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PO LÍ TIC AS PÚBLIC AS

E DE M A NDAS SOC IA I S :

( D IÁLOGOS
C ONTEMPOR Â N E O S I I )
organizadoras | Marli M. M. da Costa
Mônia Clarissa Hennig Leal

ISBN 978-85-7697-445-1
1ª edição – 2016.

É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, sem autorização expressa do autor ou da edito-
ra. A violação importará nas providências judiciais previstas no artigo 102, da Lei nº 9.610/1998,
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

P769 Políticas públicas e demandas sociais: Diálogos Contemporâneos II
[ livro eletrônico ] / Marli Marlene
Moraes da Costa, Mônica Clarissa Hennig Leal, Organizadoras.
– Porto Alegre : Imprensa Livre, 2016.
540 p.

ISBN 978-85-7697-445-1

1.Direito. 2. Políticas Públicas.
I.Costa, Marli Marlene Moraes da ,org. II.Leal,
Mônica Clarissa Hennig , org.
CDU 340.1
Bibliotecária responsável: Maria da Graça Artioli – CRB10/793

P O L Í TIC AS PÚBLIC AS
E DE MA NDAS SOC IA I S :

( DI ÁLOGOS
CONTEMPOR Â N E O S I I )
organizadoras | Marli M. M. da Costa
Mônia Clarissa Hennig Leal

(SUMÁRIO)

PREFÁCIO
AndréViana Custódio

POLÍTICAS PÚBLICAS DE VIOLÊNCIA DE GÊNERO E A
INFLUÊNCIA DO CAPITAL SOCIAL
Marli M. M. da Costa e Tamiris Alessandra Gervasoni

O DIREITO FUNDAMENTAL SOCIAL À SAÚDE COMO UM
DEVER ESTATAL A PARTIR DE SUA CONFORMAÇÃO NA
CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988
Mônia Clarissa Hennig Leal e Bruna Tamiris Gaertner

A LEI ANTICORRUPÇÃO BRASILEIRA (LAC) E A
RESPONSABILIDADE ADMINISTRATIVA E CIVIL DAS
PESSOAS JURÍDICAS
Rogério Gesta Leal e Jonathan Augustus Kellermann Kaercher

A CRISE DE REPRESENTATIVIDADE E A IDEIA DE NÃO
PERTENCIMENTO COMO CAUSAS DE FRAGILIDADE DA
DEMOCRACIA REPRESENTATIVA E DE ESPAÇOS PARA
ABUSOS E PRÁTICAS CORRUPTIVAS
Caroline Müller Bitencourt e Eduarda Simonetti Pase

A GARANTIA DE DIREITOS E AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA
PROTEÇÃO DE CRIANÇAS E DE ADOLESCENTES NO
MERCADO DE CONSUMO CAPITALISTA GLOBALIZADO
BRASILEIRO
AndréViana Custódio e Rafael Bueno da Rosa Moreira

O DIREITO À ACESSIBILIDADE DA PESSOA COM
DEFICIÊNCIA, A CULTURA E A LEI Nº 13.146/15
ReginaVeraVillas Bôas e Grasiele Augusta Ferreira Nascimento

O ESTATUTO DA DIVERSIDADE E AS POLÍTICAS PÚBLICAS
DE INCLUSÃO SOCIAL SOB A PERSPECTIVA DOS DIREITOS
DOS HOMOSSEXUAIS
Andréia Pereira de Alfama e Alberto Barreto Goerch

MÉDICOS TITULARES DE CARGOS PÚBLICOS, TETO
REMUNERATÓRIO E A PRESTAÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA
MUNICIPAL: IDENTIFICANDO OS DISCURSOS DE
APLICAÇÃO DO TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DO
RIO GRANDE DO SUL
Ana Helena Scalco Corazza e Jonas Faviero Trindade

IDENTIDADE E DIFERENÇA: OS PRIMEIROS OLHARES DO
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL À TRANSEXUALIDADE
Juliana Ribas e Anaise Severo

O PROGRAMA NACIONAL DE BANDA LARGA (PNBL) E O
ACESSO À INTERNET NO BRASIL - DESAFIOS E
PERSPECTIVAS: UM OLHAR SOBRE OS AVANÇOS E
RETROCESSOS DO PROGRAMA DE INCLUSÃO DIGITAL
NO CENÁRIO CONTEMPORÂNEO
Bruno Mello Correa de Barros e Gil Monteiro Goulart

OS NOVOS DESAFIOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE
INCLUSÃO SOCIAL NA PROMOÇÃO DA CIDADANIA:
O VALE ENCANTADO DA GLOBALIZAÇÃO
Rosane Teresinha Carvalho Porto e Rodrigo Cristiano Diehl

PARTICIPAÇÃO POLÍTICA DOS MIGRANTES NO BRASIL:
UMA ABORDAGEM SOB A ÓTICA DOS DIREITOS HUMANOS
Daniel Braga Nascimento e Êmily de Amarante Portella

POLITICAS PÚBLICAS DE ACESSO À REDE: A (PROVÁVEL)
INSTITUIÇÃO DE FRANQUIA DE DADOS E A
CONSEQUENTE FRAGILIZAÇÃO DO ACESSO
À INTERNET NO BRASIL
Augusto Lenhardt e Eliane Fontana

APORTES PARA UMA TEORIA DO CONTROLE DE
CONVENCIONALIDADE NO BRASIL:
O CASO GOMES LUND E AS IMPLICAÇÕES RESULTANTES
DA CONDENAÇÃO BRASILEIRA PELA CORTE
INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS
Felipe Dalenogare Alves e Leopoldo Ayres deVasconcelos Neto

O PRINCÍPIO REPUBLICANO E A POLÍTICA INDUTORA DO
DESENVOLVIMENTO E DA INCLUSÃO SOCIAL POR MEIO
DA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA NO BRASIL: UMA BREVE
ANÁLISE
Patrícia Tavares Ferreira Kaufmann e Ianaiê Simonelli da Silva

CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM
DEFICIÊNCIA E O DIREITO FUNDAMENTAL À EDUCAÇÃO
Juliana Paganini e Patrícia dos Santos Bonfante

GRUPO DE SALA DE ESPERA E O CÂNCER DE MAMA: UMA
ALTERNATIVA DE ACOLHIMENTO PSICOLÓGICO EM
AMBIENTE AMBULATORIAL
Letícia Bortolotto Flores e Alberto Manuel Quintana

OS DIREITOS HUMANOS E A POLÍTICA DE SAÚDE PARA
ADOLESCENTES EM CONTEXTO HOSPITALAR
Liziane Giacomelli Henriques da Cunha e Maristela Costa de Oliveira

DESENVOLVIMENTO URBANO: PLANEJAMENTO,
CIDADANIA E DEMOCRACIA
Mariana Barbosa de Souza eVerenice Zanchi

A MEDIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA PSICANALITICA: UMA
RUPTURA COM O PARADIGMA DOMINANTE E OS NOVOS
RUMOS DO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
E LEI 13.140/2015
Bernardo Girardi Sangoi e Miliane dos Santos Fantonelli

O SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO E O PROBLEMA DA
SUPERLOTAÇÃO: A BUSCA DE SOLUÇÕES ATRAVÉS DA
ECONOMIA SOLIDÁRIA E DA JUSTIÇA RESTAURATIVA
Patrick Costa Meneghetti e Ana Paula Schimidt Favarin

GESTÃO ADMINISTRATIVA DELIBERATIVA: UMA
REFORMULAÇÃO DO PODER HEGEMÔNICO
RafaelVerdum Cardoso Figueiró e LarissaVitória Silveira da Silva

UM INTROITO ACERCA DAS AÇÕES AFIRMATIVAS NO
BRASIL: NOÇÕES CONCEITUAIS E JURÍDICAS
Ramon Matheus Rockenbach e Caroline Rockenbach

AS NOVAS RELAÇÕES DE EMPREGO E O
DIREITO DE DESCONEXÃO DA MULHER NO TRABALHO
Analice Schaefer de Moura e Tatiani de Azeredo Lobo

(PREFÁCIO)

realizado em maio de 2016. O evento e este livro. O desafio da concretização dos direitos fundamentais requer novos olhares sobre as dinâmicas instituídas pelas políticas públicas brasileiras como destacam os textos que tratam de temas como o . coordenados pelas doutoras Marli Mar- lene Moraes da Costa e Mônia Clarissa Hennig Leal. contam com a participação de representantes de reconhecidas instituições bra- sileiras e coloca à disposição da comunidade acadêmica excelente conjunto de referências para pesquisas indispensáveis a compreen- são do atual contexto de demandas sociais e políticas públicas no Brasil. O evento consolidou-se há mais de uma década como um dos mais importantes espaços de produção científica brasileira sobre políti- cas públicas e constitucionalismo contemporâneo. Daí a necessidade de registrar o importante apoio concedi- do pela CAPES e pelo PPPG/UNISC para a produção desta obra. pelo Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado – da Universidade de Santa Cruz do Sul. Esta relevante obra apresenta os melhores trabalhos apresen- tados por ocasião do XII Seminário Nacional Demandas Sociais e Políticas Públicas na Sociedade Contemporânea.

No campo da gestão das políticas públicas ganham relevân- cia aspectos inerentes a própria concepção democrática do Estado brasileiro. as políticas públicas somente atingirão a de- sejada universalização de acesso se considerados os elementos bá- sicos de diversidade de forma transversal em todas as políticas de atendimento. considerados no contexto da globalização e suas perversas formas de exclusão social. a participação política. econômica e política. o acesso ao mercado de trabalho.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. a proteção in- tegral à crianças e adolescentes. deficiências. gênero. Não há dúvida. o acesso à internet e às novas tecnologias. Sob o viés da participação da sociedade civil e a atuação da dinâmica econômica de mercado na consecução dos objetivos fun- damentais encontram-se os estudos direcionados para temas como o capital social. a economia solidária e o sistema prisional brasileiro como faces da complexa questão relativa à concretização dos direitos bá- sicos de cidadania. daí a imprescindibilidade da análise de temas ine- rentes à própria condição humana. tais como identidade. M.) direito fundamental à saúde e à educação inclusiva. o acesso à cultura. Na dimensão relativa à atuação do sistema de justiça. diversidade sexual e geracionalidade. que envolve desde a participação popular na deliberação e controle até o alcance de maior eficiência com o combate à cor- rupção como diretrizes de enfrentamento às fragilidades democrá- ticas da contemporaneidade. os tex- tos apresentam análise de decisões concretas dos tribunais brasi- leiros e temas inovadores como a justiça restaurativa e o controle de convencionalidade pelos tribunais brasileiros oferecendo novas perspectivas de análise e observação sobre as demandas produzidas 12 ) . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. M. AndréViana Custódio Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Direito Mestrado e Doutorado – da Universidade de Santa Cruz do Sul Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Sevilha/Espanha 13 ) . Razões pelas quais a leitura desta obra torna-se imprescindível.) pela sociedade brasileira no século XXI e que exigem o aprofunda- mento dos olhares e percepções acadêmicas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.

da Costa1 Tamiris Alessandra Gervasoni2 1 INTRODUÇÃO O capital social. Cidada- nia e Políticas Públicas”. . Cidadania e Políticas Públicas” da UNISC. E-mail: tamirisgervasoni@gmail. por vezes facilitando ou dificultando o alcance de determinados objetivos. coordenado pela Professora Pós-Doutora em Direito Marli Marlene Moraes da Costa. o presente estudo debruça-se a investigar seus aspectos teóricos e conceituais. Professora da Graduação em Direito na FEMA – Fundação Educacional Machado de Assis de Santa Rosa. tem se apresentando como algo que influência o próprio ritmo das dinâ- micas sociais. Doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. bem como a possibilidade de aliá- 1 Pós-Doutora em Direito pela Universidade de Burgos/Espanha. Psicóloga com Especialização em Terapia Familiar . Professora de graduação e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado na Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. com Bolsa Capes. Coordenadora do Grupo de Estudos “Direito. Graduada pela mesma instituição. Integrante do Grupo de Pesquisa “Direito. para além da sua relação com múltiplos assuntos de extrema relevância para a vida em sociedade. POLÍTICAS PÚBLICAS DE VIOLÊNCIA DE GÊNERO E A INFLUÊNCIA DO CAPITAL SOCIAL Marli M. 2 Mestranda com Bolsa Capes Prosup em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc).com.CRP º 07/08955. Diante desta dimensão social abrangida pelo próprio tema. M.

15 ) . concretizando os direitos fundamentais tão caros à dig- nidade humana prezada pela Constituição Federal. bem como as fases pelas quais seu processo de elaboração e execução perpassam. valores primordiais para a cidadania. para. aspecto que se destaca ao abordar- -se às questões de gênero no contexto atual. neste ponto. as políticas públicas exercem papel relevante no que concerne à rea- lização da igualdade material.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. das políticas públicas são eminente- mente políticas e envoltas por interesse individuais e políticos. porém. de suma importância para a construção da igualdade e equidade. Desta forma. mas também a sua própria conceituação. democracia e preservação da digni- dade humana em um Estado Democrático de Direito. terem a chance de receber atenção go- vernamental enquanto políticas públicas. Neste sentido. o que acaba prejudicando a inserção de algumas pautas na agenda política. as suas fases iniciais diante do objetivo de aliar as políticas públicas e o capital social nas questões de gênero. Além disso. questiona- -se se o capital social pode vir a contribuir de forma positiva ou negativa para a construção de políticas públicas de gênero no ce- nário brasileiro. M. As políticas públicas. Salientando. abor- dar-se-á não apenas a importância e as características das políticas públicas. assunto polêmico e controverso. des- pontam como instrumento privilegiado de atendimento às deman- das sociais. a partir daí. no Estado Democrático Brasileiro. e tão fundamentais.) -lo às políticas públicas. O objetivo deste estudo justifica-se no fato de que estas fases iniciais.

308). 172). em geral. [.. cultivando a confiança recíproca. este será entendi- do como um “conjunto de redes. p. M. que o capital social contempla vantagens não somente socioeconômicas. objetivos e interesses dos cidadãos que compõem determinado grupo organizado.. ao desenvolvimento socioeco- nômico e ao desempenho das instituições sociais3. capital social refere-se às instituições. Tal associação dar-se-ia justamente porque a ideia de organização dos indivíduos em grupos com hábito cooperativos. p. a capacidade de uma sociedade estabelecer laços de confiança interpessoal e redes de cooperação com vistas à produção de bens coletivos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.] Capital social é a argamassa que mantém as instituições em contato entre si e as vincula ao cidadão visando à produção do 16 ) . A despeito das múltiplas conotações que o conceito de capital social possa apresentar. em linhas gerais. 4 “[.) 2 CAPITAL SOCIAL: APORTES TEÓRICOS E CON- CEITUAIS O tema do capital social é. para tratar de questões relacionadas à po- breza. Desta forma. p. 1760) permitindo o acesso a bens e recursos a partir destas relações de confiança estabelecidas e embasadas na solidariedade. 2007. o capital social constituir-se-ia no en- trelaçamento dos recursos. relações e normas sociais que dão qualidade às relações interpessoais em uma dada sociedade. evidenciando-se.. unidos pelo senso de confiança para o alcance da concretização de objetivos comuns e coletivos4. ao exercício da cidadania. 3 “Capital social tem sido usado. basicamente. que valorizam a solidarieda- de. para o presente estudo. 2009. p.] capital social. mas com ênfase na dimensão social e não econômica”. 2006. propiciariam maiores índices de participação e confiança política. mas também políticas (SACCHET. à demo- cracia. Segundo o Banco. amplamente abordado e discutido em questões relacionadas ao campo político. desigualdade social e ao desenvolvimento.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.. que expressa. assim. relações e normas que facilitam ações coordenadas na resolução de problemas coletivos” (SCHMI- DT. (RANINCHESKI.

bem como os estudos e pesquisas atinentes ao tema. 17 ) . os participantes na verdade empenham suas relações sociais” (PUTNAM. em nível elevado. têm sido utilizados por importantes organizações internacionais. p. para além da possibilidade de acesso a determi- nados recursos.) Este senso de confiança é imprescindível para que o capital social se estabeleça solidamente e demonstre-se apto a constituir uma forma de garantia para aqueles que não possuem acesso a de- terminados recursos. ela incentiva parce- rias entre os sujeitos de uma mesma comunidade. assim. o capital social também representa a oportunidade de formação e afirmação de novas relações sociais e o estabeleci- mento de vínculos entre os sujeitos conectados por uma mesma realidade. como a Organização da bem comum”. é possível asseverar que tal contribui para o fortalecimento da cidadania e emancipação dos indivíduos. fortalecendo a solidariedade e o sentimento de cooperação. p.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. está relacionado a graus maiores de desenvolvimen- to e inclusão social (JORGE. p. o capital social. 178-179). (ARAUJO. a confiança é o elemento base do capital social. 180). que se veem encorajados diante da atmosfera de coo- peração e inclusão instituída. 2). 2006. Desta forma. pois. “não dispondo de bens físicos para dar em garantia. Considerando ainda que o capital social. M. seja pela aproximação decorrente do convívio comuni- tário ou pela própria identificação enquanto pertencentes a um mesmo grupo social. 2003. p. maior será o senso de cooperação (2006.10). Em virtude de tais características tão relevantes para o de- senvolvimento e para a inclusão social. Desta forma. Putnam observa que a própria cooperação irá gerar confiança. visto que quanto mais confiança há em determinada localidade. 2004. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

) Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial. p. a questão da discriminação de gênero e a possibilidade do capital social contri- 18 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. verifica-se também maior participação política dos cidadãos e. p. reforçados pelo capital social. (COSTA. social e cultural” (SCH- MIDT. religião. o capital social no que tange ao aspecto de for- mação e afirmação de vínculos entre os membros de uma comuni- dade ou grupo social. sua própria emancipação. cultivando tais valores. também compactua com valores nucleares para a criação de uma boa sociedade. ainda. portanto. 2015. el cuidado de los demás” (ETZIONI. para que possa haver ação coletiva a partir do capital social. Não obstante. 2001. M. como corolário. Ocorre que para a concretização de tal potencial humano. gênero. 2001. 2006. to- dos estariam aptos a alcançarem seu máximo potencial humano (ETZIONI. p. Hodiernamente “os mecanismos de exclusão estão presentes tanto na dinâmica econômica como na política. SCHINN. desde questões como baixa renda. la lealtad. Neste sentido. em uma so- ciedade onde todos são trados como fim em si mesmo e não como instrumentos para o alcance de objetivos e interesses pessoais. 1759) e estão associados a múltiplos e distintos “fundamentos. 17). entre tantas outras. 4).Valores como el amor. p. que são “vínculos recíprocos con la familia. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. justamente pela pers- pectiva de que nas regiões em que se verifica altas taxas de capital social. los amigos o los miembros de la comunidade damos via al principio básico de la buena sociedade. no presente trabalho. Enfatizar-se-á. para o cultivo dos mencionados valores e. no enfrentamento de questões como pobreza e exclusão social. 16). é necessário que o indivíduo esteja inserido em sociedade ou em determinado grupo. p.

6 “Art.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. para o desenvolvimento sustentado e para a revitalização da sociedade civil e da democracia” (ARAUJO. é des- ta forma que poderia contribuir o capital social. o capital social pode figurar como “importante instrumento conceitual e prático para a conso- lidação de política públicas.]”. para a construção de políti- cas públicas nesta área. e na própria promoção da igualdade (material). Entretanto. políticas públicas dependem for- temente de vontade política para serem implementadas. neste 5 “Parte-se do pressuposto de que o capital social é um conceito que tem auxiliado a ressaltar aspectos esquecidos na análise política e econômica do desenvolvimento e das políticas pú- blicas e que contém premissas condizentes com a democracia participativa [. na garantia da dignidade humana. ou negativamente. M. Compreende-se que as políticas públicas desempenham im- portante papel na concretização dos direitos fundamentais e.. e. já que. 420). 1º A República Federativa do Brasil. a partir das suas redes e relações sociais congregar esforços para dar visibilidade às questões de gênero enquanto temática merecedora de políticas públicas específicas5. assim adjeti- vado pela própria Constituição Federal em seu artigo 1º6. p. 3 POLÍTICAS PÚBLICAS: CONCEITUAÇÃO E PERS- PECTIVA DE FASES/CICLO O Estado Democrático de Direito Brasileiro. p. visto que somente pautas consideradas publicamente relevantes é que tor- nam-se objeto de discussão política e têm a chance de receberem políticas públicas específicas às suas questões. as- sim. portanto. se consolidado em base democrática e em valores pluralistas e inclusivos. (SCHMIDT. 2003.7). formada pela união indissolúvel dos Estados e Mu- 19 ) .. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.) buir positivamente. 2003.

) mesmo documento jurídico e político. “o que se reflecte primariamente na pro- gressiva consagração constitucional dos chamados direitos sociais” (NOVAIS. 20 ) . se estiver associada a um conjunto de garan- tias” (BUCCI. portan- to. Na literatura inglesa o ter- mo “política” é trabalhado em três acepções. p. além de elencar e garantir formalmente direitos fundamentais. podendo ser apresentadas como um campo de atividade. compreendendo-as como resulta- do da própria política. O primeiro termo. assume o compromisso de protegê-los e concretizá-los. até mesmo.. constitui-se em Estado Democrático de Direito” [. “polity”. decorre não apenas o dever de assistência em relação às ne- cessidades materiais da população. especialmente.. como os resultados obtidos de um programa. 7). às questões conceituais.]. É.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. tal temática é controvertida e complexa até mesmo no que concerne. como um propósito político concreto ou. mas mutuamente relacionados. fundamento basilar da Constituição. 2006. Deste compromisso. apresenta múltiplos aspectos. p. politics e policy. Políticas públicas. de acordo com as elucidações de Schmidt. M. sendo que todos possuem significados distintos. como programa de ações. porém. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. primando pela dignidade humana. do ponto de vista normativo. ainda. 1988). em relação aos direitos sociais que desperta a necessidade de implementação de políticas públicas. 2003. mas também a obrigação de promover e instituir suportes efetivos para o exercício de todos os direitos fundamentais. (BRASIL. já que “a introdução dos direitos sociais só faz sentido. polity. 65). jurídico e também ao sistema político-administrativo enquanto estrutura nicípios e do Distrito Federal. é concernente à ordem do sistema político.

.]”. a partir de várias estratégias implementadas para o alcance de objetivos e metas específicos... 14). 2010. decorrência da própria atividade política. as relações entre o Estado. didaticamente.2311) Neste sentido. 2310). p. p. das suas instituições e dos seus pro- cessos (SCHMIDT. (2008.] a máquina administrativa” (2008. p. constituindo “o ‘Estado em ação’ [.) institucional. o processo de tomada de decisão nos governos. já que depende de várias decisões políticas e de atores políticos distintos. seguindo os ensinamentos do autor referido.. legislativo e judiciário. assim. quando realizadas e compartilhadas. Já o terceiro termo. Este processo complexo que é a formação e implementação das políticas públicas pode ser analisado. as questões administrativas. mercado. no sentido de realizar algum objetivo de ordem pública” (BUCCI. projetos e atividades que visa a resolver problemas e demandas da sociedade”. (2008. p.. 2006. O segundo termo. políticas públicas podem ser compreendidas como um “programa ou quadro de ação governamental” (BUCCI. trata dos processos e da dinâmica inerentes à política enquanto competição pelo po- der. 2008. políticas insti- tucionais e burocráticas estatais. 14) a partir de um processo composto por diversos gru- pos da sociedade que deliberam questões coletivas que. e sociedade civil [.. p. A(s) política(s) pública(s) será. portanto. programas. 2006.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. constituída de um processo complexo. tornam-se uma política comum (RO- DRIGUES. policy. é que se refere especificamente às políticas públicas. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. politi- cs. são analisadas nesta perspectiva. 2310). em cin- 21 ) . p. ainda conforme o autor supra- mencionado.] as políticas se materializam em diretrizes. p. 2330). a qual agrega “aspectos estruturantes da política institucional [. “questões com a relação entre o poder executivo. 13) dando impulso “à máquina do governo.

2316).2010. 3) formulação: nesta etapa será definido o modo com o problema político será solucio- nado (2008. obter atenção do governo e ser in- serida na agenda política (2008. p. 33). assim. a despeito de ser didatica- mente elucidativo. p.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. já que “as fases geralmente se apresentam misturadas. p.2010. 2320). bem como pode vir a constituir “um referencial comparativo para casos heterogêneos” (SECCHI. como apenas se torna um problema público aquilo que “os atores políti- 22 ) . ainda assim. “ela proporciona retroalimentação (feedback) e pode determinar a continuidade ou a mudança da política” (2008. Este ciclo das políticas públicas. 4) implementação: através de programas e ações concretas. p. dificilmente corresponde à realidade pela qual perpassa todo o processo dinâmico que é o da política pública. M. 2317). auxi- lia na compreensão da complexidade inerente a tais questões. p. entretanto. Salienta-se que “a essência conceitual de política públicas é o problema público” (SECCHI. 2) inserção na agenda política: momento no qual são eleitos os problemas que chamam atenção do governo e dos cidadãos e que serão discutidos pelos agentes públicos e sociais (2008. p. 4) e.) co fases. p. neste sentido. 5) avaliação: refere-se aos estudos entorno das falhas e êxitos do processo de implementação da política pública. pesquisadores e políticos envolvidos neste pro- cesso.2010. da seguinte maneira: 1) percepção e definição do problema: fase na qual alguma questão problemática do ambiente social deve ser transformada em um problema político para. agilizando as atividades dos administradores. que são elucidadas por Schmidt. 34). as sequências se alternam” (SECCHI. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2316). 2318). a formulação da política pública será concre- tizada por meio da execução da sua formulação (2008. p.

atreladas às questões de gênero.] violência suave. do sentimento” (BOURDIEU.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. em geral. porém não é o foco do presente estudo: “Nas sociedades contemporâneas.104).. em especial assun- tos como violência (física e simbólica7) e discriminação de gêne- ro.2010. tais questões encontram fortes óbices para tornarem-se problemas pú- blicos e serem inseridos na agenda política. sendo visto como assunto polêmico e ocasionador de divergências. ou seja. ou. neste sentido. insensível. do desconhecimento. ou. o que. p.. o que constitui em elementos para a explicação da agenda políti- 23 ) . invisível a suas próprias vítimas. 2001. Desta forma. M. acarreta na exclusão de assuntos não interessantes e populares ao eleitorado8. o presente trabalho centra-se nas duas primeiras etapas. p. É preciso que a análise de políticas públicas leve em conta a seletividade da mídia na abordagem dos problemas. perceben- do nestas situações uma oportunidade para demonstrar trabalho e empenho em face de seu eleitorado (SECCHI. em última instância.. na percepção e definição do problema e a sua inserção na agenda política. Como as agendas políticas são cons- 7 “[. mais preci- samente. o papel da mídia. 7-8). Os partidos políticos. p. que prima por causas mais pacíficas e garantidoras de maior simpatia do eleitorado. sofrem preconceito de diversas formas e múltiplos setores da sociedade. o que. são atores muitos in- fluentes nesta etapa de definição do problema público. não é admirado pelo setor políti- co. 7-8). tendo em vista que “[.. Ocorre que a própria temática de gênero. 8 Observa-se ainda. que tem papel relevante. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. entretanto. para. a mídia é um ator com grande força para chamar atenção sobre os problemas sociais e influenciar na sua inclusão na agenda política.) cos intersubjetivamente o consideram problema (situação inade- quada) e público (relevante para a coletividade” (SECCHI. por exemplo.] o aparato governamental também é objeto de loteamento político- -partidário e de grupos de interesse (INOJOSA. a partir daí ser “merecedor” de políticas públicas. do reconhecimento. que se exerce essencial- mente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento. 35). 1999. 2010. p.

com sua opressão e exploração.] o conceito de gênero [. a ideia de gênero(s). talvez ainda sem definição pacífica e de compreensão complexa. M.) tituídas por questões compreendidas como problemas públicos. sobre as di- ca”.. nesta lista “de problemas ou temas relevantes” (SECCHI. inicialmente. p.. 9 “[. 225). Neste sentido.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. p. portanto.. Destarte. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 4 O CAPITAL SOCIAL COMO FORÇA IN(RE)DUTO- RA DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE GÊNERO O conceito de gênero. p. 14). é preciso que se recupere um pouco de todo o processo”. A concepção de gênero almeja enfatizar o caráter social ao invés do biológico. 36) que serão atendidos pelo governo. ele está implicado linguística e politicamente em suas lutas e.] está ligado diretamente à história do mo- vimento feminista contemporâneo. para melhor com- preender o momento e o significado de sua incorporação. é oriundo dos movimentos sociais fe- ministas que. 2009. 2010. (SCHMIDT. começa-se a indagar “o que é mulher?”. passa-se a analisar a possibilidade do capital social influir em tais etapas das políticas públicas. “o que é ser mulher?” e. a partir daí os debates desenvolvidos acarreta- rão em concepções distintas quanto ao significado destas questões. não expressavam o termo “gênero”9. ou dos discursos naturalizantes. chegando-se. Constituinte desse movimento. mas preocupavam-se com a invisibilidade das mulheres na socieda- de. da necessidade de serem cons- truídas condições para a sua libertação bem como com a realização de uma ciência que não fosse androcêntrica (MATHIEU. hodiernamente. 2316). dificilmente causas mais polêmicas são inseridas. se tal de fato pode contribuir positiva ou negativamente. 24 ) . p. 2003. 2008. (LOURO..

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. public policy and other social institutions. para além da histórica discriminação con- tra a mulher. e muitos não se identificam neste papeis tradicionais. como gays. outras identidades de gênero. women. foram registrados mais de 50 mil feminicídios. tendo uma construção social da sua identidade de gênero distinta dos tradicionais papeis de homem e mulher. 2013).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. transgendered and others who challenge narrow. families. mas sim nos arran- jos sociais. 2013. gays. Tal asseveração é facilmente comprovado por dados oficiais recentes: estima-se que 7 em cada 10 mulheres no mundo serão espancadas. portanto. no Brasil. ocorre que há grande diversidade de gênero. p. 2014). entre 2001 e 2011.. (JASS. estupradas..]. assexuados. hodiernamente. 25 ) . relevando a sua construção social e histórica a partir das relações entre os sujei- tos. relaciona-se com as características que social- mente atribuímos em comparação com as noções de masculino e feminino10. en- torno de 5 mil mortes por ano (IPEA. lesbians. passou a integrar tal quadro.. transgêneros. Neste contexto.”We learn gen- der roles through socialization which begins very early and is reinforced constantly throughout our lives through education. 2003. static conceptions of masculinity. na história. lésbicas. “as justificativas para as desigualdades precisariam ser buscadas não nas diferenças biológicas [. Rigid enforcement of “traditional” gender roles has led to ba- cklash and targeted discrimination and violence against men. Gênero. and sexuality”.) ferenças entre homens e mulheres em sociedade. nas condições de acesso aos recursos da sociedade. etc. 5). Gender roles are different in different cultures and can change over time. nas formas de representação” (LOURO. 22). the media. religion. travestis. discriminação e violên- cia. Assim. femininity. nos últimos 30 anos 10 “Relates to the characteristics – ranging from gender roles to physical appearance – that societies attribute to the notions of “masculine” and “feminine. que sofrem preconceito. p. abusadas ou mutiladas ao longo da vida (o mesmo se aos homossexuais) (ONU-BR. M.

em especial católicas e evangélicas (FOLHA DE S. para estas necessárias políticas pública sejam efetivamente implementadas é preciso que que os agentes competentes reco- nheçam esta situação como um problema público. Observa-se que tal atitude con- trariou orientação emanada em nota pública pelo Ministério da Educação. lésbicas. inserindo-o na agenda política. Perante tais dados torna-se difícil negar a necessidade de políticas públicas de gênero no Brasil. 2014). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. PAULO. tal questão fica à mercê de interesses po- líticos. não obs- tante. 2015). 316 pessoas LGBT foram assassinadas em razão da sua con- dição sexo-afetiva ou identidade de gênero – uma morte a cada 24 horas – deste total. foram registrados no Brasil 3. Porém. 18). 134 era transexuais ou transgêneros. todavia. diversidade e orientação sexual. 2013. p. transgêneros e bissexuais) (SDH. Ocor- re que. na qual expressou-se a importância dos conceitos de gê- nero e orientação sexual para o fortalecimento de uma cultura de direitos humanos na luta contra as desigualdades que restringem 26 ) . travestis. situação na qual ao menos oito estados retiraram dos seus Planos Estaduais de Educação as referências à identidade de gênero. em razão da pressão das bancadas religiosas. não arrisca sua (re)eleição para debater assuntos polêmicos. que enfrentam a discrimi- nação e violência que só têm aumentado nos últimos anos. 2012. que diante de uma sociedade eivada de preconceito. M.) a prática de feminicídio aumentou em 239% (MPSP. p. estima-se que 50% dos assassinatos de travestis e transexuais no mundo todo ocorrem no Brasil (GGB.084 denúncias de violên- cias de gênero contra homossexuais (dentre os quais gays. de fundamental importância.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Exemplo atual disto ficou evidenciado na discussão dos pla- nos estudais de educação. no ano de 2014. em 2012. 4-8).

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.1998. poderiam tais conceitos auxiliar na compreensão e combate das desigualdades históricas e opressões das minorais sociais (MEC. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ou seja. 1998. acabaria por excluí-los ainda mais. O capital social desenvolve-se e fortalece-se mais facilmente quando há o sentimento de comunidade presente. p. considerando que in- divíduos identificados em papeis de gênero não tradicionais não estariam inseridos em grupos sociais e/ou comunidades por fato- res discriminatórios. quando os indi- víduos identificam-se entre si mutuamente. 2006. 2015). 234).) o acesso a bens materiais e imateriais. acaba que este grupo “atropela e deixa em suspenso todos os outros interesses. M. até mesmo porque “a perpetuação desse gru- pos depende da intensidade e elasticidade de lealdade ativa de seus membros (BAUMAN. 233). bem como. já que existe também o capital social excludente. O capital social pode estar vinculado à intolerância. (SCHMIDT. Assim. desta forma. inclusive 27 ) . deno- ta-se a importância do capital social para o enfrentamento destas questões. p. p. p. por exemplo. o capital social não bastaria para resolver sua situação. para manter todos unidos a partir de um cerne comum. Contudo. Isso porque o capital social se cria com maior facilidade em oposição a algo ou alguém. a atitudes de discriminação étnica. por quaisquer razões. 1768). a diferença dentro da comunidade representa o pró- prio poder deste grupo para limitar a liberdade individual (BAU- MAN. e na história norte-america- na há muitos exemplos de situações em que fortes laços comunitários estiveram associados. Neste cenário de exclusão e discriminação de gênero. auxiliando a partir das redes de confiança e solidariedade o acesso a bens matérias e imateriais para aqueles que se veem excluídos por questões de gênero. mas ao revés.

. utilize-se capital social. Neste sentido. de gênero. ligados ao aparato governamental e à sociedade. já que em suas fases iniciais.) o que este ou aquele indivíduo possa julgar ser o seu “próprio” in- teresse individual” (BAUMAN. e é por isso que é imprescin- dível que se cultive um capital social inclusivo. o mesmo capital social que poderia contribuir positivamente para a construção de polí- ticas públicas gênero. prejudicar e obstar que tal tema se torne preocupação do cenário político e governamental. entende-se que um capital social inclusivo aliado às políticas públicas pode vir a incentivar a construção de políticas públicas de gênero. agravado em um contexto de into- lerância e desrespeito à diversidade. ainda que com características diferentes. p. poderá.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a partir de uma “rede de compromisso social [. como foi o caso dos planos estaduais de educação.] permite que esses atores independen- tes.. religioso. enquanto rede de contatos. M. em sentido contrário. para direcionar a agenda política para outros assuntos e temas que não às questões de gênero. as questões de gênero foram reti- radas dos planos. bem como fortalece-las. político ou econômico. tão polê- micas e tão urgentes atualmente. o capital social construído e cultivado por deter- minados grupos pode vir a obstar a concretização de objetivos que não lhe pareçam pertinentes. não se olvida a possibilidade de um capital so- cial excludente ser construído. Pois. cultural. em virtude da comunhão dos interesses da ban- cada religiosa e conservadora. Do mesmo modo isto pode ocorrer no caso das políticas públicas. pois. 236). sejam atraídos 28 ) . com olhar múltiplo e que acolha a todos. Portanto. 1998. que dependem da interpretação política do contexto social. seja do ponto de vista étnico. Portanto. versus capital social aliado a outros interesses.

14). é primordial que não seja considerado a panaceia das políticas públicas de gênero. assim. Denota-se também a importância de que a igualdade gênero e a desconstrução de este- reótipos “são condições indispensáveis para quem vislumbra uma sociedade democrática e cidadão”. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. sua união de um capital social inclusivo – construído em ambiente acolhedor da diversidade . a partir de suas redes de relações sociais auxilie no fortalecimento e na visibilidade de assuntos tão fundamentais. trabalharem determinado problema da sociedade”. para a construção de uma sociedade mais solidária. 2006.107). (FARAH. 2007. pelo corporativismo e pelo insulamento burocrático”. mas que a caminhada em busca de alternativas para conquistas sociais seja fortalecida.justamente para que pautas mais controvertidas não deixem de ser discutidas em face dos interesses políticos. p. M. juntos.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. mas que o capital social. implementação e controle das políticas sociais no nível local assinala uma inflexão importante com relação ao padrão de ação do Estado no campo social no país. p. caracteriza- do pelo clientelismo. Não obs- tante. Defende-se. (INOJOSA. 29 ) . a despeito do capital social ter a chance de influenciar posi- tivamente tais questões. (PRÁ. De um lado. 2001. 11 “A inclusão de novos atores — da sociedade civil e do setor privado — na formulação.) e se mobilizem para. p. não tornando a sociedade tão dependente do Estado11. 118). está havendo uma ruptura com o pa- drão não democrático de articulação entre Estado e sociedade. como as questões de gê- nero. inclusiva e protetora dos direitos humanos e fundamentais.

ao revés. visto que este assunto. auxiliar na construção de políticas públicas gênero. o conjunto de redes e relações sociais embasados em capi- tal social inclusivo poderiam esmerar-se para que assuntos como violência e discriminação de gênero fossem percebidos como pro- blemas públicos e. portanto. portanto. propiciada e fortalecida pelo ca- pital social. pois. Assim. para que o capital social seja um propulsor da inclusão e não o contrá- rio. Unidos pelo sentimento de confiança. pudessem ser inseridos na agenda política. que este poderia. controverso. por demasiada- mente complexo. é evitado pelo setor político dependente da simpatia e aprovação do eleitorado. Prima-se. e não excludente. ainda. M. a partir daí.) 5 CONCLUSÃO O capital social enquanto conjunto de redes e relações di- recionados à solução de problemas coletivos permite o acesso a recursos e bens justamente a partir dos vínculos de confiança e solidariedade que constrói entres os membros de determinado grupo e que. Ressalva-se que tal possibilidade só contribui positivamente para as políticas públicas de gênero se formulada a partir de uma capital social inclusivo. já que este último po- deria afastar ainda mais pautas como estas se não apreciadas por determinado grupo detentor de capital social em um contexto de intolerância e desrespeito à diversidade. É nesta atuação sinérgica. o mesmo capital social que poderia contribuir positivamente para a construção de políticas públicas gênero. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. talvez se mantivessem inacessíveis.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. de outra forma. polêmico ou. po- 30 ) . fase inicial das políticas públicas. os sujeitos de determinado grupo ou comunidade podem reunir esforços para a concretização de objetivos comuns e coletivos.

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onde os autores atuam na condição de coordenadora e de participante. A pesquisa é vinculada ao Grupo de Pesquisa “Jurisdição Constitucional aberta” (CNPq) e de- senvolvida junto ao Centro Integrado de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas – CIEPPP (financiado pelo FINEP) e ao Observatório da Jurisdição Constitucional Latino-Americana (financiado pelo FINEP).ABDConst. onde ministra as disciplinas de Jurisdição Constitucional e de Controle Jurisdicio- nal de Políticas Públicas. 2 Com Pós-Doutorado na Ruprecht-Karls Universität Heidelberg (Alemanha) e Doutorado em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos (com pesquisas realizadas junto à Ruprecht-Karls Universität Heidelberg. ligado ao PPGD da Universidade de . ligados ao Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Membro do Gru- po de Pesquisa “Jurisdição Constitucional Aberta”. Mônia Clarissa Hennig Leal. vinculado e financiado pelo CNPq e à Academia Brasileira de Direito Constitucional . Coordenadora do Grupo de Pesquisa “Jurisdição Constitucional aberta”. na Alemanha).5). Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. respectivamente. coordenado pela Profª.O DIREITO FUNDAMENTAL SOCIAL À SAÚDE COMO UM DEVER ESTATAL A PARTIR DE SUA CONFORMAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 19881 Mônia Clarissa Hennig Leal2 Bruna Tamiris Gaertner3 1 Este artigo é resultante das atividades do projeto de pesquisa “Dever de proteção (Schutzp- flicht) e proibição de proteção insuficiente (Untermassverbot) como critérios para o controle jurisdicional (qualitativo) de Políticas Públicas: possibilidades teóricas e análise crítica de sua utilização pelo Supremo Tribunal Federal e pela Corte Interamericana de Direitos Humanos”. Pós-Drª. Professora do Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. desenvolvido junto ao Centro Integrado de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas – CIEPPP (financiado pelo FINEP). vinculado ao CNPq. respectivamente. financiado pelo CNPq (Edital Universal – Edital 14/2014 – Processo 454740/2014-0) e pela FAPERGS (Programa Pesquisador Gaúcho – Edital 02/2014 – Processo 2351-2551/14. 3 Graduanda em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC.

a efetivação de tal direito. para fins de abordagem. analisar a importância de o direito Santa Cruz do Sul. recebia apenas contem- plação restrita para algumas classes econômicas do Brasil e era ga- rantido apenas em âmbito curativo. é na Constituição Federal de 1988 que. sendo dever do Estado garantir. Possui estreita conexão com a noção de dignidade humana e. portanto. a problemática que cerca os direitos sociais em vista de sua efetividade e a garantia do mínimo existencial. a saúde é contemplada como um direito fundamental social. para.unisc. na segunda seção. sob os contornos do constituciona- lismo contemporâneo.) 1 INTRODUÇÃO O presente trabalho é resultado de uma pesquisa que teve por objetivo principal analisar. buscou-se. frente ao dever de proteção por parte do Estado no direito à saúde.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.br 36 ) . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. sua história e sua tímida aplicação até os dias atuais. Desta forma. como a doutrina e a legislação em vigor. através de políticas públicas. tanto no âmbito curativo como preventivo. a título proce- dimental. a pesquisa bibliográfica desenvolveu-se com a utilização do método dedutivo. M. No Brasil. o problema que se apresenta à pesquisa é: qual a conformação do direito a saúde na Constituição brasileira de 1988 e sua caraterização como elemento amoldado ao mínimo existencial? A fim de realizar a consecução dos objetivos propostos. Nesse contexto. de caráter universal. pela pri- meira vez. E-mail: brunatamiris@mx2. pois. conforma um dos conteúdos do mínimo existencial. uma construção teórica acerca do direito à saúde no contexto consti- tucional brasileiro. analisando-se os elementos essenciais ao tema. na primeira seção do trabalho. até então. e monográfico.

enquanto direito a ser garantido pelo Estado. quanto o bem-estar. p. pois estavam afastando grandes compradores de café. Após a promulgação da Constituição Federal de 1988. é necessário o conhecimento da palavra “saúde” no meio jurídico. com ações voltadas ao controle sanitário nas ruas e nos portos. (DALLARI. como saber tudo que nos é assegurado por direito? Conforme Dallari. a terminologia “saúde” representa tanto a au- sência de doença. acabavam ameaçando os interesses do modelo econômico agrário-exportador. Além da vinda da Corte portuguesa ao país. (BARROSO. tanto para classes mais elevadas da sociedade. 29) A breve história do direito à saúde pública no Brasil come- çou de forma discreta no século XIX. já que navios mercantes começaram a deixar de fazer escala em portos do Brasil. Assim. passando 37 ) . 2 EVOLUÇÃO HISTÓRICO-CONSTITUCIONAL DO DIREITO À SAÚDE Antes mesmo de iniciar a real discussão do presente artigo. 2007.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. abstendo-se a programas de combate à lepra e à peste. Dessa forma o poder públi- co busca efetiva-la por meio de políticas públicas tanto preventi- vas. com a vinda da Corte por- tuguesa. quan- to das classes populares. outro fator que motivou a aplicação de algum sistema curati- vo de saúde. Entretanto.) à saúde ser garantido como um direito fundamental social e como parte do mínimo existencial. foi a intensão de combater as epidemias de febre amarela. 97). a saúde pas- sou a ser garantida integralmente aos brasileiro e aos estrangeiros. 1995. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. M. varíola e peste. como curativas.

MIALHE. PEREIRA. 20) É na constituição de 1934. Esta estrutura. PEREIRA. contudo. MENEGHIM. p. não havia. A saúde pública não era universalizada em sua dimensão curativa. conforme artigo 10. 2540) Este modelo repressivo denominado de “campanhista”. na qual se mantinha a estrutura e o modo de operação militar. 2010. MIALHE. um modelo “campanhista”. (SILVA. É criado o Ministério da Edu- cação e Saúde Pública. hospitais próprios. (SILVA. 2540) Para livrar o país das pestes e assim. II. Onde se possuía a ideia de que cabia ao Estado assegurar o bem-estar e segurança do povo. restringindo-se a beneficiar os trabalhadores que con- tribuíam para os institutos de previdência. que passa a realizar também ações curativas. 2008. p. os conhecidos IAPs.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Se intensificou princi- palmente em portos e estradas “chamados espaços de circulação de mercadoria”.) diretamente para o país vizinho. teve uma grande influência da doutrina cha- mada de polícia médica. apenas um aumento no número de combates a doenças. p. que intitula o dever de cuidar 38 ) . Sendo um modelo repressivo de intervenção médica nos corpos individuais e sociais. que era baseado em experiências dos serviços de saúde dos exércitos coloniais. M. (BARROSO. oriunda da Alemanha de Bismarck. So- mente a partir da década de 1930. que ofereciam serviços de saúde de caráter curativo. Neste mesmo século. inclusive. Tais serviços. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. estavam limitados à categoria profissional ligada ao respectivo Instituto. o sistema de funciona- mento das “políticas” de saúde eram voltados ao sistema sanitário. Argentina. não teve grandes modificações ao decorrer do século XIX e início do XX. Alguns destes IAPs possuíam. que ficavam reservadas aos serviços privados e à caridade. ações públicas curativas. há a estruturação básica do sistema público de saúde. 2010. contudo. MENEGHIM. Criam-se os Institutos de Previdência. Como se pode observar na passagem de Barroso abaixo: Durante o período de predominância desse modelo. trazer de volta a moti- vação dos mercadores para o café do país.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 2011. que toda preocupação com a saúde na Era Vargas. para o que a União. de 1948. 08). p. O Serviço Especial de Saúde Pública (SESP) foi criado durante a 2ª Guerra Mundial. 08) Continua CARVALHO e PINTO (2011. p. Apesar de se orgulhar da criação de suas políticas de saúde. O plano apresentava previsões de investimentos de 1949 a 53. para muitos bra- sileiros restou a morte. 2009. Transporte e Energia: a Saúde foi posta como uma de suas finalidades principais. 08) A Constituição de 1934 também dispõe que é “obrigatório. p. como forma de mascarar o Estado autoritário que se formava. PINTO. 2011.142). No final dos anos 40. pois a maioria fora tratada como párias da sociedade. inclusive aquelas referentes à saúde. (CARVALHO. como competência concorrente entre a União e os Estados. em todo o território nacional. conforme salienta Maria Bravo: Política Nacional de Saúde. foi consolidada no perío- do de 1945-1950. em convênio com órgãos do governo americano e sob o patrocínio da Fundação Rockefeller. foi consolidada somente após 2º guerra. (BRAVO. M. com o Plano Salte. não poderão dar garantia de juros a empresas concessionárias de serviços públicos (Art. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Apesar de se ter declarado na Constituição vigente na época era dever e responsabilidade estatal cuidar da saúde da população. 05) 39 ) . Dessa forma. Mas sim. PINTO. começa a surgir um interesse real pelo bem-estar físico da pessoa humana. que envolvia as áreas de Saúde. e também. nem tão pouco por conscientização estatal ou pela trajetória do direito à saúde no país. Alimentação. (CARVALHO. o amparo à maternidade e à infân- cia. os Estados e os Municípios destinarão um por cento das respectivas rendas tributárias” (Art. 141). que se esboçava desde 1930. não fostes por compaixão com a comunidade brasileira. a política que realmente se pensava em 1930. Assim.) da saúde e assistência pública. mas não foi implementado. por não conseguirem ajuda médica neces- sária.

então. 10) Até então. (CARVALHO. os trabalhadores do mercado informal e aqueles que não possuíam emprego. o Ministério da Saúde – passando a dividir o Ministério da Saúde e Educação –. precisou atuar diretamente no combate da malária no Brasil. na época da Ditadura Militar se instaura como um direito individual. ou seja.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. que a Organização Pan-Americana de Saúde (órgão regional da Organização Mundial da Saúde). 14) Continua o autor. Entretanto. através da Lei 1. Contudo. Com a redemocratização e a formulação da Constituição de 1988. podendo usufruir da saúde pública. Já que. não se encontravam amparados pelo Poder Público. pode-se perceber que o legislador teve um sério cuida- 40 ) . M. (BARROSO. p. nesse período foram criados Serviços de Assistência Médica Domiciliar de Urgência e a Superintendência dos Serviços de Reabilitação da Previdência Social. todavia os traba- lhadores informais. 2008. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. PINTO. p. A escassez de recursos a saúde foi tão gran- de. as políticas de saúde continuaram à mercê do devido respeito e importância pública. Uma vez que. todo trabalhador de carteira assinada era contribuinte e beneficiário de tal serviço. os recursos fi- nanceiros do ministério eram escassos e havia toda uma estrutura burocrática que empecilhavam o desenvolvimento de políticas e prestações à saúde. em questões de direito à saúde. 2011. Foi criado.920.) Mesmo com a troca de governo e a volta da redemocratiza- ção. Na qual. ocorreu a junção da Previdência Social com as IAPs. em 25 de julho de 1953. a saúde era garantida em sua totalidade apenas aos trabalhadores que estivessem no mercado formal. não tinha acesso ao benefício e voltavam a se enquadrar no que ocorria no século XIX. o direito à saúde havia sido tratado como um di- reito coletivo.

5º. 02) Assim. a partir do pós-II Guerra. 6º. e art. 138. 8º. p. “c”. Antes de 1988. caput). § 1º. 113. Em geral. art.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. XIV. 18. a tutela (constitucional) da saúde se dava de modo indireto. juntamente com a positivação de uma série de outros direitos fundamentais sociais. Constituição de 1937. art. XXXI) ou a garantia de inviolabilidade do direito à subsistência (Constituição de 1934. tais como a garantia de “socorros públicos” (Constituição de 1824. XV. 165. 121. art. no âmbito tanto das normas de definição de competências entre os entes da Federação. ao constitucionalismo de cunho democrático-social desenvolvido. Em virtude de ser ga- rantido plenamente. FIGUEIREDO. “b” e art. em termos legislativos e executivos (Constituição de 1934. Conforme passagem de Sarlet e Figueiredo: A consagração constitucional de um direito fundamental à saúde. de- pois transformado em parágrafo único pela Emenda Constitucional nº 01/1969). e art. que a liga. art. art. Constituição de 1967. item 1. 41 ) . certamente pode ser apontada como um dos principais avanços da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (doravante designada CF).) do com os direitos fundamentais e sociais. art. (SARLET. Constituição de 1937. 179. 5º. “c”. “h”. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. e art. “c” e “e”. Constituição de 1946. Constituição de 1967. 8º. art. além de se encontrar assegurado como um direito fundamental. § 2º. II. art. XIV e XVII. XXVII. contudo. a ser a primeira a garantir o direito à saúde para todo (incluindo-se aos estrangeiros). Constituição de 1946. entende-se que o direito à saúde na Constituição de 1988 passa a ter um forte protagonismo. 16. 127 e art. 157. 137. 10. com eficácia imediata e de acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção. M. art. quanto das normas sobre a proteção à saúde do trabalhador e das disposições versando sobre a garantia de assistência social (Constituição de 1934. nesse pon- to. proteção e recuperação. 2008. art. sobretudo. a proteção do direito à saúde ficava restrita a algumas normas esparsas. Passando a atual Car- ta Magna. XIX. IX e XV). e art.

080/90) estipula toda a es- trutura e o modelo operacional do Sistema Único de Saúde. tam- bém propondo o modo como deve ocorrer o funcionamento e a organização do sistema. é importante destacar dois deles: o inciso I. 2008. que revela a necessidade de articulação contínua de ações e serviços preventivos e curativos em matéria de saúde. cuja importância consiste não só em evitar o desenvolvimento de doenças. (ASENSI. (BARROSO. etnia. como também a melhora da qualida- de de vida dos cidadãos.“universalidade de acesso aos serviços de saúde em todos os níveis de assistência” – por meio do qual é ga- rantido a todos que usufruam do serviço público de saúde. estaduais e municipais. foi sancionada a Lei nº 8. além dos objetivos do SUS de combate às doenças e suas consequências. 2015. AIDAR. PINHEIRO. p. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. da Administração direta e indireta”.) É através de políticas públicas que se encontram a efetivação dos direitos sociais. M. etc. com direção em cada esfera de governo: a) ênfase na descentralização dos servi- ços para os municípios.080/90. Portanto. credo. 16) A Lei 8.“descentralização político-administrativa. em seu artigo 7º e incisos. 03) A Lei Orgânica da Saúde (Lei 8. inde- pendentemente da idade.080/90. condição financeira. RAMOS. o direito a saúde. O mesmo é “concebido como o conjunto de ações e serviços de saúde. como exemplo. traz um rol de princípios para o funcionamento dessa política pública. que criou o Sistema Único de Saúde (SUS).. Em meio aos treze incisos que se ocupam do tema. p. está o princípio da integralidade. prestados por órgãos e instituições públicas federais. b) regionalização e hierarquização da rede 42 ) . e o inciso IX. Com isso.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Entre os princípios norteadores deste sistema. há o fomento de ações enquadradas numa medicina preventiva.

p. (Lei 8. tor- nando o município o principal provedor deste direito. tem-se. XV). ao Distrito Federal e aos Municípios para o aperfeiçoamento da sua atuação institucional” (art. atribuiu a competência de “prestar cooperação técnica e financeira aos Estados. dos serviços e ações de saúde. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. organizar. incumbiu de planejar. 16. (BARROSO. e com base nos artigos 16. I e III). que estipula as atribuições de cada ente federado. 17. devendo “promover a descentralização para as Unidades Federadas e para os Municípios. no que tange garantir o direito a saúde. À direção nacional do SUS. XIII). contudo. do ponto de vista financeiro. fazendo parte do rol dos direitos sociais fundamentais. de abrangência estadual e municipal” (art. à direção municipal do SUS. À direção estadual do SUS. que “a saúde é direito de todos e dever do Estado. 1988) Por mais que esteja estipulado em lei a quem cabe garantir o direito e de que forma. com tantas pessoas 43 ) . e de executar supletivamente ações e serviços de saúde. com base no art. há uma enorme discussão. 18.” (CONSTITUIÇÃO FEDERAL. sobre o ônus de manter a efetividade do direito à saúde de forma irrestrita. proteção e recuperação. atribuiu as competências de promover a descentrali- zação para os Municípios dos serviços e das ações de saúde. em seu art. controlar. Conforme Barroso. gerir e executar os serviços públicos de saúde (art. 17 e 18 da Lei do SUS. garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção. 16) Assim. M.080. 2008. Por fim. 16. 196 da CF/88. passa a ocorrer uma divisão quanto ao ente governamental que cederá recursos financeiro para a implementação e asseguração da política pública do SUS. a Lei nº 8.) de serviços de saúde – dessa forma. ou seja.080/90.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. respectivamente. de lhes prestar apoio técnico e financeiro. 1990) Seguindo o último princípio tratado no parágrafo anterior.

CF) à União. com a Constituição Federal de 1988 e a garantia do direito à saúde. em seu texto sobre a matéria. viabi- lizando-se o direito à saúde. quanto a quem caberia a efetivação desse direito: Na Constituição brasileira. II. antes de aprofundarmos os conhe- 44 ) . 286) Portanto. p. Sarlet e Lim- berger trazem. uma pequena discus- são. CF) é reconhecido como direito social e um dever do Estado (art. SALDA- NHA. II. ao Distrito Federal e aos Municípios. quando a responsabilidade é tão partilhada entre to- dos. Se consegue por meio de norma constitucional a efetivação da dignidade da pessoa humana. o direito à saúde (art. competindo à União o estabelecimento de normas gerais e aos Municípios as suplementares (art. 196. CF) que a Constituição institui obrigações para todos os entes federados. VII. garante-se o direito à vida.” (LIMBERGER. Para tanto. não há financeiramente como a União. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. §§ 1º e 2º. M. CF).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Pois.) (neste caso estrangeiros e brasileiros) se beneficiando de tal direi- to. 6º. à uma existência digna e de qualidade. como um bem de caráter universal e assegurado pelo Estado através de políticas públicas. Constitui-se em competência comum (art. para garantir ao menos a essencial dignidade da pessoa. 2011. 24. com- petência concorrente sobre a proteção e defesa da saúde. Nenhum dos entes federativos está isento de atribuições. 23. mas por outro lado. c/c art. com embasamento em lei. 30. consequentemente. aos Estados. 30. os Estados e Munícipios garantirem este direito na integridade como deveria. 3 DIREITO A SAÚDE E O MÍNIMO EXISTENCIAL Entende-se o mínimo existencial como sendo aquela garan- tia mínima advinda do Estado. fica mais difícil cobrar a atribuição de cada um. Isso apresenta dupla crítica no sentido de que a todos incumbem tarefas. CF) e cooperação técnica e financeira com o auxílio da União e dos Estados (art.

mas passam a lograr reconhecimento pau- latino. independente- mente de suas circunstâncias concretas ou dos danos que eventual- mente tenham causado à realidade externa”. assim como a noção de dignidade hu- mana. sou seja. que em poucas palavras pode ser dita como: O reconhecimento de uma dimensão cultural e prestacional da dignidade não está a aderir à concepção da dignidade como prestação. a “dignidade humana é simulta- neamente limite e tarefa dos poderes estatais e. 2011. 59-60) Conforme o mesmo autor. p. 2011. nem são preexis- tentes ao surgimento da raça humana. terrorista. de todos e de cada um. não sendo tarefa dos direitos fundamentais assegurar a dignidade. é necessário o entendimen- to quanto a dignidade da pessoa humana. ao menos não naquilo em que se sustenta ser a dignidade não um atributo ou valor inato e intrínseco ao ser hu- mano. (SARLET. 186) A dignidade humana se destina ao indivíduo em si. condição dúplice que também aponta para uma paralela e conexa dimensão defensi- va e prestacional da dignidade”. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 58) Importa registrar que os direitos humanos. no nosso sentir. (SARLET.) cimentos sobre o mínimo existencial. MASSON. (SILVA. segundo uma noção denominada de historicidade. no sentido do respeito pelo Estado e do respeito mútuo entre os homens. assim sendo. mas sim. etc. mas sim. M. eminentemente uma condição conquistada pela ação concreta de cada indivíduo. seu desabrochar se confunde com o passo-a-passo do estabelecimento da sociedade. as condições para a realização da prestação. 2015. 2015. (BAEZ. p. não surgiram somente após a Segunda Guerra Mundial. p. em paralelo com o desenvolvimento da sociedade. a dignidade “atribuída aos indivíduos. p. 59) 45 ) . vale dizer. da comunidade em geral.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. representando lentas conquistas significativas da humanidade. não importando se este é um terrível criminoso.

como ressalta Figueiredo: Além de derivar da noção de dignidade da pessoa humana. o mínimo existencial nos remete a uma noção de concretização dos direitos fundamentais. que consiste numa clausula aberta capaz de respaldar o aparecimento de novos direitos na dogmática cons- titucional. Abrange qualquer direito. 2015. explícito na Constituição Federal. 191) A partir desse entendimento. no que represente de essencial e inalienável. isto é. são a primeira e mais importante forma de concretização do princípio da dignidade humana. uma vez que: Os direitos fundamentais. traz a tarefa de enumerar os direitos sem os quais não haveria possibilidade de desfrutar de uma vida digna. 2015. MASSON.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. (SILVA. bem como compreende outras noções. contudo. (SILVA. já que a prioridade do Estado dever ser a pessoa. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2007. e nas imunidades e privilégios do cidadão. estando “apenas delimitado conceitualmente 46 ) . 198) Há princípios constitucionais que cercam o mínimo existen- cial. M. p. portanto. p. 189) O mínimo existencial não se encontra.) Pode-se estreitar uma ligação entre a dignidade humana os direitos fundamentais. o mínimo existencial também se fundamenta ao princípio da liberdade. p. pode-se constituir a ideia de que o mínimo existencial. que protegem a digni- dade da pessoa humana. enquanto condições iniciais da liberdade. entre as quais a ideia de felicidade do homem. como proteção daquilo que seja necessário à manutenção das mínimas condições de vida condigna. É delineado em termos qua- litativos. da garantia de pressupostos fáticos que permitam ao indivíduo agir com autonomia. (FI- GUEIREDO. em todas as suas dimensões. em princípios constitucionais como a igualdade. nos direitos hu- manos. MASSON. o devido processo jurídico e a livre iniciativa. dessa forma.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. sob pena de negação do próprio direito. p. pela interpretação sistemática da Constituição brasileira. lazer. educação. segurança. (FIGUEIREDO. a independentemen- te de algumas eventuais questões orçamentárias. Sem cair em excessos.) pela doutrina. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. moradia. p. 262-263). em que o Estado deve necessariamente garantir. ora como direi- to fundamental decorrente do Estado Social e da proteção à vida” (FIGUEIREDO. M. que em hipótese alguma poderá ser ultrapassado. p. na medida em que estreitamente atado à noção de dignidade da pessoa humana. 199) Assim. 2007. devem ser asseguradas condições de alimento. por mais que exista esse “núcleo essencial”. 1999. possuem um núcleo mínimo em cada direito social. dos demais direitos fundamentais e dignidade da pessoa que o titule. 188) Outra definição estabelecida por Torres fala de um direito às condições mínimas de existência humana digna que não pode ser objeto de intervenção do Estado que ainda exige prestações estatais positivas (TORRES. p. mesmo em termos mínimos permitam a fruição de uma vida digna. enquanto esta. com liberdade e autonomia individual. (FIGUEIREDO. Trata-se de um limite mínimo absoluto. os direitos fundamentais além de seus caráteres prin- cipiológicos. de modo que o mínimo existencial não pode ser confundido com o mínimo de subsistência. 200) Para Leal. estabelecido in concreto. 2007. o mínimo existencial há de refletir o escopo de realização do ser humano. saúde. informação. de acordo com as próprias características do direito e em atenção à preservação da dignidade humana. que 47 ) . 2007. ora como dado pré-constitucional. pressu- põe a preservação de uma série de valores e bens. que.

140. devendo. sendo que na determinação do conteúdo que densifica o mínimo existencial não deve o Ju- diciário ir além do que exige a estipulação de um conteúdo mínimo ou essencial. Tais prestações mínimas devem ser estabelecidas em função de uma análise in concreto que. passível de imediata reclamação perante o Poder Judiciário. (MENDES. “ele se insere em uma lógica na qual prevalecem as noções de “máxima realização possível” e de “mínima restrição necessária. é dever do Estado garantir que os direitos fundamentais não sofram agressão por terceiros e nem pelo próprio Estado. à semelhança da definição do conteúdo essencial dos direitos. uma vez que o conteúdo de um direito não é algo fixo nem alheio à comunidade em que se radica. M. en- tende-se que mínimo existencial pode ser afirmado como direito fundamental originário. 2015. 2004) A razão maior para a existência do Estado (Estado-Legislador. 201) Como visto. Assim. 157) Segundo Figueiredo (2007. proteção e promoção da dignidade dos seus cidadãos. individual e coletivamente considerados. os direitos fundamentais estão associados à no- ção de mínimo existencial. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. p. leve em conta o tipo de sociedade e as exigências e expectativas referentes ao direito em jogo.” (LEAL.) configure o “mínimo” a ser garantido. Os deveres de proteção do Estado contemporâneo 48 ) . tan- to para evitar vulnerações por parte do Estado ou por terceiros. 201) o mínimo existencial constitui um quid a ser imposto pelos direitos fundamentais. quanto. (FIGUEIREDO. sob pena de injustificadamente invadir a seara de competência legislativa. portanto. em virtude de respaldar a pretensão às condições mínimas da dignidade humana. p. Estado-Adminis- trador e Estado-Juiz) reside justamente no respeito. p. p. tal objetivo ser continuamente promovido e concretizado pelo Poder Público e pela própria sociedade. numa acepção prestacional. 2007.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Assim.

todos os cidadãos usufruam na totalidade de seus direitos e garantias. por meio do pacto constitucional. no sentido de tutelar e garantir nada menos do que uma vida digna e saudável aos seus cidadãos. 03. Ou seja. 2015. é obrigatória a atuação do Estado para ga- rantia da saúde. não pode ser interpre- tado de maneira equivocada. desconfigurando o real sentido do mínimo existencial. impedir a omissão do Estado ou agressão de um terceiro. (LEAL. A fim de. contra os agressores. etc.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. mas pelo menos seja efetivado o núcleo mínimo do direito fun- damental.) pressupõe uma ação positiva (e não apenas negativa) dos poderes públicos. (SARLET. acaba sendo a “máxima realização possível”. portan- to. se entendeu a necessi- dade da proteção dos mesmos. o que abrange a retirada dos possíveis obstáculos à sua efetivação. 49 ) . p. FENSTERSEIFER. o que passa pela tarefa de proteger e promover (já que proteção e promoção não se confundem) os direitos fundamen- tais. E. onde o valor do direito fundamental litigiado. permite aos cidadãos que tenham seus direitos fundamentais assegurados em nível básico. E que o mínimo existência beira o limite que deve ser assegurado pelo Estado. mesmo que de imediato não seja na sua totalidade. se estima que o Estado atue no que for necessário para manter a dignidade da pessoa humana. De acordo com tal premissa. 157) Desse modo. p. a garantia do mínimo existencial. M. mas também. Comumente.) estão alicerçados no compromisso constitucional assumido pelo ente estatal. às garantias e direitos assegurados. livre desenvolvimento da personalidade. a implantação das liberdades e garantias fundamentais (direito à vida. Para que dessa forma. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. pode-se afirmar que os direitos fundamentas possuem como objetivo principal a garantia da digni- dade humana. social e cultural que impeçam o pleno desenvolvimento da pessoa humana. de modo a remover os “obstáculos” de ordem econômica. 2010) Frente ao exposto até então.

mas melhor do que se encontrara até então. Estados e Munícipios. ainda permanecia um modelo apenas curativo. que estava sendo prejudicada por doenças infecciosas. de modelo curativo e preventivo e de caráter universal. Então. cha- madas de “campanhista” principalmente em portos e estradas. já que na época ocorreu a junção da Previdência Social com as IAPs.) 4 CONCLUSÃO Diante de todo o exposto. Por fim. com a redemocratização e a formulação da Constitui- ção de 1988. como por exemplo a Lei 8.080/90 – Lei do SUS. conclui-se que o direito à saúde teve sua primeira aparição com a vinda da Corte Portuguesa para o Brasil. conclui-se que a problemática da conformação do direito a saúde na constituição brasileira de 1988. no que tange as iniciativas sanitárias.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. E passa a ser garantida apenas à trabalhadores do mercado formal. se tem instaurado o direito a saúde. principalmente. de aplicabilidade imediata. por parte do Estado. de um por certo das rendas tributárias à serviços públicos. Assegurado pelo artigo 196 da Constituição Federal. Estados e Munícipios. Permanecendo este modelo do século XIX até início do século XX. Resultando aos trabalhadores informais e desempregados. em sua totalidade. Entretanto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. à falta da seguridade do direito à saúde. o amparo pela União. que visa garantir a universalidade do 50 ) . Com a Constituição de 1934. M. se encontra efetivada mediante políticas públicas. incluindo à saúde. no rol de direi- tos fundamentais. dever da União. garantir o direito à saúde. de- vido à atividade econômica da época. se torna obrigatório em todo o território nacional. Na Ditadura Militar se instaura como um direito individual.

Disponível em: http://www. Acesso em 19 de abril de 2016. Jurandir (Org. BRAVO. BRASIL.) programa a todos que neste país vivem. BAEZ. Acesso em: 19 de abril de 2016.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. incluindo neste caso os estrangeiros. Narciso Leandro Xavier (Orgs. passa o cidadão a desfrutar da proteção da garantia mínima dos direitos fundamentais. p. Devido ao mínimo existencial constituir um quid. Da falta de efetividade à judicialização excessiva: Direito à Saúde. Ana Elizabete 51 ) . proteção e recuperação da saúde. Dispõe sobre as condições para a promoção.pdf. conteúdos mínimos e critérios de aplicação (Versão provisória para debate público).com. fornecimento gratuito de medicamentos e parâmetros para a atuação judicial. Rogério Luiz Nery da. garantir as condições mínimas da dignidade humana.luisrober- tobarroso. Disponível em: http://www. a organização e o funciona- mento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Constituição (1988). Lei nº 8. Uberaba: UNIUBE edi- tora.ed. Constituição da República Federativa do Brasil. Narciso Leandro Xavier. acaba por tentar evitar vulnerações por parte do Estado e terceiros. BRASIL.). Política de Saúde no Brasil. Revista Jurídica UNIJUS.planalto. 33. M.br/wp-content/themes/LRB/pdf/a_dignidade_ da_pessoa_hu- mana_no_direito_constitucional. de 19 de setembro de 1990. Floria- nópolis: Qualis. Luis Roberto. 2015. 1998.br/ccivil_03/leis/L9868. In: MOTA. direitos sociais e não-positivismo inclusivo. 39-90. In: SEBASTIÃO. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.080.gov. A morfologia dos direitos fundamentais e os pro- blemas metodológicos da concepção de dignidade humana em Robert Alexy. E devido a garantia do mínimo existencial. neste caso mais especificadamente o direito à saúde. SILVA.).htm. _________. Robert. Dignidade humana. BARROSO. In: ALEXY. Podendo assim. REFERÊNCIAS BAEZ. A dignidade da pessoa humana no direito constitucio- nal contemporâneo: natureza jurídica. Maria Inês Souza.

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Professor da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento da Magistratura – ENFAM. É integrante do grupo de pesquisa Patologias Corruptivas nas relações entre Estado. Brasília. Coordenador Científico do Núcleo de Pesquisa Judiciá- ria. E-mail: rleal@unisc. Universidad de La Coruña – Espanha. Membro do Conselho Científico do Observatório da Justiça Brasileira. e Universidad de Buenos Aires. do Conselho Nacional de Justiça-CNJ.br 3 Jonathan Augustus Kellermann Kaercher é Advogado. coordenado pelo Prof. Membro da Rede de Direitos Fundamentais-REDIR. e vinculado ao Diretório de Grupo do CNPQ intitulado Estado. Coordenador da Rede de Observatórios do Direito à Verdade. consequências e tratamentos. da Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento da Magistratura – ENFAM. A LEI ANTICORRUPÇÃO BRASILEIRA (LAC) E A RESPONSABILIDADE ADMINISTRATIVA E CIVIL DAS PESSOAS JURÍDICAS1 Rogério Gesta Leal2 Jonathan Augustus Kellermann Kaercher3 1 Este artigo é resultado de pesquisas feitas junto ao Centro Integrado de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas . 2 Rogério Gesta Leal é Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul. Professor Titular da UNISC. Administração Pública e Sociedade. ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E SOCIEDADE: cau- sas. coordenado pelo Professor Doutor Rogério Gesta Leal.Mestrado e Doutorado da Universidade de Santa Cruz do Sul-UNISC. Titular Dr. Mestrando no Programa de Pós- -Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado da Universidade de Santa Cruz do Sul/ RS – UNISC (2015-2016) com Taxa da Capes. Doutor em Direito. Administração e Sociedade: causas.CIEPPP.com . consequências e tratamentos. Brasília. Rogério Gesta Leal. Memória e Justiça nas Universidades brasileiras – Se- cretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. bem como decorrência de projeto de pesquisa intitulado PATOLOGIAS CORRUPTIVAS NAS RELAÇÕES ENTRE ESTADO. do Programa de Pós-Graduação em Direito . Professor Vi- sitante da Università Túlio Ascarelli – Roma Trè. E-mail: jonathanaugus- tus@hotmail. Professor da UNOESC.

Um dos grandes problemas decorrentes do debate jurídico 55 ) . notadamente em face das sanções que esta norma traz a lume às empresas que comete- rem atos corruptivos em detrimento do interesse público.846/2013. o tema da responsabilidade – em linhas gerais – esteve sem- pre presente não só na dogmática jurídica. a partir do que tem evoluído o tema. a chamada Lei Anticorrupção – LAC traz uma série de questionamentos à doutrina brasileira. o enfrentamento do tema a partir da tradição que se constituiu historicamente. para então verificar-se em que medida pode se estender tais contributos às regras novas envolvendo a LAC. em face disto. M. no sentido de que qualquer dano ou lesão a interesse juridicamen- te protegido reclama reparação/responsabilidade. o tema da respon- sabilidade civil – ao menos no âmbito das relações entre privados – ancorou-se na base do dolo e da culpa. mas na opinião pública.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. demandando o envolvi- mento do elemento subjetivo específico do sujeito de direito. II – O PROBLEMA DA RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA NO ÂMBITO DA DOUTRINA JURÍDICA: ALGUNS APONTAMENTOS É preciso reconhecer que. historicamente. Ou seja. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Impõe-se. tanto para o Direito Administrativo como para o Direito Civil.) 1 NOTAS INTRODUTÓRIAS: O tema da responsabilidade objetiva administrativa e ci- vil das pessoas jurídicas de direito privado no âmbito da Lei nº 12.

em 1888. basta ver-se os inúmeros riscos e mesmo prejuízos que as diferentes matrizes de processos produtivos do capitalismo criaram ao longo da história. etc. Não por acaso que o Direito Ambiental é um dos primeiros campos jurídicos a ado- tar o risco do dano como causa de proteção curativa e preventiva (LEAL. E isto se dá pelo fato de que. refere expressamen- te que “haverá obrigação de reparar o dano. em seu §1º. de poluição. presentes e futuras. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar. no sentido de que há determinadas atividades que podem representar risco a outras pessoas independentemente de dolo ou culpa. submeten- do trabalhadores. risco para os direitos de outrem”.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Tais situações foram acumulando às gerações passadas. Lembra Neto (2000) que foi na Alemanha. cria um risco.) é saber se a modalidade de responsabilidade subjetiva é suficiente hoje para albergar as diversas formas complexas de relações sociais e jurídicas que se estabelecem no cotidiano das pessoas. quem. nos casos especificados em lei. Há certa lógica argumentativa e fática aqui. M. com sua atividade. ainda porque essa atividade de risco lhe proporciona um benefício. Se sempre é possível identificar como fonte do dano a ação ou omissão dolosa ou culposa do agente em sentido estrito. danos incal- culáveis que vão produzir efeitos por décadas. 2010). tanto que o art. do Código Civil Brasileiro. independentemente de culpa. Sociedade e meio ambiente a progressivos ciclos de depauperação em múltiplos níveis (físicos. por sua natureza. contra a sustentabilidade do desenvolvimento. 927. A resposta a ambas as questões é negativa.). que se 56 ) . deve suportar o prejuízo que sua conduta acarreta. o resultado danoso e o nexo de causalidade entre a ação/omissão e o resultado.

passando pelas perspectivas: (a) da responsabilidade de tipo risco integral. 2000). Um dos problemas da teoria do risco-proveito é o de se aferir quando ele existe e de que natureza é. autorizando o reconhecimento desta quando o agente excede a conduta para além do respeito a terceiro – o que amplia as discussões sobre o tema da subjetividade do que seja normali- dade e anormalidade para fins de responsabilidade objetiva. excetuando-se os fatos exteriores a si. basta que diga respeito a qualquer atividade que seja potencialmente danosa à esfera jurídica de terceiros. o que evidencia o funcionamento do risco como fundamento da obrigação de inde- nizar. M. estruturada a partir da ideia de que é importante assegurar às vítimas reparação de danos que foram causados por agentes que empreenderam ati- vidades potencialmente causadoras deles (FACHIN. a chamada teoria do risco-criado. tais como a teoria do risco-proveito (responsabilizando agentes econômicos pelos atos praticados que lhes rendem dividendos. A partir daí foram muitas as evoluções desta modalidade de responsabilidade civil objetiva. operando sob o funda- mento de que haveria a obrigação de reparação de qualquer dano causado pelo agente.) sustentou que os danos oriundos de acidentes inevitáveis na ex- ploração de uma empresa deviam ser incluídos nas despesas do negócio atendendo ao interesse da paz social. e por eles devendo ser responsabiliza- dos).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. desde que seja ele a causa material do ato. (c) até chegar a responsabilidade do risco propriamente dita. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. e justifica a responsabilidade sem culpa. Mesmo esta responsabilidade do risco mais contemporânea ganhou modulações múltiplas. (b) da responsabilidade por ato anormal. que não mais pressupõe o risco como um elemento da atividade economicamente proveitosa ao agente. pois se o conceito de pro- 57 ) .

Caio Mario da Silva Pereira.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. e às relações entre os indivíduos. salvo prova de haver adotado todas as medidas idôneas a evita-lo (PEREIRA. mas deve centrar-se na pessoa da vítima. M. bem como de um direito à integridade patrimonial e moral a ser protegido e garantido pela ordem jurídica. está sujeito à reparação do dano que causar. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Daí o fôlego que ganhou a teoria do risco criado. acarretando riscos e danos imensos à So- ciedade como um todo. isto reduziria em muito as possibilidades de configurativas de auto- ria da responsabilidade. Tais cenários geram riscos que extrapolam a lógica da culpa em sentido estrito ou do dolo. entre os brasileiros muito festejada pelo Prof. cria um perigo. o que afeta os padrões de dignidade humana postos pela cultura constitucional atual. restando a vítima com a obrigação de provar a obtenção do proveito. Associe-se a isto o fato inarredável de que as relações sociais hodiernas se encontram marcadas por níveis de complexidade e conflituosidade jamais antes vistos. Resta claro. ao Meio Ambiente natural e construído. talvez limitando-a às figuras dos agentes de mercado. localizado em uma ação específi- ca de uma pessoa específica.) veito estiver vinculado exclusivamente a sua dimensão econômica. a partir destes elementos. em face também do desenvol- vimento desequilibrado do crescimento econômico divorciado do desenvolvimento social. sustentando exatamente que aquele que. que o fundamento da responsabilidade civil – notadamente em sua modalidade objeti- va . pois envolvem vários protagonistas 58 ) .não deve repousar prioritariamente no proveito econômico que obteve o agente que a criou. em razão de sua atividade ou profissão. esta que é dotada de direitos inalienáveis. 2002).

por exemplo. formatando instâncias de responsabilidade compartidas em diversos momentos das cadeias de nexos causais originários dos riscos e danos consectários.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. de 1991.12. de 1990. 933 e 936). que interagem de forma associada ou não. de 1967.316. institucionais. e mesmo os arts. de 1974 e da Lei n.º 8. 937).441. nos termos do art.938. entre outras.CDC.º 5.) e atores.º 8. e da Lei n.784. do CDC. §1º. (iii) a responsabilidade por fato de terceiro e por fato de animais (arts. por exemplo. 59 ) . 157. atinente aos danos causados ao meio ambiente.932. 422. de 1981. a edição do Decreto n.º 61. (iv) a responsabilidade empresarial pelos danos causados pelos produtos postos em circulação (art. Mais recentemente.078. 187. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.213. e art.º 2. do NCCB.º 8. 46 e seguintes. 421. cabendo à seguradora pagar o valor previsto independente de culpa do motorista. 424. da Lei n. do CDC.927. 39. na legislação ordinária brasileira contemporânea? Historicamente. M. de 1992.194. a exigência boa-fé (inclusive objetiva). de 1912.º 6. a pró- pria Lei n. 478. da Lei n. instituidora do Código de defesa do consumidor . do Decreto n. tem-se: (i) A previsão de que o contrato tenha uma função social. respeito aos usos e costumes e proteção da ordem pública – pelos termos dos arts. todas versando sobre acidentes de trabalho.NCCB. regulando o seguro obrigatório de acidentes de veículos. o que implica a proibição do abuso de direito. (ii) E a previsão da responsabilidade civil ob- jetiva. (v) a responsabilidade decorrente de ruína (art.931).681. tratando do tema da responsabilidade das estradas de ferro por danos causados aos proprietários marginais. com a edição do Novo Código Civil Bra- sileiro .º 6. do equilíbrio. de 1967. e a Lei n. coletivos e individuais. E quais os reflexos dis- to.

do NCCB. ao exercê-lo excedendo manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social. pela boa-fé ou pelos bons cos- tumes. O que o sistema jurídico sob comento está a dizer é que é possível haver lesão de direito de outrem pela prática de ato lícito. M. 2011). configura o cometimento de ato ilícito passível de sanções as mais diversas. ou que deteriora/destrói coisa alheia. e que em tais condições há responsabilidade passível de aferição e ensejadora de reparação. a socialidade e a operabilidade (REALE. a fim de remover perigo iminente. 2002). pela influência da jusfilosofia do século XIX. reconhece ao lesado que não houver concorrido para o perigo referido no art. reforça a ideia de responsabilidade empresarial.) É tão clara a opção normativa neste sentido que o art. a saber. do NCCB. Na perspectiva da eticidade. deixa de considerar ilícita a conduta de agente que atua em legítima defesa. É importante ter presente neste particular os escopos neurais que fundaram a elaboração não só desta norma como de todo o novo Código.188. todavia. em seu art. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. o mesmo NCCB. na medida em que prevê que o titular de um direi- to. a eticidade. ou lesiona pessoa. O art. desde que a vítima não tenha dado causa (direta ou indireta) à situação de perigo cor- respondente. Reside aqui alguns fundamentos da denominada responsabilidade aquiliana.187. em especial a existência de irregulares comportamentos de sujeitos de direitos descumprindo normas ju- rídicas cogentes preexistentes (STOCO. procurou-se superar o formalismo jurídico que inspirou o Código Civil de 1916.929. em especial do direito tra- 60 ) . no exercício regular de um direito reconhe- cido.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. o direito à reparação independen- temente de culpa daquele agente que o provocou (mesmo que naquelas circunstâncias).188.

todavia. esta representa a supera- ção do caráter individualista do anterior Código. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.) dicional português e da escola pandectística germânica. à luz do que dispõe o art. É certo que com o advento do Código de Defesa do Consumidor (veja-se as disposições dos arts. 39 e 51). a responsabilidade do Estado igualmente sofreu transformações no decorrer do tempo. por exemplo. Já sob a perspectiva da socialidade.187. pois. como no caso do abuso do poder econômico (pelos termos. em diversos campos do direito privado. M. 28. fatos e negó- cios). notadamente no que diz com não se exigir mais a presença do dolo ou da culpa à determinação da abusividade de condutas de sujeitos de direito. O abuso do direito ínsito ao art.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. como refe- re Bruno Miragem. 2001). apresentam-se como defi- nidores de seu exercício. do NCCB sob comento. indo ao encontro da funcionalização dos direitos subjetivos (MARTINS COSTA. a Carta do Império 61 ) . §2º. da Lei n.187 em análise. o tema da operabili- dade visou estabelecer soluções normativas de modo a facilitar a interpretação e a aplicação do novo Código. passa a ser considerado em vista do exercício dos direitos no âmbito de certas relações jurídicas ainda não pre- vistas pelo Código Civil de 1916. Os fins econômicos ou sociais de cada direito. por especial no âmbito jurisdicional e no caso concreto. cuja aplicação se define no âmbi- to do fenômeno social das relações jurídicas (atos. Por fim.º 8. mas também de terceiros. que era adequa- do apenas à sociedade brasileira agrária e individualista do século XIX. 37. envolvendo não só o interesse imediato das partes.884/1994). Em termos de Brasil. são utilizados conceitos como a função social. Nos primórdios de nossa história constitucional. Para tanto. este processo se radicalizou mais no Brasil. notadamente através da utilização de cláusulas gerais.

na sequência. os atos ou omissões praticados pelos agentes estatais. seriam de responsabilidade exclusiva desses agentes.) de 1824 dispunha. Por sua vez. o que gerou muitas discussões quanto à natureza dessa responsabilidade. e isto porque a responsabilização do Estado por seus atos poderia comprometer a soberania do Es- tado. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. que causassem danos aos indivíduos. criou-se nova regra de responsabilidade. É de se lembrar.no sentido de aplicar a teoria subjetiva. e responsáveis aos seus subalternos. Com a promulgação do Código Civil. M. praticados pelos representantes do Estado que exce- dessem nas suas funções não geravam a responsabilidade do Esta- 62 ) . operada pela lógica de que o rei não erra.15 estabeleceu que as pessoas jurídicas de direito público fossem responsáveis pelos atos de seus agentes. prevalecendo o entendimento – doutrinário e jurispru- dencial . regulamentava que os empregados públicos são estritamente responsáveis pelos abusos e omissões praticados no exercí- cio de suas funções. Assim. Resulta claro de tal disposição a adoção pela ordem constitu- cional vigente da Teoria da Irresponsabilidade do Estado. isto é. e por não fazerem efetivamente.179. observado o elemento subjetivo (culpa ou dolo). inciso 29.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. já que seu art. se deveria ser levado em conta o elemento subjetivo (culpa ou dolo) para a caracterização da responsabilidade do Estado. se seria subje- tiva ou objetiva. em 1916. do mesmo Estatuto. no art. que por volta da década de 30 predominava o entendimento de que os atos delitivos que geras- sem danos. o art. 99. sobre a responsabilidade do Estado da seguinte forma: A pessoa do Imperador é inviolável e sagrada. ele não está sujeito à responsabilidade alguma. no exercício de suas funções.

