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EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO, 1998-2011

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APOIO DE LONGO PRAZO
PARA O PROJETO “EDUCAÇÃO ESCOLAR
INDÍGENA DO RIO NEGRO”

APOIO INSTITUCIONAL

APOIOS ESPECÍFICOS
CAFOD - Agência Católica para o Desenvolvimento.
Embaixada Britânica
Embaixada da Austrália
Embaixada Real da Noruega
Fapeam – Fundação de Apoio à Pesquisa no Amazonas
Imprensa Oficial
Instituto Arapyaú
MEC Ministério da Educação
Natura
PDPI Projetos Demonstrativos de Povos Indígenas
Projeto Criança Esperança / UNESCO – Organização das
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
RCA Rede de Cooperação Alternativa
Unicef - Fundo das Nações Unidas para a Infância

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EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA
DO RIO NEGRO, 1998-2011
Relatos de experiências e lições aprendidas

O rganização F lora D ias C abalzar

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Educação Escolar Indígena do Rio Negro, 1998-2011
2012
Copyright: FOIRN/ISA

Organização: Flora Dias Cabalzar

Edição de imagens: Beto Ricardo
Pesquisa e tratamento de imagens: Claudio Tavares
Mapas: Renata Alves (Laboratório de Geoprocessamento do ISA)
Revisão de texto: Leila Maria Monteiro, Francis Miti Nishiyama
Revisão técnica: Flora Dias Cabalzar, Lucia Alberta Andrade de Oliveira, Aloisio Cabalzar
Índice remissivo: Ângela Galvão
Tradução português-espanhol e revisão espanhol: Ramiro Fernandez Unsain
Tradução inglês–português: Cândido Leite da Silva Dias, “Desafios para o futuro das escolas
em aldeias indígenas” de Eva Marion Johannessen

Projeto gráfico e capa: Sylvia Monteiro
Editoração e produção gráfica: Signorini Produção Gráfica

Agradecimentos: Abrahão Oliveira França, Maximiliano Correa Menezes, Erivaldo Almeida Cruz, Luiz Brazão dos
Santos, Irineu Laureano Rodrigues, Higino Pimentel Tenório, André Fernando, Domingos Borges Barreto;
Nelson Ortiz (Fundacion Gaia Amazonas); aos moradores das comunidades indígenas que criaram
as escolas representadas nesse livro

Impressão e acabamento: Ipsis
Tiragem: dois mil exemplares

Este livro inclui iniciativas transfronteriças de cooperação com organizações colombianas: Acaipi, Aatizot,

Apoio para essa publicação: Instituto Arapyaú

Apoio ao Projeto de Educação Indígena do Rio Negro FOIRN/ISA: RFN, OD
Apoio institucional PRN/ISA: FBGM, H3000, ADA

ISBN 978-85-85994-93-8
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Educação escolar indígena do Rio Negro : relatos de experiências e lições aprendidas
/ organização Flora Dias Cabalzar. -- São Paulo : Instituto Socioambiental ; São
Gabriel da Cachoeira, AM : Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro
- FOIRN, 2012.
Bibliografia
1. Educação - Brasil - História 2. Escolas indígenas - Amazônia 3. Rio Negro
(Amazônia) - Povos indígenas - Educação I. Cabalzar, Flora Dias.
12-06178 CDD-371.829980811
Índices para catálogo sistemático:
1. Brasil : Educação escolar indígena no Rio Negro : Amazônia 371.829980811
2. Brasil : Povos indígenas : Educação escolar no Rio Negro : Amazônia 371.829980811

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15 ANOS DE EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO RIO NEGRO

A educação escolar indígena foi uma luta travada por nós, povos indígenas no Brasil, desde meados
da década de 1980, para mostrar que temos nossos conhecimentos específicos, que precisam ser reco­
nhecidos e valorizados no ambiente da escola e na educação nacional. Na região do rio Negro, a discussão
sobre educação escolar indígena foi liderada pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro
(Foirn).
No final dos anos 1990, alguns povos estavam se mobilizando para a reestruturação de suas escolas,
com seus objetivos diferenciados. Com apoio financeiro da Rainforest Foundation da Noruega (RFN) e da
Campanha dos estudantes secundaristas noruegueses - Operação Um Dia de Trabalho (OD) - pudemos
pôr em prática algumas experiências de escolas piloto e o projeto Educação Escolar Indígena do Rio Negro.
Essas experiências começaram entre os Baniwa e os Tuyuka e se expandiram para outros povos e regiões,
tendo como princípio a valorização das línguas e culturas dos povos indígenas.
Até a segunda metade da década de 1990 nenhuma escola da rede municipal de ensino de São Gabriel
da Cachoeira estava reconhecida oficialmente através de um ato legal de criação. Com o passar do tempo,
alguns secretários municipais de Educação adotaram a educação escolar indígena como uma política do
município. A partir de então todas as escolas nas comunidades do interior, antes chamadas de escolinhas
rurais, foram reconhecidas como escolas indígenas diferenciadas, ainda sem o devido apoio financeiro
e pedagógico reivindicado pelo movimento indígena local, e sem o Estado assumir a educação escolar
indígena como uma política de governo mais definitiva. Acontecem “altos e baixos” acompanhando as
mudanças de gestores municipais, de quatro em quatro anos.
Vale lembrar que no início desta discussão na região, houve muita resistência tanto por parte das au-
toridades que estavam acostumadas com o sistema de ensino formal nacional, quanto entre os parentes
indígenas que ainda não entendiam a proposta e falavam que a educação escolar indígena seria um
retrocesso cultural.
Reconhecemos que as conquistas desse período se devem à luta do movimento indígena rionegrino
e à sensibilidade política de alguns gestores públicos. Essa experiência que deu certo no alto rio Negro
deveria se consolidar em São Gabriel e expandir para outros municípios do médio rio Negro, como Santa
Isabel do Rio Negro e Barcelos.

D iretoria da F oirn (2009-2012)
A brahão de O liveira F rança , B aré
M aximiliano M enezes , T ukano
L uiz B razão dos S antos , B aré
I rineu L aureano , B aniwa
E rivaldo A lmeida , W a ’ ykana

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APRESENTAÇÃO

Essa publicação traz um resumo da situação da educação escolar indígena no alto e médio rio Negro
entre 1998 e 2011. Estão incluídas aqui descrições dos processos por que passaram várias escolas indíge-
nas dessa região do noroeste da Amazônia brasileira e de como chegaram ao que são hoje, assim como
artigos assinados, depoimentos e entrevistas. São textos escritos por professores e lideranças indígenas e
assessores de algumas destas escolas, através de projetos executados em parceria.
O livro está dividido em três partes principais: a seção introdutória, que traz um histórico da educação esco-
lar, com informações sobre o Projeto de Educação Foirn/ISA (1998-2011), depoimentos de lideranças e textos
de assessores contextualizando o início desse projeto; uma segunda parte com muitas informações sobre as
escolas, organizada por regiões; e uma última parte temática – sobre políticas públicas e formação avançada.
Nesse período, o principal desafio das comunidades e organizações indígenas deixou de ser a repressão
imposta pelo sistema de escolarização dos missionários, e passou a ser a resistência das autoridades ofi-
ciais de educação – com raras exceções – em reconhecer e apoiar as escolas indígenas, conforme assegu-
rado na Constituição Federal e nas legislações referentes à educação escolar indígena.
Essa publicação tem um foco especial no Projeto de Educação Escolar Indígena do Rio Negro, desen-
volvido coordenadamente pelo ISA e Foirn, tendo como principais apoiadores organizações de cooperação
da Noruega (RFN, OD, Norad – ver siglário no final do livro). Esse projeto ajudou a compor a reforma da edu-
cação escolar na região, a partir do final dos anos 1990. Permitiu avançar a discussão sobre educação escolar
indígena em muitas comunidades e com os representantes dos poderes públicos.
O principal objetivo do Projeto de Educação Foirn/ISA foi apoiar a autonomia das comunidades e de
diferentes povos para desenvolverem seus próprios projetos de escola, sintonizados com sua visão de pre-
sente e futuro, com qualidade de vida e autoestima. Foi o caso das escolas dos Tuyuka do rio Tiquié e
Baniwa-Coripaco do rio Içana, dentre vários outros, que executaram projetos em caráter piloto e demons­
trativo nessa linha. Cada escola definiu, gradual e coletivamente, no desenvolvimento dessas experiências,
seu projeto político-pedagógico.
Podemos destacar algumas conquistas destas escolas – que devem ser vistas em seu contexto
histórico (ver Introdução):
• valorização dos conhecimentos indígenas nos currículos, o que significa uma reaproximação das crian-
ças e jovens aos velhos conhecedores indígenas marginalizados do processo escolar até então;
• fortalecimento das línguas indígenas, através da alfabetização das crianças em sua própria língua, definição e
adoção da escrita – que teve como desdobramento a publicação de uma extensa coleção de livros didáticos
e literatura em várias línguas indígenas – e uso dessas línguas como línguas de instrução em várias escolas;
• estímulo ao ensino via pesquisa, favorável à produção dos conhecimentos indígenas, em lugar de
disciplinas que, antes de tudo, reproduzem conhecimentos externos; essa metodologia permitiu de-
senvolver, nas escolas e para além delas, importantes pesquisas, com participação de pesquisadores
indígenas e de universidades;

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mas ainda é um desafio pensar em mercado de trabalho dentro das terras indíge- nas. Cria uma responsabilidade e envolvimento de alunos. A divisão de competências nas esferas governamentais – ensino fundamental como responsabilidade dos municípios. pois esses diversos sistemas de ensino não dialogam entre si. Este modelo de gestão governamental influencia negativamente as inovações criadas pelos povos indígenas. em seus diferentes níveis. • circulação de conhecimentos indígenas entre gerações amplamente estimulada. anos são necessários até que tais propostas sejam reco­ nhecidas ou mesmo toleradas pelas secretarias de educação. muitas barreiras e desafios se colocam para a continuidade das escolas indígenas. A descontinuidade nas gestões municipais leva a idas e vindas. • criação. mesmo com um prefeito indígena oriundo do movimento indígena. No município de São Gabriel da Cachoeira. temos leis que asseguram direitos específicos para os povos indígenas construírem seus projetos de escola. Enquanto isso. na medida em que as políticas públicas não têm investido em seu desenvolvimento sustentável de forma consistente. No Brasil. e vice-versa. de infraestrutura e equi- pamentos necessários para escolas com ensino via pesquisa nas comunidades. ensino médio dos estados e superior no âmbito federal – agrava essas dificuldades. se veem obrigadas a lutar em várias frentes ao mesmo tempo. com poucos recursos humanos e financeiros. em detrimento dos conheci- mentos e ciências ocidentais importantes para a realidade local. seminários de pesquisa. valorizando parcerias na luta por avanços na gestão esco- lar. em vários casos. detalhados ao longo do livro. Conquistas no âmbito municipal não se estendem automaticamente ao estadual. Esse modelo de escola traz melhorias para todos os moradores das comunidades. Dentro de alguns anos. com as quais os gestores dessas escolas precisam lidar permanentemente. assim como assembleias escolares são frequentes e têm foco político e pedagógico. 7 001a009_CORR_V1. a partir da Constituição Federal de 1988. mas os avanços em sua implantação são travados pela inércia das políticas de governo. Esta inércia e descaso do Estado causa desânimo.indd 7 5/31/12 2:09 AM . professores e comunidades se prepararam para os desafios políticos e pressões que ainda enfrentarão para gerir seus territórios e saberes no Brasil contemporâneo. atualizando informações sobre a situação da educação escolar na região do rio Negro. recorrentes incompreen- sões e decepção por parte das comunidades indígenas. mesmo com o aval de seus respectivos conse­ lhos de educação. jovens. culturas e projetos de futuro. cultural e política dos conhecimentos indígenas. As mesmas escolas indígenas. O principal entrave é a burocracia estatal que não se flexibiliza para atender às propostas inovadoras das escolas indígenas. não é capaz de implantar – na Terra Indígena Alto Rio Negro são poucas as comunidades que contam com infraestrutura escolar satisfatória e diferenciada. houve grande retrocesso na educação indígena. As reuniões da escola com a comunidade. pretende-se lançar novas edições dessa publicação sobre educação escolar no noroeste da Amazônia brasileira. para muito além dos processos de pesquisa ou escolares. algo que o governo brasileiro. crianças. Atualmente está sendo gestada uma proposta de formação avançada para jovens indígenas. até hoje. Apesar de todos esses avanços. no entanto. porque os proje- tos de pesquisa enfocam questões de interesse e preocupação de todos. com recursos do Projeto de Educação Foirn/ISA. os povos indígenas do rio Negro continuam na luta para construir escolas que respei- tem suas línguas. nas propostas e soluções de questões consideradas importantes. • valorização das línguas e conhecimentos indígenas não se deu. professores e comunidades no planejamento das discussões. Outra dificuldade é a continuidade dos estudos de alunos procedentes dessas escolas diferenciadas e sua futura inserção profissional. conhecimentos e tecnologias que con- tribuem para os projetos de desenvolvimento das comunidades indígenas são valorizados nessas escolas.

SUMÁRIO Ensaio fotográfico 10 1 2 PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA EXPERIÊNCIAS REGIONAIS Novas práticas na educação escolar indígena Rio Tiquié e baixo Uaupés do rio Negro 26 Escola Indígena Utapinopona Tuyuka 90 No tempo de viver separado 50 Escola Indígena Tukano Yupuri 168 A Foirn na história das políticas de educação 58 Escola Indígena Tukano Yepa Pirõ Porã 196 Mudando a história da educação escolar no rio Tiquié 62 Escola Indígena Ye’pa Mahsã 200 O projeto de educação em contexto Escolas Indígenas Hupd’äh 206 baniwa 66 Procesos educativos en la zona del Tiquié Narrando uma trajetória 74 colombiano (Departamento del Vaupés) 220 Desafios para o futuro das escolas em aldeias indígenas 84 Rio Içana Escola Indígena Baniwa e Coripaco Pamáali 234 Escola Cariamã 276 001a009_CORR_V1.indd 8 5/31/12 2:09 AM .

o Departamento de Educação e os projetos das escolas 380 Escola Indígena Aí Waturá 322 Desafios.indd 9 5/31/12 2:09 AM . avanços e retrocessos na educação Escola Indígena Kurika 336 escolar indígena 382 Escola Indígena Waruá 342 O Departamento de Educação da Foirn.Tariana 314 A Semec na gestão de Edilúcia de Freitas 372 Rio Negro A Foirn. 3 TEMAS Médio e alto rio Uaupés Políticas públicas Escola Indígena Kotiria Khumuno Wu’u 286 A gênese da educação escolar indígena no rio Negro – um processo não concluído 358 Escola Indígena Enu Irine Idakine . um pouco de história 386 Rio Pirá Paraná La educación tradicional y la educación Formação avançada escolarizada en el río Pirá Paraná 346 Construindo um programa de formação avançada indígena do rio Negro: alternativas inovadoras para continuidade da formação de jovens e lideranças indígenas 394 As escolas indígenas e o manejo ambiental no alto rio Negro 400 Bibliografia 408 Autores 414 Siglário 418 Índice remissivo 422 Índice geral 430 001a009_CORR_V1.

1904 Trocano em frente à maloca tukano de Pari-Cachoeira.indd 10 5/31/12 2:24 AM . No tempo das malocas © Theodor Koch-Grünberg. 1904 Comunidade Yurupari-Cachoeira. no rio Tiquié 10 010a023_CORR_V1. rio Aiari © Theodor Koch-Grünberg.

2003 Maloca tuyuka. 2005 Maloca tariana.indd 11 5/31/12 2:24 AM . © Aloisio Cabalzar/ISA. Iauaretê 11 010a023_CORR_V1. alto Tiquié © Vincent Carelli/Video nas Aldeias. comunidade São Pedro.

rio Uaupés © Arquivo da Diocese de SGC Internato Salesiano de Taracuá. rio Uaupés 12 010a023_CORR_V1.indd 12 5/31/12 2:24 AM . No tempo dos internatos salesianos © Arquivo da Diocese de SGC. 1930 Oficina de alfaiates no Internato Salesiano de Taracuá.

prelado em São Gabriel da Cachoeira. rio Uaupés © Arquivo da Diocese de SGC D. Pedro Massa.indd 13 5/31/12 2:24 AM . © Arquivo da Diocese de SGC Aula no Internato de Taracuá. com alunos do Internato de Taracuá 13 010a023_CORR_V1.

© Piotr Jaxa. 1993 No tempo das escolinhas rurais Comunidade no alto rio Negro © Beto Ricardo/ISA. 1997 Comunidade de Barcelos. alto Aiari 14 010a023_CORR_V1.indd 14 5/31/12 2:24 AM .

rio Içana 15 010a023_CORR_V1. 1997 Comunidade de Camarão.indd 15 5/31/12 2:24 AM . © Beto Ricardo/ISA.

2008 © Carol da Riva. baniwa e coripaco © Carol da Riva. 2008 © Carol da Riva. © Carol da Riva. 2008 No tempo das escolas indígenas: escola Eibc.indd 16 5/31/12 2:24 AM . 2008 Escola Indígena Baniwa e Coripaco Pamáali (Eibc-Pamáali) 16 010a023_CORR_V1.

2004 © Beto Ricardo/ISA.indd 17 5/31/12 2:24 AM . © Beto Ricardo/ISA. 2008 Escola Indígena Baniwa e Coripaco Pamáali (Eibc-Pamáali) 17 010a023_CORR_V1. 2004 © Beto Ricardo/ISA.

2005 tuyuka Roça de mandioca em Mõpoea 18 010a023_CORR_V1. 2001 Aula de matemática © Beto Ricardo/ISA. Mõpoea © Beto Ricardo/ISA. No tempo das escolas indígenas: Escola Tuyuka. 2008 Bastões de ritmo para festas. alto Tiquié © Aloisio Cabalzar/ISA.indd 18 5/31/12 2:24 AM . 2001 © Beto Ricardo/ISA.

da equipe do Instituto Socioambiental (ISA). durante oficina sobre artesanato na Escola Tuyuka 19 010a023_CORR_V1. © Melissa Santana de Oliveira/ISA.indd 19 5/31/12 2:24 AM . 2008 Alunas tuyuka e tukano de ensino médio © Aloisio Cabalzar/ISA. 2002 Flora Cabalzar.

2008 4 © Beto Ricardo/ISA. 2004 3 5 1 Alunos do Ensino Médio © Carol da Riva. Escola Tuyuka 5 Oficina de música tuyuka. 2009 © Aloisio Cabalzar/ISA. 2009 No tempo das escolas indígenas: ensino com pesquisa © Marcus Schmidt/ISA. SGC 6 Seminário de apresentação de pesquisas sobre manejo 6 ambiental na Eibc-Pamáali 20 010a023_CORR_V1. 2008 tuyuka em pesquisa sobre capoeiras 2 Bosco Rezende durante levantamento de madeiras para produção do banco tukano. © Marcos Schmidt/ISA. 2005 1 2 © Marcos Schmidt/ISA.indd 20 5/31/12 2:24 AM . comunidade São José II 3 Alunos do Ensino Médio Tuyuka em pesquisa sobre capoeiras 4 Pesquisa sobre lugares importantes no baixo Uaupés.

2005 Silvia Garcia durante a pesquisa “Pimentas na Bacia do Içana-Aiari” 2 Pesquisa na roça de mandioca 3 Oficina de vídeo na Escola Tukano Yupuri do médio Tiquié 4 Os Tuyuka visitam seus lugares de origem ao longo do rio Negro e Uaupés 5 Oficina de malocas no Tiquié 5 21 010a023_CORR_V1. © Daniel Benjamim/ISA. 2009 © Pieter-jan van der Veld/ISA.indd 21 5/31/12 2:24 AM . 2010 2 © Aloisio Cabalzar/ISA. 2008 3 4 1 A pesquisadora baniwa © Aloisio Cabalzar/ISA. 2011 1 © Juan Gabriel Soler/ISA.

indd 22 04/06/12 14:52 . Publicações das escolas indígenas 22 12010-Ensaio_AF3.

indd 23 5/31/12 2:25 AM . 23 010a023_CORR_V1.

1 024a087_CORR_V1.indd 24 5/31/12 2:33 AM .

indd 25 5/31/12 2:33 AM . PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA 024a087_CORR_V1.

Avanços entremeados por períodos escolares desencadeadas na região do alto rio Ne. indíge- nicipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira/ nas e não indígenas. organizações norueguesas Rainforest Foundation da bém os momentos de avanços no diálogo entre Noruega (RFN). assim como épocas. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO F lora D ias C abalzar L ucia A lberta A ndrade de O liveira 1 Esta publicação descreve e analisa experiências AM (Semec). ções Indígenas do Rio Negro (Foirn). Vários dos colabora- de Freitas (2005-2008) à frente de Secretaria Mu. ambiental (ISA) e comunidades indígenas dos rios Em uma ampla região que apresenta configu. abrange também outros projetos. (OD) e posteriromente. põe uma parceria mais ampla entre Foirn e ISA que nas do alto e médio rio Negro. destacando-se as pecífico. de relativo retrocesso. ações de formação. evidenciado neste livro. Gersem Luciano Baniwa. Cada escola ganha um desenho es. Seu foco está no modo como estas escolas nessa região do rio Negro. a partir de jeto Educação Escolar Indígena do Rio Negro iniciado diagnósticos comunitários.indd 26 5/31/12 2:33 AM . cooperação de vários parceiros. por iniciativa da Federação das Organiza- iniciativas de gestão em políticas culturais. Instituto Socio- ticas e educacionais dos diferentes povos. em 1998. linhas de ação e fases e abrangências diversas. em contextos de mudanças também O que é o projeto de Educação Foirn/ISA? das políticas públicas para educação escolar indí- gena no município de São Gabriel da Cachoeira/ No contexto de reforma das escolas indígenas AM. Escolas indíge. Içana. 44. que analisa tam. participam dessa publicação. as escolas têm ên. Laise Lopes Diniz. linguís. a Campanha dos estudantes secun- novas práticas escolares indígenas e as políticas daristas noruegueses Operação Um Dia de Trabalho públicas. dores na execução do projeto de educação. Melissa Oliveira. Ver cronologia na pg. 1  Com contribuições de Aloisio Cabalzar. tem importância o Pro- indígenas são discutidas localmente. concretizados especialmente nas ges. fontes de financiamento para atender às demandas ritmos de implementação e política de parcerias de associações indígenas regionais. Tiquié e Uaupés. a Norad (Norwegian Agency tões de Gersem Baniwa (1997-1999) e de Edilúcia for Development Cooperation). O Projeto de Educação com- rações étnico-políticas variadas. Contou com a diferenciadas. gro a partir do final dos anos 1990. 26 024a087_CORR_V1. nas terras indíge. nas que propõem práticas políticas e pedagógicas inovadoras.

e em mental. de formação de lideranças rias. Garan. língua de instrução. Até políticas públicas governamentais. em São Gabriel da Cachoeira. para conserto de colas e manutenção dos períodos letivos. funcionava apenas o ensino de 1ª a 4ª séries. ao lado de assessores externos es- tivas localizadas de discussão. conselhos e demais instâncias por vários anos. e de oficinas de ca- reuniões dos Conselhos Escolares em São Gabriel pacitação técnica desenvolvidas na sede da Foirn da Cachoeira.indd 27 5/31/12 2:33 AM . O projeto apoiou ainda associações de base à implantação de escolas de 5ª a 8ª séries. cimento oficial dessas experiências escolares. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA © Carol da Riva. para o acompanhamento escolar e formação de antigas práticas de educação escolar formação continuada dos professores indígenas. motores e produção de programas de rádio. O foco dos primeiros anos do projeto foi a Es- As ações do Projeto de Educação abrangeram colas Baniwa e Coripaco Pamáali no rio Içana e apoio a várias escolas indígenas para articulações a Escola Utapinopona Tuyuka no rio Tiquié. ou ao menos então. A 27 024a087_CORR_V1. durante os períodos de de de São Gabriel da Cachoeira. outras eram iniciativas de valorização das sua divulgação. pedagógica. Viabilizou a participação de profes- línguas minoritárias (os Tariana no alto Uaupés e os sores e lideranças nas negociações com secreta- Tuyuka no alto Tiquié). implantação e trans. além das comunidades com realização de assembleias. buscando consolidar novas práticas no âmbito das ram objetivos comuns a todas as experiências. Algumas delas se voltaram de início cais. O acesso ao educação escolar indígena diferenciada. 2008 Assembleia da Oibi no centro comunitário de Tucumã-Rupitá discute o plano de manejo pesqueiro no Içana Esse projeto apoiou experiências escolares que tiram assessorias permanentes. instituir o debate e a luta a favor dos direitos pela em algumas comunidades indígenas. inicia. esses se torna. respeitando os ritmos e rumos das iniciativas lo- sões salesianas. Ao final. atuais 6º e a Foirn nas longas articulações para o reconhe- a 9º anos ou segundo segmento do ensino funda. desenvolvidas na região pelo governo e pelas mis. antropológica e vinham nascendo com estratégias próprias. de novos níveis e propostas diferenciado e adotava apenas o português como de ensino implementadas nessas escolas. O Projeto ensino fundamental completo se dava apenas nas de Educação também apoiou a contratação provi- sedes dos distritos (e antigas missões) ou na cida. de ações de valorização da língua e cultura ta- encontros intercomunitários e participação em riana na região de Iauaretê. melhoria da infraestrutura das es. sória de novos professores. ou de capacitação técnica. pecializados. o ensino público negociação para reconhecimento pelas instâncias oferecido em terras indígenas dessa região não era públicas competentes.

para acompanhamento com a instalação permanente das missões salesi- político-pedagógico a várias outras escolas em anas no século XX. Na Escola 1915 chegaram os primeiros salesianos na região. avicultura. algumas dessas escolas passam no rio Negro e Uaupés a enfatizar a formação para processos e práticas Em 1908. vi- escolar aprova um projeto focado na gestão de nha para o rio Negro. com Educação sela forte parceria com o Departamen. e mais sistematicamente Histórico da educação escolar a partir de 2004). percorreu todo o vale do rio Negro. A presença missionária comunidades em terras indígenas. além de ampliar em muito a oferta do sas como gripe. A Escola Tukano Yupuri de- quié e Uaupés também passam a ser contempla. pos- governamentais se deram durante a gestão de teriormente. outros projetos desenvolvidos pelas associações Em 1910 foi criada a Prefeitura Apostólica do de base escolares ou regionais. Algumas destas ex- periências também estão contadas nesse livro. à exploração da borracha. confiada aos salesianos em 1914. 28 024a087_CORR_V1. Barcelos (1924) e Santa Isabel (1942) 2  WEIGEL. relacionada à construção das vilas e centros porar as novas práticas no âmbito das políticas coloniais. Escola Tukano Ye´pa Mahsã são desenvolvidas atividades de manejo ambien- no baixo Uaupés. priorizando A história do contato dos povos indígenas da a consolidação das novas práticas de educação região do rio Negro inicia-se no século XVIII com enquanto políticas públicas municipais. Tuyuka. processo de reestruturação. na região de Iauaretê. Na mesma linha. A Chegada dos salesianos e dos internatos partir de 2005. Escola Tukano Yepa Pirõ Porã tal e segurança alimentar na Escola Indígena Ba- no alto Tiquié. outras escolas nas calhas dos rios Ti. incluindo a produção também descritas nesse livro: Escola Tukano Yu. senvolve diversas atividades de manejo agroflo- das pelo Projeto de Educação. Dom Frederico Costa. que dizimaram ensino fundamental completo e diferenciado nas boa parte da população. sarampo e varíola. Nesse momento estrutura-se no alto rio Negro o Departamento de Educação da Foirn. o proje. a carência de prelados e e nos ensinos médios que começavam a ser im. culminando to de Educação da Foirn. sua foz no rio Amazonas até a fronteira do Brasil jo agroflorestal) e gestão cultural. niwa e Coripaco (Eibc-Pamáali) e em Iauaretê. a ausência de um trabalho catequético mais sis- plantados. sobretudo nas com a Venezuela. mane. com experiências restal através do seu PDPI. uma sistemática exploração da mão de obra indí- As maiores conquistas no sentido de incor. puri (médio Tiquié). desde (piscicultura. meliponicultura.indd 28 5/31/12 2:33 AM . Tem como Edilúcia de Freitas na Semec entre 2005 e 2008 consequência a introdução de doenças infeccio- quando. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO partir daí. voltado à gestão de experiências escolares. a Secretaria de na região também se inicia no século XVIII. segurança alimentar naus. bispo de Ma- de produção alternativa. pelo PDPI – Projetos De. instaladas sete grandes sedes de missão: São Ga- monstrativos dos Povos Indígenas. à extração das drogas do sertão e. de variedades nativas de milho. carmelitas e franciscanos. a associação 1883 atuando entre os Bororo de Mato Grosso. em um movimento coordenado com temático2. Até a década de 1950. o ensino médio começa a funcionar em A experiência que os salesianos já tinham desde meados 2005 e. no ano seguinte. foram conhecimentos tuyuka. to apoiou as experiências dos Piratapuia e dos Wanano (desde 2002. avaliando o tamanho da popu- etapas mais avançadas de ensino fundamental lação indígena e cabocla. do Meio Ambiente. 2006. gena. Em parceiros e instituições financiadoras. do Ministério briel (1915). com diferentes Rio Negro. os jesuítas.

eram iniciados na religião nidades da bacia do Içana. Cabalzar e Ricardo. Pari-Cachoeira (1940) no alto rio Ti. falava alunos do sexo oposto. ro argumenta que a ação missionária foi mais de- briel da Cachoeira em 1914. internatos eram o rigor e a disciplina. L. nessa situação. 1998). Ampa. 1995). clãs e tribos. disse missionários instalaram internatos escolares nos o então presidente Juscelino Kubitschek em visita principais rios tributários do alto rio Negro. biu então a Congregação Dom Bosco de estancar os O poder das escolas representava o poder da abusos contra os indígenas que. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA no rio Negro. ram sendo financiados pelo governo brasileiro até Para efetuar o trabalho de catequese. maloca. época em que patrões colombia- lugar de origem e de sua família e eram formadas nos levavam os Baniwa para extração de piaçaba quase que exclusivamente a partir do ideário e das na Colômbia. Sofia sai do Brasil em 1953. Assunção (1953) no rio Içana (Albuquerque. em 1958” (Cris- rados pelo Estado brasileiro. que mados numa educação cristã e rigorosa.. Primeiro entram missionários protes- próprios filhos. realização dos ritos” (Ribeiro. contribuiu obrigada a pagar dívidas intermináveis contraídas não só para afrouxar os laços de convívio entre no trabalho forçado nos seringais. assim. após mais de dois sécu. “Vocês estão construindo Brasí- ção e civilização dos índios do alto rio Negro.logo após a Segunda ças que iam para as Missões se afastavam de seu Guerra Mundial. 50) vam-se na convicção de que só conseguiriam mudar os índios de maneira eficaz com ênfase no A chegada de Sofia Müller e missões no rio Içana sistema educacional. Enfeites quié. foram escolarizados para aprender a palavra de Gradativamente. Muitas comunidades baniwa construíram católicos e também as noções de pecado e in. templos e formaram anciãos e diáconos. letéria na proibição da utilização das crenças. muitos tendo fu. Malocas foram sendo destruídas sob o pois é que veio a escola para ensinar outros livros. foram introduzidos os rituais Deus. B. Cita como a “destruição da índios ainda era vítima do sistema de patronagem. não Igreja.. os horários Os velhos baniwa e coripaco relatam que a missio- tinham que ser cumpridos e havia a separação de nária chegou ao Brasil através da Colômbia. a língua coripaco e visitou quase todas as comu- dos de falar suas línguas. destacando-se Sofia Müller. o modo de ser desses povos que viviam nessa re- Em decorrência do ciclo da borracha. tempo os únicos a oferecer serviços de saúde e educação na região. Taracuá (1923) e Iauaretê (1929) no pretexto de promiscuidade e falta de higiene. educa. e meu governo nem sabia”. A entrada dos missionários no rio Içana tam- vens. Berta Ribei- Os missionários salesianos chegaram a São Ga. foram durante muito thante. A Santa Sé incum. ritos los de epidemias e comércio escravagista que supria e práticas específicas que explicavam a origem e a demanda de mão de obra de Belém e Manaus. Os indígenas eram proibi. cujos trabalhos em educação escolar segui- resistiram à chegada dos salesianos. s. americana. centro cerimonial de um clã. boa parte dos gião há muitos séculos. à missão de Taracuá. Consideravam que só lograriam penetrar na bém pode ser entendida como o início da educa- consciência dos adultos e velhos através de seus ção escolar. a década de 1950. como também para impossibilitar a gido rumo às cabeceiras dos rios. 29 024a087_CORR_V1. Ensinava aos Baniwa e católica e no aprendizado de hábitos e padrões Coripaco a ler e escrever.d. substituídos por crucifixos e imagens. chega à região em 1948 . As principais características dos perseguição do SPI (Serviço de Proteção ao Índio). tantes. eles afirmam que estranhos à sua cultura”. depois que estes tivessem sido for..). Só de- decência. pajés foram ridicularizados e difamados. Os rio Uaupés. (Veja depoimento da liderança Tukano Álvaro Segundo Cabalzar (1998). Sampaio na pg. “os salesianos apoia. voltado para crianças e jo. após a rotinas da Missão.. no rio Uaupés.indd 29 5/31/12 2:33 AM . os lias nestas selvas. As crian. e instrumentos cerimoniais foram paulatinamente 2007.

com as chamadas escolas rurais4 que mantinham entre outras. foi implantado das a mudar-se para as missões e. também do praticamente os únicos a manter educação es- com o objetivo de evangelização. Na Diocese de São Gabriel da Cacho- da MNTB em Jandu Cachoeira. O tos. giosas de diferentes credos. geran. 5  CABALZAR. atual ensino médio. Os salesianos construíram uma preferencial pelos pobres e teve grande repercus- igreja e um colégio dirigido por eles. Transforma- primeira versão da Bíblia. que fez a opção na. tinham supervisão pedagógica das irmãs salesianas. 4  São Gabriel da Cachoeira. começa a gra- nas: o Instituto Linguístico de Verão (SIL). Depois de desativados os internatos. Com isso. do Concílio Vaticano II em 1962. 30 024a087_CORR_V1. se- mas também ensinaram os Baniwa a escrever e ler guindo as determinações da Igreja Católica de na própria língua e em português. das escolas salesianas com relação às populações São Joaquim e Jerusalém. as famílias indígenas se viram obriga. reivindicação de seus direitos. segundo grau. para possibilitar aos seus filhos o aces. com o corte das verbas federais. contrário sabiam escrever melhor na sua língua revisaram a a elas5 e que aí permaneceu até 1986. 1991. em Assunção. processo este que continua hoje em dia. que circula até hoje. e a cidade e os centros missionários pela Fundação Nacional do Índio em 1967. Esta missão foi são na igreja latino-americana. salesianos decidiram desativar o sistema de interna. No estado do colar nos rios Negro e Uaupés. ainda em proces. ções globais da Igreja Católica acontecem a partir No rio Içana também existe uma missão salesia. foi definida uma eira. como única instituição com infraestrutura religiosas. Bispos do Brasil (CNBB) que tinha como objetivo do conflitos e tensões entre eles. ciação Linguística Evangélica Missionária (Alem). nalizante com ênfase na formação em magistério. em Tunuí. a Secreta- ria de Estado da Educação e Qualidade do Ensino Os internatos são desativados do Amazonas (Seduc/AM) continuou mantendo Os internatos existiram até meados da década de estabelecimentos de ensino no município de São 1980. Detinham certo mo- Amazonas. foi criado o Conselho Indigenista Missioná- ja Evangélica na região. No final dos anos instalada em 1953. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO Nacionalmente. Ainda existem revisão dos projetos catequéticos e das atitudes missões protestantes na foz do Içana. os Gabriel e nas sedes das missões salesianas. Em 1979. 1999. passam a atuar inúmeras instituições nopólio. 1980. em São Gabriel em 1976. quando o SPI foi substituído so às escolas. nal. além das missões salesia. nos colégios salesianos espalhados pela região. porém. principalmente. Eles nunca fizeram uma escola formal. como reação à presença da Igre. final dos anos 1970 e os anos 1980. 1998. ram em pequenas missões espalhadas na região A ação dos salesianos com relação às popu- do rio Içana. a Funai começam a ter um grande crescimento populacio- passou a realizar convênios com instituições reli. Na época da instalação indígenas. Missionários protestantes da Missão dependência administrativa do governo do Estado e Novas Tribos do Brasil (MNTB) também se instala.3 Mas desde o populações indígenas. Desde então o povo Baniwa rio (Cimi). Alguns Baniwa que oposição do bispo Dom Miguel Alagna. na modalidade profissio- para a cidade. os salesianos continuavam sen- experiências educativas junto aos índios. 3  CABALZAR e RICARDO. nizações indígenas e do movimento indígena atual. prestando assistência educacional às de assistência aos índios nessa região. órgão da Confederação Nacional dos ficou dividido entre católicos e evangélicos. ou seja. as mudanças foram postergadas pela grafia para a língua baniwa. denunciar as agressões aos índios e apoiá-los na so de superação sob as orientações das novas orga.indd 30 5/31/12 2:33 AM . a Asso. lações indígenas também vinha mudando. que desenvolveram Até os anos 1980. dativa composição de uma rede escolar municipal.

costumes. profissão). Havia também siana provocava a perda das práticas culturais. exemplo. à prática salesiana. Alguns salesianos (pe. conforme cada como volta ao passado. Em consequência desse genas da região já haviam seguido um percur- processo. 2006) 31 024a087_CORR_V1. filosofia de educação. por vez mais crianças e adolescentes entravam no exemplo. porém. cedo no internato. Os alunos e alu. porém. pe. salesianos e no governo. algumas lideranças indíge. dos com as práticas da civilização entendiam a professores. de educação. Co. em geral de forma não pensada pelos índios. Em Pari-Cachoeira. Este tipo de análise se torna possível vendo ou- Naquela época se pensava que. Havia também visões conflituo- prios pais diziam: — O meu filho já é branco! sas entre os próprios índios. Rezende. das sociedades civilizadas. tradicionais diziam que a finalidade da escola de- nas da região já haviam seguido um percurso de veria ser ensinar os conhecimentos das sociedades dez anos de escolarização nos internatos salesia. educacional abalou a base da educação tuyuka. algumas lideranças Na década de 1980. Aqueles acostuma- Esta situação gerava orgulho nos jovens. tos entre indígenas e missionários. conforme cada vez práticas. proposta de valorização das culturas indígenas Com o passar das décadas. (texto adaptado de Rezende. e missionários. havia possibilidade de tor. salesianos. revitalizassem e fortalecessem suas Com o passar das décadas. 2006) O SISTEMA DE EDUCAÇÃO ESCOLAR ATINGIU A BASE DA EDUCAÇÃO TUYUKA J ustino S armento R ezende Nos primeiros anos de internato o sistema ticas ao modelo escolar. entrando mais tros contextos sociopolíticos. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA Em Iauaretê. existiam outros que não queriam. foi possível perceber que a educação ranças tradicionais diziam que a finalidade da escolar salesiana provocava a perda das práticas escola deveria ser ensinar os conhecimentos culturais. críticas ao modelo escolar. Este tipo de análise se torna nas como volta ao passado. Casimiro. algumas lide- internato. o segundo grau foi implantado em nos. algumas lideranças indí- nar-se mais civilizado. alimentando sua visão crítica àquela rais. visões conflituosas entre os próprios índios. pais.indd 31 5/31/12 2:33 AM . Dulce & Judite Eduardo Lagório) insistiam para que os indígenas Albuquerque. Quando um daquela história gerou conflitos entre indígenas filho já sabia falar a língua portuguesa. Aqueles meçam a surgir mais explicitamente preocupações acostumados com as práticas da civilização enten- com os valores indígenas. Começam a surgir mais explicitamen. negavam a identidade indígena e se con. A nova interpretação nho era um dia tornar-se branco. A nova interpretação daquela história gerou confli- foi possível perceber que a educação escolar sale. Eduardo Lagório) insistiam para nas não eram educados nas tradições indígenas. nas reuniões de pais. sideravam brancos (civilizados). 2006) recuperassem. Casimiro. por possível vendo outros contextos sociopolíticos. alimentando sua visão crítica àquela filosofia 1988. que os indígenas recuperassem. mais crianças e adolescentes entravam no internato. os pró. (texto adaptado de te preocupações com os valores indígenas. civilizadas. etc. etc. diam a proposta de valorização das culturas indíge- à prática salesiana. mas feita para os índios (Camargo. nas reuniões de pais. na década de 1970 em Pari-Cachoeira so de dez anos de escolarização nos internatos muitos indígenas rejeitavam as práticas cultu. revitalizassem mas sim para os valores do mundo do civilizado e fortalecessem suas práticas. crí. pe. Na década de 1980. Alguns salesianos (pe. Em Pari-Cachoeira. existiam (língua portuguesa. outros que não queriam. O so.

L. Delegacia Regional do MEC e Instituto Tecnológico do Amazonas (Itam). Mas ainda ternativas de educação escolar indígena coincide seria necessário muito esforço dos envolvidos com a abertura democrática. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO O movimento dos professores indígenas nos são implementadas por organizações indígenas e anos 1980 e a Foirn organizações não governamentais.7 çam a ocorrer grandes mudanças nas escolas da Em 1993. 1995). 7  Participam as seguintes entidades: Universidade Federal do Amazonas (Ufam). 8  SILVA. R. Programa Waimiri-Atroari (PWA). Com a Foirn. “com compromisso de promover uma educação ção escolar indígena. escolas e alternativas econômicas nesse mesmo ano.indd 32 5/31/12 2:33 AM . ações criada em 1986. Suas reivindicações MEC e Ministério da Justiça de 2002 reforça as levam o Estado a formular uma política pública diretrizes constitucionais. cessos próprios de aprendizagem e reconheça A Foirn teve uma atuação importante nesse suas organizações sociais”. lu- Copiar. que nidades indígenas uma educação escolar básica marca uma nova fase da escolarização indígena. a Comissão de Professores Indí. de qualidade. Coiab. Apiarn e Copiarn na van. A Organização nar as ações referentes à educação indígena. Em 1991. tendo como educacional indígena no Estado. com organizações indígenas tério da Educação a competência para coorde- voltadas à questão da educação. seus pro. como das novas diretrizes nacionais para a educa. que respeite e também começam a ser desenvolvidos projetos fortaleça seus costumes. O movimento indígena no Amazonas tam- sores indígenas do rio Negro ao movimento da bém passou a pressionar o poder público. o governo do Amazonas e dos direitos à diversidade linguística. de acordo com os anseios dos povos indígenas. anteriormente da alçada da Fundação Nacional genas do Amazonas. jetos de futuro. decorrentes tanto da mobilização indígena lítica Nacional de Educação Escolar Indígena. reforça a participação das escolar indígena nos anos 1990 6 comunidades indígenas na criação de escolas A luta dos povos indígenas por experiências al. 1999). do MEC. H. Por solicitação pontos principais as escolas indígenas. garantindo “às comu- para as escolas indígenas. articulando o movimento dos profes.8 6  Ver ALBUQUERQUE. nal para “elaborar uma proposta de diretrizes para guarda da educação escolar no rio Negro. 32 024a087_CORR_V1. uma Comissão Interinstitucio- (Silva. Em 1991. o IER/AM e outras entidades formaram. apoiando desde o início a participação tando pela reestruturação da política indigenista efetiva dos professores indígenas da região nos estadual e pelo direito a uma educação escolar encontros anuais. momento. Roraima e Acre (Copiar) em do Índio (Funai). indígenas específicas e diferenciadas. em Geral dos Professores Ticuna Bilíngues (OGPTB) foi todos os níveis e modalidades de ensino. Nos anos 1980 surgem os movimentos de pro. 2004. língua. cultural. come. determinou que o Instituto de Educação Rural do saúde e educação escolar indígena. focados na defesa de territórios diferenciada. para garantir que escolas indígenas espelhassem tas constitucionais de 1988. Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Cimi. tradições. o MEC define as Diretrizes para a Po- região. 1998. pro- alternativos às políticas oficiais de educação. a educação indígena” no Estado do Amazonas”. A partir das conquis. Uma portaria interministerial do 1990 (Silva e Azevedo. Secretaria Municipal de Educação (Semed). o governo federal atribui ao Minis- fessores indígenas. Funai de Manaus. Nesse contexto. Amazonas (IER/AM) passasse a coordenar todas Um grande encontro da Copiar acontece em as ações de elaboração e execução da política São Gabriel da Cachoeira em 1996. como base para os planos operacionais de Es- Políticas nacionais e estaduais para educação tados e Municípios. laica e diferenciada. novas experiências realmente os princípios das Diretrizes”..

38). devem cumprir as nião do Conselho Estadual de Educação Escolar orientações do Estado e do próprio MEC” (parágrafo Indígena em 2002. Mas a au. Segundo o parecer do CNE. tonomia. e a possibilidade de criação de selho de Educação Escolar Indígena do Amazonas programas específicos e ações interinstitucionais (CEEI) obteve parecer do Conselho Nacional de com essas metas. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA Até então. não havia uma determinação legal a Em 1998. evidencia as atividades do único. com a finalidade de orientar as ações do gover- Em princípio. No entanto. está incluído o direito à educação escolar espe- colas indígenas. Lei nº 9. selho de Educação Escolar Indígena do Amazo- gramas de Educação Indígena.394/96 e no Decreto nº 6. assessoria em atividades das Mais de uma década depois. Resolução nº 99 do Conselho de Educação Escolar que assessora o Conselho Estadual de Educa- do Amazonas (CEE/AM) fixou competências para os ção. deveria se. fesa dos direitos dos povos indígenas. mento. referentes a hoje competência exclusiva do Conselho Estadual questões administrativas. que. 1996.indd 33 5/31/12 2:33 AM . embora o lacionadas à manutenção dos professores rurais. já que se previa uma garantia de cífica e diferenciada. acompanhamento. de Educação do Amazonas.861/2009. o CEEI poderia vir a assu- de 1997-1999. estabelecendo na estruturação do seu Conselho apenas como órgão consultivo junto sistema de ensino “normas específicas para as esco. ser efetivada10. em 2011. sua decisão de Educação. esse movimento de inclusão da no estadual. pedagógicas. mentação e funcionamento das escolas indígenas. Após lon- Gersem dos Santos Baniwa assumiu a Secretaria ga luta pela autonomia dos projetos educativos das Municipal de Educação de São Gabriel no período comunidades indígenas. legais em tal atribuição de competência”. Em 2001. transformando-se novamente em órgão pios criassem seus sistemas de ensino próprios e de natureza normativa. art. 9  Amazonas. o Con- escolas indígenas.9 Conselho Nacional de Educação tenha se pronun- Ele viabilizou a aprovação do Sistema Municipal ciado favorável à autonomia do CEEI. às comunidades indígenas e revela a falta de las indígenas. 2011. indígenas. no exercício de sua autonomia. Fundação Estadual de Política Indigenista (Fepi). 10  Conselho Nacional de Educação. a nas (CEEI/AM). legais e re. o estado do Amazonas criou o Con- respeito de a quem competia a elaboração dos Pro. ção básica das escolas indígenas continuaria sendo pode atribuir funções normativas ao Conselho Es- atribuição do Conselho Estadual de Educação do tadual de Educação Escolar Indígena do Amazonas Amazonas e o ato de criação da Escola Indígena. além de acompanhar e avaliar as escolas municípios: “As Prefeituras Municipais. Apenas em 1997. através das Se. mir a normatização das escolas indígenas. nos quais zonense deveria significar maior autonomia das es. fazendo uma interlocução em de- categoria Escola Indígena no sistema público ama. a Declaração da II Reu- cretarias Municipais de Educação. naquele momento. tendo em vista não haver impeditivos competência do governador do Estado. de (CEEI/AM). A Escola Indígena poderia fazer Educação (CNE) favorável à retomada de sua au- parte do ensino municipal desde que os municí. Entretanto. que facilitou a criação das escolas ainda requer homologação do ministro da Educa- indígenas no município de São Gabriel. ção para de fato. execução da educação no município. o Es- torização de funcionamento dos cursos de educa. “preservado o regime de colaboração previsto na após consulta às comunidades indígenas. seu reco- guir todas as orientações do órgão estadual para a nhecimento e a autorização do seu funcionamento. Pre. 37). o estado do Amazonas criou a feituras municipais seriam responsáveis pela imple. tado do Amazonas. que garantam a implantação de uma autonomia e de orçamento para seu funciona- educação diferenciada e de qualidade” (art. dispusessem de condições técnicas e financeiras. 33 024a087_CORR_V1. órgão consultivo e deliberativo.

elaborado pela Semec. Conselho Municipal de Ali- nal. os professores de foram sendo tomadas com a reorganização do Sis- regiões diferentes encontram dificuldades no tema Municipal de Ensino16 em 2001 e a reorganiza- desenvolvimento de seus trabalhos didático. a educação oferecida às comuni. riculares estranhos à cultura das populações in. Foram debatidas várias nas nas instâncias colegiadas. marcos significativos para a educação escolar indí. foi objeto de discussão e gena em São Gabriel da Cachoeira foi a realização aprovação pelos participantes. a participação dos povos indígenas dos à realidade das comunidades indígenas. Controle Social do Fundo de Manutenção e Desen- 11  São Gabriel da Cachoeira. o que evidencia a maior participação destes equada e eficaz nas escolas.13 Nessa Conferência Municipal. segundo o serviço de fornecimento não segue uma programação supervisão escolar da época. o material didático-pedagógico reprovação e desistência. ção do Conselho Municipal de Acompanhamento e pedagógicos e. 1996 a 2004 educacionais nas escolas também são prejudi- Em 1996. lideranças e professores das reivindicações emanadas da Conferência e por indígenas puderam discutir e propor alternativas força da legislação no que se refere à possibilidade para a melhoria da educação municipal ofertada de participação das lideranças e professores indíge- às populações indígenas. (art.12 Até 1997. conselhos no âmbito do município de São Gabriel • o modelo de ensino das escolas indígenas re. anualmente de cursos de reciclagem oferecidos • o número de escolas é insuficiente e poucos pela Semec. e participavam cando as ações educativas. 13  Inesp. prejudi- professores rurais eram leigos. e Conselho Municipal do Fun- programas de educação escolar são inadequa.Um dos “Construindo uma Educação Escolar Indígena”. um alto índice de sistemática. 1996a.11 as escolas como prédios. 3º). 15  São Gabriel da Cachoeira .855 alunos e 325 nas condições do salário mínimo. cadas pela dificuldade de fixar os professores dades indígenas pelo município de São Gabriel nas comunidades. Em muitas comunidades os professores não os materiais alimentícios e didáticos recebi- falavam e nem mesmo entendiam a língua dos dos são insuficientes e inadequados e o seu alunos. lousas. para os mesmos.Em decorrência de 1997. Novas medidas • devido à barreira linguística. 2001. o proces. os objetivos. desde a infraestrutura de moradias dignas. carteiras. 1. consequentemente. é assegurada em cinco instâncias de representação também não existe supervisão pedagógica ad. e feitos os diagnósticos seguintes. 1997a. def15.1997b. As atividades São Gabriel da Cachoeira. o Programa I Conferência Municipal de Educação . foram criados diversos ideias. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO Secretaria Municipal de Educação de so de alfabetização é prejudicado. 34 024a087_CORR_V1. 1996a. povos em relação aos não indígenas. fato que se deve à ausência da Cachoeira era precária. dentre os quais: Conselho Municipal produz o sistema escolar da sociedade nacio. 16  São Gabriel da Cachoeira. da I Conferência Municipal de Educação em julho Criação de conselhos municipais . são os professores que se dispõem a trabalhar contava com 173 escolas. A rede escolar municipal em 1997. Neste evento. 80% dos utilizado é insuficiente e inadequado. transporte e alimentação até a utilização de conteúdos e propostas cur. 14  São Gabriel da Cachoeira. da Cachoeira. as diretrizes. • além da falta de infraestrutura básica para dígenas da região. No CME. professores. 1997. 12  São Gabriel da Cachoeira. o que ocasionava. os currículos e os mentação Escolar.indd 34 5/31/12 2:33 AM . de Educação (CME)14.

Ano Número de Escolas – MEC/Inep Número de Escolas – Semec I Curso de Magistério Indígena . todas as esco. a quantida- da Cachoeira regularizou em 2000. o ensino médio e a educação su- nucleação consistiu no agrupamento de escolas de perior através de convênios com a Universidade diferentes comunidades em escolas-núcleo para Federal do Amazonas (Ufam) e Universidade Es- fins de cadastro. sendo quatro já suas escolas locais não mais constavam no sistema com ensino médio (três na zona urbana. tal nucleação foi desfeita por demanda das centrada em 12 escolas23. Houve assim uma diminuição con. Das 12 escolas estaduais. São Gabriel da Cachoeira. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA volvimento do Ensino Fundamental e de Valorização SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA - do Magistério17. ambos visando adequar-se às novas ESCOLAS INDÍGENAS MUNICIPAIS exigências legais para a educação no país.21 localizadas na sede do município e as demais em 17  São Gabriel da Cachoeira. suas escolas seriam nucleadas. A fundamental. a nucleação terra indígena: Iauaretê. de real de escolas indígenas existentes no municí- las indígenas municipais. De fato. a escolas municipais foram nucleadas devido ao nú. na verdade. foram atendidos os demais professores com ensino fundamental com- pleto e médio incompleto ou completo com outra A tabela acima indica que a nucleação das esco- formação que não fosse o magistério.18 las perdurou por quatro anos e foi desfeita em 2003. quatro estavam dades. tadual do Amazonas (UEA).19 Sistema de Ensino do município de São Gabriel da Nucleação das escolas indígenas . 19  São Gabriel da Cachoeira.Ainda em 1998. cinco funcionando em próprias comunidades indígenas. percebendo que prédios das missões salesianas. que já oferecia também a de1998 não contou com a participação das comu. Tabela nesta página. educação infantil (creche e pré-escola). Regularização das escolas indígenas municipais . o ano de funcionamento. 2004 te do rio Negro. 35 024a087_CORR_V1. 2004. 2000. mental. afluen- Fontes: Inep. de ensino da Educação de Jovens e Adultos (EJA). levando em conta sua proximida. 2004. em média dez por escola.22 de alunos suficiente para recebimento de recursos Dados da rede de escolas estaduais no municí- de Programas do Ministério da Educação (MEC).indd 35 5/31/12 2:33 AM . 20  São Gabriel da Cachoeira. cada uma com quantidade nível do ensino fundamental. 1998. 22  Brasil. Além da modalidade de geográfica20.Em 1998 as Cachoeira oferecia para a população indígena. as quais passaram a ter pio no período anterior à nucleação em questão). ato de criação com data retroativa ao seu primeiro Rede de escolas estaduais e federais . 18  São Gabriel da Cachoeira. Essa primeira etapa foi rea- 2003 181 186 lizada na Comunidade Juivitera no rio Içana. 1998a. 2004. uma em municipal e no censo escolar. priorizando inicial- 2001 48 186 mente os professores que não possuíam o ensino 2002 56 185 fundamental completo. o ensino mero baixo de alunos. 21  Cf. em Censo do Inep de 1999).Em 2003. educação infantil) e as demais com ensino funda- nidades na escolha de como e com quais comuni. 2001a. siderável no número de escolas municipais (46 no tanto pelo sistema estadual como municipal. 23  Idem. a 1999 46 171 Semec iniciou a formação em magistério indígena 2000 46 180 para todos os professores leigos. Posteriormente. Em pio neste período apresentavam uma organização 2002. quando o número de escolas aumentou considera- O Sistema de Ensino do município de São Gabriel velmente (representando.

657 educação municipal no Plano Diretor do Município. des do município – eram realizadas durante o ção escolar indígena.418 257 148 12.No período curso em várias escolas indígenas. escolar. funcionavam.558 Barco-escola – financiado pelo Unicef a partir 2000 5.deixaram de ser reconhecidas como escolas indígenas e. existiam direitos à educação escolar diferenciada. Nesse período o 2002 6.561 6. 26  Idem. em convênio com o Comando Militar da O período entre 2005 e 2008 foi muito importan- Amazônia – CMA). Com isso verifica-se que a educação escolar com biblioteca.619 2003 7.339 6. possivelmente. com en. junto com o poder público local e terras indígenas do município (Iauaretê. para escutar e entender suas propostas e como acesso à educação escolar naquela região. 25  Brasil. a Semec abriu suas portas e seguiu número de alunos das escolas da rede municipal visitando as escolas indígenas nas várias calhas de de ensino.091 6.855 3. da Cachoeira. servindo como instrumento pedagógico na for- sionários católicos passou por mudanças signifi. ano inteiro pela equipe da Semec. funcionava na região: por melhorias na qualidade da educação sede do município a Escola Agrotécnica. repensar e avaliar do Rio Içana. como espaço de for- mação de professores e alunos. O barco-escola. As reuniões 24  Idem.563 6. para que fossem construídas propostas espe- Número de Alunos cíficas que atendessem à particularidade de cada Ano Municipal Estadual Federal Privada Total Geral povo/microrregião. por políticas públicas que respeitassem os sino médio e técnico. a Semec pôde 1997 1.ESCOLAS MUNICIPAIS nova estratégia de governo. 2004. infraestrutura para a oferecida à população indígena do município de produção de material didático. 2004 no projeto original de 1998. oriundas tanto da mobilização indígena Visitas e reuniões nas cerca de 500 comunida- como das novas diretrizes nacionais para a educa. circulava nos rios São Gabriel da Cachoeira desde a época dos mis. Vá- rias ações foram executadas para dar conta dessa MATRÍCULA INICIAL . Cucuí e Semec 2005 a 2008 Iauaretê. cativas.959 - - 7.386 de proposta elaborada na época em que Gersem 2001 5.614 194 240 12.698 3. mação de alunos.ao que se sabe. embora não estejam claras as motivações .448 456 314 11. 2004. Nesse pe- foram cadastradas como escolas indígenas. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO terras indígenas24 (das quais quatro em pelotões de fronteira do Exército: Querari. de acessar recursos diferenciados destinados às escolas indígenas. No período. as escolas da rede estadual que funciona. demandas coletivas vão se espalhando pela Sob responsabilidade federal. demandas duas escolas de educação infantil e uma de ensino por investimento em estratégias de ação e em po- fundamental até a 4ª série. Pari-Cachoeira e Maturacá) a política de educação nas comunidades. Foi uma época em que os povos indí- vam na sede das missões salesianas localizadas em genas puderam.340 5. as situadas na zona urbana. Na rede particular. de 1997 a 2003. como os povos que vivem no alto rio Negro queriam que funcionassem suas escolas.25 ríodo. aumentou consideravelmente o Em 2005. de apoio às comunida- DE SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA des.211 barco-escola foi usado de acordo com o previsto Fonte: Brasil. 1999 5.26 líticas que fossem ao encontro das propostas em Evolução da rede escolar municipal . Taracuá. Assunção outras instituições competentes. São Joaquim.429 apresentar as diretrizes específicas da política de 1998 3. videoteca. o que demonstrava a ampliação do rio.indd 36 5/31/12 2:33 AM . 2004. De acordo com os dados do Inep te para a educação escolar indígena em São Gabriel de 2003. professores e comunidades.609 Baniwa foi secretário da Semec.719 138 263 14.574 - - 5. Recentemente algumas dessas escolas . 36 024a087_CORR_V1.908 147 225 13.

para atender à diversidade étnica do rio Negro. 2006). • Respeitar horários e calendário escolar na diferenciada. participando efetiva.indd 37 5/31/12 2:33 AM . na co e definir suas parcerias. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA intercomunitárias tinham como objetivo ouvir PERFIL DO PROFESSOR INDÍGENA – e assessorar as comunidades indígenas para SEMEC/2006 repensarem suas escolas. garantindo tos político-pedagógicos específicos. É importante ressaltar rem como deveriam funcionar suas escolas. sem êxito. a educação escolar indíge. no. • Ser bilíngue falante da língua materna/ Encontros pedagógicos por calha de rio – Na épo. pre seguiram as orientações e diretrizes nacionais produzir literatura e materiais didáticos. • Criativo nas soluções de problemas a sistemática de elaboração dos PPPs. E assim foi feito! 37 024a087_CORR_V1. econô- ca municipal de educação com ampla participação mica. • Responsável em seus atos com ampla participação das lideranças de cada • Ter paciência comunidade. possibilitando a discussão de uma políti. esco- que as experiências feitas nas escolas piloto sem. calendário para a educação escolar indígena e tinham como de atividades. cultural e étnica dos professores e lideranças indígenas e outros en. a gestão e administração escolar. Discutia-se os • Sensível e compreensível objetivos das escolas.A comunidade”. mantido pela vontade livre e consciente da Apoio a escolas e reconhecimento de seus PPPs . planejado. Ampliou-se a discussão com PROFESSOR! SEJA TRANSFORMADOR DA as comunidades para a organização de conselhos SUA COMUNIDADE escolares a partir de uma reorganização territorial. construído e pelo Projeto de Educação Foirn e ISA. • Não se ausentar da escola sem o conheci- volvidos nesse processo de discussão da ressigni. mento da comunidade! ficação das escolas para esses povos” (São Gabriel da Cachoeira. a Escola Utapinopona – Tuyuka. além de aldeias onde • Ser professor – pesquisador não existiam escolas. através de parcerias. das em políticas públicas inovadoras. se tais experiências-piloto tives- Escola Ye’pa Mahsã – Tukano. a Escola Khu. a Escola Yupuri – Tukano e a Em outras palavras. que estavam maior autonomia aos povos indígenas para decidi- engavetados fazia três anos. suas propostas poderiam ser transforma- mente das discussões e reconhecendo seus proje. metodologia de trabalho pedagógi- meta principal influenciar as políticas públicas. que tinham como meta orientar os • Ser participativo na comunidade professores na avaliação das escolas existentes • Objetivo em suas opiniões nas comunidades e na elaboração de um projeto • Lealdade com a justiça político-pedagógico (PPP) próprio. política. A secretária Edilúcia visitou pessoalmente 80% das comunidades • Ser educador indígenas do município. definir sua política linguística. muno Wu’u – Kotiria. ção Educacional cer in loco as realidades específicas de cada povo • Sabedor da Filosofia da Escola Indígena indígena. flexibilização de seus programas e planos de gover- a Escola Pamáali – Baniwa e Coripaco. com base nas “Todo projeto escolar só será escola indí- experiências das escolas piloto implementadas gena se for pensado. Gersem Baniwa Semec passou a apoiar política e financeiramente. • Exercer as funções: social. português ca foram organizados dez encontros de formação • Coerente em suas atitudes continuada para professores indígenas municipais. lher seus professores. método de • Ser corajoso no momento da dificuldade ensino via pesquisa e sistemas de avaliação. “Com • Conhecer os direitos coletivos e a Legisla- essa iniciativa os técnicos da Semec podiam conhe. linguística e cultural dessas escolas.

ocorreu em cinco regiões de. o ensino fundamental completo. A Secretaria realizou reuniões mensais com nas terras indígenas. O foi diminuindo. grandes mudanças aconteceram. são desafios que vamos enfren- método de ensino foi via pesquisa: os alunos ela. da equipe técnica da Semec e outras atividades. formação calha de rio. posteriormente. o II Magistério foi interrompido e retoma- • realizar oficinas de construção dos proje. cipal de Educação e. ISA e Ipol) com vistas à implementação de par- NO INFORMATIVO SEMEC DE 2006 cerias para realizar a formação continuada dos • Promover os encontros pedagógicos por professores de ensino fundamental. resposta para as comunidades e atendendo aos pa.500 alunos no 27  Em fevereiro de 2011 aconteceu uma etapa intensiva em São Gabriel. que passou a gerir as etapas presenciais deste Temos três escolas na sede do município e 201 curso. Aumento da demanda pelo ensino fundamental • elaborar projetos para captação de recur. Esse ano temos mais pedidos de escolas boraram projetos de pesquisa em conjunto com que querem a educação diferenciada. a tos político-pedagógicos. mas as negociações nem sempre avançaram o lização dos mesmos. portanto não mais perseguindo a proposta político-pedagógica original do curso. financiada e gerida pedagogicamente pela Seduc. Estado. Edilúcia de Freitas assume a Secretaria Muni- • participar ativamente dos conselhos mu. mas todas apre- colar indígena diferenciada no município. tando. regiões de origem. frente à Semec. visando possibilitar que • reformular as leis que regem os conselhos as crianças e os jovens permanecessem nas suas municipais da educação. • investir na elaboração de um novo plano Cresceu vertiginosamente a demanda das comu- de educação do município. Com isso o limitadas por famílias linguísticas. Fechamos 2006 com 204 escolas. Estamos dando essa partir das problemáticas levantadas em cada eta. pedidos. definidos a fundamental diferenciado. sentavam essa demanda. nidades por ensino fundamental completo em • investir na formação do professor munici. e que concentrou quase todos os polos (exceto os Yanomami de Maturacá) na cidade de São Gabriel. primeiros dois anos de mandado: “em 2005 tínha- mos onze escolas com ensino fundamental com- Curso de formação em Magistério Indígena II – pleto. Em 2004 tínhamos 5.indd 38 5/31/12 2:33 AM . temos 545 professores e 9 a Foirn e as organizações não governamentais mil alunos.Durante a gestão de Edilúcia de Freitas sos para a realização das oficinas. o ensino os professores e suas comunidades. suficiente para garantir o cumprimento das eta- • realizar oficinas de orientação pedagógica pas previstas27. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO que trabalhavam com educação indígena (SSL. • encaminhar os PPPs e o processo de lega. Algumas escolas existiam há 20-30 pal para o fortalecimento da educação es. II. 38 024a087_CORR_V1. avalia seus nicipais. anos e outras eram mais recentes. de acordo com as demandas. Para dar prosseguimento. geralmente nas terras indíge- • redimensionar a estrutura do conselho de nas demarcadas. suas escolas. Secretaria procurou estabelecer várias parcerias. A Semec compôs e ajudou a criar a coorde. atendendo 325 quadro de professores aumentou e o recurso alunos oriundos de todos os rios do município. hoje são 50 escolas que estão assumindo iniciado em 2005. do por várias vezes. • fazer parcerias para desenvolver educação Por questões orçamentárias do município e do inclusiva no município. OBJETIVOS DA SEMEC (2005-2008). Em nação multi-institucional do Magistério Indígena 2007 ainda não sabemos quantas vamos abrir. completo . alimentação escolar.

ges. Em 2006. to de 81% no número de alunos”. na gestão de Edilúcia resultaram de um processo reunião ordinária da Câmara da Educação Básica de articulação entre diversas instituições que atu. Neste evento histórico para o CNE participantes.28 A demanda Seduc. dando início a um processo de formação. e determina que Foirn em São Gabriel da Cachoeira organizada estas línguas sejam usadas nas instituições públi. e a responsabilidade de cada instituição parceira. línguas cooficiais.indd 39 5/31/12 2:33 AM . regulamenta a Lei n. existia. ISA. apresentar as experiências de educação escolar rios estes organizados pela Foirn. 210/2006 que tentado desenvolvido pela Foirn e seus parceiros. 145/2002 que cooficializa as Em fevereiro de 2007 foi realizada uma reu- línguas indígenas tukano. Semec. contando com a participação do MEC. Esta reunião foi considerada uma audiência movimentos acontecidos na região para que as pública para o CNE. no Equipe de trabalho .As mudanças ocorridas então conselheiro indígena Gersem Baniwa. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA censo escolar. pois Gersem solicitou o pro- mudanças inovadoras fossem se concretizando. baniwa e nheengatu nião de formação continuada na maloca da em São Gabriel da Cachoeira. São Gabriel da Cachoeira. por indicação do Gestão compartilhada . No primeiro seminá- por ensino fundamental autogerido no sistema rio os participantes apresentaram suas demandas municipal desdobra-se em demanda por ensinos e problemas e os representantes das instituições médios nos anos seguintes. e um cur. implementou um processo de discussão para a também foram debatidos os objetivos das escolas aquisição da merenda regionalizada. sistematizar fundo municipal de política linguística. firmaram publicamente seus compromissos. nunciamento da Câmara sobre questões relevan- Foram realizados dois seminários de educação tes mas que vinham travando o desenvolvimento escolar indígena (2005 e 2006) onde foram assina. a Semec aprovou a Lei n. ISA. 2007. para de educação escolar indígena para a região do discutir conjuntamente uma política linguística e rio Negro. 28  Brasil. ficando estabelecidas as Conselhos Municipais . para implementação da educação e para a região.Reestruturou e montou segundo seminário foi avaliado o termo de com- uma equipe técnica de trabalho. por Foirn. Funai. discutir um do conselho municipal de política linguística. que antes não promissos do ano anterior. das políticas e ações de educação escolar indí- dos termos de compromissos entre as instituições gena no país. os resultados alcançados e fazer um plano de so de credenciamento de tradutores para as três ação para os anos seguintes. EAF/AM (atual Ifam). dígena multi-institucional em 2003. Cedac e SSL. Em março do mesmo ano. do programa de formação continuada. a 14a. avaliar as ações realizadas a partir da de gestão dos conhecimentos nessas línguas. e assinado um novo. de lá para cá tivemos um aumen. O criação da coordenação de educação escolar in- seminário deliberou a criação do dia das línguas.Reativou os Conselhos ações a serem implementadas nos anos seguintes Municipais de Alimentação Escolar e do Fundef. e Funai. Seminá. Semec. de construir coletivamente um novo programa tão do conhecimento e tradução cultural. do Conselho Nacional de Educação (CNE) é reali- avam à época com a educação escolar indígena zada na maloca da Foirn em São Gabriel da Cacho- em São Gabriel da Cachoeira.Nesse ma Regional de Desenvolvimento Indígena Sus- período. SSL indígena vividas em suas comunidades. Diversos foram os eira. visando sua efetivação. os povos do rio Negro puderam escolar indígena na região do rio Negro. com cas e privadas do município. a Semec financiamento da Secad/MEC. 39 024a087_CORR_V1. indígenas e a adequação das mesmas ao Progra- Cooficialização das línguas indígenas . com os objetivos realizou o Seminário de política linguística.

época professores indígenas que se destacaram pas preparatórias para a I Conferência Nacional de como lideranças desse processo e foram escolhidos Educação Escolar Indígena (Coneei). to Pedro Garcia não estar atenta aos termos do vação de um Plano de Ação Articulada (PAR) no convênio. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO a formação dos Assessores Pedagógicos Indígenas I CONEEI – CONFERÊNCIA NACIONAL DE (APIs) que teriam como missão principal orientar EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA os professores indígenas na elaboração dos PPPs. templava o desenvolvimento de ações pelo muni- mentação dos territórios etnoeducacionais. do alto rio Negro. o PAR incluiu a formação diferenciada de compromissos para a prática da interculturali. Esse não foi criado o conselho gestor que irá acompa. Plano de Ações Articuladas . Entretanto. materiais pedagógicos) de realiza- ção do acompanhamento escolar em suas sub-re- Em dezembro de 2008 é realizada a Conferência giões nas terras indígenas do município. escolas indígenas de sua área de abrangência. na perspectiva da imple. e também Regional de Educação Escolar Indígena na maloca na cidade de São Gabriel da Cachoeira. APIs. cípio. que visava apoiar finan. ampliando vagas para novos APIs do mé- sas ações estava a formação da equipe da Semec e dio rio Negro. a Foirn apresentou um projeto ao cação escolar de qualidade. Nos anos seguintes tais ações foram rea. esse 40 024a087_CORR_V1.indd 40 5/31/12 2:33 AM . modelo vinha sendo experimentado no âmbito das nhar a execução do plano do TEE/RN. nas áreas de gestão propor diretrizes que possibilitem o avanço educacional. cas e avaliação. dos entes federados cos. corrência disso. ao longo de quatro anos. realizada em como representantes de 22 diferentes sub-regiões Luziania/GO em novembro de 2009. e periodicamente participaria de valiadas e novos termos assinados. com relativo sucesso. Dentre es. que visava acessar dígena nas comunidades do alto rio Negro. 13/09 da Secad/MEC. Na Conferên. escolas piloto. tanto a educação in. infraestrutura e recursos pedagógi- tes dos povos indígenas. No início de 2009. uma rede de 22 Assessores Pedagógicos Indígenas. Edital n. segundo critérios étnicos e de cia Regional foram pactuadas as primeiras ações proximidade sociopolítica. um termo aditivo para garantir o recurso. uma das eta. o município perdeu o fi- ceria e através de uma gestão compartilhada com nanciamento do PAR. Os principais objetivos foram: consultar produção de material didático nas línguas indíge- os representantes dos povos indígenas e das nas e a assessoria aos demais trabalhos feitos nas organizações governamentais e da socieda. como recursos para dar continuidade à formação dos nas escolas municipais em área urbana. de sua sub-região. dade na educação escolar indígena. que orientava a necessidade de pedir Ministério da Educação. de civil sobre as realidades e as necessidades O Plano de Ações Articuladas do município de educacionais para o futuro das políticas de São Gabriel da Cachoeira foi elaborado e aprovado educação escolar indígena. garantindo-lhes melhores condições (infraestrutura. formação de professores e de profissio- da educação escolar indígena em qualidade nais de serviço e apoio escolar. à da Foirn em São Gabriel da Cachoeira. Os APIs. Dentre as conquistas para a educação escolar e das organizações a construção coletiva de indígena. equipamentos. discutir propostas a partir de um diagnóstico participativo feito pelo de aperfeiçoamento da oferta de educação município em parceria com técnicos do MEC. Em de- ceiramente ações para a implementação da edu. Apesar do projeto aprovado. e pactuar entre os representan. devido à gestão do prefei- as várias instituições rendeu para a Semec a apro.O trabalho em par. práticas pedagógi- e efetividade. Con- escolar indígena. e também ticas político-pedagógicas por eles coletados. até o etapas de formação e análise dos dados sobre prá- momento este plano não foi executado. Cada API em processo para o Território Etnoeducacional do rio Negro de formação faria o acompanhamento das escolas (TEE/RN).

