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Fatos Jurídicos

O direito também tem o seu ciclo vital: nasce, desenvolve-se e extingue-se.
Essas fases ou momentos decorrem de fatos, denominados fatos jurídicos,
exatamente por produzirem efeitos jurídicos. Nem todo acontecimento
constitui fato jurídico. Alguns são simplesmente fatos, irrelevantes para o
direito. Somente o acontecimento da vida relevante para o direito,
mesmo que seja fato ilícito, pode ser considerado fato jurídico.
Fato jurídico em sentido amplo se subdivide em:
a) Fato jurídico em sentido estrito ou naturais (Santoro Passarelli): é
todo acontecimento natural (não deriva da intenção humana) que deflagre
efeitos na órbita jurídica, podendo ser ordinário (comum) ou extraordinário
(incomum/imprevisível). Qual a natureza jurídica do tempo? É um fato
jurídico em sentido estrito ordinário.
- ordinários, como o nascimento e a morte, que constituem respectivamente
o termo inicial e final da personalidade, bem como a maioridade, o decurso
do tempo, todos de grande importância, e outros;
- extraordinários, que se enquadram, em geral, na categoria do fortuito e da
força maior: terremoto, raio, tempestade etc.
b) Fatos humanos/ato jurídico em sentido amplo: se dividem em ações
lícitas (ato jurídico) e ilícitas (ato ilícito).
Os fatos humanos ou atos jurídicos em sentido amplo são ações humanas
que criam, modificam, transferem ou extinguem direitos e dividem -se em:
- lícitos: atos humanos a que a lei defere os efeitos almejados pelo agente.
Praticados em conformidade com o ordenamento jurídico, produzem efeitos
jurídicos voluntários, queridos pelo agente;
- ilícitos: por serem praticados em desacordo com o prescrito no
ordenamento jurídico, embora repercutam na esfera do direito, produzem
efeitos jurídicos involuntários, mas impostos por esse ordenamento. Em vez
de direito, criam deveres, obrigações.
Ato jurídico se subdivide em: ato jurídico em sentido estrito (não
negocial), ato-fato e negócio jurídico.
Ato-fato (Pontes de Miranda): não está previsto no CC e não é aceito por
todos. O ato-fato, diferentemente do ato jurídico em sentido estrito, é um
comportamento que, embora derive do homem, é desprovido de vontade
consciente na sua realização e produção dos seus efeitos jurídicos. É uma
conduta voluntária que mesmo assim deflagra efeitos na ordem jurídica. Ex:
uma criança de 05 anos que compra um chocolate.
No ato-fato jurídico, ressalta-se a consequência do ato, o fato
resultante, sem se levar em consideração a vontade de praticá-lo.
Muitas vezes, o efeito do ato não é buscado nem imaginado pelo agente,
mas decorre de uma conduta e é sancionado pela lei, como no caso da
pessoa que acha, casualmente, um tesouro. A conduta do agente não tinha

TEORIAS EXPLICATIVAS DO NEGÓCIO JURÍDICO: Interpretar o negócio jurídico é. o negócio jurídico (arts. enquanto o outro apenas aufere um benefício. pela qual o agente pretende livremente alcançar determinados efeitos juridicamente possíveis (Ex: contrato). psicológica. haverá vício de consentimento. não a vontade interna.” Benéficos ou gratuitos são os que envolvem uma liberalidade: somente um dos contratantes se obriga. pelo simples achado do tesouro. precisar o sentido e alcance do conteúdo da declaração de vontade. ao lado do ato jurídico em sentido estrito (art. Busca-se apurar a vontade concreta das partes. reconhecendo. Prescreve. mas elas se complementam. . No negócio jurídico. Por essa razão. em maior ou menor grau.se deve atender à intenção manifestada no contrato. Se elas não corresponderem-se. Assim. 104 e seguintes do CC). mas tal acaba ocorrendo. o art. baseado na autonomia privada. por exemplo.Negócio jurídico: à luz do princípio da autonomia privada. sem vícios. mas a vontade objetiva. a intenção ou a consciência do agente. É que há certas ações humanas que a lei encara como fatos. atos de comunicação (notificação. 1. as normas que nascem da sua declaração. reconhecimento de filho. ainda que se trate de um absolutamente incapaz. 114 do Código Civil: “Os negócios jurídicos benéficos e a renúncia interpretam -se estritamente. um absolutamente incapaz. é necessária uma vontade qualificada. num contrato de compra e venda. que deflagra efeitos jurídicos predeterminados na lei. a ação humana visa diretamente alcançar um fim prático permitido na lei. ainda. pois vontade interna é a causa da vontade externa. A doação pura constitui o .Ato jurídico em sentido estrito: consiste em um comportamento humano voluntário e consciente. 185 do CC). portanto. 112 do CC . sempre haverá algum espaço de liberdade de escolha no âmbito dos efeitos jurídicos que se pretende alcançar. traduz uma declaração de vontade limitada pelos princípios da função social e da boa-fé objetiva. dentre a multiplicidade de efeitos possíveis. mas na vontade externa ou declarada. O negócio jurídico. . não na vontade interna. Obs. torna-se proprietário de parte dele. sem levar em consideração a vontade.: as duas teorias não são antípodas. A lei predetermina os efeitos jurídicos do ato jurídico em sentido estrito. por força do disposto no art. Conceito: o direito positivo brasileiro adotou um sistema dualista. demandando apenas o ato material de achar. Art. b) Teoria da declaração (Erklärungstheorie): afirma que o negócio jurídico teria a sua essência. Ex: a tomada de posse. e não ao pensamento íntimo do declarante. 2 por fim imediato adquirir -lhe a metade. a) Teoria da vontade (Willenstheorie): afirma que o núcleo essencial do negócio jurídico seria a vontade interna. Essas ações são denominadas pela doutrina atos- fatos jurídicos. intimação). expressão divulgada por Pontes de Miranda. o conteúdo.264 do Código Civil. a intenção do agente.