ART. trataram a matéria da mesma forma. É pressuposto da responsabilidade subjetiva a existência de dolo ou culpa. o ofendido poderia propor ação em face do Estado ou do agente público causador do dano. no âmbito do art. Com tal dispositivo. depois. notadamente com a dicção do seu art. Portanto. 105 e 107. em sentido estrito. 3. dos franceses . OMISSÃO. AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EX- TRAORDINÁRIO. AUSÊNCIA DE NEXO CAUSAL. CRIME PRATICADO POR FORAGIDO. RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL DO ESTADO. o agente respondia pessoalmente. 194. 1. DANOS MORAIS E MATERIAIS. É o caso da decisão seguinte do STF: CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO. percebe-se nítida eleição da teoria objetiva no sistema jurídico nacional. Por outro lado. visto que aqueles perdiam a qualidade de prepostos deste e este não concorria para o evento danoso. M. a Emenda Constitucional de 1969.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. isto não significa que se possa confundi-la com responsa- bilidade subjetiva.) do. CF/88. nos seus arts. 37. como antes ocorria.171. que ainda continua regulando situações – e não pessoas – nas quais fatos e atos se conformam em modalidades culposas e dolosas. Precedentes. É com a Constituição de 1934 que se vai ter. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Na Constituição de 1946. respectivamen- te. se é verdade que a jurisprudência brasileira tem ampliado em muito o âmbito da responsabilidade objetiva do Estado. Inexistência de nexo causal entre a fuga de ape- nado e o crime praticado pelo fugitivo. a regra da solidariedade do funcionário com a Fazenda Pública. sendo que a Constituição de 1937 estabeleceu tal responsabilidade no mesmo sentido que a anterior. As Constituições de 1967 e.não dispensa o requisito da aferição do nexo de causalidade da omissão atribuída ao poder público e o dano causado. que atribuía responsabilidade às pessoas jurídi- cas de direito público.faute du service. em qualquer de suas modalidades 63 ) . § 6º. A alegação de falta do serviço . excluindo a solidariedade de seus agentes. 2.

pois transfere a elementos subjetivos de aferição da suportabilidade do ônus pelo homem médio de determinada realidade social a ponto de exi- gir-se a obrigação do dever de indenizar a quem deu causa àquela situação danosa.) . Não há responsabilidade civil objetiva do Estado. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 4. Relator(a):  Min. Julgamento:  16/12/2008.. 2006. negligência ou imperícia.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. parece ser mais razoável no âmbito deste debate. esquecendo-se que o fundamento da responsabili- dade objetiva está também calcado no chamado dever de diligência das ações lícitas do Estado. 64 ) . Mas por que a responsabilidade objetiva se aplica à pessoa jurídica.imprudência. em especial à empresa no mercado das relações de produ- ção. o que o obriga a observar as cautelas necessárias e indispensáveis para evitar qualquer dano a quem quer que seja. Agravo regimental improvido. M. indústria e comércio? É o que se trabalhará a partir de agora. (RE 395942 AgR/ RS. 237). p.. mas há presunção de culpabilidade derivada da existência de um dever de diligência especial. Esta postura de entendimento inibe em muito a possibilida- de configurativa desta responsabilidade objetiva. A posição de Marçal Justen Filho (2006). Órgão Julgador:  Segunda Turma) (Grifado no original). quando assevera que [. o valor de uma eventual condenação será minimizado (JUSTEN FILHO. Tanto é assim que se a vítima tiver concorrido para o evento danoso.] a afirmativa da existência da responsabilidade objetiva deve ser interpretada em termos. ELLEN GRACIE.

entendida como a promo- ção da responsabilidade nos âmbitos social. de New York. dentre os critérios analisados para tal enqua- dramento. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a capacidade de liderança e inovação das empresas. 2015). divulga anualmente uma lista das com- panhias mais éticas e. Neste sentido o Instituto Ethisphere. estão a reputação. mas também das sociais e ambientais. e da sustentabilidade na relação com clientes. notadamente no sentido de advertir para o fato de que a rentabilidade do mercado e das empresas – numa visão de médio e longo prazo – deve se basear em face não só das premissas econômicas. fornecedores. M. A partir destes elementos percebidos por amplos segmen- tos e estudiosos do crescimento econômico associado ao desen- volvimento social. ambiental e financeiro. considerando principalmente a advertência que desde a década de 1930 Berle e Means faziam. acio- nistas e comunidade (BATEMAN. Fala-se hoje em ética corporativa.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 1932). seus modelos de governança e de responsabilidade 65 ) . no sentido de que o mercado capitalista tinha a tendência de desen- volver práticas e procedimentos comerciais pouco pautados por princípios éticos e morais (BERLE.) III – A EMPRESA COMO SUJEITO DE DIREITO E A POSSIBILIDADE DE SUA RESPONSABILIDADE OB- JETIVA É preciso ter presente para estas considerações o papel que a empresa assume em nível de relações de mercado e em face da Sociedade (historicamente e hoje). MEANS. para o que as reflexões de Freeman contribuíram em muito. surge também a preocupação com o tema do desenvolvimento sustentável – já na década de 1980 -.

Daí a importância da chamada Responsabilidade Social das Organizações . nas esferas civil.2º. exigiu que os Estados-Parte proibissem e pu- 66 ) . da Convenção contra a Corrupção (UNCAC). VIII.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Da mesma forma o art. basta ver o progressivo surgi- mento de casos e processos administrativos e judiciais denuncian- do a participação de empresas e suas subsidiárias em negociatas de corrupção com diferentes instâncias de governos federal. à segurança no trabalho. de acordo com tais normas cogentes inter- nacionais. modo geral. con- sideram a difusão desta RSO como parte importante da própria agenda política das nações. É consenso da doutrina especializada que a edição de Tratados e Convenções internacionais sobre o tema tem auxiliado em muito não só o nível de conscientização dos dirigentes governamentais. definição forjada pela UNI SIO 26000. e o art. mas também da própria população. à transparência nas comunica- ções com os clientes. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. acionistas e consumidores. Tal responsabilidade busca a integração das preocupações econômicas da empresa com as questões sociais e ecológicas consectárias.RSO.) corporativa. cada Estado Parte restou comprometido a tomar medidas efetivas. sua cultura e qualidade dos programas de ética e com- pliance.26. envolvendo particularmente às conse- quências ambientais das ações econômicas. sendo que os organismos europeus e internacionais. da Convenção de Combate à Corrupção praticada por Servidores Públicos Estrangeiros em Transações Ne- gociais Internacionais (OECD). estaduais e municipais. Conforme o art. etc. em todo o mundo. administrativa e penal. para estabelecer a responsabilidade das pessoas jurídicas por atos de corrupção. o respeito aos Direitos Humanos. M. da Convenção Interamericana contra a Corrupção (ICAC).

criando redes de mútua assistência e cooperação (ADEYEYE. (5) a Finlândia. M. com a edição do Decreto Legislativo nº231/2001. Ou seja. um quadro de responsabilidade corporativa sólido seguramente auxilia com maior efetividade os países a combaterem com maiores chan- ces de sucesso as patologias corruptivas.) nissem atos corruptivos de pessoas físicas e jurídicas. (2) os Estados Unidos. haja vista sua reforma no Código Penal. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2012). estabelecendo responsabilidade penal da empresa como forma de sensibilizá-la a “prevenire qualsiasi crimine economico all’interno dell’esercizio dell’impresa secondo canoni etici e non contra legem” (DE MA- GLIE. Em termos de legislação internacional se pode citar alguns casos em que se encontra incorporada tal responsabilidade. p. na maior parte de seus Estados. por exemplo. e não no Código Penal. (7) na França a mesma coisa. (6) em Portugal também há normas extravagantes que preveem a responsabilidade da pes- soa jurídica. 29). como na Itália. (3) a Holanda que desde 1950 já prevê a responsabilidade empresarial. basta ver-se as normativas internacionais sobre o ponto.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. (4) a Dinamarca. em especial tratando as pessoas jurídicas (empresas) como uma espécie de garantes dos atos praticados por seus agentes. dentre os quais: (1) a Inglaterra. que teve sua economia dando um salto da produção agrária para a indústria igualmente previu a responsabilidade criminal de pessoas coletivas notadamente para os crimes ambientais. a Noruega e Islândia tem previsões de responsabilidade da empresa em leis extravagantes. 1991. adotando expressamente a responsabilidade da 67 ) . que admite a responsabilidade da pes- soa jurídica por infrações levas ou graves. Mesmo na esfera penal houve avanços significativos à respon- sabilidade da empresa em matéria de corrupção.

393. especialmente se a infração penal violar dispositivo de um Estado-membro da Comunidade Econô- mica Europeia. afirma-se que a pena deve ser adaptada à natureza da pessoa jurídica. poden- do ser multa. (8) a Áustria tem regulamentado em muito a res- ponsabilidade penal das empresas fundamentalmente por infra- ções econômicas que praticam. deixando claro que esta legislação deve ser aplicada tanto para o setor privado como para o público (alcançado pessoas físicas e jurídicas). tendo Venezuela.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. fortemente influenciado pela dogmática jurídica norte-americana. começou a adotar a responsabilidade penal das empresas. Cuba e mesmo o Brasil reconhecido esta responsabilidade empresarial para os casos de crimes ambientais (SILVA SANCHEZ. 2010). de 30 de abril a 5 de maio de 1979. tendo relevo no particular sua Lei Federal de Cartéis. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. M. No tópico final do documento aprovado. (9) até o Japão. (11) na América Latina. a partir de 1932. o fechamento da empresa por tempo determinado ou mesmo seu encerramento definitivo (JARA DÍEZ. 1999). ainda é incipiente tal reconhecimento. bis). Diz expressamente a norma: 68 ) . a privação de benefícios. e mesmo no Código Penal (art. restou recomendada a responsa- bilização das pessoas jurídicas. No Congresso sobre Responsabilidade Penal das pessoas ju- rídicas em Direito Comunitário que teve lugar em Messina.) pessoa jurídica. (10) a China. todavia. por exemplo. No Chile. de 02/12/2009). de 1972. tem-se legislação própria de responsa- bilização penal da pessoa jurídica (Lei nº20. mais recentemente (1988) também admite a responsabi- lidade penal das pessoas jurídicas em crimes econômicos. México.251.

de los debe- res de dirección y supervisión. lembrando das hipóteses de responsa- bilidade indireta ou pelo fato praticado por terceiro (quando esta pessoa não violou diretamente norma jurídico-penal. Se considerará que los deberes de dirección y supervisión se han cumplido cuando. 69 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.] serán responsables de los delitos señalados en el artículo 1° que fueren come- tidos directa e inmediatamente en su interés o para su provecho. serán también responsables las personas jurídicas por los delitos cometidos por personas naturales que estén bajo la dirección o supervisión directa de alguno de los sujetos mencionados en el inciso anterior. 64)..] nos casos de autoria mediata sempre ocorrerá também responsabilidade pe- nal por fato praticado por terceiro. hubieren cometido el delito exclusivamente en ventaja propia o a favor de un terceiro (BASUALTO. A construção teórica.) [. já antiga.. 2003. concordo com Fernando Rocha quando lembra que esta modalidade não se afigura como total novidade para o sistema jurídico brasileiro. ejecutivos principales. administración y supervisión para prevenir delitos como el cometido. por sus dueños. la persona jurídica hubiere adoptado e implementado modelos de or- ganización. a responsabilidade somente recai sobre o autor indireto. representantes o quienes realicen actividades de administración y supervisión.. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Quem executa a conduta material que viola a norma jurídica é o indivíduo considerado instrumento. reserva a denominação de autor àquele que domina o fato por meio do domínio da von- tade e da conduta do instrumento (ROCHA. e mesmo nos casos de autoria mediata do crime: [ . Las personas jurídicas no serán responsables en los casos que las personas naturales indicadas en los incisos ante- riores. A despeito das diversas e consistentes posições em contrário a tal responsabilidade penal da empresa no Brasil (e internacional- mente também). mas contri- buiu de alguma maneira à conduta violadora de outra pessoa). con anterioridad a la comisión del delito. por parte de ésta. responsables. 2012). controladores. M. conforme a lo dispuesto en el artículo siguiente. siempre que la comisión del delito fuere consecuencia del incumplimiento. Bajo los mismos presupuestos del inciso anterior. mas como esse não possui culpabilidade e serve os propósitos do autor mediato.. p.

por práticas corruptivas. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2003). 70 ) . Há outras empresas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. a Siemens tem gasto desde então mais de 1 (um) bilhão de dólares para mudar sua estrutura de funcionamento em diversos outros países. o que inclusive atinge o Brasil.) A justiça norte-americana tem aprimorado em muito estes conceitos ao fechar o cerco em relação às empresas que praticam atos corruptivos em seus negócios. cujo principal acionista é um fundo de investi- mento canadense. em face da denúncia de ter pago mais de 23 (vinte e três) milhões de reais em propinas e subornos a inte- grantes do governo de São Paulo para viabilizar negócios de seu interesse (ROSSI. M. notadamente a partir de 2007. O Canadá. 2014). Pode-se igualmente falar do caso da Máfia dos Fiscais da pre- feitura de São Paulo. assim como legislação local. que optam pelo silêncio e passi- vidade diante das denúncias e investigações de envolvimento com corrupção. no qual esta empresa admitiu ter pago mais de 4 (quatro) milhões de reais a agentes públicos corruptos. chegando a órbita de aproximadamente 5 (cinco) bilhões de dó- lares arrecadados em multas e acordos judiciais. envolvendo a construtora com capital inter- nacional Brookfield. FRANÇA. por formação de cartel entre empresas do setor metroferroviário à venda de trens e sistemas para o governo do Estado de São Paulo (MANECHINI. Um dos maiores acordos envolveu a empresa alemã Siemens. como é o caso da francesa Alstom. todavia. pois teve de firmar acordo de leniência com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). em 2008. A partir disto. investigada desde 2008 pelo Ministério da Justiça Brasileiro e Ministério Público Suíço (de 1998 a 2003). violando tratados e convenções internacionais.

casa- mento. a insegurança econômica e a volatilida- de política tem criado inéditas oportunidades à prática de abusos e métodos extremamente sofisticados de violação dos interesses e patrimônio público. união estável e óbito (<http://www.br/noticias/ cnj/29535-cnj-cumpre-agenda-de-combate-a-corrupcao-e-a-la- vagem-de-dinheiro>. 71 ) . IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS: Tem-se formado certo consenso de que as diversas e distintas crises globais de mercados.cnj.jus. M. cujo objetivo é aumentar a segurança do registro civil de pessoas naturais. tanto que o Conselho Nacional de Justiça brasileiro. elabora com o Ministério da Previdência Social (MPS) um projeto de treinamento para ensinar a servidores de cartórios e cartorários formas de prevenir fraudes que envolvam a falsificação de documentos – expediente várias vezes utilizados por pessoas físicas e jurídicas como meio à prática de tantos outras patologias corruptivas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. empresas e ciclos sociais têm tornado as medidas de combate às patologias corruptivas mais urgentes do que nunca. por exemplo. 2015). A maior parte destes escândalos de corrupção relacionando diretamente empresas do setor privado e setor público. enviou uma equipe de funcionários para apurar o ocorrido.) que tem legislação dura sobre tais comportamentos. que inclui certidões de nascimento. Por outro lado. contam ainda com um sistema de justiça moroso e emperrado por várias razões. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. A iniciativa faz parte da chamada Ação 12 da Estraté- gia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (Enccla).

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. no particular. variando somente o grau de modelagem e intensidade dela. esta foi a intenção do legislador. da necessi- dade de se ampliar os níveis e tipologias de responsabilidades da pessoa jurídica quando forem protagonistas de cenários corrup- tivos. não importando por quem e por quais razões. notadamente quando comparados com pessoas que praticam outros tipos de delitos/ilícitos contra o pa- trimônio privado. pode-se afirmar que os sujeitos condenados pela prática de atos corruptivos têm historicamente baixíssima re- provação social no tempo. É por isto que deverão responder. pois.º 12. principalmente. 72 ) . aquele modelo de análise da conduta (individual e institucional) geradora de danos a terceiros que leve em conta standards/parâmetros específicos em face das particularidades dos sujeitos envolvidos e dos contextos criados. É preciso. em regra. diante do todo ponderado. eis que a responsabilidade é sem- pre uma. resgatando-se. No caso da Lei brasileira n. ou contra a pessoa.) Efetivamente. em especial no que diz com pessoas físicas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.846/2013. Por certo que tal perspectiva opera com a lógica de que não há linha divisória absoluta entre culpa/responsabilidade subjetiva e culpa/responsabilidade objetiva. pois. no Brasil e no mundo. que a empresa venha a assumir sua função de garante da licitude e regularidade dos atos que leva ao cabo no mundo dos fatos. imputações de reprovações de condutas). levar-se em conta os aspectos particulares da culpa e da responsabilidade em face da atividade desenvolvida cotejada com as disposições normativas reguladoras da espécie (as quais criam. as quais não sofrem muitas restrições à vida política e institucional. Não há dúvidas. M. até mesmo quando forem lícitas suas atividades provocando danos ao ordena- mento jurídico.

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mb@terra. modalidade Taxa. como “racis- 1 Mestranda em Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito . 2 Doutora em Direito pela UNISC. Graduada em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. com bolsa PROSUP/CAPES. Professora da graduação e pós-graduação lato sensu da Universidade de Santa Cruz do Sul.com.pase@gmail.br. da disciplina Teoria do Direito. E-mail: eduarda. Como escreveu Eric Hobsbawm (2001) em “a falência da democracia”.Mestrado e Douto- rado da Universidade de Santa Cruz do Sul. .com. Especialista em Direito Público. A CRISE DE REPRESENTATIVIDADE E A IDEIA DE NÃO PERTENCIMENTO COMO CAUSAS DE FRAGILIDADE DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA E DE ESPAÇOS PARA ABUSOS E PRÁTICAS CORRUPTIVAS Eduarda Simonetti Pase1 Caroline Müller Bitencourt2 CONSIDERAÇÕES INICIAIS Os temas abordados neste trabalho são em sua origem já pa- radoxais. na linha de pesquisa sobre Constitucionalismo Contemporâneo. existem palavras ou expressões às quais ninguém aprecia ver o seu nome associado publicamente a elas. E-mail: caroline. Professora do PPGD – Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul.

No grupo das primeiras palavras está a “corrupção” e. o que irá refletir na falta de recursos para a satisfação das necessidades da população como um todo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.) mo” e “imperialismo”. No segundo 79 ) . que terá por con- sequência as crises institucionais e o mais grave. como por exemplo. pretende-se responder ao seguinte problema: a crise de representatividade e a ideia de não pertencimento podem ser consideradas causas de fragilidade da Democracia e possibilitado- res de espaços para abusos e práticas corruptivas. abordando em um primeiro momento a ideia de modelo demo- crático representativo através dos principais elementos fundacio- nais da representação em uma sociedade complexa. objetiva-se traba- lhar a ideia de representatividade e legitimidade do atual modelo democrático brasileiro em relação a uma possível crise democráti- ca no Brasil Contemporâneo fomentada pela corrupção sistêmica. M. A corrupção possui diversos graus de incidência na gestão pública. no modelo democrático representativo? Para tanto. improbidade administrativa até o vício indolente da gatunagem rasteira que desviam valores dos cofres públicos. lesam o erário ou solicitam ou extorquem particulares em razão dos cargos que exercem. Assim. “mães” e “ambiente”. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. os recursos públicos acabam sendo sugados pelos corruptos. sobretudo. no grupo das segundas palavras está “democracia”. a crise na própria democracia. Contudo. sobre as quais todos ou a grande maioria gostam e manifestam seu entusiasmo. É sobre esse viés que busca-se estudar em que grau a corrupção lesa e contribui para a prática democrática. ou seja. à medida que os procedimentos formais são desconsiderados e a capacidade institucional do gover- no é esquecida. há outras palavras ou expressões. desde o tráfico de influência.

a prática da representação “repousa em um conjunto de instituições que disciplinam a partici- pação popular no processo político. objetiva-se discutir as possíveis causas que contribuem fundamentalmente para a instauração de uma suposta crise demo- crática para ao final construir uma possível relação entre crise de representatividade e legitimidade para com a existência de espaços propícios para o desenvolvimento da corrupção. sendo o voto o seu maior expoente”. (ZENI. é aquela em que o povo (um cidadão tecnicamente falando) que compõem um Estado Nação. 1 O MODELO DE DEMOCRACIA REPRESENTATIVA E AS SUAS PRESSUPOSIÇÕES EM UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA A democracia representativa. diante de suas extensões territo- riais. não podendo dirigir diretamente os negócios do Estado. 2011. a escolha de representantes constitui a base que sustenta a soberania popular. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Assim. par- ticipativo. p. Na democracia representativa não é diferente. 38). exercer o poder. de acordo com a ideia clássica de democracia representativa. Qualquer dos modelos democráticos (representativo. M. 80 ) . deliberativo) pressupõem uma sociedade em que seus cidadãos sejam livres e que tenham condições de igualdade para exercer a sua titularidade do poder. também chamada de indireta.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. consubstanciada na escolha de pessoas que deverão. em nome do povo.) capítulo. Ou seja. da densidade demográfica e da complexidade dos problemas sociais. outorga as funções de governo a representantes que elege perio- dicamente.

como forma de manter a sociedade próxima às decisões do seu Estado. a democracia representativa não deve e não pode se limitar ao exercício do sufrágio exteriorizado apenas por uma de suas formas. justas. e frequentes para que os cidadãos possam manter controle sobre o planejamento. Isto é. A expressão ‘democracia representativa’ significa genericamente que as delibe- rações coletivas. deliberar e adquirir habilidades políticas e públicas. A liberdade de expressão é requisito para que os cidadãos participem da vida política. ou melhor. p.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. o corpo cívico tem o direito de preencher os espaços criados pelo Estado para a continuidade do exercício do poder pertencente ao povo sem que essa titularidade se esgote no processo eleitoral. isto é. não pode ser pensada como um momento ou acontecimento estanque e apartado das demais ideias de controle institucionalizados. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. o voto. 38). Entretanto. sendo que a informação é importante para que haja essa interação. além de informação. justas e frequentes – livres para que os cidadãos possam ir às urnas sem medo de repressão. (ZENI. Já a exigência de as- sociações independentes. 81 ) . as deliberações que dizem respeito à coletividade inteira. como a ideia de controle da sociedade civil sobre os atos do Estado. Isso porque a participação social. fonte de educação e esclarecimento cívi- co proporcionam ao cidadão. muito além de apenas escolher os representantes periodicamente. porque implica na existência de fontes alternativas e independentes de informação.) Os funcionários devem ser eleitos através de eleições livres. para que todos os votos sejam contados igualmente. M. mas sim como importante e essencial componente do exercício da re- presentatividade legítima. oportunidades para discutir. 2011.

Impõe-se pensar em formas alternati- vas para se viabilizar os espaços de participação postos. isto é. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Com o Estado Liberal. E. Entretanto. 2007. 56). é a ideia de cidadania plena que se pretende resgatar. 2009). mas que não se confundem com o sentido dado aos termos nessa parte do texto). Nesse estado de coisas. mostra-se necessário relembrar alguns conceitos para se refletir o que significa a ideia contemporânea de cidadania a partir da perspectiva do Estado Democrático de Direito. 62-63). mas por pessoas eleitas para essa finalidade. relembrar que.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. o agir do cidadão deve estar pautado em uma relação entre o res- peito da igualdade e o reconhecimento da diferença. significando a cidadania ativa a participação na vida pública. administração e cidadão. na vida pública sem se pensar em formas de exclusão de tal participação. o termo cidadania quando do seu “surgimento” tinha por fundamento e justificação a participação. mas que não gozavam da liberalidade de participação na vida pública. cidadania passiva destinada aos demais indivíduos da socieda- de liberal que eram apenas destinatários de direitos (todos eram cidadãos na esfera privada – mercado). uma espécie de cidadania censitária e. Ainda que não seja possível a concretização de tal ideal. Essa interação irá se refletir na identificação entre representantes e representados. a qual para ser exer- citada também irá depender da real interação e compartilhamento entre espaço público. 82 ) . ou seja. sem dei- xar de considerar as particularidades dos atores e as características materiais e subjetivas que lhe identificam enquanto sociedade he- terogênea (LEAL. 3 A ideia de cidadania ativa remete aos tempos onde cidadania ativa significava ter participação na vida pública. a “luta pela igualdade tem de ser também uma luta pelo reconhecimento da diferença”. Assim. (SANTOS. p. p. sabe-se que os termos cidadania ativa e passiva possuem significados próprios. 2000. em que pese o distanciamento do cidadão para o espaço de decisão e deliberação. dos indivíduos cidadãos. Assim.) são tomadas não diretamente por aqueles que dela fazem parte. onde a ausência do representado legitima o agir do representante. (BOBBIO. essa ideia de cidadania desintegrou-se e se passou a fa- lar em cidadania ativa e cidadania passiva (hoje. é pressuposto do exercício do poder uma cidadania ativa3. não é por isso que o debate sobre o processo de tomada de decisão dentro do sistema de democracia representativa pode dar-se por encerrado. especialmente no modelo democrático representativo brasileiro. dentro de um sistema representativo.

“a redefinição do conceito em questão inicia no reconhecimento de que o proble- ma da representatividade é seu déficit de democracia. Entende-se que. em que pese o represen- tante sempre atue com limite no pano de fundo do agir democrá- tico que é a própria ideia de Estado Democrático de Direito. pode ser uma das causas do déficit do modelo repre- sentativo. (FEREZ JÚNIOR. é importante que ao se discutir os problemas do siste- ma político representativo. ou seja. isto é. pois o representan- te ainda que atue na ausência do representado deverá lidar com a presença dessa ausência. 2011. se a representação libera o cidadão de qualquer participação ou se justamente o contrário. se o modelo representativo. 141). p. embora o povo “indiretamente exerça o poder”. 41). Ainda. o que a leva a investigar a relação entre representação e democracia”. apontada por Fe- rez Júnior e Pogrebinschi. Assim. assim.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. p. pactue-se semanticamente sobre o que significa representação política para um sistema democrático. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a au- sência do representado no exercício do poder pelo representante pode significar a total independência deste na sua ação. “representação é a instituição que possibilita à sociedade civil identificar-se politicamente e influenciar a direção política do Estado. 2010. 83 ) . Longe de ser superado. De outra forma. a crise de representatividade. transformando. (ZENI. o social em político”. M. O que. POGREBINSCHI. essa ausência não poderá ser total. de certo modo. o modelo democrático representa- tivo precisa ser aprimorado e relembrado para não incorrer-se na separação entre representantes e representados.) Entretanto. isto é. pressupõe uma sociedade também engajada e consciente do significado dos papeis de representante e representado.

. como objetos de constante reajuste e negociação. refletiria as ideias e opi- niões dos cidadãos a respeito da relação existente entre essas duas esferas. carência de controle e de exercício da democracia. é inegável que se reconheçam os inúmeros avanços ao se pensar em exercício da cidadania por parte da população.] a partir do momento em que as eleições tornam-se um requerimento indispensável de legitimidade política. O modelo representativo contribuiu e ainda possui muito a oferecer para o desenvolvimento de uma sociedade. 84 ) . Vendo sob tal aspecto. M. 4 Sabe-se dos desafios e problemas enfrentados pelo modelo representativo e também do seu desgaste diante da constante mutação social. POGREBINSCHI. Contudo. 2010. Desse modo. mais do que isso.) [. a representação espelharia a tensão existente entre o Estado e a sociedade. em decorrência. Daí porque se insistir na pressuposição de uma participação cidadã. não há que se cerrar os olhos para os ainda existentes desafios que caracterizam os espaços de tomada de decisão. mas o meio pelo qual o cidadão poderá preencher os espaços públicos de discussão que lhe assegu- rem a sensibilidade. (FEREZ JÚNIOR. 141). p. o Estado e a sociedade passaram a ter suas esferas de ação separadas. Nesse aspecto indica-se que a crítica e a análise sobre a crise de representatividade serão tratadas no item 2 deste trabalho. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2 POSSÍVEIS CAUSAS QUE CONTRIBUEM PARA O DÉFICIT REPRESENTATIVO DEMOCRÁTICO Não há como não lembrar a forma de desenvolvimento polí- tico que o Brasil conheceu desde os tempos da Coroa Portuguesa e o aspecto especialmente elitista que vigorou no país desde o início da República. a responsabilidade e a apropriada prestação de constas por parte dos seus representantes e.. do próprio Estado4. e.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. uma vez que entende-se ser esta não o fim.

na esperança do servir-se do Estado sem atentar para os resultados decorrentes desse afastamento social. M. Mas sabe-se também que certo grau de mecanismos burocráticos é essencial para o funcionamento do aparelho estatal. até então hegemônica na formação dos quadrantes administrativos da coisa pública no Brasil. ter aceitado o seu afastamento da esfera pública na qual está inse- rido ou ainda. impõe-se o acatamento da diferença e do pluralismo do univer- so de interessados/alcançados pelas políticas públicas levadas a cabo pelo Estado Administrador e. 69). pois conferem sensível organização ao processo de administrar. concorda-se com Leal quando refere que as razões de justificação desse argu- mento são de caráter ideológico e se encontram em argumentos endógenos e exógenos (LEAL. 85 ) . Isso tudo acaba se associando ao argumento de que a complexidade da administração pública dificulta a participação social. rompendo com a fatispécie autoritária de poder e de modelo de Estado burocrata e decisor.) Assim. Sabe-se que o Brasil é marcado por uma cultura burocrática que no mais das vezes se torna avessa à ideia de participação cidadã. não se pode olvidar do preço que o cidadão tem pago por. de certa forma. deixar que essa esfera pública se torne uma esfera privada. garantir a diversidade. 2006). p. é importante pensar como sugere Leal que. (LEAL. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Por conta disso. a administração pública tem se pautado por certa indiferença em relação às aspirações e demandas da sociedade em decorrência de suas “práticas oficiosas. gerida por corporações que se apoderam do Estado e o transformam em aparelho ou instrumento de seus interesses privados” (LEAL. Nesse aspecto. 2006. buscando a unidade na gestão dos interesses e bens assegurados pelo sistema jurídico vigente. A partir daqui.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 2006. com isto. 68). no Brasil. p.

por conse- quência (sic). os adeptos a esse argumento sugerem que a adminis- tração pública deve ficar mesmo com os já iniciados na atividade e que a sociedade civil não há o que contribuir para o processo de tomada de decisão. (LEAL. tão somente. Ou seja. 2006. eis que decorrência da operaciona- lização daqueles conceitos e discursos. uma vez que não estaria preparada para enten- der e se valer de toda a tecnicidade da atividade administrativa. extrai-se que os argumentos endógenos trabalham com a ideia (sic) de que o tema da adminis- tração pública possui um grau de complexidade e especificidade que vai desde a sua dimensão gramatical/linguística (sic) até a sua operacionalização. 70). M. 86 ) . avaliar os resultados das ações e políticas públicas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 5 A título de ilustração do exemplificado. o que inviabiliza. No ponto. mas sim o administrador desonesto5. nas inúme- ras ações que versam sobre o tema da improbidade administrativa em que uma das teses de defesa dos réus gira em torno de que a Lei de Improbidade Administrativa não visa punir o administrador inepto. p. levianamente poderia se pensar que. o que resta à sociedade é.) Segundo o autor. deixando os incautos cidadãos comuns do povo sem compreensão sígnica dos seus enunciados e discursos. indica-se a análise dos votos divergentes da Apelação Cível nº 70056807449. por exemplo. sendo-lhe vedada o atingimento dos níveis de discussão e deliberação sobre a concepção/eleição daquelas ações e políticas – questões restritas às instituições competentes. a compreensão de suas práticas. eis que conta com um universo categorial tão próprio e pontual que só é alcançado pelos já iniciados em sua ciência. mas atendendo especificadamente ao argumento da jurisprudência. julgada pelo Tribunal de Justiça Gaúcho. sem lembrar que a ideia de representatividade pressupõe também que os representados conheçam e entendam as ações dos repre- sentantes. Em tal cenário. Sem entrar no mérito sobre a Lei de Improbidade. poderia se pensar. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

proporcionou um processo de conscien- tização política ainda que de forma gradual e não ainda totalmente 87 ) . pois. ainda que não sufi- ciente nos atuais moldes. portanto. há que se referir que a capacidade de mobilização e organização social. uma vez esse indivíduo vindo a praticar um ato improbo. capaz de lhe outorgar uma compleição física e institucional mínima para se mover e agir repre- sentativamente. vai além da dimensão gramatical. Em sequência (sic). 70).) em decorrência da complexidade e especificidade que envolve o aparelho estatal. 2006. atinge até a sua operacionalização. o cidadão comum estaria afastado de participar do corpo administrativo estatal.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. segundo tal pensamento. Ainda. com um universo ca- tegorial tão próprio e pontual deixaria o incauto cidadão comum sem a devida compreensão dos seus enunciados e discursos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. já que. o que. a complexidade da administra- ção pública. em sendo assim. p. demarcados pela impossibilidade de a comunidade política ter discernimento pleno dos temas em que estão envolvidos no âmbito da administração pública. eis que destituída de conhecimentos adequados para tanto. porque. não se po- deria sequer admitir a possibilidade de um indivíduo inexperiente concorrer a qualquer cargo eletivo. os argumentos exóge- nos versam sobre a ideia (sic) de que a participação social na gestão da coisa pública encontra limites cognitivos e institucionais. como visto. a própria administração estaria impedida de buscar a correção do dano pelo próprio argumen- to que visa impedir a participação social na gestão administrativa e que acaba por gerar um dos déficits do modelo representativo. conforme sugerido pelo autor. sendo os primeiros. Isso. temos os delimitados pela falta de organicidade institucional e política desta comunidade. Quando aos argumentos exógenos. (LEAL. M.

continua-se postulando pela “princi- pal promessa da modernidade: a razão emancipadora. MORAIS. esse trabalho busca identificar e trabalhar com alguns dos principais elementos sociais que contribuem para a existência desses desafios que consomem de certa forma a vita- lidade que a comunidade tem em um Estado Democrático para também gerir e administrar em regime de cooperação. compreensão. o que temos visto imperar é.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. até aqui. eis que. decifrar os có- digos tidos por fechados e característicos da administração pública.) desenvolvida. contrapondo-se. É 88 ) . sobretudo. Tais movimentos buscam. fundamentalmente. por conta do crescente e diversificado número de de- mandas que o Estado passou a receber vindos da sociedade civil. Assim. Grifos no original). acredita que o cenário de apatia social que marca boa parte da história da cidadania brasileira não pode levar a uma total incredu- lidade ao ponto de se abandonar as tentativas de se resgatar a ativi- dade desses cidadãos. p. Para isso. Assim. 2001. os não iniciados. e possuem por intenção tão somente “excluir do processo de cognição. deliberação e execução das ações consectárias. (STRECK.]”. M. 2006. p. interlocução. 2006. No entanto. 72). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 69). 107. assim.. (LEAL. (LEAL. p. Ademais.. ao modelo democrático de um poder que se eleva da base para o topo. criando um feu- do linguístico (sic) a partir do qual se exercitam as arbitrariedades de poder”. tais argumentos são considerados por Leal como ficção ideológica. a fórmula adotada para dar respostas para tais reivindicações sociais foi a da constituição de um aparato burocrático responsável por responder às pre- tensões sociais cuja característica é a de ser um poder que se organiza verticalmente do alto para baixo. a utilização instrumental e estratégica da razão [.

M.1 O paternalismo: a cultura da não partici- pação e a apatia política No Brasil.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. é possível dizer que o homem-massa jamais teria apelado para qualquer coisa fora dele se a circunstância não o tivesse forçado violentamente a isso. Na visão do autor. sem que sejam expressados e debatidos. Como as circunstâncias 89 ) . juntamente com o Estado.) sobre o tema do paternalismo estatal e a deficiência na participação política como um desafio ao modelo democrático representativo que se busca abordar o próximo ponto. Assim. devem procu- rar solucioná-los. 2. poder conceder às pessoas um sentido de responsabilidade em tornar explícitas as suas preocupações e necessidades. por exemplo. na concepção de Gasset. não serão consideradas. dado que os interesses e as opiniões relevantes. O incremento no grau de participação política não deveria sobrecarregar o sistema com demandas intermináveis. A apatia política em setores significativos da socieda- de é lamentável em uma democracia que se pretende inclusiva. Neste ponto é que a participação nos espaços de discussão. uma vez reconhecidos os desafios. sob pena de se incorrer na formação de uma sociedade formada por “homens- -massa”. a cultura política paternalista e de centralização do poder fez surgir a ideia de que a comunidade será beneficiária das instalações e dos serviços prestados pelo Estado de forma natural e gratuita. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. os cidadãos. ao invés. serviria como atenuante do abismo que existe entre o governo (Estado) e a sociedade civil. deveria.

o ho- mem revolucionário acabou por acomodar-se e a se sentir pro- tegido pelos benefícios concedidos pelo Estado. sobretudo para que visem fechar os espaços de possível desvirtuamento. 95. ao passo que os novos indivíduos que sucederam as gerações revolucionárias to- maram o posto. deixa de apelar e se sente senhor de sua vida. 2002. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. através dos próprios Conselhos de Políticas Públicas ou até mesmo de forma individual pelo próprio cidadão. 90). Isso. o eterno homem-massa. Grifos no original). como algo na- tural e não decorrente de nenhum processo de democratização e luta por implementação de direitos básicos. para que não se incorra em uma “radical ingratidão para com tudo que tornou possível a facilidade de sua existência” (GASSET. (GASSET. os quais foram resultado das constantes lutas travadas durante os anos que antece- deram a instauração de um Estado Democrático de Direito. o Estado agigantou-se novamente e a memória social foi se esvaindo com o decorrer do tempo. por organizações não governamentais. p. M. seja através do setor privado. p. na garantia da lisura dos processos de tomada de decisão. o existente ao seu tempo. como alerta o autor. segundo o autor possibilita indicar o desenho psicológico característico do homem que necessita de reinserir na esfera pública da qual é titular. 2002.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Ou seja. com o início do estado do bem estar social. É por conta desses fatores que se entende que o fim de um modelo de Estado paternalista e centralizado pode abrir caminhos para que a própria sociedade reinserida na esfera pública democratizada proponha respostas criativas em todos os níveis de governo. na busca por decisões públicas que observem os pressupostos discur- 90 ) . de acordo com a sua índo- le. Com esse movimento. ou seja. isto é.) atuais não o obrigam.

2001. 106). Entretan- to. p. podendo decidir os temas que lhe fossem propostos a partir dos interesses gerais da comunidade” (STRECK. “uma representação dotada de liberdade de atuação. III combinado com artigo 17 da Constituição da República Fede- rativa do Brasil de 1988. instituições ou coletivi- dades que se colocam entre o indivíduo isolado e o poder público”. M. qual seja. 2001. p. MORAIS. 2. tendo entre outros fatores a formação precoce da democracia brasileira como causa. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.) sivos racionais. ou seja. diminuindo a fenda que se põe entre representan- tes e representados. pode-se observar que algumas delas não foram totalmente implementadas. uma vez que no Brasil não se admite a candidatura avul- sa6. o modelo representativo caracterizado especialmente pela re- presentação política a partir de indivíduos vinculados a partidos políticos. MORAIS. uma vez que é eminentemente um modelo representativo. o que. Os partidos são “vistos como corpos intermediários. no Brasil o Constituinte não tivesse pensando em Democracia sem partidos políticos. Grifos no original). Assim. É como se. por sua vez acabaram por gerar 6 Conforme artigo 14. 173. 91 ) . incorreu no não cumprimento da promessa que originaria- mente propôs.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. (STRECK. §3º. considerando as promessas do modelo representati- vo de democracia.2 A crise de representatividade e o senti- mento de não pertencimento O Constituinte Originário brasileiro não pensou no seu sis- tema de governo democrático sem também pensar na instituição dos partidos políticos.

2001. (STRE- CK. quando se volta o olhar para os espaços de tomada de decisão.) um certo desgaste desse modelo. em espaços de composição de interesses privados. p. MORAIS. o que inviabiliza a consolidação de um processo de participação política calcado no ideal da conscientização da cidadania. MORAIS. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Leal adverte que o modelo de democracia representativa clássica da Idade Moderna. MORAIS. Ou seja. transformando-se. nas quais a “racionalidade está arraigada em pressupostos tecnoburocráticos.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 2001. p. 2001. a prática democrática pressuposta na base da cidadania ativa acabou por ser submetida a uma total apatia participativa. p. apropriando-se do Estado e imprimindo-lhe feições meramente intermediativas dos projetos econômicos he- 92 ) . Por exemplo. com total êxito. os autores acima citados destacam que a atuação se pautou em um dever social. M. decisões estas. Outro ponto a ser observado e que contribuiu para a deno- minada crise de representatividade do Estado Moderno é o pleito pelo sufrágio universal. não conseguiu se desincumbir. das suas tarefas sociais e populares. 106). e não em pretensões políticas”. ao contrário. fundado na ideia (sic) de representação política total. pelo qual buscava-se a ampliação do nú- mero de locais onde as decisões deveriam ser tomadas visando implementar a participação popular no processo de escolha dos representantes. (STRECK. muito mais. 106. se caracterizasse inversamente pela produção de decisões técnicas” (STRECK. 106). No mesmo sentido. Em que pese a importância dessa extensão do su- frágio. “para os quais pre- via-se um processo que partisse da base dos interessados – poder ascendente – e não. Grifos no original). ocasionando assim uma perda de sentido no projeto de educação para a cidadania que privilegiasse a opinião consciente em vez da troca de favores.

Aqui se expressa a crítica ao modelo representativo. p. onde a transparência deveria ser a tônica”. 93 ) . ao controle público do poder” (STRECK. 106). 34). “o que se observou foi a amplia- ção de espaços decisórios imunes ao olhar do cidadão. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. embora faça a ressalva de que de um modo geral. MORAIS. Ou seja. meramente contingen- ciais. isto é. promovendo ações públicas paliativas e assistencialista. E é nesse aspecto que pode-se indicar mais um fator que colabora para a crise do modelo representativo de democracia. (LEAL. a representação passou a ser total dentro de um modelo que deveria ser indireta.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 2001. Escolhem partidos e líderes partidários e se identificam com eles” (HIRST. M. Dentro do campo de análise sobre a representação por pes- soas eleitas. porque. 2006. conforme os autores. 2001.) gemônicos – por vezes agindo como gerenciador de tensões sociais limítrofes. Isso. (STRECK. 1992. “com suporte na ideia (sic) de que as decisões públicas devem ser tomadas em público. assim. qual seja. estão mal informados sobre as suas propostas políticas. Assim. contribuindo dessa forma para o afastamento daquele da esfera pública de deliberação. tornando o cidadão representado um mero espectador da ação dos seus representantes. MORAIS. Hirst ilustra dizendo que “grande quantidade de pes- quisas em ciência política mostra que os eleitores não dão muita atenção às “promessas” políticas específicas dos partidos. p. sem tocar nas causas fundantes destes conflitos. fugindo. 106). p. p. 71). a necessidade do controle do poder. Considerando que o controle do poder existe em relações desiguais e que a sociedade moderna é complexa é que o ideal democrático pretendeu consti- tuir para a tomada de decisão um espaço de ampla visibilidade. esses eleitores que buscam escolher os seus líderes usando o cri- tério de identidade.

ela precisa ser legítima. Assim é que mais uma vez na perspectiva dos argumentos endógenos e exógenos anteriormente tratados e vistos em Leal (2006). Mas não apenas por isso. como é o caso do Brasil ao estabelecer o plebiscito. é comum que com esse abismo que se forma entre representantes e representados. aqueles elei- tores que outrora escolhiam os seus líderes baseados no critério de identificação percam também tal critério. uma vez que o projeto democrático que equivocada- 94 ) . E para que seja legítima precisa ser produzida dentro de um proce- dimento racional. o referendo e a inicia- tiva popular de leis. pois representantes não sabem a quem representam e representados não conseguem identificar por quem são representados. M. de eficácia (porque sequer respondem por suas competências normativas) e de legitimidade (porque não são mais refratários às demandas sociais emergentes. (LEAL. 2006. Grifos próprios). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. As consequências que decorrem desse processe de desgaste de um modelo democrático promissor fazem com que se reduza a participação social no processo de tomada de decisão ao exercí- cio do voto e. Pois qual é o objetivo da democracia senão legiti- mar o processo de tomada de decisão e a própria decisão. 71.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. é que se coloca o problema da legitimação para a tomada de decisões. pois a crise da representatividade também ocorre na falta de legitimidade das decisões tomadas pelos representantes. p. Não obstante.) tais fatos levaram este modelo a uma crise de identidade (porque não se sabe à quem representam). dependendo da forma democrática adotada. com- plemente-se com algumas formas de democracia eminentemente participativa transvestidas na forma de democracia direta. agregadas e re- primidas). obser- vando-se as condições estabelecidas no processo de formação da mesma? Para que uma decisão seja justa.

2001. 107. Surge. Para o autor. p. (c) no declínio de vastos setores sociais. o qual elege seis causas diversas para elucidar a crise de representatividade. a crise da representação é decorrência de uma crise maior da própria política que. neste [tecnocrático] apenas aqueles iniciados nos conhecimentos técnicos envolvidos podem tomar decisões. próprio à democra- cia. o dilema que contrapõe a decisão política à decisão técnica. enquanto aquele [antitético] assenta-se em um poder diluído/disperso. Na verdade. Aqui é possível se trabalhar com a ideia de O’Donnell (1991) que obser- vando os movimentos na América Latina identificou que o modelo representativo nos países periféricos não era realmente represen- tativo. ou seja. expressa-se pela perda de eficácia e confiabilidade nos partidos políticos. finalmente. MO- RAIS. aqui. onde todos podem decidir a respeito de tudo. (f) na influência dos meios de comunicação. 2001). (b) no fenômeno da corrup- ção da classe política. (e) na crise dos grandes discursos de legitimação e. 132-134). o poder diluído. em se tratando de modelo re- presentativo. mas tinha características de uma delegação. no legislativo e de certa forma até no poder judiciário (WOLKMER. Wolkmer (2001) apresenta a ideia desen- volvida por Delgado (1998. na administração estatal. M. antitético ao projeto tecnocrático. 95 ) . Nesta perspectiva.) mente se baseia em tais argumentos é. (STRECK. segundo Streck e Morais. característico da decisão tecnocrática. (d) na complexida- de das demandas e na especialização técnica. os principais fatores da crise encontram-se: (a) nos sucessivos descumprimentos dos programas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. p. Grifos no original). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ao poder concentrado.

favorecendo a emergência de uma ética [. na maioria das vezes. ou seja.88). 87-88). 2001.] da ir- responsabilidade e da hipocrisia”. Daí porque ser possível a sugestão de implementação do modelo deliberativo de democracia para fechar os espaços va- zios que o modelo representativo possui. como anteriormente mencionado. su- gere que “além do esvaziamento do valor dos mandatos políticos. referente ao descumprimento das promessas eleitorais.89). 2001. 2001. No tocante ao segundo aspecto. mas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Por fim. não legitimam a decisão vinculante. o autor indica que o que contribui para a crise de representatividade é a “deterioração das condições sociais e a exclusão de grandes parcelas da população” (WOLKMER. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. p. M. “a corrupção que toma conta da classe política atravessa os detento- res do poder. Sobre o declínio de vastos setores sociais.. o autor indica a influência que o sistema represen- tativo sofre através dos meios de comunicação. p. A sua crítica neste ponto é sobre o fato de que tais meios “nem sempre expressam os intentos e as necessidades da sociedade em geral. o culto pela não participação social nos processos de deliberação pública e tomada de decisão que. p. valendo-se assim do seu alcance para promover-se a si próprios e aos seus pro- 96 ) . mas sim com- plementá-lo para que as decisões públicas sejam tomadas com base em procedimentos racionais e justos. 87). (WOLKMER. pois deve-se ter presente que o objetivo em se alertar para a crise do modelo democrático representativo brasileiro não é superar tal sistema. 2001. isto é.. (WOLKMER.) No que se refere ao primeiro aspecto levantado pelo autor. p. cada vez mais cresce a distância entre as propostas programáticas prometidas e as decisões políticas que realmente são tomadas”. reproduzem os interesses dos detentores do capital e dos grupos hegemônicos” (WOLKMER.

) jetos específicos sem contribuir significativamente para a formação da opinião pública. Portanto. mais séria e devastadora do ideal democrático e dos alicerces de um Estado. Ou seja. tema este que será abordado na sequência. sem que se possa pensar que o debate e aprofundamento sobre os aspectos levantados seja assim superficialmente encerrado. 97 ) . é imperioso se pensar em alternativas para se resgatar o ideal democrático de uma sociedade que pactuou a escolha de um Estado Democrático de Direito por meio de formas fundadas em uma racionalidade diversa do Estado centralizador. os quais são propensos a graves crises es- truturais. trata-se do desenvolvimento das instituições políticas com fim de integrar os sujeitos emergentes que formam a esfera pública. isto é. M. talvez. sem contribuir para o debate essencial dentro de um sistema democrático que se pretende inclusivo7. 3 POSSÍVEIS ESPAÇOS PARA A PRÁTICA DE ATOS CORRPUTIVOS DENTRO DO MODELO REPRESEN- TATIVO DE DEMOCRACIA Em decorrência dos elementos que contribuem para a crise do modelo democrático representativo trabalhado anteriormente é que se chega na necessidade de se abordar de forma mais apro- fundada a causa/consequência. con- siderando as variáveis da sociedade complexa a fim de se diminuir o desenvolvimento de sistemas corruptivos.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. em se constatando que o atual modelo de demo- cracia que rege a forma de exercício do poder político no Brasil possui espaços abertos. A partir dessa 7 É importante esclarecer que os fatores elencados por Delgado e trazidos por Wolkmer foram usados para ilustrar a complexidade sobre os pontos que contribuem para o desgaste do mo- delo representativo de democracia.

de atos que firam questões como a probidade administrativa. mas produz déficits democráticos incomensuráveis. basta ver os falseamentos que opera no processo eleitoral e no sufrágio. com estragos violentos em toda a seara administrativa e de políticas públicas (LEAL. M. Além de tais deficiências geradas ou agravadas pela alta den- sidade corruptiva. a confiança nas instituições democráticas e.) perspectiva. como é o caso. p. dependendo dos bens jurídicos imateriais que po- derá lesar. por exemplo. por exemplo. alerta-se.] a corrupção não provoca somente fossos agudos nos orçamentos públicos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. desde o princípio. 181). Ela vai além e corrói ainda mais as estruturas de uma sociedade.. Um dos pontos que contribui para o desenvolvimento de comportamentos corruptivos é a formação de áreas de nebulo- sidade no exercício do poder público. outra importante ferramenta e elemento funda- 98 ) . como alertado até aqui. mecanismos procedimen- tais por excelência dos regimes democráticos. [. gerando vínculos de clientelismo e dívidas de favor entre mercado e sistema político que perduram no tempo. na própria representação política. um sistema políti- co com alto grau de corrupção chega às raízes que mais deveriam permanecer preservadas dentro de um sistema representativo – os vínculos de confiança que unem os cidadãos aos seus representan- tes. moralidade pública. Mas a corrupção não se limita a isso. inclusive alguns sem possibilida- de de aferição. 2016. pois. fere-se a confiança entre a cidadania e as instituições representativas da Democracia contemporânea.. áreas estas que servem de perfeito terreno fértil para o arbítrio e malversação do patrimônio público. ou seja. que são várias as espécies de custos gerados pela corrupção.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.

2016. Não obstante. é justamente o desenvolvimento de uma Democracia 99 ) . p. a transparência e informação são imprescindíveis para o exercício desse controle. utilizando inclusive técnicas e métodos altamente sofisticados para minimi- zarem o controle estatal” (LEAL. atinge-se essencialmente a coletividade do que um indivíduo apenas.) cional de um Estado Democrático também atingido e fragilizado pela corrupção é a transparência para com os atos da gestão públi- ca. há que se reconhecer que o problema também se encontra “no fato de que os agentes da corrupção em regra estão associados a muitas outras pessoas. e conseguem com isto adap- tar-se às ações do Poder Público” (LEAL. um dos efeitos. considerando-se a proporção de fatos para a proporção de investigações exitosas e a respectiva e paradoxal ideia de punição ou impunidade. o que evidencia a “capacidade de aprimoramento constante. públicas e privadas. o elemento mínimo que deve existir é o acesso e conhecimento compreensível da atuação estatal. pois os efeitos das ações corruptivas são muito mais difusos do que in- dividuais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. pois para que seja viável o controle do poder estatal. justamente por ser um elemento fundacional da ideia de democracia e exercício da cidadania é que a transparên- cia é tão cara e essencial à democracia. físicas e jurídicas. ao se trabalhar com a ideia de corrupção sistêmica. Para que os cidadãos possam participar e controlar os seus representantes. É ao se pensar nas possíveis “vítimas” da corrupção que irá se perceber a patologia sistêmica em que se configurará. A ofensa à transparência vai ao encontro do que se trabalhou até aqui. isto é. Tal percepção difusa provoca danos no fun- cionamento da própria Democracia. 2016. 184). isto é. p. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 184). senão o principal e do qual partem os demais. Diante desse qua- dro adoecido.

“Não só o deputado está perdendo sua visibilidade. “é necessário se progredir no modo de governar. para um modo que seja democrático tanto na forma como na substância. 9 Por exemplo na votação sobre a admissibilidade do processo de impedimento da Presidente da República pela Câmara dos Deputados. na qual predominam as questões que permeiam a corrupção como a predominância dos interesses corporativos so- bre o público. em um momento de polarização.. onde para ele. Grande parte dos votos foi fruto de interesses particulares” (CRISTALDO. 10 Expressão utilizada por Guillermo O’Donnell (1991). a presença ma- ciça de deputados na votação na Câmara foi fruto da cooptação. No mesmo sentido comentou Jorge Almeida. 100 ) . A. M. distribuição de recursos e de cargos. sob pena de não se avançar de uma democracia de- legativa10 para uma. Rodrigo Gonzalez ao comentar o alto número de presenças dos deputados federais na sessão de votação acredita que. H. democracia representativa entendida nos fundamentos do que significa ser representativa. da UFBA. VERDÉLIO. O Congresso virou uma feira de varejo. percebe-se que o problema é muito mais sério do que a corrupção engendrada por A ou por B. de fato. “Foi um processo muito rebaixado do ponto de vista político. o professor do programa de pós-graduação de ciência política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).) Enclausurada8. Ou seja. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Essa ideia de processo somada com o ideal democrático é que precisa ser resgatado em uma democracia representativa que se encontra desgastada. Fica claro que o problema é a ruína para que se encaminha o siste- ma representativo9 brasileiro e que precisa ser evitado. mas constitui- -se em um processo que se movimenta e se altera no tempo. como vai ser condenado por ter fugido da raia”. Ao se deparar com tais questões.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. um abandono do plenário seria difícil de ser justificado. Há uma leitura estranha senão equivocada do que seja o in- teresse democrático em tempos de corrupção sistêmica no Brasil. 2016). O Estado Constitucional Democrático de Direito não existe e não está posto como se fosse frutos ou folhas que dão em árvores. sendo necessário capacitar as pessoas para influenciarem as decisões que afetam suas vidas e para responsabilizarem os seus governantes” 8 Expressão utilizada por Manoel Adam Lacayo Valente (2006).

p. pelo critério da maioria. Como sugere Valente (2006). 27). Por fim. a cor- rupção encontrará espaços para se desenvolver justamente quando não se verificarem as condições mínimas de exercício democrático do poder por parte dos legitimados para agir. e permitir visualizar e admitir que a re- presentação política. a ideia de espaços para prática de atos corruptivos pode ser indicada pela necessidade de se construir as bases sociais de um sistema representativo democrático a partir de uma or- ganização racional dessa sociedade. Isto é. dito de outra maneira. 25). 2006. consoante expõem Streck e Morais (2001). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2006. retornando ao objeto deste tópico. M. que depende da razoabilidade argumentativa do discurso político ou. Ainda. “a democracia substancial re- quer a legitimação do seu arcabouço constitutivo. como é o caso do Brasil. Ademais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. a repre- sentação política em países de tradição liberal patrimonialista e de implantação artificial do ideário burguês. bem como ao se ter justificadas e compreendidas no seio social as práticas que não ob- servem os procedimentos de execução dos atos. no caso. é uma instituição em crise e que enfrenta dilemas de árdua supera- ção. Isso fica claro quando se admite sem discussões que a democracia não se restrin- ge ao universo da legitimação eleitoral. concorre com engenhos como os anéis burocráticos e os arranjos corporativos. hoje. com relação ao representativismo é possível tecer uma crítica no sentido do contexto de aferição substancial e não apenas enquanto forma de regime político da democracia. depende do modo como as questões políticas são arti- culadas. justificadas e compreendidas pela sociedade” (VALENTE. p. sem deixar essa organização 101 ) . Ou seja.) (VALENTE. estabelecem-se tais procedimentos para guardar racionalidade e controle ao sistema sem que os fins se esgotem neles.

será necessário trabalhar-se com o fato de a administração ainda não ter se tornado suficientemente independente da política e não ter como se tornar. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir das premissas expostas no decorrer do estudo. afastando a simples afirmação de que a de- mocracia representativa se esgota no exercício do sufrágio pelo eleitor. contribuindo assim para a instauração do descrédito do modelo re- presentativo e na falta de fidúcia nas instituições democrática que 102 ) . inevitavelmente incorrer-se-á nos problemas elencados no decorrer do trabalho. po- de-se perceber que o processo de desenvolvimento democrático pressupõe uma relação entre o processo de democratização da so- ciedade e processo de transformação desta mesma sociedade. Isso implica dizer que esse processo de democratização do poder e da própria sociedade é permanente e longo. por sua vez. pois são questões que se retroalimentam dentro da noção de sistema. ou seja. M. ao pensar na atividade adminis- trativa.) racional ser ultrapassada pelo problema posto da complexidade mundial/social. a importância de se resgatar o sentido de representatividade dentro desse modelo. Da mesma forma. Se assim for. se a sociedade depois de escolher os seus representantes se afastar do seu controle. Viu-se a essencialidade da garantia dos procedimentos dentro de um modelo de Estado democrático representativo e. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. o qual deverá ser media- do pela linguagem e comunicação política que inclua e se abra para a atuação do cidadão e também pela interação dos valores da esfera social que se encontram as instituições políticas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.

por estarem engendradas no cenário político instau- ram um movimento sistêmico de corrupção. acabar com a fome no Brasil ou dar acesso à educação superior para todos os brasileiros. Assim. Não obstante.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. crise de representatividade e sentimento de não pertencimento. inclusive. Na representatividade doente a sociedade aceita o custo elevado da sua ausência. afetando assim insti- tuições ínsitas e necessárias para o fortalecimento da Democracia. Os elementos indicados no estudo devem ser tidos como indicadores de um cenário a ser enfrentado também sob vieses. a resposta para o problema proposto. é possível afirmar que a fragilização da representatividade em um Estado Democrático tem bases profundas em deficiências sociais que acabam por se identificar nos elementos apontados neste trabalho. Aceitar esse preço é pagar com os valiosos ínsitos à demo- cracia e comprar carne. já deteriorada. Uma vez posto o cenário é como se um sujeito fosse ao açougue e aceitasse pagar preço maior do que o tabelado pelo quilo da carne. M. anuindo ser governado por alguém inferior. como por exemplo. 103 ) . assim como as questões que envolvem o tema não pode ser tida como estanque e esgotada. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. numa espécie de maquilagem verbal que engana e convence como algo real e verdadeiro.) são tão caras para as sociedades como o Brasil. as quais são divul- gadas através de artifícios discursivos “desvirtuados”. o eleitor despolitizado e também o politizado dá o seu aval para o processo de instauração das práticas corrupti- vas no âmago da gestão pública ao crer em promessas irrealizáveis. causas estas que irão refletir em caminhos de livre circulação para a prática de ações que visem lesar a administração pública e que. Portanto.

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sc@gmail.com. Professor do Curso de Graduação em Direito da Universidade da Região da Campanha – URCAMP/ Bagé. inte- grante do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes (GRUPECA/ UNISC) e do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC).br. Professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Mestre e Doutor em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Adolescentes e Jovens (GRUPECA/ UNISC) e Pesquisador do Grupo de Pesquisa Políticas Públicas de Inclusão Social (UNISC). Endereço eletrônico: andreviana.com.Espanha. A GARANTIA DE DIREITOS E AS POLÍTICAS PÚBLICAS PARA PROTEÇÃO DE CRIANÇAS E DE ADOLESCENTES NO MERCADO DE CONSUMO CAPITALISTA GLOBALIZADO BRASILEIRO AndréViana Custódio1 Rafael Bueno da Rosa Moreira2   1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS 1 Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Sevilha . Endereço eletrônico: rafaelbmoreira2@yahoo. 2 Doutorando e Mestre em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Coordenador do Projeto de Pesquisa sobre Trabalho Infantil e Políticas Públicas para o seu enfrentamento no município de Bagé-RS (URCAMP) e do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes nos países do MERCOSUL (GEDIHCA/URCAMP). Coordenador do Grupo de Estudos em Direitos Humanos de Crianças. .

adquirir bens e serviços para se adequar a sua comunidade. Nesta investigação. Porém. desejos consumistas decorrentes do capitalismo global. As crianças e adolescentes são alvos constantes dos fornece- dores e prestadores de serviços. M. estudando o impacto da exploração capitalista global nas relações de consumo e suas relações com o processo de desenvol- vimento infantil. Este ciclo ga- rante o hiperconsumismo. Marx e En- gels defendem que a dominação decorrente do modelo capitalista é ocasionada pelos desejos dos burgueses sobre os proletários. exploração e dominação. pois elas influenciam os seus pais a adquirir determinados produtos e serviços. dia a dia. Tais in- fluências criam subjetividades que necessitam. conforme os interesses 107 ) . se modelando o consumo dos indivíduos. que é uma necessidade do capitalismo e que acaba gerando exclusão. crianças e adolescentes em razão da sua condição peculiar de pes- soa em desenvolvimento são considerados hipossuficientes na rela- ção de consumo. sendo o público-alvo do marketing empresarial e do atual mercado publicitário. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.) Na sociedade contemporânea são produzidos. constantemen- te. o que gera as necessidades dos indivíduos de uma sociedade. se tornando extremamente vulneráveis. se buscou destacar alguns aspectos que causam preocupação no desenvolvimento de crianças e adoles- centes. 2 EXPLORAÇÃO DE CRIANÇAS E DE ADOLESCEN- TES PELO MODELO HIPERCONSUMISTA DECOR- RENTE DO CAPITALISMO GLOBALIZADO Conforme o disposto no “Manifesto Comunista”.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.

permanecendo classes em conflito até “[. onde “[..]”. tais como dispositivos eletrônicos. 26-29). A lógica opressiva do mercado consumidor pressiona constante- mente as relações familiares. como assevera os autores em questão: “A burguesia rasgou o véu sentimental da família.) capitalistas. A opressão é constante no modelo atual. roupas de determinada marca..] reconstituição revolucionária de toda a sociedade ou pela destruição das classes em conflito” (MARX..P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. mudanças que são exploradas em níveis mundiais e que visam garantir as ne- 108 ) . 2003.. pois. aumentando a opressão da classe dominada. no dia a dia colabo- ra-se para o modelo dominante.. ENGELS. reduzindo as relações. mesmo que não se deseje. tidos como recursos necessários à ideia de sucesso na socie- dade atual. p. Os avanços da indústria mundial contribuem para que o capi- tal da “burguesia moderna” seja expandido. em especial as familiares. O modelo capitalista moderno. que garante os interesses da classe dominante. ENGELS.. Tais mudanças são sem- pre no sentido de aumento do consumo. objetos de lazer. M. fruto dos desejos burgueses. pois “a história de toda sociedade existente até hoje tem sido a história das lutas de classes”. Tal modelo cria regras compor- tamentais produzindo desejos e necessidades padronizadas e exi- gindo a aquisição constante de mercadorias e serviços. 2003). o que exclui o antigo e o substitui pelo moderno e mais avançado tecnicamente. faz constantes modificações na produção. à condição de troca de mercadorias fortalecendo um modelo de hi- perconsumo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. impondo e construindo necessidades de consumo.] o opressor e o oprimido permaneceram em constante oposição um ao outro [. reduzindo as relações fami- liares a meras relações monetárias” (MARX.

) cessidades globais. onde o capital perma- nece na mão de poucos (MARX. denominados de proletários.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. inserindo tal modelo nos mais diversos países. Portanto. mantendo-se o modelo dominante vigente. 2003. se deve destacar: “As ideias dominantes de uma época são sempre as ideias da classe dominante [. pois estes são a mão de obra e o consumidor. é preciso reconhecer as relações in- trínsecas de poder relacionados ao modo de organização capitalista de produção. 2003. ocasionando a exploração diá- ria em uma sociedade que sistematicamente reproduz desigualda- des. Neste mesmo sentido. Assim. p. fruto dos modelos de adequação existentes na sociedade atual. (MARX. creio. 29-30).. 44-46). contribuem para o modelo de hiper- consumo. um intercâmbio e uma interdependência universais”.. Ainda se tratando das ideias marxistas.] um fato é comum a todas as épocas. as pessoas que estão no poder.. é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder[. p.. isto é. Assim. iniciando-se tal dominação na infância. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a explo- ração de uma parte da sociedade por outra”. que servirá para manter os interesses burgueses.. que é o modelo de verdade daquela sociedade. desenvolvendo-se “[. M. se destruindo culturas locais em prol da do- minação e do interesse econômico.] em todas as direções. ENGELS. iniciando 109 ) . conforme se expõe: “O importante.. o que acaba gerando consumismo universal. pois para estes até mesmo a definição de verdade mantém relação com o poder. Foucault ensina que o poder serve para manter os interesses daqueles que se encontram em situação de dominação. o interesse capitalista global se encontra acima de qualquer civilização.]”. para Marx e Engels com o modelo capitalista sempre haverá a exploração dos indivíduos em situação de dominação de uma determinada socie- dade. ENGELS.

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. devi- do à influência dos mais diversos órgãos que mantém os interesses do capital. cuja extensão no corpo social é relativamente grande. sendo que um dos atributos para 110 ) . não exclusivo. de uma imensa difusão e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de educação ou de informação. de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade. quanto para o poder político). para a garantia do direito a saúde e para o enfrentamento da miserabilida- de. (FOUCALT. enfim. p. gerando muitas necessidades para as pessoas que se encontram em situação de de- senvolvimento. mesmo com o crescimento da ciência e das técnicas. Tal modelo gera dominação. escritura. (FOUCAULT.. Desta maneira. exército. onde se modela um indivíduo que necessita contribuir para o modelo de hipercon- sumo. 2013. é objeto de debate político e de confronto social (as lutas “ideológicas”). não obstante algumas limitações rigorosas). o que garante o hiperconsumo. está submetida a uma constante incitação econômica e política (necessidade de verdade tanto para a produção econômica.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. se afirma que a verdade mantém os interesses dominantes.) sua influência desde a infância e a adolescência. A globalização traz diversos efeitos e contribui para esta pa- dronização de comportamentos na sociedade. de várias formas. Para Santos. garantindo o poder destes sobre os dominados. onde o desen- volvimento daquelas não contribui para o bem-estar social. é produzida e transmitida sob o controle. 2013.] a “verdade” é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem. mantendo-se. é objeto.. 11-12). principalmente a difusão de informações como verdade.11). meios de comunicação). Foucault dissertou sobre verdade: [. mas dominante. p. M. as pessoas estão se tornando cada vez mais escravos de uma vida sem qualidade e com muita velocidade.

fruto do modelo consumista. Realmente. M. a competitividade é constante. Dupas faz a seguinte argumentação: “As sociedades são mais felizes que há dez anos por- que temos telefone celular ou internet e. pois se vive em uma sociedade que se baseia no consumo. garantin- do os interesses dos detentores do poder econômico. que poderá trazer distintas consequências aos mais di- versos aspectos (DUPAS. 17-18). independentemente se para tais lucros. para se assegurar a chamada “marcha do progresso”. 15). 2001. classe que é a mais explorada e que dificilmente irá almejar transformação de condições sociais. p. tela de plasma?” (DUPAS. se explore o consumidor.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. onde o antigo é excluído e o moderno é o correto. agora. as famílias. pelo motivo que o atual conceito de pro- gresso leva as pessoas a caminhos inimagináveis. que neces- sitam defender este modelo capitalista como ideal. onde os prestadores de serviço e os fornecedores buscam os mais diversos meios para garantir a lucratividade. se 111 ) . onde jamais se conse- guirá a felicidade devido a uma eterna insatisfação pessoal.) garantir tal dominação é a multiplicação do consumo. p. Assim. 2006. p. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. as crianças e os adolescentes (SANTOS. As novas tecnologias proporcionam constantemente a cria- ção de novos produtos ou serviços. principalmente das pessoas pobres. incentivando o consumismo e a movimentação financeira. A informação possui ampla relação com o consumismo. se defende que as tecnologias acima citadas não proporcionam felicidade. onde se mantém um discurso úni- co. havendo a necessidade destas adequações para que se possa estar de acordo com o modelo de individualista produzido pela sociedade capitalista. Para a garantia do modelo capitalista de consumo. 13-14). 2006.

esmagando-o. para tomar seu lugar”. onde não há espaço para a compaixão. 2001.. constantemente.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. o hiperconsumismo acaba padronizando o modelo de convivência em sociedade. p. de fato. mas não se as notícias da comunidade a sua volta. ou. em lugar de esclarecer. têm interesses globais. se lucra com propagandas. gerando um mundo com padrões utilizados para excluir socialmente pessoas e suprimir conheci- mentos (SANTOS. que vencer o outro.] à maioria da humanidade é. A principal intenção que é gerada pelo capitalismo é de que se deverá “[. desde competição entre empresas de um mesmo ramo. se buscando a exploração do mercado com produtos destinados a crianças e adolescentes. quanto entre pessoas disputando melhores condi- ções de vida. onde. 112 ) .) destinando a cumprir os objetivos do capitalismo e demonstrando como deve ser o comportamento social. A globalização gera uma competitividade feroz. M.. são abusivas ou enganosas. O consumo sempre será garantido por meio da exposição da publicidade de produtos ou serviços. uma informação manipulada que. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. até mesmo. onde se conhece notícias de todas as partes do mundo. assim como a informação. A chamada “violência do dinheiro”. exercendo um controle social (SANTOS. A informação busca o am- plo convencimento para que sejam cumpridos os interesses capita- listas. 2001. Tal competição se en- contra em todo o lugar. Deste modo. para garantir os interesses do capital. que muitas vezes... a informação pode gerar fábulas e mitos.] a todo custo. 37-45). o que o autor denomina de “informação global”. confunde”. entre alunos dos mais diversos níveis que irão concorrer pelos mesmos lugares. Santos cita que a informação transmitida “[. Neste sentido. p. 46-55). A concorrência entre as empresas faz com que se explorem os mais diversos mercados.

M. Para garantir o hiperconsumismo é necessária uma superpro- dução.. Todas estas tendências consu- mistas geram escassez. o que gera uma competitividade publicitária enorme por parte das em- presas. Sem dúvida. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. p. 147). gerando desejos para muitos dos membros da sociedade (SANTOS. 15-17). de modo que as crianças e adolescentes influenciem a compra dos mais diversos produtos e serviços do mercado capi- talista global. “Na sociedade de consumidores. As crianças e os adolescentes são desejadas pelo atual mercado de consumo. 2008. 2001. de modo que a centralidade de todas as ações seja localizada no homem. ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria” (BAUMAN. (SANTOS.) A instituição de novas técnicas acabou causando desigualda- des e exclusão social para a parte da população que não conseguiu se adequar a estas novas exigências. p.] visar às crianças como consumi- dores num mercado onde nunca há compradores suficientes”. A velocidade de criação de novos produtos é muito alta. essa desejada mudança apenas ocorrerá no fim do processo.. 20). 113 ) . p. não sendo respeitada a situação de desenvolvimen- to (2009. que faz com que a economia gire e mantenha a acumulação do capital. atingindo todos os segmentos da população. As empresas estão buscando adequar as suas publicidades ao merca- do infantil. conforme expõe Barber: “[.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 2001. p. Uma outra globalização supõe uma mudança radical das condições atuais. 117-131). Assim. pois a população da sociedade capitalista em um mundo globalizado jamais está satisfeita com o que possui. durante o qual reajus- tamentos sucessivos se imporão.

p. as ideologias existem para a formação dos sujeitos.) Althusser tratou dos processos de reprodução das condições de produção. enfim muitos aparelhos ideológicos que multiplicam o modelo ca- pitalista. decorrente do capitalismo.. (ALTHUS- SER. Tal interferência estará presente no ambiente familiar. 09-15). reprimindo qualquer outra ideia. 1969. 1969. dos aparelhos ideológicos do Estado educacionais. Neste ínterim. existem aparelhos ideológicos que sustentam o modelo dominante. e para poder produzir. agindo na formação de indivíduos e na re- produção de informações. não haveria produção possível sem que fosse “[. p. desde a infância. que terão suas características baseados na sua formação ideológica. recebendo constantemente informações de como se comportar e de como conviver em sociedade.. o que garante a necessidade de hiper- consumo. p. 43-52). Portanto. nos anúncios publicitários. uma prática constantemente renovada no contex- to social. o que ocasiona uma reprodução das condições ma- teriais de produção para satisfazer o modelo capitalista. ao mesmo tempo que produz. pois “[. no ambiente educacional. dos aparelhos ideológicos do Estado políticos e dos aparelhos ideológicos do Estado de informação (ALTHUSSER. 1969. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 114 ) . nos programas da mídia. principalmente. M...] para existir.] assegurada a reprodução das condições materiais da produção: a reprodução dos meios de produção”. Os indivíduos são formados pelo Estado. 17-21. para reproduzir o modelo capitalista. (ALTHUSSER. toda a formação social deve. 93-104). reproduzir as condições da sua produção”. se reproduzindo constantemente os meios e as condições para garan- tir a produção. por meio. Para garantir este modelo de produção e de submissão ao sistema vigente.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.

incluídos as crianças e os adolescentes.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. M. que se encontram alienadas pelo capitalismo.) Assim. que iniciou-se no final do século XIX e início do século XX. As mais diversas empresas criam necessidades precoces para garantir o consumo desde a infância. com a influên- cia do direito internacional. Esta dominação conta com o modelo hiperconsumista. O mercado bus- ca incutir nas crianças e nos adolescentes necessidades capitalistas constantes muito prematuramente. São incutidas necessidades de consumo para se adequar ao padrão de convivência de uma determinada localidade. Busca-se formar. se aproveitando da carac- terística própria de pessoa em desenvolvimento. a redes de “fast-food”. No Brasil. a materiais escolares com as logomarcas dos desenhos animados. a proteger os direitos da criança e do adolescente. devendo aqueles indivíduos ter acesso a aparelhos eletrônicos. entre outros produtos ou serviços multiplamente consumidos entre seus ambientes de convivência. garantindo a dominação e a exploração das massas. os Estados iniciaram. mais precisamente após promulgação 115 ) . conforme o modelo capitalista de ex- ploração. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. que explora toda a população. estes indiví- duos em desenvolvimento. a reprodução do modelo capitalista é explorada em todo lugar. 3 DIREITOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES CONTRA A EXPLORAÇÃO DO MERCADO DE HI- PERCONSUMO CAPITALISTA GLOBALIZADO NO BRASIL A partir de um movimento internacional de busca pela pro- teção de crianças e adolescentes.

Quanto a hierarquia e o tratamento de uma conveção inter- nacional na legislação nacional. de 21 de novembro de 1990. ainda que indiretamente. que a convenção em referência foi precedida por outras legislações internacionais que abordaram o assunto. 5º Todos são iguais perante a lei. também. o que abarcou no Estado brasileiro tanto as crianças quanto os adolescentes. foi considerado “criança” toda a pessoa com menos de dezoito anos de idade.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. parágrafo 3º da Constituição Federal: Art. Deve-se frisar. influenciando a inserção destes no direito nacional. se iniciou a construção de um marco teórico normativo que fosse capaz de garantir maior efetivação dos direitos de crianças e adolescentes. pela Organização das Nações Unidas. M. Tal dispositivo estabeleceu princípios e regras inerentes aos direitos da criança e do adoles- cente. se observa que o tratado interna- cional adquire vigência após a aprovação no Congresso Nacional e a ratificação do Presidente da República. a Declaração Universal dos Direitos Humanos. garan- tindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do 116 ) . o Pacto de São José da Costa Rica.710. por meio de sua As- sembleia Geral. entre ou- tros. sem distinção de qualquer natureza. conforme o artigo 5º. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Para a convenção em tela. sendo que os dispositivos internacionais que tratarem sobre direitos humanos terão equiva- lência hierarquia a emendas constitucionais.) da Constituição da República Federativa em 1988 e a ratificação da Convenção sobre os Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas em 1990. sendo ratificada pelo Brasil através do Decreto nº 99. A convenção foi instituída em 20 de novembro 1989. a Declaração de Genebra. como a Declaração Universal dos Direitos das Crianças.

planalto. ao adolescente e ao jovem. à cultura. A Constituição Federal de 1988. cruel- dade e opressão (BRASIL. exploração. sociedade e Estado quanto a efetivação de seus princípios e regras: Art. promulgada anteriormente à declaração em discussão.069. por três quin- tos dos votos dos respectivos membros.htm>). <http://www. à profissionalização. previu o princípio da proteção integral da criança e do adolescente. 1988. princípio que posteriormente foi dis- posto no Estatuto da Criança e do Adolescente. à dignidade. nos termos seguintes: § 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados.) direito à vida. 1988. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. O artigo 227 foi responsável pelo reconhecimento dos di- reitos fundamentais da criança e do adolescente. com absoluta prioridade.É dever da família. em dois turnos. 227 da Constituição Federal um novo ramo jurídico autonomo denominado Direito da Criança e do Adolescente. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. M.gov.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.htm>). 227 . ao lazer. serão equivalentes às emendas constitu- cionais (BRASIL. o direito à vida. à saúde. discriminação. Logo o Brasil instituiu o Estatuto da Criança e do Adoles- cente. que mediante o princípio da triplice responsabilidade compartilhada estabeleceu compromissos para familia. em cada Casa do Congresso Nacional. 117 ) . por meio da Lei 8. à segurança e à propriedade. à ali- mentação.br/ccivil_03/constituicao/ constitui%C3%A7ao.planalto. violência. de 13 de julho de 1990. à liberdade. <http://www.gov. à educação. sendo o principal marco na garantia de direitos de crianças e adolescentes.br/ccivil_03/cons- tituicao/constitui%C3%A7ao. à igualdade. ao respeito. O Estatuto foi influenciado pela Convenção Internacional sobre os Direitos das Crianças e ampliou sua proteção jurídica instituindo a partir do art. da sociedade e do Estado assegurar à criança. demonstrando o intuito de garantia da proteção integral da infância no Brasil.

a teo- 118 ) . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ao respeito. expres- saram as garantias de direitos que devem ser concretizados. 1943. 1943. à dignidade. <http://www.br/ccivil_03/decreto-lei/ del5452.É dever da família. à cultura.planalto. da sociedade em geral e do poder público assegurar. ao lazer. proteção. com absoluta prioridade.) Neste sentido. positivando o que seria a proteção integral disposta naquele. promoção e justiça. que passaram a dispor as crianças e os adolescentes. 4º . à educação. in- clusive pela implementação de políticas públicas de atendimento.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Como princípio fundamental adotou-se a teoria da proteção integral como instrumento protetivo e concretizador de direitos. disciplinando que se deve ga- rantir a toda criança e adolescente os direitos dispostos neste dis- positivo estatutário. à saúde.htm>). assim como a prioridade absoluta na garantia de direitos. <http:// www. ao esporte. da comunidade. justificadas pela necessidade de proteção jurídica para um efetivo desenvolvimento integral. Já o artigo 4º complementou o artigo 1º. acima expostos.gov. à profissionalização. reconhecendo-se crianças e adolescentes como sujeitos de direi- tos. Deste modo.planalto.htm>).gov. a efetivação dos direitos referentes à vida. à alimentação. conforme se expõe: Art. que em razão da sua condição peculiar de pessoa em processo de desenvolvimento merece proteção especial. à liberdade e à convivência familiar e comu- nitária (BRASIL. Os dispositivos jurídicos nacionais.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452. O artigo 1º deste dispositivo assevera que: “Esta Lei dispõe sobre a prote- ção integral à criança e ao adolescente” (BRASIL. M. o Estatuto da Criança e do Adolescente tam- bém disciplinou a proteção integral da criança e do adolescente.

rege pelo fato de este se en- contrar em situação de vulnerabilidade em relação ao fornecedor ou ao prestador de serviços. ou seja. a segunda forma de vulnerabilidade é a jurídica.Tal vulnerbilidade também poderá ser suprida quando o consumidor possui formação jurídica na área. o consumidor não possui o conhecimento jurídico de proteção da relação de consumo. M. O Código de Defesa do Consumidor. pois o consumidor não possui conhecimentos técnicos. onde o consu- midor se encontra em posição econômica inferior a do fornecedor 119 ) . por meio de intervenções estatais e de proteção jurídica para os indivíduos que se encontram em uma relação de desigualdade. é a vulnerabi- lidade fática. este também se encontra em condições de vulnerabilidade. tais como o incentivo ao hiperconsumismo decorrente do mercado capitalista global. que se encontra pre- vista nos artigos 4º e 5º daquele. a vulnerabilidade econômica. por quatro motivos: o primeiro é o fato de haver vulnerabilidade técnica nas relações de consumo. A vulnerabilidade é presumida. Tal vulnerabilidade poderá ser suprida nos casos onde. sobre os produtos que está ad- quirindo. o consumidor possuir os co- nhecimentos técnicos necessários sobre determinado produto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. No que tange o consumidor. a terceira forma de vulnerabilidade.) ria da proteção integral assegura através de seus instrumentos nor- mativos e políticos estratégias de enfrentamente à vulnerabilidades que atingem crianças e de adolescentes. O consumidor está na posição mais fraca da relação contratual de consumo e se encontra em situação de inferioridade. que jamais será suprida. onde. existem para buscar a equipara- ção contratual da relação de consumo. O princípio da vulnerabilidade do consumidor na relação de consumo. em tese. por motivo de formação profissional. bem como a Política Nacional da Relação de Consumo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. em tese.

transparência e proteção dos interesses eco- nômicos do consumidor (caput). <http://www. a parte mais fraca desta relação. quando houver o conhecimen- to informacional sobre o produto ou serviço objeto da relação de consumo (BARROS. poderá haver. segurança.planal- to. tendo no seu artigo 4º. onde é reconhecida as principais neces- sidades e garantias do consumidor. que em alguns casos poderá ser suprida.br/ccivil_03/leis/l8078. p.16-17). o incentivo a garantia de qualidade e segurança de produtos e serviços (inciso V). traz um conceito para consumidor. expondo que: “Consumidor é toda pes- soa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final” (BRASIL. O consumidor é o hipossuficiente da relação contratual de consumo. 2006.htm>). 1990.) ou do prestador de serviços. Por sua vez. 2011. o principal garantidor da proteção ao consumidor.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. o reconhecimento da situação de vulnerabilidade (inciso I). O artigo 2º do Código de Defesa do Consumidor. a necessidade de educação e informação de consumidores (inciso IV). buscando equiparar a relação contratual existente entre o consumidor e o fornecedor ou o pres- tador de serviços (ANDRADE. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. p. 283). ainda. a vulnerabilidade informacional. o presente dispositivo jurídico disciplina a Política Nacional de Proteção do Consumidor. tendo em vista o poderio econômico do mercado. tendo o legis- lador adotado algumas regras para reconhecer e diminuir as desi- gualdades na relação de consumo. ou seja. dignidade. dentre elas o respeito a saúde.gov. que é a falta de informações sobre determinado produto. M. e a necessidade de coibir e reprimir os abusos praticados no mercado de consumo (inciso VI): 120 ) .

saúde e segurança.. a proteção contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas.. o respeito à sua dignidade.gov. V . <http://www..br/ccivil_03/leis/l8078.] proteção da vida. garan- tindo os seguintes dados de forma clara sobre o objeto da relação de consumo “[. bem como sobre os riscos que apresentem”. saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos”. com vistas à melhoria do mercado de consumo.. serviços e contratações. composição. [. a necessidade de educação para o consumo e de todas as informação sobre os produtos.] IV ... 1990. assim como de mecanismos alter- nativos de solução de conflitos de consumo.incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços. quali- dade e preço.] (BRASIL. inclusive a concorrência desleal e utilização indevida de inventos e cria- ções industriais das marcas e nomes comerciais e signos distintivos. assim como contra a publicidade abusiva e 121 ) .) Art. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org... VI .] quantidade.planalto.reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de consumo. a proteção de seus interesses econômicos. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o aten- dimento das necessidades dos consumidores..P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. bem como a transparência e harmonia das relações de consumo.htm>) No que tange os direitos básicos do consumidor. que se deve garantir aos consumidores a garantia da “[. M. bem como os tributos incidentes. quanto aos seus direitos e deveres. disci- plinou o artigo 6º do Código de Defesa do Consumidor. que possam causar prejuízos aos consumidores.coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no mercado de consumo.educação e informação de fornecedores e consumidores. [. características. a melhoria da sua qualidade de vida. atendi- dos os seguintes princípios: I .

tais direitos básicos são um dos caminhos a serem utilizados para se conseguir enfrentar a atual exploração do mercado que é sofrida por crianças e adolescentes (BRASIL. 1990. coletivos e difusos” e outros meios de proteção jurídica e garantia do acesso ao poder judiciário (BRASIL. vulnerabilidade esta que é decorrente da situação de desenvolvimento de crianças e 122 ) . <http://www. No entanto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. prevalecento o interesse do capital para garantir o consumo. individuais. por meio da prote- ção jurídica garantida em ambos os casos (direito do consumidor e direito da criança e do adolescente) a partir dos anos 1990 e pelas políticas públicas que são exercidas para enfrentar a situação de vulnerabilidade decorrente destas relações.gov.planalto.planalto. Assim. M. 1990.htm>). não são devidamente assegurados. Tanto a educação adequada sobre produtos e serviços quanto a informação clara sobre eles são asseguradas como direitos básicos do consumidor no ordenamento jurídico brasileiro.br/ccivil_03/leis/l8078.gov. “a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais. as atuais estratégias de marketing direcionada para as crianças e adolescentes induzem a competividade e a discriminação. a vulnera- bilidade se encontra muito acentuada.htm>). Estas situações são enfrentadas pelo Estado nacional ainda de maneira tímida. incluindo crianças e adolescentes.br/ ccivil_03/leis/l8078.) enganosa. as relações de consumo onde o destinatário do pro- duto ou do serviço são as crianças ou os adolescentes. Além das constantes publicidades enganosas e abusivas que têm como destinatário as crianças e os adolescentes. <http://www.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. tendo em vista a situação de vulnerabilidade relacionada ao consumo e a situação peculiar da condição geral de crianças e adolescentes brasileiros. Porém. na prática tais direitos básicos do consumidor.

se conclui sobre a necessidade de articulação inter- setorial das políticas públicas de atendimento. proteção. se constata que o modelo atual capitalista contribui para a exploração. pois o poderio econômico do mercado busca a todo custo aumentar a sua lucratividade. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Da análise realizada na presente investigação. tendo por base que crianças e adolescentes buscam se adaptar aos modelos impostos pelo mercado capitalista. dominação e para as exclusões. de pro- dutos e de serviços. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. sendo induzidos a adquirir e utilizar os mais diversos produtos e serviços como estratégia de inclusão periférica no modelo capita- lista hiperconsumista. assim desta- ca-se a necessidade de reordenamento político e institucional na construção de políticas públicas que possam garantir a proteção integral ao desenvolvimento da criança e do adolescente articu- ladas intersetorialmente com as políticas públicas de proteção ao consumidor. explorando as crianças e adolescentes como destinatário da publicidade. independendo as consequências que serão ge- radas para o desenvolvimento destas. promoção e justiça vinculadas ao sistema de garantias de direitos da criança e do adolescente com as políticas públicas de proteção ao consumi- 123 ) . A proteção jurídica nacional bem como as políticas de pro- teção do consumidor e das crianças e dos adolescentes possui uma considerável dificuldade de enfrentamento ao modelo de hiper- consumo capitalista global.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Por fim.) de adolescentes e da hipossuficiência do consumidor.

