Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986), Paripiranga, Bahia, Brasil

v. 1, n. 4, p. 32-56, jun./dez. 2016.

A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO
SEMANÁRIO “O PALADINO” (1920-1940): sociabi-
lidade, educação e matrimônio

Vanessa Nascimento Souza1
Mariana Emanuelle Barreto de Gois 2

Resumo: Este artigo analisa a representação feminina e os espaços que
permearam nas primeiras décadas do século XX, e que foram noticiados
no semanário O Paladino, em Paripiranga, no estado da Bahia, entre
1920 e 1940. Foram analisadas algumas edições as quais traziam um
discurso de perfeição e idealização da mulher. As fontes utilizadas fo-
ram o semanário O Paladino, e entrevista com algumas senhoras que
foram eleitas rainha da primavera, embora essas não sejam as protago-
nistas desta pesquisa, mas o relato delas foi essencial para compreen-
der e relacionar com o contexto histórico estudado. A partir do confron-
to das informações, foi possível concluir que o periódico buscava divul-
gar e seguir modelos de centros urbanos, sendo que muitas vezes não
condizia com a realidade da Vila de Patrocínio do Coité, baseada essen-
cialmente na agricultura e com a maioria da população rural. Desse
modo, verifica-se a presença da menina de elite supervalorizada pelo
discurso jornalístico, o qual ajudou a reforçar o que se esperava da
mesma na sociedade.

Palavras-chave: Mulher; Discurso jornalístico; Mulher de elite.

1 Possui licenciatura em História pela UniAGES Centro Universitário.
E-mail: nesajuliao@gmail.com
2 É aluna do Doutorado em História pela Universidade Federal Regional do Rio de Janeiro,

UFRRJ. Coordenadora e professora do curso de licenciatura em História da UniAGES
Centro Universitário. E-mail: marianabarretohistoria@gmail.com

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A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940):
sociabilidade, educação e matrimônio

LA MUJER PARIPIRANGUENSE EM LAS PÁGINAS
DEL SEMANALE “O PALADINO”: la sociabilidade, la
educación y el matrimonio

Vanessa Nascimento Souza3
Mariana Emanuelle Barreto de Gois 4

Resumen: En este artículo se analiza la representación de las mujeres y
de los espacios que impregnaron en las primeras décadas del siglo XX,
que se informaron en el semanario El Paladino en Paripiranga en el
estado de Bahía, entre 1920 y 1940. Se analizaron algunas cuestiones
que dieron un discurso la perfección y la idealización de la mujer. Las
fuentes utilizadas fueron el semanario El Paladino, y entrevistas con
algunas mujeres que fueron elegidos reina de la primavera, aunque
estos no son los protagonistas de esta investigación, pero la cuenta de
ellos era esencial para entender y relacionarse con el contexto histórico
estudiado. A partir de la comparación de la información, se concluyó
que el periódico buscó dar a conocer y seguir los modelos de los cen-
tros urbanos, y muchas veces no coincide con la realidad de la Villa
Coité Patrocinador, basada principalmente en la agricultura y la mayo-
ría de la población rural. Por lo tanto, hay presencia de la joven élite
sobrevalorados por el discurso periodístico, lo que contribuyó a refor-
zar lo que se esperaba de él en la sociedad.

Palabras clave: Mujer; Discurso periodístico; Mujer de élite.

3 Tiene um título en História de lo UniAGES Centro Universitario.
Correo electrónico: nesajuliao@gmail.com
4 És estudiante de doctorado en História de la Universidad Federal Regional de Rio de

Janeiro, UFRRJ. Coordinadora y profesora de la carrera de licenciatura en História de lo
UniAGES Centro Universitário. Correo electrónico: marianabarretohistoria@gmail.com

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quais espaços e comportamentos eram aceitáveis pa- ra as meninas. seus medos e alegrias. Brasil v. A historiadora Michelle Perrot (1988) abor- da que se faz necessário desprender-se dessas visões antigas e buscar escrever uma nova história das mulheres. porém. 21) destruí- am toda e qualquer forma de vestígio histórico que lhe represen- tasse no cotidiano./dez. em Paripiranga. como suas angústias. Percorriam os anos escolares com um úni- 4 . pois as imagens e representações destas eram frutos de construções masculinas. busca-se identificar os espaços permeados por mulheres da elite. de modificar sua própria história. nas primeiras décadas do século XX ainda esta- vam muito fortes as noções dos principais papéis femininos na sociedade. Dentre outras formas de imposições. também não foi diferente. de acordo com a historiadora Michelle Perrot (2007. A historiografia. 2016. elegantes e educadas em escolas de freiras. como as representações e idealizações sociais foram sendo reconstruídas e remodeladas. n. p. 4. nos corações e nas mentes das pessoas ainda prevalecem concepções e noções antigas. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). embora recente. Diante disso. p. não se pensava em deixar evidente o desejo ou opinião da mes- ma em relação a sua idealização social. principalmente entre famílias da alta sociedade. seus sonhos. jun. 32-56. e também pelo silêncio que há muito a mesma esteve acometida. Perceberemos neste artigo que. Paripiranga. as quais buscavam preservar os valores tradicionais e fazer prosperar a riqueza. 1. INTRODUÇÃO As primeiras pesquisas no campo da História das mulheres encontraram dificuldades por falta de vestígios genuinamente femininos. que busque interpretar os diversos silêncios que há muito tempo têm impos- sibilitado um significado real para as experiências destas na his- tória. meninas mimadas. as mu- lheres não se viam como sujeito histórico capazes de criar e man- ter relações. Bahia. Diante disso. Por este motivo. por muito tempo a escrita da história não dava voz às mulheres. vem trazer uma análise acerca dos papéis femininos ao longo da história.