Os APIs foram reconheci- também uma mini gráfica para a cidade. tica de educação escolar indígena em São Gabriel por meio de oficinas pedagógicas temáti- da Cachoeira. professores nas então chamadas escolas- fatizar: recursos insuficientes para executar a políti. to na formação de professores indígenas. FORMAÇÃO E levar adiante seu processo de formação. e de garantir assesso. res participavam do I Magistério Indígena culdades para atender e conseguir financiar escolas promovido pela Semec. Nesse contexto. Enfrentava ainda o desafio de ências. para participar nas discussões em outras formadas para tal trabalho de desenvolvimento de escolas/comunidades. sem ORIGEM. e seu papel fortalecido e incentivado Na prática. legislações federais. Rio Negro realizou importante investimen- Dificuldades enfrentadas . figurar na região do alto rio Negro. em outras regiões. constituição de redes de escolas com pro- nas distribuídas em toda esta extensão – requeria postas específicas. O Projeto Educação Escolar Indígena do zação perdendo o ímpeto dos anos anteriores. com reais condições de a produção de materiais didáticos. Mas com CONTRATAÇÃO DE APIS a falta de apoio político. no município ou até pedagógicas e linguísticas. por meio de placas uma equipe pedagógica indígena atuante solares. outros eventos. a partir da contratação de uma equipe de las diferenciadas na região sempre tem sido proble. Concomitantemente. pessoas mais experientes sendo substituídas e sua mobili. L aise D iniz e M elissa de O liveira praticamente toda a equipe foi renovada. pois a organiza. Atentando a esta situação surgiu a buscar recursos específicos para a realização das ideia de institucionalizar a categoria de As- oficinas pedagógicas nas calhas de rio. várias dificuldades foram enfrentadas. pedagógico e logístico. 22 assessores pedagógicos indígenas para mática. Ao longo deste processo alguns pro- adaptadas às limitações ecológicas da região do rio fessores/gestores das escolas foram se Negro. Educação Indígena realizados pela Foirn. a implementação de projetos de esco. A par- Um município com uma extensão de 109 mil tir de 2006. toda na cida. não tendo também de onde tirar articuladores e multiplicadores de experi- os recursos para isto. passam a ter papel central na km2 . consiste simplesmente em mais uma ca- de. dos. como mec não tinha. assessorias externas. que não a formação continuada como antes. cas. Falta de condições para elaborar e publicar tornando pessoas de referência no debate materiais didáticos nas línguas indígenas. de eventos regio- pesquisas e realização de oficinas para elaboração nais e alguns começaram a atuar como de materiais didáticos específicos. docentes no Magistério Indígena II.Para avançar na polí. -piloto. seia em pequenas comunidades ou grupos locais. de equipar as escolas nas comunidades com tegoria profissional. os APIs seguem atuando até hoje. de Seminários de indígenas com seis a oito alunos. de capacitar professores e lideranças para nas comunidades. Passam a ser chamados rias permanentes para as diferentes calhas de rios. e não mais sessor Pedagógico Indígena (API). os professo- ca da educação escolar indígena diferenciada. que começava a se con- uma infraestrutura de transporte fluvial que a Se.indd 41 5/31/12 2:33 AM . PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA recurso ainda não foi recebido pela Foirn. e sim na formação de energia sustentável e limpa. a partir em torno da educação escolar indígena de pesquisas e assessorias técnicas antropológicas.então com 158 escolas municipais indíge. adquirindo gerar mudanças. em sua microrregião. Antes ou depois da promulgação das novas todo o município. difi. e de encontros de dentre as quais a secretária Edilúcia costumava en. programas nacionais e outros 41 024a087_CORR_V1. e ção social dos povos indígenas do rio Negro se ba.

muitas funcio- eleições de 2008. en- históricas concretas dos povos indígenas. da Semec na gestão de Edilúcia de Freitas. paralisando as formações dos APIs tinuam enfrentando grandes obstáculos. devido à e dos técnicos da Semec. que operam segundo a lógica consideravelmente seu diálogo com a sociedade tradicional. mobilizando e viabilizando uma nando com infraestrutura precária. Agora sim. a aliança se consumava. elaborando e Estado de Educação do Amazonas).indd 42 5/31/12 2:33 AM . Acreditava-se que uma gestão indígena conso. nem construções de escolas. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO documentos favoráveis a implantação de escolas As decepções vieram logo no primeiro ano indígenas específicas. auto-sustentabilidade. incom- décadas. prioridades e interesses do nicipais situadas nas terras indígenas Alto Rio Negro movimento indígena local. serão negociados pela Foirn havia se preparado para este momento não mais com a Secretaria Municipal de Educa- alto e histórico se articulando. articulou uma ampla aliança intraétnica para as sem merenda e material escolar. orga. -institucional foi desfeita e a Semec diminuiu estadual e nacional. a primeira tentativa dessa natureza acabou considerar nestes últimos três anos foi a valoriza- não se confirmando. da atual gestão. ção (Semec). O magistério indígena ficou Na perspectiva de implementar um projeto de parado por dois anos. são inicialmente rejeitados. e nas volvendo mais e mais comunidades e escolas mu- estratégias. e do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE). ram perdidos. o movimento indígena local realidade as escolas indígenas estão desassistidas. definida num sistema burocrático e rígi. Apenas neste ano de Tempo de administradores indígenas 2011 foi aprovado um projeto para a construção (2009-2012) de escolas indígenas. civil. barreiras. tas de ensino médio. suas conquistas passariam a ter do ensino fundamental. demandas. que inspiram suas propos- respaldo e apoio do poder público municipal. ambos do A Seduc e os ensinos médios quadro histórico do movimento. concretiza-se na criação e legal- gena fortaleceria ainda mais sua luta. a coordenação multi- estrutura verticalizada dos sistemas educativos local. pela primeira vez ção dos profissionais da educação. sendo retomado em 2011 autonomia que atendesse aos anseios dos povos com nova organização pedagógica. impulsionan. Seus projetos político-pedagógicos essa caminhada. interculturais. Quatro anos recursos do PDDE. Nos anos seguintes. aí passam a experimentando projetos inovadores durante três enfrentar inúmeras dificuldades. saúde.. A mobilização em torno da educação escolar lidaria os projetos próprios baseados nas vivências indígena na região de São Gabriel da Cachoeira. O 42 024a087_CORR_V1. formando suas lideranças. com aumento na história do movimento indígena local e do de seus salários. acompanhamento pedagógico e sem acesso aos tida com seu projeto de autonomia. A chegada ao poder consolidaria toda preensões. O movimento indígena coordenado mam no ensino fundamental. mas sem apoio do várias destas escolas quando seus alunos se for- governo local. mobilizando. O único avanço que se pode antes. elegendo um prefeito e um vice-prefeito indígenas. Que uma gestão indí. ização de escolas indígenas de ensino fundamental do programas e projetos inovadores de interesse completo. não foram feitas presta- do que não se flexibiliza para atender as inovações ções de contas de recursos da merenda escolar propostas e conduzidas pelas escolas indígenas. e Médio Rio Negro. além de outras políticas já Como veremos nas experiências relatadas ao iniciadas pelo movimento por conta própria e com longo do livro. Diante desta indígenas da região. mas com a Seduc/AM (Secretaria de nizando. município. com pouco candidatura exclusivamente indígena comprome. ensinos médios demandados por apoio de assessorias externas.. Os recursos do PAR Indígena fo- muitas iniciativas vanguardistas enfrentaram e con. multilíngues. com amplo apoio político e pedagógico das comunidades nas áreas de educação.

que cada escola. fosse substituído professores e outros participantes realizaram as- por projetos político-pedagógicos das escolas.AM). Nesses lugares. © Fernando José de Oliviera/Instituto Iraquara. cursos com o tempo necessário para a formação Lideranças. Os primeiros ensinos médios planejados de forma mais autônoma e com propostas político- pedagógicas inovadoras na região. as dificuldades nas lizar os conhecimentos tradicionais das etnias. Reivindicaram um calendário mente pela Semtec/MEC e pelo Conselho dos diferenciado. por meio da pesquisa. (Camargo & Albuquerque. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA ensino via pesquisas e sem disciplinas é recusado. sino médio próprio. algumas comunidades optaram por começar a funcionar seus ensinos médios com apoio e incentivo da Semec (Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira . 2006 Diante disso. Apesar de contar com professores con- tratados pelo estado. pais. do aluno. turmas estão se formando sem receber seus diplomas. por parte do poder público mu. passando essa responsabilidade para quem ações concretas. Queriam mudar a gestão das es- (democrática. com apoio do Projeto de Educa- ção. elaborado e executado pelos próprios índios. que cada escola passas- MEC) na implantação do ensino médio específico se a ter seu próprio projeto pedagógico. no negociações entre comunidades e Seduc ficando diálogo com as outras culturas. substituindo as ções exigiram uma postura mais responsável irmãs diretoras. suas línguas. à espera de processos morosos no âmbito da Seduc em Manaus. cuja colmeias na Escola Tuyuka. Alguns destes ensinos médios não foram reconhecidos até hoje pelo governo do estado do Amazonas. com uma previsão de duração dos Professores Indígenas do Alto Rio Negro (Copiarn). promovido conjunta. de pantes se posicionaram e pediram insistentemente forma a valorizar os saberes tradicionais dos po- que o regimento escolar da Diocese de São Gabriel vos. escolas e organiza. tem as melhores condições de responder por ela. os próprios índios. 43 024a087_CORR_V1. avaliação das Escolas Tuyuka e Pamáali (Baniwa e Coripaco). para comunicar pudessem ser amplamente discutidos entre pro. Os partici. refletida em colas. pensado. aguardando o reconhecimento posterior da Se- duc (Secretaria de Estado de Educação do Ama- zonas). os da Cachoeira. críticas. Taracuá e Assun- o Seminário “Os povos indígenas no alto e médio ção do Içana começaram a fazer uma proposta rio Negro e a educação escolar: construindo um de descentralização e de implantação de um en- ensino médio específico”. 2006). as suas línguas e cultura. alunos. organizações indígenas e a cais e fazer os encaminhamentos necessários para comunidade em geral. nicipal (Semec). em funcionamento. e diferenciado nas escolas indígenas. Vinha ganhando força. tomar as decisões lo- fessores. os resultados do Seminário. foram os das Aluna Lenilza Marques Ramos. estadual (Seduc) e federal (Semtec/ ou seja.indd 43 5/31/12 2:33 AM . até que em 10 de março de 2004 acontece As escolas de Pari-Cachoeira. respeitando a diversidade a implantação já decidida e apoiada pelas autori- cultural dos povos indígenas. associações. solidária e de respeito). comunidade São Pedro mobilização nesse sentido já vinha acontecendo há vários anos. seu pa­ dades presentes. e uma gestão indígena. Essa demanda por ensinos médios vinha se trimônio histórico. que sembleias com as comunidades. trabalhando de espalhando. inclusive nas escolas estaduais mais forma crítica. passasse a uti- antigas.

sendo determinada à Funai a demarcação administrativa de cinco terras indígenas contí- guas na região do alto e médio rio Negro 1996 • IX Encontro da Copiar (Comissão de Professores Indígenas do Amazonas e Roraima) é realizado em São Gabriel da Cachoeira • Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) define e regulariza o sistema de educação brasileiro com base nos princípios presentes na Constituição de 1988 1997 • Resolução nº 99 do Conselho de Educação Escolar do Amazonas (CEE/AM) fixa competên- cias para os municípios na estruturação do seu sistema de ensino. durante a II Assembleia dos Povos Indígenas do rio Negro • Realização da II Assembleia dos Povos Indígenas do rio Negro (que tratou de questões como Projeto Calha Norte. desde a década anterior. atual ensino médio. uma Comissão Interinstitucional para elaborar uma proposta de diretrizes para a educação indígena no Estado do Amazonas 1994 • Definição pelo MEC das Diretrizes para a Política Nacional de Educação Escolar Indígena 1995-1996 • Declaração pelo ministro da justiça da região como área de posse permanente dos índios. por solicitação do MEC. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO CRONOLOGIA GERAL DA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA NO ALTO RIO NEGRO 1914-1950 • Instalação de sete grandes sedes de missões salesianas na região do alto rio Negro: São Gabriel (1914).indd 44 5/31/12 2:33 AM . Taracuá (1923) e Iauaretê (1929) no rio Uaupés. situadas fora dos centros missionários mas também sob administração do governo do Estado e super- visão pedagógica das irmãs salesianas 1980 • Fundação da Escola de Cucuí (Decreto Lei no. em Iauaretê 1990-1994 • Primeiro curso de ensino superior oferecido pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) na cidade de São Gabriel da Cachoeira: Licenciatura em Filosofia 1991 • Implantação do ensino fundamental completo na escola Nossa Senhora de Assunção (médio rio Içana) • Decreto nº 26/91 transfere da Funai para o MEC a responsabilidade pela coordenação das ações de Educação Escolar Indígena. Pari-Cachoeira (1940) no alto rio Tiquié. e transfere aos estados e municípios a responsabili- dade pela sua execução • O Instituto de Educação Rural do Amazonas (IER/AM) passa a coordenar as ações de ela- boração e execução da política educacional indígena no Estado do Amazonas • IER-AM e outras entidades formam. Barcelos (1924) e Santa Isabel (1942) no rio Negro. 4870 de 24/03/1980) 1983 • Implantação da Secretaria Municipal de Educação em São Gabriel da Cachoeira 1987 • Fundação da Foirn em 28 de abril. regularização das terras indígenas e declaração da explo- ração de ouro pelas empresas Goldamazon e Paranapanema no garimpo da Serra do Traíra como ilegais • Retirada de garimpeiros que. incluindo normas espe- 44 024a087_CORR_V1. Nossa Senhora de Assunção (1953) no rio Içana 1948-1953 • Atuação da missionária evangélica Sofia Müller no rio Içana Anos 1980 • Gradativa desativação do sistema de internatos salesianos na região 1960-1990 • Composição gradual da rede de escolas rurais em comunidades indígenas. e da Serra do Caparro no rio Cuiarí • Retirada de empresas mineradoras que haviam se instalado na região 1988 • Início do funcionamento do 2º grau. haviam invadido toda a região do baixo rio Negro às regiões fronteiriças de Serra do Traíra (ao sul do Tiquié). na Escola São Miguel.

dentre outros aspectos. do Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas maio 1998 • I Seminário de Educação Escolar Indígena no Estado do Amazonas (alto. rio Solimões. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA cíficas para as escolas indígenas. médio e baixo rio Negro. na “condição de escolas com normas e ordenamento jurídico próprios” e garantindo-lhe au- tonomia pedagógica e curricular. rio Purus e baixo rio Amazonas) 1998-2002 • Magistério Indígena I é realizado em São Gabriel da Cachoeira – AM 1999 • Criação do Sistema Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira (Lei no. em São Gabriel 1997-1998 • Formulação do projeto para a consolidação da demarcação e do plano de proteção e fis- calização da área. que assessora o Conselho Estadual de Educação. 003 de 05/04/2000: reconhecimento da criação de escolas da 45 024a087_CORR_V1. assume a Secretaria Municipal de Edu- cação de São Gabriel da Cachoeira 1997-2000 • Implantação do Programa Construindo uma Educação Escolar Indígena pela Secretaria Mu- nicipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira 1998 • Ministro da Justiça entrega os decretos de homologação das cinco Terras Indígenas de- marcadas durante a 6ª Assembleia Geral da Foirn (15 de abril de 1998) • Estado do Amazonas cria o Conselho de Educação Escolar Indígena do Amazonas (CEEI/ AM). ISA e associações de base locais julho 1997 • I Conferência Municipal de Educação encaminha consulta pública sobre a situação e a pers- pectiva da educação escolar no município. além de acompanhar e avaliar as escolas indígenas • Publicação pelo Ministério da Cultura. que garantam a implantação de uma educação diferenciada e de qualidade (art. através do decreto n.indd 45 5/31/12 2:33 AM . com proposição da categoria escola indígena • Resolução nº 3/99 do Conselho Nacional de Educação fixa diretrizes nacionais para o funcionamento das escolas indígenas. Yanomami (CCPY) e Waiãpi (Iepé/AP) • Início do Projeto Educação Escolar Indígena do Rio Negro. 064 de 17 de novembro de 1997) • Operação um Dia de Trabalho (OD) direciona o resultado da campanha de 1997 de levan- tamento fundos por estudantes secundaristas da Noruega. realização das atividades de demarcação física das Terras Indígenas do alto rio Negro 1997-1999 • Gersem José Luciano dos Santos. 87 de 24 de maio de 1999) • Parecer nº 14/99 da Câmara Básica do Conselho Nacional de Educação aprova as Diretri- zes Curriculares Nacionais da Educação Escolar Indígena. para educação escolar indíge- na no Brasil: povos do rio Negro (Foirn e ISA). 065 de 11 de outubro de 1997) • Criação do Conselho Municipal de Acompanhamento e Controle Social do Fundo de Ma- nutenção do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério de São Gabriel da Ca- choeira (Lei n. 2000 • Domingos Sávio Camico Agudelos assume a Secretaria Municipal de Educação do município • Regularização da rede de antigas escolas rurais. do povo Baniwa. orienta o estabelecimento do regime de colaboração entre União. como a criação da categoria escola indígena. 38) • Criação do Conselho Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira – AM (Lei no. rio Madeira. órgão consultivo e deliberativo. em parceria entre Foirn. agora reconhecidas enquanto escolas indí- genas. estados e municípios.

visando a construção de políticas públicas através do Programa Regional de Desenvolvimento Indígena Sustentável do Rio Negro 2004 • Início do funcionamento do Departamento de Educação da Foirn • Quelma da Silva Otero como Secretária Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira • Início do funcionamento do ensino fundamental completo na Escola Ye´pa Mahsã (baixo Uaupés) • Início do funcionamento do Ensino médio Cariamã (vinculado à Escola Nossa Senhora de Assunção) • I Seminário sobre Ensino Médio. na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal. desenvolvido em parceria Foirn. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO Rede Municipal de Ensino de natureza indígena (todas funcionando ainda apenas com o primeiro segmento do ensino fundamental.indd 46 5/31/12 2:33 AM .13 de 25/03/2002 cria 11 escolas indígenas de ensino fundamental completo no município • Criação da Escola Indígena Utapinopona Tuyuka (Aeitu) de ensino fundamental completo (Decreto Municipal n. fazendo uma interlocução em defesa dos direitos dos povos indígenas 2001-2002 • Aracy Coimbra à frente da Secretaria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira 2002 • Promulgada Lei de Cooficialização do Nheengatu. associações de base locais e ISA • II Reunião do Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena declara ser o Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena apenas órgão consultivo junto às comunidades indígenas (não mais normativo) 2003 • Alfredo Tadeu Coimbra é Secretário Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira • Criação da Escola Yupuri (inicialmente ainda com sede na Escola Hausirõ) de ensino fun- damental completo • Processo de avaliação externa do Projeto Educação Escolar Indígena do rio Negro (Foirn/ISA) • Lançamento do PRDIS. ou de 1ª a 4ª séries) • Criação da Escola Indígena Baniwa e Coripaco (Eibc) . através da Norad. 145 de 11 de dezembro de 2002) de São Gabriel da Cachoeira • Decreto municipal no. buscando ampliar o processo de reestruturação das escolas indígenas 46 024a087_CORR_V1. pela Seduc (Resolução no. com a finali- dade de orientar as ações do governo estadual. 118 de 09 de outubro de 2001) • Estado do Amazonas cria a Fundação Estadual de Política Indigenista (Fepi). passa a apoiar o Projeto Educação Escolar Indíge- na do Rio Negro. Tukano e Baniwa. pela Câmara dos Ve- readores (Lei no.Pamáali de ensino fundamental completo • 1ª Assembleia Geral do Copiam – Conselho dos Professores Indígenas do Amazonas • Aprovação. da Disposição 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). após oito anos de tramitação.13) • O governo norueguês. realizado em São Gabriel da Cachoeira pelo MEC Os Povos Indígenas no Alto e Médio Rio Negro e a Educação Escolar: Construindo um Ensino Médio Específico • Início do funcionamento do ensino médio na escola de Pari-Cachoeira (Escola Estadual Indígena Dom Pedro Massa) 2005 • Edilúcia de Freitas à frente da Semec (2005-2008): adota sistema de gestão comparti- lhada da educação escolar indígena. estabele- cendo os direitos dos povos indígenas e tribais no mundo 2001 • Aprovação do Programa Construindo uma Educação Escolar Indígena: Formação de Pro- fessores Indígenas no município de São Gabriel.

Apiarn. Funai. discutir um programa de formação continuada de Assessores Pedagógicos Indígenas (APIs) e professores indígenas. Semec. sediada na Ilha das Flores • Realização do II Seminário de Educação Escolar indígena. até hoje não aprovado ou reconhecido pelo governo do Amazonas. buscando concretizar a propos- ta de gestão compartilhada da educação escolar indígena. 210/2006 regulamenta a Lei n. ISA. após vários períodos de interrupção) • Projeto Político Pedagógico do Ensino Médio da Escola Indígena Utapinopona Tuyuka construído e encaminhado para o Conselho Estadual de Educação. • Realização de I Seminário de Educação Escolar indígena.indd 47 6/4/12 12:58 PM . Ufam. Fepi. criando uma coordenação de educação escolar indígena multi-institucional (Foirn. ISA. EAF. Seduc/AM. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA • Aprovação do projeto político-pedagógico do ensino fundamental da Escola Indígena Tuyuka. • Assinatura de novo TAC (Termo de Ajuste de Condutas) através de audiência pública rea- lizada pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão – Ministério Público Federal 2005-2007 • Ampliação da oferta do ensino fundamental completo na rede municipal (aumentando de 11 para 50 escolas) • Aumento em 80% do número de alunos da rede municipal de ensino: chegando a 3 esco- las na sede e 201 escolas em Terras Indígenas • Proposta e consolidação da Rede de Escolas Baniwa e Coripaco 2007 • Reunião de Formação Continuada (Foirn. Foirn. Cedac e SSL. 2006 • Lei n. 145/2002. e elaborando novo termo de compromisso entre as instituições. sistematizar os resultados alcançados. Semec. Copiarn. fazer um plano de ação para os anos seguintes 47 PAGINA 047. a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão – Ministério Público Federal – realiza audiência pública que resulta em Termo de Ajustamento de conduta – TAC. baniwa e nheengatu em São Gabriel da Cachoeira • Projeto Político Pedagógico do Ensino Médio Cariamã construído e encaminhado para o Conselho Estadual de Educação. com instituições assumindo os respectivos compromissos para com as escolas do município. pelo Conselho Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira • Criação da Associação Escola Indígena Tukano Yepa Pirõ Porã (Aeitypp) • Projeto Politico-Pedagógico da Escola Khumuno Wu’u entregue à Semec • Início da implantação de ensinos médios junto a escolas indígenas municipais situadas fora de centros missionários nas demais Terras Indígenas • Início do funcionamento do ensino médio integrado na Escola Indígena Tuyuka • Criação da Escola Indígena Enu Irine Idakine – Tariana de ensino fundamental • Implantação do primeiro segmento do ensino fundamental em escolas Hupd´äh do rio Tiquié • Início do Magistério Indígena II (ainda em andamento em 2011. avaliando o Termo de Com- promisso assinado pelas instituições em 2005. buscando concretizar a propos- ta de gestão compartilhada da educação escolar indígena (Semec/SGC. SSL. até hoje não aprovado ou reconhecido • Início do funcionamento da primeira turma de ensino médio da Escola Khumuno Wu’u • Implantação do ensino fundamental completo na Escola Aí Waturá. Na ocasião. que cooficializa as línguas indígenas tuka- no. organizações indígenas locais) para gestão da educação escolar indígena municipal. Funai. Cedac e SSL. dentre outros). ISA. com financiamento da Secad/MEC) para construção coletiva de novo Programa de Educação Escolar Indígena para a região do rio Negro: avaliar as ações realizadas desde 2005.

como sala de exten- são da Escola Estadual Irmã Inês Penha • Regularização do ensino médio da Escola Khumuno Wu’u como sala de extensão da Esco- la Estadual Indígena São Miguel. mobilizando e viabili- zando uma candidatura exclusivamente indígena. ser efetivada) 48 024a087_CORR_V1. Barreira Alta e Nova Fundação) • I Simpósio Internacional Diálogos Interculturais na Fronteira Panamazônica – Foirn. 2009 • O município perde o financiamento do PAR (Plano de Ações Articuladas do MEC). tendo André Fernando (Baniwa) como vice. NOVAS PRÁTICAS NA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA DO RIO NEGRO • Realização da 14ª reunião ordinária da Câmara da Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CNE) na maloca da Foirn em São Gabriel da Cachoeira • Elaboração e aprovação de um Plano de Ações Articuladas (PAR) do município de São Gabriel da Cachoeira. 2011 • Início do funcionamento do ensino médio na Escola Aí Waturá. sediada na Ilha das Flores • Implantação do ensino fundamental completo em Escolas Hupd´äh do rio Tiquié (Taracuá Igarapé. Ufam.indd 48 5/31/12 2:33 AM . prevendo a formação de uma rede de 22 Assessores Pedagógicos Indígenas (APIs) • Implantação do EJA (Educação de Jovens e Adultos) no nível de ensino fundamental II em escolas hupd’äh do rio Tiquié com professores hupd’äh e tukano 2008 • Início do funcionamento do ensino médio na Eibc-Pamáali como uma sala de extensão da Escola Cariamã (Assunção) • Regularização do funcionamento do ensino médio na Escola Tuyuka. sediada em Iauaretê • Início do funcionamento do ensino médio na Escola Ye´pa Mahsã (baixo Uaupés) com apoio pedagógico do IF-AM (Instituto Federal do Amazonas. Unesco • Parecer CNE/CEB nº 1/2011 em defesa de sua natureza normativa Conselho de Educação Escolar Indígena do Amazonas (CEEI). podendo atuar na regularização de escolas indíge- nas (requer homologação do ministro da Educação para. em São Gabriel da Cachoeira – AM. antiga Escola Agrotécnica) • Ensino fundamental completo funcionando na Escola Indígena Municipal Kurika • I Conferência Regional de Educação Escolar Indígena do Rio Negro. de fato. rotas de transformação – Formação do GT Insterinstitucional para am- pliar a consulta sobre o programa de formação avançada indígena do rio Negro. com discussão e pactuação de um Plano de Ação para o desenvolvi- mento e institucionalização da Educação Escolar Indígena no Território Etnoeducacio- nal do Rio Negro • Articulação de ampla aliança intraétnica para as eleições de 2008. devido à nova gestão da prefeitura não estar atenta aos termos do convênio • Ensino médio implantado na Escola Yupuri (em processo de reconhecimento pela Seduc) • Ensino médio implantado na Escola Kurika • Realização do seminário de Arrancada ao processo de consulta sobre Formação superior indígena no rio Negro – Foirn/ISA • Início do funcionamento do Curso de Licenciatura Indígena Políticas Educacionais e De- senvolvimento Sustentável/Alto rio Negro (Ufam) 2010 • Realização do 2º seminário do programa de formação avançada no rio Negro (Foirn/ISA) Manejo do mundo: conhecimentos indígenas e práticas dos povos indígenas do rio Negro • Realização do 3º seminário do programa de formação avançada no rio Negro (Foirn/ISA) Narrativas de origem. • Eleição de Pedro Garcia (Tariana) como prefeito de São Gabriel da Cachoeira.

atualmente) Marlui Miranda – etnomusicóloga Coordenadoras do Projeto de Educação ISA/Foirn Maurice Bazin – etnomatemático. PUC-SP 49 049_CORR_V2.Presidente Francisco Ortiz – antropólogo.Secretário Gilvan Müller de Oliveira – linguista. Vídeo nas Aldeias Almir de Oliveira – arquiteto Waldener Endo – ecólogo.Presidente Instituto Iraquara Domingos Barreto Tukano – Vice. Miguel Maia Tukano – Tesoureiro Instituto Iraquara Fabiana dos Santos Souza – ecóloga.Secretária Executiva Gustavo Pinheiro – administrador 2005-2008 Henri Ramirez – linguista. Unemat 2009-2012 Juliana Menegassi – ecóloga. Paes de Almeida – estagiária (2001) Pedro Garcia Tariana – Presidente Arnaldo Carneiro Filho – geógrafo. Oboré Raquel Viana Melo (2001-2002) Silvia Barhi – etnobotânica Renata Eiko Minematsu (2004–2007) Silvia Oliveira – educadora. Inpa Maximiliano Menezes Tukano – Vice-Presidente Carlos Alfredo Argüello – físico. Fundación Etnollano. Ipol José Maria de Lima Piratapuia . Unicamp Bonifácio José Baniwa – Secretário Elisângela Monteiro – Técnica em meliponicultura.Vice-Presidente José Ribamar Bessa Freire – historiador. Inpa Márcia Marques Ferreira (1999) Rodolfo Marincek Neto – analista de sistemas Melissa Santana de Oliveira (2005-2010) Rogério Gribel – biólogo. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA Diretorias da Foirn Andreza Andrade – jornalista 1997-2000 Anna Tereza O. Inpa Pieter-Jan Van der Veld (desde 1999) Sérgio Gomes – jornalista. Inpa Andrea Cesco Scaravelli – linguista. IPA André Fernando Baniwa . Som das Aldeias Coordenadores do Departamento de Educação da Foirn Marcus Schmidt – engenheiro florestal Madalena Paiva (2005 a 2009) Mari Corrêa – antropóloga. Unir Domingos Barreto Tukano –Presidente Jorge Paulo Nava – Biólogo. CPI/AC Laise Lopes Diniz (desde 2001) Ricardo Rettmann – estagiário (2005-2006) Lucia Alberta Andrade de Oliveira (desde 2004) Rita Mesquita – ecóloga. Vídeo nas Aldeias Denivaldo Cordeiro (2010-2011) Maria Nazareth F.Tesoureiro Glenn Shepard – antropólogo. Inpa/MPEG Rosilene Fonseca Piratapuia . Inpa 2001-2004 Fernando José Oliveira – técnico em meliponicultura. Orlando Oliveira Baré . Fiocruz Luiz Brazão Baré Márcia Abrahão – geógrafa. ISA Flávia do Val Marques de Azevedo (2002-2004) Renata Alves de Souza – designer gráfico Flora Dias Cabalzar (1998-2004) Renato Gavazzi – geógrafo. Ipol Ricardo Romcy Pereira (2000) Sirlene Bendazolli – educadora Consultores/Colaboradores Sully Sampaio – sociólogo Alexandra Aikhenvald – linguista Vincent Carelli – antropólogo. Ipol Walmir Cardoso – astrônomo. Inpa.Presidente Juliana Stropp – ecóloga Maximiliano Correa Menezes Tukano – Vice-Presidente Kristine Stenzel – linguista. Uerj Élio Fonseca Piratapuia José Strabeli – administrador Erivaldo Almeida Cruz Piratapuia Juan Gabriel Soler – videomaker Renato Matos Tukano Judite Albuquerque Gonçalves – Educadora. Inpa Abrahão de Oliveira França Baré . Ipol Marta Azevedo (1999 a 2006) Mauro C. Inpa Jucelino Azevedo (2011 .indd 49 6/2/12 2:27 AM . Lopes – engenheiro de pesca Carmen do Valle (2006-2007) Murilo Faria – estagiário (2007) Natalie Unterstell – administradora Assessores do Projeto de Educação ISA/Foirn: Nina Kahn – antropóloga Adeilson Lopes da Silva (desde 2005) Patience Epps – linguista. Edilson Meigueiro Baniwa . Irineu Laureano Rodrigues Baniwa Marcos Wesley de Oliveira – etnomusicólogo. University of Texas Aloisio Cabalzar Filho (desde 1995) Pedro Portela – cineasta André Martini (2008-2011) Renata Alves – ecóloga. da Silva – bióloga. UFRJ Erivaldo Almeida Cruz Piratapuia Luiza Garnelo – médica e antropóloga.

Como (na aldeia) não tí. Mas era um lugar onde o me- tukano durante o trabalho. Uma metamorfose. Eu estava acostumado a dor. E com os próprios índios. rapanã. Essa ferente. NO TEMPO DE VIVER SEPARADO 1 Á lvaro S ampaio T ukano Naquele tempo (anos 1960) todo mundo (os nhamos banheiro. bada do dom Luciano. acontecer na missão é que eu deveria frequentar guia fazer isso. seguida o pe.. Quando um ín- dio passa a ser um homem. porque o conselho da igreja local o banheiro sozinho. O primeiro dia e o ambiente da escola de fibra. veio o pe. em uma rede qual tinha uma numeração. Ele queria do vovô durante dias. O dom Luciano É claro que eu senti muita falta do meu pai ou sempre propôs fazer aquela paz (…). Que Eu não esperava que crescer num colégio me tipo de padre é esse? Eles foram a causa da derru. porque era sempre o fiscal. mosquitos que sugavam da gente. Disso não gostei. recebia uma roupa lavada pelas meninas e cada mir com meu pai ou com minha mãe. no recreio e nas aulas. Luciano e em toda essa assistência. eu não tinha mais padre Dalla Valle. uma casa. Quando cheguei no internato.. porque Miguel Alagna e colocou uma linha pesada. O que eu nunca esperava respeitar os índios como índios. Foi não era uma vida. no sentido de valentia.indd 50 5/31/12 2:33 AM . 1  Edição baseada na entrevista a Beto Ricardo. 50 024a087_CORR_V1. Na aldeia nós não tínhamos não estava de acordo. realizada em São Paulo (1981). E durante cinco anos bem encostada à deles. Flávio Di Giorgi e Sergio Haddad. Aí sempre fui cuidado pela minha salesianos. Antonio Scolaro. Eu não fui o único. mas não conse. quando ele começava a querer aprender coisa me atormentou na primeira noite. íamos fora da casa para fazer xixi pais) quis mandar seus filhos para os internatos durante a noite. o meu número foi 15. Mas assim Quando eu entrei no internato. custaria tanto sacrifício. a roupa era numerada. eles achavam aquilo feio. coisas dos velhos. outras vezes ficava com meu vovô. transcrição de Tatiane Klein. E mais tarde chegou dom Muitos choraram naquela noite. na primeira noite. nino índio educado naquele estilo era totalmente transformado. onde deveria se for- nesse tempo que nós fomos proibidos de falar mar um homem. Depois. não. Naquele tempo. A gente eu não me dei bem. uma casa tão fedorenta e nunca houve tanto ca- que já estavam domesticados para uma vida di. mãe. o diretor era o que passei a frequentar o colégio. Fugiram.

nunca precisou regar. Então eram coisas pesadas. Na comunidade eu fazia trabalho para o meu pai. médios e maiores. então os padres chamavam para tomar conta da cou muito reduzida. com o tempo. Na aldeia. pra limpar a missão. Foi totalmente diferente. ele batia. mas com calma. alunos. Era uma falta de consideração muito grande. Eu nunca carreguei uma panela cheia de estrume. cheguei a competir junto res. mas não gostei da atitude de colegas meus. A terra que nós temos lá. Quer di. Os maiores sempre avançavam na comida dos outros. Um para maiores. Quando o cara não apanhava do to. Aí nós podemos imaginar como Como nós não tínhamos voz para se queixar di- que é: o índio entra para ser agressivo nas esco. Então ficava encostado um no nhecíamos. nós éramos agredidos. até hoje. então nós. Porque. ga de saúde que eu tinha. porque a agressividade era enorme. que os tem que ser valente lá dentro. era castigo do padre. E os maiores. Por exemplo. escondiam nossos coberto- a conviver também. cortar todo aquele capim. Estavam maiores. que nunca doeu tanto. retamente ao irmão. outro. não consegui mais comer. Muitas vezes. no dormitório couberam 120 Em pouco tempo. quando o pai ficava bravo com o filho.indd 51 5/31/12 2:33 AM . No terceiro mês fiquei doente. geralmen. e os mais novos. os meninos índios nun- ca recebiam uma chamada de atenção com gritos. eles toma- 51 024a087_CORR_V1. O dormitório era do maior. que já tinham deixado a escola. E muitas vezes. era castigo de um cara que nós não co. 2009 da. Álvaro Sampaio Tukano zer. Mas era Havia três divisões de classe. Geralmente. Nós trabalhávamos duro. Eu nunca criei calos enormes na minha mão. Então todo mundo quando o pai trazia comida para o filho. eu ainda gostei da comi- © Beto Ricardo/ISA. Aí comecei a passar mal. nem ficar alegre. o jeito era derramar o pran- las salesianas. médios eram entre era castigo do pai. comecei vam a rede da gente. beram mais 90 e poucos. era melhor para ele. Geralmente Isso não foi porque eu era fraco. E ali não vam com 15 anos para frente. nas aldeias. com os outros. Tal coisa foi chocante para assistência dos alunos. sempre ficávamos para trás e éramos humilhados. grande. eram alunos que eu entrei no colégio. para regar as plantas. conforme a educação. para médios e outro para menores. que éramos pequenos. eles sempre terminavam. que tinham prática de trabalhar com fa- cão. Em pouco tempo. assim eram os salesianos. mas era trabalho que eu gostava. para as pessoas que iam a primeira vez. Pior ainda outro. fi. Era só rede. Aquilo. Maiores. falava sério. eu perdi todo aquele espí. maiores sempre ficavam de olho nele. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA Na primeira semana. Muitas vezes eles desata- mim. ele chamava atenção. Quando era preciso. Passamos muito tempo desse jeito. meu pai me chamava atenção. No dos pequenos cou- rito que eu tinha. outro morreu. que esta- um castigo de pai. Assim que te. era castigo 12 e 14 anos. não o pai se afastava ou então quando o menino co- passa de um terror. entrei com toda a car. que já tinham força. Quase morri. meçava a andar no meio dos outros. Assim. tudo Tinha os assistentes.

nem os Desana. E aí era uma tática de sobreviver dentro de uma miséria castigo. dentro da • Aulas até 11h30 subdivisão. que não respeitava ninguém. Quando houve guerra – no meu tempo. separado um do outro. de acordo Separações com a necessidade do tempo. orações e comunhão.indd 52 5/31/12 2:33 AM . Com outras tribos. futebol. banho. a vida de Domingos Sávio ou Dom Bos- na limpeza ou nas oficinas) co – que sempre foram modelos dentro da escola • Fila para jantar. a carga de atividades era me- Na tribo. fazer fila e entrar na igreja ros missionários. éramos obrigados a conversar. Mas os índios que não tinham recebido a crisma eram um grupo que ficava se- 52 024a087_CORR_V1. Mas. NO TEMPO DE VIVER SEPARADO vam tudo que era do menino. benção e jantar. houve uma total subdivisão. que deixava Sábado as atividades iam até 15h e daí a gen- os outros chorarem e que ainda gozava. vivência com as freiras era a mesma coisa. onde não havia laços de seguida de um período de estudos. ço. depois futebol salesiana. No internato era tudo misturado. hora da chamada de comportamento. • Fila para tomar mingau no refeitório Quer dizer. quando havia certas necessida. bola. Por • Banho de rio ou então trabalho (na roça. Então não houve Muitas vezes não dava para ficar em silêncio. recreação. Eles viviam em seus retiros. imaginar. Somente. Eles pensavam que os padres podiam • Retorno ao alojamento coletivo com o avi. ser valente era ser bom guerreiro. a gente ficava tímido. Todo sábado tinha a era bom. o padre dava a melhor explicação. Mas o tukano. E na sociedade • Seis horas da manhã: escovar os dentes e indígena naquela região isso nunca tinha acon- tomar banho no porto do rio tecido. com água e sal. As freiras vivendo em uma vida separa- Rotina diária e semanal da e os padres vivendo em outra. tempo lá foram os que ensinaram a gente a vi- de entre si. No colégio. Tuyuka não falava a língua Geralmente os padres que passaram mais tukano. des. Então eles faziam amiza. tão profunda. Os padres tinham uma convivência • Retorno ao dormitório para trocar de roupa particular deles. Mais tarde deu para perceber so do sino que o grupo de velhos que conheceu os primei- • Trocar de roupa. ao toque lon- tribo. Os índios sabiam de cor aquelas coisas • Estudo até 21h30 e claro que a gente tinha aquela aspiração de ser • Dormir como os padres. também ficaram separados • Retorno ao dormitório em outro canto. Às quintas-feiras. Eles geralmente chamavam as freiras de mulheres escravas. sem houve guerra. valente era bom de tempero. Muitas vezes. ter filhos também. E os para missa primeiros ex-alunos. educação. exemplo. fazer conforme a gente • Futebol imaginava. banho logo cedo. não Em geral a refeição era sopa. Então na con- uma língua oficial nas escolas. A ma- (aos sábados. A não ser uma tática de ser valente ou Surgia briga entre os pequenos também. Nos primei- ros tempos. de uma certa forma. os alunos recebiam uma neira de a gente acompanhar a vida dos santos foi roupa lavada pelas meninas) uma maneira de imitar. go do sino. Muitas vezes a comida era fedorenta. sabe? Só que aí nós fomos • Fila para almoço obrigados a ver. era ver assim. E nós já somos de outra geração. Esse espírito de competição não havia na Aos domingos. Esse te ia tomar banho e brincar. nor e havia peixe no jantar. almo- família. eles ficaram num grupo. missa em latim.

Era tempo te na missa. domingo. meçava a fazer a redação. via aquela régua grossa. depois a formar as muito bem. consoantes e vogais. a gente co- Cada um escrevia – por exemplo: papagaio. principalmente pela pergunta e resposta. Quan. era ditado. siva que isso me desgostou bastante. po era uma matemática mais agressiva. quando já sabía- do não tinha cartilha. A gente começou a fazer cópia também. jogo. não tinha nada. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA © Arquivo Diocese de SGC Pe. Tinha cartilha. A gente sabia o alfabeto. Outras vezes. era pela pedrinha de ditado. embo- ra soubesse. a questão era com o maior. a gente começava a aprender Havia ditado de trechos de livros. mos ler. para quem tinha maior capacidade. As meninas sentavam do esquema de palmatória. No primeiro ano. E assim a to que lia. por exemplo. pescando um pouco. e tinha toda aquela gramática.indd 53 5/31/12 2:33 AM . aquelas poesias de Olavo frases. A gente ia escrevendo lá. Eu vi muita gente cho- nos bancos de um lado e os meninos do outro. Naquele tempo. rar na aula de matemática. Estudando me- 53 024a087_CORR_V1. decorar quem é deus. Tão agres- Os meninos cruzavam com as meninas somen. e de tanto A pedagogia salesiana nervosismo não queria fazer nada. na semana de férias. João Marchesi e irmão Guilherme com alunos em uma oficina de carpintaria. entra matemática mês de junho. Já no segundo ano. Ou en. Ou então era uma gente ia apostando para ver quem era melhor. Era todo No segundo ano. a missa cantada. Catecismo é a maneira de um pouco. melhorar a caligrafia. Internato Salesiano de Iauaretê parado daqueles que tinham todo o sacramento. De menor para menor pescaria. A matemática daquele tem- e de quem não tinha comunhão. Trabalhando e catecismo também. Por exemplo: não foi uma grande coisa. Era interpretação do tex- tão tucunaré. a prova era semestral. ou então dos padres. Muitas vezes o aluno. Era separado. a fazer ditado para ver Bilac. Isso redação sobre um assunto qualquer.

E no fim o aluno era aprovado conforme a pondo nos bolsos das calças quando mandavam capacitação que ele manifestasse diante do pro. e não era ruim chegar perto. O dres colocavam na mesa certos tipos de objetos show era canto e se apresentar melhor. para os brancos: eles têm muita razão nesse ponto. um certo preço. NO TEMPO DE VIVER SEPARADO nos. centas perguntas. É quando começa a circular a Aos sábados havia uma avaliação de comporta. A gente via muito coisas do Viriato Correia e Porque se. quem era mais bruto. formação ou civilização que a gente recebeu. obrigados a fazer isso. O índio sempre veio do passado. ro naquele tempo. E as meninas pegavam. Porque nesse tempo começou do mais malandro. sempre convivem com seus pais. quem era bom. e nascem desse Nas aulas de história falavam do índio como ín. Até hoje. mas era uma alegria não Mesmo entre nós.. lavar. zis que não atiravam. e. gassem os militares. sim que eles gostavam. toda semana. que chega de fora. Tínhamos que assistir as paradas como índios e não querem ser índios também. E nós não sabíamos que está- mento. Usávamos fu- palavra índio é uma ofensa. Agora. da engenharia. Dos grandes. Tinha nota. decorar todos os E a mesma coisa com as meninas. mandava de volta já com a roupa limpa. portou melhor. então íamos somando pontos. ta do encerramento. porque hoje a maioria dos maiores sempre faziam desfiles com as paradas alunos da minha região expressa um português militares. era ficar 7 de setembro e 21 de abril. sempre tinha um prêmio. Agora. Por isso. Por isso que nós éramos sa. E os próprios. Aí você era ficava feio. tínhamos uma alegria. Cer- não tinha não. jeito. E têm uma alegria diferente. em latim. Somente na época das férias.. ele já não é descoberto. E essa ma- todas essas coisas aí.. E assim era o namo- fessor. não são mais considerados les fuzis enormes. Então o cara poderia comprar o As visitas vinham ver gente fardada cantando quanto o dinheiro dele desse. doados para a missão. Namorou. matemática era totalmente suas próprias irmãs. mas devido a uma exigência tão bruta. porque alguns expertos mandavam bilhetes. Educação física é conversar. principalmente. Claro que nós dio do passado. versar com eles. comendo sal. Era prova oral. Então éramos obrigados a falar português. Panair do Brasil. A gente tinha que decorar de trezentas a quatro. Da é pior para o alemão. História muitas vezes tam. Servia Castigo de pequeno era bom. para que pudéssemos con- Muitas vezes ele ignorava aquilo e continuava sen. Por exemplo. assim. Pode imaginar como foi essa com o hino nacional e da bandeira – que era fes. É pior ainda. No fim do ano sempre tinha festa tas coisas. Mas como programa de ensino com a irmã. entre os índios.indd 54 5/31/12 2:33 AM . gramática também. Agora a prova oral era justamente de catecismo. cantando o Hino Nacional. neira de viver separado – porque alguns tinham bém era oral. tem que sair fora. E aprendíamos canções militares. com aque- suficiente. Ele Melhorar a redação era útil para quando che- deveria ser distinguido para ser mais humilhado. que eles chamavam de festa Porque nós sabemos que os filhos dos brancos de gratidão. infantaria. Acho que deve ser pior por isso muito justa. por escrito. quando pegavam. Então todo tempo era show. aquele cara que se com. A menina que recebia aquilo. Os próprios irmãos não podiam falar capitão do time. quando vamos sendo apreciados. Era melhor para eles também. Os pa... porque a gente para treinamento de parada militar: desfiles do dia ficava encostado na parede. Todas as vezes des- na minha região. 54 024a087_CORR_V1.. Olavo Bilac. o índio é desconhecido pelos filávamos assim. a invasão da FAB. A militares. sempre atormentava em Pari – depois voltava. todo mundo com respeito. E a gente de Manaus chegava no fim do ano. usar far- de valor e davam para o aluno uma fichinha com da. Era as- Mas eu sei dizer que muita gente foi expul. O namoro era monumentos de Deus. de joelhos ou ficar com padre. que os salesianos ensinavam.. monumentos da igreja e uma coisa muito difícil abertamente..

fazendo o trabalho da roça. E. eram 20 alunos de cada ano. lhor coisa. podiam vigiar as pessoas. De- pois cada um tinha que comprar roupa suficiente. Eles para a escola. 55 024a087_CORR_V1. anos. nha muita festa de santo.indd 55 5/31/12 2:33 AM . quer dizer. Os pais obrigavam a gente a ir mavam um bloco de poder entre os alunos. Mas a ram e se casaram por lá. antes. que não conseguiria acompanhar. Quase 85% dos jovens que A relação com os pais e a comunidade aprenderam essas profissões se mudaram para a Quando acontecia algum evento na missão. E conseguia uns trocos. Ficáva. Aos poucos. As férias eram a me. confor- to significado pra gente. Essa parte profis- sionalizante não serviu nada. E vendiam frutas ou então alto rio Negro mesmo foi para a Colômbia. dificilmente eles única vantagem que eles tinham na missão é que. Compra. Para não sofrer retaliações dos padres. E recompensa de trabalhar na aprendizagem de ainda tínhamos que pedir permissão. lizante geralmente eram escolhidos pelo diretor Os pais geralmente ficavam longe. lembram dos pais. para escolher quem é Nas férias nós íamos todos para casa. Era meia hora ou então menos que isso. Agora. porque nós passávamos oito Eram 20 que faziam aquela profissão durante três meses no colégio e quatro lá. conversa era cortada. 3º. um nhamos aquela vontade de ficar mais tempo com trabalho mais bruto. Mas. então muita gente velho. nós tí. aprendido a língua portuguesa. Eram 20 em cada. mos quatro meses. Muitas vezes. A única coisa que foi boa na escola foi ter O material escolar era dado pela missão. o número de alunos era conviver totalmente com os pais e não dá para diferente. Era uma diferença enorme. diferença enorme. E o pai tinha uma profissão. 4º e 5º ano. durante o ano. um mês E depois eles diziam que isso serviria para o futuro. Na missão ti. até hoje. e a Nunca era fácil entrar em uma profissão. Cada um ia O trabalho era só para a gente aprender mesmo. fazia qualquer coisa. Geralmente na mecânica tinha uns dez aprender o que deveríamos aprender. espingarda ou roupa. Somente nas horas de melhor no comportamento. mas não era o determinado pelos estudos e também melhores no comportamento. Porque não dá pra gente me as áreas de profissão. munição. fizeram a vida por lá. balhava melhor em todos os sentidos – quer dizer. Porque aquilo que eu sei fazer. Mesmo na época de festa. Pegava anta e ia direto para ranjaram emprego em obra. mas tinham pessoas melhores nos menos. um Os alunos que passavam a cursar o profissiona- calção e uma calça. Somente ou então pelo assistente. E nos quatro meses era uma Na marcenaria. cada um tinha que fazer sua matrícula. Você tinha profissionais. Aproveita. que merecia e quem não. Mais tarde encontraram mulheres que eles gosta- va facão. -se esse tempo somente para diversão. padres. Porque aquele que tra- nas épocas de festa eles iam visitar. para sua pescaria. aumen. com ele. O que valia mais era o com- o pai ou com a mãe. Eles ar- peixe. Esses quatro meses não têm nem mui. ficava na lavoura. pelo portamento. a escola vender. que pedir permissão para falar com o filho. ou mesmo caça. nós recebíamos uma camisa. Eram de 200 a 250 no colégio todo. A maioria. na aula – recebia essa recreio os alunos poderiam falar com os pais. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA começou a se mudar. os Venezuela e outros para a Colômbia. tem muita gente que sabe fazer me- Ensino profissionalizante e êxodo lhor que eu. alfaiates. os pais também aqueles que conseguiam entrar nas oficinas for- se acostumaram. Fazer a matrícula e levar um paneiro de farinha cada um Avaliação geral para o consumo da casa durante o ano letivo. Ou então passar o dia. O número de marceneiros. no fim do ano. A maioria do pais sempre estavam lá. Mas eu sei tudo aquilo que eu aprendi do meu tou.

outros lugares diferentes. e imaginar. se casam e se fixam na aldeia. não sabe falar. e os salesianos elogiam mais es- costume de trabalho na roça. para conversar. pois assim é o desejo Uma parte experimentou e não aguentou. Era a mãe. Porque nós não tínhamos essa do branco. Porque indígena. essa maneira de falar Agora. como trabalhar na forma inspiração de viver isolado da mulher. Então isso car na região. quando se en- vagabundos mesmo. Enfim. Então ele se afasta mais senvolvimento na região. porque não conseguem um procura se mandar para a cidade mais longe que certo ponto para se fixarem. Ele passa a São os seminaristas. mas de. lhes para esses educadores. Do jeito que passou assim.indd 56 5/31/12 2:33 AM . de certa forma. diante de uma multidão. movidos de maneira fácil. Nem o próprio índio que nasce hoje. como ele já sabia uma pro. então o pai empurrava. falar dentro da comunidade. já é perigo taram. que escolhia ainda. mas não para receber maneira de incentivar. é claro que só o português é a pior coisa que nós podemos o homem ficava com necessidade da mulher. A gente não sabe nem mais fi. pessoas que voltam para comunidade. NO TEMPO DE VIVER SEPARADO Mas os velhos sabem que estamos piores que fez ser muito importantes na sociedade. Embora eu saiba falar tukano. procurar o outro mundo. deixou de ter aquele dos salesianos. não deveria negar a ordem do pai. Nós temos um grupo de conservadores e fissão. de educação. com uma Os educadores salesianos diziam que a gente certa ironia. não faz nada. não era o filho que escolhia eu sinto dificuldade de me expressar. Muitos índios muflado. Muita gente aproveitou. Agora. Essa palavra de elogiar. como dançar na forma indígena. faz acreditar no índio que ele é me- precisava ficar ali. ceu. lhor que os outros índios. Agora. Aí começa a surgir uma desunião de podia ficar ali. ou então. o tio ou a tia. Os índios têm medo cinco anos. ele ia embora. para ser melhor. é melhor para esse tipo pobres fizeram faculdade de teologia. quando chegava em Manaus. Por isso muitos viraram tudo aquilo que nós recebíamos de teoria desde seminaristas em Manaus e outros em Belém. ele conheceu. mas. poderíamos levar uma vida mais a aldeia. mais para conviver com os menores. era uma para ouvir. Quando o aluno interno chega de volta em Mas muitos que são mais obedientes. Mas isso não aconte. Agora. procurassem tanto a língua do índio. Agora. Toda aquela vida que a gente levou. Por essa razão é que muitas vezes ríamos dizer que tais escolas valeriam e aí seria os pais já tinham uma certa mulher para o filho. quanto a tivo dos padres. Porque a faculdade. quando a noiva esperando na aldeia – porque era o pai quero transmitir assim. a primeira série até a última. perceber. E pior ain- a mulher. fora de casa. Mas era contram fora da comunidade é pior ainda: ele se uma maneira de se aproveitar do jeito como eles camufla mais ainda. dificilmente ele sobrevive na região. deixando suas aldeias. É isso que aconteceu no 56 024a087_CORR_V1. Aí sim nós pode- um homem. Como tais pessoas já Então os missionários diziam: esses índios são não falam dentro da comunidade. idéias. sabe? É por isso que muita gente que vem soas que voltam e depois retornam para a cidade. É claro que ele não ses caras. Eles aí já é difícil. como era sabilidade sobre esse povo. quando o índio começa a pois ficaram nas grandes cidades e não mais vol. aprender e fazer um autode. Dificilmente vai ter mulher. E dificilmente voltam. desde nós podemos dizer que essa escola serve apenas a primeira pisada no colégio até o fim. vol- dos educadores. Quando o índio é mais ca- faziam. pes- digna. são sem vocação. e de- a mulher é sempre uma parte importante para pois fazer na dança do branco. e não dá naqueles tempos. os expulsou para a cidade. Então ele são marginalizados. são pro- casa. outros que querem ser já como os padres. se os padres Só que eles não conseguiram chegar ao obje. então. Se nós estivéssemos dentro da tou para a aldeia. Facilita a saída para filho. Quando ele ia da quando é para pessoas que não têm respon- para as férias. se tornam marginais. uma coisa diferente.

muitos alunos des.. Içana era como na aldeia. Porque na aldeia. nato e a gente ficava em casa. locar de volta no colégio. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA meu caso e acontece com os outros líderes da Depois de cinco anos tinha que deixar o inter- minha região. 57 024a087_CORR_V1. ra de falar português um pouco. Consegui viver até hoje. os velhos que conheci. o que nós também.. até hoje ninguém sabe. Não era só pra Meu avô paterno conhecia todos os mitos e dizer que aprendeu.indd 57 5/31/12 2:33 AM . infelizmente. 52 alunos. aprendíamos era para os outros. Mas es.. a gente se vê. sabe? rígido. Por isso que não fugi. Valeu só Manaus. mas de São Gabriel. a gente aprendia só para si. meu avô materno era pajé. O mais importante para mim é que não morri. Quer dizer. Ou se casava ou Muita gente fala português. Não só índios das missões do alto tros. Mas. Só de vez em quando alguns se encontram em história e tantas outras. eles aprenderam melhor que a missionários obrigaram a jogar fora tudo que gente – porque eles começaram a reviver dentro eles tinham de instrumentos. Mas depois que os ses que fugiram. Agora. Porque dá para conversar com o outro. do menos. ses restos de matéria: matemática. E assim aconteceu com to- pra ler mesmo. continuou Foi importante na escola justamente a manei- na convivência com os pais. morreu por gente dizia: “Esse cara foi embora.. Mas quanto ao resto. Só isso mesmo. Houve um certo tempo em que a essa turma. Eu sei dizer que da sociedade. se morreram. não valeu nada. O castigo que ele poderia fazer era me co. então ele não desgosto. Tapuruquara. moral e cívica. porque meu pai era muito utilizar. Se eu voltasse pra minha aldeia eu creio que Por isso valeu. não rio Negro. Isso valeu pelo então teria que ir embora. Mas ele aprendeu a viver. sabe nada”. não para comentar com os ou. não deu para não seria bem aceito. dos os grupos. só ficaram três dos embora que não seja uma conversa boa. meu grupo todo mundo saiu.

acontece a primeira assembleia in- de um programa do governo brasileiro que se dígena da região do rio Negro. catequese”. naturais em potencial. Nesse mo- Iauaretê. A partir de 1920 com a pre. se torna muito Nas décadas de 1970 e 1980 as lideranças do forte a ideia de demarcação e há uma mobiliza- movimento indígena da época discutem a ideia ção muito grande em torno da questão da terra de lutar pela demarcação das terras indígenas. durante I Seminário de Educação Escolar Indígena. nem nada. civilização e catequese. que é parte do resultado da discussão 1  Depoimento dado em 2005. Esse projeto remos salvar as almas dos índios de qualquer visava tirar os indígenas de lugares tradicionais jeito. 58 024a087_CORR_V1. o de programa do governo federal chamado Pro- que possuíamos de valor. mento. preocupado com o desen- ram praticamente esquecidas e ouvíamos: “que. grama Calha Norte. como uma população que não tinha meça a construção da BR que vai para Cucuí. fo. sença dos salesianos aqui na região.indd 58 5/31/12 2:33 AM . acontece no século vinda dos militares e a instalação de postos indí- XVII o primeiro contato das pessoas que vieram genas da Funai no Brasil como um todo e aqui de fora com pessoas daqui. Pari-Cachoeira e Assunção. Edição Flora Dias Cabalzar. internatos. Chega o Batalhão a população indígena como mão de obra a ser de Engenharia de Construção do Exército e co- explorada. na maloca da Foirn em São Gabriel da Cachoeira. comunidade estivesse numa área com recursos ciedade brasileira. Com isso. Neste mesmo período acontece a implantação Em 1987. através de escolas. através de programas de das culturas. nem alma. Com isso chega muita gente de fora na região. Quem chegou viu em São Gabriel da Cachoeira. Taracuá. as nossas línguas. acontece a Essa movimentação traz emprego às pessoas instalação das missões de São Gabriel. acontece o lançamento de um gran- desse processo? O que era da nossa cultura. de ocupação. o movimento indígena já discute a luta ponsabilidade de integrar a população indígena pela demarcação das terras e pela preservação à sociedade nacional.3 A FOIRN NA HISTÓRIA DAS POLÍTICAS DE EDUCAÇÃO D omingos B arreto 1 Na região do rio Negro. que começam a se instalar na cidade. se a Tínhamos que virar gente para pertencer à so. com a da Foirn. quando era presidente da Foirn. O que se pode lembrar Em 1985. volvimento da região de fronteira. para colocá-los em outros. quando foi cria- chama Programa de Integração Nacional. com a res. nessa região.

foram acontecendo. do Rio Negro. língua. mas populações em nicipal. Por meados de 1998. e é construída sua do essa experiência nas políticas públicas no ní- sede. Avalia que já possuí- que é um trabalho do governo austríaco com amos experiência. cultura. definindo o que iriam trabalhar em ção dos povos indígenas para defender os direi. não do direito à terra. 2008 alto e médio rio Negro. mas da cooperação internacio- A partir de então a região do rio Negro tem nal. fazendo também um tra- balho de entrevista coletiva e levantamento de informações socioeconômicas. sua escola. e lideranças que começa. projetos pontuais. saneamento. ram a atuar. como lições cooperação internacional. transporte. conquista que se concretiza entre 1997 e das escolas piloto. e que apoiam as experiências aprendidas em uma política mu- não somente essa região. Os participantes ideias. o das passam a contar com algum apoio. podendo ampliar a escala de algumas organizações não governamentais que apoio na região. que queriam. educação. Domingos Barreto 59 024a087_CORR_V1. Em 1993. foi uma oportunidade para a gente discutir. a Foirn começa a ficuldades com falta de recursos. porque já tínhamos experiências diferen- tes: as primeiras demandas estavam aparecen- do. mobilização pela educa. quando a Foirn e o ISA trabalham na de- marcação física das cinco terras indígenas do © Claudio Tavares/ISA. comuni- cação. em escolas pequenas. estadual ou federal. a Foirn com suas bases começam uma gestão para implantação de projetos-piloto em educação escolar. Após a demarcação. desenvolvidos entre o movimento indígena e assessorias. saúde. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA sobre a reivindicação da terra e demarcação de as comunidades Baniwa se reúnem e levantam uma terra indígena contínua. Para isso precisávamos que 1998. outros também começavam a discutir o da assembleia decidiram criar essa representa. a Aliança pelo Clima. a demarcação das terras indígenas é finalizada em 1998. saúde. traçar um plano grande para a educação escolar indí- gena. de qualquer forma. quando Gersem passou a ser o Secretário Municipal de Educação. avicultura. Ao longo dos anos 2000. em algumas regiões. vel regional. chegando a qua- se todas as comunidades. meio ambiente. Na época. que estavam dando certo. sustentabilidade. Depois de todo esse trabalho. governo federal. através do Projeto Educação Escolar Indígena uma representação. os Tuyuka falavam de línguas minoritárias. se lutássemos para transformar lutam em prol do meio ambiente. Em 1997. mas por muitos anos tivemos di. Continua a reivindicação pela demarca. piscicultu- ra. essas deman- tos coletivos dos povos indígenas. A Foirn assume a sas reuniões que não iríamos chegar e fazer isso captação de recursos. a analisar essas experiências piloto e outros pro- Foirn faz o primeiro termo de parceria com uma jetos de escola criados no período.indd 59 5/31/12 2:33 AM . mas conduzindo e amplian- ção. partindo dos resultados e das lições ção. Discutimos em nos- diferentes partes do mundo.

a cada campanha estavam viajando pelo Brasil à procura de parcei. A Foirn. e decidiram direcionar o resultado da rentes partes do mundo. vão trabalhar. Acontecia a e vender bolo. para diferentes países. fazem pequenas atividades que demarcação das terras indígenas em 1997-1998. através da Norad. e ISA). O dinheiro do Projeto 60 024a087_CORR_V1. 1997 Marco da demarcação de Terra Indígena. havia feito uma Na Operação um Dia de Trabalho (OD). Em 2002. Portanto. apoiar. para os Waiãpi (Iepé/AP). da experiência que da Noruega param seus estudos por um dia e estava sendo iniciada. a uma campanha dos estudantes noruegueses. Viram por aqui muitas para levantar fundos e apoiar projetos em dife- ideias boas. outra para os Yanomami (CCPY) e outra entendendo o que estava acontecendo. outro vai fazer cutidas algumas escolas indígenas. rendem algum dinheiro. o dinheiro da OD corresponde vo de melhorar a qualidade da educação esco. na gestão de 1995. Em seguida eles viajam. não poderia ser separado. para decidir o que irão ros. os viagem para a Noruega. para apoiar escolas indígenas com o objeti. Um vai lavar carro. A FOIRN NA HISTÓRIA DS POLÍTICAS DE EDUCAÇÃO © Pedro Martinelli/ISA.indd 60 5/31/12 2:33 AM . Todo o dinheiro arreca- e quase no mesmo período (1996-1997) os no. da educação. dado é doado para essa organização chamada ruegueses da Operação Um Dia de Trabalho (OD) OD. como estavam sendo dis. São Gabriel da Cachoeira existisse uma incorporação dessas experiências campanha de 1997 para educação escolar indí- como política pública. passou a apoiar o Projeto de Parcerias no Projeto de Educação Educação. gena no Brasil: uma parte para o rio Negro (Foirn e as comunidades tinham que estar preparadas. o governo norueguês gostou da nossa proposta também e. onde contou a história estudantes secundaristas de todas as escolas dessa região. lar para povos indígenas.

lar. onde cada um passo importante no reconhecimento das diferen- fez uma parte do trabalho. Tivemos uma experiência muito boa a par. A sociações escolares comunitárias conduziram o experiência do rio Negro de gestão compartilhada Projeto de Educação. Foi com esse dinheiro que a Foirn e as as. possibilitaram o apoio ças nessa região do rio Negro. inclusão social. Depois seguiu lentamente. mas o sistema educacional brasileiro movimento indígena. A gente vê a existiu esforço contínuo da política pública no rio maneira como os programas de governo che- Negro. Somos diferentes e temos Ao longo desses anos. Com isso continuaram surgindo muitas novas trar. essa maneira de nós indígenas apresentar- Gestão compartilhada da educação mos nossas propostas. mas repassado por eles indígena. quando as portas do poder falam muito de políticas de reconhecimento e público se abriram. criam programas de acesso. gam e são apresentados aos povos indígenas: tir de Gersem Baniwa. mas A gestão de Edilúcia de Freitas na Secretaria de ainda falta criarem políticas de reconhecimento Educação esteve mais próxima do movimento do diferente. experiências de escolas indígenas nessa região. discutindo a questão da educação esco- para a Fundação Rainforest da Noruega adminis. às iniciativas indígenas voltadas a repensar suas Mas no cenário da política estadual e nacional. vimos claramente que não ainda fala bastante de integração. os governantes ainda não entendem o que es- tamos falando aqui sobre educação escolar indí- gena. 61 024a087_CORR_V1. em parceria com o Instituto da educação escolar indígena [2005-2008] foi um Socioambiental. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA de Educação é da OD. apesar dos esforços do diferenças. Essas parcerias. da diversidade.indd 61 5/31/12 2:33 AM . práticas escolares na região.

sobre o di- que. são política de valorizar. comecei a participar da Copiarn. no sentido nais. sobre tória. uni- começando o projeto da Aliança pelo Clima com versidades. ga para iniciar uma articulação mais forte dessa 1  Entrevista realizada no mês de outubro de 2010 em Joanópolis/SP. as escolas populares. tínhamos que ajustar isso para que mos nossas ideias. apresenta. a partir da educação. foi bem recebida. a Foirn me encaminhava. educação escolar de modo diferente. A ideia de valorizar nossas próprias culturas. Nosso direito de pensar a para discutir essa pauta nesses níveis internacio. onde já traçamos mais ou menos dire- Higino Tenório (HT): Quando nós participamos trizes para as escolas indígenas. A Copiarn nasceu da criação da Associação das Tribos Indígenas do no final de 70. Naquela época estava ca de educação. com o então pre. Meu tema era como indígenas estavam sendo escamoteados. 62 024a087_CORR_V1. principalmente. educação que atendesse à realidade local. Braz França.4 MUDANDO A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR NO RIO TIQUIÉ H igino T enório T uyuka 1 Flora Cabalzar (F): Como iniciou a Desde 1986 eu já vinha participando de muitos mobilização política pela educação debates. e promoção humana baseada na educação dife. com parceiros da Aliança pelo Clima. A coordenadora desse projeto mostrava as escolas diferenciadas. escolas democráticas. em fazer uma educação diferente. mar- se pensava a educação no rio Negro. Naquele momento era esse o parâmetro: a vi- Eu fui para a Áustria em 1995. Braz fa. se poderia mudar a his. que era escolar no alto rio Tiquié? muito forte.. nas.indd 62 5/31/12 2:33 AM . reito de cada segmento e. Foram minhas faculdades. Aqui no rio Negro. Trouxeram luzes sobre como seriam a Foirn. Isso me levou a fazer uma viagem à Áustria os direitos indígenas. pois já tínha. as muito interesse pela questão da educação por. Como a Foirn pensava naquele a conversa pudesse começar de maneira mais momento. Acima de tudo. ginalizados. Na década de 80 eram fortes esses Alto Rio Tiquié (Atriart). cias. os principais parâmetros seminários dos professores de Roraima e Amazo- do nosso estatuto eram esses: promoção à saúde. Quando nos filiamos à Foirn.. É quando a Foirn recebe um apoio da Norue- laria em nível mais amplo. Já que valores culturais sidente da Foirn. uma coerente. meus lugares de aprendizado sobre a políti- mos essas ideias prioritárias. Estes grandes seminários foram minhas experiên- renciada.

PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA © Juan Gabriel Soler/ISA.indd 63 5/31/12 2:33 AM . elaboraram es- organizações locais também começaram a aderir. também tinham ideias inspiradas por essas questões. Teve funcionar. do povo. veio de muita bem prioritária da Foirn. as al e esse pensamento de mudar. Ninguém pensou isso sozinho. dos inicia o Projeto de Educação? comunitários. na época em que também se truída à base da política educacional própria. daquele momento. e já estava com um apoio discussão. a desse movimento da Copiarn quando lá fazem gente começou a pensar a maneira como deveria aquele acordo: “A escola que queremos”. mas escola cons. No primeiro HT: O primeiro magistério nasceu da necessi- momento. não com F: Como foi a mobilização do primeiro magis- alguém impondo a fazer aquilo. princípio da Foirn. A escola teria que estar perto. Gersem era do mo- mas outros entendiam. a Escola Tuyuka também No princípio os Tuyuka. 2011 Higino Tenório Tuyuka educação diferenciada. outros. como deveria ser um projeto de educa. muitas pessoas não compreenderam. também a “Declaração de Princípios da educação ção escolar próprio. tério indígena. através da Foirn. Quando a gente assumiu essa bandeira como Nada disso foi produto de um dia. os projetos de escola diferenciada. E com base nesse nosso vimento indígena. e passou a ter um pouco de apoio financeiro. Com apoio demandas da região e às demandas mais locais. moral e político da Foirn. os Baniwa ou os Tukano. que pudesse atender a Era tema do dia. lideranças. Os pensadores disso tinham esse ide- formalizado através do Projeto de Educação. Então. escolar indígena dos professores do Amazonas”. dade de mudar esse sistema. sas propostas e começaram a fazer sensibilização 63 024a087_CORR_V1. Ele era mentor e coordenador entendimento e compreensão sobre a escola. nós conseguimos articu- Era um pensamento político muito forte desde o lar nos locais.

muita gente está falando sões. fessores tukanos. Falei com ele saírem. Naquele tempo. Os motivos de tanta mobilidade. o mais de articulação entre eles. por onde tinham mais acesso aos objetos e eu queria saber. cursar esse magistério. retrógada: a maioria deles desistiu no meio do I da.. objetos.. pode se inscrever! —. primeiro a Gerência de Educação Escolar bém. teve maior número de inscrições baniwa. claro que tinha que aparecer fator importante. era muita. esva- que esse magistério era falso. série! Foi muito forte o pensamento pios e dos estados. toda uma história. depois o Conselho Estadual de Educa. realmente pensadas mais de perto. 64 024a087_CORR_V1. do rio Tiquié e Uaupés. que levaria ao atraso. Aí lar dentro do governo do Estado e foram sendo é que nós. tinha — Higino. roupa. e nós já como fatores que contribuíam para as pessoas nos conhecíamos do movimento.. Tuyuka. Mas havia muita polêmica sobre ele. depois a Fepi . tinha que adquirir panelas. da. naquela época ainda muito dis. que ter casa de zinco.. não vai qualificar um professor como de coisas. Os içaneiros queriam parar de receber pro- Indígena. conseguiram articu. Indígena.. se interessarem pelos centros. A escassez ou diminuição de pei- deturpadas. lutei para que essa escola e a educação fossem fessores de fora. Lá tudo dependia de pro. diziam que o Magistério com conversas informais sobre os motivos de as iria funcionar. muita po. quedas. receber. e convidou o tura. isso é boato. Tão forte que foi mais aceito por engajado nesse movimento.. e o magistério indígena buscava se aproximar da Também por isso. HT: A mobilização lá na minha região começou gávamos a São Gabriel. Mas o rio Negro fi- governo do Estado ficou sensibilizado com essa cou polemizando. poderiam chegar a mudanças de construção de um magistério para resolver a no governo federal. ção Escolar Indígena. mas falam que ele não vai O interesse maior das pessoas era sair em busca levar a nada. roupas. cola estivesse presente dentro da comunidade.Fundação por isso o magistério indígena não provocou tanta Estadual de Política Indigenista do Amazonas: foi polêmica entre eles. MUDANDO A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR NO RIO TIQUIÉ dentro do governo do Estado. que quem acabar não vai ingressar na dia esse pensamento de consumo. Para nós. a vida. tukanos que vinham de Iauaretê. Por que acontecia isso? lêmica! Como era a primeira vez que acontecia um Por que a maioria gostava dessa mobilidade? Era magistério indígena. que essa es- do Tiquié: de onde encontravam professores for. sentiam-se incentivados para muitas visões diferentes. que aproximam as tuyuka do alto rio Tiquié no início do Projeto comunidades entre si e das políticas públicas. urbanos. pensamos em participar tam- criados. pessoas irem pros centros missionários ou centros de que não seria vantajoso. eu também gostaria muito de industrializados como sabão. Até inclusive disfarçadas. ziando as comunidades. Gersem e outros tinham se situação do Içana. essa mobilidade. O I Magistério Indígena de São Gabriel surge com ideias muito relevantes para a questão F: Em que pensavam as comunidades de educação escolar indígena. xe e a grande distância dos centros eram citados Gersem era Secretário de Educação. e polemizou. Através dos municí. essa política já era clara para eles. cola indígena no primeiro momento. pelas mis- uma vez: — Gersem. e acima de tudo.indd 64 5/31/12 2:33 AM . pela tendência de não acreditar. Gersem já tinha um ano ou uma luta. Quando che.. e até a escola da missão infun- profissional. mados na 8ª. também através da formação do Magistério Magistério. sal. a Constituição já parecia que o magistério estava caindo de para- garantia esse direito. que pensavam que essa ideia era ultrapassa- Gersem para implantar essa educação diferencia. preocupação. foi difícil mobilizar essa es- situação do Içana. eles. Para melhorar universidade. essas coisas.. Eu sempre tanciada em educação. de Educação? Eu era vice-presidente da Atriart. Aqueles que não queriam Então foi eleito prefeito o professor Amilton. que nunca pensavam em fortalecer a cul- que era do movimento sindical.

articulador legislador. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA discutindo. Para o sistema. para a educação escolar indígena. onde multiplicador de ideias. porque os projetos estar no currículo escolar em cada série.indd 65 5/31/12 2:33 AM . direcionados. de qual- isso. quer forma. perspectivas no futuro. Mas de qualquer das comunidades. vários organismos. perpassa por muita gente não aceitou essa ideia no começo.. no vácuo. Era isso. limita demais porque. — Ah! Educação indígena não é prioridade.. Articular propostos pelo governo acabam não sendo bem isso é que é papel de coordenação. Um papel muito importante. Por outro lado. seguimos lu- indígena que quebrou o sistema. tu tens que fazer isso — frente dessa luta por direitos também se empolga era uma discussão ampla. hoje em um modelo de educação escolar indígena. muitos sar a escola. que garantem a educação São Gabriel da Cachoeira? escolar diferenciada. pensamos um papel de coordenação depois. a Escola Tuyuka e a Secretaria de Educação de Há leis a nosso favor. forta- HT: O sistema não recebeu de bom grado essa lecimento. parcerias. quando um camarada não fala à como pode ser a filosofia de ensino para aquela toa. lítica da educação. quando saímos do Magistério fiança dos parentes. nos efeitos. Mas da nossa parte. E também criasse Às vezes eu vejo uma política no Brasil e no expectativas. para que todo mundo e se sente animado no sentido de que irá melhorar compreendesse e ajudasse a pensar de que forma mesmo. nossa discussão um dia vai ter resultado. que propõe resolver problemas de outros essa ideia de contribuir discutindo. sões: qual era o pensamento político da escola. Têm essa mobilização com uma nova política de pen. mas nós. pensam: “Vai a nossa equipe organizava tudo. gera empolgação. agentes intermediários que obstruem esse sopro As primeiras mobilizações partem das comuni. Não era apenas coordenação pedagó. 65 024a087_CORR_V1. Indígena. Dentro dessa fala da presença do Estado no grupo. vamos pensar nisso!”. digo criar ambiente de discus. tando. direitos é pouco. o Estado brasileiro propõe esses projetos de valorização. Como a gente é coordenação pedagógica local que criamos. você tem cretarias. mas fala bem fundamentado na lei de direito. Não tinha modelo. muitos intermediários pelos nossos direitos. de mudança do sistema de ensino F: Como foram as primeiras negociações entre convencional. de que forma fa. com outras instâncias. quando me convidavam para falar. a gente se empolga. porque muito do que falamos. Como no caso de alguns dades e também de uma coordenação política da organismos governamentais que acabam dizendo: escola. mas tendo que interagir muito com se. o verdadeiro sujeito naquele momento foi de articulador de discus. A gente mesmo que fez esse papel de co. se perde no espaço sideral. Estava uma bagagem para sair de um seminário e levar lá começando. revitalização. Então fica difícil. temas que devem pode se queimar um pouco. cumprindo a lei e garantido os direitos. não chega. colocando “porque eles têm direito”. dessa projeção de direito. forma. dia mudou. Até hoje não tem na comunidade. E aconteceu que çar o que queremos e temos direito. há muitas intervenções. e no momento seguinte você entra coordenação pedagógica era lá na Secretaria de em conflito com essas ideias. não chega são e propostas. Chegar lá e dizer: — Gente. estabelecendo e ser bonito. comunidade. essas palavras bonitas. Mas você também montando currículo. Quando falo de articulação po. A importância do coordenador a atingir o verdadeiro destino. por causa dessa credibilidade da lei. propondo soluções. Definir política só pelos minhas ideias. calendário. valorização. para aquele povo. Era to. Coordenador era articulador político Quando a gente escuta a fala de um sujeito entre corpo docente e a comunidade. os que ouvem. Quem está na gica direta: — Professor. com conquistas importantes na região. de liberdade de direito. também zer. até alcan- Mas muita gente não acreditava. Então você sente: — Estamos no rumo cer- a escola ia andar para poder atingir o objetivo. Sempre tive mundo. o propósito se perde no vazio. não só interno. você recebe bem isso. gerando certa descon- Educação. ordenação.