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br 2 Pós-Doutora em Democracia e Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra/Ius Gen- tium Conimbrigae. Doutora e Mestre em Direito das Relações Sociais. Integrante do grupo de pesquisa “Minorias. Difusos e Coletivos do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL). na subárea Direito do Trabalho. Professora e Pesquisadora dos Programas da Graduação e dos Estudos Pós-Graduados em Direito da PUC/SP e do Mestrado em Concretização dos Direitos Sociais. todos pela PUC/SP. discriminação e efetividade de direitos” (UNISAL/CNPq) e do Observatório de Violência nas Escolas (UNISAL/UNESCO). Professora assistente-doutora da Faculdade de Engenharia de Guaratinguetá (FEG/UNESP). Coordenadora. continuaremos a nos buscar em outras metades.br . antes. Membro da Academia de Letras de Lorena. é necessário ser um. Para viver a dois. O DIREITO À ACESSIBILIDADE DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA.com. Professora e Pesquisadora do Programa de Mestrado em Concretização dos Direitos Sociais. discriminação e efetividade de direitos” (UNISAL/CNPq).146/15 Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão. A CULTURA E A LEI Nº 13.com. Doutora e Mestre em Direito Civil e Doutora em Direitos Difusos e Coletivos pela PUC/SP. Difusos e Coletivos do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL) e Líder do Grupo de Pesquisas “Minorias. (Fernando Pessoa) ReginaVeraVillas Bôas1 Grasiele Augusta Ferreira Nascimento2 1 Pós-Doutora em Democracia e Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra/Ius Gen- tium Conimbrigae. E-mail: contato@grasielenascimento. Avaliadora do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais e-mail: regvboas@terra.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. medica- mentos de ponta e curas de doenças contemporâneas. dos perigos e dos riscos sociais. todos con- duzindo a trajetória evolucional humana. de um lado. O HOMEM E SOCIEDADE DA PÓS-MODERNIDADE O artigo cuida de matéria atual e relevante no contexto con- temporâneo. surgem também. Lem- bra. de outro. cujo meio ambiente é degradado constantemente pelo homem. equipamentos e fórmulas que propiciam célere evolução dos meios de comunicação e de transmissão das informações. ambientais e/ou ecológicas. envolvendo-o intensamente no seu ca- 127 ) . econômicas. Entre outros avanços. reportando-se ao âmbito da acessibilidade às ativi- dades culturais. a tecnologia traz novos mecanis- mos. de extrema barbárie. equipamentos e fórmulas que direcionam o cotidiano do homem e da natureza ao enfrentamento de verdadeiras tragédias sociais. Essas grandes preocupações do mundo pós-moder- no mostram. Os es- tudos contemplam dispositivos da Carta Magna.NOTAS INTRODUTÓRIAS: A COMPREENSÃO DO VOCÁBULO CULTURA. as quais lhe favorece a introdução e permanência no mundo virtual. ambientais e culturais e das dificuldades sociais. O homem vive com muita ansiedade. no contexto da complexa e multidimensional sociedade que traz consigo as marcas das massas. do Estatuto da Pessoa com Deficiência e de outras legislações pertinentes. jurí- dicas e ambientais enfrentadas pelo homem. tentando aproveitar to- das as novidades fornecidas pelas novas tecnologias. Contrapondo-se aos avan- ços tecnológicos. pelas coletividades e pela natureza. momentos de extrema evolução tecno- lógica e. afastando o homem do mundo real. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. frequentadas pela pessoa com deficiência.) I . M.

) sulo emocional. M. que se exibe ao homem. em proveito da vida. Assim. econômico e político. se observa vazio e menos profundo. o homem contemporâneo. hábitos e usos muito diferentes dos seus. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. relativamente aos compromissos mantidos com os valores já enraizados na sua essência (humana). da saúde. ao mesmo tempo em que . convida os homens a participarem de um am- plo acordo que abrange aspectos ético. distante das comunicações do mundo físico. diante da inevitável comparação que faz entre os costumes. uma presença que acontece de maneira contínua. contido na Encíclica Ecológica e Social do Papa Francis- co – “Laudato Si” -. seu interior. avançando no espaço e no tempo (virtuais). Neste “ano da misericórdia”. o que lhe propicia refletir sobre a proteção da natureza e a preser- vação dos recursos ambientais. envolvido com as novas tecnologias aprende novos conhecimentos. da sobrevivência. O contexto revela que a cultura se mostra como uma “pre- sença invisível”. que aflora e é notada pelo homem.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. notadamente a misericórdia. o chamado à Ecologia Integral. o homem procura viver em perfeita e constante simbiose com a natureza e com o meio ambiente. a bon- dade e a gratidão.distan- ciando-se dos contatos humanos (pessoais) -. ao menos nas coletividades que são próximas. os há- 128 ) . que anda de mãos dadas com a compaixão. ou seja. naturalmente e de maneira si- milar. Enquanto ser planetário. em homenagem à ecologia e a frater- nidade e respeitando os valores da essência humana. ocorre um afastamento da invisibilidade da sua cultura. que apresentam costumes. concreto. em proveito da necessária harmonia que deve existir entre todos os homens e o meio ambiente. A naturalida- de é tanta que quando o homem estabelece contato com outros homens de coletividades mais distantes.

M. como seus vizinhos europeus. que realiza atos e conduz fatos da sua vida. mo- dificadas pela cultura. Devemos considerar uma cultura não somente segundo seus nobres ideais. Observa-se dessa lição de Edgar Morin que o ideal de cada nação é assimilar à sua cultura. de acordo com a experiência de cada socie- dade. seus modos de vida. no espaço e no tempo.Fraternidade promulgados pela Revolu- ção.) bitos e os usos dos homens das coletividades mais distantes com os seus (de sua coletividade). e em sua colonização oprimiu povos e negou suas aspirações à emanci- pação. A cultura aponta maneiras de identificação das pessoas. e a buscar a simbiose do melhor de todas as culturas. Ela é conquistada a partir do aprendizado cotidiano do homem. 2012). o melhor da cultura das outras na- ções. o mais importante é cada nação aspirar a integrar aquilo que as outras têm de melhor. suas ilusões. seus erros. Na nossa atual era planetária.02. A França deve ser considerada em sua história não somente segundo os ideais de Liberdade-Igualdade . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Há uma barbárie europeia cuja cultura produziu o colonialismo e os totalitarismos fascistas. assim se refere à cultura Cada cultura tem suas virtudes. seus vícios. Lembra o autor que ideais nobres e bárbaros compõem todas e cada cultu- 129 ) . buscando sempre integrar o melhor de cada cultura. A cultura se dirige às maneiras de viver e de pensar do ho- mem. sendo ela (cultura) trans- mitida de geração para geração humana. 08. Edgard Morin (Le Monde. podendo ser distinta em cada comunidade social. comunistas. mas também segundo o comportamento de uma potência que. incluindo tudo o que ele cria e recria. praticou durante séculos a escravidão em massa. o que se concretiza pela linguagem. mas também segundo sua maneira de camuflar sua barbárie sob esses ideais. seus conhecimentos. de cada comunidade.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. e de acordo com as situações que ele vive. nazistas.

Lembra que a cultura de massa integra uma realidade policultural. que tiveram início. qualidade. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a exemplo das culturas que produziram o nazismo. Leciona Edgar Morin que a cultura de massas acompanha as regras capitalistas. O caráter ho- mogeneizante pode levar a semelhantes culturas. o comunis- mo e o fascismo. revela caráter homogeneizante. ele- gância e espiritualidade (1977. 17). o que denota não ser a ela absolutamente autônoma. no referido Século. consolidando os produtos surgidos desta sociedade como cultura. 17). entre outros.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. já que pode 130 ) . pelo Estado e pela Igreja. indesejados de cada uma delas. corrobo- rando a formação da cultura maciça do século XX.) ra. M. conforme ensina García Canclini (1997. conforme relata Edgar Morin (1977. criação. ao mesmo tempo em que critica os intelectuais que consideram somente a existência da “cultura culta”. corroer e desagregar outras culturas. o que. p. afirma o autor. que são estabelecidos. ou então. porém. e como tal influencia diretamente a censura e o controle sobre a sociedade. O ideal é que somente os ideais nobres integrem as culturas das nações. afastando-se os ideais bárbaros. que é aquela produzida pelos intelectuais e dirigida pela estética. passim). A cultura de massas que surge a partir do Século XX. carregando no seu bojo marcas da indus- trialização. p. simultaneamente. destinadas a um “aglomerado gigantesco de indiví- duos compreendidos aquém e além das estruturas internas da sociedade”. a misturas culturais que pos- sibilitam garantir uma variedade cultural. notadamente porque essa cultura é dinâmica e envolvida pela cultura massiva. Atualmente. é difícil acontecer. po- dendo. culturas de naturezas distintas se relacionam e influenciam as cul- turas de massas – que não são autônomas – e podem ser daninhas às culturas das sociedades das quais não são originárias.

Referido pensamento. porque todos são aquilo que de fato pensam”. M. atualmente. o “mundo das pessoas idosas diz respeito ao mundo das memó- rias.ten- dente a um público indeterminado. 1977. p. p. p. podendo interferir em outras culturas (nacional. ela (cultura de massa) se apropria de conteúdos do folclore e do popular pela universalização dos conteúdos. p. 62) que afirma sobre a cultura de massa que: a) ela se vulgariza por meio de simplificação. como é o caso do folclore do oeste americano. modernização. d) diferentemente do processo utilizado na apropriação da cultura culta. devido à viva presença das danças e jogos. relativamente ao processo de assimilação (MORIN. atualização e maniqueização. sem raízes. a cultura principal e nem. 1977. por exemplo. humanista ou religiosa (MORIN. cujo caráter visual alimenta as mentes humanas. 53).). b) ela pode reencontrar o caráter da cultura folclórica - que é previamente impressa -. segundo Norberto Bobbio (1997. Mas. p. socialista. 30). 54). Vale a pena lembrar outro ensinamento de Edgar Morin (1977. segundo os padrões da indústria da cultura de massas (MO- RIN.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. que transforma a partir do processo de multiplicação. regra geral. 16). tornando-as mais facilmente con- sumíveis. o que denota que as obras da cultura culta são acomodadas à cultura de massa. 64). sendo implantadas por processos técnico-burocráticos -. desagregadora das culturas mais sensíveis. p. conhece os espetáculos somente por tele participação. refletido no contexto 131 ) . 1977. etc. cristã. c) é envol- vente do público que. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a cultura específica das sociedades (MORIN. 1977.) se embeber da cultura nacional. e) é influenciada pela cultura industrial . regra geral. sendo a democratização uma tendência da cultura de massa. mesmo não sendo ela.

Fala-se aqui da “Sustentável Mãe Natureza”. industrial. mas ele não é só cultura. que acumula parte de todas as vivências. mas é também um ser da natureza. massiva. que a todos agrega e a todos garante a vida. O homem se embebe no mundo cultural – cultura local. o que corrobora a importância dos valores da for- mação do homem que são por ele assimilados e. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. já que a cultura é a própria maneira de viver do homem. em processo contínuo e progressivo. II – A LEI Nº 13. acumulando conhecimen- tos na sua consciência. popular. fato que lhe impõe participar e pertencer à grande “casa comum”. na sua grande memória cultural. após. mas também com relação a todas as pessoas que possuem discernimento. lembrando-se que cada homem pertence a uma determinada comunidade social. pensa-se que o homem é um ser que acumula a cultura à sua estrutura de vida.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. que implica o seu modo de pensar e de praticar suas condutas da vida.) da cultura. nesse processo cultural. que é de todos os que possuem vida. é considerado uma verdade não somente como relação ao idoso. Assim. folclórica – e dele participando in- tensamente.146/15. O homem se identifica e se personaliza. M. O TEXTO CONSTITUCIO- NAL E O DIREITO ÀS ATIVIDADES CULTURAIS DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA Os estudos apontam a necessidade de se penetrar no texto da Constituição da República Federativa do Brasil e nos dispositivos 132 ) . integram a índole da cultura. que são transmitidos para as suas gerações futuras e para a consciência coletiva (social). parte integrante dela. O homem é um ser cultural.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. alargando. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 44 e 45. “Dos Di- reitos Fundamentais”. preconceitos e desigualdades. 43.146/15. lembrando que a matéria ora abordada é tratada na Lei nº 13. no seio da sociedade contemporânea que produz tantas violências. Essa matéria permite ao investigador científico invocar prin- cípios. a possibilidade de aumentar a efetividade das garantias e dos direitos conquistados pela minoria. in- cluindo-se neste rol. o direito à igualdade de oportunidades relativa à participação nos variados âmbitos culturais.146/15 garante à pessoa com deficiência o direi- to à cultura. do “Direito à Cultura. nos artigos 42. ao Turismo e ao Lazer” da pessoa com deficiência. com acesso facilitado aos bens e atividades culturais. chamada pelo Estatuto de “Pessoa com Deficiência”. A proteção e a salvaguarda dos direitos da pessoa com defi- ciência deve se tornar mais robusta com a aplicação dessa Lei nº 13. que lhe protege. regras e normas já consagrados juridicamente e constitu- cionalmente à pessoa humana. Referida Lei nº 13. as práticas desportivas. que cuida de maneira geral. assim. A Lei nº 13.) do Estatuto da pessoa com deficiência. diante das demais pessoas da sociedade. Título II.146/15. o que implica maiores cuidados com a situação de fragilidade e vulnerabilidade a que ela está sujeita. com o objetivo de se extrair direitos à pessoa com deficiência. M. tornando a pessoa com deficiência ainda mais frágil ao enfrentar de perto os perigos e riscos a que estão sujeitos os humanos e não humanos. a partir da concretização de diversos outros direitos 133 ) . Capítulo IX. turísticas e de lazer. ao Esporte. garantindo à pessoa com deficiên- cia.146/15 objetiva efetivar o texto consti- tucional relativo à garantia e proteção da pessoa com deficiência. trazendo dispositivos que merecem ser refletidos.

e artístico. e impõe ao Poder Público a solução dos problemas da acessibilidade ao patrimônio nacional histórico. recreativas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Dispõe o artigo 42 sobre a igualdade de oportunidades lem- brando que a pessoa com deficiência precisa ter acesso facilitado aos bens culturais. a efetiva participação nas atividades artísticas. regras es- peciais sobre os espaços e assentos reservados. Dispõe o artigo 43 ser dever do Poder Público promover a participação da pessoa com deficiência nas atividades culturais. culturais. teatros. os locais de conferências. auditórios. M. entre outras. ginásios. com garantia da acessibilidade facilitada. devendo ele se preocupar com a instrução. além das ações desenvolvidas nas escolas. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. cultural. levando-se em conta a capa- cidade de lotação de cada espaço e o número de assentos. intelectuais. entre outras. estádios. e de- mais atividades culturais e desportivas. o trei- namento e os recursos adequados à satisfação de referidas ativida- des. esportivas. Contempla o dispositivo que devem ser garantidos à pessoa com deficiência: a igualdade de oportunidades de participar de atividades com as outras pessoas. cinemas. notada- mente. de lazer e de turismo. espetáculos e similares.) entre os quais os que autorizam a prática das atividades culturais. que incluem as atividades educacionais. desportivas. ao ensejo dos textos dos artigos 42 a 45 do novo Estatuto. dispondo que a oferta de obra intelectual deve facilitar o acesso da pessoa com deficiência. ainda. o que vale para teatros. confor- me as regras dos regulamentos pertinentes. programas televisivos. a acessibilidade aos locais que se estendem além da realização das atividades de que participa. estabelecendo que 134 ) . Trás. cinemas. O artigo 44 se refere à necessidade de se manter as reservas dos espaços e assentos (livres) à pessoa com deficiência.

sendo que compete à União. de- vem disponibilizar pelo menos dez por cento dos seus dormitórios acessíveis à pessoa com deficiência. que as salas de cinema devem oferecer recursos de acessibilidade. que adotam regras e princípios do desenho universal.) eles devem ser espalhados nos variados setores.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. também. 45 ao se referir aos modos de acessibilidade. para o acesso às salas referidas não pode ser maior do que o valor cobrado das outras pessoas. no artigo 23 dispõe sobre os cuidados da saúde e assistência pública e da proteção e garantia das pessoas com deficiência (inciso II). ainda. durante as exposições de filmes. considerando-se nessa mate- mática. contendo previsão de rotas de fugas e saídas de emergências acessíveis. do Distrito Federal e dos Municípios. Nas regulares hi- póteses o valor do ingresso a ser cobrado da pessoa com deficiência e/ou com mobilidade reduzida. Os estabelecimentos que estão em funcionamento. A Carta Magna. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. hotéis e similares. aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre a proteção 135 ) . o qual deve ser obede- cido nas referidas construções. já tem sido cumprido por muitos hotéis e pousadas de algumas cidades brasileiras. a garantia de pelo uma unidade acessível para essa minoria. devendo possuir boa visibilidade e sinalização. o que. conforme disposto nas legislações vigentes. devem garantir a acomodação ao menos a um acompanhante. Dispõe. dispõe que a construção de pousadas. sendo próximos dos corredores lon- ge de áreas de isolamento. lembrando que essa determinação vem sendo atendida por várias salas de cinema na cidade de São Paulo. devendo estar localizados os dormitórios em rotas acessíveis. dos Estados. deve obedecer as regras e princípios do desenho universal. M. proclamando que referida proteção e garan- tia é da competência comum da União. O artigo.

inciso IX). o conceito de patrimônio cultural. pelos arti- gos 215 e 216 (Seção II). per- mitindo o acesso às escolas e a prática das atividades culturais. inciso XIV). científica. Distrito Federal e Municí- pios (regime de colaboração). um Plano Nacional de Cultura. A Constituição da República Federativa do Brasil. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. O texto do artigo 211 dispõe sobre a organização dos sistemas de ensino a partir de esforços conjuntos da União. entre outras as que se relacionam ao sistema de transporte. Assim.) e integração social das pessoas com deficiência (artigo 24. e sobre a educação. concretizando-se a organiza- ção dos sistemas de ensino. M. e. além de estabelecer no plano legislativo. fortalecendo prioridades constitucionais que envolvem as minorias e os seus direitos sociais. os há- bitos. Estados. traz-se à baila o patrimônio cultural. Nesse sentido. localiza a matéria da comunicação social e da programação audiovisual. buscando valorizar e promover o bem-estar social e o desenvolvimento equilibrado nacional. artística. interpretando-se os em harmonia. determinando ao Estado o dever de garanti-los e de incentivá-los a partir da valorização e propagação das manifestações culturais. cultura.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. também o artigo 211. usos ou costumes locais. ensino e desporto (artigo 24. que incluem socialmente essas minorias. Dispõe o artigo 215 sobre o exer- cício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura nacional. a construção de um sistema nacional educacional deve cuidar da universalização do ensino obrigatório. o texto constitucional do artigo 216. ainda. ofertando do conteúdo de referido artigo. invocando a cultura como manifes- tação intelectual. entre outras. que é relevante à ma- 136 ) . Invoca-se no conjunto do artigo 23 da Carta Magna.

M. de maneira a des- frutar de todas elas. quanto ao direito à cultura da pessoa com deficiência. Os estudos revelam que as políticas públicas nacionais. nos distintos âmbitos do conhecimento e entendida a relevância da extensão do conceito desse vocábulo. com igual oportunidade em face das pessoas que não possuem referidas deficiências ou mobilidades reduzidas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. III – Notas conclusivas Após. tendo em vista a ausência de projetos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.) téria ora pesquisada. interpreta-se com mais clareza os dispo- sitivos da Lei nº 13. as quais garantem maiores possibilidades de a pessoa com deficiência ou mobilida- de reduzida poder frequentar de maneira digna todas as atividades culturais que a cidade e a nação lhes oferecem. Percebe-se que acessibilidade é uma nota necessária e impor- tante no contexto a matéria. a qual deve ser apreciada juntamente com os direitos à cultura e às atividades culturais da pessoa com deficiência. a compreensão dos conceitos de cultura. tendo em vista que o acesso da pessoa com deficiência deve ser pensado. na medida em que amplia e clareia o âmbito da cultura. matéria reforçada por legislações infraconsti- tucionais pertinentes e amparada pela Constituição da República Federativa do Brasil.146/15. amparada constitucionalmente e pelas disposições legais infraconstitucionais. construído e reconstruído de acordo com as regras do “desenho universal”. trazidos pelo seu Estatuto. de maneira geral não são suficientes para garantir a concretização dos direitos fundamentais sociais da pessoa com deficiência. a falta de implementação de alguns 137 ) .

ou não. M. ra- zão pela qual os direitos à cultura da pessoa com deficiência são amplos. Os estudos apontam a possibilidade de se interpretar os direitos da pessoa com deficiência com maior abrangência. tornando-os mais acessíveis. Im- portante. na medida em 138 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. solidariedade e fraternidade à reflexão da concretização. concluindo-se que a efetividade destes direitos não ocorre de maneira satisfatória. que é amplo e comporta inúmeras interpretações e conceitos. das garantias constitucionais e da proteção dos direitos cultu- rais das pessoas com deficiência. à saúde. é o estabelecimento de deveres ao Poder Público quanto à proteção da acessibilidade da pessoa com deficiência. Os direitos à cultura da pessoa com deficiência trazem no seu bojo a própria dificuldade de compreensão do vocábulo “cultura”. no contexto. confortáveis e seguros à utilização dessa minoria. ao lazer. Dispõem sobre a pertinência da regularização. variados e se reportam a outros direitos. ao turismo e ao desporto.) projetos adequados existentes e. reforçando os seus direitos e garantias. igual- dade. O Estatuto da pessoa com deficiência (artigos 42 ao 45) exi- bem um pequeno âmbito dos direitos da pessoa com deficiência. construção e utilização dos espaços frequentados pela pessoa com deficiência estabelecendo regras e critérios que podem facilitar a disposição e construção de referidos espaços. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. principalmente a ausência de prioridade e de orçamento destinado à execução de projetos que se destinam à presente minoria. entre outros. O artigo permite se invocar os princípios da liberdade. Isso porque estabelecem regras e caminhos relativamente ao acesso às localidades pelas quais a pessoa com deficiência circula. como aqueles trazidos nessa investigação: direitos à educação. ainda.

em especial. inclusive à educação. RJ: Ed. nos moldes da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Norberto Bobbio. Hannah. O tempo da memória. Norberto. espaço.Declaração Universal dos Direitos das Crianças de 1959 (UNICEF). 2007. Lei nº 8. solidariedade e fraternidade. posfácio de Cel- so Lafer. mobiliário e equipamentos urbanos: NBR 9050.741/03 – Estatuto do Idoso 139 ) . à igualdade. ainda estão em estágio pouco avançado na sociedade brasileira. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. a dignidade da com deficiência e/ou mobili- dade reduzida. de Roberto Raposo. A condição humana.213/91 – sobre cotas reservadas pela empresa na contratação do empregado. SP: RT. Lei nº 8. no presente estudo. REFERÊNCIAS ABNT – Acessibilidade de pessoas portadoras de deficiência à edificação. 10ª e. à saúde.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. da Constituição da República Federativa do Brasil. _____. _____. M. sociais e difusos garantem a efetividade dos direitos à li- berdade.) que a elaboração. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. trad. Por derradeiro.. RJ – ABNT. BRASIL. 2014. _____. RJ: Forense Universitária. Lei nº 10. ao meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado. os direitos constitucionais fundamentais in- dividuais. 1997. ARENDT. _____. 2004. 2ª e. Campus. à vida.069/90 – Estatuto da Criança e do Adolescente. do Estatuto da Pessoa com Deficiências e das legislações infraconsti- tucionais e internacionais atinentes à referida minoria. BOBBIO. implementação e concretização dos projetos que devem facilitar a acessibilidade dessa minoria às atividades cultu- rais. devendo todos eles realizar a dignidade da pessoa humana e.

Marcelo. de Carlos Nelson Coutinho. Alexandre. (http://www.Los petrechos humanos como produtos cultural és: crítica dele humanis- mo abstrato. FLORES. RJ: Elzevir. nov. GARCÍA CANCLINI. coord. Brasília. dos Tribunais. 2032.Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Defi- ciência – Estatuto da Pessoa com Deficiência. MORAES. Rio de Janeiro: Forense-Universitária. 2009. Apresentação Celso Lafer. 2004. _____. promovido pela Secretaria de Direitos Humanos (Presidência da República). RJ: WVA. 2005. Irrompendo no real: escritos de teoria crítica dos direitos humanos. 2005. _____.” SANTOS. Papa Francisco .br/app/se- minario-nacional-deficiencia-funcionalidade). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. _____. Regina Vera. Tese do 2º Doutoramento apresentado à Banca Examinadora na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. enfrentado tema dos Direitos Difusos e Coletivos. Romeu. Nova. BOBBIO. Madrid: Catarata. 2004. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: Editora Lúmen Juris. M.  Pág. Constituição do Brasil interpretada e legislação constitucional. Ederson. Manifesto inflexivo: considerações intempestivas por uma cultura radical. Concretização dos postulados da Dignidade da Condição Humana e da Justiça. Norberto. Nelson Nery Jr. Edgar. VILLAS BÔAS.pessoacomdeficiencia. Rev. Joaquin Herrera. Teoria Crítica dos Direitos Humanos: os Direitos Huma- nos como produtos culturais. Pelotas: Educa. Funcionalidade e Lei Complementar 142: a implementação do modelo biopsicossocial da deficiência na política de Previdência Social brasileira. Visão difusa do direito: vieses da sua complexidade através de um olhar sistêmico. Cultura de massas no século XX: o espírito do tempo. p. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. 4ª ed. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU. Nestor. 6ª e.gov.) ____. SASSAKI.. Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 (DUDH). Revista de Direito Privado. 2009. Lei 13. 2005.146/15 .Encíclica Ecológica e Social “Laudato Si.  São Paulo: Atlas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 1997. Palestra proferida no “I Seminário Internacional sobre Deficiência e Funcionalidade (transitando do modelo médico para o psicossocial)”. MORIN. e Rosa 140 ) . In: OLIVEIRA DE MOURA. 1977. A Era dos Direitos. trad. 261-275. Ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.

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) Disponível em: http://www.com/2008/09/10/artigo- -juridico-o-desporto-na-constituicao-federal-brasileira Posted on 10 setembro. Disponível em https://blogextracampo. 2008 by Fernando Tasso <Acesso em 14/fev/16> 142 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.wordpress.deficientesemacao. M.com/lazer-e-turis- mo/8191-2015-11-12-14-46-56 < Acesso em 10/jan/16>.

Tendo em vista que faltam leis que definam clara- mente os direitos e deveres dos homossexuais. Endereço eletrônico: betogoerch@gmail. UNIFRA e FADISMA nas áreas de Direito Proces- sual Civil. Direitos Humanos e Democracia. permitindo-lhes o direito à plena cidadania. integrando-os socialmente na população. 1 Autora. Endereço eletrônico: andreia_alfama@yahoo. Mestre em Direito pela UNISC. Advogado.com . O ESTATUTO DA DIVERSIDADE E AS POLÍTI- CAS PÚBLICAS DE INCLUSÃO SOCIAL SOB A PERSPECTIVA DOS DIREITOS DOS HOMOS- SEXUAIS Andréia Pereira de Alfama1 Alberto Barreto Goerch2 INTRODUÇÃO A adoção por casais homoafetivos a partir do contexto histó- rico brasileiro tem sido questão de debate na seara jurídica e social há muito tempo. Relações Internacionais. Especialista em Direito Processual Civil pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC).br 2 Autor. Graduado em Direito pela Faculdade Metodista de Santa Maria (FAMES). Professor na UFSM. Especialista em Direito Constitucional pela Universidade Anhanguera/UNIDERP. Acadêmica do 5º Semestre do Curso de Direito da FADISMA.com.

historicamente sempre foi motivo de discussões. Ainda assim. Todavia. que não tinham a influência da Igreja. Não é correto que o Direito seja passível de intervenções ideológicas de cunho contrário aos direitos humanos. ou seja. objeto de dis- criminação dentro das mais variadas religiões. não importando a fé. mesmo atualmente existindo menos repressão. mas sim a orientação sexual. 144 ) . muitos continuam a ignorar essa situação real. sofrem com a exclusão disfarçada. administrativos. econômicos.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. sendo que no caso em tela já perdura desde a Constituição Federal de 1988. quando o legis- lador constituinte deixou de elevar ao status de entidade familiar as uniões homoafetivas (Omissão de política pública de inclusão social). os Poderes Legislativo e Judiciário não podem ser influenciados pela discriminação e devem assegurar juridicamente os direitos desses cidadãos que estão protegidos pelos princípios da dignidade da pessoa humana. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Nesse sentido. Nesse sentido. debates e preconceitos nas mais diversas sociedades e regiões do mundo. observa-se a dificuldade de consenso e aceita- ção quando a temática é a homossexualidade. da igualdade e da liberdade. pessoas que possuem relações afetivas com pessoas do mesmo sexo. entre outros. é essencialmen- te necessária discussão sobre a criação de um órgão que consiga abranger o amplo e polêmico assunto. Lastreado no preconceito. que repudiam tais práticas denominando-as como materialização do pecado. o que torna as relações homoafetivas mais notórias e que fazem parte da nossa vida em sociedade. so- ciais. M. A homossexualidade com exceções de algumas civilizações. Sendo inclusive.) é importante a integração em todos os sentidos.

A religião foi um marco e ainda é uma das maiores influên- cias na história da homofobia. em especial quanto ao processo de adoção. o direito previden- ciário e o direito sucessório. Portanto. Sendo assim. Nesse diapasão. era ir contra os preceitos impostos pela so- ciedade. M. o direito patrimonial na sua plenitude. Apesar de tudo. se faz necessário regulamentar os direitos homos- sexuais em nossa legislação. visando sempre a inclusão social e o direito à cidadania. pois através de interpretações equivocadas da bíblia a relação entre pessoas do mesmo sexo é considerada pecado.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. ou seja. ainda hoje existem vários países extremistas 145 ) . cada um dispoe. em razão de apresentarem interesse por pessoas do mesmo sexo.) Dessa forma. entre tantos outros fatores. de sua vida particular. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Cabe a cada pessoa o dever de respeitar a decisão do interessado. como o direito de família. visto que existem e não podem ser tratadas à margem de jurisdição própria. principalmente com o cristianismo. como achar melhor. cumpre ressaltar a grande importância da análise de situações referentes às uniões de pessoas do mesmo sexo. essas relações são merecedoras de uma atenção especial. É relevante salientar que a orientação sexual não interfere nas qualidades e caráter de cidadão algum. dessas relações afetivas que não ficam aquém das demais entidades familiares. 2 O PRECONCEITO AO AMOR HOMOAFETIVO E A EVOLUÇÃO DO DIREITO BRASILEIRO Durante muito tempo viu-se os homossexuais sofrerem ca- lados. por não sentirem-se felizes com o sexo de nascença.

. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Hoje o Brasil é um Estado laico. Através desta.) que criminalizam a homossexualidade. sendo que o cristianismo era considerado a religião oficial do país. (DIAS. Posteriormente. A Constituição da República Federativa do Brasil. a segurança. ou até mesmo a própria vida.referente ao Direito das Famílias . as relações homos- sexuais no corpo do texto de nossa Constituição..P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 2014. por volta do século XIX quem tivesse algum tipo de atração homossexual era considerado “doente”. por influência da Igreja Católica. não há nenhuma religião que o repre- sente. em grande parte.. 177) 146 ) . O próprio preâmbulo salienta “[. 2014. pluralista e sem preconcei- tos [. Apesar de não citar expressamente. (DIAS. sendo todas aceitas. que até então era “seletiva”. o bem-estar. M. demonstrar interesse por pessoas do mesmo sexo e manter um relacionamento era considerado cri- me.. a liberdade. promulgada em 1988.. p.. ou seja. p. Isso se deu. a Holanda e a União Europeia fo- ram pioneiros ao reconhecer os direitos dessa classe e apresentam um saldo bastante positivo. veio para garantir a todos os cidadãos os seus direitos. mais especifica- damente no Capítulo VII . a mutilação. em alguns essa escolha gera como consequência a prisão perpétua. a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna.não se pode excluir esta do termo entidade familiar: “O enfoque atual da família volta-se muito mais à indentificação do vínculo afetivo que aproxima seus integrantes do que à diversidade sexual de seus membros”. surgiu margens para que os homossexuais ganhas- sem seu espaço em nossa sociedade. o desenvolvimento. 74) Primeiramente no Brasil.]”. A Dinamarca.] destinado a assegurar o exer- cício dos direitos sociais e individuais.

através da mídia nacional e internacional. 2012. mas também de países Sul-Americanos como Uruguai e Argentina que já se manifestaram a respeito de adoção por casais homoafetivos. Então foi necessário que a justiça se manifestasse mais uma vez. violentado e excluído. aos poucos estão conquistando um maior espaço em uma sociedade que caminha em direção à democracia. há vidas que ficam a mercê da boa vontade ou até mesmo das convicções dos juristas. criando medidas protetivas e favoráveis aqueles con- siderados “diferentes”. os homossexuais são na maioria das vezes “castigados” por demonstrarem-se diferente dos demais. Os legisladores muitas vezes tratam estas pessoas como invisí- veis. menosprezado. Além de não po- der assumir suas verdadeiras identidades. p. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. A concepção antiga e ultrapassada de que a relação ideal é entre homem e mulher. são capazes de cons- tituir uma família é algo extremamente errôneo. Temos exemplos não só de países europeus. M. o qual se diz o “país das diversidades” não regulamente em lei os direitos homossexuais. podemos dizer que o Brasil está bastante atrasado em relação aos demais. nos manifestamos sobre assuntos externos. porém não se consegue ao menos sanar questões internas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Durante séculos esse grupo foi oprimido. (DIAS.) É inadimissível que um país como o Brasil. pois acreditam que podem ser rotulados como homossexuais e perder o conceito político caso se manifestem sobre o assunto que ainda é um tabu na sociedade. por isso. Somos observados diariamente. preferem manter-se na obscuridade. e que somente estes. que necessitam de regulamentação. que muitas vezes não nos dizem respeito ou não são tão importantes e urgentes. porque enquanto isso. que são de suma importância e que precisam de atenção o mais rápido possível. 2) 147 ) .

foi favorável a decisão. foi dito que o termo homossexualidade não é crime. 2014. Baseando-se nos altos índices de violência sofridos por lésbi- cas. p. reafirmando que o papel deveria ser estabelecido pelo Legislativo (GOERCH. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. por- tanto não haveria motivos para impedir as uniões entre pessoas do mesmo sexo. bissexuais. a igualdade de todos perante a lei. ambos os poderes dei- xam ser influenciados pela discriminação. como a adoção. Além disso. O ministro Gilmar Mendes. mas mostrou-se preocupado e não quiz se manifestar em desdobramentos do assunto. gays. ferindo assim vários princípios. da liberdade também foram citados. os ministros encarregaram-se em dizer que é necessá- rio a criação de políticas públicas o mais breve possível. 74). Não poderia ocorrer. transexuais. p. 2014. para o Poder Judiciário intervir. Em 2011. por exemplo. 73). percebeu-se a necessidade de criar um órgão responsável que pudesse garantir o direito à cidadania para estes 148 ) . preconceitos e acabam “esquecendo” os direitos que os homossexuais também possuem. quando o STF reconheceu as uniões homoafetivas no âmbito de família os 10 mi- nistros da votaram a favor. Alguns argumentos utilizados foram a violência física e psíquica aos quais os homossexuais estavam ex- postos. pois na omissão do Poder Legislativo em criar polícas públicas de inclusão social “so- brou” mais uma vez. mas sabemos que em muitos casos.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. é ina- dimissível que os Poderes Legislativo e Executivo continuem omi- tindo-se de questões que lhes dizem respeito. dentre eles o da dignidade da pes- soa humana (GOERCH. os princípios da dignidade da pessoa humana. travestis e intersexuais identifica- dos pela sigla LGBTI. M. esperando sempre que o Poder Judiciário “resolva” tudo.) O Supremo Tribunal Federal já se manifestou a respeito de outras questões que envolviam homossexuais. Pois.

Afinal. a partir da iniciativa da Ordem dos Advogados Brasileiros (OAB) criaram-se Comissões da Diver- sidade Sexual em todo o território do Brasil (DIAS. O texto do anteprojeto que propõe o mesmo. Foram eles que ousaram bater às portas do Poder Judiciário. Segundo Maria Berenice Dias. p. era importante conseguir através da justiça o re- conhecimento destes como parte da sociedade. Com isso. que os advogados foram extremamente importantes para a criação da Comissão da Diversidade Sexual. Presidenta da Comissão da Diversidade Sexual da OAB e Vice-Presidenta Nacio- nal do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM). advogada. M. 3). conta com 132 propostas de alterações na legislação infraconstitu- cional. 2012.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. impondo normas afirmativas de inclusão social. buscando o reconhecimento de direi- tos inexistentes a um segmento invisível e alvo de severa discriminação. sem distinção. O projeto para tornar o Estatuto da Diversidade em lei é de iniciativa popular. tendo seus direitos e deveres garantidos em lei. poderemos dizer que o Brasil estará caminhando para o desenvolvimento social (DIAS. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. surgiu com a proposta de tornar o Brasil um país mais igualitário e sem preconceitos. o Estatuto da Diversidade “Trata-se de um microssistema que visa promover a inclusão de todos. Então. provando que são mesmos indispensáveis à administração da Jus- tiça. Com a aprovação do Estatuto. O trecho abaixo explica bem o que pensa a advogada: No entanto. foram os precursores de todos os avanços. era chegada a hora de dar um basta à hipocrisia e alguém precisava tomar a iniciativa. combater a discriminação e a intolerância 149 ) . Afirma ainda Maria Berenice Dias. como reconhece a Constituição Federal. 2013).) grupos. Ninguém mais poderia aceitar este grande desafio do que os advogados.

Pois. ao contemplar os cida- dãos com um punhado de direitos. acredita-se que além dos princípios. 105) Desse modo. adere. os homos- sexuais terão além da felicidade. M. essenciais à busca da felicidade. Aliás. o qual o Estatuto visa garantir. 6º da CF: São direitos sociais. por mais que pareça piegas. o Senador Cristovan Buarque apresentou a proposta de Emenda Constitucional 19/2010 – chamada PEC da Felicidade – para dar nova redação ao art. seja o direito fundamental à felicidade. segurança. habitação etc.) por orientação sexual ou por identidade de gênero. a realização pessoal.” Assim como outros segmentos so- ciais.. 3 A CONTRIBUIÇÃO DO ESTATUTO DA DIVERSI- DADE PARA A ADOÇÃO POR CASAIS HOMOAFETIVOS Com a aprovação do Estatuto da Diversidade. garantias e prerrogativas. os mesmos merecem medidas protetivas diferenciadas. igualdade. o Brasil. inclusive pela criminalização da homofobia. com direitos e garantias asseguradas. ao fim e ao cabo. saúde. para que se possa garantir a eles o exercício da cidadania.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. trabalho. garantias e direitos fun- damentais também deve haver um maior destaque para os tratados e convenções aos quais. acesso à educação. previdência social. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. moradia. lazer. não há quem duvide: o sonho de todos é encontrar a felicidade! A própria Constituição Federal. saúde. visa é assegurar-lhes o direito fundamental à felicidade. liberdade. Mas. a adoção por casais homoafetivos será realizada com maior eficiência e facilida- 150 ) . para a autora podemos dizer que o princípio mais significativo. p. Afirma ainda: Não adianta. educação. (DIAS. proteção à maternidade e a infância e assistência aos desamparados. quem tem vida digna. Afinal. sentindo-se assim mais acolhidos e amparados civilmente. 2014. tem todas as chances de ser feliz.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Como já apresentado por Maria Berenice Dias: Como a sociedade é heterossexista.) de. assim como os casais heteroafetivos. de leis que admitam ou proibam esta adoção. isto é. aqueles que sonham em serem pais. na década de 90. 202) Dias defende ainda. M. passando pelo mesmo processo de avaliação e seleção. para designar o exercício da função da paternidade ou da maternidade por pais e mães não heterossexuais. as contribuições se- riam bastante positivas. em construir uma família. principalmente. visto que o processo para adoção tor- nar-se-ia mais eficaz e efetivo. cabendo a essas etapas definir a possibilidade ou não. havendo um espaço no ordenamento jurídico. marcada predominantemente pela he- terossexualidade. p. (DIAS. Com a aprovação do referido Estatuto. a contribuição do Estatuto da Diver- sidade em termos de adoção por casais homoafetivos no Brasil. já que este propõe a garantia de direitos baseando-se na igual- dade dos direitos adquiridos por casais heteroafetivos. Para empre- go do termo. 2014. já que estes entrariam para a fila de adoção. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. um dos pais deve possuir a orientação homossexual. que já que não existia no nosso país uma legislação específica sobre a adoção de filhos por casais homoafeti- vos. assim como já pode- mos perceber em países desenvolvidos. pois estes teriam a garantia de lutar por seus direitos. de guarda da criança ou adolescente para os futuros pais. é enorme a resistencia em admitir a filiação homoparental: di- reito a paternidade a pares homossexuais. também chamada de homoparentalidade ou parentalidade homos- sexual apresentaria um excelente resultado. o qual não fala. Sendo assim. especificamente. A expressão homoparentalidade passou a ser utilizada na França. no mínimo. um dos principais objetivos abordados pelo projeto do Estatuto é a 151 ) .

que trata sobre o Estatuto da Criança e do Adoles- cente. os cônjuges estariam sujeitos a opinião e sensibili- dade dos juristas (VIEIRA. 2000. Os pedidos de adoções por casais homoafetivos até já foram aprovados em alguns casos no Brasil. Um Estado que não garanta tal promessa a todos. Porém.] aflora como fundamental o direito à felici- dade. para evitar que um assunto tão sério esteja à mercê da boa vontade do jurista. está garantido nos Princípios Fundamentais de número VI – liberdade de constituição de família e de vínculos parentais. está explí- cito que não se pode negar o direito de adoção ou guarda de crian- ças e adolescentes por casais ou pessoa individual.. [.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Afinal. 2011). deixa de cumprir com sua obrigação ética. devido não existir nenhum tipo de exceção no que se refere à adoção pelos mesmos na Lei nº 8. os distanciando da discriminação e concepção individual do julgador (BERBETZ.. do mesmo princípio. Segundo o projeto do Estatuto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a adoção irá se tornar mais fácil. no Art.54). é de todos o compromisso de respeitar a identidade de cada um (DIAS. trazendo consigo a felicidade dos casais. M. 152 ) . p. Não pode o Estado deixar de cumprir sua real finalidade: fazer com que a família exerça o seu papel de garantir a cada um de seus membros o direito de ser feliz. Ou seja. já que. o Estatuto da Diversidade também pre- vê normas específicas que permitam aos homossexuais o direito a adotar crianças e adolescentes. em decorrência da orientação sexual ou identidade de gênero dos candidatos. 2013). como é salientado na obra Homoafetividade e os direitos LGBTI. não havendo regras.069 de 1990. 23.) criação de regras claras para a permissão da mesma.

) Existem poucos dados concretos sobre a atual situação da adoção por casais homoafetivos em nosso país. existem várias decisões disponíveis no site do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul que podem ser usadas como jurispru- dências para outros casos (GRANJA. PRESENÇA DE FORTES VÍNCULOS AFETIVOS ENTRE OS MENORES E A REQUERENTE. REAIS VANTAGENS PARA OS ADOTANDOS. Superior Tribunal de Justiça. HOMOSSEXUAL.010/09 E 43 DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Sétima Câmara Cível. ADOÇÃO HOMOPAREN- TAL. (Recurso Especial Nº 889852. o termo família tornou-se bem mais abrangente. Julgado em 27/04/2010) Ementa:  APELAÇÃO CÍVEL. Julgado em 14/10/2009) Ambas jurisprudências. O Rio Grande do Sul. Tribunal de Justiça do RS.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Relator: Aldir Guimarães Passarinho. RELATÓRIO DA ASSISTENTE SOCIAL FAVORÁVEL AO PEDIDO. O Estado já con- cedeu inúmeras vezes a adoção por casais do mesmo sexo. as juris- prudências aplicadas por alguns juristas podem ser o começo para uma nova era. Sendo assim. Quarta Turma. IMPRES- CINDIBILIDADE DA PREVALÊNCIA DOS INTERESSES DOS MENORES. 2012). tem sido exemplo no que se refere à adoção por casais homoafetivos. Como as mencionadas a seguir pelo TJ/RS: Ementa: O relator é Min. POSSIBILIDADE DE PEDIDO DE HABILITAÇÃO (Apelação Cível Nº 70031574833. DEFERIMENTO DA MEDIDA. demonstram que com a evolução da nossa sociedade. MURAKAWA. as crianças e adolescentes tem o direi- to a entidade familiar e não é justo privá-los disso. PEDIDO DE HABILITAÇÃO À ADOÇÃO CONJUNTA POR PESSOAS DO MESMO SEXO. Luiz Felipe Salomão. De acordo com o ECA. ESTABILIDADE DA FAMÍLIA. ARTIGOS 1º DA LEI 12. M. Porém. mais uma vez. Relator: André Luiz Planella Villarinho. SITUAÇÃO JÁ CONSOLIDADA. O relator da primeira jurisprudência citou uma pesquisa científica realizada na 153 ) . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

o Direito de adoção aos homossexuais. O conteúdo interior é o que realmente importa.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. A preocupação que deve existir é com a criação e educação dos filhos. 204). afirmando que não há expressamente em nosso texto constitucional algo que impeça a adoção por casais homoafetivos. é suprimir o conceito de humani- dade. o compromentimento dos pais para com seus filhos. Portanto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. este é definido por suas convicções. em função da sua identidade sexual. garantindo assim. Vale ressaltar que a análise para adoção deve ser baseada a partir da capacidade mental. protegidos e amados. Maria Berenice Dias afirma: A paternidade não se constitui por um ato físico. sendo estes repudiados pela Constituição da Re- pública Federativa do Brasil. que afirma que quando a relação é de afeto não há possi- bilidades de sequelas. ferindo o princípio da dignidade da pessoa humana. Também é salientado na segunda. finaliza afirmando que se a sentença não fosse favorável. a autora do livro União Homoafe- 154 ) . Então. uma vez encontrando-se os menores ampa- rados. que a adoção é um mecanismo de assegurar o direito das crianças e dos adolescentes. 2014.) Virgínia. É construída pelo afeto e o com- prometimento para com o filho. A opção sexual não define o ser-humano. Impedir este ato de fraternidade a quem só quer dar amor. precisamos caminhar a passos largos para alcançarmos o fim dos preconceitos ainda existentes em nosso país. e não através da opção sexual dos pais. Perante tantas incertezas do que será ou não bom para a criança. p. conceito consagrado no preâmbulo da Costituição Federal (DIAS. ou para o adolescente. que deverá prevalecer sobre os preconceitos e a discriminação. o judiciário estaria expondo a criança a um prejuízo irreparável. M.

. pois a maternidade e a paternidade fazem parte do ideário humano. Há muitas vezes um pré-conceito quando o assunto é a ado- ção por casais do mesmo sexo. são frutos de relacionamen- tos heterossexuais [. seja agressivo ou pratique abuso sexual. Maria Berenice (2014.. p.] o direito de gerar e criar filhos está vinculado à própria dignidade da pessoa humana. de um modo geral. pela realização do ser humano como recriador. Há até o mito de que os filhos de homossexuais teriam a tendência a se tornarem homossexuais. com o conceito de que ela tem de si própria como indivíduo inserido em uma sociedade. o direito a personalidade. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Fabiana Marion Spengler. vislumbra-se a certeza de que não existe uma re- ceita pronta para resolver tais impasses e que a melhor maneira é sempre buscar ajuda em equipes interdisciplinares que possam demonstrar com quem estarão melhor protegidosos interesses do menor. Também o temor da ocorrência de prejuízos de ordem psicológica. A restrição a homoparentalidade afeta o mais sagrado de todos os direitos fundamentais. Mas vale lembrar que os homossexuais. que possa causar algum tipo de dano.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não traz nenhuma restrição quanto ao adotante da criança. pois alguns acreditam que isso possa ferir a parte psicológica da criança ou do adolescente. no qual está inserido o direito de ter filhos. ou seja. de seu espectro de realização como seres humanos. 203) salienta: Existe a injustificável crença que a criança ficaria sujeita a dano potencial futuro por ausência de referências e comportamentos de ambos os sexos. 155 ) . Talvez essa tenha desenvolvimento mais saudável na companhia de seu genitor ou de um guardião homossexual do que na companhia de heterossexual que tenha conduta desregrada. que possa os influênciar a homossexualidade. M. faça uso de entorpecentes ou álcool. O direito que a criança ou o adolescente tem em ter uma família deveria prevalecer. Trata-se da busca por uma felicidade. diz que: Diante de todas essas dúvidas.) tiva o fim do preconceito.

2). Limita-se a lei a definir o que seja família natural e família extensa ou ampliada. e os demais direitos assegurados à união entre cônjuges heterossexuais. divórcio. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. M. Teriam direito às técnicas de repro- dução assistida tanto individual como coletivamente.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. o direito à adoção. mais precisamente nos Artigos 22 e 23. adoção e ao uso das práticas de reprodução assistida. DIAS. se for este menor de idade. o dever de indenizar dos pais quanto a discriminação referente à opção sexual ou a idêntidade de gênero do filho. pretende garantir procedimentos médicos. e até mesmo por abandono material. união estável. Ou seja. à guarda. Assim como. 206) É assegurado pelo Estatuto o reconhecimento das uniões homoafetivas no Direito familiar.) assim como a Lei nacional da Adoção que apenas exige que o “ca- sal” seja casado ou mantenha união estável civilmente. O objetivo do Estatuto no que se refere à familia é garantir que esta goze dos mesmos direitos oferecidos às famílias constituí- das por casais heterossexuais. pág. proteção contra a violência doméstica e familiar. 2012. não há impe- dimento para um par homossexual abrigar uma criança como família substituta ou família ampliada. É permitida a colocação de crianças e dolescentes no que é chamado de família substituta. Como dispõem o Capítulo VI – Direito e dever à filiação. não cirúrgicos e psicológicos (OPPERMANN. não se podendo afirmar que esteja excluída de tais conceitos a família homoafetiva. previdenciário. não sendo definida conformação dessa família. filiação. No que se destina a área da saúde. guar- da compartilhada e obrigação alimentar. à licença-natalidade. cirúrgicos. respectivamente: “O exercício dos 156 ) . 2014. à guarda e à adoção. p. trabalhista. Em caso de separação. (DIAS. Também serão assegurados os direitos ao casamento. que dizem.

o maior dos bens adquiridos.pdf> Acesso em: 26 out.) direitos decorrentes do poder familiar não pode ser limitado ou excluído em face da orientação sexual ou da identidade de gênero” e “Não pode ser negada a habilitação individual ou conjunta à ado- ção de crianças e adolescentes em decorrência da orientação se- xual ou identidade de gênero de quem está habilitado para adotar”. DIAS.com. 2013. talvez. não se deve privar ninguém de tal riqueza.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.br/uploads/um_estatuto_para_a_di- versidade_sexual. o Estatuto da Diversidade apre- senta-se como possível solução para a histórica trajetória de omis- são por parte dos Poderes Executivo e Legislativo no que tange a existência e eficiência das políticas públicas de inclusão social. br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12905> Acesso em: 21 out.com. Ricardo Antônio. A adoção por casais homoafetivos deve ser garantida através da lei. Um Estatuto para a diversidade sexual. A família é. REFERÊNCIAS BERBETZ. Disponível em: <http://ambito-juridico. 4 CONCLUSÃO Ao longo do artigo procurou-se entender um pouco mais so- bre o que é o Estatuto forma. M. 2013. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Maria Berenice. por isso. A homossexualidade existe e o Estatuto da Diversidade veio como proposta de tornar o país mais justo e igualitário. Disponível em: <http://www. Os fundamentos à legislação em prol a ado- ção por casal homoafetivo. 157 ) .mariaberenice.

______. União homoafetiva o fim do preconceito.gov.br/uploads/estatuto_da_diversidade_sexual_-_uma_lei_ por__iniciativa_popular. ed. DIAS.br/uploads/a_invisibilidade_das_uni%- F5es_homoafetiva.br/ccivil_03/leis/l8069. Santa Cruz do Sul: Edunisc.com. P.com. Estatuto da Diversida- de Sexual: a promessa de um Brasil sem preconceito. 2013. OAB vai elaborar projeto para Estatuto da Diversidade Sexual. Homoafetividade e os Direitos LGBTI.htm Acesso em: 21 out. C.. 2013. GOERCH.mariaberenice.br/uploads/estatuto_da_diversidade_se- xual_-_marta_e_berenice. Marta Cauduro.jusbrasil. 158 ) . Alberto Barreto. T.planalto. 2013. Disponível em: <http://ibdfam.br/site/?n_ link=revista_artigos_leitura&artigo_id=12561> Acesso em: 16 out. 2014. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Disponível em: <http:// www. Controle jurisdicional de políticas públicas: uma análise da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal brasileiro quanto ao seu (novo) papel (político) na fiscalização/implementação de políticas públicas de in- clusão social.pdf> Acesso em: 18 out. M. http://www.com. São Paulo: Revista dos Tribunais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. GRANJA. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado) – Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). mariaberenice. 2003. A. http://www. MURAKAWA. Santa Cruz do Sul. OPPERMANN. Disponível em: <http:// www. Uma lei por iniciativa popular.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.com.com. Maria Berenice. 2013.pdf> Acesso em: 01 nov.br/ Acesso em: 21 out.br/noticias/2620364/ oab-vai-elaborar-projeto-para-estatuto-da-diversidade-sexual> Acesso em: 01 nov. 1. ______.) ______. 2013. 2013.planalto.com. Isabela. Sites: http://www. A invisibilidade das uniões homoafetivas. 2013. htm Acesso em: 23 out. Ed. VIEIRA. Disponível em: <http://www.pdf> Acesso em: 18 out. Disponível em: <http://www. 2014.estatutodiversidadesexual.gov.ambito-juridico. 2013. Fabiana. SPENGLER.mariaberenice. 6. Adoção por casais homoafetivos no Bra- sil.

direitohomoafetivo.pdf Acesso em: 26 out.com. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. M.br/uploads/5.tjrs.) http://www.jus.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 2013 http://www.br/site/ Acesso em: 29 mai.%20ESTATUTO%20 DA%20DIVERSIDADE%20SEXUAL%20-%20texto. 2015 159 ) .

com.com>. Contato: <ahelenacorazza@ gmail. É Auditora Pública Externa. . Integrante do grupo de pesquisa da linha do Cons- titucionalismo Contemporâneo: Observações Pragmático-Sistêmicas dos Serviços Públicos – Coordenado pelo Professor Janriê Rodrigues Reck. junto ao Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Integrante do grupo de pesquisa da linha do Constitucionalismo Contemporâneo: Observações Pragmático-Sistêmicas dos Serviços Públicos – Coordenado pelo Professor Janriê Rodrigues Reck. TETO REMUNERATÓRIO E A PRESTAÇÃO DE SAÚDE PÚBLICA MUNICIPAL: IDENTIFICANDO OS DISCURSOS DE APLICAÇÃO DO TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL Ana Helena Scalco Corazza1 Jonas Faviero Trindade2 CONSIDERAÇÕES INICIAIS No âmbito dos discursos de aplicação – a partir de Klaus 1 . É Auditor Público Externo. junto ao Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Ana Helena Scalco Corazza é Mestranda do PPGD – Mestrado e Doutorado em Direito da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Contato: <jonas_1605@yahoo. MÉDICOS TITULARES DE CARGOS PÚBLICOS. br>. 2 Jonas Faviero Trindade é Mestrando do PPGD – Mestrado e Doutorado em Direito da Uni- versidade de Santa Cruz do Sul – UNISC.

a toda evidência. ocorre em “condições óti- mas. a tese de Günther. Ou seja. Entretanto. 121). em suma. 2014. O discurso de aplicação. 161 ) . voltada agora para situações concretas e orientadas pela aplicabilidade. após a justificação da norma. tese que receberá o apoio de Habermas. orienta a teoria dos discursos dos autores alemães na sua dupla estruturação. M. a impossibilidade de se prever toda a variedade de situações imagináveis e futuras (quando da constituição da pró- pria norma). de informação. Klaus Gün- ther faz uma distinção entre ‘discursos de fundamentação’ e ‘discursos de aplica- ção’.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. A justificação que consubstancia a validade das normas. Dessa forma. ao operador da norma. (STRECK. 134). Veja-se que. assim. é necessária uma nova generalização. de capacidade de argumentação e. não se cogitando neste momento. o juízo de adequação desta à sin- gularidade do caso concreto. Por oportuno. p. agrega-se o posicionamento de Streck. em que todos teriam o mesmo nível de argumentação. 2014. a partir do discurso de aplicação. objetiva resolver os casos que ultrapassam aquilo que se convencionou denominar de easy cases. portanto. as peculiaridades de uma situação fática. que lhe precedeu – pressu- põe-se que as normas a serem aplicadas em um determinado caso concreto já tenham tido o seu juízo de validade legitimado por meio dos discursos de fundamentação. cabe.) Günther e da sua Teoria da Argumentação e da matriz Haberma- siana da Teoria da Ação Comunicativa. embora nem Günther nem Habermas falem em casos fáceis e casos difíceis. chegariam a um consenso” (STRECK. ao ana- lisar a Teoria da Ação Comunicativa Buscando resolver a questão da aplicação do direito nos casos difíceis. tanto para Habermas quanto para Günther. essencialmente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. p.

em nome deste ou desta. 4 Considerando que o recorte proposto para este trabalho abrange somente as decisões profe- ridas no âmbito do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul. Resolução nº 1028/2015. órgãos autônomos ou entidades jurisdicionadas do Tribunal de Contas e demais responsáveis que. a saú- de pública encontra atualmente limitadores que vão muito além do famigerado orçamento público. notadamente nos Municípios pequenos: a falta de atratividade da remuneração paga nessas lo- calidades. bens e valores públicos pelos quais o órgão autônomo e a entidade responda. E este juízo de adequação encontra estreita consonância com a análise da situação ora proposta. RECK. designados ou eleitos para exercer cargo ou função no âmbito do qual sejam praticados atos que resultem na utilização. na arrecadação. p. 162 ) . M. que percebem remuneração superior ao teto constitucional do Prefeito. em localidades nas quais a ausên- cia desses profissionais na rede pública de saúde pode inviabilizar a prestação de serviços dessa natureza à população local – deve analisar as normas prima facie aplicáveis aos fatos. que proferem os julgamentos e/ou apreciação das contas de gestão de das contas de governo dos Responsáveis pelos órgãos públicos sob sua jurisdição. o julgador adminis- trativo das contas de gestão3 dos Executivos Municipais do Estado do Rio Grande do Sul4 – apreciando situações concretas de mé- dicos.) deve “considerar todas as características de uma situação em re- lação a todas as normas que poderiam remeter a elas” (BITEN- COURT. 2015. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. estatuto ou regulamento. a despeito de existirem correntes doutrinárias que entendam que o direito à saúde detém um caráter meramente pro- gramático (assim como se daria com os demais direitos sociais). Ocorre que. ou que. assumam obrigações de natureza pecuniária. Isso porque. as contas de gestão constituem o procedimento a que são submetidos os administradores dos poderes. no gerenciamento ou na administração de dinheiros.40). na guarda. 3 Segundo o artigo 78 do Regimento Interno do TCERS. poste- riormente.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. apurando. nos termos da lei. agentes públicos. E. forem nomeados. os julgadores a quem o artigo se refere são os Conselheiros do TCERS e os Auditores Substitutos de Conselheiro. se essas são adequadas ou inadequadas à unicidade que reveste as situações concretas apresentadas. mesmo revestida de caráter essencial.

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. estipula o teto re- muneratório dos agentes públicos. não serão analisadas as ter- ceirizações dos serviços médicos (e os efeitos remuneratórios daí decorrentes). Em suma. o subteto remuneratório municipal.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. O DIREITO À SAÚDE E A CARÊNCIA DE PROFISSIO- NAIS MÉDICOS NOS MUNICIPIOS GAÚCHOS O artigo 37. a partir da matriz da Teoria da Argumentação Jurídica de Klaus Gunther. 6 Pontua-se que as verbas de natureza indenizatória não são computadas para fins do limite previsto pelo teto constitucional. é que o presente artigo pretende discorrer. filiada à teoria da Ação Comunicativa de Habermas. já que extra- polar-se-ia o objeto ora pretendido. amparado exatamente sobre o contexto acima exposto. 163 ) . bem como os respectivos subte- tos. inciso XI. com redação dada pela Emenda Constitucional nº 41/2003. M. portanto. “o Estado não pode se eximir do dever de propiciar os meios necessários ao gozo do direito à saúde dos cidadãos” (STF. E. que ordinariamente chega à pauta dos processos admi- nistrativos que tramitam junto ao Tribunal de Contas Gaúcho. que con- siste no subsídio do Prefeito6. Entretanto. 2015). Dentro dessa limitação encontra-se.) em verdade. dentre os quais. 1 O SUBTETO DOS SERVIDORES MUNICIPAIS. é que se intenta identificar e demonstrar a pertinência dos discursos de aplicação (e da ade- quação) nos impasses que envolvem a remuneração dos servidores médicos5 junto aos Municípios e os julgamentos proferidos pelo TCERS neste tocante. os valores pagos a título de remuneração aos servidores 5 O artigo não fará distinção entre as situações em que os profissionais médicos são titulares de cargos efetivos ou contratados temporariamente. da Constituição Federal.

estados e municípios. admitindo a redução de vencimentos daqueles que recebem acima do limite constitucional. A ideia de se estabelecerem parâmetros para a remuneração dos servidores e agentes públicos lato sensu está consubstanciada. tendo o Supremo Tribunal Federal-STF se pronunciado sobre a imperatividade do teto cons- titucional e seus reflexos em várias oportunidades. no princípio da moralidade. no qual o Estado de Goiás ques- tionava acórdão do Tribunal de Justiça local (TJ-GO) que impediu o corte de vencimentos de um grupo de aposentados e pensionistas militares que recebiam acima do teto. ainda que adquiridas sob o regime legal anterior”. 2014). concluiu o ministro Teori Zavascki. bem como em princípios de auste- ridade orçamentária. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. submetendo às referên- cias de valor máximo nela fixadas todas as verbas remuneratórias percebidas pelos servidores de União. 164 ) . A decisão foi tomada nesta quinta-feira (2) no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 609381. M.) titulares do cargo efetivo de médico e aos médicos vinculados ao Ente por meio de contratos temporários. porque afeta ao tema ora proposto O Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que a regra do teto re- muneratório dos servidores públicos é de eficácia imediata. A matéria já foi (e permanece sendo) objeto de inúmeros e intensos debates em âmbito judicial. Por oportuno. (STF. com repercussão geral reconhecida. no impedimento de que em âmbito público se estabeleça qualquer tipo de privilégio ou tratamento anti-igualitário.. [. destaca-se a seguinte informação veiculada no sítio eletrônico da Corte Constitucional. dentre outros.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.] “Dou provimento para fixar a tese de que o teto de remuneração estabelecido pela Emenda Constitucional 41/2003 é de eficácia imediata..

registra-se que Constituição de 1988 prevê que a saúde é um direito de todos a ser prestado pelo Estado7 de maneira gratuita. E..080/90.488/20118 do Ministério da Saú- de. em âmbi- to local. e da Portaria nº 2. para a Estratégia Saúde da Família (ESF) e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS).. ou não. Os institutos do direito adquirido e da irredu- tibilidade de vencimentos ainda são rotineiramente utilizados por aqueles que não querem ver seus vencimentos reduzidos ou limi- tados pela norma constitucional. estabelecendo a revisão de diretrizes e normas para a organização da Atenção Básica. A atenção básica à saúde. bem como a redução. auxiliar de enfermagem ou técnico de enfermagem e Agentes 7 A expressão aqui tem sentido lato.. é sabido que a observância aos limites do teto. consoante orientações do SUS. auxiliar em saúde bucal ou técnico em saúde bu- cal. podendo-se presumir que muitas demandas judicias ainda versarão sobre a matéria. quanto aos requisitos para as ações básica em saúde. constituída de equipe multidisciplinar que cobre toda a população [..]”. Lei nº 8. De outra sorte. 165 ) .. universal. tem na Saúde da Família sua estratégia prioritária para expan- são e consolidação da atenção básica..) Inobstante a determinação acima noticiada. Estados. 8 Aprova a Política Nacional de Atenção Básica. Estados-mem- bros.] por médicos. o mesmo ato administrativo dispõe que as equipes multiprofissionais. enfermeiros. Municípios e Distrito Fe- deral.] a atenção básica estruturada como primeiro ponto de atenção e principal porta de entrada do sistema. A referida Portaria ainda des- taca que “[. abrangendo União. Municípios e Distrito Federal. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. não se encontra pacificada em nenhuma unidade da fe- deração brasileira. igualitária e integral.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. cirur- giões-dentistas. por meio de um Sistema Único de Saúde-SUS que abrange União. M. serão compostas “[. da remuneração e/ou subsídio ao patamar estabelecido pela EC 41/2003.

visando o atendimento das primeiras necessidades dos usuários.. são notórias as dificuldades dos Município brasi- leiros..] Vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremers). é pressuposto básico para o funcionamento do SUS em qualquer Município. Ele argumenta que os profissionais têm dedicação exclusiva. nos grandes centros.. Por oportuno..P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. leia-se o seguinte trecho da matéria Hoje. Sem desconsiderar ainda a existência de uma vasta gama de normas e orientações que regulam a tripartição das competências em relação à saúde pública. Inclusive. 166 ) . o que exige uma verdadeira ginástica legal na hora da contratação – a Constituição Federal deter- mina a remuneração dos prefeitos como o teto para pagamento dos servidores municipais. reportagem jornalística veiculada pelo jornal Zero Hora. neste tocante.]”. Fer- nando Weber Matos não interpreta as remunerações do Interior como supersa- lários. E até o dobro do que os próprios prefeitos. M.) Comunitários da Saúde. as remunerações adicionais de plantões e consultas particu- lares garantem renda melhor. Auditor do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RS). já em 2013. [. uma simples análise das disposições insertas na Portaria acima mencionada já permite a compreensão de que a existência de profissional médico junto ao Sistema Único. assim dispôs acerca da (in)existência de profissionais médicos em algumas localidades do Estado do Rio Grande do Sul: “Municípios fazem verdadeira ginástica le- gal para garantir a presença dos profissionais”. dentre outros profissionais [. Os obstáculos se acentuam nos Municípios pequenos e afastados geograficamente da capital. Entretanto. dentre os quais os gaúchos. Segundo ele. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. os médicos das cidades pequenas recebem quase o triplo do que os de grandes centros.

] 167 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. no Pedido de Orientação Técnica (Processo nº 01927-02. face ao obstáculo trazido pela remune- ração ofertada. as remunerações ofertadas . [. Os relatos trazidos pelas administrações municipais dão conta. M. ao cabo. Ele explica que muitos prefeitos ganham em torno de R$ 5 mil e fica quase impossível contratar médicos por essa remuneração. percebe-se que a permanência de médicos atuando em pequenos Municípios constitui-se em uma prioridade da gestão pública local. que inviabilizadas estão diversas das tentativas de dotar o atendimento médico nas cidades menores e menos estruturadas. tende a resultar igualmente em violação aos limites estipendias legais). considerando o comando constitucional. estão adotando providências para atender as demandas da saúde consti- tuindo suas estruturas com a realização de concursos. além das questões ma- teriais. a qual é considerada de baixo valor. sessão em 18/12/2103. buscando contratações de médicos e demais servidores. circunstância que tem acarretado insuportáveis prejuízos à cidadania.) Paulo Luiz Squeff Conceição admite que é comum ter pequenas cidades escolhen- do entre deixar a população sem atendimento médico ou passar por cima da legis- lação. julgado pelo Tribunal Pleno da Corte. (ZERO HORA. em vários casos concretos.não tem atraído profissionais da medicina..00/11-9).limitadas ao subsídio do Prefeito . o Conselheiro-Relator assim se manifestou sobre essa matéria Os Municípios. por exemplo (situação que. No âmbito do TCERS. posto que envolvem co- mandos de ordem constitucional. Esta passa a não observar os limites legais de remuneração desses profissionais e/ou busca alternativas por meio de terceirizações. Tudo isso visando aplicar a Constituição Federal no que tange ao acesso dos cidadãos aos serviços médicos. Ocorre que. em diversas situações fáticas. 2013).. Nesse contexto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. o que a experiência tem confirmado. visto comando disciplinado pela Constituição Federal.

Em suma. Como se percebe. 2 OS DISCURSOS DE APLICAÇÃO PELO TRIBUNAL DE CONTAS ESTADUAL E A UTILIZAÇÃO DA NOR- MA MAIS ADEQUADA Segundo Jürgen Habermas e Klaus Günther. 379) “uma Constituição do Estado Social”. nas palavras de Paulo Bonavides (2016. M. ao comando contido no artigo 196 da Constituição Federal. 389). p. o referido jurista. (TCERS. se tornam os grandes desestabilizadores das Constituições” (2016.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. uma vez desatendidos. há que se dis- tinguir “a imparcialidade que se expressa em um procedimento de 168 ) . ademais. a despeito da saúde financeira dos cofres públicos municipais. é a garantia da saúde à população que parece traduzir o verdadeiro ideal social que reveste a atual Constituição brasileira. p. cabe a este Órgão de Controle Externo examinar caso a caso. a orientação do órgão Pleno da Corte de Contas para o julgamento de matérias análogas a ora abordada (no seu âmbito de jurisdição). ao tratar da crise dos direitos sociais na Constituição de 1988. pontua que “não há outro caminho senão reconhecer o estado atual de dependência do indivíduo em relação às prestações do Estado” (2016.) Por enquanto. 2013). é no sentido de sopesamento das pe- culiaridades existentes em cada Município. Nessa linha. p. 387) e que “os direitos sociais básicos. face as disposições constitu- cionais aplicáveis à espécie. sempre atento aos princípios constitucionais e. sempre tendo como norte a concretude do direito à saúde. Cabe salientar. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. vislumbra-se que. em especial. considerando a realidade fática atual. que a vigente Constituição Federal é.

de um outro processo “voltado para a todas as situações relevantes possíveis da situação. 2011. para o mesmo jurista alemão. 211-212). as consequências e os efeitos colaterais da observância geral pode- rão ser aceitos por todos. valem-se de discursos de aplicação. em sua obra Teoria da Ar- gumentação no Direito e na Moral. dentro do qual.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. com base em normas válidas prima facie nos discur- 169 ) . uma norma é aplicada” (2011. ligando a sua aplicação à consideração adequada de todos os sinais característicos especiais de qualquer situação nova que surja no espaço e no tempo”.] devem [. 2011. “combinam a pretensão de validade de uma norma com o contex- to determinado. Destarte. gene- ralizar uma norma adequada proposta em consonância com o estágio do nosso conhecimento. Já os discursos de aplicação. (GÜNTHER. Günther. segundo Günther os discursos de aplicação ‘recontextualizam’ a norma. extraída de seu contexto. Mais especificadamente. para os interesses de cada um in- dividualmente... ou seja. em dada situação... p. em conjunto e sem coação. p. 38). à luz de um interesse comum. os Conselheiros e Auditores Substitutos de Conse- lheiros do TCERS. com a finalidade de examinar se. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2006. regidas por um juízo de ‘aplicabilidade’” (RECK. p. p. (GÜNTHER.]. em disposição hipotética.) justificação que se projeta para o futuro e para todos a partir de situações imagináveis”. 38). para além da situação concreta. ao apreciarem e/ou julgarem as contas dos Ad- ministradores Públicos sob a sua jurisdição. M. quanto à sua validade. explica que os discursos de fundamentação [.38).

Sobre o discurso de aplicação. porque não é pos- sível prever a alteração de constelações de sinais característicos. Ou seja.3 . 37 da 9 Os processos de contas existiram no âmbito da Corte de Contas até 2012. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ao analisar o Pro- cesso de Contas9 nº 10634-0200/07-9. No julgamento do Processo. a Conselheira-Relatora. p. A partir de então os processos na casa se subdividem em contas de gestão e contas de gover- nos. 62). afrontado o disposto no art. exercício de 2007. do Município de Barra do Rio Azul. a seleção pode ser considerada adequada. requer também representar um interesse geral.pagamentos aos detentores do cargo de médico em valores superiores ao subsídio do Prefeito. e essa seletividade é reforçada ainda mais pelo fato de que a norma. Evidentemente. Com efeito. o Tribunal de Contas do Estado. (GÜNTHER. de novo. em cada situação de aplicação. a ser aplicada. 2011. precisa ser não apenas adequada à situação.) sos de justificação. devendo produzir uma interpretação que seja coerente à luz de tais fatos e interesses. em substituição. a opção por uma determinada norma sujeita à aplicação passa novamente a ser seletiva. M. analisou pormenorizadamente a aplicabilidade da limitação do quantum remuneratório dos servidores médicos em cotejo com a (precária) prestação de serviços de saúde básica. mas para ser fundamentada. dispôs em seu Voto que Consoante ao item 2. leia-se elucidativo excerto A relação de uma norma com todos os demais aspectos de uma circunstância precisa ser definida. 170 ) . se tiver sido precedida da consideração de todos os sinais característicos da situação de aplicação. deparam-se com situações e interesses concretos e com diferentes interpretações da situação. Entretanto. Heloisa Piccinini.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.

]. na redação dada pela EC nº 41/2003). sem perder de vista a regulação atinente à matéria. em que os altos custos da formação e especialização na área acabam refletindo na pretensão de ganhos. fixada em patamares frequentemente inferiores aos padrões remuneratórios al- cançados pela classe médica no mercado. 2008). Diante disso. facultando-se. 37. não raro superiores aos subsídios de agentes políticos. XI. sustentando a complexidade dos temas destacados no feito.70 [.art. Com isso. (TCERS.008. no exame do caso concreto. da CR/1988. inclusive. as respectivas definições não passam pelas intercorrências típicas da periódica renovação dos mandatos e das corresponden- tes remunerações. não posso deixar de considerar. o estabelecimento de um “teto único” (o subsídio dos Desem- bargadores). solicitou vista dos autos e proferiu Voto.) Constituição. quanto a estes (por força da EC nº 47/2005).. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.] Sobressai. E não vai.. o Conselheiro Cézar Miola. Na espécie. Um dos maiores problemas atualmente enfrentados pelas administrações locais reside exatamente em como conciliar o encargo de oferecer atendimento médico aos munícipes com a dificuldade (quase impossibilidade) de atrair profis- sionais interessados na prestação de tais serviços por oferta pecuniária (principal- mente nas comunas de menor porte. e em razão dos limitadores já conhecidos).. Por esta razão permanece a fa- lha a necessária e restituição ao erário municipal do valor pago indevidamente”. bem como o não menos judicioso entendimento manifestado pela nobre Relatora. configura-se injustificável assimetria (com origem no próprio Texto Constitucional). a realidade presente em muitos Municípios brasi- leiros. M. como regra. aqui. em que pesem o zelo e a acuidade com que se estruturou o diligente trabalho técnico no enfrentamento do tema. aqui. mas interpre- 171 ) . a evidente impropriedade de se estabelecer como “teto remuneratório” o valor dos estipêndios fixados a detentores de mandato eletivo (in casu. no valor de R$ 24. [. inc..P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Na sequência. a propósito. o Prefeito . mas apenas uma leitura do cenário atual. cujo excerto junta-se abaixo Com efeito. na medida em que na União o referencial é o subsídio dos Ministros do Supremo Tribunal Federal e nos Estados e DF abre-se um leque de limitadores. uma crítica às conquistas da categoria.

O Voto do Conselheiro. Processo nº 08121-0200/12-6. dentre outras determinações.) tando-a à luz das especificidades do caso concreto. assim se pronunciou Portanto. a indicação de restituição de valores aos cofres municipais e mantida a irregularidade para fins de multa.Ante o exposto. afastou a proposta técnica de restituição ao erário dos valores pagos acima do teto aos detentores do cargo de mé- dico. II . no entanto. sem delonga. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. relativo ao exercício de 2012. o posicionamento dos julgadores quanto à existência de inconformidade no ato. o que culminou na imposição de multa em desfavor do Gestor. na qual se 172 ) . sessão de julgamento em 05/03/2015. igualmente. 2008). até mesmo pela boa-fé que nela se denota. É o meu voto. em divergência do da Relatora. Executivo Municipal de Jacutinga – quanto ao item que consignava que médicos contrata- dos temporariamente perceberam remuneração superior ao subsí- dio do Prefeito. Foi mantido.71 (vinte e quatro mil. no valor de R$ 24. divergindo. seguido por esta última que. posteriormente. Ressalta-se que a fundamentação do Voto divergente deste decisum.008. alinho-me a posição expedida pela Supervisão.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. acompanhando-a quanto aos demais aspectos. M. que implemente medidas voltadas à adequação do caso concreto aos ditames constitucionais que o disciplinam. foi. determinando-lhe. o julgamento do Processo de Contas de Gestão nº 08399-0200/12-7. após ser proferido. contudo.3. amparou. Foi afastada. sessão em 16/10/2008. (TCERS. por meio da De- cisão nº 2C-0922/2008. Exe- cutivo de Cambará do Sul. o Conselheiro-Relator Estilac Xa- vier. oito reais e se- tenta e um centavos). Em outro julgamento. entendo possível relevar a prática isolada. manifesto-me pelo afastamento do débito relativo ao subitem nº 2. da eminente Rela- tora. respeitosamente.

daí a importância deste momento que geralmente passa desapercebido pelos juristas. p. como houve a prestação dos serviços. no qual se afastou a glosa invocando. tal ve- redicto perfila-se a precedente (4) desta Corte de Contas. Destarte.) esclarece de forma inconteste a imperatividade do teto no caso em análise. a confrontar as normas válidas e decidir a respeito da adequação dessas às situações nas quais o direito à saúde corre o risco de não se efetivar. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a partir de uma aplicação imparcial da lei. Mais. sobre caso idêntico. Vê-se que novamente é afastada a necessidade de o Gestor restituir valores ao erário (que tenham extrapolado os limites constitucionais). eis que os serviços foram prestados e por ser notória a dificuldade de se contratar profissionais na área da saúde no interior do Estado. (TCERS. Mais. M. 173 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. p. que para dar coerência ao ordenamento jurídico. (2006. Entende a Corte. 214-215). Ou seja. mantenho a falha com aplicação de multa pecuniária e recomendo ao atual Gestor que evite a reincidência no caso. Mas o que são os sinais característicos para a aplicação? São todos os fatos relevan- tes para o deslinde do caso. os motivos acima relacionados. nos casos apontados como para- digma. 2015). anuo ainda com o afastamento do débito em virtude do alcance da finalidade pú- blica do gasto. 214). mesmo o julgador sustentando serem cogentes os limites do teto. todas as normas integrantes de um ordenamento. as peculiaridades situacionais que se apresentam – ausência de médicos em municípios pequenos e falta de interes- se desses profissionais em atuar no interior do Estado – levam o Conselheiro (julgador). a disponi- bilização de serviços médicos à população é questão relevante ante os “sinais característicos para a situação” (RECK. para tal. Logo. 2006. Nas situações analisadas. conforme afirma Reck A seleção dos fatos é que justamente servirá para a concretização da norma. afasto a sugestão de débito.

ou não. 2011. p. Tal constatação se vislumbra de forma cristalina nos casos em que o TCERS aplica os ditames do artigo 196 e seguintes da Cons- tituição Federal. Dessa forma. já que podem ocor- rer variações em cada localidade. M. reitera-se a sua imprescindibilidade já que “enquanto a aplicação de normas perma- nece sob a vigilância da ideia da imparcialidade. “mas sim são ‘inaplicáveis’ conforme o caso. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Registra-se que o TCERS tem se orientado. mantém sua validade neste nível [. p. Assim. os fatos e o ordenamento. não perdem a sua validade nos discursos de aplicação. dos serviços de saúde em cada Municí- pio..]” (RECK. Acerca da necessi- dade de imparcialidade nos discursos de aplicação. quando da apura- ção da efetividade. ao cabo. cabe a ainda considerar que “A perspicácia nos 174 ) . 216). não concorrem entre si.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. o intérprete in casu. “a necessidade de considerar novas interpretações de uma situação só poderá ser deduzida a partir da ideia de uma aplicação imparcial” (GÜNTHER. Sobre o tema. 61). considerando a necessidade de coerência entre a nor- ma. por realizar uma verificação “caso a caso”. E. aplica aquela norma considerada a mais adequada – aquela que. mesmo quando as remunerações dos servidores médicos ultrapassam o teto constitucional. uma violação das características específicas da situação fica excluída” (2011.. 2006. pelo con- trário. vai via- bilizar a existência de médicos nos Municípios. não são levantados questionamentos acerca da validade na norma constitu- cional que institui o subteto dos servidores municipais. p. ela é exaltada exatamente pela dimensão do seu alcance e pelos reflexos que gera em termos de moralidade e austeridade. essa forma de proceder parece garantir a imparcialidade dos discursos de aplicação pela Casa. Isso porque. 63). pelo con- trário.) que se fizeram válidas a partir de um discurso de fundamentação.

