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UTILITARISMO E MORALIDADE

Considerações sobre o indivíduo e o Estado*

Lara Cruz Correa

Entre o moral e o útil consolidado e revela sua persistência histórica, in-
cidindo sobre esquemas avaliativos contemporâne-
É bastante reconhecida a tese de que a catego- os. Especialmente, uma filiação aos pressupostos
ria indivíduo é aquela que confere inteligibilidade à daquilo que se convencionou chamar utilitarismo
experiência ocidental. Seja tomado como núcleo de clássico – tendo em Jeremy Bentham, James Mill e
nosso sistema valorativo desde o Renascimento, seja John Stuart Mill seus principais expoentes – parece
o cristianismo primitivo afirmado como seu ponto condicionar a atual adesão a um particular conjun-
originário, há de se admitir, entretanto, o caráter to de suposições: a concepção de unidades isoladas,
específico que vem a adquirir o individualismo na dotadas de interesses próprios, legitimamente di-
era moderna, quando de fato o indivíduo se cons- vergentes entre si, aparece arraigada em nossa ideia
titui em sujeito da reflexão ética e política. O teor do que venha a compor um corpo social.
peculiar do individualismo moderno, identificável A presente investigação pretende identificar o
sobretudo no pensamento iluminista, parece ter-se que significa o estabelecimento da utilidade como
centro gravitacional da reflexão desenvolvida por
* Agradeço a Cesar Guimarães (Iesp-Uerj), Bernardo aqueles autores, tanto do ponto de vista das ba-
Ferreira (Uerj) e Álvaro de Vita (USP), que contribuí-
ram com comentários e sugestões a versões prelimina- ses filosóficas que lhe dão sustentação, quanto da
res deste trabalho. Agradeço também ao CNPq pelo perspectiva de seus desdobramentos como prin-
apoio financeiro. cípio organizador das relações sociais e políticas.
Artigo recebido em 24/10/2010 Desenvolvemos a tese de que o pensamento utili-
Aprovado em 28/07/2011 tário possui ao menos dois traços distintivos que
RBCS Vol. 27 n° 79 junho/2012

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A despeito de na consagração do útil é a estreita vinculação entre divergências essenciais entre suas formulações. como aproveitarmos o máximo possível nos- sas eternas insuficiências. apresenta-se como eminente. Quando em evidência. que proporcionou uma visão mais natureza humana tais quais afirmados por Jeremy animadora das oportunidades trazidas pelo so- Bentham e seus seguidores são componentes essen. havia-se transformado na ciência positiva de vo de organização política. passando por neutralidade subjacente ao pensamento utilitário. p. Nosso cia desse personagem peculiar desde Santo Agos- esforço dirige-se à desconstrução de tal ilusão de tinho até teóricos contemporâneos. tal conceito de homem tenha sido reavaliado reflexão mais acurada acerca de elementos que apa. podemos perceber a incidência de vo atribuído a tal natureza humana pôde ser substi- traços utilitaristas em alguns pontos que norteiam tuído por um valor positivo: nossas práticas e instituições mais fundamentais: desde a afirmação da igualdade como um de nossos Na época de Adam Smith. os pensadores iluministas e os buscando evidenciar que. só que aburguesa- oria utilitária depende de um recuo às fontes de seu da – uma elevação do livre arbítrio à escolha modelo antropológico próprio. Tratava-se da mesma condição humana miserável contem- A busca pelos componentes normativos da te. de modo ria tais autores a adesão ao pressuposto básico de que considerações quanto à natureza humana são que uma disposição passional insaciável e corrupta traduzidas em um conjunto de valores específico é componente intrínseco à natureza humana. Mar- shall Sahlins identifica no pensamento utilitário No pensamento utilitário. naturalizados. o que se observa utilitaristas ingleses. a miséria humana valores cardeais até a sanção a um modelo confliti. morais e políticas. ao colocar a predisposta ao mal e para sempre amaldiçoada pela dimensão do cálculo e da instrumentalidade como sensação da falta. com o advento da sociedade burguesa. A gênese da economia foi a ciais de suas teses. não obstante sua persis- subjacente aos componentes – em tese meramente tência ao longo da história do pensamento ociden- descritivos – do pensamento utilitário permite uma tal. seu ponto referencial. 565). Thomas Hobbes. uni- concepções cognitivas. nição. A associação mais mente pela concepção do homem como “escravo de imediata é com o modelo hobbesiano. Sahlins que se revela importante para nossa discus- culiares. a preocupação prática. plada na cosmologia cristã. A partir da recem ao pensamento contemporâneo como apro. e tirarmos a máxima satisfação possível de meios que estão sempre Individualismo utilitário aquém de nossas necessidades. o desenvolvi. isto é. de outro. Sahlins identifica a permanên- mente neutra do ponto de vista valorativo. 27 N° 79 lhe conferem especificidade quando considerados ço distintivo do imaginário ocidental estaria conti- no cenário do pensamento político moderno: de do no mito do Pecado Original e da Queda: do ato um lado. tigo – teria sido derivada a noção de humanidade são institucional concreta. no qual dor suas necessidades”. segundo o qual o tra. te originais na tradição da filosofia política. 174 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS . intrinsecamente falha. No e sustentam prescrições institucionais. corporalmente mento de uma doutrina filosófica que. corruptível. A formulação de Bentham estabelece que: 12027_RBCS79_AF3b. frimento humano.VOL. entre outros.indd 174 7/2/12 4:36 PM . noção de que aquele material bruto e imperfeito blemáticos. ainda que não sejam inteiramen. a elaboração adâmico de insubordinação a Deus – e de seu cas- teórica centrada no objetivo de encontrar expres. pelo desejo nunca satisfeito. a carga normativa são: a observação de que. Em sua análise. o sinal negati- amoralidade. a definição da mo- desdobramentos de dogmas judaico-cristãos acerca ralidade dependerá precisamente da articulação en- da imperfeição humana. tre sensibilidade e racionalidade. marcados fundamental. é um ponto específico da elaboração de sociabilidade e ideais de personalidade bastante pe. Sahlins (2004) toma como base e prazer são tomados como determinantes da cog- o argumento de Paul Ricoeur. Os princípios de racional. de fato. Desvelada sua aparente poderia ser racionalmente modelado. modelos de entanto. economia do Gênesis (Idem.