promessa de recompensa. que se verifica nos contratos em geral. na renúncia à herança e na promessa de recompensa. segundo vários critérios. Subdividem -se em: a) receptícios — aqueles em que a declaração de vontade tem de se tornar conhecida do destinatário para produzir efeitos. conforme o objeto. Essa denominação deriva do vocábulo grego sinalagma. como ocorre na doação e no comodato. bilaterais e plurilaterais Quanto ao número de declarantes ou de manifestações de vontade necessárias ao seu aperfeiçoamento. que significa contrato com reciprocidade. Classificação dos negócios jurídicos: Os negócios jurídicos podem ser encarados e agrupados por classes. Essa coincidência chama-se consentimento mútuo ou acordo de vontades. na instituição de fundação. na procuração. Devem ter interpretação estrita porque representam renúncia de direitos. enquanto a outra arca com os ônus. no codicilo. * Bilaterais — são os que se perfazem com duas manifestações de vontade coincidentes sobre o objeto. *Unilaterais — são os que se aperfeiçoam com uma única manifestação de vontade. como ocorre no testamento. verbi gratia. Unilaterais. Podem existir várias pessoas no polo ativo e também várias no polo passivo sem que o contrato deixe de ser bilateral pela existência de duas partes. na renúncia de direitos. como sucede na denúncia ou resilição de um contrato e na revogação de mandato. os negócios jurídicos classificam -se em unilaterais. Subdividem -se em: a) bilaterais simples — aqueles em que somente uma das partes aufere vantagens. nos títulos de crédito. e principal em relação ao acessório. como se dá no testamento e na confissão de dívida. como o contrato de sociedade com mais de dois sócios e os . bilaterais e plurilaterais. 3 mesmo exemplo dessa espécie. Poderá ser. com diversidade de regimes legais. *Plurilaterais — são os contratos que envolvem mais de duas partes. é negócio jurídico bilateral e também oneroso. solene. e b) sinalagmáticos — aqueles que outorgam ônus e vantagens recíprocos. por exemplo. como na compra e venda e na locação. Cumpre lembrar que um negócio pode enquadrar-se em mais de uma categoria sem que haja incompatibilidade. e b) não receptícios — aqueles em que o conhecimento por parte de outras pessoas é irrelevante. na confissão de dívida. A compra e venda. pois estas não se confundem com aquelas. ainda.