Tivemos uma começam a discutir o Projeto de Educação? história inicial de trabalho com comercialização. no seu compo- da Foirn. comerciantes. Em 1993. Puxamos assunto também Secretário de Educação. Eu já era presidente da Oibi. o trabalho com tantalita munidades. Mas com Oibi . resgate. e começava a escutar essas de artesanato para os Estados Unidos. porque foi eleito coordena. Aqui parte. terminar o mandato. a Oibi Comissão de Professores (Copiarn) para um en. garimpeiros. passei a trabalhar e estava escrevendo várias propostas lá em Tucu- e me dedicar exclusivamente para a associação. O PROJETO DE EDUCAÇÃO EM CONTEXTO BANIWA A ndré F ernando B aniwa 1 Flora Cabalzar (F): O que estava acontecendo Um dos objetivos muito fortes da Oibi era a na região quando as associações indígenas geração de renda nas comunidades. nente Projeto Escola Indígena Baniwa Coripaco.indd 66 5/31/12 2:33 AM .foi criada em julho de 1992. recebe a primeira encomenda de 10 mil unidades contro em Roraima. provisoriamente. Em 1998. Boni substituiu Gersem na diretoria a elaborar o Projeto de Educação. mã. Alto Rio Negro em 1997. Em 1996 fui eleito presidente da venda de cestaria. Cumprimos palavras. como já existia com o Gersem e a assessora dele. porque tinha cuidava disso. Beto gena. foi suspenso e voltamos a aprofundar a questão e dei aulas até 1995. escola própria. Gersem começamos a trabalhar tantalita. da Oibi e deixei de ser professor. quando voltei a concretização da demarcação da Terra Indígena da escola de Manaus e passei a dar aulas nas co. Ricardo do ISA também já articulava essa ideia dos 1  Entrevista realizada no mês de fevereiro de 2011 em São Gabriel da Cachoeira. e a gente tinha que agir. para fazer uma carta de intenção. seis meses antes de tudo e pensando novos projetos. 66 024a087_CORR_V1. Entre 1996 e 1997 tros pontuais através da diretoria da Foirn. O Em 1997. Amilton ganhou a eleição para pre. na máquina que eu tinha ganhado. André Baniwa (AB): Em 1993 fui convidado pela produzindo e vendendo farinha. Azevedo. mas não cumprimos o que a gente queria em São Gabriel já tinha acontecido alguns encon. educação. que era a Marta toda uma discussão sobre educação escolar indí. Esse era o contexto da época em que passamos dor da Coiab. e perdemos a oportunidade. refazendo Em 1996 Gersem saiu da Foirn. mergulhadores ali. Boni já representava a diretoria da Foirn e eu era feito de São Gabriel e convidou Gersem para ser presidente da Oibi. pe- A Organização Indígena da Bacia do Içana – gando tantalita. começou o Magistério Indígena no Içana. Fiquei na associação como tesoureiro.

com financiamento também de fora. que ajudou muito a inspirar e fazer o comprando. 67 024a087_CORR_V1. rápido. o prefeito posterior criou escolas. rapidamente. o pessoal estava momento. lançado no que se desenhava.indd 67 5/31/12 2:33 AM . muito forte. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA noruegueses no rio Negro desde 1996: o interesse © Beto Ricardo/ISA. tudo ao mesmo tempo . Em 1998-1999 é que de fato surge o projeto da escola. A discussão Içana. Tudo aconteceu muito A gente mesmo criar nossa própria escola. E mais enorme. começando e formulávamos a Escola Baniwa. foi um bom a fazer uma coleção de peças. francês. de ensino fundamental. E a No âmbito do rio Negro também estava acon. Miguel Maia e Rosile- ne Fonseca foram representar a Foirn na Noruega.e zendo: “Criei isso aqui. no sistema de educação escolar indí- em 1998. e no Tiquié também. criar escola na nossa região e nunca faziam. 2008 deles em apoiar iniciativas diferentes de educação escolar aqui no Brasil.demarcação. os políticos criaram vergonha to fortemente. a agenda estava sempre bem cheia. já na categoria de escola a demarcação física da terra e a homologação indígena. Quando surgiu essa opor- tunidade. partir disso. um atrás do outro. Então. a gente já tinha determinado que faria uma escola diferente no rio Içana. Em 1998. Acho que o que acelerou esse processo foi de educação Baniwa e Coripaco bem grandes a gente ter criado nossa escola. Era a última década do milênio e e foram criando outras escolas indígenas muito havia muitos acontecimentos. porque os políticos falavam que iam encontros. Escola Baniwa e Arte Baniwa. a gente já estava imple- mentando o projeto de medicina tradicional. que ganhou o prêmio de Gestão Pública e Cidadania da Fundação Ford no final. e fizeram junto com os estudantes noruegueses. a campanha de levantamento de fundos. discutindo Escola própria. treinamento. quase que ao mesmo tempo. material. a gente estava A incubação de todos os projetos da Oibi ocor- conversando sobre um projeto de artesanato: já reu nesta mesma década em que pensávamos estávamos produzindo cem dúzias. importantes até no período pós. di- tecendo muita coisa. nós primeiro no no Içana. Bonifácio José. para tra- balhar com os agentes de saúde. A Oibi estava no processo final de elaboração do projeto da escola para ser enviado a eles. Na mesma época. pois não existia nada para eles na região. como por exemplo. ano de 2000 em São Paulo. enquanto começava a discussão do Projeto de Educação. neste contexto de perspectiva Projeto Arte Baniwa com esse nome. um impacto Tradicional. zinho de 1998. F: O Projeto de Educação se inspirou na mobi- lização em torno da demarcação e de outras questões importantes? AB: Em 1997. Nós já tínhamos feito dois encontros gena”. Isso foi um impacto sobre a educação escolar estava surgindo mui. criei um monte de escolas acho importante dizer isso -. era Medicina foi um avanço muito importante. Por André Fernando Baniwa isso a Oibi criou aquele projeto de Medicina Tra- dicional Baniwa.

entendimento. para a comunidade. AB: Quando você cria uma ideia para concreti- do com o objetivo deles. mas que continuam de alguma forma vier a conhecer. tudo isso. é que a escola de fora. Uma escola que se relacione com a isso: discussão. a pensar na gestão territo. Hoje há essa necessidade de avaliar.. Se deixar de debater. tem que discutir. que o Estado brasileiro termine um dia e acabem tivo de identificar pontos estratégicos e controlar as escolas. Ao longo do processo exige muito mais tempo. O PROJETO DE EDUCAÇÃO EM CONTEXTO BANIWA F: A região está precisando de outro bom objetivo da comunidade. não vale Mas a escola é diferente. Arte Baniwa. quele espaço. do Estado. porque o Brasil nunca vai deixar de investir na F: Fale um pouco mais. re- ajudando a valorizar. que em nossa cidade tem narem bem. quando você passa a querer implementar a ideia O Estado acabou com a gente e com nossa es- que você está construindo. Porque. você defende a ideia. produzir e buscar o escolar com um plano maior de desenvolvi. dígenas na região do rio Negro. moradores do rio Içana sobre a importância da de- discutir em detalhes. seja em matemática.. direitos. por mais que seja diferente projeto pontual praticamente não garante con. E depois? Como usar a força daquela instituição e de pessoas in- seguir fazendo a fiscalização? teligentes. com obje.. como parte da estratégia. para defender meu direito. a escola ta discussão é que fazem surgir novos projetos. Por que se junta isso? Comercialização. Tudo isso surgiu porque houve gestão territorial. Um pro.. na- a entrada ou vinda de pessoas e coisas. do território do Apesar de existir uma ideia central. ça tudo isso para dar o sentido. Esse espaço da escola possibilita pensar AB: Logo depois da demarcação das terras in. os detalhes meu clã e de outros clãs.Como fazer Escolas têm currículos com pesquisas.indd 68 5/31/12 2:33 AM . Como dar um sentido completo de tudo que você porários.. tinuidade. valorizar. ça a pensar e põe para funcionar. A educação sempre à pena. é estratégica para os direitos indígenas funcio- Eu sempre falo lá fora. ca. qual a relação da educação ço vamos construir. nossas histórias tradicionais. Com esse mesmo instru- vão se acabando as ideias. assim as coisas Participei do processo de conscientização dos acontecem. onde você tem que ensinar os discussão intensa durante muito tempo. marcação da terra para nós. mento nós vamos resgatar tudo o que perdemos. elas têm que ter sentido vai ter financiamento da parte da política públi. Um políticas e projetos. nos relatórios? Existe uma coisa que abra- rial. através da escola. teria que se definir segundo o nosso objetivo. ficou muito claro para indígena nunca vai ser um espaço livre dessas mim que qualquer projeto seria temporário. dação. demarcação muito clara entre nós. Mas a escola indígena momento. trutura. três anos. A não ser de proteção e fiscalização dessas terras. mal ou bem. Come. A escola De 1996 para 1997. para aquele povo. para não indígenas. Ela é estratégica por isso. e você convence 68 024a087_CORR_V1. Eu escutava e pensava: . sa identidade. construir o que a gente chama de mento regional indígena? futuro. É muito mais trabalhoso. No mesmo espa- F: Na sua opinião. Vou jeto realizado por dois. não termina. mas é necessário fa. da importância da edu- educação. Para a gente manter a nos- são importantes. discipli- para essas iniciativas se tornarem permanentes? nas com temas transversais. Acima de tudo. houve um projeto Escola quando começa. É tem que cuidar disso e trabalhar essa questão. Acho que muito debate e mui. e AB: Tem que fazer acontecer. e não de acordo com o zar mesmo. são projetos tem. eu vou colocar a minha ideia. senão. é feita de acor. senão também não surgirão novos projetos. fui verificando vários lugares de petróglifos. geografia. outros lugares não. essa zer. valorizar tudo o que nós temos. é uma coisa contínua que não vai estacionar. Outra coisa muito clara cação escolar para o movimento indígena. com todo esse sentido..

Nesse sentido Eu vejo a força da educação escolar indígena ainda somos politicamente fracos. Não é o gestor Eu sabia que tinha que ter demarcação e de. tão do patrimônio cultural. contra pessoas. tido ela é movimento muito forte. é fundamental. diferente do ideal. Também nas religiões. Por isso escola. bem onde quem está dizendo que tem ou de poder nos momentos de decisão das po- que ser daquele jeito são as comunidades. os missionários salesianos acolhendo novas tradi- ensino fundamental. se or. e lugar de pensar nossos territórios. máticas. levando ata. é proposta da sociedade indígena questão da geração de renda é um ponto ainda e.Vamos criar aqui a escola fendi a demarcação. agir. lá tem liberdade de lideranças que puxam esses assuntos juntos. está avançando cada Em recente Assembleia da Foirn em Barcelos. Passa a trabalhar com uma coisa ganizando. vez mais. AB: Nessa estratégia. to concretamente. fazer melhor redação do que têm outras que você ainda não consegue alcan- aqui na própria cidade. Além do magistério. forçando planejamento. ções indígenas. mas fui entendendo mais indígena para você -. porque isso não terá sentido. que. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA com ela também. fraco dessa política e das escolas. politicamente para questões maiores. Eu vejo e acompanho esse processo da mos bastante e isso tem chamado atenção de consolidação em muitas áreas temáticas. avança. em torno de algumas F: O movimento da educação tem seguido essa escolas e que inspiraram muitas coisas. Com uma construção de projeto de escola. As escolas vão além porque mesmo para fortalecer. nossas escolas na força das comunidades. inspirar. além de trazer a prática da comunidade. coi. Ali que ela também: dentro do objetivo de poder contínuo está forte. to pela educação escolar indígena fazendo essa belecendo prazos para as coisas acontecerem. como estratégia. Um movimen- gestão anterior. dos povos. são fortes no sentido político porque vão além se sentido é que essa experiência de educação daquelas coisas faladas teoricamente quando as escolar aqui na nossa região mostrou que veio lideranças se reúnem. esta. que me trouxe essa noção de usar isso tudo estratégia muito forte de recuperação da cultu- dentro do espaço da escola. portanto. mudança também forte nesse sentido. a escola não seria uma função política de defesa. Teve fa. o governo tem que assumir. Escolas que sas e pensamentos ruins que podem entrar. nosso acompanhamento dentro da Secretaria O movimento indígena conseguiu se fortalecer de Educação aqui do município. Você vê tes. Ela é de fato dos povos indígenas quando é cola. pelo menos na criando sua política de educação. A rendo ou não. Aconteceu essa experiência de um projeto específico.indd 69 5/31/12 2:33 AM . e fazer bem amplamente como defesa do patrimônio leitura do que vem acontecendo. teve um relato do pessoal de lá. Nesse sen- e vê a grande diferença. entendida deixar de acompanhar esse movimento. Teve te pensando nisso. que çar. quando colocamos essa questão na prática da es. discutindo a gestão de conhecimentos. público que vai lá dizer: . Na ques- outros municípios. transformação muito fortemente em várias te- Com esse conjunto de ações e atitudes. que têm escolas indígenas vão surgindo cada vez mais for. os pastores indígenas também. comentando que cuidando disso. mas pensar. aprofundando cultural e do território físico. líticas públicas. estratégia? mílias decidindo fazer as escolas. Hoje você tem várias porque lá encontra espaço. educação é uma ferra- no decidindo voltar para as suas comunidades menta que cuida de tudo. 69 024a087_CORR_V1. buscar. A função principal da ra. e tem sido muito estão trabalhando e tudo está acontecendo mui- positiva para as comunidades. médio e superior que. O próprio alu. da Rainforest. entregando e se fazendo mais real. Vive uma experiência reconhecidas pelas políticas públicas. No futuro acho que vamos ter ainda mais gen- também ajudou a espalhar muitas ideias. Nes.

indd 70 5/31/12 2:33 AM . trocar. AB: Acho que algumas coisas ainda não muda. O movimento indígena tem que fazer isso em çamos a mexer nos dedos somente. Essa temática apenas indígena. Agora nós temos a experiência estamos no ensino médio ou. é acolhida totalmente. ter algumas diretrizes mais comuns para a educação escolar daquela região. criar a nossa relação a isso. 1997 André Fernando Baniwa numa assembleia no alto Içana. de uma rede de escolas que é basicamente para “só pela metade”. Avaliar o processo pas já aconteceram. Diversifi. própria escola. Em 2002 fizemos uma avaliação: se valeu à pena na nessa questão? a gente ter se organizado em associações ou não. uniformizar. Várias eta- desenvolvimento sustentável. A questão nesse momento que vem acontecendo. no caso dos Baniwa. caram-se sim as experiências práticas. durante a demarcação da TI Alto Rio Negro Também precisamos repensar e reformular no braço e não chegamos ainda no coração da de modo bem ampliado o programa regional de coisa. Precisa ter um con- inspira a política pública e. Vejo isso claramente. Não estamos cada região administrativa. antes e tem hoje. a fazer escolar e gestão territorial se complementam e uma espécie de conselho e decidimos que nos- que uma formação avançada ou alguma forma sa grafia era de todos os Baniwa. não selho de decisão sobre as questões. É um processo em várias etapas. O que foi conquistado ou não. como diz meu pai. O PROJETO DE EDUCAÇÃO EM CONTEXTO BANIWA © Pero Martinelli/ISA. F: Qual a determinação do movimento indíge. senão. O que não tinha ram no jeito de pensar a escola indígena. certo? A gen- de universidade poderá propor muita coisa em te também decidiu em conjunto. Ela é importante porque. por enquanto. Mas come. ou por tronco linguís- 70 024a087_CORR_V1. Eu acho que educação Nós chegamos. identificar alguns pontos é: quem é responsável por isso? É o movimento de avanços e retrocessos.

nuar. Assumir os compromissos. e de determinação de como fazer. AB: Por causa da forma como foi feito o conta- pende do movimento indígena pensar de que to. prática. Responsável foi o choque do contato que tivemos. Que pode ser decidiu não apoiar. a gente começou com primentar primeiramente na língua tuyuka. e acabou. Que nha perguntar a ele: . Várias coisas acontecem em torno de alguns Uma escola que tem 90% de aceitação é. que vai ser sava daquilo. no projetos. cola. quando não se interessou por interessante para a universidade. como é a nossa história apostam que a nossa ideia é boa. Ele aconteceu. “dentro das próximas décadas. vai se tocar que estava errado quando indígenas. o que todo mundo tem que fazer. nem a mãe. uma vitória muito grande. por onde a gente de algumas lideranças indígenas. E para colocar isso na colar. assim como tam- fazer a experiência.indd 71 5/31/12 2:33 AM . ainda sem formação é uma decisão política. Não só para os povos momento. no nosso caso específico. F: Como os mais velhos e as lideranças pensam lecer o movimento indígena. e precisamos de espaço de união dessas peças menores para constituir novamente e forta. então ele vai reconhecer que preci- tante do que qualquer outra coisa. para que regularizassem e outros. também: . de origem? -. e vão para ou- relações para fora. temos que falar baniwa. das várias formas como foi feito o contato com forma precisa acontecer. para ir acontecendo. faz a experiência de cada escola. que fala como tratar da informação sobre a experiência de educação es- educação escolar indígena. mas depende de decisões políticas nes. quando ele tiver filho ou neto que ve- têm uma visão em um mesmo caminho. Muitos dos que foram contra a ideia da esco- te tem a saída”. E os Tuyuka vão dizer ção maior aos poucos.Para a onde a gente for. mais impor.E nós. la indígena. reunir mais pessoas que vivem essa ideia e No futuro. alimentar e várias experiências. para fazer seu trabalho. é que acabaram com parte do conhe- que ser responsável pelos projetos que ele criou. vamos cum. Como estratégia política. e virou aceita- for. Não vamos responsabilizar nem o pai e Precisa formular um jeito determinado de conti.Vô. os compromis. cimento. Tem que ao invés de falar mal da gente. O movimento indígena continua cuidando Quando desmontamos as peças. juntadas. bém podemos respeitar essas pessoas que um 71 024a087_CORR_V1. elas precisam ser dessa política. como muito forte. Certamente ele vai passar por esse melhor para as pessoas. ela de. determinar que. nem o próprio jovem por causa disso. reconhecessem as nossas escolas. muito mais forte bou o projeto. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA tico. mas para todo mundo. Se um povo escuta que outro povo cola conforme o que era decidido por nós. gena. então discute: . porque isso é liberdade de cada um. Há essa necessidade de você construir. O movimento indígena escolar exigida pelo Estado para gerir aquela es- tem que ter espaço de discussão e decisão des. Isso a Escola Baniwa na prática. a partir de povo precisam existir para subsidiar. mas não a educação escolar indí- pela frente. Isso era decidiu nesse rumo. Depois a gente se esforçou para que vamos fazer? . e o movimento tem os brancos. Um modelo político do para a terra indígena para coletar com a gente movimento indígena.e uns continuam influenciando se criasse o magistério. e construiu nossa própria es- sas coisas. Deveriam respeitar. De Mas vão continuar existindo aquelas pessoas que decisão política no sentido de como manter as não querem essa escola indígena. Esses espaços de decisão máxima de cada O Projeto de Educação teve impacto. A gente queria. O movimento pelos direitos começou a partir Por exemplo. nessas questões estratégicas? A escola tem seus limites de decisão. O movimento indígena é que vai dizer: “a gen. aquela história. sos políticos. depois fizeram mestrado e voltaram nós vamos fazer assim”. Também é importante envol. e ela vai ter seus impactos. sentido do movimento. se sentido. ver. Aca- fazer continuar a representação. tros lugares.

Por que eram antes. ma forma. Então. Os mais velhos estão preocupados porque. caíram na real. porque de fato precisa recuperar sua se abandonar esses conhecimentos. que aconteçam essas transformações. o rumo de ocupar espaços de aprendizados A escola indígena vai respeitar a diferença. de algu- todo mundo te aplaude.indd 72 5/31/12 2:33 AM . a escola e as língua. fica doloroso. sistematize os próprios conheci- mentos. sua tradição. outro lado. ou con. Acho que esses discussões não terão sentido nenhum. Mas você tem que pensar nes- lutasse por ela. 1996 Assembleia na maloca da sede da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). e ainda vai re. também para quem sos. Por isso hoje a gente aceita. Por isso a 10% que não aprovam uma escola indígena. porque trói essas mudanças. Falamos da época de contato e sequência positiva para os povos. está fortalecendo. que vai comandando. ensine. a escolarização nivela as diferenças: dos pajés conhecedores: onde quem é mais esco- uma vez que tem escola. aprenda. não preocupação de que também dentro da escola se me preocupam mais. Pode ser pessoal ou negativa. por exemplo. Mas a escola toma também e cada vez F: A escola traz muitas mudanças. Para quem cons. essa é a mudança. quando se pensa profundamente nesses proces- sabia que teria consequências. tem gente contra. quando a gente apanhava. uma preocupação de manter essa parte da tradi- comendar a escola indígena aos seus filhos e aos ção. certamente não é fácil. e Quando a gente decidiu criar a Escola Baniwa. basicamente dos mais velhos. Nem não mudava. não é mesmo? mais. mesmo que não queira. de escravidão. sabe falar melhor ou tem mais contato é vai se exigir carga horária. São Gabriel da Cachoeira 72 024a087_CORR_V1. e existe ele vai perceber que estava errado. sua história. seus netos. A decisão e as consequências são sas mudanças que a escola provoca e no que ela conscientes. © Ana Laura Junqueira/ISA. O PROJETO DE EDUCAÇÃO EM CONTEXTO BANIWA dia. Alguma coisa vai despertar e Os mais velhos estão nesse processo. larizado.

dígena dos diferentes povos. Mas este livro conta. Às indígenas do município. avançou como experiência Foirn em parceria com o ISA e comunidades con- de colocar nosso direito. com recursos noruegueses da Operação política desse livro é mostrar quanto movimento Um Dia de Trabalho. Por mais que se decida continuar ou manter de Influenciar essa política pública é central tam- um mesmo jeito. mudando. esse livro vai as experiências de outros povos. que ainda não estava escrito. Nessa época. tal contar essa parte da história da escola indígena minar essas experiências que ainda não foram na estratégia do movimento indígena. mas sem perder a base. naquele momento. e de fazer reconhecer cretiza o projeto Educação Escolar Indígena no Rio nossos direitos na prática. contadas. já que muitas outras escolas indíge- tem que estar claramente nas nossas cabeças en. o que não se pode perder é a histórias boas sobre as experiências das escolas originalidade da filosofia própria daquele povo. que vai e avançou essa parte da política e da filosofia da desde os anos 1990. um que os povos querem. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA Acho que essa situação de mudanças não para. passando pela demarcação educação escolar indígena no município de São das terras. muitas outras experiências. A função específica e Negro. e todo mundo vê que é bom e vai fazer fazer uma universidade indígena. que estão envolvidas nesse mesmo movimento. do jeito que estes povos projeto do movimento para a educação escolar in- entendem que seja qualidade de ensino. sobre o movimento in- vezes eu faço uma comparação com os marcado. dígena foram fervilhando. e entra no novo milênio. para a retomada do debate sobre educação mas algumas que. nas também têm experiências para contar. Temos que acompanhar O livro poderia inspirar uma série de outras a realidade. É fundamen- O livro é importante para divulgar e disse. Isso publicações. tiveram im- escolar indígena no município? pactos sobre a política pública e impactos sobre AB: Para mim. alguém já sai fazendo uma coisa bém para nossos projetos futuros. para executar atividades em é preciso ser feito em torno da educação escolar várias escolas indígenas ao longo de pelo menos dos povos indígenas. antes de tudo. nesse período em res eletrônicos de combustível: o ponteiro é fixo na que várias experiências de educação escolar in- base. fundamentalmente.indd 73 5/31/12 2:33 AM . dígena. 73 024a087_CORR_V1. Vamos contar igual. para que aconteça do jeito dez anos. No momento em mostrar como o movimento indígena articulou que muitas coisas estavam acontecendo. Tem quanto pensamos no que vai acontecer no futuro. F: Você acha que esse livro pode contribuir O livro não tem o objetivo de contar todas elas. como o de diferente. tante combustível ou não. Nesse sentido. não contadas aqui. a Gabriel da Cachoeira. mas anda lá na ponta conforme tenha bas. para a política pública ver e aprender.

em 1999.indd 74 5/31/12 2:33 AM . e em parceria briel (ou também em direção aos centros missioná- com o ISA. por mais que a legislação nacional dos nas comunidades e regiões onde havia iniciativas de últimos 20 anos seja favorável à criação de escolas educação escolar mas não havia experiências ante- e programas de formação de maneira a respeitar as riores. 74 024a087_CORR_V1. hoje. pensando seus existem condicionamentos negativos. no Amazonas. fossem voltadas para projetos garantir uma educação de qualidade para todos. um aperto no coração. meiros tempos do projeto Educação Escolar Indígena A constatação de que muitos jovens desciam de do Rio Negro. dos povos Baniwa e Coripaco. Em relação às escolas como coordenadora do projeto. das às suas realidades. ou como os povos indígenas na região suas comunidades em direção à cidade de São Ga- do alto rio Negro organizados na Foirn. Judite acompanhou o sentimento de impotência diante da visível inade. estando presente principalmente na quente fracasso dos resultados. O primeiro grande objetivo dessas iniciativas foi tivadora de mudanças que transformem as escolas criar escolas que formassem jovens que quisessem “para indígenas” em escolas “de indígenas”. início. esteve sobretudo indígenas. e em vários encontros da Copiar1 a delega- 1  Comissão dos Professores Indígenas do Amazonas. pensar. para a melhoria da Esse texto se propõe a contar como foram os pri. que valorizassem seus conhe- ver sobre processos de educação escolar. de desenvolvimento local. Esses encontros deram origem ao movimento dos professores indígenas da Amazônia. falar. Há se alinhou aos projetos sociais e políticos dos povos sempre um sobressalto. de assessorias do ISA. escre. permanecer em suas comunidades. época. es. e e as estratégias do Ministério da Educação de tentar que. línguas e culturas dos povos indígenas. formada a partir de encontros anuais de professores indígenas. sérios empe. NARRANDO UMA TRAJETÓRIA J udite G onçalves de A lbuquerque M arta M aria do A maral A zevedo Não é muito confortável. Roraima e Acre. como a educação escolar tão ainda muito longe de alcançar seu objetivo. futuros e criando projetos que favorecessem alter- cilhos para sua realização. nativas aos empregos da cidade. tornados claros nos Escola Pamáali. um do rio Negro. decidiram tomar em suas mãos os espa. e seja incen. Marta índices nacionais de avaliação. Os esforços cimentos e diferentes formas de aprender/ensinar. principalmente. rios na região) para estudar estava muito clara nessa ços e tempos escolares para inventar escolas adequa. que eram apoiados pelo Cimi e por outras instituições. na prática. desenvolvimento do projeto de educação desde seu quação da escola aos tempos de hoje e do conse. qualidade de vida de suas famílias e comunidades. hoje em dia congregados na Copiam.

as mudanças promovidas e seus início no segundo semestre de 1999. res indígenas da região. pouco restou. 114). com apoio de várias parce- meçou a ser delineado pela Foirn e seus parceiros. ou seja.indd 75 5/31/12 2:33 AM . funcionavam como portas de saída das -se uma equipe nessa secretaria que. o ministro da Justiça entregou os de- em escolas indígenas. onde se discutiu muito a coordenar o processo da demarcação das terras mudança radical das escolinhas rurais (como eram indígenas. Ainda fazia parte dessa grande proposta educacional. foi realizado um grande encontro de Educa. junto 1996. Procuraremos base. demarcadas. em O ISA já atuava. Desse pro- jovens para irem morar nas cidades. com o objetivo de financiar projetos de educação em países pobres ou em desenvolvimento. inicial de professores indígenas. “No dia 15 de abril de 1998. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA ção do rio Negro afirmava que as escolas até o final como secretário municipal de Educação. denominada OD3. ex- 2  Infelizmente. apontando as rupturas que se financiado por uma organização de estudantes fizeram necessárias com relação ao modelo an. sendo um para se transformarem em pessoas mais educadas. com a formatura de mais de 100 professo- rio Negro. formados todos pelas escolas salesia. Efetivamente este projeto teve tigo.]. apenas as leis municipais específicas foram elaboradas. com atividades anos com o professor Gersem Luciano Baniwa de proteção. de novos modelos. a Foirn e ma de educação indígena para toda a região co. rio Indígena teve início em 1998 e terminou em No início dos anos 90 alguns professores do alto 2002. formou- dos anos 90. Foirn e ISA. e o Magistério Indígena se desenvolveu até o final. o Magistério In- dígena2. fiscalização. capacitação técnica. p. as escolas de ensino funda. em São Gabriel da do ensino fundamental nas aldeias nessa região) Cachoeira. Condições favoráveis que iriam desempenhar um papel de criadoras Algumas condições favoreceram o desenvol. aos povos da região desde 1993. seriam implementadas em parceria com a descrever os processos iniciais das escolas piloto. durante a chamadas as escolas indígenas da primeira parte VI Assembleia Geral da Foirn. como parceiro da Foirn. Essas escolas piloto que e sem as quais as iniciativas certamente não te. do. com professores locais. o IX Encontro da Copiar. o contexto tion da Noruega (RFN). passaram a se dedicar ao grande desafio de Em 1997. a tarefa de São Gabriel da Cachoeira. 2006. o que foi comemorado pelas lideran- balhando com temas que fossem do interesse das ças como uma vitória histórica” (Cabalzar & Ricar- comunidades. deles a instalação de um programa de formação ou mais formadas e mais cidadãs. organização estudantil da Noruega que realiza campanhas para arrecadas fundos entre os es- tudantes do ensino médio. rias. associações filiadas. 75 024a087_CORR_V1. tendo recebido ção Escolar Indígena. com as lideranças locais e assessores... A partir desse encontro. tra. juntamente comunidades. e apoiadas pela Rainforest Founda- que foram o foco inicial do projeto. participavam dos encontros da Copiar e. que cretos da homologação das cinco terras indígenas pudessem ensinar nas suas próprias línguas. inclusive com planejamento financeiro. em oficialmente em 1996. quando o município de São Gabriel construir um programa de etnodesenvolvimento da Cachoeira teve o privilégio de contar por três de longo prazo para a região [. e por final. um progra. através de um projeto local e nacional. nas. através da Funai. a criação de algumas escolas piloto. motivadoras de transforma- vimento dessas propostas inovadoras na região ções nas comunidades. o Magisté- impactos na região. elaborou o mental (primeira parte ou I segmento) nas aldeias Programa “Construindo uma Educação Escolar In- funcionavam apenas para formar e incentivar os dígena” para o período de 1997-2000. “Concluída esta etapa. de todo o programa elaborado. 3  OD: Operação Um Dia de trabalho. supostamente grama constavam inúmeros projetos. vinham sendo mobilizadas pelas associações de riam alcançado o êxito desejado.

num mesmo espaço. de que era preciso rizado. Os missionários salesianos Esse perfil ideal do sujeito da educação foi acreditavam que encontrariam aqui pobres silví- transplantado da Europa para a América pelos pa. diferentes povos mais especificamente. obediente. símbolo da riqueza encontrada. morrendo de febre. ensino. NARRANDO UMA TRAJETÓRIA pressão cultural e sustentabilidade das comunida. chega em “terra de ninguém” e a destruição come- implantação de escolas indígenas. de forma siste- mática. seguiu a mesma ideologia. é. cul- balhos de autores indígenas e outras”. com o Embora tenha sido esfacelado oficialmente pela abuso das mulheres índias. diferente: os portugueses chegaram como quem comercialização de artesanato e outros produtos. em outras palavras. sem íses colonizadores. pelo papa. Os missionários entendiam que tinham a plenitude dos poderes e Um pouco de história dos saberes. assujeitado. sociedades selvagens distantes. o Magistério Indígena dei. a mesma bandeira”4. desde jovem. e pelos missionários salesianos em todo o alto trabalho. “falando uma só língua. No Brasil. e uma plantação fértil de faladas e de conhecimentos tradicionais que fo- projetos locais que se recriaram e se multiplicaram ram se extinguindo. ignorando e “Construindo uma Educação Escolar Indígena” e. realizando os sonhos do seu fundador ção escolar “para os índios”. ou etnias. quais vislumbrava seus sacerdotes atuando entre pelos missionários das Novas Tribos no alto rio Iça. adotando os mesmos costumes. recebidos. que o programa “Construin. genericamente Ricardo. das de um verdadeiro espírito cívico. 2006. conforme a ideologia da época. minérios arrancados do coração da terra. 76 024a087_CORR_V1.indd 76 5/31/12 2:33 AM . lhas da moral e do trabalho. sem tra- 4  D’Azevedo. colas. e apoiados pelo Estado brasileiro como colabora- mas sem romper com os sistemas fechados de dores de um processo civilizatório em andamento. nas calhas dos rios. essa des- Portanto. não foi des indígenas (manejo agroflorestal. isto dominado. soas. (Cabalzar & turas e línguas aqui encontrados. então. priorizando a formação do sujeito escola. alavancando e otimizando as No rio Negro. grifos nossos) renomeados como “índios” ou “silvícolas”. a educação escolar implantada proposta das escolas piloto. isto é. com a negação de mais de mil línguas xou marcas indeléveis. com a negação da diversidade de povos. 114. com as reduções jesuíticas. página 16. necessita- e médio rio Negro. que sempre tiveram na Igreja higiene. p. capturado e transformar os índios em cidadãos brasileiros. tinha premonições nas conduzida durante quase um século no rio Negro. cultuando devem ser” as políticas de educação. que vegetavam nos igarapés imundos. pelos salesianos. tal como implantada e D. capacitação çou com a tomada de posse dos bens e das pes- de agentes indígenas de saúde. “como ligião. o seu melhor aliado. de D. Bosco embalariam e fortaleceriam os missio- quenas escolas tiveram a sua origem no século nários na difícil missão de guiar os índios nas tri- XVII. Bosco que. a educação escolar no Ociden. é nesse contexto de lutas e vitórias truição continuou com a derrubada do pau-brasil. com a escravização nova secretária que substituiu Gersem Baniwa. que define. sem religião. aplaudidos te tem passado por muitas “reformas” importantes. as grandes e pe. pouco afeitas ao na. juntando. com o roubo dos do uma Educação Escolar Indígena” teve início. 1950. desde 1500. De lá para cá. pois se sentiam enviados por Deus e Vamos aqui contextualizar a história da educa. muito significativas. publicação de tra. Esses sonhos Tal como conhecemos hoje. formando o “cida. a partir de 1914. professando uma só re- dão útil” para o Estado. o referido programa forçados. dos homens e mulheres indígenas para trabalhos dois anos depois de criado. piscicultura. afastadas dos valores cristãos.

pelas provas. josa dos índios do rio Negro. O “Sistema Preventivo de zam socialmente? Todas essas perguntas não Educação da Juventude”. Razão. enfrentar o discurso da “competência” da educa- uma visão teológico-política do índio. comunidades indígenas. página 17 e 44. início do século XXI. As experiências de luta e resistência aos proces- ção Escola. lesianos se instalam em “território missionário”6. na Itália. 77 024a087_CORR_V1. com a coordenação de professores tura própria. como objetivo. na seleção prévia de con- longo dos séculos antes da colonização? Como teúdos ordenados nos livros didáticos segundo transmitem esses saberes? Como vivem? Como critérios que não fazem sentido para os alunos e se curam? Que línguas falam? Como se organi. e alguns com pós graduação inclusive. foi a primeira decisão cora- Igreja (que os envia) e com o Estado (que os rece. Romper com a “sala de aula” e seus rituais insti- sabendo. essa visão da falta guia com seguran. por exemplo. para quem ção salesiana. fases). Amabilidade”. levando em conta a cul- Negro. da Final do século XX. onde prêmios colas salesianas estão ainda funcionando no rio e castigos são previstos. foi Tendo então essas certezas como bússola. página 07. seria necessário romper com a maioria Negro. a pessoa wanano. “salvar” os meninos de rua de Turim. no “vazio da falta”. quem são os índios com horários rígidos. da cidadania zer educação escolar com autonomia e com bons que nega a identidade étnica dos povos do rio resultados. os salesianos danças muito recentes7. lançando organizações indígenas do rio Negro que. Daí a preocupação das novas lideranças de expressão que marca a posição de quem toma propor novos sistemas de educação escolar e de posse de um território seu. be e apoia). aplicada sistematicamente nos calendários. entram no rio Negro vigorosamente fortalecidos. somente a certeza das faltas é que gião. firmar. “apto/não Rupturas necessárias e contrapropostas apto”. Bosco para guiava suas ações (Albuquerque. dos regimentos rígidos. na adequação da ida- tam esses índios? Que saberes desenvolveram ao de às séries ou ciclos. na “plenitude do indígenas. de antemão. baseado no tripé “Reli- eram feitas. Apoiados. na região. 2007. da “ordem em tudo” preconizada por Comenius e ça as suas ações. obediência. ciclos. tudo falta. formar a pessoa baniwa. criado por D. sabem que devem investir na institui. ressignificar o discurso da hierarquia. Os rituais escolares já estavam todos pré. para fa- as bases da cidadania não indígena. nos vida sobre. 1950. malmente se impõem como naturais. sendo históricos. os sa. dos rituais escolares que. congregação religiosa Salesi- ana e à Seduc com o intuito de tirar da direção das escolas missionárias os religiosos. porém. na organização e progressão das os quais eles vinham trabalhar? Em quê acredi. por outro. não se colocando nenhuma dú. por um lado. da ideologia do “professor formado”. as es. iguais para todas as escolas. turmas (séries. deixando para tal encargo os professores indígenas agora já formados.indd 77 5/31/12 2:33 AM . 116). pois esse é o lugar onde será possível sos de colonização deixavam muito claro para as legitimar o ensino da língua portuguesa. 6  Idem. posição que dará to. Os sistemas nacionais de avaliação 5  D’Azevedo. 7  A partir de 2007 a Foirn e suas associações filiadas deram início a um grande movimento junto à diocese. tudo o que deveriam fazer tuídos e cristalizados desde tempos imemoriais de e como deveriam fazer. a das as coordenadas do trabalho missionário e pessoa tuyuka. o que dá início a um novo ciclo de mu- envio” e. na época. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA balho5. Era preciso en- das relações de poder. pelos jargões classificatórios: “aprovado/reprovado”. nor- -determinados. frentar também o discurso da competição repre- sentado pelas notas. p. Comprometidos com a colonização e missão. transplantado tal qual para o rio Negro. Era preciso Os missionários salesianos tinham.

bem como às suas atividades produtivas e ao sob o risco de os cursos não serem reconheci- etno-desenvolvimento. a legislação da educação escolar gregará os sub-sistemas de ensino que aten- indígena valoriza os conhecimentos tradicionais derão aos povos indígenas que aqui habitam. mas suficiente para dar corpo aos a prática da autodeterminação” (Lei Municipal debates que. os velhos sá- da Educação. em cada calha de rio. nem o Estado. predominantemente.2. arbitrariamente. art. subsistemas indígenas. mas nada desencorajou a iniciativa e a criativi- em que se assegura a tradição e o modo de dade de ter que reinventar não só a escola. com suas cargas horárias determinadas rentes povos indígenas. no item a seguir. mas ser indígena. Estado e. Um res e contra valores da sociedade envolvente e tempo curto. na prática isso se inviabiliza pelo sistema em seus artigos 231. ou seja. pág. desse funcionar a contento. vinham compondo as pau- 087/99. garantindo aos povos indígenas que a resolver os seus problemas. sem organização social e aos seus valores culturais. A diferença não cabe em um sistema homo- colar. O sistema Municipal de Ensino con- Teoricamente. orga- § 1º. alunos reais e as necessidades concretas de co- vinculando-se ao mundo do trabalho e à práti- nhecimentos que ajudariam as comunidades a ca social.indd 78 5/31/12 2:33 AM . no sentido de romper com a tutela que o gêneo. Esta lei disciplina a educação escolar nizados. criou o Sistema Municipal As organizações indígenas sabiam que era de Ensino em São Gabriel da Cachoeira. em torno da educação es. podem dar aulas. A mexida histórica provocada pela Lei Estado e a Igreja insistiam em continuar a exercer municipal nº 087/99 estremeceu a política do sobre os índios. 12: “Escola In- bios participam em condições diversas daqueles dígena: Específica e Diferenciada. Ou então. para que pu- uma relação positiva com outras sociedades. neste momento (1997- a compreensão do processo histórico em que 1999). cada disciplina isolada uma das pulação é majoritariamente composta de dife- outras. educação e ensino: com seus períodos de férias e recessos. em São Gabriel da Cachoeira. Intercultural professores contratados. e Bilíngüe” onde podemos ler: “. no qual. É o que podemos ver. dos nacionalmente. ocupando a pasta da Secretaria Municipal estão envolvidas. sub-item 3. a qual pressupõe. o pleno domínio de sua realidade: Gersem Baniwa está. 210 e 215. NARRANDO UMA TRAJETÓRIA (iguais para todas as escolas do país) desconsi. em instituições próprias. Mudanças radicais e urgentes se impunham. § 2º. consequentemente. e conforme fechado de contratos trabalhistas que exigem um Princípios Gerais das “Diretrizes para a Política tipo de formação acadêmica nacional para ser Nacional de Educação Indígena” do Ministério admitido como professor. fornecem-se os elementos para também as condições da invenção. disciplinas definidas educação escolar se vinculará às suas formas de de forma inflexível para cada curso/série. tas das reuniões da Foirn e das associações locais. § 1º e 2º). a possibilidade de troca durante um percurso. de calen. por parte das sociedades de forma bastante sintética. sem nenhuma relação com os por meio do ensino.a Escola Indí- mas sem salário. incluindo preciso transgredir a noção de tempo. 1º. e incentiva a pesquisa desses conhecimentos nas conforme prescreve a Constituição Federal escolas. 78 024a087_CORR_V1. de 24 de maio de 1999. gena tem que ser parte do sistema de educa- A lista dos obstáculos a serem vencidos é imen- ção de cada povo. cuja po- comunidades.. deram as formas próprias dos diferentes povos e Para viabilizar as propostas. ao mesmo tempo sa. a percepção crítica dos valo- de Educação.. a Lei Municipal nº 87. há anos. com níveis diferenciados de dários pré-fixados nas secretarias de educação. sem considerar as necessidades das que se desenvolve neste Município. indígenas. comunidades.

com a mudança de secretário. Mas o Movimento Indígena já ha. que busca e três participantes. sem se repetir. Comentamos agora alguns aspectos da escola via tomado a decisão de assumir a direção das que mais acompanhamos. afirma. ao lado da Foirn/ISA eram. educadores. não adianta falar demais da escola povos do Mato Grosso. em todos os níveis. certamente. duas an. e as aspirações de cada povo. os Baniwa-Coripaco. quando foi coordenadora pedagógica. assessoras desses inícios ambientalistas. E a escola indígena. em 1999. como funciona Secretaria de Educação um ano antes do final o ensino com pesquisa? da sua gestão. sentidos. Tem que fazer. os dois po. dirige as atividades da Escola Utapino. Era preciso apenas re. cum. (Eibc) . nossas ram o projeto da Escola Utapinopona. se empenham no sentido assessoras só se instalou porque as lideranças ba- de assessorar e buscar parcerias e colaboradores niwa que estavam na coordenação desse proces- especialistas para o desenvolvimento dos proje. a Escola Pamáali Baniwa e Coripaco colar indígena na região. já discutida anteriormente. pudemos ver funcionando nessa escola com base levando em conta os projetos sociais e políticos em sistemas abertos de conhecimento: com mui- das próprias etnias e comunidades. por esse caminho. Uma delas foi levar adiante a soria qualificada do ISA. so tinham muito claro o que queriam da escola. tal como cionalizar uma experiência com escolas piloto. se justifica. do lançadas bases firmes para uma educação Em 2000 organiza-se uma primeira oficina de diferenciada para valer. tivéssemos algum tais. comunidades. na formação simultânea de alunos. tos locais de educação escolar: Marta assumindo e que só precisavam de outras pessoas para aju- mais responsabilidades na calha do rio Içana e dar a pensar como poderiam operacionalizar suas médio-alto Uaupés. assessores! Depois da Pamáali. pedagogia etc. e no rio práticas “assessórias”. to entusiasmo e muitas descobertas direcionando vos que mais estavam discutindo essas idéias todas as ações curriculares. no iní- escolas e de dar os rumos para a educação es. tendo vinte ainda hoje) com a parceria do ISA. quisa vai abrindo muitas portas que se ampliam mação de professores indígenas não pararia sempre mais. sobretudo no projeto Tu- diferenciada. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA nem a Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira puderam suportar: Gersem teve que deixar a Na prática. nunca mais foram a Escola Pamáali. 79 024a087_CORR_V1. ideias. nossa segurança como Projeto de Educação. Marta Azevedo e Flora Cabalzar. Lá. Embora nós duas. A questão linguística pona Tuyuka e é radical: “Já temos a lei a nosso A experiência anterior de Judite era com os favor. acompa. como assessoras de diversos Içana. calha do rio Tiquié. que desenvolveram projetos de educação indígena. Marta e Judite. Agora. Aos poucos fomos conhecendo mais a re- nhando as primeiras experiências. professores. da Escola Pamáali.indd 79 5/31/12 2:33 AM . os Tuyuka. ajudando a gião como um todo. Sobretudo os aspectos proposta. conhecimento sobre os povos da região e sobre tropólogas que. sendo que seis deles seriam reunir as melhores condições de apoio aos pro. gestores ambien. liderança da etnia Tuyuka. cio do projeto. A Foirn contava (e conta Eibc com duração de duas semanas. contribuindo para a nesses anos 90. com a participação de antropólogos. escolhidos para compor a equipe da escola pilo- jetos indígenas de sustentabilidade em todos os to Pamáali. Flora no Tiquié. dentro das propostas formação de professores Baniwa e Coripaco na de cada comunidade. que desenvolve.. já fazendo parte da equipe do educação. concretizar”.pois a Escola Tuyuka já contava com asses- fazer as estratégias. operacionalizar a proposta pensada/escrita nas cada calha de rio e grupos de comunidades. até porque a pes- O Curso de Magistério Específico para a for. Higino Tenório. ali estavam sen. que se referem ao ensino com pesquisa. as mesmas. pais. de opera.

a história lingüística pessoal dos logia. a palavra e disse apenas. como as aprendeu). 2: tos circulam) e. 8: A Câmara e a função do vereador (Franklin experiência. Maurício Fontes. 7: Escola – a o início das escolas piloto. em lembrando que seria uma experiência curta. O passo seguinte foi tida ao longo dos anos de desenvolvimento e relacionar a pesquisa com os trabalhos a serem instalação da escola. Marcelino Fontes. em pequenos grupos. de especialistas nas diferentes áreas do Voltando à primeira oficina de formação continu- conhecimento. 80 024a087_CORR_V1. Já Marta foi asses. E já rio. discutia com entender como funciona uma escola diferenciada”. no rio Negro. fomos Magistério Indígena I. zária Trindade e Bernar Lino). a situação da leitura e mais aprofundado de um tema. com exposição dos resultados conseguidos. Realmente. a análise professores (que línguas sabe falar. Tuli Melício gãos governamentais como os municípios. Na- de discussão sobre políticas linguísticas na es. Mas estava lançado o tema da sora de Gersem Baniwa na Semec. de Oliveira. política de empregos em São Gabriel da Cacho- cola Pamáali. línguas domésticas. com esse objetivo. um livro projetos de pesquisa foram sendo estruturados plurilíngüe escrito pelos professores do curso: passo a passo. questão das línguas indígenas que haviam sido Paulo Lourenço. Partindo das experi- equipe da secretaria e outra assessora. o estudo da questão das línguas indígenas. Um grande seminá- cola. uma das questões importantes Eldo Américo e Valdir Júlio). Gilvan traçando uma trajetória de buscas. desenvolvidos na Escola Pamáali. o Prof. de que era necessário um processo Paulo.o que cada grupo decidiu pesquisar -. 6: A Escola Indígena (Afonso Fon- missionária e nas escolas da Funai e outros ór. sequer podíamos imaginar o a necessidade de irem pensando e formalizando alcance da pergunta e nem tão pouco tínhamos as políticas das suas línguas. finalmente. que registraria essa experiência grupo definiu uma questão para experimentar. Madalena Custódio. como seria feita a coleta de dados.9). 2001. começando pela definição de um “No primeiro encontro com os professores para problema . fomos apresentadas ao grupo de nas e não indígenas. encaminhamos discussões sobre duas semanas apenas. Foi convidado A proposta era vivenciar o ensino por desco- para discutir as políticas das línguas indígenas no berta. monitores indíge. “Professoras. o Magistério Indígena I. Silva). Isso implicou em definir também a metodo- municação). ada no rio Içana. começamos a trabalhar.indd 80 5/31/12 2:33 AM . acontece. de modo especial. antropólogos. em que momentos. da escrita nas comunidades (em que línguas isso Os temas pesquisados. Cada pequeno M. Naquele momento. Raul Rodrigues. quisa. André Baniwa tomou cuidadoso nas etapas de trabalho nas aldeias. 5: História da Educa- nas (novas) escolas indígenas era (e ainda é) a ção – como surgiu a escola? (Fortunato Custódio. pela pesquisa e. língua de interco. nós queremos Um lingüista. já tínhamos esse conhecimento e eira. antes mesmo de começar a trabalhar. organizou ências que trazíamos. que pedagogia das Pimentas da nossa região. Félix da Silva e Tuli Melício da cada nas escolas”. Valkiria Apolinário. Alberto Garcia. foram os seguintes: 1: O lixo e o meio ambiente. Para da Silva. Genésio Andrade deixadas de lado nas escolas da colonização e Horácio Paulo). NARRANDO UMA TRAJETÓRIA um grupo de educadores indígenas e não indí. quando as dos dados levantados na busca de conhecimento usa. 3: O gafanhoto (Daniel línguas (indígenas e do português) tem sido prati. Oliveira. sabíamos que essa discussão deveria ser man. que tipos de tex. A Primeira Oficina de Formação de Professores genas. de julho de 1998. respostas para dar. tes. fazia um acompanhamento professores baniwa-coripaco. e junto com a oficina: o ensino com pesquisa. 4: A papoula (Albino Luis. Félix Figueiredo da Silva). Os no prefácio do livro “Terra das Línguas”. em 1997. Benjamin da Silva. durante as quais era impor- a situação lingüística das comunidades (línguas tante experimentar todos os passos de uma pes- públicas. p. em particular na Es. cada grupo de professores indígenas por etnia. encerrou estas pesquisas.

Tuli e/ou São Gabriel. pai. Nazária. não é uma tarefa simples. as ações estavam por conta desta baseadas no currículo nacional e nos procedimen- equipe. o ensino com pesquisa supõe a busca cola a partir de projetos de pesquisa. conforme a tradição jogos. apesar de importante e de família para garantir a caça. o mundo do seu povo. o que precisasse a escola. apenas dois funcionários: a da cozinha e um pai Como já lembramos. sem modelos. E assim. escola e na elaboração e acompanhamento de cionais em suas comunidades. levantando os conhecimentos tradi. estudavam os temas previamente A maioria havia perdido os momentos mais fortes escolhidos. jamentos dos alunos e das alunas. mais tarde. o início de cada nar o aluno a pensar. ou a da Escola Agrícola de Manaus Raul. Franklin. com o bom humor expressos nos gestos. vai surgir. incluindo a função cola e levá-lo adiante. no médio Içana: em São Gabriel. que iria iniciar a Escola Pamáali. Os pais e pajés. Madalena. preparando material de apoio (bibliografia) para Os professores baniwa e coripaco tinham bas- acrescentar conhecimentos de outras culturas. e significativos de aprendizagem junto aos seus Foi marcada a data para o início das aulas. Mais do que transmitir conheci- e discutida de organizar todo o currículo da es. a seriam levantados na escola. 1998). eles buscavam formas de professores escolhidos sobem o Içana para pre. a refletir. de trabalho. das funções. a criação. baniwa) ao anoitecer (nos alojamentos)! Tudo vivi- turalmente. Na escola. De qualquer maneira. mento. até as soluções para os proble- aulas. tante clareza das suas responsabilidades de ensi- de outras sociedades. enfim. formas parar a chegada dos alunos – que viriam na se. der o seu próprio mundo. também. os alo. tres especializados que vinham para oferecer do qual os internatos os havia separado tão cedo! essas oficinas. projetos (Camargo. compreen- formação dos professores que. onde colocar o lixo que. no sentido de fazer mudar iriam planejar como organizar as turmas. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA Dos professores que participaram da oficina. A experiência anterior dos professores. orientador nos Trata-se de ter a ousadia e a coragem de inventar momentos de dúvida. uma mudança de postura de toda a comunida- Para garantir o funcionamento da proposta de escolar em relação ao processo de ensino e pedagógica baseada na idéia central sugerida aprendizagem. Ao chegar à escola. de conselheiro dos jovens alunos. o fogão enorme tempo integral: a vida do amanhecer (com o ba- sobre trempes de pedras. ou era seis foram selecionados para fazer parte da equipe a da escola salesiana no internato ou. Marcelino. E o que fazer. Agora. Todo mundo implicam a sua difícil operacionalização. “Esquecer” essas experiências distribuir as funções. e de correr os riscos que em apoio também aos professores. Dois meses na escola. Ficou decidido que a pesquisa seria o eixo tos comuns de qualquer escola. E agora. os espaços de lazer e nho no rio. de madrugada. a tomar decisões e etapa letiva. mergulhar na própria cultura e. as casas dos professores. de uma etapa para curiosidade. em diálogo. Requer estava aprendendo. eles zação” disciplinadora. era precedido por uma oficina de a compreender o mundo que o cerca. o método. os temas pelo conhecimento novo. nas 81 024a087_CORR_V1. como atitudes e condutas. junto com mes. de uma “catequi- orientador das atividades. a pesca e alguns pertinente. a distribuição esse foi o primeiro calendário básico. dois meses na família. as salas de aula. para que todos pudessem se preparar: professores de todas as áreas na organização da – os alunos. como dar as do intensamente. montar a cozinha.indd 81 5/31/12 2:33 AM . novas de se relacionar com as culturas e saberes mana seguinte – e organizar o local e o trabalho: outros. todas elas Melício. por onde começar? mas. Havia grande desafio. – os professores. na. elaborar um projeto próprio de es- outros trabalhos do dia a dia. já que quase todo o trabalho e inventar a escola necessária era e sempre será o seria realizado pelos alunos e professores. supõe o envolvimento coletivo dos a outra.

além da rede e do rádio. sem dúvida. radinho de pilha. campo). resolve ou te a pesquisa e/ou previstas na proposta curricular encaminha os problemas detectados. em casa. junto com os alunos. tudo vê. uma muda de roupa. nem pude acreditar que um fazem. não se trata de uma maloca tradicional baniwa. e agitação. gráficos. quando os velhos estão ali e narram antigas his. nos campos objetivos da escola. estatísticas. a análise. Em poucos minutos.indd 82 5/31/12 2:33 AM . o caderno com o projeto da pes- temas abertos de educação. primeiros presidentes do Conselho. minário. como o livro de e conversam com os alunos. No sábado. o papel dos professores que execu. os escolas e comunidades. O “capitãozinho”. períodos na escola. até pelo menos o quarto passo (o trabalho de de simbolismo. Um grande se- tórias de guerra. 82 024a087_CORR_V1. o choro. com freqüência também de vida muito especial: ali a conversa. estava abando. avaliações. um dos assembleias e todas as ações coletivas: debates. os desabafos. os alunos assisti a esta saída. Textos produzidos circulam nas comunida- giado. Agora reverberam os sentidos. em rodízio. gem está pronta: a rede. tudo isso fica para o reinício das aulas. a sistematização dos nado. corrigido. pesquisas. serão aprofundadas agora. com os pais: afeto. com a orientação dos professores. em grupos. Outros materiais circula- 8  Na verdade. são necessários. Representantes do Conselho da Escola tam. só bongo pudesse levar tanta gente e suas baga- de. a organização dos dados. uma vez que a escola está fora Mais dois meses e eles estarão de volta! Na ba- de uma comunidade povoada. o amparadas pela legislação e pelo conceito de sis. a pesquisa fei- onde foi construída a escola. nhos. a música. Eracito. na grande “maloca”8 onde acontecem as dado na conservação das casas. trabalho na roça. rias”! O bongo está abastecido no porto. Sr. Sr. A primeira vez que a maioria. o exercício da responsabilida. em língua baniwa e coripaco. ilustrações. Os alunos indicados para fazer passam com frequência pela escola. para revisão. Questões de conteúdo surgidas duran- mana. primeira publicação impressa e organização. quisa preparado para os próximos dois meses. nas salas de aula. fluem ajudam a resolver pequenos problemas. encerra uma fase de escolhido para exercer a função durante uma se. des. incluindo a gens: 36 alunos numa única canoa! de “capitãozinho”. Panhádali. de heroísmo. de memórias ancestrais. passava longos planejamentos. as propostas locais. fim: nada fica sem ser comentado. na cozinha. na própria escola. com pro- a grande assembleia de avaliação parece não ter fessores das diferentes áreas do conhecimento. Educação Foirn/ISA. a pesquisa. valem as necessidades. Os alunos mas não no sentido do controle de alguns sobre têm pressa de voltar para casa. dades. eis o que compõe este período de “fé- Regras e horários. dese- acolher a Escola Baniwa-Coripaco. mapas. que teve uma aceitação e uso muito grande nas tam. é um lugar cheio ta. atento. ambos ouviam os alunos e saudade. discutem o sistema de leitura Iemakaa. assumindo as diferentes funções. replanejado. tudo é decidido no coletivo. que também fez par- Os alojamentos dos alunos são um espaço te do Conselho na época. outros pais muito à vontade. Mateus. que guiam essa par. a pequena baga- ciada. tudo observa. centro de todas as inúmeras as- sembleias que terão lugar durante o período presencial de aulas. a permanecia na escola. estão em viagem ou pescando. a região gagem. de lutas. independente da idade ou da escolaridade Quando termina o período de aulas é só alegria anterior: no espaço da escola indígena diferen. a ela- Até o momento em que o local foi escolhido para boração de textos. mas apenas de uma sala bem grande. sobretudo quando o assunto é da cultura deles. solicitam aos alunos maior cui- de jogos. sobretudo resultados. as risadas. enfim. bém se fazem presentes durante o período letivo Algumas coisas serão publicadas. sempre que o curso fundamental são escolhidos nas comuni. as ações pedagógicas. NARRANDO UMA TRAJETÓRIA ações. em ceria entre as associações de base e o Projeto de casa. elo.

porque o Estado. ciado no desenvolvimento destas propostas. e ain- discutir ou fazer as propostas com os pais. máali. em cada pequena no laboratório da escola. 83 024a087_CORR_V1. não entendeu Os saberes se completam na Escola Pamáali: os a necessidade do investimento financeiro diferen- tradicionais. mento do tamanho da necessidade real. os próprios professo- de água branca. biblioteca. Tuyuka. disponível na Escola Pamáali. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA rão em forma de fascículos. magistério ou técnicos. sempre. aproveitando igarapés comunidade. Para se da. se dos próprios professores. Os alunos aprendem todos os cálculos e coripaco na Eibc. alevinos nascidos no laboratório. para receber e criar os sidade das parcerias e busca de recursos externos. não tem ainda uma política de investi- suas vivências e idades diversificadas. dos próprios alunos e de entendeu. eles mesmos preparam na escola. a repro. têm dado contribuições ao de- cultura acompanha toda a etapa ou período de senvolvimento dos projetos. até o momento. não só na Escola Pa- aulas. E. que é a formação da pessoa baniwa dução. sempre que necessário. por outro lado. discute com os alunos e professores as con. das universidades. mas nas outras também. e assim por diante. chegar a este resultado. para sos de nível médio. das escolas. em relação ao eixo a sua alimentação. cimentos produzidos por outros povos são aces- quando os alunos aprendem novas tecnologias e sados por diversos caminhos. e/ou nos cur- textos com essas orientações.indd 83 5/31/12 2:33 AM . o tamanho do tanque. de fora são acessados. entra a neces- melhante na comunidade. etc. res se preparam nas Universidades. Os conhecimentos dições objetivas de vida e crescimento dos peixes. com a assessoria dos velhos sábios. os conhe. como por exemplo. seja a pesquisa na precisam repassar e rediscutir nas comunidades. da pessoa tuyuka na Escola necessários para poder reproduzir um tanque se. E aqui. um especialista em pisci. especialistas de fora. Quando aprendem como fazer um tanque para a seja na intenet. com um acervo ainda muito pequeno. mas engorda de alevinos que estão sendo produzidos ainda não nas escolas menores. na sua língua.

implicitamente afirmando que aqueles que ser recebidas. povos do mundo. aprendi que não existe nenhum aspecto da cados. Percebia O mesmo se aplica aos termos educação ou que esses projetos. Como psicóloga da educação que não foram formalmente ensinados. seja no que diz respeito acima da educação que a criança recebe de pro- aos sistemas e conteúdos. passei a adotar uma atitude mais realista. Um fessores informais que os educam na família e na currículo. estava distorcendo minha perspectiva. Mas o que de- para isso é que a maior parte desses projetos era fine o que é educação ou o que deve ser? O que feita sem consulta prévia às pessoas a serem bene. eu entusiasmo. da No- educacionais. precisava modificá-la e ampliar minhas idéias. vem refletir valores e atitudes de uma sociedade. que Portanto. Fui contratada por organizações conhecer a sociedade de Moçambique e suas nacionais e internacionais para avaliar projetos formas de ensino. Há vá- contexto local e cultural. muitas vezes. O ensino formal numa escola é valorizado educação livre de valores. A educação é promovida como uma inesperados: eles se adaptavam a uma realidade ferramenta que vai abrir as portas para todos os local e não obedeciam às idéias que o doador ha. A educação vai dar uma vida via planejado em seu país de origem. Minha ótica Ocidental. de. lugares remotos. tivos mais nobres. nos o aplicavam. Iniciei esses trabalhos com grande ruega. comunidade local. não são universais. Quando observei o en. e as diferentes maneiras de ensinar. Milhões de crianças ainda não pação. É um erro comum introdu. métodos de partici. por exemplo. Contudo. depois de algum tempo. seja nos métodos. DESAFIOS PARA O FUTURO DAS ESCOLAS EM ALDEIAS INDÍGENAS E va M arion J ohannessen Meu trabalho nos últimos 12 anos como con.indd 84 5/31/12 2:33 AM . tive que analisar a maneira como os moçambica- sultora independente me levou a vários conti. A campanha global Educação para Todos. autoridade do professor. atingido a todos. rios motivos para que a educação ainda não tenha sino participativo em Moçambique. não estão edu- sou. colaridade refere-se ao local aonde a instrução é zir novas idéias sem levar em conta como elas vão dada. o que não consegui sem antes nentes e países. é importante aprender e como aprender? A es- ficiadas pelos mesmos. os significados de termos educacionais foi lançada em 1990. Um deles é o de que a educação 84 024a087_CORR_V1. Vai tirar o país da miséria. tomavam rumos escolaridade. ainda não atingiu seus obje- tais como qualidade de ensino. Um motivo melhor. manejo de sala de têm acesso à escola e continuam vivendo em aula e cooperação com os pais. onde não há escolas ou estas Estes termos são definidos em um determinado pertencem a grupos étnicos minoritários.

escola e a comunidade.indd 85 5/31/12 2:33 AM . aprendizado lias pobres acham que têm que pensar primeiro na e avaliação. para participar cias não têm sido respeitadas ou avaliadas. Mas cado apenas em inglês pela Fundação Rainforest isto não é verdade. foi grande minha surpresa confiável. geral correspondem a uma abordagem viável e Com isto em mente. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA © Aloisio Cabalzar/ISA. uma experiência inova- obstáculo à educação formal. Minhas experiências escolarização. às iniciativas locais. cada famílias pobres ficam orgulhosas ao mandar pelo qual tendo suas fraquezas e pontos fortes. publi- não compreenderiam o valor da educação. Suas línguas e suas experiên. O livro se concentra entende o valor da educação. forest da Noruega foi em 2001. no Xin- crianças para uma forma homogênea e urbana de gu (2004) e no Acre (2007). assim como preciosas da floresta tropical: as escolas indíge. ensino. formação do professor e seu papel. tuação bilíngüe/multilíngüe. A prova de que real. Não se trata de projetos do 85 024a087_CORR_V1. dora na educação indígena no Amazonas. 2003 Eva Marion Johannessen escolar oferecida não está adaptada ao modo de nas. A maioria dos pais realmente da Noruega (NRF) em 2009. Não sendo letrados. Pais que não mandam seus filhos e reflexões foram apresentadas em um pequeno para a escola têm sido vistos como o principal livro Escolas da Rainforest. A edu. mas no menos uma de suas crianças para a escola. fundados em um profundo respeito às ao me deparar pela primeira vez com as pedras diversidades culturais e lingüísticas. da avaliação do Projeto de Educação Yanomami cação tem sido usada para oprimir a diversidade no Brasil. Depois disso participei de grupos de étnica. e as famí. a alimentação de suas crianças. cultural e lingüística e tem conduzido estas avaliação similares no Rio Negro (2003). mas as escolas nem nos principais aspectos das escolas indígenas: si- sempre são disponibilizadas sem custos. A primeira vez que fui recrutada pela Rain- vida destas crianças. Os quatro projetos são mente dão valor à educação fica patente quando ao mesmo tempo semelhantes e diferentes.

pois pertencem aos povos mundo. estando sujeitos à necessidade de preser- Quando visitei a escola Tuyuka no alto rio Ne. raciocínio crítico. DESAFIOS PARA O FUTURO DAS ESCOLAS EM ALDEIAS INDÍGENAS doador financeiro. Como eu a percebia. Por outro lado. e sim uma escola que atende às ne- mente importantes de uma escola indígena são: cessidades de poucos. vas para a nova geração. também um dilema com que os pais e educado. Daí se tornarem recipientes pas- riam sempre ganhar a batalha? Devemos prote. As instituições formadoras que prepa- suas mentes com relação a uma sociedade mais ram professores na lida com crianças e jovens. mas também se transfor. para todos. mostrando alternati- de aprendizado. mas focada em valores coletivos e maneiras sar o modo de vida moderno. tecnologias modernas. e temos falhas neste ensino que o velho e o moderno possam se unir? Seriam que não permite aos alunos desenvolverem um as forças da modernidade tão fortes que deve. neses e os povos indígenas como representando um atraso para uma economia capitalista expansi- va. relevante. têm um componente de treinamento profissional Seria ingênua e romântica a atitude de acreditar e pratico satisfatório. As novas formas de ética. A escola não estava separada do seu ambien. o ser moderno em nossos tem- Formas tradicionais e modernas pos significa estar atento à maneira como os seres de aprendizado em uma sociedade humanos e a mãe terra são dependentes uns dos em transformação outros. As escolas modernas fora de territórios indíge- tenedores da cultura. sim uma perda de tempo. e a tecnologia é separada da sociedade que se transforma. compreen- 86 024a087_CORR_V1. va o melhor do velho e do novo. como em todo ambiente baseado em forte abordagem urbana. Não é uma educação to o passado quanto o futuro. Trata-se de um assunto de ordem política indígenas e seu futuro depende de seu desen. na Europa. na? Que tipo de desenvolvimento nós desejamos. discussão que ocorre nas sociedades indígenas e na Ásia e na África. Os velhos mestres de- sempenhavam um papel importante como man. mistura. São tidos como sobre sua herança e identidade. relacionado ao desenvolvimento. assim como da compreensão e desenvolvimento? O que é uma educação moder- apoio da sociedade ao seu redor. dirigidas por um tística dos alunos não é tido como importante. Duas tarefas igual. redor do mundo consideram os pequenos campo- dade das escolas em aldeias indígenas. A teoria é favorecida em forma de aprender dos alunos e também a uma oposição à pratica. O desenvolvimento da vida espiritual e ar- ensino numa escola indígena. sivos do conhecimento. Isto acontece em todas as ger as crianças dos males modernos? Esta é uma partes do mundo: na América Latina. As gro. nas estão em crise. e a abertura de fracassados. A seguir apresento algumas reflexões sobre a que custo? A maior parte dos lideres políticos ao aquilo que percebi como desafios para a continui. O aprendizado moderno está mavam nesse processo. encontrei um ensino que correspondia ao questões pertinentes ao meio ambiente global não meu entendimento de como a educação deve podem ser resolvidas contando somente com as ser. Precisamos também repen- te. Os alunos estão sofrendo e o fortalecimento da consciência da nova geração muitos abandonam a escola cedo. não ampla e às questões globais. teórica. vação dos recursos naturais e da biodiversidade. professor/aluno.indd 86 5/31/12 2:33 AM . Formas novas e tradicionais de aprendizado podem conviver Questionamentos sobre a educação em perfeita harmonia desde que se aceitem e se moderna e a tradicional valorizem umas às outras. Eles precisaram se adaptar à técnica e racionalista. e professor jovem e treinado. precisam incluir tan. O que significa o volvimento local. Por sua vez a educação escolar indígena na flo- res se confrontam em muitos lugares ao redor do resta tropical é contextual.

crianças e jovens pre. currículo de escolas não indígenas. se- de desenvolvimento de uma identidade comum. Tenho convicção de que tais investigações e méto- nho dentro das condições contemporâneas e his. quais suas habilidades e o que seu passado. senvolver materiais sobre esses temas de ensino. É igualmente importante ensinar alunos que vivem em sociedades modernas sobre a vida indí- gena. pessoal e prática. envolve o aluno ser capaz de introduzir indígenas que liderem este tipo de projetos. Esta é uma abordagem científica verdadeira. O processo de identidade individual de. não apenas no mento básico para a tomada de tais decisões está Brasil como em todo o mundo. to de ambos os mundos. conhecedores de seu povo e de sua querem se tornar. decisões Educando os não indígenas que dizem respeito a quais elementos do mundo moderno ele quer adaptar à sua própria realidade. costumes. sen- tóricas em que vive. Pretende educar os alunos numa identidade firme baseada no conhecimen- em sua inteireza. cisam aprender mais sobre a cultura e as tradições. ela deve aprender a encontrar seu próprio cami. PROJETO DE EDUCAÇÃO FOIRN/ISA siva. assim como do mundo moderno. rão capazes de tomar decisões bem fundadas. as mudanças necessárias. cultura. linguagem e tradições de indígenas locais depende de quão bem a comuni- um povo. A criança não já-los a aprofundar pesquisas sobre seu passado e se torna cópia de seus pais ou de seus mestres. Está embutida em um processo capacidade. O pensamento crítico. de culturas indígenas deve ser compulsório no vivência entre o tradicional e moderno. aquilo em que acreditam. descobrir aquilo que desejam to próximo aos animais e à natureza. 87 024a087_CORR_V1. assim como sobre as sociedades modernas. Os elementos em comum se O futuro de crianças e jovens em comunidades relacionam à história. sua cultura e valores. Aprender Para tornar isso realidade. indígenas e outros devem ser encorajados a de- fazer comparações entre ambos e tirar conclusões. Para se tornarem edu- Incorporando o conhecimento cados. Minha experiência é de e também sobre a pesquisa científica fora dos ter. É fácil para eles se iden- conhecimento é parecido e ao mesmo tempo tificarem com a caça. neste do de suma importância para preparar estudiosos sentido. dos de pesquisa devam ser mais encorajados.indd 87 5/31/12 2:33 AM . modos de vida. a pesca e o relacionamen- diferente dos seus. Devem descobrir o quanto este aprender coisas dos índios. que as crianças têm a mente aberta e curiosa para ritórios indígenas. O conhecimento impacto direto sobre a maneira de permitir a con. Pessoas orgulhosas de cobrir quem são. com adaptados às crianças e jovens. dando a eles condições para des. O funda. coletiva e pessoal. dade. Professores conservar e desenvolver. a educação e as escolas conseguirão encora- pende de uma identidade coletiva. o que querem descartar. crianças e jovens precisam aprender mais tradicional e o moderno em uma sobre a diversidade de grupos étnicos minoritários abordagem científica em seus próprios ou em outros países. crescer em sociedades tradicionais tomando. ao mesmo tempo. mais sobre suas línguas.

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indd 89 5/31/12 2:43 AM . EXPERIÊNCIAS REGIONAIS RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS RIO IÇANA MÉDIO E ALTO RIO UAUPÉS RIO NEGRO RIO PIRÁ PARANÁ 088a187_CORR_V1.

O território te dos grupos de descendência Tukano. afluente do rio Uau. Nessas comunidades re- localizada no alto rio Tiquié. P ieter -J an V an der V eld (ISA). Yebamasa tuyuka está dividido entre os dois países. onde vi. H igino T enório T uyuka . junto à fronteira com a Colômbia. geralmen- pés. F lora D ias C abalzar . G eraldino P ena T enório (A eitu ) 1 A Escola Indígena Utapinopona Tuyuka está vem cerca de 500 pessoas. e Bará. como também alguns homens afins dessas 1  A partir de atividades de assessoria. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA O rganizado por A loisio C abalzar . 90 088a187_CORR_V1.indd 90 5/31/12 2:43 AM . sidem os homens tuyuka e suas esposas. consultas a professores e lideranças tuyuka e à documentação da Aeitu.

no Onça-Igarapé)* 48 ensino médio. todos falantes da língua tuyuka. Cachoeira Comprida ou Yoariwa. 7 eram meninos. parte dos alunos pé Açaí. a cada dois anos. Puerto Colômbia)** 62 Formaturas do ensino fundamental e Bellavista (Miñoburo. com 56 habitantes. proximidade sociopolítica e ritual. Além da língua tuyuka. igarapé Abiu)** 149 médio da Escola Tuyuka * Dados do DSEI-RN. como aconteceu em meçaram a reivindicar que sua Escola fosse criada novembro de 2011. Os Hupda enviaram dois 2º ciclos dispersos nas comunidades estão: Marcos alunos apenas. Onça-Igarapé ou Dos 20 formandos.indd 91 5/31/12 2:43 AM . par. no 4º ciclo. assim Escola Yukuro Cachoeira Comprida (Yoariwa)* 80 como Mateus e Maria Gorete Rezende. estas comunidades passando te 80 alunos formados no ensino fundamental. formam-se novas turmas da segunda etapa do en- eira Comprida desde 1991 e Onça-Igarapé desde sino fundamental (3º e 4º ciclos) e do ensino mé- 1998. REGIÃO . comunidades de São Pedro desde 1985. e 13 meni- Yaiñiriya. Pedro: 3º e 4º ciclos do ensino fundamental. com população nas. os cunhados bará rio acima. João Bosco Azevedo Rezende. Foi a partir do ano 2000 que os Tuyuka co. O ensino é oferecido em Yebamasa. a maioria proveniente das comunidades Formatura da 1ª turma do Ensino Fundamental do alto Tiquié brasileiro (São Pedro ou Mõpoea. em São Pedro. 91 088a187_CORR_V1. 2009. Aconteceu em maio de 2005. subsequentes funcionam hoje apenas em São São vizinhos desse território tuyuka seus cunha. e os Hupda de Acará-Poço* no igarapé Marques Meira e Rafael Marques Tenório). sede)* 117 dor do ensino fundamental e um coordenador do Escola Bua Assunção (Yaiñiriya. A Escola Tuyuka tem hoje uma média de 100 alunos. Gabriel Prado Barbosa e ABRANGÊNCIA DA ESCOLA TUYUKA Edson Moura Lima e. Vigora entre eles uma Atualmente 12 professores da própria região. além de 2 de quase 300 pessoas). 23 alunos no ensino médio. Odilon Barreto Rezende (Escola Bua). gino Meira (Escola Yukuro). José Lima e sua esposa Glória. para a 1ª turma que se formou no Rezende Barbosa (Escola Poani). Dentre estes. ** Dados Cabalzar. 5º e dos tukano rio abaixo. sendo quatro no ensino médio (Geraldino a comunidade tukano de Caruru*. tendo de- Guadalupe (Watĩyude. 6º ciclos do ensino médio de quatro anos. iniciava-se mais uma Escolas de 1ª a 4ª séries já funcionavam nas etapa ou novo ciclo de ensino. O evento reuniu ciclos de duração de dois anos: os 1º e 2º ciclos aproximadamente 150 pessoas entre professo- (I segmento do ensino fundamental) funcionam res. Carlos habitantes. A cada quatro anos. as mais em salas de extensão nas três comunidades (São faladas são tukano (na parte brasileira) e bará (na Pedro. Trinidad** 400 Pupunha (Unekumuña. e a se reunir para discutir conjuntamente. na sua maioria da etnia Tuyuka. totalizando aproximadamen- como escola única. No 3º ciclo. Márcio Meira e Hi- ensino fundamental da Escola Tuyuka. Em 2001 foi implantado o 3º ciclo na Escola Tuyuka e. Cacho. formar no ensino fundamental. e Fronteira ou Kairataro. José Barreto Ra- Escola Tuyuka Comunidades População mos e Alexandre Rezende. Assunçao e Cachoeira Comprida). trabalham na es- ticipam de muitas das atividades da Escola Tuyuka cola. de de São Pedro ou Mõpoea). com cerca de 40 Pena Tenório. continua no ensino médio. 2 Bará e 2 Hupda. dio médio (de quatro anos). Ao se e os cunhados yebamasa (do rio Castanha e igara. Há ainda um coordena- Escola Poani São Pedro (Mõpoea. trabalha- Fronteira (Kairataro)* 23 ram por vários anos na Escola Tuyuka. além de alguns coresidentes na comunida. Nos 1º e Umari. alunos e familiares do Brasil e da Colômbia. igarapé Castanha)* 38 pois se transferido para escolas de outras regiões. 2009. Os ciclos parte colombiana).RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS duas últimas etnias. além do português e espanhol.