Aos Administradores Públicos (muitas vezes com vencimen- tos pouco expressivos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Trata-se. de. tem-se julgado mais adequada e coerente com o ordenamento jurídico a norma constitucional que estabelece a saúde como direito de todos – e. é que nos discursos de aplicação do TCERS. 2015. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 63). não aplicável a norma que prevê a limitação da remuneração de servidores municipais médicos através do subteto constitucional. atrair profissionais médicos para seus Municípios. Por todo exposto e. de situação que.) discursos de aplicação deve estar relacionada à habilidade em se- lecionar os fatos.43). além de ser complexa. restam as tentativas. RECK. quando da apreciação da responsabilidade dos Gestores Municipais por seus atos de gestão. em geral por meio de concursos públicos. Destarte. consequentemente. p. por sorte.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. sem desrespeitar os limites consti- 175 ) .. bem como nas pautas de julgamento do TCERS. bem como com diferentes interpretações da situação [. p. pois serão os fatos selecionados que servirão de base para a concretização da norma na situação exigida” (BITEN- COURT. como visto..]” (2011. com amparo exatamente nos interesses e necessi- dades de pessoas concretas. ressalta- -se que nas situações em que são relevantes as questões de “apli- cabilidade” da norma “somos inicialmente confrontados com as necessidades e os interesses de pessoas concretas. M. está rotineiramente presente nos atos de gestão dos Prefeitos. que refletem a própria situação orçamen- taria do Ente que representam). seguindo na Teoria de Günther.

In: COSTA. resulta na ineficácia do direito à saúde nestes locais. REFERÊNCIAS BITENCOURT. Até porque. registram obstáculos em comum entre eles. embo- ra demonstrem a apreciação individual das peculiaridades de cada Executivo Municipal.) tucionais do teto. Assim sendo. dentre outros). orçamento. nos processos analisados acima. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. em um dos “sinais característicos”. consistente na dificuldade em captar profissionais médicos. nas palavras de Günther. Santa Cruz do Sul: Edunisc. Marli Marlene Moraes da. Entretanto. Mônia Clarissa Hennig (organiza- dores). que o intérprete deve considerar para aplicar a norma em um caso concreto. a partir dos seus discursos de aplicação. distância da Capital do Es- tado. em âmbito fático. essa realidade raramente se verifica na prática. RECK.. 176 ) . Tomo 15. a carência de profissionais de saúde. Em síntese. avaliando as situações fáticas apresentadas (tamanho do município. C. constitui-se. 2015.R. tende pela não aplicação do texto constitucional que prevê o limite remuneratório dos servidores vinculado ao teto do Prefeito. na prática. por interpretá-lo não adequado aos casos propostos. M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. já que a ausência de médi- cos. na verdade.M. os discursos de aplicação utilizados pelos julga- dores da Corte de Contas. LEAL. de aplicação e pragmáticos para a decisão e controle em matéria de políticas públicas. J. profere sua decisão que. nesses casos. O papel dos discursos de fundamentação. percebe-se que o órgão julgador ora analisado. Direitos Sociais e Políticas Públicas: Desafios Contemporâneos.

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Disponível em < http://tgeu. 3 Pesquisa realizada pelo Transgender Europe’s Trans Murder Monitoring (TMM) project. O Brasil é o país com mais assassi- natos de transexuais femininas – transfeminicídios – no mundo: nos últimos 07 anos foram 689 mortes. 1* Bolsista CAPES. .org/tmm-idahot-update-2015/ >. IDENTIDADE E DIFERENÇA: OS PRIMEIROS OLHARES DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL À TRANSEXUALIDADE Juliana Ribas1* Anaise Severo2** 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS: DIREITO E INCLU- SÃO SOCIAL A marginalização da comunidade transexual a expõe a uma situação de violência e indignidade intolerável para os padrões de humanização do século XXI.700 no mundo inteiro3. na área de Fundamentos Constitucionais do Direito Público e do Direito Privado. as 20h20min. 2** Graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – VI Se- mestre. Mestranda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. acesso em 23/11/2015. do somatório de 1.

Em novembro de 2014. que deverá agora analisar também a possibilidade de uma pessoa. 5 Tema 778 de Repercussão Geral.jus. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.br/portal/jurisprudenciaRepercussao/verAndamentoProcesso. 845.br/portal/jurisprudenciaRepercussao/verAndamentoProcesso. ser tratada socialmente como se pertencesse a sexo diverso do qual se identifica e se apresenta publicamente5. conforme sítio do Supremo Tribunal Federal. O reconhecimento expresso da repercussão geral desses casos nos provoca questionamentos: que parâme- tros jurídicos devem ser aplicados? Afinal. conforme sítio do Supremo Tribunal Federal. demandas que ganharam fôlego desde maio de 1968.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 670. acesso em 05/10/2015 as 18h46min. pretendendo auxiliar na explicitação de conceitos que enten- 4 Tema 761 de Repercussão Geral.) O sistema jurídico brasileiro vagarosamente reconhece e po- sitiva temas de referentes às minorias.799/SC. Este trabalho se insere nessa lacu- na. < http:// stf.jus. mesmo sem a realização de procedimento cirúrgico de redesignação de sexo4. M. Um ano depois. 180 ) . a partir do crescimento da visibilidade de grupos homossexuais.asp?inciden- te=4657292&numeroProcesso=845779&classeProcesso=RE&numeroTema=778>. considerados os di- reitos da personalidade e a dignidade da pessoa humana. o que é gênero? Gênero difere-se de sexo? Pode o Estado tratar um cidadão de forma diferente da qual ele se identifica? As estruturas jurídicas ainda não positivaram respostas para questionamentos dessa ordem. acesso em 05/10/2015 as 18h37min. o Supremo Tribunal Federal reco- nheceu a Repercussão Geral do RE n. a pau- ta dos direitos transexuais é trazida novamente à Corte através do RE n.asp?inciden- te=4192182&numeroProcesso=670422&classeProcesso=RE&numeroTema=761.422/RS. que analisará a possibilidade de alteração de gênero no assento de registro civil de transexual. como direitos sexuais e de gênero. http:// stf. tra- vestis e transexuais.

Segui- remos as lições de Berenice Bento. travestilidades de transexualidade. 21) Antes de relatarmos o cenário da transexualidade no Brasil e os casos que serão ventilados em nossa Corte Suprema. 2 UM PACTO SEMÂNTICO: SEXO. que entende que afirmar que as mulheres transexuais se diferenciam das travestis porque se sentem mulheres é tomar a categoria mulher como um dado que por si só evoca um conjunto de atributos que pertencem a todas mulheres (BENTO. arquivos vivos de histórias de exclusão. em conosância com a dignidade da pessoa humana. em primeiro lugar.) demos melhor coadunar com o contexto constitucional brasileiro. Não distinguiremos. transexual masculino e artigos masculinos para indivíduos que se identificam como homens. e que denunciam. através de uma abordagem interdisciplinar. Diferentes estudos sobre gênero e sexualidade iniciaram em 1960 e na década sequente foram apropriados e expandidos pelas teorias feministas que exploravam os mecanismos da subordinação da mulher. bem como artigos femini- nos para denotar os indivíduos que se sentem e se identificam como mulheres. precisamos acordar alguns termos que serão utilizados ao longo do artigo: uti- lizaremos a expressão transexual feminina. implícita ou explicitamente. 2008:75). ao questio- 181 ) . Corpos que embaralham as fronteiras entre o natural e o artificial. como o fa- zem parte da doutrina. 2003. que as normas de gênero não conseguem um consenso absoluto na vida social (BENTO. desfeitos e refeitos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. GÊNERO E IDEN- TIDADE Corpos inconclusos. procurando responder. M. p. entre o real e o fictício.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.

Esses aspectos possibilitam discussões plurais a respeito das relações entre sexo. Neste tentativa redutora ao binarismo. as pessoas são identificadas enquanto ho- mem ou mulher a partir de determinados signos inventados para a construção filosófica de um corpo que atenda à condição de ha- bitual ao discurso inteligível de uma existência metafísica. Para melhor compreensão. Gênero é uma definição social que depende da autodeterminação do indi- 182 ) . sexo é uma definição biológica. impulsos. reproduzindo a ideolo- gia do corpo dominante. quanto as questões em pauta. reduzido ao corpo apropriado. gênero e sexualidade – portanto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. não somente as relações erótico-afetivas. as relações de dominação social. pertencente a apenas uma propriedade dual. M. O corpo torna-se sujeito à adjetivação.) namento: o que é ser mulher? Era preciso – e ainda é. tanto cultural quanto socialmente. discussões sobre identidade. Estruturalmente. cargas afetivas em suas diferentes velocidades tidas enquanto determinan- tes na constituição de um estereótipo de gênero. o primeiro identificado historicamente. 2013: 16). na qual ratificam-se desviantes tais como corpos de clausura. Uma vez dada as diferenças culturais do corpo abjeto em relação ao cor- po cis. as políticas públicas de saúde. mas também as relações de trabalho. ignora-se a perspectiva da diferença. educação (NARDI. pois tal in- dagação ainda não foi superada – identificar as diferenças presentes no binômio feminino/masculino para reivindicar a igualdade de tratamento entre os dois – pauta do movimento feminista liberal. O sistema social perpetua. construída a partir do órgão sexual que cada pessoa nasce. Tais relações estão diretamente implicadas nas ma- neiras como se estruturam.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. símbolos são incorporados en- quanto regras dialéticas para cada qual: paixões.

M. aberrações da natureza. Tal performance é socialmente aceita quando apresenta relações de coerência e continui- dade entre sexo. prática sexual e desejo (BUTLER. é a sinalização exterior de marcadores sociais estéticos .ressalvando a importân- cia complexa do processo de subjetivação de determinados com- portamentos. pode mudar? Pode ser de forma diferente? Pode fugir desse fenô- meno de genitalização? Berenice Bento relembra que as performa- tividades de gênero que se articulam fora dessa amarração são postas às margens. coisas esquisitas (BENTO. procuramos considerar a complexidade histórica presente nos corpos em questão.) víduo e sua performance social. analisadas como identidades transtornadas. 2003: 38). anormais. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. psicóticas. Elas [as identidades] não são simplesmente definidas. é ação reiterada de estereótipos. Em resposta ou fuga à uma ação teórica. bem como os 183 ) . Gênero é construção (BUTLER. gênero é performance reiterada. Identidade pressupõe processos de subjetivação frente a di- ferença. Ou seja.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 2008: 45). que busca delimitar os nuances nocivos de uma cultura trans. Elas não convivem harmonicamente. e assim compreender os processos de fixação da identidade. em um campo sem hierarquias. Se gênero é construção. O que não significa que todo transexual é heteros- sexual. convém ressaltar a diferenciação entre orientação sexual e gênero: distinguir homossexualidade de transexualidade é uma parte importante do discurso de demarca- ção de gênero. genealogicamente mar- cados por práticas linguísticas sujeitas às relações de controle. elas são disputadas (SILVA. 2003: 21). gênero. elas são impostas. envolvidos por relações sociais. 2009: 81). quando segue estereótipos de gênero e noções de femini- no e masculino predominantes. lado a lado.

Se o gênero são significados culturais assumidos pelo corpo sexuado. são criados em conjunto. Nesse processo significativo de desnudar o sistema binário. ou corpo e cultura. Ao mesmo tempo quebra a causalidade entre sexo/gênero/desejo e desnuda os limites de um sistema binário assentado no corpo-sexuado (o corpo- -homem e o corpo-mulher) (BENTO. 2009: 83) 7 O cisgênero é o binário do transgênero. eis que o sexo designado no nas- cimento – a genitália do indivíduo – se apresenta como obstáculo para o corpo desejado.) processos que impedem tal fixação (SILVA. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. O cisgênero é a criação linguística que identifica o transgênero através da diferen- 184 ) . porém uma desorganização en- quanto potência para. A autora continua: A experiência transexual destaca os gestos que dão visibilidade e estabilidade aos gêneros e estabelece negociações interpretadas. não mais encontramos o que significa ser diagnosticado com trans- torno de identidade de gênero. que supera as diferenciações entre sexo e gênero. na prática. (SILVA. Só há transgênero se for possível distingui-lo de algo – o indivíduo que se identifica com o sexo que lhe foi atribuído ao nascer. 2009: 84). Berenice Bento sugere que a transexualidade é uma experiência identitária. emergindo a pos- sibilidade de um discurso desviante. Diferentes práticas foram-se criando em torno do assunto. caracterizada pelo conflito de normas de gênero (BENTO. tal como na teoria queer. 2003: 24). Essa normalização6 do cisgênero7 – naturalização do indivíduo que se identifica com o gê- 6 Para Tomaz Tadeu da Silva: Normalizar significa eleger – arbitrariamente – uma identidade especí- fica como o parâmetro em relação ao qual as outras identidades são avaliadas e hierarquizadas. M. não se pode dizer que ele decorra. de um sexo desta ou da- quela maneira (BUTLER. 2008: 18). uma emergente despatologização do corpo e do sistema de símbolos que o mutam. sobre o masculino e feminino.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. natureza e cultura. A transexualidade é a materialização dessa possibilidade de construção alternativa de gênero. 2008: 21).

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Recusa-se a ser corrigido. mas que sempre é moldada por um corpo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. não busca seu retorno ao centro. M. considerado doente. adequado. Esse empoderamento a partir do insulto. anormal e sofrer uma certa estigmatização em consequência do diagnóstico (BUTLER. que as- sume essa diferença marginalizada e não procura normatizá-la. com um discurso desse estranho8. identificação e coerên- cia interna. de certa maneira. A opressão aparece cruelmente na linguagem. Ann Ferguson. que impõe o corpo abjeto tal como identidade passível ao diagnóstico. sufixo utilizado para designar doença. nas quais os processos de constituição do corpo não compõe certa singularidade. Sujeitar a expe- riência transexual enquanto patologia remete a afirmações exclu- dentes. descreve o indivíduo como uma consciência complexa que se constrói. Berenice Bento descreve que receber o diagnóstico de transtor- no de identidade de gênero – TIG – é ser. 2008: 54). do ismo. A Teoria queer nasce a partir dessa concepção do errado. no sufixo ismo de transexualismo. identifica-se psiquicamente com uma ou mais imagens corporais. essa apropria- ção do estranho. inviabilizando sua articulação aos tentames e vivências.) nero que lhe foi atribuído ao nascimento – fundamenta-se em um sistema cissexista. 8 Tradução para o português do substantivo queer. constrói uma concepção pós-identitária (BENTO. disfuncional. Dentro desse processo de corporalidade e psicologiza- ção. errado. Ferguson (1996:113) defende que para além da performance ciação. 185 ) . ao aceito. da perversidade. conduta perversa. Nasce-se em um corpo e du- rante o processo de experiência corporal. 2009: 95). ao dialogar com tal perspectiva.

3 TRANSEXUALIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS NO BRASIL A experiência na construção de um corpo expressa a formu- lação de uma existência singular. Ainda. considerando que a arte presente no corpo-híbrido não é tida enquanto concepção original. um processo de criação o envolve. é na experiência da infância.) presente no gênero. Constrói sua subjetividade – o seu eu –. identificando-se com o corpo e a conduta atribuídos ao sexo oposto ao pertencente do nascimento. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Nesse modo de expressão em meio a uma realidade sensível. M. ainda que essa oposição não seja uma aceitação de essência irredutível. a atual politização do gênero reivindica novas formas de agir com os padrões empíri- cos dessa opressão que tenta catalogá-lo. resigna-o a um abjeto em busca de cura. na qual a criança pode se identificar com as expressões binárias de gênero (masculino/feminino) que o aprendizado se dá frente à repressão de identificações corporais psíquicas referentes ao sexo oposto ao seu. E é neste algo que o consenso ope- ra. No efeito do múltiplo. todo corpo é circunscrito em con- trapartida à exclusão de algo. desorganizando-se em uma constituição binária para que sua individuação se construa desviante.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. a transexualidade se faz na expressão de um corpo que recusa a delimitação imposta. O fato de que a patologização do corpo está enquanto con- senso. porém de fragmentos de um processo emer- gente de constituição para com este corpo híbrido. marcado por dis- funções biológicas e psicoafetivas. Entretanto. porém como construção destoante 186 ) .

a introdução de políticas públicas ao debate tor- na-se imprescindível. e por isso inválida. Para tanto. entendimento que permanece até hoje. 187 ) . Em 1973. o termo foi substituído por Transtorno de Iden- tidade de Gênero. Em 1980. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Don Kulick e Marcos Benedetti. O indivíduo politizado passa a perceber que enquanto as normas de gênero não forem questionadas. uma vez que estas políticas redirecionam o coletivo em detrimen- to do interesse de determinados grupos para que dada demanda social venha a ser atendida em uma perspectiva de governo demo- crático. os dis- cursos hegemônicos localizados nas instituições continuarão seu trabalho de produção de seres abjetos (BENTO. posto que constituem o espectro que justa- põe o conhecimento científico às produções empíricas do Estado. Com o tempo. a pauta transexual foi ampliada a partir da politização do grupo. o tran- sexualismo foi incluído no DSM como distúrbio de identidade de gênero. Tais corpos ma- nifestam a ausência de modos além binários. Os primeiros trabalhos acerca da transexualidade foram pu- blicados em 1950 e multiplicaram-se nas décadas subsequentes. M. faz-se necessário a definição do papel do Estado para com as demandas emergentes do mundo moderno. A partir de 1990.) de um determinismo biológico. a temática transexual ganhou maior visibili- dade nas pesquisas brasileiras nas obras de Hélio Silva. A partir daí. 2008: 78).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. ora não mais marcado em razão de coletivo sobrepondo o particular. Em 1994. ressalvando determinados grupos de atores sociais. a transexualidade passou a ser considerada disforia de gênero. porém enquanto reconhecimento de novos processos de subjetivação. enquanto ques- tões públicas.

as 15h37min.br/cidadania-e-justica/2015/10/uso-do-nome- -social-no-enem-por-transexuais-cresce-172 > acesso em 10/11/2015. Até 2013.) A partir de 1997. as quais são reali- zadas apenas por hospitais universitários públicos. o Conselho Federal de Medicina autorizou e regulou as cirurgias de redesignação sexual. ha- via uma cisão na comunidade trans acerca da despatologização da transexualidade – entre aqueles que acreditam na importância e necessidade do CID-10 para garantia da cirurgia de redesignação pelo Sistema Único de Saúde e outros que se opõem. Em 2013.gov. Na esfera judicial. Naquele ano. Em 2003. já em 2015. que fomentou a criação de políticas públicas para promoção de cidadania e direitos humanos. 188 ) . serviço de atendimento de situações de violação de direitos humanos e discriminação. defendendo sua capacidade de autodeterminação de gênero. M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM 5) retirou a patologia de disforia de gênero de seu catálogo. percebemos o ativismo de vanguarda do 9 Conforme < http://www. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. foi aprovada a possibilidade de transexuais utilizarem seu nome social como identificação formal no Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM.brasil. Em 2006. foi criado o Disque 100. com o apoio do mo- vimento LGBT. Um debate entre legitimação jurídica pra assistência médica e a noção de autono- mia. Em 2001. foram 102 ins- critos que requereram tal identificação. Em 2014. foram 278 – um aumento de 172% em apenas um ano9. o Ministério da Saúde adicionou na Carta dos Di- reitos dos Usuários da Saúde uso do nome social em todos os âm- bitos do SUS. foi criado o Conselho Nacional de Combate à Discriminação. superando o monopólio da pauta da prevenção de HIV/AIDS identificado desde 1980.

que tem avançado na legitimação da transexualidade.O prenome será definitivo. na redação que lhe foi conferida pela Lei nº 9708. 58. nos quais autorizou a alteração do sexo e do pronome na 11 Certidão de Nascimento. a 9ª Câmara Criminal determinou que medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha sejam aplicadas em favor de uma transexual ameaçada pelo ex-companheiro10. de 199812. No ano de 2015. de 1973.2015. A visibilidade das representantes deste debate é obscurecida pelas bancadas con- servadoras de direita no Congresso. M.0000 Relator(a): Ely Amioka. Toneli e Amaral acres- centam: Além disso. RE 737993/MG e RE 1008398/SP. Ainda. A discussão acerca do tratamento jurídico da transexualidade é por demais tímida na sociedade brasileira ainda.26. todavia. defendendo a legitimidade do Nome Social. Ocorre que a proteção e a legitimidade das transexuais não se trata de debate entre ideolo- gias de esquerda e direita: é um pleito sobre dignidade e igualdade material de tratamento e reconhecimento. Comarca: São Paulo. Órgão julgador: 9ª Câmara de Direito Criminal. 189 ) . a sua substituição por apelidos 12 públicos notórios. Há ainda uma Ação Direta de Inconstitu- cionalidade tramitando no Supremo Tribunal Federal questionan- do o Art.8. 11 RE 678933/RS. 058 . Data do julgamento: 08/10/2015. Art. 2097361-61. garantiu a uma adolescente transexual que cumpre medida socioeducativa na Fundação Casa o direito de ser transferida para uma unidade feminina da instituição.) Tribunal de Justiça de São Paulo. Data de registro: 16/10/2015.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. admitindo-se. da Lei nº 6015. o preconceito e a violência contra a identidade de gênero dessa po- pulação têm ao longo dos anos legitimado práticas transfóbicas de violência e de 10 Processo n. O Superior Tribunal de Justiça julgou três casos acerca do tema . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

190 ) . Desenvolvimento este traduzido como liberdade. HIV/AIDS e criminalidade (NARDI. Não há políticas públicas específicas para a comunidade transexual no que tange ao seu desenvolvimento e acesso ao mercado de trabalho ou à educação. garantias de transparência e em segurança protetora. 4 DISCRIMINAÇÃO NO REGISTRO CIVIL E BA- NHEIROS PÚBLICOS EM REPERCUSSÃO GERAL A necessidade da realização de cirurgia de redesignação do sexo feminino para o sexo masculino para o deferimento de alte- ração de nome no Registro Civil de Pessoas Naturais é a pauta do Recurso Extraordinário n. DSTs.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. econômica. dividindo-a em política.) exclusão incidindo particularmente sobre o corpo das travestis e transexuais e sobre as possibilidades de acesso delas ao mercado de trabalho formal e à qualifi- cação escolar e profissional (TONELI. M. seguindo Amartya Sen13. o papel das políticas públicas seria o de aumentar tais liberdades. 2010: 25). 670. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. (SEN. oportunidades sociais.422/RS. o desenvolvimento social. funcionam como promoção de liberda- des substantivas em geral. O Direito insere-se no papel de proteção dessas liberdades. à medida em que inter-relacionadas. É preciso também interpretar sistematicamente o fundamen- to do Estado brasileiro da dignidade com seu primeiro objetivo. 2013: 34). optando pelo entendimento de que os princípios da publicidade e 13 Amartya Sen apresenta a possibilidade de análise da liberdade sob a perspectiva instrumen- tal. que. Nesse escopo. é preciso salientar que tais demandas governamentais são associadas a estigmas de marginalização – de prevenção às dro- gas. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul negou provimento a apelação da parte autora. 2013: 38). Retratado o cenário institucional de recepção aos transexuais no Brasil.

O caso se refere a suposto ato discriminatório ocorrido em shopping center (recorrido) em que uma transexual feminina adentrou no banheiro feminino e teve sua presença barrada por funcionários do local. DIAS TOFFOLI. o STF. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. do TJRS. porém se refere no relatório e razões à autora como sujeito masculino.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. utilizando seu Conforme ementa do acórdão da AC 70041776642. Já em 2015. Ou seja. o Ministro Dias Toffoli defendeu a repercussão da decisão para todos os transexuais que desejam adequar sua identidade de sexo à sua identidade de gênero15. julgado em 11/09/2014. Já o Tribunal de Justiça de Santa Catarina deu provimento à apelação da ré. acabou por aliviar-se em suas vestes diante das pessoas que transitavam por ali. Em 2014. M. o Tribunal entendeu como realidade o órgão sexual da parte apelante e ainda defendeu a inclusão do termo transexual no documento de registro. Importante notar que o acórdão reconhece a autora como transexual feminina.000. sobretudo para resguardo de direitos e interesses de terceiros14. Nas razões da decisão.) da veracidade deveriam corresponder à realidade fenomênica do mundo. um novo caso chegou à apreciação da Corte Su- prema. intimidade e saúde e publicidade e veracidade dos registros públicos. eis que identificou um mero dissa- bor da autora na situação narrada. dignidade da pessoa humana. ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-229 DIVULG 20-11-2014 PUBLIC 21-11-2014. A autora pleiteou dano moral. Relator(a): Min. o qual em primeira instância foi acolhido e conferida indenização no valor de R$ 15. por maioria – vencido o ministro Teori Za- vascki. 14 15 RE 670422 RG. Impedida de usar o banheiro e estando por demais nervosa. 191 ) . que alegaram que a sua presença seria cons- trangedora para as outras mulheres presentes.00 ( quinze mil reais). reconheceu a existência de repercussão geral. ventilando os princípios da personalida- de.

O Recurso Extraordinário tem como fundamentos legais o art. A decisão que reconheceu a repercussão geral do recurso de pronto afastou a aplicação da Súmula 279 para o caso. O voto do Relator foi pelo provimento do Recurso Extraordinário. e no devido processo legal. com as sustentações orais da procuradora da agravante. LIV e 93. qual seja. 5º. sob o entendimento de que rediscutiria questões fático-pro- batórias. Barroso. prosseguido pelo voto do Min. X. III. III. julgado em 13/11/2014. resgatando os termos da sentença de pri- meiro grau. fundamenta-se na violação da dignidade da pessoa humana. a da Constituição e alega a violação aos artigos 1º. Ou seja. Fachin e debates no plenário. ROBERTO BARROSO. bem como majorando a inde- RE 845779 RG. ou seja. XXXII. PRO- 16 CESSO ELETRÔNICO DJe-045 DIVULG 09-03-2015 PUBLIC 10-03-2015 192 ) . 102. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. O Ministro Luiz Edson Fachin foi acompanhando o relator pelo pro- vimento do recurso extraordinário. do voto do relator Min. o vexatório e discriminatório. O Tribunal ainda negou o seguimento do Recurso Extraordi- nário. O julgamento deste caso iniciou no dia 19/11/2015.V. M. a autora não deseja rediscutir matéria com necessidade fático-probatória. Suas razões serão analisadas nos itens ulteriores. porém este teve seu cabimento e repercussão geral16 re- conhecidos pelo Supremo Tribunal Federal por maioria – vencidos os ministros Marco Aurélio e Teori Zavascki. da vice-procuradora geral da República. dos representantes da Amici Curiae. defesa do consumidor. apenas dis- cutir seu mérito. da Constituição. tendo em vista que o fato do impedimento de entrada no banheiro feminino por funcionário da ré é incontroverso. do direito a indeniza- ção por dano moral.) nome de registro civil e artigos masculinos. Relator(a): Min.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ecoando e condenando essa realidade de marginalização que viabiliza a violação dos direi- tos fundamentais dessa minoria. É preciso atentar para pronomes de tratamento. é negá-la materialmente. É preciso reconhecer e respeitar os sujeitos aos quais as decisões terão eficácia. o Ministro Luiz Fux pediu vista dos autos. é causa e consequência de sua invi- sibilidade. No plano discursivo. 1985). e outros específicos. Daí a essencialidade da apreciação do tema pela Corte Supre- ma do país: repercutir a necessidade do tratamento digno e não discriminatório ao cidadão brasileiro que.) nização de R$ 15. identifica-se como transexual. utilização correta e precisa de conceitos como gênero. Essa ausência de debate. dentre tantos outros marcadores. de representati- vidade da realidade transexual. No momento dos julgamentos.00 para R$ 50. nossa preocupação está no tratamento digno as transexuais durante os julgamentos. M. nas sustentações orais e votos. 5 DESAFIOS E PROVOCAÇÕES AO SUPREMO TRI- BUNAL FEDERAL A sociedade brasileira ainda não debateu com fôlego o tema da identidade de gênero.000. na medida em que o direito se apresenta como estrutura e instrumento de planejamento social (LUHMANN. Ao final. o Plenário do STF encontrará inúmeros desafios: alguns gerais. naturais da apreciação de casos difíceis.000.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Utilizar artigos masculinos para se referir à recorrente é ne- gá-la em seu discurso. ainda que se de- 193 ) . identidade e sexo.00. no plano do discurso.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. É possível per- mitir a alteração do nome com a inclusão do termo transexual na certidão. A igualdade precisa ultrapassar a dimensão formal e se materializar na atitude de cada ministro do pleno. titulares dos direitos pleiteados em Repercussão Geral? Todos os indivíduos que se apre- sentarem como transexuais serão contemplados? ii) pode o Estado tratar um cidadão de forma diferente da qual ele se identifica? Se os ministros entenderem por superar a exigência de cirur- gia para retificação de pronome na certidão de nascimento. Os debates travados na sessão de julgamento do dia 19/11/2015 materializaram a importância dos questionamentos e críticas traçados neste trabalho. O Parlamento ainda introduziu a igualdade de direitos entre uniões civis de casais homossexuais e casais casa- dos civilmente. como entenderão a performance social do gênero feminino e do gênero masculino? Eis um problema gerado pelo estruturalismo de gêne- ro e a pela exclusão resultante da normatividade. Malta foi o primeiro país europeu que aprovou a inclusão da identidade de gênero como garantia prote- gida pela Constituição. Em abril de 2015.) fenda posteriormente a defesa de seu direito. Transgêneros que contestaram seu gênero regis- trado legalmente podem casar depois dessas alterações constitu- 194 ) . O Superior Tribunal Federal deverá responder perguntas como: i) quem são os indivíduos transexuais. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. conforme entendimento do TJRS? Seria possível exigir critérios de aferição de transexualida- de para entrada no banheiro feminino como mudança de nome e cirurgia? Seria possível criar um terceiro banheiro exclusivo para transexuais? A Corte Suprema possui vários exemplos alienígenas para se inspirar. M.

implica uma ruptura com inúmeras interpretações estabelecidas. A realidade brasileira de violência e preconceito enseja a apli- cação de medidas protetivas à minoria transexual. O nome civil é o primeiro passo para reconhecimento num ordenamento.) cionais. Malta e Argentina. atender às novas demandas sociais tais como as supracitadas . M. Contudo. A oposição enraíza uma simples perspectiva binária de que não há possibilidades desviantes. tanto para instau- ração quanto para a perpetuação. em julho de 2015. A Suprema Corte italiana. Inglaterra.das quais se exigem maior atenção das questões de políticas públicas -. que se coloca em risco ao adentrar num banheiro designado para gênero oposto ao seu. bem como ao se apresentar com nome diverso do gênero com o qual se identifica. Nesse sentido. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. CONSIDERAÇÕES FINAIS A construção discursiva em torno do corpo pressupõe uma subordinação política e filosófica acerca de estruturas. As associa- ções culturais de mente-corpo elaboram um paradoxo. tampou- co direito ou lugares desviantes em uma realidade redutora na pos- sibilidade de ascensão a novos signos. um algo simbólico prevê antíte- ses e oposições para a delimitação já marcada. um 195 ) . decidiu que a cirurgia de redesignação sexual não é necessária para alteração do nome e gênero no registro civil. É possível se amparar ainda nos preceitos positivados nas legislações de identidade de gênero de Portugal.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. ora pois quem seria o ídolo de tal relação. Não há corpo desviante.

Considerá-lo não enquanto es- paço consolidado.) passo para o transexual não se tornar objeto. é um fato social que hoje é incluído em pauta de discussão. a multiciplicidade de possibilidades futuras depende unicamente das estruturas de ex- pectativas atuais (LUHMANN. O Supremo Tribunal Federal possui duas oportunidades para visualizar e decidir novos horizontes para a realidade transexual e superar as estruturas sociais de patologização e intolerância percebidas no presente. é harmônico à diferença. 1985). um desvio no experimentar o desejo. mas um não-caminho para desorganizar o dado. visa a comunicação em sociedade.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. ventilado pelos casos em reper- cussão geral. como banheiros. 2015). permitindo que todos os cidadãos prossigam por caminhos diferentes (BAUMAN. não é uma norma constitucional. eis que está ex- cluindo ativamente um grupo que não é devidamente respeitado socialmente. mas titular de direitos e garantias. O critério de universalidade. 196 ) . Essa discussão que não somente estigmatiza um corpo. porém como a emergência de uma nova conceitualidade desviante. O paradigma moderno de igualdade acaba por invisibilizar as singularidades de cada ser humano (BITTAR. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. A divisão de espaços públicos e privados por gênero. tal como nos possibilitou pensar Derrida (1990): uma aporia para o banheiro. M. pressupõe um novo discur- so. a exigência e as próprias es- truturas presentes. Partindo da percepção da positivação no Direito como decisão (no presente) acerca de como deve ser o futuro. não afasta a polivalência cul- tural. Essa prática advém do costume. mas reifica enquanto elemento abjeto. ou uma garantia de ninguém. um direito. 2000: 204). não mais pautado somente na tenuida presente entre privado e público para tal espaço.

Paula Sandrine (Orgs. GUARANHA. In: NARDI. Deconstruction and the Possibility of Justice. 2013. 2.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na ex- periência transexual. Direitos Fundamentais & Justiça. ed. ano V. 2003. M. 19 [1] : 95-126. Recognition and the Right to Difference: Critical The- ory. “Senhora. BENTO. 2000. Ann. BITTAR. Judith. Henrique C. LOMANDO. v. BITTAR. 2009. Em busca da Política.). BENTO. Michael. 5-6:919-1046. 1988. Berenice. dez./Mar. Tradução André Rios. BUTLER. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1996. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2006. 2008.) REFERÊNCIAS BAUMAN. FERNANDES. Eduardo C. FERGUSON. Eduardo C. Raquel da Silva.). nº 22. Knowledge and Reality: Explorations in Feminist Philoso- phy. re- 197 ) . n. MACHADO. 11. Race. BUTLER. Revisão Técnica Márcia Arán. Zygmunt. Diálogo. Justice and Recognition: On Axel Honneth and Critical Theo- ry. Rio de Janeiro: Zahar. essa Identidade não é sua!”: Reflexões sobre a transnomeação. n. SILVEIRA.. al] (Orgs. Desdiagnosticando o gênero. B. In: GARRY. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Cardozo Law Review. Can I Choose Who I Am? And How Would That Empower Me? Gender. Identities and the Self. Marilyn. Idília. Ano 7. Rio de Janeiro. Force de loi: le ‘fondement mystique de l’autorité’. New York: Routledge. Jan. Edições Graal. História da Sexualidade I: A vontade de saber. Porto Alegre: PUCRS. Physis Revista de Saúde Coletiva. Eduardo. São Paulo: Brasiliense. Diversity and the Human Rights Culture. B. O que é transexualidade. 2015. Women. Nythamar [et. Ann. p. DERRIDA. Tra- dução de Maria Theresa da Costa Albuquerque e J. A Guilhon Albuquerque. Berenice. Diversidade sexual. Revista Virtual Textos & Contextos. FOUCAULT. Rio de Janeiro: Garamond. J. 2006. Camila. Judith P. Tradução Marcus Penchel. O lugar da identidade e das diferenças nas relações sociais. 1990. Rio de Janeiro. PEARSALL. 98-123. 6. Consciência Cosmopolita e Direitos Humanos: Os Rumos e Limites das Lutas Identitárias no Mundo Contemporâneo. In: OLIVEIRA.

rev.. Ingo W. Ed. SARLET. Tradução de Gustavo Bayer. M. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro. São Paulo : Edito- ra Revista dos Tribunais. LUHMANN. Marília dos Santos. 9. A face oculta dos direitos fundamentais.ufsc. Acesso em 28/10/2015 as 20h.egov. Revisão Técnica Ricardo Doninelli Mendes.br/portal/sites/default/files/anexos/15184-15185-1- PB.). Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. ______. SILVA. Diversidade sexual. SEN. Sobre Travesti- lidades e Políticas Públicas: Como se Produzem os Sujeitos em Vulnerabilidade. Henrique Caetano. In: NARDI. Ingo W.pdf >. Niklas. Porto Alegre: Livraria do Advogado. atual. 1985. Curso de direito constitucional. Identidade e diferença : a perspectiva dos estu- dos culturais. 2009. MARINONI.). José Casalta. Daniel. Porto Alegre : Sulina. Disponível em: < http://www. Kathryn Woodward. relações de gênero e políticas públicas. Paula Sandrine (Orgs. 2013. 6 ed. São Paulo: Companhia das Letras. SILVEIRA. Luiz Guilherme. RJ: Vozes. 198 ) . ed. Henrique C [et. Relações de gênero e diversidade sexual: compreen- dendo o contexto sociopolítico contemporâneo. Stuart Hall. MITIDIERO. 2013. SARLET. al] (Orgs. TONELI. relações de gênero e políticas públicas. Porto Alegre : Sulina. 2008. 2010. AMARAL. NABAIS. MACHADO.) lações de gênero e políticas públicas. e atual. Sociologia do Direito II. In: ______. NARDI.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 2014. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Amartya. e ampl. Maria Juracy Filgueiras. Desenvolvimento como Liberdade. 2013. Petrópolis. Raquel da Silva. rev. Porto Alegre : Sulina. Diversidade sexual. Tradução Laura Teixeira Motta. Tomaz Tadeu da. 3.

UNIFRA. Bacharel em Direito pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA).NUDI da UFSM. Participa como integrante do Projeto de Pesquisa: Ativismo Digital e as novas mídias: desafios e opor- tunidades da cidadania global do Núcleo de Direito Informacional (NUDI) da Universidade Federal de Santa Maria .PPGD da Universidade Federal de Santa Maria . 2 Mestrando em Direito pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O PROGRAMA NACIONAL DE BANDA LARGA (PNBL) E O ACESSO À INTERNET NO BRASIL . Bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamen- to de Pessoal de Ensino Superior . também cadastrado no CNPq.com .ANET. Área de Concentração: Direitos Emergentes na Sociedade Global.CAPES. Bacharel em Direito pelo Centro Universitário Franciscano . Parecerista permanente da Revista de Estudos Jurídicos UNESP. Linha de Pesquisa: Direitos na Sociedade em Rede. Linha de Pesquisa: Direitos na Sociedade em Rede. atualmente membro do Centro de Pesquisas e Estudos de Direito & Internet (CEPEDI) pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).UFSM (2014/2015). Endereço Eletrônico: gilmonteirogoulart@gmail. intitulado Centro de Estudos e Pesquisas em Direito & Internet . Membro pesquisador do Grupo de Pesquisa cadastrado no CNPq.com. De 2014 a 2015 participou como pesquisador do grupo Núcleo de Direito Informacional .CEPEDI. Área de Concen- tração: Direitos Emergentes na Sociedade Global.UFSM.DESAFIOS E PERSPECTIVAS: UM OLHAR SOBRE OS AVANÇOS E RETROCESSOS DO PROGRAMA DE INCLUSÃO DIGITAL NO CENÁRIO CONTEMPORÂNEO Bruno Mello Correa de Barros1 Gil Monteiro Goulart2 1 Mestrando em Direito no Programa de Pós-Graduação . Endereço Eletrôni- co: brunom_barros@hotmail.CONPEDI e membro associado da Academia Nacional de Estudos Transnacionais . Membro do Conselho Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Direito .

ins- tituído pelo Governo Federal a partir do Decreto 7. Com esse propósito ganha força o ideário de campanhas que tem como escopo a égide do Direito ao acesso à Internet como um Direito Fundamental. Nesse ínterim. contemplar o estabelecimento de recur- sos e aparelhamento tecnológico para garantir o acesso irrestrito e de qualidade a estes meios passou a ser incumbência de Estados e governos. pretende-se visualizar o caráter de efetividade das 200 ) . através do Programa Nacional de Banda Larga – PNBL. Desse modo.) INTRODUÇÃO Nos últimos anos o desenvolvimento tecnológico propi- ciou uma profunda transformação na sociedade. inerente a todos os cidadãos e sendo dever do Estado à prerrogativa de efetivá-lo. a principal delas. o ensaio em tela tem como escopo fundamental promover a reflexão crítica sobre os pontos confluentes existentes entre o acesso à Internet e a inclusão digital no Brasil sob a pers- pectiva das políticas públicas de efetivação. de modo que na contemporaneidade o uso das tecnologias para os mais variados fins e utilidades se tornou massivo. os atores governamentais brasileiros passaram a articular-se junto às companhias de telefonia e telecomunicações para promover o estabelecimento de políticas públicas de univer- salização do acesso à Internet e inclusão digital. estipulando diretrizes de efetivação para as agendas de cumprimento do acesso à Internet e inclusão digital. Essa amplitude tecnológica favoreceu o apogeu comunicacional e informacional disseminando conteúdo de informação e promovendo o conhecimento em escala jamais antes vista. Assim. como. M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. por exem- plo. qual seja o Programa Nacional de Banda Larga. de âmbito nacional. Desta feita.175 de 2010. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ganhando exponencialidade entre os usuários e países. sobretudo.

201 ) . o artigo foi idealizado de modo que as pautas temáticas nele inseridas pudessem ser ancoradas a partir de três eixos principais. a partir de dados oficiais os avanços. tais métodos foram oportunos viabilizando a composição da pesquisa. baseando-se detidamente no Programa Nacional de Banda Larga. em se tratando especialmente do alcance do acesso à Internet e a inclusão digital em território nacional. M. quais sejam.) diretrizes do programa. expondo as efetividades e os pontos obstaculizadores do processo de universalização das prerrogativas do programa. Por fim. Neste passo. assim. O segundo ponto abarcado trata especificamente do Programa Nacional de Banda Larga como política pública. compondo-se um ra- ciocínio geral a partir da utilização das tecnologias informacionais e sua exponencialidade social na contemporaneidade. focalizou-se a uti- lização do método monográfico ou estudo de caso. visualizando. de modo a contemplar a ótica do acesso à Internet como um direito funda- mental e as políticas públicas de inclusão digital. optou-se pela uti- lização do método de abordagem dedutivo. o terceiro e último eixo dedica-se a uma análi- se dos avanços e retrocessos auferidos pelo Programa Nacional de Banda Larga. visando garantir de forma extensiva e universal o acesso à Internet e a inclusão digital e as estratégias para tanto. o primeiro deles tratando a respeito da consolidação da sociedade da informação no Brasil. No que toca ao método de procedimento. re- trocessos e inefetividades do programa. Para a implementação do presente ensaio.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. de modo a atingir os cidadãos individualmente em diversos âmbitos de sua vida. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. e no método estatístico.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. por sua vez. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. em que vivemos. das comunica- ções e do software que. 39) ressalta: A era da tecnologia. é resultante do conjunto de inovações e des- cobertas que a ciência já produziu ou vem produzindo. vez que a comunicação passou a ser realizada em larga escala.) 1 A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO NO BRASIL E O ACESSO À INTERNET COMO UM DIREITO FUNDAMENTAL À medida que a sociedade emerge em uma nova configuração baseada no conhecimento e na dispersão constante da informação torna-se essencial a universalização do acesso aos meios tecnoló- gicos com o fito de promover o alcance igualitário de todos os indivíduos a esse conteúdo. política e cultural. sobretudo. 2002). social. as redes de telecomunicações. conduziram a extraordinárias reduções no custo do processamento e da transmissão da informa- ção (JOSEPH NYE JR. As consequências das novas 202 ) . M. assim. auxiliando no processo de dispersão do conhecimento e na eliminação do distanciamento entre ricos e pobres. dando possi- bilidade de acesso às tecnologias informacionais e. o desenvolvimento econômico e social dos países e nações. ou seja. Dentro dessa perspectiva Veloso (2011. A organização em rede ganha primazia econômica. a atual revolução da informação baseia-se nos rápidos avanços tecnológicos do computador. possibilitan- do também que inúmeros serviços pudessem ser disponibilizados por meio digital e. consequente- mente.. Assim. p. Com a desenvoltura em se tratando de recursos tecnológicos tornou-se possível a eliminação de distâncias geográficas. os recursos e implementos tecnológicos demonstram-se como suportes essenciais no aparelhamento social.

uma esfera pública de diálogo e fluxos informacionais contínuos. no comércio. por exemplo. a informação. o núcleo condensa- do que pode ser transformado em conhecimento e ganha contor- nos econômicos relevantes hodiernamente. Com esse propósito. resultando. tomada de posição e opiniões. mutabilidade. 92). na indústria. Com efeito. 1997. por outro se pode afirmar que a humanidade passa a ter condições para uma melhor qualidade de vida. Se por um lado.) tecnologias são inúmeras. p. na cultura ou no lazer. na fábrica. a exploração e sua intensificação aumentam com o incremento tecnológico. 201). conforme entendimento de Sampaio e Leite (2011. uma nova esfera de comunicação passa ser realizada. No mesmo aspecto. na escola. a esfera pública pode ser descrita como uma rede adequada para a comunicação de conteúdos. pluralida- de e presença maciça da tecnologia nos meios de comunicação. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. novas formas de expressão e. Desta feita. e seu poder multiplicador tem se voltado a quase todos os campos da esfera humana. p. 34) “o atual contexto caracteriza-se por traços como a rapidez. É mais do que a mera transmissão de mensagens. nela os fluxos comunicacionais são filtrados e sintetizados. M. a ponto de se condensarem em opiniões públicas enfeixadas em termos especí- ficos (HABERMAS. nos negócios e na produção de riqueza e conhecimento”. na igreja. novas possibilidades. Em todas essas áreas. a 203 ) . verifica-se que a comunicação é um processo fun- damental e a base de toda a organização social. Nesta direção. consequentemente novos desafios e perspectivas. a tecnologia tem traduzido novas linguagens. p. e essa comunicação carrega consigo um aspecto importante. é uma interação humana entre indivíduos e grupos por meio do qual se formam identidades e de- finições (CREMADES. novos pensamentos. em uma média de vida muito maior quando comparada ao início do século XX. seja no lar. 2009.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. novos conhecimentos. onde os cidadãos e indivíduos a partir do acesso aos meios técnicos e científicos empoderam-se a partir da informação recebida e dos usos que passam a dar para as mesmas.

está o produto-chave da Era da Informa- ção (CASTELLS. 38). então. social e cultural advindos do novo paradigma tecnológico. A sociedade informacional3 caracterizou-se pelas transforma- ções nos âmbito político. Nesse contexto. a pesquisa militar e a cul- tura libertária” (CASTELLS. visto que esse ins- trumento é um dos mais revolucionários meios tecnológicos. considera: 3 A expressão “sociedade informacional” é utilizada a partir das contribuições de Castells. 34). a Internet não se apresenta como uma simples tecnologia da co- municação. as redes (de cabo ou fibra óptica) e o computador. Veloso (2011. 2003. especialmente as perpassadas pela Internet. p. 2003). o qual tem por base as Tecnologias da Informação e da Comunicação – TIC4 (BERNARDES. sendo que a conexão de dois ou mais computadores cria uma rede. o processamento e a transmissão da informação tornam-se as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas surgidas neste período histórico” (2008. Por conseguinte. inclusive. 204 ) . 49). p. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. entendida como um dos seus detonadores” (VELOSO. M. “a sociedade da informação tem na Internet um importante pilar. p. Nessa perspectiva. uma vez que permite a comunicação entre usuários de todo o mun- do pela interconexão de redes (BERNARDES. Sobre tal arquitetura. dentre os quais estão o telefone (fixo e móvel). 2013. a televisão. 64-65). 2013. 4 As Tecnologias da Informação e Comunicação podem ser definidas como um conjunto de recursos tecnológicos usados para produzir e disseminar informações.) partir das concepções de que a informação é a peça-chave e força motriz na roupagem social contemporânea que uma efetiva socie- dade da informação é edificada. p. e a principal rede existente atualmente é a Internet (SANCHES. 251). p. 2003 p. 43). podendo ser. mas como uma ferramenta fundamental direcionada à produção da informação. p. se- gundo o qual o termo informacional indica o atributo de uma forma específica de organização social em que a geração. o fax. econômico. 41). a Internet emerge da “encruzilhada insólita entre a Ciência.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 2011.

Nesse sentido. resultante do trabalho acumulado pelo con- junto da sociedade. entendê-las como a aplica- ção de seus diferentes ramos na geração. Compreender esse novo processo. ainda. que se passa a pensar a respeito de estruturas teóricas e normativas que possam comportar essa dinâmica de mudanças so- 205 ) . 20) os define da seguinte forma: Os direitos fundamentais são normas jurídicas. positivados no plano constitu- cional de determinado Estado Democrático de Direito. por sua importância axiológica. visto que estes vêm passando por profundas transforma- ções e evoluções no decorrer do tempo. intimamente ligadas. aplicadas em diversos espaços e contextos sociais. é compreender as transformações qualitativas e quantitativas nas dinâmicas sociais de sociedades informacionais estruturadas em rede. há necessidade de incluir novos direitos no rol de direitos funda- mentais. Desta feita. à ideia de dignidade da pessoa humana e limitação de poder. George Marmelstein (2011. cuja conceituação. de modo que não há uma definição linear destes direitos. dependendo da configuração e o ordenamento jurídico de cada país.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. É nesta ampla diversidade de inovações tecnológicas.) A tecnologia é um produto histórico. Constitui-se como indicador da riqueza socialmente produ- zida. em geral. a nova configuração po- tencializada pelo uso crescente e intensivo das TIC. quanto como um meio para sua reprodução. M. não se pode reverberar que as normas jurídicas são estanques e imutáveis. fundamentam e legitimam todo o ordenamento jurídico. processamento e difusão de informações (enfatizando a manipulação e organização de dados para posterior utilização). oscila em limitá-las às atividades desenvolvidas pelos recursos da informáti- ca (priorizando a automatização de tarefas) ou. necessitando que hajam adequações a serem dadas pelo Direito ao longo dos anos e com o passar da história. Assim. que. uma vez que os novos direitos transcendem o espaço temporal. que se encontram as tecnologias da informação e comunicação. p. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

p. Entretanto. especialmente a luta sobre o direito à Internet como um direito fundamental. M. 206 ) . ou seja. compreendendo os direitos civis e políticos. A doutrina jurídica costuma considerar a evolução dos direitos fundamentais a partir de três gerações5. que irá preocupar-se com a eficácia das normas constitucionais. à paz. Em vista da nova perspectiva desempenhada pelas tecnolo- gias informacionais e a força exponencial que a Internet possui no exercício democrático. à comunicação. 563). ao meio ambiente e à propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade (BONAVIDES. nesse sentido. que se sustenta as reivindicações acerca dos direitos decorrentes das novas tecnologias. Os direitos fundamentais de segunda geração di- zem respeito aos direitos de igualdade. Portanto.) ciais e técnicas. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. onde a burguesia reivindicava liberdades individuais. tendo surgido no contexto do Estado absolutista e em meio as revoluções liberais do século XVII e XVIII. 5 A primeira geração corresponde aos direitos ditos de liberdade. tratando especificamente do direito ao desenvolvimento. no limiar de evolução do constitucionalismo con- temporâneo tem-se o neoconstitucionalismo. 2011). 2007. social e cultural. as quais eram totalmente tolhidas pelos soberanos. que compreendem o rol de direitos ligados ao aspecto econômico. tal configura- ção foi concebida por Karel Vasak e intitulada “teoria das gerações dos direitos” (BONAVIDES. acessível e garan- tido a todos os cidadãos. àqueles que prescindem de um papel ativo do Estado para a sua promoção. de modo que a normatividade jurídica passou a adaptar-se a nova roupagem social e aos vértices de influência sobre a mesma. os direitos fundamentais de terceira geração são os caracterizados como direitos difusos e coletivos. Por fim. através do neoconstitucionalis- mo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. utilizando-se a interface de adequação do Estado. a doutrina jurídica clássica aponte para as três gerações de direitos a evolução dos direitos fundamentais não pa- rou. na consecução de direitos e também no alcance da cidadania se faz necessário reverberar a contingência de seu acesso como um direito fundamental.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a partir do seu Título II. Neste enfoque. identifica um conjunto amplo de transformações ocorridas no Estado e no direito constitucional. p.) Nesse diapasão. 234) o neoconstitucionalismo apresenta peculiares características. Dimoulis e Duarte (2008. cuja consolidação se deu ao longo das décadas finais do século XX. Da mesma forma. M. o pós-po- sitivismo. não existe ainda uma precisão conceitual para a terminologia neo- constitucionalismo. como marco histórico. 40): O neoconstitucionalismo ou novo direito constitucional. a formação do Estado constitucional de direito. há de ser ressaltado que a Carta da República de 1988. estabelece o rol de 207 ) . p. em meio às quais podem ser assinalados. artigo 5°. e como marco teórico. p. a expansão da jurisdição constitucional e o desenvolvimento de uma nova dogmática da interpretação constitucional. de acordo com o ideário de Barroso (2009. como marco filosófico. o conjunto de mudanças que incluem a força normativa da Constituição. 435) buscam encontrar um conceito para que o neoconstitucionalismo possa ser definido: Infelizmente. Na precisão afirmativa de Suzana Pozzolo (1998. com a centralidade dos direitos fundamentais e a reaproximação entre Direito e ética. Desse conjunto de fenômenos resultou um processo extenso e profundo de constitucio- nalização do Direito. Esse neologismo nasceu da necessidade de exprimir algumas qualificações que não poderiam ser devidamente explicadas pelas conceituações vigentes no constitucionalismo avançado ou paradigma argumentativo. na acepção aqui desen- volvida. como adoção de uma noção específica de Constituição juntamente com técnicas interpretativas denominadas ponderação ou balanceamen- to e também com a consignação de tarefas de integração à juris- prudência e de tarefas pragmáticas à teoria do Direito.

p. Assim. por exemplo. ensina Castells (2007. visto que nesta relação tecnologia-sociedade as TIC tiveram papel de destaque promovendo mudanças em muitas searas. 2009). visto que di- versos países passaram a realizar o implemento de novos direitos em seus ordenamentos jurídicos. Desta forma. cumpre explicitar que a dinâmica de composição de novos direitos fundamentais é uma tendência global. como. apresentando ainda os instrumentos cabíveis e legitimados para a promoção e satisfação de tais direitos. 54): 208 ) . Nessa pers- pectiva. consi- derando a capacidade de reformulação e dos novos vieses possi- bilitados pelas tecnologias e demais condicionantes de mudança que a própria Constituição Federal viabiliza a abertura do catálogo dos direitos fundamentais para a caracterização de novos direitos. sobre- tudo acerca da reestruturação do capitalismo global. como é possível prescrever a partir da seguinte passagem (BRA- SIL. Da mesma forma. 1988): Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decor- rentes do regime e dos princípios por ela adotados. que já de algum tempo declararam a In- ternet como um direito fundamental de todo o cidadão (TERRA. a sociedade informacional emerge de um pro- cesso de transformação capitalista e também de base informacio- nal. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. M.) Direitos Fundamentais inerentes e disponíveis a todos os cidadãos. países como a Finlândia e a Estônia.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.

através do Decreto 7. estimulando uma tecnologia genuinamente nacional. lei 7. aprovada pelo Congresso Nacio- nal. foi ativada pela Embratel. em outubro de 1984 foi instituído pelo Governo Federal a Política Nacional de Informática (PNI) que introduziu no Brasil a reserva de mercado da informáti- ca7.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. em 29 de outubro de 1984. oferecendo ligações e admitindo ampla variedade de equipamen- tos. no Brasil. M. a Rede Nacional de Comunicação de Dados por Comu- tação de Pacotes (RENPAC). Críticos da medida apontam para o fechamento da economia nacional com a penalização dos consumidores obrigados a adquirir equipamentos obsoletos de qualidade inferior e por preços exorbitantes (BRASIL.) O que é específico ao modo informacional de desenvolvimento a ação do conheci- mento sobre os próprios conhecimentos como principal fonte de produtividade. a moda popular. constituído pelo surgido de um novo paradigma tecnológico baseado na tecnologia da informação. Um círculo virtuoso de interação entre as fontes de conhecimentos tecnológicos e a aplicação da tecnologia para melhorar a geração de conhecimentos e o pro- cessamento da informação: é por isso que. 2016). com o fito de promover o acesso à Internet e a inclusão digital no país. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 7 A Reserva de Mercado da Informática. A partir de tal prospecção o país passou a avançar construindo uma dinâmica de virtualidade. Assim. muito embora. chamo esse novo modo de desenvolvimento de informacional. voltando. o Estado passou a atuar na composição do ideário da revolução informacional a partir da Embratel6. visando mudar o panorama em tela que o go- verno federal instituiu a partir de 2010 o Programa Nacional de Banda Larga – PNBL. protocolos e velocidades (EMBRATEL.232. No Brasil. o intuito era proteger a indústria nacional da concorrência das multinacionais do setor. foi introduzida através da Política Nacional de Informática (PNI). 209 ) . 6 Em 1984. que exercia o controle sobre a operação das telecomunicações interestaduais e internacionais do país.175. de modo a solidificar a sociedade da informação. Da mesma forma. os planos de acesso à Internet consti- tuam-se restritos apenas uma camada da população. 1984). Sobre tal pauta que se passa a descrever em tópico a seguir. Nesse ínterim.

Para tanto. os preceitos conceituais do que se entende por políticas públicas. se fazem necessários instrumentos efetivos de prestação. como. Nessa perspectiva. aponte-se alguns pressupostos basilares. quais sejam as políticas públicas. 210 ) . o Estado passa a adotar condutas no sentido de alcançar a seus cidadãos os direitos constitucionalmente a todos garantidos. meio ambiente. de modo a promover o bem estar da sociedade. 2008). como segurança. edu- cação. voltadas para a solução (ou não) de problemas da sociedade” (SEBRAE.) 2 DECRETO 7. que podem ser definidas como “um conjunto de ações e decisões do governo. Daí se justifica o papel proativo do Estado no sentido de promover o acesso à Internet e. saúde. para compreender a emergência desta nova realidade é indispensável que. consequen- temente. É mister referir que com o aprofundamento da democracia os governos tendem a assegurar mais direitos a todos os cidadãos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. nesse sentido.175/2010 E O PROGRAMA NACIONAL DE BANDA LARGA COMO POLÍTICA PÚBLICA DE ACESSO À INTERNET E INCLUSÃO DIGITAL De acordo com os novos direcionamentos sociais perpetrados pelas dinâmicas propiciadas pelas TIC se prescinde da necessidade de alcançar a todos os cidadãos o acesso de qualidade e igualitário aos meios técnicos e científicos. de antemão. tal configuração se perfaz através de políticas públicas. assegurar a inclusão digital. algumas medidas se fazem necessárias e pertinentes para que esse ideário se perfaça. Assim. M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. sobretudo em matérias. como o acesso às Tecnologias da Informação e Comunicação. aumentando sua responsabilidade na consecução de tais prerrogativas.

PNBL8. 1o  Fica instituído o Programa Nacional de Banda Larga -PNBL com o objetivo de fomentar e difundir o uso e o fornecimento de bens e serviços de tecnologias de informação e comunicação. de modo a: I - massificar o acesso a serviços de conexão à Internet em banda larga. 2008). V - promover a geração de emprego e renda. II - acelerar o desenvolvimento econômico e social.175. VI - ampliar os serviços de Governo Eletrônico e facilitar aos cidadão o uso dos serviços do Estado. 2014). M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 8 O Programa Nacional de Banda Larga (PNBL). estaduais ou municipais) traçam para alcançar o bem- -estar da sociedade e o interesse público (SEBRAE. 2010). por meio do Decreto 7. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.175/2010. a se considerar: Art. metas e planos que os governos (nacionais. É de assaz relevância destacar. III - promover a inclusão digital. é possível prescrever que as políticas pú- blicas são a totalidade de ações. o Programa Nacional de Banda Larga .) Nesta trajetória. Aspecto fulcral se considera a necessidade de garantir a uma miríade a sa- tisfação das prestações positivas do Estado. dessa forma. IV - reduzir as desigualdades social e regional. foi insti- tuído pelo Governo Federal no ano de 2010. A proposta do PNBL é massificar a oferta de banda larga no país e promover o crescimen- to da capacidade da infraestrutura de telecomunicações (SENADO. é uma política gerida pelo Ministério das Comunicações que tem como objetivo fomentar e difundir o uso e o fornecimento de bens e serviços de tecnologias de informação e comunica- ção. instituído por meio do Decreto 7. as conjecturas e compromissos que formam os principais pontos que perfazem o PNBL (BRASIL. 211 ) . como uma política pública que visa instituir o acesso à Internet e promover a inclusão digital.

bem como a imple- mentação da banda larga popular e a Internet com velocidade de 1 Mbps ao valor de R$ 35 mensais (MINISTÉRIO DAS COMUNI- CAÇÕES. a expansão da rede pública de fibra óptica (administrada pela Telebrás).  Nesse concernente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a desoneração de smartphones. No mesmo enfoque. no que diz respeito aos meios tecnoinformacionais não é diferente. 2014). tendo em vista que a preocupação do valor-mercado da informa- 212 ) . M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. vez que a in- formação e conhecimento são ativos econômicos e as tecnologias da informação e comunicação instrumentos de poder.) VII - promover a capacitação da população para o uso das tecnologias de infor- mação. 2010). O programa foi considerado pelo Ministério das Comunicações como essencial para o desenvolvimento e competitividade do país. o Brasil segue a li- nha de estratégia de fomentar acordos e parcerias público-privadas para que determinados nichos de prerrogativas sejam efetivadas. é relevante destacar que o compromisso firmado inicialmente pelo Estado no que toca ao PNBL e o acesso à Internet era de chegar a meta de 40 milhões de domicílios conec- tados à rede mundial de computadores até o ano de 2014. tendo ainda como compromissos a desoneração da rede e terminais de acesso. prestação de serviço de acesso em regime de competição (SENADO FEDERAL. Assim como em outros países do mundo. e VIII - aumentar a autonomia tecnológica e a competitividade brasileiras. o Estado brasileiro a partir do PNBL as- sumiu o compromisso de promover a égide de colaboração entre o ente público e particular (setores público e privado) para os inves- timentos em infraestrutura de comunicação. cabendo a Agência Nacional de Telecomunicações – ANATEL a re- gulação desse tipo de serviço (BRASIL. 2012).

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ção é exponencial e também tendo a consciência de que “as redes
de comunicação em tempo real estão configurando o modo de or-
ganização do planeta” (MATTELART, 1998, p. 7).
Nesse sentido, o programa mostra valor visto que pretende
potencializar o uso dos meios informacionais possibilitados pela
Internet como mecanismos que fomentem condutas proativas na
promoção de direitos e garantias, bem como na superação de de-
safios e submissões, históricas na sociedade. Dentro dessa égide,
Veloso (2011, p. 46) relata:

Percebe-se, portanto, que as inovações tecnológicas caracterizam-se como espaço
de disputa social e possuem conexões com as finalidades e projetos dos segmentos
hegemônicos que as elaboram e constroem. Neste sentido, a tecnologia expressa
o desenvolvimento das forças produtivas, e é marcada pelo caráter contraditório
constituinte do padrão específico de relações sociais capitalistas. Se ela vem sendo
usada pelo capital para potencializar a produtividade e o lucro, isso não significa
que não possam ser engendradas possibilidades históricas de apropriação deste
recurso numa perspectiva alternativa, voltada, por exemplo, à defesa dos direitos
sociais e ao fortalecimento de projetos sintonizados com a superação dos valores
capitalistas.

Assim, no tocante à implementação da estratégia de inclusão
digital o governo brasileiro através do Decreto n° 6.948, de 20099,
estabeleceu a criação do Comitê Gestor do Programa de Inclusão
Digital, cabendo a tal organização definir as diretrizes gerais e os
investimentos financeiros concernentes ao Programa de Inclusão
Digital e outros pontos confluentes. No mesmo ínterim, visan-
do reduzir custos e facilitar o acesso a tais meios tecnológicos foi

9
Decreto n° 6.948, de 2009. Institui o Comitê Gestor do Programa de Inclusão Digital –
CGPID, e dá outras providências (BRASIL, 2009).

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instituído o Regime Especial de Tributação do Programa Nacional
de Banda Larga10, que tem como pressuposto fulcral estimular os
investimentos no setor de telecomunicações no país por meio da
desoneração fiscal.
Desta feita, o Brasil a partir do Programa Nacional de Banda
Larga, formalizado em 2010 e dos demais pactos a ele inerentes,
assumiu uma tarefa árdua, especialmente na tentativa de ligar tec-
nologicamente o país, garantindo amplo acesso à rede de compu-
tadores e também o compromisso de inclusão digital, primordial-
mente de regiões consideradas afastadas em demasia dos centros
de poder e decisão e também áreas rurais. Nesse ponto, cumpre
observar o que efetivamente foi implementado pelo Estado e as
tentativas frustradas de consecução das diretrizes do programa. É
sobre tal tema que se passa a descrever.

3 O PROGRAMA NACIONAL DE BANDA LARGA:U-
MA ANÁLISE E O PANORAMA DE SEUS AVANÇOS E
RETROCESSOS

As possibilidades e impactos que o programa da Banda Larga
no Brasil exige-se uma observação quanto à viabilidade desde sua
gênese citando o Decreto 7.175/10 relacionando-a com a meta
declarada do momento inicial na promoção do programa ao seu
10
A iniciativa prevê a desoneração de impostos e contribuições federais sobre a construção
de redes de telecomunicações de internet banda larga. São desonerados: Imposto sobre Pro-
dutos Industrializados (IPI), Programa de Integração Social (PIS), Programa de Formação do
Patrimônio do Servidor Público (PASEP) e Contribuição para o Financiamento da Seguridade
Social (Cofins). O objetivo é promover a modernização e a expansão das redes de teleco-
municações e, consequentemente, a massificação do acesso à banda larga. Para o cidadão, os
benefícios são: a melhoria na qualidade dos serviços, o aumento da velocidade das conexões e
a redução nos preços. O programa é de responsabilidade da Secretaria de Telecomunicações.

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deslinde no ano de 2014.
O programa que possuía a meta de universalização do acesso
à banda larga no país assentava-se em objetivos tais como: maior
cobertura, melhor preço e qualidade de serviços. Para isso, a pre-
tensão de alcançar uma cobertura capaz de atingir a extensão má-
xima no território brasileiro implicava uma inovação na infraes-
trutura que incluiria áreas rurais e mais distantes como medida
também de diminuir distâncias ou fronteiras.
De outro lado, as telecomunicações demandam de investi-
mento para tal estruturação e, no caso da implementação do pro-
jeto não seria diferente tendo sido apontando pelo programa a
necessidade de incentivos fiscais por parte do Estado para assim
proporcionar subsídios significativos, conforme difundido dentre
os objetivos do programa pelo Ministério das Comunicações nas
exposições do PNBL. Neste fulcro, o PNBL teve como égide pro-
mover a estruturação de uma potencial ferramenta que é a Inter-
net na sociedade hodierna, propiciando a inclusão digital e pro-
movendo o acesso a inúmeros serviços e possibilidade através do
espectro virtual, especialmente reforçando ideais democráticos.
Corroborando com tal posicionamento, Moraes (2001, p.
140) aponta:

O potencial da Internet tem se mostrado significativo. No âmbito das lutas so-
ciais, com seu ambiente tendencialmente interativo, cooperativo e descentrali-
zado, pode ser útil para o fortalecimento da sociedade civil, difundindo valores e
fomentando o acesso a direitos. Tal recurso pode facilitar a intercomunicação de
indivíduos e agrupamentos heterogêneos permitindo, em tese, a defesa de identi-
dades culturais, promoção de valores éticos e a democratização da esfera pública.

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Desse modo, o papel da internet na sociedade resta evidente
quando o próprio agente Estatal procura promover uma política
pública que tenha por foco central a universalização do acesso à
rede por intermédio da ampliação da banda larga no país. Nesse
contexto Castells (2003) aponta sobre o fortalecimento das rela-
ções sociais tanto a distância como as relações locais, diante da mo-
bilização provocada pela conexão em rede. Assim, trata-se de uma
abordagem que toma a Internet como possível potencializador de
práticas democráticas, propiciando, dentre outras possibilidades
a organização de grupos de conversação, plebiscitos indicativos e
consultas sobre distintos temas, disseminando informações na so-
ciedade, realçando-a e fortalecendo-a como espaço político (MO-
RAES, 2001, p. 140).
Nesse contexto a efetivação e a busca pelos resultados sugeri-
dos no programa enfrentariam desafios múltiplos, pois além de re-
querer uma melhor estrutura nas telecomunicações, com foco na
ampliação da banda larga de internet no Brasil se fazia necessária
uma intervenção no mercado como a redução da tarifa do serviço
que se verificação encargo acentuado de impostos. Assim, os es-
forços citados dariam suporte para a etapa de melhoria no serviço
contemplando os objetivos descritos no projeto.
Dito isto, o cenário seria de promoção social em todo terri-
torial nacional com a implementação e efetivação da política pú-
blica, que partia com a meta no montante de 40 milhões de domi-
cílios com acesso à banda larga, no valor de R$ 15,00 no pacote
de 1Mbps em todos municípios, e ou 35 milhões de domicílios se
o pacote fosse parametrizado no valor de R$ 35,00 (Ministério de
Telecomunicações, 2012). O valor sugerido para o pacote deveria
ser instituído nos municípios brasileiros como uma forma de in-

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centivar o consumo e aumentar a possibilidade de acesso à internet
de banda larga pela população.
Todavia destaca-se que a universalização do acesso à banda
larga vai para além de uma política pública de viés social, pois traz
reflexos a economia e desenvolvimento do conhecimento para
sociedade em face de um maior fluxo informacional. Porém os
números que foram percebidos no ano de 2014 foram bem menos
otimistas que as metas dispostas pelo PNBL, a implementação do
programa não se deu na forma projetada. O alcance foi menor
conforme os dados coletados pelo Ministério das Telecomunica-
ções, pelo qual observa-se na figura:

Figura 1 -Gráfico de informações sobre o desempenho do PNBL

Fonte: Elaborado a partir dos dados coletados e observados pelos autores

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Assim a questão do acesso à banda larga não foi tratada de
maneira eficaz pelo ente estatal, que não alcançou os números con-
tidos na propositura do programa. O problema no processo de
avanço de programas como o PNBL é citado por Savazoni (2013,
p.76):

(...) O governo insiste em desenvolver uma política de conectividade que des-
considera o fato de que tubo e conexões de internet só fazerem sentido a partir
da informação circulante. Ou seja, para prover condições de tráfego aos conteú-
dos culturais, educacionais e científicos. Num cenário de tantas indefinições, há
clareza de que as políticas públicas de cultura para o momento digital devem ser
essencialmente transversais e interconectadas, resultado de um esforço perma-
nente de formulação e diálogo construtivo entre diferentes forças sociais (gover-
no, sociedade civil e mercado).

A construção referida pelo autor traz a reflexão de que os di-
versos atores sociais devem dialogar, e ainda mais diante de tantos
fatores que possam dificultar a efetivação de uma política pública
com temática tão relevante e pontual para a sociedade. A ineficácia
do Estado na prática aberta dessa comunicação entre atores pode-
-se considerar o ponto crucial para o fracasso do programa, onde
esforços isolados não satisfizeram as metas enunciadas.
A esse exemplo o descumprimento do repasse de verbas que
orçavam o investimento para o desenvolvimento e a regulação dos
preços do serviço no mercado também ensejaram fatores prepon-
derantes para a falta de êxito nos índices de desempenho enfatizam
os resultados do ano de 2014.
O valor referido quanto ao pacote de banda larga que figu-
rava como facilitador ficou na utopia dificultando o conhecimento
da população sobre o programa. O avanço do PNBL não exaure

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apenas o quesito tecnológico com o aumento cobertura da banda
larga no território nacional, mas traduziria um momento evoluti-
vo de inclusão cultural e informacional para a sociedade brasileira.

CONCLUSÃO

Em sede de apontamentos conclusivos o ensaio prestou-se a
promover a reflexão acerca do cenário contemporâneo marcado
pela revolução informacional provocada pela indução tecnológica
e as Tecnologias da Informação e Comunicação como instrumentos
de difusão informativa e de conteúdos imperiosos ao desenvolvi-
mento de diversos campos da sociedade, tais como as searas da
política, cultura, economia e aspectos sociais.
Nesse propósito, vislumbrou-se a gênese dos mecanismos e
a expertise da sociedade tecnológica, do crescimento do acesso à
Internet e do direito à comunicação. Desta feita, ampliando-se o
leque do arquétipo dos mecanismos de informação no Brasil des-
pontam-se as TIC como poderosos instrumentos de formação da
consciência da população acerca de acontecimentos públicos e no-
tórios, de prestação de serviços através dos portais da administra-
ção pública e de toda a gama de potencialidades que os meios do
ciberespaço podem efetivar.
Assim, no primeiro eixo delineou-se o caminho da sociedade
da informação e exponencialmente sobre o acesso à internet como
um direito fundamental, potencializado pela abertura propiciada
pelo neoconstitucionalismo e as novas formas de incorporação de
normas constitucionais. Em um segundo momento tratou-se deti-
damente do Decreto 7.175/2010 que instituiu o Programa Nacio-

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nal de Banda Larga no Brasil como uma verdadeira e efetiva políti-
ca pública de acesso à internet no Brasil e também instrumento de
inclusão digital, promovendo a visualização de sua implementação
e estratégias de desenvolvimento.
Por fim, em sede de último ponto tratado no artigo, abarcou-
-se detidamente a análise dos avanços e retrocessos visualizados a
partir do Programa Nacional de Banda Larga, o qual avançou em
determinados aspectos, contudo em sua amplitude e gênese não
foi tratado de maneira eficaz pelo ente estatal, que não alcançou
os números contidos na propositura do programa. A ineficácia do
Estado na prática aberta da comunicação entre atores governa-
mentais e entidades específicas incumbidas de viabilizar as estraté-
gias de desenvolvimento da tecnologia pode-se considerar o ponto
crucial para o fracasso do programa, onde esforços isolados não
satisfizeram as metas enunciadas.

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C.Mestrado e Doutorado da UNISC e certificados pelo CNPq.Mestrado e Douto- rado da Universidade de Santa Cruz do Sul.br 3 Mestrando em Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito . gênero e Justiça Restaurativa.. 108-125. com bolsa Prosup/CAPES. na UNISC. coordenado pelo Pós-Dr. Advogado OAB/RS nº. E-mail: rodrigocristianodiehl@live. criança e adolescente. Revista Jurídica (FIC). Em busca do vale encantado na era da globalização: o papel das políticas públicas na consolidação da cidadania. 2. área de concentração: Políticas Públicas de Inclusão Social e Especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC. políticas públicas e sistemas regionais de proteção dos direitos humanos fundamentais. 2014. Policial Militar.com . Referência da publicação inicial: DIEHL. COSTA.UNISC. Clovis Gorczevski. com bolsa Probic/FAPERGS (2015). Estuda temáticas voltadas ao acesso à justiça. Marli Marlene Moraes da Costa e Direitos Hu- manos. Marli Marlene Moraes da Costa. Estuda temáticas voltadas a Segurança Pública. M.RS e Campus Sodradinho . coordenado pela Pós-Dra. Especializando em Direito Constitucional e Admi- nistrativo pela Escola Paulista de Direito .RS).EDP. 102. Integrante do Grupo Direito. Cidadania e Políticas Públicas coordenado pela Professora Pós-Dra. E-mail: rosaneporto@unisc. R. OS NOVOS DESAFIOS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE INCLUSÃO SOCIAL NA PROMOÇÃO DA CIDADANIA: O VALE ENCANTADO DA GLOBALIZAÇÃO1 Rosane Teresinha Carvalho Porto2 Rodrigo Cristiano Diehl3 1 Artigo baseado no estudo anteriormente publicado pelo autor. Cidadania & Políticas Públicas (Campus Santa Cruz do Sul . criminologia. métodos consensuais de pacifi- cação de conflitos. na linha de pesquisa em Políticas Públicas de Inclusão Social. Graduado em Direito pela Universidade de Santa Cruz do Sul . v. controle de constitucionalidade.775. p. 2 Doutora e Mestre em Direito. Integrante dos grupos de pesquisa: Direito. M. M. ambos do Programa de Pós-Graduação em Direito . Professora de Direito da Infância e da Juventude.

a partir de um caráter de perda de identidade de pessoa à custa de um grupo? Nessa situação. Nesse cenário lúdico. na possibilidade de escrever uma nova história. ou como ensina Milton Santos. uma análise acerca dos direitos fundamentais no cenário brasileiro contemporâneo e um estudo sobre a efetivação desses direitos fun- damentais e de cidadania um mundo globalizado. será que a globalização não está caracterizada como um processo de involução da humanidade. convergente na construção de um universalismo que contemple à todos iguais possibilidades e condições. onde essa globa- 224 ) . M. o presente artigo tem por finalidade realizar uma análise entre a busca pelo vale encantado dos dinos- sauros e a busca que a sociedade contemporânea necessita realizar visando uma globalização voltada ao ser humano.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. devido a escassez de vegetação para o consumo e os terremotos constantes. respectivamente. cheia de desafios e cercada por inimigos. resultante de todas as mazelas cultivadas por ações hegemônicas. realizar-se-á. Um pensamento a partir de uma nova racionalidade. promissora e verde. em uma jornada perigosa. uma terra calma. são obrigados a migrar para o oeste em busca de uma nova moradia. em formato de desenho animado.) CONSIDERAÇÕES INICIAIS Em um contexto de globalização sinônima de perversidade. sendo fundada na produção de um novo discurso. onde no primeiro e segundo. Nessa empreitada. baseada na espe- rança de uma cidadania como elemento de uma realidade inclusiva. o estudo se subdivide em três momen- tos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. isto é. Em Bus- ca do Vale Encantado é um filme infanto-juvenil. uma globalização menos excludente. produzido em 1988 que retrata a trajetória de dinossauros que. de uma nova metanarrativa.

225 ) . No que concerne às técnicas. é que se busca- rá a plena consolidação dos direitos fundamentais. rela- tar-se-á a importância da participação de toda a comunidade na tomada de decisões.) lização é vista por alguns como algo bom e por outros como algo ruim. como por exemplo. ao passo que consiste na adoção tanto do procedimento racional quanto do procedimento experimental. este estudo se mostra de extrema importância. tendo por base a concretização da cidadania em tempos de globalização. No terceiro capítulo. a globalização como perversidade. tanto no sentido conceitual quanto nas diversas frentes que podem atuar. o aprofundamento do estudo será realizado com base em pesquisa bibliográfica. a partir do afloramento da igual- dade de oportunidades de todos os indivíduos e do papel que cada um exerce dentro de um contexto de comunidade. Para tal construção. uma vez que. Portanto. ao passo que analisa a busca pela efetivação dos direitos e garantias fundamentais. e por uma outra globalização. serão essas decisões que servirão de rumo para o desenvolvimento social. utilizar-se-á o método hipotético dedu- tivo como metodologia de abordagem. livro. necessita ser entendida a partir de três pontos: a globalização como fábula. pois tanto divide quanto une. E que a partir desses conceitos. baseada em dados secundários. mas para todos é um processo irreversível e que ao mesmo tempo é um paradoxo. publicações avulsas. revistas e períodos qualificados dentro da temática proposta. artigos científi- cos. Na sequência. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. produzir-se-á uma análise baseada nas políticas públicas como propulsoras de uma cidadania emancipa- dora e garantidora de direitos fundamentais. E que. Iniciando com a clas- sificação dessas ações governamentais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.

os direitos fundamentais são frequentemente qualificados de originários. antes que este produza a lesão. 226 ) .não somente estatal. A primeira acredita na concepção material. independentemente de sua origem. antes de qual- quer coisa. raça. conforme a corrente não positivista. uma vez que encontram os seus fundamentos nas aspirações mo- rais ou nas necessidades humanas. vida. de acordo com o sistema instrumental. pré-estatais. na tutela de prevenção contra a ocorrência do próprio ato ilícito com possibilidade de produzir danos. religião e cultura.a positivista e a não positivista. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. assim como os de liberdade. de todos indivíduos. portanto. onde somente são direitos fundamentais ou básicos. indispensáveis a qualquer indivíduo. isto é. Porém. aqueles que estão reconhecidos e tutelas por um ordenamento ju- rídico. os direitos fundamen- tais são inerentes a condição humana e. a mera positivação não tem importância. e ainda.) 1OS DIREITOS FUNDAMENTAIS NO CENÁRIO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO A proteção dos direitos fundamentais implica. no pensamento jusnatura- lista. os direitos fundamen- tais podem ser vistos a partir de duas perspectivas . ou ainda. M. as garantias processuais. que incluem o efetivo acesso à justiça . isto é na tutela ini- bitória. igualdade. etnia. de acordo com Sampaio (2004) estão englobados os direitos de todos os seres humanos. Deste modo. cor. em alguns casos. Essa visão tem suas bases no jusnaturalismo e na teologia (SAMPAIO. na tutela de remoção do ilícito. isto é. Desta forma. como um meio de pacificar os conflitos que surgem. inatos e inalienáveis. sexo. são funda- mentais pelo fato de serem vitais para a existência da pessoa com dignidade. universais. saúde e educação. 2004) Ainda.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.

) Em contrapartida. constitucio- nalmente apropriada. Neste mesmo sentido.. coisas distintas como foros ou privilégios. p. 41). também existirão coisas parecidas. 1403) No mesmo sentido. p. afirma que existe outras coisas fora do mundo jurídico positivado. M. como os direitos humanos e a digni- dade da pessoa humana e que. uma vez que carecem do ente estatal para ocorrer a sua positivação. entretanto. os direitos fundamentais “são-no. haverá. 2011. somente existindo onde há Constituição ou Carta Política. o constituinte originá- rio deixou transparecer de forma clara e induvidosa a intenção de outorgar aos direitos fundamentais a qualidade de normas que embasem toda a ordem constitucional e infraconstitucional. na medida em que encontram reconhecimento nas constitui- ções e deste reconhecimento se derivem consequências jurídicas” (VILLALON. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. enfim. Dentro do direito positivo brasileiro. se mostra apropriada a conceituação que tem como ponto de partida a consagração dos direitos funda- 227 ) . dos direitos e garantias fundamentais e as- sim. construída com base numa constituição po- sitiva. 2003. p. desta forma. e criticando a tentativa de se adotar uma teoria dos direitos fundamentais. afasta-se a ideia de que os direitos funda- mentais são anteriores ao Estado e inerentes ao ser humano.. 75). os direitos subjetivos pú- blicos dos alemães. Sendo então classificados como “núcleo essencial da nossa Constituição formal e material” (SARLET. como as liberdades públicas francesas.] doutrina constitucional dos direitos fundamentais. Canotilho afirma que unicamen- te auxiliam na busca de uma compreensão material.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. e não apenas uma teoria de direitos fundamentais de caráter exclusivamente teorético” (CANOTILHO. enquanto tais. afirma ser necessária uma “[. Desta maneira. 1989.

recebem dupla caracterização onde. uma vez que. os direitos fundamentais sofrem variações conforme a ideologia. e dos parti- 228 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 2008) Portanto. os direitos fundamentais. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.) mentais pelo ordenamento constitucional nacional. podem ser compreendidos como direitos e liberdades tutelados por meios de “instrumentos processuais estabelecidos pela Cons- tituição. pelo critério exclusivamente material. consistem em núcleos centrais de liberdades assegurados pela Constituição da República “recebendo uma proteção mais forte que a concedida a outros direitos não fundamentais. 102). ou esses direitos são imutáveis ou estabelecem um procedimento mais complexo. de um lado. reconhecidos em normas não constitucionais” (PAROSKI. p. compreendi- dos como direitos positivados pelo ordenamento constitucional. o que justifica a própria existência da Constituição.incluindo as garantias fundamentais. esses mesmos direitos e garantias representam valores que são utilizados de inspiração na organização da comunidade po- lítica. M. alguns direitos apenas podem ser modificados me- diante emenda à Constituição é que. dificultando sua modificação. Assim compreendida a questão da caracterização dos direitos fundamentais. os direitos fundamentais . Nesse sentido. 2008. E por outro lado. 102). a exemplo das ações constitucionais típicas. tornando certas disposições imutáveis pelo legislador” (PAROSKI.eficácia vertical. 2008. tem por finalidade primária o resguarda da dignidade da pessoa humana contra o abuso do Estado . De tal modo. e pela insti- tuição de cláusulas pétreas. a modalidade do Estado e a espécie de valores e prin- cípios que a Constituição abriga. p. pode-se concluir que cada Estado tem seus direitos fundamentais específicos (PAROSKI. Consequentemente.

ratificadas pelo Estado. Gorczevski (2009. Em outros termos. O que. já que. p. 134). a própria eficácia dos direitos e garantias funda- mentais. portanto. sustentando-se. são os direitos que. terminarem positivados”. p. Argumenta-se que o fato desses direitos não estarem no momento da positivação. Assim sendo. p. Portanto. de igual liberda- de) – tem encontrado importe fundamento no princípio da dignidade da pessoa humana. estão positivados na ordem jurídica. mas adquirem força e podem ser exigidos se estiverem consagrados em um ordenamento jurídi- co” (PAROSKI. 2008.. 104) envolve a defesa e proteção contra a “miséria. Afirmando esta ideia. 107).) culares . para então. “sua fonte de inspiração até pode ser os direitos humanos.eficácia horizontal.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. em termos de uma eficácia vinculante da dignidade. os direitos fundamentais. mesmo derivando de aspirações humanas ou contem- plados a partir de uma necessidade do indivíduo. tornaram-se bandeiras de reivindicações políticas. e. à evidencia. sendo – na esfera deste conteúdo. nas relações entre os particulares. irrenun- ciáveis. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. [. não importa quem é a bota que desferiu o chute no rosto do ofendido. não sig- 229 ) . conforme Paroski (2008. por excelência.. de acordo com Sarlet (2011.] ainda que em condição de tendencial igualdade (e. a violência e todo e qualquer tipo de ato que se destine ao ferimento daquele núcleo de direitos reconhecidos como essenciais à pessoa humana” seja por constituições democráticas ou por declarações internacionais de direitos. que – pelo menos no que diz com seu conteúdo em dignidade – os direitos fundamentais vinculam também diretamente os particulares nas relações entre si. M. p. 77) disciplina que “todos começaram com uma aclama- ção por justiça. a exploração. neste contexto.

não haverá a possibilidade de uma prática que os desprezam. 129). socais e transnacionais. pode-se observar uma mudança na postura e visão do Estado. Assim. os direitos fundamentais en- camparam em seu raio de aplicação a imperatividade de prestações estatais positivas. A partir disto. “além de garantias institucionais. esses direitos funda- mentais. M. a fixação de um universo de valores a ser tutelado e o sentido objetivo das dispo- sições constitucionais” (PAROSKI. para o ser capaz de garantir o equilíbrio econômico-social. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. um dos principais desafios dos direitos fundamentais no atual século é a sua consolidação em um contexto marcado pela globalização perversa. mais importante que o respeito aos princípios e garantias constitucio- nais” (PAROSKI. que se apresentam inclusive como ameaças cada vez mais graves na busca pela efetivação dos direi- tos individuais. Contudo. deste modo. 2008 p. em aspectos que podem ser considerados como funda- mentais para a existência da humanidade. isto é.) nifica não serem direitos. quando passa da figura representante do po- der. estão somente cumprindo o seu curso histórico-natural. 2008. o rol de problemas oriundos da sociedade pós-indus- trial e globalizada é infindável. em dado momento. Estes novos en- saios jurídicos dos direitos fundamentais possibilitam uma intensa regulamentação das relações entre os próprios sujeitos e entre eles e o Estado. 136). 230 ) . a pretexto de “salvaguardar outros bens ou interesses que sob certas circunstâncias parecem. p. acolhidos pelo texto constitucional. Logo. dos governos e também dos particulares.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. funcionam inclusive como diretrizes que limitam a ação do legislador. cujos atos deverão estar em harmonia com eles.