É o que se passa com a compra e venda. nesses casos. * Negócios jurídicos onerosos são aqueles em que ambos os contratantes auferem vantagens. As partes podem antever as vantagens e os sacrifícios. A conversão só se torna possível se o contrato é definido na lei como negócio gratuito. Não podem ser incluídos na categoria dos onerosos nem dos gratuitos. às quais. Mas nem todo ato bilateral é oneroso. A instituição do bem de família. que têm atribuição patrimonial. Todo negócio oneroso é bilateral. * Negócios jurídicos gratuitos são aqueles em que só uma das partes aufere vantagens ou benefícios. sacrifícios e benefícios recíprocos. e a doação remuneratória também podem ser lembradas. Frise-se que nem todos os contratos gratuitos podem ser convertidos em onerosos por convenção das partes. os negócios jurídicos classificam-se em gratuitos e onerosos. portanto. * Negócios jurídicos bifrontes são os que podem ser onerosos ou gratuitos. que geralmente se equivalem. A doação e o . visto que subverteria sua causa. outorgam-se vantagens a uma das partes sem exigir contraprestação da outra. ao mesmo tempo. Gratuitos e onerosos. a locação. a renúncia abdicativa. o mandato. como sucede na doação pura e no comodato. * Negócios jurídicos neutros são os que se caracterizam pela destinação dos bens. coligam-se aos negócios translativos. neutros e bifrontes Quanto às vantagens patrimoniais que podem produzir. corresponde um sacrifício ou contraprestação. e b) aleatórios: caracterizam-se pela incerteza. É que a perda ou lucro dependem de um fato futuro e imprevisível. decorrem de decisões da maioria. pois lhes falta atribuição patrimonial. acarretam vantagens a ambas as partes. neutros e bifrontes. porém. porque não envolvem nenhum risco. pois a vontade das partes não pode transformar um contrato oneroso em benéfico. ou seja. como o que o torna indisponível pela cláusula de inalienabilidade e o que impede a sua comunicação ao outro cônjuge mediante cláusula de incomunicabilidade. Os negócios onerosos subdividem-se em: a) comutativos: de prestações certas e determinadas. que não aproveita a quem quer que seja. decorrentes de sua celebração. Enquadram-se nessa modalidade os negócios que têm por finalidade a vinculação de um bem. Nessa modalidade. São dessa espécie quando impõem ônus e. negócio jurídico bilateral. porém gratuito. O mesmo ocorre com o comodato. sobre as vantagens e sacrifícios que deles pode advir. como no jogo e na aposta. porque a prestação de uma das partes envolve uma contraprestação da outra. As deliberações. o depósito. Em geral. como o mútuo. a empreitada etc. 4 consórcios de bens móveis e imóveis. Doação é contrato e. para as duas partes. segundo a vontade das partes. O risco é da essência do negócio.

que continua vinculado ao locador. salvo estipulação em contrário na convenção ou na lei. O evento morte.). *Mortis causa: são os negócios destinados a produzir efeitos após a morte do agente. transfere a terceiro os direitos que lhe assistem. é pressuposto necessário à sua eficácia. a natureza do acessório é a mesma do principal. *Acessórios são os que têm sua existência subordinada à do contrato principal. . por exemplo. Os negócios jurídicos mortis causa são sempre nominados ou típicos. como regra. sem se desvincular. valer-se da autonomia privada e realizar negócios inominados ou atípicos dessa natureza. Desse modo. Têm em comum com os acessórios o fato de que ambos são dependentes de outro. Nessa espécie de avença. a locação e a permuta. da existência de qualquer outro. como a compra e venda. pois. no entanto. acessórios e derivados Quanto ao modo de existência. em venda e locação. porém. isto é. O contrato de locação não se extingue. a utilidade correspondente à sua posição contratual. o casamento etc. Principais. Podem. a fiança. nesses casos. respectivamente. Em consequência. mediante a sublocação. seguem o destino do principal (acessorium sequitur suum principale). Extinta a obrigação principal. *Negócios derivados ou subcontratos são os que têm por objeto direitos estabelecidos em outro contrato. o penhor e a hipoteca. e os direitos do sublocatário terão a mesma extensão dos direitos do locatário. a locação. ficariam desfigurados se tal acontecesse. o codicilo. estando as partes ainda vivas. O locatário. criar tipos novos de negócios inter vivos. “Inter vivos” e “mortis causa” Levando-se em conta o momento da produção dos efeitos. extingue-se também a acessória. pois se transformariam. ex. p. Diferem. pela circunstância de o derivado participar da própria natureza do direito versado no contrato-base. os negócios jurídicos dizem-se inter vivos e mortis causa. *Principais são os que têm existência própria e não dependem. por exemplo. 5 comodato. Ninguém pode celebrar senão os definidos na lei e pelo modo como os regula. como se dá com a cláusula penal. um dos contratantes transfere a terceiro. desse modo. o mandato. Não podem as partes. os negócios jurídicos denominam-se principais. como ocorre com o testamento. como a promessa de venda e compra. denominado básico ou principal (sublocação e subempreitada. mas o contrário não é verdadeiro. *Inter vivos: destinam-se a produzir efeitos desde logo. acessórios e derivados.