Pari-Cachoeira quando optam por retornar em lhos de conclusão de curso (TCCs). apenas um Bará e colas da região encaravam a alfabetização em um Yebamasa) e três meninas tuyuka. 2011. porque os alunos que quisessem.indd 92 5/31/12 2:43 AM . comunitárias e celebração de festa ritual. através de conteúdos curriculares e parâmetros ram todo o movimento político e a intensidade de nacionais orientados pelas secretarias de Educa- atividades que marcou o início da Escola Tuyuka. refeições na Escola Tuyuka. 10 alunos 3ª turma 2005 2007 junho 2009. É a primeira turma a ter cionales Indígenas del Pirá Paraná) e Aatizot (As. taria Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira e da Câmara Municipal de São Gabriel Formandos da segunda turma de ensino mé- da Cachoeira. Educação escolar no alto Tiquié até final Formatura da 1ª turma de ensino médio da década de 1990 Em junho de 2009 formaram-se 13 alunos da 1ª turma de ensino médio da Escola Tuyuka. 20 alunos 2005 2007 Jul. Aconselhou aos que (rio Içana). estiveram presentes dio em 2011 representantes das organizações indígenas Acai. Secre. já que a primeira turma de la Zona del Tiquié). 2009. Escola Tukano Uremiri (alto uma vitória. Da Colômbia. Horizont3000 e em suas comunidades colocando em prática o Embaixada da Áustria. constituída pelos jovens que inau. quatro anos do ensino médio correspondiam a puri (médio Tiquié). professor camente uma técnica de tradução do português José Barreto Ramos. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA TURMAS DO II SEGMENTO DE ENSINO FUNDAMENTAL E DO ENSINO MÉDIO 2001-2011 Ensino Fundamental Formatura Ensino Médio Formatura 3º ciclo 4º ciclo 5º ciclo 6º ciclo 1ª turma 2001 2003 maio 2005. A formatura 2001. cursado todas as etapas da educação básica na sociación de Autoridades Tradicionales Indígenas própria Escola Tuyuka. 6ª ou até a 7ª série em dade São Pedro. membros das organizações parceiras não quisessem continuar a estudar. os professores das es- dez meninos (a maioria tuyuka. assim como representan. foram apresentados os traba. que se formou no ensino médio em 2009 havia tes da FGA (Fundação Gaia Amazônia). 17 alunos 2009 4ª turma 2007 2009 nov. gua. 2011. Esses formandos iniciaram o 1º ciclo na Esco- pi (Associación de Capitanes y Autoridades Tradi. po- Tiquié) e da Escola Baniwa e Coripaco Pamáali deriam continuar estudando. para o 3º ciclo que começava a funcionar prosseguiu com entregas de diplomas. da no sistema escolar comum. Eram Até a década de 1990. para se tornarem futu- Organizações Indígenas do Rio Negro). 23 alunos 2007 2009 Nov. ção. Como estudado da 1ª a 4ª séries nas comunidades ain- acontece em todos os eventos de formatura. adotavam sistemati- O então coordenador do ensino médio. alunos já cursavam a 5ª. 18 alunos 5ª turma 2009 representantes das Escolas Indígenas Tukano Yu. ros líderes da região. la Tuyuka no ano 2000. e parte de seus no primeiro dia das comemorações na comuni. que ficassem ISA (Instituto Socioambiental). 13 alunos 2ª turma 2003 2005 junho 2007. para o tukano ou 92 088a187_CORR_V1. disse na ocasião que esses dos materiais didáticos oficiais. No caso do alto Tiquié. da Foirn (Federação das que aprenderam na escola. e prosseguiam no processo de letramento guraram o 3º ciclo da escola em 2001 e vivencia. Essa foi uma português de crianças não falantes dessa lín- turma especial.

onde funcionava o único colégio de projeto de segurança alimentar com foco na pis- ensino fundamental do rio Tiquié brasileiro. envolvendo os Tukano Até o ano 2000. alcançando integralmente a população infantil e jo- bora a mobilidade dos professores entre diferen. cicultura. começam a fessores.quando Diversas parcerias de trabalho em projetos ainda nem se aventava a presença da educação comunitários vieram se configurando a partir da infantil em escolas indígenas -. casado tuyuka. A mobilização dessa am a 4ª série deveriam continuar seus estudos em associação se deu inicialmente em torno de um Pari-Cachoeira. parte da rede de missões implantadas na permanentes de antropólogos e agrônomos. assessorias mais antigo. Para Início da Escola Tuyuka alcançar um quórum exigido pela Semec. 60 nem todos iam estudar na missão e parte signifi. salas multisseriadas de 1ª a 4ª séries. gional. na década Rio Negro em 1998. Tenório Tuyuka 05/05/1987 Casada em Pari-Cachoeira Mário Fernandes Meira Tuyuka 06/05/1986 Na comunidade. REGIÃO . Essas escolas reuniam em geral em um único período.indd 93 5/31/12 2:43 AM . Rezende Tuyuka 12/04/1987 Na comunidade Arsênio Rodrigues Lopes Bará 14/10/1986 Secretário EM Dulce Maria B. nas os efeitos perversos desse movimento civilizatório comunidades tuyuka do alto Tiquié os professo. ao mesmo tempo. viviam em quatro comunida- 93 088a187_CORR_V1. em parceria com ISA e Foirn. crianças tuyuka que concluí. so- primeira metade do século XX. nos últimos quinze anos. o português em seu repertório linguístico. Tenório Tuyuka 16/07/1984 Na comunidade Lenilza Marques Ramos Tuyuka 18/10/1989 Secretária EF Marcio Fernandes Meira Tuyuka 29/10/1988 Professor EF Marcos Rezende Barbosa Branco/Tuyuka 28/06/1987 Professor EF Maria Aparecida M. Em. entre elas a Atriart. Surge nesse número mínimo de matrículas exigido. nessa região. aleatoriamente em termos das línguas ficar mais evidentes para as lideranças indígenas faladas pelos professores e por seus alunos. Quando os Tuyuka optaram por se mobilizar cativa dos alunos abandonava os estudos em séries em torno do Projeto Educação Escolar Indígena do iniciais ou sem concluir o antigo ginásio. para crianças multilíngues que não têm de 70 a frequência escolar tende a universalizar-se. que prenunciava a integração das culturas e povos res eram da própria região.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS FORMADOS NA 1ª TURMA DE ENSIMO MÉDIO Nome do aluno(a) Grupo étnico Nascimento Atividade atual Alcimar Sander A. Tenório Tuyuka 23/05/1988 Na comunidade Gabriel Prado Barbosa Yebamasa 19/11/1986 Professor EF João Batista M. sendo comum o criação da Foirn em 1994 e da demarcação das fechamento de escolas que não alcançassem o terras indígenas da região em 1998. matri- culavam até os menores de cinco anos . Começa a se configurar o letramen- tes calhas de rio fosse alta. do alto rio Negro. Esse co. indígenas à nação brasileira. Se até a década de bretudo. casado Odilon Barreto Rezende Tuyuka 20/08/1989 Professor EF Renato Barreto Rezende Tuyuka 08/04/1986 Aima. número processo um conjunto de associações de base re- esse que variava. vem da região. acontecendo tanto to quase generalizado hoje observado entre povos por solicitação de comunidades como de pro. Meira Tuyuka 05/10/1989 Soldado João Bosco M. e que via- légio é desdobramento de um internato salesiano bilizou. e os Tuyuka do alto rio Tiquié.

a Escola e as comu- Tuyuka como um processo intercomunitário de nidades se animam em torno de novas propostas. também tuyuka. garantidos na Constituição. com uma média de quinze alunos em cada. envolvendo um conjunto res dos brancos tomados por únicos saberes civi. os Tuyuka do foram graduais. e Nossa Senhora de Assunção. onde o cou e direcionou de alguma maneira as relações en- professor João Bosco Resende. co-pedagógico da Escola Tuyuka.indd 94 5/31/12 2:43 AM . Passou o período em que todos se des. valorizando suas línguas e saberes. locavam para estudar nas missões. seus processos políti- dos povos indígenas. articulação política e pedagógica. desde os anos 1990 pelas organizações indígenas aparece com destaque a pesquisa como metodo- regionais. um nexo de fortes relações de parentesco. desde o princípio. Gilvan Muller de Oliveira. bre a gestão comunitária dos processos escolares do em 1998 para a OD/RFN e aprovado em 1999. inclusive –. São Pedro e Puniya. focando discussões e na cidade de São Gabriel da Cachoeira. avaliações coletivas secretarias de educação resistentes a se adaptar de final de módulos de estudos. em um contexto genas. Decisões vão sendo alto rio Tiquié desafiam os sentidos da educação tomadas e encaminhamentos dados em vários âm- escolar em curso na sua região: sistema nacional bitos de reuniões coletivas. Em 2001 é criada a Associação Escola Indígena te sobre a forma e dinâmica desse processo que Utapinopona-Tuyuka (Aeitu). lizadores. no Parecer 89 e na assembleias da associação e grandes encontros re- LDB. ou a promoção à saúde. três delas já com escolas. que já configuravam trabalhava há cerca de dois anos. as decisões locais ganhassem legitimidade frente jetos que começaram a ser pensados e realizados aos poderes públicos. tre os Tuyuka do alto rio Tiquié. formula. vivendo nas próprias terras indí- jovens em suas comunidades. 94 088a187_CORR_V1. gógicos locais e regionais. pro. de associações indígenas de base vizinhas. mas contínuas. incorporadas ao plano curricular e projeto políti- posição cultural e lingüística da escola missionária. com os objetivos de tratamos a seguir: uma mobilização contínua que encontrar soluções alternativas para o futuro das vem garantindo a permanência dessas crianças e novas gerações. Os artigos de Justino Rezende. Olharam e diagnósticos para subsidiar os planejamentos para perspectivas abertas com a demarcação das coletivos. Higino terras indígenas na região. Brunhilde Haas Saneaux neste livro trazem infor- dades indígenas. encontros de pesquisa. Maurice Bazin e projetos voltados à sustentabilidade das comuni. Nesse processo de debates.enquanto projeto coletivo . de ex- de amplo envolvimento dos seus pais e avós nos perimentar novas práticas escolares e garantir que projetos comunitários – escolares. tuyuka e o cerne dos debates locais que orienta- acompanha toda essa luta por maior autonomia ram a organização da escola. vas posteriores e avaliadas. incentivando a circulação de saberes e Decisões colocadas em prática nas etapas leti- línguas próprias na formação das novas gerações. encontros peda- aos novos direitos à educação escolar indígena. É justamen. gionais e além-fronteiras. O Proje. que vão desde as refei- de ensino adotado nos internatos salesianos ou ções comunitárias cotidianas. e o esvaziamento das comunidades com cresci. com oportunidades de Tenório. Nesse momento. logia de ensino-aprendizado. As mudanças nas práticas político-pedagógicas Desde o início dessa mobilização. co-linguísticos e suas pesquisas.intensifi- trabalho. E desafiam a suposta estabilidade dos sabe. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA des. mações complementares e mais detalhadas so- to Educação Escolar Indígena do Rio Negro. eram gradativamente Os Tuyuka analisaram os efeitos críticos da im. onde Autogestão escolar (1998-2004) os professores tuyuka José Ramos Vidal e Higino O período inicial de mobilização em torno da Es- Meira acumulavam já mais de uma década de cola Tuyuka . políticas Os Tuyuka do alto Tiquié inauguram a Escola e cerimoniais. Oficinas temáticas e seminários de pesquisa mento da população indígena em Pari-Cachoeira animavam essa mobilização.

oficinas de matemática das me- tos. profissionais não de pesquisa e debate devem se voltar ao universo indígenas ou assessores. con. aos assuntos pelos sores e comunidades. criaram as principais regras de comportamento Nessa etapa inicial da Escola Tuyuka. melhorando a formação das crianças tuyuka. Os alunos de ensino médio se envolvem mais dureceu pouco a pouco. professores O Projeto de Educação apoiou no início ofici- e alunos. saúde e nutrição. evitando pensar panhamento pedagógico e antropológico nessas histórias isoladamente. força no diálogo com outras sociedades. representações. a pesquisa enfatiza o diá. projetos destes povos). o acom- relacionadas à sociedade tuyuka. via- elaboração de máscaras) a história dos seres que gens e reuniões) e em infraestrutura. REGIÃO . nhamento antropológico-pedagógico na Escola cial sobre as mudanças culturais. Oficinas com outros assessores espe. para larvicultura.linguistas. produzir. dos povos. O ensino fundamental prevê uma variação dos temas importantes de pesquisa a cada ano. dando maior segurança a quais elas mais se interessam. de Manejo Agroflorestal. cada qual acompanhou logo entre diferentes culturas. atuais de viver. no sentido de que os modos postas ou demandas tuyuka. com reflexão ini. Começam a ser motivados para va. As pesquisas de temas importantes é que Muitas atividades nessa etapa acontecem na in- passam a orientar todas as atividades de ensino/ terface entre a escola e os demais projetos desen- aprendizado. falar. Diálogo ou mediação político-pedagógica forme avaliações das comunidades. dições aplicadas à piscicultura. plantar. de- matemática em tuyuka (a partir de 2001). senvolvimento sustentável). Os jovens de 3º e 4º ciclos começam rõmakañe buere) associado diretamente ao ensino a participar de etapas de execução dos projetos via pesquisa (saiña masir˜e) em toda a primeira e de algumas assembleias voltadas diretamente à etapa do ensino fundamental. Os temas envolvendo as comunidades. plinar. convidados a colaborar periodicamente com os A partir do 3º ciclo. externos . musicólogos. cantos. se alimentar. e luta pelos direitos -se pelo trabalho com um currículo temático (ni. partir de pesquisas temáticas permitiu estar mais construção de galinheiro. e o grupo de profes- cultural e material da criança. além do acompa- conhecimentos. e com a alfabetização comunidades (desenvolvimento indígena. volvidos pela Atriart no alto Tiquié. O trabalho a e Nutrição: plantio e manejo de pomar escolar. ou regional (sobretudo apoio para transporte. ao que disseram e uns e outros para encaminhar as principais pro- fizeram os seus avós. familiares de peixes. agrônomos. como o projeto cializados também abriram novas possibilidades de Piscicultura. nas de formação continuada com consultores mental privilegia temáticas voltadas para a valo. atentas aos modos de produzir conhecimen. A decisão de ter o discussão.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS PPP do Ensino Fundamental com projetos comunitários voltados ao fortaleci- Com a decisão de alfabetizar exclusivamente mento político.indd 95 5/31/12 2:43 AM . matemáticos. sustentabilidade econômica das em tuyuka a partir de 2000. a própria terra). diretamente com a gestão financeira de projetos. O primeiro segmento do ensino funda. decidiu. maior interface uma temática central. antropólogos -. para ter mais assessores externos (ligados a outras instituições. viver. As oficinas com assessores ou consultores ti- vêm dos avós. de Saúde pedagógicas com diferentes temas. construção de viveiros aberto e livre para buscar novas maneiras de ensi. nham ampla participação comunitária. mas em como elas permitiu mediar os diálogos e facilitar debates se completam e têm um sentido geral. tuyuka como língua de instrução exclusiva ama. A Escola Tuyuka dispensou o currículo disci. Dentre os lorizar a própria língua e realidade. Propõe detalhar Tuyuka e investimento na articulação política local de forma dinâmica (teatro. rização das próprias coisas (modos de ser. instalação de incubadora nar. como o Projeto de Educação ou o PDPI tuyuka. Discussões de políticas lin- 95 088a187_CORR_V1.

que contaram com apoio do Judite Albuquerque Março 2003 Projeto de Educação. Acontecem os primeiros I Oficina de Música Tuyuka Agosto 2001 esforços de escrita da língua tuyuka. direitos linguísticos. 96 088a187_CORR_V1. preparo de roças. Cachoeira Comprida. território. então membro do Ipol. as duas primeiras com a presença de Formação continuada entre 1998 e 2004 Marlui Miranda. formada pelos antropólogos Aconteceram nos anos iniciais de funciona. III Oficina de Música Tuyuka Novembro 2003 tão cultural com autonomia. II Oficina de Matemática Tuyuka Setembro 2001 cimentos. I Oficina de Política Linguística Janeiro 2000 mentam o interesse pela escrita na própria língua II Oficina de Política Linguística Janeiro 2001 e as reflexões sobre as relações de poder entre as I Oficina de Matemática Tuyuka Janeiro 2001 línguas no alto rio Tiquié. dual das decisões pedagógicas ou de pesquisa ler de Oliveira. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA guísticas. relação entre sabe. A maloca de São Pedro só foi constru- torno dos direitos indígenas. Fronteira Música e Dança contaram com densa participação e Assunção. Cachoeira Comprida. também em ando um sentido tuyuka ao ensino através de São Pedro. deline. Os debates dos direitos linguísticos ali. III Oficina de Matemática Tuyuka Abril 2002 to pedagógico e antropológico às escolas nas três Metodologia de Ensino do Português como Segunda Língua Maio 2002 comunidades. três oficinas de políticas sempre.indd 96 5/31/12 2:43 AM . quase sempre. pesca. alfabetização matemática e cerimônias oficinas de alfabetização matemática com Mau- tuyuka predominaram nos anos iniciais. participava mento da Escola Tuyuka. e três oficinas de música e cerimônias. Oficina de História Maio 2004 linguísticas e político-pedagógicas vinculadas à re. linguísta do Ipol e da Ufsc. como possibilidade de começar a IV Oficina de Matemática Tuyuka Agosto 2003 planejar e aplicar seus programas próprios de ges. focalizaram fortemente ações Oficina de Gestão Escolar e Curricular – Laise Lopes Diniz Julho 2003 fora da escola. e com grandes fes. com um grupo ainda maior de pessoas. Corresponderam a I Oficina de Manejo Agroflorestal Novembro2003 debates políticos e diagnósticos de situações socio. rice Bazin. histórias e relações de trabalho com os PRIMEIRAS OFICINAS NA ESCOLA TUYUKA brancos. os Oficinas na Escola Tuyuka Tuyuka do alto Tiquié. ída em 2004. apenas uma em setembro de 2003 em pesquisa. Participavam desses encontros e oficinas te- tas. começam as discussões do tema res masculinos e femininos nos cuidados com seu do manejo agroflorestal. onde havia uma escola funcionando desde 1991 mas tendo por professres até então. ciclo na escola. II Oficina de Manejo Agroflorestal Novembro 2004 alização de assembleias escolares comunitárias que V Oficina de Matemática Tuyuka Outubro 2005 legitimavam os encaminhamentos feitos. acompanhando o desenvolvimento gra- linguísticas (todas em São Pedro) com Gilvan Mul. relações de caça. e a partir de então mais nidades de Pupunha e Bellavista da Colômbia ou alunos colombianos chegam à escola. os Hupda de Boca do Umari (Acará-Poço). cinco acordadas coletivamente nessas ocasiões. Estes eventos em conjunto compõem a gestão máticas a maioria dos moradores das comunida- autônoma da escola e seus projetos. sendo dado início ao acompanhamen. As oficinas de des de São Pedro. sempre na maloca de Cachoeira Em 1999 acontecem debates comunitários em Comprida. III Oficina de Política Linguística Janeiro 2003 Oficina Pedagógica de Pequisa e Gestão Escolar – Essas atividades. Yaiñiriya e Yoariwa. formação dos II Oficina de Música Tuyuka Março 2001 primeiros grupos de pesquisa e registro de conhe. e alguns representantes das comu- dos parentes colombianos. Mõpoea. Com início do funcionamento do 3º valor do território demarcado. coleta. Flora (até 2004) e Aloisio Cabalzar. entre 1999 e 2004 A equipe do ISA.

em geral já na juventude -. e a política lingüística de valorização interesses entre os projetos políticos e pedagógi- do uso da própria língua fora das escolas. debatendo e sistematizando concei- bém são feitos periodicamente. trançados. tos. duzem a um debate/diagnóstico sobre o momen. na Escola Tuyuka. leitura e escrita com propostas curriculares. na Escola Tuyuka. e de alfabetização matemática com Mau- tuyuka. participaram destas oficinas. em seguida. rice. tuyuka impediu o deslocamento do tuyuka pelo Na terceira oficina. usos da escrita e leitura em Gilvan. foi ensinar ma- como práticas de apoio à leitura de pequenos tex. todos os alunos e professores do 3º ciclo da escola. diagnósticos da tos (tugeñare) matemáticos relacionados. Continua-se explorando os modos de construção caminhamentos anteriores. Houve uma forte convergência de da escola.e recomendação de se evitar o fantasma da unifica. As oficinas de política lingüísti.). nesse sentido. direcionan. firmando-se a opção pelo chegar a compreender e dominar a matemática uso exclusivo do tuyuka como língua de instrução dos brancos. além de alguns escola. Esclarecimentos conceitos matemáticos. e outra em dos diagnósticos relacionados ao conhecimento e 2005. iniciaria apenas nos 3º e 4º ciclos. Já na implantação do 3º ci- do pelo adiamento do ensino do português na clo. temática a partir dos modos próprios de fazer as tos. REGIÃO . A proposta foi Os debates prosseguiram com propostas para partir da própria matemática. estantes de madeira etc. e formas de manter diálogo entre as co. foram realiza. Na primeira.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Oficinas de Políticas Linguísticas Oficinas de Matemática Aconteceram três oficinas de políticas lingüísti. feitos na areia a grafia adotada para a língua tuyuka (que permite do campo de futebol de Cachoeira Comprida . e a forma particular de Maurice praticar a de material de leitura para os 1º e 2º ciclos. as políticas linguísticas em debate na desenvolvendo uma metodologia de produção época. com a etnomatemática..indd 97 5/31/12 2:43 AM . a partir dos desenhos sona tukano. assim A proposta para 1º e 2º ciclos. Relatos de trajetórias de vida relacionados ao coisas (técnicas próprias de fabricação de obje- momento do real aprendizado do português con. Avaliação dos ciclos temáticos. construção da matemática tuyuka. já implementados. pros- cessos de alfabetização. instigando discussões na própria língua (sobre o to mais adequado e efetivo para o aprendizado medir e contar. com observação detalhada dessas re- 97 088a187_CORR_V1. Já por ocasião da segunda oficina de polí- usos da língua tuyuka e à organização da Escola ticas lingüísticas em 2001. começam os planejamentos coletivos de e métodos de alfabetização. se discutiu conceitos Tuyuka. ou como percebiam tais sobre variações na fala e na ortografia levaram à conceitos através da língua e cultura tuyuka .e variações ainda por mais tempo). ou de seu modo de falar dessas coisas. análise dos pro. aprofun- situação da escola: como a nova política linguística dando as pesquisas. da construção das flautas-pã -. Nos anos seguintes são feitas avaliações dos en. o grau de satisfação das pessoas para com do povo Tsokwe do leste de Angola. etc. bar- para solução de problemas e melhorias no ensino. da prioridade da aquisição seguiram na criação dos próprios conceitos ma- da leitura em relação à escrita. características e dimensões dos acontecer . canoas. Foram trabalhadas simetrias em flores e frutas. ragens de piscicultura. Foi se cos tuyuka. passados de geração a geração. Aconteceram quatro oficinas de matemática cas entre 2000 e 2003. Tam. produção coletiva de textos e de ilustrações. para alfabetização e leitura. e ca acontecem até o momento da implementação as regras de fabricação e os padrões mínimos dos do 4º ciclo. em 2003. observando. Os Tuyuka passaram pesquisar seus próprios munidades sobre esses assuntos. -aprendizado através de pesquisas temáticas. com novas propostas dos objetos cerimoniais ou outros utensílios. entre 2001 e 2003. objetos fabricados). a debater algumas traduções relevantes para a ção da escrita. Deliberou-se que o ensino do português moradores interessados das várias comunidades.

construção de formas. repetições de estruturas. (buturi makañe) para os vinte objetos ou dedos de ca de aproximações possíveis entre as percepções duas pessoas (20 x 2). etc. ou seja. indo portanto das várias formas de agrupamentos que fazem além destes conceitos. Os conhecedores tuyuka e conceitos tuyuka. mas se mantinha essa bus.indd 98 5/31/12 2:43 AM . o sikũye (um conjunto de guntas à natureza. destas práticas matemáticas de debates e registros Maurice chamava atenção para conceitos ma. e os conceitos matemáticos especificaram o conceito base do seu sistema universais. das traduções linguístico-cul- temáticos universais . diagonais. mudança de di. Reconheceram seu sistema 98 088a187_CORR_V1. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA © Aloisio Cabalzar/ISA. para área. Discutiram a aproximação através de questões que nos surpreendam. dedos de uma pessoa). próprio de contagem. 2006 Laureano Ramos (Yukuro) Tuyuka gras e dos conceitos que aparecem quando se fala Conceitos matemáticos eram descobertos a partir destes assuntos na língua tuyuka. foram sendo desenvolvidas desde os primeiros sas entre os tuyuka partiam de suas percepções encontros. aos objetos. de à pessoa completa. e assessores.noções de colunas e linhas. As conver. turais que aconteciam entre conhecedores tuyuka verticais e horizontais. aos conhecedores. conceitos cuidadosa das maneiras de contagem tuyuka que para diferentes formas. regras Já na quarta oficina foi feita uma análise mais de repetição. Questões desse modo de contar à representação numérica que ajudem a analisar ou decompor. A proposta foi sempre a de fazer per. no sentido maia. onde também a quantidade 20 correspon- de não hesitarmos em abrir e ver o que tem dentro. com foco nos cálculos e importância próprias da construção dos objetos. reção das linhas. em tuyuka.

fases do ano em que são cantadas. tuguês. danças. sobre cantos. Oficina de metodologia de ensino do portu- Na primeira e segunda oficina. outros mento de seus conhecimentos tradicionais. a partir de diferentes temáticas. REGIÃO .indd 99 5/31/12 2:43 AM . registrou ou foi da Cachoeira e contou com a participação de transmitido sobre ela. e o que é que se observa hoje em A terceira oficina aconteceu em São Gabriel correlação ao que já se observou. nomia tuyuka. Para isso. professor elaborar um plano de aula e ministrá-lo. dade para observar. quatro especialistas rituais da comunidade co- lombiana do igarapé Abiu (Bellavista) e de outros Oficinas de Música seis de Cachoeira Comprida e São Pedro. participam guês como segunda língua os moradores das comunidades e. fazia lei- buscaram garantir a continuação de práticas ri. desenvolver expressão oral e e cantos dos velhos balizados por uma complexa produzir textos em português. Centrou-se na seleção de músicas saberes) rumou para a formulação das oficinas para os CDs e a preparação do material (transcri- de música e dança. e 3º e 4º ciclos. adornos rituais. registro ou previsão de sucessivas eclipses de Lua Foi proposta a produção de um CD para apresen- e Sol.). para facilitar a transcrição da letra. Foi realizada documentação comunidades do lado colombiano. os Tuyuka se criava diálogos. São feitas várias visitas às na maloca da Foirn. mitos e explicações históricas vamente professores e alunos do ensino médio sobre o povo e suas cerimônias. brincadeiras e cantos. no alto O foco em pesquisas e temáticas niromakañe Tiquié brasileiro. ção das letras. trabalhando tar. 99 088a187_CORR_V1. discutir e praticar uma nova res principais (bayaroa) e os benzedores (básera). Adotaram o sistema de notação tro audiovisual e o conhecimento dessas técni- e numérico maia. Na última oficina em 2005. Foi uma oportuni- rede de diálogos cerimoniais entre os dançado. promovendo o regis. ava. pleto nas comunidades do lado brasileiro: danças compreender textos. Pesquisaram em quê consiste a astro. voltando a dançar e cantar de modo mais com. introduzido o português: um intensivão de quin- nias devido às pressões da ação missionária e à ze dias em que. Incentiva-se uma maior par.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS como de base 20. A oficina foi direcionada ao Flora Cabalzar (antropólogos do ISA). turas. A liam a importância de os jovens se concentrarem oficina foi encerrada com uma dança dos Tuyuka para escutar os “velhos”. Aloisio e adultos e interessados. instrumentos musicais. sobretudo em ação no alto Tiquié. jovens e para os não-índios. fotográfica da oficina. difusão de festas com músicas de fora. além de Marlui Miranda (cantora e musicóloga). etc. contexto cerimonial. Focaram na convidados os principais mestres de cerimônia análise do código de Dresden. professores e todos os alunos do 3º ciclo. maia. assessorados por Marlui Miranda (valores tuyuka centrais como suas línguas e seus e Aloisio (ISA). com Andrea Cesco (Ipol). no caso). com a proposta de decifrá-las. grandes conhecedores das três paginas do livro que correspondem ao tuyuka vivendo então. participaram no. discussões da estratégia de gestão e compartilha. nas várias etapas de ensino na escola. Coube a cada tuais tradicionais e ensiná-las às novas gerações. metodologia de ensino de segunda língua (por- Reuniram os especialistas. explorado ao longo dos anos cas. sobretudo na Colômbia. assistia e comentava vídeos. ticipação dos Tuyuka colombianos na iniciativa e origem mítica. sobretudo. regravados. Depois de primeiro módulo letivo do 3º ciclo em que seria décadas de hesitação em realizar suas cerimô. incentivando a pesquisa com os mais velhos seguintes. foram que então se iniciava. Higino conver. instrumentos. buscando vários objetivos: ampliar vocabulário. Alguns cantos novos foram gravados. Participaram. sando com os bayaroa tuyuka (cantadores) sobre a proposta do trabalho. divulgar e valorizar sua cultura para os mais em grupos. cinco os cantores e mestres de cerimônia (bayaroa).

Na ao filme de 1930. rentes gerações. Da organização das tarefas no grupo mento com saberes dos mais velhos? Qual a im- de pesquisadores até sua apresentação coletiva portância de ter um Tuyuka historiador? Trabalhou final. desde a proposta das ele foi produzido? Como o índio pode trabalhar questões mobilizadoras à elaboração dos relató. este documento? Como pode cruzar este docu- rios finais. língua portuguesa. Que saberes os escritos e registros audiovisuais para estes últimos séculos de contatos incorpo- Oficinas de Pesquisa ram? Onde estão estes documentos? Em qual Em 2003 com a presença de Judite Albuquer. até a ma- plantio da oficina anterior.7 ha. produção de mudas nas comunidades. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA Oficinas de Manejo Agroflorestal pedagógicas. que subiu de Manaus e depois. Comissão Pró-Índio do Acre) e Zezinho Kaxinauá sistematização de pesquisas temáticas para edi- (AMAIAC. suas vivências de diferentes épo- todologia de ensino e aprendizado. técnicas da comunidade. Qual é a história tuyuka? tema agroflorestal de 0. Discutidas suas correlações do e filtrando essas questões.indd 100 5/31/12 2:43 AM . Oficina de História fessores e moradores da comunidade. a televi- tíferas já plantadas. Que saberes as narrativas dos presença de Nilson Kaxinauá. alguns procedimentos de Como o branco trabalha este documento? Como pesquisa são sistematizados. Discussão sobre fon- com sistemas tuyuka de produção e das práticas tes históricas através da reação de velhos e jovens de manejo que estão sendo abandonadas. o vídeo. propiciou discussão em torno do saber de de Piscicultura. Associação do Movimento dos Agentes ção e publicação. loca Tuyuka de São Pedro. feito pelo cineasta da equipe de segunda oficina foram retomadas as práticas de Rondon. professores e lideranças articulan- técnicas de manejo. das reuniões períodos históricos. fatos acontecidos. Agroflorestais Indígenas do Acre) contaram com a participação dos alunos do 3º e 4º ciclos. tuyuka aos elementos que vêm de fora. o gravador. na roça escolar e em pomares milenares de construção da maloca)? Discutiu o familiares. feito o manejo das fru. 100 088a187_CORR_V1. seminários de pesquisa. sendo plantado um sis. pro. Organização e manejo de viveiros de papel do professor indígena e outras lideranças. A segunda oficina contou com a consultar os velhos. além de Coordenada por José Ribamar Bessa Freire três técnicos de manejo agroflorestal da Estação (Uerj). a diversificação do plantio nas são. desenvolvida cas. com uma reflexão sobre os e aprimorada no cotidiano da escola. a partir pelo grupo dos próprios resultados alcançados. de entrevistas com homens e mulheres de dife- A pesquisa foi instituída desde então como me. Dos relatos diários à exposição e avaliação também com o registro da história tuyuka. O roças da escola e a análise dos resultados dessas lugar da escola. arquivo? Qual a importância de um documento? que na comunidade. etc. Estudadas de relacionar os conhecimentos dos especialistas técnicas da agroecologia. elaboração Coordenadas por Renato Gavazzi (CPI-AC – e avaliação de trabalhos de conclusão de curso. Foi feito o plantio velhos incorporam? Qual a importância desses sa- de sistemas agroflorestais da Escola no entorno beres para os brancos (saberes botânicos.

Prefeitura de São Gabriel da Cachoeira – como de ensino fundamental completo 2003 • Negociada flexibilização da forma de avaliação dos alunos com a Semec. Roraima e Acre 1999 • Primeiras atividades em parceria das escolas tuyuka locais com a Foirn e o ISA. Aracy Coimbra entre 2001 e 2002. 3º ciclo – 23 alunos) 2000-2004 • Contínuas reivindicações feitas a secretários municipais de Educação . Escola propõe também (o que nunca se concretizou) o reconhecimento formal do Programa de Oficinas de Formação Continuada viabilizado pelo Projeto. adotando nomes de origem tuyuka: Escola Poani (antiga Escola São Pedro). com muitas famílias retirando seus filhos do colégio de Pari-Cachoeira (missão salesiana). no âmbito do Projeto Educação Escolar Indígena do Rio Negro 2000 • Criação de escolas indígenas através do Decreto n. 13 de 25/03/2002. Escola Yukuro (antiga Escola Puniã/Fronteira). reconhecida pelo poder executivo .Domingos Camico em 2000. REGIÃO . que passam a se reunir periodicamente pelo me- nos duas vezes por ano para planejamentos. que nesse caso já acumulava cerca de 10 oficinas realizadas. para os matricularem em sua própria escola. Foi um marco. início do funcionamento da primeira turma de 4º ciclo na escola tuyuka 2005 • Aprovação do projeto político-pedagógico do ensino fundamental da Escola Tuyuka pelo Conselho Municipal de Educação de São Gabriel da Cachoeira. Grande investimento em mantê-los informados sobre os primeiros anos de atividades da escola com apoio do Projeto de Educação Foirn/ISA Março 2002 • Criação da Escola Indígena Tuyuka Utapinopona através do Decreto n. 003 de 05/04/2000.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS CRONOLOGIA DE ARTICULAÇÕES POLÍTICAS DA ESCOLA TUYUKA Anos • Reflexões iniciais em torno da reforma da educação escolar tuyuka. com quatro esco- las do alto Tiquié regularizadas. de 26/09/2005 • Formatura da primeira turma de ensino fundamental na escola. composto por todos os moradores das comunidades que participam da Escola. 002. apresentada ao CME e encaminhada e protocolada também no Conselho Estadual de Educação Escolar Indígena do Amazonas ainda no primeiro semestre • Associação Escola Indígena Utapinopona Tuyuka (Aeitu) é registrada em cartório em fe- vereiro. através do Parecer CME n. Seu estatuto institui o Conselho Escolar. A escola alcança 88 alunos (1º ciclo – 41 alunos. Alunos hupda aí formados assumem pela primeira vez o papel de professores da escola de sua comunidade Umari- 2  Seguidos por Edilúcia de Freitas entre 2005-2008 101 088a187_CORR_V1. Alfredo Thadeu Coimbra em 2003. a partir da partici- 1980-90 pação de lideranças no movimento indígena regional e no movimento de professores indígenas do Amazonas.indd 101 5/31/12 2:43 AM . Escola Bua (antiga Escola Nossa Senhora de Assunção) e Escola Hu (antiga Escola hupda Boca de Umari) 2001 • Finalizada a primeira versão do Projeto Político-Pedagógico da Escola Tuyuka referente ao en- sino fundamental completo. 2º ciclo – 24 alunos. com uma carga horária total de 756 horas-aula • Em agosto.para autorização de funcionamento e pelo Ato de Criação da Escola Indígena Utapinopona Tuyuka. como escola de ensino fundamental completo. avaliação e encaminhamento de documen- tações para Semec e CME • Início da primeira turma do 3º ciclo. em agosto. Quelma da Silva Otero em 20042.

diferenciada duc para que passe a funcionar como sala de exten- das formas já em curso de articulação entre ensi. registrado e protocola- do em cartório 2011 • Entrega do Regimento Escolar do Ensino médio da Escola Tuyuka à Seduc/AM modo de gestão escolar tuyuka. que não projeto político-pedagógico elaborado. Persiste uma difícil relação com o Conse- meira turma de ensino médio em 2005. com apoio da Secretaria Municipal de Educação (disponibilizando temporariamente professores tuyuka do quadro municipal para esta etapa do ensino) e de recursos de outros projetos próprios (ainda sem apoio da Seduc) 2008 • Regularizado o funcionamento do ensino médio na Escola Tuyuka pela Seduc. ploma reconhecido. do Ensino Médio da Escola Tuyuka. 102 088a187_CORR_V1. de sala anexa de uma escola estadual que funcio. tendo sido entregues à Seduc como do- lideranças indígenas do Alto Rio Negro. Segundo diretrizes indicadas no ensino básico autônomo. já com um lho Estadual de Educação do Amazonas. se apoiou aprova o PPP do ensino médio e.208/97). 2. portanto não exatamente de acordo com seus princípios de gestão escolar e curricular • MEC emite nota técnica avaliando e elogiando a proposta de ensino médio da Escola Tuyuka. a Secretaria de Estado de Educação O funcionamento do ensino médio foi parcial. que abre a possibilidade de oferta de Em 2010. como sala de extensão da Escola Estadual Irmã Inês Penha situada na cidade de São Gabriel da Cachoeira. mas cobranças de Um estado distante adequação são constantes por representantes da A proposta e início do funcionamento da pri. orientando o Conselho Estadual de Educação a aprovar a proposta e a Seduc a apoiar financeiramente a escola 2009 • Estatuto da Associação Escola Indígena Tuyuka (Aeitu) atualizado. torna-se um desafio político e pedagógico para a Embora o PPP do ensino fundamental. da Escola. As 2006. a Escola Tuyuka recebe proposta da Se- cursos técnicos na forma integrada. a educação básica Tuyuka. lhem a forma de organização e gestão da Escola segundo consta na Carta aberta dos professores e Tuyuka. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA -Norte (objetivo da inclusão temporária da Escola Hu como sala de extensão da Escola Tuyuka em seus anos iniciais de funcionamento) • Entrega do Projeto Político-Pedagógico do ensino médio da Escola Tuyuka à Seduc • Início do funcionamento do ensino médio em agosto. consequente- no Decreto n° 5. tendo exigido (e sido elaborado) um documento na na zona urbana de São Gabriel da Cachoeira. Seduc. cumentação básica também do ensino médio bro de 2005. vislumbra-se aí uma educação profissional duas turmas de alunos formados no ensino médio e tecnológica como formação integral. prejudicando individualmente cação escolar indígena. já deta- Foirn para os demais ensinos médios indígenas. O ensino médio integrado cada aluno. são da Escola Estadual de Pari-Cachoeira. ao lado Escola Tuyuka e uma orientação ou sugestão da do estatuto da associação escolar Aeitu. (Seduc-AM) não os reconheceu como documen- mente regularizado apenas em 2008 na condição tação referente ao ensino básico de forma geral. de dezem. entregue à Se- te uma postura de respeito e não interferência no duc em 2011. e coletivamente a toda a escola. A específico correspondente ao Regimento Escolar diretora desta escola vem assumindo pessoalmen.154/2004 (que revoga o Decreto mente.indd 102 5/31/12 2:43 AM . mas resis- no médio e educação profissional (concomitância te a princípio. reivindicando o reconhecimento do e subsequência). que venha na escola (2009 e 2011) ainda não receberam di- realmente ao encontro das necessidades da edu. não fragmentado pelas Documento Base do Ministério da Educação de políticas diversificadas do município e do Estado.

que vie- ram construindo propostas político-pedagógicas para todo o ensino fundamental por mais de oito anos. várias vezes enviamos nossos projetos político-pedagógicos e demandas de apoio a nossas escolas para a Seduc. especialmente para os ensinos médios integrados indígenas desenvolvidos nas comunidades menores. Eles. Isso nos trará muitos problemas.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS CARTA ENCAMINHADA PELA AEITU AO SENADOR JOÃO PEDRO DO PT. Que busca partir dos conhecimentos próprios para entrar em diálogo com novas tecnologias e conhecimentos de outros povos (não apenas ocidentais). Não valorizam as iniciativas de ensino médio que surgiram em comunidades menores. 103 088a187_CORR_V1. afirmam não serem favoráveis a outras metodologias de ensino e propostas curriculares. As escolas indígenas do rio Negro ainda enfrentam impasses frente à implementação. nossas escolas não serão reconhecidas. espaços culturais. pois consideram que os consultores não são professores e não acompanham de forma adequada o processo de aprendizagem (mesmo que sejam mestres ou doutores nas universidades dos brancos). acham que os alunos devem aprender por disciplina e só assim estão sendo bem formados. dizem que se não nos adequarmos ao sistema de ensino da Se- duc. não dá resultados bons de aprendizado. Por isso tememos que nossos filhos não recebam certificado de conclusão reconhecido pela Seduc. como se todas as escolas indígenas do estado do Amazonas tives- sem que se submeter a uma única proposta curricular e metodológica no ensino médio. Um dos argumentos preconceituosos ainda mais graves é dizerem que nossas escolas valorizam mais a parte cultural e. pois as famílias não vão acreditar no trabalho da escola. como viemos trabalhando em algumas de nossas escolas. não são escolas e sim. acima de tudo espaço de valorização das cultu- ras e línguas como base da autoestima de crianças e jovens. aquela estampada no Projeto Pirayawara. Não acreditam que os temas de pesquisa que priorizamos ensinem o que as crianças e jovens devem aprender. de organizações não governamentais). Não compreendem que as escolas indígenas po- dem ser um espaço integrado com as comunidades e envolvido nas atividades das comunidades. em muitos casos não aceitam que os indígenas desenvolvam com o tempo uma proposta de ensino superior própria.indd 103 5/31/12 2:43 AM . acham que o trabalho com metodologia de pesquisa é inade- quado. Não aceitam que as escolas sejam como as nossas. criando alternativas de trabalho e pesquisa para jovens e projetos de futuro para todos os moradores de nossas comunidades. por isso. reco­ nhecimento e regulamentação do ensino médio desenvolvido nas suas comunidades em terras indígenas. Acham que nossas propostas de educação escolar resultam de manipulação de nossos parceiros (consultores). Informalmente mas continuamente. REGIÃO . nem que professores de ensino médio ainda não tenham ensino superior ou sigam sua formação em serviço. responsáveis em reconhecer e regulamentar as experiências de ensino médio indígena construídas pelas comunidades. EM 2008 Por dois anos. com algumas parcerias com organizações não governamentais não-indígenas. Não apoiam nem reconhecem a formação dos professores de ensino médio indígena através do esquema de consultoria (por exemplo.

pedagógico indígena (API) da região. e gestão de projetos. Para boa sua comunidade quando terminar o ensino mé- parte dos alunos. O ensino médio se aprofunda em dois objetivos postas políticas e pedagógicas do ensino fun. es- uma consultora externa. O acompanhamento pedagógico ao ensino Em 2005 começa a funcionar o ensino médio fundamental e médio passa a ser conduzido por na Escola Tuyuka. Várias atividades da escola Tuyuka. Dar mais capacidade crítica aos jovens e às comu- damental. a Escola Tukano Uremiri no alto Ti- acompanhamento permanente e local à Escola quié. ma. acompanhamento periódico e sistemático a pes- sa e organização escolar. dando sequência às atividades de pesqui. que promovem encontros pedagógicos ao lado de Aloisio e Pieter-Jan van der Veld. dada uma história re. para cente de alto êxodo da população da região para continuar aplicando na sua vida e na melhoria de centros urbanos ou centros missionários. a um mente. cas e artes tuyuka com os de outras culturas. 104 088a187_CORR_V1. realizou um mês de acompanhamento peda. em várias etapas. escola. pecialmente desenvolvidas no ensino médio da do. Patrícia Andrade Macha. Judite Albuquerque e Laise Lopes Diniz ma de oficinas com assessores externos dos anos estiveram na escola ao longo de 2003. ou profissionalização. e a Escola Tuyuka. opções de especialização. passa a acontecer – ainda através jetos executados pelo ISA em parceria com a Foirn do Projeto de Educação . em linhas gerais. Através do Projeto de Educação. coordenadores tuyuka do ensino fundamental e Melissa de Oliveira passa a assessorar (2005-2010). Busca refletir mais sobre a combinação ou pesquisa. Tem como metodologia o ensino via nidades. de ma- A permanência dos jovens em suas comunida. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA CONTEXTOS 2003-2005 Em 2003. Com que eles acompanham ou assessoram. Corresponde.uma série de oficinas e associações de base – aos quais está vinculada focadas no manejo agroflorestal. separada. Por isso. ou de outros pro- cola Tuyuka. tem conjugação de conhecimentos de diferentes culturas. ao longo dos módulos letivos de cada tur- gógico e avaliação geral junto com os professores. Tuyuka é conduzido por dois anos. valoriza a língua e a cultura tuyuka. Dar possibilidade de pesquisar temas e desen- trução do ensino médio. Flávia consultores de fora se diferencia agora do esque- Azevedo. O PPP do Ensino Médio Integrado segundo o interesse de cada aluno. Em novembro de 2004 quisas temáticas de longa duração (ver abaixo). o ensino médio integrado será dio. neira saudável para todo mundo viver bem e melhor. zadas por meio do PDPI da Aeitu. pontualmente O modo de atuação desses assessores do ISA ou por diferentes assessores. anteriores. Uma série de atividades voltadas à constru- O acompanhamento pedagógico à Escola ção curricular do ensino médio entra em ação. três es. gestão escolar essa equipe de assessores permanentes no Tiquié. des é uma das principais justificativas para a cons. O Ensino Médio Integrado Indígena da Escola Utapinopona-Tuyuka é consistente com as pro. Flora Dias Cabalzar deixa de fazer o puri no médio. essa dedique e se desenvolva em uma atividade que etapa oferece uma formação geral com diferentes possa servir para sua vida depois da escola.indd 104 5/31/12 2:43 AM . médio. saindo do projeto no final de 2004. são viabili- o 3º (2001) e 4º ciclos (2003) funcionando na Es. participação comunitária em todos os processos como e quando conjugar conhecimentos das técni- ligados direta ou indiretamente à escola. volver atividades de interesse de cada aluno. mais frequentes e a articulação com o assessor colas indígenas no rio Tiquié: a escola Tukano Yu. Dar importância e apoio para que o aluno se a etapa de formação escolar final.

A avaliação como acompanhamento do O ensino médio forma pessoas que sabem aprendizado do aluno acontece a partir da apre- produzir os conhecimentos tuyuka (arte. sua identidade cultural e linguística. a escola ofe- os direitos individuais e coletivos de seu povo. ção nesses eventos. o ensino médio tempo capazes de conhecer e adquirir os conhe. plantas medicinais. Durante todo o ensino fundamental foi deci- Em todas as opções oferecidas aos jovens pela dido adotar o Tuyuka como principal língua de Escola Tuyuka. No ensino médio.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Política de conhecimento cimentos tecnológicos de fora (compreender. citadas para transmitir a outras pessoas os co- mos formar conhecedores tuyuka que garantam nhecimentos aprendidos e que saibam discutir a continuidade de nossas técnicas e artes. professores e demais membros da comu- nidade. agri. benzimento.indd 105 5/31/12 2:43 AM . dança. Desen. o bom caçador. através de estágios. Forma pessoas capa- des e da região de maneira sustentável? Quere. O professor é responsável por volvem respeito e cuidado com território que fazer o registro de todo processo de aprendiza- ocupam. adequando-os às atividades de vida das populações indígenas das comunida. e o português como segunda língua. ou facilita talecidos na sua identidade cultural. REGIÃO . preparadas para fortalecer comunidade os modelos locais de desenvolvimento comunitá. a comunidade diz em Formação de gestores do conhecimento. que sabem desenvolver avalia-se seu entrosamento. Lideranças comunitárias que saibam organizar o trabalho e resolver juntos os proble. o bom vos ou interessados. assembleias e festas. De que forma é possível melhorar a qualidade usar e desenvolver. ao mesmo Como o ensino fundamental. São realizados Seminários de Pesquisa. com duração de 105 088a187_CORR_V1. que também sejam gestores administrativos e quais os alunos são avaliados pelos pais. E se um grupo de alunos do Buscamos um ensino de qualidade. que de forma crítica como integrar conhecimentos valorizem conhecedores mais velhos. que defendam mínio do português ou do espanhol. sentação de trabalhos. e interesses comunitários). Avaliação dos alunos pelos professores e mas das comunidades. outra parte da formação acontece fora da trabalhada apenas oralmente em alguns módulos. cultura e alimentação). porque na tecnológicos não indígenas. é constituído pelos 5º e 6º ciclos. Política linguística no Ensino Médio lhos e da comunidade. for. a boa produtora dos alimentos da roça e que cuida de acompanhar as boas dietas dos fi. de va- mais tempo ao lado dos especialistas tradicionais. o líder tradicional. rece formação específica a esse grupo. gem do aluno e apresentá-lo através do parecer biental e territorial. envolvente. o português se torna língua de instrução Formação de jovens lideranças em alguns módulos. animação e disposi- as práticas tecnológicas da arte tuyuka. quando alunos e professores podem passar Essa política acompanha o outro objetivo. solidários. a mulher são capazes também de levá-los para outros po- líder tradicional também. lideran- econômicos dos projetos comunitários. Pessoas com para que eles possam ter essa formação em outra ética no meio da sociedade indígena e no mundo localidade. dançador. políticos. ças. da escola. lorizar os conhecimentos tradicionais. Nesse momento. encontros. que forme ensino médio se interessa em aprofundar seu do- líderes críticos. participação em seminá- medicina. parte da formação acontece dentro instrução. escola. rios de pesquisa. Com domínio dos nossa cultura também temos especialidades: o novos conhecimentos que estão desenvolvendo. o benzedor. Forma pessoas fortalecidas na descritivo. preparando o jovem para o manejo am. que ponto ele pode melhorar ou aprofundar sua da cultura e do território pesquisa. nos rio. pescador.

comunicação e multimeios. redes). demandou da Escola Tuyuka uma grade râmica e outros. das outras). que incluem niromakañe buere (focadas nos tradicional das relações com os seres espirituais. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA 2 anos cada. gestão territorial. cada um contribuindo com conteúdos de diferentes áreas de conhecimento A formação em pesquisas de longa duração (linguagens e suas tecnologias. A escola deve ofe- ses comuns.Pesquisa técni- do ensino através de temas de pesquisa. como por exemplo.Formar benzedo- que ali não existe grade curricular fechada. dentre ou- a separação escola/comunidade é superada. Durante o 6º ciclo deve se intensificar a de e manejo ambiental). confecção. manejo vés de etapas de formação e pesquisa de poucos de recursos naturais e geração de renda. matemá. que mundo) e padebauane añuro niretire (focados no devem trazer alguma contribuição para as comu. continuem essas pesquisas/trabalhos depois do tica e suas tecnologias). bolsas.indd 106 5/31/12 2:43 AM . moniais e na vida cotidiana. não muito distantes umas quais o aluno optou. tros. Durante o 5º ciclo espera-se que o saberes. A Seduc-AM. para resolver questões consideradas dos à segurança alimentar. seus interesses relaciona. integração das pesquisas dos alunos com ativida. suas cerimônias e manejo tradicional do jovem desenvolva alguns temas de pesquisa. meses de formação. culdades e se manifestou contra tal exigência. que é responsável pelo ensino puçás. Existem também os temas pontuais ou de des das comunidades. O aluno pode optar por se aprofundar em Planos e programas de pesquisas são pensados uma ou mais temáticas de longa duração. res (basera) na prática das narrativas míticas: benzi- O PPP do ensino médio apenas divide as pes. as técnicas de parte da proposta da escola. 106 088a187_CORR_V1. arumã (cestaria). curto prazo. ce- médio. o manejo fessores por disciplina. Estudar suas histórias de origem. proteção da comunidade durante os ceri- quisas propostas em temáticas de longa dura. fazendo acompanhamento periódico de suas pesquisas. or- valores tuyuka centrais como suas línguas e seus ganização da vida social e espiritual da comunidade. assim para cada grupo de alunos que tenham interes. já Basere (Medicina Tradicional) . madeira. Formação no manejo ção. seu potencial de comercialização. aplicando esses conhe- cimentos em suas vidas e para melhoria de suas comunidades. ciências humanas nos temas de interesse dos alunos busca que eles e suas tecnologias. os ambientes privilegiados para suas pesquisas. sua importância no dia a dia e nos rituais. mais específicas. e gestão e administração de projetos. incluindo produtos do tucum (fios. trabalho que promove produção. ciências da natureza. cordas. As temáticas de longa duração es- Pesquisas temáticas de longa duração tão assim organizadas: e de curta duração no Ensino Médio tuyuka A) Niromakañe buere O PPP do ensino médio segue a metodologia Pade Masire (Artes e Artesanato) . mentos. pro. cuidados nidades de origem dos alunos são consideradas básicos com a saúde. término do ensino médio. mens. curricular e uma proposta para a lotação de pro. sustentabilida- nidades. Os professores circulam mais pelas recer esses espaços de formação do jovem para comunidades de moradia dos alunos (são apenas o desempenho da atividade ou atividades pelas quatro comunidades. que encontrou difi. As comu. que já cas de artes e artesanato das mulheres e dos ho- orienta o ensino fundamental. Esses elementos não fazem e cuidados com as matérias-primas. Os professores do ensino mé- As pesquisas de longa duração no dio costumam trabalhar em duplas ao longo de PPP ensino médio um tema de pesquisa. e que merecem ser tratadas atra- dução alternativa para a sustentabilidade. em temáticas de curto prazos.

Pesquisa sobre calendário astronômico. diversidade da alimentação local. dem dialogar e circular de jeito que contribua para gurança alimentar e alternativas econômicas. wai. trodução dessas técnicas nas comunidades. homens e mulheres. Testam turmas do ensino médio (2005-2011) e avaliam a viabilidade de novas tecnologias para trabalhar dentro das comunidades.. Formação desenvolvidas na escola conforme disponibili- de gestores administrativos dos projetos comu. Discutem de forma crítica como integrar necessárias.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Basare (Danças) . agroflorestais. As principais áreas desenvolvidas são acervos e registros destes saberes. Essa linha de pesquisas oferece uma Visa desenvolver nos jovens o pensamento opção às alunas de dedicação mais exclusiva aos crítico em relação à história do contato entre os conhecimentos femininos tuyuka. dade de recursos. sua sazonalidade e valor nutricional. C) Dutire. E pes. 107 088a187_CORR_V1. Tiquié. a formação como mestres de cerimônia (baya) ou piscicultura e criação de animais dão acesso a no acompanhamento do baya (dançador) durante conhecimentos da matemática. e ainda os cuidados com os orna. de) . As atividades agrícolas. contem. REGIÃO . Preparação para seguir regras espécies. Pesquisa-se a história de percussão etc. ciclos de vida e comportamento dessas mentos cerimoniais. a melhoria da vida de todos. a criação de Numia payare (Conhecimento das mulheres galinhas (kareke ekare). os impactos positivos e de registro oral e audiovisual. a meliponicultura (mumia ekare). Florestais Tuyuka) zam os seus conhecimentos. pedologia. se volve também a formação de alunos em técnicas são adequadas ou não. parcerias e outras condições nitários. buscam alternativas de produ- As pesquisas de longa duração da 1ª e 2ª ção de alimentos e de geração de renda. Durante a formação das duas pri- conhecimentos tecnológicos não indígenas. plando a prática de danças dos velhos na maloca. meiras turmas de ensino médio. de pesca. seus saberes no preparo de alimentação e alto Tiquié e formar os alunos para a pesquisa cuidados com saúde. Pes. edição e política de negativos. cadores e agricultores pesquisam e valorizam suas técnicas próprias. a pesquisa das paisagens florestais existentes no dades. o manejo agroflorestal (ote masire). a importância dos cuidados participativa e monitoramento ambiental de seu com a alimentação nas diferentes fases de vida de território. valoriza o papel da Visa disponibilizar métodos apropriados para mulher na sustentabilidade da vida e das comuni. as temáticas de Ote masire. a piscicultura (wai ekare) e para produção de alimentos e a promoção da saú. En. nu- as cerimônias. etc. índios e não-índios. Incentiva a reflexão crítica sobre a in- específicas de dieta e comportamentos rituais. sobre como estes diferentes mundos vêm se relacionando ao longo da história B) Pade bauane añuro niretire e sobre como esses diferentes conhecimentos po- Formação para a produção e busca de maior se. sempre a par. Pesqui- Visa desenvolver técnicas complementares sa sobre paisagens florestais na região do alto de criação e manejo de espécies animais e ve. biologia. crítico turais locais. trição. getais como alternativas para a melhoria da base mentos relacionados aos cantos e danças. origem. nutricional das famílias e da merenda escolar. Estudo das Leis e pensamento quisa novos usos culinários para os recursos na. Algumas temáticas sugeridas no PPP são tir de diagnósticos e demandas locais. mumia ekare (Atividades pesquisa descritas abaixo (Gestão dos conheci- produtivas sustentáveis) mentos para as futuras gerações Tuyuka. a prática dos instrumentos de sopro.indd 107 5/31/12 2:43 AM . kareke.Cria um espaço feminino de discussão sobre Utapinopona Makarukuri bauretire (Paisagens temáticas de interesse das mulheres e que focali.Formar jovens nos conheci.

em 2008 e ainda em curso. cho- calhos de fieira. Ba. nejo do mundo. uma equipe de tivo principal. adornos (o instrutor foi Francisco Sanchez. participaram jovens alunos. em Camanaus) e baixo Uaupés até Iauaretê. Temas relacionados às musicas. Essa viagem aconteceu entre fevereiro homens e mulheres. dentre as quais destacamos: com a Escola Tuyuka. Foi um momento importante de re- de oficinas de música com os principais bayaroa flexão para os Tuyuka. Reforça as linhas de pesquisas Muitas atividades previstas no PDPI no formato centradas nos conhecimentos de maior valor de oficinas se referem à formação de longa du. Tuyuka. pesquisa sobre calendário Payare. aprovado cedores e conhecedoras mais velhos tuyuka. narrativas pensar a formação dos jovens. Viabilizou levar adiante pes. com apoio da Fundação e Venezuela. a respeito de sua origem e entoadores tuyuka do Tiquié (ver Oficinas de e seus conhecimentos. oficinas e atividades relacionadas ambiental: pesquisa sobre paisagens florestais na à linha de pesquisa do ensino médio Numia região do alto Tiquié. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA ecológico e socioeconômico. vem permitindo a assim como intercâmbios com parentes colom- formação de meninos (através das danças. 108 088a187_CORR_V1. com intensa participação nhecendo lugares importantes nas narrativas de dos moradores das comunidades. com apoio nas diferentes calhas de rio. benzimentos. benzi. Basare (Danças) e Nu. bara- florestal e meliponicultura. sobretudo os ensinos médios. envolvem a Escola. Colômbia (em parceria Foirn e ISA. sana do Caño Colorado). manejo agroflorestal. confecção e estudo de Higino Tenório. E uma É um conjunto de atividades e pesquisas que viagem pelo rio Negro (a partir da ilha Duracá. adultos e velhos conhecedores. co- mas que vão além dela. Amazônico – que prevê trocas de experiências mia payare (conhecimentos das mulheres). ca valorizar os conhecimentos tuyuka como obje. numa fonte e níveis de aprofundamento.indd 108 5/31/12 2:43 AM . Momento também para Música). Gestão dos conheci. importante interface a várias iniciativas. Pade Masire (Artes e Artesanato). velhos e jovens. conduzi- O projeto Manejo sustentável de recursos naturais dos nas regiões fronteiriças do Brasil. Canoa – Cooperação e Aliança no Noroeste sere (Medicina Tradicional). Atividades produ. bianos para trocas de conhecimentos sobre ma- mentos) e meninas (com foco em numia payare). as futuras gerações Tuyuka incluindo aqueles do Tiquié colombiano. com participação Gestão dos conhecimentos para de bayaroa convidados de outras comunidades. Nas palavras de de origem. tuyuka (niromakañe buere). bastões de ritmo. astronômico. que está sempre se renovando. e março de 2008. ativi. Via- bilizou a realização de rituais. dentre outros objetivos mais gerais e Sua execução teve início em 2008. Ges- nicultura) foram viabilizadas e disponibilizadas tão dos conhecimentos para as futuras gerações da seguinte maneira. assim como uma ração voltada aos saberes cerimonais masculinos articulação entre países vizinhos no âmbito da e femininos. melipo. oficinas para formação de técnicos de áudio quisas já em desenvolvimento voltadas ao manejo indígenas. Em 2007 foi formulado um projeto para o tivas: piscicultura. sempre foram abordados em diferentes ciclos nidades sobre suas origens comuns. cerâmica para as mulheres. origem. ecológico e socioeconômico. culação dos saberes especializados dos conhe- mentos para as futuras gerações Tuyuka. PDPI relacionado à valorização cultural. oficinas de confecção de bens rituais: caixa de dades produtivas como piscicultura. Já no começo realizou um conjunto 20 pessoas. e conhecimentos femininos relaciona. manejo agro. Moore) teve. A Aeitu desde seu início bus. mentos dos Tuyuka e dos moradores dessas comu- dos. entre programas e projetos similares. foi um encontro entre os conheci- adornos. Este PDPI apoia a formação voltada à cir- O projeto PDPI da Aeitu. criando espaços femininos de discussão.

alguns conhecedores tuyuka mais ram sobre o valor nutricional dos alimentos. Carmen do Vale e Simão Bolí- lher e seus conhecimentos na comunidade. São Pedro Novembro de 2009 que as mulheres mais velhas orientaram as mais jovens sobre como aplicar pintura corporal e facial nos participantes. 5 a 9 novembro de 2007 na. construção. por parte dos conhecedores tuyuka. sio Cabalzar do ISA. momento em II Oficina de Edição Gráfica. Foram trabalhados segunda oficina estiveram presentes Melissa e conceitos matemáticos relacionados à maloca Anne Keyla Firmo Alves. Aeity. São Pedro dos de confecção foram registrados nas línguas Oficina de Benzimentos Tuyuka Junho de 2009 tuyuka e tukano. Contou com a participação de alunas do apoio de assessoras do ISA: Melissa Oliveira. As histórias e mo- Áudio Indígena (PDPI). an. São Pedro 4 a 8 novembro de 2005 mica. também de Pupunha. Tiquié. também como construção de Pirá Paraná (Acaipi). sendo realizada uma foram feitas todas as medidas e esclarecimentos festa de encerramento com dança de kapiwaya. Conversa. a velhos. Foi (apropriação gráfica dos espaços) e sua repre- feito acompanhamento das mulheres mais ve. iniciando um ciclo de inter. cerâmica pelas alunas e demais mulheres parti- denadas pelas alunas da 1ª turma e/ou 2ª turmas cipantes. Mulheres mais velhas narraram histórias sobre a alimenta. sentação em escala reduzida. Jovens realizaram com participação de alunos e professores do en- entrevistas para registrar as receitas. O objetivo câmbio entre elas. 10 a 13 abril de 2007 A primeira oficina reuniu 40 moças e mulheres na maloca de São Pedro das etnias Tuyuka.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS OFICINAS NO PDPI TUYUKA Oficinas de Cerâmica e I Oficina de Arte Culinária. São Pedro Duas especialistas. qualidade e adequada para a região. Na var (assistentes do arquiteto). tropóloga e Marcia Abraão. Desana. além de moradores da comunidade. Yebamasa e Desa- III Oficina de Arte Culinária. uma Tukano de Pupunha. Foi discutida a importância cul- brasileiro (Aeitypp) e colombiano (Aatizot) e do tural da maloca. das associações Aeitu. Dentro da maloca. com orientação de especialistas mais de ensino médio Tuyuka. São Pedro 4 a 9 abril de 2008 I Oficina para Técnicos em Junho de 2008 orientou o preparo dos pigmentos para pintura Áudio Indígena (PDPI). ? no médio Tiquié. o papel da mu. ensino médio da Aeity e Aeitypp. lhas no preparo de bebidas. uma especialista bará. O encerramento se deu com um I Oficina de Edição Gráfica. da Semec. sino médio. na maloca de São Pedro Agosto de 2006 Pinturas Faciais e Corporais II Oficina de Arte Culinária. São Pedro Setembro de 2008 grande dabucuri com kapiwaya. para troca de conhecimentos sobre as I Oficina de Cerâmica e 9 a 16 outubro de 2008 várias etapas de confecção de peças de cerâmica. Aloi- diversidade da alimentação local. Foram construídas quatro maque- Participaram mulheres de associações do Tiquié tes de malocas. no II Oficina de Cerâmica e 23 a 27 outubro de 2009 Tiquié colombiano. relações entre elas e como são feitas durante a paro de alimentos e bebidas pelas mulheres. Tukano. Oficinas de Arte Culinária A segunda oficina teve foco na confecção de Todas as oficinas de arte culinária foram coor. Pinturas Faciais e Corporais.indd 109 5/31/12 2:43 AM . Acimet Cachoeira Comprida e Aatizot. A primeira contou com velhas. orientaram a confecção da cerâ- I Oficina de Arquitetura. ecóloga. sobre as A terceira oficina novamente tem foco no pre. REGIÃO . II Oficina de Arquitetura (PDPI). Aeitypp. e outra Desana de Acará-Poço Pinturas Faciais e Corporais. São Pedro facial e corporal. o carajuru (pigmento vermelho) II Oficina para Técnicos em Abril de 2009 e o jenipapo (pigmento preto). Bará. Oficinas de Arquitetura ção no passado e mudanças na alimentação no Coordenadas pelo arquiteto Almir Oliveira. prepararam alimentos. da segunda oficina foi elaborar o projeto arqui- 109 088a187_CORR_V1.

obje- de desenvolvimento. já fizemos a limpeza.Projetos Demonstrativos dos Povos Indí. gramas de áudio. Cada objetivo com várias atividades. tenha organizado cursos de alguns dias para os ram projetos. ESCOLAS INDÍGENAS NA GESTÃO E COORDENAÇÃO DE PROJETOS PDPI P ieter -J an V an der V eld O PDPI . coloquial e muito menos regional. da comunidade. foram feitas maquetes da futura casa. às vezes. é parte do mandava algum apoio de assessorias. documentação e edição de áudio. Associações indígenas mente na parte financeira. através de suas associações. microfones. Não foi tantos reais de contrapartida para que a comu- por acaso que o PDPI ficou muito popular entre as nidade limpasse o terreno. ou para lidar Comparado à maioria dos editais no circuito com a estrutura e a lógica rígida do edital. na compreensão da puderam submeter projetos de economia susten. com rapidez em responder as cartas e e-mails. funcionamento dos microfones em diversos am- imagens. que deve ser de 10% do orçamento para transferindo os desembolsos na data combinada. construída com bientes). não te- xível quando remanejamentos eram pedidos. visto que para alguns aprendizes Oficinas para Técnicos em Áudio Indígenas se tratava do primeiro contato com um compu- Coordenadas por Marco Wesley de Oliveira tador. ou “Teve nos últimos anos o PDPI teve problemas. Houve grande envolvimento Ivanildo Meira. cabos. organizando-se em grupos que José Arimatéia Vidal (alunos do ensino médio). pessoas nas técnicas de gravação e edição de concebida para ser um espaço para acervo de áudio (diversas possibilidades de capturar áudio. pequenos projetos. a elaboração de um projeto de- no âmbito da cooperação internacional. Mauro Tenório. se revezavam para gravações: tocadores de ca- As duas oficinas apoiaram a documentação da riço. Tem a questão da contra- Até recentemente o PDPI funcionou muito bem. Mas mos dinheiro. especial- Programa Piloto (ex-PPG7). linguagem usada no edital.. capacitando seis de cantos de ninar. um orçamento próprio. cantadores cultura musical e oral tuyuka.. nas áreas de economia sustentável coordenadores dos projetos. e 20% para grandes. discutindo-se desde materiais a face de áudio foi adquirido para a comunidade e serem usados até os espaços. associações indígenas e muitas propostas foram agora queremos nosso dinheiro”. passando posteriormente ao uso de pro- (Som das Aldeias). e era rápida. Um estúdio móvel composto por lap- recursos do projeto PDPI. As escolas indígenas também manda. índios. alunos divididos por séries. João Fernandes Barbosa. conceito. Josival Rezende. O projeto foi elaborado top. luz etc. valorização cultural e proteção territorial. cantadoras de Hade hade. fones de ouvido e inter- coletivamente. com sala de exibição. Ainda assim. plano de trabalho e cro- vamente fácil de fazer. pajés. genas . não eram suficientes. não entendido: “Se nós. Por último utilizado nas oficinas e em gravações posteriores. um português não tável. tivos gerais e específicos. criação de backups.indd 110 5/31/12 2:43 AM . texto. gerenciamento de arquivos e son e Rosemir Meira. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA tetônico para uma nova casa da Escola Tuyuka. partida. e valorização cultural. 110 088a187_CORR_V1.do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Foram dadas orientações básicas sobre o manu- seio do laptop. fle. Embora o PDPI elaboradas. vídeo. o edital do PDPI era relati. com participação de Adel. como podemos pagar?”. havia possibilidade de cada atividade com um lugar no cronograma e reenvio oferecendo uma justificativa mais clara. e se recusada. A aprovação das propostas nograma.

devido a acidentes. focada em precisam conhecer para também se envolver gravações de festas que os aprendizes realizaram nessa parte com os mais velhos. Mas lembram os velhos ben- Função do basegu é proteger ou saber usar os zedores que. é essencial ter essas informações dígenas deve ser levada mais a sério. Organizações por perto. Os conhece. que assessoram tendem a contratar biólogos. os tuyuka aprenderam a nhecimentos. Alunos mais novos podem registrar parte do conhecimen- Oficina de Benzimentos Tuyuka to de benzimentos. O arquivo deve tação. Nas executados por pequenas organizações de base trocas de diretoria da associação. soria deve acompanhar a primeira e a segunda Uma boa equipe de gestão inclui um líder que sai. manipular A escola deixa os alunos optarem pela pesqui- o estéreo. Este arquivo é muito importante: quan. prestação de contas. equalizar. os jovens devem seguir buscando um Ikiga Basa. e assim por diante. A pesquisa dos benzi- Lições aprendidas do projeto. limpar ruídos. A capacitação das equipes de administração in- do tem problemas. espalhados. Ge. vírus virtuais e troca de coor- ralmente. REGIÃO . envolvendo todas (ou a maioria) as pessoas escolha da coordenação dos projetos. Nessa oficina. mas esquecem de contratar O povo beneficiado deve estar ciente das exi. o tesoureiro é o co- ram algumas lições.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Nos últimos dias da oficina realizaram a festa pesquisas. o acompanhamento organiza assembleias frequentes com esse objetivo. o que representam e sua eficácia na vida seus saberes de proteção da pessoa aos jovens. pode ser menos intensivo. assessores que possam acompanhar e treinar as gências de uma equipe de gestão e coordenação equipes de coordenadores indígenas locais. A primeira ver. com um responsável. mixar canais. É comum perder informações originais estar em um único lugar. que pôde ser gravada para compor conhecimento maior. O povo beneficiado deve ser informado sobre isso que deve ser feito durante uma série de encon. e formação: apenas para eles. dependendo da idade. nomos. Deve haver cópias da documen- que saiba organizar seus arquivos. A não perder a experiência e treinamento já feitos. esse conhecimento Também comentaram que a partir das primeiras vai transformar a pessoa. muitos documentos são perdidos ou ficam denação dos projetos. durante as eleições de diretorias de associações e tros. que precisam desses co- oficinas. A asses- são sempre precisa ser repensada. se envolver com em suas comunidades no período entre as duas o grupo de benzedores. A segunda oficina foi nhecimentos a respeito disso: que sentirem que direcionada para a edição de áudio. elaboração de um projeto é um processo longo. especialmente os que ti- o acervo da cultura tuyuka que está sendo cria. 111 088a187_CORR_V1. Em muitos projetos o presidente da Os vários anos de acompanhamento nos deixa. ele pra de materiais. maior profundidade o sentido específico dos ben- dores das várias comunidades tuyuka relataram zimentos. sa de seu interesse. para os que quiserem conhecer em benzimentos para proteção e cura. Uma boa equipe deve ter uma pessoa fa. masterizar e gravar em CD. verem o espírito de fortalecer e entender os co- do através deste projeto. antropólogos. O verdadeiro treinamento é a prática.indd 111 5/31/12 2:43 AM . associação é o coordenador. a primeira e segunda com- ba explicar a seu povo como funciona o projeto. que vão se beneficiar do projeto. Depois. agrô- miliarizada com o uso de computador e internet. válidas para todos os projetos ordenador administrativo. mas deve acontecer Deve ter também um coordenador administrativo regularmente. é importante com pouca experiência em gestão de projetos.

observação. organização e conteúdo para Para a descrição das paisagens florestais. passando para uma na região do alto Tiquié escala de 1:100. na escala quisa realizada por eles mesmos. adotados métodos de inventários incluindo en- mento das ilustrações. segunda fase da pesquisa começaram os levanta- mentos de algumas paisagens florestais. análise. du- Coordenadas por Renata Alves de Sousa (de. metros no terreno. João Bosco Rezende. Pieter van der Veld (agrônomo). Também foram feitos transectos e Essa pesquisa vem sendo desenvolvida no estudos de áreas. Uma vez demarcado o transecto. in- nição do tamanho e das letras usadas conforme terpretação e manutenção de banco de dados. representação. onde um centímetro corresponde a vinte ceram um programa para editoração (InDesign). a é. As representações das Pesquisa sobre paisagens florestais paisagens foram detalhadas. A loca- ensino médio desde 2006. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA mentos é importante. o registro das árvores encontradas. 112 088a187_CORR_V1. Se debateu aspectos como papel. 1ª e 2ª turma de ensino médio. José em detalhe os benzimentos. cação das plantas. A extensão total de cada trilha aprendendo a criar o formato do livro. defi. O retân- conhecedores tuyuka e pesquisadores de fora. Os o assunto apresentado.000 m2. com um modo de viver e dietas apropria. a capa. usando-se os nomes indí- paisagens indígenas e o manejo adequado das genas. elaboraram croquis básicas e exercitando-as por meio da preparação e anotações para depois desenhar o perfil. mas não adianta pesquisar Quando desenvolvida com a equipe de alunos. separar conteúdo por te. Os mais jovens ainda não trabalham fessores José Ramos. No inventário das trilhas foram identificadas mas. de seis quilômetros. poderão chegar a ser grandes benzedores. por um período de longo de duas oficinas se discutiu a construção dois anos. e em especial. Cada do material de um livro com os resultados da pes. composição de textos. pesquisas apenas começam a desper. contaram com a participação dos com apoio da Fapeam. medições. de projetos gráficos. Marcus Schmidt (engenhei- Oficinas de Edição Gráfica ro florestal) e Aloisio Cabalzar (antropólogo). mas continuando sua Lima. As árvores são cimento tuyuka. e esquecer. trilha foi representada em papel branco. sobretu- do caranazais e capoeiras. Nessa fase. pesquisadores e os moradores das comunidades bre composição das cores. envolveu os pro- tar interesse. foram disponibilizadas seis professores José Ramos e Geraldino Tenório e bolsas de estudo e pesquisa para alunos. bem como suas características. Também conhe. aprendendo as noções dores observaram a paisagem. signer gráfica). 1:2000. Foram feitos exercícios so. folha de rosto e créditos. com apoio de vários lização do transecto é registrada no GPS. começa indígenas na metodologia científica e no conhe. rante vários períodos letivos da escola. sistematização. Tiveram contato sentativas das paisagens do local. os conhecedores Guilherme vivência. e duas alunos da primeira turma do ensino médio. foram editorar algumas publicações. seleção e tratamento dos alunos escolheram trilhas já existentes repre- de imagens para as publicações. equipe do ISA: Marcia Abraão (ecóloga). os pesquisa- e de desenho (Ilustrator). entre 200 m2 e 1. organizar a ordem dos textos e trabalhar na 69 paisagens florestais na classificação tuyuka. Os conhecedores tuyuka fazem a identifi- mesmas (principalmente caranazais e capoeiras). aprofundar o conhecimento das contadas e nomeadas. Foram elabora- com programas de computador voltados para o dos perfis das paisagens inventariadas em quatro trabalho de tratamento de imagem (Photoshop) trilhas. escolha das cores e do seu trevistas. assim como assessores da dos. em média. Na diagramação dos mesmos. Tenório e Paulino Lima.indd 112 5/31/12 2:43 AM . a seleção e trata. gulo é formado com o uso de uma bússola e várias Tem como objetivo formar jovens pesquisadores trenas. formato. Durante as medições na trilha. Ao para coordenadores indígenas.