ainda por cima por um rapaz já casado. como o jornal foi responsável por pro- pagar um ideal de mulher perfeita. tímida. que por muito tempo. Silva Favero Arend discute sobre o trabalho. Os métodos utilizados foram análise do jornal O Paladino (acervo do LEPH5) e o confronto com entrevistas realizadas com algumas senhoras com o intuito de resgatar informações sobre os estereótipos acerca da condição feminina no século XX.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade. embora já houvesse na Vila entre os anos 1920-1940 casos de casamentos em que os noivos escolhiam um ao outro pelo amor. 5 . cordata. para compreender qual o modelo ideal de mulher era valorizado neste período. além de boa espo- sa. os autores fundamentais para a pesquisa foi a historiadora Michelle Perrot. Corroborando. traz uma análise histórica das mudanças de concepções acerca dos papeis da mulher ao longo da história. educação e matrimônio co propósito: o contrato nupcial selado entre os pais. Deste modo. Supõe-se que o jornal O Paladino buscava enaltecer um ideal feminino baseado em modelos da alta sociedade de centros urbanos. com uma análise sobre os di- versos silêncios. a distinção entre atividades destinados ao menino e quais eram permitidas para a menina. houve casos noticiados no semanário em que a moça muito sedu- tora é responsável por ter sido desvirginada. frágil e delicada se relaciona no meio social em que sem- 5 Laboratório de Ensino e Pesquisa em História do UniAGES – Centro Universitário. ao matrimônio. dona de casa e boa mãe. impossibilitou a escrita da história das mulheres a partir de fontes genuinamente femininas. educação e lazer das meninas. A historiadora Mary Del Priore. no que se refere à educação. vendendo uma imagem de mulher como sexo frágil e predestinada à submissão masculina. prendada. Veremos também. o qual “vende um burro e paga o dote” para a família. Além disso. de modo que sua única função era ter uma boa instrução educacional que lhe possibilita- ria ser uma dama intelectualizada. o qual era selado pelos país no século XIX e ainda assim é muito presente no início do século XX. aquela que educada.

Patro- cínio do Coité. tão esperado por todos. Os jovens da cidade passavam os fins de semana e feriados com tédio./dez. 4. por exemplo. O que mais se vê nas edições são mulheres transgressoras. na década de 1920. plantar ou colher frutos na roça. era uma cidadezinha sem movimentação. 2016. um bem interessante é de uma menina de 10 anos que dá à luz uma criança fora do país e a polêmica causada por esse fato na sociedade e outras que buscavam reforçar o padrão feminino desejado. ESPAÇOS DE SOCIABILIDADE FEMININA NAS PRIMEIRAS DÉCA- DAS DO SÉCULO XX EM PATROCÍNIO DO COITÉ6 Estando localizada no interior do nordeste baiano. dentre outros casos. 1. para ale- grar os domingos. Portanto. aquelas que fogem às regras envolvendo-se em relações não permitidas. Paripiranga era denominada Vila de Patrocínio do Coité. Ainda não são notáveis nas publi- cações casos de mulher exercendo cargos na prefeitura. Grá- vidas. A partir de agora vamos entrar em um ambiente designado à me- nina-moça-mulher. dias monótonos de cida- de do interior. n. 6Nas primeiras décadas do século XX. quando não tinham atividades de limpar. em meados do século XX. Brasil v. que as moças coiteenses não viessem a cometer o mesmo. e não havia um espaço destina- do a diversões para reunir os rapazes e moças com o objetivo de dançar. jun. pre predomina a hierarquia masculina em algumas atividades. Notável que o periódico buscava noticiar esses aconteci- mentos que causaram transtornos para que servissem de exem- plo. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). espaços restritos e cheios de imposições de bom comportamento e comedimento. que em fins de semana. ainda hoje é. estava em processo de construção o teatro municipal. 6 . p. ao contrário daqueles que residiam nos povoados. Paripiranga. divertiam-se em campos de fu- tebol. rir ou conversar. 32-56. na política. como. Bahia. estas não veem outra saída senão o infanticídio.

em seu tempo de adolescente. quebrar a monotonia dos dias de domingo e santificados. 1). p. 2016. 7 . pois a cidade era muito parada e ainda o é hoje. para trazer diversão aos domingos. na- quele tempo era mais animado. empregam-se em organizar um grupo musical (ABREU. os rapazolas começam a organizar grupos musicais. além disso. p. Observa-se que. educação e matrimônio Diante da monotonia da cidade. 3) ”. para satisfazer o vazio e o jornal noti- cia essa boa nova para a alta sociedade jovem: “vários rapazes. não tinha diversão nenhuma as minhas colegas tudo da minha idade e a festa que a gente fazia era que quase todo domingo a gente fazia uma festa de noite um bailezinho chamava a orquestra de Simões Dias. Neste período as festas aconteciam na casa dos pais de amigas. Dona Wanilda foi uma mu- lher que esteve à frente de seu tempo juntamente com outras em organizar eventos. quando foi construído o clube. 1925. ao que nos informam. como era uma festa mais falada [.. chamava a orques- tra de Simões Dia. eu comecei a namorar com Vavá foi bem numa festa dançante que todo domingo a gente eu me reunia com muitas moças de minha idade. as festas passaram a ter sede própria. aí a gente tirava dinheiro dos rapazes. ela e seus colegas organizavam bailes dançantes e o irmão dela tinha uma orquestra sinfônica que animava os festejos. aqui meu irmão tinha uma orquestra ou era com a daqui ou era com a de Simões Dias eu dancei muito. Conta que foi em uma festa dessas que conheceu seu falecido esposo: Era muito nova. lembra ela.] (TRINDADE. no intuito de preencher o vazio.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade. De acordo com o depoimento de Dona Wanilda de Oliveira Aquino Trinda- de. mas somente quem era associado poderia entrar e prestigiar os eventos. mas. cada domingo em lugar diferente e era uma diversão só.. chamavam uma de Simão Dias para fazer a animação. para a época. pois ela e suas amigas faziam a festa e arrecadavam muito dinheiro. naquele tempo minha filha não tinha auto falante. Mas ela conta que.