) 2 A CIDADANIA EM UM MUNDO GLOBALIZADO: ASPECTOS RELEVANTES A palavra cidadania automaticamente remete a ideia de cida- de. MARTIN. deixando de reco- nhecer o processo histórico envolvido. 266) a cidadania consiste em “el vínculo de pertenencia a un Estado de derecho por parte de quienes son sus nacionales. há uma tendência a simplificar o termo. ciudadano será la persona física titular de esta situación jurídica”. ou o que deveria estar. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. são definições tautológicas na medida em que não definem o objeto e induzem ao erro de se pensar em uma cidadania estática e um simples discorrer sobre direitos. é se olvidar do que está. nas palavras de Perez Luño (in Campuzado. sendo classificada a cidadania e o pertencimento a uma comunidade como um proces- so histórico de constante evolução. 2007. de núcleo urbano e de comunidade politicamente organizada. situación que se desglosa en un conjunto de derechos y deberes. intrínseco ao termo – a noção de deveres. onde se fala em direitos do cidadão e muitas vezes se desconsidera o contexto social ao qual este indivíduo está inserido. 2011). Nesse sentido. lugar e condições socioeconômicas. as conceituações de cidadania que normal- mente são apresentadas. uma vez que a qualidade de cidadão adquire características próprias que se distinguem de acordo com o tempo. Neste quadro. Dizer que o cidadão é aquele possuidor de direitos. Ponto de vista este baseado no que trouxe sobre o conceito de cidadania uma condição da pessoa que pertence a uma sociedade. mas principalmente a de partici- pação nos rumos presentes e futuros da comunidade (GORCZ- VESKI. 231 ) . assim. ainda que não esteja errado. M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. p.

mas sim uma construção através de processos históricos e por isso importa observar as diferentes concepções políticas como influência dessa construção (GORCZVESKI.) e está sociedade classificada como livre. classifi- cado quando o indivíduo cultiva seus valores identificando-se com a nação. o monárquico. MARTIN. para se tratar de cidadania. onde – fundado no modelo hierárquico. sendo uma condição voluntária e que se desdobra em um conjunto de direitos e deveres para as pessoas que pertencem a um determinado Estado. 2011). 2011). modelo em que os súditos devem lealdade e obediência ao soberano. 2011). o tirânico. por isso mesmo. Em conjuntura a falta de claridade que se dá pela cidadania não ser uma categoria natural. Levando em consideração os conceitos de cidadania basean- do-se no tempo e no contexto cultural que estão inseridos. a exemplo do sistema feudal.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. em troca de proteção. e o único direito a participação possível está no apoio ao tirano. o nacional. onde existe uma ordem política democrática que possibilita o exercício das liberdades fun- damentais. compreendido como qualquer regime totalitário. per- cebem-se as diversas formas que assumiu a cidadania na existência das sociedades organizadas. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. o cidadão se funda na liberdade de cada membro da sociedade enquanto homem. onde a identidade cívica se consagra nos direitos outorgados pelo Estado aos cidadãos individuais e nas obrigações que estes devem cumprir perante àquele (GORCZ- VESKI. Assim. MARTIN. na igualdade frente a qualquer súdito e na independência de cada membro enquanto cidadão (GORCZVESKI.do termo e a dificuldade que existe. e o moderno cidadão. a base da pirâmide serve a quem está acima. o caráter pluriforme – dimensões espa- ciais-funcionais-situações empíricas . MARTIN. Percebe-se assim. 232 ) . M.

M. Causa de felicidade e infelicidade alheia. como construção histórica. floresce com o conceito de cidadão como o oposto ao de súdito. vai se modificando com a própria extensão dos direitos e não sendo o conceito rígido ou estático. porém não con- figurando com a aspiração de incluir todos nesse termo. Entretanto. e logra sua con- solidação no século XIX com a conquista dos direitos econômicos e sociais. é um processo sem fim. objetiva oferecer luzes sobre os fenômenos da globalização que não estão sendo visualizados. 2011). Bauman (1999) em sua obra. O processo histórico de cidadania se inicia no ocidente a par- tir do século XVIII. a questão da cidadania.) Diante desse plexo. assume diferentes formas nos diferentes tempos e contextos so- ciais. pode ser entendido como um processo paradoxal. Neste sentido. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. segundo Clovis e Nuria (2011) com a con- quista dos direitos civis expresso na igualdade perante a lei e na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Além de ser algo que afeta a todos na mesma medida e da mesma maneira. MARTIN. mas para todos é um processo irreversível. livre e democrática. com diversas interpretações para justificar distintas situações ideológicas (GORCZVESKI.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. em uma sociedade aberta. porém divide enquanto une. como por exemplo o espaço e o tempo ou a noção de local e glo- 233 ) . uma vez que a globalização tanto divide como une. Neste contexto de afirmação da cidadania surge a globali- zação como ferramenta (in)eficaz na difusão e concretização dos direitos fundamentais. onde todos os direi- tos não nascem de uma só vez e. Contu- do. a cidadania é o que pode levar o indivíduo a atuar na defesa e ampliação de seus direitos. Bauman (1999) refere que a globalização é vista por alguns como algo bom e por outros como algo ruim.

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. este é o mundo confuso e confusamen- te. 1999). 234 ) . Quanto aos que não tem escolha e/ou não podem pagar por sua segurança. enquanto a globalização dita as regras do jogo. por exemplo. o face a face. Um exemplo dessa fabulação da globalização é a aldeia global. a globalização como perversidade. é como se o mundo houvesse tornado para todos. e por uma outra globalização. Em tempos de globalização. A partir desse mito e do encurtamento das dis- tâncias também se funde a noção de tempo e espaço contraídos. a serviço do império do dinheiro. segundo Santos (2002) percebido na torre de babel que vive a atual era globalizada. quem não tem internet. acaba por se tornar uma base aparentemente sólida de sua interpretação. As- sim. onde se faz acreditar que a difusão instantânea de notícias realmente in- forma as pessoas. em um mundo cada vez mais globalizado ser local é sinônimo de privação e degradação social. responden- do com agressividade e violência (BAUMAN. 2002). ao alcance da mão (SANTOS.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. alicerçado então. e não está integrado nas redes sociais. está excluído em relação aos que possuem. A globalização trouxe uma espécie de desestruturação das comunidades locais. a denominada monetarização da vida social e pessoal.) bal. A globalização como fábula pode ser entendida com a criação de determinado número de fantasias cuja repetição. Consequentemente. há que se considerar os três mundos num mundo só: a globa- lização como fábula. não existem mais áreas comuns. M. que priori- zem o diálogo. Sustenta-se que o mundo é construído por imagens e imaginários. Onde. se revoltam. sendo as ferramentas carac- terizadas como uma febre global. As elites escolheram o isolamento e pagam por ele com boa vontade.

mas do que é veiculada pela mídia. a partir desses mesmos alicer- ces técnicos poderão servir a outros objetivos. O fato de que a comunicação se tornou possível à escala do planeta. caracterizado pelo realismo. uma interpre- tação interessada. A informação sobre o que acontece não vem da interação entre as pessoas. M. 2002). Quando essa co- municação se faz. São duas violências centrais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. E o terceiro mundo. Por isso ela pode ser con- siderada como perversa . alicerces do sistema ideológico que justifica as ações hegemônicas e leva ao império das fabulações. deixando saber instantaneamente o que se passa em qualquer lu- gar. Uma das fabulações é a tão repetida ideia de aldeia global. a fome. a pobreza. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. com base na construção de um outro mundo globalizado mais humano. 2002). base dos novos totalitarismos. isto é. na realidade. seria como ele pode ser. Que. permitiu que fosse cunhada essa expressão. onde o desem- prego. nas quais dita o mecanismo de mercado fazendo com que essas mazelas se tornem parte/conse- quência do processo de globalização (SANTOS. e as consequentes desigualdades é o preço da globalização. senão interesseira.) O segundo mundo. Entre os fatores constitutivos da globalização encontram-se a forma como a informação é oferecida à humanidade e a emergên- cia do dinheiro em estado puro como motor da vida econômica e social. dos globalitarismo (SANTOS. a mortalidade infantil. se forem postos ao serviço de outros fundamentos sociais e políticos. 2002). seria tal como ele é – a globalização como perversidade. a percepções fragmentadas e ao discurso único do mundo.uma perversidade sistêmica juntamente com as imposições do capitalismo. dos fatos (SANTOS. Deve-se re- conhecer um determinado número de fatos novos indicativos da 235 ) . a busca por uma outra globalização. ela se dá com a intermediação de objetos. isto é.

obrigatórias. mas obteve uma unificação relativa. Santos (2002) adverte para o capitalismo concorrencial. ou mesmo. trata-se da existência de uma sociodiversidade. globalitarismo. por exemplo.) emergência de uma nova história. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. convergente na construção de um universalismo que contemple à todos iguais pos- sibilidades e condições. o que se verifica é a possibilidade de produção de um novo discurso. já que. 2002). Nesse contexto de unificação. de superfície e volume. ou seja. M. culturas e povos. historicamente muito mais significativa que a própria biodiversidade. é a possibilidade existente de escrever uma nova história (SANTOS. da aglomeração das massas. Com a diversificação das medidas. Acredita-se na importância da comunidade local como es- paço apto para efetivar os direitos de cidadania. 1999). Destarte. que buscou a unificação do planeta. um dos problemas encontrados pelos detentores de poder foi o de uni- formizar o tratamento a todos. mesmo em uma era de globalização. ao que Santos (2002) se propõe é a construção de uma outra globalização.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. aprofundada sob o capitalismo monopolista graças aos progressos técnicos alcançados nos últimos 236 ) . a partir da mistura de raças. na qual seja menos excludente. Neste sentido. de distanciamento da comunidade. e a proibição de medidas locais (BAUMAN. isto é. Para facilitar foram criadas me- didas padrão. Contudo. uma globalização que traga/comporte esperança àqueles em que a cida- dania não se evidencia como elemento de uma realidade inclusiva. de uma nova metanarrativa. as me- didas do espaço físico e do espaço social antes bastante utilizadas. Um pensando a partir de uma nova racionalidade. da aglome- ração exponencial e de sua diversificação. hoje já não se têm mais.

isto é. 1999). devolve o homem à condição primitiva do cada um por si e. agora se pode. p. Toda esta preocupação com a uniformidade das comunidades locais criou uma espécie de agorafobia nos cidadãos e de intole- rância. A exemplo do turista e do vagabundo .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. ideias.os dois são consu- mistas. Essa globalização tem 237 ) . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Numa localidade homogênea é extremamente difícil adquirir as qualidades de cará- ter e habilidades necessárias para lidar com a diferença humana e situações de incerteza” e na ausência dessas habilidades e qualida- des é fácil temer o outro. Entretanto. simplesmente por ser outro (BAUMAN. a globalização mata a noção de solida- riedade. o indivíduo hoje pode ser entendido como viajante – nômades que estão sempre em con- tato. de alguma forma. M. rela- ções. de ter a liberdade de estar onde desejar e de comprar o que quiser (BAUMAN. homens. 1999. e suas relações com o mundo são puramente estéticas. Ainda. por exemplo. onde é possível percorrer a rede de computadores mundial e trocar men- sagens com pessoas do mundo todo.) dois séculos e possibilitando uma transição para a situação atual do liberalismo. é atingido. coisas. pela internet. 55). reduz as noções de mora- lidade pública e particular a um quase nada. ao passo que “a uniformidade alimenta a conformidade e a outra face da conformidade é a intolerância. fa- lar numa vontade de unificação absoluta alicerçada na tirania do dinheiro e da informação produzindo em toda parte situações nas quais tudo. comportamentos. Com tal característica. lugares. mesmo quando não se movem fisicamente. O espaço que antes era um obstáculo agora só existe para ser anulado. como se voltasse a ser animal da selva. As pessoas estão sempre em movimento.

) de ser encarada a partir de dois processos paralelos: de um lado. é que os atores sociais não devem assistir este processo como me- ros espectadores. de iguais formas e condições? (SANTOS. vai se alicerçar em duas colunas centrais: uma tem como base o dinheiro e a outra se funda na informação (SANTOS. a partir da defesa de uma nova interpretação do mundo contemporânea. Em que o dinheiro e as informações . fundado em um olhar multidisciplinar. as políticas públicas de efetivação dos direitos sociais exercem um papel de extrema importância neste contexto. há a produção de novas relações sociais entre países. o assunto do próximo capítulo. que então nos exige como condição o exercício de fabulações? Isto é avanço ou retrocesso a um mundo acessível à todos. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Será que o processo de glo- balização não está por fomentar uma ideologia maciça. dá-se a produção de uma materialidade. A nova si- tuação. trazendo à luz os novos protagonistas na esfera pública democrática e uma verdadeira (re)definição da globalização volta- da para o a concretização dos direitos fundamentais e da cidadania.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. sendo este. mas sim como participes ativamente implicados. Portanto. 2002).de vezes distorcidas e massificadas . Assim. 2002). é que se deve pensar em uma outra globalização. ao mesmo tempo que evidencia o inverso. Desta forma. são condições de que muitos não dispõem. classes e pessoas. 238 ) .são a base da evolução global. de outro.

não convive e. E. fundamentais do ho- mem no sentido de que a todos. Neste sentido. ocorreu nesse período. 178) caracteriza-se por “situa- ções jurídicas sem as quais a pessoa humana não se realiza. partindo-se para a produção de ferramentas que se destinassem a examinar as verdadeiras necessidades sociais. M. Essa estrutura dos direitos sociais estarem dispostos dentro do título da ordem econômica e social perdurou nas constituições posteriores. não apenas formalmente reconhecidos. às vezes. entretanto. mas concreta e materialmente efeti- vados”. ao classificar os direitos sociais como direitos fun- damentais. os direitos sociais foram erigidos para a categoria de direitos fundamentais com expressa previsão no segundo capítulo – Dos Direitos Sociais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. onde reiterando o princípio da igualdade. uma existência digna. nem mesmo sobrevive. devem ser. dedicou um título para a ordem econômica e social. estabelecida de modo que possibilitasse. sob a vigência da Constituição da República de 1934 – influenciada pela Constituição de Weimar. p. ao colocar em prática a de- mocratização do acesso a serviços e à participação cidadã. por igual.) 3 O PAPEL DAS POLÍTICAS PÚBLICAS NA EFETI- VAÇÃO DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS E DE CI- DADANIA No Brasil. a Constituição da República de 1988 repre- sentou o início da reforma Estatal. Portanto. segundo Silva (2003. deste modo. a capacidade delas acabarem afetando as estratégias 239 ) . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. um deslocamento para o foco das políticas públicas no Brasil. a todos. com o ingresso da Constituição da Repú- blica de 1988. tem-se as pri- meiras referências aos direitos sociais. Assim.

No cenário moder- no.) dos gestores públicos na tomada de decisões (HOCHMAN. Assim. Assim. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. utilizando-se de conceitos clássicos. as políticas são o re- sultado da própria política. e devem ser compreendidas “à luz das instituições e dos processos políticos. p. M. conforme ensina Schmidt (2008. 2311) destaca que o termo “políticas públicas” é utilizado com diferentes significados. especialmente no que se refere à efetivação da cidadania na era da globalização. De maneira objetiva. Schmidt (2008. AR- RETCHE. A possibilidade de desenvolver indi- víduos preocupados com a melhora na sua qualidade de vida é o passo que precede o fortalecimento de uma rede de cidadãos que responderá com ações voltadas para toda a comunidade. as políticas públicas servem como fomentadoras de uma sociedade formada por cidadão. MARQUES. ora um “propósito po- lítico”. Em razão dessa nova conjuntura. 2007). o estudo sobre as políticas públicas deve ser feito de forma integrada com a compreensão do papel do Estado e da própria sociedade nos dias atuais. uma delas é impulsionada pela crescente intervenção do Estado e a complexidade dos gover- nos atuais. o autor. ora indicando uma determinada atividade. os quais estão intimamente ligados às questões mais gerais da sociedade”. 2309). para entender as políticas pú- blicas. e em outras vezes “um programa de ação ou os resultados obtidos por um programa”. ensina que as 240 ) . Há determinadas razões que favorecem o interesse pelas po- líticas públicas e pelo seu devido estudo. Ademais. p. a compreensão de alguns conceitos que perfazem o universo das políticas públicas revela-se a chave-mestra para a promoção e efetivação de direitos e garantias sociais. que desempenham papéis ativos e que não passam de meros figurantes diante da construção e desenvolvimento da nação.

pode ser designada como a ordem do sistema político. M. que designam respectiva- mente a dimensão institucional da política. como a exemplo de sistemas de governo. 2008). o resultado da política insti- 241 ) . Pertencendo a esta dimen- são questões relacionadas aos poderes da República.) políticas públicas são um conjunto de ações adotadas pelo governo. ou de modo mais claro. que dependem dos assuntos e dos interesses em jogo. judiciário e legislativo (SCHMIDT. 2008). tracejado pelo sistema político administrativo. o aparato burocrático e estrutura e funcionamento do executivo. pertencem a esta dimensão os aspectos referentes às estruturas da política institucional. isto é. a soma de atividades do governo que acabam influenciando a vida dos cidadãos. o processo de decisão nos governos. marcado tanto por conflitos quan- do por cooperação entre forças políticas e sociais. E por último. A segunda. que se enquadram como o Estado em ação. Neste contexto. A análise desse processo procura captar o entrosamento dinâmico dos atores políticos. Conse- quentemente. o embate travado entre a busca pelo poder e os re- cursos disponíveis pelo Estado. abarca a dimensão dos processos que integram a dinâmica política e de competição pelo poder. A análise das instituições políticas e de todas as questões que cercam a burocracia estatal pode ser compreendida neste termo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. A primeira – polity. as políticas públicas. mercado e sociedade civil. – politics. denominada de policy. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a fim de produzir efeitos específicos. politics e policy. as relações entre as nações. compreende os con- teúdos concretos da política. entre outros (SCHMIDT. a literatura em língua inglesa estabeleceu três diferentes conceitos para indicar distintas dimensões sobre as políticas públicas: polity. a processual e material. isto é.

programas. assegurando determinados benefícios. através da arrecadação de impostos. 2311). a edu- cação. “As políticas se materializam em diretrizes. ou seja. 2313). processo decisório”. Ainda. de acordo com Bryner (2010. 2008. As “decisões-chaves”. atores. evo- lução. e que carecem de um controle social atuante. os critérios para definir quem deve re- ceber o benefício e quando/quanto devem receber. 320) esse tipo de política inclui determinados subsídios capazes de conferir prote- ção a certos interesses. pois os segmentos não beneficiados por elas não percebem prejuízos ou custos para si próprio” (SCHMI- DT. “Não tem caráter de uni- versidade. consistem na distribuição de recursos da sociedade. 2008. podendo ser exercido por conselhos e espaços onde ocorra a par- ticipação popular. p. projetos e atividades que visam resolver problemas e demandas da sociedade. que têm um certo interesse em deixar claro aos 242 ) . de pavimentação ou iluminação de ruas. para regiões ou segmentos sociais específicos. mas em geral não geram a conflitividade comum das políticas redistributivas. Pertencem à dimensão da policy as ques- tões relativas às políticas de um modo geral: condicionantes. ou até mesmo a assistência social. as políticas distributivas. pode ser dividida em quatro formas – as políticas distributivas. a seguridade social. a habitação. entendida com o seu conteúdo sólido. Exemplos desta atuação são as políticas de desenvolvimento de uma determinada região. as políticas redistributivas. p. todas visando às áreas sociais. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Assim. a saúde.) tucional e processual. as políticas regulatórias e as políticas constituídas. a policy. seja ela. p. entre outros (SCHMIDT.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. M. ficam a cargo dos legisladores. De tal modo.

Nas palavras do autor. Podem tanto distribuir benefícios de for- ma equitativa entre grupos ou setores sociais. sendo por isso difícil conseguir a mobilização e a organização dos cidadãos no processo de formu- lação e implementação. em razão dessa ca- racterística é possível que gerem mais controvérsias. com o deslocamento de recursos das camadas sociais da sociedade mais abastadas para as camadas hi- possuficientes economicamente. onde regulam e ordenam. as estruturas e os procedimentos políticos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. entre outros. Conhecidas popularmente como políticas “Robin Hood” e pelo seu caráter social universal. isto é. 2008). mediante ordens. políticas de circulação. 2314) “seus efeitos são de longo prazo. Às vezes atingem interesses localizados. elabo- ração da política de uso do solo. como a exemplo da seguridade social e o Programa Bolsa Família (SCH- MIDT. proi- bições e decretos. Bryner (2010. São exemplos. responsáveis pelos procedimentos gerais das políticas. M. determinam as regras do jogo. provocando reações”. 321) ensina que essa modalidade de política tem por finalidade “alterar diretamente o comportamento indivi- dual impondo padrões às atividades reguladas”. de acordo com Schmidt (2008. E a quarta e última são as políticas constitutivas ou estrutu- ras. p. o funcionamento de serviços e instalações de equipamentos públicos.) receptores as origens dos benefícios concedidos. “ações reguladoras podem restringir significativamente interesses particulares e impor-lhes custos de aceitação”.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. p. Já as políticas redistributivas podem ser compreendidas como a redistribuição de renda. A terceira forma que as políticas públicas podem assumir é a regulatória. Em geral. As políticas estruturadas se referem à dimensão da polity. como atender a inte- resses privados. 243 ) .

Ela é o critério mais elevado do sistema constitucional. poderá o Estado. importante ressaltar que a Constituição.construir uma sociedade livre. progre- dir dentro da sociedade – a exemplo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. implementar políticas públicas que promovam a igualdade. tem o objetivo central de intermediar a efetivação desses direitos. Neste cenário de análise das políticas públicas. Igualdade esta que ultrapassa o conteúdo da isono- mia. M. Diretrizes essas. deliberadas como objetivos fundamentais da República . E as políticas públicas. Para o alcance desses objetivos. promover o bem de todos. refor- mas políticas e administrativas. Essa concretização dos direitos sociais perpassa pela ideia da 244 ) . 2008). A igualdade material acompanha a noção de discriminação positiva. sexo. raça. ou a prestação positiva de políticas que efetivem essa igualdade. o Programa Universidade para Todos – PROUNI. garantir o desenvolvimen- to nacional. segundo seu mérito. ou ao menos. são alguns dos exemplos possíveis (SCHMIDT. em conjun- to com a sociedade. idade e quaisquer outras formas de discriminação.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. além de definir o norte para as ações governamentais.) ou seja. para a consolidação da cidadania. e representa o critério maior contido na Constitui- ção para a interpretação dos direitos sociais (BONAVIDES. cor. a criação ou modificação das instituições políticas. passando à exigência de tratamentos distintos para tornar os indivíduos iguais. sem preconceitos de origem. sistema eleitoral. 2003). Defini- ção do sistema de governo a ser adotado. oferecê-los acesso proporcional as oportunidades para que possam. da cidadania. justa e solidária. deste modo. instituiu diretrizes mínimas para as garantias de direitos sociais e por consequência.

a tradição política é imprescindível tanto para a permanência quanto para transformação do sistema político. Logo.) política a partir da dimensão da cultura. tenham acesso aos direitos fundamentais por intermédio de políticas públicas concretizadoras da cidadania. consiste em viabilizar os meios para que todos. a Constituição da República de 1988 trouxe con- sideráveis avanços sociais a favor dos menos favorecidos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. e por consequência. uma vez que se trata de avançar no terreno per- corrido nas últimas décadas no sentido de incorporar os cidadãos nas decisões dos assuntos públicos. através do incentivo e do estímulo de políticas públicas que visão garantir o mínimo de direitos – aqueles direitos fundamentais para a ma- nutenção de uma vida digna. a democratização do Estado é outro requisito da sua revitalização. 2007). Além da utilização periódica da consulta aos cidadãos por plebiscitos e referendos. sem exceção. há a necessidade de criar mecanismos apropriados à participação popular direta ou semidireta. na busca pela efetivação da cidadania (SCHMIDT. Desta forma. de tolerância de relação às diferenças. M. um dos grandes desafios do século XXI. Sua ausência determina grandes dificuldades para a qualidade democrática desse processo (SCHMIDT. de respeito às instituições favorece a consecução de processos abertos. transparentes e participativos de políticas. Nenhum ambiente democrático a presença de atitudes e valores de pluralismo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. de respeito ao dis- senso e a busca do consenso. 2008). Portanto. uma vez que a cultura política pode ser definida como o conjunto de ações e orientações políticas que os indivíduos possuam acerca de determinado siste- ma político. 245 ) . Deste modo. da sociedade. de igualdade econômica social. conforme prevê a Constituição de 1988.

em- penhados na busca de um novo paradigma. propusemos uma revisão do conceito e do sentido de direitos fundamentais e de cidadania diante do contexto con- temporâneo. políticos e jurídicos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. diga-se. Neste cenário. M. com o auxílio de políticas públicas se logrará a efetivação dos direitos de cidadania.) CONSIDERAÇÕES FINAIS As questões sociais demandam uma profunda reflexão e ação frente as suas diferentes necessidades e evitar o acirramento de- las é tarefa e desafio de todos os setores da sociedade envolvidos na construção da democracia como um valor humano de garantia universal de direitos sociais. a visão atual de cidadania está atrelada a uma visão excessivamente passiva do que significa ser cidadão em um contexto político glo- balizado. uma terra verde e tropical. com belos rios. mas exige a ação responsável de toda a sociedade. é tarefa complexa que não se limita nas responsabilidades fundamentais do Estado. Entretanto. devem re(assumir) o seu papel de agente promotor da mudança social e que. seguramente.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. e banqueteando-se nas pastagens suas famílias. 246 ) . cidadania está resumida ao exercício de votar. Portanto. Porém. isto é. onde indivíduos ativos. integrantes de uma sociedade democrática. de um mundo melhor para se viver. o que se busca é um vale encantando como o idea- lizado e realizado pelos dinossauros. Por isso. de todos os indivíduos. um caminho promissor seria implementar no país de um sistema eficiente e democrático de proteção social o que. resta evidente que fórmulas milagrosas que pro- metem eliminar os maiores males do Brasil de uma só vez não são a saída para um país com cerca de 50 milhões de pessoas vivendo em situação de pobreza.

Santa Cruz do Sul: Edunisc.: PETERS.) Onde com muito esforço e enfrentamento aos inúmeros desafios que poderão e irão surgir nesta caminhada. São Paulo: Malheiros. José Joaquim Gomes.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 7. Belo Horizonte: Del Rey. 2003. mesmo num contexto globalizado. Administração pública: coletânea. ed. HOCHMAN. Antonio Enrique. A necessária revisão do conceito de cidadania: os movi- mentos sociais e novos protagonistas na esfera pública democrática. In. Paulo. MARTIN. MARQUES. . PIERRE. edu- car. 2008.. 2010. praticar. B. São Paulo: LTr. Zygmunt. BONAVIDES. REFERÊNCIAS BAUMAN.. Direitos fundamentais e acesso à justiça na Constituição. Curso de Direito Constitucional. In: CAMPUZANO. José Adércio Leite.Santa Cruz do Sul: Edunisc. J. (Orgs. SANTOS. Milton. M. Madrid: Dykinson. La ciudadanía en las sociedades multicultu- rales. ______. Direitos Humanos.). Coimbra: Almedina.. 1999. N. BRYNER. G. Alfonso de Julios. GORCZEVSKI. 2007. 2007. poder-se-á construir um novo paradigma a exemplo do vale encantado. M. PÉREZ-LUÑO. São Paulo: Editora UNESP. 2011. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. E. Políticas Públicas no Brasil. B. Organizações Públicas e Políticas Públicas. Direitos fundamentais: retórica e historicidade. 2003. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciên- 247 ) . 2009. SAMPAIO. ARRETCHE. Mauro Vasni. Gary C. 2004. CANOTILHO. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. PAROSKI. Rio de Janeiro: Fiocruz. Ciudadanía y Derecho en la era de la Globalización. Globalização: as consequências humanas. Direito constitucional e teoria da Constitui- ção. Clovis. educação e cidadania: conhecer. G.

ed. Revista Española de Derecho Constitucional. R. R. In: REIS. M. ed. R. VILLALON. João Pedro. In: REIS. LEAL. Santa Cruz do Sul: Edunisc. José Afonso da. Gestão de Políticas Públicas: elementos de um modelo pós-burocrático e pós-gerencialista. SARLET. Para entender as políticas públicas: aspectos conceituais e metodoló- gicos. 25. Direitos sociais e políticas públicas: desafios contemporâneos. Direitos Sociais e Políticas Públicas: desafios contemporâneos. ______. n. SCHMIDT. SILVA. Curso de Direito Constitucional Positivo. dos.. ed. Pedro Cruz. G. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2008. 2003. 2002. 1989. R. 248 ) . Porto Alegre: Livraria do Advogado.) cia universal. 9. G. Madri. 9. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988. Formación y evolución de los derechos fundamentales. J.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. São Pau- lo: Malheiros. Santa Cruz do Sul: Edunisc. 2007. Rio de Janeiro: Record. LEAL. 22. 2011. J. Ingo Wolfgang.

a ascensão e a estabilidade econômica do país 1 É integrante do GAIRE/SAJU/UFRGS (Grupo de Assessoria a Imigrantes e a Refugiados). já que acaba por proporcionar ao país. Nos últimos anos. principalmente. . nos últi- mos anos. de promoção da paz. coope- ração e principalmente. Mestrando em Direito em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). econômica e social. PARTICIPAÇÃO POLÍTICA DOS MIGRANTES NO BRASIL: UMA ABORDAGEM SOB A ÓTICA DOS DIREITOS HUMANOS Daniel Braga Nascimento1 Êmily de Amarante Portella2 1 INTRODUÇÃO O discurso político brasileiro vem sendo moldado. É nesta conjuntura que a influência do Direito Internacional e das instituições inter- nacionais recebe destaque no exercício das atividades diplomáti- cas brasileiras. e é mestranda do curso de Mestrado em Direitos Humanos do Centro Universitário Ritter dos Reis (UNIRITTER). Atualmente é aluna do curso de Especialização de Direito Internacional da Universidade Fe- deral do Rio Grande do Sul (UFRGS). um quadro favorável para uma possível efetivação da inserção internacional política. pela valorização dos ideais de multilateralismo. 2 É bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). no âmbito regional.

Insere-se neste contexto. inserção e integração dos imigrantes na sociedade brasileira. ao se debater sobre o antagonismo da relação entre a securitização do tema imigratório e uma abordagem humanista. II .a dignidade da pessoa humana.) possibilitaram a concepção de um cenário favorável.gov.o pluralismo po- lítico. está se propondo uma discussão a respeito da posição adotada pelo Brasil. dessa forma. Disponível em <http://www. receptível e promissor.a soberania. pois. encontrar- -se limitado aos nacionais. as propos- tas de emendas constitucionais referentes ao sufrágio. III .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. este cenário incentivou à atração de um maior fluxo de imigrantes às terras brasileiras. o presente artigo pretende discutir o porquê de o exercício do sufrágio. Consequentemente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. torna-se indispensável discutir sobre a legis- lação migratória. bem como a interpretação e seus respectivos impactos na sociedade civil. IV . 1º A República Federativa do Brasil. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. a proposta de discussão do presente artigo. 4º da Constituição Federal inciso II: prevalência dos direitos humanos.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao. htm> Acesso em 29/04/2016 250 ) .planalto.os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa. compreender a necessidade dos direitos políticos como fundamentais ao processo 3 Art.planalto. serão discutidos os projetos de lei re- ferentes à atualização da legislação migratória brasileira. Diante disto. A partir disso.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao. Na busca de analisar a postura do Brasil.a cidadania. V . Disponível em <http://www. bem como as políticas públicas referentes à regulamentação. 1º da Constituição Federal: Art. os projetos de lei que visam a substituição do Estatuto do Estrangeiro. considerado um direito humano fundamental. M. buscando.gov.htm> Acesso em 29/04/2016 4 Art. as propostas de emenda constitucional referentes aos direitos políticos. como sendo um país democrático que se orienta sob a égide de um discurso de valorização dos direitos humanos3 e do “pluralis- mo político” 4. constitui-se em Estado Demo- crático de Direito e tem como fundamentos: I .

o Estado e o indivíduo. a busca por melhores condições de vida emprego e violações de direitos humanos. la matriz para la constitución de nuevas practicas sociales. (FLORES. igualdad. 2004. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.. por um lado.101) 251 ) . M. p. bem como a ampliação e/ou modificação de alguns conceitos dentro da lógica democrática.ese acto ético y polítco maduro y radical de crea- ción de um orden nuevo. 2 A INTERLIGAÇÃO ENTRE A GLOBALIZAÇÃO. tem-se observado um aumento nos fluxos transfronteiriços em diversas regiões do mundo.a través de processos de reconocimiento y de mediação jurídica. po- líticos y culturales que. Nesta seara torna-se importante analisar os reflexos e o escopo das relações entre a globalização e direitos humanos5. e princi- palmente. configuren materialmente. [.] lo que conven- cionalmente denominamos derechos humanos no son meramente normas jurídicas nacionales o internacionales. A CIDADANIA. revolucionarias y subversivas de esse orden global opuesto absolutamente al conjunto inmanente de valores . ni meras declaraciones idealistas o abstractas. y por outro lado. solidarie- dad. El sujeto antagonista se constituye em esse processo y se reproduce em la riqueza de sus prácticas sucessivas. a pobreza. sino processos de lucha que se dirijan abiertamente contra el orden genocida y antidemocrático del neoliberalismo globa- lizado. A DEMOCRACIA E A IMIGRAÇÃO Recentemente. o reconhecimento do direito de ação do estrangeiro no espaço público de que é parte e que não é o espaço-tempo da ci- dadania: 5 Los derechos humanos deben ser entendidos como los processos sociales. de nuevas subjetividades antagonistas.que tantas luchas y sacrifícios han necessitado para su generalización. Ao se abordar a questão dos movimentos migratórios.. ob- serva-se que novas funções são demandadas ao Estado. As motivações pelas quais as pessoas decidem migrar variam desde o medo de perseguição.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.) de efetiva inserção do imigrante à sociedade brasileira. a parti- cipação e a cidadania. económicos.libertad.

como nacionais. implica uma imbricação entre os diversos lugares em que tais ocorrem. Isso ressalta ainda mais o sentido vivenciado nos dias de hoje. (HAMMES.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Dessa maneira. a palavra cidadania foi centrada. (GÓMEZ.) Num enfoque histórico6. cidadania é o resultado de um longo processo histórico em constante evolução. M. a consagravam a expressão cidadania.67) Dessa forma. nacionalidade e naturalidade. exercem direitos políticos. desterritorialização. localismo. o que as torna multifacetadas. fluidas. 2010. 2000. como ideia de participação política do indivíduo como sujeito de direitos e deveres fren- te sua comunidade . ao mesmo tempo em que rompe com os lugares tradicionais da economia. par- ticipar ativamente das decisões e utilizar-se dos meios postos a sua disposição para garantir a justiça e a democracia. que no ocidente inicia a partir do século XVIII com a conquista de direitos civis expressos na igualdade ante a lei e pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. ocorre uma nítida distinção nos conceitos de cidadania. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Desde então. renacionalização e fragmentação das identidades coletivas. basicamente. mas.313) 252 ) . p. da política. a partir de 1930. de 1891. e a primeira Constituição Republi- cana. de que o homem para viver em sociedade necessita ouvir e ser ouvido. desde a perspectiva de que. multiplicando de maneira simultânea e superposta fenômenos de homogeneização. e o termo cidadão tem sido empregado para definir a condição daqueles que. é necessário que percebamos o fato evidente de que o processo de desterritorialização faz com que a própria 6 A história da cidadania no Brasil está diretamente ligada ao estudo histórico da evolução constitucional do país. nacionalidade refere-se à qualidade de quem é membro do Estado brasileiro. se afirma no século XIX em virtude do sufrágio universal e se impõe definitivamente no início do século XX com a conquista dos direitos econômicos e sociais. de 1824. embora sua expressão fosse claramente atribuída à sociedade e ao contexto histórico. Mas. p. é importante fazer algumas considerações acerca da globa- lização: Devemos perceber o fenômeno da globalização como não restrito às estratégias do capitalismo financeiro. (HAMMES. 310) Antes de abordar a condição do imigrante no espaço brasi- leiro. p. A Constituição Imperial. ambíguas e em profundo processo de trans- formação. 2010. não é um estado e sim um processo radicalmente incerto e ambivalente que se projeta por sobre os mais variados aspectos da vida e que. das relações e das práticas sociais.

Exceções. dege- nerando-se em violência tanto na esfera pública quanto privada: O ideal democrático requer cidadãos conscientes e atentos à coisa pública. que possibilitam a participação formal dos membros de uma co- munidade política nacional. ainda.avançam hoje em direção à universalização dos direitos. instituições que ao longo da história foram com- parativamente muito mais restritivas.para os quais tende a convergir para a substância ética das sociedades. retrocessos pontuais e inúmeras contradições à parte.134) 253 ) . estão ins- titucionalizadas nas normas que se relacionam com o preenchimento dos cargos 7 Embora hoje prevaleça. as instituições políticas e os sistemas legais.11) A participação social é uma necessidade fundamental do ser humano e sua ausência cria e recria antagonismos espaciais. culminando no estabelecimento de uma democracia e de uma cidadania multifacetadas e multipo- larizadas 7: A assunção e a institucionalização de um princípio de universalidade humana em um documento de caráter supranacional constituem uma evidência empírica razoável de que estamos diante de um processo de filogênese da moralidade. estando também ela. nem no conjunto deles. modificando ou minimizando as socioperspectivas restritivas e excludentes que antes carregavam. no entanto.hegemonicamente nacionalistas. patriarcais. uma noção de cidadania identificada com um elenco conhe- cido de liberdades civis e políticas. assim como de instituições e comportamentos políticos altamente padronizados. 2010. racistas. am- pliando sucessivamente os titulares de cidadania.ou seja.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M..) noção de cidadania seja revisitada. p. 2000. M. p. misóginas e homofóbicas. e sim nas nossas instituições.grosso modo têm avançado com acréscimos de descentração. não se manifesta necessariamente em cada indivíduo. indissociável da ideia moderna de território. in- formados sobre os acontecimentos e capazes de optar entre as alternativas ofe- recidas pelas forças sociopolíticas e interessados em formas diretas ou indiretas de participação. (GÓMEZ. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. etnocên- tricas. (VENTURINI. especialmente na escolha de autoridades que ocupam os mais elevados cargos e funções de governo. As estruturas mais relevantes de participação democráticas estão inseridas nos mecanismos competitivos de forças políticas e geralmente. de um desenvolvimento moral da espécie humana que. Portadoras de princípios e valores.

por meio de novos instrumentos de acesso do povo à condução do poder público8: A cidadania definida pelos princípios da democracia e do pluralismo político cons- tituiu-se na criação de espaços sociais de canalização do conflito e da luta (movi- mentos sociais) e na fixação de instituições permanentes para a expressão política (partidos. (GUERRA. esses foram “outorgados” [. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. (VIEIRA.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. a democracia não pode ser sintetizada a apenas um regime político com partidos e elei- ções livres.. A partir deste contexto. o que prejudicou a consolidação da consciência cidadã no Brasil. 2012.) públicos eletivos. 1995. buscando direitos civis. os diretos políticos precederam os diretos civis. Nesse sentido. sem a participação efetiva do povo. visto que ela é. p. a participação não se resume apenas na escolha dos representantes. uma forma de existência social. (GUERRA. [. com o estado paternalista aquinhoando direitos políticos às pessoas sem que houvesse uma real reivindica- ção e conquista desses mesmos direitos. mas na participação que deve ser compreendida como democra- tização da sociedade. 2012. além disso.62) 8 Na seara brasileira. antes mesmo que o povo tivesse lutado. no processo de constituição histórica da cidadania. ou seja. órgão públicos). p. em função da falta de sentimento constitucional. observa-se que... e por vontade própria.. cuja proclamação moveu-se por articulações das cúpulas. uma sociedade democrática é aberta e per- mite sempre a criação de novos direitos. significando conquista e consolidação social e política. p.] A cidadania foi arquiteta de cima para baixo. 44) Sendo a cidadania um indispensável fator para promover a inclusão social e para combater a desigualdade. Contudo. entre militares e liberais.] Ocorreu a independência em 1822 e as decisões de maior peso da República foram tomadas pelas elites a partir de 1889. verifica-se que a concepção de uma nova ideia de cidadania pode ser realizada. no tocante à relação desta com a participação popular na formação de um Estado Democrático de Direito. sem causar prejuízo aos recursos democráticos tra- dicionais.51) 254 ) .

221) que a “cons- trução da cidadania deve permitir o acesso igualitário ao espaço público como condição de existência e sobrevivência dos homens enquanto integrantes de uma comunidade política”: A garantia dos direitos políticos assegura. saúde e moradia para todos. a cidadania efetiva oferece aos cidadãos iguais condições de exis- tência. denotam os direitos dos cidadãos enquanto indiví- duos de um Estado nacional democrático. 2010. exercendo seus direitos políticos.) Em relação ao que se entende por participação política9. Já o direito de liberdade se refere à participação não coagida nas argumentações. ela produz uma ação inclusiva de um sujeito no conjunto social. mas pela pressão do povo na rua. No estado democrático de direito. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.314) 255 ) . as mediações e os espaços públicos para a exigência dos demais. de justiça e igualdade de todos. p. constituindo-se na for- ma mais adequada no enfrentamento das ações de exclusão. (BENAVIDES.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. A palavra participação é de origem grega e foi utilizada por muitos escritores e filósofos da época. o gozo atual de direitos e a obrigação do cumprimento de deveres. que era o nome dado às cidades gregas. razão pela qual originou-se o significado de discussão política. Neste sentido. p. por extensão. a cidadania acaba por ser necessária para o desenvolvimento linear do direito como fonte de integração so- cial. nas organizações sociais. nos movimentos. M. 2010. (HAMMES. isto é. Consequen- temente. lembra Correa (2002. p. a 9 O termo “política” vem do grego Polis. Assim. no caso da participação na esfera pública. continuam sendo conquistas sociais que não saem do papel por um acesso de bondade dos detentores do poder. ob- serva-se que o exercício da representatividade é uma faculdade atribuída a cada indivíduo especificadamente. os direitos políticos.95) Seguindo esta lógica. que só terá eficácia jurídica se posto em prática. Con- forme Habermas. que concluíram que tratar de política é cuidar das decisões de interesse da coletividade. Educação. quem vivia nas cidades tinha que encontrar maneiras de discutir questões referentes a Polis. di- reitos das minorias e dos grupos vulneráveis.

Em 1993. insere-se a questão da rei- vindicação da “condição de sujeito” ao imigrante na estrutura mo- derna.21) que a soberania popular faz parte daqueles direitos essenciais para a dignidade da pessoa humana e da atividade política. Estudando o tema imigração a partir do estudo de caso Argélia e França. Todavia. o qual é definido como um como um processo de amplitude total. estabelecendo uma separação entre os direi- tos destinados a todos os nacionais e os direitos restritos aos cidadãos. além do direito de votar e ser votado e de ter acesso em condições de igualdade. pautados na possibilidade de ser eleito. é realizada uma análise sobre o processo de imigra- ção. quer ativos. na medida em que todo cida- dão é também nacional. Na obra de SAYAD (1998): “A Imigração ou os paradoxos da alteridade”. o autor trata de inúmeras variáveis condicionantes que se revelam no processo 10 (CAGLIARI. partindo das condições que levam à emigração até as formas de inserção do imigrante no país de destino. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. podemos afirmar a relação fundamental entre democracia.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.229) 11 O pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos de 1966. são considerados cidadãos todos os integrantes do Estado. Geralmente. (BENAVIDES. Em consequência. Em alguns lugares.94).69) O Brasil11. A De- claração Universal de 1948 já havia proclamado (art. a Declaração de Viena consagrou a democracia como “o regime político mais favorável à promoção e à proteção dos direitos humanos”. o que pode acon- tecer caso um indivíduo não esteja em gozo dos direitos políticos. 2010. nem todo nacional é cidadão. as dinâmicas migratórias e o mundo sofreram di- versas transformações. p.) liberdade comunicativa10: A cidadania tem como pressuposto a nacionalidade. sem tomar em conta o problema dos direitos políticos. afirmou que todo cidadão terá o direito de “participar da condução dos assuntos públicos”. a diferenciação é acolhida pelos ordenamentos jurídicos dos Estados. promulgado pelo Brasil em 1992. às funções públicas de seu país (art 25). 1995. M. direitos humanos e participação dos cidadãos na esfera públi- ca. Nesse contexto. p. p. 2010. quer passivos. 256 ) . (VIEIRA. diretamente ou por meio de representantes livremente escolhidos”. pautados na prerrogativa de eleger seus representantes para integrar os órgãos do estado. objetivando desenvolver os princípios da Declaração Universal de 1948.

segundo a definição do termo. mesmo que esta provisoriedade dure mais por tempo indeterminado. 1998. Depois que passou a fronteira. num dado plano nacional. mas também depois que passou as fronteiras. O reco- nhecimento do espaço do imigrante pressupõe o chamado “direito de imigrar”. a diferença estabelecida entre ser estrangeiro e ser imigrante. Seguindo esta lógica. mas sim de ser participante de uma rede de produção que recria o espaço-público para além da fronteira. Sendo a necessidade do mercado de trabalho circunstancial. M. até as fron- teiras. mas apenas até as fronteiras. Nesse sentido. Se “estrangeiro” é a definição jurídica de um estatuto. segundo SAYAD é: Um estrangeiro.) de deslocamento do sujeito emigrante/imigrante. o imigrante vem servir como força de trabalho e passa a constituir um “problema” para o país que o utiliza.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. “imigrante” é antes de tudo uma condição social. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Redin responde à indaga- ção sobre qual seria o lugar da realidade humana migratória nessa ordem política: 257 ) . é estrangeiro. claro. observa-se que a constituição de uma identidade política diferente dos mo- delos tradicionais-codificados. mas sim por uma condição social. O que diferencia o estrangeiro do imigran- te. p 243) Dessa forma. na obra “Direito de imigrar: Di- reitos Humanos e Espaço Público” de REDIN (2013). Ao longo da obra. não está atrelada à noção de per- tencimento a uma comunidade política anterior. (SAYAD. deixa de ser um estrangeiro comum para se tornar um imigrante. continua sendo estrangeiro enquanto permanecer no país. o “imigrante” é considerado um ser “provisório”. é condicionada não por um estatuto jurídico.

a construção de uma “violência silen- ciosa”. ainda que tivessem. não possuem espaço institucionalizado e. (REDIN. (REDIN. (REDIN.. não pos- suem espaço de reivindicação. para exercer o “seu direito a ter direitos”. [. a qual é fruto da modernidade arraigada à ideia da von- tade soberana. 2013.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. as quais. segue o modelo das organizações sociopolíticas formatadas em estruturas de estado-nação. p. e que estas implicam em um alto grau de partici- 12 A arquitetura político-normativa dos direitos humanos assegurados nas variadas convenções internacionais. 2013. No entanto. como sujeito de seu próprio destino. Paradoxalmente. 2013. a modernidade. Nesse sentido. quando da segregação do humano pelo vínculo formal de cidadania. pela aniquilação do político. Em relação à violação dos direitos humanos12 e as funções do Estado. A formatação dos direitos humanos nos sistemas democráti- cos modernos pode estratificar preconceitos que conduzam à legitimação da “manutenção” da violência. que estrutura a concepção de “espaço público” na ordem jurídica e no Estado. in- clui o estrangeiro pela exclusão.82).) O lugar é o da clandestinidade. o impede de participar do espaço- -público. Outro mito. apesar de os imigrantes serem agentes da produção de eventos geradores de um espaço-tempo transnacional projetado no espaço geográfico do Estado. a autora compreende que. Essa condição é direcionada pelas legislações es- tatais que restringem o ingresso de imigrantes às condições de interesse nacional. M. em geral são disciplinadas administrativamente.24) 258 ) . é no Estado que ambientalmente esses sujeitos “não su- jeitos” estão”. p. agora não ostensiva.209) Observa-se também. p. inspiradas na Declaração dos Direitos Humanos de 1948. bem como pela política estatal de segurança contra o ingresso e a permanência de estrangeiros fora das condições reguladas pelo Estado.. que historicamente le- gitimam um processo de apropriação do humano e da vida. Esses direitos são compreendidos como instrumentos político-filosóficos de libertação da pessoa contra as estruturas sociais de privação-dominação. “são estrangeiros sem voz no cenário in- ternacional.] O Estado reconhece que esse estrangeiro é um sujeito de direitos humanos. do Estado sobre a pessoa. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Dentro da ótica de que os direitos humanos pressupõem es- colhas públicas.

2009) 259 ) . Desse modo. a ideia de cidadania já não pode mais ser unicamente associada ao estado nacional porque: (a) os direitos dos humanos no plano internacional não estão circunscritos a uma proteção restrita ao Estado-nação. que deixa de ser homogênea. mas não a ação e a mudança”. intensifica e acelera as conexões globais e regionais. a não ser que as ideias de filiação política e identidade existencial possam ser efe- tivamente vinculadas a realidades transnacionais de comunidade e participação em um mundo “pós-estatal”: 13 Em sua outra obra “As Origens do Totalitarismo”. na melhor das hipóteses. permite que o homem se refugie “num interior onde. onde essa participação requer a possibilidade do agir. a estrutura político-jurídica que restringe a participa- ção do indivíduo na vida pública. impunha àqueles não sujeitos “refugo da terra”. transformando a cidadania democrática de base territorial. assim. (VIEIRA. c) a globalização incrementa. diminuindo a importância das fron- teiras internacionais e abalando seriamente as bases da cidadania tradicional14. a produzir um declínio na qualidade e significação da cidadania.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. sustenta que a cidadania fundada na nacionalida- de se tornou um obstáculo à igualdade e à liberdade de todos os indivíduos e propõe que o lo- cal de residência. 2005) 14 Para Liszt Viera. A globalização econômica tende. os sem Estado (ou apátridas) ou as minorias étnicas refugiadas das guerras civis do entre guerras e pós-Segunda Guerra Mundial. visto que supõem capacidade humana de julgamento. e não mais a nacionalidade. M. pode-se fazer alusão ao pensa- mento de Hannah Arendt13 na obra “A promessa da política”.160) Seguindo a lógica da discussão da cidadania aliado aos concei- tos de identidade e globalização. Lizt Vieira (2009) aborda sobre o tema da globalização econômica e o enfraquecimento dos laços territoriais que ligam o indivíduo e os povos ao Estado. Hannah Arendt faz o diagnóstico da violência velada que o Estado-nação. do começar e do conduzir. (ARENDT. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.p. os quais não eram bem-vindos e não podiam ser assimilados em parte alguma. (ARENDT. é possível a reflexão. por meio do interesse do Estado. 2009 . b) as migrações em massa e a multiplicação dos refugiados mudam a composição da população. Entretanto. seja o fundamento da cidadania. deslocando o locus da identidade política. por meio também do critério da cidadania.) pação do indivíduo na vida pública.

80) Ao longo do texto. contando com grande di- versidade de grupos étnicos. PIOVESAN (2013) faz uma ava- liação da dinâmica da relação entre o Direito brasileiro. (VIEIRA. de modo 260 ) . esse tipo de identidade moderna “explodiu” e deu lugar a identidades pós-mo- dernas marcadas pela transterritorialidade e multilinguística que se estruturaram menos pela lógica dos Estados do que pela dos mercados. e o aparato internacional de proteção dos direitos humanos. Vieira compreende que na cidadania em que todos são iguais. p. M. Quanto à indagação de saber se a cidadania pode tornar-se fonte de uma identidade. vê-se hoje cada vez mais desafiado por uma sociedade crescentemente pluralista ou multicultural. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. como a liberdade ou independência. investigando como este aparato pode contribuir para a efetivação destes direitos no país. visões de mundo e religiões.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 2009. Canclini (1999) diz que a identidade nacional que possui base territorial e é quase sempre monolinguística foi construída em detrimento de outras identidades e tem caráter contrastivo em relação às demais nacionalidades. o estado-nação. a igualdade é uma reivindicação normativa. na obra “Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globaliza- ção”. Consequentemente. como forma dominante de identidade coletiva fun- dada na homogeneidade cultural. especial- mente a Constituição Federal de 1988. 3 LEGISLAÇÃO MIGRATÓRIA BRASILEIRA E MER- COSULINA Ao se enfocar os direitos humanos sob a perspectiva do Direi- to Constitucional Internacional. desen- volvida simultaneamente nos planos infraestatal e supraestatal.) Dessa forma. estilos de vida.

como princípio a reger o Brasil no âmbito internacional. Implica. apesar de o Conselho Nacional de Imigração (CNIg) promover di- versas atualizações na legislação. o qual é inspirado na doutrina de segurança nacional. as ve- dações aos direitos políticos dos estrangeiros são previstas também no corpo constitucional brasileiro. não implica apenas o engajamento do País no processo de elaboração de normas vinculadas ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. a Constituição de 1988. 2013. BARALDI (2011). como paradigma propugnado para a ordem jurídica interna ao siste- ma internacional de proteção dos direitos humanos. evidencia a incompatibilidade do Estatuto do Estrangei- ro. mas não podendo alistar-se como eleitores os estrangeiros. pois a nacionalidade brasileira é condição de elegibilidade. portadora de um gama de direitos fundamentais e a assinatura pelo Brasil de diversos tratados internacionais de direitos humanos. consagra o primado do respeito aos direitos huma- nos. afirman- do que esta lei trata o estrangeiro como um elemento perigoso. o que explica a necessidade de informação e justificação de cada movimento às autoridades nacionais. M. ademais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.102) 15 Seguindo esta lógica da Constituição de 1988. (PIOVESAN.) a redefinir e reconstruir o próprio conceito de cidadania no âm- bito nacional: Ao romper com a sistemática das cartas anteriores. o compromisso de adotar uma posição polí- tica contrária aos Estados em que os direitos humanos sejam gravemente desrespeitados. ineditamente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. as resoluções normativas adota- das por este Conselho não podem mudar o espírito da lei e nem mesmo excluir as disposições flagrantemente em conflito com a 15 Apesar de apresentar vários avanços significativos no processo de redemocratização. p. A autora relata também que. A Constituição da República de 1988 prevê em seu art. 14 que a soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto. 261 ) . A prevalência dos di- reitos humanos. mas sim a busca da plena integração de tais regras na ordem jurídica interna brasileira. com valor igual para todos.

3) 262 ) . Apesar de a nova Constituição de 1988 ser portadora de um grande elenco de direito fundamentais ao lon- go do seu texto. o Brasil deixou de ser um país de imigração para se tornar um país de emigrantes. art. 106. na última década. Nesse sentido. 107 da Lei 6815/80) e de seus direitos sindicais serem restritos (art. Atualmente. Entretanto. estima-se que existam até três milhões de brasileiros vivendo no exterior. por que não possuem o direito de buscar po- líticas públicas e terem representantes? No entender Axel Honne- th “O engajamento nas ações políticas possui para os envolvidos 16 Durante o período de vigência da Lei 6815/80. é imprescindível debater sobre o fato de os imigrantes não possuí- rem direitos políticos (art. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. nota-se uma retomada dos fluxos de imigrantes para o Brasil. Apesar de ocorrer. o que transforma o país em um país de emigrantes e imigrantes.815 da década de 198016. simultaneamente. Mais recentemente. o denominado Estatuto do Estrangei- ro. p. no final dos anos 80 o processo de rede- mocratização brasileiro com a promulgação de uma Nova Consti- tuição. nota-se a incompatibilidade do Estatuto do Estrangeiro com o discurso brasileiro. pode-se observar que o projeto de lei 5655/09 apenas enxerta a expressão direitos humanos em seu artigo 2º. 2011. (BARALDI. VII da Lei 6815/80). 4º. não foram representadas grandes mudanças no tratamento jurídico dos imigrantes.) Constituição de 1988 e com os diversos tratados de direitos huma- nos dos quais o Brasil é signatário. e o Brasil ser signatário de diversos tratados in- ternacionais de direitos humanos.14 §2º e 3º da CF/88. Diante disso. e continua mantendo como objetivos perseguidos a defesa do interesse nacional e a preferência à mão- -de-obra especializada no art. agora com significativa presença de sul americanos.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. a legislação migratória do país em vigor continua sendo a Lei Nº 6. M. Se aqui vivem. reflexo do período ditatorial e elaborada no âm- bito da segurança estatal em detrimento dos direitos humanos.

PEC n. uma autorrelação nova e positiva” (2009. visto que ele de- monstra em público exatamente a propriedade cujo desrespeito é experienciado como uma vexação. pelo PPB/RS. o Anteprojeto de Lei de Migrações e Promoção dos Direitos dos Migrantes no Brasil que foi elaborado por uma Comissão de Especialistas (criada pelo Ministério da Justiça pela Portaria n° 2. A vergonha social de não se sentir parte da sociedade é uma afronta aos Direitos Humanos. M. pelo PL/RJ. Naturalmente. PEC n.104/1995. Dentre elas. Apesar de. pelo PT/SP. há também.72/1991. com um efeito refor- çativo. socioeconômicos e culturais. PEC n. Disponível em: < 263 ) . observa-se que ainda continua pauta- do pela lógica de gestão do Estado sobre o imigrante. apresentada pelo PDS/ RS.371/2001. PEC n. Aqui cabe mencionar também as Propostas de Emenda Constitucionais apresentadas visando conceder direitos políticos aos imigrantes: PEC n. 2º A aplicação desta Lei deverá nortear-se pela política nacional de migração. PEC n. pelo PSDB/SP. pelo PFL/SP. Um exemplo disto pode ser encontrado no seu artigo 2º18. ao longo de seu texto.29/1991.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.560/1997. aqui se acrescenta ainda. uma diminuição do respeito e estima do migrante. 259). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. na permanência do 17 Concomitante ao Projeto de Lei 5655/09. 260) Algumas propostas de atualização e aprimoramentos da lei migratória foram elaboradas17. Nesse aspecto. (2009. fazendo os membros alcançar uma espécie de estima mútua. p. a experiência de reconhecimento que a solidariedade no interior do grupo político propicia.) também a função direta de arrancá-los da situação paralisante do rebaixamento passivamente tolerado e de lhes proporcionar. 18 Art. e PEC n. garan- tia dos direitos humanos. pelo PSDB/SP. fazer menção a ex- pressão “direitos humanos”. preservação das instituições democráticas e fortalecimento das relações internacionais. Honneth ainda afirma que o engajamento in- dividual na luta política Restitui ao indivíduo um pouco de seu autorrespeito perdido.162/2013) e o PLS 288 (Se- nado).119/2011. PEC n. está o projeto de lei 5655/09. pelo PPS/SP. 401/2005. por conseguinte. interesses nacionais.25/2012. p.

2011.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=674695&file- name=PL+5655/2009> Acesso em 29/04/2016 19 Art. social. im- http://www. Nesse particular. Na lista dos pontos negativos. primordialmente. É de quatro anos no Estatuto atual (art112) e passa para dez no Projeto de Lei (art. O autor ressal- ta que as vedações aos direitos políticos dos estrangeiros previstas também na Constituição não podem ser justificadas diante do atual cenário de globalização econômica e ausência de fronteiras para as informações e ideias políticas: A restrição ao direito político impede que o estrangeiro participe plenamente da sociedade receptora.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=674695&filena- me=PL+5655/2009> Acesso em 29/04/2016 264 ) .7) Nesta perspectiva.gov. Nesse ponto. p. FERNANDES (2013) discute também so- bre a relação entre o direito ao sufrágio e o grau de integração dos imigrantes na sociedade. III). a admissão de mão-de-obra es- pecializada adequada aos vários setores da economia nacional.87. Exemplo disso é a conti- nuação da restrição de direitos políticos aos imigrantes em geral.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. cabe destacar que o voto.) interesse nacional e a preferência à mão-de-obra especializada no art. ao desenvolvimento econô- mico. (BARALDI. Disponível em: < http:// www. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. além de ser um direito básico nos Estados democráticos. científico e tecnológico do Brasil. praticamente todos os vizinhos sul-americanos já avançaram em maior ou menor medida na garantia do direito ao voto para os imi- grantes. deve-se computar ainda o aumento do tempo para o pedido de naturalização. à captação de recursos e geração de emprego e renda. 4º A política imigratória objetivará. cultural. observada a proteção ao trabalhador nacional. reduz sua capacidade de reivindicação social e jurídica.camara. M. 4º19: A construção do texto do Projeto de Lei também ficou surda às demandas da sociedade que há anos denuncia os problemas do Estatuto do Estran- geiro e do tratamento dos imigrantes em geral.camara. garante voz e visibilidade para quem vive em comunidade.gov.

de autoria do atual senador Aloysio Nunes Ferreira: A proposta de Emenda Constitucional traria uma inovação de grande importância no tratamento jurídico do estrangeiro no Brasil. 5°. qualquer alteração política. p. com o fim de estender a esses indivíduos direitos inerentes aos brasileiros e conferir aos estrangeiros com residência permanente no país ca- pacidade eleitoral ativa e passiva nas eleições municipais. pois este é o detentor do poder delegado aos representantes da nação e só o tem quem é povo: “todo o poder emana do povo. ou até mesmo o federal. Trata-se da Proposta de Emenda Constitucional n° 25 de 2012. SICILIANO (2013) compreende que não apenas o direito às atividades político-partidárias deve ser reconhecido. (FERNANDES. A existência da restrição política. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. M.101) Seguindo esta lógica no âmbito da discussão da política mi- gratória. 2013. de pessoa que jamais poderá se integrar de forma plena à sociedade que o recebe. isso implica que o imi- grante é uma pessoa sem representação política no Brasil. qualquer rumo que a política tome. parágrafo único da Constituição Federal de 1988). talvez seja uma das mais graves aos direitos dos estrangeiros. p. (FERNANDES.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Se não pode eleger e nem ser eleito.97) A partir destas considerações. logo fora do conjunto denominado povo.) possibilitando essencialmente o tratamento igualitário em relação aos nacionais. 1. pois não seria nenhum exagero se atingisse pelo menos o nível estadual. é importante mencionar tam- bém a existência da Proposta de Emenda Constitucional para alte- rar os arts. Se o imigrante reside na sociedade brasileira. A concessão de direitos políticos em nível municipal. mas tam- bém o das filiações em sindicatos e associações políticas: 265 ) . é significativa diante de uma sistemática marcada pela restrição e total limitação a direitos políticos. 2013. pois é aquela que lhes confere perpetuamente a condição de cidadão de segunda categoria. que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. por mais que possa ser considerada tímida. tanto lhe afeta quanto aos nacionais brasileiros. 12º e 14º da Constituição Federal de 1988. nos termos desta Constitui- ção” (art.

membro associado MERCOSUL. p.asambleanacional. os estrangeiros podem votar em eleições municipais e estaduais desde que tenham 18 anos e que te- 20 Dentro do contexto latino-americano. Seguindo esta lógica. Na Venezuela. (SICILIANO.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Disponível em: < http://www. 40) e. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. M. destaca-se também a continuação da restri- ção de direitos políticos aos imigrantes em geral20.pdf> Acesso em 30/04/2016 266 ) . é interessante ressaltar a importância da Constitui- ção da República do Equador de 2008 que apresenta uma concepção plurinacional e inter- cultural: O marco do “Bem Viver”.pdf> Acesso em 30/04/2016 22 Ver Lei Nº 978/96 de Migrações do Paraguai. 2013. A constituição reconhece a migração como um Direito. não é satisfató- ria. reconheceu direito à participação política em seu art. Bolívia e Paraguai22 permitem a participação política do imigrante residen- te. o qual dispõe: La República Argentina facilitará. 21 Exemplo de avanços significativos na concessão de diretos é a Lei de Migraciones nº 25. com diferenças no que se refere ao tempo de residência e ao nível político-administrativo das eleições em que lhes é per- mitido participar. desde 1991 foram apresentadas 8 Propostas de Emendas Constitucionais tratando do tema da outorga de direitos políticos aos estrangeiros residentes no país. principalmente no fato de a maioria já apresentou grandes avanços na garantia do direito ao voto para os imigrantes. Cabe mencionar aqui que a Argentina. Visando essa integração na esfera pública. de negativa de direitos.org/dil/esp/Ley_de_Mi- graciones_Argentina.ec/documentos/ constitucion_de_bolsillo.) Embora a Constituição Federal brasileira vede ao estrangeiro a participação po- lítica.871/2004 da Argentina.oas. aplicando princípios de reciprocidade internacional. Na Bolívia os estrangeiros podem votar em eleições municipais.org/dil/ esp/Ley_de_Migraciones_Paraguay.46) Nesse sentindo. o que demonstra que o tema da participação política do imigrante é objeto frequente de debate e que a situação atual. 11. pode-se fazer uma análise comparativa com os países vi- zinhos do MERCOSUL21. Disponível em: <http://www. (ART. pelo qual se propõe não identificar a nenhum ser humano como ilegal pela sua condição migratória. de con- formidad con la legislación nacional y provincial en la materia.pdf>.gov. la consulta o participación de los extranjeros en las decisiones relativas a la vida pública y a la administración de las comu- nidades locales donde residan. no contexto das relações internacionais se apela ao princípio da “cidadania universal”.oas. Acesso em 18/05/2016. Disponível em:< http://www.

Dessa forma. contudo. também podem se candidatar a cargos eletivos na esfera municipal. em uma conjuntura marcada pela crescente globalização. permanece restrita aos cidadãos nacionais e naturalizados. deve ser alcan- çada também por meio da participação do estrangeiro em assuntos públicos. com incremento do fluxo de pessoas entre as fronteiras dos Estados.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.uy/leyes/AccesoTextoLey. ou seja.parlamento. além de te- rem direito ao voto. Disponível em: <http://www. Contribuindo assim. dentre outras exigências. O Uruguai23 permite ao imigrante o exercício do voto pleno.) nham mais de 10 anos de residência no país. seja residente há pelo menos 15 anos. os estrangeiros. M. uma revisão do quadro constitucional mostra-se necessária a fim de trazer resposta aos desafios impostos pela nova realidade. em todos os níveis de eleições. para que o imigrante possa agir participar e ter uma “voz ativa” na sociedade em que vive.250 de Migracão do Uruguai. Pois.asp?Ley=18250&Anchor=> Acesso em: 30/04/2016 267 ) . A possibilidade de serem eleitos. desde que. CONSIDERAÇÕES FINAIS Observa-se assim que. é de extrema importância que se estudem es- sas questões para uma contribuição no debate de uma integração eficiente do imigrante no Estado acolhedor e a formação de uma cidadania que não esteja somente pautada na nacionalidade do in- divíduo. 23 Ver Lei Nº 18. mas também o de se desenvolver como ser humano no âmbito do es- paço público. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Nas le- gislações da Argentina e do Paraguai. gub. a plena igualdade com os nacionais. conferindo-lhe não somente o direito a reivindicar.

815. planalto. BARALDI. DF.gov.2009. e o inciso I do art. Câmara dos Deputados. BRASIL. Hannah. 2010 BRASIL. Altera a redação do § 2º do art.2.1.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?cod- teor=674695&filename=PL+5655/2009> Acesso em 29/04/2016. Senado. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Maria Victoria de Mesquita. de 1940 e a Lei nº 10. 14 da Constituição Federal e permite que os estrangeiros residentes em território brasileiro por mais de quatro anos e legal- mente regularizados alistem-se como eleitores. n. Revoga as Leis nº 6. Disponível em: <http://www.gov.076.gov. Camila. 5º da Lei nº 8. BRASIL. de 1980.683.leg.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Constituição (1988).br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=599448> Acesso em: 29/04/2016.815. de 1992. 1ªed.848. ____. Projeto de Lei nº 5. Revista de Direitos Humanos.ed. o Mercosul e a União Europeia. Secretaria de Direitos Humanos da Presi- dência da República. “Direitos Políticos como Direitos Hu- manos”. Proposta de Emenda da Constituição nº 25.964.br/ccivil_03/Leis/L6815. BENEVIDES. de 1995.camara. Disponível em: <http://www.236.Rio de Janeiro: DIFEL. Câmara dos Deputados. M. de 19 de Agosto de 1980. 268 ) . Lei nº 6.br/web/atividade/materias/-/mate- ria/105568> Acesso em 29/04/2016. v. Brasília. Constituição da República Federativa do Brasil.422. As origens do Totalitarismo. de 2003. 6. de 1981.senado. BRASIL. Disponível em: <http://www. Altera os arts.655/2009. Altera o De- creto-Lei nº 2. Senado Federal. 9. Brasília. 3º Encontro Nacional da ABRI: Governan- ça Global e Novos Atores. 1989. de 1985. camara. 1º do Decreto-Lei nº 2. A promessa da política. de 2012. o art.htm> Acesso em 29/04/2016. 1998. Cidadania. 12 e 14 da Constituição Federal para estender aos estrangei- ros direitos inerentes aos brasileiros e conferir aos estrangeiros com residência permanente no País capacidade eleitoral ativa e passiva nas eleições municipais.1.) REFERÊNCIAS ARENDT. 2011. BRASIL. Disponível em: http://www25. Migrações e Integração Regional: Notas sobre o Brasil. São Paulo: Companhia das letras. 5º. Proposta de Emenda da Constituição 347/2013.

Direitos Humanos e Cidadania. Direito a voto. p.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Jose Maria. Guilherme Antônio de Almeida Lopes.ec/documentos/constitucion_de_bolsillo. nova legislação e melhor atendimento a imigrantes <http://caminhosdorefugio. HAMMES.2000. 221 f.org. 221) EQUADOR. In: Direitos Humanos e participação Políti- ca. 2010 HONNETH. In: Direitos Humanos e participação Política. A participação ativa da cidadania como condi- ção de legitimação da coesão social. Grace Kellen de Freitas. Petró- polis: Vozes. Buenos Aires: CLACSO. Joaquín Herrera.gov. Porto Alegre: Imprensa livre. Cláudia Taís Siqueira. Sidney. Porto Alegre: Imprensa livre. In: Direitos Humanos e Globalização. Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante. Dissertação (Mestrado)- Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Caminhos do Refúgio.com. Direito à cidadania: um estudo sobre os imigrantes bolivianos em São Paulo e Buenos Aires e as principais leis migratórias do Brasil e da Argentina. Ijuí: Ed. CORREA. 2009. Los Derechos Humanos em el Contexto de la Glo- balización: Tres Precisiones Conceptuales. CANCLINI. GUERRA. Aqui Voto!” Dis- ponível em: <http://www. Unijuí. Jaqueline Machado.asambleanacional. GÓMEZ. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais / tradução de Luiz Repa. 2004.) CAGLIARI. 2010. São Paulo. FLORES.br/direito-a-voto-nova-legislacao- -e-melhor-atendimento-a-imigrantes/> Acesso em 30/04/2016. A construção da cidadania: reflexões histórico-políticas. 2013. 2002. 1999. pdf>. São Paulo: Atlas. 2013. 2012. M. PELLEGRINI.br/?p=2270> Acesso em: 29/04/2016 . Rio de Janeiro: LPP. Política e Democracia em Tempos de Globalização. 269 ) . Constituição (2008). Nestor G. Fundamentos e possibilidades desde a Teoria Crítica. Reflexos da participação política na cidadania. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da glo- balização. Axel. São Paulo: Editora 34. Darcísio. República do Equador. Rio de Janeiro: Editora UFRJ.cdhic. Rio de Janeiro: Lumen Juris. FERNANDES. Ato Político da Campa- nha pelo Direito ao Voto dos Imigrantes no Brasil: “Aqui Vivo. Disponível em: < http://www. Acesso em 18/05/2016.

194.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Rio de Janeiro: Forense Universitária. A violação sistemática dos direitos humanos como limite à consolidação do Estado de direitos no Brasil. Flo- rianópolis: Conceito. Lei nº 18. 1ªed. Giuliana. 59 f. VIEIRA. In: GIORGI. Lei nº 978 de 8 de Novembro de 1996.gub.1998. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. São Paulo: EDUSP. Disponível em: <http:// www. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. “A Política Migratória Brasileira: Limites e Desafios”. M. REDIN.parlamento. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. 270 ) .pdf> Acesso em 30/04/2016 PIOVESAN.org/dil/esp/Ley_de_Migraciones_Paraguay. Beatriz di et. “O potencial emancipatório e a irreversibilidade dos di- reitos humanos”. Brasília. AYALA. SICILIANO. PARAGUAI. São Paulo. Direito de imigrar: Direitos Humanos e Espaço Público. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2002. 2013. 2010. Al. Oscar Vilhena. Lizt. Morrer pela pátria? Notas sobre identidade nacional e globalização.250 de 17 de Janeiro de 2008. In: Identidade e globalização: impasses e perspectivas da identidade e a diversida- de cultural. Patrick de Araújo.asp?Ley=18250&Anchor=> Acesso em : 30/04/2016. (Coord). SAYAD.) VIEIRA. Disponível em: <http:// www. interpretação. Abdelmalek. 2013. Gustavo.oas. A imigração ou os paradoxos da alteridade. Direito. Direito Ambiental na sociedade de Risco. André Luiz. teoria. 1995. Rio de Janeiro: Record. sociologia e filosofia jurídica. cidadania e justiça: ensaios sobre lógica. 14ªed. José Rubens Morato. São Paulo: Saraiva. Flávia. P. Revista de Direitos Humanos. URUGUAI. Dissertação de (Mestrado) – Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo.uy/leyes/AccesoTextoLey. 2009. 2013. VENTURINI.) LEITE.

UNISC. de forme breve. Contato: eliane.fontana859@gmail. POLITICAS PÚBLICAS DE ACESSO À REDE: A (PROVÁVEL) INSTITUIÇÃO DE FRANQUIA DE DADOS E A CONSEQUENTE FRAGILIZAÇÃO DO ACESSO À INTERNET NO BRASIL Augusto Lenhardt1 Eliane Fontana2 1 NOTAS INTRODUTÓRIAS O presente artigo busca analisar. Advogada.com 2 Doutoranda do PPG-Doutorado em Direito . Desde a sua concepção.ldt@hotmail. foi criada para fins militares. vinculado ao CNPq. Professora da Faculdade de Direito no Centro Universitário UNIVATES em Lajeado- -RS. tendo como função estabelecer uma 1 Acadêmico do curso de Direito do Centro Universitário UNIVATES em Lajeado-RS. Inicialmente. as impli- cações da (possível) cobrança de dados e a consequente mitigação do acesso à internet no Brasil. Con- tato: augusto. com o nome de ARPANet. Membro do Grupo de Pesquisa Comunitarismo e Políticas Públicas. a internet passou por diversos aprimoramentos até adquirir o formato pelo qual é conhecida hoje.com . Mestre em Direito pelo PPG-U- NISC.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. passa a ter existência no ciberespaço por meio de blogs. Neste modelo. o que ensejará 272 ) . M. as operadoras de internet. Rompe-se o paradigma moderno de tempo-espaço. O Governo brasileiro passa a investir em políticas públicas de acesso à internet na busca da inclusão digital das pessoas que ainda vivem à margem das tecnologias da informação e comunicação. mas pela velocidade de co- nexão condicionada a um limite de dados mensais. Neste contexto. visando a inserção destas nesse importante espaço de interação so- cial. a sociedade contemporânea vivencia uma nova experiência com o fenômeno da globalização da comunicação. jornais. decidiram instituir uma nova e mais prejudicial for- ma de cobrança pelo serviço de acesso à internet: os pacotes de franquia de dados. canais como o YouTube e redes sociais. mostran- do-se um importante instrumento para ampliar a transparência na conduta dos poderosos. com a popularização da internet. vlogs. televisão. que se apresenta como uma estrutura de organização da sociedade baseada nas TICs (tecnologias de comu- nicação e informação). do intercâmbio cultu- ral e profissional. cobrança passará a ser realizada não mais pela velocidade de conexão. empresas que ex- ploram comercialmente o setor de telecomunicações com o aval do governo. A internet passa a ser a base da sociedade con- temporânea. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. A produção de conteúdo que até então era compi- lada através de livros. a sociedade industrial sucumbe em face da sociedade da informação ou sociedade em rede. e facilitar a participa- ção cívica ativa na construção de sociedades democráticas. Contemporaneamente. acesso à informação.) comunicação segura e em tempo real entre as bases e centros de pesquisa do governo. O acesso à internet adquire o status de direito social.

Diante disso. suspender o serviço ou cobrar pelo tráfego excedente. a Anatel proibiu temporariamente as operadoras de reduzir a velocidade. 2 O QUE É ACESSO À INTERNET NO SENTIDO DE DIREITO SOCIAL? Para melhor compreender o significado e a importância do que o acesso à rede – através da internet – representa para a so- ciedade atual como direito social. o governo norte-americano desenvolveu o projeto militar ARPAnet – Advanced Research Projects Agency Network . tendo como paradigma a norma Constitucional. o Código de Defesa do Consumidor e a Lei n. considerando-se a importância do acesso à in- ternet na sociedade atual.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. políticas e econômicas mundiais: a internet. Os usuários da internet não de- monstraram boa receptividade com a notícia e logo iniciaram as manifestações.965/2014 – Marco Civil da Internet. Dessa forma. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. é necessário se fazer um breve relato histórico. sob o argumento de que o assunto deverá ser objeto de deliberação pelo seu Conselho Diretor.com a finalidade de interligar em rede as bases 273 ) . período compreendido entre pós-se- gunda guerra mundial e a Guerra Fria. a fim de resgatar o contexto do surgimento do projeto tecnológico que hoje viria a se tornar um instrumento es- sencial na transformação e aprimoramento das estruturas sociais. proceder-se-á a análise as implicações acerca da (possível) cobrança de dados e a consequente mitigação do acesso à internet no Brasil. 12. culturais. Em uma época marcada pela corrida armamentista e disputas pelo poder entre as nações.) mais custos aos consumidores. M.

p. Por um longo período o sistema fora utilizado apenas pelo governo e algumas universidades com foco em pesquisas científicas. M. texto digital.org/wiki/Hypertext_Transfer_Protocol 274 ) . para que a mensagem procurasse suas próprias rotas ao longo da rede. distribuídos e colaborativos (WIKIPEDIA. No início dos anos 2000. no meio digital denominadas hiperlinks (WIKIPEDIA. Já na década de 1990. 2016) https://pt. que se apresenta como uma es- trutura de organização da sociedade baseada nas TICs (tecnologias 3 Hipertexto é o termo que remete a um texto ao qual se agregam outros conjuntos de infor- mação na forma de blocos de textos. 2016).wikipedia. texto digital. logo o sistema “tornava a rede independente de centros de coman- do e controle. o referido sistema possibilitava o aces- so a páginas com conteúdo de imagens. um sistema que uniu o hipertexto3 e a internet através da linguagem HTTP4. Em outras palavras. sendo remontada para voltar a ter sentido coe- rente em qualquer outro ponto da rede (CASTELLS. cujo acesso se dá através de referências específicas. https://pt.wikipedia. a sociedade industrial sucumbe em face da sociedade da informação ou sociedade em rede. no CERN (Conselho Europeu para Pesquisa Nuclear). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. sons. para estabelecer uma comuni- cação segura e em tempo real. produção de informação e co- nhecimento. 2002. imagens ou sons. 82). rompe-se o paradigma moderno de tem- po-espaço. palavras.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.org/wiki/Hipertexto 4 HTTP é um protocolo de comunicação (na camada de aplicação segundo o Modelo OSI) uti- lizado para sistemas de informação de hipermídia.) militares e seus centros de pesquisa. Com isso. de modo que qualquer pessoa com conheci- mentos básicos em informática pudesse utilizá-lo. a internet passa a integrar efetiva- mente o cotidiano das pessoas. textos e vídeos de forma simplificada. um grupo de pesquisadores liderados por Tim Beners Lee e Robert Cailliau criou world wide web (WWW). possibilitando a inserção destas em uma rede global de comunicação. A ARPAnet operava com base na tecnologia packet switching.

M. p. p. processos de virtualização etc. p.. associada às tecnologias digitais (ciberespaço. resultado da “[.. uma estrutura de computadores em rede “[. 22). 2010.. podding...) de comunicação e informação). 94).. Neste contexto. o espaço cognitivo em que as mentes das pessoas recebem informação e for- mam os seus pontos de vista através do processamento de sinais da sociedade no seu conjunto” (CASTELLS. O processo de interação social agora não segue mais uma hie- rarquia. emerge uma onda de novos de canais interativos: blogs. Na web. explica que hoje as TICs influenciaram a criação de uma nova forma de organização da estrutura social.. inicialmente concebida como um projeto universitário para facilitar a troca de informações entre os acadêmicos na forma de comunidade on-line. Lévy (2011. permite que as pessoas comuniquem umas com as outras sem utilizar os canais criados pelas instituições da sociedade para a comunicação socializante” (CASTELLS. Assim. é o próprio site do Facebook.. 15). na cul- tura popular. 2005). 2005.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. desenvolve-se a ciber- cultura.]” (LEMOS. Rapidamente o site se popularizou entre os estudantes. tempo real. streaming dentre outros.] pela primeira vez na história. p. vlogs (vi- deoblog).] cultura contemporânea.) [.] ciberespaço como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores”. 2005. uma rede social criada por Mark Zuckerberg em 2005. sendo os computadores a central de processamento e distribuição da informação com base nos co- nhecimentos internalizados nesta grande rede (CASTELLS. uma vez que passa a organizar-se num plano horizontal de modo que compõe o “[. fazendo com que Zuckerberg 275 ) . Neste sentido. 23).. A expressão de maior destaque da sociedade em rede. simulação.] espaço público. baseada no “[. ou seja.

texto digital. 276 ) . O relatório aponta que “ao longo dos últimos 15 anos. em seu Relatório do Relator Especial sobre a pro- moção e proteção do direito à liberdade de opinião e de expressão. deveria ser uma prioridade para todos os Estados (RELATÓRIO. através da or- ganização de movimentos sociais. p. Assim. tecnologias de informação e comuni- cação (TIC) têm crescido de uma forma sem precedentes. texto digital. 2016). 2011. Conforme o Relator Especial: (…) acredita que a Internet é um dos mais poderosos instrumentos do século XXI para ampliar a transparência na conduta dos poderosos.) cogitasse a expansão e abertura do Facebook ao público em geral (SANTINO. a rede social conta com mais de 1. M. e a conscientização política. atualmente existem cerca de 3. com a menor restrição de conteúdo online possível. dos quais mais de 2 bilhões vivem em países em desenvolvimento. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. propor- cionando grandes oportunidades para o desenvolvimento social e econômico” (ONU. visando não só o entretenimento. sendo importante instrumento na consecução da igualda- de entre as pessoas. acesso à informação.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. considera que a internet desempenha um papel central na socieda- de atual. 4). o fomento ao e-commerce. A ONU. mas também a troca de informações e conhecimentos através do intercâmbio cultural.2 bilhões de usuários de internet no mundo inteiro. facilitando o acesso à Internet para todos os indivíduos. e facilitando a participação cívica ativa na construção de sociedades democráti- cas. 2015). Conforme relatório divulgado pela União Internacional de Telecomunicações.6 bilhão de pessoas do mundo inteiro interagindo en- tre si. Hoje. (…) o papel chave que a Internet possui na mobilização de populações em clames por justiça. igualdade e melhor respeito pelos direitos humanos.

movimentar a máquina do governo. na ótica dos juristas.19). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Deste modo. a política pública tem um componente de ação estratégica. explica que poucos de- senvolvimentos nas TICs ensejaram efeitos tão inovadores como a criação da internet. no sentido de realizar algum objetivo de ordem pública ou. (BUCCI. proporcionando uma maior aproxima- ção da verdade e o progresso de toda a sociedade. a internet possibilita acessar conhecimentos que noutros tempos eram inatingíveis. No en- tanto. naquele conjunto institucional e projeta-os para o futuro mais próximo. diferentemente dos meios de comunicação tradicionais como rádio. educação e política en- tendeu que era primordial que se promovessem políticas públicas de inclusão digital. porque esta. cujo escopo é dar impulso. Frank LaRue (2011.2006. 2006. as políticas públicas5 voltadas à capacitação e à mas- sificação do acesso à internet surgem de demandas públicas e da necessidade de fomento à inclusão digital no país. privadas e apela socie- dade e. Para tanto. Assim. 6). 277 ) . segundo Bucci. ini- 5 A política pública neste breve estudo é definida como um programa ou quadro de ação gover- namental. são as ditas “políticas de governo”. isto é. p. p. a inserção daqueles que não dispõem de condições econômicas e intelectuais. há políticas cujo horizonte temporal é medido em décadas – são as chamadas “políticas de Estado” – e há outras que se realizam como partes de um programa como partes de um programa maior. Nesse sentido.14). possibi- lita uma interação de dupla via: ‘os indivíduos já não são recepto- res passivos. ou seja.coordenadas entre as esferas-. que consiste num conjunto de medidas articuladas . encontram-se à margem das TICs. incorpora elementos sobre a ação necessária e possível naquele momento determinado.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. isto é. mas também editores ativos de informação”. concretizar um direito. M. por consequência. televisão e jornais. (BUCCI.) O Relator. O governo brasileiro ao perceber a importância da sociedade informacional na contemporaneidade e os seus reflexos nos pila- res da estrutura social do país: econômica. o fomento na construção de melhores condições do acesso a todos no acesso à internet por meio de pro- gramas jungidos entres as esferas públicas. p.

