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Notas (breves) sobre a cooperação técnica internacional para o desenvolvimento

Notas (muito) breves sobre a cooperação técnica internacional
para o desenvolvimento.1

Antonio Carlos de Souza Lima2

As observações que se seguem devem ser entendidas como notas de uma
reflexão em curso, que por falta de tempo e outras condições para melhor
elaboração tomam aqui uma forma ensaística e provisória, ainda assim
sistematizando questões observadas em projetos de intervenção ou de pesquisa em
que tenho sido parte efetiva da equipe de investigação, ou a que tenho podido ter
acesso por meio da atividade de orientação de pesquisadores. Para não lhes retirar
esse aspecto precário e “em curso de”, sua fragmentariedade, que se relaciona
também à natureza primeira de comentários para debate, opto por organizar o texto
sob a forma de itens.
1) O primeiro problema com que o pesquisador se depara quando tenta
entender, nos dias de hoje, a chamada cooperação técnica internacional para
o desenvolvimento é a ausência de definições claras, cientificamente
formuladas para o que se pode delinear amplamente como espaço de atuação
e de virtualidades possíveis de um conjunto de agentes e agências,

1 O presente texto resulta da sistematização de idéias suscitadas pelo debate dos textos de Kelly
Cristiane da Silva e de Wilson Trajano Filho no excelente e instigante seminário que deu origem a
esta publicação, bem como pela experiência de pesquisa sobre as políticas indigenistas brasileiras no
cenário contemporâneo e de orientação aos níveis de mestrado e doutorado de pesquisadores, de um
ângulo antropológico, de dispositivos e organizações da cooperação técnica internacional para o
desenvolvimento. Devo, pois, agradecer a Deborah Bronz, João Paulo Macedo e Castro, Maria Barroso-
Hoffman, Maria Gabriela Lugones, Natacha Nicaise, Renata Curcio Valente e Roberto Salviani, que têm
me permitido pensar além de minha própria experiência. Com Maria Barroso tenho ainda
compartilhado a gestão de um projeto de intervenção social (ver
http://www.laced.mn;ufrj.br/trilhas) financiado por uma fundação filantrópica, a Fundação Ford,
cujo modus operandi atual – em especial onde dominam os especialistas em educação - reflete em
muito o dos organismos multilaterais de fomento e cooperação. Nessa perspectiva, Dezalay, Yves &
Garth, Bryant G. 2002 – The internationalization of palace wars: lawyers, economists, and the contexts
to transform Latin American States. Chicago: The University of Chicago Press.

2Professor Associado de Etnologia do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ, onde é
docente e orientador de pesquisas no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social bolsista de
produtividade em pesquisa 1C do CNPq, e Cientista do Nosso Estado/FAPERJ (2004-2006). É Co-
coordenador do Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento LACED/DA/MN-
UFRJ.

Antonio Carlos de Souza Lima

sem criticá-la. Espécie de entidade supra-real. ativismo não-governamental etc). heterogeneidade esta que acaba sendo personificada enquanto um ente específico: “A Cooperação”.Notas (breves) sobre a cooperação técnica internacional para o desenvolvimento governamentais ou não-governamentais.(diferente de outras que acabamos muitas vezes por encampar em “A Cooperação”) alinhando todas essas diferentes intervenções (desde ações de origem religiosa e missionária até às provenientes de instituições do sistema financeiro internacional e do sistema ONU de agências multilaterais) numa história única e linear. filantrópicas privadas. em que contexto histórico cada aspecto dessa heterogeneidade foi formulado. Abrimos mão de definir claramente o que procede de onde. Assim. muito diferentes entre si em sua gênese histórica e social. sem enfrentarmos ver claramente os limites explicativos do uso de cada uma dessas noções. quais os agentes privilegiados na execução diferencial dessas práticas e que se mantêm muitas vezes íntegras em seus modus operandi e efeitos desejados. de redes de relações atuantes em variadas escalas. tradições de conhecimentos. apesar da adesão tópica a certos princípios de gestão recorrentes hoje entre diversas instituições amalgamadas em “A Cooperação” (missionárias. cumprimos um mandato que não é nosso enquanto investigadores do social. por um lado encontramos textos dos nativos do “mundo da cooperação” que anulam a heterogeneidade que quero destacar como ponto de partida para a reflexão. fluxos culturais e mundos sociais resultantes de histórias interconectadas. sendo o recente texto de Carlos Lopes (2005) um bom exemplo de manual Antonio Carlos de Souza Lima . Algumas variações são chamar tal heterogeneidade e dispersão de (neo)(pós)colonial ou imperialista. multilaterais. os países do “Terceiro Mundo”. centrando-se nas instituições multilaterais do Sistema ONU. Agimos como os especialistas situados em instituições cuja finalidade é exatamente a de promover a CT – como alguns abreviam cooperação técnica . estatais. “A Cooperação” via de regra acaba sendo alvo de uma espécie de pretensa mega-operação de denúncia contra os arautos da “globalização” (sic) e do “desenvolvimento” que governariam por detrás dos biombos das “sociedades civis” e do “Estado”. Ao fazê-lo. de saberes. remetendo-as a um passado que “não passou”.