4. ao sair para se divertir. 2016. sim. porém não era normal para a época. 1. irmão. essas mulheres deveriam ter uma razão e um destino prede- terminado e estar sempre acompanhadas. justifica-se o porquê ainda hoje existem mães que privam suas filhas de frequentar alguns lugares sociais sem estar em boa companhia. em presença de um adulto. p. a igreja para ir à missa ou novenários. vale ressaltar os espaços de sociabilidade das moças da elite coiteense andavam sempre acompanhadas e fre- quentavam somente lugares dignos de respeito./dez. as autoras Raquel de Barros Miguel e Carmen Rial abordam que: Moças e senhoras “de família”. Para saírem de casa. Paripiranga. 154). as moças poderiam. as senhoras de 70 anos ou mais criaram suas filhas dessa forma. p. os lugares de sociabilidade considera- dos compatíveis com esse tipo de mulher eram expressi- vamente menos numerosos do que os masculinos. Desse modo. seja pelo mari- do. Geralmente. não in- do muito além de igrejas. pois se acreditava que as moças precisavam ser “vigiadas” e “preservadas” para se alcançar um bom partido (ma- rido) e estas deviam mostrar boas maneiras. por uma criança que denotasse estarem envolvidas em alguma atividade ho- nesta (MIGUEL. Bahia. Brasil v. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). casa de parentes. 2013. 32-56. irmã ou. dos bucólicos piqueniques e dos bailes em casas e clubes “de respeito”. No início do século XX. pois as jovens que andavam sem um acompanhante responsável eram mal faladas na sociedade. como os cafés. dos cafés e confeitarias “bem frequentados”. Diante disso. sair sozinhas para os bailes ou outros lugares. até mesmo. além da festa da padroeira e posteriormente aos anos 1960 os eventos sociais que aconteciam no Grêmio Social Esportivo Vitória. quando iam aos bailes no clube 8 . jun. pai. De acordo com o depoimento de Dona Geonilda de Sales Maynart Rabelo. ou seja. n. Nesta perspectiva. de- veriam preocupar-se com fazer boa figura em público.

não havia escola para meninas e estas seguiam o destino do casamento e da materni- dade. Desse modo. 2013. sempre tinha alguém de “vigia” para que esta não se desvirtuasse e desonrasse o nome da família. com maior frequência a igreja. as mulheres não tinham aces- so à escolarização. os calções curtos. a moça deveria andar sempre acompanhada com os pais ou algum parente de confiança.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade. os vestidos e saias sem armação. Sendo assim. que é assegurada a estas não somente uma educação de primeiras letras e curso profissionalizante. meias e sapatos. também os cafés e casas de fami- liares. educação e matrimônio sempre ia com a família. para as meninas. no século XIX: [. verifica-se que nas primeiras décadas do sé- culo passado. bo- nés. acrescenta que no tempo de sua mãe os pais eram ainda mais rígidos e também como a Vila estava ainda se modernizando.] a novidade do ingresso no espaço escolar exigiu rou- pas que facilitassem os movimentos do corpo: para os meninos. [. além disso. blusas mais folgadas e cabelos presos com fitas. para ir à missa ou feste- jos religiosos os mais diversos. (AREND. e. De acordo com a historiadora 9 . somente em 1971.. p. 71) Verifica-se que esse ideal de roupa perdurou até o início do século XX em Patrocínio do Coité. a educação era voltada para alfabetizar somente os homens.]. jaquetas. camisas. coletes.. Segundo Silvia Fávero Arend. A MULHER E A INSTRUÇÃO EDUCACIONAL COMO MEIO DE FOR- MAÇÃO DE UMA BOA ESPOSA Ao longo da história do Brasil. Porém.. lembra ela. não eram todos os lugares que poderia fre- quentar.. com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). sendo estes preparados para o mercado de trabalho. mas também possibilitava o acesso ao ensino superior.

na cidade na década de 1920 e 1940 ainda não havia um número considerável de alfabetizados. educadas./dez. 2013. 34) Entretanto. sua inteligência limitada e voltada para sua “missão” de mãe. 2016. Paripiranga. Brasil v. muito embora ainda hoje haja marcas do passado nessa questão. estas seriam “obedientes” ao marido. p. foram várias as barreiras enfrentadas pelas mulheres para ter acesso a uma educação sem preconceitos e sem separação. assim sendo. Fúlvia Rosemberg. a educação de “Economia Doméstica” visava fortalecer ainda mais a natureza feminina. assegura-se a formação de professoras. pois se acreditava que estas tinham vocação para o magistério. por ser a única pro- fissão que lhe era permitido exercer além da tarefa de cuidar do lar. que era sua essência indiscutí- vel: “rainha do lar” e. interditando a educação mista. p. Dian- te disso. n. jun. segundo notas retiradas do jornal O Paladino. pois muitas mulheres se dedicaram à carreira de docentes durante toda a sua vida. (ROSEMBERG. 32-56. Várias amarras à educação formal e pública das mulheres foram sendo rompidas no transcorrer desse acidentado percurso: a segregação sexual das escolas. até o final do século XIX e início do XX a edu- cação feminina tinha um único objetivo: “verdadeiras mães”. são de longa data as lutas das mulheres para garantir seu lugar no espaço escolar. 1. o impedi- mento à continuidade dos estudos secundários e superior para as jovens brasileiras. Percebemos esse ideal de mãe e professora muito forte na Vila de Patrocínio do Coité. 10 . Segundo a historiadora Fúlvia Rosemberg. o ideário de que a educação de meninas e moças deveria ser mais restrita que a de meninos e rapa- zes em decorrência de sua saúde frágil. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). considerava-se uma educação diferenciada da que era oferecida aos meninos e rapazes por ser a moça “menos inteligente” e “mais frágil”. além disso. no Brasil são muito recentes as conquistas nesta área. Bahia. Entretanto. 4.