o critério do tações psicológicas. Coloca-se a questão As posições que já estabelecemos no que tan. não podem como em outros animais. como liame da sociabilidade o trabalho de Helvé- to e suas percepções. traz para o primeiro plano o sujei. unicidade que se esconde por detrás da aparente mente a eles cabe indicar o que devemos fazer. dá lugar à sua afirmar qualquer orientação eticamente sancionada concepção como processo subjetivo. de um lado. 1). p. o re- tos no âmbito das ciências naturais inspiravam sua curso a um elemento específico que permita reali- ampliação agora ao domínio do homem como ser zar a conciliação entre aquelas dimensões da razão psíquico (Cassirer. 270).. 1950). que seus de. que o utilitarismo. e que assumimos como será capaz de articular o individualismo ético de- fundamentos. p. p. As consequências desses pressupostos nada têm O pressuposto é reafirmado. as necessidades corpóreas te- dor como fins. sua noção de sociabilidade exige. isto é. o pensamento ência no pensamento de Bentham. de fato.indd 175 7/2/12 4:36 PM . fundamental: de que maneira a lógica utilitária ge à natureza humana. 2004. portanto. Insere-se neste contexto de afirma- pensamento estabelecida na virada cartesiana do ção das necessidades e das imperfeições humanas século XVII. 1948.. da carência” (apud Sahlins. Ao seu que se insinua na heterogeneidade das manifes- trono estão atados. as conclusões acerca do res. Inscrito. e a encontra precisamente certo e errado e. busca revelar a regra geral assim como determinar o que faremos. encerrando que não seja meramente uma derivação dos impul- assim a identidade entre razão e indivíduo. que se in. em si e por coisas e à história. cada sujeito particular. No pensamento utilitário. sos sensíveis egoístas (Cassirer. multiplicidade. Tam- senão ao modo como tais objetos incidem sobre bém nos textos de Helvécio encontra-se a noção. lidade psíquica não é mais do que uma transforma- ções mentais realizadas pelo sujeito cognoscente ção da percepção sensível. No longo percurso indicado por Sahlins. de iluminista. vemos vo movimento de “sublimação do mal” (Sahlins. – até finalmente chegarem a ser formuladas como ção filosófica da Antiguidade clássica. O que se observa é a aplicação do espírito O acesso à moralidade utilitária e às bases de analítico característico do século XVIII. 1978. erigido em máxima de natureza humana. 2006. e suas vontades por seus desejos. superior ou inferior. Para Helvécio: utilitário sustenta que. ao sejos são direcionados ao prazer e ao alívio da qual nos referíamos. dor e prazer. 567). imanente às não há mais objeto qualquer que seja. p. e à riqueza e ao poder como os riam transitado do status de “mal original e fonte principais meios (Mill. o questionamento abraçada pelos empiristas ingleses. a sociabilidade é efeito ser atribuídos quaisquer valores aos objetos em si. por sua vez. autor francês que teria sido de decisiva influ- bém na tradição empirista inglesa. lógicas a um modelo de sociabilidade. estruturadora. na medida em que nossas “Por ser o homem sociável. a ideia si só. cio. de outro. Nessa leitura. tam. as pessoas concluíram ideias de bem e mal são originadas tão somente que ele é bom. tal em sensações subjetivas – corporais –. e da sensibilidade. 69). em um progressi- terrogava acerca da essência dos objetivos. cujos êxi. são as seguintes: que as ações rivado de suas concepções ontológicas e epistemo- dos homens são governadas por suas vontades. a cadeia de causas e no movimento de busca do prazer e afastamento efeitos (Bentham. Transposto para o ter- (Araújo. e que tampouco se pode de razão exterior. 567). Afinado à mentalida. portanto. esse princípio psicológico implica que ser tomada como processo objetivo. seguindo uma tendência de 2004.]. esta 12027_RBCS79_AF3b. de que toda rea- se volta dos objetos de conhecimento às associa. no homem. So. UTILITARISMO E MORALIDADE 175 A natureza colocou a humanidade sob o gover. “fonte suprema da vida social”. Mas se iludiram [. de desprezíveis. Assim. de vasta tristeza” – como em Santo Agostinho – a simplesmente “naturais” – tal qual em Hobbes Marcando um diferencial em relação à tradi. da dor. 1950). por James Mill: homem como ente psíquico são transportadas ao homem como ser social. A racionalidade deixa de reno ético. o utilitarismo trata de desvendar a no de dois senhores soberanos. p. em moldes simila.

Diante da plurali. a promover ou se opor categoria do interesse: diferentemente do ímpeto àquela felicidade. por James Mill. mas também à ação governamental. tais noções tipicamente utilitária de corpo social desprovido serão essenciais para a compreensão de suas conclu. Não características próprias. já a partir do século XVIII. à prevalência. ao mesmo tempo. e portanto não somente de toda ação de ponde a um direcionamento racional imputado ao um indivíduo privado. 589-590). composto pelas não constitui um corpo com uma alma que pen. a realizar-se misteriosa e me- do utilidade – é. cos”. A isso se associa do. a Sahlins. uma retórica de bem-comum. mas também de toda que seria o movimento anárquico daquelas. ação. 1948. o que é o mes.1 Assim. de um dutas no campo político só pode ser obtida por modo de pensamento que imputa à realidade uma um critério aritmético. entre si. Esta se refere a instituição de um parâmetro que oriente as con. 176 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS . a con- Uma vez tomado o indivíduo como unidade clusão de Bentham não comporta ambiguidades: de análise. e englobante” estaria subjacente a concepções con- tação e diretriz de julgamento das ações: sagradas no pensamento econômico clássico. Outro dade de interesses individuais – legítima..VOL. uma vez mais. 273-274). pp. não há um “corpo social” que possa ser tro. Tal critério – a ser chama. aos sujeitos. e a “mão invisível” cípio que aprova ou desaprova cada ação de de Adam Smith (Sahlins. que denunciará Do modo como posteriormente formulado as tensões internas a essa corrente de pensamento. a dissolução do social. felicidade do maior número. viduais. 3). p. Referindo-se sões acerca da constituição da vida social e política. 1978. p. p. tais como a tese dos “vícios privados. Percebe-se. 2004. o utilitarismo tem como núcleo de sua te o mesmo: “Para entender o que está incluído na teorização o indivíduo idiossincrático. elaborada por Mandeville. 55). pp. este é o correlato necessário da noção mentos de seus pressupostos teóricos. que permite. harmonia intrínseca. a sociedade perde sua materialidade e “Quando tem um significado. ao significado da ideia de comunidade. benefícios públi- O princípio da utilidade significa aquele prin.indd 176 7/2/12 4:36 PM . pessoas individuais que são consideradas como sa e sente. chama “antropologia da Providência”. portanto. o que prevalece é a ideia mentar ou a diminuir a felicidade daqueles de uma organização providencial do mal inerente cujo interesse está em jogo. O indivíduo é ele próprio um teresse da comunidade? A soma dos interesses dos todo e é a soma desses pequenos todos que vai for. senão a garantia de se chegar a um a ideia de indivíduos atomizados. dotada de dividual.]. individuais. Qual é. Em acordo com a tendência que apresenta a au. o sentido se mantém rigorosamen- Como visto. de outro. é o seguinte: a co- é convertida em entidade fictícia: “A comunidade munidade é um corpo fictício. pois. para além das intencionalidades indi- fórmula da “maior felicidade do maior número”. medida de governo (Bentham. mar a comunidade” (Araújo. A noção de um sistema “invisível. suas diversas formulações. diversos membros que a compõem” (Bentham. Eu digo de toda e qualquer pré-reflexivo que caracteriza as paixões. A utilidade impõe-se como parâme- Assim. 27 N° 79 dependerá fundamentalmente da mobilização da mo em outras palavras. então. não somente no que tange à ação in- apreendido como unidade inteligível. Quem pensa e sente são unicamente constituindo seus membros. benéfico Afirma Bentham acerca da utilidade como orien. o que está incluído na felicidade dos indivíduos a existência de interesses naturalmente divergentes dos quais ele é composto” (Mill. dotados de fins “ponto ótimo” relativo ao somatório das utilidades independentes. senão como mera agrega.. este corres. 2006. o que impli. uma vez aspecto peculiar à cosmologia ocidental seria o que que derivada de seres sensíveis idiossincráticos –. Retornemos. vimos. ou. quantitativo. o que coloca o pensamento utili. a despeito das limitações 12027_RBCS79_AF3b.2 o interesse adquirirá papel central para os utilitaris- tas. de densidade ontológica própria. 2). o in- os indivíduos [. Desdobra. sumarizado na canicamente. das quais a felicidade – saldo da sub- tário perante um impasse quanto à produção de tração das dores aos prazeres – constitui a métrica. entretanto. é outra a atribuição de primeira ordem do Esta- ção de suas partes componentes. 1948. precisamos entender ca duas consequências fundamentais: de um lado.