dentre eles redes de ONGs e intelectuais. investimento aparentemente mais apagado frente à supervalorização englobante dos usos mundanos do termo globalização. laudatório e encomiástico. desconstruindo “A Cooperação”. e mais destaca os trabalho de sociologia histórica de seu país que o manual que tem a função de prefaciar. nem sermos seduzidos pela projeção midiática do profetismo intelectual a ele associado. do que de fato estarem empenhados em analisar um fenômeno social.3 Por outro. que visivelmente não dá conta de tudo aquilo a que se propõem seus ideólogos de primeira hora). pois. Leia-se também com atenção o “Prefácio” de Alberto Costa e Silva que.Notas (breves) sobre a cooperação técnica internacional para o desenvolvimento prescritivo. as agências neles intervenientes não apenas no sentido 3 Cf. ao apresentar ao público o autor. Carlos. Veja-se em particular as páginas 43-70. na época da publicação representante das Organização das Nações Unidas (ONU) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). 2005 – Cooperação e desenvolvimento humano: a agenda emergente para o novo milênio. destaca enfaticamente o seu passado: o de um ex-pé vermelho. São Paulo: Editora da UNESP. (neo)(pós)-colonialismo. capaz de nos orientar na produção de objetos investigáveis em termos histórico-antropológicos sem sermos capturados pelas auto-imagens desse mundo ou por esforços às vezes a ele limítrofes e gramaticais. por meio de análises de situação. parta para formular uma definição provisória de cunho heurístico e operacional. imperialismo (termos que também bem poderiam ser estudados com mais rigor no cenário de estudos sobre “A Cooperação”. Lopes. que com 22 anos escrevia livros editados em francês. 178. como algumas formas de ativismo que o combatem. Antonio Carlos de Souza Lima . Poderíamos começar lembrando que a idéia de cooperação internacional deita fundas raízes nos saberes confluentes na diplomacia. temos os circuitos críticos. Precisamos. intelectual brilhante da Guiné-Bissau. que mais parecem se sentir por rejeitados “A Cooperação” em seu desejo de participar da repartição de pequenos recursos ou de grandes áreas de influência. atentar para a necessidade de um esforço de formulação conceitual que. por exemplo. Para isso. 2) Um movimento analítico evidente me parece ser o de equacionar a relação histórica entre cooperação técnica (logo desenvolvimento) e colonialismo. tomar contextos etnográficos (como Kelly Silva e Daniel Simião o fizeram e que nos enreda nesse livro) definidos e decupar.

retóricas e sentimentos imantam as interações do presente. por mais que as fórmulas rituais sejam as mesmas e que os interesses predominantes sejam os financeiros. transformando contextos sempre inocentados como técnicos. de contar com povos indígenas ou outras minorias étnicas dentro de suas fronteiras (e como essa presença é metabolizada em termos de identidades nacionais e dos processos de formação de Estado). há um passado incorporado e apreendido pela socialização (inclusive escolar). em espaços de luta política intensa onde os agentes muitas vezes agem como pequenos guerreiros ou diplomatas.. A abordagem sóciogenética orientada por pontos de vista gerados em pesquisas antropológicas pode nos mostrar o quanto cada uma das agências de cooperação técnica deve aos movimentos expansionistas de seus Estados de origem. Antonio Carlos de Souza Lima . brasileiros ! Entre estes a experiência de ter sido colônia. 3) Assim. estereótipos. Além de se ter toda uma carga de “expressões obrigatórias dos preconceitos” nacionais.. e o quanto as assimetrias coloniais. se me permitem a imagem brincalhona e imprecisa. mas também no de uma antropologia histórica que estude suas trajetórias sociais. viver e atuar no “mundo da cooperação” e nas situações objetivas de ações para o desenvolvimento. com certeza reportáveis a contextos histórico- nacionais muito distintos. de ser.Notas (breves) sobre a cooperação técnica internacional para o desenvolvimento de sua prática presente. potência hegemônica traz de certo variações que não podem ser desprezadas e reduzidas a expressões distintas de um mesmo “ocidente”. é um movimento analítico necessário e importante. ou ter sido. britânicos. verdadeiros “Estados nacionais incorporados”. norugueses ou. perpetuadas em arquivos de imagens. não me parece que possamos equalizar (por mais próximos que possam parecer na atualidade e por mais que acabem por se tornar partes de um mundo social prenhe de conexões) a ação das agências de cooperação e dos cooperantes norte-americanos. um trabalho morto simbólico circulante em seus países de origem que influem nos modos de perceber. australianos. para brincar com a idéia de Marcel Mauss. como esses movimentos repercutem (ou não) no presente.