não suportará o clima seco e a falta de água. não teem 50 fogos. severa fiscalização. filhos do logar. Comprehende-se. com grande detrimento de Thesouro e dos interesses do ensino. allegação de moléstias imaginá- rias. si creadas. havendo. obteem- na. perfeitamente. para que este. Segue a transcrição da nota com sua sugestão: Essas escolas de 4ª classe. educação e matrimônio No ano de 1924 o Professor Francisco de Paula Abreu pu- blica uma nota na primeira página do jornal O Paladino. será um erro prove- las com professores diplomados pela Escola Normal e ins- tituições equiparadas. candidatam-se a uma cadeira dessas. Moços e moças. solici- tando logo em seguida afastamento ou transferência. proprietárias de terras que colocavam seus filhos em esco- 11 . há quem não lhes suppor- te a monotonia da vida e se queixe. (ABREU. sentem-se tomados de intensa melancolia. bem entendido. nostalgicos. pois. 1924. No meu humilde modo de pensar. pensando viver durante annos em localidades que. deveriam ser providas com alumnos que tivessem feito exames finaes nas escolas publicas das sedes dos respectivos municipios. ao criar cadeiras de 4ª classe. não se julgariam degredados nas povoações circunvizinhas. p. geralmente filhos da capital. 1) Esta nota nos mostra que o município não tinha escolas pa- ra alfabetizar suas crianças. Si nas próprias villas. escripta. amargamente. e quando assumem o exercício. os quaes. se nomeado pro- fessor de fora. somente as famílias ricas. essas cadeiras de 4ª classe. tal sentimento. Taes escolas se cingiriam ao essencial: leitura. que sejam nomeados professores da região. opera- ções fundamentaes da arithmetica e os seus regentes con- tentar-se-iam com quaesquer cem mil réis que o governo lhes pagasse. às vezes. Resulta- do immediato: licenças. do exí- lio a que se vê condenado pela inexorabilidade do destino.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade. por ser morador do lugar e conhecer as especificidades locais. a qual abordava a situação da educação na Vila e dava uma sugestão ao governo do estado. sendo assim.

n. como em Estância. os números são expressivos (AMARAL Apud SILVA. e outros núcleos surgissem ao longo do tempo. las fora da cidade. sedimenta-se em maioria analfabe- ta. Conquanto venha de 1869 o primeiro pedido ao Presi- dente da Província para implantação de uma escola públi- ca. 1.592 4. 4. mas esse fato justifica-se por ser uma cidade do interior baiano e também por ser essencialmente voltada para a agricultura. 32-56. havia uma para as mulheres e uma para os homens. Desta 12 . 2016. não havia na vila escolas públicas no ano de 1920: A herança cultural dessa gente./dez. A frequência será sempre reduzida.173 12. De acordo com a pesquisa do historiador baiano Cândido da Costa e Silva. 13): Paripiranga 1920 1940 1950 Sabem ler 1855 4121 6018 Não sabem 14. Bahia.584 15. 3. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). Brasil v. em maioria. dentre outras cidades circunvizinhas. Paripiranga. no âmbito de sua fé religi- osa que analisaremos. Para a faixa do nosso estudo. e “alisar os ban- cos” ainda hoje é privilégio. acerca da situação educacional em Patrocínio do Coité em meados do século XX. jun. A população infantil escolar é. Eram escolas internas e separa- das.827 TABELA 2: Dados educacionais de Paripiranga entre 1920-1950 Fonte: Ministério da Agricultura e Comércio/IBGE. p. fatores oriundos da estrutura econômica relativizam a boa inten- ção em abrir escolas. obrigada a uma iniciação precoce nas atividades da roça. cuja obra intitula-se Roteiro de vida e da morte: um estudo do catolicismo no sertão baiano. 1982. Podemos notar que o número de pessoas não alfabetizadas nas primeiras décadas do século passado é realmente elevado. Aracaju. p. Boquim.231 Em idade não escolar .