a produção do bem coletivo. ao mesmo tempo. A Providência é então substituí. 1978. a ciência da política dos prin- de interesses é aceita. aos moldes dos conceitos próprio ao pensamento utilitário não reside. por Macaulay a James Mill. 478). A lógica utilitária. (descrição do homem tal como é ) e a um comando lo antropológico utilitarista. “a moralidade do Utilitarismo teorizações como as de Mandeville e Adam Smith. da hobbesiana. veremos. o princípio da utilidade zes admitisse tal conciliação espontânea em matéria equivaleria. A conclusão é que tal harmo- equivalente. e por seu aplicador. em seu abrangente trabalho sobre aquela. que virá a consti- te os corpos. que serviu de inspiração a a tradição utilitária. tituição individual pudesse ser sumarizada na forma ção de um desenho institucional-legal que garanta do axioma simplista e nada sofisticado do egoísmo a produção da utilidade pública (Araújo. ou pública (Idem. Halévy afirma que É bastante aceita a tese de que os utilitaristas há de se admitir que algum nível de harmonização teriam pretendido elaborar uma “ciência moral” tenha sido obtido. de um lado. já à época de sua apresentação ao público. em razão da im- malizador externo. de matemáticos. p. atuem uma resposta que não difere fundamentalmente em prol da utilidade geral. a priori. No entan. UTILITARISMO E MORALIDADE 177 individuais. O procedimento seria mento utilitário não prescinde de um agente nor. questiona-se a ganha proeminência: enquanto na esfera econômi. propõe o autor.3 É pela definição de um arcabouço político. é sua psicologia econômica colocada no imperati. É precisamente a resposta a como escapar de um Leviatã. que atua ca. em suas premissas fundamentais. 1978. possibilidade de se conferir um significado rígido da pela Razão. 9-15). Uma noção (Lively e Rees. implicando uma espécie de “naturalismo ético” tenha sido resultado de algum ardil. por sua vez. voltado à concep. Para a questão de como sição do paradoxo inerente ao argumento utilitário pensar. no âmbito político o pensa. mas forçosamente admitindo. à mecânica newtonia. a crítica de Macaulay volta-se à expo- os interesses individuais. Seria o 12027_RBCS79_AF3b. acordo com a própria natureza. ao mesmo tempo. para além da ética autorreferida sugerida de que se possa esperar que os indivíduos ajam de por sua visão psicológica. que ainda assim a espécie humana tem resistido ao longo do tempo. – defende. mediante o cálculo custos-benefícios (o equivalente São especialmente incisivas as críticas dirigidas econômico do binômio dores-prazeres). mas em seu como falsa a petição de que a complexidade da cons- caráter eminentemente prático. o cerne da ciência utilitária da política. p. e que. consciências. validade de sua orientação metodológica. perseguindo seus ção de uma sociabilidade. a renegava em âmbito político. isto é. p. de fato. normativo (proposição acerca do que deve ser). p. mostrou-nos Sahlins. ainda que por ve- vo” (1972. generalização empírica acerca da conduta humana -institucional peculiar que se poderia inscrever (Lively e Rees. Assim. O utilitarismo prescreve também 43). Tais é afim ao homo economicus. bases para a sustenta. baseada ca a noção de uma fusão ou natural harmonização em deduzir. os utilitaristas oferecem interesses privados. Macaulay aponta fato. um elemento específico ao utilitarismo pontos essenciais. Tal como sustentado de uma identidade natural de interesses teria sido por Elie Halévy. O mode. concentradas em três to. e uma medida precisa a seus conceitos-base “dor”. em sua precisão. cípios de natureza humana. 2006. na visão de Macaulay. mas antes um artífice que molda as tuir. poupados de críti- da providência em sua versão burguesa. ilegítimo. nização possa ter-se dado espontaneamente ou que na. 26). a uma lei científica econômica. ainda que de características próprias: tal pluralismo ético. interesse próprio e em nada mais.indd 177 7/2/12 4:36 PM . sujeito do princípio preceitos não foram. Supondo a natureza antissocial do ho- mem. o traço que podemos apontar como “prazer” e “felicidade”. pp. por seu turno. Estado utilitário: interesse e artifício de outro. cipal chave encontra-se no tema da identificação de interesses. Primeiramente. a prin- é tanto mais sutil como mais incisiva. A forma como vergar os indivíduos E para a compreensão desse ponto crucial. a inviabilidade de qualquer 268). o Estado. entretanto. à autodeterminação calcada no o Estado não é tanto um soberano que subme. Em segundo lugar. nos sujeitos as diretrizes capazes de fazer convergir Por fim.

[. p.] realizada em seu Essay on government. criando mecanismos que os façam institucional e oferecendo solução ao dilema da convergir para o bem público. corresponde um modelo de comunidade. uma calculada distribuição de dores zação de interesses divergentes fica em evidência ou prazeres. 27 N° 79 princípio de uma identificação artificial de interes. de modo pública: “Foi demonstrada que a felicidade do in- que melhor seria dizermos “sufrágio ampliado”) divíduo [.VOL. na verdade. Prevalecen. uma deliberada justaposição – de comunidade por si mesma é incapaz de exercer forma tão harmônica quanto possível – de partes tais poderes. na interferência de mecanismos permitiu seu domínio. pensas. (Halévy. 1972. 1948. nítido em suas considerações acerca da legislação 12027_RBCS79_AF3b. exceto a própria mente conformado. orientando seus projetos de reforma individuais. A pedagogia (Mill. também o indivíduo. exaustivo e sistemático levantamento e classificação ção destes por aqueles. é passível de manipulação à ação egoísta e direcionando o comportamento uma vez que se obtenha o conhecimento acerca de individual de acordo com a utilidade pública. entre. utilitária. Mill propõe um ajustamento ar. tanto especulativas como quanto “ciências objetivas do comportamento” práticas. a conclusão é Na definição das relações entre o Estado e os óbvia: a própria comunidade deve controlar indivíduos oferecida pelos utilitaristas pode-se en- esses indivíduos. Com Bentham. e deve confiá-los a um indivíduo independentes. isto é. [pode] bases filosóficas. um “Estado artífice” em sentido duplo: em obtido. para a construção conhecimento científico acerca do mundo natural de bens coletivos. pp. 47). 24). p. 1978. Porque não há qualquer indivíduo. e o é como consequência necessária de suas supo- tanto.indd 178 7/2/12 4:36 PM . A este indivíduo.. gislação penal. autônomas. essencialmente – em matéria moral. Bentham oferece um nados como a única forma de prevenir a explora. é fundamentalmente “didática e autoritária” (Lively e Rees. en- externos: é a legislação que atua criando obstáculos quanto material bruto. tham. E se tal traço é especialmente ao debruçar-se sobre o tema da le. ao pensamen. artificial- ou combinação de indivíduos. partem dos mesmos princípios talvez o sistema de representação.. 73). 1978. en- todas as dificuldades. aplicar um regulado esquema de sanções e recom- Na obra de J. a solução de e atuam de acordo com os mesmos métodos. As mais contundentes afirmações são. tal temática da harmoni. sições quanto à natureza humana. como ente fundamental. ser obrigado a moldar seu comportamento” (Ben- tificial entre os interesses de governantes e gover. p. o único critério em conformidade com o qual cada do a noção de natureza humana presente em suas indivíduo. Tal qual o o argumento de Mill se apoia. O Estado que o utilitarismo prescreve é. Assim. É nesse sentido que moral e legislação são “uma e a mesma coisa” A grande descoberta dos tempos modernos será na lógica utilitária. até onde depende do legislador. 178 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS .. p. que não teria interesse no mau sociedade que é também essencialmente um ar- governo se tivesse poder para tal. portanto. aquelas formuladas pelo próprio Bentham. 27). Mill. suas propriedades e propensões. Seria somente através de dos diferentes tipos de ofensas criminais e das ade- um formato institucional preciso – a democracia quadas punições e estabelece a figura do legislador representativa. pois do contrário eles segui. 15-17). e porque a ranjo artificial. trole estabelecido por revogabilidade dos manda. a arte da política ses aquele que se aplicaria. por- tos – que o imperativo da utilidade poderia ser tanto. ou combinação de indivíduos. Diretamente derivado da constituição matéria político-institucional tanto quanto – e mental autocentrada que atribui aos indivíduos. tão perceber o modo como elementos descritivos da rão seus interesses e produzirão mau governo teoria adquirem sua força normativa. consiste precisamente em atuar sobre os interesses to utilitário. que é seu prazer e sua segurança. homem é seu ponto de partida: cabe ao legislador 1972. A base cognitiva do irreversibilidade do conflito de interesses (Halévy. de modo a dirigir o comportamento na defesa da democracia e do sufrágio “universal” individual segundo o fim de promoção da utilidade (devidamente qualificado.. em sentido amplo.]. com extensão do sufrágio e con.