Este plano é o substantivo (substância do negócio). ex: na doação pura o silêncio importa em aceitação). Podem ser mencionados como exemplos. São 4 os pressupostos de existência: manifestação de vontade. dentre inúmeros outros.806) etc. senão quando a lei expressamente a exigir”. Dispõe. * Solenes são os negócios que devem obedecer à forma prescrita em lei para se aperfeiçoarem. o art. Nesse caso. constitui a própria substância do ato. trata-se de uma formalidade ad probationem tantum. . Quando a forma é exigida como condição de validade do negócio. Tal ocorre quando este sofre a incidência da norma jurídica. aceita-se o silêncio como forma de manifestação da vontade (não é a regra. Sem estes pressupostos o negócio é inexistente. 1. o testamento como manifestação de última vontade (arts. importando apenas a realidade da existência. Planos de análise do negócio jurídico 1) Plano de existência: alguns autores não o aceitam. os negócios jurídicos apresentam- se como solenes. Ex: assinatura falsa e coação física é negócio inexistente (não houve vontade). estudando os pressupostos sem os quais ele nada é. a renúncia da herança (art. no suporte fático. Todavia. Como a lei não reclama nenhuma formalidade para o seu aperfeiçoamento. sendo que ele estaria implícito. 107 do Código Civil que “a validade da declaração de vontade não dependerá de forma especial. 1. podem ser celebrados por qualquer forma. inclusive a verbal. *Não solenes são os negócios de forma livre. em razão de sua obviedade. A forma é o meio pelo qual a vontade se manifesta. Se faltar. determinada no art. salvo expressas exceções. como o é a lavratura do assento do casamento no livro de registro. 111 do CC). também chamados de formais. é o revestimento externo da vontade. o fato não ingressa no mundo jurídico: é inexistente.: o requisito essencial da forma sofre uma mitigação: em situações excepcionais (art. art. isto é. 1. desde que presentes todos os seus elementos estruturais. Em regra. os contratos de locação e de comodato. como a escritura pública na alienação de imóvel acima de certo valor (CC. objeto e forma.536 do Código Civil.).864 e s. e não solenes ou de forma livre. com efeito. Negócio jurídico sem objeto não existe. Obs.: pressupostos do negócio jurídico são de existência e validade. agente. este é solene e a formalidade é ad solemnitatem ou ad substantiam. Obs. 6 Solenes (formais) e não solenes (de forma livre) Em atenção às formalidades a observar. determinada forma pode ser exigida apenas como prova do ato. O CC não disciplina este plano (só regula o plano da validade e eficácia). os contratos têm forma livre. 108). Não se indaga sobre a invalidade ou eficácia do negócio jurídico. Deve haver um agente emissor da vontade (PF ou PJ). Basta o consentimento para a sua formação. um desses elementos.

pressupondo a passagem pelo plano da existência. ad solemnitatem. possível e determinado ou determinável e forma prescrita ou não defesa em lei.561). Em regra. Quanto à forma. Embora inválido. gera todos os efeitos de um casamento válido para o cônjuge de boa -fé (CC. 3) Plano de eficácia: pode também o negócio jurídico existir. à luz do art. pelo plano da validade. 121/137 (condição. 1. mas não ter eficácia. 108 do CC. 104 do CC): só se pergunta dele se o negócio existir. agente capaz e legitimado. por não ter ocorrido ainda. São pressupostos qualificativos para que o negócio tenha aptidão para gerar efeitos. Com efeito. . todavia. O plano da eficácia é onde os fatos jurídicos produzem os seus efeitos. Elementos acidentais do negócio jurídico Os elementos acidentais não são obrigatórios. vigora no Brasil. Ex. 107. 7 2) Plano de validade (art. Os pressupostos de validade são: vontade livre e de boa-fé. art. ou seja. termo e encargo/modo). Ex: art. porém eficaz. Neste plano situam-se as consequências do negócio jurídico: modificação e extinção de direitos. São tratados pelo CC entre os arts. o implemento de uma condição imposta. Nada mais são do que os pressupostos de existência qualificados. o princípio da “liberdade da forma”. ser válido. objeto lícito. não. eles estão no plano da eficácia. o negócio é solene. como sucede na hipótese de casamento anulável celebrado de boa-fé. essencialmente. é possível que o negócio seja existente e inválido. por exemplo.