. [. Já os proprietários de terra e donos de casas comerciais ti- nham empregados para fazer as tarefas de plantio e colheita. 2013. principais produtos do perí- odo. educação e matrimônio forma. apreciadas como mais capazes de cuidar. educar e disciplinar as crianças. era o magistério. as crianças costumavam ser educadas em casa. De acordo com as historiadoras Maria Izilda Matos e Andrea Borelli. além dos frutos e legumes variados. na década de 1920 não existiam ainda escolas públicas. os moradores da zona rural buscavam sobreviver a partir dos cuidados e dedicação total às plantações. porém as moças e rapazes de famílias bem situadas socialmente estuda- vam fora e retornavam à vila com o objetivo de abrir escola par- ticular em sua casa para alfabetizar as crianças da elite local. por este motivo as crianças não eram colocadas em escolas. 137) Em Coité não foi diferente. como também. desse modo. Entre 1835 e 1890. as moças e rapazes filhos de comerciantes ou proprietá- 13 . estas ajudavam seus pais no cultivo do café e do algodão. no século XIX “dentre os membros da elite. As “melho- res famílias” empregavam tutores particulares ou mandavam suas filhas para internatos de freiras.]”. (MATOS. a única profissão exercida pelas mulheres em meados do século XX. e as meninas eram colocadas em escolas de freiras. seus filhos tinham todo tempo para se dedicarem aos estudos. p. como se pode verificar nas fontes. o magistério tornou-se basicamente feminino (essa tendência foi chamada de “feminização do magistério”). onde aprendiam as regras de uma boa moça. p.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade. além de reforçar os ensinamentos religiosos. (HABNER. Habner. despertava em algumas o desejo pela docência. principalmente as da alta sociedade. Segundo June E. 2013. 58) De acordo com o relato de Dona Geonilda de Sales Maynart Rabelo.. na medida em que passou a ser visto como um campo por excelência de mulheres.

afirma que não havia somente estudantes que faziam o magistério e voltavam para ser professor. enquanto outras a abandonariam em função do casamento ou da maternidade. o magistério era uma das poucas possibilidades profissionais atraentes para as mulheres das elites e dos setores médios da sociedade. esse pensamento era ainda mais arraigado que na cidade. para terminar os estudos. Brasil v. p. pois entendiam que as meninas. 1. ou seja. além de executar os serviços domés- ticos. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). que é o ginásio de hoje”. desde muito ce- do e sem escolaridade formal. (AREND. pois só existia o “primário. depois de formadas exerciam a profissão por to- da a vida.]. 4.. 32-56. rios de terra iam para Salvador. eram obrigadas a atuar nas lides agrícolas. fosse na cidade ou no campo: Para muitas famílias pobres. Segundo Silvia Fávero Arend. já tinham conhecimento su- ficiente para ajudar os pais na manutenção da família e.. 2013. lembra. Seduzia os jovens por proporcionar um ganho financeiro. n./dez. existiam também estudantes de odontologia. acenando com as possibilidades de um maior status social e de acei- tação em funções públicas e ambientes intelectualizados. 2016. suas filhas não precisavam estudar. 137) 14 . 76) Nesta mesma linha. (MATOS. Além disso. mas tam- bém por conta do aprimoramento intelectual. sobreviver na vida adulta. p. uma vez que as meninas. depois. Boquim. jun. Algumas. Aracaju. as historiadoras Maria Izilda Matos e Andrea Borelli abordam que o magistério durante o século XX era quase que essencialmente a única carreira profissional exclu- sivamente feminina: Até os anos de 1930. [. Nas zonas rurais. Paripiranga. 2013. as meninas de fa- mílias pobres não tinham acesso à educação. Bahia. p. eram jovens da alta sociedade local.

como a exemplo. p. 8 Entrevista cedida por Vânia Maria Aquino de Cerqueira a Ana Maria Ferreira de Oliveira. elas eram fi- lhas do senhor Arnulfo de Cerqueira Passos e Dona Maria Aquino de Cerqueira. Acervo digital do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Histó- ria do UniAGES. as irmãs foram estudar em Salvador e retornaram para exercer a carreira de professora. 22) Esse ideal feminino do Ocidente influencia o padrão dese- jado também em regiões interioranas do Brasil. algumas mulhe- res que se dedicaram à profissão da docência durante toda a vi- da. acima de tudo. na década de 1920-40. nos comportamentos e gestos cotidianos. pa- rece essencial. dentre outras que seguiram caminhos diferen- tes devido problemas de saúde e se aposentaram. (PERROT. Dona Ester. [. que é a formação dos bons hábitos e produz boas esposas. portanto o nome completo não poderá ser divulgado. As virtudes femininas de submissão e si- lêncio. as informações foram coletadas no acervo digital do LEPH – Laboratório de Ensino e Pesquisa em História do UniAGES.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade. no caso de Pa- trocínio do Coité. educação e matrimônio Pode-se observar. as instruções educacionais para as mulheres excluíram as meninas do “povo” e se voltam às moças da alta sociedade. cumprindo a lei de direitos autorais. em Patrocínio do Coité. era comum que as mo- 7 Não foi realizada entrevista com essas senhoras. em memória de suas irmãs. E. Analisando seus relatos. Dona Carmelita7. 15 . percebe-se o orgulho de ver ex-alunos na faculdade e também seguindo a mesma profissão dizendo-se baseados nos exemplos de um belo trabalho realizado por esta. mães e donas de casa. são cen- trais nela. grandes comerciantes e proprietários de terra da antiga Vila de Patrocínio do Coité.. pelo contrário. o pudor. Dona Esileide.] a educação. Segundo a historiadora Michelle Perrot. a honra feminina do fechamento e do silêncio do corpo. De acordo com depoimento de Vânia Maria Aquino de Cer- queira8. da Dona Giovana. 2003. irmã da senhora Wandete Aquino de Cerqueira e Vandi- va Aquino de Cerqueira Nascimento (já falecidas).. tinham amor pela profissão e nunca se esqueceram das escolas onde atuaram e de seus alunos.

Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). sua condição de mãe de vários filhos. Al- guma educação poderia auxiliá-las a serem mães melho- res..] A educação para mulheres de classe alta era centrada na preparação para seu “destino final” de esposa e mãe. e melhores companheiras para seus maridos. Além disso. pois o ideal do período versava e valori- zava aquela que mais filhos tivesse. pois o objetivo dos pais ao dar a melhor educação às filhas é de que estas consigam um bom casamento e possam assim fazer prosperar a riqueza da família. BOA MÃE 16 . ças de alta sociedade tivessem uma boa instrução educacional. mas não significa dizer que todas as moças seguem os desejos e caprichos dos pais. por não haver a preocupação de prevenir a gravidez. 57) Além disso. A abordagem será acerca desse estereótipo de “predestinação” a que esteve sempre submetida a mulher. 1.. p.. Desse modo. que é a maternidade. (HABNER. boa mãe e submissa ao esposo. elas eram vistas como guardiãs do lar e da fa- mília e mantenedoras da “base moral” da sociedade. cujo objetivo era uma boa esposa. por terem sido alfabetizadas e educadas com manuais de boas maneiras. jun. comportavam-se muito bem diante da socie- dade. n. “PREDESTINADA À MATERNIDADE”: BOA ESPOSA. 4. 2013. Paripiranga. De acordo com June E. 32-56. gestos corpo- rais e faciais. Brasil v. [. a qual deve ser educada para seguir seu destino natural. 2016. sempre existe aquela que foge às regras. sabiam como agir em público despertando o de- sejo dos moços da alta sociedade./dez. Cabia-lhe a função de ser objeto de satisfação mas- culina. Bahia. o próximo tópico irá discutir a relação da educação feminina na formação de uma “boa esposa e boa mãe”. era-lhe imposto o silêncio e descrição em sua fala.. Habner: [. pois demonstrava tamanho amor materno esta possuía. p.].

Dona Josefa do Nascimento Souza. p. 47) Esta é uma noção de mulher que vem sendo debatida ao longo da história da humanidade e ainda hoje ouvimos muitos afirmarem que este é o papel da mulher. [. esse vaso que recebe um sêmen que se supõe sempre fecundo. são cons- cientes (ou não) de que elas mesmas são responsáveis por sua própria história e que as concepções e preconceitos há muito arraigados na sociedade só vão mudar quando elas se reconhece- rem como atores ativos capazes de transformar a realidade. Temida.. Principalmente em famílias ricas. pois as mulheres estão cada vez mais buscando quebrar os tabus e mudar os conceitos já cultivados há séculos. educação e matrimônio Dependente sexualmente está reduzida ao “dever conju- gal” prescrito pelos confessores. na sociedade coite- 17 . O interessante nesse relato é quando ela fala da chegada do esposo em casa. vergonhosa. 2007. as moças eram prometidas em casamento muito novas. a esterilidade é sempre atribuída à mulher. tinham medo de que sua filha crescesse e procurasse um marido de família ruim ou viesse a dar o nome a falar. Isso demonstra que as famílias prezavam por valores morais. E ao dever da maternida- de.. de sua avó materna (Cecília) que se casara aos 11 anos de idade. diferentemente do contexto das mulheres norte-americanas. loira. que o encontrava sempre na casa das vizinhas brincando de bonecas ou nos pés de fruteiras. pois. onde os pais eram os responsáveis por cuidar da honra da família e decidiam até o futuro matrimonial das meninas. Em conversa sem o intuito de entrevista com a Sr.]. (PERROT. para garantir a perpetuação da herança. Sendo ela uma menina muito bonita de olhos azuis.ª. ela aborda a história que ouvia sua mãe falar em sua adolescência. que completa sua feminilidade.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade. despertara o interesse de um moço mais velho e de boa família que faz o pedido de casamento aos pais e é aceito. porém. mas muito já se con- quistou relacionado a mudanças de concepções históricas do passado. sendo eles do interior.

Um vocabulário pró- prio às estratégias matrimoniais era colocado em ação: aliança. salvar as aparências. assegurando a “continuidade do sangue” e do patrimônio das famílias envolvidas. n. Certa angústia os perseguia quando a filha atingia a idade de casar. tornava-se moça! Nesse momento. p. não só porque envolvia duas pessoas. fiel. Através das futuras gestações não só fi- lhos. o noivado entre a menina-moça e seu pretendente. em meados do século XX. en- tão. ense. continuam por muito tempo sen- do vistas como damas do lar. 35) 18 . ocasião em que era bom ter uma rede de relações para. p. 32-56. escolhiam o noivo e faziam o casamento: A chegada das “regras” (menstruação) anunciava que a menina já estava pronta para o casamento. 2013. (DEL PRIORE. 1. p. Segundo Silvia Fávero Arend. Em missas e festas. nome. os pais entendiam que elas já es- tavam prontas para casar e logo começavam os preparativos do enxoval. já podia ser selado pelos pais. 4. era como uma espécie de negócio em que tinha como único fim resguardar os bens da família: Por muito tempo. mas porque se tratava de um mecanismo presidido pelos pais. geralmente mais velho. mas herdeiros seriam produzidos. no século XIX as meninas. jun. as mães inspecionavam os candidatos com o olhar. Bahia. 2016. Brasil v. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). quando ficavam menstruadas. fortuna. A necessidade da virginda- de da noiva era condição fundamental para que a aliança se concretizasse. A menina. 67) De acordo com a historiadora Mary Del Priore. descobrir um candidato aceitável. então. zeladora dos valores tradicionais. Paripiranga. o casamento foi um “negócio”. (AREND. boa mãe e boa esposa./dez. analisan- do as cifras das fortunas familiares.