aptos ao julga- 12027_RBCS79_AF3b. se com- Curiosamente. como também permanece for- duo depende da expectativa de que aquilo que temente vinculada ao tema da propriedade. tema da segurança. É apenas como instrumento ade- seja porque a instabilidade impede que o sujeito quado à produção de maiores saldos de sua uni- estabeleça um projeto seguro de obtenção da fe. da expec- ma literalmente que “é em nome da propriedade tativa da posse. tante notar que a liberdade de que aqui falam os te em uma derivação dos pressupostos utilitários utilitaristas não só é. ção de suas propensões naturais. O sentido preciso no qual a de desapontamento que acompanha tal frustra.46-48). da tensão primordial que se noção de segurança. p. A frustração por suas qualidades intrínsecas. pois. pensamento utilitário parece ser. 46). postas. aque- portanto. O teor democratizante das através de um processo adequado de racionaliza- proposições utilitaristas aponta a presença. a questão não parece esgotar-se no cipalmente. aquela que dico- tos. lógica utilitária. Mas é impor- alheio (Idem. mas precisamente a igualdade em termos de James Mill quanto ao papel do governo na con. que levaria os indivíduos à repartida. De um lado. O argumento. 57. 56). ainda que interligados. As funções em seu modelo antropológico que determina sua de governo são. te distribuída pelo corpo social. natureza egoísta e instrumentalizadora pressuposta e não redistribuí-la (Idem. O primeiro estabelece como preferível o cenário de uma maior aspecto tem como base as noções de insuficiência soma total de felicidade. estabelece que a lei deve manter que o governo existe” (1978. pois. A propriedade é útil. dade de medida que a democracia pode ser eti- licidade. de propriedade. igual aparato cognitivo dos indivíduos e. como consequência lógica do pre- tência e a integridade individual e coletiva. política o tema que orienta as reflexões de Ben- É precisamente o que encontramos nas conclusões tham. dá suporte à interpretação que coloca tentativa de usurpação dos frutos do trabalho a igualdade em posição secundária. O de aparece no pensamento utilitário associado à que dizer. o que deter. UTILITARISMO E MORALIDADE 179 penal. igualdade constitui um elemento fundamental ao ção (Halévy. o regime democrático como moralmente superior. de modo que a segurança aparece. seria estranho à dessa expectativa redunda em perda de utilidade. à igual capacidade de se tornarem. é dição de garantidor da proteção de cada indivíduo conservador em sua essência: o princípio anterior- contra a usurpação de seus bens: quando Mill afir. àquelas primeiras considera. hierarquicamente dis- concepção peculiar da política. pp. De fato. não um fim em si. nesse sentido. em se supor. a relação que o utilitarismo estabelece do aparato teórico utilitarista. o mesmo se pode afirmar acerca da legislação de um componente igualitário – cabe questionar. parada à igualdade. é a a distribuição da propriedade tal qual está dada. 1972. ainda que desigualmen- de recursos disponíveis na natureza. seja em virtude do próprio sentimento camente sancionada. Halévy esclarece: não é a igualdade ções acerca da constituição psíquica do indivíduo. para assim pau. o tema do direito à proprieda. impõe ao pensamento moderno. mas homogeneamente egoísta do homem. por sua vez. ele julga possuir no presente permaneça sob sua O mesmo é válido para a democracia. le sentido estrito de igual capacidade de perseguir ca como atribuição do governo: está delineado o seus interesses particulares. viamente discutido. mas em dois sentidos distin. um meio acerca da constituição mental dos indivíduos e para a obtenção e a maximização da felicidade. De forma consistente em distintos aspectos portanto. p. legislação civil. mente mencionado da previsibilidade. portanto. civil. tar racionalmente seu curso de ação. as concepções po.indd 179 7/2/12 4:36 PM . a uma situação mina a necessidade do trabalho. O segundo aspecto consis. entre segurança e igualdade como atribuições da líticas ligam-se. de ou. um viés liberal. ao modelo utilitário do Estado-garantia. que a resposta utilitária tenha tro. prin- Contudo. em posição privilegiada. razão pela qual sua proteção se colo. 4 Refere-se. e da disposição de menor felicidade total. e da operação das associações de ideias: o indiví. nota 3). portanto. trata-se da “segurança cognitiva” que a pro. trata-se tomiza os termos igualdade e liberdade? Há razão da propriedade como meio que garante a subsis. em sentido restrito. ainda. Afirmar posse em um momento futuro. p. a máxima utilitária que teção da posse confere aos sujeitos.