Considerando esses ciclos. como os próprios diários. ta através de um só transecto. ao mesmo tempo. etc. Discute-se o desenho técnico ou que podem ser pensadas como rituais de manejo desenhos “quantitativos”. mir Cardoso (astrônomo). As obser- cussão dos conceitos técnicos tratados. o manejo sus- Marcos Resende. anotações sobre o que acontece no cotidiano da manejo agroflorestal. os gráficos anuais com nível do rio e fenômenos associados. alimentação. Melissa Oliveira (antropóloga) e Wal- com a escala de um mapa e o uso de legendas.. onde são usados mapas. Práticas agrícolas. em que as plantas são re. vários textos e tabelas descritivos.indd 113 5/31/12 2:43 AM . uma das poucas exceções. João Batista Meira. incen- pesquisa das paisagens florestais. em 2005 em várias comunidades do rio Tiquié. A medição vimento das constelações (wametire). REGIÃO . riais ainda não editados. e tabelas e alunos registraram essas atividades. João Bosco tentável dos recursos naturais. com textos produzido em Word. festas. bem como gráficos produzidos em Excel. participaram de latitude e longitude. Na Escola Tuyuka. Aloisio Cabalzar (antropólogo). O uso de bússola leva à divisão de um círculo em Os velhos conhecedores acompanham o mo- 360 graus e o ângulo reto de 90 graus. das roças e plantios. João Bosco Rezende. um caderno para Atividades produtivas: piscicultura. quisadores indígenas da Acaipi (Pirá Paraná. No lado brasileiro da bacia do Uaupés. que está muito relacionada à tentável e o bem estar das comunidades. desenhadas em escala. tendo gerado tamento florestal resulta de vários módulos letivos uma publicação em tuyuka (2009) e vários mate- e de pesquisa.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS uso. conhecedores: Guilherme Tenório. associadas de circunferência pode ser usada para abordar o aos ciclos das frutas silvestres. O registro do transecto no GPS 2ª turma. rios. Gabriel Barbosa. sua população. da de pesca ou caça servem também como instru- 113 088a187_CORR_V1. Da equipe do ISA. Explora-se o conceito “di. e dos e cartografia. os Tuyuka mensões” e são produzidos desenhos em 2D e 3D. rituais. Pesquisas similares são desenvolvidas por pes- Pesquisa sobre calendário astronômico. Cada levan.. a rosa dos ventos. Alguns tica. avaliações vações e registros diários são sistematizados pe- e planejamentos de etapas seguintes. os A abundância de cada espécie é expressada em conhecedores marcam as cerimônias de proteção. Pieter van der Veld pretação de imagens de satélites. esses rituais. e manter esse movimento do mundo e seus ciclos. do meio ambiente. das flutuações dos conceito de número pi. A Escola Tuyuka nasceu com a preocupação alguns alunos do ensino médio optaram por esta de valorizar e fortalecer o desenvolvimento sus- linha de pesquisa. riodicamente (duas vezes ao ano). com orientações dos pro- leva a discussões sobre sistemas de coordenadas fessores José Ramos. ções (chuvosas e secas) e o nível do rio. A base dessa pesquisa é o diário. João Barbosa. esta- Periodicamente são formados grupos de dis. Resende. aquelas associadas ao calendário agrícola. As listas de plantas colo. como trabalhar (agrônomo). sobretudo no tivando aquelas atividades adequadas à região e que se refere à fenologia das plantas. origens. a inter. fotos de sa. porcentagem. formam um dos grupos que seguiram realizando O registro de plantas é usado também na informá. da vida e reprodução dos peixes e animais. meliponicultura comunidade e seu entorno. cadas em tabelas levam à elaboração de gráficos. abaixo). na medida em que buscam presentadas conforme sua posição no transceto. lado ecológico e socioeconômico colombiano) (ver oficina conjunta que foi realiza- As pesquisas sobre calendário começaram da em Hena. Arsênio Sanchez. Joel Barbosa. contribuindo para a segurança Da 1ª turma do ensino médio participaram alimentar e. relacionadas ao traba- lho. Pode-se tratar do sistema ra. Joanico Mei- télite e o mapa mundi. Uma paisagem não pode ser descri.

indd 114 5/31/12 2:43 AM . além de me- © Marcus Schmidt/ISA. Várias atividades vêm sendo Manejo agroflorestal desenvolvidas no ensino médio nesse âmbito. 2009 Alunos do Ensino Médio da Escola Tuyuka desenhando paisagens. e ser fonte de alimentos para a merenda Beneficiada pelo projeto de piscicultura de es. onde está situada a Escola). através de seu assessor Fer- vidade. Meliponicultura criando uma infraestrutura (viveiros. tivo é seu uso na merenda escolar. o objetivo é valorizar a principal atividade de subsistência das famílias in- Piscicultura dígenas. o manejo agroflorestal agroflorestais da Escola. O obje- suas próprias barragens para criação de peixes. mini estação A criação de abelhas indígenas sem ferrão de reprodução com incubadora) e instrumentos (meliponicultura) foi desenvolvida com o apoio necessários. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA mentos de ensino. com mais de uma dé. a Escola incluiu esse assunto no currículo de vários ciclos desde seu começo. alguns deles também fizeram ocasiões. com apoio das comunida- e a meliponicultura. cada de experiências. escolar. des para abertura e manejo. com ótimos resultados. Desde o começo foram feitas roças e pomares sobretudo a piscicultura. Foram realizadas duas oficinas de manejo pécies nativas da Atriart (associação do alto Tiquié. de Instituto Iraquara. em julho e novembro de 2006. agroflorestal com pessoal do Acre (CPI e Amaiac). Alguns alunos dedicaram-se a essa ati. comunidade São Pedro 114 088a187_CORR_V1. que esteve na escola em duas ções de reprodução. obtendo bons resultados em algumas esta. nando Oliveira.

tiveram oportunidade de visitar outras comunida- oria e prática). Higino I Canoita Tiquié . Higino Pimentel Tenório e Guilherme Tenó. Tenório. Foi feita a transferência de povos de abelhas Intercâmbio através da Rede de Cooperação Al- capturados na floresta para as colmeias profissio. 2003 Dasia-basa. visitou o projeto de Forma. maio de 2005 cicultura da Atriart. de professores tuyuka com que fazem parte do ciclo anual. Atriart. EUA. especialmente aquelas maiores. Essa versidade americana na condição de ser usado atividade faz parte de um conjunto de iniciativas exclusivamente para pesquisa acadêmica sem que buscam uma maior integração entre as orga- fins econômicos. grupos indígenas do Acre (Ashaninka). CPI-AC e as experiências Ashaninka de manejo Acimet. Aatizot.Pirá Paraná. FGA. Aeitypp. Aloisio Cabalzar do ISA e Marlui Miranda da cional teve espaço destacado. 2003 safios para a sustentabilidade das comunidades. Pupunha. ISA.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS lhorar a frutificação das plantas do pomar da es. Esse foi o primeiro encontro entre associações 115 088a187_CORR_V1. Trabalho que começou com as Oficinas comunidade. dança do camarão) dos Tuyuka. Nutrição e Ges- trataram da biologia e manejo das abelhas. quenta caixas. A escola instalou um meliponário e chegou a mais de cin. O manejo tradi- rio. The Kenneth and Harle Montgo- mery Endowment. Aeity. I Canoita Tiquié (Brasil-Colômbia). Os O tema da oficina foram os benzimentos re- Tuyuka cederam 10% das cópias para esta uni. REGIÃO . Aconteceu uma rica discussão sobre a Trocas de experiências / intercâmbios ocupação desse rio. A oficina foi encerrada com uma dança (chamada Visita ao Acre. nizações indígenas do Tiquié. Aeitu. Esses povos formaram os povos matrizes do do Resende e José Barreto Ramos participaram do meliponário da escola. com apoio do Lalacs (Latin II Canoita Tiquié (Brasil-Colômbia). acompanhado de dois técnicos de pis. abaixo de Manaus. Os professores João Bosco Azeve- nais. des e conversar com assessores que desenvolvem Dois alunos da escola fizeram um estágio no atividades de manejo agroflorestal. o manejo ambiental e os de- Visita a Dartmouth College. ambiental. mas tão de Projetos). através da Rede de Cooperação da por um Bará. lacionados ao nascimento de uma criança. Pupunha. e decidiu-se que IHU viajaram aos Estados Unidos para terminar a seria aprofundado na próxima reunião. em ambos os países. Participantes: lideranças e representantes ção de Agentes Agroflorestais desenvolvido pela das associações Acaipi. sessores da Fundação Gaia e do ISA. 2003 cola. mas terminou com apoio de Dart. Também do Xingu (etapas de Antropologia. mouth College. Visita ao Xingu. Além da participação no curso. nificativa de representantes do alto Tiquié co- lombiano (onde foi realizado) e também do lado brasileiro. America. São Pedro.indd 115 5/31/12 2:43 AM . ternativa (RCA). Acep. uma das cerimônias de proteção Alternativa (RCA). março de 2006 gram. Latino and Caribbean Studies Pro. Contou com a participação de as- de Música. tendo como principal atividade a reprodução (te. O encon- edição e impressão do CD Música e Cerimônias tro foi encerrado com uma dança na maloca da Tuyuka. Portuguese and Spanish Department). O pro- fessor e coordenador da Escola Tuyuka. Infelizmente. fazendo novas capturas 17o curso de formação de professores indígenas de abelhas selvagens desnecessárias. Instituto Iraquara. ataques de formigas outubro de 2005 e abelhas ladras diminuíram esse quantidade Esse encontro contou com participação sig- para dez caixas. benzi- Intercâmbio. Oibi.

Pirá Paraná (Waiya). mais de 160 pessoas de 11 grupos étnicos. com traduções para povos indígenas de ambos os lados da fronteira tukano. Abril de 2008 Um grupo de 19 mulheres das etnias Tuyuka. professores e alunos de escolas indí- do rio Pirá Paraná. Mais de vinte lideranças chegaram lideranças. Nas reuniões se apresentam estratégias para a preservação da floresta tro. que cada um dos três países já ratificou) e ções indígenas e não indígenas) do Brasil. Edilúcia de Freitas. ambiental conjuntas. e o desenvolvimento conjunto de lado da fronteira. A iniciativa de Canoa oportunidades de apoio também a outros pro- se apoia na legislação vigente em cada país.Pirá Paraná. OIT. Co. na comunidade Barasana de San Miguel. A educação indígena e o mane- experiências e conhecimentos sobre educação jo ambiental estão entre as principais estratégias escolar. acom- zações indígenas do rio Tiquié fez uma viagem panhadas pelo coordenador do ensino médio de três semanas pelo rio Pirá Paraná. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA dos rios Tiquié (Brasil e Colômbia) e Pirá Paraná bros das etnias Tuyuka. Teve Aeity. as ações concretas de cooperação em curso pical primária. Atriart e Aatizot. entre (Colômbia). na Colôm. processos nessa região. e.e os desafios que os línguas foram ouvidas. Tukano e Desana. da Escola Tuyuka e pela antropóloga Melissa bia. de conhecimentos entre gerações. tro associações indígenas do rio Tiquié. III Canoita Tiquié . A cooperação prevê o intercâmbio de expe- solidação de territórios indígenas e de áreas riências que já vêm se desenvolvendo a cada protegidas. 116 088a187_CORR_V1. A ideia que motiva esse participação da secretária de Educação de São movimento de aproximação é a preocupação Gabriel da Cachoeira. e saúde. na Colômbia. manejo sustentável da floresta. cantos e danças. a partir das quais surgem e territorial.uma das mais concluído com a formatura da primeira turma preservadas do ponto de vista ambiental de de ensino fundamental da Escola Tuyuka. A partir das CANOA – COOPERAÇÃO E ALIANÇA NO NORTE E OESTE AMAZÔNICO Canoa é uma iniciativa que nasce em 2001. O grupo foi composto por mem. se identificam as prioridades governabilidade local e implementação de de cooperação. um texto comum (como a Convenção 169 da impulsionada por seis instituições (organiza. Março de 2006 Yebamasa. na semelhança dos processos que se desen- lômbia e Venezuela que conduzem ou apoiam volvem de um e do outro lado das fronteiras. a partir delas. como a transmissão noites havia grupos de dança animando a ma. Brasil ou Venezuela. realizou uma viagem para par- outro lado da fronteira e renovar os planos de ticipar de um encontro de mulheres indígenas cooperação e aliança entre os povos do noroes. gramas que cada organização está conduzin- nos acordos internacionais que representam do na Colômbia.indd 116 5/31/12 2:43 AM . públicas referentes à educação escolar indígena em ambos os países. No total estiveram presentes genas. Nove toda a bacia amazônica . Os participantes discutiram as políticas dígena e intercultural. português e espanhol. A iniciativa Canoa pode resultar em e culturalmente viáveis. projetos. e foi comum com o futuro da região . Todas as outras questões relevantes. O objetivo é a con. no rio te amazônico. representantes de qua- Um grupo de 20 representantes de organi. Houve troca de têm pela frente. pesquisa in- loca. estabelecendo-se agendas projetos produtivos sustentáveis. para visitar seis comunidades indígenas do Oliveira do ISA. II Canoita Tiquié . Bará e Tukano. Eles representaram as associações Aeitu.Pirá Paraná. manejo ambiental comuns de trabalho. políticas linguísticas.

Nesta linha. 9. cujo conteúdo reme- de sua formação nas oficinas de editoração com tia a discussões ou pesquisas: conteúdos pedagó- a designer Renata Alves.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS impressões registradas nessa viagem as alunas das três escolas participantes elaboraram o jornal Publicações bilíngue (tuyuka-tukano) Numiãye nirõ makañe Com apoio da assessoria. MEC Negro. manejo dos rios. 6. promovido pela Foirn (Federação das Or. 13 Kuu bém conhecidos como Taiwano). tos de Emílio Rezende. calendário ecológico e socioeconômico. relida e se tornou livro publicado. 15.Pirá Paraná. florestas e ou- Novembro de 2010 tros ambientes. Basare (I). Lixo e com- mação pelos Eduria e Tatuyo. compilação de artigos de jornal. Parte desses registros foi revista. Colômbia. 3. discussões de conceitos e proce- Foi realizado na maloca da comunidade de dimentos de pesquisa (português e tuyuka). 12. dentre outros. Abril de 2010 Mariya dita iñanunuse masire (Nossa Terra. Kiti wederira tuo- praticado no Pirá Paraná e sua associação com o hoarira. 10. registros de pesquisas conduzidas sobre ciências. MT. ao longo das gerações. por parte nas comunidades e escolas indígenas dentre eles: dos pesquisadores do Tiquié. Kiti (II). a partir caseiros sobre vários temas. 117 088a187_CORR_V1. jeto. matemática. propostas IV Canoita Tiquié . roças. Eduria (tam. carte com tradução para português. foram conhecimentos relacionados às pesquisas sobre editados vários fascículos para leitura e pesquisa calendário. Musaka Makuna do rio Pirá Paraná (Colômbia) visitaram o makañe poepa niretire masire. um encon. A gravação produção coletiva com ampla participação de aconteceu no estúdio da antiga Radiobrás em São moradores das comunidades. sos naturais. Barasana e wai kiti. Aeitu. especificamente sobre metodologias e tuyuka (sobretudo em tuyuka). Há também uma parte como assessor na capacitação de técnicos kayapó sobre a busca de renda e mercadorias em lugares de áudio realizada na aldeia Piaraçu. Basare (II). através da Som das Aldeias. 5. entre a comunidade de Serra de wederip / eñorip. uma ganizações Indígenas do Rio Negro). arte e cerimônias Tiquié. Corresponde aos Gabriel da Cachoeira. Weriwa V Canoita Tiquié . pequenos diagnósticos dos recur- João Fernandes. 7. postagem. Dia makara wai. Técnicos tuyuka de áudio participam da grava. Wdese bauanere: biroti mariyere wakututuaro tikoadaku. ya makã rio Tiquié (Brasil). 16. Ye weseri. e a fronteira Brasil/ Piscicultura Alto Tiquié. Mari dutire niero. em seu médio curso. 2.Pirá Paraná. capoeiras. 2001. Wimara kiti hoarira Austria makarare. Marcha dos 500 anos. tro entre pesquisadores indígenas desse rio e do técnicas. Keore.indd 117 5/31/12 2:43 AM . Foirn. Abrange temáticas como: Capacitação de técnicos kayapó de áudio. incluindo as mudanças em seu uso tunidade de atuar. teve a opor. 11. O Tiquié é considerado rota da transfor. Houve interesse especial. Hoeri makañe. Gravação do CD do II Festival de Música do Rio Negro. da Escola Tuyuka. 8. Conhecimentos para o manejo). Terra Indígena distantes. no ciclo ritual anual 1. Maio de 2008 de atividades. no alto Pirá Paraná (Colômbia). orientações às pesquisas temáticas. na fase inicial do Pro- wedemasiõripũ / Numiã nirõ kahse werekahseripurĩ. 17. 18. Foi publicado posteriormente um en- Kapoto-Jarina. ção do CD duplo do II Festival de Música do Rio ISA. 14. eram sistematicamente editados fascículos editado por uma aluna do ensino médio. Agosto de 2009 makañe. 4. Informativos do Projeto de Mucura. primeiros esforços das comunidades escreverem em sua própria língua. ou Hena. REGIÃO . 19. Masire – depoimen- Representantes dos povos Tatuyo. Ambiente e sociedade. gicos e científicos ocidentais ou de outros povos. Primeira publicação da Escola Tuyuka. literatura.

tos. Sua tradução mação . objetos. zimentos e entoações. Além disso. ben- sas matemáticas a partir de cinco oficinas assesso. acontecidos em correlacionar objetos de acordo com dimensões lugares conhecidos da região ou em rios distan. Mar- reverte os ganhos da venda da publicação à Asso. da maloca ou de um puçá. ISA. danças. festas. Pesquisar o desenho do trançado. Dartmouth uma introdução e anotações finais que explicam College. até instrumentos solo. ISA. e aos interessados na literatu. desconhe. ISA. Foirn. em tuyuka e em português. Dois anos depois foi publicada uma versão em Ordenar pelas formas. Niromakañe. Aeitu. re. espessura. alimentos. Trançados e no- Trata-se de uma coletânea de histórias conta. Apresenta atividades para os alu- rir e de assustar). como altura. Wiseri Makañe. ISA. Aeitu. ordenar ou casos de pescadores e caçadores. não-índios. Tuyuka. com matemática tuyuka). ta por histórias que sempre foram contadas para de que estudar matemática tuyuka é pesquisar a animar as crianças. Dartmouth College em Hanover. Aeitu. lui Miranda e Bruno Ruviaro (na edição digital ciação Escola Indígena Utapinopona Tuyuka. O livreto contém informa- É o primeiro trabalho de autoria individual. Foirn. Essa publicação. tes. voz. 118 12010-Parte2_C9a_AF5. Classificar. Esse trabalho foi resultado de três oficinas de tos da região. desde aquelas mais português foi divulgar o trabalho desenvolvido cerimoniais (os cantos dançados dos velhos) pelos povos indígenas do alto rio Negro ao públi. que gostam de ouvir. propriedades. hábitos. compos. valoriza a cultura tuyuka e Higino Tenório. Histórias de seres da floresta. nos e dicas para professores darem continuidade Outra produção coletiva em tuyuka. Utapinopona keore. Casa de Transfor- gia. 2005. com informações sobre sua ecolo. Estados Unidos. ISA. desde orquestrais co leigo. Construção da vassoura de cipó. cantos. New Hampshi- 2003. Foirn. es. passaram a escrever. Apesar de algu. o livro traz Tuyuka. Aeitu. e partir da construção da canoa. assim como narrativas de radas pelo físico Maurice Bazin e pela antropóloga origem e de transformação.indd 118 6/4/12 1:11 PM . simetrias. 2003. São incluídas 28 aves e 25 ani- mais de pêlo. etc. com inspiração maia. saiña hoa bauaneriputi é produto de uma pesquisa conduzida ao longo (Guia para continuar pesquisando a de cinco anos pelos Tuyuka do alto Tiquié. ambientes e aspec. Foirn. direções e orientações. crito e ilustrado por Gustavo Barbosa. Aeitu. junto com Aloisio Cabalzar. ções sobre os Tuyuka e sua música em tuyuka. Aeitu. visão e contextos em que se passam. invariâncias. costumes.Origem da vida ritual Utapinopona- ainda não foi publicada. Yebamasa português e inglês. base vinte. O livro adota um sistema numérico de mas serem assustadoras. as práticas. ções de regularidade. contar. comprimento. trabalharam conjuntamente na edição final de som e dos textos do livreto no Waikura wura (Bichos da terra e bichos do ar). Seu tema é a vida cerimonial. Foirn. a elas. Foirn. ISA. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA Kiti wederira tuohoarira (Histórias tuyuka de Flora Cabalzar. Cantos dançados cidos de crianças e adultos não-índios. alizar medições e contagens. O livro foi desenvolvido para pesquisa das coi. espécies. 2002. das depois fazem rir. padrões em hélice que aparecem na natureza. 2005. Re- português (ver abaixo). largura. Pela peculiaridade do humor. até músicas instrumentais. apoio dos antropólogos Aloisio e Flora Cabalzar. visitas. padrões de início dos diferentes ces- Histórias tuyuka de rir e assustar. o jeito como são conta. das em reuniões. Os tuyuka Guilherme e ra indígena. de uma barragem. e masterização). Utapinopona basamori. 2004. falante de tuyuka. Reforça a ideia de um guia para fazer coisas. A ideia da tradução do livro para o cantos e músicas tuyuka.

RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Beto Ricardo/ISA. 2009. lógico e socioeconômico tuyuka. a partir de diários mantidos história da chegada dos missionários católicos no por alunos do ensino médio. marcam certas estações do ano. A publicação é em rio Tiquié. astronômico. com informa- mental da Escola Tuyuka. 119 088a187_CORR_V1. manejo do lixo. ano no alto Tiquié. conheci. das constelações. a segunda é dedicada aos focando nos adornos cerimoniais e sua caixa.indd 119 5/31/12 2:43 AM . e que são exe- mentos sobre as plantas cultivadas. 2001 Objetos utilizados em aulas de matemática tuyuka. reúne os trabalhos de conclusão dos 20 alunos O tema é o calendário ritual. Esse é o primeiro número de uma série cha- Essa publicação. os conhecimentos sobre plantas homens. direitos indígenas. Alto Tiquié Butoa Masirere Mamara Tugeñare. Utapinopona Bueriwi Saiña Masire Buere. exclusivamente em tuyuka. mada Cadernos de Pesquisa (Saiña Masiripũ). Bureko Watotire. a origem das cutados numa festa com canto dançado dos cáries dentárias. desenvolvidas com os mais velhos foram: o modo A primeira parte contém narrativas de origem de ser e viver tuyuka. tuyuka. Os temas das pesquisas ções muito interessantes sobre o ciclo anual. Escola Tuyuka. a matemática tuyuka. eco- formados na primeira turma de ensino funda. benzimentos que constituem os rituais que lendário ecológico e econômico tuyuka. A última parte é a descrição de um medicinais. Aeitu. Foirn 2007. ISA. Wametire. Aeitu. a origem e vida cerimonial. o ca. Mec/UFMG. REGIÃO .

uma casa de apoio deira emprestado. ESCOLA INDÍGENA UTAPINOPONA TUYUKA Utapinoponaye/ Poseminia. foi quando enriquecidos com diversas frutíferas. Em 1998 ainda da cidade. ora na loja da missão. em São Gabriel nos seminários de consulta aproximação a essa realidade da educação escolar para formulação de uma proposta de ensino supe- na região. pe. ao campo de Anos depois da minha primeira visita aos futebol. fui me direcionando para línguas indígenas em São Gabriel da Cachoeira. um prédio da escola. Poucas pessoas falando o portu. atualmente. Dali. estas pesquisas referem-se aos pássaros que saros que oferecem penas para confecção de certos dão penas para compor a caixa de adornos. uma apoiar o assim chamado “componente Tuyuka” do parceria entre UFRJ. com um motor que a Cretiart – para receber pessoas de fora e servir de espaço atual Atriart . Trabalhos retomados Tukano sobre suas escolas. Foirn e ISA. A São Pedro velho no alto Tiquié. Viajamos com Higino. Atividades que Foirn. Roças que depois deram Tuyuka. começou minha 2005. Lá na lhe como aconteceram realmente os encontros e missão salesiana estavam mulheres batendo tape. através das longas conversas com Higi. Geraldino. os Tuyuka começaram a formar Guilherme Tenório. Muito além da ecologia desses O livro organiza pesquisas realizadas sobre os pás. a nova comunidade Mõpoea (São Pedro novo) no Justino Rezende e Manduzinho Lima a nossa famí- 120 088a187_CORR_V1. Ativida- de cerâmica importados. e durante etapas no Tenório e André Baniwa. No prelo adornos cerimoniais. como subsídio culdade de analisar com mais cuidado e em deta- para uma estruturação desse setor na Foirn. em menos tempo. nova comunidade com roças na porta das casas e lheres mais velhas. Roças que deram lugar a pomares guês. Em São Pedro. da nova comunidade contaram com apoio do umas vinte pessoas em um enorme bongo de ma. e comecei a adentrar no ISA e na Foirn Parece que o tempo passa rápido e batido. desencontros que compõem nossas relações de tes de tucum naquelas grandes salas de ladrilhos assessoria. ainda nas visitas de Higino. revisitei no alto Tiquié no contexto da formatura de cidos. da nova escola. várias construções trado. urucunzal para a criação de abelhas. início do Projeto de Educação. rior indígena entre 2009 e 2011. a noções VIVENDO E APRENDENDO F lora D ias C abalzar Costumamos dizer que o tempo passa rápido. recepções formais das mu.. e do exercício de re.indd 120 5/31/12 2:43 AM . No ano 2000. José Ramos. com a Escola Tuyuka no caso. com uma pequena pesquisa sobre a produção e Participamos de tantas atividades que temos difi- venda de artesanato na cidade. de campo da pesquisa da qual estou participando dação da primeira versão mais detalhada do pro. des de que participei diretamente.havia recebido de uma organização de pesquisas para a escola. Mapeamento dos usos e vitalidade das jeto para OD/RFN. Era então uma bela e italiana. a setores de mais aprendi. ao meliponário. projeto. Finada dona Anita de Ta. pensando também com os médios na cidade.. e a todas as famílias. Nazareno e sua mãe. pássaros. em 1994. por quatro abertura dessa comunidade nova coincidiu com o meses durante sua pesquisa de campo de mes. escolas que oferecem ensinos Projeto de Educação. Vicente Vilas Boas Azevedo. na outra margem cerca de um quilô- Faz quase vinte anos que acompanhei Aloisio até metro rio acima além da boca do igarapé Umari. alto Tiquié. ou com outros conhe. trabalhando no racuá vendendo sua cerâmica pela cidade. essa língua. Era 1997. ora na projeto no período de 1998 a 2004. Ensaiei muito o tuyuka na época. lugar à nova maloca. Aloisio e eu fomos morar em São Gabriel.

das cores dos adornos. REGIÃO . como e básico. agentes pedagógicos indígenas. Uma foi a de jetos presentes e futuros. lativo. envolvem saúde. contabilizando uma Os debates em curso sobre ensino superior indí. Universidade de São Paulo (USP) entre 2005 e 2010. çar mais respeito às diferenças . discutimos a dissertação de Justino. Durante o dou- o Lago de Leite no Rio de Janeiro. distantes dessas pessoas. Quando o diá. em pro- periências profundas de aprendizado. diálogo harmonioso entre duas culturas desde que com os brancos e suas instituições. lia em casa. ficas dos brancos. Guilher- nível. vai ser preciso ainda sedimentar uma política me Tenório e Adão Barbosa seguem confabulan- de respeito e reconhecimento como tal”. teios e cobertura da casa. viagem de canoa a remo que ainda farão. como diz Higino Tenório. minhas conhecimentos e saberes indígenas. nas escolas e fora delas. é “sequela da coloni. caapi e enxergam a casa como pose.de maior oti- tradicionais indígenas e científico ocidental. únicas viagens de barco no trecho Manaus – São logo entre as duas culturas chegar a ser do mesmo Gabriel – Manaus. sequela das próprias instituições acadêmi. mas um tipo de narrativa sobre como uma mulher. conhecimento – do cotidiano das pessoas com e de projetos. posetiba). respondendo aos novos anseios dos jovens saberes dos mais velhos. tindo em repensar nas formas de diálogo. Mas o tempo seguirá passando e nós. quanto alguém percorre. antropóloga. alcan. que escrevi um texto de difícil leitura. referentes aos rituais: os adornos mente sabem . Desde aquela época ele. gestores antropologia . Haverá mismo -. ca. Enxergam es- com sentido ainda maior quando aqueles que real. educação e pesquisa -.indd 121 5/31/12 2:43 AM . haja mudança na visão de diferença em relação aos Eu fiz em 1994 e sem pressa. O quando. de acervos de documentação. branca. em curso há 100 anos mas com novas ênfa. A coragem e desejo de mergulhar quem convivi ao longo dessa trajetória. planejando.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS contextualizadas. a busca por maior seguran. começa a se aproximar dos dem. segundo referências sim como os processos de educação escolar no nível do manejo indígena do mundo. é re- ses e aceleradas mudanças nos últimos quinze anos. territorialidade. tomam (mapoa) e a caixa de adornos (mapoatiba. nos bons momentos . as. persis- Depois que saí do ISA em 2004. subindo gena na região trazem novas questões e desafios. torado que fiz no Departamento de Antropologia da As comunidades lutam por viver melhor. professores e alunos.nas relações que escrevi um trabalho que não é um texto concluído.hierarquia. tuyuka sabem que eles precisam para viver bem nos ça alimentar. leitor e acadêmico indígena tuyuka Justino dizia que cas do País que ainda continuam com programas estava claro e fácil de ler. após um período de olhar pose. os educacionais incompatíveis para a valorização do Tuyuka que vivem e zelam pelo alto Tiquié sempre diálogo consistente entre esses conhecimentos nos receberam. ou naqueles de mais cansaço das relações. passei por duas ex. zindo mais alimentos ou mais riquezas de toda or. produ. 121 088a187_CORR_V1. e em quanto tempo. climática e territorial.os cantores e dançadores -. do. enquanto meu dental. onomásti- de conhecimentos. em Joanópolis: quando organizamos ser mãe. dependem em dias de hoje: o que é diferente de tentar entender grande parte da superação do pessimismo cultural a vida tuyuka de hoje a partir de categorias cientí- que. visitamos maior à escola.. do que os nos próprios saberes. Outra a de me aproximar do conhecimento o livro Keore. Finado André Martini dizia e dos novos profissionais: agentes indígenas de que é uma tentativa de aproximar os conceitos da manejo. revisamos a tradução do livro Minia dos mais velhos Tuyuka. de Manaus para o alto Tiquié.. com Aloisio. imaginando. Escutei zação e opressão que deram sentido pessimista às professores e colegas acadêmicos brancos dizerem pessoas depois do contato com a sociedade oci. Assim como Justino.

deslocavam-se em práticas. pesca e para indígena. práticas educativas da Escola Tuyuka. Este artigo vai favorecer ainda aos que pos. tos de vida originam-se dos seus próprios seres cimentos da tradicional educação tuyuka. cujos ato- da recém-criada Escola Tuyuka (1999). irmãos maiores permitiam a saída de alguns gru- cativas. o artigo apresenta ainda uma breve análise em práticas culturais para se adequarem às exi- das perspectivas atuais e de futuro da escola dos gências das diferentes realidades que os envolvem utapinopona. A educação está muito ligada à existência de Ofereço ao leitor as novidades de uma prática pessoas e à construção de sua história que. devido ao aumento populacional ou quan- não conhecem as práticas educativas de uma do surgiam dificuldades materiais para atender 122 088a187_CORR_V1. do leste e do oeste. Passam de estágios de espíritos (AM). poderá contribuir para elaborarem desenvolverem os trabalhos. discursos mitológicos. J ustino S armento R ezende Este texto descreve as práticas pedagógicas escola indígena que não é uma ficção. sabedorias. Para os gestores de educação escolar busca de melhores áreas para caça. Escola Indígena Modos tuyuka de educar Municipal Utapinopona Tuyuka e a Construção da Identidade Tuyuka. defendida no início de 2007. cantos-danças. Seus proje- do texto são: a) autor tuyuka com alguns conhe. e poente. os conteúdos trabalhados no terceiro capítulo da minha dissertação de mestrado. distrito de Pari-Cacho. remonta ao surgimento e emergência da Ca- nopona) do alto rio Tiquié. fundar nas mudanças acontecidas a partir dessa Ao longo de suas histórias. Algumas vezes. no município de São Gabriel da Cachoeira de Transformação. os Tuyuka constro- data. Sem apro. b) as divinos criadores. do patamar de cima ao de baixo. ben- pesquisas elaboradas pelo autor (2006) sobre as zimentos. vidos no processo de construção dessa Escola. do sol nascente Para os Tuyuka e outros profissionais envol. do seu lugar de vida: patamar onde nós pisamos o texto possibilitará voltar o olhar às origens da e vivemos. na re- educativa escolar assumida pelos Tuyuka (Utapi. Os recursos utilizados para a elaboração para se tornarem pessoas (materiais). Deles ganham sua língua. ritos.indd 122 5/31/12 2:43 AM . gião. os suas próprias reflexões sobre suas práticas edu. E principalmente. escola.2 NOVIDADES NA PRÁTICA EDUCATIVA ESCOLAR TUYUKA P e . noa de Transformação e seu percurso pelas Casas eira. resumindo res principais são os Tuyuka. elaborar novas reflexões e criar novas Durante vários séculos.

mas não trato aqui do modelo de educação dos coleta de frutas. Sua história Atualmente. desde o momento anterior ao nascimento até o No início. Contaram com a participação suas próprias filosofias. mais do significado de ter uma escola própria cia. na recepção de visitas e internatos salesianos que existiram até os anos despedidas. Trata-se de A educação escolar tuyuka uma filosofia de escola. des na compreensão dos significados da escola rituais de iniciação. antropologias. amamentação. época de começar a fazer roças. capacitam e qualifi. de caça. ram em construir essa escola. Mas depois se aventura- todo o ciclo da vida humana. ainda estão vivos e mantêm o ideal dos primei- 123 088a187_CORR_V1. A Escola Tuyuka é bem recente.indd 123 5/31/12 2:43 AM . Outras vezes se dividiam pensaram em uma escola que fosse deles. localizada dentro de eram comuns. teorias. 2011 Pe. quando se trata da Escola Tuyuka. plantar. Esse modelo de educação funciona 1980 na região. o apoio de pessoas que conheciam um pouco cam pessoas para viver bem na história da existên. insetos. dos moradores das comunidades tuyuka e com logias. piracema. teo. acompanhamento para o indígena. Educam. Eles Os modos de educar foram criados em meio à não inventaram essa escola do nada ou de uma dinâmica histórica e humana. Justino Sarmento Rezende com qualidade a todos. de chuva. pedagogias. amadurecimento da pessoa.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Beto Ricardo/ISA. de modelo ocidental desde a década de 1940. Seus fundadores os Tuyuka pensaram em construir essa escola. alimentação. Quando pouco mais de uma década. seus territórios (comunidades) tradicionais. os Tuyuka sentiram muitas dificulda- nascimento. A educação. não se está falando das construções materiais. Educação durante medos e inseguranças. estrelar. banho. a Escola Tuyuka está com um inicia-se no final da década de 1990. acontecendo no dia a dia e nas e seus desafios. Segundo aquilo que vi. REGIÃO . verão. segue calendários es. que os Tuyuka já tinham contato com a escola pecíficos: lunar. fundamentados em hora para outra. É importante dizer também festas rituais ou cerimoniais. pas- pelos desentendimentos e brigas internas. que sasse a ser dirigida por eles. dúvidas. houve resistência das pessoas.

indd 124 5/31/12 2:43 AM . Estavam todos motivados para atin- dos a lecionar no modelo ocidental ressentiram gir as metas estabelecidas. escola e fortaleceram uma matriz tuyuka. Criaram um currículo rança frente a outros povos. so educativo. fácil. cas culturais. professores. e os autores não esperaram tudo pronto para co- nham assimilado ou tenham acesso pelo diálo. des- confianças. eles foram organizando novas maneiras de gerir a conhecimentos especializados. anos de duração. o que significava uma muito. Essa idéia de projeto comunitário é muito im- benzedores. ao espírito que animou a construção momento para incentivar a valorização das práti- desse modelo de escola. Posteriormente veio a formação (oficinas) com di- peramos que os ex-alunos dessa Escola. e organizaram o ensino em ciclos de dois das causas e interesses de diferentes sociedades. Es. te. temporalidades. etc. calendários. hierarquias. da língua tuyuka nos ciclos iniciais da escola e o cacional própria. e dizia-me um pai realização pessoal e comunitária. mães. avós. A Escola Tuyuka foi se fazendo como novos professores que têm chegado. entre projetos familiares. Essas formações e a experiência acumulada fo- Escola Tuyuka como projeto comunitário ram fortalecendo o professor com um perfil ade- Essa escola tinha que ser das comunidades quado para aquele tipo de escola. soas de comunidades envolvidas no novo proces- No início da escola. Aqui. A escola como tuyuka. Os Tuyuka estabeleceram relações estreitas moradores das comunidades têm estado envolvi. a períodos pação comunitária. Não deveria ficar apenas no campo discur. etc. organização indígena. os professores acostuma.NOVIDADES NA PRÁTICA EDUCATIVA ros momentos bem vivo em suas mentes. abrindo Os Tuyuka criaram e assumiram objetivos im- perspectivas mais positivas: “vai dar certo!”. carem com seu povo se posicionarem com segu- ca e uma pedagogia própria. para ficar em casa aprendendo com a família e Os objetivos eram assumidos por todas as pes- comunidade. Nesses momentos foi também im- portante a presença de um líder que permitisse e Aonde chegar com a Escola Tuyuka facilitasse a compreensão das realidades. Eles sentiram muitos medos. como a utilização exclusivamente As comunidades assumiram uma política edu. a escola despertou nas conteúdos? O que vamos ensinar primeiro? Essas crianças e nos jovens a capacidade de se identifi- perguntas e respostas ajudaram a criar uma políti. do poder tuyuka de construir aquilo que queriam para seus filhos. intercalando o tempo passado buscaram soluções de problemas com a partici- na escola estudando e pesquisando. ESCOLA TUYUKA . teoria do conhecimento tuyuka – do kumu. avôs. um dia pode desaparecer. projeto comunitário é uma construção gradual e sivo e na escrita de documentos. dos e engajados nos trabalhos de educação esco. O papel da assessoria foi importante nesse go interno. pois O trabalho assumido pelos Tuyuka nunca foi se assim for. favorecendo a nossos filhos? O que nós queremos aprender? permanência das populações em seus territórios Como vamos ensinar? Onde vamos conseguir os de ocupação tradicional. todos os flexível. portante para aqueles que quiserem construir lideranças. baya. dúvidas. a capacidade de diá- orientado por pesquisas temáticas e não por dis. compromissos. assim versos profissionais. a corresponsabilidade na transmissão de saberes. comunitários e escolares. Era bem visível de aluno que eles ficavam tristes e desanimados. cantadores/dançadores. logo tendo como fundamentos o conhecimento ciplinas. administradores. Realizaram constantes negociações (diálogo) de lar e no funcionamento de um projeto que coloca espaços. Foi assim que em ação a utilização da língua tuyuka. de uma pessoa indígena e de algum assessor. 124 088a187_CORR_V1. uma escola indígena: ela não pode ser um ideal pais. O que vamos ensinar para os fortalecimento das comunidades. meçar. sentiam-se inseguros. portantes.

assessores. assumindo uma ideia nova. ilustravam-nos a partir Para os Tuyuka. comunicavam ao sábio com quem realizariam sem disciplinas vinha garantir a percepção políti. pais. Ela foi sendo pensa. nha que surgir dessa forma diferente. gerando políticas públicas governamentais. grupo facilitavam para que houvesse mais com- -se para dentro da cultura tuyuka e se isolar dos preensão do tema. não trabalhavam com cópias nem tradução de textos prontos. de cima para baixo. projetos de piscicultura. pronto. Onde pesquisar é aprender. talecimento das identidades. restal. bem aos alunos e professores. REGIÃO . conteúdos e modos próprios da. transmitir. Alunos e professores escre- povos de entorno. de que a Escola ti. e era muito No meu mestrado percebi que a pesquisa na importante para a vida tuyuka. Eles sabiam que tinham que viam como estavam entendendo o que ouviram estar abertos para a aprendizagem de valores de do sábio. No momento inicial. temida. comprometida dentro das famílias e comunidades. Os pro- fessores e alunos aprendiam pesquisando e pro- Pensamentos sobre o currículo duzindo os primeiros materiais didáticos e litera- A Escola Tuyuka não surgiu como um pacote tura em língua tuyuka. eles estavam realizando ações com Escola todos são pesquisadores: alunos.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS a participação em ações para melhorar as comu. manejo agroflo. sociali- outras culturas. referentes ao tema escolhido. 5) No momento pós-pesquisa. reci.. como uma metodologia de debate. formas de transmissão de conhecimentos Trabalhando de forma organizada. zavam entre eles e reescreviam. cionais. Aqui a pesquisa é entendida dos durante as narrativas. duvidada. pro- alcance também fora das comunidades tuyuka. decidida. continu. Começavam a or. análises. professores e sá- cultura escolar. por isso o currículo vam um questionário com temas de grande inte- escolar tinha que ser algo modificável. Ali também organizava suas ideias para transmitir estavam contemplados temas importantes (fun. Deste modo os Tuyuka estavam bio. repetir. professores. manejo de peixes. alunos mais crescidos pesquisavam conversando mida e construída por todos os membros das com os sábios. revendo e de pesquisa tinha que estar relacionado ao pro- avaliando as ações realizadas. alunos. etc. Vejam os passos que eu sintetizei: 1) Prepara- de ensinar-aprender-viver. 6) Depois de terem elabo- Ensinar e aprender pesquisando rado e aprovado os textos. mitologias. lideranças. registravam e aprofundavam pes- comunidades envolvidas. resse dos alunos. professores e famílias. de alunos. Nesse tipo de e dinâmica. onde poderiam fortale. a pesquisa no dia seguinte.indd 125 5/31/12 2:43 AM . Mas isso não significou fechar. Quando sentiam algumas dificuldades e tinham dúvidas voltavam a perguntar ao sábio. 2) O tema amente discutido pelas comunidades. 7) As pesquisas eram 125 088a187_CORR_V1. assu. detalhamentos. conteúdos do processo ensino-aprendizagem-vi- clagem. 4) A pesquisa era damentais: nirõmakañe) da cultura tuyuka e da uma ação conjunta. vência. escola acontecia de forma muito bem organiza- ganizar conceitos. rejeitada. que transmitia os saberes e conhecimentos abrindo novos caminhos. Feitas a partir de perguntas desafiadoras. Os Tuyuka estavam quisas temáticas como cerimônias. reavaliar. os da. de paisagens.. As pesquisas em cer suas culturas. e propondo ações cesso de recuperação das práticas culturais e for- para etapas seguintes. interpretar. As ações eram bem coordenadas entre as pesquisas também valorizam pedagogias tradi- pais. são vários os temas de base para daquilo que ouviam e de como imaginavam as investigações. personagens míticas e os lugares que eram cita- questionamentos. que gera os nidades e sua autosustentabilidade: limpeza. discussão. fessores. etc. Deste modo o sábio ca do que se estava ensinando e aprendendo. 3) Antecipadamen- O currículo baseado em pesquisas temáticas e te. renovar.

geradoras de os moradores das comunidades. passava pelas três comunida. alunos dessas três co. juntos os conhecimentos que ajudavam à conti- res. alunos e professores Organizando os conhecimentos e se reuniam. Os Tuyuka acreditam que se os alunos estão em de forma rotativa. esta- Organizando as práticas riam aprendendo como trabalhar. antiga São Pedro). alunos e profes. conhecimentos e habilidades para viver e traba- sores. processo de aprendizagem contínua nunca deve des. em reunião com a participação de todos de pesquisas de temas importantes. sa Senhora de Assunção). 8) Os resultados dos trabalhos nuidade da vida humana e seus trabalhos. e cada edição mais local ou livros. os pais e a comunidade. todos ajudam a sair junto às famílias. pesquisas vol- complementavam com outros saberes um tema tadas para o fortalecimento da identidade tuyuka 126 088a187_CORR_V1. ESCOLA TUYUKA . mães. existir a reprovação do aluno. Cada módulo de aulas durava 15 dias aproxi. porém com O Parecer Descritivo foi adotado e utilizado salas de aula ou salas de extensão localizadas nes. velhos. sábios. Desse modo construíam moradores. Cachoeira Comprida (Escola Yukuro. em que os participantes perguntavam e lhar para construir uma vida melhor. professo. a primeira etapa do ensino fundamental: sua aplicação na vida pessoal e vida coletiva. pais e membros da comu- nos estudam na própria comunidade de origem. cada aluno pesquisava um tema da área de dificuldades. Os pais. numa das comunidades. antiga Nos. como conviver educativas em ciclos e módulos e como organizar a vida. já que os alunos. alunos etc. antiga Santa Teresinha) e Mõpoea Parecer descritivo (Escola Poani. É uma Em cada sala ou cada comunidade funciona. de seu interesse. participando destes momentos. professores e demais funcionar na Escola Tuyuka. 1º e 2º ciclos. comunidade poderia interromper as aulas quan- do tivesse festas ou trabalhos comunitários. que estavam co- meçando a formar uma única escola.NOVIDADES NA PRÁTICA EDUCATIVA apresentadas na comunidade. até hoje. A superação e a ul- madamente. Os alunos peque. ajudava os professores. em que aspectos da vida precisa dar de 3º ciclo (5ª e 6ª séries ou 6º-7º anos) começou a mais atenção e como os pais. como o aluno está aprendendo os conhecimentos Quando em meados de 2002. quando cada comunidade Tuyuka promoveu foi a reunião das comunidades poderia organizar atividades conforme seus inte- tuyuka de Onça-Igarapé (Escola Bua. e também no final de cada módulo letivo. feitos pela Escola Tuyuka se tornam fascículos de O calendário escolar não era unificado. cesso de ensino-aprendizagem-vivência. pais. Durante essa permanência professores e o próprio aluno. nidade a registrarem o processo de aprendizagem: permanecendo junto aos familiares. membros da comunidade poderiam ajudá-lo. era a apresentação das pesquisas realizadas pelos Os Tuyuka organizaram os conteúdos a partir alunos. resses e organização social. Participavam os pesquisado pelos alunos. A primeira atividade importante no sua transmissão início.indd 126 5/31/12 2:43 AM . No começo de outro módulo. a primeira turma transmitidos. avaliação qualitativa da assimilação de saberes. Também mantinha pausa Um dos trabalhos importantes que a Escola nos finais de semana. como instrumento de acompanhamento do pro- sas diferentes localidades. correspondentes a 1º-3º e 4º-5º anos A utilização de uma ficha de acompanhamento (antiga alfabetização à 4ª série). Nos outros trapassagem das dificuldades acontecem duran- 15 dias. eles voltavam para suas comunidades de te os 16 módulos previstos em cada ciclo de dois origem para continuar a aprendizagem junto aos anos. numa outra comunidade. munidades se juntaram numa mesma turma que. os membros das comunidades.

ritmos.. Nesse sentido. valores. os conceitos matemáticos e mantêm contatos com outros povos indígenas e tecnológicos. pinturas. da humanidade. conhecimentos períodos de realização dessa escola: 1) Revitaliza- sobre os trabalhos de confecção de artesanatos. 2) Recuperação e forta- Os Tuyuka privilegiaram o estudo e ensino em lecimento das práticas culturais. escre- cultivo das roças. Falando (gostar de ser Tuyuka). ver e ler. mas as compreendem bem. escrevendo e lendo na língua tuyuka. professores e moradores das comunidades expres- no. Barasana. não indígenas. porque a pesquisa científica. Aqui Mudanças provocadas na fase inicial estudaram a geografia e histórias da região dos Tuyuka. Os alunos conta- língua tuyuka (alfabetização. que aprendem. culturas e seu modo de ser. estavam vivendo numa nova etapa da vida.) foi fruto de muita insistência dos ção e se incentivou seu maior uso no cotidiano. Vi que seria bom formar pessoas monolíngues. gestores da Escola. assembleias. adminis- mérico de notação originário de povos indígenas tração econômica. um povo que possui riquezas..indd 127 5/31/12 2:43 AM . mas apenas em atividades esporádicas. elaboração e compreensão de como os Maya. REGIÃO . Como educadores cabulários. já nos primeiros gias. trabalharam com as. do cantos e danças rituais. o assumiram. leitura e escrita). Yebamasa. Agora os professores não são apenas camente. culturais e saberes que não vinham mais sendo cia. Outros temas permitiriam que as projetos de trabalho. que podem até não con. Tukano. gação de recuperar e aprender muitas práticas das e escrevendo a língua tuyuka com certa fluên. mas o povo todo. Mas depois que superaram os A aprendizagem na própria língua favoreceria o preconceitos com relação à própria cultura e a domínio de conhecimentos de diversas áreas. portante compreender outras línguas da região: No momento de minha pesquisa os alunos. Na escrita.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS e para diferenciarem-se de outros povos. da língua da escola. crianças e jovens explorassem conceitos de tem- po e espaço importantes para os Tuyuka. desenvolvendo diversos 127 088a187_CORR_V1. A apren. só deveria ser introduzida de uma nova geração tuyuka. com projetos comunitários. Passaram de uma situação de vergonha de falar a própria língua para o domínio da língua. falan- dizagem de outras línguas indígenas faz parte da do. etc. se sentiram na obri- quando as crianças já estivessem bem alfabetiza. vam que a aceitação das práticas culturais (danças. e expressão de sa. seguir falar as línguas de povos vizinhos ou mais bém visava permitir às crianças e jovens explorar distantes. estavam se tornando fortes. autoestima beres na escrita. nasceu neles o sentimento forte de entendimento. sendo incentivada na prática Os professores também passaram por um pro- de diálogos e introdução gradual de novos vo. Nessas áreas. a língua portuguesa sessores para adaptar o ensino à língua tuyuka e favorece a comunicação com o entorno regional acabaram por assumir o sistema matemático e nu. mitolo. pratican- formação das pessoas. reuniões. narrativas de cantos-danças. Vejo que para os habitantes desta região não savam o sentimento de realização e alegria. Aprenderam muitas histórias importantes Muitas mudanças aconteceram com o proces- sobre a origem da vida. Não apenas os alunos A língua portuguesa foi colocada como segun. a comunicação. Tam. so educativo da Escola Tuyuka. fundo processo de mudança. 3) Surgiram homens e mu- sua língua. Definiu-se a língua tuyuka como língua de instru. sentindo-se orgulhosos como falantes e seguros Política linguística no espaço escolar diante dos outros povos. os Tuyuka mostravam cada vez mais lheres comprometidos com suas vidas. na leitura ou oralmente. A língua tukano não seria adotada sistemati. durante viagens. português. ensinados. ção e fortalecimento da língua tuyuka: falar. castelha. aqueles que ensinam. mas também são pessoas Segundo me contaram em entrevistas. é im.

não sozinho. cipalmente aos velhos e às velhas. velho) que conhece. le que ensina aos meninos/meninas. até chegar ao nível de maturidade maior. Wimarã Masire: conhecimentos das política nova. Butoa buere: conhecimentos que os velhos/velhas bukuatuhare. (menina. podem/devem ensinar-aprender. experientes. buego. jo. De fato. Quando os velhos 128 088a187_CORR_V1. que o que eu pensei está saindo corretamente. transmitir. jovem. aprendizagem e ma- nhecimentos para serem ensinados-aprendidos. cantos. mete ao processo de crescimento (masculino e fe- nos e meninas) podem/devem ensinar-aprender. wede masirã: os que sabem falar. um orientador e acompanhante da vida dos estu- ária com seus próprios parentes para fortalecer os dantes. conhecedores. o professor era visto como como Higino Tenório (Poani). Masigũ: aquele (menino. Alunos e professores têm que convi- vem. com identidade étnica for- mais velhas. benzimentos. reconhecidos) é uma e mulheres). tornando-se aluno do sábio informante. o processo de crescimento. resultados só poderiam trazer alegria e muita espe. Assim rança. é senti- mento de que acertamos e fico feliz. mulher.indd 128 5/31/12 2:43 AM . junto com seus alunos. Essa interação entre os sábios (não letrados) e os toa masire: conhecimentos dos velhos (homens agentes escolares (formados. Prin- ensinar-aprender. ESCOLA TUYUKA . discursar. Wimarã Para uma escola que queira revitalizar práti- buego: aquela que ensina aos meninos/meninas. os alunos entrevistados con- vos do entorno. chamados masi- todos seremos fortes.NOVIDADES NA PRÁTICA EDUCATIVA projetos de trabalho de autosustentabilidade e Para além do conceito wimarã buegu e wiamarã influenciando nos projetos de vida de outros po. homem. 2006. bukuo: velha) ou anciãos (ve- na universidade. Wimarã buegu: aque. Deixei pensamen- Como os mais velhos tos (recordações) para os meus parentes. A categoria bukuare re- wimara buere: conhecimentos que crianças (meni. ele também era compreendido por organizações não governamentais e dos poderes eles como um aprendiz. sabem ouvir. históricos. porque ra tuyuka está intimamente ligado às categorias muitos estão estudando aqui. velha) que conhece. outros estão estudando butoa (buku: velho. posteriormente. adultos e adultas). ir onde os velhos/velhas estão é importante e velhos e às velhas. O processo do ensinar e do aprender na cultu- dades. Masigõ: aquela ver mais de perto com eles. compreender. turidade de uma pessoa. Estes e outros conceitos indicam referir àquele que ensina e aprende são buere: co. cum- Como compreender a figura do professor primentar. correndo atrás de recursos e apoio de seus alunos. pois a escola de modelo ocidental crianças (meninos. meninas e jovens). pade masirã: aqueles que Alguns conceitos tuyuka aproximados para se sabem trabalhar. Nesse contexto. para uma pessoa taram que. danças. não contava com esses sábios. Seremos mais fortes. cerimoniais. Nesse processo de acompanhamento aos trabalhos. minino). tuo masirã: que sabem entender. É necessário ir fortalecendo os ideais.. que iniciou a luta di. professor(a). saberes aquela que ensina/aprende. (Tenório et al. Numia buere: O processo de wede masiore (explicar/comu- conhecimentos que as mulheres podem/devem nicar. esclarecer/revelar) cabe aos adultos. que detêm os Buegu: aquele que aprende/ensina. mas com a ajuda dos meus colegas professores e com a ajuda das comuni. para pesquisar muitas realidades e conhecimen- gógicas de uma Escola Tuyuka diferenciada. lhos e velhas. usar a língua própria e se fortalecer Butoa buegu: aquele que ensina aos mais velhos/ como povo específico. cas culturais. Bu . Butoa buego: aquela que ensina aos te. técnicas de trabalho. Buego: saberes étnicos. ele também saía públicos para o reconhecimento das práticas peda. 150-151) rã: sábios. para eles. estratégico. Ele assim me disse na entrevista: estou vendo professores e alunos cresciam juntos. Acertei em participam na escola trabalhar com isso. esses tos que ele não conhecia. p.

comunidade. sítio. comunidade. boa convivência dos alunos e os incentivavam Sua presença fortalece as pessoas e a escola. E que Os moradores assumiram e se empenharem sempre ajudavam. dades tuyuka do alto rio Tiquié não conheciam o tegorias makã: aldeia. os moradores de Mõpoea (São Pedro). desa- a presença destes mestres de cantos. makã makarã: habi. organizaram- como comunidade.. zimentos. também se fortalecendo. todos se beneficiaram. na ensinamento. todos participavam do processo de ensino-aprendizagem. que as mães são educadoras. -se formas de favorecer o entrosamento entre alu- Dentro da categoria makã. aprendendo a respeitar uma comunidade. fale- entre estudantes ceram. Ape makã: Tuyuka quando íamos para festas ou para estudar outra comunidade. sana e Bará tura tuyuka. Infelizmente muitos Convivência e relacionamentos velhos que estavam vivos no início da escola. Ajudavam aprendizagem de saberes étnicos. Com esta ma. pessoal de Yaiñiriya (Assunção). nava algo diferente para os alunos e professores. líderes e os moradores de a acolher e ser acolhido. os Tuyuka formam suas famílias lítica interna das comunidades tuyuka. povoado. cava na sua comunidade. processo de ensino. Se alguém não se inte. moradores de uma comunidade. Bara- A acolhida aos visitantes é importante na cul. Yebamasa. ben. nhapira. las com farinha. Barasana.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS morrem. está in. marĩya makã: nossa comuni. nimado ou desistisse dos estudos. os acom- sença dos velhos conhecedores. na manutenção material deles (beiju. nos de diferentes comunidades.indd 129 5/31/12 2:43 AM ..). com mulheres das etnias Tukano. Sem para que ninguém se sentisse desmotivado. aprendizagem e vivência. bem tudo o que se refere à cultura tuyuka. teria sido muito difícil a Escola Tuyuka surgir e se erguer com força. Só conhecíamos de maneira distante os outros makarã: originários das comunidades. Antes da Escola Comunidades envolvidas Tuyuka. beiju e quinhapira. mas vinha se enfraquecendo com o Mulheres ou mães influenciam fortemente e surgimento do individualismo. Hupda) é intensa e forta- lece o trabalho da Escola Tuyuka. professoras e con- fessores. Para evitar isso. As comunidades ajudavam no processo de professores e alunos afirmaram nas entrevistas ensino-aprendizagem-vivência dos alunos e pro. Foi uma po.. ressasse pelas atividades escolares tuyuka. em Pari-Cachoeira (o autor deste texto viveu a in- dade. Não conversavam entre tantes. acolhendo os alunos de três sa- em ajudar os alunos desde sua acolhida na che. pois cada qual fi- morada de muitas pessoas. REGIÃO . Com esse processo de diversas maneiras a educação dos filhos. makarĩ si. Com certeza. Os res. se trata da Escola Tuyuka como espaço escolar e Por intermédio da Escola Tuyuka. danças. no processo escolar Yoariwa (Cachoeira Comprida) e outras comuni- Para falar da comunidade são utilizadas as ca. Que elas incentivam os filhos a aprender neira de trabalhar. 129 088a187_CORR_V1. Estas categorias estão presentes quando fância em Yaiñiriya).. A convivência entre os alunos (Tuyuka. ou o escolar os Tuyuka puderam revitalizar esses valo. Tukano. Cada comunidade ensi- ritmo de trabalho da escola. estaria se opondo ao projeto comunitário assumido por três As mães no processo escolar tuyuka comunidades. farinha. sem eles os mais jovens tra- çarão novos projetos educativos. selheiras. Nesta região. qui- Os jovens entrevistados afirmavam que a pre. já é um panhavam no bom andamento dos trabalhos. a escolher temas de estudos. tudo fica mais difícil para os projetos de gada às comunidades até sua partida. Yeba- masa. Todos eles se envolveram com o e valorizar as diferenças. Todos aprendem cluído makã makarã: pais. São livros que precisam ser lidos. sábios.

principal- disso eu penso assim: nós mostramos nossos tra. Al- marĩpe tuomasiridoharã nihãya kuãha. começam a exercer seus papéis de benzedores. Ficou um newaya kuahã topure. Iñate mu. com seus benzimentos e Biro ti padeya muakã hĩ iñori basoka nihawu rituais de apaziguamento. tutuari basoka. usã buri. o aprimo- añuro tira tiya kuã wedebatere. ramento das práticas educativas e a responsabi- "Nós estamos servindo como referência de tra. Antes eles di- dia do caxiri e no dia do trabalho. não-índios. Desde o início. usã ano padere. 2006. gestão e balho para os outros nesse campo da educação produção de saberes. etc. ajuda também na educação escolar de seus filhos Mas agora. eles estão apoian- suas filhas e meninas estudantes os saberes femi. Masĩmiyara kuã. vendo o que nós fazemos. espalhando e filhas. p. a es- trabalhamos já está indo para o Pirá Paraná (Co. hĩapureno niku. limpar. Está todos os ziam que éramos pessoas sem sentimentos. usã masĩrigere biro biriro niwu usãkar†. ñaña niya guns assessores se identificaram muito com os kuãha masire mora niya kuãha hĩre nimiwũto. Tukano. está com ele no sabemos (temos conhecimentos). usã wakũrige... kuã pekasã padeori basoka niada. etc. mães. colher. mente de organizações não governamentais. hĩrukuawũ. buri da construção e existência da Escola Tuyuka. metodologias. Usã ano paderigere res sábios deixaram de viver nesta terra. pais. Diante bayaroa. mais visivelmente aqueles sábios aprendizes que reko poteri makarã hĩrira eñoadari kuã pekasar† sa. Usã padere ti iñori sika bu .. 196) ninos para trabalhar roça: plantar. mas também existem pro- Toda a política educacional. blemas e desafios. Eles levam para lá o que trabalhamos nas e externas. do entorno regional. Mua tirobiro usã tiadara tia vazio que não será preenchido.NOVIDADES NA PRÁTICA EDUCATIVA Elas são conhecedoras de tradições indígenas balhos. especializando-se em discursos rituais. e valorizar a vida para as filhas poderem viver bem. como dissemos. alunos e assessorias. mulher-mãe é a pessoa mais importante da casa. Chegaram também assessorias externas. Eles deram fundamentação à Tenório. percebem e dizem que nós ela se alegra junto com o marido. professores. hĩro biro bia yure. ensinando melhor para as notícias de nossos trabalhos. isto é. 130 088a187_CORR_V1. Por isso ajudam a escolher e ensinam os seus trabalhos e conhecimentos. Iñate Utapinopona e também continuam se preocu- mu. que foram importantes no processo padeora tiya kuãha hĩre nia. lidade dos professores na construção. indígena e não indígena. a maioria desses senho- me wawaharõ tiame hõ Pirapu. Ania pekasar† ti iñorekã sukã. Também surgem hĩya. cola dos Utapinopona agregou muitas forças inter- lômbia). onde ele afirma: existência dessa escola. que são fortes e serão respeitados pelos brancos. yuha. Mais recentemente. Biro hĩ wakũga yuha. Perspectivas de futuro: (des) continuidade do projeto? Como a Escola Tuyuka influenciou o Muitas propostas interessantes surgem na es- entorno regional cola dos Utapinopona.indd 130 5/31/12 2:43 AM . biro ti heahamiyara kuakã. eles nos respeitam. com suas práticas. ri. prevenção de doenças. calendários. Dizem que vão trabalhar como nós. É com seu modo de ser que ela éramos ruins e que não tínhamos conhecimento. causou um impacto nas sociedades Utapinopona contou com sábios e sábias tuyuka. kumua. Principalmente. Mostrarão os temas importantes para a vida de seus filhos. pedagogias. os indígenas vão mostrar para os brancos da região. a escola dos cola Tuyuka. Veja que o que nós pensamos e Para iniciar a ação educativo-pedagógica. iñori basoka. da Es. lizo aqui as próprias palavras do Higino Pimentel Barasana." (Tenório et al. assim como com sábios dos povos Yebamasa. do. Elas mesmas ajudam na transmissão de saberes. que dias na sua casa. ate pando com a continuidade da escola. A A partir do que nós mostramos para os brancos. Uti. lideranças. aqui. ESCOLA TUYUKA . escolar indígena.

Mas os vão continuar construindo uma história diferente. Muitos projetos alunos e pais querem algo mais para os estudan- foram pensados. sem partir para a prática. nem todos dendo. mais aceito esse componente das escolas indí- na saíram da clandestinidade para o conhecimento genas. iniciaram em 2005 o Ensino Médio Indígena na Rio Negro (Foirn). perior Indígena. A Foirn. No atual momento. os Utapi. Tuyuka não escapam dessa dinâmica histórica. eles também foi se voltando para outras filhas. será necessário questio- lítica corajosa e inovadora. ela fez muito barulho com múltiplas mãos. financiamentos. Utapinopona. quer seguir estudando. A maioria dos tinuam no território tuyuka e prosseguem seus professores das escolas da região ainda corres- estudos dentro de outros projetos educativos e ponde a ex-alunos de escola de modelo ocidental. assessorias. próprios assessores externos. Ninguém quer estudar apenas saberes e do público ao nível municipal. federal e práticas culturais tuyuka. dores continuarem praticando o que estão apren- dos tenham assumido como deveriam. começou a estudar. Na nossa região do rio Negro (AM). linguistas e outros profissionais. indígenas do movimento indígena também esta. pedagogos. Os ber e conhecimentos: matemáticos. conhecimentos.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Para a construção da Escola Tuyuka. É modelo diferente próprios Utapinopona. nem to. investiu muitos re. É também espaço ocidental. uma das nopona contaram com apoio da assessoria espe. reconhecimentos de miração da parte de algumas. vidades ficarem reduzidas a atividades escolares. como costumam dizer. físicos. Assim os Utapinopo. temos Diversos alunos ali concluíram seus estudos do poucos ex-alunos como professores nesta ou em ensino fundamental. Quando a Escola Tuyuka de educação escolar indígena que foi construído surgiu como projeto piloto. A escola dos Utapinopona não é modelo aca- vam esperando tal realização. Formalizar a Escola Tuyuka foi uma decisão po. e confirmar que tipo de homem e mulher a esco- bilíngues. presentes no seu projeto político-pe- Depois foram surgindo outras escolas e a atenção dagógico. Ainda que nem tudo tenha apontam que se realmente os alunos-pesquisa- saído como eles sonharam e planejaram. Os antropólogos. específicas e interculturais. ela foi colocada como modelo de escola indí. indígena. A escola dos Utapinopona não é só espaço ços. musicólogos. la estará construindo. A partir desses desejos de continuida- meio da Federação das Organizações Indígenas do de. com o desenvolvimento da região. comunitárias. saberes.indd 131 5/31/12 2:43 AM . características dos estudantes é a de que quem cializada e qualificada de diferentes áreas do sa. cursos materiais e humanos nessa escola. completo e perfeito. la que estava surgindo dentro da expectativa dos Ao redor da escola dos utapinopona existe um Tuyuka e dentro de novas leis que amparavam o grande controle social para ver sua continuidade funcionamento de escolas indígenas diferenciadas. Hoje está gena que estava dando certo. na região: espanto por parte de muitas pessoas. projetos de trabalho. ad. ou escola convencional. Se assim fosse ninguém até internacional. em parceria com o com a implantação de Programas de Ensino Su- Instituto Socioambiental (ISA). 131 088a187_CORR_V1. Se aquelas ati- tusiasmo e empolgação iniciais. estadual. os professores locais. dentre eles o Projeto Educação Escola. ideologias. Diversas vezes e em diferentes espa. que tem flexibilidade e dinamismo. já aprenderam como Os avanços de projetos de trabalhos da escola conduzir sua escola. e recentemente se iniciou a preocupação Indígena do Rio Negro. até mais do que os bado. teremos pessoas bem comprometidas tenham permanecido sempre com o mesmo en. dúvidas por parte de muitas pessoas e instituições. pois era Se os Utapinopona não perderem de vista suas a primeira escola que surgia. precisaria de escola nas comunidades indígenas. Era um novo modelo de esco. Muitos desses alunos con. REGIÃO . historiadores. numa década. tantas outras. outras escolas indígenas da região. Muitos antropólogos e nar novamente este modelo educativo tuyuka. uma filha predileta. negociados e formalizados por tes tuyuka.

na região do alto rio Negro como espaços ressigni- das. exercício de construção de um discurso indígena choeira e outras cidades. ou Muitas questões e necessidades que essa Esco. hoje é possível perceber com clareza que o ficados da escola ocidental. etc. mas é exigido disciplina. medi. ESCOLA TUYUKA . dieta sua contínua renovação. para sua continuidade como ela do com o passar dos anos. suas pesquisas. vemos que parte dos alunos e ex. A construção da própria história. lecionar sempre em uma mesma comunidade. empenho de todos os envolvidos. esse ideal terá lar. ção histórica dos povos indígenas e não indíge- comunidades indígenas. seus devidos tempos. continuará desentendimentos eventuais entre professores buscando respostas novas e adequadas para de. Eu quis os nossos avôs. que ajuda a 132 088a187_CORR_V1. baya não basta simplesmente memorizar assessorias externas contínuas ou periódicas. Também Esses pontos mostram de maneira resumida os não senti por parte dos sábios maior disposição de conteúdos organizados na minha dissertação de vivenciá-la comendo ipadu no final do dia.indd 132 5/31/12 2:43 AM . onde dei passos tímidos em meio Atualmente. medos. dará respostas para as ques.como falar e escolas indígenas e para muitos discursos e pro- escrever em tuyuka -. filo. não senti ou vi muito interesse por parte dos jovens em adentrar nessa dinâmica. nas. saberes. gramas de formação de professores na região do tudando: estudar ensino médio. alimentar. Focalizei a construção das escolas indígenas Na Escola Tuyuka e nas comunidades envolvi. oferecer ao público um instrumento provocador Nenhuma escola indígena consegue assegurar a para se pensar e repensar os processos de constru- permanência das pessoas nos lugares de origem. e de o que se ensina. exageros nas be- la despertou ficarão sem respostas e sem soluções bidas alcoólicas com consequência no processo imediatas. ma de personalidades. Vejo que ela é uma referência para outras mandas iniciais já foram atingidas . jejuns. Segurar essa bandeira do projeto esco- poucos querem estudar para se tornar yai. um trabalho descritivo do dia a dia da tando e narrando histórias. pelos Tuyuka e feita do jeito tuyuka. Assim foram também partir das teorias de conhecimento tuyuka. Nas minhas recentes visitas à Fechando a conversa escola. etc. espiritualidade. Escola Tuyuka. algumas daquelas de. Cada pessoa ou família sobre as realidades indígenas com categorias oci- decide partir para um lugar. acomodação por O projeto de construção da escola dos Uta. e construção de um discurso ocidental a a melhoria para sua vida. acompanhamento de sábios. Como disse Higino Tenório saída de algumas pessoas desse processo esco- Tuyuka na entrevista citada acima. questionamentos em inseguranças. Um -alunos continua saindo para São Gabriel da Ca.NOVIDADES NA PRÁTICA EDUCATIVA Eu aposto que. kumu. Quem é Tuyuka sabe que para se tornar yai. onde pensa encontrar dentais. e coordenação ou durante cantos-danças rituais. E rio Negro. Uma escola assumida ânimo e dinamismo iniciais foram se modifican. munidades entre professores e entre alunos. pois eles já possuem nho nos trabalhos: cansaço ou insatisfação por dentro deles muitos conhecimentos. parte de comunidades que acolhem os jovens sofia e política desse modelo escolar. mandas da população. lar tuyuka dependerá do compromisso das co- baya. a Escola Tuyuka terá que ser assumi. munidades. Alguns fatores criaram foi pensada. para não correr o risco de Ao longo do caminho. ensino superior. A Escola Utapinopona Tuyuka deve estar aci- tões que hoje continuam sem respostas. acabar. dúvidas. pinopona não terá um ponto final. com escolar e na convivência: desconfianças. mas eles querem seguir es. de kumu. mestrado. problemas inesperados que surgem nas co- que continuar vivo. à complexidade teórica ocidental e indígena. envolvendo questões étnicas. desgastes nos relacionamentos ou no empe- da pelos próprios ex-alunos. de tempo em tempo mudavam. estudantes em rotatividade.

coordenadores. e na construção do projeto político-pedagógico. educação de modelo ocidental. Entre os povos indígenas da ba. que estão sendo partilhadas neste artigo. por isso os Tuyuka querem recupe- cia do rio Uaupés. secretaria nhar dinheiro. com estratégias próprias para dar valor nho de educação escolar que os Tuyuka iniciaram àquilo que fazem. negociação. percepções de mudanças e perspectivas de futu- vos e projetos. outras mudanças aconteceram. a filtrar as novidades e incluir outros elementos Professores. ritos. Essa estratégia garante a continui- escolar. So. projeta um futuro diferente para seus filhos e netos. nhecimentos do passado. Como espaço de fronteira e de negociação de estão entrelaçados. ganhando novos contornos pro. ro desta escola. gestores são membros das comunidades e lidam Os Tuyuka conseguiram avançar em muitas com a política educacional interna e externamen. REGIÃO . lores da escola e está presente desde quando os A Escola Tuyuka. escola ço. culturas são produções e reproduções de diversos através das relações entre línguas. interessante de pesquisas: boas formas de se repen- Os conceitos de cultura tuyuka. pois elas diluem-se constantemente. essa escola permite a existência vessam os outros. as práticas do dia a dia e visórios e originalidade cultural. ga. enfermeiros.indd 133 5/31/12 2:43 AM . interculturalidade tal. administradores e importantes. modo de se afirmar diferenciando-se dos outros. áreas da sua vida. O cami- brancos. tradições. as comunidades tornando-se espaços de dade e fortalecimento da Escola Tuyuka. ao leitor(a) que procure ir além das informações A Escola é um movimento social cujos traba. Por meio dela de 2007. Os valores de um campo atra. que se modi. debates. Novos desafios que surgem con- te. Tuyuka começaram a pensar numa escola própria res. a partir dos dias de hoje. lideranças. militares. continua aberto! 133 088a187_CORR_V1. a educação indígena prepara seus filhos para dife. etc. coordenam seus processos educativos dando tinuarão exigindo novas respostas. discussões. das diferenças. disputas e decisões. derivado da produção cultural tuyuka e ociden- tuyuka. Por isso é muito municipal de educação. A compreensão das identidades ficam. etc. diferentes etnias. As paço de construção das identidades e diferenças. É importante es- e fixas. viver na cidade. comunidades. educação sar todas as facetas da cultura como terceiro espa- tuyuka. os valores e as práticas culturais rar as práticas culturais e revitalizar a língua. desaparecem e reaparecem em contextos está intimamente ligada ao processo de produção sociais diferentes.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS refletir sobre o sistema nacional de educação. como se assemelham e se diferenciam constantemente. mais do que antes. modos de vida humanos. peço um tratamento preferencial para a língua tuyuka. E aqui os Tuyuka mostram sua capacidade de conduzir foi apresentada apenas uma breve nota sobre as um trabalho importante. professores. suscita novos sonhos. escolas e povos. A Escola ça para fazer do seu jeito o que era feito pelos Tuyuka é espaço de busca e construção. Hoje. importante para os Tuyuka retomarem os seus va. Nesse dinamismo. dinâmicos. posições hierárquicas. de agregar outros po. Depois lhos ultrapassam as comunidades. A prática de negociação é um dos grandes va- rentes realidades. Este enfoque lhes dá muita for. entre os anseios dos velhos e lores e suas práticas culturais também no espaço jovens. saberes e práticas. A Escola Tuyuka também se tornou um espaço mente alguns tiveram acesso à dissertação. identidade. a Escola Tuyuka também lida com estudantes que Acontece negociação em vários níveis: entre sonham ser médicos. ajuda reflexões. As culturas são portas abertas por onde diversos como um povo que volta o seu olhar para os co- valores passam. Por isso. como outros modelos escola. É difícil marcar estruturas duras de novas elites e organizações.

o que acontece? Como a gente 1970-1980. Escutei várias mulheres falarem assim. de converter o indígena no verdadeiro a identidade cultural. A escola da missão adotou como regra: — Só dativamente. mento o tukano consegue ter essa prerrogativa nuidade forte de respeito. mas também A língua tukano ficou como língua de comuni- a língua e as relação de parentesco. A nosso ver. no contexto do alto rio Tiquié. para a tukano na escola. a sociedade e a cultura do falante do português (ela não conseguiu). Era isso. cação genérica. Pássaros-adorno tuyuka). Higino Tenório reflete. Nesse mo- lecem vínculo forte de afinidade. sobre a construção das escolas indígenas desde o tempo dos internatos. tu vai pra escola. Ditadura era muito forte: para ser cidadão mal tukano. vai aprender tuyuka e vai falar muito tadura. já que a língua tuyuka estava pouco a pouco. 134 088a187_CORR_V1.indd 134 5/31/12 2:43 AM . foi rápido: no período de não o tukano. como língua de comunicação. as mães tukano incentivando eles a falar tukano: — Filho. que estabe.3 IMPACTOS DAS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS TUYUKA H igino T enório T uyuka 1 Higino Tenório (H): Eu entendo por valores acabar. meu filho. então aprende tukano! Flora Cabalzar (F): Por que o período de 1970. quando Higino visitou Joanópolis/SP para revisão da tradução de um livro hoje no prelo (Utapinopona Pose minia.Vou falar aqui sobre o sobre as outras línguas. pode falar língua tukano aqui dentro do colégio! dativamente é quase um eufemismo. língua tuyuka? Eu escutei muita gente dizer: — Coitado do H: Porque nos anos 70 estava terminando a di. valor cultural que é a própria língua e sua perda. o tukano se tornou era minoritário. e se sobrepõe às outras. 1  Entrevista realizada em outubro de 2010. para todos os povos. gra. Tem que aprender a falar primei- brasileiro você tinha que deixar outras línguas ro tukano aqui dentro de casa! — tinha essa e falar português. como povo indígena. eles entravam na escola com tuyuka no alto Tiquié. — dentro de casa já iam incentivando a falar só o 1980 foi tão diferente de 1960-1970. — e no caso do tuyuka e das outras línguas. Niromakañe são os valores tuyuka: foi estabelecida a política linguística na missão? não são apenas os conhecimentos. que não foi gradativamente. e todos os jovens naquele tempo mais forte que a língua tuyuka em comunidades eram estudantes. Eu diria que gra. E tem outra história: vergonha do próprio filho falar mal tukano no já que a escola não conseguiu essa intenção de colégio. sendo exterminada. nesses dez anos. ou uma conti.