ensinaram a várias gerações da burguesia nativa verdades importantes sobre a história. pela juventude). seja em espaços como os dos 4 Said destaca que “As grandes escolas coloniais.Notas (breves) sobre a cooperação técnica internacional para o desenvolvimento 4) Se a pesquisa aponta continuidades entre formas de cooperação técnica e práticas que lhes são pretéritas e reportáveis à ação colonialista dos “países doadores de cooperação”. em especial das elites nativas. crenças. Natacha Nicaise tem encontrado importantes conexões nessa direção em seu estudo sobre a União Européia e sua política de comunicação para o desenvolvimento. Antonio Carlos de Souza Lima . São Paulo:Companhia das Letras. característico de quadros que vagam de agência em agência (não esqueçamos que tais agências empregam quantidades ponderáveis de funcionários em seus países de origem. a ciência e a cultura. motivações para fazer o que faz – seja o do espaço de exercício profissional. as ações de CT parecem assumir. p. 2002. 5 Reporto-me aqui às análises de Adriana Vianna sobre o que chama de “a opressão da bondade” em “Os limites da menoridade” (tese de doutorado). seja o que poderia ser reportado ao pantanoso terreno dos que como meta pessoal desejam “fazer o bem”5. quando olhadas de perto. e nos perguntarmos por sua versão encarnada – o cooperante. Suas trajetórias podem nos apontar para as instituições. milhões de pessoas absorveram os princípios fundamentais da vida moderna. A partir desse processo de aprendizado. 1995 – Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. A primeira vertente diz respeito à necessidade de se proceder de modo semelhante ao para a desconstrução da expressão cooperação técnica e do ente “A Cooperação”sugerida no item 1. trajetória profissional. arduamente disputado. configurando-se num importante mercado de trabalho. saberes. que passaram historicamente a assumir muitas dessas funções de governo sobre seus próprios povos em regimes de governo indireto nos quadros do colonialismo do XIX/XX. formação acadêmica. por exemplo. 282. ideologias. então precisamos considerar mais seriamente duas vertentes que daí podemos desdobrar4. Rio de Janeiro: PPGAS. Construir sua história de vida pessoal. e se Edward Said estava correto quanto ao peso das escolas coloniais na formação de funcionários para a administração dos impérios. Edward. em especial numa teia que vai das ações voluntárias ao recrutamento para postos de trabalho centrados nas ações de cooperação. conhecimentos que na atualidade guardam possíveis homologias com as “escolas coloniais”. Estudá-las seria vital. mas permaneceram como dependentes. subordinados a uma autoridade cujas bases estavam distantes da vida delas” Said. ou especialista técnico. 5) A segunda vertente remete-se ao sentido mais profundo que. perito.

). muitos definidos como especialistas nisso ou naquilo. o ensinamento de que se apossa o “nativo” é de que em sua vida será no máximo sempre um reflexo distorcido do cooperante. E isso é feito por meio de uma infindável série de técnicas performativas – métodos de planejamento estratégico. tudo isso em troca de (por vezes) minguados recursos financeiros e políticos frente aos desafios reais. o que está em jogo em cada situação de “ajuda ao desenvolvimento”. no entanto.6 Afinal. De certo modo. aprenda a repetir os modos do cooperante. muito ao modo da “English Nanny”. 1974 – “Anthropology and Nanies” Man (N. treinamentos. a “desigualdade” ou algo assim procura-se ensinar um modo de apresentação de si nos contextos (locais. Quero dizer que antes de efetivamente se ensinar algo de relevante para “combater a pobreza”. Não está em jogo exatamente a tradução das diferenças.S. deixando-o. mais que um modo de pensar. oficinas. uma etiqueta do que seja neles participar. regionais. valorados como melhores e únicos. de ser e viver. seja no dia a dia de ONGs configuradas como institutos de pesquisa e intervenção financiados com recursos internacionais: as suas dimensões (entrecruzadas) pedagógicas e performáticas. uma maneira de se expressar e transigir. emprega. capacitações etc). nacionais e internacionais) em que esses assuntos são considerados. no entanto. inferior que é seu modo de ver o mundo .Notas (breves) sobre a cooperação técnica internacional para o desenvolvimento bancos multilaterais de desenvolvimento – em especial e destacadamente o Banco Mundial –. pela infindável série de procedimentos avaliativos que também treina a responder e a aplicar. vivências. mas o adestramento na 6Para a imagem da babá inglesa. A ritualização exacerbada do que poderia ser um diálogo direto em que se procurasse entender. ver Boon. “receptor da cooperação” ou como se o chame. uma quantidade ponderável de profissionais. uns e outros. Pouco a pouco o cooperante adestra seu interlocutor para responder aos procedimentos. Antonio Carlos de Souza Lima . 9(1). James A. modos de interação controlada e dirigida (grupos focais. sempre com a sensação de desconforto e precariedade. o que se parece querer é que o “nativo”. um jargão e. técnicas de eliminação de conflitos (logo de posições diferenciais).