em relação ao radicalismo de seus antecessores é do. o desejo de cesso de retroalimentação: uma concepção peculiar estar em união com as demais criaturas” (Stuart acerca da natureza humana serve de fundamento à Mill. como eu mesmo acredito. ral e essencial a ser atendido. Subjacente são iguais enquanto maximizadores em potencial. no interior do utilitarismo. grau. a própria de seu herdeiro intelectual que tal noção se torna noção de representação adquire o significado de mais nítida.] a faculdade moral. O bem alheio passa a ser algo natu- dobramentos de uma mesma ciência da cognição. interesses é sofisticada por Stuart Mill. 1971. 508) sugere. as na consagração do indivíduo movido pelo interes.VOL. Em primeiro lugar. incutir-lhes que a pluralidade de interesses individuais deixa parâmetros para seus comportamentos. modelado. passando tivos. no qual os princípios parecem passar por um pro. tos morais não são inatos. dando origem àquele dos (“uma cabeça. pessoas tornam-se incapazes de conceber como se o elemento que perpassa as obras de seus autores possível um estado de total alheamento aos e que se erige em fundamento tanto para sua teoria interesses dos outros [. portanto. na obra cionais de tais pressupostos: de um lado. que não sejam naturais. pp. tos são esclarecidos quanto ao fato de seus interes- voltados à utilidade pública. 1971. combinam-se no utilitarismo clás. sutis mas fundamentais metamorfoses se operam resses individuais. a considerar a influência de sentimentos tais como Assim.. conferindo-lhe sua feição peculiar. Essa descontinuidade No entanto. isso não quer dizer p.. consciente de e Legislation não se distinguem entre si mais do si como aquele que certamente se importa com que analiticamente. que tão somente recepciona no espaço público mada por Bentham e Mill como configuradora dos o embate entre estes centros de vontades competi. a compreensão de que o que se insinua outra das condições físicas de nossa existência por detrás da aparente amoralidade utilitária seja (Stuart Mill. aos argumentos de seus primeiros sistematizado- Não é difícil vislumbrar as consequências institu. sua Razão supera os juízos parciais dos indiví. de modo a de constituir um problema à medida que os sujei- torná-los socialmente ajustados – melhor diríamos. senso de dever. o Estado. 34-35). Assim. [. como que instintivamente. Moral utilitária: ideais de perfeição […] se.. autônomos uns em relação aos outros. no entanto. Morals -se. 31). ra. o que observamos no pensamento uti. p. sobre o pensamento liberal moderno. a fórmula dor/prazer to- tra. independentemente considera. e é suscetível ção do homem e das relações sociais e ideal norma. É também com John Stuart Mill que igual importância conferida a cada um dos inte. que será o formato mais influente dessa tradição não obstante sua atuação pedagógica. tão determinantes quanto nos- vez. apresenta-se como arena valorativamente neu. ses particulares estarem.]. Halévy (1972. é um desenvol- método analítico-descritivo e doutrina prática. o Estado é cognitivamente privilegia. como qualquer De fato. Como se não parte de nossa natureza. de brotar espontaneamente. “sentimentos de sociabilidade. p. 180 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS . ao vimento natural dela. 34) são tomados como princípios definição das instituições do Estado. sos impulsos antissociais. é. sico. 12027_RBCS79_AF3b. desejo de boa reputação litário é um projeto de engenharia constitucional e mesmo “filantropia” (Lively e Rees.indd 180 7/2/12 4:36 PM . […] em certo mesmo tempo princípio explicativo da constitui. o que permite a Stuart Mill elaborar a ideia de duos isolados e a ele cabe.. simpatia. já que ambas são distintos des. estas. todos traída do cálculo é ponto fundamental. res Bentham e James Mill. um voto”). reiteram a antropologia de seus pressupostos. os sentimen- Racionalismo e individualismo. na verdade. de outro. por sua de nossa natureza. O indivíduo torna- da moral como para sua teoria da política. Quando isso ocorre. 27 N° 79 mento e à aplicação dos meios mais efetivos para a sugestão de que a virtude pode – e deve – ser ex- obtenção de seus fins: isto significa dizer. encontra-se de desenvolvimento. os outros. é capaz. entrelaçados e vinculados aos interesses da humanidade como um todo. de ser cultivada até atingir graus mais elevados tivo que orienta a atividade legislativa. 1978.

cation ideal) só poderia ser compreendido como complementação de outro. tirania esta cia e da temperança. a única oportunidade de superação dessa deficiên- mas por certo “interesse bem compreendido”. cia cognitiva reside. imediatos. o destaque havia recaído no caráter modela- de auto-aperfeiçoamento. a ditadura da opinião. Seu projeto questão tão fundamental quanto a proteção con. em dade de trocar o erro pela verdade. produzida pela sua colisão dividuais (ao qual se refere como strong identifi. UTILITARISMO E MORALIDADE 181 Assim. 21). assim. mesmo na perseguição de fins parti- seria uma manifestação de um despotismo mais culares. Se. com o erro (Stuart Mill. 1956. na tolerância à revogavelmente vinculado ao interesse coletivo. Se a nidade (Lively e Rees. tais conceitos designan. à qual importa resistir. Tal ideal não é completa- poderia se tornar uma ameaça ao pleno exercício mente estranho a Bentham e James Mill. a opressão política os indivíduos. presente em On Liberty. pluralidade de pontos de vista: somente através de nessa nova formulação. cation. ainda. aqueles que dissentem da opi- ainda que a longo prazo. estaria em tensão com aquele ideal vimos. em um indivíduo capaz de agir parte dos sujeitos particulares. da inteligên- conter uma ameaça tirânica intrínseca. Assinala. mas também como parâmetro para a ação indivi. foram privados da oportuni- No entanto. 35). sugere te. por sua vez. Não obstante. viva da verdade. Por benevolência entendia-se a exercida coletivamente pela sociedade sobre o in. por do diferentes “ideais de perfeição” presentes em outro. posteriormente. aquela que em direção a um determinado “senso de unidade”.tanto a posteridade como a posição – o fato de a felicidade individual coincidir. Em James Mill. p. A solução democrático. trabalho referente ao alcance das formulações de foi perdido um bem de valor quase equivalen- Stuart Mill sobre a esfera da personalidade. a razão individual dade poderia ser retoricamente produzida. dor da legislação. os sujeitos –. ir. geração atual. e do qual poderiam ser derivados princípios lificação da maioria através de uma perspectiva de força persuasiva e eficácia equivalentes a uma profundamente relativista e falibilista quanto às moral religiosa (Idem. a ver- parecem ter sido amortecidas. se errônea. por um lado. apoiados pela razão de que que tal noção de uma “religião da humanidade”. podem se mover em direção a um ideal desenvolvida em Utilitarism – na medida em que de autoaperfeiçoamento. p. exige a garan- de self-development ideal. mas sua da autonomia. seria o fator que 12027_RBCS79_AF3b. mantém seu papel fundamental: é a noção de indi- víduos dotados de capacidade racional que permite […] o mal específico em silenciar a expressão afirmar que a orientação de tais sujeitos depende de uma opinião é que isso significa roubar o unicamente da demonstração lógica de uma pro. com a felicidade da comu. 1978. consciência da relação de mútua dependência entre divíduo isolado. derna. chamado pelo autor Se tal processo. que orientado não por seus interesses rasos. expresso em Essay on edu- tra um governo despótico. a O estabelecimento do limite da autoridade a ênfase é colocada sobre o papel da educação como ser legitimamente exercida pela sociedade sobre processo destinado a capacitar os homens à admi- os indivíduos é considerado por Stuart Mill uma nistração racional de suas inclinações. à construção de um argumento de desqua- dual. tia das liberdades de pensamento e expressão. lhe parece a tendência crescente da sociedade mo- que poderia ser cultivado não só como sentimento. gênero humano . Stuart Mill procede. Em Bentham.indd 181 7/2/12 4:36 PM . agindo de maneira coercitiva sobre elaboração por Stuart Mill é original. precisamente. Daniel Brudney (2008). a percepção mais clara e a impressão mais que este ideal de harmonização de interesses in. a inteligência. as inclinações dissociativas um processo de livre debate. pressupõe indivíduos conscientemente de- Stuart Mill. Stuart Mill desenvolve seu argumento amplo e agudo. centrava-se na proposta de desenvolver nos -majoritária elaborada por James Mill lhe parece indivíduos os atributos da benevolência. de reforma educacional. notando próprios: indivíduos que. O ideal sugerido possibilidades de acesso à realidade objetiva por consiste. opinião é correta. Brudney explora a tensão existente dicados a um projeto de tornarem-se artífices de si entre esses dois imperativos distintos. são dotados. p. nião ainda mais do que os que a afirmam. de controvérsia. 48). portanto.