foi o “Dia das Mães”. a senhora Capi- tulina de Jesus. pois não havia prevenção nem cuidado. com 39 annos de edade. estando vivos 14. em 1939. 5:000$000. o mais chamativo está na quantidade de filhos. Alcançou o primeiro prêmio. sexta-feira.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade. que teve 16 filhos. assim. sendo o homem chefe da casa e se tem uma imagem da mulher ligada aos afazeres domésticos e à procriação. de acordo com a historiadora Carla Bas- sanezi Pinsky. Vejamos a transcrição abaixo: . casada. 1939. as moças terem 13 ou mais filhos. dando-lhe um prêmio em dinheiro. Aborda ainda que: 19 . bus- cando. (ABREU. do sécu- lo XX. sendo distribuídos prêmios às mães de maior numero de filhos. o movimento feminista e a chamada “Revolução Sexual” somente ganha forças no Brasil na década de 70. a qual traz uma notícia de um evento do dia das crian- ças que foi dedicado a homenagear a mulher que mais tivesse filho. 1) Observa-se nesta notícia que o ideal de “mulher mãe” neste período era fortemente reafirmado no discurso jornalístico. influenciar a sociedade com publicações de outros estados e também de outros países que trazem a maternidade como uma graça divina. que é moti- vo de premiação e homenagem. porém os padrões de família e de casamento seguem re- gras tradicionais dominantes. 13. em Salvador”. educação e matrimônio Era muito comum neste período. p. Interessante a matéria intitulada “O dia das mães”. Nesta perspectiva. publicada no semanário O Paladino. Além disso. Houve sessão no “Instituto Histórico da Bahia.Uma das comemorações mais sympathicas da “Semana da creança”. a qual deve ser seguida por todas. tão pouco se divulgava o uso de preservativos e contraceptivos. pois a mulher cumpre seu “des- tino natural” com a realização materna. somente as mulheres da classe média e alta que residiam na cidade tinham essas informações por estudarem fora.

Bahia.] pregam a submissão da esposa ao marido. (PINSKY. 4. porém. se compara- da com o passado. proíbem a dissolução do casamento e criticam dura- mente muitas das modificações que estão ocorrendo na socieda- de”. segundo os estudos. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). jun. mantêm-se com toda sua força até 1965. n. “o chefe da ca- sa”. 2014. pois o hospital da cidade só fora construído em meados da década de 70 do século passado. em decorrência dos meios de comunicação em alta e a forte influên- cia norte-americana no Brasil.. 18) Entretanto. (PINSKY. mãe e filhos./dez. as famílias são de fato tipicamente compos- tas por pai. diante disso as transformações e difusão das tecnologias medicinais demoravam anos para serem implantados na cidade.. essa instituição vai perdendo seu poder. a igreja católica continua exercendo grande influência nos padrões de conduta. A au- toridade máxima ainda é conferida ao pai. 32-56. Paripiranga. De acordo com a historiadora Mary Del Priore. p. em Patrocínio do Coité neste período as infor- mações que chegavam de fora eram através do rádio e assim pouco seguidas pelas mulheres que eram muitas vezes proibidas de assistirem aos programas por seus pais ou maridos. e a prole é reduzida. Pois esta conserva modelos tradicionais que: “[. Nas casas de classe média. pois a partir de então era a moça e o rapaz responsável por esco- lher quem namorava. os padrões tradicionais de casamento. 2014. Diante disso. são contra o trabalho feminino fora do lar. As leis também enfatizam a imagem da mulher exclusiva ao lar e à procriação. Brasil v. 1. A família conjugal é o modelo dominante. 2016. e garantida pela legislação que reconhece o trabalho masculino como a principal fonte de recursos da unidade doméstica. 18) Além disso. do século XIX para o XX muito se conquistou com relação ao casamento. p. As mu- lheres não tinham a opção de prevenir a procriação e tinham muitos filhos. entretanto. o que mais impressiona é o meio utilizado para continuar divulgando um ideal de mulher. 20 . p.

porém. ainda há resquícios desse modelo de sociedade patriarcal enraizado. [. a sexualidade feminina esteve sem- pre sufocada no sertão. ele que era considerado res- ponsável pelo flerte e cabia à mulher se resguardar para o futuro marido.. principalmente em povoados. pois as mulheres intelectuais nesse período eram consideradas perigosas.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade.]. Induzida para o dever de procriar. seja feira. enquanto a iniciativa. escamoteou seus impulsos e desejos sexuais. dos bons costumes. é sedução e cilada para o homem. a participação no merca- do de trabalho. seja para ir à escola ou para outro lugar. 1982. os pais criam as filhas como se em uma “redoma de vidro”. De acordo com o historiador Cândido da Costa e Silva. (DEL PRIORE. p. p. Jornal das Moças ou seções femininas de O Cruzeiro im- pactavam como formadoras de opinião.. a força e o espírito de aventura definiriam a masculinidade. 21 . [. 53) Além disso. Você. a iniciação da mu- lher é ainda mais furtiva. 85) Analisando esse período e comparando com os costumes de alguns idosos. E o que elas dizi- am? Que ser mãe e dona de casa era o destino natural das mulheres.] A mu- lher. aborda que: As revistas tinham então um papel modelar no que dizia respeito à vida familiar... Pois aquelas que se diziam livres eram consideradas transgressoras das regras morais. Diante disso. a mulher sertaneja sempre teve sua sexualidade sufocada pelo domínio masculino. Querida. e as revistas eram as peças-chave para atingir esse fim. as moças da elite precisavam ser recatadas. Vida Doméstica. 2013. principalmente com os novos hábitos urbanos: Nesse mundo dominado pelo macho. Por representar uma dimensão da liberdade pessoal. educação e matrimônio aquela submissa ao marido e destinada a cuidar da casa e dos filhos. nunca deveriam procurar o rapaz. (SILVA. em que devem obe- decer-lhes.