Os Tuyuka sendo incentivados gua. que ele seja mento! Agora. o velho. Meu pai reagia muito a sociedade diferente um do outro. De qualquer Não sei se isso existe pelo Brasil. Tukano era muito forte e se tor. um conflito entre Iauaretê. porque era a língua deles. Talvez em a língua minoritária sofre pressão dessa maneira. onde Colômbia. na uma língua hegemônica para todos. Para Era conflito meio que perdido. Talvez até na própria comunidade. Um território grande. Eu não outra língua. concebe Foi nesse ponto. e con- zombado. que. toa. em Monfort. inclusive tuyuka. que nasceu falando. Eles entendiam importante — enquanto elas: — Higino fala à a importância da língua! Velho não é como jovem. Aí se engrena bem. para desde casa. Pari-Cachoeira. F: Já existia essa tendência e alguma Aqui acontecia isso e era muito forte. Lá na missão eles entrosam bem. as línguas minoritárias. talvez entre japo- forma. Era assim. como H: Tinha reação mesmo.indd 135 5/31/12 2:43 AM . apelidado! tinua falando. maioria está falando português. porque os Tuyuka chegam na missão falan. Acariquara. neses que estão entre brasileiros falantes. onde a sentiam essa pressão. específico. A gente.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Beto Ricardo/ISA. ele. repetiam uma palavra dos ao uso do tukano? Tuyuka só para gozar. a falar tukano. 2005 Higino Tenório Tuyuka mas eu era contra e dizia: — Minha língua é acabar. Taracuá. língua de outro não é uma língua completa. com as mães no mesmo pensamento. através de sua língua. e recebeu esses conceitos do passado. nessa época de 1970-1980. tukano é língua de comunicação dentro e fora Mas a reação não era bem recebida pela maio- de sala de aula. a sua visão. claro que não tem o mesmo pensa- quero que meu filho passe assim. REGIÃO . Os velhos não queriam ver qualquer forma cria confrontos e certos estereóti- 135 088a187_CORR_V1. alguém vai querer gozar dele. ria jovem. Um jovem desde cedo sendo incentivado a falar do muito mal tukano e são zombados. Se ele falar japo- nês na sala de aula. que cria conceitos através da sua lín- que começa. Os Tukano reação dos velhos Tuyuka em relação zombavam dos Tuyuka. e reagiam. própria família mesmo. No rio Papuri. de essa questão da perda. porque lá o Eles achavam isso.

tório. Existia esse confronto. E zia: — Não fale mais tuyuka! — pois essa era uma é assim também porque a gente casa mais com conversa um pouco nova. H: Com pouca gente falando. tem e das línguas tuyuka. entende? Essa ideologia sis. E tradicionais mesmo. eu teria perdido minha língua. Mas Ideologia não se lê. na sua casa é rei. enquanto o sistema está ali. manter essa língua. de ex-alunas. uma língua está fessores. vam que essa língua estava prestes a acabar. diferente pela comida. Quando a gente é criança. ideologia dominante oculta a ideologia indígena. que o outro nos mostra. presente. Isso que é importante entender. ESCOLA TUYUKA . universitária. Uma conexão frequente com o pai e com os mais velhos. desde sua transformação. não se pega. Estava propondo que pudesse acon- te. acha que aquela coisa é nojenta. eu não queria confrontar. criou esse são. Apenas os tica uma coisa. Eu. Se eu tivesse saído da minha família e terri- tipo de arte culinária diferente. wanano. de as pró- o Tuyuka também provoca. Isso que te. como eles vão sobreviver a esse mundo? — di- 136 088a187_CORR_V1. uma comida indevida. E onde ela não tinham função nenhuma em Pari. ou estiveram em Ma- espaço ideológico chamado escola diferenciada. As mais velhas como F: Há proximidade entre a situação das escolas minha avó. Como a escola dentro. ninguém vai me proibiu de falar a minha língua. em São está presente. para ele é bom. família. nossa língua. se estiver no seu ter. Estou nos chamaram de coitadinhos: — Coitadinhos. por exemplo: eu entrei com dez anos na mis- desde o início. Muita gente não percebe qual a meio vergonhoso. os Tuyuka que já tinham perdido sua língua acha- Estou falando de formação em geral: magistério. Tuyuka já falava só língua tukano. do a mesma pressão ideológica sistematizada. brigar com multidão. Aprende a ser malandro por. porque nas formações de professores. Então essa brincadeira está por -alunas da missão que começaram.IMPACTOS DAS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS pos por você ser diferente. a ameaçada de extinguir. Então. Essa é a diferença. essa pressão dentro da minha casa.. Mas para quem Eu. pois quando um Tukano chega. enraíza e ela está aí. Escola é muito importante e perigosa! Ela da com essa malícia. sempre diziam: — Você é Tuyuka. indevida. inclusive. daquelas maior. Quem não pra. falando de tudo. não deixavam o filho falar tuyuka porque achavam mos que discutir. Mas certo também era órfão de mãe. eu só queria valorizar a Ideologia você aprende. que propiciava na política de hoje. Mas como o território tukano é Já minha avó era de geração antiga. perdemos em espaço político-linguístico. pós-graduação.. pode fazer a cabeça pensar de outro jeito. Cachorro que falar tukano. não se vê. você tem ritório. não pensa ain. Só que eu estava continuamente em conexão com minha F: Os Tukano exploram mais que os Tuyuka. Gabriel. maiores de quarenta anos ainda falavam tuyuka. tariana? que falar sua língua. Já algumas mulheres que H: É o mesmo processo lingüístico e o mesmo trabalharam com os padres. Duas ideologias se confrontam e uma tem que F: O que mais essa discussão inicial em torno se sobrepor à outra. for. em Manaus. prias mães dizerem: — Ah meu filho. mães ex- mulheres tukano. Eles acadêmica. Oito meses por ano eu ficava na missão. naus. da língua mobilizava? tematizada já está dentro de cada um dos pro. Meu pai era falante e nunca H: Como a gente é minoritário. Porque para elas essas línguas presença ideologicamente mais forte. com experiência dessa vida da sociedade. então minha avó nunca di- então as brincadeiras dos Tukano sobressaem. esses estereótipos? e então eu voltava. Outras escolas também devem estar sofren. então eu não tinha confronto existe. muda. Isso acontece também Essa era uma conexão relevante. tecer uma revirada.indd 136 5/31/12 2:43 AM . naquele momento a maioria dos usos e costumes que sempre teve. No primeiro momento.

concepções sobre o mundo. falando que a língua estava quase extinguindo. Aí sim. eles querem Tuyuka. cional sempre dizia que língua indígena. tecnologias. isso é importante! — in. Não era ainda tuyuka. No magistério a gente discu- língua cada vez mais forte.. porque é através ocupação: — Como é que vai acontecer? — Nos. era praticamente o fim da transmissão dos co- nhecimentos. Era miudinha. de que a língua tuyuka es. no. e a mobilização F: A língua tuyuka é importante para os velhos aconteceu primeiro internamente.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS ziam os próprios Tuyuka que já estavam falando Escola Tuyuka. encontros entre várias comunidades para debate rança com relação ao movimento de revitaliza. foi importante também porque a escola conven- biam isso.. foi se tornando muito essa pressão era forte. pinguinho que não valia nada. o sentido filosófico de uma língua. como língua franca tia que a língua é importante porque estabelece no seio das comunidades tuyuka.. H: Isso era muito forte. revitalizar.. de mônico da língua tukano. do mesmo jeito discutido no magistério? muito ampla. eu passei por conscienciosa e quase todos acabaram por acei. de conhecimento. Bom. quando discutimos o tema cha. missão. essa situação quando a gente começou a fazer tar. Essa era a pre. Aí compreendi melhor mente falada construía pensamentos filosóficos. H: Essas duas coisas são muito ligadas com guístico tuyuka da área brasileira do alto Tiquié é formação e educação. sendo substituída pelo tuka. Eu le momento toda pressão era de fora: uso hege. bém liga muito com pensamento dos velhos. era muito forte. construía uma cultura. Essa preocupação era muito forte. tecnológicos. Nesse clima a gente também estava mobi. aprendi a filosofia que os velhos colocavam. que pena deles. cada vez mais crianças que essa língua era essencial para sobrevivência se integrando à língua tukano e tornando essa do conhecimento. começando a realizar os primeiros tukano e sentindo. A gente tinha essa preocupação de conhecimento e como uma língua de trans- entre os mais velhos. eles próprios. Isso era muito liga- Velhos sentiam a língua sendo ameaçada. REGIÃO . Era um Vicente era muito forte também e me apoiou. dela que uma sociedade constrói seu pensamen- sa preocupação maior era de continuar falando to. língua de universidade.. não essa ideia: uma língua. jovens e crianças. a mobilização comunitária da língua. também porque o território lin. Eles tinham e sem escrita. Só a língua nacional- mado política linguística. Os do com o pensamento dos velhos. mas os velhos perce. técnicas. das políticas lingüísticas e da política da Escola ção: — Coitadinhos. articulação de que a língua tinha que ser escri- lizando o apoio do Projeto de Educação para a ta. que as novas gerações. não trazia muitos conceitos. Essa era a língua verdadei- dessa minha formação. a partir técnicos. mas tam- tava com tendência forte de extinguir-se. para cada pensamentos. comunidade: — Olha. ra. uma parte mínima: três ou quatro vam com não perder a língua como uma língua comunidades. Aqui no magistério é diferente. ágrafa não estavam mais falando o tuyuka. A língua tukano nunca tinha construído esses Eu tinha que falar a cada momento. aconteceu mobilização. Os velhos se preocupa- muito restrito. Naque. Esse pensamento Com isso. muita insegu. O magistério mais novos não percebiam.. não tinha dimensão ampla para poder ser uma clusive com meus companheiros de luta tukano. uma identidade muito forte. F: A escola convencional (que existia até então) O primeiro momento de mobilização em si propunha construir uma cultura em torno do aconteceu com a formação do primeiro magis. sua forma de conhecimento. Inclusive. porque que teríamos que animar. os velhos estavam preocupados. Muitos velhos questionaram: — Como essa 137 088a187_CORR_V1.indd 137 5/31/12 2:43 AM . português? tério indígena. cria conceitos e (manter a oralidade). Mas a gente pensou nisso.

de escrever e no entre elas. quela época a maioria das crianças falava tuka- tava do fortalecimento mesmo. português. A maioria dos Tuyuka estava falan- confronto.indd 138 5/31/12 2:43 AM . Foi quando a gente já vinha acontecendo. o que aconteceu através de português e tuyuka! — mas será que dava? Isso grandes reuniões e oficinas. outras lide. esse método onde o professor fala- a vida que ela tem e exerce sobre o comporta. velhos. se a escola qui. muita gente falava: — te estabeleceu a língua tuyuka como língua de Nós temos que aprender ao mesmo tempo instrução da escola. No tercei- você esta pensando em escrever a língua da ro momento. os conceitos de benzimentos. a gente não para o tuyuka. meu neto. era uma experiência que já vinha sendo feita em Eu acho que as oficinas de políticas lingüísticas. eles não conseguiam falar bem o português? Era evidente. no sentido cultural mais fortalecido. ensinar português? Se também tinham a preocupação com a língua sim. até mesmo na escola. Ao mesmo tempo. o professor tinha que traduzir tudo. começando ção do português. sem nossa língua. No segundo momento eram os outros. como nos também se tornaram professores. 138 088a187_CORR_V1. A mobilização aconteceu quando a gen. pode também ser quem falava português fazia sabão e espingarda. mas não falar tuyuka. fora. estavam falando. caria a língua portuguesa? lizador. como fi- Discutir a política de língua na escola foi mobi. do alfabetizadas na língua portuguesa? Por que sa mobilização. Desde a escola conven- começou a chamar líderes importantes. na maior parte da vida. não falavam portu- sem mercadoria. indígenas. Emílio velho falava: — Ei. qualquer escola da região. porque aqui também vivem famílias do mais tukano. Será que meu filho vai ser excluído desse capacidade de fabricar algo. deveria ser introduzido na escola. sentido de que. Neste momento essa era a forte de. que moravam na comunidade de São Pedro. e cional já havia esse tipo de ensino nas escolas começou a falar sobre a importância da língua. mesmo sen- ranças e jovens entendessem a importância des. Quem sustentava a fala tuyuka cisão. Era papel da escola. Para eles. E teve com a gente. e veio a discussão: – Meu filho fabricar sabão? — eles entendiam que apenas também sabe falar tuyuka. Por a partir do ano 2000 já como ação do Projeto de que muitas crianças. que era importante para transmitir esse que a língua tuyuka seria língua de instrução e conhecimento próprio. Já tínhamos experiência anterior com isso. de que forma? Uma vez que foi estabelecido tuyuka. porque nasceu aqui e aprendeu falar Só quem falava português era inteligente e tinha tuyuka. a mobilização tra. fizeram com que velhos. Em várias ocasiões. no português. ESCOLA TUYUKA . os velhos guês. dentro do conhecimento. nossos cunhados que vieram de de discussão foi estabelecido: a escola só con. alguns destes meni- foro. fosse sabão ou fós. De que maneira o português a escrever tuyuka. e isso foi avaliado. de usar a língua. Na- H: No primeiro momento.IMPACTOS DAS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS língua tuyuka vai desenvolver uma técnica de de outras etnias. significaria um futuro comunidades do alto Tiquié. a mobilização foi sobre a introdu- gente? Essa língua nunca foi escrita. traduzindo tudo o que ele ensinava. naquele presente momen- Educação. Como o menino não entendia conseguia entender a cosmologia. Elas entendiam tuyuka. professor. va na língua tuyuka enquanto alfabetizava em mento do Tuyuka. nas sesse escrita em Tuyuka. não vão nem fabricar sabão. eles falavam diferentes línguas? tukano ou tuyuka. muitas das famílias é quem fala português. estava no patamar de primeira língua. Essa cimentos. uma vez que Quem fabrica sabão e outros artigos industriais naquele momento inicial. os grandes conhe. era claro: eles não falavam português F: O que se dizia da relação entre porque. to. a mitologia. trabalho? – e muito depois. não estavam falando português. os que não eram Tuyuka mas vieram morar trataria professores que fossem Tuyuka.

o tuyuka e mas ela tem uma idéia muito forte.indd 139 5/31/12 2:43 AM . de que a gente estava H: Quando a gente começa a discutir. ela não quer o português nesse debate? deixar a sua língua. Eles chegariam já 139 088a187_CORR_V1. dade tuyuka. REGIÃO . e mais intensidade no uso tando presente também em outros territórios fora da língua tuyuka. da escola. surgiu também fora da escola? uma ideia para muitos. a gente proibindo as crianças de falar tukano. es- uso da língua tukano. No começo (às vezes o pessoal não lembra. Acho que é por isso que os Por que a gente tinha estabelecido só o tukano se sentem fortes para dizer: — Nossa lín- tuyuka como língua da escola? Porque percebe. alto Tiquié F: A escola coloca o tukano. pois a mãe é Tukano! A mãe tuka. fora daqui. a falar algum tuyuka primeiro. mos isso: — Bom. mesmo estando em territó- H: Não. e forte fora também. No primeiro momento entra só rio tuyuka. mas não essa. vai fazer contato com a língua lembro!).RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Beto Ricardo/ISA. Com a Escola Tuyuka. disseram que tukano. 2001 Escola Tuyuka. Todos os Tuyuka já eram F: Vocês propuseram mudanças na escola e falantes do tukano. quando alguém viesse para a escola na comuni- te essa língua. eu onde você for. para poder entrar. tuyuka e português no debate e planejamento da política da escola. as lideranças.. Dentro da família também está presen. Teria que que a gente queria era menos intensidade no criar um impacto positivo entre outras línguas. O te dentro da escola. teria que aprender no é muito forte! Não vamos chamar de radical.. o território é muito grande. gua não vai acabar. os Tuyuka. A gente tinha uma ideia de que a língua tuyuka ia ficar for- tinha que tomar uma atitude.

IMPACTOS DAS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS falando as coisas principais como: — Wakãi mu? também tentamos. Como não respondemos rapidamente. sões. Se chego onde poucos ou nin.. língua tukano é tradicionalmente enraizado em teceu porque a gente deixou de cobrar. mas a gente não respondeu a essa língua tem mesmo função. Antropólogos. de projetos locais dentro do Projeto de Educa. cola deles. nós. tender. somos muito mansos nosso território lingüístico é pequeno. que tinha solicitado pessoas conhecerem muitas línguas? que algum Tuyuka desse aula de tuyuka lá na es- H: Acho que ninguém pensa nisso.. mas não por todo mundo. Isso não acon. Então nessa questão. passamos pro território tukano. perdemos sa automática. Apenas uma pessoa en. é uma coi. Como o uso da que aprender o vocabulário básico. Mas guém entende tuyuka. rizada. esse casamento não caminhou bem. Quando preciso me comunicar falam a própria língua por lá. você acordou bem?). amarrando essa conexão com eles. Minha sobrinha e ou- com não falante de tuyuka em qualquer outra re. casando. os daquela região entenda. de discus. combinaram isso porque está- com outra língua. sozinho pensando. antes de entrar em território tuyuka. de entender esse negócio: —Olha que campo tipo doido minha língua? Falo com meu amigo. pouco a pouco e com várias (bom dia. expandir um pouco o uso dicos. Já estávamos toda do rio Negro.. Mas às vezes fico Tuyuka. vamos lá! — e se tivesse ido.. Vamos continuar fa. tra moça. Quando você chega no outro contexto la Tukano Yupuri. percebe.indd 140 5/31/12 2:43 AM . Já para transmitir um conhecimento. a gente acaba. Como a gente não assumiu. Porque a gente não discute momento. e outra língua. ESCOLA TUYUKA . o fato das escola tukano de São José II. Sempre Ninguém pensa mais nisso. não é importante pra gente. A gente não pensa na importância espaço. com ótimos resultados nas comunida. Mas resultados bem localizados. andando junto em grupo tuyuka: a gente fizesse essa ponte. Não temos tido um pensamento forte disso. Eles. bom. por não estar refletindo tanto. na região. analisando: a gente não é tão des dali. conquistador. então vou falar numa língua que a maioria tuyuka. eles sentiram necessidade de entender o que es- aí sim fico muito preocupado com a minha língua. Temos resultados positivos: a língua foi valo- Foi um forte momento de mobilização. quando é conhecida expectativa. ninguém mais vai dizer: — Agora já tuyuka entre os Tukano. não conquistando E cada processo deveria acontecer com discus. escuto Vicente falar que a Escola Tukano quase lando tuyuka. expandir. conquistado outro espaço lingüístico para uso do tre Tuyuka. a gente pode ter 140 088a187_CORR_V1. Lá tem Tuyuka morando. vieram na Escola Tuyuka. vai ser fértil. todos falam e escrevem agora. discutindo mais o que a gente vê. e o contrário. da Esco- discute. Mas para são. teriam do tuyuka entre os vizinhos. Tukano desinteressaram. que é produto dessa discussão dos Tuyuka. estratégias políticas. Eles falaram porque para transmitir precisaria de tradutor. porque ambicioso. A gente não implementou a demanda da F: Que importância tem. não falam gião. Avalio que a Escola Tuyuka não teve esse prepa- No contexto maior. vivendo lá. Analisando. Também tiveram oficinas em que os Tukano no! — ninguém mais vai dizer isso hoje em dia. e você não de conquistar território linguístico.. mé.. já teríamos no mínimo aí a gente fala nossa língua! Quando estamos en. por que vou andar falando ro. vamos falar tuka. tem necessidade de falar aquela vamos escrevendo muita literatura em tuyuka. território (território linguístico). Sem- Nós valorizamos nossa língua na Escola pre teve esse apoio entre nós. muito como conquistar novos espaços linguís- ticos.. Acho que hoje a escola passou desse muito timidamente. da família Lemos. tava sendo escrito: alguém poderia ir lá entre eles A língua tuyuka não está presente na região para dar apoio na leitura de tuyuka. conquistar territórios. ela ainda caminha ção maior. É necessidade para comunicar. às vezes.. Uma duas vezes. se com meu irmão. não vou falar em tuyuka.

Tenho visto que vocês brancos também linguístico. porque se casam fora. Hoje. Instituída na escola. Não passou a ser mais usada fora da escola. respeitado. conquistar mais território. sobre como queremos Com a Escola Tuyuka. E. território é paterno. em tuyuka. adorno é paterno. depende do contexto. para turalmente falando. entre os Tuyuka e mesmo entre os Bará e Ba. gritaria. entre eles na comunida- o tuyuka também ganhou status na sociedade. que passaram a brincar mais os missionários chegaram ao alto Tiquié colombia. Barasana. aquela língua de lá pega esse prestígio. com a instala. O tuyuka não se torna uma língua forte no outro F: Então Trinidad (Colômbia) e a Escola Tuyuka território linguístico porque ali é um território dife- (Brasil) se instalaram em território tuyuka. Casa da em território tuyuka. Se vão duas pessoas. REGIÃO .. A língua tuyuka tem força no alto Tiquié colom. minha filha. a instalação ou implantação de qualquer infraestru. brincar mais. Como porque outros de fora que vieram trazendo escola. que falar tuyuka. Em dez anos já temos crianças. as forças ainda se chocam. o tuyuka se tornou língua de comunicação dou sua história totalmente. como no em território tuyuka mesmo. por isso que nossa lín. ao contrário. onde Essa língua tem força pelos homens falando. além da língua estabele- fortalece. méstica. 141 088a187_CORR_V1. comunidade. gua ainda está naquele territoriozinho ali. rente. Um casal de turistas na Áustria anda essa prerrogativa. doméstico. escutamos que ainda falam tukano. Os pais já sabiam tornou mais forte e utilizada por ela com os com- que lá era território tuyuka e já vinham com essa panheiros que falam essa língua. não tem presença muito tura. o espanhol é a língua da escola. comunidade anos voltando de Pari-Cachoeira. mas não temos essa perspectiva. Na verdade.. aqui na Escola Tuyuka. porque uma instituição dessas é instala. pelas mães. muitas línguas são essenciais dentro da Lá o tuyuka não é usado na escola. cabeça: — Aqui é território tuyuka e então vou ter Antigamente quem passava em Pari-Cachoeira. porque a criança vai aprender a lín- Mas ainda assim o tuyuka falado fora da escola se gua de sua mãe e outras. res é ainda mais difícil. pois na parte da Colômbia é outra histó. todo mundo falando alto na própria lín- nou língua hegemônica para todo o rio. mas ouvi tornou mais forte e mais institucionalizada na es. A missão salesiana em Pari foi mais quieto. são assim. Yebamasa. Mas se vem um grupo grande. Para brincar. Gilvan mesmo falava que..indd 141 5/31/12 2:43 AM . com esse estabelecimento em certo território forte. Cul- domina. nossa política deu resultado. que entrou na escola tuyuka com 13 ção da escola e missão em Trinidad.. só o espanhol. Ficou mais forte porque tou a ser das crianças. cida na nossa cultura do rio Negro pelo pai. Uma língua que já era do- biano. de dentro da família por causa do pai. Você pode comparar esses dois casos? H: Em Trinidad a língua tuyuka ficou mais forte F: Em Onça Igarapé tem mudanças impor- como língua de comunicação nos espaços pú.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS uma ideia sobre o futuro. por- que não nasceram lá. escreve. ela se H: Eles falam tuyuka na Escola Tuyuka. também falavam tuyuka? os filhos passaram a falar mais tuyuka com outras H: Sim. Mas em Trinidad. F: Os colombianos que chegaram para estudar O que aconteceu com a Escola Tuyuka é que na Escola Tuyuka. que se tor. a língua tuyuka também que falem nossa língua daqui a 20 anos. dizer que continuam falando tukano no ambiente cola: virou a língua da escola. Como acontecem as coisas! Com não falava tuyuka. é uma instalada no território linguístico tukano.. e com isso mu- tuyuka. você tem que ter uma culturas se chocam internamente.. vol- rasana que moram por lá. porque as mães não conseguem usar. A língua tuyuka se para Bará. e o tuyuka passou a ser en- ria. crianças. eu falei. gua: isso também está acontecendo hoje aqui. de. é paterna. tendido pela criança. tantes? blicos. Para as mulhe- política de conquista.

Tem sabe como se originou essa língua da transfor. gente de transformação cantou cando certa motivação. guém tinha esse vínculo com os brancos. o que significa? for. porque emprego — essas tomadas de decisão provo- em toda parte. Talvez tenha tido uma língua H: Eu acho que essa língua poderia ser falada na origem. Analiso hoje o seguinte.. prometido com essas questões de que uma lín- sana. Mesmo na incerteza da situação. Os adornos e desde antigamente. — Esse é grupo com quem você pode se ca. mobiliza. Então Deus da concurso.. considerado como irmão. e dançou Quando o poder público toma esse tipo de de- com adornos muito parecidos. Por isso que mulheres é que vêm. sa a ser usada ou cria certo valor. 142 088a187_CORR_V1. rogativa) tukano acham que a língua deles é a língua da origem. mas com mesma letra e lin. ESCOLA TUYUKA . hoje chamados cantos tradicionais. que já vinha mas não é da parte das mulheres. Por quê? criados esses cantos tradicionais que têm mes. acho que todos irão se interessar pela sua sar. para que todas as línguas. que H: Pode ser parecido ao do homem tukano. Senão. por isso foram fora do contexto do território tuyuka. sobre F: E o tuyuka além do território tuyuka? a língua da origem. as línguas têm origens diferentes no momento porque relação de parentesco cria certo tipo de da transformação. Assim. por usar a língua tuyuka.. cisão. diz que essas coi- mação. Mas do mesmo jeito que com ritmo diferente. Ninguém sabe. cai e morre. Mas sabemos que aprender. parentesco. que estabelece uma relação.. tem esse contexto de pa. uma língua minoritária (em comparação às cooficializadas que são as mais faladas).. é um diálogo en.indd 142 5/31/12 2:43 AM . Era ruim se casar cria interesse maior por essas línguas incluídas no com falante de uma mesma língua. tadas em um concurso público. Antigamente nin- adornos tukano.. A mesma linguagem. ficaram motivadas a hãde na linguagem da origem. Se atitude e tomada de decisão política. sas são besteira. keno. guagem (por exemplo. seja qual F: Wedeapure manigu. público.. As H: Wedeapure. esse tipo de vínculo. ela pas- tre duas coisas. porque elas não cantam hãde a cidade há mais tempo. kapiwaya). Ninguém sabe Percebi isso quando teve concurso tukano em como cantavam as primeiras mulheres no mundo São Gabriel. é o seguinte. mento. seram: — Vai filho. com- ma linguagem tanto para Tukano. línguas morrem de novo. Meu pai dizia que ninguém respeito e fortalecimento da cultura tuyuka. é como um estranho para ele. talmente na cidade. porque vai gerar gos. Mas se o poder público esquece isso. Bara. estejam represen- mento ela se diferenciou. ria a língua comum do kapiwaya. tukano.. gente que quer estragar isso. no sentido de dizer que F: Mas adornos tuyuka se parecem com os ele nunca teve essa relação. acho que Nossa cultura diz o seguinte. Em um mo. Se sair um edital dizendo sim estabeleceu também com quem poderíamos que todas as línguas do município vão ter espaço casar. se. vencionais ou cooficializadas. ela morre to- o tuyuka fosse língua do começo dos tempos.. Todas as famílias que vieram para de transformação. Podemos imaginar que um poder público. pessoas começam a sentir a importância. tome uma providência mas ninguém sabe dizer que linguagem é essa. wedeapu. Grandes pensadores (por isso existe prer. baniwa. Provoca interesse de estudar! Mas se não tem essa Meu pai me contava o que acabei de dizer. esse é grupo com quem não pode — porque língua. dis- linguagem de origem é aquela dos cantos anti. começa a aparecer no panorama municipal. as Criação falou: — Vamos dividir as línguas — e as. como falava meu pai.IMPACTOS DAS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS Língua é a mesma coisa.. Isso é difícil e interessante. gua se torne interessante. que cria essa afinidade no casa. estabelece trilinearismo. vai aprender. Tuyuka. Tatuyo ou Wanano. é uma relação pré-estabelecida. não somente as con- se Aruak ou Tukano.

têm o mesmo caráter. E ela. Mas. Os concursos diferenciados têm viabilida. que deveriam usar das. Elas estavam no nheengatu em São Gabriel como funcionários pú. língua. Es- — expressando vulgarmente — porque queriam sas línguas continuam tendo esse espaço. que é Tukano. de também certos momentos em que a gente fala qualquer forma. Mas depois parou tudo.nas comunidades . quan- pre se discutiu política linguística como base de do tem boa vontade e bom humor. veriam falar sua língua só quando vão lá com a Teve confusão no primeiro momento. Tem gente que não enten- Com algumas políticas.. Certa época ia ter concurso públi. mesmo patamar. Talvez não tenha tido entendimento com o escola. guas .RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Eu vou contar sobre a cooficialização de línguas vam as outras línguas. recepcionistas. com mãe. que de- uma política formalizada como Lei Municipal. como línguas oficiais daqueles lugares. amparadas pela lei maior que é que as mulheres são muito fortes. Mesmo que nossa maneira de falar seja muito de novo. se usadas na ção. lizada. onde fica entendido que essas lín. clarecer melhor às pessoas que trabalham com a de nesse sentido.das demais línguas minori- há tempos estão em São Gabriel ficaram doidas tárias. Outros com a submissão à Câmara para ser aprovado. Assim se vive. por exemplo. algumas famílias tukano que . Alguns queriam dação. não querem a Constituição. fez um concurso diferenciado usando todas as teria que ter uma política bem discutida. que sou Tuyuka. teria sim como viabi. aprender a fazer redação em uma semana. Muitas pessoas não entendem e se sentem promete a fazer ações nessa direção se torna um inseguras com essa questão. A cooficialização era para mostrar ao público mais tuyuka do que a própria língua. constituídas como poder público. Eu mesmo questionei. Isso é falado em público questionamento muito grande sobre como fica. moradores nunca foram desprezadas ou proibi- lorização. de isso e diz: — Ah! Minha língua não é cooficia- lizar todas as línguas. não incluídas nessa lei. mas percebendo que seria difícil Parou totalmente. com o pai delas. então não vou usar na escola!! — e então. tuyuka comigo. no meu entender elas estão.as não reconhecidas como cooficiais pela Quando se trata de política linguística. Na comunidade. mais línguas. dentro dessa política linguística. tem Lei Municipal -. na prática. parou muito nesse governo (2009-2012). depois entendi. Teve inscrição. REGIÃO . falo em tukano com mi- H: Desde o Plano Municipal de Educação. começou a cair das.indd 143 5/31/12 2:43 AM . que deveriam já estar falando guas têm o mesmo status das línguas cooficializa. E o poder público que se com. como obrigar. deu um salto no sentido de va. um grupo tuyuka radical mesmo acabaria levando as mulheres a F: Em escolas que privilegiavam uma das falar só tuyuka! Mas não existe isso. as outras línguas faladas pelos Isso foi positivo. forte pela valorização do tuyuka. também fala tudo. 143 088a187_CORR_V1. e ela gosta. mas deve entender que as de- mas ficou por isso. Isso não significava que as não co para empregar os falantes de tukano. língua oficial da escola. nha esposa. Parece Você aceita juridicamente: — A minha língua que esse concurso não aconteceu. baniwa e cooficializadas perdiam espaço. em casa eu falo duas línguas: algumas indígenas daquela região? vezes eu. mas em São Gabriel. como foi colocado dentro do blicos. suporte político muito forte para essas línguas. para es- línguas. Cada um tem seu direito hoje em dia.. Só que entrar no concurso. queriam ensinar. Procuraram alguém que sou. ou usando mais o tuyuka. essa política de consoli- besse ler e escrever em tukano. Enquanto o pessoal estava Plano Municipal de Educação: se garantia o uso promovendo isso. só aconteceu muita preocupa. aprender tukano. esse nível de discussão. mesmo sem saber falar. Ninguém vai línguas indígenas ao lado do português. Sobre esse movimento do uso de outras lín. é cooficializada —. Irmã Edilúcia. sem. Por equacionar a presença das demais línguas exemplo. deixar sua língua.

aprender uma profissão. ninguém vai insistir. com entrada de outras línguas em outras um desafio. por entender. avalia no sentido desses impactos. F: Ainda continuam falando dessa política faz universidade. os jovens H: Isso não acaba. que capacidade de viver bem não vem só fazen- do universidade. não totalmente alcançado. fica difícil me fazer entender. a língua sempre sofre modificações. Por isso uns dizem no. Isso é falado. Eles mulheres falam: — Não dá para a gente falar só acham que hoje em dia mudou. Mas hoje não é e segue discutindo sobre o trabalho da escola.indd 144 5/31/12 2:43 AM . O pensamento político da escola tem que escola. falar tuyuka. Quando formas. professores deveriam dar exemplo e falar tuyuka Eu já falo o contrário: se meus filhos tiverem em casa também. Mas muita gente não consegue discutir a em parte do ensino médio. Por isso falo que pria língua? Como esse processo se condensou? a escola tem que ter muito cuidado e ser bem cui. ESCOLA TUYUKA . Política linguística não pode possam executar alguma atividade produtiva que se consolidar. deixar seus filhos lá. que ele saiba viver de seu conhecimento.IMPACTOS DAS POLÍTICAS LINGUÍSTICAS não é assim. Estamos F: Dez anos atrás.. Antigamen. e os mari. gente vê esses processos de valorização da pró- mas tem retrocedido um pouco. enfraquece o aprendizado de português. podem na casa.. Vai entrando a internet. falando nesse sentido de avaliar. A gente gostaria tanto de falar. conforme o que você pro- pôs. mas Estão vendo que estamos fracos em português e não dá! — e isso é normal. E falo isso com pessoas de diferentes pensamentos. em casa.. mas não falar faculdade. para vieram de outras comunidades e só falavam tuka. a língua era basicamente instrumentada para Localmente. mas não está ge- não falam tuyuka. e escrita. vocês optaram por usar discutindo esse tema das mudanças. com aprendizados do ensino médio. te. Alguns ado. Isso ainda é nâmica. que os alunos vão tuyuka. Qual o espaço do mudança e entender as mudanças. o tuyuka como língua de alfabetização e instru- dos reagem de forma positiva.. problemáticas. como antes. dê mais qualidade de vida para eles. Dependendo da necessidade. Mas eu não vou obrigar ninguém a fazer teve essa dificuldade.. e falo zadora em tuyuka. que vamos ter que trabalhar mais para conseguir Tem professores tuyuka na Escola Tuyuka que falar bem português e compreender textos. a gente tem proposto valorização aquele tipo de vida do antigo. comunidade. As ção. falamos mas não impomos. Muitas Hoje.. colocando essa 144 088a187_CORR_V1. Como ele se estruturou? Como ele envolveu na dada. a língua inglesa.. Eu quero mostrar que o importante é tuyuka. não sei por que a gente não aprendeu a querer fazer universidade. essa questão: Como a lutei por firmar essa valorização da cultura tuyuka. porque a língua segue sempre di. Mas oportunidade de cursar universidade. Outra professora cursar. Eu entre os temas relevantes. crianças? Quais foram os ser sempre avaliado: — Será que estamos cami. efeitos positivos e negativos? Quando estamos nhando? — pois se não for assim. Mas nosso projeto de escola foi lingüística na Escola Tuyuka? Da língua falada montado para ficar nas comunidades e para que. Mas teve que falar na escola e foi alfabeti. que também interessa para sociólogos e antropó- durante todo o ensino fundamental e também logos. que a escola está fraca e que não querem mais taram a língua tuyuka no ensino mas. conseguir cursar universidade. Poderiam ser mais discutidas.. muitos professores estão achando que vezes elas não falam tuyuka em casa... um lado apenas o tuyuka como língua de instrução. Não conseguiam falar tuyuka. não insistem. Você avalia o trabalho. o jeito era falar. Na escola. E acham que a português hoje? gente está se contradizendo! H: Ninguém gosta de discutir essas questões Sempre sugeri para os professores discutirem. Alguns comentavam que esses rando uma discussão mais forte.

mais poder que o tuyuka. para passar as férias. não tinha rabeta. a aprender. Mas não é radicalismo. A televisão tam- família tem sua rabeta e facilita. São Gabriel. porque não saía tanto. Hoje aumentou radical. eram apenas os professores com salário que gramas. Tenho um exemplo pessoal. ta mobilidade. aumenta o interesse pelo uso do português. Ninguém sabia onde ia tenho como Tuyuka. com o ganho um dias em São Gabriel da Cachoeira. Isso é inevitável e. Hoje em dia. que depende mais de práticas pe- últimos quinze anos no alto Tiquié? dagógicas. Antigamente a gente falava os projetos. em favor de ambas e para que uma ir à escola. têm impacto. Quero educar para o número de professores do município e do Esta.. progra. Falo no bem do que eira. Os pro- muito difícil. nesse contexto. mas tem o perigo e a tendência dos Eles acham que a gente está proibindo as viagens pais passarem a falar todo dia português em para São Gabriel. bolsa família. Tanto os programas sociais do governo como ra constantemente. falando do aprendizado dos alunos que querem aprender gramática. Aí é maior mobilidade ajuda as pessoas a falarem que está. Você não acha? 145 088a187_CORR_V1. é F: Então o português se tornou mais forte nos outra história. me torno o cara chato.. como você pensa. sempre pen- toda a minha família para São Gabriel da Cacho. sando no bem de certa coisa. junto com as buir para a comunidade. a aprender português sem precisar um equilíbrio. Mas o pen- novembro. porque são por curtos períodos. falo muito para eles estabelecerem horários. E vai aumentando rabetas. Permanecem 15 bém entrou mais forte agora. dominando mais. mas estávamos todos descendo de rabeta. REGIÃO . crianças. presente e fortalecida. férias são em pouco maior dos professores de ensino médio. eu estava me preparando para trazer sador quer equilibrar essa mudança. pro- lia. Eles estão ligando a televisão qualquer hora. Antes de ter bolsa famí. Essa tendência expressiva dos alunos H: Justamente. e porque tem mui. leitura de textos.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS discussão nas escolas. língua tuyuka sempre viva. cada gramas são mais permanentes. tem que ser português.. casa. às vezes ficamos tachados. Atualmente. isso é ligado com a questão de quererem fazer curso superior também muda e prosseguimento dos estudos. com para descer..indd 145 5/31/12 2:43 AM . O bem. A maior mobilidade ajuda a criança não caia no abismo. e essas viagens são periódicas. e se mas sociais. viagens a São Gabriel da Cachoei. escolherem os programas que poderiam contri- do. No final de O homem provoca as mudanças. era menos. Mas os projetos têm menos português. Já. por exemplo. que está sendo levavam suas famílias para férias. eu estou até fazendo uma canoa Então vem outra língua como o português. pensando em preservar a ficar.

em onze municípios de cinco estados da fede- documentos nacionais que dela decorrem. com o o mesmo benefício.indd 146 5/31/12 2:43 AM . 2006. uma inovação jurídica em nível mundial. da região. Baniwa. em um momento em que tentávamos visu- cional do Brasil. e Fui atuar como professor do Curso de Magis. Foi naquele curso. lugar de Atuei em praticamente todas as etapas daquele autoria de uma reforma social nacional de amplas curso. convidado pela antropóloga Marta Aze. que havia conhecido quando assessorava autoria dos alunos e parceria com a Secretaria de projetos de educação indígena do Cimi – Conselho Estado de Educação do Amazonas. 146 088a187_CORR_V1. tentando mostrar aos professores a neces. de todos os alunos indígenas foi. seguimos publicar o livro Terra das Línguas. língue como é São Gabriel. Tukano. por a primeira do gênero no país. dimensões e da geração de um modelo de gestão sidade de afirmação do espaço de uso das línguas municipal das línguas. o da Língua Brasileira ra dos Vereadores em 2002 e regulamentada em de Sinais – Libras. em organizações como o Mercosul alizar o futuro funcionamento de um espaço pluri- ou a Comunidade dos Países de Língua Portugue. como o das línguas de imigração. quase não havia outros. A disciplina de linguís- Gabriel da Cachoeira quando era secretário de tica do Curso de Magistério. inclusive com a projeção interna. Naquele e que pressupunha uma leitura coletiva. Hunsrückisch. pela qual tempo. a educação indígena era o grande lugar um leitor que conhece certas línguas ajuda outro para formular políticas linguísticas da diversidade que não as conhece. promulgada pela Câma- o do bilinguismo de fronteira. de sistemas educacionais efetivamente bilíngues e Pomerano. que ram às políticas linguísticas. so social que levou o Brasil a ter hoje [2011] oito gio muito incipiente no que se refere à construção línguas cooficiais – Nheengatu. ficou estagnada em um está. Talian. que abre novas frentes para o reconhecimento do tério promovido pela Prefeitura Municipal de São multilinguismo brasileiro. ração. Tukano e Baniwa. andar da carruagem. engatu. logo na primeira etapa. Indigenista Missionário – nos anos 1990. assim. com a participação Educação Gersem Baniwa. Foi no âmbito daquele curso que con- meira vez. origem do proces- uma série de razões. em 11 línguas. ESPAÇOS DE FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS LINGUÍSTICAS NO ALTO RIO NEGRO G ilvan M üller de O liveira Foi em 1997 que fui ao alto rio Negro pela pri. tornando-se inclusive nasceu a ideia da Lei de Cooficialização do Nhe- mais dinâmicos. e recebe como contrapartida no Brasil. enquanto isso a educação indígena. o chamado Magistério I. com vedo. Alemão e Guara- interculturais. Mais tarde. muitos outros setores se abri. como prescreve a Constituição e os ni. A lei de São Gabriel foi sa (CPLP).

na medida em que as Higino Tenório e outros líderes da comunidade contradições eram discutidas. o que per- se descortinava. deixar a língua morrer. o que vam em média dez dias ou duas semanas. de a escola não trabalhar com as disciplinas esco- Fiquei fascinado com o ambiente que então lares. subi o Uaupés e o Tiquié pela contribuíram igualmente em oficinas sobre o en- primeira vez até São Pedro velha. nos 147 088a187_CORR_V1. ameaçada pelo tukano. que tuyuka. Se por um lado havia o fato in. mas com projetos de pesquisa.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Aloisio Cabalzar. e de outros cursos que têm saudoso amigo e etnomatemático Maurice Bazin. sino de português como segunda língua e sobre a va-se Higino Tenório e onde começamos este tra.indd 147 5/31/12 2:43 AM . REGIÃO . Minhas intervenções eram em português. que funciona nas três línguas coo- zes a São Pedro. mite a necessária flexibilidade para que a língua contestável de que a língua tuyuka estava muito tuyuka possa ser tão central. 2005 Apresentação de trabalhos dos alunos da Escola Tuyuka. com recentemente falecido. Fui inúmeras ve. tável da Ufam. proposta pedagógica da escola – um dos pontos balho de formulação das políticas linguísticas da fortes do Projeto de Educação – dado que é o fato Escola Tuyuka. orga. tal qual o desano e ainda A participação de toda a comunidade nas ofi- mais o tariano. nos ensinou a trabalhar de forma bilíngue. Outros colegas do Ipol quem. Reforçava as delibe- mais a sua língua étnica. era também verdade que rações que eram tomadas. ocorrido no ambiente plural do alto rio Negro. muitas delas acompanhado pelo ficiais do município. e que muitas crianças não falavam cinas teve um papel central. mas imediatamente traduzidas para o tuyuka – Passamos a atuar através de oficinas que dura. num processo de tinham muito presente esta preocupação de não ir e vir. linguística e culturalmente – pelo Higino. onde encontra. em seguida. com participação da comunidade No primeiro curso conheci Flora Cabalzar. hoje estratégia central da Licenciatura em iniciava o Projeto Educação Escolar Indígena do Rio Políticas Educacionais e Desenvolvimento Susten- Negro em parceria com a Foirn. e toda nizadas por Flora Cabalzar dentro do Programa a discussão que realmente importava ocorria em Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA).

Tuyuka que o sistema de acentos gráficos para os a entrada do tukano. Chamamos a isso de pacificação da escrita. do ouvido (acho que a esta altura a Flora já sabia Ocorrendo toda a discussão em tuyuka. tons. bem como antes do al. -falantes que acompanhávamos a oficina. dos Kubeo aos Kotiria e dos Tuyuka aos De- pois tive a oportunidade de propor em muitos ou. assessorados por linguistas dife- efeitos puramente fonéticos na escrita e. 148 088a187_CORR_V1. não precisam marcar os tons. da manutenção do sistema de queria participar com uma piada. ências na história da Escola Tuyuka. própria da escola brasileira.indd 148 5/31/12 2:43 AM . Igualmente. Uma das práticas mais interessantes. entre católicos lido: tinha que ser escrito em tuyuka. fomos atacando outras questões. que de. que refletem muitas vezes idas e vindas que descrito neste breve texto). escrevia um recado e o colocava numa caixa em língua que teve atrasos importantes na sua di- cima da mesa. os muito mais a vontade de missionários ou linguis. Estas práticas concorreram Uma das primeiras foi o estabelecimento de para o espraiamento rápido da capacidade de es- um alfabeto consensual e amigável ao usuário. a par. que fazia a comunidade rir muito du. Paralelamente. propus que não marcassem do rio Negro. tão rante a leitura. Taracuá. que esta e outras práticas tornaram claro para os quanto era discutido o estado de perda da língua. Estado brasileiro. Pacificada a rante anos ou mesmo décadas em disputas sobre questão do sistema de escrita (claro que com mais o sistema de escrita. As mensagens eram lidas no inter. como foi possível constatar na etapa de pensado este sistema. Só havia uma condição para o bilhete ser docentes estaduais e municipais. de acordo com esta ou aquela te. Recuperar. escola em função das disputas gráficas entre moço. sano. que são passo – os âmbitos de uso que haviam sido perdi- tonais. sem línguas pouco escritas. fusão escrita e no seu efetivo aprendizado na valo da manhã e da tarde. com grande sucesso. Advoguei na época. falar tuyuka ou pelo menos entendia). Todo mundo e protestantes.ESPAÇOS DE FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS LINGUÍSTICAS NO ALTO RIO NEGRO quais o português (como o espanhol) tem o esta. o papel do português. usar a língua oria. adiantar com os Tuyuka neste aspecto da vida com Higino e demais professores. que os falantes da língua – sempre muito caro a um linguista. praticamente todos os povos Tukano Orientais dades. gente escreveu tuyuka pela primeira vez e creio sultados eram de outra ordem. Durante o dia quem quisesse consensuar uma grafia também para o tukano. foi a do correio elegante ou marcação dos tons. o sistema de tons será marcado com um sistema Fico muito contente que o que foi possível de acentos gráficos ou não. já que Esse importante passo teve amplas consequ- muitos povos indígenas ficam convulsionados du. uma das questões que logo se coloca é se dos no processo de tukanização. rígida de ensino baseada na cultura do erro. porque conhecem a naturalmente – foi validado anos depois para língua e o contexto resolve as possíveis ambigui. que tive a oportunidade de assessorar. Lá. gua. ESCOLA TUYUKA . do que as necessidades de uso dos falantes escrita para registrar seus conhecimentos filosófi- das línguas. crever na comunidade. confundido por muitos com o sistema de líticas linguísticas glotofágicas dos salesianos e do marcação gráfica de tonicidade do português. todos os grupos presentes adotaram um tros contextos de aprendizado de letramento em sistema de escrita mais amigável ao usuário. uma marcação de acentos tonais e de uma postura brincadeira. ao pé tuto de língua auxiliar. Tuyuka puderam dedicar-se ao que realmente in- tas de fazerem passar a sua concepção de alfabeto teressava: produzir livros e outros escritos na lín- e de ortografia. en. finalmente – e passo a No caso das línguas tukano orientais. alfabetizar as crianças na língua. as po. uma fofoca. não era imprescindível. não. Ali muita ticipação da comunidade e a consistência dos re. polo de imediatamente. cos e científicos. e que era traduzida para nós. o colocamos em prática janeiro de 2011 da Licenciatura da Ufam. uma vez rentes. o que ajudou finalmente a caixinha de correio.

no 149 088a187_CORR_V1. caso da Escola Yupuri e da Escola Yepa- irreconhecíveis a partir das suas categorias histó. nhecimentos indígenas nos seus próprios limites e Como Higino relata nas suas memórias. que tem já agora dez anos de funcionamento porque formatam e moldam os limites entre os com esino via pesquisa. periência coletiva de geração de um modelo in- namento social. projetos não-disciplinares. iniciados nos livros de Pe- o que não acontece quando a escola adota o siste. a ex- especificidades. polis.indd 149 5/31/12 2:43 AM . da Flora. onde hoje estu- tal e que não permite representar. como geografia. a formas mais avançadas de autonomia amerín- guajar próprio do funcionamento escolar e legal. pela vonta- nizados a partir de perguntas dos alunos e estímu. A escola com as disciplinas deres oriundos do primeiro Magistério Indígena. os co. Bilíngues de Fronteira do Mercosul. em contraposição ajudava a formular e legitimar isso tudo num lin. do brasileiro permite aos povos ameríndios sobrevi- Bazin. A língua pôde tuguês. -Masã do Uaupés. com o poder..RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Um segundo ponto a ressaltar diz respeito ao permitindo que o sistema avançasse e dialogasse desenvolvimento de uma cultura escolar de ensi. oriundo dos embates o currículo e o projeto político-pedagógico da das suas histórias de vida e da dor militante causa. em que as escolas in- teca cair. como sistema. e fizeram derivar colocar neste lugar escolar. As disciplinas ocidentais são uma tercultural bilíngue dos Tuyuka serviu de modelo forma eficiente de destruir os conhecimentos para vários outros movimentos escolares no alto indígenas na base. assim.). projeto político de futuro – do futuro possível no As oficinas juntaram esse programa que estava quadro da autonomia muito relativa que o Estado nas suas cabeças com uma assessoria – minha. na sua potência e no seu funcio. As a EJA (Educação de Jovens e Adultos) de Florianó- disciplinas são o túmulo da educação indígena.. Tuyuka foi pioneira na integração de vários ele- A Escola Tuyuka conseguiu estruturar. passo a mentos que nunca tinham funcionado juntos. língua separada de todo o resto. No contexto brasileiro. sistema escolar aparentemente ex-nihil. A Escola talvez gostasse de usar. mas apenas têm uma ou duas para o sucesso da escola. que finalmente se fundem num que ela veicula. do Aloisio e de tantos mais – que ventes do processo colonialista. dia que encontramos no Nunavut canadense. passo. permitiu que a cultura tuyuka de aprofundar meus estudos sobre a metodologia estivesse representada de forma forte no currículo. história separada da assessorar sua aplicação em vários contextos. que tive a oportunidade los dos professores. e que foram animadas por lí- ricas de formulação. uma forma de apagar e tornar em que questões de política linguística puderam inoperante a êmica da epistemologia indígena. escola (PPP) de uma política linguística e de uma da pelo desaparecimento paulatino da língua e do política cultural. estas escolas decorrentes da experiência ser central porque as lideranças e os professores Tuyuka colocaram as preocupações com a cultura tuyuka tinham um programa cultural próprio para e as línguas em primeiro lugar. na escola. o que fez a escola periência de ver e participar do nascimento de um passar a trabalhar com projetos. com muita discussão por parte das comuni. um currículo que pôde dar lugar central dígenas raramente são bilíngues. desagregando-os em formas rio Negro. REGIÃO . Os projetos. dades e com uma liderança que não deixava a pe. orga. de política de um povo. embora sejam à língua e à cultura tuyuka. Isso contribuiu muito assim chamadas. e pude a partir de então ciência separada da filosofia. e consequentemente. ter uma centralidade que impactou positivamen- para usar uma terminologia que um antropólogo te o desenvolvimento destes processos. horas de aula de língua indígena num mar de por- para a reversão da perda da língua. Também foi depois daquela rica ex- no via pesquisa que foi adotada. dam quase dez mil crianças em quatro países. ocidentais é. dro Demo e das escolas que funcionam através de ma de disciplina (matemática separada da ciência. e as Escolas Interculturais conhecimentos de uma forma puramente ociden. do Ensino via Pesquisa.

resumidos. história que ficou registrada no livro Concluíram. Para que esta decisão pudesse ser implemen- o que será feito numa e noutra língua. que era e o papel do espanhol. cabendo estas de- que língua a escola vai iniciar – era importante de. proposta esta perfeitamente de da na compreensão que conferiu à língua tuyuka acordo com a legislação sobre a modalidade es- o lugar central demandado pelo projeto cultural colar indígena. suas vidas tinham aprendido o português. ficando o Um exemplo disto foi a rica discussão que português para a segunda metade. as crian. ensino fundamental praticamente só em tuyuka. produto natural e que descortinou os modos de apropriação do de 20 ao quadrado – vinte. Maurice foi um articulador extremamente sensí- to da própria língua. ESCOLA TUYUKA . e que isto foi bom para o desenvolvimen. e não em tenra José Barreto Ramos e Higino Tenório. como é coerente que seja num país com modalidades pelas quais a segunda língua entra – e tantas culturas indígenas diferentes. que ela estava ali. É neste complexo papel que me lembro mais guês. a unidade numé- e do serviço militar. histórias de batelões das minhas mãos e dos meus pés. ou. da ida para a Colômbia Bazin mostrava. permissão aos Maias e Astecas. e sem aquela emo. e as escolas. As discussões foram muito acaloradas. sem pedir mentos traduzidos. senvolvida uma grafia. xão que gera a compreensão tuyuka do mundo Definido que a alfabetização seria feita em e permite sua relação com o mundo simbólico tuyuka veio uma das partes mais estimulantes do ocidental. pona Bueriwi. nas experiências dos novos que a primeira metade do ensino fundamental estados boliviano e equatoriano. exploradas por pergun. o francês liber- posições muito diferentes. que ele tomou. Mais tarde. colocada por muitos processos sociais. viajante por muitos países e tas da assessoria. para firmar o modo de vida vel e inteligente do que Boaventura de Sousa San- 150 088a187_CORR_V1.indd 150 5/31/12 2:43 AM . e já decidido que se trabalharia por projetos. que diz que a escola deve ser bi- subjacente. cisões ao PPP (Projeto Político-Pedagógico) das finir que se alfabetiza em uma língua apenas. mas em uma delas ocorreu a vira.. o conhecimento do branco. dos padres e seus castigos rica integral da base 5 própria do sistema tuyuka. ções próprias da cultura tuyuka. debate: em que momento deveria entrar o portu. então. o número de dedos português pelos adultos.ESPAÇOS DE FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS LINGUÍSTICAS NO ALTO RIO NEGRO Cauca colombiano ou no Chiapas mexicano. as quatrocentas fias linguísticas – numa sequência impressionante varas para o telhado da maloca. a simetria dos brotos das plantas. professor do português já na adolescência. idade. portanto. seria feito prioritariamente em tuyuka. para esta matemática de base cinco havia sido de- ças inclusive. expresso em tuyuka. Seguiu-se a questão. entrar também o tukano (língua veicular) além do cabia ajudar os professores na explicitação e regis­ tuyuka (língua pública da comunidade) e do por. para fazê-la renas- ção que o momento deixava patente na narrativa cer pela mão das crianças tuyuka nas margens na própria língua. do rio Tiquié. Flora Cabalzar. as estrelas e as constela- Seguiram-se muitos relatos de vida – biogra. e tantos outros contextos. em determinou o lugar das línguas no currículo do outro momento. que todos tinham aprendi. língue. se deveria tada. de cuja riqueza recebíamos frag. quando se falava tuyuka. Keore. mas não define de antemão nem em que A discussão tratava da tradicional pergunta: em níveis e nem em que funções. em que momento o português entrará. possível outra matemática. tro dos conhecimentos indígenas. entre tantas coisas.. a prática levou a uma escola de ensino fundamental da Escola Tuyuka – Utapino. com do entusiasmo de Maurice Bazin. tário e físico nuclear. ensino médio. Esta discussão foi conduzida em cabendo ao português um papel importante no várias etapas. na autorrefle- tuguês (língua oficial do país e língua de abertura). que acompanhados por toda a comunidade. discutindo o modo aos adultos. organizado por ele. Nasceu assim a proposta de em nível mais amplo. a delimitação das roças. sobre como e em que momento das de fazer canoas.

pelo português na expansão do Império Ultra- perar a ostensiva política de redução dos idiomas marino Português. ro de dar dignidade à visão de mundo de um povo. política do bilinguismo oficial tétum-português saparecimento sem memória. primeiro encon- Mais do que tudo. amplas consequências para seu povo. ao papel de dialetos. que toda política linguística desemboca Escrevo este texto voando de Maputo. 151 088a187_CORR_V1. em São Paulo. persistentes nas suas metas. oportunidades de compartilhar o que aprendi na- so no Polo de Taracuá. REGIÃO . em 2008: “As Línguas Importam!” Sistema do Uaupés como línguas de atuação. a oficialização municipal da lín- contar com uma nova instituição. e o tuyuka e as demais línguas do da Unesco. condenadas à dissolução e ao de. capi- numa política de conhecimento: é o modo primei.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS tos chamou. e vejo com alegria o crescimento como língua de instrução. num certo ponto as duas coisas se tocam. e respondi sem pestane. Lá estavam as experiências de indígenas à indigência. quando a escola efetivamente tro de gestores das línguas que foram envolvidas colocou a língua à frente. mas o seu sistema escolar através do Ensino via Pesqui. dade. resistentes que foram e que são. guas brasileiras e do mirandês em Portugal. embora nunca tivesse feito esta pergunta des. as políticas para os cidade. e comunidade de saberes que a escola ia aos poucos generosos em compartilhar com os outros povos conformando. passando a terra arrasada do colonialismo europeu. com con. crioulos de base lexical portuguesa em diferen- A primeira aluna da Escola Tuyuka. sobre o aumento da produção local. uma vez Marta Azevedo per. onde resido. fato de Tuyuka. Tuyuka venceram cavalheirescamente. tal de Moçambique. Claro que novos perigos uma política linguística. gírias educação bilíngue em Angola e Moçambique. o meu muito obrigado. do ensino tes partes do mundo. velhos cultu. da União Africana. aos livros e a um crescente bem oficinas de pesquisa com a comunidade dos anjos. Hoje Maurice estará no Céu. sobretudo para a realize o lema do Ano Internacional das Línguas bibliografia. rondam e rondarão a língua. e muito especialmente ao Higino Tenório. fundamental ao ensino médio. em seus livros. tenho tido novas especificamente à Licenciatura Indígena em cur. o aporte das organizações de uma articulação política mais ampla. Permitiu aos Tuyuka do Timor-Leste. e criativos culturas. Uma destas consequências é que o processo de a ser construída para o bem de toda a humanidade tukanização foi revertido e a língua tuyuka adqui- sobre os escombros da política epistemológica de riu de novo prestígio e funcionalidade. coordenando conhecimento. para Cabo Verde. ponto focal radiofonia plurilíngue. e majoritariamente em língua tuyuka. mas esta batalha os jar. chegou no ano de Catorze anos depois que tive o privilégio de 2010 à Universidade Federal do Amazonas. a Diversidade Linguística na CPLP. É Claro. com muito para trocar na constituição da nas suas estratégias. mais começar a atuar com os Tuyuka. Portuguesa (IILP) realizou naquela cidade. Pois. Aos sa. de ecologia de saberes. os aprendizados que re- guntou-me. o Colóquio de Maputo sobre e o futuro. via Lisboa. acentuado da consciência e das ações para que se nhol como línguas auxiliares. mais do que as línguas importa a vida oriunda da primeira turma de alunos a fazer todo das comunidades e das pessoas que as falam. no que desembocava alizaram neste percurso. o presente margens do Índico. o português e o espa. que lhes propi. Colocou em evidência os Tuyuka no alto rio rais que eram (e são). sábios das suas respectivas Negro. mostrou ser possível su. te modo.indd 151 5/31/12 2:43 AM . da região e até fora dela. antigo e ser uma língua escrita e associada à produção de atual. que tem a língua tukano quelas jornadas. conectando o passado. a sem potência. O Instituto Internacional da Língua conditio sine qua non para sua política de existência. estar social coletivo para os membros da comuni- Higino e Maurice ficaram amigos. traditando e identificando. internacionais como a Academia Africana das sequências sobre a reversão da emigração para a Línguas. nas A língua à frente. a ciasse as rédeas do seu projeto de povo.

5 ENSINAR MATEMÁTICA E CIÊNCIA INDÍGENAS M aurice B azin (1934 -2009) 1 fazem. escravizante e escolarizante. chegando Ser professor é saber aprender descobrindo assim à descoberta tuyuka dos processos de evolu- junto com os outros. Hoje existem respeitosas Abrir os olhos criticamente para o que é seu.br/) na região do alto rio Negro em assessoria à Escola Tuyuka. para redescobertas ligiosa. ex. Investigando com as mulheres os ciclos de Como aprendi do povo Tuyuka produção e preparação da mandioca. à historicamente insistente penetração militar. Elas reconhecem para as culturas indígenas priedades físicas e conceitos matemáticos utiliza. aprender fazendo.indd 152 5/31/12 2:43 AM . 152 088a187_CORR_V1. de contato esmagador. no saguão de uma univer- aprende-se a escutar as pessoas que sabem porque sidade ou no botequim. e do planejamento de atividades que ele mesmo pôs a circular entre alguns professores e formadores do rio Negro. é para ajudar a melhor A atuação relatada neste texto e proposta mergulhar.org. São os pelas mulheres centenas de anos antes de Alfred próprios alunos que descobrem o mundo. ciada”. às vésperas da etapa de 2007 do II curso de Magistério Indígena. uma maneira de no conteúdo das perguntas que a grande maioria aprender juntos na sala de aula e fora dela. dentro da cultu. como Wallace inspirar-se no próprio rio Negro e Darwin funcionam as coisas e as pessoas. pro. após sua segunda viagem ao rio Tiquié (http://www. direito a territórios próprios e à educação “diferen- perimentando com o que se constrói de verdade. para autodescobertas. Também das pessoas me fazem. Mas aquele respeito não se reflete no tom e isto é o que se vive em oficinas. o direito de viver e as outorga consequentemente dos por todas as civilizações. conscientemente. Ser professor é ser um autofortalecimento das culturas indígenas frente modesto catalisador das iniciativas para desco. para trazer coisas de fora. colocados em prática as pesquisas dos alunos na comunidade. a partir de um relatório escrito por Maurice Bazin em 2002. intenções escritas na Constituição brasileira de reconhecer. como semente pedagógica numa “diferenciada ra da comunidade. é também saber orientar ção e seleção nos seres vivos. comercial. registrá-la e reforçá-la com a educação escolar indígena” pretende contribuir ao participação das crianças. à da riqueza das criações intelectuais e materiais da qual cada povo foi submetido nos tristes 500 anos comunidade na sua cultura própria. Professor não é publicar a teoria da origem das espécies. 1988. re- bertas. nas coisas concretas já fabricadas. ao saberem que acabei 1  Este texto foi editado postumamente por Flora Dias Cabalzar.ipol.

estão definindo o uso que podem fazer daquela você a ensina. você alfabetiza as crianças com ela. para si mesmos ou apenas para lhes do seu interesse. que proponho a outros educadores ta amazônica” em vez de Terras Indígenas demar. ainda o pretendido perito em línguas dos outros diferenciada do rígido monumento alheio de “ciên- que decreta “errada” toda ortografia indígena que cia e matemática” construído pelos brancos. não siga todas as rígidas convenções fonéticas inventadas por pesquisadores brancos descom- Sua língua é sua prometidos com a vida indígena. trabalhei alucinógenos dos cipós utilizados em cerimô. ou refa de “formá-los”. como eu. insere-se no que Amilcar cadas. os candidatos a mestrado de universidades da Vir. criando assim uma educação formal própria.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Acervo ISA Maurice Bazin de voltar do que eles chamam de “fundo da flores. portanto. Ela é indígena. E encontramos úteis. através de exemplos de estudando e experimentando com os princípios atividades. né Bissau antes da obtenção da independência lização direta de artesanato. encontramos ainda nacional pela luta armada. construir na sua língua conceitos conferir um canudo acadêmico. Com ela 153 088a187_CORR_V1. O texto a seguir se dirige aos professores indí- gínia ou de Santa Catarina.indd 153 5/31/12 2:43 AM . Ao mesmo tempo em que alguns brancos Cabral chamava de “resistência cultural” quando ou suas ONGs estão apoiando escolhas próprias criava um sistema educacional novo nos territó- de cada grupo linguístico para poder escrever sua rios libertados do colonialismo português na Gui- língua com facilidade ou organizando a comercia. Você a usa. Minha prática. num contexto ainda invasivo que os povos indígenas A sua língua é sua. Mostra. viver de coração aberto. estudando a língua de um povo. É. REGIÃO . você e toda sua comunidade a escrevem. na posição docente. oferta constitucional de “educação diferenciada”. na comunidade para juntos encontrarmos coisas nias rituais. em linguística ou em genas e às pessoas que aceitam a delicadíssima ta- bioquímica.

a ciência maternas e paternas contidas nas coisas vem em território hoje francês na Guiana. Para 50% da mática na qual o mundo “global” externo se apoia população atual da Califórnia. desenvolvidas tava” português. as suas técnicas são suas. paterna ou Sua ciência é sua. dor de fogo. suas redes. depois de ter sido alfabetizado tecnicamen- isso. bricam os cestos cargueiros que todos os outros A impossibilidade de ter êxito ao forçar a primei. Você as usa. as passa de geração em história. mas falava apenas suas línguas por outras pessoas. fazem e constroem. atrelados à ideologia neocolonial. como aconteceu (um índio adulto lembrará que até a língua de instrução. apesar das pressões na. Mas o português é língua estrangeira para os betizar-nos todos técnico-cientificamente. para po. redes- índios que vivem em território hoje brasileiro. seu abana- É na língua da comunidade que se “alfabetiza”. Aquela técnica é deles. seu tipiti. lembramos Com essas técnicas vocês mantêm a sua vida dois fatos. Cada um as aprende matemáticos franceses dedicados à generalização quando precisar. É nesta língua. vras suas. devemos ir buscar um modelo para ensinar mate- quando já se tem consciência da necessidade de mática e ciência entre indígenas. volvimento”. Precisamos alfa- usá-la. Elas a escrita e a leitura. homens e mulheres indígenas preci. português nos livros didáticos “oficiais”. 4a série.indd 154 5/31/12 2:43 AM . cais. a primeira (e única necessária) alfabetização te nos conteúdos matemáticos e científicos da sua é oferecida em muitas línguas desde espanhol até própria comunidade. que se estuda. técnicas indígenas que mantêm a vida. ao longo da vida. geração. dos conteúdos das suas próprias técnicas. somente conseguia Na interação com outros povos. quando terá necessidade étnicas recém emigradas nos Estados Unidos. está formulada em gua estrangeira aprendida como segunda língua. a partir chinês em escolas públicas. seus brinquedos. No alto rio Negro. brem que existem outras técnicas. É nesta língua que se discute a são indígenas. ESCOLA TUYUKA . ficou distorci- mundo do branco invasor das terras e das mentes da e caricaturalmente formal nas sucessivas tradu- indígenas. “Escu.ENSINAR MATEMÁTICA E CIÊNCIA INDÍGENAS vocês vivem a sua vida. ao longo dos níveis de esco. É uma ou- ra escrita/leitura numa língua diferente da língua tra língua técnica. como cobrindo juntos (e isso é ensinar) a matemática e o francês é língua estrangeira para os índios que vi. cada um larização formalizados à sua maneira. missos frente ao pensar específico de um grupo de sam conhecer outras línguas. povos utilizam. seus cestos. branco invasor você precisará conhecê-lo no mo- sidades da Califórnia onde vivem várias “minorias” mento educacional certo. falada na família foi comprovada em numerosos Para enfrentar o mundo todo tecnologificado do estudos de departamentos de Educação de univer. é necessário ensinar também Não é no fim do mundo além-Atlântico que a língua portuguesa no momento escolar certo. Para quem esta ideia é nova. 154 088a187_CORR_V1. dependendo dos povos. Os conteúdos A suposta “alfabetização em português” nunca daquelas técnicas se ensinam na sua língua. Para enfrentar o formal de todo e qualquer conceito. Não cacional dito indígena. mas concedido pelo mundo pode servir na educação indígena. vocês desco- dizer “bom dia padre” e não escrevia frases. os Maku fa- familiares). na sua própria língua. de fala portuguesa. foi colocada Para se comunicar com outras comunidades e no ensino europeu por educadores europeus sub- quando casar. A mate- cionalistas para impor a língua inglesa.. Sua matemática é sua materna.. Por de uso. que se introduz Como sua língua. Você as ensina na comunidade. para poder negociar com ele. fabrica sua canoa. a língua inglesa é lín. mesmo apanhando. lá. contam e registram a sua cultura. ções e adaptações que sofreu nos livros didáticos der reconquistar a independência administrativa e tanto europeus como dos países ditos “em desen- ideológica necessária para controlar o sistema edu. material e registram a sua cultura. seus instrumentos musi- no ato de expressar e registrar o mundo com pala. é uma linguagem estrangeira.

e que queimados pelo primeiro bispo daquela região. Outro livro indispensável de construções ou decorativos (de fazer “geome. de estabelecer regras e “provas” para os mais praticar o que apresenta. considerar o que dizem os livros dos colonialistas: participamos. “A África Conta”. como fazer trocas e migrações ao longo da história da huma- nidade em toda sua diversidade. ra. portanto. que existe uma riqueza própria em lavsky. de grande precisão sobre os eclipses de sol e lua Cheguei. no mundo inteiro. isto 700 anos antes dos europeus co. portanto. tuyuka no caso pre- ros era de posição e utilizava um símbolo especial sente. título “África Counts” aconteceu em 1970 e foi uma mínios chamados de “Matemática e Ciência”. nos do. fessor foi de solicitador de material para estudo.. dê rumos mais claros para o ensino-pesquisa de Que um destes livros contém tabelas astronômicas conhecimentos matemáticos”. libertada tanto do seu formalismo pedagógi- meçarem a usá-lo. Cada pessoa edu- estudo e pela prática de uma pesquisa coletiva na cadora deve ler o livro da professora Claudia Zas- comunidade. que avance também como melho- dos conquistadores europeus chegarem. a partir de fibras entrelaçadas de maneiras muito bem definidas e classificáveis (na cestaria). que nos permitem munidade a se autodescobrir. ir passar um primeiro período de dez dias numa tões de matemática. co como da sua “grade curricular” encarceradora. eu não trouxe nada além não de dez como a dos indianos. pelo metidos à colonização europeia. “diferenciada” da educação escolar brasilei- para o zero. em meio indígena deve saber que o povo indígena na matemática precisamos começar um trabalho Maia.indd 155 5/31/12 2:43 AM . volumes. (OMC). cada educador comunidade tuyuka do alto rio Tiquié em 2001: “. Por exemplo. e a partir do qual é também indispensável tria”). Que a base de numera. cujos descendentes formam parte do movi. tendem nos globalizar até a extinção das nossas assessora da Escola Tuyuka no Projeto de Educa- diferenças criativas.. de fazer medições matemáticas das populações indígenas da África de distâncias. da continuada criação de “índios contam até 3 ou 4. áreas. Meu papel de pro- prever os eclipses de hoje. Que torne claro o ca- braram apenas três livros dos milhares que foram ráter interdisciplinar dos temas de pesquisa. de produzir superfícies e volumes Paulus Gerdes. de contagem. REGIÃO . ria da qualidade do ensino. respeitá-las. um estilo de trabalho que envolveu toda a comu- 155 088a187_CORR_V1. Nesta “educação indígena”. a ser en- mento indígena Zapatista de Libertação no esta. consistente de pesquisa com os tuyuka. criou nos que tiveram que reconhecer a existência das sua própria maneira de contar. cuja edição original com o cada indivíduo e em todo povo indígena.. E que a notação usada para escrever núme. caminhado pelos professores e interessados das do de Chiapas no sul do México. Mas a matemática Para dar um exemplo de como proceder.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Cada educador em meio indígena deve apren- Ser educador indígena der as variadas maneiras de “fazer matemática” Cada professor indígena e cada formador de desenvolvidas pelos povos antes de serem sub- professores indígenas precisa convencer-se. utilizada pelos Maia era de 20 e mundo exterior branco. e depois dizem muito’”. Flora e eu. de ler. Houve O que fazer. depois aos portugueses e agora domina temático-científicas que. cada civilização.. é meramente uma expressão ção (Instituto Socioambiental e Foirn). Cada revolução nos meios universitários norte-america- povo. com a meta de ajudar a co- e sobre as posições de Vênus. Aquilo deve nos ajudar a re. achei útil no mundo da Organização Mundial do Comércio remexer a partir de e no seio da cultura local. aqui dos europeus de hoje. ao detectá-las. Do ção. antes de particular e reduzida do pensar humano em ques. está a meta que me foi dada por Flora Cabalzar. que chegou aos da minha honestidade frente ao valor de ideias ma- árabes. tinha livros antes comunidades. a matemática dos que pre. é: “Desenhos da África” por variados jogos. de criar desenhos e. Que so.