.. [. a ser cia conferida ao elemento da racionalidade. mas deve ser a movimento não exatamente contínuo. p.]. mas volta-se. cepções são de difícil conciliação com linhas argu- mem como ser progressivo” (Stuart Mill. ainda que Stuart Mill se aproprie de elementos ro- zação” da utilidade em Stuart Mill. portanto. mas cultivando-o e quados à obtenção de sua felicidade. de fato. p. em um cernente a todas as questões éticas.VOL. em termos eminentemente românti. uma postura instrumental em relação a suas cos. estimulando-o dentro dos limites impostos pe- por fim. É o ponto em que se abandona a fórmula da tenham como base uma natureza humana cujos soma das felicidades individuais tal qual afirmada caracteres são considerados essencialmente fixos. lidade de situações e experiências como condição e que será sistematizada e radicalizada no pensa- para a realização do autoaperfeiçoamento. portanto. os quais contrastam com o componente von Humboldt surge em On Liberty:5 a referência tipicamente utilitário do cálculo. para que 12027_RBCS79_AF3b. 47). 1956. A Bildung. romântica de Bildung mostre-se atrativa ao pen- perfeiçoamento. desejos. inspirada pela mânticos de uma forma sem precedentes no pen- noção de Bildung... trata-se de efetivo autoa. capaz de adotar Mill conclui. sentimen- dentalmente. cujo ideal de autocultivo supõe samento liberal.. p. estaria relacionada com a capacidade de los direitos e interesses dos outros. ao racionalismo iluminista. acreditamos que. mas mais utilidade considerada em seu sentido mais amplo. a temperança. to da espécie humana ao longo da história.] o ideal crescente de um agente humano sando tornar-se um todo completo e consistente” capaz de remodelar-se por meio da ação me- (Humboldt.indd 182 7/2/12 4:36 PM . de cada indivíduo.] é o mais alto e mais harmonioso desenvolvimento de seus poderes vi. pela importân- o progresso individual como ideal máximo. Assim. inclinações. seja em Não deixa de ser surpreendente que a ideia Bentham ou em Mill. imutáveis. 1956. à humanidade utilidade. 14). mais precisos se pensarmos seu indivíduo em apro- Juntamente com a preponderância da subjetividade ximação ao conceito de self pontual tal qual ela- em relação ao mundo exterior. modificando-o em seu seus pressupostos não poderia se dar.. qual “o fim do homem [. 1956. autoaperfeiçoamento se aplica ao desenvolvimen- te: “Considero a utilidade a última instância con. afirma-se também a borado por Charles Taylor. não se mantém restrita advém da ampliação e sofisticação do conceito de ao indivíduo. espontaneidade. 182 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS . tais como sensualidade. de forma a empregar os meios ade. interior. ao autor alemão aponta uma insuspeita “romanti. A articulação entre mente sobre o indivíduo. existe de individual em si. Desse modo. 1978. tão estreitamente vinculado prescrição de mecanismos que atuarão exterior. Não é aci. uma vez que o que se observa é a samento utilitário. mento de Locke – segundo a qual a racionalidade apoiando-se na assertiva de Humboldt segundo a individual incorpora a dimensão do autodomínio. sujeito a longo prazo (Lively e Rees. tal qual presen- sua personalidade. que os seres controle dos apetites e com a habilidade de contê. É nesse sentido que a noção de quantitativo e passa a ser definido qualitativamen. o qual deixa de definir-se por um critério como um todo. determinada noção – já enunciada em Descartes. a exemplo da tradição utilitária. em favor da progressão. 76). por seus predecessores. É evidente que tais con- fundamentada nos interesses permanentes do ho. concepção de uma obra de arte: hábitos de pensamento e sentimento. tendências. 27 N° 79 qualificaria os sujeitos a relacionar corretamente as Não é esgotando na uniformidade tudo o que cadeias causais. [. em nenhum dos casos. No entanto. Taylor refere-se a uma necessidade de exposição do sujeito a uma plura. que a figura de Wilhelm talismo. Ainda. 69). apud Stuart Mill. somos atingido com o desenvolvimento da interioridade. A especificidade de Stuart Mill te na obra de Humboldt. especificamente dialético. equiparando a construção da individualidade à propriedades. Stuart tódica e disciplinada. a noção incorpora elementos autodirecionada. humanos se tornam um nobre e belo objeto de -los caso estivessem em conflito com os interesses do contemplação (Stuart Mill. p. mentativas que. mas de modo que ele permanece sujeito sem algum nível de tensão entre princípios por passivo e não ativo no processo de remodelação de vezes incompatíveis.

estra- nhamente confundida com a primeira. A liberdade. e o componente igualitário que 12027_RBCS79_AF3b. pois. e pelos imperativos do teriam ascendência sobre as demais classes e. sas. vista do indivíduo tanto quanto serão no campo O utilitarismo. transformados e aplicados de maioria da representação de todos: acordo com um fim específico. mocracia da verdadeira – isto é. idade e propriedade. UTILITARISMO E MORALIDADE 183 esses possam ser elaborados.indd 183 7/2/12 4:36 PM . pp. o middle rank já seria considerado portador de uma consciência O componente instrumental dessa raciona. Assim. Em James Mill. o ponto é radi- rente à natureza humana seja plenamente superado. outro lado. 48). é porque suas consciências são fracas clusivamente representada. realiza-se constitucional que garantisse sua preponderância mediante o que se chama “desprendimento”. as quais os nalidade radical. ambas enfatizando as relações entre as partes e o É a valorização positiva da multiplicidade de todo na formação de uma unidade coerente. encerra em si a ideia de suporta a prescrição de um modelo proporcional uma construção deliberada. permanecem fracas e inativas. é um Dessa perspectiva. Duas ideias muito diferentes são confundidas [. fariam mais sábios e virtuosos. 72-73). portanto. governo de privilégio. Aquela é sinônimo (Stuart Mill. A me. pp. a política através da qualificação do sufrágio segun- objetificação do sujeito para si próprio. que certos elementos sejam racional. 1997. A ideia pura da quando não equilibrados de forma apropriada.. Em Stuart Mill. calizado. possui seus aristoi: não político: o deslocamento de um foco na maioria obstante a condição humana básica sugerida em para um foco nas minorias indica a passagem de seus pressupostos. aquele que é mais um ideal especifico de personalidade. que é a única que possui voz no Estado obra de arte. há o fato de ser identificado precisa- Cara ao utilitarismo. eliminando alguns um ideal democrático mais amplo para um ideal e fortalecendo outros. estreito de uma “democracia esclarecida” (Lively e ção desejada (Taylor. de acordo com sua definição. vimos. 1978. 102-103). esta. não é suposto. interesses e o princípio de sua igual dignidade que táfora estética. que deveriam com elas presentados. p. que salvaguarda as minorias. capazes de identificar seus interesses aos daquelas. o self pontual supõe uma racio. corrência de suas qualidades mentais. permanece tam. Não é concebida e até hoje colocada em prática é o porque seus desejos são fortes que os homens governo de todos por uma mera maioria. antes. Como nas do critérios de sexo. 93-95). por outro.] fortes impulsos somente são perigosos sob o nome “democracia”. 1958. igualmente re- cidas. ex- agem mal. é isto é. até chegar à especifica. o que servia de justificativa a um modelo lidade. Em de- premissas utilitárias. os estratos médios mo do sujeito. quando algumas inclinações são fortale. de representação. (Stuart Mill. superior. democracia. sendo autocontrole e da autorresponsabilidade. 210). tal qual enfatizado por Taylor. em seriam seus líderes e representantes naturais (Mill. Rees. o governo de todos por todos. é afirmada como condição preender a conformação dos sujeitos individuais a para a emergência do gênio. isto é. a ideia demonstra sua mente na minoria o traço de excelência mental produtividade tanto para explicar a dimensão das que a distingue da mediocridade coletiva das mas- prescrições político-institucionais como para com. Por bém em Stuart Mill a referência à noção de artifício. enquanto outras. em favor da maioria nu- preensível o uso que Stuart Mill faz da metáfora da mérica. 1978. indivíduo do que os outros. p. que resiste à Os desvios de Stuart Mill em relação aos câno. a analogia estética é comum aos autores românticos. momento algum.. marcada por um forte voluntaris. A democracia como geralmente coexistir. pp. 1956. Juntamente com a metáfora orgânica. de equidade de todos os cidadãos. entretanto. Sua preocupação é distinguir a falsa de- mas. torna-se inclusive mais com. por um lado. que o componente passional ine. conformidade e que constrói a si mesmo através nes do utilitarismo são significativos do ponto de do uso calculado de sua razão sobre seus apetites. a representação da mente selecionados. Como no pensamento utilitário.