Pelo contrário. após a boa re- ceptividade do PNBL. principalmente nas regiões mais carentes da tecnologia (BRASIL. que. partilhar do ciberespaço e interagir no campo da cibercultura agrega uma dinâmica visão do espaço-tempo. com computadores conec- tados à internet. estar conectado à rede não pode e nem deve ser visto como apenas outro instrumento facilitador nos meios de comunicação. que tem objetivo principal de massificar o acesso à internet em banda larga no país. especificamente a internet. GOVERNO DE MANAUS. Hoje. é possível visualizar a íntima relação do acesso à internet como um direito social do cidadão tendo em vista os reflexos decorrentes do (des)conhecimento das TICs.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. na vida cotidiana do indivíduo. MINISTÉRIO DAS COMUNI- CAÇÕES. através do Decreto n. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Neste ínterim. o Governo também lançou o Programa Nacional de Banda Larga (PNBL) em 2010. cujos objetivos são promover a capacitação inte- lectual do usuário. assim como a integração escola-comunidade. segundo o Relatório da Comissão da Banda Larga Para o Desenvolvimento Digital.) cialmente. que são espaços públicos localizados em escolas da rede municipal de ensino. M.0. E torna o cidadão incluso nas discussões sobre as decisões e informações 278 ) . também chamado “Banda Larga para Todos” até 2018 (ONU. texto digital. pretende implementar o Plano Nacional de Banda Larga 2. 2016). Recentemente. texto digi- tal. a ONU elogiou a iniciativa do governo brasileiro. houve a implementação de tele centros comunitários no território brasileiro.175/2010. em setembro de 2015. 2015). 7. a cultura e o lazer (BRASIL. A segunda fase do PNBL planeja instalar em todo o Brasil uma conexão que alcance a velocidade de 25mbps. A partir desses delineamentos. 2016).

enunciadas em normas constitucionais. 49). cultura. o que. o desenvol- vimento. III). que.] prestações positivas estatais.]”. dentre outros. por consequência. trata-se de efetivar. os direitos já positivados na Carta 279 ) . por sua vez. educação. 6º). Esses direitos devem ser compreendidos. destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais. O acesso à internet no sentido de direito social é proporcio- nar a cada cidadão brasileiro a oportunidade de participar efetiva- mente da sociedade informacional. assim como que tem como um de seus princípios fundamentais a dignidade da pessoa humana (CF. a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade [. como: [. M. art. p. 2012. que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos. o bem-estar. A Carta Magna também menciona que são direitos sociais. através das TICs. o trabalho. sente-se acolhido em comuni- dade e apto a exercer a cidadania num sentido amplo. evidencia em seu preâmbulo que o documento visa a instituição de um “Estado De- mocrático. a alimentação. proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade” (SILVA apud GOTTI.. art.) que lhe afetam e.. Em outras palavras. possibilitará para cada cidadão o acesso amplo à informação. educacional e político. o constituinte de 1988. a segurança. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Nesse sentido. a moradia” (CF. direitos que tendem a realizar a igualização de situações desiguais. enquanto dimensão de direitos fundamentais.. capacitação profissional e melhores condições de inserção no mercado de trabalho. 1º. a liberdade. como consequência di- reta. a saúde.. “a educação.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Valem como pressuposto de gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real.

viver a margem da era da informação compromete o futuro do país. en- contra-se em tramitação no Senado Federal a Proposta de Emen- da Constitucional n. 280 ) . cujo objetivo é conduzir a sociedade à era pós-moderna. não parece ser aceitável a coexistência duas castas de cidadão: os que têm amplo acesso às oportunidades dadas pelas TICs e os que es- tão isolados das amplas perspectivas educacionais e profissionais do futuro. econômico e político do país. 06 de 2011. sociais e profissionais dos cidadãos que não têm acesso ao mundo virtual. cerceando as oportunidades educacionais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. porque. “o direito ao acesso ágil à Rede Mundial de Com- putadores (Internet)”. M. possibilitando o aperfeiçoamento cultural. de autoria do senador Rodrigo Rollemberg (SENADO FEDERAL. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Portanto. cujo ob- jetivo é incluir.) Magna contextualizando a aplicação da norma constitucional na sociedade contemporânea. em pleno século XXI. Acredita-se que com a PEC n. O Senador justifica que o acesso ao com- putador e à Internet é fator decisivo para a competitividade dos países na economia internacional e dos indivíduos no mercado de trabalho. texto digital. Como forma de positivar esse direito social emergente. A iniciativa da proposta de emenda constitucional acima refe- rida é um avanço legislativo. 06 de 2011. entre os direitos sociais já elencados no art. 2015). no sentido de que a todos deve ser estendido o direito ao acesso à internet. 6º da Constituição. o governo está atuando de forma a viabilizar esse acesso à internet a todos os ci- dadãos do Brasil e. dando mais um passo ao desenvolvimento da sociedade de forma ampla. consequentemente.

da Resolução nº 614/ 2013. as seguintes características: I . § 1º O Plano de Serviço que contemplar franquia de consumo deve assegurar 281 ) . 63.valor da mensalidade e critérios de cobrança. o consumidor terá direito a um limite de uso da rede durante o mês. também conhecido como franquia. disponível no en- dereço contratado. e. Em- bratel. que juntas atendem 85. Vivo e Oi –. em uma cláusula adicional aos contratos firmados entre a prestadora do serviço e o consumidor. no novo modelo. Claro. II .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. in verbis: Art.5% dos 25.5 milhões de clientes de banda larga fixa no Brasil (G1. passariam a oferecer apenas planos com limite de dados no Bra- sil.) 3 A POSSÍVEL E INACEITÁVEL CLÁUSULA DE LI- MITAÇÃO DE DADOS Desde que os veículos de informação noticiaram que as prin- cipais operadoras de internet banda larga fixa – NET. no mínimo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. O Plano de Serviço deve conter. a operadora poderá reduzir a velocidade ou mesmo cancelar a co- nexão até o final do mês. quando aplicável. assim. A possibilidade de cobrança mediante restrição de dados está prevista no art. tanto de download quanto de upload. A limitação de dados consiste. para os fluxos de comunicação originado e terminado no terminal do Assinante.velocidade máxima. respeitados os critérios estabelecidos em regulamentação específica. 2016). texto digital. os usuários da rede começaram a se manifestar de forma des- favorável à nova proposta. III . M.franquia de consumo. que re- gulamenta o serviço de comunicação multimídia (SCM). Se esse limite for ultrapassado. assim como alguns órgãos públicos e entidades de classe. 63. da Anatel. Conforme as operadoras.

no entanto. 2016). ou. ou reduzirá a velocidade da conexão. videogame e tablet. sem cobrança adicional pelo consumo ex- cedente (ANATEL. o cliente teria a opção de contratar.) ao Assinante. M. condicionando seu restabelecimento ao pagamento de uma taxa adicional (DIAS. A aplicação da nova cláusula modifica drasticamente a atual forma de contratação do serviço de internet. mantidas as demais condições de prestação do serviço. texto digital. 282 ) . 2016). texto digital. SILVA. mediante: I . não há beneficiamento algum. Segundo o IBGE. o tamanho das famílias no Brasil gira em torno de três pessoas por domicilio (IBGE. No atual cenário em que os aparelhos eletrônicos conectados à internet dentro de casa são cada vez mais comuns. tex- to digital.pagamento adicional pelo consumo excedente. mas pela velocidade de conexão condicionada a um limite de dados mensais. Na prática. o limite de uso pode se tornar um pro- blema. a franquia poderá ser ultrapassada sem muito esforço (NU- NES. Atingido o limite dos 80Gb a operadora suspenderá o serviço de internet. a velocidade de 15mb com uma franquia de dados de 80Gb mensais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.redução da velocidade contratada. a continuidade da prestação do serviço. computador. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. texto digital. após um breve raciocínio se per- cebe que. 2016). II . A primeira vista a nova política de consumo pode parecer benéfica ao usuário. por exemplo. após o consumo integral da franquia contratada. 2016). de fato. porque a cobrança passa a ser realizada não mais pela velocidade de conexão. considerando-se que nesta família há um smartphone para cada um e que são compartilhados outros aparelhos conectados à internet via cabo ou Wi-Fi como TV.

para vídeos de melhor qualidade. redução das desigualdades regionais e sociais. até 2. com a li- mitação de dados. Diante da atual situação. criada pela Lei 9. conforme o art. livre concorrência. que deveria atuar de forma a evitar eventuais distorções no mercado como também na defe- sa do consumidor. em média. função social da propriedade. a agência reguladora impôs um condiciona- mento a eficácia da nova cláusula de limitação de dados. defesa do consumidor.3gb/hora. Consequentemente. os princípios constitucionais da sobe- rania nacional.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 2016). 2012).7gb/hora. Nesse sentido. o valor dependido pelo grupo familiar com o acesso à internet sofreria um aumento con- siderável. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. repressão ao abuso do poder econômico e continuidade do ser- viço prestado no regime público (BRASIL. Consideran- do o uso de banda simultâneo por duas ou mais pessoas de uma mesma família. texto digital. de modo que as operadoras disponibilizem ferramentas para que o consu- 283 ) . liberdade de iniciativa. a franquia logo se esgotaria. Na verdade.472/1997. com a função de órgão regulador das telecomunicações.) O serviço de streaming de vídeo prestado pela Netflix con- some. e. 0. a Anatel – Agência Nacional de Te- lecomunicações -. para vídeos de boa qualidade. indo de encontro à legislação que disciplina as rela- ções econômicas no setor de telecomunicações. a tendência é que seja necessário que cada mem- bro da família contrate uma assinatura para. tentar atender às suas necessidades. em especial. 5º. texto digital. 5º Na disciplina das relações econômicas no setor de telecomunica- ções observar-se-ão.3gb/hora para vídeos em HD (NETFLIX. assim. manifestou-se condescendente à iniciativa das operadoras. da LGT: Art. M. até 0.

2016). Claro.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor do Distrito Federal. do PRODECON . NET. o promotor Paulo Binicheski. que conta atualmente com cerca de 470 mil adeptos. cujo objetivo é impedir a concretização da nova políti- ca de cobranças pelas operadores de internet. simultaneamente. foi criada uma petição on-line na plataforma Avaaz. Assim. Anatel. Em seguida. porém sem êxito. está investigando a possibilidade de formação de cartel – prática que visa eliminar a concorrência de mercado . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.pelas principais operadoras de internet do país. Minis- tério Público Federal: Contra o Limite na Franquia de Dados na Banda Larga Fixa”.640. Diante da posição sustentada pela Anatel. uma nova e prejudicial política de dados 284 ) . e que as empresas já tentaram firmar um acordo comercial com a Netflix. o vetor de aplicação da limitação de dados consiste na obrigação de as opera- doras em: a) disponibilizar página na internet de acesso reservada ao consumidor. GVT . Além da inconformidade dos usuários. os usuários da in- ternet. Além disso. denominada “Vivo. e elas vêm sendo desbancadas pelo streaming” (G1.OI.000 assinaturas. estas empresas anun- ciam. M. cuja finalidade é barrar os serviços de streaming como a Netflix. texto digital. manifestaram seu descontentamento através das redes so- ciais.) midor possa acompanhar o consumo de dados. 2016). texto digital. b) criar e fornecer ferramenta de acompanhamen- to de consumo e c) informar ao consumidor que sua franquia se aproxima do limite contratado (G1. Bini- cheski argumenta que “Basicamente quase todas as empresas que fornecem TV por assinatura também fornecem acesso à internet. que conta com aproximadamente 1. criando uma página no Facebook intitulada “Movimento In- ternet Sem Limites”.

Até a conclusão desse processo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. tendo em vista “a relevância do acesso à Internet para os cida- dãos e para o desenvolvimento do País”. 2016). com base nas manifestações recebidas pelo órgão. suspender o serviço ou cobrar pelo tráfego 285 ) . além disso. texto digi- tal. e que não é admissível que a resolução de uma agência reguladora possa preponderar sobre uma legislação federal (UOL. con- troversa.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. M. e a pres- são das manifestações da população. Medida que pode ser considerada. está-se violando pelo menos duas leis federais (o Código de Defesa do Consumidor e o Marco Civil da Internet). no dia 18 de abril de 2016. João Rezende –. texto digital. o Conselho Di- retor da Anatel decidiu por meio de circuito deliberativo proposto pelo presidente da Agência. afirmou que a Anatel está criando normas permissivas às operadoras de internet para que “prejudiquem” os consumidores a partir do momento em que preveem o corte de sinal quando o cliente atingir o limite da franquia (G1. a Anatel publica. Apenas quatro dias após a referida publicação. e que este seria o período razoável para que o consumidor possa “identificar o seu perfil de consumo” (IMPRENSA NACIONAL. texto digital. mediante despacho do superintendente. 2016). todas as operadoras permanecerão proibidas de reduzir a velocidade. o qual não possui pra- zo determinado. O presidente da OAB – Ordem dos Advogados do Brasil -. 2016). após grande re- percussão da impopular medida adotada pelas operadoras. segundo a visão da OAB.) ao mercado. medida que suspende o corte ou limitação da internet por período de 90 dias. Claudio Lamachia. no mínimo. Recentemente. órgãos e conselhos de classe. Que. examinar o tema das franquias na banda larga fixa. Juridicamente a regulamentação proposta pela Anatel seria inconstitucional.

fluida demais e parece desconhecer o seu único papel que é o de regular as rela- ções de telecomunicações no país buscando a proteção do usuário. ainda que estas ações estejam previstas em contrato de consumo ou plano de serviço (ANATEL. não é possível vislumbrar um sentido na instituição de políticas públicas de inclusão digital. a visão privada e restritiva for prevalecida em detrimento a todo o processo de fomento já instituído. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. É insustentável que se assegure o acesso a rede como direito humano e. M. no mínimo.) excedente. a iminência de um retrocesso. Diante desse embate. a atuação da ANATEL deste momento parece ser insegura. Há. do fomento universal ao acesso à rede e comemoração da conquista da promul- gação do Marco Civil da Internet se. se construa barreiras econômicas que tolham tal acesso da maioria da população. texto digital. cabe proceder à análise da possibilidade de aplicação da nova clausula contratual frente ao ordenamento jurídico pátrio. Apesar de a proposta de aplicação franquia de dados aos con- tratos de acesso à internet se encontrar suspensa por tempo inde- finido. na contramão. 4 INCONSISTÊNCIAS DA CLAUSULA DE LIMITA- ÇÃO DE DADOS EM RELAÇÃO A LEGISLAÇÃO DE ACESSO À INTERNET NO PAIS. a fim de verificar as eventuais inconsistências e respectivas implica- ções aos direitos dos usuários de internet. Para tanto. ato contínuo. a análise será feita com fundamento na Constituição Federal. 2016).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. em razão de processo deliberativo pelo Conselho Diretor da Anatel. Código de Defesa 286 ) . Por outro lado.

Isso ocorre porque através do estudo à distância se possibilita maior flexibilidade ao aluno e também menos onerosidade. enfim. A Carta Constitucional logo em seu art. produção de conteúdo. a internet.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. o direito à livre expressão da atividade intelectual. dentre os quais. cerca de 25% das matrículas do ensino superior são na modalidade EAD – ensino à distância -. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Atualmente. legislação específica à internet. 2005). artística e científica e de comunicação (IX). conhecimento. Hoje. intera- ção em tempo real. As redes formadas ao longo da internet possibilitam ao ser humano o acesso à informação. a Carta Magna passa a tratar dos direitos sociais como a educação e o trabalho. 17. texto digital. encontram-se o direito da livre manifestação do pensamento (IV). Na sequência. Levando- -se em consideração a popularização dessa modalidade de ensino. o que até metade dos anos 1990 era intangível ao homem médio. a Constituição também assegura como fun- damentais os direitos elencados no art. que está for- temente vinculada com o acesso à internet. direito de acesso à informação (XIV). 287 ) . à dignidade humana. em seu art. possibilita uma imersão cultural. e a tendência é de que em poucos anos essa fatia pos- sa alcançar até 45% (SCHINCARIOL. 1º. p. inciso III. uma vez que esta possui um papel central na sociedade contemporânea.) do Consumidor e o Marco Civil da Internet. 2016). as políticas públicas de inclusão digital providas pelo governo estão incentivando cada vez mais os brasileiros a bus- car conteúdo no ciberespaço e a utilizar-se dele como ambiente de aprendizado e capacitação profissional. 5º e incisos. 6º. traz como um de seus fundamentos. M. porque as TICs e. especialmente. “fornecem novas capacidades a uma velha forma de organização social: as redes” (CASTELLS. Neste contexto.

o Código de Defesa do Consumidor e o Marco Civil da Internet inviabilizam a pretensão das operadoras. que. Seria uma violação clara aos direitos fundamentais e sociais do brasilei- ro.aos cursos supe- riores oferecidos na modalidade EAD.) atualmente tramita na Câmara dos Deputados o PL 5797/2009 (CAMARA DOS DEPUTADOS. consequentemente. cujo obje- tivo é normatizar a possibilidade de aplicação do FIES – Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior . fóruns online e videoconferên- cia. Do ponto de vista legal. considerando os sólidos investi- mentos do Governo em políticas públicas de inclusão digital.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. deve-se conceder maior destaque ao princípio do equilí- brio nas relações de consumo – segundo o qual diante da necessi- dade de equilíbrio na relação jurídica havida entre consumidor e fornecedor. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. além da Constituição. a imposição de cláusula que acarrete vantagem exage- rada a uma das partes e ao mesmo tempo onere excessivamente a outra deve ser considerada abusiva e ilícita. além de prejuízo ao erário. texto digital. M. No caso em análise. as operadoras visam instituir uma nova e mais severa forma de cobrança pelo fornecimento do mesmo serviço: o acesso à internet.e as bolsas do PROUNI – Programa Universidade para Todos . conceber a possibilidade de aplicar a limitação ao acesso da internet através de franquias de dados seria um retrocesso. 2016). refletem no FIES e no PROUNI. Segundo o 288 ) . Ao se tratar das relações de consumo. Ao se regu- lamentar à mitigação do acesso à internet através da nova política de franquia de dados é fragilizar os direitos constitucionais de cada usuário de internet no Brasil. deve-se interpretar o CDC de acordo com os seus princípios norteadores. Considerando-se a base do ensino à distância o acesso ao con- teúdo digital – vídeo aulas online. Em tese.

a pre- tensão de se regulamentar a limitação do acesso à internet pelas franquias de dados. 9º O responsável pela transmissão. 9º. in verbis: Art. O Marco Civil é contundente na defesa da neutralidade da rede . seus usos e costumes particulares e a sua importância para a promoção do desenvolvimento humano. legisla- ção específica ao ciberespaço. M. comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados. origem e destino. texto digital. 6º. permitindo assim acesso igualitário de informações a todos. Nesse sentido. dentre outros aspectos.requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada dos serviços e aplica- ções. ex- 289 ) .) Idec – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – a imple- mentação das franquias de dados à internet banda larga fixa implica em elevar o custo do serviço sem justificativa técnica. Em outras palavras. para a fiel execução desta Lei. sem distinção por conteú- do.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.] § 1º A discriminação ou degradação do tráfego será regulamentada nos termos das atribuições privativas do Presidente da República previstas no inciso IV do art. levando-se em consideração “a natureza da internet. o que impossibilita. social e cultural”. econômico. [. 2016). e somente poderá decorrer de: I . Neste contexto. hoje o direito ao acesso à internet é fundamental na promoção do desenvolvimento de toda a estrutura da sociedade brasileira. ouvidos o Comitê Gestor da Internet e a Agência Nacional de Telecomunicações. que deve ser interpretada. e II . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. A discriminação ou degradação do tráfego será possível.. terminal ou aplicação. conforme dispõe em seu art.. ou seja. sem quaisquer interferências no tráfego online -.uma filosofia que prega basicamente a democracia na rede. serviço. a discriminação do tráfego. 84 da Constituição Federal. há ainda o Marco Civil da Internet.priorização de serviços de emergência (BRASIL. o Marco Civil dispõe em seu art.

nos termos das atividades privativas do Presi- dente da república. Outro ponto que parece emergir do tema é a necessidade de maior intervenção do governo na economia a fim de evitar even- tuais distorções no mercado. uma vez que a imposição de barreiras ao acesso à internet. porém longe de esgotar a discussão.) cepcionalmente. resta por concluir nova- mente que a proposta de limitação do acesso à internet através da instituição de franquias de internet. 5 NOTAS CONCLUSIVAS Em linhas finais. ad- quirindo o status de direito social. A dis- criminação do tráfego somente poderá́ decorrer de requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada dos serviços e apli- cações e serviços de emergência. deve ser defendido incisivamente pelo ordenamento jurídico pátrio. mostra-se incompatível com as disposições jurídicas do ordenamento jurídico pátrio. por este motivo. Assim. é pos- sível tecer algumas considerações. aquelas que teriam seu direito obstado por motivação econômica. M. não importando em vinculação da presidência aos seus pareceres e opiniões. é que o acesso à internet passou a ocupar um papel central na sociedade contemporânea. ensejaria duas classes distintas de pessoas: as que teriam condições econômicas para ter assegurado o seu direito de acesso à internet e. A discussão a fim de viabilizar a seg- mentação do acesso à internet pelas operadoras é apenas mais um 290 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. por outro lado. Significa que o Comitê Gestor da Internet e a Anatel terão a premissa somente de “ser ouvidos”. Uma. a exemplo da possível instituição de franquia de dados no serviço de internet fixa banda larga. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. e que.

Disponível em: <http://www. desvencilhar-se de seu papel para se tornar condescendente ao lobby das operadoras de telecomuni- cações. é fundamental que a agência reguladora siga no sentido de dar suporte às políticas públicas de inclusão digitais promovidas pelo governo. Câmara dos deputados.gov. Disponível em: <http://www. Disponí- vel em: <http://www.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposi- cao=445184>.gov. e a redução das desigualdades regionais e sociais.planalto. 2016.gov. ao que a Economia denomina de cartel – que neste caso. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. é a possibilidade destas poucas empresas que juntas a maior parcela do setor de telecomunicações. 5797/2009. Disponível em:<h- ttp://www. 2016 BRASIL. a liberdade de iniciativa. Neste momento de conflito de interesses. Projeto de lei n.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. manipularem o mercado com o fim de eliminar a concorrência para otimizar o lucro. Acesso em: 21 abr. REFERÊNCIAS ANATEL. 9. a defesa do consumidor. parece. 2016. A agência criada pelo governo para regular o setor de telecomunicações de forma a observar a função social da pro- priedade.br/ccivil_03/leis/L9472.gov. BRASIL. Resolução nº 614.planalto. htm>. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Acesso em: 291 ) .htm>.) exemplo de situação que cede lugar a uma possível falha de mer- cado. de 28 de maio de 2013.br/legislacao/resolucoes/2013/465-resolucao-614>. BRASIL. Acesso em 26 abr.472 de 16 de julho de 1997. em alguns momentos. Lei Geral de Telecomunicações. a livre concorrência.camara. Lei n. M. e não ir de encontro a elas. Acesso em: 25 abr. Outro aspecto é a fragilidade da Anatel frente à pressão do mercado.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado. anatel.

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Bolsista CAPES/PROSUP (Tipo II). APORTES PARA UMA TEORIA DO CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE NO BRASIL: O CASO GOMES LUND E AS IMPLICAÇÕES RESULTANTES DA CONDENAÇÃO BRASILE- IRA PELA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS1 Felipe Dalenogare Alves2 e Leopoldo Ayres deVasconcelos Neto3 1 Este trabalho é resultante das atividades do projeto de pesquisa “Dever de proteção (Schutzp- flicht) e proibição de proteção insuficiente (Untermassverbot) como critérios para o controle jurisdicional (qualitativo) de Políticas Públicas: possibilidades teóricas e análise crítica de sua utilização pelo Supremo Tribunal Federal e pela Corte Interamericana de Direitos Humanos”.br. em Gestão Pública Municipal pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM e em Educação em Direitos Humanos pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. onde os autores atuam na condição de participantes.RS . Especialista em Direito Público pela Universidade Cândido Mendes – UCAM. Membro docente do Instituto Brasileiro de Direito – IbiJus. E-mail: felipe@ estudosdedireito. desenvolvido junto ao Centro Integrado de Estudos e Pesquisas em Políticas Pú- blicas – CIEPPP (financiado pelo FINEP). ligados ao Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Membro do Grupo de Pesquisa “Jurisdição Constitucional Aberta”. 3 Mestrando em Direito Constitucional e Políticas Públicas pelo Programa de Pós-Graduação em Direito (Mestrado e Doutorado) da Universidade de Santa Cruz do Sul . Professor no curso de Direito da Facul- dade Antonio Meneghetti – AMF. 2 Doutorando e Mestre em Direito pelo Programa de Pós-Graduação em Direito (Mestrado e Doutorado) da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC (Capes 5).com.UNISC . financiado pelo CNPq (Edital Universal – Edital 14/2014 – Processo 454740/2014-0) e pela FAPERGS (Programa Pesquisador Gaúcho – Edital 02/2014 – Processo 2351-2551/14-5). ligado ao PPGD da UNISC. vinculado e financiado pelo CNPq e à Academia Brasileira de Direito Constitucional ABDConst. A pesquisa é vinculada ao Grupo de Pesquisa “Jurisdição Constitucional aberta” (CNPq) e desenvolvida junto ao Centro Integrado de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas – CIEPPP (financiado pelo FINEP) e ao Obser- vatório da Jurisdição Constitucional Latino-Americana (financiado pelo FINEP).

Advogado. A preocupação com o estabelecimento de um Sistema Inte- ramericano de Direitos Humanos (SIDH). vincula- do e financiado pelo CNPq e à Academia Brasileira de Direito Constitucional ABDConst. M. compa- tibilizando o ordenamento jurídico interno não só à Constituição.com.) 1 INTRODUÇÃO O presente estudo expõe o resultado de uma pesquisa bi- bliográfica. Especialista em Direito Penal e Processo Penal pela Faculdade Damásio de Jesus. como li- berum voluntatis arbitrium. o que desencadeou a aplicação de um controle de con- vencionalidade.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. pacta sunt servanda e bonam fidem.br 296 ) . ao mesmo tempo. realizada com base no método dedutivo (fins de abor- dagem) e monográfico (fins procedimentais) sobre a temática do controle de convencionalidade exercido pela Corte Interameri- cana de Direitos Humanos (CIDH) e pelos juízes e tribunais dos Estados-partes da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH). E-mail: lacvasconcelos@ terra. calcado em princípios do direito internacional. promoção e responsabilização (com a consequente reparação) pela violação a estes direitos. tem sido um dos principais objetivos e. quanto à Corte Interamericana de Direitos Humanos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. desafios tanto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. de- senvolvido junto ao Centro Integrado de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas – CIEPPP (financiado pelo FINEP). tratados e convenções de que o Brasil seja signatário. com Bolsa Capes. O controle de convencionalidade nasce da necessidade de observância dos instrumentos internacionais de que o Estado seja parte. Membro do Grupo de Pesquisa “Jurisdição Constitucional Aberta”. ainda pouco conhecido e estudado no Brasil. ligado ao PPGD da UNISC. objetivando a proteção. (CAPES 5). mas também aos acordos.

como um breve aporte teórico sobre o controle de convencionalidade. focando-se no seguinte problema: quais os principais desafios. objetivando a proteção. desafios tanto à Comissão Interamericana de 297 ) . para a realização/acei- tação de um controle de convencionalidade a partir do caso Gomes Lund? Para tanto. a fim de garantir que a Lei nº 6. M. a ado- ção de todas as medidas que sejam necessárias.) Assim. a Corte. serão abordados os principais aspectos referen- tes ao tema. tem sido um dos principais objetivos e. a pesquisa justifica-se pela ne- cessidade de um estudo que aborde pontos essenciais que con- tribuam à colaboração na construção de uma teoria do controle de convencionalidade. tanto externo. no contexto brasileiro. realizar-se uma análise do caso Gomes Lund e os reflexos para o controle de convencionalidade no Brasil. quanto interno. 2 POR UMA TEORIA DO CONTROLE DE CONVEN- CIONALIDADE: O PAPEL DO SISTEMA INTERAME- RICANO DE DIREITOS HUMANOS A preocupação com o estabelecimento de um Sistema Inte- ramericano de Direitos Humanos (SIDH). para. ao final. dentre outra providências. ao mesmo tempo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.683/79 (Lei de Anistia) não continue representando um obstáculo para a persecução penal de graves violações de direi- tos humanos que constituam crimes contra a humanidade.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. promoção e responsabilização (com a consequente reparação) pela violação a estes direitos. Estabelecidos estes aspectos. no caso Gomes Lund e outros versus Brasil re- comendou ao Estado brasileiro.

pelos Estados membros foi apro- 4 A Declaração Universal dos Direitos do Homem é tida como um dos mais expressivos do- cumentos a assegurar as mínimas condições e garantias visando a vida digna do ser humano. quanto à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Embora a positivação internacional seja fenômeno recente. a preocupação com a questão dos direitos humanos é antiga. sendo que. posteriormente. em 1948. como o fascismo e o nazismo. o tema dos direitos hu- manos passou a possuir status obrigatório no cenário internacional. cada continente veio a regulamentar a questão e criar seu sistema regional. tendo sido fruto de um processo que se inicia no pós-Segunda Guerra Mundial. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. africano e euro- peu de proteção aos direitos humanos. A partir daí. os quais buscam assegurar garantias mínimas ao bem-estar da pessoa humana. por sua vez. mas como foco do interesse comum de toda a humanidade. Os principais instrumentos internacionais de proteção desses direitos surgem. tendo sido ratificada pela maioria dos Estados mundiais. sendo considerado um marco histórico a partir do qual a proteção dos direitos humanos passou a ser tratada não mais como um assunto interno de cada Estado. o que cul- minou na criação das Nações Unidas. acarretou a formação de sistemas internacionais entre Estados voltados à proteção e garantia desses direitos.) Direitos Humanos. Esse processo de universalização dos direitos humanos. inicialmente. M. 298 ) . passou-se a serem elaborados instrumentos de âmbito internacional. Esse documento foi assinado em 10 de dezembro de 1948 no âmbito da Assembleia-Geral das Nações Unidas. Como consequência dessa preocupação. como uma tentativa de se evitar a repetição das violações cometidas por sistemas totalitários. cujo exemplo mais latente é a Declaração Universal dos Direitos do Homem4. Nesse contexto. surgindo então os sistemas americano. por proposta da Organização dos Estados Americanos – OEA.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.

sendo que. com a obrigação de adotar todas as medidas internas necessárias ao cumprimento do Pacto. a qual. M. ao ratifica- rem a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH). 299 ) . processar e julgar Estados por violações à defesa e garantia dos direitos humanos do cidadão no âmbito do continente americano5. foi finalmente aprovada a Convenção Americana sobre Direitos Humanos. tendo esta última competência jurisdicional para decidir o caso com base imperativamente na CADH. sendo de competência da primeira realizar um juízo de admissibilidade da causa. se admitida. em 1959. com competên- cia consultiva e contenciosa. os quais estabelecem as obrigações de respeito e garantia aos direitos nela elencados. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. tal docu- mento somente entrou em vigor em 1978. os Estados-partes (dentre eles o Brasil). popularmente conhecida como Pacto de São José e Costa Rica. Porém. tendo em vista a neces- sidade de que. em especial. Dez anos após a criação da Comissão. sendo que. 11 Estados membros da OEA a ratifi- cassem. em 1979. permitindo. dos direitos humanos. será encaminhada para apreciação da segunda. Tal instrumento disciplina de forma detalhada todos os deveres dos Estados-membros quanto à garantia de direitos. a Comissão Interamericana de Direitos Humanos e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. foi criada a Corte Interamericana de Direitos Humanos.) vada a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem. firmaram o compromisso previsto em seus artigos 1º e 2º. órgão competente para exa- minar reclamações encaminhadas por indivíduos contra Estados- -membros do sistema interamericano por eventual violação dos direitos humanos por parte desses Estados. 5 O Sistema Interamericano de proteção aos direitos humanos se apresenta como um sistema bifásico formado por dois órgãos distintos e com competências bem definida. órgão jurisdicional do sistema.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. foi criada a Comis- são Americana de Direitos Humanos. Assim. no mínimo. assim.

Esta relação entre o Sistema Interamericano de Direitos Humanos e os Estados-partes. uma lógica complexa. há de se dizer que o cumprimento das obrigações de respeito. de 1969. 300 ) . em que este mencionou a neces- sidade das disposições internas dos Estados-membros aderirem ao previsto na CADH (HIT- TERS. julgado em 25 de novembro de 2003. 105). como aponta Bazán (2011. p. uma relação pacífica e linear. pela primeira vez. a qual estabe- lece que o Estado-parte não poderá invocar disposições de direito interno para justificar o inadimplemento às disposições assumidas por ocasião da ratificação de um tratado internacional. assentou a necessidade de realização de um Controle de Conven- cionalidade por parte dos juízes e tribunais dos Estados-partes da CADH (SAGÜÉS. no caso Myrna Mack Chang v. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. não sendo. Para tanto. a jurisprudência da Corte tem estabelecido o entendimento de que. p.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. ainda que haja precedentes pon- tuais em votos isolados de alguns juízes6. 2012.110). que a Corte Interamericana de Direitos Humanos. julgado em 26 de setembro de 2006. garantia e adequação do sistema interno à CADH só será possível com o estabelecimento de um agir estatal adequado às normas de direitos humanos.) Esta necessidade de adoção decorre do artigo 27 da Conven- ção de Viena sobre o Direito dos Tratados. Guatemala. principalmente entre a Corte e os tribunais nacionais (diálogo interjurisprudencial) compõe. No cenário interamericano. p. M. foi no caso Almonacid Arellano e outros v. Nesse sentido. a aplicação de uma norma interna com ela incompatível ou a falta de adaptação do ordenamento interno e das condutas estatais constituem-se como violação ao Pacto (RIVAS. sem- pre. Chile. 2010. 6 A exemplo. se um Estado ma- nifesta sua intenção em cumprir a Convenção. p. 118). 67). 2009. destaca-se o voto do juiz Sergio García Ramírez.

muitas vezes. posteriormente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. A segunda consiste na derrogação das nor- mas internas com ele incompatíveis. A primeira é a necessidade de incorporação das normas con- vencionais ao ordenamento jurídico interno. é su- ficiente para sua aplicação direta. promovendo-se uma harmo- nização entre o ordenamento interno e o convencional8. 68) sintetiza qua- tro ações que apresentam maior resistência de cumprimento (e até controvérsias) por parte dos Estados-partes. a fim de precisar a atual situação em que o Estado-parte se encontra na efetivação de tais direitos. M. por sua vez. entendemos que a ratificação. são menosprezadas por ir de encontro aos distintos interesses políticos. com posterior promulgação do decreto. den- tre outros.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. A terceira demanda a realização de um diagnóstico acerca da atual situação dos direitos por ele regulados. permitindo. A quarta. em todos os níveis do Poder Público. 8 Mais uma vez. a aplicação do tratado7. todas extraídas da jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos. com o objetivo de aferir. p. mas por intermédio de uma aplicação herme- nêutica. para que. hajam medidas de prevenção 7 Neste ponto.) Isso porque a mesma disposição que o Estado apresenta ao assinar um tratado internacional não tem sido verificada no mo- mento de adotar as medidas necessárias para a sua concreta efeti- vação no plano interno. sociais. aplicando-se a norma mais favorável ao homem (princípio pro homine). Dentre estas medidas. 301 ) . sem adentrarmos na discussão que poderia cercar o tema (eventual necessidade de lei que regulamente o tratado). estagna- ção ou retrocesso na sua tutela. culturais. acarreta a necessidade de reorganização das competências estatais. assim. se houve progresso. servindo o principio pro homine como um instrumento para a realização de uma hermenêutica de integração entre as normas con- vencionais e internas. religiosos. principalmente por demandar uma série de ações que. Carbonell (2013. que encontram-se envolvidos no contexto do Estado signatário. salientamos que esta derrogação não necessariamente deve ocorrer de forma expressa (revogação por parte do legislador).

os quais devem ser assegurados não apenas pela jurisdição interna (controle interno). No tocante ao Estado brasileiro. pode-se dizer que o controle externo de con- vencionalidade é aplicado pelas Cortes Internacionais. em cada Casa do Congresso Nacional. a exemplo 9 Atualmente apenas a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo foram aprovados com o coro especial. A presença de normas de reconhecimento e aceitação do di- reito internacional em nossa Constituição reforça a força norma- tiva dos direitos previstos e assegurados nos instrumentos inter- nacionais de que o Estado brasileiro seja parte. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 302 ) . no sentido da máxima efetivação dos direitos e garantias neles previstos. ou dos tratados interna- cionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”. M. p. bem como o apare- lhamento estatal para investigação. o país comprometeu-se a observar e cumprir os dispositivos internacio- nais de que é parte. do mesmo artigo. 68). 152). § 2º). promulgados pelo Decreto nº 6. 2012a. O parágrafo 3º. serão equivalentes às emendas constitucionais”9. es- tabelecendo que “os tratados e convenções internacionais sobre di- reitos humanos que forem aprovados. 5º. por três quintos dos votos dos respecti- vos membros. em dois turnos. Desse modo. punição e reparação às even- tuais violações (CARBONELL. 2013. ao petrificar em sua Constituição (Art. não se pode desconsiderar que.949. operacionalizou a incorporação dos dispositivos internacionais que versem sobre direitos humanos. acrescido pela Emenda Constitucional nº 45/2004. de 25 de agosto de 2009. mas também por tribunais internacionais/regionais (controle ex- terno) (ALCALÁ.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. que os direi- tos e garantias nela expressos “não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados. p.) às violações dos direitos previstos no tratado.

1168). México (2009). Sarayaku vs. Guatemala (2001). as quais transcendem os efeitos às partes envolvidas no caso concreto em análise. analisando se alguma norma ou ato (omissivo ou comissivo) do Estado demonstra-se incompatível com a CADH. 10 Defende-se a concepção de que a aferição da convencionalidade não se esgota apenas na norma. determinando. Este controle se desenvolve. a exemplo da decisão objeto de análise na última seção deste trabalho12. 303 ) . González y otras (“Campo Algodonero”) vs. p. 2012b. p. Yatama vs. Guatemala (2014). 2015. 2011. Nicaragua (2005). Comunidad Indígena Yakye Axa (2005) y Sawhoyamaxa vs. 81). c) Niños/as: “Niños de la Calle” (Villagrán Morales y otros) vs. 68). Perú (2006).). M. Paraguay (2006). Um dos traços marcantes nas decisões da Corte Interameri- cana de Direitos Humanos tem sido o que se convencionou cha- mar de sentenças estruturantes11. ver: BAZÁN. os quais devem ser observados e aplicados pelos Estados-partes (CARBONELL. b) Mujeres: Penal Miguel Castro Castro vs.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Chile (2014). predominantemente. suprima ou derrogue suas nor- mas ou atos julgados inconvencionais (ALCALÁ. Paraguay (2004). estendendo-se aos critérios interpretativos conferidos pela jurisdição internacional. Bogotá: Fundación Konrad Adenauer. 11 A respeito. como obrigação de resultado. Surinam (2007). Fernández Ortega (2010) y Rosendo Cantú vs. Saramaka vs. República Dominicana (2005). modifique. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. por inter- médio dos julgamentos de casos concretos. a plena vigência e força normativa da referida convenção (BAZÁN. mas estendeu efeitos para que se obtivesse uma atuação preventiva e corretiva a fim de que tais violações não voltassem a ocorrer: “a) Indígenas: Mayagna Awas Tigni (2001). 12 É possível identificar um considerável número de decisões em que a CIDH não se ateve apenas ao caso concreto. objetivando além da já dita máxima eficácia dos direitos humanos. Ecuador (2012). por sentença. México (2010). Víctor (Ed. Veliz Franco y otros vs. a fim de determinar a compatibilidade ou não do direito interno (ou atos gerais dos agentes pertencentes aos Estados-partes) às disposições conven- cionais. que o Estado-parte. “Instituto de Reeduca- ción del Menor” vs. Justicia Constitutio y Derechos Fundamentales: la pro- tección de los derechos sociales – las sentencias estructurales. que o realiza tan- to em sede consultiva quanto contenciosa. Norin Catrimán y otros vs.) da Corte Interamericana de Direitos Humanos – no caso da Con- venção Americana sobre Direitos Humanos10. Niñas Yean y Bosico vs. p. 2013.

como determinações específicas quando o poder público esteja deixando Mendoza y otros vs. 304 ) . 17). com a execução e desaparecimento forçado de determinadas pessoas ou grupo de pessoas. 17). mas também o contexto social e institucio- nal (estrutural) em que esse surgiu e adquiriu sentido. Panamá (2010). p. Colombia (2005). Ecuador (2011). República Dominicana (2014). 14 Torna-se importante dizer que estas medidas podem aparecer de forma cumulativa. Chile (2012)”. f) Desplazados: “Masacre de Mapiripán” vs. 129). Argentina (2013). 2015. tem sido possível observar na atuação da CIDH. como será visto no próximo tópico. em um contexto de violações massivas e sistemáticas de direitos humanos. 13 Observa-se que o caso objeto de análise no presente trabalho se coaduna à primeira obser- vação de Abramovich (2009) – execução e desaparecimento de pessoas. tentando se estabelecer o alcance desses direitos. República Domini- cana (2012). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. tem sido não apenas um dos fins da Corte. Colombia (2013). 2009. o segundo. (ROJAS. seja na com- patibilização da jurisprudência dos tribunais pátrios.) A capacidade de guiar e influenciar os Estados democráticos por intermédio da apreciação de casos concretos. g) Orientación sexual: Atala Riffo y Niñas vs. a CIDH tem analisado. relacionado aos regimes militares e ao terrorismo de Estado. Comunidades Afrodescendientes Desplazadas de la Cuenca del Río Cacari- ca (Operación Génesis) vs. seja na indução de políticas públicas. d) Privados de libertad: “Instituto de Reeducación del Menor” vs. M. 2009. Em virtude disso. não apenas o caso concreto. Honduras (2012). algumas medidas características em suas sentenças14. e) Migrantes: Vélez Loor vs. p. sendo. Venezuela (2006). Para atingir sua consecução. alterna- da ou até complementares e que não necessariamente catalogam um rol taxativo característico de tais decisões.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. relacionado com a discriminação e violência contra determinados grupos sociais em situação de vul- nerabilidade13 (ABRAMOVICH. no de- sempenho do controle concentrado de convencionalidade. Pacheco Teruel y otros vs. Vera Vera y otra vs. “Masacre de Pueblo Bello” vs. p. Nadege Dorzema y otros vs. Paraguay (2004). (grifou-se). Personas dominicanas y haitianas expulsadas vs. Colombia (2006). o primeiro. Esta atuação pode ser vista em dois momentos. já. mas também um de seus principais desafios (ABRAMOVICH. Montero Aranguren y otros (Retén de Catia) vs.

tratando-se de direitos humanos. adentrando na sua margem de discricionariedade. 5º.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. determinações em um nível mais avançado. devendo-se proceder.) de cumprir uma obrigação pontual e concreta. ad- ministrativos e judiciais). 5º. neste caso. 122). impondo soluções concretas. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. dentro da qual deve ocorrer o cumprimento. 2011. ordens para que ele atue. § 2º. a uma conformação às normas con- vencionais. mas o estabelecimento de um marco. em caso de omissões contumazes. 2015. além da conformi- dade à norma constitucional. deixando o direito sem proteção. dentro dos limites discricionários legalmente conferidos. uma espécie de moldura. inclu- sive com a fixação de prazos. Significa dizer que o Estado-parte está diante de um novo paradigma vertical de conformação de seus atos (legislativos. da Constituição). p. quando cumpra de forma ineficiente ou incompleta suas obriga- ções. no sistema brasileiro. as quais. uma vez que necessária a compati- bilização interna de todos os atos do Poder Público às convenções internacionais que versem sobre direitos humanos e aos cânones interpretativos estabelecidos em sede de controle externo. 68). e. p. M. sendo que. em busca da concretização do direito (FERRAND. por conta dos tribunais internacionais/regionais (BAZÁN. da Constituição) ou formalmente equiva- lentes às emendas constitucionais (Art. que impõe o desafio de sua aplicação/acei- 305 ) . ou possuem status de normas materialmente constitu- cionais (Art. Reconhece-se que o controle de convencionalidade causa im- pactos em um contexto não familiarizado. não há uma determinação com um con- teúdo preciso. O primeiro (objetivo) é de ordem normativa. O controle interno de convencionalidade se aplica em sede nacional. por conta dos juízes e tribunais locais (sem excluir-se as demais autoridades públicas). § 3º.

que aborda o caso Gomes Lund e outros v. o movimento come- çou a ser estruturado na segunda metade da década de 1960. à mudança de cultu- ra e forma de agir estatal. imprescindível tecer breves esclarecimentos acerca da Lei da anistia Brasileira. para poder operar o corpus iuris convencional. por exemplo. 306 ) . principalmente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a exemplo da Guerrilha do Araguaia15. a Lei da Anistia (Lei 6683/79) concedia perdão judicial a todos aqueles que tivessem vindo a co- meter crimes políticos durante esse período. devem se preparar e conhecer. Brasil. com o objetivo de combater o regime militar no Brasil (1964-1985). sejam eles militares 15 Formado por integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Estas dificuldades ficarão claras na análise que será realizada na seção a seguir.) tação no ordenamento interno (a exemplo da hierarquia dos tra- tados). Estes dois marcos conduzirão a outros dois impulsos. O segundo (subjetivo) é a imposição de que os operadores do direito. [s. por isso ficou popularmente conhecido como Guerrilha do Araguaia. tendo ocorrido às margens do Rio Araguaia. M.p]). no qual o Brasil foi condenado pela CIDH a uma série de medidas estruturantes. 3 O CASO JULIA GOMES LUND A PARTIR DAS PERSPECTIVAS DO SUPREMO TRIBUNAL FEDE- RAL E DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREI- TOS HUMANOS Em se falando de fatos ocorridos durante o período do regi- me militar. que constituem-se na aplicação de ofício do direito convencional por parte do juiz e o afastamento da aplicação de normas nacionais julgadas inconvencionais (LAZ- CANO. com reflexos. Pará e Maranhão fazem divisa. Pu- blicada Em 28 de agosto de 1979. 2015. os juízes.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. onde os Estados de Goiás.

Segundo o governo da época da pro- mulgação da lei (ainda militar). ocorreu durante tal período.) ou insurgentes do regime. que considera como conexos e igualmente per- doados os crimes “de qualquer natureza” relacionados aos crimes políticos ou praticados por motivação política no período de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. na ação. tratando-se de uma clemência soberana adotada para a pacificação dos espíritos. buscando punir os responsáveis pelas violações ocorridas à época. estupro e atentado violento ao pudor contra opositores. Questiona-se perante o STF uma interpretação mais clara acerca da expressão “de qualquer natureza” contida no artigo pri- meiro da referida lei. o objetivo da lei era beneficiar os perseguidos pelo regime. Por isso. 307 ) . M. pela declaração da inconstitu- cionalidade da Lei da Anistia. abuso de autoridade. Nesse contexto. Protocolada pela Ordem dos Advogados do Brasil. tem- -se que a lei definiu anistia como um ato pelo qual se extinguem as consequências de um fato punível. nenhum militar poderia ser julgado e condenado por crime político cometido durante o regime. desaparecimento forçado. a qual concede anistia aos autores de crimes políticos e seus conexos. de fato. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Assim. tendo em vista que exilados políticos e presos àquela época poderiam voltar para casa. conferindo ao anistiado o status de jamais poder ser condenado pela prática de um crime ao passo que carrega consigo a ideia de esquecimento. lesões corporais. a qual possibilitaria as devidas inves- tigações a respeito do que. a ADPF- 153 contesta a constitucionalidade do artigo primeiro da Lei da Anistia brasileira. Postula-se que esse perdão não se estenda aos crimes comuns praticados por agentes públicos (militares e po- liciais) acusados de homicídio. peticiona-se.

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. o STF jul- gou improcedente a ADPF nº 153. dotada de abstração e generalidade. pela opinião pública. e com apoio de outros seis ministros. Há de ser interpretada a partir da realidade no momento em que foi conquistada. Para quem não viveu as jornadas que a antecederam. p. confirmando a constituciona- lidade da Lei de Anistia brasileira. a entidade chama de “aber- rante desigualdade” o fato de a Anistia servir tanto para delitos de opinião. O STF. tais como a dignidade da pessoa humana (artigo 1º. Não obstante ao pedido principal da ação. a proibição de tortura ou tratamento desumano ou degradante (artigo 5º. a segurança (artigo 5º. bem como pelo fato de tal lei ter decorrido de uma construção social. a liberdade e a integridade pessoal cometidos contra esses opositores. quando do julgamento da ADPF nº 153.) Em trecho da exordial da ADPF 153. 308 ) . M. 50: “A chamada Lei da Anistia veicula uma decisão política naquele momento – o momento da transição conciliada de 1979 – assumida. apoiada. caput). estes cometidos por pessoas contrárias ao regime. ain- da. A Lei no 6. e. a qual não poderia ser de outra forma senão imbuída de generalidade e abstração16. III). a vida (artigo 5º.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. a inconstitucionalida- de da Lei Federal decorre da violação aos preceitos fundamentais da Constituição Federal de 1988. por se tratar de uma lei necessária. caput). inclusive. e.683 é uma lei – medida. os quais poderiam revelar a identidade de possíveis violadores. Não obstante todos os argumentos apresentados. ao mesmo tempo. não uma regra para o futuro. ainda é pleiteada a publicização de todos os documentos e relatos escritos referentes a tal período. para os crimes violentos contra a vida. III). a vista 16 Trecho extraído do voto do Ministro Eros Graus. decidiu pela constitucionalidade da lei por levar em conta o período em que ela foi criada. na medida em que não se pode admitir e aceitar o ar- gumento do Estado brasileiro de que o segredo em relação a esses documentos e identidades dessas pessoas se justifica pela paz e se- gurança da própria sociedade. Sendo assim. dentre tantos outros. Eros Graus. sob relatoria do Min.

perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos (doravante denominada “a Corte” ou “o tribu- nal”). Busca-se. tor- tura e desaparecimento forçado de cerca de 70 pessoas. não as tendo vivido. O caso. como resultado das ações promovidas pelo exército brasi- leiro entre os anos de 1972 e 1975. com o objetivo de erradicar o movimento opositor ao regime. à informação. por sua vez. 17 Órgão do Sistema Interamericano responsável pela análise prévia de qualquer demanda que venha a ser submetida à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Brasil” ou simplesmente como “Guerrilha do Araguaia”. sobre a detenção arbitrária. Ainda. a ruptura com o regime militar e o ingresso do país na ordem democrática. busca-se sim- plesmente a verdade. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. passar pela Comissão. perante o tribunal internacional. à investi- gação justa. postula-se seja determinado que o Brasil proceda à devida investigação e elucidação dos fatos. sendo que. com a publicização dos arquivos relativos a tal período. conheci- do como “Gomez Lund e outros v. o apontamento dos reais vilões.) de seu objetivo maior. à memória. Enfim. para uma demanda chegar à análise da Corte. No âmbito internacional. como se não houvesse sido”. persegue-se o direito à dignidade. M. é submetido à referida Corte a fim de que seja declarada inconvencional a Lei de Anistia promulgada pelo Estado brasileiro.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. a qual poderá ou não submeter o caso à apreciação da Corte. deve. nada mais que a garantia do direito à verdade. não conhece a história. previamente. com base no relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos17. para quem é assim a Lei 6683 é como se não fosse. ou seja. o Estado brasileiro é novamente demandado acerca da con- vencionalidade da já mencionada Lei da Anistia. dentre estas. A Corte. membros do Partido Comunista do Brasil e camponeses da região. um pedido de desculpas. ora. recomendou ao Estado ou. Pode ser entendida como um órgão 309 ) .

ainda. que o Brasil reconheça publicamente a responsabilidade pelos desaparecimentos forçados das vítimas da Guerrilha do Araguaia. os quais irão revelar detalhes das opera- ções militares ainda desconhecidos por todos. Dentre outras disposições. a fim de garantir que a Lei nº 6.683/79 (Lei de Anistia) não continue representando um obstáculo para a persecu- ção penal de graves violações de direitos humanos que constituam crimes contra a humanidade. de admissibilidade. M. a fim de identificar os responsáveis por tais violações e sancioná-los penalmente. 310 ) . dentre outra providências. referiu acerca da importância de o Estado brasileiro reconhecer o ocorrido na Guerrilha do Ara- guaia como um crime contra a humanidade. promovendo uma investigação judicial completa e imparcial dos fatos com observância ao devido proces- so legal. ressaltando a ideia de que tais crimes não são suscetíveis de anistia e são imprescritíveis. a Corte ressaltou. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. informações estas que poderão ser capazes de indicar os exatos locais onde foram enterrados os corpos das vítimas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Recomendou. publicando os resultados dessa investi- gação. ainda. em sua decisão. a importância e o dever do Estado brasileiro de publicar todos os documentos referentes a tal período. o dever de promover atos simbólicos para lembrar a memória das vítimas. A Corte. promovendo um pedido de desculpas público a toda a população brasileira. o dever de reparar financeira- mente eventuais sobreviventes e as famílias das vítimas. adotar todas as medidas que sejam necessárias.) brasileiro.

acerca do caso da Guerrilha do Araguaia. M. a invalidação da Lei da Anistia brasileira. sob pena de. por meio da ADPF nº 153 confirmada pelo STF. em 1979. no sentido de possibilitar ao povo brasileiro que exerça seu direito à memória. de forma prática. o Estado brasileiro deve reconhecer. Desse modo. qual seja. A contraponto. como. não se pode negar que o Brasil vem desenvol- vendo políticas públicas e ações no sentido de resgatar a verdade. a legitimidade da sentença da CIDH.) 4 CONCLUSÃO Não obstante as atitudes adotadas pelo governo brasileiro para resgate e valorização de sua própria história18. a qual vem cumprindo importante papel na investigação e busca de soluções para os casos 18 Conforme o Ministério da Justiça (2011). atenta de forma direta e expressa aos direitos humanos consagrados e garantidos. em não o fazendo. “O Brasil tem avançado muito na proteção aos direitos humanos. a qual impede que sejam investigados e punidos aqueles que cometeram violações durante o regime militar. A Lei de Anistia. julgada constitucional pelo STF.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 311 ) . instituída pela Lei 9. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ainda persiste um grande obstáculo a ser transposto para assentar o efetivo cum- primento da decisão exarada pela CIDH. continuar incorrendo em violação de direitos humanos. oportunidade em que é pertinente citar o trabalho de- senvolvido pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. promulgada no regime militar.140/1995. a fim de compatibilizar seu ordenamento interno (Lei da Anistia) à Convenção Americana e à interpretação que a Corte tem estabelecido a ela. a Convenção Americana dos Direitos Humanos e a própria CF/88. sem medo de descobrir/conhecer a sua própria história”. por exemplo. tanto no âmbito interno. quanto externo. e.

ALCALÁ. Víctor.) de desaparecimentos e mortes de opositores políticos por autori- dades do Estado durante o regime. Los desafíos del control de convencionalidad del corpus iuris interameri- cano para las jurisdicciones nacionales. _____. bem como promoveu um pedido de desculpas públicas à nação em vir- tude dos ocorridos e. à compa- tibilização do ordenamento interno (Lei de Anistia) à norma con- vencional e à jurisprudência firmada pela CIDH. In: Revista Internacional de Derechos Humanos. 2012a. cumprir a decisão da Corte. 2009. com a aprovação da Lei 9. 312 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. também. restando. Humberto Nogueira. 6. ainda. de forma ainda tímida. está tentando. todas medidas estruturantes determinadas pela Corte em sua decisão. criou um memorial em nome das ví- timas da guerrilha. Santiago de Chile: Librotecnia. pode-se concluir que o governo brasi- leiro. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.. n. 11. que o Estado implementou a dis- ciplina de Direitos Humanos no âmbito das Forças Armadas. Lincamientos de interpretación constitucional y del bloque constitucional de dere- chos. 2012b. In: Revista Chilena de Derecho. Por todo o exposto.. El uso del derecho convencional internacional de los derechos humanos en la jurisprudencia del tribunal constitucional chileno en el periodo 2006-2010. v. 39. Ciudad de Mexico: Instituto de Investigaciones Jurídicas de la UNAM. 45. 135. De las violaciones masivas a los patrones estructurales: nuevos enfoques y clásicas tensiones en el sistema interamericano de derechos humanos. _____. M.140/95 e com as medidas estru- turantes que vem tomando. n. v. n. o maior desafio. v.. É salutar destacar. Boletín Mexicano de Derecho Comparado. REFERÊNCIAS ABRAMOVICH. 2006c. 1.

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participante do Grupo de Estudos em Direito Industrial e Pro- priedade Intelectual .Marco regulatório para a proteção jurídica da inovação biotecnológica: o necessário equilíbrio entre a garantia dos direitos imateriais dos inventores/descobridores e o direito ao acesso ao produto das ‘novas tecnologias’. Pós Graduada em Grandes Transforma- ções dos Processos.Patologias Corruptivas do PPGD – UNISC. graduada em Ciências Jurídicas e So- ciais pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). simonelli@gmail. E-mail: <paty- ferr@gmail. pela UNISUL. Advogada Tributarista e Consultora Tributária para América Latina na Dell Computadores do Brasil Ltda. do PPGD – UNISC. graduada em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Admi- nistração Pública e Sociedade . E-mail: <ianaie.. integrante do Grupo de Estudos Estado. Advogada. O PRINCÍPIO REPUBLICANO E A POLÍTICA INDUTORA DO DESENVOLVIMENTO E DA INCLUSÃO SOCIAL POR MEIO DA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA NO BRASIL: UMA BREVE ANÁLISE Patrícia Tavares Ferreira Kaufmann1 Ianaiê Simonelli da Silva2 CONSIDERAÇÕES INICIAIS 1 Mestranda em Direitos Sociais e Políticas Públicas pelo Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado UNISC.com> 2 Mestre em Direitos Sociais e Políticas Públicas pelo Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado UNISC.com> .

3 Segundo Costa (2008) cloud computing. a partir do incentivo de políticas públicas tributárias na área das novas tecnologias. 317 ) . ou computação em nuvem (denominações que serão utilizadas como sinônimos ao longo deste artigo) é o modelo pelo qual o acesso aos recursos computacionais contratados pelo usuário ocorre remotamente. a qual outorga aos entes federados atribui- ções para instituição dos tributos nela previstos. representantes do povo. Nesse sentido faz-se importante a compreensão da ordem econômica. demonstra que o sistema jurídico funciona como indutor do desenvolvimento eco- nômico e social. onde se inserem as formas de intervenção estatal. gerenciamento ambiental e agricultura. via internet. pela qual o Estado busca facilitar deter- minadas condutas. reduzindo a tributação. importante verificar a sua vertente favorecedora. voltadas para o incentivo da indústria de softwares e cloud computing3 destinadas para o desen- volvimento na área de saúde humana. M.) O presente trabalho versa sobre o princípio republicano como garantidor ao papel de protagonista do regime democrático de governo aos cidadãos. embora a maioria das pessoas não se dê conta disso no seu cotidiano. mercados de interesse da maioria das pessoas. mediante o pagamento de taxa periódica com base no uso ou gratuitamente –. uma realidade que faz parte do cotidiano de todos os usuários da internet. também. da extrafiscalidade e das políticas públicas tributárias para o debate proposto. obedecendo aos seus ditames e às leis gerais em matéria tributária. Se estudará. pois a competência tributária é conferida às pessoas políticas. ou seja. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. em prol do desenvolvi- mento e a inclusão social. A ordem econômica na Constituição Federal. as competências tributárias e sua distri- buição na Constituição. de forma a gerar acesso a estes métodos e produtos a uma maior fatia da população.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. No que concerne à extrafiscalidade.

Por esses princípios. FILHO. também. numa República. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. As verdadeira dimensões deste acento devem ser buscadas. É ela que traça o perfil e as peculiaridades da República Brasileira. Além disso. M. Legislativo e Judiciário. O princípio republicano está contido no art. mas em nossa própria Carta Magna.. Segundo Carraza. “Sua existência não representa um risco para as 318 ) . é o protetor supremo de seus interesses ma- teriais e morais. são perpassados todos os demais princípios e regras. dele são derivadas. o Estado longe de ser o senhor dos cidadãos.. e seus desdobramentos teóricos..]” (CF. Intimamente ligado ao princípio da federação está o princípio republicano. apresenta-se como um processo de remodelagem do Estado Democrático de Direito em construção” (RODRIGUES. p. como se disse. lembra Rodri- gues e Filho (2010) que a periodicidade dos mandatos políticos e suas consequentes responsabilidades mandatárias.] o Republicanismo como teoria da forma de governo. não na História dos Povos. de forma que são os princípios de maior importân- cia na organização jurídico-política brasileira. 1º da Consti- tuição Federal. de forma que “[.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal. 1988). constitucionais ou infraconstitucionais. O regime republicano é caracterizado modernamente pela divisão do exercício dos pode- res Executivo. 2010. constitui-se em Estado Democrático de Direito [. quando prevê que “A República Federativa do Bra- sil.) 1 PRINCÍPIO REPUBLICANO E TRIBUTAÇÃO A Constituição da República Federativa de 1988 (CF/88) es- trutura-se em um Estado Democrático de Direito republicano e federativo. 28)..

93). desta forma de governo (art.) que. perante o STF (art. ato administrativo etc. p. 90). portaria.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 85.. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. pois há que se respeitar o princípio da igualdade. da CF) e a ca- racterização de crime de responsabilidade. A respeito de vantagens tributárias fundadas em privilégios estatais concedidos. a propositura. busca de igualdade substancial (RODRI- GUES. de modo efetivo ou potencial. a vulneração deste princípio pode ensejar a decretação de intervenção federal nos Estados-membros (art. VII. Em que pese o princípio republicano não tipificar uma ‘cláu- sula pétrea’ expressa... ve- nha a lesá-lo. IV. onde todos são iguais perante a lei.III. Ademais. da CF) (CARRAZA. FILHO. pelo chefe do Executivo. 66). decreto. p.]”. por meio violento. isto é. há que se referir que diante do princípio repu- blicano. p.. segundo Carraza (2000. de ação interventiva. a mudança. 2000. 2000. 319 ) . mas um verdadeiro penhor de suas liberdades” (CARRA- ZA. caso seja tentada. Como quer que seja. 2010. 34. é proibida a concessão de vantagens tributárias fundadas em privilégios de pessoas ou categorias de pessoas. E é através do princípio republicano que se busca a garantia de adoção e execução de políticas públicas diminuidoras das desi- gualdades sociais. pelo Procurador-Geral da Repúbli- ca.] eventual proposta de emenda consti- tucional tendente a abolir a forma republicana de governo poderá ser objeto de deliberação e de aprovação [. 30). p. 36. “a”.) pessoas. continua a ser um dos mais importantes de nosso direito positivo e “[. da CF). M. o desrespeito ao princípio republica- no pode acarretar a declaração de inconstitucionalidade de todo e qualquer ato emanado do Poder Público (lei.

O princípio republicano alcança a União. p. O princípio republicano leva a observar o princípio da destinação pública do dinheiro obtido mediante a tributação. precisa atender à igualdade material e não a meramente formal. Segundo Carraza. longe de ser imposta sem qualquer critério.. “[. proscrevem tais práticas” (2000. ou seja. 2000. arbitrariamente. é fácil se concluir que o princípio republicano leva ao princípio da generalidade da tributação. pelo qual a carga tributá- ria. M. Por outro lado. todas as pessoas políticas existentes no Estado Brasileiro..) Dessa forma. as pessoas políticas. Não obstante isto. conjugados. dos contribuintes. a profissão. 320 ) . devem ser instituí- dos e arrecadados sem se ferir a harmonia entre os direitos do Es- tado e os direitos de cada um do povo” (CARRAZA. 2000. O mesmo entendimento acima vale para as isenções tributá- rias: é vedado às pessoas políticas concedê-las levando em conta. o sacrifício econômico que o contribuinte deve suportar precisa ser igual para todos os que se acham na mesma situação jurídica. Municí- pios e Distrito Federal. as convicções políticas etc. Logo. “São os princí- pios republicanos e da igualdade que. sexo. ao exercitarem suas competências tributárias devem ter como norte a consecução do ‘interesse público primário’ (CARRAZA.88). Estados. p. como o de ver respeitado o princípio da proporcionalidade.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 90). no Brasil. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.] os tributos. obrigadas que são a adotar o princípio republicano. p. que bane qualquer tributação ditada pela irrazoabilidade ou pelo mero capricho dos operadores jurídicos (CARRAZA. o credo religioso.84). Assim. precisam. 2000). para ser alcançada a justiça tributária é ne- cessário a observância aos direitos fundamentais do contribuinte. ou seja. alcança a todos de forma isonômica e justa.

M. que enseja a participação da população na determinação das atividades estatais. solidificando a própria cultura social. de forma que a coletividade passa a se sentir respon- sável pelos atos políticos tomados. possibilitando ao Estado realizar o bem-comum da população. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Em consequência. forma-se um ciclo positivo de expansão do nível educacional. o arbítrio e o medo. é uma sociedade onde imperam a dominação. 78). (CARRAZA.] a República reconhece a todas as pessoas o direito de só serem tributadas em função do superior interesse do Estado. e ela pode ser melhor protegida pelo autogoverno dos cidadãos. portanto.) Dessa forma “[. Como salientando por Carraza: A finalidade. da República é garantir a liberdade.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Os tributos só podem ser criados e exigidos por razões públicas. o princípio republicano garante que a compe- tência tributária é conferida às pessoas políticas. O autogoverno dos cidadãos.. Uma so- ciedade em que o povo não participa das escolhas efetuadas pelos órgãos estatais não pode garantir os direitos de seus membros e. p. no centro do processo democrático. 321 ) . p. pelo povo. 75) Há teorias recentes que defendem que. quando é democra- tizado o acesso do povo aos cargos públicos e ele colabora na de- terminação das medidas governamentais. o dinheiro obtido com a tributação deve ter destinação pública” (CARRAZA. em última análise. p. 2000. 95). self-government. O processo educativo ultrapassa os limites da cidadania. 2000. desempenha ainda uma função educativa na visão de Carraza (2000.. Somente quando todos participarem das decisões políticas é que se pode assegurar o livre-arbítrio e a autodeterminação. Nesse sentido. que é o detentor por excelência de todas as competên- cias e de todas as formas de poder.

2010. 13) Importante mencionar que. acima de tudo. é expressiva de marcante transformação que afeta o direito. nas nossas Constituições. de um conjunto de normas compreen- sivo de uma ‘ordem econômica’. onde se inserem as formas de intervenção estatal. Nesse sentido se verifica que: A contemplação.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. M.) A participação ativa dos cidadãos na organização política se mostra. passando a funcionar como instrumento de implementação de políticas públicas (no que. E é pela extrafiscalidade que o Estado demonstra sua capacidade de exercer políticas tributárias com efeitos de política 322 ) . o direito eco- nômico preocupa-se com a análise das políticas públicas e não da tributação. (GRAU. fazendo com que as escolhas efetivadas sejam tomadas no espaço público. de resto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ainda que como tal não formalmente referido. como antídoto contra a despolitização da vida social. de- monstrando que o sistema jurídico funciona como indutor do de- senvolvimento econômico e social. p. operada no momento em que deixa meramente prestar-se à harmonização de conflitos e à legitimação do poder. retornando os cidadãos ao papel de protagonis- ta do regime democrático de governo. enquanto o direito tributário se ocupa do estudo dos tributos. 2 AS FORMAS DE ATUAÇÃO DO ESTADO EM RELA- ÇÃO AO PROCESSO ECONÔMICO Eros Grau (2010) aborda com propriedade as questões que versam sobre a ordem econômica na Constituição Federal. opera-se o esforço da função de legitimação do poder). da disciplina jurídica tributária e das limitações constitucionais ao poder de tributar.

M. pode-se utilizar a classificação de três modalidades de intervenção: por absorção. na esfera do privado (atua- ção na área de outrem). denominando-as de intervenção por absorção ou participação. Adentrando na questão do vocábulo do instituto da interven- ção. estimulando ou desestimulando certas atividades. 2006). Como se demonstrará ao longo deste estudo. em um ou outro sentido. enquanto atuação tem por significa- do ação do Estado tanto na área de titularidade própria quanto em área de titularidade do setor privado. p. há três modalidades de intervenção estatal. Aduz que toda atuação estatal é expressiva de um ato de intervenção. no campo da atividade econômica em sentido estrito.) econômica geral. p. o Estado intervém no domínio econômico. traduzida no atuar além da esfera do público. frisa Grau (2010. ou seja. 2010. através de uma política pública tributária econômica (AGUILLAR. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. agindo em regi- 323 ) . o Estado assume integralmente o controle dos meios de produção em determinado setor da atividade econômica em sentido estrito. 146-148) que. por direção. No pri- meiro. 91). e por indução. atua- ção estatal. Intervenção conota atuação estatal no campo da atividade econômica em sentido estrito.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. in- tervenção por direção e intervenção por indução. para referir atuação esta- tal no campo da atividade econômica em sentido estrito (domínio econômico). é pela indução que o Estado intervém no domínio econômico. Faz distinção entre intervenção e atuação estatal. Na modalidade de absorção. o que evidencia a interdisciplinaridade das duas disciplinas. Segundo Grau. desenvolvendo ação como agente econômico. ao referir que a primeira indica atuação estatal em área de titularidade do setor privado. ação do Estado no campo da atividade econômica em sentido amplo (GRAU.

que instrumentará toda a interpretação jurídica. o Estado intervirá sobre o do- mínio econômico. desenvolvendo ação como regulador dessa atividade. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Embora referidos princípios e objetivos sejam do- tados de elevado grau de abstração e generalidade. 2010. constituem pilares basilares a subsidiar o intérprete. harmonizando-as. funcional. segundo Peluso Al- bino de Souza.) me de monopólio. atuando no regime de competição com empresas privadas que exercitam suas atividades no mesmo setor.. Resta dizer que a ação do Estado sobre o domínio econômi- co não poderá deixar de observar os fundamentos do art. M. Por fim.. 152). Pensar Direito Econômico é optar pela adoção de um modelo de interpretação essencialmente teleológica. o Estado assu- me o controle de parcela dos meios de produção e troca em deter- minado setor da atividade econômica em sentido estrito. 150). 170 da CF. Na modalidade de participação. salientando que pensar o mesmo “[. In GRAU. pelo princípio da economicidade (Souza. 324 ) . Direito Econômico é o ramo do Direito. p. 2010. o que dificulta o controle finalístico da medida interventiva. e deverá pautar-se nos princípios e objetivos fixados no texto constitucional. sobre o campo da atividade econômica em sen- tido estrito. p. no sentido de que conforma a interpretação de todo o Direito” (GRAU.] é pensar o Direito como um nível do todo social como mediação específica e necessária das relações econômicas. composto por um conjunto de normas de conteú- do econômico e que tem por objeto regulamentar as medidas de política econômica referentes às relações e interesses individuais e coletivos.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. adentra a discussão acerca do Direito Econômico. No segundo e terceiro casos.

) Nesse sentido. com vistas à promoção do desenvolvimento econômico. a concessão de in- centivos fiscais não se pode dar unilateralmente. detendo também o atributo da autonomia. para não desrespeitarem o sistema constitucional. acabam pon- do em risco a unidade do Estado brasileiro. Tem sido comum. a concessão de incen- tivos fiscais em nítida violação ao pacto federativo. configurando a chamada guerra fiscal brasileira. não obstante tenham a denominada competência para legislarem sobre seus tributos. que é composto por representantes dos Estados. Estados e Municípios. a despeito de se tratar de prática fundamental na busca da ordem econômica normativa. Muitas das unidades federativas. respeitadas as molduras traçadas pela Constituição. 3 INCENTIVOS FISCAIS E PACTO FEDERATIVO Ademais. 325 ) . Portanto. ser previamente aprova- dos em deliberações no Conselho Nacional de Política Fazendá- ria .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. instituindo políticas contrárias à harmonia do Estado brasileiro. Devem. M. a desoneração fiscal se desvenda um instru- mento de intervenção indutora do Estado. a outorga de incentivos fiscais deve observar rigorosamente os cri- térios estabelecidos na ordem jurídica como forma de proteger-se a Federação. não pode ocorrer à margem dos limites im- postos pelo próprio federalismo adotado pelo Estado brasileiro. na prática brasileira. no que concerne à concessão de incentivos fiscais.CONFAZ. para atraírem investimentos para os seus territórios. No caso dos Estados e do Distrito Federal. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. po- rém não podem se sobrepor aos interesses nacionais.

efetivamente. afastan- do-se as práticas inseridas no conceito de guerra fiscal. M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Ademias. inclusive prevendo benefícios fiscais. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. conforme prescreve o texto constitucional em seus arts. Nesse viés. há questionamentos a respeito dos incentivos concedidos pelo poder público às empresas privadas conseguirem atingir. 2014). cada um desses entes federados podem deliberar a respeito de suas competências tri- butárias. 326 ) . de 4 de maio de 2000. que determina limitações na concessão ou ampliação de incentivos fiscais. evi- tando-se a adoção de múltiplas políticas fiscais contraditórias e que apenas prejudiquem a busca da ordem econômica normativa. interessante verificar a existência de interesse pú- blico nas concessões de incentivos a empresas de fins lucrativos como estratégia de desenvolvimento econômico. 101. 155. Em muitos processos judiciais. a chamada Lei de Responsabilidade Fiscal. com a finalidade de se manter a unidade nacional. e 146. No plano dos Estados e Municípios. IV e V. Ainda sobre o assunto. no âmbito das limitações das normas tributárias que instituem incentivos fiscais com finalidades regula- doras e nítido mecanismo de controle da unidade nacional. dentro dos limites constitucionais estabelecidos e devidamente observados para evi- tar a guerra fiscal. o posicionamento do Poder Judiciário brasileiro. Acrescente-se a isto. tem sido no sentido de declarar inconstitu- cional qualquer lei estadual ou distrital que conceda incentivos fiscais sem a devida deliberação e aprovação no CONFAZ. tem-se a Lei Complementar nº.) do Distrito Federal e um membro da União Federal (CONFAZ. é de se destacar a grande relevância das Resoluções do Senado Federal e das Leis Complementares.

p. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. vale registrar que a concessão de benefícios deve ser feita com fundamento numa norma jurídica.] incentivo fiscal é a medida imposta pelo Poder Executivo. Nessa linha de raciocínio.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. que exclui total ou par- cial ou parcial o crédito tributário de que é detentor o poder cen- tral em prol do desenvolvimento de região ou de setor de atividade do contribuinte”. com base constitucional. pois formam um sistema de princípios sem cogitar isoladamente de regiões ou atividades econômicas.. objetivando a expansão econômica de certa região ou de certa atividade econô- mica desenvolvida pelo particular. p. 327 ) .] os incentivos fiscais são. Pois. diri- gismo estatal e intervenção do Estado na economia. de acordo com Tramontin (2002.. 110). apresentando. “[. o Estado utiliza sua força para determinar os rumos que a economia privada deve tomar (TRAMONTIN. técnicas utilizadas pelo Estado para a realização de determinados objetivos. 2002. M. Para melhor esclarecimento acerca da definição de incenti- vos..) sua principal finalidade que é a desenvolvimento econômico no espaço local. ou seja na Constituição ou na lei lato sensu. Ainda.110). assim. antes de tudo. o que sig- nifica em desenvolvimento. 2002). É através dos incentivos que o poder público procura alcançar três grandes objetivos: a) estabelecer um modelo de desenvolvi- mento nacional visando ao fortalecimento da economia. ao comen- tar o art. 151 da CF “[.. Em conceder incentivos fiscais o Estado quebra a uniformida- de do imposto e exonera o contribuinte de recolhê-lo. O siste- ma de incentivos corresponde a um processo pelo qual o Estado propulsiona ou desestimula determinadas atividades econômicas” (TRAMONTIN.

c) estabele- cer uma política de desenvolvimento setorial. p. 2002.) b) estabelecer um modelo de desenvolvimento regional com os propósitos de integração nacional e recuperação econômica regio- nal. os incentivos admitidos pela CF devem observância. O Estado deve ter cuidado na concessão de incentivos fiscais com relação à observância de previsão legal no texto constitucio- nal/lei em suas concessões. como a agricultura. Este se refere a setores específicos de atividades econômicas. Este segundo visa à integração econômica e a unificação de padrões socioeconômicos em diferentes espaços territoriais. as condições para fruição. turismo. aos princípios constitucionais do art. a finalidade da concessão. o prazo da vigência e o montante dos benefícios con- cedidos. Segundo Tramontin (2002). Cuida-se de normas que criam programas de desenvolvimento restrito a algumas áreas da economia. pesca. sendo que não devem visar apenas o desenvolvimento em si. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. em face de algumas peculiaridades que justificam o tratamento especial para alguns se- tores básicos da economia. mas buscar o equilíbrio das diferentes regiões. bem como o fortalecimento da economia nacional. Afirmando que sempre deverá haver a indicação dos beneficiários.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. sendo indispensável a fiscalização do Poder Público para aferir a recuperação econômica regional ou setorial.dignidade da pessoa humana e IV . (TRAMONTIN.os valores sociais 328 ) . bem como a forma de concessão não deve conter vício que macule o ato administrativo. M. 111) Segundo o autor (p.1º. indústria etc.112) é preciso ter cuidado sobre a for- ma de concessões para que tais incentivos não prejudiquem outros setores não incentivados. I . em especial. Tra- ta-se de normas com o propósito de disciplinar as desigualdades regionais.

Basta verificar as expressões “incenti- vos regionais” no art. Sendo assim. afirma Tramontin (2002) qualquer ação gover- namental que resulte em desenvolvimento nacional. 2002. regional ou setorial.150. o art. Assim compreende-se que o administrador público somente pode conceder incentivos a empresas privadas. p. desde que realizada em conformidade com o ordenamen- to jurídico contribuirá para a promoção da dignidade humana e valores sociais do trabalho.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 1º . ou ainda c) de um setor da atividade econômica que precise de benefícios para se desenvolver ou que esteja enfrentando certa depressão econômica (TRAMONTIN. As concessões devem objetivar a eliminação de desequilíbrios de desenvolvimento existente entre diferentes regiões do país ou incentivar determinados setores em que o país tem interesse par- ticular. Sendo assim. segundo o autor (2002) a instalação de uma empresa em determinado Município ou Estado contribui para o desenvolvimento local.151 e a proibição de “tratamento desigual entre os contri- buintes que se encontrem em situação equivalente” no art.) do trabalho e da livre iniciativa. a geração de empregos e desenvolvimento 329 ) . 43 e “entre as diferentes regiões do país” no art. Vale ressaltar que a permissão contém limites nos próprios comandos constitucionais. III .Cidadania. além de contribuir para a redução das desigualdades e exclusão social. Visto que. notadamente pela geração de tributos e empregos. do art. além de outros como o inciso II. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 115).erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais. II . III CF. M. 3º. visando: a) desen- volvimento nacional como um todo. ou que b) se enquadrem num âmbito regional que necessite de desenvolvimento socioeconômi- co.garantir o desenvolvimento nacional.

erradica a pobreza e a marginalização e diminui as diferenças sociais e justiça social. todos previstos no art. 56). Para tanto. Outro ponto que merece destaque é que a concessão de in- centivos deve ter sempre como elemento norteador os princípios da legalidade. economicidade. será preciso conhecer as formas de tributação existentes. para o qual o tributo pode ser: “[. a repressora e a favorece- dora.. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. de forma que se utilizará aqui o conceito trazido por Machado. 37 da CF. M. 2011. 4 POLÍTICAS PÚBLICAS TRIBUTÁRIAS DE INDU- ÇÃO AO DESENVOLVIMENTO E INCLUSÃO SOCIAL VOLTADAS PARA A INOVAÇÃO TECNOLÓGICA Passa-se ao estudo das políticas públicas tributárias de indu- ção ao desenvolvimento e inclusão social. proporcionalidade. há uma certa unifor- midade na classificação. moralidade. o que será primordial para o entendimento das políticas pú- blicas tributárias de indução ao desenvolvimento e inclusão social (LANGARO. impessoalidade. p.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. A respeito da classificação de tributo. publicidade e eficiên- cia.) representa promoção de dignidade da pessoa humana. a fiscal e a extrafiscal. finalidade. Além de outras previsões contidas no ordenamento infraconsti- tucional voltadas para políticas públicas tributárias de indução ao desenvolvimento e inclusão social. bem como a razoabilidade. quando seu principal objetivo é a arrecadação de recursos financei- 330 ) . isenção tributária e igualdade para que os atos administrativos não apresentem vícios.] a) Fiscal. e desta..