“menor”. com os tamanhos dos peixes que se pretende pe- guês. dando exemplos tirados da específica. os peixes que apanham na outra. É aqui que o formador de profes- tuyuka. que conversassem entre si. das suas concretizações. sim. “filtrar para cima”. uma espessura de 1 dedo”. Se discute capam. “filtrar para bai- fabricam. nho adulto) que conseguem apanhar e os que es- jeto de registro mais e mais detalhado. No nosso caso da investigação tais espessuras finais a partir de um tronco inicial.ENSINAR MATEMÁTICA E CIÊNCIA INDÍGENAS nidade (durante cinco etapas ao longo de quatro o tamanho de uma malha esticada utiliza-se de anos). ESCOLA TUYUKA . A conto aqui porque ela surgiu dos ques- como são fabricadas as redes de pesca. Ao outros estudos de etnomatemática. o professor indígena precisa ter al- de técnicas de construção aparecia algo que se guma formação na qual estes conceitos (que são conta. Depois enri. em outros 156 088a187_CORR_V1. Aparece. a coisas abstratas e os alunos apenas repetem es- “A canoa de 5 bancos tem espessura de 3 dedos. de fato não tem quando apresentados sem razão quece-se a conversa ao descobrir como se obtém prática de existir. conhecer sua universalidade atrás da diversidade noa precisa-se de algum instrumento de medida. novo a largura de um dedo. registrando assim conjuntos de quaisquer coisas. numa canoa. dos tamanhos das malhas das redes. organizamos Todo o processo de fabricação e de determinação sistematicamente as redes e os peixes (de tama- da espessura da parede das canoas se torna ob. precisa estar de acordo sobre alguma unidade a Esta atitude pedagógica é totalmente diferen- ser utilizada para contá-la e “medir” a dita espes. e o “sucessor” de A de 4 bancos. utilidade imediata no alto rio Tiquié saber essa Um grupo da comunidade decidiu apresentar história. na língua com as crianças.indd 156 5/31/12 2:43 AM . de pantes trazerem objetos úteis que eles próprios “maior”. Nelas dá-se nomes formais como unidade de medição para esta espessura. uma espessura de 2 dedos. Apontei que achava que. os professores e os alunos da Escola Tuyuka. te do que se pratica nas congeladas salas de aula sura. são proce. Esta possível “ordenação” corresponde a uma matizando na escrita tuyuka no quadro negro o operação matemática fundamental para estudar que se descobria. gar. tes nomes (o “precursor” de 4 é 3. eu conseguindo intervir denar” as várias redes e também correlacioná-las graças ao apoio das pessoas que “escutam” portu. Pode não ser de grande dimentos matemáticos. e 3 bancos. Apareceram cinco padrões. como pode. A de 5 é 6) que parecem não ter nenhuma utilidade. o que significa ter encontrado estes conceitos em até quando conversadas na língua tuyuka). nossas oficinas. Pudemos então “or- Tudo na língua tuyuka. temáticos franceses criaram as palavras gerais “por que” e “como”. Flora e professores indígenas sempre siste. permite intro- Nas primeiras oficinas pedi para os partici. Então apareceu o se. Para medir matemática dos brancos. sabendo re- querer falar da espessura da parede de uma ca. Fazer tabelas com a construção de conceitos e as propriedades em os possíveis tamanhos das redes numa direção e curso de descobrimento e análise. sores indígenas precisa ser culto em matemática. Assim organizamos e classificamos peixes como avaliar a distância e a posição dos bancos e redes por tamanhos “sucessivos”. duzir as noções gerais de “incluir” e “excluir”. Pedi a nas práticas que serão depois utilizadas na escola eles então. no fazer medições. plos concretos das duas coisas para diferenciá-las. tionamentos que a comunidade me fez durante ram então as varetas-padrão que permitem man. Assim o formador pode chegar a ter constante o tamanho da malha de cada rede enriquecer a pesquisa. se elaborava. algo que se mede. “sucessor” e “precursor”. quer parte do mundo) possam ser encontrados tar e medir com a mesma palavra: keore. sobre como contar e medir (dando exem. Os tuyuka utilizam a largura de um dedo pelo Brasil e fora dele. comuns a todo exercer da matemática em qual- guinte fato linguístico: os tuyuka falam de con. Qual o tamanho da vara? Por quê? Foi para generalizar aquele conceito que ma- O que se mede com ela e por quê? Estes “qual”. em todo uso xo”. Aqui.

na comunidade (bancos. Cada pessoa se deu conta de superar o reducionismo pedagógico dos brancos. requerendo observações contínuas mesmo que cada cultura utiliza para definir sua e repetidas. Mas. que. partir do que os próprios Tuyuka observam e vivem recem na organização das folhas do abacaxi ou a milhares de anos na região equatorial da Terra. a e órgãos das plantas. Ao fazer A construção daquele objeto porta-cuia de as- isto. Aquela poluição. organizar. registrar seus conhecimentos pró. Este processo é o essa atividade. construção manual. REGIÃO . para uma visão reducionista do mundo natural ao nos: uma listagem de plantas. junto com “os velhos” na “sala de aula”. o yuiro é uma bém desenvolvidas e utilizadas. Posteriormente. aquele estudo de num processo da elaboração de uma compreensão regularidades e das operações correspondentes tuyuka do que nós brancos chamamos de astrono- (deslocamento. Todos juntos construímos e registramos procedimento fez todos os participantes exer. não era para ele po diário através da observação do deslocamento que se trabalhava! Os membros da comunidade de sombras no chão e nas bordas de um cesto fizeram aquele organizar e ordenar acontecer na redondo colocado na vertical com um pino hori- língua tuyuka e nomes foram escolhidos e cons. operações”. reiniciar a sua confecção. da mandioca. mundo intelectual dos professores tuyuka já polu- Ao longo dos anos. sementes pria genuinamente honesta (é para isto que serve a e na distribuição espacial dos vários elementos palavra “diferenciada” na “educação diferenciada”). às vezes impede uma redescoberta pró- “simetrias” geométricas nas flores. cunha de entrada gistros feitos pelos próprios jovens nos seus cader. cultura no mundo e na escrita tuyuka para outros citarem de verdade (por terem necessidade de tuyuka poderem viver mais completos. De fato. dar exemplos tirados da matemática muito útil no estudo de objetos manufaturados dos antigos egípcios. fora e dentro da “sala”. acompanhada de confundir educação e escolha entre respostas con- desenhos nos levou ao estudo do que se chama traditórias. que não sabia fabricar aquele objeto. cestos. Vários ou- fazê-lo) sua capacidade de contar na sua língua tros temas envolveram estudos experimentais e de e de operar comparações. mas soube. Cada pessoa. o formador ajudou a comunidade a ana. fabricação e utilização de redes de pescar. ção. a camente exigente. Mas truídos para estas operações. ções de conceitos matemáticos de utilidade construiu o seu yuiro e fez matemática ao mesmo geral a partir de vivências da comunidade. zontal no seu centro para criar a sombra útil. Ele tudo respeitoso e ao mesmo tempo matemati- ajudou o povo Tuyuka a se sentir mais seguro. jovem e “velho”. primeira amarração. redor da Terra”. este tempo. geométrico e de constru- lisar. perdeu-se na parte “ocidentalizada” do “linguagem matemática”. e mente. gerados por retas e tangentes entre si no cipó da Mais importante ainda do que alcançar no. não importava. e a viver atividades matemáticas bem mais ricas num esforço comunitário e tecnicamente criati- do que um treinamento “curricular” nas “quatro vo. olhar para práticas matemáticas de outros povos tornou-se novamente possível através deste es- a partir das práticas da própria comunidade. sabendo agora.) tornou-se mia e aprendemos (se não meramente nos livros 157 088a187_CORR_V1. parte saiu dos re. diferentes conteúdos foram ído pelas perguntas escutadas no mundo branco escolhidos para este trabalho de dinamização do sobre “se a Terra gira ao redor do Sol ou o Sol ao processo de estudo para viver. frutas. por necessidade. rotação. fez também matemática. brinquedos). com sua relação com o “ser tuyuka”. primeiro e profunda. construção de dois “hiperbolóides de revolução” ao estudar os tamanhos das redes. além dos seus valores tradicionais. até no estudo cultural. etc. o que possibilitou pecto cônico. tico-formador não entendia as discussões em Outro tema estudado foi seguir o passar do tem- língua tuyuka.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS momentos. O professor-matemá. reflexão.indd 157 5/31/12 2:43 AM . aquelas operações foram tam. como as espirais que apa. do yuiro prios e seus procedimentos no que diz respeito à (suporte de cuia).

também podemos acompanhar os cursistas sistir. São conhecimentos que resultam de problemáticas peito ao ser humano que o sistema no qual opera. conhecimentos próprios de cada analisar. exatamente como nós (formadores de formadores) lando primeiro sua língua paterna. conhecimentos (re)encontra- de descobrir as coisas do mundo. Os professores guiarão seus alunos sabia escrever sua língua. que precisam ser resolvidas. mas precisam ser suas próprias rio demonstrar que as civilizações indígenas têm tan- procuras resultantes dos seus questionamentos. nosso papel na nossa realidade nas latitudes temperadas das consiste em ajudar a desenvolver e utilizar técnicas matrizes dos impérios coloniais. ESCOLA TUYUKA .indd 158 5/31/12 2:43 AM . Daí a resulte da situação do grupo de formandos. conectando o mundo material observado pessoa. à puseram crenças. aconteceram depois desse. Que os próprios cesteiros volta às fontes de observação local verdadeira para possam participar do trabalho de investigação den- construir aquele mundo de entendimento do gran. levantar suas proble- linguística tuyuka. expressas e expressáveis apenas na sua língua. Precisa-se de uma para encontrar respostas. de preferência como material. respeito. Tudo isto que já consciência individual e decisões comunitárias. feitas por antigas gerações. para o céu verda. Outras mais desenvolvimento de certos padrões e não outros. enquanto forçavam seu pensamento sobre os mais Assessores. não de “matérias esco- mos coloca na posição de “aluno”. são construídos a partir de experiências próprias. as emoções. O importante é que seus interesses multifacetados. Este aluno pode lares” ou “conteúdos disciplinares” a serem “passados” ser uma criança indígena. organizá-las e dos. vivendo a criação os guiamos para investigar as suas e encontrar res- de todos os conceitos úteis à vida (a sobrevivência postas a cada etapa de oficina. escravizaram e im- dar poder próprio de sobrevivência a cada povo.ENSINAR MATEMÁTICA E CIÊNCIA INDÍGENAS teóricos) a partir de observações feitas e pensadas individuais superpostos. madurar. ou razões próprias do deiro deles. jovens pela escolarização. Convencidos hoje com o pensamento e criações mentais a seu do valor destes conhecimentos para a vida de todos. ou chegar a de mundo cósmico dentro da vida experiencial e questionamentos próprios. eles precisam desenvolver téc- São muitas coisas que surgem juntas na minha nicas úteis de apresentação. apresentá-las aos outros. to valor que a dita “ocidental” de pretensões globais. Contribuir para Os brancos conquistaram. toda esta iniciati. possivel- professores. hoje ainda parece necessá- nas suas procuras. foi adquirido na primeira infância é o que a situa. A escola do branco e sua metodologia faziam 158 088a187_CORR_V1. pergunta: “em que língua(s)?”. para encontrar as problemáticas de interesse deles. Ao apresentar para outros os resultados da- quela pesquisa feita entre eles próprios (são eles Minha prática educacional no magistério os melhores informantes sobre esta situação. Outras oficinas/treinamentos de máticas de interesse deles naquela época. Vocês fizeram bem em re- cemos. ainda precisariam acontecer. começando com a cabeça: a criança e sua capacidade de curiosidade. fa. este questionamento saia e que a decisão tomada va em potencial que a escola habitual mata. pensando na sua língua. as interações sociais) na sua parte de um continuado processo de tomada de cabeça. Precisamos estar convencidos da existência de ção “escolar indígena” pode fazer florescer. olhando para cima. para supostas mentes va- crianças indígenas. mente de procura de origens. A primeira coisa é o res. da indígena de São Gabriel qual são produto!). mas mesmo assim. portanto. pela sua experiência de vida. informadores a partir do que conhe. pode ser um pai de de um suposto sabedor. muitos saberes. Todos e todas estão dentro da vida indígena. pode ser um “velho” que não zias estudantis. Mas sabemos que não se constrói uma discussão e demonstrar isto na prática para os próprios indíge- e não se encontram respostas a partir de “achismos” nas. chamaram vocês de “selvagens” sua expressão própria na sua língua. tro do seu mundo linguístico próprio. ideia básica de confiar na capacidade da criança Conhecimentos.

mesmo se demonstradamente falido. Mas na situação atual. ou inconscientemente. manter o que é o mais óbvio ainda hoje: a continui- bitual. REGIÃO . mos?”. Rejeito. Todo o sistema branco oficial é quem paga os professores indígenas educacional do mundo branco foi construído para e. mas tos de assessoria conjunta a professores africanos dos muitos participantes em oficinas. E um participante que era também encarre- mos ter bem clara nossa postura. as ideologias em Taracuá que propôs construir uma maloca para que afirmam diferenças e supremacias. decidir fazê-los funcionar. concretiza. conduzidas nos primeiros momentos da independência nacio- dentro da Terra Indígena. Eu parto do mes. Nos- qualquer orientação do mundo oficial branco. Comecei a viver línguas indígenas no livro “Terra das Línguas”. eram do der colocar em questão a pretendida “transmissão tipo: “que coisas africanas têm a ver com esta sala. sa- suas capacidades intelectuais para registrar o que bendo que o presente se construiu sobre o passado. de (re)cons. o Antes de poder agir desta maneira. Precisamos partir do início. legas professores indígenas. à ocupação da minha terra (Paris. na França) pelas do pelo Gilvan através da afirmação impressa de tropas nazi de gente de fala alemã. que interessava e precisava ser definido. o fim da situação de colônia. abriu a importância da língua materna e paterna ao afir- uma nova era de afirmação cultural. do Gilvan ou do Maurice. nas suas capacidades tanto fí. e exploração de muitos por alguns. gado do museu de antropologia. dade histórica da ideologia colonial de dominação Trabalhando e conversando com os nossos co. sejam do responder à problemática de como se construía. na qual nos reuni- tem e os alunos supostamente não têm”. tentar seguir a transmissão numa linhagem fami- do da Constituição de 1988 para fazê-lo. consciente retomada de confiança intelectual indígena con. dos seres humanos. e para po. levou a gente a ver mo lugar filosófico que Paulo Freire: confio no valor os antigos fornos de barro nos quais se fundia ferro. Por isso precisamos. cada um de nós des. precisa. portanto. Estes livros não Compartilhei também com Paulo Freire momen- são obras da Flora. 159 088a187_CORR_V1. nhas referências próprias. Ela afirma liar. na minha língua que ‘eles’ verso das línguas e maneiras próprias de pensar não podiam penetrar. é interessante (para eles e elas) registrar. quaisquer que sejam suas Isto me lembra a iniciativa do professor/estudante origens individuais. Temos o respal. tipo racial (elas são de fato bem superficiais: par- juntos. o mundo capitalistas até ‘grandes’ cientistas.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS parte do pacote colonizador. pensar a partir do mundo cultural de vocês tem do aspecto da superfície. de conhecimentos que o professor supostamente chamada laboratório de física. mar minha capacidade de falar deles dentro das mi- trução da autoestima pela escrita no diverso uni. Tuyuka. A constru. Assim o professor de física que sou (por definição ção do registro é vida válida. Era a mesma resistência cul- dos povos.indd 159 5/31/12 2:43 AM . Conheci na minha juventude a opressão devido cobre como o trabalho no I Magistério. ao aceitar formalizar sua existência desta maneira. quando falavam sua língua cretizando-a com a publicação do livro “Keore” dos no pátio do internato. da cor da pele ape- próprios. que ilumina os seres excepcionais desde ‘grandes’ tura. no mundo reducionista branco europeu) não ia dar aulas de teoria da relatividade na escola onde se reu- niram os 35 professores que ficaram no país depois Razões profundas da minha prática da independência. particularmente de ‘reis’ e ‘nobres’) ou do tipo que vocês podem escolher como propagar sua cul. do tipo hereditário (as que correspondem a fora do pensamento em português. estudar como funcionam. e vocês precisam fazê-lo nas suas línguas. independentemente de nal em Angola. preservar e divulgar estas ideologias que permitem tenta exigir atuações copiadas do mundo escolar ha. longe dos ouvidos das freiras. nas). As problemáticas a enfrentar. sicas como intelectuais. Pessoalmente participei desta mesma tural que alguns de vocês praticavam. à sua maneira. Nós so papel foi de ajudar a ver o mundo como ele é e apenas assessoramos os participantes a utilizar pensar em construir o novo a partir do presente.

ENSINAR MATEMÁTICA E CIÊNCIA INDÍGENAS De volta ao laboratório de física em Luanda. “educar”? Que junta com “para sem possibilidade de utilizar palavras relevantes quê?” e “para quem?”. civilizações que faziam e falavam de metalurgia ro?” ou. os professores descobriam o conteúdo das de questionamentos a respeito do uso e do papel técnicas e. Uma coisa faltou. 160 088a187_CORR_V1. E com seis anos a criança deve utilizar vida dita educacional. esquecendo-se de que os povos afri- pela prática. A neses nordestinos brasileiros de língua materna revigorização da atividade de cestaria entre os portuguesa. resolvidas. almente poder entrar na “vida moderna” e juntar- Então teremos de onde partir para fazer nossa -se à privilegiada elite nacional. atendidas para ser. sem que a existência fazer. E nossa primeira responsa. que a língua portuguesa ia ser a língua oficial e ações de libertação da opressão educacional do única língua de ensino de escrita. todos. as dominavam como seus das línguas fossa levantada e discutida entre os próprios antepassados. partindo de discussões e palavras Baniwa pode ser olhada desta maneira. símbolos escritos para representar palavras que tos. como faziam os ferreiros africanos. uma imposição alienante porque cipal: que é isto. primeiro. perguntas interessantes. ESCOLA TUYUKA . por sua vez. Mas. Aquele “método Paulo Freire” que se encontra tas técnicas. para de Bunsen”. 2  Que também foi descrito por ele próprio com certa ironia no livro de Sam Anderson e Maurice Bazin. Em qualquer colonizador exige voltar às fontes próprias e.O Terceiro Mundo face à Ciência e Tecnologia”. a partir de problemas de interesse for. “metalurgia” estavam sendo (re)construídos por da suposta necessidade do desenvolvimento mo- todos. da vida inicial das crianças. de levantamentos de fundimos ferro a partir de pedaços do minério que problemáticas preocupantes e que precisam ser se exportava sem tratá-lo e de carvão esmagado. uma tomada de consciência do seu muito valioso quando utilizado entre os campo- valor próprio e do valor da sua própria cultura. Presos na ideologia do progresso. E isto ninguém perguntou “para quê?” quando a respos- com a firme consciência de que existe um con. possivelmente. pretendeu-se alfabetizar em português. nas bibliotecas das universidades brasileiras2 foi cientização”. retomar es. “como se fazia o ferro?” ou “como antes dos europeus. Então estávamos fazendo ciência e não dizer falhou. Mas nas florestas na nossa conversa sobre formação de professores. juntos. alfabetizar em próprios objetos tecidos? português foi e continua sendo uma tarefa artifi- É aqui que precisamos voltar à pergunta prin. cial e opressora. estas perguntas fundamentais. e as chamas dos chamados “bicos nias portuguesas da África. Isto leva ao que Freire nomeou “cons. vida na qual todo o bilidade é admitir que as respostas precisam ser pensamento foi desenvolvido numa língua au- construídas pelas pessoas envolvidas naquela tóctone. “Ciência e (In)Dependência . Os conhecimentos de interessados. nossa própria caminhada de vida em português e dólares. com todas as nossas mãos Tomaram decisões em termos de “política linguís- juntas. transando aquela própria história. Parece que encontrar nossos fundamentos próprios. Precisamos enfrentar jun. ta já estava à vista: algumas crianças iam eventu- texto histórico que nos formou a nós próprios. caso das coisas de interesse técnico. Este é um exemplo do que é ensinar dernizante. hoje. Neste tica” no sistema educacional. canos e suas numerosas línguas existiam como mulados através de perguntas: “como se faz o fer. para ressoam com sentido na sua cabeça. no lugar. utilizando alguns moldes refratários que dormiam Antes quero voltar à situação das antigas colô- nos armários. relevantes nas lutas no campo. da Guiné-Bissau onde a riqueza multilinguística qual pode ser a contribuição dos cesteiros e dos é comparável à do alto rio Negro. tecnologia de verdade. panhadas pelo próprio Paulo Freire declararam A pedagogia que se desenvolve nestas situ.indd 160 5/31/12 2:43 AM . as lideranças políticas acom- se faz uma maloca?”. na “libertação do jugo colonial”.

precisa- A escola que conhecemos. sentido. da criança a partir da sua curiosidade. tanto eu na França -se levá-los a viver esta mesma experiência.indd 161 5/31/12 2:43 AM . Nós como vocês na Amazônia. faz dos professores o facilitaremos o processo de atividade intelectual que o professor José Tuyuka descreveu como “guar. Para que futuros professores como os jovens nhecidos como repressão cultural. na situação deles hoje. ao invés de abrir a felicidade cesso de levantamento das problemáticas deles.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS No alto rio Negro a questão do valor da di. ao invés de solicitar criações próprias e linguísticos exercidos pelas freiras e comparsas procuras iniciadas pelos interesses das crianças. Fazia repetir versidade linguística foi levantada. apresenta problemas e questionamentos. diões de prisão”. facilitadores da sua realização intelectual. Os professores sabiam apenas for. Neste çar conhecimentos goela abaixo dos estudantes. discussões de escolhas para o futuro. REGIÃO . Os interditos ou recitar. própria a partir do que. variados estão sendo contados. 161 088a187_CORR_V1. analisados e reco. A formalização reunidos nos magistérios indígenas de São Ga- de direitos indígenas específicos na Constituição briel possam atuar conscientemente como liber- permitiu abrir o questionamento do passado e as tadores de iniciativas intelectuais das crianças. nosso papel é de dinamizadores do pro- insistindo. limitando.

dando vida à ideia e concreti- gena para construir uma forma diferente de edu. Ainda me lembro dessa conversa com Higino Tenório Tuyuka nas escadas do ginásio de São Trabalho concreto e seus efeitos Gabriel da Cachoeira. uma nova geração tuyuka.6 O PODER DAS ALIANÇAS B runhilde H aas de S aneaux (B runi ) Este texto relata como uma parceria ponto a Foi então que abordamos a possibilidade de ponto. comunidade de São Pedro. Evocávamos a visita dele à Áustria em co a pouco fomos conquistando aliados. o “Klima-Bündnis”. Falávamos da força Várias iniciativas passaram a acontecer de for- articuladora e mobilizadora do movimento indí. como comentava Higino na época. sujeitos de sua própria ra oficina de políticas linguísticas realizada na história e das relações com outras culturas. articulações dentro e fora da Áustria. ral do povo Tuyuka promovemos. levei de volta para Viena. Com isso foi selado o compromisso que. Escola de Ensino Fundamental Bruck an der Lei- 162 088a187_CORR_V1. ma sincronizada. suas impressões do mundo oci. e dos processos recém-iniciados cola Tuyuka. Higino tirou um grava- de uma Aliança Global. entre uma escola indígena da Amazônia e procurar uma parceria entre a Escola Tuyuka e uma escola de ensino fundamental austríaca. as festas”. dos alunos da de fazer escola. En- contribuído para o fortalecimento do movimento tusiasmados com a idéia. zando essa parceria que aproximou alunos da Es- cação escolar. pequenos junho de 1995. nesse sentido. dor do seu bolso e me pediu que dirigisse. e adultos. mas que não sabe ser alegre. logo depois do encerramento da As. andamento na Escola Tuyuka: a alfabetização da nológicos. Lem. fazer primeira turma de crianças na sua própria língua. Pou- de 2000. cidade indígena do alto rio Negro. em se- Como tudo começou guida. Abastecida com as visões da revitalização cultu- sembleia Geral da Foirn (Federação das Organi. Passamos a divulgar as várias ações em dental e seus povos.fronteira Brasil-Colômbia -. localizada na Terra Indígena Alto Rio nas comunidades para se criar um modo próprio Negro . o registro dos sabe- brávamos também de minha viagem pelo Tiquié res antigos estimulando a autoestima e projetando em janeiro de 2000. a partir de Hori- zações Indígenas do Rio Negro) em novembro zont3000. “com muitos avanços tec. práticas de pesquisas iniciadas.indd 162 5/31/12 2:43 AM . que coincidiu com a primei. algumas palavras para as crianças tuyuka. tem uma escola de ensino fundamental austríaca.

Em 2005. estes eventos contri. na escola de Bruck. Também foram organizados com os alu.indd 163 5/31/12 2:43 AM . em um município austríaco de mesmo nome. alto Tiquié tha. com dez mil habitantes aproximadamente. uma exposição/venda de artesanato rionegrino. antes nhecer a experiência da Escola Tuyuka visitou o rio de fazer fronteira a leste com a Hungria. diretores da Foirn em visi- já mantínhamos relações de cooperação desde ta à Áustria foram convidados para um ato festivo 1993. da formatura da primeira turma de alunos no en- gravações de cantos. na formatura da Escola Tuyuka. foi construída uma ponte virtual entre o No mesmo ano de 2001. civil e política austríaca pelos povos do rio Negro. e para dinamizar a campanha da Aliança pelo Cli- mizando e mobilizando uma série de atores e me. pois. nos austríacos espaços para exposições e bazares Outras ações socioculturais contribuíram para com material informativo e objetos provenientes dar a conhecer a história dos Filhos da Cobra de Pe- do rio Negro e da Escola Tuyuka. para a Caixa Escolar da Associação Escola Indígena buíram para gerar maior interesse da sociedade Utapinopona Tuyuka (Aeitu): a publicação do livro 163 088a187_CORR_V1. ma na Áustria. Surgiram desde cartas de apre. que é ilimitado. o embaixador da Áustria participou sentação. brinquedos sino fundamental na Escola Tuyuka. com Brunhilde de Saneaux.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Aloisio Cabalzar/ISA. Tuyuka). uma delegação de po- rio Tiquié. REGIÃO . Dina. no extremo noroeste da Amazônia. álbuns de fotos. a Embaixada da Áustria em Brasília disponi- meiros anos de ensino fundamental destas duas bilizou as instalações da Missão Diplomática para escolas. dois anos de- e artesanatos produzidos pelos alunos dos pri. Além de causar dra (Utapinopona. onde Na visita consecutiva. revertendo em fundos impactos na mídia regional. e o líticos e jornalistas austríacos interessados em co- rio Leitha. consistente sobre a região do rio Negro. diadores. da H3000. Tiquié. entramos no barco da fantasia das crianças. até histórias ilustradas. Werner Brandstetter. que nasce no nordeste austríaco. filmes em VHS. comunidade São Pedro. 2005 O embaixador da Áustria no Brasil. Uma matéria sobre essa visita foi divulgada Contando com material informativo bastante posteriormente pela rádio austríaca.

as autoridades locais da rede gena diferenciada. Assim chegamos a estabelecer em 1993 uma parceria com a Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) e o A Aliança pelo Clima e a parceria com os Cedi (Centro Ecumênico de Documentação e In- povos do rio Negro formação. do clima no plano local. coordenando indígenas do rio Negro.Coordenadora de las Organizaciones In. Dorothée Ninck. indígenas. Ho- nas prefeituras austríacas decoradas com dese. Baseada no diálogo e respeito mútuo. Ao mesmo tempo. amiga firme e solidária du. plia a plataforma global da Aliança pelo Clima ao A Aliança pelo Clima tem como ponto princi. de pilares transculturais entre a Áustria e o rio cais. No âmbito da rede austríaca da Aliança pelo Finalmente e mérito exclusivo dos pequenos Clima. Desta forma a seção Austría- COICA . os povos das florestas tropicais contribuem direitos indígenas à terra. rizont3000) . e a situação sociopolítica dos povos indígenas da lhoria das condições ambientais e de vida urba. desenhos segmentos da sociedade civil austríacos existen- estes entregues como prêmio aos municípios que tes na época. conscienti- pal o interesse comum na conservação das con. ção na Amazônia. preservação neta. am- formam a bacia amazônica. zando os membros da aliança sobre o processo de dições de vida para futuras gerações. dos na região. Por meio do princípio “pensar global – agir No caso específico da educação escolar indí- local na prática”. Negro. ESCOLA TUYUKA . os municí- com um texto introdutório de Higino. Além de suas metas locais/regionais. a flo.O PODER DAS ALIANÇAS de poesia da autora austríaca Dorothea Nürnberg. pios europeus renunciam voluntariamente ao to organizado por aliados do governo estadual da uso de madeiras tropicais e se comprometem Baixa Áustria. os modos de vida os municípios europeus se concentram na me. A Aliança pelo Clima foi criada em 1990 por re. ONGs e consecutivos processos e iniciativas voltadas ao outras organizações podem se associar. e a integridade cultural para a proteção do clima através de sua luta para dos povos. comunidades e florestas. Entende-se que o reconhecimento dos nas.Insti- artistas tuyuka. de suas culturas e modos de vida. municí. ISA e Horizont3000 vêm concretizando à Aliança pelo Clima. pios e distritos em 18 países europeus se uniram Foirn.indd 164 5/31/12 2:43 AM . são aspectos decisivos na busca da se- a conservação do seu entorno imediato. numerosas são as salas de reunião tuto para a Cooperação Internacional (hoje. resta. governos regionais. com o objetivo de reduzir as emissões contribuindo paralelamente para a construção prejudiciais ao clima e preservar as florestas tropi. favorecendo a proteção organizações indígenas dos nove países que con. substituído pelo ISA a partir de 1994). rante todo o processo. acreditando que a mobilização indígenas e oficinas de conceituação aconteci- local pode fazer toda a diferença no plano global. um concer. gurança climática. até a formulação de novos proje- 164 088a187_CORR_V1. Enquanto destruição da floresta tropical. Amazônia.foi convidado pelos municípios e nhos de roças. a identificar possíveis organizações se destacaram por sua atuação socioambiental parceiras para iniciar um programa de coopera- dentro da rede da Aliança pelo Clima. essa par- presentantes de municípios europeus e de povos ceria foi se consolidando no decorrer dos anos. os parceiros austríacos apoia- europeia comprometem-se com a proteção do ram desde os primeiros encontros de professores clima no mundo. organizada por sua projetos pela proteção da floresta. Desde então mais de 1.600 cidades. a festa-aniversário dos descendentes a apoiar os povos indígenas em seus esforços e de Theodor Koch-Grünberg. ca da Aliança pelo Clima colabora com os povos dígenas de la Cuenca Amazónica -. bem no início do movimento o IIZ . Os povos reconhecimento dos direitos indígenas à terra e à indígenas estão representados nessa rede pela valorização cultural. difundir essas experiências na Europa.

mas aproveitarão de seus conhecimentos e tradições para promover os valores socioculturais dos povos indígenas. Paralelamen. que vêm Transformação. Soubemos através da Bruni de Viena/Áustria. reunidos hoje na Suíça para cele- brar o aniversário de Hannes Ninck e de Theri Hasler. assim como as demandas pelo nessa região da Amazônia: uma verdadeira Casa de ensino superior indígena no rio Negro. a demarcação de terras indígenas dentre enfraquecido. Nos últimos anos. REGIÃO . sucessores de Theodor Koch-Grunberg e amigos da família. que visi- tou as comunidades de seus antepassados há 100 anos. CARTA-MENSAGEM PARA AS COMUNIDADES TUYUKA NO ALTO TIQUIÉ (na região de fronteira entre Brasil e Colômbia) S ursee na S uiça . dia 7 de abril de 2001 Nós. procurando caminhos e aliados dispostos a te segue acompanhando várias experiências prosseguir no diálogo entre austríacos e os povos escolares que foram surgindo com maior auto. ainda não estão reconhecidos. Estamos convencidos de que este projeto. Com a criação da Escola Tuyuka que se diferencia das experiências escolares a nível regional. interessados em apoiar as nomia política e pedagógica nas diferentes ca. Assim foram abertos caminhos Novos desafios. há de continuar exis- eles. a partir das boas práticas das escolas de um novo modelo de ensino superior indígena Tuyuka e Baniwa. nos. com atenções concentradas austríaca com o rio Negro se concentra.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS tos de educação. onde conhecimentos tradicionais e se delineando mais recentemente.. Theodor Koch-Grunberg. de elaboração do currículo até a gestão na frente. nas regiões onde os direitos coletivos indí. As crianças de hoje que formarão a geração de amanhã não só aprenderão a respeitar a memória dos antepassados. Com votos de muito sucesso para os próximos anos e PARABÉNS para esta iniciativa. Apesar disso. contribui enormemente ao fortalecimento do povo Tuyuka. e a introdução da escrita em língua tuyuka. queremos parabenizar as comunidades Tuyuka do Alto Tiquié.. foi dado um passo significativo e exemplar. com apoio e participação de todas as comunidades. organizações indígenas na perspectiva da criação lhas de rio. tindo. Hannes Ninck (neto de Koch-Grünberg) e de sua esposa Theri Hasler Elisabeth Von Tiesenhausen e Ursula Koch (filhas de Koch-Grunberg) 165 12010-Parte2_C9a_AF5. das iniciativas empreendidas pelo povo Tuyuka vol- tadas à reafirmação de sua cultura. sobre. Tanto o processo quanto a implementação do ensino bilíngüe têm despertado o nosso interesse e a nossa admiração. para outros parceiros. com uma ressonância até no outro lado da fron- teira. Através dos relatos e registros deixados por nosso pai e avô. indígenas do rio Negro. interessados nessas pro- postas e dispostos a investir numa cooperação O mundo ocidental está imerso em crises eco- de longo prazo. desde o processo de conscientização.indd 165 6/4/12 1:01 PM . a cooperação nômicas e políticas. sabemos da riqueza e amplitude da cultura Tuyuka. em acontecimentos ou assuntos cotidianos e inter- tudo. ocidentais dialoguem de forma igualitária. seu olhar para o bem-estar global encontra-se genas.

Nós cuidamos do lixo perigoso. vocês são parceiros importantíssimos para nós. Aprendemos nossas histórias. Por isso o dinheiro que vocês nos doaram foi tão valioso para nós. na escola e nas casas. Agora e no futuro. e da nossa terra também. Agora queremos contar um pouco de nosso trabalho na Escola. mas também fazemos muitas refeições comunitárias. Com esse dinheiro compramos várias coisas úteis para a nossa escola: cadernos. cada família tem uma casa para morar.indd 166 5/31/12 2:43 AM . Pois pensamos muito em aprender mui- tas coisas que os outros sabem. Esperamos que essa simples carta chegue nas mãos de vocês. Essas pessoas formam famílias. Queremos nossa terra limpa. não temos lucros de nossos trabalhos. Cada família tem seus roçados. de pescarias. Também queremos ensinar muita coisa que sabemos. Cada família sai para caçar e pescar. Agradecemos muito pela atenção de vocês com a gente. É muito bonito aprender estas coisas. como estamos aprendendo com vocês. Nós não temos fábricas de papel.. nossas sabedorias. lixo orgânico aqui dos nos- sos produtos. onde planta maniva. Portanto nem sempre temos dinheiro para compra de materiais escolares.. quando reunimos todas as famílias para comermos juntos. língua falada pelos “Filhos-da-Cobra-de-Pedra”. nosso muito obrigado. com mui- tas fábricas.O PODER DAS ALIANÇAS CARTA DAS CRIANÇAS TUYUKA PARA CRIANÇAS AUSTRÍACAS Meus caros pequenos parceiros. nossos conhecimentos. com muitíssimas pessoas e famílias. ESCOLA TUYUKA . banana e muitas outras fru- tas. e outros. tipo de água e formas de vida em suas águas. balaios e bolsas pequenas. lixo industrial de produtos vindos da cidade. nas comunidades e do dinheiro que vocês nos doaram. Gostamos muito da nossa escola. Nós também estamos bem. isto é. Na comunidade tem lixo. pincéis. Por isso aprendemos como cuidar disso. embora a gente trabalhe muito. Vocês são nossos parceiros nessa luta. Pelo nosso futuro e o futuro de todos também. É para vocês enfeitarem sua escola e lembrarem muito da gente! Também agradecemos ao prefeito da cidade. Além disso. Histórias dos espíritos da Floresta. que também teve atenção com a gente. Desejamos que vocês estejam bem. cada um oferecendo sua parte. Entendemos que esse lixo é nocivo para a saúde da gente e do meio ambiente. rios da região com seus nomes. Histórias dos brancos e seus conhecimentos. As crianças Tuyuka 166 088a187_CORR_V1. plantas e formas de plantios. Mais uma vez. para o mundo ficar mais saudável para todos. máquinas de escrever. Pois vocês vivem nas enormes comunidades. Mandamos para vocês alguns artesanatos. Muitas lembranças para vocês. mitos de origem. com algumas fotos de nossas esco- las e comunidades. Em nossas comunidades vivem muitas pessoas. agora e no futuro. quadros negros. Na Escola Tuyuka nós trabalhamos assim: aprendemos a ler e escrever na nossa língua Utapino- pona wedesere (língua tuyuka). Abraços.

indd 167 5/31/12 2:43 AM . “dono dos animais”) Certo dia o “dono dos animais” foi pescar.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS TRADUÇÕES NA CIRCULAÇÃO DE HISTÓRIAS Boraro kiti Sika bureko boraroa kãmerĩ buareira. Nesse dia os dois se encontraram e se cumprimentaram dando as mãos. Bei diesem Händeschütteln zwischen zwei Herren der Tiere ergab sich etwas wie ein elektrischer Schlag. até um igarapé. An diesem Tag hatten sie sich getroffen und sich zur Begrüßung die Hände geschüttelt. Nesse aperto de mãos entre dois donos de animais. Ficou lá pescando com seu amigo. “Herr der Tiere”) Eines Tages ging der „Herr der Tiere” fischen. Er nahm seine Angelrute und ging weit bis zu einem igarapé. Atravessou esse igarapé e continuou. outro “dono dos animais”. einem anderen „Herrn der Tiere”. Verfasserin: Lenilza Schule: Poani 167 088a187_CORR_V1. Pegou seu caniço e foi bem longe. blieb er da und fischte. buare kameri wamorĩ ñeira neâtoa waigu wa’a kuâya weriwasone waraeâgu wa yoaro wa. siku watiâ ñiogutigu wuã towaro nigũ nokororania. Escritora: Lenilza Escola: Poani Geschichte des Boraro (Curupira. heaigu sika ya towa manukãkutua waigu yoaro wa sukã kuâ towaro niro sikato pure kuto waro kumena maku waiwegu tigu kuto wári. Er ging rüber und lief weiter. Zusammen mit seinem Freund. Wame= Lenilza Bueriwi=Poani História do Boraro (Curupira. saiu como um choque de eletricidade. REGIÃO .

gração de seus moradores para o rio Negro e 1  A partir das atividades de assessoria. pieter .indd 168 5/31/12 2:43 AM . aden. 168 088a187_CORR_V1. hausirõ vicente vilas boas azevedo ( aeit y ) 1 A Escola Indígena Tukano Yupuri envolve trando o igarapé Castanha (Buhkuya). e à documentação da Aeity (Associação Escola Indígena Tukano Yupuri).jan van der veld ( isa ). um dos várias comunidades localizadas no médio rio principais afluentes da margem direita deste Tiquié. rio.7 ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI O rganizado por melissa oliveira . consultas a professores e lideranças tukano. abrangendo extensa área desde a comu. A região é marcada pelo alto índice de mi- nidade Serra de Mucura até Santa Luzia.

pais e lideranças) ocasio- Maã Mharõ (Boca de Estrada) Tukano. Mhawi Tuhkurõ (Pirarara Poço) Tukano. tivamente. grupos vivem agregados a outros grupos. Desana (*) 62 hoy Kã’. atendendo turmas Pari-Cachoeira. até então independen- A Escola Indígena Tukano Yupuri conta atual. a o EJA (Educação de Jovens e Adultos). Yuhupde (**) 86 Buhpora (Trovão) Tuyuka. que veio aumentando grada- salas de extensão estão localizadas em outras co. a Escola Wehsemi em Wahpu te relações sociais e econômicas com os povos Nuhku (Cunuri) e a Escola Ñahuri Mhawi Hupda e Yuhpda. gógicas da Escola Yupuri. alunos. co yuhupde. Tiquié e Uaupés. 2006).RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS São Gabriel. tendo como ciclos (**). que possuem alunos e professores hupda e Bohtariyu pito (Sítio Novo) Siriano 10 yuhupde respectivamente. comunidade Yuyutha (Barreira Alta). As três salas de extensão. Desana (***) 61 Wariã Tuhkurõ (Acará poço) Tukano 17 Variações na abrangência da Oanu (Serra de Mucura) Tukano 21 Escola Yupuri ao longo dos anos Duhtura (Santa Rosa) Desana. Tukano (*) 59 A Escola Yupuri começa a funcionar a partir da Total 575 atuação conjunta de uma série de comunidades. REGIÃO . Escola Yepara Doe em Maã Mharõ (Boca Os povos do Tiquié mantêm historicamen. que habitam tradicionalmente o interflúvio dos 2005 Mudança da sede para a Escola Yupuri em rios Papuri. mas seus membros Buhkuya Pito (São Luiz) Desana (*) 14 (professores. como oficinas e reuniões. ou seja. Nos arredores de Pirõ Sekaro (São José I). tes umas das outras. que ofere- cem o primeiro segmento do ensino fundamen. os Tukano e Desana. A Escola Mo- Buhkurã Batha (Santa Luzia) Tukano. e a Pirõ Sekaro (São José I) Tukano. Buya Tapuia (***) 82 nalmente participam de atividades realizadas no Wahpu Nuhku (Cunuri) Tukano. A sala de extensão Duhtura contém grande con- ABRANGÊNCIA DA ESCOLA TUKANO YUPURI tingente de alunos da etnia Yuhupde. de Estrada). 1º ao 3º Bote Purĩ Bua (São José II). 2003 A Escola Hausirõ é criada como sede. assim distribuídas: 1º e 2º ciclos (*).indd 169 5/31/12 2:43 AM . Até ser criado o 3º ciclo nessa sala de extensão. no Casta- Toa Bua (Floresta) Desana 7 nho. Fonte de dados populacionais: Censo Dsei 2009 sendo que em várias delas já funcionavam escolas municipais de 1ª a 4ª séries. com a sede e um conjunto de fundamental e o ensino médio (3º a 6º ciclos). comunidade São Joaquim. localizada em Pikõ Sekaro. ao longo do médio rio Tiquié e de 3º ciclo que até então funcionavam em 169 088a187_CORR_V1. munidades. grupos linguístico nadahup. esses Comunidades Etnias População alunos frequentaram a escola sede. em tal. Tuhkurõ (em Pirarara). Desana 40 Bote Purĩ Bua (São José II) Tukano (*) 41 Escola Di’di. mais ou menos próximas. Desana. intensificado com a decadência do afluentes existem nove povoados hupda e cin- garimpo na Serra do Traíra nos anos 1980 (Ca. 2005). A sala de extensão salas de extensão a Escola Uremirĩ na co- localizada em Buhpora (Trovão) oferece também munidade Buhkurã Batha (Santa Luzia). são consideradas es- Buguyeri (Sítio São Pedro) Desana 6 colas associadas à Escola Tukano Yupuri. Bohsoya pito (Sítio Dom Bosco) Tukano 7 não fazem parte da escola. A começam a debater as propostas políticas e peda- sede ou Escola Yupuri. ou povoados por onde pas- nos das seguintes comunidades: sam caminhos hupda (Cabalzar e Ricardo. Desde 2001 algumas delas mente com uma sede e oito salas de extensão. como A Escola Indígena Tukano Yupuri atende a alu. além de 15 povoados em que esses balzar. chegando hoje a oito salas de extensão. Desana (*) 62 âmbito da escola. que passa a funcionar ofi- oferece apenas o segundo segmento do ensino cialmente em 2003. 1º ao 4º ciclos (***).

(*) 1º e 2º ciclos. 2º ciclo 22 Quintino Barbosa Macedo (Desana). A escola conta também ção no Magistério Indígena II. por ciclo Número de alunos Yupuri (sede) Pirõ Sekaro (São José I) Romero Cabral Pedrosa (Tukano). ensino médio Hausirõ Bote Purĩ Bua* (São José II) Zenaide Maria Aguiar Azevedo (Tukano). PROFESSORES. ensino médio 42 Damásio de Jesus C. 3º e 4º ciclos 08 Wehsemi Wahpu nuhku (Cunuri do Tiquié)* Maria Suely Caldas da Silva (Desana). ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI Bote Purĩ Bua (São José II). 2º ciclo 22 Fernando Peixoto Veiga (Desana). 2006 Inclusão de nova sala de extensão: Esco- ri é nome da sede. (***) 1º a 4º ciclos.tukano. Magistério Indígena I e em processo de forma. 1º e 2º ciclos 13 Ñahuri Mhawi Tuhkurõ (Pirarara Poço)*** Eugenia Pimentel Massa (Desana). 1º ciclo 19 Josuel dos Santos Mesquita (Barasana). ensino médio Rosângela Lana (Desana). 170 088a187_CORR_V1. comunidade Duhtura (Santa como um todo. 2º ciclo 27 Uremiri Buhkurã Batha (Santa Luzia)* Paula Fernandes Marques Sampaio (Tukano). desana e tuyuka . este é o quadro atual de profes- nas (UEA) . 1º e 2º ciclos 20 Yepara Doe Maã Mharõ (Boca de Estrada)*** Vilmar Resende Azevedo (Tukano). Azevedo (Tukano). Segundo dados de matrí- mados pela Universidade do Estado do Amazo. (**) 1º a 3º ciclos. mas também da escola la Duhtura. 1º ciclo Alcimar Aguiar Azevedo (Tukano). Início da primeira turma de 4º ciclo atendendo turmas de 1º e 2º ciclos. promovida pela Ufam. 3º ciclo 16 Antônio Nascimento Azevedo (Tukano). ALUNOS E NÍVEIS DE ENSINO NA ESCOLA YUPURI A escola possui um quadro de 18 professo. 4º ciclo Ramiro Paz Pimentel (Tukano). 1º ciclo 19 Pancrácio Denis Azevedo (Tukano). EJA 18 Leonardo Pimentel Ramos (Tuyuka). outros são sores e alunos no ensino fundamental e médio: Escola Comunidade Professores e etnias. ensino médio Aluisio Joel Caldas Azevedo (Tukano). 1º ciclo 09 Horácio Germano Peixoto Veiga (Desana). 3º ciclo 16 Uremiri Trovão* Algemiro Gomes Lemos (Tuyuka). Notar que Yupu. 2º ciclo 08 Paulo César Miguel da Silva (Desana). Alguns são for.formados no Educacionais e Desenvolvimento Sustentável. EJA 18 Mirupu Buhkuya Pito* (São Luiz) Reginaldo Lobo Gonçalves (Desana). 3º e 4º ciclos 07 Duhtura Duhtura (Santa Rosa)** Sônia Mesquita dos Santos (?). ensino médio Dagoberto Lima Azevedo (Tukano). cula de 2011. com uma secretária. cursistas da Licenciatura Indígena em Políticas res . 1º ciclo 17 Total 335 (sede) 3º a 6º ciclos. na Escola Yupuri. 2º ciclo 19 Yenny Gutierrez (?).Curso Normal Superior. A Escola Hausirõ continua Rosa). 1º ciclo 25 Gilberto Ramos Pena (Tukano).indd 170 5/31/12 2:43 AM .

e 42 alunos no ensino médio. foi preciso consultar os sábios responsá- A partir de 2009. A 2ª turma Quando os moradores do médio Tiquié co­ se formou em 2009. com dez alunos da Escola meçaram a refletir sobre a educação indígena Yupuri (sede). da Educação do Amazonas (Seduc) está em trâmi- te no Conselho Estadual de Educação. 1990. outra de Buhpora (Trovão). 36 no EJA. desde oferecer o ensino médio. com a formatura da primeira veis por transmitir aos filhos ou netos os conhe- turma de ensino fundamental. O processo de reconheci- 2010 Nova sala de extensão: Escola Mirupu. A formatura Hoje há um total de 335 alunos na Escola da primeira turma de ensino médio aconteceu em Yupuri. uma de 15 alunos. médio rio Tiquié 2008 Inclusão da Escola Uremiri. fundamental. mento do ensino médio pela Secretaria de Estado em Buhkuya Pito (São Luiz).RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Melissa Santana de Oliveira/ISA. com 21 formandos. O ensino fundamen- A construção da Maloca Tukano em Pirõ tal completo só começou a funcionar em 2005 Sekaro (São José) e um pouco de história e a primeira formatura de ensino fundamental ocorreu em 2008.indd 171 5/31/12 2:43 AM . que funciona na escola cedo as crianças aprendem as responsabilida- 171 088a187_CORR_V1. REGIÃO . a escola passou a cimentos dos antigos. comunidade sede com três turmas. Nessa educação. 18 e outra de 9 alunos. além dos formandos da Escola e a compreensão dos processos próprios de Ñahuri (Pirarara Poço) e Escola Yepara Doe (Boca produção de conhecimentos. 47 na segunda. sendo 210 na primeira etapa do ensino novembro de 2011. 2009 Alunos e professores participando da assembleia da Associação Escola Indígena Tukano Yupuri (Aeity). no final dos anos de Estrada).

Entre 1999 e 2000 começaram a ocorrer im- dígenas desde o contato com os europeus. homens. trouxeram a religião e catequizaram Os moradores dessa região estavam perce- os índios para salvar suas almas. iam morar na cidade de escutam. ou a família toda. e tomaram a iniciativa no. para trabalhar como mão de obra barata. ao mes. mo tempo. ritos. Diferentemente da es. através da observação das sofrendo com falta de alimento. Quem falasse outras línguas. inserida na vida dos povos in. Os missionários ajudaram os indígenas a Cachoeira. conseguiam subempregos que não levavam a comportamentos e atitudes da pessoa. e muitas práticas culturais sados no rio Tiquié. estavam esquecidos e pouco valorizados. locais de vivência dos sibs. a viver. chegada pioneira de Yupuri José Maximiano (sib Os moradores do médio e alto rio Tiquié foram Hausirõ porã). muito tação. foi implantada a Nessa época discutia-se muito sobre a política grande missão salesiana na comunidade Pari-Ca. Inspetor (sib Ñahuri porã). muitas delas foram morar sede da escola e lugar central no fortalecimen- em Pari-Cachoeira. mitos. foram destruídas. Pirõ Sekaro. No início dos leite. Muitas vezes os atividades diárias dos adultos. cola não indígena. mulheres e crianças. da Escola Dom Pedro Massa. Essa maloca hoje é a filhos para a missão. As famílias enviaram seus missionários de São José. passando dificuldades com alimen- mais velhos e dos líderes comunitários. e vindo para o Tiquié. desana. os obrigaram a bendo que o tipo de educação escolar que vi- falar estritamente o português para integrá-los à nham vivenciando não trazia boas consequên- nação. respeito ou comportamento entre pa- muito próximos da missão. das histórias que filhos. ocorrendo um importante to de conhecimentos e práticas da cultura que êxodo das comunidades. com a promessa de que os alunos te. parte em Pari. danças. importantes para o desenvolvimento do caráter. recebia puxão de reuniões comunitárias: como e porque tinham orelhas. ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI des de participar na vida social da comunidade. encontros resultou a ideia de construir uma ma- lização de rituais e transmissão de conhecimen. de educação escolar indígena em São Gabriel da choeira. cujo nome pessoal tradicional dá orientados a mandar seus filhos como internos nome a escola no médio Tiquié e Uremiri Manuel na missão. dos bons exemplos dos pais. no estado do Amazonas e em âmbito não se submeterem aos comerciantes. tinha que rachar lenha. ficava de castigo: não rece. lugar algum. Casa de danças (bahsawi) estava enraizada anos 80 o internato foi desativado. Isso ocasionou com os jovens. que portantes reuniões na comunidade Bote Purĩ Bua foi imposta como um mecanismo de integração (São José II) para discutir a implantação de uma à sociedade nacional. Algumas famílias pas. benzimentos. de rea. Começaram bia almoço. as grande desarticulação na vida das comunidades. ensinarem aos índios como eles deveriam ser e afluente do baixo Papuri.indd 172 5/31/12 2:43 AM . tuyuka. Essa escola servia para os não-índios saído do seu local de origem no igarapé Turi. trabalhos do- principalmente para os Tukano que moravam mésticos. O objetivo foi discutir riam roupas. loca no primeiro local ocupado pelos antepas- to. Concluí. No início dos anos 1940. savam parte do tempo em suas comunidades e 172 088a187_CORR_V1. de construir uma escola indígena. como tuka. comida e emprego. Apesar da esperança. nacional. e os padres a memória da educação tradicional. descuidando então de suas roças e festas e cerimônias. das ações não-índios foram aos poucos saindo da direção pedagógicas tradicionais. violência e outras. As comunidades estavam ficando ram que na Casa do saber (mahsiõririwi). irmãos São Gabriel. ficava horas a discutir o histórico de seus antepassados em em pé na coluna do colégio. rentes de outras etnias e sibs. chamado pelos foram abandonadas. Desses primeiros As malocas. cias para suas famílias. Casa de vazias e o território mal tratado. escola indígena na região do médio rio Tiquié.

política linguística. o que os pais queriam que eles aprendes- 6 a 13 de novembro de 2002 Silvia Maria Oliveira (Ipol) sem. debateu-se a relevância de se Massa do Distrito de Pari-Cachoeira . Discute-se melhor desenvolvendo. a partir da observa- logias de ensino e aprendizado. práticas de alfabetização. lín- A partir de 2001. Foi feita uma primeira proposta foi um processo lento que se alimentou bastante. A partir daí. de trabalho com cada uma das línguas nas escolas no início. peda- com assessoria de Gilvan Muller de Oliveira na Es. A cada 3 a 5 de dezembro de 2001 Flora Dias Cabalzar (ISA) reunião eram anotadas reflexões. pedagógica ges Barreto e Damásio de Jesus Caldas Azevedo . da escrita. organizações que vinham dade no ensino via pesquisa. as vinham conduzindo a reformulação de sua esco. suíam uma experiência de escola indígena. Cabalzar do ISA. ção do modo de construção da casa comunitária onde acontecia a oficina. de membros do Departamento desana e portuguesa na escola. do diálogo com os Tuyuka. uso das línguas tukano. F. com ca dessa região. após doze anos oficinas comunitárias de ensino com livros da Semec em português. discussões e 26 de abril a 03 de maio de 2002 Flora Dias Cabalzar (ISA) decisões importantes sobre o que os alunos iriam Maurice Bazin (Ipol) estudar.Brazilino Bor- efetivar a reformulação curricular. Foi realizado de um grupo de professores indígenas da Escola um diagnóstico inicial da situação sociolinguísti. gógica e literária em língua tukano. envolvimento entre escola e comuni- res vinculados ao ISA. o tuyuka como língua de instrução. matemática tukano com foco nos conceitos e per- res foi formado.indd 173 5/31/12 2:43 AM . la desde 1999 -. que acompanhou os debates iniciais naquela escola. quem seriam os coordenadores da asso- O professor tuyuka José Ramos participou da ciação escolar.e e política nas escolas do rio Tiquié. cola Tuyuka e no I Magistério Indígena do municí- pio. encontros. Linguísticos. gua que as crianças não entendiam. Realizam no- tros e oficinas com a participação de professores vos debates sobre a política de uso da língua tuka- indígenas da Escola Utapinopona Tuyuka . A discussão foi ga. que já pos- e realizada discussão e tradução de artigos da De. assim como das es- tratégias para fortalecê-las na escola com o apoio A construção do projeto político-pedagógico da comunidade. professores. etc.que já no como língua de instrução na Escola Tukano. Maurice Bazin apoiou na pesquisa da nhando força e um primeiro quadro de professo. tal como discutido anteriormente foco em alfabetização. Indígena Utapinopona-Tuyuka do alto Tiquié. Oficinas de Políticas Linguísticas e Escolares A terceira oficina contou com a presença de em 2001 e 2002 dois professores indígenas da Escola Dom Pedro Nestas oficinas. Houve discussão dos contextos locais de uso Projeto político-pedagógico: e das relações entre as línguas tukano e desana um processo nestes territórios linguísticos. e com claração Universal dos Direitos Linguísticos. mães e ve- Data Assessoria lhos conhecedores tomando as decisões. com pais. o que a coordenação deveria fazer. o Projeto Educação alguns artigos da Declaração Universal de Direitos Escolar Indígena do Rio Negro. 173 088a187_CORR_V1. cepções de proporção e escala. segunda oficina e apresentou sua experiência na o papel da Secretaria. REGIÃO . quais seriam as temáticas de pesquisa dos alunos.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Escola Tuyuka com ensino via pesquisa adotando Primeiras reuniões. em parceria. assim como usos de Educação da Foirn e de assessores e consulto. experimentando novas metodo. a montagem do projeto político-pedagógico foi sendo feita em PRIMEIRAS OFICINAS NA ESCOLA YUPURI várias reuniões. passam a ser realizados encon.

novas demandas ou ideias são incluídas. As discussões sobre o projeto polí. A Escola Indígena Tukano convivência entre os Desana. articulam todas as outras temáticas ou trilhas de Uma das discussões importantes do PPP é a conhecimento. As outras línguas ra. de 26/09/2005. um cami- reavaliado a cada ano. Até agora. porém. sendo tratado de acordo com a forma guesa. no médio. e com a assessoria de Melis. Na Escola Tukano Yupuri existe um e sugestões encaminhadas pelo conselho escolar. do currículo de 1º a 4º e realizado de 2007 a 2010. 174 088a187_CORR_V1. econômicos e socioculturais ou seja.indd 174 5/31/12 2:43 AM . nório e outros professores da Escola Tuyuka. oralmente a partir do 2º ciclo. médio. com o planejamen. Poucos velhos dessa região dominam o desa- sa Oliveira através do Projeto de Educação. que “dispõe cutido e planejado no âmbito da Escola Yupuri. e escrito. sendo aprovado pelo Parecer nº que corresponderam a imersões ou períodos de 002. de Educação. e de instrução. que to dos espaços dados às diferentes línguas faladas diz respeito à vida neste mundo. de 1º de Outubro de 2007. Algumas iniciativas de recuperação da acompanhar as experiências escolares em curso vitalidade dessa língua têm sido tomadas pelos no rio Tiquié. para na hoje. coordenadora partir do 3º ciclo. Em meados de 2005 a primeira versão e adultos. o que não está funcionando é nho principal de conhecimento a partir do qual se modificado. Patrícia Machado. com definição PDPI Projeto Bayawi. que não se sobrepôs ao tukano. um princípio norteador. passando pelo 3º e 4º ciclos até o ensi- ocidental missionária quis impor a língua portu. A partir de diversas reu- Quanto às principais características do PPP e do niões realizadas entre 2005 e 2006 para o ensino currículo da Escola Tukano Yupuri. o tukano é hoje a língua de alfabetização crianças e jovens nas diferentes fases de sua vida. Em 2005. que incorpora os interesses dos moradores das podendo ser modificado de acordo com discussões comunidades. língua mais falada no Uaupés. desde o 1º o tukano. A escola e 2º ciclos. Higino Te. como terceira língua. assim como os Yuhupde e Si- Tukano Yupuri (Aeity). e de Silvia Olivei. A língua oficial da escola Yupuri é perpassa o ensino em todos os ciclos. em comunidades Yupuri foi reconhecida pela Prefeitura Municipal falantes da região do Papuri e igarapé Turi. ria e gradual do currículo. gógico da escola. essas línguas têm estado dia 30 de dezembro de 2003. ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI Toda essa organização durou quase três anos. O português entra como segunda Nessa fase a Escola Yupuri também contou com o língua. mo das decisões dos moradores das comunidades. o uso da língua entre crianças. O projeto teve por objetivo resgatar a fala. o que pode vir a ser mais incentivado. É tema central. fundamental. cientes para elaborar o projeto político-peda. Este tema central nesse território. foi sendo delineado o currículo próprio. contava-se com informações sufi. no médio. ciclos ecológicos. como a que se deu através do tico-pedagógico se aprofundam. Na escola de entendimento e compreensão do mundo das Yupuri. sobre a criação da Escola Indígena Tukano Yupuri Outra questão central é a definição comunitá- e o funcionamento do Ensino Fundamental”. próprios Desana. ceito da língua tukano: Marĩ kahtiri pati kahse. indígenas podem ser faladas e escritas na escola. quando eventualmente escritas. O espanhol é ensinado no ensi- do Projeto de Educação Foirn/ISA. o projeto político. Foram promovidos vários encontros do PPP foi apresentada ao Conselho Municipal de aprendizado da língua e da tradição desana. praticamente ausentes na produção da escola e. O es- de São Gabriel da Cachoeira por meio do Decreto paço destas demais línguas pode ser melhor dis- nº 016. Este caminho se refere a um con- política linguística da escola. pouco circulam. e entre 2009 e 2010 para o ensino -pedagógico da escola é flexível e acompanha o rit. com registro em cartório no riano. Sirlene Bendazzoli. a apoio da assessora Marta Azevedo. com assessoria do ciclo e do calendário escolar de acordo com os Ipol. Nesse Os alunos desana podem falar e escrever desana período foi criada a Associação Escola Indígena em suas pesquisas. proposto através da Foirn dos objetivos da escola. jovens da região.

sobretudo. estudo escolar através de temáticas de seu univer- de modo interdisciplinar. elaboração de cartazes temáticos. nhecimento: línguas. ou temáticas de ensino-aprendizado para o ensi. casa e utensílios domésticos. ecológico. ticos são centrais para os primeiros ciclos da escola. 175 088a187_CORR_V1. Escola Tukano Yupuri. algumas trilhas de conhecimento. elaborar cartazes focalizando situações de seu dia- ceira de recursos e elaboração de projetos. REGIÃO . A partir -a-dia. e intercâmbios. so. das grandes áreas de co. a cada início de semestre. ciências da no fundamental e médio são enfatizadas. viagens de arti- No ensino fundamental II: histórias de origem culação da coordenação para as salas de extensão. No ensino fundamental I: animais aquáticos. cantos e escola Yupuri realiza encontros comunitários para danças. sua vivência na comunidade. médio rio Tiquié A partir daí. técnicas al. maloca de Pirõ Sekarõ. matemática e suas tecnologias. constelações. que serão abordadas na escola e na elaboração de No ensino médio: são aprofundadas as trilhas de materiais didáticos para seus filhos. encontros para novas tecnologias de comunicação. 2009 Formatura da turma do Ensino Fundamental. do mundo e da humanidade. os mo- conhecimento iniciadas no ensino fundamental II e radores das comunidades que compõem a escola são inseridas outras trilhas de conhecimento como: realizam. Por isso. calendário astro­ oficinas temáticas. de modo que as crianças são introduzidas no das trilhas de conhecimento procura-se aproximar. econômico e ritual: ciclos de professores. ciências humanas e suas tecnologias. em novas pação de pais dos alunos na decisão das temáticas condições de vida e luta pela autonomia.indd 175 5/31/12 2:43 AM . é importante a partici- indígenas e contato com não-índios. vida dos seres e manejo do mundo. natureza. ternativas de produção e sustentabilidade. a mato. povos Na alfabetização. artesanato Os encontros para elaboração de cartazes temá- tukano e desana e sustentabilidade. plantas da roça e do da educação escolar indígena no médio Tiquié.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Acervo ISA. encontros de formação dos nômico. gestão finan. No âmbito das estratégias para a consolidação animais da terra e do ar. códigos e suas tecnologias.

sempre mar- avicultura. professores. como a construção e organização do projeto po. Dependendo do assunto. Os moradores participação de pais. ências. voltadas à fabri. de manejo agroflorestal. meliponicultura. como a matemática ou a astronomia apresentar suas experiências de ensino e pesqui- tukano. Foirn/ISA. munidades e alunos. cados pela troca de conhecimentos. são chamados Projeto Educação Escolar Indígena do Alto Rio conhecedores não indígenas. A partir de exemplos dos colegas (um pro- questão de interesse. Projeto Lugares de cultura. professores ou membros da coorde- tukano. e conhecer experiências de outros povos. físicos. sa. currículo. Nessas viagens são realizadas formação continuada do quadro docente da escola. 2005-2010. educadores.indd 176 5/31/12 2:43 AM . sando no futuro. manuseio de equipamentos. linguistas. ordenação de Vicente Vilas Boas da Aeity e assessoria aprofunda-se o entendimento acerca de assuntos. A coordenação começou a realizar encontros itinerantes. ou a grafia e a escrita da língua por alunos. benzedores. Intercâmbios e estágios são viagens realizadas lítico-pedagógico. trabalho com seus alunos. meliponicultura ou grupos de outras escolas ou lugares. fessor demonstra mais criatividade no trabalho com participam todos os moradores das comunidades e crianças. assim com cussões. 2005-2009. nas várias anima os moradores a participar das decisões e os salas de extensão. reuniões com os moradores das comunidades e Inicialmente eram realizados na sede da Aeity com acompanhamento em sala de aula. avicultura) articuladas com a escola. Em algumas oficinas maiores. zar uma comparação de conhecimentos. ampliando a participação. Projeto Manejo sustentável no médio Tiquié: pen- mas não são de domínio dos moradores das comu. foram criados para garantir a auto- salas de extensão. São chamados quando estão interessados em reali. artesãs de cerâmica. professores nas comunidades e escolas. a coordenação dologia do ensino. Esses especialistas de escola. fora podem esclarecer questões que interessam. Negro (Projeto Educação) . São também momen- Ocorrem também as oficinas consideradas mais téc. como os artesãos de banco tuka- Projetos e parcerias no. como legislação. A pedido das demais comu- guntas sobre o funcionamento da escola. nidades que participam da escola. de Melissa do ISA. encontros cada professor apresenta a experiência de As oficinas temáticas são reuniões para discutir. linguística. narradores de histórias. mar para as oficinas os conhecedores especialistas das comunidades. certas técnicas produtivas (manejo agroflorestal. de manejo ambiental. e até mesmo de outras vas maneiras. Tem como objetivo na dura entre uma semana e dez dias. passam a planejar suas atividades de no- Indígena Tukano Yupuri -. mapeamento 176 088a187_CORR_V1. aconteceram sempre sob co- ensinam aos sabem menos. os que sabem mais viagens de articulação. Algumas são mais artísticas. meto. Entre 2005 e 2008 os encontros de associações existentes na região.Componente Tukano. entre outros. jam eles indígenas ou não. Garantiu assessoria antropológica e pedagógica à mos. Durante as oficinas. engenheiros agrôno. etc. ecólogos. como antropólogos. outro realizando pesquisa com os alunos escolas que compõem a Aeity – Associação Escola maiores). tiram dúvidas uns com os planejar e desenvolver atividades em torno de uma outros. troca de experiências. Ou buscam aprofundar e registrar temáticas nação da escola Yupuri para outros lugares para específicas. realizar viagens de conhecimento. lideranças das co- emitem suas opiniões sobre a escola e fazem per. se- cação do banco tukano ou de objetos de cerâmica. em tukano Wimarãre Buerã Dahsea Nerekea ta política pedagógica da escola na sede e nas uku amesuoshe. São realizadas dis. tos em que a escola recebe a visita de pessoas ou nicas. Nesses problemas vão sendo resolvidos. Desenvolvimento de atividades nidades. A coordenação da escola costuma cha. ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI Viagens de articulação da coordenação são Encontros de professores para troca de experi- realizadas com o intuito de consolidar a propos. Aeity/PDPI. Uma ofici.

Projeto Artesanato na Escola Tukano Yupuri. Projeto Formação de jovens e crianças indígenas alização de duas oficinas temáticas relacionadas à na Amazônia. 20 representantes das associações do Tiquié e ção entre Tiquié brasileiro e colombiano. ISA/Unesco/Criança Es- ISA/Cafod. 2009. acompanhado pelo consultor Fernando José de Oliveira/Instituto Iraquara/ AM RCA TIs Yanomami em Roraima. na Vicente Vilas Boas Azevedo/Aeity e Melissa Oliveira/ Fortaleza São José. realizando narrativas e discussões sobre manejo Tatuyo. para troca de experiências sobre Tukano do médio Tiquié e Aloisio Cabalzar/ISA calendário astronômico. Guarani do Sul. montagem viços).indd 177 5/31/12 2:43 AM . Realização de assembleia e 1ª formatura da de uma exposição itinerante sobre a pesquisa Escola Indígena Tukano Yupuri. 2010-2012. e Pirá Paraná. Pirá Paraná. INTERCÂMBIOS Âmbito Onde e quando Quem PDPI Estágio de meliponicultura em Boa Vista dos Ramos/AM. yeba mahsã. em novembro de 2007 de Pesquisa e Formação Indígena Visita a seis comunidades do rio Pirá Paraná. fortalecendo a coopera. para conhecer as experiências Povos do Xingu. em junho de 2007 ISA Visita à maloca tukano em São José e o alto Tiquié. que abordou os cuidados tomados pelas mulheres nas diferentes épocas de quatro associações e escolas indígenas do rio de seu ciclo de vida Tiquié. em julho de 2007 zações parceiras da Venezuela e Colômbia Encontro das mulheres em San Miguel. José Ramos. em educação e manejo desenvolvidas pelas associações indígenas e parceiros Centro de Trabalho Indigenista (CTI). REGIÃO . e tukano) 2008. em março de 2006 Aloísio Cabalzar/ISA Reunião inter-institucional trinacional de cooperação transfronteiriça em São Associações do rio Negro. Barasana e Makuna do ambiental e territorial da bacia do Tiquié no Brasil. povos do Amapá. escolar no ensino médio. ecológico e ritual. 2009. em Macapá/AP. em maio de 2008 Visita a lugares sagrados. Taiwano (Eduria). em agosto de 2009 Pirá Paraná. Colômbia. Projeto Através do universo: o céu dos Tukano Projeto Cese (Coordenadoria Ecumênica de Ser- do rio Tiquié. nômico e ritual no médio Tiquié. bará.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS e registro do território ancestral dos Tukano e dos calendário astronômico-ecológico-socioeco- lugares sagrados. tura do Amazonas. Realização de reunião sobre gestão produção de artesanato na Escola Tukano Yupuri. Re. perança. então coordenador do ensino médio da Escola Tuyuka. Colômbia. 2008. (em andamento) 2010-2011. Aeity/Secretaria de Estado de Cul. 177 088a187_CORR_V1. outubro de 2006 Vicente Vilas Boas Azevedo e Laise Diniz/ISA Canoa Seminário Experiências Indígenas de Pesquisa e Registro de Conhecimentos. e Melissa Oliveira/ISA Visita aos Tatuyo. alto Pirá Paraná.Instituto neste rio. Entre outras atividades. 26/03 a 09/04 de 19 mulheres (tuyuka. outubro de 2006 Alunos de 4º ciclo e dos coordenadores agrícolas do Projeto PDPI/Aeity. Colômbia. Iepé . Aeity/Cese. ISA/Fapeam. grupos indígenas e organi- Gabriel da Cachoeira.

Como eles moram do bios com outros povos indígenas. a tukano. Ao fonte (oral. e o que são regras e técnicas. Quando chegaram aqui em ências. Quando nós che. não refletiría. medições. intercâmbio com os Tuyuka. Eles são grandes orientadores e ben- respeitar a cultura dos outros. nários avançarem lá. Eles são pessoas que respei. Foram formados grupos que decidiram passagem do sol pelo céu. pesquisar. nos contam. próximos ou outro lado da fronteira. objetos).indd 178 5/31/12 2:43 AM . o conceitos de observar. a dançar a dança dos antigos. como pesquisar. cultura. descrever. floração. 2003) como exemplo de enciclopédia. ri. Yupuri 2005. sistematizar. a que fazem parte da vida intelectual e produtiva marcação da passagem do tempo durante o dia. eles nos pra nossa vida. (re)construir e analisar as técnicas e ra. Acho que a gente taram a cultura deles e têm uma ótima experi. a relação procurar anotar números. analisar. tukano e desana respondem a perguntas dos mais lização das constelações no horizonte vespertino jovens sobre histórias de origem e perguntam aos e os eventos que coincidem com a presença de jovens sobre outras histórias. a maneira de falar da idade de uma pessoa. camos muitos conhecimentos. Oficinas temáticas na Escola Tukano etc. ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI INTERCÂMBIOS COM OS PARENTES V icente V ilas B oas A zevedo Queremos destacar a realização de intercâm. e exa. Desenvolveram em tukano. experimentaram uma entre oralidade e escrita. uso de fontes indígenas e não indígenas. Oficina de Matemática Tukano sobre os dois irmãos Doe e Seribhi. Identificando obje- 178 088a187_CORR_V1. nunca vai parar esses intercâmbios de experi- ência de trabalho. que vieram da mesma canoa der a falar e escrever a língua Tuyuka e também de transformação. É com esse tipo de experiência que co. foi difícil para os missio- distantes. É também um modo de perceberam que nós quase perdemos nossa aprofundar as pesquisas. minar plantas para descobrir as regularidades nos desenhos que “vemos” na sua superfície e na orga. Oficina de História Tukano nização das folhas. Os dife- servações. receberam bem e nos trataram com considera. velhos po tukano: constelações e seu ciclo (anual). as regras começaram a nos informar do que tem que ser de comportamento entre nós e principalmente. escrita. eles estão nos ajudando a valorizar tudo nossas comunidades e escolas eles começaram da maneira mais correta pra gente viver bem no a perceber e a respeitar a nossa cultura. em uma apresentação teatral no último dia. grada dos Tukano Hausirõ porã (Kumaro e Ñahu- no de agrupar. Se não houvesse intercâmbio. Pesquisaram marcadores do tem. cada uma delas (enchentes. com os quais já tro- mos sobre o fato de eles serem nossos parentes. Eles não escondem o que é importante gamos no rio Pirá Paraná por exemplo. Queremos apren- nossos conhecidos. zedores. são muito abertos. devido à invasão. frutificação. e as criações da caixa da Noite que se traduziram zões da fabricação de vários tipos de cesto. iconográfica. eles meçamos a socializar o entendimento. mitológicos que correspondem a Vênus. Quando chegamos lá. expres. personagens Maurice acompanhou os participantes nas ob.). a alternância dia-noite. Também nosso território indígena.2010 aspecto e da posição da Lua ao longo do seu ciclo. tipos de sar. Pensando a mitologia sa- notação própria correspondendo à maneira tuka. os Debateu-se o que é história. preservado. loca. Também temos interesse em aprofundar nosso ção. classificações sistemáticas rentes cantos do galo ao longo do dia e da noite.