Aqui. enquanto a organização po. na medida endosso utilitário a um determinado modelo de sis- em que qualificam aqueles indivíduos dignos ou tema representativo. parte da eticidade que político centrado na utilidade é aritmético. nota-se. ponto de vista dos limites precisos aos quais pode tetor da vida íntima. no que se refere à vida pública (Ha. a forma como tais esferas são re- lítica permanece essencialmente como espaço de lacionadas. que estabelece que mais ra. Considerações finais vo de automodelação de Stuart Mill não prescinde do papel normalizador do Estado: o próprio ideal O que significa dizer que o individualismo de autocultivo é. isolando expressivo da individualidade ao espaço circuns. mas a ela se acrescenta a 12027_RBCS79_AF3b. morais e do voto. pois. do Estado.indd 184 7/2/12 4:36 PM . dele se utili- artificial de interesses. por meio das instituições zando como meio para a obtenção de fins próprios. os quais são. mos a importância conferida ao emprego da legis- dade moderna. pretender ou não interferir. to já presente em Benjamin Constant (1985). entretanto. sofre forte influên- Stuart Mill precisamente em seu elemento apolí. 184 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS . Mesmo o romantismo penetra a obra de políticos. regulação mútua artificialmente estabelecida. é preciso notar que mesmo o imperati. cia da vertente filosófica francesa e opera também tico. o utilitarismo desse aspecto teórico que vemos desvelar-se a ilu- define a cidadania moderna como posse de certos sória amoralidade utilitária. É precisamente pela apreciação Da mesma forma que Constant. Do mesmo modo. não obstante as divergentes. Stuart Mill aproxima-se de argumen. A lei. própria ao pensamento liberal.VOL. do somatório dos totais individuais. Mas o corolário fundamental indignos de reconhecimento político e sancionam de tais pressupostos encontra-se no fato de que a a forma de participação política adequada. o que leva ao confinamento do componente uma decomposição da natureza humana. 1972). É preciso crito da vida privada. distinta da liberdade dos antigos. considerada do direitos individuais básicos e o Estado como pro. às formulações de Bentham e James Mill. de modo à obtenção de um “ponto óti- divergências pontuais entre autores. to lógico. ao final. ao momento excepcional mento utilitário entre princípios cognitivos. traduzir-se-á no formatos constitucionais propostos. sível observar que interessa ao utilitarismo apenas tível em elementos diversos do edifício teórico o cômputo final da categoria felicidade. A noção de irrevogabilidade da dimen- enfrentamento entre indivíduos atomizados. fiança em uma harmonização espontânea de in. vimos. qualquer veto à ação agentes particulares e a afirmação da identificação arbitrária de um sujeito sobre outro. notar. matematização inerente ao utilitarismo só permi- Ao situar o locus da liberdade na consciência tirá pensar o bem público a partir da fórmula da individual. O utilitarismo. surge como consciência daquilo que é socialmente benéfico – correlato à noção de conflito inescapável. na qual a participação fica restri. pos. 27 N° 79 se pode daí derivar. mais racionalidade significa mais virtude. legítimos. soma. a vinculação interna presente no pensa- ta ao instante do pleito. de fato. foi pos- A cisão entre público e privado mostra-se percep. são apetitiva é sustentada. lação penal e civil. indistinguíveis entre si. igualmente viés elitista latente. senão matematicamente. derivado utilitário. Ainda no âmbito dos desdobramentos insti- tucionais. Não há. as dimensões da razão e da sensibilidade. e jamais da síntese. no Em consonância com tal preocupação em uma qual é afirmado o modelo do governo representa. nota- tivo como forma específica de realização da liber. A afirmação da igual legitimidade dos múlti- tacitamente sua moralidade específica através dos plos interesses particulares. as considerações ajuste mútuo que permita a harmonização dos fins quanto às formas de governo. começando pelo dualismo entre a con. senão uma preocupação premente em propiciar um lévy. sem este inscreve nos sujeitos individuais mediante a ser por isso amoral? Em especial no que se refere precisa delimitação de sua zona de intervenção. revela o encadeamen- treita da política. Deriva-se daí uma noção es. mais tro. manifestam mo”. teresses no âmbito das relações econômicas entre equivalentes. o utilitarismo manifesta um suidores de interesses irreconciliáveis. a figura do Estado neu- cionalidade equivale a mais esclarecimento. vimos.