autoritários etc. Lembremos do que foram os anos 80 e 90 do século XX na desmontagem de alguns elementos fundamentais da seguridade social dos Estados do bem- estar em países europeus.governamental são fluidas. b) elas ficam ainda melhores se além de curtas forem pouco custosas financeiramente – pela “transferência de capacidades” (os rituais e etiquetas do item anterior. desiguais. Muitos desses “não-governamentais” apóiam-se em redes de parentesco. e que os integrantes desse mundo migram entre escalas e para dentro e fora dos limites dos governos com alguma freqüência. Em contrapartida podemos ver um ex-quadro de governo assumindo funções em empresas e em ONGs. ou de se endividar (mas com novas retóricas e salvaguardas para os doadores) para deixarem de ser pobres. seu curto prazo – são boas as intervenções que supõem de forma totalmente irrealista a reversão de séculos de história em um tempo breve. de relações de amizade e profissionais e só fazem o que fazem porque assim se ancoram: numa mesma família (brasileira! Imaginem as britânicas). a afinar os “periféricos” aos “centros capitalistas” do poder no plano global) os receptores da cooperação deverão ser capazes de “se virar” por si mesmos.Notas (breves) sobre a cooperação técnica internacional para o desenvolvimento formatação de modos de expressão (mais que de pensamento) em novos códigos de comunicação e comportamento. 6) Duas características me parecem importantes de ser destacadas em todas as formas de “ajuda” e nas técnicas que utilizam: a) sua transitoriedade. e o quanto esses “novos” mercados de trabalho configurados por grandes redes de ONGs. lobbistas na esfera dos governos e empresários. Não à toa é tão difícil mapear redes sociais quando se lida com fenômenos como “A cooperação” – esse Antonio Carlos de Souza Lima . 7) Seria ainda importante reconhecer que não se pode estudar “A cooperação” como seus ideólogos pedem para que seja ser estudada e praticada – como fenômeno essencialmente entre governos ou parte do sistema de instituições multilaterais. sobretudo. significam para as novas gerações. muitas vezes agindo com financiamentos públicos. podemos encontrar próceres do ativismo não-governamental. As fronteiras entre o governamental e o não. todos o sabemos. abrindo uns caminhos a todos os outros em diferentes espaços.

Assim. Julgo que para o entendimento da realidade brasileira presente esse é um dos investimentos que precisamos fazer. devemos pensar o quanto não ampliam diferenciais de poder onde atuam em prol de suas redes sociais e políticas. um largo campo para investimentos futuros. Antonio Carlos de Souza Lima . constrangido pela ética da ciência e pela sua imersão no seu próprio universo social. valores. quando visto como fenômeno da esfera da economia. 8) Para encerrar. se torna um “segredo guardado a sete chaves”. talvez seja possível considerar a cooperação técnica internacional para o desenvolvimento como a dispersão de empresas sediadas formal e informalmente em diferentes Estados nacionais ou em relação similar com instituições multilaterais destinada. Há. uma de suas chaves principais está no amplo campo da educação lato sensu – e nem tanto no do desenvolvimento sustentável. tradições imperiais de gestão de espaços estrangeiros e populações para constituir elites capazes de agirem com gramaticalidade ao momento atual dos países hegemônicos do mundo capitalista presente. pois. Essa ampla e auto-evidente hipótese precisa ser implicada em pesquisas e testada severamente. Essa dispersão está destinada a transferir recursos financeiros e políticos de pequena monta.Notas (breves) sobre a cooperação técnica internacional para o desenvolvimento pode ser um “segredo de polichinelo” que apenas para o antropólogo. essas brevíssimas observações. modos de agir e se expressar e secundariamente modos de pensar. já assente sobre trabalhos como o representado por este livro. De certa maneira.