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ros para o Estado. b) Extrafiscal quando seu objetivo principal é a
interferência no domínio econômico, buscando um efeito diverso
da simples arrecadação de recursos financeiros [...]” (MACHADO,
2002, p. 68).
Em resumo se verifica que a função fiscal visa à arrecadação
de recursos aos cofres públicos, enquanto a função extrafiscal se
materializa em verdadeira política pública de ingerência no meio
econômico e social, que pode levar ao agravamento dos tributos
em decorrência do fim almejado, mas que deve sempre estar de
acordo com a realização dos direitos fundamentais do ser humano,
com a dignidade humana.
Porém, ao mesmo tempo em que o Estado brasileiro se fun-
damenta sob a dignidade da pessoa humana, não se preocupa ape-
nas com os interesses individuais e coletivos, mas também com os
sociais, não obstante, neste último aspecto, ter deixado um campo
mais aberto, sem definir a qual das esferas publicas compete regu-
lá-los (LANGARO, 2011, 59).
Necessário que o Estado, enquanto garantidor de alguns di-
reitos e promotor de tantos outros, deve se valer de políticas pú-
blicas objetivas, o que pode ser dar por meio de ações ou até de
outras formas de incentivos. “O ente público necessita de receita
para realizar suas ações, a qual é obtida através da tributação, tam-
bém chamada de política fiscal ou arrecadatória. Esta serve para o
Estado se sustentar, mantendo todo o seu aparato, que envolve os
três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – e também pro-
mover ações políticas, econômicas e sociais” (LANGARO, p. 60).
Não obstante isto, ao lado da política arrecadatória deve estar
a política tributária, que não podem se confundir. A política tribu-
tária deve ter por finalidade a coordenação fiscal entre as finalida-

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des política, jurídica e administrativa dos governos, norteando a
distribuição de recursos, buscando o desenvolvimento econômico,
promovendo o pleno emprego, atendendo às finalidades sociais,
combatendo a inflação, garantindo o equilíbrio do balanço dos
pagamentos internacionais, enfim, uma justiça fiscal (MARTINS,
2006).
Logo, é através da política de justiça fiscal que o Estado arre-
cada dinheiro para satisfazer os seus interesses, sem poder deixar
de lado a satisfação dos interesses dos cidadãos, sejam esses inte-
resses individuais, coletivos ou sociais.
Infelizmente, no Brasil, a política arrecadatória e a tributária,
apesar de encontrarem limites a serem observados nos termos da
CF, têm sido usadas com um caráter meramente impositivo de ar-
recadação de recursos para os cofres públicos, e a qualquer custo,
sem se preocupar com os direitos do cidadão contribuinte.
Isso, de certa forma, apenas revela a falta de uma política tri-
butária adequada, capaz de respeitar os ditames da CF e os direitos
do contribuinte, que também se revelam em deveres do Estado
para com eles, e assegurem um mínimo de retorno adequado e
suficiente à satisfação das necessidades da população. Este aspecto,
portanto, necessita de uma reforma que mire a legitimação da tri-
butação, conforme Ichihara:

A verdadeira reforma tributária deve ser boa para o Fisco, para o contribuinte e
para os consumidores, enfim, para o povo em geral e para o Brasil. É necessário
em última análise não só a legalidade ou a constitucionalidade na instituição e
arrecadação de tributos, mas sobretudo é preciso a legitimação da arrecadação
tributária. Esta legitimação só será possível se a tributação for eficiente no sentido
da realização da justiça fiscal, respeitando a isonomia e a capacidade contributiva
como vetores fundamentais. Não é só isso: necessária a transparência na aplica-
ção dos recursos arrecadados no sentido de que tanto os contribuintes e o povo

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saibam que existe retorno dos recursos em forma de serviços públicos e obras.
(ICHIHARA, In MARTINS, 2006, p. 171)

A fim de estimular o desenvolvimento e a inclusão social, o
Estado pratica incentivos no campo tributário, como a diminuição
da carga tributária (alíquota-zero e deduções) e até a isenção, que
é exceção à regra jurídica de tributação através de lei (a imunidade
é a exceção à regra jurídica de tributação através da CF) (RODRI-
GUES; FREITAS, 2009).
Políticas públicas de desenvolvimento e de inclusão social são
urgentes no Brasil capitalista que possui sua função social prevista
na Constituição.
Necessário frisar que políticas públicas podem ocorrer sem
a guerra fiscal presente no cotidiano do país, onde há a migração
de empregos e, e sua faceta oposta, o aumento do desemprego,
financiado pelo Estado, uma vez que cada empresa, ao se deslocar
territorialmente em busca de incentivo fiscal, melhora sua planta
industrial e a automatiza, necessitando de menor mão de obra.
Nesse cenário há que se distinguir a extrafiscalidade repres-
sora, forte na elevada carga tributária sobre alguns produtos e ati-
vidades para reprimir estas condutas, quando a intenção do Estado
não é a de propriamente proibi-las. Já a extrafiscalidade favorece-
dora é usada como um meio de indução ao desenvolvimento eco-
nômico e social para estimular e favorecer o exercício de algumas
atividades (LANGARO, 2011, p 65)
O foco do presente trabalho visa a fiscalidade na sua vertente
de extrafiscalidade tributária favorecedora, cuja função é eminen-
temente de uma norma tributária indutora de benefícios, já que
diminui a carga tributária em determinada situação.
Por fim há que se referir que com essas normas tributárias,

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também entendidas como meio de condicionamento dos compor-
tamentos, ou seja indutoras de caráter extrafiscal o Estado acaba
intervindo na ordem econômica, facilitando o exercício de alguma
atividade e obtendo consequências sociais, o que se buscará, tam-
bém no campo das inovações tecnológicas.
E é neste cenário que se insere os produtos das inovações
tecnológicas, dando um destaque neste estudo, em especial, aos
softwares e à cloud computing, que têm participação ativa na revolu-
ção da informação e dinamizando, em diversos aspectos, a vida dos
seres humanos e da relação destes com a natureza.
Esse conjunto variado de habilidades tecnológicas é capaz de
originar uma ampla gama de produtos e a maioria das aplicações
comerciais dele reflete, principalmente, em três mercados: cuida-
dos de saúde humana, gerenciamento ambiental e agricultura, ou
seja, mercados de interesse da maioria das pessoas (KREUZER;
MASSEY, 2002).
O incentivo estatal através de políticas públicas na área das
novas tecnologias, voltadas para o incentivo da indústria de softwa-
res e cloud computing destinadas para o desenvolvimento de fontes
novas e limpas de energia reciclável, novos métodos de detectar
e tratar contaminações ambientais, desenvolver novos produtos e
processos menos danosos ao ambiente, à saúde humana, e tam-
bém na área da educação, podem contribuir para a inclusão social à
medida que possibilitam o desenvolvimento da indústria nacional
nestes setores, de forma a gerar acesso a estes métodos e produtos
a uma maior fatia da população.
Tendo em vista as várias vantagens decorrentes da utilização
de softwares e da nuvem para o maior e mais rápido desenvolvimento
dos setores tecnológicos é importante que o Brasil invista em ações

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voltadas para o incentivo econômica e social barateando o custo
desses produtos e serviços, de forma a garantir que uma maior
fatia da população brasileira também tenha acesso aos produtos das
inovações tecnológicas.
Assim, políticas públicas tributárias de incentivo às novas tec-
nologias em conjunto com o governo, a indústria e a universidade
é fundamental para a inovação tecnológica de um país. Para países
em desenvolvimento, por exemplo, investir nessa estrutura de três
esferas faz com que eles passem a ter condições de empregar tec-
nologias inovadoras ao invés de depender da absorção de inovação
gerada em países industrializados (PORTO, 2000).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho teve como principal escopo o estudo
do princípio republicano como garantidor ao papel de protago-
nista do regime democrático de governo aos cidadãos, pois em
decorrência dele a competência tributária é conferida às pessoas
políticas, o que significa dizer, em última análise, ao povo, que é
o detentor por excelência de todas as competências e de todas as
formas de poder.
Verificou-se que as competências tributárias estão devida-
mente distribuídas na Constituição, a qual outorga aos entes fe-
derados atribuições para instituição dos tributos nela previstos,
obedecendo aos seus ditames e às leis gerais em matéria tributária.
A ordem econômica na Constituição Federal, demonstra que
o sistema jurídico funciona como indutor do desenvolvimento
econômico e social, onde se inserem as formas de intervenção es-
tatal. Porém, a solução do problema também ensejou a análise das

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políticas tributárias do Estado brasileiro, e consequentemente das
formas de tributação, a fiscal e a extrafiscal.
A compreensão da ordem econômica, extrafiscalidade e po-
líticas públicas se mostraram essenciais para o debate proposto.
No que concerne à extrafiscalidade, verificou-se que a sua
vertente favorecedora, pela qual o Estado busca facilitar determi-
nadas condutas, reduzindo a tributação, resulta, na maior parte
das vezes, em promover o desenvolvimento e a inclusão social, a
partir do incentivo ao exercício de algumas atividades em especial
na área econômica.
Em relação às políticas públicas de desenvolvimento e inclu-
são social, verificou-se que são um instrumento do Estado na busca
do bem comum, por isso, o Estado precisa planejá-las, valendo-se,
inclusive, para a sua implementação, da participação da sociedade
civil, a qual é convidada a se engajar, através de incentivos, sobre-
tudo na área econômica, pela tributação extrafiscal favorecedora.
O incentivo estatal através de políticas públicas tributárias na
área das novas tecnologias, voltadas para o incentivo da indústria
de softwares e cloud computing destinadas para o desenvolvimento na
área de saúde humana, gerenciamento ambiental e agricultura, ou
seja, mercados de interesse da maioria das pessoas, podem contri-
buir para a inclusão social à medida que possibilitam o desenvolvi-
mento da indústria nacional nestes setores, de forma a gerar acesso
a estes métodos e produtos a uma maior fatia da população.
Uma crítica que se faz ao sistema de políticas públicas no
país é que desde o Império a Coroa Portuguesa utilizava o método
de aumento de impostos para suprir as suas necessidades. Atual-
mente, vê-se o governo federal a aumentar e criar impostos para
cobrir o rombo da corrupção, enquanto a população sequer tem

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atendidos os serviços básicos, menos ainda aqueles que envolvem
tecnologias.
Nesse sentido, políticas públicas de desenvolvimento e de in-
clusão social são urgentes no Brasil capitalista que possui sua fun-
ção social prevista na Constituição, de forma a evitar, também, a
guerra fiscal entre os entes federados.

REFERÊNCIAS

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2005.
AGUILLAR, Fernando Herren. Direito econômico: do direito nacional ao direito
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<www.presidencia.gov.br>. Acesso em 20 jun 2014.
GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpreta-
ção e crítica). 14ª Ed. São Paulo: Editora Malheiros, 2010.
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desenvolvimento e inclusão social no Estado Federal Brasileiro: uma leitura a partir do
princípio da proporcionalidade. 2011. 163 p. Dissertação (Mestrado em Direito)
- Programa de Pós-Graduação em Direito – Mestrado e Doutorado.
MACHADO, Hugo de Brito. Curso de Direito Tributário. 21. ed. São Paulo: Malhei-
ros, 2002.
MARTINS, Ives Granda da Silva. Princípio da eficiência em matéria tributária.

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Marli M. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.)

In: MARTINS, Ives Granda da Silva (coord.). Princípio da eficiência em matéria
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p. 27-48.
_____; FREITAS, Daniel Dottes de. Cooperativismo interinstitucional público:
uma proposta de gestão pública tributária para superação da guerra fiscal em bus-
ca do desenvolvimento. In: LEAL, Rogério Gesta e REIS, Jorge Renato (org.).
Direitos sociais e políticas públicas: desafios contemporâneos. 1. ed. Santa Cruz do
Sul: EDUNISC, 2009, tomo 9.
TRAMONTIN, Odair. Incentivos públicos a empresas privadas & guerra fiscal.
Curitiba: Juruá, 2002.

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CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM
DEFICIÊNCIA E O DIREITO FUNDAMENTAL À
EDUCAÇÃO

Juliana Paganini 1
Patrícia dos Santos Bonfante 2

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A Constituição Federal de 1988 bem como o Estatuto da
Criança e do Adolescente trouxeram uma série de direitos funda-
mentais destinados a meninas e meninos como modo de garantir
uma infância e adolescência saudável, plena e efetiva.
Dentre estes direitos fundamentais encontra-se o acesso à
educação e à inclusão de crianças e adolescentes com deficiência
nas escolas. Ocorre que mesmo com diversas normativas inseridas
1
Mestre em Desenvolvimento Socioeconômico pelo Programa de Pós-Graduação em Desen-
volvimento Socioeconômico (PPGDS/UNESC). Bacharel em Direito pela Universidade do
Extremo Sul Catarinense (UNESC). Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Estado, Política
em Direito (NUPED/UNESC). E-mail: julianaapaganini@hotmail.com.
2
Mestranda em Desenvolvimento Socioeconômico pelo Programa de Pós-Graduação em De-
senvolvimento Socioeconômico (PPGDS/UNESC). Bacharel em Direito pela Universidade
do Extremo Sul Catarinense (UNESC), integrante do Núcleo de Pesquisas em Estado, Política
e Direito (NUPED/UNESC). E-mail: bspatricia@hotmail.com.

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no ordenamento jurídico brasileiro que buscam garantir a consoli-
dação dos direitos de meninas e meninos, ainda existe muita viola-
ção e desrespeito, razão pela qual esta contradição se torna objeto
do presente trabalho.
Portanto, o artigo está dividido em três partes.
A primeira estuda a construção teórica do conceito de crian-
ça e adolescente no Brasil e em âmbito internacional a partir das
duas Convenções (138 e 182) destacando algumas normativas,
bem como autores que trabalham com tal temática.
Em seguida, aborda os direitos fundamentais das crianças e
dos adolescentes, tendo como norte tanto a Constituição Federal
de 1988 quanto o Estatuto da Criança e do Adolescente, desta-
cando as peculiaridades de cada direito bem como as constantes
violações no contexto social.
Por fim, discute o Direito Fundamental à Educação da Crian-
ça e do Adolescente com deficiência, apontando os desafios que
serão percorridos para que se consiga garantir e proporcionar um
sistema educacional inclusivo.

1 DESENVOLVIMENTO

1.1. A construção do conceito de criança e
adolescente

Conforme artigo 2º da Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990,
denominado Estatuto da Criança e do Adolescente, considera-se
criança a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente
aquela entre doze e dezoito anos de idade (BRASIL, 1990).
Logo, é nessa etapa que as crianças realizam suas fantasias,

340
)

pode-se dizer que cidadão é quem tem plenas condições de manter a sua própria dignidade. ou seja.131). Para Veronese (1999. 1º) (ONU.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. M. Ramos (1999.20) explica que 341 ) . ainda considerados sujeitos de direitos. onde a criança e o adolescente eram considerados meros objetos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Com base no acima referendado. ou seja. cidadão é. a Convenção dos Direitos da Criança e do Adolescente considera criança todo ser humano menor de 18 anos de idade. que se rompe com o mo- delo menorista. Por conseguinte. atingir a maioridade mais cedo. deten- tores de sua própria história. aquele que tem condições de atender a todas as suas necessidades básicas. salvo se. por definição. isto posto. (Art. desenvolver-se e atualizar suas potencialidades en- quanto ser humano. aprendizados e os adolescentes suas descobertas e suas potencialidades ambos desfrutando de seus direitos pela con- dição de cidadão. nos termos da lei que lhe for aplicável. sendo utilizados enquanto durassem suas curtas vi- das. mas tão somente criança com até 18 anos de idade incompletos e adulto aquele que tiver idade superior a esta. sem as quais seria impossível viver. p. 2016).) brincadeiras. todo aquele que tem seus direitos fundamentais protegidos e aplicados. jamais sendo inferiorizados perante os adultos e consequentemente menosprezados por sua condição. p. Por esse motivo tanto a criança quanto o adolescente devem ser respeitados e. tal docu- mento não utiliza o termo adolescente.

abre-se um leque de direitos a eles reservados devido sua condição de pessoa em fase de desen- volvimento. verificando-se que a expectativa de vida das crianças rondava os 14 anos. cuja força de trabalho deveria ser aproveitada. A importância de se estabelecer a idade para a criança e para o adolescente encontra-se diretamente vinculada à violação de di- reitos ocorrida desde as invasões portuguesas até a contempora- neidade. soltar pipa. e con- sequentemente muitas crianças e adolescentes acabam sendo des- respeitados. pular. nadar. jogar futebol. Uma das práticas mais comuns que exterioriza tais violações diz respeito ao trabalho infantil. O direito de viver experiências lúdicas.) na Idade Média. Meninos e meninas submetidos a qualquer trabalho estão sendo privados de um direito fundamental: o direito de ser criança. usurpando a fase de desenvolvimento de meninas e meninos.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.92). p. entre os portugueses e outros povos da Europa. 342 ) . acaba por vezes transgredindo direitos. social e emocional (GOMES. mental. há a presença de uma avalanche de direitos. tão importantes no processo do desenvolvimento físico. em que não há a observância ne- nhuma das normas que definem a idade para seu ingresso. fazendo com que estas fossem consideradas na época como animais. a partir do momento que se estabelece quem se pode considerar criança e adolescente. O direito de correr. a mortalida- de infantil era assustadora. Então não podemos mais achar que essa é uma situação “normal”. M. Dessa maneira. Pois além de meninas e meninos já possuí- rem àqueles destinados aos adultos. onde o adulto por se considerar superior à criança e ao adolescente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2005. brincar de boneca.

como foi exemplificado acima. M. p. Ora. porém a legislação por si só não é capaz de concretizar direitos. trouxe uma série de direitos fundamentais a crianças e adolescentes até então não instituídos. daqueles direitos inseridos na Constituição da República Federativa do Brasil. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.2 Os direitos fundamentais da criança e do adolescente: o direito à educação A Constituição da República Federativa do Brasil. pois participando. do que sua presença ativa na vida política do Estado. passa-se a análise de seus direitos fundamentais. é muito cômodo que a sociedade se cale perante as agressões de direitos inclusive constitucionais. após definir-se o que vem a ser criança e adolescente. muitas práticas cruéis continuam sendo realizadas. Pois este é seu sentido. que se faz necessário a participação de toda a socie- dade na luta e fiscalização dos direitos de meninas e meninos para que se possam evitar tais violações. promul- gada em 05 de outubro de 1988. 1. ou seja. tratando em seu artigo 227 que 343 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Demo (2001. as pessoas aca- barão descobrindo que elas mesmas acabam violando os direitos das crianças e dos adolescentes. Assim. traz problemas. Não se ocupa espaço de poder.02) sintetiza que é preciso entender que “participação que dá certo.) Apesar de o próprio Estatuto da Criança e do Adolescen- te definir o que vem a ser criança e adolescente. sem tirá-lo de alguém. O que acar- reta riscos. Devido a isso. próprios do negócio”.

p. exploração.88). à cultura. às vezes. num Estado Democrático de Direito. violência. e fortalecer direitos fundamentais de crianças e adolescentes já mencionados na Constituição da República Federativa do Brasil. nem mesmo sobrevive” (SILVA. à alimentação. é precisamente a anexação de uma cláusula pétrea a um dado direito subjetivo o que melhor certifica a sua fundamentalidade. ao respeito. 2008. É nesse sentido que o Estatuto da Criança e do Adolescente. à profissionalização. Ora. é cabível afirmar que sem os direitos fundamentais. porque assim. à saúde. discriminação. Logo. p. Desse modo. por tratar-se de direitos fundamentais e esta- rem contidos na Constituição da República Federativa do Brasil. à dignidade. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. da sociedade e do Estado assegurar à criança. não podem ser suprimidos do ordenamento. não convive e.) é dever da família. com absoluta prioridade. ao lazer. tratou de implantar medidas protetivas. que o poder constituinte originário o reconhece como um bem sem o qual não é possível viver em hipótese alguma (MARTINS NETO. ao declará-lo intocá- vel e pondo-o a salvo inclusive de ocasionais maiorias parlamentares. nada mais sensato que estes se- jam protegidos de qualquer possível abalo jurídico. M. o direito à vida. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. à educa- ção. possibilitando o reconhecimento da condição de cidadão.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. visando superar a 344 ) . Sendo os direitos fundamentais algo presente na Constituição da República Federativa do Brasil. 163). 2003. “a pessoa humana não se realiza. ou na eventualidade de sua supressão. crueldade e opressão (BRASIL. onde prevalece a democracia. 2016). à liberdade e à convivência familiar e comunitária. ao adolescente e jovem.

Toda criança e adolescente conforme artigo 15 do mesmo Estatuto possui direito a liberdade. espaços e objetos pessoais (Artigo 17) (BRASIL. entretanto. 2009. Logo. identidade. crenças. 43).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Como modo de garantir o direito fundamental a saúde. respeito e dignidade. psicológica e moral da criança e do adolescente. O direito ao respeito consiste na garantia da integridade fí- sica. autonomia. pois trata-se como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil onde atualmente 345 ) . 1990). 1990).) cultura menorista e concretizar os princípios e diretrizes da teoria da proteção integral (CUSTÓDIO. mas um dever que deve ser exigido por toda a sociedade. M. valores. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a Constituição da República Federativa do Brasil reconheceu em seu artigo 7º. A dignidade humana possui força constitucional. onde o artigo 16 trata de estabelecer quais aspectos que compreendem tal liberdade. como mecanismo de melhoria das condições sociais. Ora. ideias. p. é de uma importância sem tamanho a efetiva aplicação de tais direitos como modo de fortalecer sua condição de cidadão na sociedade. atribuindo em seu artigo 30 o dever do Estado através dos municípios garantir os serviços necessários ao atendi- mento integral de toda população (BRASIL. abrangendo a preservação da imagem. sendo a criança e o adolescente sujeitos de sua própria história em processo de desenvolvimento. a fim de assegurar sua inviolabilidade (BRASIL. IV e XXII tal direito. 2016). se faz de extrema importância que o cidadão tenha a consciência que tal ato não trata-se de mera bondade do Estado. é através da participação ativa do poder público em conjunto com a própria comunidade que se atingirá com maior efetividade os serviços prestados em relação a saúde do ser huma- no.

Caso haja algum abalo na família. seja psicoló- gico. ao mesmo tempo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. M. conforme artigo 19 do Estatuto da Criança e do Adolescente. nas quais as crianças eram retiradas de suas famílias e colocadas à disposição de instituições oficiais com características assistenciais e de caridade. Logo. 2007. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. p. p. a determinados valores fundamentais. consubstanciados na dignidade humana (COSTA. 90) rompe com anti- gos paradigmas existentes onde eram legitimadas práticas repressi- vas. Essa ideia segundo Custódio (2009. com que os pais possam contar enquanto trabalham (RIZZINI. seja financeiro. escolas públicas de qualidade em horário integral. já que cabe ao 346 ) . em fa- mília substituta. ocorrendo violações de direitos da criança e adolescen- te mencionadas na lei 8069/90. e excepcionalmente se necessário. as dificuldades de gerara renda e de inserção no mercado de trabalho. esta não pode mais ser rotulada de desestruturada e o próprio Estatuto garante que as crianças não devem por esse motivo ser colocadas em instituições ou famílias substitutas. O Estado de Direito legitima-se pela subordinação à lei e. A convivência familiar e comunitária é de um direito reser- vado a toda criança e adolescente de ser criado e educado no seio de sua família original. 23). esta deve ser afastada de sua famí- lia.) não mais se concebe o Estado de Direito como uma construção formal: é preciso que o Estado respeite a dignidade humana e os direitos fundamentais para que se possa ser considerado um Estado de Direito material. tais como A inexistência das políticas públicas. 2008. a falta de suporte à família no cuidado junto aos filhos. p. a insuficiência de creches. porém existem outros fatores que dificultam a permanência de meninos e meninas em casa.37).

. Assim. adolescente trabalhador aquele que envolve atividade laboral com idade entre doze e dezoito anos. M. ou seja. a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 estabeleceu a proibição do trabalho noturno. caracteriza-se trabalho infantil todo labor rea- lizado por criança ou adolescente com idades inferiores aos de- terminados pela legislação (VERONESE. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. pois aqui surge a responsabilidade subsidiária do poder público em garantir os recursos necessários para que crianças e adolescentes possam viver junto às suas famílias em condições dignas (CUSTÓ- DIO. 125). 2007. O artigo 23 do Estatuto da Criança e do Adolescente esta- belece que a falta ou carência de recursos materiais não constitui motivo suficiente para a perda ou suspensão do poder familiar. não serão estes duplamen- te penalizados com a retirada de sua família. 7º.] quando uma família não tiver condições de garantir os recursos materiais necessários e suficientes para a proteção de seus filhos. 2016). p. define-se criança trabalhadora àquela pessoa subme- tida à relação de trabalho com até doze anos de idade incompletos e. Desse modo. 2009.51).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.) poder público garantir reais subsídios para que possam se manter. CUSTÓDIO. Sendo assim [. A profissionalização e a proteção ao trabalho precoce.. p. XXXIII CF/88) (BRASIL. Da mesma forma estabelece os artigos 402 e 403 da Consoli- 347 ) . Nesse sentido. ressal- vando a possibilidade de aprendizagem à partir dos quatorze anos (Art. abaixo do limite de idade mínima permitido é direito da criança e do adolescente e dever do Estado. pe- rigoso e insalubre antes dos dezoito anos e também estabeleceu o limite de idade mínima para o trabalho em dezesseis anos.

cabendo à família. Toda criança e adolescente possui direito a educação. M. espor- te. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2016). Encontra-se em vigor e foram ratificadas pelo Brasil duas con- venções internacionais sobre trabalho infantil. assegurando inclusive oferta gratuita para todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria (BRASIL. o Estatuto da Criança e do Adolescente reco- 348 ) . Desse modo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. dentre eles.) dação das Leis do Trabalho. p. cultura e lazer. Existem inúmeros fatores que conduzem crianças e adoles- centes a ingressarem tão cedo no trabalho. 58) destaca a necessidade econômica. salvo na condição de aprendiz. a reprodução cul- tural e a ausência de políticas públicas. sendo proibido qualquer trabalho a menores de 16 anos de idade. sociedade e Estado garantir sua real efetivação. considerando menor o trabalhador de 14 até dezoito anos. 2016-F). onde a Convenção 138 estabelece que os países deverão aumentar progressivamente os limites de idade mínima para o trabalho (BRASIL. objeto deste trabalho. 2016-D). é um direito de todos e dever do Estado e da Família junto com a Sociedade visando promover o pleno desenvolvimento da pessoa para o exercício da cidadania (BRASIL. 2016-E) e a Convenção 182 que trata das piores formas de trabalho infan- til recomendando ações urgentes para sua eliminação (BRASIL. O artigo 208 também do texto constitucional enfatiza como dever do Estado garantir ensino fundamental obrigatório e gratui- to. a partir dos quatorze anos (BRASIL. 2016). A própria Constituição da República Federativa do Brasil em seu artigo 205 estabelece que a educação. Custódio (2009.

que o poder público garanta um ensino de qualidade. como se isso fosse suficiente 349 ) .) nhece que toda criança e adolescente tem direito a igualdade de condições para acesso e permanência na escola. III do Estatuto da Criança e do Adolescente preferencialmente na rede regular de ensino (BRASIL. Conselho Tutelar.55). a própria Constituição da República Federativa induz a isso. como também pela Lei de Diretrizes e Bases da Edu- cação onde a própria frequência à escola deve ser fiscalizada pelo poder público. Minis- tério Público e sistema de justiça garantem a frequência plena e integral de todas as crianças e adolescentes à escola (CUSTÓDIO. existem programas de combate à infrequência es- colar que em conjunto com as escolas. Pois até 1988 não havia uma preocupação real em criar mecanismos que fossem efica- zes na garantia do direito à educação. o direito de ser respeitado por seus educadores. É necessário além de tudo. 1990). família e sociedade. como também de ter acesso a escola pública próxima de sua resi- dência (Artigo 53) (BRASIL. para que haja interesse e motivação na descoberta de novos saberes. 1990). a única ação do po- der público foi tornar obrigatória a matrícula escolar. Contudo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. M. de contestar critérios avaliativos. Durante muito tempo. 2009. p. As crianças e adolescentes com deficiência tem direito a atendimento educacional especializado conforme artigo 54. comprometido com a realidade social de crianças e adolescentes. a educação é um direito assegurado pela Constituição da República Federativa do Brasil. Logo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

M. A criação de organizações voltadas ao atendimento da pessoa com deficiência. resta destacar que crianças e adolescentes possuem todos esses direitos fundamentais assegurados. 2008. em 1856. marcadamente após a segunda grande guer- ra. com vistas à promoção de sua autonomia. porém.85). O DIREITO FUNDAMENTAL À EDUCAÇÃO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE COM DEFICIÊNCIA E AS RESPONSABILIDADES PELAS CONDIÇÕES DE ACESSIBILIDADE NAS ESCOLAS. OLIVEIRA. algo que deveria ser inerente de todo ser humano. só veio a ser alterada mais recentemente. O atendimento. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. no entanto. eles por si só não serão efetivados. con- 350 ) . se dava mais aliado ao caráter da beneficência. se faz necessário a articulação da família. 2. p.) para garantir a educação (VERONESE. o atendimento às pessoas com deficiência começa à época do Império. sociedade e Estado para que se possa garantir a todas crian- ças e adolescentes uma vida digna. Por fim. de fato.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Foi por intermédio da educação que o Brasil começou a li- dar com a pessoa com deficiência enquanto tal. e o Instituto dos Surdos-Mu- dos (atual Instituto Nacional da Educação dos Surdos – INES). Um pouco mais tarde do que em países europeus. em 1854. absolutamente distante da concepção da pessoa com deficiência enquanto cidadã de direitos e responsável pelos próprios destinos. com a fundação de duas instituições: o Imperial Instituto dos Meninos Cegos (atual Insti- tuto Benjamin Constant). Logo. Tal concepção.

quando foi lançado. assim como a proibição da discriminação. a Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes (Resolução aprovada pela As- sembleia Geral da Organização das Nações Unidas em 09/12/75). nos textos constitucionais. A família é constituída pelo casamento e terá direito à proteção dos poderes públicos. a Emenda Constitucional nº 012 es- tabeleceu a garantia da educação especial e gratuita. consta do texto a garantia de igualdade de condições para o acesso e per- manência na escola. Nesta esteira a Organização das Nações Unidas aprova. Ainda no ano de 1967. 175. em 1975. apresenta em seu bojo os resultados tanto dos reflexos dos documentos internacionais quando da pró- pria mobilização interna do movimento político das pessoas com deficiência e entidades recém-criadas. (JÚNIOR. o Programa de Ação Mundial para as Pessoas Deficientes. então. A primeira menção à pessoa com deficiência relacionada à educação. 2010). Na área da educação. a década de 1980 como a “década da pessoa de- ficiente”. declarando. percebe-se com clareza os re- flexos do tratamento da questão da educação da pessoa com defi- ciência na esfera internacional. Lei especial sobre a assistência à maternidade. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. como os Centros de Vida Independente. 2007). A Constituição da República Federati- va do Brasil de 1988. No âmbito do direito interno. § 4º. ainda. M. mas a garantia do atendimento educacional 351 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. infância e à adolescência e sobre a educação de excepcionais.) tribuiu em muito para o despertar de uma nova matriz interpre- tativa acerca da deficiência (Carvalho-Freitas. se deu em 1967: Art. no ano de 1982.

portanto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. O documento internacional que 352 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. ainda não inclusiva enquanto regra e obrigato- riedade. seguiu a ideia da educação especial. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I . 2016-G). Em 1989. 5.). nesta concepção ainda reside exclusivamente na própria pessoa com deficiência. Internacionalmente. M. 208. 2016- B). dispõe sobre a necessidade de medidas que garantam “a igualdade de acesso à educação aos portadores de todo e qualquer tipo de deficiência. a preocupação da inclusão da pessoa com deficiência no sistema regular de ensino já permeia os tratados e declarações.) especializado na rede regular ainda não se impunha de maneira obrigatória: Art. 1990. 1. “f ”).igualdade de condições para o acesso e permanência na escola (BRASIL. de 24 de outubro de 1989. 206. como parte in- tegrante do sistema educativo”.853. assim como a responsabilidade pela própria integração (BRASIL.). A capacidade. impõe a matrícula compulsória de pessoas com deficiência em cursos re- gulares de estabelecimentos públicos ou privados de ensino.atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência. a Declaração dos Direitos da Criança reconhece o direito à educação em igualdade de condi- ções (artigo 28. em 1990. a edição da Lei 7. à época. desde que “capazes de se integrarem no sistema regular de ensino” (arti- go 2º. a Declaração Mundial sobre Edu- cação para Todos (Iomtien. I. Art. A legislação infraconstitucional. prefe- rencialmente na rede regular de ensino. no entanto. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: III .

o custo da eficácia de todo o sistema educacional (UNESCO.) passa a nortear a questão da educação da pessoa com deficiência. com a Declaração de Sala- manca Sobre Princípios. em última instância. capaz de satisfazer a tais necessidades. 2007).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. M. Também a Convenção Internacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência (BRASIL. Políticas e Práticas na Área das Necessi- dades Educativas Especiais: Sistemas educacionais deveriam ser designados e programas educacionais deve- riam ser implementados no sentido de se levar em conta a vasta diversidade de tais características e necessidades. é estabelecido em 1994. 1994). 1994). 2016-C). mantém a defesa do sistema educacional inclusivo. além disso. construindo uma sociedade inclusiva e alcançando educação para todos. a qual compõe a base dos do- cumentos de direitos humanos da Organização das Nações Uni- das (Nova Iorque. 353 ) . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. que deveria acomodá-los dentro de uma Peda- gogia centrada na criança. com a garantia do acesso e permanência das crianças e adolescentes com deficiência no sistema geral de ensino: Para a realização desse direito. no entanto. aqueles com necessidades educacionais especiais devem ter acesso à escola regular. sob alegação de deficiência (UNESCO. tais escolas proveem uma educação efetiva à maioria das crianças e aprimoram a eficiência e. escolas regulares que possuam tal orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de com- bater atitudes discriminatórias criando-se comunidades acolhedoras. os Estados Partes assegurarão que: a) As pessoas com deficiência não sejam excluídas do sistema educacional geral sob alegação de deficiência e que as crianças com deficiência não sejam excluídas do ensino primário gratuito e compulsório ou do ensino secundário.

pois parece que não há mais dúvidas de que a “educação dos excepcionais” pode enqua- drar-se no sistema geral de educação. avançamos muito em relação ao texto da Lei Nº 4. o acesso à educação básica e ao atendimento educacional especializado. a permanência do termo “preferencial- mente” mantém aberta a possibilidade da segregação. (decreto legislativo nº 186. classes. in- clusive com a garantia do atendimento educacional especializado. conferindo-lhe status constitucional.024/61. quiçá quan- do não há definição clara acerca das condições de inserção ou não. públicos ou conveniados (BRASIL. quando topamos com o termo “preferencialmente” da definição citada (MANTOAN. 2016).PNE e dá outras providências. DE 25 JUNHO DE 2014. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.949. no que diz respeito à preferência. a legislação pertinente manteve o texto da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.) Muito embora o Estado Brasileiro tenha recepcionado o tex- to da Convenção. mas continuamos ainda atrelados à subjeti- vidade de interpretações. M. Neste sentido. de 09 de julho de 2008: decreto nº 6. 354 ) . Sem dúvida. para a população de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos com deficiência. LEI Nº 13. Meta 4: universalizar. preferencialmente na rede regular de ensino.005. Aprova o Plano Nacional de Educação . com a garantia de sistema educa- cional inclusivo. muito embora se tenha avançado em direção às garantias do atendimento educacional especializado no âmbito do sistema geral de ensino. transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou super- dotação. escolas ou serviços especializados. de 25 de agosto de 2009).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. do acesso e per- manência da pessoa com deficiência na rede regular de ensino. e não obrigatoriedade. 2016-H). de salas de recursos multifuncionais.

não está somente na pessoa com deficiên- 355 ) . II . por exemplo. de 6 de julho de 2015. Após quinze anos de tramitação no Congresso Nacional. quando necessária. intelectual ou sensorial.a restrição de participação (BRASIL. imputando aos fatores socioambientais. transitando do modelo médico para o denominado biopsicos- social. a lei possibilita sanar essa desigualdade pela alteração destes fatores e não mais. e IV . a deficiência deixa de ser “atributo” da pes- soa. exclusivamente. psicológicos e pessoais. Tal mudança é importante porque. 2016-H).146.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. tão somente. Em outras palavras. Inicialmente. foi aproada a Lei 13. realizada por equipe multiprofissional e interdisciplinar e considerará:      (Vigência) I .os fatores socioambientais. III .a limitação no desempenho de atividades. para definir-se na relação com o ambiente. Neste sentido. intitulada Lei Bra- sileira da Inclusão ou Estatuto da Pessoa com Deficiência (BRASIL. Assim define a Lei: Art. a perspectiva parece ter sido alterada. 2º-  Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física. ao retirar do corpo da pessoa. a fonte da desigualdade ge- rada. no ano de 2015. a condição de deficiência. cumpre salientar que o referido diploma legal altera sobremaneira a própria concepção de pessoa com deficiên- cia. mental.os impedimentos nas funções e nas estruturas do corpo. 2016-H).) Recentemente. M. pela reabilitação da própria pes- soa. em intera- ção com uma ou mais barreiras. o qual.   § 1o  A avaliação da deficiência. será biopsicossocial. pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. exclusivamente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

sensoriais.  Incumbe ao poder público assegurar. Parágrafo único. 27. incentivar. passa a não mais permitir a exceção no que diz respei- to à obrigatoriedade da inserção e permanência daquela na rede regular de ensino.146: Art. negligência e discriminação.  A educação constitui direito da pessoa com deficiência. segundo suas características. bem como o aprendizado ao longo de toda a vida (BRASIL. Assim dispôs a Lei 13. desenvolver. M. Tal análise. 2016-H). interesses e necessidades de aprendizagem. criar. da família. Ora.sistema educacional inclusivo em todos os níveis e modalidades. qualquer que seja a diferença do ser humano. 356 ) . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. em quaisquer circunstâncias. intelectuais e sociais. de forma a alcançar o máximo desenvolvimento possível de seus talentos e habilidades físicas.) cia a capacidade ou não de se inserir.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Não mais se faz presente a possi- bilidade de negação do direito à inserção no ensino regular. incutida na questão da educação da pessoa com deficiência. se a deficiência está na interação entre o impedimento da própria pessoa e os fatores socioambientais. Art. cabe transformar os fatores para permitir a plena inclusão. da comunidade escolar e da so- ciedade assegurar educação de qualidade à pessoa com deficiência. Verifica-se que a lei trata do direito à educação plena da pessoa com deficiência. em um sistema educacional inclusivo em todos os níveis de aprendizado. colocando-a a salvo de toda forma de violência. acompanhar e avaliar: I .  É dever do Estado. mas compete também ao ambiente criar e fornecer as condições necessárias a essa inserção. assegurados sis- tema educacional inclusivo em todos os níveis e aprendizado ao longo de toda a vida. implementar. 28.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. a educação especial é uma mo- dalidade de educação escolar oferecida na rede regular de ensino. afinal. 2015). se é nítida a obrigatoriedade da matrícula e do oferecimento das condições de permanência da criança e do ado- lescente com deficiência por parte dos estabelecimentos de en- sino. No âmbito da rede pública de ensino. tenham direito igual às demais de acesso e per- manência nas escolas públicas e privadas regulares e. já provoca questionamentos ao dispositivo que. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Se a letra da lei não deixa dúvidas. M. assim. No segun- do caso. a CONFENEN questiona tanto a obrigatoriedade da matrí- cula quanto a responsabilidade pela prestação dos serviços ineren- tes à educação inclusiva sem possibilidade de cobrança a maior.) Veja que nesta perspectiva. Desta forma. a educação nos moldes estabelecidos pela lei. Entre as escolas particulares. cabe criar as condições para que as pessoas com defi- ciência. no sentido de promoverem essa inserção. de fato. Na ação. Além disso. pelo país. que vá além do que é tradicionalmente oferecido aos alunos. físicos e sensoriais. a postura é de negação à responsabilidade de arcar com os custos de um sistema educacional inclusivo. tais questionamentos se materializaram na propositura de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade por parte da Confede- ração Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (ADI 5357). públicos ou privados. principalmente as crianças com impedimentos cognitivos. no Brasil. 357 ) . a realidade das instituições de ensino. se dê concretude ao seu direito à educação e à cidadania (Araújo. o mesmo direito se opõe aos pais ou responsáveis. à educação inclusiva. a falta de investimentos em condições de acessibilidade e em formação dos profissionais da área gera dúvidas quanto à capacidade do próprio sistema de ofe- recer. definiu a adesão.

portanto. mas também o Judiciário será instado a assumir posição. para o que são necessárias as garantias do acesso àqueles direitos 358 ) . não deve retroagir no que diz respeito aos dispositivos do diploma le- gal recentemente aprovado. Compreende-se. planejamento e promoção da política pública educacional. anteriormente à Lei Brasileira da Inclusão. valores e diretrizes já há muito designados. em igualda- de de condições com os demais. assim como caberá à própria pessoa com deficiência. de fato. Nestas frentes. nesse ínterim. nada mais faz do que regulamentar a aplicação daqueles princípios. da família e da sociedade como um todo. responsável que é pela regulamentação. M. enquanto sig- natário de documentos internacionais que. Esta proteção integral diz respeito ao pleno desenvolvimento destas crianças e adolescentes.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. aos familiares e à sociedade como um todo assumir uma postura inclusiva. que garanta às crianças e adoles- centes com deficiência o seu pleno desenvolvimento. o qual. já impunham a educação inclusiva como modelo e direito das crianças e adolescentes com deficiência. o Poder Público assume papel primordial.) O ambiente fático. sob a responsabilidade do Estado. 3 CONSIDERAÇÕES FINAIS O ordenamento jurídico brasileiro confere a crianças e ado- lescentes proteção integral. afinal. não é favorável em absoluto e demonstra que serão necessários esforços de diversas frentes no sentido de tornar realidade o que previu a legislação mais recente: um sistema educacional inclusivo. nas diversas instâncias. que o Brasil. como já é demonstrado. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

motivo pelo qual a defesa da necessária acessibilidade nas escolas. É sabido que um sistema educacional inclusivo exige que sejam dispensados esforços de vá- 359 ) . motivo pelo qual o arcabouço legal que a este público se relaciona se apresenta ainda mais amplo. este leque é ainda mais amplo e incisivo no que diz respeito à garantia de que este desenvolvimento seja pleno e saudável. então. Neste contexto. pessoas em desenvolvimento. o acesso e a permanência nas instituições de educação é o primeiro caminho para a conquista de uma vida independente e autônoma. Se há uma ampla gama de direitos destinados à população em geral. a condição de vulnerabilidade cresce e com ela a necessidade de proteção por parte do Estado de Direito. Quando se adentra. se apresenta como pauta sempre urgente e ainda bastante atual. M. Recentemente foi aprovada a Lei Brasileira da Inclusão (Es- tatuto da Pessoa com Deficiência). Para a criança e o adolescente com deficiência. insculpidos na própria Constituição Federal de 1988.) fundamentais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. com a implantação de um sistema educacional inclusivo. em igualdade de condições. na realidade da criança e do ado- lescente com deficiência. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a educação cumpre papel de elevada impor- tância. assim como ao próprio reconhecimento de si enquanto cidadão de direitos. posto que se mostra crucial ao desenvolvimento humano. específico e contundente no que diz respeito à prioridade que deve ser dispensada para garantir irrestrito acesso a todos os direitos elencados. a qual veio a garantir a implan- tação da educação inclusiva em todos os níveis e modalidades de educação. nos âmbitos público e privado. quando se trata da criança e do adolescente.

M. o que ainda está distante da rea- lidade das nossas escolas. Constituição da República Federativa do Brasil. Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. COSTA FILHO. mas a adoção de práticas pedagógicas inclusivas. Acesso em 07 de abril de 2016-B.07.br/app/sites/de- fault/files/publicacoes/convencaopessoascomdeficiencia. O ESTATU- TO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA . como prevê a própria legislação. Waldir Macieira da. Não se trata apenas de garantir a acessibilidade física.) rias frentes. Disponível http://www. no sistema público ou no privado. 360 ) .planalto. São Paulo: Saraiva.pessoacomdeficiencia. é a principal ferramenta para a superação da maior barreira que se apresenta durante toda a história da humanidade. BRASIL. DE 06.htm. BRASIL. especialmente dos gestores da política educacional e dos próprios profissionais que atuam na área.80 | Dez / 2015 DTR\2015\17066. 2016 -C. com igualdade e respeito às diversidades.146.gov.gov.pdf. Constituição da República Federativa do Brasil. REFERÊNCIAS ARAÚJO. 2007. A cer- teza de que é possível colocar em prática a previsão legal e realizar a educação inclusiva no Brasil. no que diz respeito à deficiência: o pre- conceito. Luiz Alberto Davir.br/ccivil_03/Constituicao/Cons- tituicao67. 2016.2015): ALGUMAS NOVIDADES. Acima de tudo. Constituição (1967). Disponível em: http://www.EPCD (LEI 13. BRASIL. Revista dos Tribunais | vol. Acessado em 10 jun. 65 . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 962/2015 | p. importa que haja a aceitação de que a incapa- cidade para a plena inclusão não está na criança e no adolescente com deficiência. mas no meio que não admite a diferença. Constituição (1988).

______. O combate ao trabalho infantil no Brasil: conquistas e desafios. Direito da criança e do adolescente. Diário Oficial [da] União.htm. São Paulo: Revista dos Tribunais.Corde. Lei 7. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. institui a tutela jurisdicional de interesses coletivos ou difusos dessas pessoas. de 24 de outubro de 1989. DEMO.gov. 5. Participação é conquista: noções de política social participa- tiva. Dispo- nível em http://www. SC: UNESC.gov.br/ccivil_03/LEIS/L7853. 2005.gov.planalto. In: OLIVEIRA.planalto.htm . A dignidade humana: teoria de prevenção geral positiva. 2009. 1990. Lei nº 13. São Paulo: LTR. Decreto-Lei nº 4.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. ______.htm. 2001. sobre a Coordenadoria Na- cional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência .ed.853. de 12 de setembro de 2000. ______. Lei nº 8. GOMES. Dispõe sobre a Con- solidação das Leis do Trabalho. Helena Regina Lobo da. Disponível http://www.Dispõe sobre a Convenção n o 138 e a Recomendação n o 146 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Idade Mínima de Admissão ao Emprego.com. M. Brasília.com.institutoamp.htm. Trabalho infantil e direitos huma- nos.) ______.institutoamp. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência).br/oit138. disciplina a atuação do Ministério Público. Poder Executivo. de 06 de julho de 2015.planalto.htm. Oris de (Org). Decreto-Lei nº 5. Pedro.br/cci- vil/decreto-lei/del5452. e dá outras providências. ______. São Paulo: Cortez. Acesso em 02 de fevereiro de 2016-H.597. Dispõe sobre o apoio às pes- soas portadoras de deficiência.br/oit182. Disponível em http://www.452 de 1º de maio de 1943. Dispõe sobre a Convenção 182 e a Recomendação 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre a proibição das Piores Formas de Trabalho Infantil e a Ação Imediata para sua Eliminação Disponível http://www. 2008. ______. Decreto-Lei nº 3. Patrícia Saboya. Acesso em 02 de fe- vereiro de 2016-G.069.134. Disponível em http://www. sua integração social. de 15 de fevereiro de 2002. Acesso em 02 maio 2016-E. CUSTÓDIO. Acesso em 02 maio 2016-D.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/ L13146. COSTA. André Viana. Acesso em 02 maio 2016-F. 361 ) . 16 de jul. de 13 de julho de 1990. define crimes. Criciúma. DF.146.

Acesso em 02 maio 2016. ed. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. fe. ________. Fábio Pestana. 2007. Trabalho infantil: a ne- gação do ser criança e adolescente no Brasil. C.br/cursos/nt/ta1. Brasília: Cortez. Josiane Petry. Ed.Brasília: Secretaria de Direitos Humanos. MANTOAN. 1999. Disponível em http:// www. 2008. Política e Práticas na Área das Necessidades Educativas Especiais. UNICEF. M. Disponível em: http://unesdoc.) JÚNIOR. . p. Convenção sobre os Direitos da Criança. SILVA. 1999.org/images/0013/001393/139394por. 31. L. 443. CUSTÓDIO.onuportugal.. Direitos fundamentais: conceitos. Acessado em 10/02/2013. ONU. Josiane Rose Petry. VERONESE. RAMOS..pt. André Viana. unesco. M. São Paulo: LTR.pdf. função e tipos.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Os direitos da criança e do adolescente. Mary Del (Org). Acolhendo crianças e adolescentes: experiências de pro- moção de direito à convivência familiar e comunitária no Brasil. Irene. Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência.htm . In: PRIORE. 2. Declaração de Salamanca Sobre Princípios. A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO BRASIL – DA EXCLUSÃO À INCLUSÃO ESCOLAR. Luciene de Cássia. História das Crian- ças no Brasil. 362 ) . Maria Tereza Egler.3. Acessado em: 07/04/2015.unicamp. São Paulo: Contexto. 2003. A história trágico-marítima das crianças nas embarcações portuguesas do século XVI. Educação versus Punição. José Afonso da. RIZZINI. Florianópolis: OAB editora. São Paulo: Malheiros: 2008. MARTINS. Curso de direito constitucional positivo. 2007. Blu- menau: Nova Letra.). História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil.lite. 1994. MARTINS NETO. VERONESE. São Paulo: Revista dos Tribunais. Disponível em: http://www. João dos Passos. 2010. OLIVEIRA. (Comp. UNESCO. São Paulo.

GRUPO DE SALA DE ESPERA E O CÂNCER DE MAMA: UMA ALTERNATIVA DE ACOLHIMENTO PSICOLÓGICO EM AMBIENTE AMBULATORIAL Letícia Bortolotto Flores1 Alberto Manuel Quintana² CONSIDERAÇÕES INICIAIS O câncer de mama é uma questão da saúde pública de grande relevância dentro da área da Saúde da Mulher.com. Segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde. a neoplasia mamária está entre as prin- cipais causas de mortalidade no mundo.quintana@gmail. visto que é o segun- do tipo de câncer mais frequente do mundo e o primeiro entre a população feminina (BRASIL. com base na Organização Mundial da Saúde (BRASIL.000 óbitos) e a causa mais fre- quente de morte por câncer em mulheres (World Health Organi- 1 Psicóloga. Professor do Curso de Psicologia – UFSM. sendo a quinta causa de morte por câncer em geral (522. Leh_flores@hotmail. albertom.com . 2003). ² Orientador. 2003).

tendo elevado as suas taxas de incidência nas últimas décadas (BRASIL. em resumo. 1999). Tendo em vista essa nova realidade. ou de forma indireta por meio da negação da doença. viver sem um sentido para vida é pior do que a morte (QUINTANA. os sentidos atribuídos tanto ao passado quanto ao futuro passam a ser questionados.) zation. entre as faixas etárias dos 40 aos 69 anos. acarretando uma mudança de imagem corporal que determina a percepção de corpo e deste em relação aos outros. poder incluir o câncer em sua vida e achar uma nova significação onde ela agora possa incluir sua doença. M. obri- gando a paciente a atribuir novos sentidos. a perda delas provo- ca um sentimento de terror e ameaça. entrando num processo de reconhecimento da doença e da angústia que ela gera. As mamas são o símbolo da feminilidade. 1999). de forma a reconstruir seu universo simbólico de maneira em que a possibilidade de mor- te esteja presente (QUINTANA. gerando a não aceitação do tratamento fazendo com que a doença avance livremente e. Atinge mulheres que se encontram. 2012). 364 ) . principalmente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. as fantasias e tentativas de aniquilamento se potencializam. 1999). situação que pode ser observada de forma direta por meio das falas de desvalorização da vida. para que se possa assim. A ideia de morte e mutilação traz consigo uma ameaça para a imagem corporal e a sua estrutura familiar que. Este é então o grande de- safio do sujeito. por exemplo. 1999). representá-la (QUINTANA. Sob o olhar do humano. assim. sendo a enfermidade que mais leva as mulheres à morte. 2003).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Assim. formam a base do universo de significações da vida do sujeito (QUINTANA. obtendo o mesmo resul- tado: a morte (QUINTANA. 1999). quando as pacientes não conseguem reconstruir seu universo simbólico.

a estratégia utilizada para amparo psi- cológico ocorria através de atendimentos individuais de curta du- ração nos quais os casos eram encaminhados pelo atendente res- ponsável. buscando a promoção de estratégias para que estas pos- sam melhor lidar com as adversidades proporcionadas pela doen- ça. para. falta de representantes psíquicos (QUINTANA. Diante de uma situação traumática. facilitar o período de tratamento. nem sempre é possível disponibilizar atendimento psicológico a todas as pacientes que necessitam. é preciso que se reconheça a doença e a angústia que ela gera. Visto que. buscando um ambiente onde pacientes e acompanhantes possam melhor aproveitar o período de espera pré-consulta. É pensado como um espaço para que se possa com- partilhar vivências.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. havendo a possibilidade de criar elementos que possam dar significação a esta vivência. Contudo. movimentando possíveis impressões que possam ter sido in- corporadas pela enfermidade em seu cotidiano e. o cuidado oferecido pelo médico só é capaz de direcionar a doença enquanto presente no corpo biológico. até então.) Dessa maneira. hoje. sentimentos e percepções dessas pacientes. busca-se um diálogo sobre a doença. 1999). É nesse momento que o trabalho do psicólogo se constitui. podendo assim. não dando conta dos demais impactos repre- sentados no corpo psíquico da paciente (QUINTANA. M. 1999). então. em contrapartida. representá-la. Dessa forma. para que exista a possibilidade de reconstru- ção simbólica. uma vez que situações como a grande demanda e a 365 ) . pensamentos. em que há um excesso de angústia e. é importante ressaltar que. A implementação de um grupo de sala de espera surge com o intuito de aprimorar o trabalho de atendimento psicológico aos pacientes do ambulatório.

Apesar disso. aumentando a autoestima e a autoconfian- ça da mulher (ROSSI. SANTOS. é evidente que para cada situação devem ser consideradas as peculiaridades.) dificuldade de permanência de alguns pacientes após a consulta. Tendo em vista que os enfrentamentos emocionais no pe- ríodo ocorrido entre o momento do diagnóstico e o tratamento afetam de forma brusca a condição emocional da mulher porta- dora de câncer de mama. o sentimento de amparo. 366 ) . para que ela se sinta fortalecida emocionalmente e possa enfrentar tais dificuldades propiciadas em meio a um diagnóstico de câncer (ROSSI.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. sendo comuns a diversas mulheres. considera-se de máxima importância. levando em conta toda a vivência acometida pela mulher e considerando o momento no qual esta se encontra. 2003). como a diminuição da ansiedade e a adesão ao tratamento médico. 1 APOIO EMOCIONAL E ADOECIMENTO Em meio à situação de crise vivenciada por essas mulheres. de acordo com a literatura vigente. o apoio emocional surge com a função de estimular a expressão dos sentimentos e emoções. 2003). Neste sentido. independen- te da idade e do estado civil. a sala de espera serve como um importante espaço de intervenção com vistas a trabalhar questões essenciais do adoecimento. M. existem muitos sentimentos relacionados ao câncer de mama que são de ordem universal. sejam fatores de dificuldade para que o devido apoio seja dispen- sado aos pacientes. SANTOS. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Observa-se que. dentre as relações sociais oferecidas à mulher.

foi a medicina que se tornou o berço da psicanálise devido a formação de Freud. M. a qual pode ser transformada em um es- paço de reflexão sobre o processo saúde-doença. sentimentos e percepções. desde a instalação até o seu desenvolvimento. gru- po que tem dia e hora fixa. sala de espera é um espaço fundamental.agora. Uma reflexão acerca do corpo. incluindo os tratamentos e procedimentos medicamentosos pelos quais passam. com a arte e literatura. além de verificar como se sentem no aqui . foi um dos principais motivos 367 ) . um grupo de só um encontro estruturado de maneira a aproveitar o tempo anterior à consulta médica. É um grupo que inicia e acaba no mesmo dia. incorporando-as ao seu cotidiano.1.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Sofrendo com influências do seu momen- to histórico-político. ainda sim. o grupo de sala de espera é uma diversificação de grupo aberto. visando também compartilhar vivências. Segundo Graça e Burd (2000). um espaço terapêutico para que estes possam falar das dificuldades e limitações que esta enfermidade causa. assim como de movimentos filosóficos. 1. pensamentos. O grupo propicia aos pacientes e familiares. Câncer de mama: Um olhar psicanalítico O campo psicanalítico foi sendo constituído a partir de mu- danças e rupturas teóricas no longo de um percurso marcado por articulações conceituais. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. bem como promover estratégias positivas utilizadas no manejo da doença.) A realização de grupos com pacientes e acompanhantes em sala de espera. surge como uma nova maneira de abordarmos essa questão. porém com participantes variáveis. Para Maldonado (1981). especificamente. mas. na troca de experiências entre os participantes e iden- tificação com a dificuldade do outro.

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. sendo basicamente objeto da medicina. A dualidade orgânico-psíquico. que em seus estudos pontuava a divisão entre corpo e mente como coisas dis- tintas sem correlação direta.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. O seio. uma vez que representa o símbolo da femi- nilidade. porém também coloca em questão o psiquismo do sujeito. já que implica a ameaça de perda de objetos que para o sujeito fazem ligação direta com sua identidade e que são indispensáveis para manutenção da sua vida psíquica (QUIN- TANA. faz com que sua perda pareça algo ameaçador. 2004). 2004). Percebemos que determinadas característi- cas psicológicas também acarretam forte influência no corpo orgâ- nico. uma vez que este corpo.) pelos quais estas rupturas teóricas e as criações de novos conceitos aconteceram. acarretan- do uma mudança de imagem corporal que determina a percepção de corpo e deste em relação aos outros (ZECCHIN. Foi a partir da escuta daquilo que se deixava de falar no corpo da his- térica que Freud iniciou a construção da psicanálise e iniciou seu afastamento da medicina (ZECCHIN.O seio é um órgão marcado por características singulares na vida da mulher adulta em relação a sua sexualidade. M. pensamento que há muitos séculos foi pontuada pelo filósofo Reneé Descartes. ainda se mostra um assunto bastante confrontado nas vias de estudo. 368 ) . Tendo em vista a nossa experiência tratada a partir do trabalho realizado no setor de Mastologia do Hospital Universitário de Santa Maria. observamos que a doença não pode ser considerada como uma via de mão única que vai do orgânico ao psíquico. também pertencia ao campo da cena histérica. 1999). A perda do seio por causa de um câncer é um dado de reali- dade que vem se impondo às mulheres em número cada vez maior (ZECCHIN. 2004). O diagnóstico de câncer de mama se constitui numa ameaça à preservação do corpo físico.

Dessa forma.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Portanto. SHIMO. possibilitando algum caminho em di- reção à simbolização. 2007). Assim como temos um corpo orgânico. não é possível afirmar que todas sintam as mes- mas dores. já que este é um conceito subjetivo. bem como na qualidade e intensidade da dor. 2004). 369 ) . as pacientes com câncer de mama vivenciam experiências de dor física e psicológica durante diferentes estágios da doença. também carregamos no corpo uma história singular. fisiológico e bioló- gico. além de ser uma característica identificatória para a menina (ZECCHIN. ainda que saibamos que esta jamais ocorrerá de forma total e que sempre sobrará um resto (ZECCHIN. A mulher acometida por essa doença não tem apenas o seu corpo modificado. mas também a sua imagem corporal e dife- rentes aspectos da sua vida social e afetiva. É um órgão sexual. As experiências emocionais vividas particularmente influenciam em todo este pro- cesso da doença: desde a aceitação. Ressal- ta-se a importância que deve ser dada. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. o câncer de mama precisa ser pensado em toda essa amplitude. 2004). Os aspectos mais importantes associados ao seio são tanto seu caráter sexual. quanto uma zona especialmente sensível às ca- rícias amorosas e ao prazer da amamentação (ZECCHIN. na maternidade. até o tratamento. objeto de intenso investimento erógeno. não apenas aos fatos em si. 2004). LOPES.) sua sensualidade. Escutar o corpo é escutar o desamparo ao qual as pacientes estão submetidas (VIEIRA. no todo da identidade feminina. porém. M. mas a possibilidade de abrirmos um espaço de escuta para o que é desta ordem do psicológico.

Uma intervenção psicológica realizada em ambulatório hos- pitalar deve ser uma ferramenta que tenha sua necessidade com- preendida pela equipe. tratamento (com ou sem internação). da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. situações em que se prevalece mostrar ao estudante possibilidades de ações e intervenções. recu- peração e reabilitação. visto que não se destina a atenção primária. é possível ter acompanhamento do começo. con- tando com a grande vantagem de se poder acompanhar o ciclo do doente – diagnóstico. dependendo do momento no curso da doença e do motivo pelo qual o paciente está vinculado ao ambulatório (RO- MANO. 1999). Ressalta-se que.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. elucidação e acompa- nhamento. 1999). seja proposto acompanhamento àqueles pacientes cujo problema emocional principal guarde estreita ligação com a sua patologia orgânica.2 Atuação do psicólogo em um ambulatório hospitalar O ambulatório de um hospital difere daquele vinculado a um centro ou posto de saúde. Do ponto de vista dos aspectos emocionais.) 1. 1999). a necessidade do paciente difere em cada situação e a atenção psicológica dispensada será diferente. abrindo espaço para uma reflexão acerca do componente emocional coadjuvante ao orgânico (ROMANO. ao psicólogo que atua em ambula- tório hospitalar. meio e fim do ciclo. uma população muito maior e heterogênea (ROMANO. Desta forma. Unidades ambulatoriais integradas a hospitais são comuns a universidades ou hospitais-escola. M. que necessitam de intervenções envolvendo maior tecnologia. 1999). tendo em mãos registros e segmentos de todas as intervenções realizadas (ROMANO. mas sim aos casos mais complexos. portando. atendendo. e que a equipe veja a intervenção como 370 ) .

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. facilitando o acesso das pa- 371 ) . apesar de ser possível a procura espontânea.1 Objetivo Geral: A aplicação do projeto de grupo de sala de espera tem como objetivo complementar o trabalho já desenvolvido pela psicologia no ambulatório de Mastologia. -Promover a estruturação do atendimento em grupo de sala de espera como melhor aproveitamento do tempo anterior à consulta médica. -Buscar maior aderência dos pacientes oncomastológicos ao espaço de escuta psicoterapêutica. o paciente de ambulatório raramente o faz (ROMANO. facilita o encaminhamento do paciente. afinal é da equi- pe que virá o maior número de indicações para acompanhamento psicológico.2 Objetivos Específicos: .) efetiva. Além disso. M. porque. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 2. OBJETIVOS 2. pois. 2. 1999). A compreensão e o comprometimento se fazem necessá- rios. buscando oferecer um espaço al- ternativo de escuta para pacientes atendidas no setor. assim como auxiliar na lida com a angústia gerada em meio a esse processo.Propiciar um espaço terapêutico complementar para que se possa falar sobre a experiência e as expectativas em relação à doença e ao tratamento. buscou-se identificar os sentimentos vividos por mulheres com câncer de mama no processo de adoecimento e as mudanças de- correntes dessa nova realidade.

trata-se de um tipo de investigação-ação. MÉTODO 3. a qual pode ser transformada em um espaço de reflexão sobre o processo saúde-doença.1 Delineamento do Estudo O estudo se trata de uma pesquisa-ação prática. termo geral aplicado a qualquer processo sistêmico entre agir no campo e investigar no mesmo. 3.2 Instrumentos de Estudo Para Maldonado (1981). po- rém com participantes variáveis. objetivamos que a atividade fosse proposta 372 ) . Visto que as atividades do ambulatório ocorrem nas quartas e quintas feiras pelo período da manhã. No que se refere à metodologia da pesquisa-ação. É um grupo que inicia e acaba no mesmo dia. M. de cunho qualitativo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. onde existe um espaço mais amplo com disposição de cadeiras em círculo e um mural para que possam ser feitas anotações. um grupo de só um encontro estruturado de maneira a aproveitar o tempo anterior à consulta médica. localizado na Ala C do hospital. grupo que tem dia e hora fixa.) cientes a um atendimento psicológico. situada no ambulatório. o grupo de sala de espera é uma diversificação de grupo aberto. Segundo Graça e Burd. A estruturação do grupo se constituiu de forma que as pa- cientes fossem convidadas pela pesquisadora a dirigir-se até a sala do grupo. (2000) sala de espera é um espaço fundamental. 3.

sendo possível a paciente desistir da participação.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. foi propiciado aos presentes um espaço de fala. seguindo com a explicação sobre os objetivos desse espaço. As orientações foram direcionadas aos pacientes e familiares que os acompanham. que era iniciado com algum dispara- dor. 3. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. O grupo só teve início após a assinatura do termo. “Como estão sen- do os momentos de visita ao ambulatório?”. Foi explicado sobre a participação das participantes na pesquisa. As atividades tiveram início às 8h30min com duração aproximadamente de uma hora. M. Em seguida. buscando uma forma de despertar momen- tos para que se pudesse falar sobre a experiência e as expectativas em relação à doença e tratamento que vivenciam.3 Desenvolvimento da atividade As atividades tiveram início com a apresentação da pesquisa- dora.) para as manhãs de quarta-feira. dia em que os atendimentos mé- dicos são destinados a pacientes que estão em situação de início de tratamento. descoberta de diag- nóstico. preparativos para operação cirúrgica e acompanhamen- tos iniciais. como “Como vocês estão se sentindo hoje?”. “O que trouxe vocês à consulta de hoje?”. buscando orien- 373 ) . sendo um grupo aberto. a cada semana. As dúvidas eram orientadas conforme surgissem. sendo assim as demandas das pacientes do grupo podem variar em casos de primeira consulta. e os questionamentos foram vi- sualizados de forma a gerar um retorno favorável. e ofertado o termo de consentimento livre e esclarecido para que se possa ler e discutir qualquer dúvida acerca do procedimento. de participação não obrigatória podendo. novos participantes se juntarem ao grupo.

4 Análise dos Dados De acordo com Bardin (2009). 2007). tem por finalidade a interpretação destas mesmas comunicações. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto das comunicações. de modo a deixá-las mais seguras para continuar um acompanhamento individual. uma vez que a noção de tema refere-se a uma afirmação a respeito de determinado assunto. 2009. 3. 2007). M. 2009. inferência e interpretação (BAR- DIN. pois segundo Minayo (2007) esta é a forma que melhor atende à investigação qualitativa do material referente à saúde. através de uma descri- ção objetiva. caso fosse neces- sário. A análise divide-se em três etapas: a) pré-analise. MINAYO. a análise de conteúdo é um conjunto de técnicas de investigação que. Sendo assim a análise de conteúdo temática consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação cuja presença ou frequência signifiquem alguma coisa para o obje- tivo analítico visado (BARDIN.) tar e amenizar a angústia do período de espera que é presente nos corredores do hospital. 374 ) . b) exploração do material e c) tratamento dos resultados. Para atingir mais precisamente os significados manifestos e latentes trazidos pelos sujeitos será utilizada a análise de conteúdo temática. O grupo encerra com orientações sobre a assistência que é proporcionada pela psicologia.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. MINAYO.

Tendo a maioria dos tipos de câncer uma característica silenciosa. foi observado que tanto o medo quanto sentimentos relativos à negação da doença e/ou descrença são sentimentos muito frequentes nas mulheres antes da confir- mação do diagnóstico. pois.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. medo e profunda tristeza. pois em cada caso. pelo fato de não sentir dores e demais sintomas que remetem a pessoa ao estar doente. seja intencional- mente ou por acaso. maiores as chances de um tratamento bem-sucedi- do (SALCI.) 4 VIVENDO A SALA DE ESPERA Ao descobrir algo de errado em seu corpo. para diversos tipos de câncer. 2009). Assim. momento que é marcado pela necessidade de adaptar-se a uma situação nova e amedrontante (SALCI. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. sempre espera que seja só um cisto”. inicia-se um processo de questionamentos e dúvidas. MARCON. M. 2009). situação marcada por falas do tipo: “A gen- te nunca acha que é alguma coisa. Trata-se de uma etapa importante. dizendo “só lembrar que está com câncer quando se vê no ambulatório tendo que consultar”. Algumas mulheres. neste momento de descoberta. surge um fator de preocupação e força que guia a busca por tratamento e expectativa pelo possível diagnósti- co. a atitude tomada nesta ocasião determinará em grande par- te. quanto antes a doença for detectada e diagnosticada. eram percebidos principalmente sentimentos de desespero. Nos grupos orientados. o sucesso do tratamento. relatam a dificuldade em se perceber com a doença. normalmente demonstrados por consternação 375 ) . Esse momento é vivenciado de modo muito singular pelas mulhe- res. quando se observa a fala de participantes que esta- vam em um momento após a descoberta do diagnóstico de câncer. MARCON.

as experiências emocionais vividas influenciam nesse processo de adoecimento (VIEIRA. a construção da autoimagem e a autoestima influenciarem muito a forma como a doença será significada pela paciente. como: angústia. podendo o apoio familiar. abre-se espaço para o questionamento acerca da singularidade de cada caso. podemos compreender o câncer de mama.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. dor. a respeito dos sentimentos de desespero. tristeza e choro anteriormente mencionados por algumas participantes. a mulher se depara com sentimentos diversos. Diante desta situação. o que pode justificar o sentimento de desespero como uma forma encontrada para extravasar emoções e decepções gera- das por essa quebra simbólica. M. como uma ruptura na identidade feminina. houve também quem demonstrasse uma atitude positiva de en- frentamento da doença. vivendo sentimentos de tristeza e angús- tia.) e choro. 376 ) . (2001) trazem a representação do corpo como fator de importante papel na construção da autoimagem e na consciência de corpo subjetivo. Desse modo. Deitos e Gaspary (1997) apontaram que diante do diagnóstico do câncer de mama. Algumas participantes pontuam o recebimento do diag- nóstico como a pior parte de todo tratamento. e novamente a confirmação de que a doença se dá de forma diferente para cada mulher. fato que se mostra muito impressionante para as demais participantes que se encontravam em momentos diferentes da doença. sofrimento. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Ainda. 2007). Almeida et. e a eventual retirada da mesma. al. LOPES. SHIMO. Sendo esses sentimentos constantes na mulher desde o diagnóstico da doença até o seu processo de cura. considerando a simbolização social e individual da mama. culpa. mostrando a relação com o pró- prio corpo como sendo um elemento constitutivo e essencial da individualidade.

marido. sendo um dos papéis da família nesse 377 ) . uma grande maioria de mulheres participantes. mais ameaçador e temível do que a própria palavra “câncer” em si. filhos. físico e financeiro. ainda. Propondo a discussão sobre a incidência do câncer. A relação com a caracterização do nódulo como “benigno” ou “maligno” foi uma preocupação muito presente nesse momento de descoberta da doença. possivelmente a mulher ganhe estímulo e força para garantir um ajustamento saudável à nova condição de saúde”.) Pontuam-se. Sobre a rede de apoio.. contando com raras exceções. De acordo com Silva e Mamede (1998). a ocorrência de fatores genéticos também é um fator apontado por dados do INCA (BRASIL. Nes- sa situação.. relatou a não ocorrência de câncer de mama na famí- lia.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 2002) como um marcador de risco para o desenvolvimento da doença. questões trazidas em grupo por algumas participantes referentes ao recebimento do diagnóstico. O recebimento da notícia de um nódulo “maligno” tornou a palavra. M. pois. em grande parte dos encontros. fato que chamou atenção. muitas buscam a força na fa- mília. embora o número de mulheres acompanhadas pelo grupo seja de porcentagem insignificante den- tro da população de pacientes portadores de câncer de mama. sendo discutido em praticamente todos os encontros. Com esse suporte. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. e a discussão com a equipe médica sobre a frequência dessas duvidas no grupo.o sustentáculo emocio- nal. para algumas mulheres. destacam-se nas falas que são diversas as motivações para o enfrentamento. a família é vista pelas mulheres como ponto de partida para “. amigos próximos e pessoas queridas ressal- tando a importância de uma rede de apoio forte para a recupera- ção. fez-se necessária a orientação acerca da nomenclatura que era relacionada ao tumor.

Entretanto. A representação do câncer. foi comum as pacientes trazerem situações em que o câncer era compreendido como algo “contagioso”. colocando a doença não ape- nas um desvio biológico. MAMEDE. & Santos (2009) colocaram que o estigma do câncer de mama leva a paciente a conviver com o preconceito e com senti- mentos negativos que. 2003). como um mal. contrapondo o papel da rede de apoio como algo positivo para o enfrentamento da doença. exprime um sentimento de desvalorização social. trazendo relatos de pes- soas que se afastaram e/ou evitaram o contato com elas após o diagnóstico ter sido confirmado. onde o doente se vê como um ser socialmente desvalorizado. que podem afetar profundamente a maneira como as pessoas per- cebem essa doença e o comportamento de outros em relação às mesmas. al. Caetano. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. atrapalhando o tratamento (FERREIRA. 378 ) . constituindo assim. as pacientes relatam também situações de angústia proveniente do preconceito com a doença e de “pessoas que falam o que não sabem só pra te colocar pra baixo”. mui- tas vezes.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.) momento acolher e reconhecer o papel da paciente com câncer dentro do núcleo familiar. se nutridos pela paciente. Diante das vivências em grupo. Gradim. um componente es- sencial à sua recuperação. são por ela mesma nutridos. O estigma do câncer de mama leva a paciente a con- viver com o preconceito e com sentimentos negativos que. (2000) apontaram que condições graves como o câncer carregam consigo uma série de associações simbólicas. fatos que demonstram a falta de conhecimento e o preconceito que ainda se encontra presente no convívio social. mas também um desvio social. Almeida et. M. podem vir a tor- nar a vivência da doença um processo bastante difícil e penoso.

para.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. assim. que pode ser acentuado em situações que a paciente vem sem um acompanhante. viver com maior otimismo. onde as pacientes possam encontrar mais recursos e acesso a tratamento. culturalmente marcada nas vidas de pacientes oncológicos (AQUINO. Ainda Aquino e Zago (2007) acreditaram que a fé ou crença religiosa proporciona às mulheres com câncer de mama sentimen- to de paz na sua condição. Mesmo nas pacientes que citam o avanço da medicina como um apoio na esperança da cura. a espiritualidade aparece. situação que envolve uma preparação prévia e horas de viagem. A busca divina é uma opção alter- nativa. como a espera por atendimento e angústia pelo possível diagnósti- co. para tanto. se tornar um fator bastante estressor. Segundo alguns relatos. podendo também pensar na doença como “processo de aprendiza- do”. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. A experiência de enfrentar o câncer resulta num processo de desafios para o doente e. muitas participantes trouxeram a busca na fé e religião uma alternativa para superação. provocando sentimento de desamparo. ele busca algo com que possa 379 ) . Visto que o hospital no qual o grupo é reali- zado atende também uma grande demanda de cidades da região. a fé em Deus se mostrou tão importante que. M. A grande maioria dos participantes relata a vinda de outra cidade. além da rede de apoio. é comum que alguns acompanhamentos sejam direcionados para o hospital. juntamente com demais situações. podendo. 2007). em uma situação em que o tumor se mostrou de menor tamanho na ultrassonografia do que quando foi medido no exame de toque. Sobre a busca de força para enfrentamento da doença. ZAGO.) O fator deslocamento também foi um tópico bastante pre- sente nos encontros. foi referido o acontecimento de “um milagre”.

da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. o que nos mostra também sobre a necessidade de se existir uma orientação voltada também para a ocorrência do câncer de mama masculino. as experiências emocionais vividas influenciam nesse pro- cesso de adoecimento. A busca da força se mostra presente em falas como: “Deus só dá o fardo pra quem possa carregá-lo”.000 mulheres (ARAÚJO et al. sendo esta. 2003) sendo responsável 380 ) . vale pontuar que houve a participação de homens portadores da doença no grupo. 2007). Ainda assim. As reações da mulher com câncer de mama frente à mutilação re- lacionam-se à sua subjetividade.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. mas não é possível afirmar que todas essas mulheres sintam a mesma dor (VIEIRA. frase que foi citada por duas pacientes em grupos distintos. mostrando a doença como um obstáculo que ‘é dado’ àqueles que carregam a capacidade de superá-lo. fazendo serem proble- matizadas marcas orgânicas e psicológicas deixadas pelo mesmo em mulheres. SHIMO. M.) enfrentar esses desafios. Vale ressaltar que a doença se dá de forma diferente para cada mulher. é seme- lhante ao processo de elaboração de luto (ALMEIDA et al. a religião é vista como estratégia valorizada na cultura ocidental para lidar com a doença e suas te- rapêuticas. desde a aceitação do diagnóstico e da doen- ça. 2001). O câncer de mama em homens é uma patologia relativamente incomum. Atinge 1 homem para cada 1. sendo determinadas pela maneira como ela vive e convive com o seu corpo desde a infância e o pro- cesso de elaboração frente à doença e à perda da mama. uma proble- mática presente em nosso estudo. Mulheres acometi- das pelo câncer de mama vivenciam experiências de dores físicas e também psicológicas. Assim. até a efetivação do tratamento oncológico. LOPES. sendo o câncer de mama marcado pelas taxas de incidência prioritariamente femininas.

o subtipo mais comum é a variedade ductal infiltra- tiva e raramente se verifica o tipo lobular (SAVI. FONSECA. 2002). 2002).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. medos. REDLICH. muitas das atuais modalidades de tratamento são baseadas na experiência com câncer de mama feminino (DONEGAN. AZARO. destacando-se o Rio Grande do Sul (SAVI. Devido à pouca incidência da doença no sexo masculino. No Brasil. CONSIDERAÇÕES FINAIS Considerando o trabalho desenvolvido pela psicologia no am- bulatório de mastologia. alguns estudos indicam que a incidência desse tumor vem aumentando. Em negros se verifica uma incidência maior (SAVI. Apesar desses números. HAAS. 1996). 1994). 2002).) por 0. fantasias e informações distorcidas podem ser esclarecidas. 381 ) . angústias. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. pos- sibilitando as estas mulheres um olhar reflexivo e realista sobre o momento que estão vivenciando. HAAS. não se verificou redução nas taxas de mortalida- de por câncer de mama masculino nos últimos anos e a maior in- cidência desta neoplasia foi encontrada nos estados do sul do país. que disponibiliza apoio às pacientes tanto pós consulta médica.1% da mortalidade por câncer no sexo masculino (RAVAN- DI. 1998). sendo mais incidente com homens na faixa etária dos 60 anos (DIAS. A prevalência da pato- logia no homem aumenta com a idade. quanto durante os procedimentos médicos como a quimioterapia e a mastectomia. HAAS. percebe-se a grande importân- cia deste espaço promovido pela sala de espera para externalizar sentimentos vividos por elas. dúvidas. quando o diagnóstico de câncer de mama é revelado. Assim. Como nas mulheres.

63-69. Latino- -Am.  Ribeirão Preto . abrindo a possibilidade de se trabalhar junto às necessidades emo- cionais decorrentes do adoecimento. n. Latino-Am.S. possibilita uma nova maneira de abordarmos essa questão do adoecimento. promovendo troca de experiências entre os participantes e identificação com a dificuldade do outro. Rev. ZAGO. Enfermagem.Construindo o Significado da Recorrência da Doença: A Experiência de Mulheres Com Câncer de Mama. visando aprimorar o entendimento deste momento na vida das mulheres e maior acessibilidade à atenção psicológica no ambiente hospitalar. 9. Figueira.  v. 1.  2007 . Verônica Vrban. COSTA. Márcia Maria Fontão. 2008). p. p. Feb.) Segundo Nassif (2006). Rossano R. ARAÚJO. Fernandes. bem como a me- lhor adesão a este (FIOREZE. 42-47. 5. M. 15. A presença do psicólogo em meio às equipes de saúde que trabalham com o atendimento de pacientes com cancer de mama se mostra de extrema importância. Rev. auxiliando na manutenção do bem-estar psicológico ao longo do tratamento.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. a medicina tem promovido avanços na área oncológica. Enfer- magem. O significado das cren- ças religiosas para um grupo de pacientes oncológicos em reabilitação.  2001. En- tretanto a incidência da patologia tem aumentado e a atualização de estudos na área são importantes. conside- rando as ações preventivas e também o tratamento disponível.  Ribeirão Preto . A realização de grupos com pacientes e acompanhantes em sala de espera. FILHO. Ana Maria de et al . REFERÊNCIAS ALMEIDA.  v. Antônio S. principalmente no câncer de mama. Sept. considera-se que o apoio emocional seja um assunto que mereça maior atenção. Dessa forma. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. AQUINO. Laura 382 ) . PINHEIRO. n.

115-121.13.76. Revista Brasileira de Cancerologia. FERREIRA. HALLAL. June  2003 . 2000. Rev. Ana L. 3. Rio de Janeiro: Revinter. p. p. AZARO. Schwaab. Instituto Nacional de Câncer. CAETANO. 1996. MAMEDE. Cân- cer de mama em homens: estudo de 13 casos / Male breast cancer: a study of 13 cases. v. L. M. 2003. 2008.. Silvia D. Rio de Janeiro: INCA. Maria de Lourdes da Silva Marques. Revista Brasileira de Mastologia.  Ribeirão Preto . Laurence. (Graduação em Psicologia) . SANTOS. MALDONADO.2. 2009. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. C. Lisboa. S. São Paulo. 2009. BRASIL. M. REDLICH. Surgical Clinics of North America. PINHEIRO. 378-381.Faculdades Integradas de Taquara. n. Pollo. GRADIM. Enfermagem. Efeitos biopsicossociais e psiconeurológicos do câncer sobre pacientes e familiares. SANTOS. n. 299-304. 2007. Breastcancer in men. Associação Brasileira do Câncer. Rio de Janeiro. LDA. Edilaine A. DEITOS. Cortês.257-261. 1. 43. 9. Definição de Câncer. v. GRAÇA. Marli Villela. M. Câncer de mama: reações e enfrentamento ao receber o diagnóstico.. Porto Alegre : Grupo e Cor- po. GASPARY.A. 383 ) . M.. O Desafio do Conhecimento. Maria Cecília Souza. BRASIL. n. Hassan. Falando Sobre Câncer de Mama. João F. BARDIN. Câncer de mama no ho- mem. Lana E. P. Revista de Enfermagem UERJ. v. 1994. v. 1997. DONEGAN. Falando Sobre o Câncer de Mama.117-126. Guerra.343-349. p. Terezinha F. Santos. E. Portugal: Edições 70. Libelina M. C. FIOREZE. SIMPLÍCIO. DIAS. Repre- sentação do corpo na relação consigo mesma após mastectomia. N. Grupos de sala de espera. 1981. N. Ministério da Saúde.343-358. Latino-Am. Instituto Nacio- nal do Câncer. p. p. Ministério da Saúde.) O. Dulce A.. v.36.. Secretaria Nacio- nal de Assistência à Saúde. Miriam.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. GALVÃO. 11. Grupos com Diabéticos.. p.  v. Elísio B. 17. v.3. Pesquisa Qualitativa em Saúde. BURD. n.. BRASIL.2 . Coordenação de Preven- ção e Vigilância – (Conprev) – Rio de Janeiro: MS/INCA. Clícia V. T. R. G. p. A. SP: Hucitec. 2008. W. Artes Médicas Sul. Mastologia atual. Análise de Conteúdo. 2002. L. A. FONSECA. 2003. MINAYO. Câncer de mama e apoio emocional. Femina. RS. n.

T.13. Maria A. NUCCI. Universidade de São Paulo. (Doutorado em Psicologia Clínica). M. Nelly A. B. 2006. Wilma.107-118. Ribeirão Preto.V. Itinerário percorrido pelas mulheres na descoberta do câncer. 1998 VIEIRA. Esc Anna Nery Revista de Enfermagem. Pontifícia Uni- versidade Católica de São Paulo. n. M. SP: Casa do Psicólogo.558-566. Galante. 1999. P. enferm. Male breast cancer: a review of the litera- ture. p. Alberto. v.) NASSIF. R. SHIMO. A Perda do Seio: Um Trabalho Psicanalítico Institucional com Mulheres com Câncer de Mama.23. Nascimento. 1998.7. Sonia S.Globocan. ROSSI. 2. LOPES.. RAVANDI.  São Paulo . Princípios Para a Prática da Psicologia Clínica em Hospitais.2 . 2012.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. SP. L. V.  v. Sentimentos e experiências na vida das mulheres com câncer de mama. Ocorrência de câncer de mama em pacientes masculinos no Brasil. USP. QUINTANA. M. HAAS. Repercussões psicológicas do adoecimen- to e tratamento em mulheres acometidas pelo câncer de mama. HAYES. Psicologia Ciência e Profissão. MARCON.. Conviver com a mastectomia. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. SANTOS. São Paulo. n. 2003.A. European Journal of Cancer. Traumatismo e simbolização em pacientes com câncer de mama. Rev. Maria Helena Baena de Moraes. MAMEDE. 1999.32-41.3. Fortaleza: Editora UFC. ZECCHIN. M. 2003. Manoel A. Carolina Pasquote. 2002. Kashani F. (Doutorado em filosofia) . Qualidade de vida e câncer: O estudo compreensivo. v. 41. 311-316. esc. v. SALCI. R.4. Leandra. n. Antonieta Keiko Kakuda. 384 ) . Ciências e letras de Ribeirão Preto. n. SILVA. Guernelli. Vínculos afetivos e respostas ao estresse em pacientes com câncer de mama.34. 2004. n.Faculdade de Filosofia. ROMANO. In: Anais 36º Congresso Brasileiro de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial. SAVI. p. 2009. p. G. p. São Paulo: Casa do Psicólogo.. p. São Paulo.9. Maria R.  WORLD HEALTH ORGANIZATION. Temas em Psicologia.1341–1347. June  2007 . International Agency for Research on Cancer .

Especialista em Investiga- ção Científica pela Universidade Luterana do Brasil (ULBRA-RS) – 1997.br 2 Graduação em Serviço Social pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) – 1990. Assistente Social. voltadas à garantia e defesa 1 Graduação em Serviço Social pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa) – 2010. Mestrado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PU- C-RS) – 2013. Especialista em Saúde Comunitária pela Escola de Saúde Pública/RS – 1992.com. Assistente Social.com. E-mail: lcunha@ghc. As políticas públicas brasileiras. Doutora pelo Programa de Direitos Humanos e Desenvolvimento da Universidade Pablo de Olavide/Sevilha/Espanha – 2007. Especialista em Violência Doméstica (LACRI/USP) – 2005. como es- paço de lutas e de criação de possibilidades para a vida de sujeitos concretos e coletivos. E-mail: omaristela@ghc.br . Mestrado em Educação pela Pontifícia Universi- dade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) – 1998. OS DIREITOS HUMANOS E A POLÍTICA DE SAÚDE PARA ADOLESCENTES EM CONTEXTO HOSPITALAR Liziane Giacomelli Henriques da Cunha1 Maristela Costa de Oliveira2 CONSIDERAÇÕES INICIAIS É inegável que pensar em políticas sociais públicas na contemporaneidade remete à necessidade de que as reflexões sejam realizadas dentro do marco dos direitos humanos.

têm como gênese a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente. a partir da intervenção do Serviço Social com adolescentes e suas famílias em um hospital de trauma. M. não somente aos agravos (causas externas) que acometem a saúde e a qualidade de vida desse segmento social. estabelecendo.) dos direitos da criança e do adolescente. Entretanto.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. da sociedade e da atuação de profissio- nais estreitamente vinculados a essa luta. Com o intuito de contribuir para a consolidação de estratégias que deem visibilidade. Constata-se que houve um significativo avanço no que se refere ao ordenamento sociojurídico que orienta as políticas e práticas profissionais a partir do novo Pa- radigma da Proteção Integral. 386 ) . tornou-se o grande desafio do Estado. os quais cotidianamente estão presentes nos serviços de saúde e na assistência à saúde de adolescentes. vistos como sujeitos de direitos. mas também potencialidades para a produção de saúde. baseada na perspectiva dos direitos dessa população. é que esse estudo exploratório propõe-se a desvelar vulnerabili- dades. a afirmação legislativa de toda e qualquer criança e adolescente brasileiros como prioridade absoluta das políticas sociais. assim. Essa nova proposta da construção de uma nova sociedade. que veio com o objetivo de firmar o compro- misso político já elencado na Constituição Federal de 1988 com a efetivação da cidadania a todos os sujeitos por meio das políticas públicas e do exercício da democracia plena. dentre eles o assisten- te social. Nesse prisma insere-se a atenção integral à saúde de adoles- centes. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a realidade social aponta para alguns nós críticos. profissional comprometido ética e politicamente com a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. no âmbito da saúde pública.

os direitos humanos são propagados. formais e normativamente universais. culturais. Os critérios de reconhecimento são constitucionais. ademais. embora não sejam concretizados. sexuais e ambientais para que os sujeitos sejam reconhecidos como sujeitos diferenciados. para isso.) 1 POLÍTICAS PÚBLICAS COMO AFIRMAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS Em alguns países da sociedade contemporânea. com base em códigos internacionais que reconhecem que todos os seres humanos têm os mesmos direitos. historicamente os direitos fun- damentais têm sido instrumento tanto de exclusão como de inclusão. sociais. M. os contextos e as tramas sociais sobre as quais se colocam as normas reproduzem lógicas de exclusão e discriminação. Isso implica. Não se pode seguir mantendo um conceito de direitos humanos que abstrai das condições materiais dos sujeitos. se fazem necessárias diversas reivindicações políticas. inclusive reduzindo os âmbitos formais de manifestação popular. Na visão de Rubio (2007). no entanto.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. fato que aumenta a distância entre as práticas sociais e o referencial normativo (BICUDO 2002). O mesmo autor compreende os direitos humanos como pro- cessos de abertura e consolidação de espaços de luta pela dignidade humana e. tanto de desigualdades como de igualdades. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Sujeitos com capacidade de expressar múltiplas formas individuais 387 ) . a convicção de que o conceito de di- reitos humanos só adquire sentido em circunstâncias culturais específicas e nas relações sociais concretas de mobilização e ação de classes sociais. Esses direitos mundialmente reconhecidos são cotidianamente banalizados e desrespeitados. econômicas.