Tal é a perso. ver Hirschman (2002). portanto. A aplicação estratégica de re. “Bentham. limites da ação do Estado. a Marx. Bentham refere- Se nos primeiros utilitários é a legislação que -se precisamente àquilo que dá início a uma série de operações – no caso. su. isto é. o pensamento utilitário conclui pela uma dimensão racional que sobre ele atua. É um indistinção entre ser e dever ser. E Stuart Mill. foi membro do Parlamento. UTILITARISMO E MORALIDADE 185 ideia de que o indivíduo. fornece elemen- suas pulsões naturais. (1972). observamos ganhar questões políticas de seu tempo. Prescreve-se o empenho do em On Liberty. tal qual proposta por Bentham. romântica – a ser BIBLIOGRAFIA produzida pelo próprio sujeito e por ele somente. 4 Ver o prefácio de Plamenatz ao trabalho de Halévy a razão individual é afirmada de forma mais aguda. por si só. sendo primariamente um de que o utilitarismo deva ser considerado amoral. sua influência não é meramente pontual ou acidental. unidades isoladas. Filosofia política moderna: de Hobbes fato de ser voltado ao cálculo e à instrumentalida. A de fato.). No entanto. compensas e punições tinha como objetivo a remo. isolado das pressões sociais –. estas eram seu ponto de reivindicar legitimidade. que a preocupação utili. além de funcionário da canismos externos. A ideia de me. que opera sobre as subjetividades –. do controle racional sobre elas. melhor diría- equívoco pensar. in A. o utilitaris- damentalmente. nesse sentido. fun. tal. competidoras. não as condições para sua promoção. mente aquela capaz de objetificar e instrumentali.indd 185 7/2/12 4:36 PM . identificado seu mo- componente volitivo de nossa constituição soma-se dus operandi. seu contato sensorial com determinado objeto. A aplicação dos mecanismos le. postula que devemos ser cada vez mais aquilo tária com a harmonização dos interesses conflitivos que já somos. razão e interesse. da previsibilidade das reações individuais. que. ser passional. mas pela introdução artificial tos que auxiliam a compreensão de seus pressupostos. que não é pelo ron (ed. Bo- Podemos perceber. seu princípio ficientes para a compreensão da conduta humana é organizador dos modos de construção de si e das o que se expressa no papel central que os utilitários relações entre os indivíduos e entre estes e o Estado. ou. em retiro da dimensão pública. uma combina- ção harmônica – e. desse modo. independen- pretendesse levar os indivíduos à superação plena tes. por meio da elaboração breve passagem do trabalho de Humboldt acerca dos calculada de suas tendências e desejos. percebe-se que nalidade genial enaltecida por Stuart Mill. conferem à categoria do interesse. e o único para o qual pode pretender sensíveis. Mill estiveram diretamente envolvidos em com Stuart Mill. reconhecer tais pressupostos. Cícero (2006). no cerne do argumento desenvolvi- zar as próprias inclinações. não obstante não se dirija delação das personalidades não pela supressão de especificamente ao utilitarismo clássico. mos. das Índias Orientais. supondo que ao Dissecada a natureza humana. é este seu papel tinha como objetivo a eliminação das tendências primordial. e é remetida ao próprio sujeito a responsabilidade 5 Stuart Mill cita de forma literal tão somente uma de atuar como artífice de si. 12027_RBCS79_AF3b. precisa. 3 Bentham e J. Está. acolhê-los e garantir gais punitivos. portanto. Clacso/USP. por sua vez. é também dotado de racionalidade. partida: o sistema de sansões utilitário sustentava-se sobre a concepção do sujeito cognitivamente deter- minado pelas sensações de dor e prazer e dependia. voltados a modificar o sujeito Cia. Notas para sua operacionalidade. na tarefa de confecção de uma individualidade – um self – que é um todo coerente. ARAÚJO. pelo contrário. mo e a filosofia política moderna”. seu critério de reconhecimento. em sua interioridade. calismo inglês. na verdade. ma. a utilidade constitui sua moralidade mes- percepção de que os instintos não são. Buenos Aires/São Paulo. perde centralidade na teoria. as operações em questão são as se encarrega de criar obstáculos que dirigem o in- associações mentais realizadas pelo sujeito quando de teresse individual – e é nitidamente a razão esta. Às instituições do Estado cabe de suas inclinações. 1 A propósito da relação entre paixões. o que quer dizer. associando-se ao radi- destaque a noção de autodomínio. 2 Ao empregar o termo “princípio”.

12027_RBCS79_AF3b. Clarendon Press. Indianapolis/ Nova York. Jack & REES. Rees (eds. (2004). History of Political Thou- ght. in R. CONSTANT. México. The growth of philosophic radicalism. S. Clarendon Press. TAYLOR. Rio de Janeiro. Bobbs-Merrill. (1972). Londres. John. (1978). Shields. Bobbs-Merrill. “Grand ideals: Mill’s two perfectionisms”. On Liberty. V. “Essay on government”. (1985). HALÉVY. Oxford. BRUDNEY. (2002). The principles of morals and legisla- tion. (1958). in . (1971). Hafner Press. 27 N° 79 BENTHAM. Liberal Arts Press/ Bobbs-Merrill. Faber and Faber. Fondo de Cultura Económica. Ernst. Cultura na prática. C.indd 186 7/2/12 4:36 PM . Utilitarian logic and politics. Marshal. Filosofia política. Rio de Janeiro. John. Loyola. . in Denis Rosenfield (org. (1950). in C. Nova York. (1997).VOL.). Lively e J. . SAHLINS. Filosofía de la Ilustraci- ón. São Paulo. (1956). “Da liberdade dos antigos comparada à dos modernos”. MILL. (1948). Utilitarism. Considerations on representati- ve government. Elie. Daniel. As fontes do self: a construção da identidade moderna. ou a antropologia nativa da cosmologia oci- dental”. V.). James. in . Oxford. “An introduction to the principles of morals and legislation”. Indianapolis. (1978). Editora da UFRJ.). Benjamin. L&PM. 186 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS . Albert O. Gorovitz. Nova York. Shields (ed. 29 (3): 485-515. HIRSCHMAN. STUART MILL. “A tristeza da doçura. Re- cord. Charles. (2008). Utilitarian logic and politics. Jeremy. LIVELY. CASSIRER. As paixões e os interesses: argumentos políticos a favor do capi- talismo antes de seu triunfo. Ed. São Paulo. Ed.

Analisando ies. busca-se Stuart Mill. of a specific ideal of personality. a specific model of social and political or. it intends to put in evidence Mill. L’article vise à identifier. ganization are subjected to investigation. postulada pelos autores. the often overlooked moral dimension of la dimension morale souvent négligée de ciada dimensão moral do pensamento the utilitarian thought and its corollar. l’on cherche à mettre en lumière evidenciar a frequentemente negligen. Pensée politique moderne. as well as the postulation l’État. Moralité. la pensée utilitariste et ses corollaires. En utilitário e seus corolários.VOL. Through the analysis of the peculiar analysant la définition particulière de la a definição acerca da natureza humana definition of human nature postulated by nature humaine postulée par les auteurs. l’article propose une étude des dévelop- seus desdobramentos normativos e insti. fique d’organisation sociale et politique. assim como a and the State. 27 N° 79 UTILITARISMO E MORALIDADE: UTILITARIANISM AND UTILITARISME ET MORALITÉ: CONSIDERAÇÕES SOBRE O MORALITY: CONSIDERATIONS CONSIDÉRATIONS SUR INDIVÍDUO E O ESTADO ON THE INDIVIDUAL AND THE L’INDIVIDU ET L’ÉTAT STATE Lara Cruz Correa Lara Cruz Correa Lara Cruz Correa Palavras-chave: Utilitarismo. Mots-clés: Utilitarisme. In. Morality. À partir de sonalidade. une définition parti- finição particular das relações entre os of the relations between the individuals culière des relations entre les individus et indivíduos e o Estado. Este artigo pretende identificar. Individualismo. Keywords: Utilitarianism. Indivi- de. Modern political thought.indd 234 11/07/12 14:53 . Moralida. James Mill and John Bentham. Based spécifique de personnalité. Partindo de considerações on considerations about the works of considérations sur les œuvres de Jeremy acerca de trabalhos de Jeremy Bentham. 12027_RBCS79_AF4. Jeremy Bentham. cal utilitarianism a particular definition litarisme classique. investigam-se those authors. dans la prescription d’un modèle spéci- pecífico de organização social e política. tional developments in the prescription of pements normatifs et institutionnels tucionais na prescrição de um modelo es. moderno. uma de. 234 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS . dualisme. Pensamento político dividualism. This paper aims to identify in classi. au sein de l’uti- terior do utilitarismo clássico. no in. its normative and institu. ainsi que la postulation d’un idéal postulação de um ideal específico de per. James Mill et John Stuart James Mill e John Stuart Mill.