência de profissionais de muitas vezes os impede de oferecer um atendimento outras áreas... Por comportamentos são exemplificados: essas razões. porque a gente não foi formado Família.. os profissionais de saúde se deparam crianças. e. a resolução demora traram ansiedade. mentiras.. eu acho que seria mais realizadora para [.] ela contou que essa criança era vítima de [.. mas talvez assim.. agressividade.. com a precariedade dos recursos do serviço. p...] A resistência da mãe [.. é limita- Quanto às manifestações da criança vítima de da...... Acho que a gente precisa de apoio de bom para atuar em puericultura. v. n. já que se espera que eles estejam em própria roupa e manipulava os próprios órgãos condições de fornecer respostas a essa problemá- genitais e falava palavrões.] se a gente denunciar e eles soube. aí assim o problema Durante as entrevistas.. por questões várias.. fazer a parte deles é. de melhor (Deslandes.. Eu tenho assim para mim registro: muito claro que essa equipe reduzida não dá [. ansieda.] para sei se existe [sorri]. formação e capacitação insuficientes para lidarem [.. a violência doméstica contra a criança não 142 Saúde Soc. como ocorre neste saúde da família. a gente foi tica quando confrontados com ela.] a tivesse um preparo melhor na abordagem dessa gente se sente muito só [. até o conselho Dificuldades enfrentadas no atendimento em tutelar conseguir e. tentativas de deiam seu trabalho e que são causa de tensão e de suicídio.] ela porar o tema da saúde mental na prática desses veio junto com a avó. não é? E. que seria menos pior para essa perpetrada se constitui em uma das lesões psíquicas criança: se institucionalizar ou se continuar na mais destrutivas para a personalidade das vítimas família [. trabalho na rua. 1998). narrar as situações de violência doméstica contra Ademais.

pital de referência] ou a gente fala para a mãe: “Oh! Vai denunciar ou corre atrás” [.] a gente aciona o conselho tutelar. Em que pese a importância do Conselho Tutelar mas destinados à prevenção da violência doméstica como órgão essencial para a garantia dos direitos contra a criança. n. [... vê o que está acontecendo e sidade de capacitação específica para lidar com a encaminha para a assistente social de lá [hos- situação.] como que se deve falar com a criança.. agem naquilo que conseguem e indicam a neces- [.] é um Considerações Finais problema sério (Entrevistado 10). como que tange à questão subliminar de ameaças de morte se deve trabalhar com a criança [. Existe também receio dos profissionais em tem para evitar esses conflitos.] a gente leva um trabalho educativo decisão dos profissionais a experiência negativa no [. a importância da proximidade [. adequada assim.pode ser concebida apenas como um problema da a gente não está sabendo fazer uma abordagem intimidade familiar... já que existe uma responsabili.] para que o e de medo.. Isso faz com que os profissionais tica contra a criança. família.] a gente cobra dessa família: As maiores dificuldades que os profissionais en- “Você foi? Você levou sua criança?” [.. relação ao que irá acontecer com a criança caso ela gramas dentro da comunidade além da UBS. v. Têm consciência de suas conselho tutelar. nesta pesquisa percebemos a fim de que eles compreendam as necessidades e o que os profissionais de saúde têm mais facilidade de comportamento de seus filhos nas diferentes etapas encaminhar crianças vítimas de violência doméstica de seu desenvolvimento. No mesmo sentido. p.. cujas consequências se estendem atendimento pelo telefone...... preservados através de políticas públicas e progra. entra em diferentes manifestações se constitui em um pro- contato com a UBS [de referência]. São Paulo. A violência doméstica contra a criança em suas [... mas assim essa família [.] com trabalhos parceiros Percebe-se..20.. que visam à seu papel.. assim.1.] mas tem muita mãe que tem medo de denunciar [. marca já um blema complexo.. que para o Conselho Tutelar.. que há vários pro.. Grosman e Mesterman (1998) fiquem com dúvidas sobre o encaminhamento para afirmam que é necessário propiciar a informação e a esses órgãos (Brasil 2002). 2011 143 .] normalmente a gente conversa com a família..136-146.. São enfáticos casos para unidades ou hospitais de referência e o perante essa demanda. né? seja encaminhada para o Conselho Tutelar.] tá dade do Estado na adoção de medidas para garantir gostando do atendimento que está recebendo lá.. Assim: limitações profissionais diante da problemática..] (Entrevistado 5). por parte dos profissionais em relação à pai também não tenha essa desavença com ela.] a gente detecta. para a família [..] e não sei se trevistados relataram dizem respeito à identificação Saúde Soc.. Damos a devolutiva do plano individual ao plano social. capacitação por parte dos profissionais para os pais. que os direitos da criança e do adolescente sejam né? (Entrevistado 19). Ilustrando: para pronto-socorro e ou hospitais de referências do [. e do envolvimento que os profissionais da Estratégia Outras atitudes tomadas pelos profissionais Saúde da Família têm em relação à comunidade e diante da constatação de situações de violência às famílias na questão da promoção e prevenção da doméstica oscilam entre o encaminhamento dos violência doméstica contra a criança. da criança e do adolescente.. Influencia também a explica [..] várias entidades [. quando situações de violência lhes são prevenção de novas situações de violência domés- encaminhadas.. que não quer que a situação seja de domínio A gente sempre orienta quais são as saídas que público. o Ministério da Saúde Ações Profissionais diante da Violência Doméstica (Brasil 2002) indica que a integração destes com os contra a Criança serviços de saúde ainda é insuficiente e a pouca inte- ração entre eles se encontra abalada pela percepção As ações dos profissionais giram em torno da edu- que os profissionais de saúde têm das dificuldades cação e da informação por meio de conversas com apresentadas por estes órgãos no cumprimento de familiares e/ou grupos comunitários.

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