à alimentação. da comunidade e da sociedade em geral e do poder público assegurar com absoluta prioridade a efetivação dos direitos referentes à vida. ao lazer. à saúde. ao respeito. à liberdade e à convivência familiar e comunitária (BRASIL. No Art. ao esporte. 388 ) . considerando o entorno e o contexto no qual cada indivíduo ou coletivo se situam (RUBIO. à educação. à saúde. à alimentação.) e coletivas de humanidade. 227 da Cons- tituição Federal. da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. sendo dever da família. Abordar as políticas públicas como concretização de direi- tos humanos dirigida a categorias específicas da população que são marginalizadas por suas características singulares (aqui se incluem adolescentes. 227. 2004). com absoluta prioridade. 2012).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. discriminação. violência. crueldade e opressão (BRA- SIL. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. exploração. está explicitado o seguinte: É dever da família. 2004). além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. De acordo com a legislação brasileira. à educação. as iniciativas de atendimento a adolescentes ainda podem ser considerados incipientes. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. apesar de todos os êxitos e avanços na área da le- gislação resultante das ações internacionais e nacionais dos movi- mentos sociais. No Brasil. ao respeito. à dignidade. à cultura. dentre outros) implica o reconhecimento de uma história de discriminação e desigualdade social. no Art. à dignidade. M. ao lazer. à profissionalização. à profis- sionalização. a criança e o adolescente gozam de direitos fun- damentais inerentes à pessoa humana. o direito à vida. na qual se estrutu- ram as relações humanas. à cultura.

GUERRA. bem como pelo Ministério da Saúde e pela Política Estadual de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes/RS (PEAISA). será adotada a classificação orientada pela OMS. identidades e contextos sócio-históricos que perpassam as várias adolescências. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). pluralismo.) De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente. Discorrer sobre esses sujeitos exige que se pense em diversidade. crianças são pessoas de até doze anos incompletos e adolescentes aquelas entre doze e dezoito anos de idade. 2005). que assegura legalmente os direitos da infância e da adolescência.069/90. econômico e cultural. Contudo. raça/etnia. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a adolescência ocorre entre os 10 e os 19 anos de idade. Pode-se dizer que se trata de uma fase socialmente estabelecida que poderá ter diferentes pecu- liaridades e modificar-se conforme o ambiente social. Considerando todos os aspectos que foram abordados neste trabalho. cultura e classe social (AZEVEDO. orientação sexual. M. reitera-se que a concepção engloba a prerro- gativa de que o ser-criança e o ser-adolescente não se restringem meramente a uma referência cronológica. mas respeitam os sujei- tos sociais vistos na perspectiva de gênero. Essa concepção de adolescência possibilita a ampliação do olhar sobre o sentido de ser adolescente com as múltiplas e complexas tramas que envolvem a vida social.1 Adolescências no contexto da saúde Vários são os enfoques e distintas as perspectivas de com- preensão do que seja a adolescência. no qual adolescentes vivem e se desenvolvem. Lei 8. Os estudos e as publicações sobre o tema apontam que a ado- 389 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 1.

por direito. Em geral. Também o sexo é um critério fundamental na hora de estabelecer definições ou categorizações. ademais.) lescência é uma construção recente que tem origem nas socieda- des ocidentais. que é o espaço onde. Para isso. É cres- cente o número de adolescentes que. A cronologia dessa etapa da vida está definida para alguns grupos em diferentes estratos socioeconômicos com expressões culturais dis- tintas. Não é raro. são. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Alguns profissionais levam em conta as transformações relacionadas com o corpo. em alguns casos. M. é preciso atender à heterogeneidade que está envolvida no referido processo da adolescência. considerando que o início da adolescência se dá na puberdade. dependendo do meio sociocultural ao qual faz-se referên- cia. E. abandonam a escola. há justificativas de caráter sociológico. 1998). as- sumindo. as discussões sobre conceitos de adolescência sempre reivindicam a necessidade e ur- gência de ações sociais para essa população (SILVA. 2003). et al.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. por essas razões. antropológico e socioeconômico. já que nessa fase ocorre 390 ) . 2009). em- bora em alguns pontos possam existir algumas convergências. 1997). o papel de provedores em vista de pais omissos ou sem condições de fazê-lo naquele momento. É visível que os critérios não podem ser os mesmos em todas as sociedades. Por essa razão. cujo conteúdo foi objeto de contínuas mudanças (OZELLA. deveriam encontrar-se nesse período de suas vidas (TRIPOLI. grupos oriundos do meio urbano ou rural em função de demandas muito peculiares (BERQUÓ. que os jovens ingressem no mercado de trabalho (formal ou informal) com o objetivo de colaborar com a renda familiar. LOPES. psicológico. principalmente nos países de capitalismo depen- dente. esse período pode ser abreviado ou prolon- gado. Não obstante.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. liberdade. 89). p. lazer. 1. em face de reduções provocadas por contingências sociais e econômicas” (SI- MÕES. é o único direito universal que faz parte da Seguridade Social (junto com a Previdência e Assistência Social) “que tem por finalidade a garantia de certos patamares mínimos de vida da população. 2004). a Conferência Na- cional de Saúde declara que: Em seu sentido mais abrangente. renda. Buscando conceituar essa ampliação para além do individual. Entretanto sabe-se que diversos são os fatores que contribuem para o desenvolvimento e aquisição de ha- bilidades e competências para o exercício de papéis sociais que são construídos socioculturalmente. educação. emprego. trabalho. acesso e posse de terra e acesso a serviços de saúde. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.) a maturidade sexual que capacita os jovens biologicamente para procriar (COSTA. É assim. o resultado das formas de organização social da produção. a saúde é a resultante das condições de alimen- tação. as quais 391 ) . sua trajetória históri- ca na vida dos brasileiros continua sendo permeada por avanços e retrocessos (ABREU FILHO. antes de tudo. transporte. mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. meio ambiente.2 Saúde como política pública no contexto das adolescências Desde que a saúde foi promulgada pela Constituição de 1988 como direito de todos e dever do Estado. M. habitação. ou seja. Ela. O próprio conceito de saúde passou por diversas transforma- ções até ser definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como “um estado de completo bem-estar físico. como parte do coletivo da organização da sociedade. 2002). no entanto. 2007.

Portanto. No caso das meninas. encontram-se em permanente necessidade de reafirmação e luta por conquistas de espaços de reconhecimento em um compasso de avanços e recuos no tempo presente. mediante as escolas e outros profissionais que atuam na área da infância e da adolescência. Como afirma Bobbio (2004. “são direitos históricos. e. p. eles chegam aos serviços especializados de saúde via en- caminhamentos de outros serviços e/ou instituições.) podem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida (CONFERÊNCIA NACIO- NAL DE SAÚDE. Em relação à saúde de adolescentes o que se constata é que. M. 382). A saúde como direito social e dever do Estado deve ser ga- rantida mediante políticas sociais e econômicas que visem à redu- ção do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para a sua promoção. Por esta razão entende-se que a história dos direitos huma- nos. caracterizadas por lutas em defesa de novas liberdades contra velhos poderes. p. 2004). nascidos em certas circunstâncias. Entretanto. o fato que os motiva é quase sempre uma necessidade imediata e orgânica.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 5). em geral. eles não exercitam seu direito à saúde median- 392 ) . no momento mesmo em que o e a adolescente buscam algum dos serviços de saúde para receber atendimento. consequentemente dos direitos da criança e do adolescente. já se dispõe do registro de que sua motivação para buscar os serviços de saúde é a condição de gravidez e a demanda pelo pré-natal. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. não todos de uma vez e nem de uma vez por todas”. seja na rede básica seja no nível especializado. 1987. proteção e recuperação (BRASIL. e nascidos de modo gradual. ou seja. que tem se revelado como um dos elementos facilitadores para o ingresso da adolescente no serviço de saúde.

hoje estão incluídas nas discussões e na agenda po- lítica ações centradas no planejamento que proporcionem o acesso a informações e a serviços de prevenção e promoção à saúde. mental e social e não a mera ausência de enfermidades. culturais e ambientais. O adolescente pertence a um segmento populacional com características próprias. Com a evolução da luta pelos direitos humanos e a conquista desses direitos. agilização dos pro- cessos penais. Com relação ao direito à saúde de adolescentes. As desigualdades sociais presentes nas dinâmicas da sociedade brasileira evidenciam o caráter constante de violação dos direitos humanos da maioria da população. na perspectiva do direito que define a saúde como o completo bem-estar físico.) te a utilização dos serviços. Entretanto. oriundos das questões de violência/acidentes. gestação. uso de substâncias psi- 393 ) . M. De acordo com Silva (2001). civis e trabalhistas. esse quadro pode ser superado e para isso se requer tomar algumas medidas: adoção efetiva de políticas públicas. as crianças e os adolescentes. homossexuais. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. desconcentração de renda. sociais. crianças e adoles- centes). ações afirmativas inclusivas e não protetoras (de negros. geralmente são e não sujeito a enfermidades.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. com o objetivo de reduzir também a pobreza da qual são vítimas as mulheres. existem inúmeras barreiras ou vazios que difi- cultam a promoção dos direitos humanos e de políticas coerentes de saúde de adolescentes com programas eficientes e inclusivos. Essa prática é reforçada pela hierarquização dos direitos humanos que confere mais importân- cia aos direitos civis e políticos do que aos direitos econômicos. cotidiana- mente observa-se que a presença de adolescentes nos serviços de saúde fica restrita aos atendimentos emergenciais. mulheres.

. p. A saúde como direito social e dever do Estado deve ser ga- rantida mediante políticas sociais e econômicas que visem à redu- ção do risco de doença e de outros agravos. ao mesmo tempo que oportunizem o acesso de adolescentes às ações e aos serviços para a promoção da saúde. através da Área Técnica de Saúde da Criança e do Adolescente elaborou a Política Estadual de Atenção Integral À Saúde de Adolescentes (PEAISA). O Ministério da Saúde. sobre os fundamentos dos princípios legais que garantem o pleno exercício do direito à saúde de adolescentes. Os setores que mais desenvolveram ações sob tal paradigma são os de saúde e justiça – ou segurança social (a partir de questões.. Tal abordagem gera políticas de caráter compensatório e com foco naqueles seto- res que apresentam as características de vulnerabilidade. Como mostram Silva e Lopes (2009): [. p. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. proteção e recuperação (BRASIL. através da Área Técnica da Saúde do Adolescente e do Jovem publicou. 2009. 2010. com o objetivo de organizar os serviços para a atenção integral à 394 ) .] a partir dos problemas que ameaçam a ordem social – as questões que emer- gem são aquelas relativas aos comportamentos de risco e de transgressão. LOPES.) coativas ou doenças sexualmente transmissíveis. Uma problemática relevante dessa abordagem é que se constrói uma percepção generalizadora da juventude que a estigmatiza (SILVA. M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. em 2005. cri- minalidade e narcotráfico). a Norma Técnica Marco Legal da Saúde de Adolescentes. tais como: drogadição. risco ou transgressão (normalmente os grupos visados se encontram na juventude urbana popular). e o documento Saúde Integral de Adolescentes e Jovens com orientações para a organização e implantação/imple- mentação de ações e de serviços para o atendimento de adoles- centes. A Secretaria Estadual da Saúde/RS. 102). violência. 83). em 2009.

54%) na faixa etária de 10-14 anos e 835 (77. cujas causas são reconhecidamente por situações de agressão. 2016). representado 75. como acidentes.5% dos óbitos (PES. meio familiar. M. orientação sexual.078 óbitos na faixa etária de 10 a 19 anos. buscou-se conhecer as principais causas de internação e as circunstâncias nas quais elas ocorrem. A PEAISA está estruturada em três eixos: crescimento e desenvolvimento saudáveis. considerando as questões de gênero. No intento de uma maior aproximação do Serviço Social à realidade de adolescentes que internam no hospi- tal de trauma.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. raça/etnia. 2013). dentre outros. cuja inserção ocorre a partir das diferentes expressões da questão social que se transversalizam e se agudizam no processo 3 As ações para implantação e implementação da Política Estadual têm possibilitado maior interlocução com as Coordenadorias Regionais de Saúde e com as Secretarias Municipais de Saúde. 2010. 4 Em 2014 ocorreram 1. acidentes. saúde sexual e repro- dutiva e redução da morbimortalidade por causas externas (RIO GRANDE DO SUL. p.Tal política preconiza que os serviços disponibilizem espaço físico com priva- cidade em que adolescentes sintam-se acolhidos e com o direito de serem atendidos sozinhos.) saúde de adolescentes3. Segundo Cunha (2014. A principal causa de morte na popula- ção adolescente é decorrente de causas externas. homicídios e suicídios4. dos quais 243 (22. Adolescentes do sexo masculino são as maiores vítimas (814). condições de vida. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. com ações de promoção à saúde.45%) na faixa etária de 15 a 19 anos.). 14) “As especificidades do Serviço Social em um hospital de trauma estão sintonizadas com os desa- fios da categoria profissional na consolidação do projeto ético-po- lítico”. violência. escolaridade e trabalho (PES. à preven- ção de agravos e à redução da morbimortalidade. 395 ) . Essa forma de estruturação da Política Estadual de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes visa ao atendimento de adoles- centes de 10 a 19 anos.

P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. no exer- cício profissional. Na análise de Vasconcelos (2007). M. 1.3 O percurso da pesquisa A pesquisa está intrinsecamente ligada à natureza do Servi- ço Social. foco deste trabalho. ainda que necessite produzir conhecimento. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. portanto. O estudo justifica-se. pela necessidade de ruptura de processos de trabalho instituídos que primam pela dicotomia entre teoria e prática. pautada pela concepção de saúde como direito. Bourguignon (2005) destaca que a pesquisa deve ter como objetivo compreender as questões estruturais em sua totalidade e traz como um de seus pilares a questão do retorno e alcance social das pesquisas desenvolvidas pelo Serviço Social. O presente trabalho apresenta como temática a atenção à 396 ) . Não significa que a prática profissional não exija uma investigação dos fenômenos com os quais se defronta no cotidiano. cuja manifestação é influenciada pelos determinan- tes sociais. Essas pesquisas devem estar alinhadas com o compromisso ético-profissional na construção do conhecimento e também contribuir na elaboração e execução de políticas públicas em favor dos sujeitos de direitos. o assistente social. com- preensão da realidade e um elemento fundamental para o profis- sional que deseja desenvolver uma prática crítica e propositiva tão necessária no campo das políticas públicas. como um meio de construção de conhecimentos. não encontra condições para priorizar esta produção em razão das exigências próprias do exercício profissional. requisitos estes que também abrangem o campo da saúde do adolescente.) de saúde doença dos usuários.

p. tendo como objetivo geral identificar as principais causas de internação de adolescentes em um hospital de trauma no Rio Grande do Sul. O mecanismo de entrada é uma queixa ou situação de apre- sentação do paciente” (GRUPO BRASILEIRO DE CLASSIFICAÇÃO DE RISCO.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. a qual proporciona uma aproximação que permite conhecer melhor a essência de seu estudo. a pesquisa exploratória “propõe uma busca e não uma verificação de informações. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Como desmembramento desse questionamento principal. 32). Está sistemati- zado em vários países da Europa.) saúde de adolescentes internados/as em uma unidade de Trauma- tologia. 397 ) . o Relatório de Hospitalizações por perío- 5 Modelo de Manchester (Manchester Triage System . Como afirma Diniz. teve-se como questões norteadoras: qual o perfil dos(as) adolescentes hospitalizados(as)?. 2014. 500). Realizou-se estudo descritivo com base na abordagem quan- titativa do número de internações de adolescentes na unidade de Traumatologia. p. Seu objetivo é a descoberta de ideias que sejam úteis. 2007. cujas informações foram coletadas no Sistema de Informações Médicas por meio da Classificação de Risco da Emergência baseada no Pro- tocolo de Manchester5.MTS) – “Trabalha com algoritmos e discriminadores chaves. p. M. críticas e norteadoras de novas atitudes em relação ao mundo” (DI- NIZ. onde “tudo é visto em constante mudança: sempre há algo que nas- ce e se desenvolve e algo que se desagrega e se transforma” (GIL. associados a tempos de espera simbolizados por cores. O estudo é de natureza exploratória e de abordagem quan- ti-qualitativa. 3). por meio de seu contexto histórico. quais as circunstâncias que leva- ram estes(as) adolescentes a necessitar internação? Esse estudo foi orientado pela teoria do materialismo histó- rico e dialético que tem o método dialético crítico como forma de compreender a realidade. 1999. no período de outubro a dezembro de 2015.

794 usuários internados no hospital de trauma. 75 (4%) pela Cirurgia de Queimados. A análise documental foi organizada em planilha Excel. No período entre outubro a dezembro de 2015. sendo distribuídos pelas seguintes especialidades: 813 (45%) pela Trau- matologia. 12 6 A Unidade da Traumatologia conta com 50 leitos masculinos e 35 leitos femininos e carac- teriza-se pela alta rotatividade de pacientes que. permanecem internados por períodos curtos. M. 398 ) . por meio do levantamento de dados de adolescentes referenciados para unidade de Traumatologia. Entre as especia- lidades destaca-se a Unidade de Traumatologia6 (813 internações). Nota de Alta e evoluções eletrônicas das cate- gorias profissionais que prestam atendimento ao adolescente no período de sua internação. 206 (11%) pela Cirur- gia Plástica. segundo origem. faixa etária. responsável por quase a metade (45%) das internações hospita- lares no período analisado. situação oposta à da Unidade de Neurocirurgia. 178 (10%) pela Cirurgia Geral. onde os usuários geralmente permanecem mais tempo devido as sequelas e dependência. De acordo com o período analisado. 76 (4%) pela Buco- maxilofacial.) do gerado pelo sistema e o Prontuário do Paciente. gênero. 29 (17%) pela Cirurgia Geral. 428 (24%) pela Neurocirurgia. obten- do-se assim a análise dos dados. 28 (17%) pela Neurocirurgia. circunstâncias e diagnóstico. 11 (1%) pela Cirurgia Vascular e 10 (1%) pela Microcirurgia. cor/etnia. se comparados com as demais especialidades.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. A distribuição de fre- quência simples foi aplicada após a elaboração das planilhas. na maioria as vezes. houve o in- gresso de 1. onde se acessa os dados cadastrais. 22 (13%) pela Cirurgia Plástica. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. demonstrando grande rotatividade de usuários. 166 adolescentes ingres- saram e foram distribuídos pelas especialidades da seguinte forma: 67 (41%) pela Traumatologia.

o adolescente não possui condições de responder as pergun- 399 ) . Conforme as informações analisadas referentes à raça/cor. 17 anos (15%) e 19 anos (13%).) (7%) pela Bucomaxilofacial. sendo que os demais foram distribuídos entre as unidades de Pediatria. Dos 67 adolescentes que estiveram hospitalizados pela es- pecialidade de Traumatologia. 14 anos (15%). Emergência.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Optou-se por escolher a amostra correspondente aos/às adolescentes que permaneceram na unidade de Traumato- logia por este ser o campo de atuação da assistente social respon- sável pela unidade no turno da tarde. 75% adolescentes foram classificados/as como brancos/as e 25% como negros/as. 7 (4%) pela Cirurgia de Queimados e 1 (0%) pela Cirurgia Vascular. De acordo com o sexo. no entanto. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Cirurgia Geral. recebendo certo destaque quantitativo com 23% a idade de 18 anos. sabidamente. 17 (17%). responsável por 67 (41%) das interna- ções destes. Os demais fo- ram: 13 anos (8%). 40 adolescentes permaneceram na unidade de Traumatologia. 15 anos (13%). 87% são do sexo masculino e 13% do sexo feminino. leva-se em consideração que as cir- cunstâncias do preenchimento desses dados podem ter compro- metido seus resultados já que. estes dados não são autodeclaráveis (dependendo da gravidade do caso. M. na maioria das vezes. facilitando assim a aproxima- ção e conhecimento do público já atendido pela profissional. dentre outras unidades. não haven- do nenhuma representação LGBT. Observa-se novamente o destaque da especialidade de Traumatologia pelo maior número de hospita- lizações de adolescentes. Os dados referentes à faixa etária dos/as adolescentes apre- sentam-se distribuídos quase uniformemente. 16 anos (15%). conforme a análise dos dados cadastrais.

preenchida pela Enferma- gem quando o usuário ingressa na Emergência. correspondem aos municípios cons- tituídos pela região metropolitana. Além destas limitações. ou até mesmo confundida com as consequências dos acidentes. também se observa que a ficha cadastral dos usuários possui opções de raça/cor enquadradas em branco. os principais CID citados nas notas de Alta dos adolescentes foram: S626 – Fratura de outros dedos. correspondendo a 20% dos/as adolescentes hospitalizados/as. correspondendo a 25% dos casos. pelas consequências do acidente ou 7 De acordo com a Classificação Internacional de Doenças. ficando sob a responsabilidade do funcionário ad- ministrativo ou de pessoa da família (ou não) envolvida no socorro à vítima. constata-se que 70% dos/as adolescentes são oriundos de Porto Alegre e os demais 30%. M. demonstrou- -se que as seis primeiras classificações correspondem a fraturas de membros inferiores (pernas e pés). S822 – Fratura da diáfise da tíbia. em sua maioria. Por exemplo. na Classificação de Risco. S523 – Fratura de diáfise do rádio. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. à hospitalização destes/as adolescentes tornou-se um grande desafio já que esta informação não possui registro ou documento específico.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. As demais classifica- ções receberam somente uma representação. pardo e negro. A busca pela coleta dos dados referentes às circunstâncias que envolveram o acidente e. No que diz respeito ao município de origem. a queixa referida é preenchida. sendo colocada em segundo plano como uma informação sem significa- do. S826 – Fratura de maléolo lateral e S422 – Fratura da extremidade superior do úmero. em sua maioria. S723 – Fratura de diáfise do fêmur. posteriormente. demonstrando ainda um retrocesso históri- co em relação às intensas discussões e aos esclarecimentos sobre a temática. Segundo os dados coletados nas Notas de Alta dos/as ado- lescentes.) tas do cadastro. e membros superiores (braços e ombro). de acordo com o CID correspondente7. 400 ) .

já que o público pre- dominante é de pessoas vítimas da violência e do trânsito. . Os dados analisados preliminarmente rompem o paradigma de que a adolescência está primeiramente envolvida com a vio- lência urbana. . se- gue o mesmo padrão nas Notas de Alta. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Garantir o acesso à saúde integral aos/às adolescentes tem sido um desafio para um hospital de trauma. As informações referentes às circunstâncias puderam ser encontradas por meio das evoluções eletrônicas gravadas no prontuário do adolescente. .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. . dificultando assim a identificação do contexto em que o/a adolescente está inserido/a.5% por queda de cavalo. Como diz Agudelo (1990. pois alguns desses adoles- centes envolvidos em acidentes ainda não tinham idade suficiente para dirigir o que acaba sendo considerado um ato infracional. altera a saúde. seguindo o caminho dos dados referentes aos outros seg- mentos da população. O foco das in- formações voltadas às consequências. Vale destacar que acidentes de trânsito com adolescentes expõem o viés da busca por aventura e a quebra de regras acompanhada pela imprudência. . .19% por arma de fogo. As circunstâncias que envolviam o acidente ou violência sofri- dos pelos/as adolescentes que levaram a sua hospitalização foram: . sem mencionar as causas. po- 401 ) .13% sem informação.3% por acidente de trabalho. 1) “a violência afeta a saúde porque ela re- presenta um risco maior para a realização do processo vital huma- no: ameaça a vida. M.) violência e não por sua causa.11% por deformidades nos pés. demonstrando que os acidentes de trânsito lideram os motivos de internação de adolescentes na unidade de trauma- tologia.3% por queimadura. produz enfermidade e provoca a morte como realidade ou como possibilidade próxima”.22% por jogo de futebol. . p.24% por acidente de moto.

O uso de substâncias psicoativas acompanha o contexto de um percentual significativo dos adolescentes internados.. de reabilitação física. adquiriu um caráter endêmico e se converteu num problema de saú- de pública em vários países. As hospitalizações envolvendo o contexto da violência atin- giram o terceiro lugar com 19% dos casos. O setor de saúde constitui a encruzilhada para onde confluem todos os corolários da violência. No entanto.] a violência. 1994). pelo número de vítimas e a magnitude de sequelas emocionais que produz. em seu documento sobre o tema (1994). já que a rede de serviços de saúde pode ser considerado um 402 ) .. por arma de fogo e arma branca) com atendimentos que restringem-se à unidade da Emergência. considerando o contexto geral do hospital de trauma onde há um índice considerável de adolescentes que não chegam a permanecer hospitalizados pela violência (destaca-se as agressões físicas. [. fato este que se supu- nha com maior incidência. a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. declara que. psi- cológica e de assistência social (OPAS. não po- dem ser esquecidos ou negligenciados. Promover.) dendo gerar uma medida socioeducativa ao adolescente. porém. pela pressão que exercem suas vítimas sobre os serviços de urgência. estes dados não receberam aprofundamento neste trabalho. no entanto. cujo desfecho muitas ve- zes resulta em óbito. Contribuindo com a reflexão sobre o impacto da violência nos serviços de saúde. de atenção especializada. M. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. ainda deve ser considerado preocupante. proteger e defender o direito à saúde por meio de ações e serviços que garantam o acesso e atenção integral contri- buirá para a diminuição da violência devendo ser um compromisso dos órgãos públicos e dos profissionais que atendem esta popula- ção.

notificação. a qual foi realizada com 67% dos/as adolescentes e suas famílias no período correspondente à sua in- ternação. além do modelo social 8 A Entrevista Inicial consiste num instrumento que norteia a identificação de questões re- levantes sobre o usuário e sua família com o objetivo de intervenções. no entanto. enfim. porém. atendimento. próprios da transformação física. bem como à própria organização da sociedade em que vive e aos seus distintos projetos societários. de uma mãe. acolhimento. Nem sempre. mas também um con- junto de papéis socialmente definidos. 403 ) . Identificou-se que os/as adolescentes. M. Fica evidente que a fase da adolescência é permeada tanto por conflitos internos. de todos seus membros. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. como explica Prado (1985): Uma família não é só um tecido fundamental de relações. dos filhos. p. 2014.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 48). que dizem respeito a sua família e seus grupos de convivência. dos quais não foi possível coletar os dados das circunstâncias tinham sido aqueles que não haviam sido atendidos/as pelo Serviço Social. quanto por conflitos externos. Conceitos conservadores impunham às famílias moldes de configurações. Compreende-se que o significado do conceito de família é produzido processualmente na história e encontra-se em constan- te processo de construção. hoje há a prevalência do significado dos vínculos afetivos acima dos laços sanguíneos. mental e emocional. acompanhamentos e encaminhamentos (MANUAL DE ROTINAS. cuidados e proteção destes/as adolescentes. o que resulta em formas diversas de família. Os dados coletados referentes às circunstâncias que envolve- ram a hospitalização dos/as adolescentes encontravam-se em sua grande maioria nos registros do assistente social elaborados por meio da Entrevista Inicial8.) espaço privilegiado para identificação. a opinião geral é unânime. A organização da vida familiar depende do que a sociedade através de seus usos e costumes espera de um pai.

poderá intervir neste processo de formação. Ele está em busca de uma identidade própria e. M. sendo seus valores culturais perpassados entre as gerações. O adolescente integra- -se a um grupo até que.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.) preconizado e valorizado (PRADO. 23). a família proporciona “os apor- tes afetivos e. 18). bem como os valores éticos e humanitários. Para Kaloustian (2008. mais tarde. Como bem atesta Ramos (2002) É necessário entendermos que a adolescência é um período de transição tanto para o próprio adolescente como para família. 118). sua família. sem a grande necessidade de apoio ou identificação (RAMOS. os aspectos sócio- -históricos e econômicos da cultura na qual está inserido. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. portanto. seja no campo objetivo e/ou subjetivo” (MDS. seus amigos e pessoas que o rodeia. materiais necessários ao desenvolvimento e bem-estar dos seus componentes”. 2002. requerendo uma ação integrada de outras áreas do conhecimento pelas categorias profissionais no âm- 404 ) . p. o relacionamento fami- liar é importantíssimo no desenvolvimento psicológico do adolescente. As famílias dos/as adolescentes traduzem a configuração dos no- vos arranjos da sociedade contemporânea. p. p. momento em que se encontra fragilizado pelas condições de saúde e necessita de maior amparo e apoio de seu grupo afetivo que muitas vezes encontra-se em um contexto de vulnerabilidade (p. É ela que insere as primeiras lições educacionais. sobretudo. possa definir-se de forma mais segura e ma- dura. 2001. 2). p. bem como o contexto “so- cioeconômico e cultural que imprime tensões variadas nas dinâmicas das relações entre seus membros e entre estes e o contexto social. 31). Fica evidente a importância da família para o adolescente no contexto de sua hospitalização. 1985. portanto.

No que se refere ao ordenamento jurídico que rege direitos de crianças e adolescentes. com potencialidades para as quais as políticas devem estar articuladas inter e institucionalmente. trabalho desempenhado em sua maioria pelo assistente social. REFERÊNCIAS ABREU FILHO.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. CONSIDERAÇÕES FINAIS As políticas públicas para adolescentes constituem-se em um desafio. com o foco na cidadania. 8. bem como do atravessamento das políticas sociais. atra- vés de sua interlocução com a rede de atendimento. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Nylson Paim (Org).) bito hospitalar. cada vez mais desas- sistida e vulnerabilizada. 2004. por exemplo. sobretudo. Espera-se que se consolidem modelos cuja essência seja a valorização da vida. se considerados(as) adolescentes como sujeitos de direi- tos. como os acidentes de trânsito. todos os dispositivos convergem para que sejam prioridade nas políticas públicas. Contudo a realidade social e familiar. tem contribuído para que a efetivação de práticas inclusivas e de promoção tornem-se cada vez menos viáveis. Faz-se necessário. Constituição Federal. Porto Alegre: Ver- bo Jurídico. investir em serviços que pro- movam ações para a redução de agravos cujas causas são passíveis de serem evitadas. o respeito aos direitos humanos com ênfase na mudança de paradigmas que excluem e violam direitos. M. ed. 405 ) .

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p. v. 409 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. 11. 36-44. Adolescência e Saúde. M. et al. M. Rio de Ja- neiro. 4. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Principais causas de hospitalização de adolescentes em uni- dade de terapia intensiva na região de Maringá-PR. n. out/dez 2014.) YAMAGUCHI. U.

dentre eles a busca do bem-estar e da solidariedade. 2 Doutoranda e mestra em Desenvolvimento Regional pela UNISC – Universidade de Santa Cruz do Sul. Pesquisadora-membro do Grupo de Pesquisa “Desenvolvimento Regional” . . mestra em Desenvolvimento Regional e bacharela em Direito. DESENVOLVIMENTO URBANO: PLANEJA- MENTO. Pesquisadora-membro do OBSERVA-DR. Presenciou-se a atua- ção da sociedade civil como protagonista na defesa de direitos di- fusos e coletivos. bem como para que surgissem valores novos. importa destacar que o período pós-mo- derno foi determinante para criar-se um rompimento de paradig- mas sociais. todos pela UNISC – Universidade de Santa Cruz do Sul. Endereço eletrônico: verenice.com. Especialista em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas – FGV. e Pesquisadora-membro do GEPEUR-CNPq: Grupo de pesquisa em estudos urbanos e regio- nais.com. Admi- nistradora pelo Centro Universitário UNIVATES. Acadêmica no Curso de História-Licenciatu- ra na UNOPAR-Universidade Norte do Paraná. Pesquisadora-membro do OBSERVA-DR.CNPq. Endereço eletrônico: marisouza_10@hotmail.zanchi@gmail. 1¹ Doutoranda. CIDADANIA E DEMOCRACIA Mariana Barbosa de Souza1 Verenice Zanchi2 INTRODUÇÃO Preambularmente.

Conforme esta. p. ganha desta- que a Declaração dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. igualdade. tolerância. relacionado à melhoria econô- mica. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Nesse sentido. 36) a palavra “política designa. Por esta razão. ins- trumentalizam o que se chama de governança. alguns prin- cípios foram elaborados. um objetivo a ser alcançado. as políticas públicas relacionam-se com direitos originalmente previstos por princípios e objetivos previstos na Constituição. passou a partir de então a ser compreendido ante o olhar do qualitativo. política ou social da comunidade”. solidariedade. os Estados-membros das Na- ções Unidas assumiriam compromissos com o desenvolvimento. o qual foi entendido apenas no que tange ao acúmulo de riquezas (SMITH. 2000). respeito pela natureza e responsabilida- de comum (ONU.) Quanto ao desenvolvimento. a ordem econômica passa a ser associada à ordem social. a qual se manifesta por meio de políticas públicas direcionadas à concretização de direitos sociais. Mediante o afloramento da solidariedade e o engrandecimento da sociedade civil. 1996) até o começo do século XX. Esses fatores associados ao rompimento de paradigmas. Sen (2010) assevera que o grau de desenvolvimento de uma nação é medido pelo tanto de liberdade que tem o seu povo. M. como norteadores: liberdade. as- sim. bem como fazem com que tratamentos de problemas importantes sejam encaminha- dos. Para Dworkin (2002. No que diz respeito às discussões internacionais. conceito relativo ao fato de governar. no qual boa administração vai além de adminis- 411 ) . bem como o fim do analfabetismo. até o ano de 2015. Para tanto. O pacto assumido relaciona-se com a atuação estatal.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Estes compromissos abarcariam itens como a erradicação da po- breza.

porém. a partir do que a Constituição da República Federativa do Brasil dispõe. A CF/88 deu ao ordenamento jurídico um novo status que se afasta da democracia representativa e se aproxima da democracia participativa. questões tocantes à característica arquitetôni- ca. para que direitos fundamentais sejam efetiva- dos é importante que haja um ordenamento jurídico. ou ainda à mobilidade urbana. participação e.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 2003). Outrossim. E por esta razão existem 412 ) . também. Conforme a Comissão Econômica para América Latina e Ca- ribe (Cepal) (2011). 1993). § 1.) tração e administrado. mediante a descentralização do poder. É importante existir discussão. O viés territorial é uma impor- tante perspectiva do resultado das ações sociais urbanas. a qual permitiu o envolvimento da sociedade civil em processos de tomadas de decisões. (HUNT. (ABRANCHES. ou seja. Destaque-se que conforme os artigos 174. bem como uma rede institucional adequada. importa mencionar que a par- ticipação da sociedade civil sofre influências externas. na medida em que apresenta sugestões para o exercí- cio político.º e 182 da CF/88. sobretudo porque é necessária uma distribuição de competências a respeito da execução e da fiscalização de políticas públicas. M. vai além de sociedade civil e Estado. as quais vão desde características culturais até conhecimentos e situações expe- rienciadas que formam conhecimentos. o planejamento do desenvolvimento urbano deve se dar de forma democrática. a análise aqui dar-se-á sobre o planejamento para o desenvolvimento urbano. Neste ensaio não se tem a intenção de abordar planejamento espacial das cidades. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. um conjunto legislativo que sustente as ações estatais.

Estas mudanças subdividiram-se em desincorporação e reincorporação de aspectos sociais por outra modernidade. Para Ferrão (2011). o mundo expe- rienciou duas grandes guerras. 1995). sociais e econô- micos. a qual estão conexos. LASH. a intenção neste ensaio é apontar a legitimidade do planejamento público democrático para o desenvolvimento ur- bano. tanto a partir do que Ferrão chama de efeito Mundo.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. dentre elas o aumento da urbanização. novos valores e comportamentos foram construídos a partir da inclusão de no- vos elementos (BECK. de uma cida- de. M. muito embora todos façam parte de um todo. quanto do efeito Europa. como por exemplo a globalização e a competição entre os grandes sujei- tos/atores globais. principalmente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. outros fatores também exercem influência. Nesta ocasião é 413 ) . persiste uma tendência de confluência das políticas de ordenamento territorial como decorrência de di- versas ações. destacando-se que cada vez mais se prima pela proteção das identidades individuais. Desta forma. conforme aponta a CF/88. DIREITO AO DESENVOLVIMENTO E DEMOCRACIA NO PLANEJAMENTO URBANO Como dito alhures. de uma comunidade. Ademais. GIDDENS. as quais ocasionaram grandes trans- formações sociais. no início do século XX.) mudanças de comportamento. no tocante à globalização dos conhe- cimentos técnicos e científicos e a emergência de modelos polí- ticos econômicos e sociais diversos. As tradições e como os sujeitos se relacionam entre si influi nos aspectos políticos. Ou seja.

ciudad. diante da atual perspectiva ju- rídica. o planejamento pode ser considerado uma das maiores ferramentas de articulação de interesses e faz parte tanto da esfera pública quanto da privada.”. 1976). región. (LIRA. p. M. Território que pode ser: “localidad. entende-se o planejamento como um ato de antever o futuro. 15). mesmo que temporariamente. Em razão disso e. O planejamento pode ser considerado uma das engrenagens que compõem o motor que movimenta a economia do território. 414 ) . para o autor o conceito de planejar significa tomar uma decisão. Destarte. reduzindo riscos através do planejamento das ações.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. mas sim como um plano dialético de vida social e política.) possível identificar a discussão por um novo conceito de república. busca integrar os interesses de diversos grupos na direção de um objetivo maior. a fim de que tudo conflua para o bem comum de todos. ou seja. p. planejar o desenvolvimento do território é condição fundamental para intervir no futuro. Ainda. 43) “o planeamento é considerado como algo mais operativo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. cuenca hidrográfica etc. pois com a utilização do mesmo o desenvolvimento alcança uma direção mais certa e segura. Nesse sentido. Para Papudo (2007. sobretudo. principalmente ao modo de vida das pessoas viverem. Uma vez que. o modo como as pessoas buscam decidir suas escolhas políticas e sociais comuns (KUJAWSKI. Assim. como uma prevenção. o poder sobre a ação. 2006. bem como a construção para afirmação de novos direitos. planejamento público não pode ser tido de forma linear. o qual dê respeito às características brasileiras. prognosticando eventuais medidas para a dinamização do desenvolvimento”. visando um enquadramento das acções projectadas e da obra propriamente dita.

sendo assim. 1969). todavia advém das ciências naturais.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Considerando que na esfera pública o planejamento se dá so- bre um dado território. que considera o espaço geográfico como território usado. Nesse contexto. (LENCIONE. contu- do para aplicação do mesmo em escala menor diversas adaptações precisam ser feitas. Essas discussões evo- luem até chegar à concepção mais aceita atualmente: uma visão geográfica totalizadora. enquanto que para os não técnicos é em- pregado no sentido mais amplo. o que em alguns casos leva à sua descaracteriza- ção. a centralização ou descen- tralização. abrangendo o estabelecimento e o apoio a instituições de planejamento. 2001). moldado pelos atores no qual as identidades regionais se destacam. a saber: a falta de dados.) Todavia. A evolução do conceito de território na história permeia diversas ciências. tanto na formulação quanto na implementação do plano nacional ou do regional. é pensado no sentido mais restrito – uma ativi- dade de planejadores –. a compreensão do mesmo se faz relevante. intera- ção e articulação de seis elementos – atores. o planejamento é entendido de acordo com a orien- tação de quem o pensa. (DA- LAND. cultura. Ainda segundo o autor. recursos e entorno. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. outros pontos necessitam de atenção. as resistências causadas pela burocracia e a tradução de planos em orçamentos anuais. que se iniciaram na geografia e passam por uma série de debates. dos quais depende o sucesso 415 ) . político. Boisier (1996) defende que o desenvolvi- mento de um território organizado depende da existência. instituições. para os técnicos. Segundo Barros (1970) o modelo de planejamento apresen- tado na esfera nacional é o mesmo utilizado para as regiões. apropriado. M. que geralmente são economistas. procedimentos. ou seja.

. 104) destaca que o “[.. No mesmo sentido Cazella.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.] território usado [. se apropria. 2001). Uma perspectiva de território que gera compromisso com essa superfície. p. por esse ponto de vista. o território é a profunda intera- ção entre estar na base da superfície do planeta e a forma como o homem se coloca ali. O autor vai além e infere que O território usado constitui-se como um todo complexo onde se tece uma trama de relações complementares e conflitantes. de contradição entre o verti- cal e o horizontal. Daí o vigor do conceito.. p. O que.) ou o fracasso da região. “[.. Bonnal e Maluf (2009.] é tanto o resultado do processo histórico quanto a base ma- terial e social das novas relações humanas”. 2001). o território é um espaço em constante processo de transformação. Cabe destacar que entendemos aqui o ter- ritório como espaço usado e apropriado por esses atores. Nessa perspectiva. 25) destacam que No transcurso da última década. um campo de forças. entre o uso econô- mico e o uso social dos recursos. M. ou seja. (ETGES. in- 416 ) . 104-105). (ETGES. a noção de território assumiu importância des- tacada nos discursos dos gestores de políticas públicas de numerosos países.. convidando a pensar processualmente as relações estabelecidas entre o lugar..] permite uma consideração abrangente da totalidade das causas e dos efeitos do processo socioterritorial”. (SANTOS. entre o Estado e o mercado. p. no qual sociedade e natureza coexistem. os elementos do social e do natural são inseparáveis. Também para Etges (2001). 2000. Santos (2000. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a formação so- cioespacial e o mundo. usa e produz.

) clusive no Brasil. é. 2001. o desafio das estratégias de desenvolvi- mento dos territórios é essencialmente identificar e valorizar seu potencial endógeno. fre- quentemente em torno de um problema inédito. dos profissio- nais do setor e dos próprios gestores de políticas públicas na definição rigorosa do conceito de território e. M. cabe analisar o processo de territorialização das políticas públicas. enquanto expressões de conteúdo histórico e cultural de gerações que. visualizar suas potencia- lidades e promovê-las. de forma multicultural e interétnica. observa-se uma dificuldade dos acadêmicos. No que diz respeito à agricultura e ao meio rural. apesar da adoção gene- ralizada do conceito. Nesse sentido. construíram um território único e por isso extremamente valioso. definir o papel dos sujeitos locais e explicitar os interesses 417 ) . dos instrumentos de intervenção pública. criar/produzir es- paço. no fundo.] um processo de territorialização efetiva só ocorre quando nos apropriamos material e simbolicamente de um substrato espacial referencial. Trata-se de transformar recursos em ativos..P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. Governança entendida enquanto um conceito que busca criar responsabilidades compar- tilhadas. (ETGES. O Estado deve voltar-se para dentro do seu território. de territorialização do desenvolvimento e aquele de territorialização da governança. inovadora e privilegiada para renovar a concepção do desenvolvimento rural. através de um processo de mobilização e arranjos dos sujeitos. o território aparece cada vez mais como uma entrada programática. p. consequentemente. p. Consequentemente. 25-26) [. Para Serpa (2013. 362). Territorializar é se apropriar também corporalmente do espaço. Mas. Portanto.. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

. Sendo que as novas formas de governança – participativa e deliberativa – [.. 2010.. organizados em rede e colaborativos. (FERRÃO. p. noutros assentes em mecanis- mos mais participados. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. p. 418 ) . M. tanto de base territorial como sectorial. p.] la gobernanza territorial se entiende como una prática/proceso de organización de las múltipes relaciones que ca- raterizan las interacciones entre actores e intereses diversos pre- sentes en el território”. Ainda para o autor A maior importância dos mecanismos de governança no contexto das políticas de ordenamento do território reflecte quer uma visão mais estratégica e colaborativa dessas políticas quer a consagração da governança territorial como um elemen- to essencial de modelos de governação que pressupõem uma maior cooperação entre actores e uma melhor coordenação entre políticas.] de formas de planificación y gestión de las dinámicas territoriales innovadoras y compartidas.. [.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 134). 133).) diversos em busca da construção de consensos. 2010. No mesmo sentido Farinós Dasí (2008. 13 e 14) La governanza territorial puede ser vista de dos formas: como mera aplicación de los principios de buena gobernanza a la política territorial y urbana o..] tendem a valorizar processos de decisão mais descentralizados face ao papel tradicionalmente desempenhado pelo Estado moderno. nuns casos desenvolvidos no âmbito de contextos mais desregulamentados. p. (FERRÃO.. Para Farinós Dasí (2008. 15) “[.

8% dos eleitores eram analfabetos. A idade anterior para a aquisição do direito do voto. foi abaixada para 16. na de 1994. apresentam-se objetivas: garantir direitos e destruir privilégios. 83. tanto o planejamento quando a gestão estatal. requerem deliberações mais amplas. (FARINÓS DASÍ. 77.4 milhões. 18 anos.2 milhões de eleitores. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Na eleição presidencial de 1989. Nesse sentido. a proibição atinge parcela pequena da população e apenas durante período curto da vida. porcentagem jamais alcançada antes e comparável. ampliação importante da franquia eleitoral e pôs fim a uma discriminação injustificável.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. (CHAUÍ. No caso brasileiro. Entre 16 e 18 anos. ou seja. A Constituição foi também liberal no critério de idade. as prio- ridades. A medida significou. consolidando a CF/88. A única restrição que permaneceu foi a proibição do voto aos conscritos. conforme Carvalho (2002. De outra banda. então. essa visão teve condições de avançar com o fim da ditadura militar. 2008. M. tornando-o facultativo aos analfabetos. 14). Numa visão pautada pela democracia. que é a idade mínima para a aquisição de capaci- dade civil relativa. o qual permitiu uma abertura democrá- tica. 419 ) . fala de um planejamento colaborativo. geralmente. o exercício do direito do voto tornou-se facultativo. ainda havia em 1990 cerca de 30 milhões de brasileiros de cinco anos de idade ou mais que eram analfabetos. votaram 72. sendo obrigatório a partir dos 18. p. em 1998. em uma cidade marcada por déficits sociais e com privilégios visíveis.9 milhões. no que diz respeito ao desenvolvimento ur- bano.) O autor vai além e acrescenta que estas formas são “respal- dadas por multiplicidad de actores que comparten unos objetivos y conocen y asumen cuál debe ser su papel en su consecución”. 2006). p. até com vantagem. Embora o número de analfa- betos se tivesse reduzido. 199-200): A Constituição de 1988 eliminou o grande obstáculo ainda existente à universali- dade do voto. correspondentes a 51 % da população. Em 1998. na última eleição. objetividade nas prioridades e plane- jamento rigoroso. Embora também injustificada.

mobilizando novos espaços para a participação direta da sociedade civil em processos de to- mada de decisões. influenciou para que emergissem po- deres locais/regionais.) à de qualquer país democrático moderno.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. M. Dificilmente criou-se 420 ) . ou seja. Pioneiramente foi a cana-de-açúcar segui- da pelo ciclo da mineração e a cultura do café. DESENVOLVIMENTO URBANO E A CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL (1988) As cidades brasileiras são marcadas por contradições sociais. pela industrialização e ainda. administrador e representante do poder colonizador (CASTRO. Este processo é notável desde a fundação da primeira cidade. A agricultura. A ideia de desenvolvimento urbano não passou da mera distribui- ção orçamentária e de crescimento urbano. de transporte e de comunicação. além de investimentos nas áreas energética. pela modernização da agricultura. 66% da população. a qual originou-se sem relação com o bem-estar dos co- lonos que ali moravam. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. A Constituição Cidadã objetivou acabar com paradigmas no que diz respeito ao regime político. Em 1998. em algumas regiões brasileiras.1996). A realidade dos municípios brasileiros acabou por repetir-se. Era voltada somente à comodidade do ca- pitão-mor. São Vicente. mais recentemente. A urbanização brasileira deflagrou essa característica e é mar- cada pela concentração de poder e de renda. O modelo desen- volvimentista admitido pelo Brasil é marcado pela exportação de matéria-prima. o eleitorado inscrito era de 106 milhões.

político e etc. a intervenção do Estado. p. (NORONHA. os quais podem ser bons ou viciosos. ou seja.) um espaço a fim de que a sociedade civil pudesse discutir a própria realidade. ocasionando-se assim pro- cessos viciosos na maior parte das cidades. capazes de diminuir a exclusão socioeconômica. Para o autor as tecnologias da informação são ferramentas difusoras de ideias democráticas pelo mundo todo. deve acabar com os círculos que são viciosos. nas redes de associações e nas formas de comunicação de uma categoria política elaborada a partir da 421 ) . a questão que permeia a discussão é de que forma o Estado pode agir a fim de concretizar programas que permitam a participação das comunidades e a erradicação da exclusão para formação de círculos bons para o desenvolvimento. 2001). não tem como assegurar as possibilidades democráticas em sua plenitude. E neste momento o Direito deve agir objetivando a integração e a legitimidade entre os siste- mas social. M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. a política urbana utilizada pelos países em desen- volvimento afeta a criação de círculos pelas forças econômicas. Democracia e participação são essenciais para isso. 43) “a mundialização e a nova tecnologia exigem um conhecimento cada vez mais amplo”. Entretanto. bem como buscar soluções. Desta forma. manifestada pelo planejamento público. Nesse contexto. bem como reduzir a vulnerabilidade dos sujeitos. Para Currie (1969). a fim de movimentar as ações auto gestoras. Assim. definitivos para mu- danças na sociedade civil. com recursos parcos não é possível investir em mudanças e estas não ocorreriam por não existirem recursos para sua promoção. Conforme Carnoy (2003. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. constata-se que o cerne de cidadania é for- mado pelos direitos de participação política.

mudan- do o modelo de poder pré-definido. Há uma mudança importante. Pode-se afirmar que isto pressupõe uma adoção de postura mediadora en- tre os conflitos jurídicos existentes e relacionados a subculturas diferentes. M. no meio social.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.) mídia. Parcerias com a sociedade civil podem alterar o panorama. Para Habermas (1992). com o objetivo de determinar saídas. Assim. também. Mas para tanto deverá manter a intenção de solidariedade. A teoria presente na obra de Habermas vai ao encontro do que dispõe a CF/88. mormente porque colocam em xeque o papel do governo local e. o que permitiria evitar opiniões hos- tis. Aqui. cabe destacar. a fim de realizar-se processos públicos. posto que o Estado seria es- tabelecedor de uma relação intersubjetiva com a sociedade civil. o planejamento público-comunicati- vo deve abarcar vontade política e emancipação cívica das pessoas por meio de uma linguagem comum. Destaque-se 422 ) . sobretudo por sua distinta estrutura de diferentes siste- mas e subsistemas sociais. Novas experiências de gestão urbana são cada vez mais exigidas. incluindo processos de formação de opinião. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a qual permita debater aber- tamente. com o objetivo de construir-se uma razão pública. os anseios da população. (HABERMAS. o risco da não existência do controle e regulação social da mídia. 1997). 2006). o Direito moderno consegue regular as expectativas comportamentais de uma sociedade que é complexa. O planejamento público teria eficácia porquanto foi construído aliando delibera- ções de todos os envolvidos. da governança local e/ou regional. (SIMÃO. bem como definir caminhos a serem trilha- dos pela gestão estatal. irracionais e ameaçadoras. para construírem algo que diz respeito a ambos.

Assim. como as políticas de transporte coletivo. assevera o fortalecimento do ente municipal. 30. M.) que é preciso estimular as comunidades. 512).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. como “aquele que impõe um dever de harmoniza- ção”. com o intuito de alcançar-se a função social da cidade. bem como as instituições a fim de que trabalhem unidas para reafirmar o direito à cidade.legislar sobre assuntos de interes- se local”. anteriormente concentradas na União e nos Estados-membros. se for preciso. conforme apresentado por Zippelius (1997. Daí a importância dos municípios. visto que as experiên- cias sociais se dão em espaços e temporalidades distintas. que envolvem um conjunto de elementos como a segregação. Assim. conforme dispõe o artigo 30 da CF/88: “Art. p. é obrigação dos entes federativos chegar a um con- senso e. das cidades e da população urbana. mormente ante a proximidade que detém com os que necessitam de soluções concretas para os entraves cotidianos. Compete aos Municípios: I . assinem compromisso de atuação conjunta. 423 ) . da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. Outrossim. Na esfera administrativa percebe-se o fortalecimento do ideal de federalismo cooperativo. (MAGALHÃES. por meio da desconcentração de poderes e do reco- nhecimento de que desenvolvimento envolve indicativos comple- xos. é o ente da federação que mais encontra-se próximo das pessoas. A CF/88 atribuiu diversas tarefas aos municípios. Importa salientar que essas relações políticas entre sociedade e Estado não são criadas da mesma forma. O muni- cípio apresenta-se como um espaço apropriado para o fomento da cidadania. porquanto cabe a ele legislar acerca de interesses locais. 1999). A des- centralização das competências. sendo responsável pela harmonização de programas federais e regionais de/para o desenvolvimento urbano.

por cinco anos. § 2º A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor. ou a ambos. executada pelo Poder Público municipal. exigir. mediante lei específica para área incluída no plano diretor.) a proteção do meio ambiente e questões de identidade. em parcelas anuais. é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana. A política de desenvolvimento urbano. § 1º O título de domínio e a concessão de uso serão conferidos ao homem ou à mulher. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados. tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes. sucessivamente.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. iguais e sucessivas. adquirir-lhe-á o domínio. com prazo de resgate de até dez anos. Art. a Cons- tituição Cidadã deu ênfase aos municípios e elaborou uma nova concepção para o desenvolvimento urbano. 424 ) . do proprietário do solo urbano não edificado.imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no tem- po. II . III . § 4º É facultado ao Poder Público municipal. subutilizado ou não utilizado. de: I . M. 183. nos termos da lei federal. conforme diretrizes gerais fixadas em lei. sob pena. independentemente do estado civil. ininterruptamente e sem oposição.parcelamento ou edificação compulsórios. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. assegurados o valor real da indenização e os juros legais.desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida pública de emissão previamente aprovada pelo Senado Federal. desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. obrigatório para cidades com mais de vinte mil habitantes. 182. utilizan- do-a para sua moradia ou de sua família. § 3º As desapropriações de imóveis urbanos serão feitas com prévia e justa indenização em dinheiro. que promova seu adequado aproveitamento. aprovado pela Câmara Municipal. (Regulamento) § 1º O plano diretor. conforme os artigos 182 e 183: Art.

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§ 2º Esse direito não será reconhecido ao mesmo possuidor mais de uma vez.
§ 3º Os imóveis públicos não serão adquiridos por usucapião.

Dentre os meios criados para CF/88 para o empoderamento
municipal ganham destaque o direito de petição (art. 5º, XXXIV,
alínea a) a ação popular (art. 5º, LXXIII) e a iniciativa popular
(arts. 14, III; 29, XIII; 61, §1º).
Saliente-se, também, que um planejamento democráti-
co leva em consideração o que retrata o Estatuto da Cidade (Lei
10.257/2001), o qual dispõe de diversos instrumentos, bem como
determina a criação de órgãos colegiados de política urbana como
por exemplo os Conselhos Municipais de Desenvolvimento Ur-
bano. Dentre os instrumentos destacam-se: o plano diretor, o or-
çamento participativo e o estudo de impacto de vizinhança. Lem-
brando que todos podem ser discutidos em audiências públicas,
as quais podem ser convocadas pela Administração Pública, pelo
Ministério Público, por entidade civil ou por mais de cinquenta
cidadãos (art. 2º, caput, da Resolução 09/87 do CONAMA). É de
fundamental importância que o Estatuto da Cidade não se torne
obsoleto e apenas mais uma lei dentre tantas outras que versam
sobre o desenvolvimento urbano.
Bobbio (2007) assevera que há, no planejamento público
descentralizado, uma democracia contemporânea, dotada de nova
concepção, a qual substitui a democracia representativa e que con-
sidera o sujeito pelos seus múltiplos status, como pedestre, con-
sumidor e etc.
Para o desenvolvimento urbano democrático é importante
haver um consenso entre os sujeitos envolvidos, bem como a par-
ticipação ativa de todos.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quando os municípios permitem ou reconhecem, valorizam
e institucionalizam novos espaços de discussão, espaços para um
planejamento democrático, possibilitam que as questões urbanas
sejam entendidas a partir de uma nova concepção. Nas cidades nas
quais existem experiências de formas alternativas de gestão, já se
identifica a criação de redes que envolvem o interesse público e
as verdadeiras necessidades e anseios da maioria das pessoas de
determinada localidade.
Tais redes, embora tornem mais complicados os trabalhos de
gestão e de discussões, colaboram para uma administração eficaz
(SIMÃO, 2006). Além de contribuírem para uma articulação con-
tínua e mudança gradativa de valores da comunidade, assim como
auxiliam na preservação identitárias de forma cotidiana, porquan-
to os sujeitos sentem-se importantes e úteis ao ambiente sociopo-
lítico.
A ineficiência dos serviços públicos, bem como a inexistên-
cia de políticas econômicas e sociais colocam a sociedade civil
como sujeito principal na reinvindicação de direitos e isso causa
tensionamentos sociais, sobretudo ante os paradigmas democrá-
ticos existentes no Brasil. O Estado deveria esforçar-se no senti-
do de convergir os interesses com objetivo de promoção do bem
comum, por meio da integração de todos os sujeitos envolvidos,
principalmente fazendo com que a sua atuação se estenda para o
desenvolvimento urbano.
Diante do que foi exposto, importa mencionar que a demo-
cracia está intimamente relacionada ao desenvolvimento urbano,
desde o incentivo econômico até a superação das desigualdades

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sociais que avassalam as cidades. Para existir qualidade de vida é
imperioso que o Estado se una à sociedade na elaboração de polí-
ticas públicas para efetivação dos instrumentos de planejamento,
mormente os que estão contidos no Estatuto da Cidade.
Por fim, o Direito age como mediador dos entraves existen-
tes e causados pelos anseios por desenvolvimento, bem como pelas
tradições das localidades e busca sempre a concretização dos valo-
res democráticos existentes nos princípios da CF/88.

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430
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A MEDIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA PSICANA-
LITICA: UMA RUPTURA COM O
PARADIGMA DOMINANTE E OS NOVOS
RUMOS DO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO
CIVIL E LEI 13.140/2015

Bernardo Girardi Sangoi1
Miliane dos Santos Fantonelli2

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

“Dialogar é dizer o que pensamos e suportar o que os outros pensam.” ANDRA-
DE, 1990.

Em tempos onde o diálogo é suprimido pela ditadura da lin-
guagem virtual, na qual o homem ocidental contemporâneo está
inserido, torna-se cada vez mais difícil a superação dos mais diver-
sos entraves através do consenso. Mais do que pensar em como

1
Graduando em Direito (9º semestre) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Bolsis-
ta de iniciação científica PIBIC/CNPq. Endereço Eletrônico: bernardosangoi@yahoo.com.br
2
Graduanda em Direito (5º semestre) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Bolsis-
ta de iniciação científica PIBIC/CNPq. Endereço Eletrônico: mili_fantonelli@hotmail.com

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solucionar problemas, o diálogo é uma mudança paradigmática do
contexto que se está submerso. Ora, conversar é uma arte que
necessita de alteridade, paciência e – sobretudo – reconhecimento
do outro.
Esse último se revela um dos pilares comprometidos da de-
mocracia, justamente porque o modo como se vive é de fecha-
mento ao outro, de individualismo e, além disso, de paternalismo.
Pode-se dizer que o amor foi esquecido por muitos neste último
século, e no lugar dele se plantou o ódio. Este ultrapassa as bar-
reiras do consciente, enraizando-se até mesmo no inconsciente
humano, o qual é manipulado, principalmente, pelas informações
fornecidas pela grande mídia.
De suma importância, é então, pensar na mediação, dada sua
notável contribuição para a valorização do senso de humanidade.
Dentro desse contexto, é de se pontuar a edição da Lei 13.140 ou
Lei de Mediação, em 2015, que versa sobre a solução de contro-
vérsias entre particulares a autocomposição de conflitos no âmbito
administração pública. Além disso, o novo Código de Processo Ci-
vil também trouxe novas e melhores posturas. Indispensável, por-
tanto, refletir sobre as possíveis transformações comportamentais
que esse novo aparelhamento poderá gerar na sociedade.
Nesta conjectura, revela-se essencial a ruptura com o para-
digma dominante, com fins de que o direito não se reduza à exe-
gese, mas cumpra seu importante papel social. Uma das formas de
se (re)pensar este sistema, portanto, é a mediação, cuja proposta
não é simplesmente pôr termo à lide, mas resolver eficientemente
os conflitos.
É neste contexto que se desenvolve o presente artigo, o qual
aborda a mediação no Novo Código de Processo Civil e na Lei

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13.140 (Lei de Mediação), como potencial para uma mudança
comportamental calcada na cultura de diálogo, mudança essa vista
sob as lentes da psicanálise. Para tanto, o método empregado no
trabalho é o dialético, tendo em vista as contradições e a dinâ-
mica da sociedade complexa atual, marcada pela dicotomia entre
o conflito e a premência de diálogo para resolvê-lo. Quanto ao
procedimento, adotaram-se as técnicas de pesquisa bibliográfica e
monográfica.
Diante deste quadro, o trabalho em questão encontra justifi-
cativa na necessidade de se romper com o paradigma dominante,
caracterizado pela animosidade do litígio, e na imperatividade de
se fomentar uma cultura de diálogo. Com isso, objetiva-se discutir
o Novo Código de Processo Civil, no que tange a mediação, à luz
da psicanálise enquanto forma de compreender as mudanças com-
portamentais, de forma a refletir a importância dos meios comple-
mentares de solução de conflitos na sociedade atual.
Assim, a abordagem se articula em duas partes: em um pri-
meiro momento (1), discute-se a mediação no contexto do Novo
Código de Processo Civil, enquanto rompimento com o paradig-
ma dominante, para, na sequência (2), abordar a questão da mu-
dança deste paradigma, embasada na psicanálise.

1NOVOS CONTORNOS DA MEDIAÇÃO NO NOVO CÓ-
DIGO DE PROCESSO CIVIL E NA LEI 13.140/2015: O
ROMPIMENTO COM O PARADIGMA DOMINANTE

O pensamento jurídico contemporâneo estruturou-se no
ideal liberal difundido na Europa no decurso do século XIX. A

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construção de axiomas que propugnam a neutralidade e a consti-
tucionalidade das leis, a imparcialidade do judiciário, o princípio
da legalidade, contribuiu para a institucionalização da dogmática
jurídica. Contudo, incorreu-se na incoerência metodológica de se
elevarem os valores e dogmas à condição de paradigmas da ciência
(ROCHA, 2005, p. 52).
Conforme Santos (2002, p. 5), a consolidação do Estado li-
beral na Europa e na América do Norte, bem como as revoluções
industriais, o colonialismo, o imperialismo e o desenvolvimento
capitalista foram todos fatores que contribuíram para a edificação
de um cenário sócio-político em que se constituiu o paradigma
dominante ou, em palavras do autor, a “razão indolente”. Neste
quadro, o homem não conseguia projetar sua existência no mundo,
tendo se tornado uma máquina a serviço de um sistema tecnicista,
racional e burocrático. Foi reduzido integralmente a um “processo
maquínico”, em palavras de Morais (1998, p. 67).
De fato, construiu-se um sistema que consagrava a absolu-
tização da verdade, o que não deixa de ser uma pretensão falsa e
infundada, seguindo o raciocínio de Popper (2004, p. 27), mas que
na época foi acolhida e se tornou norte da Europa ocidental, conta-
minando diversos outros países do mundo ocidental. A consequên-
cia não poderia ser mais nefasta: diante de um agir instrumental
permeado de dogmas (verdades únicas), o ser humano se tornou
incapaz de projetar seu “ser-estar no mundo”, construindo laços de
aço (MORAIS, 1998, p. 79-80).
Tendo em vista que este se encontrou dominado pela racio-
nalidade, não conseguindo desenvolver suas relações interpessoais
expressando seus sentimentos, suas emoções, natural que transfe-
risse este “aço” para o modo como lidaria com os conflitos. Neste

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Ora. de matriz eminentemente patrimonial e ressar- citória. 10). a mu- dança. De acordo com Espíndola (2009. o juiz. e isso não implica em caos (MORAIS. por conseguinte. bem como a alteração. 1998. M. sob pena de pôr termo à democracia. Morais (1998.) sentido. diante do quadro liberal-iluminista-individualista. são necessários para o alargamento dos horizontes. 93). um arcabouço jurídico rodeado por muros impeditivos de mudanças. Portanto. é de se salientar que a estabilidade jurídica não tem o condão de congelar as normas conviviais objeto de sua proteção. Em meio à crise que perpassa o sistema. A renovação do sistema. o direito processual civil deixou nas mãos de um terceiro. sem dúvida fomentando a animosidade. a tarefa é desafiadora. 81). p. face à urgência de se repen- sarem os novos rumos do direito. 2015. para dar entrada a um “processo racional não totali- zante e repressivo que permita combater as estruturas asfixiantes das relações intersubjetivas e fomente o desenvolvimento utópico de um projeto de autonomia para todos”. de modo semelhante. p. p. 199). a desmistificação dessa verdade única. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. a solução de litígios entre particulares. sendo impensável se conceber a prevenção do ilícito. bipolarizando a re- lação em um vencedor e um perdedor. Não se pode arquitetar. a instituição de outros meios para se resolverem conflitos revela-se incompatível com o paradigma racionalista. p.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. especial- mente para o Poder Judiciário. haja vista que esta mudança requer uma transformação de cultura (BRASIL. também en- tende que é imprescindível quebrar o sistema baseado na razão instrumental. Até porque ela não firma compromisso com a perenidade formal de regramentos. 435 ) . imperava a lógica repres- siva na jurisdição. Imperativa. por- tanto. mas antes se propõe a defender a liberdade.

Ainda. M. a conciliação ainda conta com a figura de um “soberano” que irá intermediar o acordo interpartes. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. A premissa basilar era de que existiriam vantagens e desvantagens em cada um dos procedimentos. não é o mes- mo que falar de conciliação. é de se pontuar o histórico (relativamente) recente da institucionalização desses métodos ao julgamento pelo Poder Judiciário. neste trabalho. A proposta surgiu no final da década de 1970. em- bora o Conselho Nacional de Justiça classifique a mediação como meio alternativo de solução de conflitos. as partes são orien- tadas pelo conciliador a chegar a um acordo.) É sob esta ótica que devem ser entendidos os meios com- plementares de solução de conflitos na atualidade. na conciliação. visto que segun- do Spengler et al (2013): Será utilizada a expressão “complementar” ao invés de alternativas.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. enquanto a mediação promove a autono- mia. cabe destacar que falar de mediação. quando o professor Frank Sander propôs o Fórum de Múltiplas Portas (FMP). mas são sim formas auxiliares de tratar o conflito. as quais deveriam ser sopesadas em vista das 436 ) . proporcionando-se a es- colha de diferentes processos para cada caso concreto. A diferença parece tênue. por entender que esses meios diferenciados de acessar à Justiça em momento algum tendem a se opor ao Poder Judiciário. nos Esta- dos Unidos. na verdade. através da conversa. A primeira é uma forma em que as partes vão encontrar. com destaque no presente trabalho para a mediação. “meios complementares” de solução de conflitos. A ideia era que o Judiciário se estruturas- se como centro de resolução de disputas. mas. uma solução plausível para ambas. Diferentemente. se adota. Importante referir que. No ponto.

2015a. acabou influenciando o legislador brasileiro. 19). No que se refere aos vinculantes. 9). 437 ) . 2015a. 26-27). hoje mais frequentemente conhecida por “Resolução Adequada (ou Amigável) de Disputas”. Partindo do critério de vin- culação (ou não) ao processo. que de acordo com Warat (1999. 2015a. tem-se a arbitragem e as decisões ad- ministrativas. p. p. 2011. p. se judicial. A repercussão da mediação norte-americana.140/2015). Neste trabalho. destaca-se a mediação. 5-6). primeiramente. 19). Neste se encontra a mediação. juntamente com a negocia- ção e a conciliação. a decisão judicial (BRASIL. também serviu de norte para a Lei de Mediação (Lei 13. Porém.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M.) características especiais do conflito em concreto. p. caracterizada por juizados de pequenas causas. em que se reivindicavam alterações sistêmicas que melhorassem o acesso à justiça para o jurisdicio- nado. Quanto aos processos não vinculan- tes. proposto pelo senador Ricardo Ferraço (BRASIL. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. estabeleceu-se que a tomada da decisão competiria às próprias partes. con- forme se depreende da justificação do Projeto de Lei nº 517/2011. Assim foi criada a “Resolução Alternativa de Disputas” (RADs). é um “acordo transformador das diferenças” que melhora a qualidade de vida das pessoas envolvidas no conflito. p. M. Se o pro- cedimento for extrajudicial. delimitou-se que a tomada de decisões ficaria a cargo de um terceiro. Seu histórico remonta ao movimento de acesso à justiça levado a cabo ainda na década de 70. os métodos de RADs foram agrupa- dos em dois grandes blocos. com fins de se determinar qual seria o melhor dos procedimentos a ser adotado (BRASIL. para incluir a conciliação no sistema dos juizados especiais (BRASIL.

2o. busca a justiça como um refúgio diante de seu desabamento interior. Ingenuidade à parte é de se notar que este modelo de resolução de conflitos esti- mula alteridade e principalmente o diálogo. M.27). Inclusive. Em seu art. em meio a uma sociedade que. p. verifica-se o objetivo de prestação dos serviços com boa qualidade e de disseminação da cultura de pacificação social (BRASIL. nesta busca pelo Poder Judiciário. mesmo se pretendendo democrática. cuja vigência começou em março de 2016. é que o ser humano. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 14).) Muito embora o país tenha estabelecido a Lei de Mediação no ano de 2015. seguindo o pensamento de Garapon (2001. dado que a ótica processual se encontrava estritamente arraigada na cognição exau- ritente e contaminada pelo paradigma racionalista. por meio do Conselho Nacional de Justiça. como se viu. Com relação ao Novo Código de Processo Civil. tem sido. por meio da Resolução nº 125/2010. Ponto importante a ser observado em meio a este contex- to. não consegue gerir a complexidade e a diversificação por ela criadas. o exercício da mediação já vem sido adotado extraju- dicialmente. de acordo com o Anteprojeto (BRASIL. sobre- tudo engajada pelo Conselho Nacional de Justiça. que muito bem 438 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. deparou-se com um espaço impositivo. O juiz surge como salvador para solu- cionar seus problemas. A mudança de mentalidade. em que o su- jeito não conseguia expressar seus sentimentos. instituiu-a como política pública. um de seus objetivos é justamente “criar condições para que o juiz possa proferir decisão de forma mais rente à realidade fática subjacente à causa”. na realidade. Ocorre que. 2010b. o Poder Judiciário. pondera-se que pode (quem sabe em longo prazo) fazer com que a postura predominantemente pa- ternalista do sistema sofra transformações positivas. p. Até porque. 2010a).

até mesmo. Naturalmente. 20). 2015a. por outro lado. entre outros. caracterizada por ser uma negociação catalisada por um terceiro imparcial. o qual se mostra aberto à compreensão das posições aventadas pelas pessoas em conflito. as elevadas despesas com os litígios e o excessivo formalismo processual. 34): As pesquisas sobre o Poder Judiciário têm apontado que o jurisdicionado percebe os tribunais como locais onde estes terão impostas sobre si decisões ou sentenças. sustenta-se que de um lado cresce a percepção de que o Estado tem falhado na sua missão pacificadora em razão de fatores como. visando ao melhor atingimento de seus escopos fundamen- tais ou. que atinjam metas não pretendidas diretamente no processo heterocompositivo judicial. De fato. Diante destes novos contornos. 1999. não há uma função de poder. M. com base na lei e nas preten- sões trazidas pelas partes. com fins de buscar soluções que sejam compatíveis aos seus interesses e às suas ne- cessidades (BRASIL. mas sem impor sua vontade de forma persuasiva (WARAT. Contudo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. sem 439 ) . sua imparcialidade afasta-se daquela do juiz. além de poderem encerrar a mediação a qualquer tempo. ao contrário. assume relevância o papel da mediação. mas sim um discurso de amor em que se busca ajudar as partes a resolver o conflito. p. p. esta tem sido também a posição da doutrina. p. tem se aceitado o fato de que escopo social mais elevado das atividades jurídicas do Estado é harmonizar a sociedade mediante critérios justos […] [Também]. Na mediação. a sobrecarga dos tribunais. 49-50). imaginária.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. as partes não necessitam chegar a um acor- do. o que se propõe é a implementação no nosso ordenamento jurídico-processual de mecanismos processuais e pré-processuais que efetivamente complementem o sistema instrumental.) captou a incongruência entre a prestação jurisdicional e a imagem (negativa) que estava sendo impressa do Poder Judiciário (BRASIL 2015a.

uma vez que o direito trata 440 ) . Logicamente. sem ônus algum de participação. Na realidade. LISPECTOR. principalmente por colocar em cheque certos dogmas das práticas forenses. 21). 2 A MEDIAÇÃO ENQUANTO MUDANÇA PARADIG- MATICA: DA CULTURA DO CONFLITO À CULTU- RA DO DIÁLOGO À LUZ DA PSICANÁLISE Ouve-me. mas o resultado quem controla são as partes (BRASIL. o mediador é quem direciona o procedimento.) sofrer prejuízos. o conflito existe. Existe uma maior flexibilidade. sentimentos. Aproximar o direito da psicanálise não se mostra tarefa fácil.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. haja vista se tratar de processo não vinculante. O que eu te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. e ele deve ser entendido trabalhado. Mais do que isso. M. com fins de que as partes cheguem ao consenso. emo- ções. tensões. ponto que será explorado a seguir. associar dois discursos tão distintos não pode ser feito de maneira simplista. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 1994. no entanto vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão. não se preocupa com uma sequência orde- nadamente rígida dos atos a serem cumpridas. Imperativa é a mudança para a cultura do diálogo. p. com a respectiva expressão de seus pontos de vista. ouve o silêncio. Capta essa coisa que me escapa e. 2015a. A partir deste quadro. verifica-se que a mediação ao revés da lógica decisionista. que é importante para fomentar o diálogo entre as partes.

já que ele é estruturado como uma linguagem (LACAN. 1998). Arriscar a identidade é ceder à como- didade. como uma ferramenta do direito. explorar a mediação. dentro deste contexto. tem grande potencial de transformação da sociedade. pela cultura do litígio. em muito. e entende estes sob o ponto de vista positivo. como a mudan- ça do paradigma. para não dizer falso. a qual ainda se encontra contaminada. 2004). enquanto transformação do inconsciente. M.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. não têm a mesma estrutura e não podem ser tomados como lugar-comum. mas incorreto. na falsa ideia de que uma sentença que ponha fim ao processo resolve todos os impasses no mundo da vida. que se não pode fazer um discurso psicanalítico do direito e muito menos um discurso jurídico da psicanálise. Ao revés. Essa postu- 441 ) . Atitude empulhadora. Dessa forma. traz em seu bojo que a solução de disputas não se resume a um procedimento formal. A mediação.) de uma racionalidade consciente (ROSA. Ou seja. mas também do inconsciente da mesma. por exemplo. este trabalho pretende analisar os pontos em que há convergência destas duas manifestações.. a qual se demonstra não apenas uma nova maneira racional de estruturar o consciente da sociedade. mas oferece o cadafalso no momento seguinte.. Ao provocar uma ruptura com o modelo de racionalidade característica da tradição jurídica oci- dental. parte da ideia de que a sociedade é permeada por conflitos.) Os elementos dos campos (direito e psicanálise). deslumbra na primeira aparência pelas fórmulas fáceis. por outro lado. (. Coutinho (1996) atenta sobre esta questão: Ficou patente. visto que essa nova forma de pensar os conflitos mexe no imaginá- rio do corpo social. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.

“vencer a batalha” para as duas partes. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. 1999. partindo dessa premissa. dependendo do caso. mas busca resolver as questões emocionais mais profundas que nem sempre são expostas na maneira tradicional de abordagem do problema. podem surgir conflitos sociais de diversas espécies e gravidades. Diante do projeto.. vencer a disputa pessoal e interna. p. o conflito não deixa de ser uma oportunidade de socialização (GARAPON. que veio a se tornar a Lei de Mediação posteriormente. que. “a partir do momento em que se percebe o conflito como um fenômeno natural na relação de quaisquer seres vivos é que é possível se perceber o conflito de forma positiva”. cujo comportamento se norteia a valorizar a reso- lução do conflito como um todo. através de profissionais devidamente capacitados. De fato. salienta-se a primeira (BRASIL. Inclusive. seja no setor público. 442 ) . Portanto. Nos dois âmbitos. o Projeto de Lei nº 517/2011. 2011b. 9): Essa técnica de composição de conflitos não se limita à conciliação dos envolvi- dos. p. seja no setor privado. podem-se depreender duas justificativas que nortea- ram a proposta legislativa. 45). Neste sentido. inegável a imperatividade de se fomentar uma cul- tura de diálogo. é uma das mais contundentes modificações da moderna teoria do conflito.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. Mais do que isso.52). uma de dimensão psicológica e a outra voltada à preocupação com a cultura do litígio ainda preponderan- te. [. mas também emocionalmente satisfeitas e com a relação social restabelecida. p. justamente ressalta a importância de a sociedade firmar compromisso em resolver os conflitos. 2015a. trabalha o pano de fundo do conflito familiar.. M.] [A] mediação. conforme o Conselho Nacional de Justiça (BRASIL. ou seja. serão solucionados administrativamente ou então levados para a apreciação do Poder Judiciário. a fim de que as partes saiam não só com um acor- do financeiro em mão.) ra.

caracterizada pela possibilidade de sanção. ou melhor. o Estado estará mais próximo da conquista da pacificação social e da harmonia entre as pessoas. 1987) e ainda. coloca acertadamente sobre este assunto: 443 ) .P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. segundo Bacellar (1999. a comunicação estimula o consenso (HABERMAS. p. p.359).) diluindo emoções conflituosas e negativas. numa estrutura social complexa na qual a coerção. isto é. p. os casos que se solucionam mediante consenso re- solvem. o qual é de grande valia para o diálogo. inspirando-se na concepção Kantiana de autono- mia (KANT. o conceito de consen- so. Surge. que ela não seja reflexa de algum tipo de pressão externa ou qualquer fator extrín- seco a seu desejo. Oportuno aduzir. mas também todas as questões que envolvam o relacionamento entre os interessados. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org.67). Além disso. Consequência disso é que o consenso e a inclusão social surgem como alternati- vas. grandiosas ferramentas complementares no trata- mento de controvérsias (SPENGLER. Warat (2004.130): não só a parte do problema em discussão. é preciso que as partes queiram fazer uso da mediação e que realmente seja sua vontade. M. já não serve mais como elemento condutor do agir social em relações conflituosas. as quais são muito re- correntes em situações de atrito interpessoal. tendenciosa à sua inclinação. 2010. que as escolhas e as decisões não devem ser reflexas de contingências moralmente arbitrárias. contudo. Em outras palavras. Com a implementação de um “modelo mediacional” de resolução dos conflitos. neste contexto da comunicação. Ele gera compromissos. de algum modo. 2001).

M. percebe-se que este processo é lento e gradual. 2014.) A mediação é: A inscrição do amor no conflito Uma forma de realização da autonomia Uma possibilidade de crescimento interior através dos conflitos Um modo de transformação dos conflitos a partir das próprias identidades Uma prática dos conflitos sustentada pela compaixão e pela sensibilidade Um paradigma cultural e um paradigma específico do Direito Um modo particular de terapia Neste cenário. Permeia uma “panoptização” do mundo da vida. p. nota-se que o ser humano é coisificado em prol de um sistema que se pretende infalível. ainda que te- nham se passado dois séculos de sua ascensão. o controle. Isso porque a massa que forma este paradigma dominante não conhece a dúvida. parafraseando Foucault (2013).P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M.139): 444 ) . detentor de todas as respostas. nem a incerteza. mesmo que a crítica ao paradigma do- minante seja pertinente. É de se notar que. a vigilância são sobremaneira valorizados. fazendo com que suas reações aos mais diversos desacordos fossem manipuladas por aquilo que o “padrão” julga ser o ideal (FREUD. 2014). um germe da antipatia se transforma em ódio (FREUD. em que a disciplina. É como se este paradigma que permeia as relações entre as pessoas vendasse seus olhos. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. indo ao extremo: a suspeita manifestada logo se trans- forma em certeza irrefutável. e que já há reflexões e avanços no que toca à mudança. A racionalidade cartesiana se mantém ainda forte.

dessa forma. é na diferença que o ser humano se autodetermina. tanto de autodeterminação “em relação a” e “com” o outro. então. significa uma mudança no paradigma dominante e. sede de submissão3. Ora. 445 ) . a fim de explorar a construção do inconsciente a partir da linguagem (Lacan) e a psicologia das massas (Freud). não é possível querer controlar minuciosamente a sociedade com regras postas e enges- sadas. novas formas de encarar os conflitos. pensar em resolver os conflitos de forma au- tônoma. portanto. a massa continua sendo dominada por uma força irrestrita. intolerantes à dinâmica do fluxo circular que é inerente à natureza da democracia. a qual não é juízo de certezas! Deste modo. entendido em uma dupla perspectiva. no entanto. paira a incerteza. 6-7) quando afirma que a mediação é instrumento de realização da democra- cia. Sabe-se. a maneira de desatar suas divergências. Contudo. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. convivendo com a conflitividade. tem. portanto.) O líder da massa continua sendo o temido pai primordial. anseia pela autoridade num grau extremo. que são linhas diversas. p. Deste modo. segundo a expressão de Le Bon. e. cada vez mais incompatível se revela este ideário diante da proposta de Estado em que se pretende concretizar di- reitos fundamentais numa sociedade complexa em que justamen- te. se essa dúvida existe é porque esta massa já conta com um novo ponto em comum. provavelmente uma nova orientação emocional. M. As pessoas aos poucos vão mudando sua psique. de alguma forma. Por certo. através do diálogo e da linguagem transformando. valendo lembrar que este é incompleto e necessita se relacionar com seus semelhantes. Em vista disso. apresentando peculiaridades específicas. 3 Frisa-se que o trabalho utiliza duas vertentes distintas da psicanálise. cidadania e autonomia. uma transformação comportamental. transgredindo – positivamente – a fim de drenar sentimentos em conflito.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS II ) sumário Marli M. concorda-se com Warat (1999.

É como se um modelo norteasse o comporta- mento das pessoas nas suas vidas e relações interpessoais. a qual envolve diálogo. con- senso. fez com que se formasse um paradigma que se so- brepõe aos demais.) Destarte. vem sendo estruturada e incorporada no trata- mento dos conflitos há algum tempo. de como esses conflitos deveriam ser geridos. CONSIDERAÇÕES FINAIS O imaginário contemporâneo. não havendo espaço para subjetividade. O próprio Poder Judiciário. sobretudo como uma mudança no imaginário que permeia a sociedade. Importante destacar. propicia não apenas uma sociedade salutar. Ir de encontro ao sistema de dogmas e. a qual é inerente ao ser humano. como também desenvolve características essenciais para transgredir ao cenário que se monta atualmente: de uma cultura de ódio. até a normatização. guiando desde a maneira como encaram os conflitos. alteridade e reconhecimento do outro se revela.P OLÍTIC A S PÚ BLIC A S voltar ao E D EMA N DA S S O C IA IS : ( DIÁLOGOS CONT EMPORÂNEOS ) sumário Marli M. 446 ) . e ruptura com uma herança cultural que está enraizada no paradigma dominante. que a mediação. a prática da mediação. a qual é objeto de estu- do deste trabalho. em que o homem não conseguia pro- jetar sua existência no mundo. primordial é analisar e (re)pensar a mediação. so- bretudo negação do outro. fez com que tudo fosse reduzido a processos mecânicos. permeado do ideário liberal e do racionalismo. então. Dessa forma. M. conflito e. enquanto forma complementar de acesso à justiça. Esta razão indolente. propriamente. da Costa e Monia Clarissa Henning Leal (Org. propor um projeto de autonomia para todos. Essa forma complementar de acesso a justiça e de se tratar os conflitos. portanto.

a maneira como estas pessoas irão desenrolar seus de- safetos e discordâncias. enquanto forma alternativa