es- tereótipos construídos e reconstruídos ao longo da história. a pesquisa desenvolvida evidencia que “mãe. Brasil v. A cada edição. 106) Nessa busca pela mulher perfeita. não cabe dizer que a mulher coiteense era igual à mulher de outras cidades brasileiras. “predestinação à maternidade”. elas apareceram com uma característica específica. os jornais da época busca- vam sempre trazer a imagem de mulher cujos estereótipos ver- savam por “sexo frágil”. deveria se manter re- catada e cordial sem ser vulgar. p. n. Paripiranga. Desse modo. (SANT’ANNA. formosa e protetora do lar” era o ideal de mulher que circulava nas páginas amareladas e rasgadas do periódico O Paladino. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). ao mesmo tempo em que se bus- cava um padrão de beleza que excluía as meninas magras. sendo que eram discursos pautados em desejos e valores de uma sociedade que ainda prezava por tradições e concepções do século XIX. 4. ou missa deve pedir autorização do pai e só sair em com- panhia de um adulto e com hora para voltar. Desse modo. que eram vistas ora como “doentes” ora “pobre e feia”. Período em que cabia à mulher uma educação restrita e diferenciada da- quela que era designada para os meninos. festa. p. conse- quentemente. Bahia. a pesquisa foi viável em decorrência das fon- tes históricas catalogadas no acervo do LEPH . jun.Laboratório de 22 . 1. mas que elas com- partilhavam de ideais semelhantes. com vocação para o magistério. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente artigo buscou discutir os estereótipos que ain- da notamos fortemente enraizados na mente das pessoas atual- mente. e mostrou que são construções históricas que variam no tempo e no espaço. o discurso jornalístico pautava-se nas publicações em nível nacional e internacional. Sendo muitas vezes propagador de um ideal. 32-56. 2013. 2016. para reforçar o que se esperava da mulher no meio social. na busca por reforçar seu papel na sociedade./dez.

2013. HABNER. Joana Maria. 23 . REFERÊNCIAS AREND. Histórias e conversas de mulher. (orgs. Andrea. Nova História das mulheres no Brasil. Carla Bassanezi.). Raquel de Barros. In: PINSKY. PEDRO. MIGUEL. 2013. PINSKY. Carla Bassanezi. MATOS. Trabalho. Joana Maria.A MULHER PARIPIRANGUENSE NAS PÁGINAS DO SEMANÁRIO O PALADINO (1920-1940): sociabilidade. Carmen. PEDRO. São Paulo: Contexto. e que foi responsável por for- talecer e reafirmar o papel da mulher no meio social. Mary. escola e lazer. pois possibilitou um minucioso detalha- mento de aspectos sócio-políticos e culturais do contexto femini- no em Paripiranga entre os anos 1920-1940. São Paulo: Planeta. Silvia Fávero. In: PINSKY. PEDRO. Nova História das mulheres no Brasil. Lazer: “programa de mulher”. Nova História das mulheres no Brasil. educação e matrimônio Ensino e Pesquisa em História do UniAGES e o confronto com as entrevistas realizadas. Através da metodo- logia de pesquisa e da análise da fonte. Maria Izilda. PEDRO. BORELLI. RIAL. muito em- bora esse ideal tão propagado foi sendo construído e reconstruí- do sem a preocupação de identificar como essas protagonistas se sentiam ou viam-se diante de tal divulgação. Carla Bassanezi. Trabalho: espaço femini- no no mercado produtivo. São Paulo: Contexto. Joana Maria. In: PINSKY. June E. Nova História das mulheres no Brasil. 2013. Joana Maria. Honra e distinção das famílias. DEL PRIORE. Carla Bassanezi. foi perceptível que os padrões buscados pelo discurso jornalístico almejavam atender a interesses da sociedade da época. 2013. São Paulo: Contexto. 2013. São Paulo: Contexto.

2016.). São Paulo: Contexto. Joana Maria. 24 . Fúlvia. Corpo e beleza: “sempre bela”. Entrevista concedida por Vânia Maria Aquino de Cerqueira – acervo digital do LEPH – Laboratório de Ensino e Pesquisa em História do UniAGES. SANT’ANNA./dez. (orgs). PEDRO. O corpo feminino em debate. Mulheres educadas e a educação de mulhe- res. Roteiro de vida e da morte: um estudo do catolicismo no sertão baiano. Bahia. Maria Izilda Santos de. Paripiranga. FONTES Jornal O Paladino 1920-1939 Entrevista concedida por Geonilda de Sales Maynart Rabelo. Carla Bassanezi. p. Entrevista concedida por Wanilda de Oliveira Aquino Trindade. Minha História das mulheres. Cândido da Costa e. São Paulo: Editora UNESP. 27 de janeiro de 2016. In: MATOS. 32-56. 03 de fevereiro de 2016. Michelle. PINSKY. Nova His- tória das mulheres no Brasil. Denise Bernuzzi de. São Paulo: Ática. Brasil v. Rachel. SOIHET. São Paulo: Contexto. n. 2003. Mulheres dos anos dourados. Revista Saberes UniAGES (ISSN 2358-5986). 2014. PERROT. Nova história das mulheres no Brasil. Carla Bassanezi. Os silêncios do corpo da mulher. São Paulo: Contexto. jun. PINSKY. _________. PEDRO. 2013. ROSEMBERG. 1. 4. São Paulo: Contexto. In. Carla Bassanezi. Joana Maria. (orgs. SILVA. 2013. 1982. In: PINSKY. 2007.