PUC/SP Melissa Oliveira. março 2010 Coordenada por Vicente Vilas Boas Azevedo Ponto de Cultura Oficina de registro Comunidade São José. julho de 2008 Walmir T. Cardoso. os registros de Felipe Guamán Poma de Ayala arqueologia na Amazônia. Uerj Melissa Oliveira. novembro de 2005 José Ribamar Bessa Freire. no. Ipol Educação Melissa Oliveira. ISA PDPI Avicultura Bote Purĩ Bua (São José II). Sobre Inca. são citados o exemplo das fontes que não são mais produzidos pelos Tukano. dos Tukano. registros do modo de vida atual com o conhecimento mitológico. Cardoso. agrônomo do ISA I Oficina de Manejo Bote Purĩ Bua (São José II). discute-se as diferenças entre objetos etnográ. Cardoso. novembro de 2005 Meliponicultura Fernando Oliveira. agosto de 2007 Walmir T. ISA I Oficina de Astronomia Bote Purĩ Bua. e os objetos antigos Sobre iconografia. novembro de 2005 Walmir T. setembro 2005 Maurice Bazin. discute sua articulação sobre a conquista. PUC/SP Melissa Oliveira. ficos atuais e arqueológicos. junho de 2006 Meliponicultura III Oficina de Pirõ Sekaro (São José I). junho de 2009 Coordenada por Vicente Vilas Boas Azevedo-API II Oficina de Artesanato Pirõ Sekaro (São José I). 13 a 14/11/2006 Meliponicultura Projeto Cafod I Oficina de Artesanato Mhawi Tuhkurõ (Pirarara). do ISA audiovisual tos importantes para a memória e a história tuka. PUC/SP Melissa Oliveira. novembro de 2005 Pieter-Jan van der Veld. o vídeo como documento histórico e 179 088a187_CORR_V1. ISA II Oficina de Astronomia Pirõ Sekaro (São José I). Tratando dos conceitos de cronologia e crônica.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS OFICINAS TEMÁTICAS 2005-2010 âmbito temática onde e quando assessores Projeto Matemática Tukano Bote Purĩ Bua. Instituto Iraquara II Oficina de São José I.indd 179 5/31/12 2:43 AM . REGIÃO . ISA História Tukano Bote Purĩ Bua (São José II). agosto de 2007 Agroflorestal I Oficina de Bote Purĩ Bua (São José II). outubro de 2010 Juan Gabriel Soler. Melissa Oliveira. ISA III Oficina de Astronomia Pirõ Sekaro (São José I). pensam em Theodor Koch-Grünberg como cronista. maio de 2005 Agroflorestal II Oficina de Manejo Pirõ Sekaro (São José I).

ecológicos. as constelações são seres que possuem rão dá de qualquer jeito também”. sigla em inglês). vou fazer uma cidade dentro do próprio entendemos isso. civilização da man. aparece constelação e deveria ter enchente. acontece chuva. Meu pai dizia que quando aparece econômicos e rituais. Com as oficinas de Astronomia existe mais a ordem dos fenômenos da natureza. ocaso ao longo do ano relacionada com as referên- ciantes.. em uma constelações. saber se os brancos. tempo das missões. Comparação das construção conjunta de uma cronologia da história constelações identificadas e das estrelas que as com- dos Tukano (tempo dos ancestrais. ção dos seus movimentos com os ciclos de na- mia surgiu porque nós queríamos saber sobre as tureza e ciclos socioeconômicos. histórias que os não-índios têm sobre as cons- mento mais amplo da Aeity e da Acimet. suas histórias de origem.índios. Tem certas épocas que não chove mais. põem com o céu greco-romano. Como São Paulo. em torno telações. da lua. como consideram as constelações. e padrões no céu. acontece a definição de um ciclo Negro”. Construindo um sentação em escala no caderno de constelações). a sequência de seu dioca. telações. Por isso consideramos Walmir rio. Eles teriam que fazer vida está lá no céu e eles não querem acreditar na pesquisa lá para entendê-la melhor. Eles diziam.. assim como os velhos conhe- Estávamos interessados em registrar nossas cedores. cação Matemática na Pontifícia Universidade Cató- mento de metodologias para continuar a pesqui. o ve. que também são professores. calendário dinâmico”. ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI iconográfico. cheio de rios embaixo”. o mundo. Desenvolvi. Elas fizeram parte de um movi. Não respeitam o que é o mundo. Para nós. cias internacionais da União Astronômica Internacio- nal (IAU. desde a nos- jeito. tempo dos comer. da discussão do manejo ambiental e da pesquisa qual o efeito que o seu movimento traz para os sobre os ciclos astronômicos. A Astronomia te. Os pais diziam. entendemos que os brancos têm constelações. do observação do céu. que pode ser encontrada no OFICINAS DE ASTRONOMIA V icente V ilas B oas A zevedo A ideia de realização das oficinas de Astrono. no céu depois de certo conflito. céu dos Tukano na escola Yupuri. Em saber das mudanças cíclicas.indd 180 5/31/12 2:43 AM . tukano e desana e o registro Walmir defendeu sua tese de doutorado em Edu- dos mitos de origem de constelações. Conhecedores contaram his- Na 1ª oficina foram feitas sessões noturnas de tórias de origem de constelações. Os brancos dizem: “vou fazer uma ponte sa transformação. físico e professor. identificação das constelações arco-íris e dos eclipses. Através da comparação é que grande. de qualquer constelações tiveram origem aqui. os astrônomos brancos. Os brancos não respeitam as cons. lica de São Paulo (PUC/SP) em 2007. a rela. 1938 e realizada a de constelações tukano e desana. tempo da autonomia). “os história de origem aqui na Terra e foram jogadas não-índios não estão mais respeitando o ambien. questão de comparar entendimentos. Só querem viver assim. As nossas nossa história. que envolve os agentes uma constelação. e benzimentos associados. Acho que é da Grécia. da Comissão de Fronteiras. dos brasileiros é diferente. tempo dos portugueses. não. quando só que dão outros nomes e têm outras histórias. nua em andamento. Construção de calendários Oficinas de Astronomia circulares dinâmicos. intitulada “O sa na comunidade (observação do céu com repre. Nossa não própria dos brasileiros. Foi exibido o filme “Em viagem pelo Rio Na 2ª oficina. do sol. socio. “hoje já não percebem isso. Queríamos indígenas de manejo ambiental (Aimas) e conti. 180 088a187_CORR_V1.

Realizada a transferência Na primeira oficina. chegando a um novo Na primeira oficina. avicultura e meliponicultura. Ali analisa essa expe. comunidades da escola..pdf. Tukano.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS sítio da internet www. com orientação jetos Demonstrativos dos Povos Indígenas). Biologia das abelhas indígenas. que foi publicado em duas vizinhança da escola.. restais e técnicas de manejo agroflorestal. que trouxeram mudas e se. relativos aos anos de 2006 e começar na Escola Yupuri a criação de abelhas in- 2007. uma série de oficinas de manejo arumã. peneiras.. Foram realizadas visitas de prospecção a Cabalzar. instalando o meliponário da construção de sementeiras e implantação de po. Revisão Oficinas de Meliponicultura das categorias utilizadas. 2010. com ilustrações. 2010). Oliveira. camotis) pelas alunas da escola. Seis espécies mostraram bom potencial para de melhorias da avicultura. cumatás. 14 como mansas e Análise de como estava sendo feita a criação de 14 como bravas e descartadas para a meliponicul- galinhas nas comunidades. Mere pheri mumiã apostila sobre criação de galinhas. O meliponário foi ampliado. com participação produziram registro sistematizando os assuntos tra- de moradores das comunidades (pais de alunos) da tados nas três oficinas. estudam a biologia e mane- Oficinas de Manejo Agroflorestal jo das abelhas sem ferrão. que incluiu. panelas. Foi cialistas. Oficinas de Artesanato OFICINAS DO PDPI Aconteceram duas oficinas focadas na confecção de diversas peças de cerâmica (pratos. foram construídos viveiros de povos de abelhas capturados na floresta para de mudas com material local.br/pos/edmat/do/tese/ mentes dos quintais das casas. elaborando propostas tura. Mere pheri múmia. apostilas escritas em tukano. participaram alguns alunos e um professor revisamos as sequências das espécies ou fenô. entre outras trançaram abanos. Semeadura e implan.indd 181 5/31/12 2:43 AM . Para cada círculo. escola. Foram contadas histórias de origem do ban- desenvolvido e realizado com o apoio do en- co tukano (José Azevedo. M. Pesquisa sobre a possibilidade de menos em questão. Duhkathe tukano e ilustrações dos alunos. Foram identificadas 28 Oficina de Avicultura diferentes espécies de abelhas. da cerâmica e de como fazer utensílios de 181 088a187_CORR_V1. brado o número de caixas com abelhas. artesãos). orientados por diversos espe- agroflorestal. com textos em yuturã.pucsp. Foi organizada uma a meliponicultura: Buhká múmia. e Aimas. Cardoso. Beranua soarã. REGIÃO . implantação e diversificação de pomares agroflo- riência de troca de conhecimentos com os Tukano. formação de mudas. Sobre essa experiência foi publicado o captura no mato para começar uma criação (povos artigo ‘Calendário astronômico do médio rio Ti.. Na última. bancos tukano. colmeias profissionais. reprodução das abelhas. Os alunos tação do futuro pomar da escola. tipitis. com grande participação dos conhecedores dígenas sem ferrão. Houve uma prática de cap- tura de um povo de abelhas. cestos de atividades. Na segunda oficina: walmir_thomazi_cardoso. sendo do- mudas de árvores frutíferas. matrizes ou plantel) e instalação de um meliponá- quié: conhecimentos para a educação e manejo’ rio (lugar com caixas com colmeias de abelhas in- (Azevedo. Os meninos pensando no futuro. Na segunda oficina. W. et al. Na 3ª oficina. da especialista Oscarina Caldas (desana da comuni- o projeto Manejo sustentável no médio Tiquié: dade Acará Poço) e de outras ceramistas. além dos alunos da Escola número de círculos ou anéis. A. Preparo de sacolas para fazer e na prática. V. api- Em 2005 a Aeity aprovou pelo PDPI (Pro- tos. Miguel Azevedo e demais genheiro agrônomo Pieter-Jan Van der Veld. na teoria mares agroflorestais. da Escola Tuyuka. foi elaborado um calendário cir- cular único por todos os participantes. oro múmia e Uduporo múmia. In: dígenas).

dos Tukano e Desana hoje vivendo no médio rio do do Amazonas. que visa peamento e registro do território ancestral tukano e formar novas gerações para o domínio de equi- dos lugares sagrados. o ponto de cultura foi instalado no espa- Tiquié. Foram for- mados 35 alunos. dos antepassados edital de seleção para pontos de cultura do esta. com exposição acordo com Vicente Vilas Boas Azevedo. De técnicas e saberes envolvidos. de tucum (Maximiano Aguiar. teve como obje. tukano). equipamentos audiovisuais livro e 1 DVD multimídia. computador. domínio básico do uso de gravadores digitais. munidade. José Azevedo. pamentos que possibilitem o registro e a circula- lizadas por alunos. As experiências de ensino com pesquisa abran- dos cuidados no manejo das matérias-primas gem temáticas de interesse dos alunos e da comu- utilizadas na sua confecção. lheres na roça. bateria. um vídeo sobre o preparo do ipadu nados à produção de artesanato e artefatos e outro sobre dabucuri com dança de kapiwaya. sob a orientação dos conhecedores. de arumã (Ma. ao registro de suas histórias de origem. ma. para que a dos artefatos confeccionados. tukano e Miguel Aze. para câmera. cartões de memória). que inclui a realização de viagem ao ra oficina de técnicas de registros audiovisuais. dentre os quais se destaca uma equipe de cinco alunos. relacio. com orientação tivo principal valorizar as técnicas e saberes do consultor. ção de vídeo. desana. contendo vídeo. As viagens ainda serão rea. professores. ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI cerâmica (Oscarina Caldas e alunas que haviam par. que ficaram responsáveis PROJETO PRODUÇÃO DE ARTESANATO por continuar a realizar atividades de vídeo na co- Financiado pela Cafod. com a pequeno plano de manejo. sendo equipado com kit de placa circulação e divulgação: 2 CDs informativos. siriano e José Azevedo. Benjamin Oribe. A associação foi aprovada com o projeto dos ao longo dos rios Negro e Uaupés. um vídeo sobre o trabalho das mu- tukano e desana do médio rio Tiquié. fotos (câmera de vídeo. agentes indígenas de manejo ambiental (Aimas). A escola iniciou o projeto em 2010. diversos. de Tukano Yupuri. ção de seus conhecimentos. do Programa Mais Cultura do Tiquié. e Novas Lugares de cultura: viagens de conhecimento. Yupuri em técnicas de registro audiovisual. e proposto um nidade. com vedo. Serão formados para estes registros e para ço que agrega secretaria e biblioteca da Escola planejar a elaboração de materiais didáticos. Este projeto também se inse. São registrados as produção de material didático na língua tukano. tecnologias de comunicação: multimeios. a coor- PONTO DE CULTURA DO MÉDIO TIQUIÉ A Aeity submeteu em 2009 uma proposta ao local de origem no rio Papuri. 182 088a187_CORR_V1. diretamente articulado à linha do ensino médio Artesanato tukano e desana e O ensino com pesquisa na sustentabilidade. passando por locais considerados sagra- MEC. Os alunos realizaram. prática de pesquisa começasse a dar certo. vara de boom e microfone e mapa interativo. No primei- e outros membros das comunidades do médio ro ano. Formação de jovens e professores da Escola ximiano.indd 182 5/31/12 2:43 AM . câmera fotográfica e câmera filmadora. 1 solar. Oficina de registro audiovisual ticipado de oficina na Escola Tuyuka). tukano). velhos sabedores. desana. inter- re em duas linhas de pesquisa do ensino médio net (antena) e computador específico para edi- tukano: Histórias de origem do mundo e da hu. São realizadas oficinas vol- Escola Tukano Yupuri tadas para a confecção de artefatos e artesa- nato. já tendo sido realizada uma primei- manidade.

deveria Muitas das pesquisas desenvolvidas na escola ser o primeiro a se aproximar mais do sábio. então é assim”. outro irmão pode se queriam responder a perguntas ou entrevistas. das por alunos individualmente. eles contam história é do mesmo sib. Um conhece- go prazo. depois faz seu relatório e desenhos. Marcando dia e pesquisa na sua comunidade. O aluno pode gravar o que o conhecedor dor que está ficando velho. o caçula. Os filhos ouviu isso. tiza os conhecedores que eles devem ensinar para menta a pesquisa durante o dia. Há alunos que são horário para fazer a pesquisa e avisando com um bi. Mas em relação a certas temáticas. Por isso a coordenação conscien- sobre isso. Mas às vezes acontece que vem para escola um redes. Mas foram feitas em torno das temáticas abordadas muitas vezes isso não acontece. Outras foram realiza- é a partir desse diálogo que os filhos têm que co. do filho rante a noite. várias etnias. o do meio. memorizar os conhecimentos. ram que uma vez que os mais velhos estavam enfra- não vão mais tanto para roça ou pescaria. ou pela própria experiência. aluno que é de uma comunidade vizinha. com perguntas para os outros também. reclamavam que muitas vezes os pais voltavam o neto. Mas muitas vezes o irmão cansados do dia de trabalho e não podiam ou não maior não está interessado. seu conhecimento.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS denação teve que fazer um trabalho de conscienti. Quando tem conhecedores de mitir conhecimentos. velhos falavam. O professor também orienta e apoia o aluno nes- 183 088a187_CORR_V1. se aproximava. e o aluno vai anotando e depois comple. que o lhe uma temática do currículo que lhe interessa e benzimento. O conselho da escola recomendou Por isso começaram a articular através da escola que os alunos marcassem um dia da semana. Seu para cumprir um requisito de formação. o aluno esco- de seu próprio filho dizendo isso e aquilo. quecidos. e de vários sibs e classes durante um lia tende a receber os conhecimentos de seu pai. quando eles chegam para fazer os pais. com velhos de outras comunidades e sibs. No tempo dos antigos era assim. o irmão maior de uma famí. Uma pessoa interessada. o velho espera seu filho. Se o aluno faz pes. Os interessar. uma atividade a ser feita em lon. avisando o horário cimentos. ele deve procurar certos conhecimentos. após a quinhapira do fim de tarde. que não quisa sobre cobras venenosas. que o sábio não vai atrás médio. “se a regra é assim. que amplos das comunidades. esses conhecimentos estavam acabando. que eles fossem mais abertos. Eles do Vicente antes isso não acontecia. antes de morrer. cada porque. mais velhos sempre se dispuseram a colaborar. dentro de sua própria família. um conta sua versão. pai de Vicente. repassar De acordo com o modo dos Tukano de trans. a realiza- Feliciano. os pais contando histórias. Segun- gar e pede para a esposa preparar uma mujeca. ou o menor. um tio. o filho ou o neto que zação com os pais e com os mais velhos. a história é assim. sempre ção da monografia final do ensino fundamental e dizia que o espaço é livre. REGIÃO . principalmente meçar a pensar. está falando. As pesquisas são fei- Dentro da família a comunicação se dá mais du. sobrinho ou neto che. pois Ultimamente os moradores do médio Tiquié vi- são sábios e ficam mais tempo nas comunidades. Os pais ficam nas oficinas e relacionadas com projetos mais conscientizando seus filhos em relação a isso. litou a pesquisa. uma vez casado ou com família formada. muito interessados na pesquisa e fazem pesquisa lhete. um irmão maior. tas principalmente dentro do mesmo sib. do sobrinho com o tio ou do neto com o mais tarde quando todos estão deitados em suas avô. e para isso conscientizaram os pais para em que iriam fazer pesquisa com o velho. Os filhos é que têm então procura um especialista da sua comunida- que vir atrás. Para realização da pesquisa. o filho. e isso faci. evento maior como uma oficina. tem que dialogar com seu próprio filho. diálogo entre todos os conhecedores. para que os mais jovens acessassem esses conhe- cipalmente no fim de semana. Isso facilita o diálogo. mas ele não vê conversam e algumas vezes a pesquisa não demora problema nessa mudança porque considera que muito. por exemplo. Ou com o pai. prin. os de ou de comunidades próximas para o orientar.indd 183 5/31/12 2:43 AM . a pesquisa todos são do mesmo grupo e começam a ter esse deve ser contínua.

benzimento para tirar o salas de extensão e é utilizado pelos alunos de vá- sofrimento do luto. remé. partes que conseguem e fazem perguntas para os manidade. aprofundar a pesquisa. fundamental (2008-2009) . com então secre- Alunos e professores do ensino médio estão sendo tário Dario Azevedo. vídeos. pais. que complementam. CDs. fascícu. No 1o e 2º ciclos alguns alunos olham dios do mato e em torno da casa. e complementam com mais pesquisa. mada em um fascículo ou uma publicação. didáticos. digitar. Um grupo composto pelo secretário da escola Produções caseiras e alunos do ensino médio foi formado pela asses. para produção de fascículos formados para fotografar. origem e forma médio. Outros ficam só na mente do pesquisa de conclusão do ensino fundamental: sábio e ele pode repassar para o seu filho. ção de alunos do ensino médio. câmera fotográfica. impressora. Alguns conhecimentos podem ser publicados. pois em algum momento ela poderá ser transfor- lhotina. sob publicações com editoração gráfica profissional e orientação da professora Sueli Caldas. se quiser. benzimentos. Para isso a secretaria da escola foi estrutu. e habitat de aves. benzimentos de nominação e proteção ao longo Tudo o que é publicado e grande parte do que da vida. gostam muito dos desenhos. câmera de vídeo e cartões de memória. se alguém quiser pesquisar terá que ir ao ar- por exemplo. Resultou de uma etapa de forma- digitar. pinturas faciais e corporais. Mirikhuã (2008) . lêem as te do aparecimento e história de origem da hu. No ensino a origem da dança do kapiwaia. entrevistar. Então eles começam a A produção de pesquisar. Na turma que se formou no início de 2009. ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI se processo. cular amplamente. e em e pelo conselho escolar. amplo. DVDs. conhecimentos devem ser guardados apenas na tados. serem utilizados como material de pesquisa. parte por abordarem assuntos que não devem cir- res. Mais recentemente foi im- Materiais didáticos em destaque plantado o Ponto de Cultura do médio Tiquié (vide Box). 184 088a187_CORR_V1. produzidos em oficinas e encontros são registrados Esses materiais ficam arquivados também para e transformados em material didático para as ou. tivemos as seguintes temáticas de quivo e pedir licença.indd 184 5/31/12 2:43 AM . gravar áudio e vídeo e estão muito As pesquisas realizadas e também os materiais interessados em fazer algumas publicações. No terceiro ciclo eles já dominam a leitura do livro história da 1ª menstruação e da filha do Jurupari. Digitalização feita por alunos da escola Alguns materiais são escolhidos para compor Wehsemi. história da gen. escola. trabalham com um conhecimento mais de realizar o dabucuri. Toda pesquisa que é realizada deve ser guardada. em diálogo com assesso. os materiais. vem também de exemplo para outras turmas re- los. rios ciclos. gui. gravadores.Descrição da aparência. é produzido na escola é distribuído em todas as to de tumor da mama. comunidade Wahpu Nuhku (Cunuri). desana. escola. es- materiais didáticos crever. hãdeku. escanerizar e encadernar registros escritos. história de origem da jararaca. gravar. hábitos soria do ISA para produzir materiais locais. cartazes produzidos e armazenados na própria alizarem pesquisas como aquelas já produzidas. Ser- tras turmas: podem ser gravações. canto das mulheres. reprodução de exemplares em número ampliado. Trabalhos de final de curso das turmas de ensino A decisão sobre os materiais que devem ser publi. filmar e produzir vídeos. principalmente ao explicar como os outros não e isso está sendo respeitado. benzimento para curar íngua. benzimen. scanner. material para encadernação.Várias temáticas. Eles lêem as histórias e os pais começam a orientar que no fundo dessa história há histórias sagradas. medicina tradicional. contam suas versões. rada com computadores. Alguns conhecimentos devem ser registrados e apresen. Por cados é tomada pelos moradores das comunidades decisão do conselho não foram publicados.

3. São Paulo: Resultado da pesquisa realizada por membros da Instituto Socioambiental. velhos Socioambiental. Aeity. Complementa a revis. sib Ñahuri porã). Dario Alves Azevedo. Piscicultura. Vários colaboradores. noite). em que se re- Ati Umukhore suori nirã kihti . São Paulo: Instituto Socioambiental. ecoló. Avicultura. Aeity. Manejo agroflorestal. história da morte da lua (eclipse lunar).São Paulo: ISA. Aeity. o que falta aluno do ensino médio Yupuri Zenilton Caldas. Vários organizadores. Wuhu kihti. Vários cola- ro (curupira) e história da origem da noite (caixa da boradores. Isso faz com que as pesquisas radas por Uremirĩ José Vilas Boas Azevedo (Ñahuri fiquem mais completas e aprofundadas. tuto Socioambiental. pais. Vários colaboradores. PDPI. e modos de produção de artesanato. PDPI. e festa de dabucuri com dança Kahpiwaia (2010) gua portuguesa). Revistas Karekea na derowe ehkasetise . Aeity.São Paulo: Instituto únem pais.Ciclo das principais constelações (na lín- du. São Paulo: Instituto Socioambiental. agente de saúde. Livros Marĩ añuse kihti . conhecedores. para realizar uma ta anterior. Num primeiro mo- de origem da constelação Kaĩ sariro (tipo de arma. ao longo de três anos (2005-2007). Waire derowe ñanuru ehkase bueri purĩ . Vários colaboradores. 5. (2009) . 2008. vereiro 2009.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Dii Kihti. História da Via Láctea. gicos. se o filho digitadas e em parte coletadas e registradas pelo considerou tudo o que ele lhe ensinou. História de origem da Via Láctea. socioeconômicos e rituais no médio Tiquié.São alunos. nar. transcritas. Dahsea porã bueriwi Yupuripu . dizem se o trabalho está bem feito. coordenam as apresentações. Pesquisa realizada por diversos professores. Informativos (projeto PDPI) Belo Horizonte: FALE/UFMG/CGEEI-SECAD-MEC. Paulo: Instituto Socioambiental. Técnicas de manejo agroflorestal. Aeity. Meliponicultura. rios colaboradores. professores. tivo n. história do Bora. lhos. há um dia. a cada dois meses ou dois módulos. mento os alunos expõem suas pesquisas.Histó. relatórios. Ciclo de constelações da Gente do Aparecimento Trabalho das mulheres na roça. através dilha). história avaliação do processo escolar.Informa- Apresenta histórias de origem de constelações. Os lua. o preparo do Ipa. descrição destes ciclos feita por agentes indígenas de ma. Uremirĩ Aprígio Azevedo (Ñahuri porã) e Ku- rias de origem da cerâmica. 4.Informativo n. história professores animam. 185 088a187_CORR_V1.Ciclo das principais constelações (na lín- gua tukano). . fascículos. julho 2009. encenações. REGIÃO . PDPI. (Coleção Bueri Turi). De acordo com o calendário de cada uma das nejo ambiental. PDPI. história de origem sol e da lua. ele complementar.Seribhi. dos verões e invernos e demais fenômenos as- sociados a este ciclo. Ohte buesere wereri purĩ . 2007. mães e velhos das comunidades. lideranças.Vídeo elaborado durante exercícios efetuados na Bhauari mahsã na Umukhori bapakeo kahtise oficina em técnicas audiovisuais. julho 2009. porã). narrada por Suegu Manuel Encontros para avaliação comunitária Azevedo (Tukano. fe- São Gabriel da Cachoeira: Foirn.indd 185 5/31/12 2:43 AM . (2009) . 2007. 2006.Informativo n. descrição de um ciclo anual de constelações e Aeity.São Paulo: Insti- Aeity. a partir de observação e registro escolas que compõem a Escola Yupuri. as fases da de cartazes. alunos. dos antigos pássaros (os pássaros que aparecem na Então os pais comentam as pesquisas de seus fi- época de ocaso de certas constelações). Ñoka purĩ kihti (2009) . Vá- Acimet e Aeity sobre ciclos astronômicos. Dahsea porã bueriwi Yupuri Dara bueke . 2011. Acimet. do arumã e do tucum marõ Guilherme Azevedo (Hausirõ porã). Elaborado por alunos do ensino médio após a realização das Cartazes oficinas de artesanato. Marĩ kahtiri pati kahse ukuri turi . PDPI. Aeity.

os encontros de profes- alunos. No conselho. “O que vocês vão querer estudar viver bem. AÑURO KAHTISE V icente V ilas B oas A zevedo Quando começamos a discussão sobre a escola lugar. Conversava ao fortalecimento cultural. História das morrer. A equipe de tão autônoma da escola por parte de seus mem. mas também por pais. lheiros e lançar suas opiniões. Na volta meu pai me dizia. um polí- ações em torno da Escola Tukano Yupuri é a ges. tranquilos. escolar. como falava meu pai. como programação das atividades da escola. niões e assembleias ordinárias e extraordinárias. cer: as pesquisas e a produção de material didático. cartazes. vamos con- a nossa terra é boa. coordenação não deve impor decisões ao conselho bros através da integração entre conselho esco. Estes são espaços nos quais seus membros apre- O que mudou nas comunidades. Nossos pais então nos muito com o meu pai e ele dizia. com nossa dia a ele. tudo aqui. tem cultura. Tinha muito peixe. de elaboração de ciona basicamente através da realização de reu. nasce história também. os avanços e conquistas da com a escola escola. Mas tem que ouvir as opiniões dos conse- lar e coordenação. Se você for a um outro nas.indd 186 5/31/12 2:43 AM . os moradores dessa região come- to. “se você quiser perguntavam. veículo para a transmissão do conhecimento dos A ESCOLA INDÍGENA E O VIVER BEM. representados principalmente pe. “Filho. A coordenação deve O conselho da Aeity é o âmbito que reúne apoiar o conselho no planejamento anual e buscar todos os moradores das comunidades que com. embora haja sibs maiores e pais me acordavam cedo e mandavam tomar ba- menores. sobre como a escola estava se articulando você nasce. O conselho fun. zia. as rezas para viver bem”. Onde nascemos é constelações é o centro da vida dos povos indíge- onde está nosso vínculo. Lá que existe história. O cotidiano escolar e o ensino com pesquisa que sejam realizadas mudanças. benzimentos. 186 088a187_CORR_V1. falamos para os nossos pais. sentam os problemas. não poderá viver indígena. os encontros de avaliação. viabilizar as atividades que fazem a escola aconte- põem a escola. Todas as manhãs meus as outras sociedades. tico que aceite a proposta da maioria. para os mais tranquilo. mães. Viver bem com trabalhava bem também”. caça. como vivia antes nesse lugar. as assembleias e formaturas. Ele me di- que morava comigo. Porque nho. O A base de sustentação das concepções e coordenador tem que ser um articulador. me perguntava. você tem que entender quais são os agora da nossa cultura"? Principalmente meu pai. tem versar. “Antigamente a gente vivia bem. Eu respon. na família. ESCOLA INDÍGENA TUKANO YUPURI A atuação intensa da equipe da coordenação é A gestão autônoma e contínua da escola fundamental para o bom andamento da escola. sugestões para tância. queremos viver bem. Porque é nessa terra que nós vamos “Conta a história das constelações”. “O que nós queremos é viver bem”. sores. a gente bem na comunidade. os moradores podem apresentar çaram a se tornar mais conscientes da sua impor- críticas ao andamento da escola. Viver alimentação boa. Ali onde velhos. as viagens de articulação. e velhos conhecedores. planejamentos e conduziram à valorização da língua tukano. o que você quer aprender"? Eu respondia. você sempre terá saudade. Também é através das assembleias que o conselho discute e aprova mudanças no projeto Através de todas as atividades promovidas no político-pedagógico da escola e no seu regimen. tem história. âmbito da escola. las suas lideranças. lá que existe vida.

contribuir para as linha de pesquisa. PRÊMIO E BARCO Em 2008. professores. Outro munidades e para conduzir políticas de educação. 187 088a187_CORR_V1. continuar em profunda consonância com os pro- põem a escola pretendem prosseguir com essa jetos de vida das comunidades. Estão sendo forma. encontros. em São sobre o andamento da educação escolar indí. pelo conselho escolar. assembleias. transporte de alunos. continuidade da publicação das pesquisas. Eu anoto toda a discussão e repas- os professores e demais moradores e pergunto so para os representantes da Semec. a Aeity foi contemplada com o Prê.indd 187 5/31/12 2:43 AM . Todos estes desafios deverão ser su- O futuro da Escola Indígena perados através de um diálogo contínuo entre os Tukano Yupuri moradores dessa região. política de educação escolar. discutimos. Os jovens. O PAPEL DO API V icente V ilas B oas A zevedo Desde 2007. Assim moradores nas atividades escolares. tar novas parcerias com instituições de ensino e sem abandonar as práticas cotidianas da pesca. cipantes repassam as dificuldades. REGIÃO . Parte do valor de 24 nas temáticas. alcançar o reconhecimento do ensino médio privilegiados de conhecimentos e os mais jovens por parte da Secretaria de Estado de Educação. edição Xicão Xukuru fessores e demais funcionários. evitando o êxodo. de ensino fundamental e ensino médio. do Ministério da Cultura. com a proposta membros da comunidade e conselho escolar Manejo e educação no médio Tiquié: pensando no durante reuniões. transporte de 2007. A gestão do barco é realizada para a escola. sobre como estão as aulas. A vida safios são continuar a educação escolar em nível em comunidade foi fortalecida. garantindo aos mesmos um currículo específico e uma certificação em nível médio. as pessoas passa. desafio é conseguir incorporar a formação dos manejo ambiental e saúde. Os de- nam com os conhecimentos não indígenas. fundamental. são estudantes mais ativos. a participação dos alunos e dos que inclui a área da Escola Tukano Yupuri. aprendem a contextualizar esses conhecimentos garantir a formação continuada para professores e relacioná-los com outros saberes. Gabriel da Cachoeira. ofici- futuro das novas gerações.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS mais velhos. Os parti- como nas demais escolas que atendo. nas es. encontros pedagógicos. É a partir do fortalecimento dos conhe. da culinária. atuo como assessor pedagógi. viagens mil reais foi aplicado na compra de um barco de articulação. que surgem. da pesquisa que sejam simpáticos à escola e possam caça. vidades de pesquisa. pro- mio Culturas Indígenas. usado prioritariamente para: ati. Aimas ao ensino médio. do seu jeito de viver. colas que compõem a Aeity eu realizo visitas faço algumas orientações e ouço as propostas nas quais faço reuniões com os pais. a atuação dos co indígena da região do baixo e médio Tiquié. do plantio. aprimorar a experiência de ensino ram a valorizar seu território. pois ela já faz parte cimentos locais que a criança e o jovem se relacio. médio fortalecendo a proposta e prática pedagó- Os mais velhos são considerados transmissores gica. para que a escola possa Os moradores das comunidades que com. e da sua realidade. conquis- através das pesquisas. gena. garantir a dos para serem futuras novas lideranças nas co. os alunos.

li- ma Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA).pucsp. Vale nico permanece inserida na vida cotidiana desses ressaltar que parte dos resultados apresentados grupos.8 PARCERIA ENTRE O CÉU E A TERRA W almir T. com Yupuri. outros grupos tiveram atuação nas na Escola Tukano Yupuri. conhecedores.pdf 188 188a233_CORR_V1. Se. devido à participação de ríodos em que eu permanecia na comunidade. C ardoso O presente texto foi motivado pelo convite Apesar de contarmos com a participação ma- pessoal para realizar um trabalho junto ao Progra. é o mesmo para grande parte dos habitantes des- em São Pedro. muitas pessoas. estendi minha atuação em 2006 também pequenas variações de descrição e interpretação. ciça de estudantes. na comunidade São decisiva nos resultados. as mais diversas culturas se relacionaram com o 1  O trabalho completo pode ser obtido em: http://www. A duração média de cada oficina foi de O trabalho como um todo apresentou resul- uma semana. Oliveira. esses índios compartilham vários co- Além do trabalho realizado junto à Escola Tukano nhecimentos ao longo do tempo. o que não é exclusivo deles. Por José. na deranças e membros de comunidades das etnias Amazônia. A primeira delas em novembro comungarem de línguas de família linguística de 2005. Foram realizadas assessorias a três ofici. discussões ulteriores. tados significativos. comum. professores. que seguem em revisões e O trabalho não se restringiu a assessorias nos pe. no rio Tiquié.indd 188 5/31/12 2:48 AM . Colômbia. como em qualquer pesquisa dessa natu- especialistas do ISA. os trabalhos seguiram um programa de A Astronomia dos povos do noroeste amazô- investigação conjunta que veremos a seguir. E o céu. Tukano e Tuyuka. a cerca de 30 km da fronteira com a sa região amazônica. da equipe Tiquié do Programa reza. Constata-se aqui foi apresentada em uma tese de doutorado que eventos astronômicos cíclicos ou mesmo defendida no Programa de Estudos Pós-graduados extraordinários fizeram parte da maneira como de Educação Matemática da PUC-SP1. a segunda em 2006 e a última em 2007.br/pos/edmat/do/tese/walmir_thomazi_cardoso. em particular pela antropóloga Melissa do tempo. sofrerão alterações ou adaptações ao longo Rio Negro. para uma oficina na Escola Utapinopona Tuyuka. como os Desana. Algumas conclusões apresenta- ria impossível realizar um trabalho de pesquisa em das nesse artigo continuam sendo complemen- tão pouco tempo. Acompanhados de perto pelos tadas e.

são elementos conside. Na nossa interpretação da Astronomia área de investigação científica compreende dois desses povos. o ocaso de uma constelação vista importantes segmentos que são a arqueoastro. Se a cabeça de uma constelação-serpente tante próximos e interdependentes. depois validação de seus representantes. já que pode. Em etnias que existem e por isso mesmo os resulta.logo depois do por do nomia e a etnoastronomia. partes de uma constelação que dos desse tipo de pesquisa podem contar com a são vistas desaparecendo na região oeste. culturas com as quais não temos mais contato entre outros. passa pelo horizonte depois do por do Sol isso mos encontrar vestígios de antepassados entre implica numa enchente ou subida do nível do rio culturas contemporâneas à nossa. Desde alguns detalhes que passariam redor do mundo têm utilizado a expressão mais despercebidos até os mais evidentes.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Walmir Thomazi Cardoso Calendário anual dos Tukano do rio Tiquié mundo. A segunda trabalha com populações e constelações como marcadores temporais. indicam eventos do mundo na- efetivamente a programas de investigação bas. Essa associação permite usar as direto. que ajudam durante dois ou três dias.indd 189 6/4/12 1:14 PM . geral de Astronomia Cultural. REGIÃO . organização da vida dos povos do noroeste ama- rados nas pesquisas em Astronomia Cultural. Esse fato tem implica- na investigação da sua visão de mundo atual.é coincidente com eventos do mundo na- principalmente de evidências astronômicas de tural como enchentes. Correspondem do por do Sol. florações e frutificações. outras palavras. Essa zônico. A primeira se ocupa Sol . relaciona. os insetos. É ções centrais porque os peixes. dos com os ciclos de constelações e eventos do As constelações têm grande importância na mundo natural próximo. as aves por isso mesmo que muitos pesquisadores ao e toda uma sorte de mamíferos se comportarão 189 12010-Parte_2_C9b_AF5. no horizonte do poente . tural.

trás da maloca. oficinas de astronomia. lar. Usamos cartas celestes em papel. Equador Celeste e se encontra. ao mesmo tempo. A porta les- ras e. Isso impacta di. as construções que mais assim poderíamos fazer uma carta com boa simi- chamam a atenção. compreender que hou. ou ainda como escola no caso da em 2007 ainda precisam ser melhor trabalhadas maloca da comunidade de São José II à época das em oficinas. as do que uma dezena de graus em relação à linha constelações que serviam de base para o calen. hemisférios norte e sul. do ponto de vista astronômi. letra ainda que seja assim descrita. ESCOLA TUKANO YUPURI . central.indd 190 5/31/12 2:48 AM . ou cartas celestes. são visíveis e a linha que une os pontos cardeais munidades. com o Equador passando pela parte construções que eram as casas de famílias intei. No caso específico das comuni. são as malocas. para a região do ocaso so- como base para os ciclos naturais pode ser alte. Hoje partes iguais.uma linha que separa os dois hemisférios celestes em duas Três técnicas foram usadas e seus resultados partes iguais .PARCERIA ENTRE O CÉU E A TERRA de maneira diferente nesses dias. o Equador Celeste . As duas águas do telhado das malocas estão dades e com os estudantes. Realizar esses das mulheres (porta oeste) e dos homens (porta estudos representou registrar conhecimentos que leste). o plano do mapas produzidos pelos alunos e demais parti- 190 188a233_CORR_V1. Algumas medidas feitas na maloca tukano e rado e alcançar novos significados para os jovens na maloca de comunidades tuyuka mostraram estudantes. foram cruzados para que chegássemos ao ma- trução. regra que não é sempre levada ao pé da remetem aos antigos representantes dessas cultu. Essa ideia me ocorreu porque dades do alto rio Negro. O mais profundamente os métodos que usam para primeiro trabalho feito foi exatamente se ocupar orientação da construção de suas malocas. As duas portas alinhadas com os pontos a essência do convite para trabalharmos juntos cardeais leste e oeste destinam-se à passagem em 2005 e nos anos subsequentes.passa sobre a cumeeira da cons. E foi essa maloca. As cartas ce- elas são usadas para reuniões. Esse calendário que usa as estrelas Sol e a porta oeste. Técnicas empregadas para Como essas comunidades estão muito perto do reconhecimento de constelações Equador da Terra. por causa dessa retamente na vida das comunidades ribeirinhas latitude. sendo interessante conhecer ainda dário natural que seus antepassados usavam. As malocas têm orientação astronômica. O eixo imaginário que serve de referência peamento do céu desses grupos do alto rio Ne- para o movimento aparente de todo o céu em gro. Tecni- que habitam a área. a Astrono. lestes desse tipo que começamos a desenvolver rituais e festas. de identificar essas constelações com as comuni. o que realmente ocorrem apenas na economia e vida social. termo usado para identificar mercator. leste-oeste. de todo o céu é perpendicular à cumeeira da biente escolar tem bastante importância. Essas transformações não cidades da Astronomia aparte. no futuro. em particular. voltadas para o hemisfério celeste norte ou sul. estudar as constelações em am. sem inclinação sobre o horizonte. dividindo a área da carta celeste em duas ras e se transformavam em espaços rituais. laridade para com as cartas celestes de projeção co. sentando as posições das constelações em mapas mia está presente. Os jovens indígenas da Escola Yupuri que a linha da cumeeira não está deslocada mais conheciam pouco. O eixo de movimento aparente Por tudo isso. fura por assim dizer. te está voltada para a região de nascimento do ve mudanças. registros e torno de nós. o telhado pode ser pensado como repre- cultural e construções arquitetônicas. refeições coletivas. Mesmo quando nos ocupamos da organização Assim. com sua cosmovisão concebida de leste e oeste passa pelas portas da frente e de maneira integrada. e alguns não conheciam. mas importa aqui é que os dois hemisférios celestes têm importante reflexo na vida espiritual das co.

Coisa similar acon. vida por nós. que as estrelas poderiam ser associadas com de. O aglomerado de estrelas que com mais precisão). Isso acontece porque elas cha. Em muitas culturas desapontadores. REGIÃO . Usando metodologias cruzadas é possível um semicírculo de estrelas marca de forma bem circunscrever muito aproximadamente as estrelas evidente aquilo que pode ser associado a uma tia. a influência de uns parecia razoável. Na primeira oficina. são identificadas por todos. Foram levados projetor. foram levadas cartas celestes – Observatório Astronômico. ções que mudam de região do céu e até de for- mam a atenção do observador. nesse artigo. Mesmo tendo sido informados de sideramos gerações diferentes que olham o céu. As imagens que temos das constelações não têm presentado no papel e o outro. mato. no céu da natu. e não necessariamente cal a partir de um aplicativo. sas. e estabelecermos a por eles. não-índios. estrelas e não. As cartas celestes são como mapas do céu na identificação das principais constelações pelos e havia dois tipos de cartas previamente impres. computador e gera- narradores ou conhecedores do céu (os mais ex. na última oficina dispostas em arranjos notáveis em áreas do céu.. dos. A primeira contava com os alinhamentos das A identificação de constelações não é uma constelações ocidentais. Mesmo com todos os cuida- conhecemos em nossa cultura como Plêiades se dos não é incomum que os apontamentos sejam presta perfeitamente a isso. e a segunda possuía ape.indd 191 5/31/12 2:48 AM . há casos de constela- rentes significados. só para ficar com al. comparação direta dessas imagens com aquelas. de 2007 foi levado um laser verde com potência que suscitam representações associadas a algum de 30 MW para que as estrelas fossem apontadas tipo de imagem. trelas sejam aquelas que estão sendo descritas tuem necessariamente constelações. Muitas variáveis inter- nas as estrelas em suas posições relativas. Nesse último caso. dor elétrico para garantir a projeção de aplicativos perientes da comunidade).RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS cipantes da Escola Yupuri e os depoimentos dos reza. a projeção ajudava do céu. Essa é uma noção desenvol- consistiu em usarmos uma projeção do céu lo. ou região de fato envolvida com a imagem repre- ra ou ainda uma coroa de pedras preciosas. a mesma característica das imagens mentais de- servado na natureza e também na memória dos senvolvidas por determinadas etnias quando con- participantes. precisamente. participantes da oficina. Não vou entrar em detalhes. sobre as questões envolvidas nas representações observadas no mesmo momento. Ela terminado de astros. mas estrelas ou apontadas (nesse sentido. O fato é que as projeções do 191 188a233_CORR_V1. dependendo do caso. Não havia referências cruzadas daquele céu. ferem nesse processo. muito mais nossa do que de qualquer um deles. o processo de aprendizagem – das estrelas. a um conjunto de- A segunda técnica funcionou muito bem. porque mostravam a localização sobre os outros. atividade simples e direta. Essa pretensão é As cartas em papel não funcionaram tão bem. Existem padrões ou asterismos (como que nem sempre garante que determinadas es- são chamados em Astronomia) que não consti. Enquanto a comuni- em papel para uma tentativa de reconhecimento dade olhava o céu da natureza. Mesmo os tece com as estrelas da constelação do Escorpião narradores podem apontar hoje para uma região e também com a constelação que chamamos e amanhã para outra. não é de ser espantar que algumas cons- senhos e representações do céu que estivessem telações possam ser vistas em locais diferentes mais presentes em suas memórias. Isso oficialmente de Coroa Boreal. Salvo algumas constelações que elas aparecem relacionadas entre si e com dife. re. ou não. exige do pesquisador que os dados sejam cruza- guns exemplos mais evidentes. que era o céu ob. Assim. a técnica não do céu ou mesmo digam respeito a uma área de funcionou. dependendo dos apontamentos.. das imagens. O número de pessoas que Usar cartas celestes previamente produzidas estão fazendo a observação. como o starry night em sua versão em português ocorrida em 2005. sentada por uma comunidade.

Podíamos tê-lo feito. Com o de apontamentos. Mas. Saber exemplo. em 192 188a233_CORR_V1. incentivamos os estudantes a usarem um instru- cação do céu em cadernos de campo ou cadernos mento de medidas bem simples e acessível. mas e registro de estrelas. do ISA) apresentavam. permitindo que eles estudem de uma semana a quinze dias. observadas no mesmo horário. Os cadernos (cerca de 30 unida- teravam suas posições no céu com o passar das des produzidas pelos alunos de 3o e 4o ciclo. A distância de um dedo polegar no céu corres- dos a desenhar as referências espaciais fixas como ponderia a 2. uma da outra. Eles se pretendesse científico ou utilizável para com. o que vem eventualmente perceber que as constelações al. na astronomia de contemplação do céu. essa distância no o local da observação e realizar as observações. mento dos cadernos de observação do céu. se haveria algum tipo de registro que angulares e esse não era o nosso objetivo. papel deveria corresponder a cinco centímetros. com intervalos técnica completa. principalmente no corresponder a uma distância linear no papel. era fundamental que os alu. alunos. umas das outras. precisavam aprender a técnica de uso. os alunos foram instruí. empregando a ções.5 cm. per. de 5° e assim por diante. estrelas ou constelações que eventual- e registrar horário e localização da observação e mente estivessem distanciadas entre o dedo po- usar uma escala de comparação para identificação legar e mínimo deveriam corresponder a 10 cm e registro das estrelas foi uma das metas a serem no papel. ESCOLA TUKANO YUPURI . Por tocante às representações das constelações. Para identificar de um punho. de observação. riam saber mais e investigar mais. Azevedo e Ramiro Paz Pimentel e apoio de Me- ação anteriormente representada no mesmo ho. de maneira mais completa. que que. árvores grandes. tância de cerca de 10°. a ser as escalas. tinham orientação dos professores Antônio Nascimento um deslocamento notável em relação com a situ.indd 192 5/31/12 2:48 AM . uma escala (werese. Foi assim que Os alunos não precisavam estudar ângulos surgiu a ideia de usarmos cadernos de observação para usar essa técnica. Outros cadernos possivelmen- das as referências e na parte superior as constela. sempre do mesmo lugar. entender que cada uma das medidas deveria nos usassem critérios comuns. eles representaram maloca. lissa Oliveira. jun. que seguiram as instruções de preenchi- tamente com os membros da comunidade. te poderão ser feitos no futuro. nas costas rário. seria necessário introduzir as noções de medidas lestes. sob semanas e. e ainda parações posteriores. Investigação essa tados no caderno. o tamanho do dedo pole- nidade foram positivas e começaram a criar um gar marca um ângulo observado no céu de cerca desejo de continuidade entre os alunos. semanas antes. Na base da folha foram desenha. antenas parabólicas. o ângulo que se forma num dos olhos. braço esticado e a mão espalmada. sempre no mesmo horário. se enxergamos a separa- ção entre os dedos polegar e mínimo é perto de Cadernos de Campo 20°. constelações e eventos ce. Os alunos poderiam também.PARCERIA ENTRE O CÉU E A TERRA céu eletrônico e o trabalho com narradores. mitiu que fizéssemos uma investigação bastante Para respeitar as proporções do que se via no completa de parte das constelações observadas céu com os desenhos que deveriam ser represen- pelos Tukano do médio Tiquié. Isso aconteceu com alguns das páginas desenhadas. As extremidades do punho marcam uma dis- As atividades com os alunos e com a comu. Se as estrelas estivessem distanciadas atingidas com o uso dos cadernos. Partindo te importante usada junto à comunidade escolar: de uma escala aproximada de medidas angulares. registros das imagens de constelações e identifi. Na prática. e as constelações em seus cadernos mostrando a sempre fazer as observações às mesmas distâncias que distância (em termos de números de dedos dessas referências também registradas nas folhas ou mãos) as constelações estavam distanciadas. usamos uma técnica conhecida que foi complementada com uma técnica bastan.

os dade como um todo. conhecedores das presentes. Os alunos trocaram Pouco mais de uma dezena de constelações essas informações entre si e resumiram seus apon- identificadas tornou possível passarmos para ou. os da- os fenômenos cíclicos aqui na Terra. E foi isso que dos foram compilados. insetos. o ses dados. tamentos coletivos comuns. os períodos de plantio. como essas constelações se relacionavam com Na segunda oficina. frutos que estavam sendo consumidos constelações e suas relações com os fenômenos pela comunidade. Junto partir dos trabalhos de campo e com a comuni- a cada período de uma constelação se pondo. O surgi- Constelações identificadas mento de determinados tipos de peixes. floração e colheita. os alunos fizeram levantamentos de comunidade escolar.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Walmir Thomazi Cardoso. 2007 Calendário anual dos Tukano do rio Tiquié língua tukano) para mostrar as relações das me. aves. que era saber perceber quais eram as coincidências de eventos. etc. REGIÃO . mamíferos naturais cíclicos.indd 193 5/31/12 2:48 AM . eventos associados com as enchentes dos rios. que possibilitou a construção dos primeiros calen- Paralelamente ao trabalho com os cadernos de dários resultantes da pesquisa empreendida pela observação. foram realizadas algumas estudantes registraram quais os tipos de peixes entrevistas com narradores. Foram essas técnicas reunidas 193 188a233_CORR_V1. levantes escolhidos por eles. Montaram tabelas em forma de ma. dos de ocaso de cada uma das constelações. o que possibilitou tra etapa importante do projeto. flores. tendo por base os perío- possibilitou criar calendários que resumissem es. ocorrida em 2006. e outros animais que viam ou acontecimentos re- didas feitas. Além do trabalho realizado com os alunos a triz que resultaram de pesquisas individuais. outros animais.

Sio yahpu (instrumento para desbas. O peixe. Um peixe é lha de peixe). por do Sol no mês de fevereiro. as enchentes do rio ou telações foi possível mostrar que há um conjun. nesse contexto. o que mostra que nem destacamos. Pamõ (tatu). Wai kahsa (moquém ou armadi.PARCERIA ENTRE O CÉU E A TERRA © Walmir Thomazi Cardoso. Em seguida. pondo entre os meses de setembro até meados Esse ciclo é composto de nove constelações: de novembro. mais a atenção. Mhuã e dahsitu (respectiva. Ocupan- A constelação da serpente d’água ocupa a área do a área da nossa constelação do aquário. ridades. Ñohkoatero (con. As constelações dos Tukano interessante desse conjunto de estrelas é que to- têm a função de marcadores temporais como já das são pouco brilhantes. represen- junto de estrelas). Ela ocupa a área do céu correspondente mente o peixe jacundá e o camarão de água doce. sem saída enquanto o camarão o ataca. ESCOLA TUKANO YUPURI . Enchentes e vazantes rápidas de alguns habitada por esses povos indígenas. acuado por um camarão. à parte da constelação ocidental da águia (aqui- na língua dos tukano). A característica telação do Sagitário. Yai (onça).indd 194 5/31/12 2:48 AM . em tukano. O conjunto dias mostram o dinamismo do rio e da vida nessa principal de constelações foi chamado em minha região amazônica. portância. A constelação de Aña é vista se pesquisa de ciclo principal. essa correspondente a grande parte da constelação constelação indígena fica perto do horizonte ao ocidental do Escorpião. está tar a madeira) e Yhe (garça). Quando parte de uma constelação sempre são as estrelas brilhantes que chamam está se pondo logo após o por do Sol. to bem definido de representações no céu que O mesmo raciocínio vale para as outras cons- está relacionado com eventos cíclicos na região telações. jacundá. na área onde os Tukano vivem. 194 188a233_CORR_V1. ta uma cena em plena ocorrência. 2005 Constelação da jararaca (Aña) que possibilitaram estabelecer o conjunto de -se uma relação com fenômenos naturais cíclicos constelações que apresentamos aqui. Aña Diaso (que significa jararaca ou serpente da A constelação do tatu tem algumas particula- água). estabelece. poero. e também parte da cons. la) e golfinho (delfinus). Têm particular im- A partir das fontes de identificação das cons.

moquém. As três constelações seguintes estão numa Existem outras constelações dos Tukano que mesma região do céu e correspondem às nos. telações se põe entre os meses de abril e maio. Yhe em tukano. O cabo da anteriormente. Ela ocupa a região das nossas A última constelação do ciclo principal é uma constelações de Cassiopeia e Perseu. Trata. as hyades e parte da constelação de delicadeza e cuidados que devem ser tomados Órion. -se da constelação de Yai. usando as técnicas descritas kahsa em língua indígena. em pesquisas dessa natureza.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Walmir Thomazi Cardoso. entre os meses de uma constelação importante pelo número de agosto e setembro. REGIÃO . ainda carecem de identificação. 195 188a233_CORR_V1. ao norte. Essa constelação também é enchentes que vão desde a barba da onça. o que mostra a sas plêiades. até constituída de representantes pouco brilhantes e seu rabo. Ñohkoatero significa conjunto de estrelas. após o por do Sol. garça. A se. do ciclo principal foram identificadas por grande gunda constelação é um utensílio importante parte dos participantes. 2005 Representação da constelação da onça (Yai) A constelação que segue o ciclo principal enxó chama-se sio yahpu. Ela ocupa a região da cons- trelas se põem entre os meses de março e abril telação da Cabeleira da Berenice (Coma Berenices) na região dos Tukano do rio Tiquié. e essas es. Trata-se de e se põe. praticamente invisíveis no céu das cidades.indd 195 5/31/12 2:48 AM . onça em tukano. Esse conjunto de cons- ocupa uma área grande do céu. palavra que significa logo após o por do Sol nessa região. As constelações já que estrela na língua tukano é ñohkoa. tanto em grupo quanto usado para moquear os peixes e chama-se wai individualmente.

196 188a233_CORR_V1.indd 196 5/31/12 2:48 AM . consultas aos professores e lideranças tukano do alto Tiquié e à documentação a Aeitypp (Associação Escola Indígena Tukano Yepa Pirõ Porã).9 ESCOLA INDÍGENA TUKANO YEPA PIRÕ PORÃ O rganizado por M elissa O liveira (ISA) 1 1  A partir das atividades de assessoria.

foram ocupando o trecho alto deste rio. São Tukano. indígena na região do alto rio Negro e do rio Tiquié. Desana. Piratapuia outras para São Gabriel da Cachoeira. Tuyuka 28 1980 em conjunto com as comunidades tuyuka Moopoea (Caruru-Cachoeira) Tukano. Em 2005. e até mes- Tukano. pouco a pou- Comunidades Etnias População co. Tuyuka. mo para Manaus. Kihkaserima Pito (São Tomé) 24 Hupda. desde a Ahkuto Merĩ porã. sendo suas poea (Caruru Cachoeira).RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Aloisio Cabalzar/ISA. Tatuyo vaziamento principalmente a partir da atuação Tukano. REGIÃO . Tohtoma Pito (Santa Rosa) 42 Yebamahsã. os moradores destas comunidades 197 188a233_CORR_V1. Muitos indivíduos ou Yebamahsã Tukano. 40 Desana rio acima. Estes grupos tukano são originários do Papuri e vieram para o Tiquié em diferentes momentos. alto Tiquié Os grupos que compõem a Escola Indígena Estas comunidades são ocupadas principal- Tukano Yepa Pirõ Porã ocupam um território que mente pelos Tukano dos sibs Yupuri Pamõ porã. Hupda No contexto de fortalecimento do movimento Tukano. onde até hoje residem.indd 197 5/31/12 2:48 AM . Ahkãrã Bua (São Paulo) 57 dos missionários na região. Miõña Pito (São Domingos) 37 comunidades que sofreram um processo de es- Yebamahsã. Tuyuka. abrange a área acima de Pari-Cachoeira. Tuyuka.Associação Total 284 das Tribos Indígenas do Alto Rio Tiquié (antiga Cre- Dados: Censo Dsei. 2009 Alunos da Escola Tukano. Yupuri Bubera porã. famílias inteiras se mudaram para Pari-Cachoeira. comunidade Santa Rosa. Hupda estas comunidades passaram a constituir nos anos Busama Pito (Boca do Samaúma) Tukano. Tuyuka. esposas predominantemente da etnia Tuyuka. 2009 tiart). Uuma Pito (Jabuti) 56 Tuyuka. ÁREA DA ESCOLA através de diferentes caminhos e. Tuyuka. a associação de base Atriart. Sakuro porã e Yepa Bayiri Bohsoa porã. Uremirĩ comunidade Mioña Pito (São Domingos) até Moo.

trou os textos. baniwa. desana. As oficinas de ben- 2005). de atividades de pesquisa desenvolvidas nas comunidades e de SEDE E SALAS DE EXTENSÃO viagens de acompanhamento dessas atividades Comunidade Escola por parte da coordenação da Aeitypp e assessoria Tohtoma Pito (Santa Rosa) Escola Doetyro (sede) do ISA. setembro de 2008 e mar- Moopoea (Caruru-Cachoeira) Escola Wehsemi ço de 2009). com a escolhido para a construção da maloca foi Tohto- intenção de constituir uma experiência própria de ma Pito (Santa Rosa). O local Indígena Tukano Yepa Pirõ Porã (Aeitypp). na Maloca de Moopoea (Caruru).indd 198 5/31/12 2:48 AM . A primeira oficina de benzimentos foi realizada Entre 2005 e 2008 os moradores das comuni. taram com assessoria de Melissa de Oliveira. mães e velhos conhecedores das sete comu- Atualmente a escola conta com aproximada. Pito (Santa Rosa). e a assessora Me. sede da associação. acompanharam as discussões A terceira oficina de benzimentos e oficina de e apoiaram na sistematização do documento ao metodologia de pesquisa foram realizadas na Ma- longo dos anos. ESCOLA INDÍGENA YEPA PIRÕ PORÃ tukano criaram em assembleia a Associação Escola no-aprendizado destes conhecimentos. taria de Educação do município de São Gabriel da A segunda oficina foi realizada em Tohtoma Cachoeira (abril de 2007). aprovaram um projeto para construção de riormente cada grupo transcreveu as fitas e ilus- uma maloca como local privilegiado para o ensi. com Em junho de 2010 ocorreu a formatura da 1a tur. e Anne Keyla Firmo Alves. lissa Oliveira do ISA. do ISA. na primeira oficina. nome cerimonial dos Tukano que do por grupos compostos por alunos. Assessor Pedagógico Indígena – API – da a revisão e complementação da história narrada região do alto Tiquié na época. em abril de 2007. Judite Albuquerque à época doutoranda zimento que se seguiram. Higino Pimentel Tenório. da Secretaria de Educação do município de São Gabriel da Cachoeira. nidades que fazem parte da Aeitypp. loca de Moopoea (Caruru). da Secre. Miõña Pito (São Domingos) Escola Uremirĩ Várias oficinas de benzimentos aconteceram Ahkãrã bua (São Paulo) Escola Ahkuto entre 2006 e 2009 (junho e novembro de 2006. Foi feita tuyuka. Busama Pito (Boca do Samaúma) Escola Yepario abril e outubro de 2007. projeto político-pedagógico da escola. educação escolar. do das roças. oficinas coordenadas pelos kumua (benzedores) e res distribuídos na sede e salas de extensão. com a participação de Madalena Paiva. educadora. contando demiurgo envolvido na origem da alimentação. dades realizaram várias reuniões para discutir o Os velhos narraram a história de origem de Basebo. em novembro de 2006. dos cultivos. Poste- 2008. 198 188a233_CORR_V1. o acompanhamento das na Unicamp e realizando várias assessorias no rio pesquisas e sua organização para publicação con- Negro. professores. participação de Anne Keyla Firmes Alves. Foi abordada a metodologia A pesquisa sobre benzimentos e de ensino com pesquisa e criados grupos por co- a construção da maloca munidade para pesquisar com os velhos kumua. pais. em junho de 2006. hoje vivem nessa região do alto rio Tiquié. e a ma de ensino fundamental completo desta escola. desana. em Tohtoma Pito (Santa Rosa) benzimentos já definidos por cada grupo. pelos coordenadores da associação. consultoria de Judite Albuquerque. Yepa pirõ porã significa Filhos da Esse processo de pesquisa e registros foi realiza- Cobra de Terra. a partir de mente cem alunos e um quadro de sete professo. Em 2006 os membros da Aeitypp iniciaram Ao longo do ano de 2007 os grupos organiza- uma pesquisa e registro de benzimentos e. em ram-se para realizar registro com gravador. e também relacionado ao Departamento de Educação da Foirn (março de ensinamento dos benzimentos.

NIRÕ KAHSE UKŨRI TURI Este livro. além do público falante da forte e sem doenças. de 2007. do andamento das pesquisas nas comunidades. A Aeitypp iniciou em janeiro de 2010 as ativida- cação deste material. 2010. cujo título seria em uma tradução nascimento de uma criança e em períodos espe- aproximada. e ga- narração dos benzimentos complementares. Essa Em 2008 a AEITYPP concorreu com esta pes- 1ª versão foi apresentada aos demais membros quisa ao “Prêmio Culturas Indígenas. ciais. para realizar o trabalho Prêmios e novos projetos de digitação e organizar uma 1ª versão do livro de benzimentos dos Tukano do alto Tiquié. e em junho de orientação de todos os kumua. zagem de benzimentos que fazem parte do amplo A quinta oficina ocorreu em Tohtoma Pito (San. Pelo seu ineditismo nascimento da criança e sua nominação. e na capital Manaus. toma Pito (Santa Rosa). sobre o pensamento rituais de iniciação masculina. apontando os outros benzimentos que PDPI (Programa Demonstrativo dos Povos Indíge- deveriam constar no livro. repertório que os kumua dominam. para da em Tohtoma Pito (Santa Rosa).Edição Xicão da coordenação da Aeitypp e ao grupo de kumua Xucuru”. ao dades tukano do alto Tiquié. na Colômbia. Cada kumua ofereceu. do Minc. em setembro de 2008. período e pela importância do tema abordado. em outubro revisão geral do conteúdo do livro. traz o registro de rio do livro são os jovens e adultos das comuni- benzimentos referentes à proteção do parto. na cidade de São Gabriel da Ca- geral da criança e para períodos de viagem. Papuri).Os benzi- seria necessário fazer uma complementação da mentos dos Tukano Yepa Pirõ Porã”. em março de 2009. Ocorreu a socialização dos resultados e Em outubro de 2009 a construção da Maloca complementação da pesquisa com a presença e a Tukano do Alto Tiquié foi finalizada. e teve sua iniciativa premiada. “livro que discorre sobre os conhe.indd 199 5/31/12 2:48 AM . Estes choeira. pode cercado por grandes perigos sobrenaturais. Diante da possibilidade de publi. tipos de alimentos que aos poucos farão parte que reside na bacia do Uaupés e seus afluentes da dieta da criança. A sexta oficina de benzimentos ocorreu em Toh- A quarta oficina de benzimentos foi realiza. (benzedores). procedimentos são necessários e indispensáveis nas cidades próximas de Barcelos e Santa Isabel. foi inaugurada na festa de formatura da 1ª Em agosto de 2008 foi formado um grupo de turma de ensino fundamental. e benzimentos de proteção (Tiquié. alunos e alunas. nas).RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Foi realizada em junho de 2007 uma viagem pela registro em áudio e digitação no computador du- coordenação da Aeitypp. como uma das ta Rosa). para que a criança possa se desenvolver bem. onde esta língua e considerada cooficial. professores e representantes da coordenação da Aeitypp. ser considerado de interesse de toda a popula- zimentos de descontaminação dos diferentes ção falante e leitora da língua tukano da região. REGIÃO . que tem como um de seus objetivos incentivar -se para contar um destes benzimentos em uma a continuidade dos processos de ensino-aprendi- próxima oportunidade. quando foi feita a maneiras de fortalecer estes conhecimentos. com rantir que eles circulem entre as novas gerações. aprovado pelo pesquisa. para acompanhamento rante a oficina. como a primeira menstruação da moça e cimentos importantes. O público prioritá- dos Filhos da Cobra de Terra”. 199 188a233_CORR_V1. ben. São realizados durante o região fronteiriça. os kumua afirmaram que des do projeto “Yepa Pirõ Porã Bahsese .

ser voltado para necessidades comunitárias. Vendo de implantar o ensino médio indígena. ESCOLA INDÍGENA YE’PA MAHSÃ E valdo P edrosa 1 A Escola Ye´pa Mahsã envolve as Comunida. as lideranças. 80 alunos concluíram Negro. “a educação em desenvolvi. os sabedores tradicio- São Pedro. pensamos Segundo o projeto político-pedagógico da em montar a escola de ensino diferenciado com Escola Ye´pa Mahsã. Taracuá ou na cidade de São Gabriel. por isso talvez outros pudessem contar melhor nossa história”.está reassumindo a política de educação verda. Encon- 1  Edição baseada em entrevista dada a Flora Cabalzar/ISA na sede do ISA em São Gabriel da Cachoeira em 2010. para que eles senta para os povos do rio Negro o ponto de refle. Piratapuia. conforme conclui Evaldo nesse texto. as conquistas e dificuldades na sua continuidade. ensino fundamental completo. que também participei. Des- Maloca da educação. Na maloca reunia-se Alguns professores dessas comunidades do bai- muita gente e outros parentes. xão dos valores tradicionais. “eu não acompanhei de perto. aí nasceu a reivindicação cisava repovoar e comandar suas áreas. Uriri. Monte Cristo. Alegre  pertencentes aos povos Tukano. Açaí e Monte nais. estive um pouco fora. os mestres-sabedores. que co. integrando nesse projeto as des de Ipanoré. comparada a uma Maloca tradicional. que essa região do baixo rio Uaupés estava bem meçou a funcionar em 2008. Santa Terezinha. E com essa perspectiva a de então eu. procurando resga- mento na Escola Indígena Ye´pa Mahsã pode ser tar os parentes que tinham ido morar em Iauaretê. Em 2004 começou a funcionar o ensino fundamental completo na Após a demarcação da Terra Indígena Alto Rio nossa escola e em 2007. comunidades. Foca os diferentes períodos de organização da escola entre 1998 e 2010. Desano. xo rio Uaupés participaram do I Magistério Indíge- ramos que hoje estamos construindo a grande na. realizado em São Gabriel da Cachoeira-AM. Assim conside. Hupdha e Baniwa. fui formando Aeitym – Associação Escola Indígena Ye´pa Mahsã ou confirmando minha visão de que o ensino deve . deiramente indígena. Baré. Sobre os anos mais recentes. retornassem para as comunidades.indd 200 5/31/12 2:48 AM . 200 188a233_CORR_V1. Ela repre. pais e alunos”. o início do ensino médio em 2008. Trovão. Cunuri. vazia devido ao êxodo da população. Tariano. víamos que a população indígena pre- essa etapa de ensino. O en- 1998-2002: entendendo os objetivos sino fundamental é composto por quatro ciclos da escola diferenciada com duração de 09 anos.

tipo de trabalho que constava na lei. começamos a reunir as co. rezinha. pois tínhamos apoio 2003-2004: início do ensino fundamental para a articulação. Em 2006 tinha disciplinas incluídas no currículo. niões. 700 pessoas. proposta de animar as comunidades e evitar a sa- munidades. e o 201 188a233_CORR_V1. (Foirn/ISA/RFN). Nas grandes reu- tinha que fazer funcionar no baixo Uaupés. com Trovão. Propusemos os objetivos do A gente não tinha projeto específico da Esco- respeito à especificidade cultural de cada povo  e a la Ye´pa Mahsã dentro do Projeto de Educação comunidade de Cunuri concordou. REGIÃO .RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Aloisio Cabalzar/ISA. Marta. pais e alunos de parentes enfrentavam na cidade. São Pedro. O número de alunos foi aumentando to o aprendizado. de 30 ou 40 minutos. criação da Aeitym das pessoas durante os encontros. combustível e para sustento completo. para ver se a gente conseguia fazer esse ída de famílias para a cidade por conta da escola. Com isso. pagamento de motosserristas para tábuas. mas fomos bem apoiados duran- te três anos nesse sentido. também para a construção de uma escola. Gilvan. eram comentados os problemas que os Discutimos com as lideranças. essa ação de educação. Essa discussão Cunuri. fizemos o levantamento da população do baixo te. Uriri. Mudar esse sistema fez bastante e em 2006 eram já 260. as comunidades de Monte Cristo. Tivemos boas discus- sões nesses primeiros anos. Em 2003 que chegavam ao curso de magistério. A gente também pação de nove comunidades. no meu censo de 2008 já diferença no ensino atual. que o ensino com as várias caixinhas das Uaupés: tinha apenas 100 pessoas. não favorecia mui.indd 201 5/31/12 2:48 AM . Tínhamos visto. Judi. também tomaram a iniciativa de discutir meçamos e ler e entender os objetivos das escolas junto a Cunuri. com uma diferenciadas. Tivemos apoio Em seguida. com ajuda de professores conquistou os parentes no baixo Uaupés. 2008 Baixo Uaupés trávamos livros que falavam das leis indígenas. e hoje não usamos mais eram 800 pessoas e nos anos seguintes até mais. desenvolver os conteúdos com horários marcados Em 2009 eram 310 alunos. e começava a Outras discussões se seguiram. co. já com partici- acontecer nos rios Tiquié e Içana. Monte Alegre e Santa Te.

falavam mais o tukano. na comunidade de Cunuri. outras línguas foram ficando esquecidas. c) Promover a desen- 2005-2007: elaboração do PPP volver intercâmbio. muito. Em nossa mobilização. os velhos junto. mães das Organizações Indígenas do Rio Negro. Animamos todas as salas cultural e o desenvolvimento das línguas étnicas e para montar umas pequenas roças da escola onde de atividades sócio-econômicas que resultem em também plantaríamos as frutíferas variadas. Animamos a falar ta. como Piratapuya ou Tariano. ensinando os trabalhos 2004. filiada à Foirn – Federação riências muito alegres e organizadas. Dessano. bem como orientações sobre o ensino via pes- Ao fundar o ensino fundamental completo em quisa e de diretrizes para a conclusão do projeto 2004. eles se animaram foram sendo montados. em diferentes comuni- gente no baixo Uaupés falando só português. A gente pensou também em um ensino funda- Com oito encontros ou mais realizados até mental profissionalizante. vimos Pesquisa em Política Linguística ) foi convidado que as comunidades estavam perdendo as línguas para assessorar a escola. Em março. Além do com o surgimento do garimpo que todos esses planejamento pedagógico. pais e professores representantes das co- as línguas deles. que depois estaría- parceiras na luta para começar. Baré. já mais recentemente ou e política lingüística. res- período. tariano e até o tukano. bem antes do tempo do garimpo. sistema agroflorestal. Foi munidades que fazem parte da Aeitym. Na época tinha a profª Mar. ESCOLA INDÍGENA YE’PA MAHSÃ trabalho da comunidade em contrapartida. fizemos uma assembleia e em 2004. enquanto as lingüística para a escola de maneira participativa. porque não tínhamos apoio cada escola. projetos e convênios com ins- da Escola Ye´pa Mahsã tituições nacionais e internacionais. Tariano. Havia muita gumas oficinas em 2006. com os pais. Foram expe- Tukano Ye´pá Mahsã -. para ser mais usada na escola. enquanto poucos falavam alunos. oficinas de tripé. várias vezes contamos com a presença de peitando a especificidade cultural de cada povo. tendo coordenado al- piratapuya.indd 202 5/31/12 2:48 AM . mos oficializando como língua da escola. coisas. foi definida a política começaram a falar só o português. b) Defender os direitos da escola indígena animadas porque a escola envolvia esses trabalhos. de vassoura. pessoas da Foirn e do ISA para ajudar na discussão Na ocasião. Hupdha e Baniwa. Nas nossas consultas. Em 2005 o Ipol (Instituto de Documentaçao e mos resgatar a língua. Tínha. A opção Eu andava fazendo viagens por essas comuni. começávamos a pensar a educação escolar político-pedagógico. Nesse indígena a partir da territorialidade lingüística. dades que fazem parte desta escola. e outros interesses do povo Tukano. três dias para conversar com recuamos um pouco. optamos pelo tukano como língua com as comunidades. os produtos da es- mos que valorizar os velhos. junto a órgão públicos e privados. Essa asso. Fo- ciação tem como objetivos: a) Promover o resgate ram muito proveitosas. tecido de tapete. pela língua tukano foi bem por três anos. nossas bem e escrever bem o tukano. crianças. para encaminhar a produção. primeiramente quise. As comunidades estavam dades. que eles também sabiam muito. Em setembro desse mesmo 202 188a233_CORR_V1. diziam que não só professores sabiam das tivemos dificuldade de conseguir esse apoio. foi em oficinas de treinamento. Pi. Em. para trabalharem cola não foram valorizados no sentido que não dentro da sala de aula também. e isso animaria mais ainda no ensino médio. depois também a profª Carmen e Lucia. digitados. encadernados. com os pais fazendo criada a Aeitym – Associação da Escola Indígena junto o planejamento para cada mês. muitos homens com a presença de 100 pessoas entre lideranças. num benefício coletivo à Escola Indígena e às comuni. Depois dades e parava dois. ratapuia. com e pais participando. bora no tempo da borracha muitos tenham falado acontece a oficina de planejamento pedagógico nheengatu na região. mostrando os seus saberes nas participação do povo do baixo Uaupés.

sobretudo alunos que falavam o tukano alunos. um meio pra resgatar essas línguas”. A trata da educação escolar indígena. A comunidade e busca fortalecer e valorizar a tradição cultural também é avaliada. mas que antes viviam no e não queriam mais resgatar a língua ancestral na cidade. tos musicais. fabetizamos na língua materna que é o tukano. astrono. pais e mães dos de povo. e na confeccção de instrumen. fazer pesquisa ou mudar sua forma de dar aula. roça e a cosmologia de cada povo. artesanato. que estão no baixo Uaupés. e não somente professores e alunos. Na gestão. No baixo Uaupés somos 7 etnias. op. dicas nas salas de extensão. A contribuição do coordenador é fazer realidade dos povos indígenas da região e da filo. Do sexto ao nono ano. todos erra- dos povos da região. Mas animamos o calendário flexível. deixada há muito tempo sendo substituídas alunos pequenos continuaram falando apenas a pelo tukano. a ler. muitos deles. aconteceu a aprovação do Projeto o livro e não tem esse pensamento de procurar Político Pedagógico. a se identificar com seus no. e os parentes diziam nheengatu. usando a língua tukano no mos. e pesquisando com os pais ou com os tukano fora da escola. Nas comunidades onde as crianças falam o quisas resultaram ainda na valorização de danças. e por um calendá. -avaliações e pela comunidade. com as línguas minoritárias. porque todos começamos a entender de educa- Passou a ser produzida muita literatura sobre o ção escolar indígena e começamos a fazer algu- saber tradicional como: terra. A associação da escola tem coordenador. Com mais discussões nos anos se. essa me. nem o nheengatu (antes usado o português por lá. pes. para a escola.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS ano. falando somente vam nem tukano. lideranças e conselho de anciões. velhos. a pouco. gua. Além disso. sã. no alunos começaram a usar cotidianamente a língua campo. que o tukano estava exterminando as línguas mi- Alguns professores ainda sentiam dificuldades noritárias: “na nossa escola não queremos acabar de se inserir na metodologia do ensino com pes. con. língua portuguesa. de extensão contribuem com o coordenador da tamos por trabalhar com duas línguas. Com isso alcançamos o domínio na escri- na família. ta. leitura. rio diferenciado de acordo com a legislação que aluno. Ajudamos muitos desses alunos gião). pais. antes tinham vivido na cidade. começaram a aprender a lín- por famílias de moradores Baré hoje na nossa re. e depois procurar também o mento tínhamos mais clareza. lideranças. Sobretudo. Até alunos de 3º ou 4º ciclo que guns só que falavam português. Isto porque escolha do coordenador é feita em assembléias o ensino pela pesquisa deixa aproximar mais da por voto. planejamento. na Assembléia geral da Aeitym na comunida. de quem foi acostumado de carregar de de Cunuri. seguimos alfabetizando em tukano. Al- histórias. Ninguém é bom. e tukano. Mas por esse mesmo motivo. ma coisa pelas escolas. muitos Piratapuya falavam tuka. muitos usando materiais que encontramos no local. português Escola. 203 188a233_CORR_V1. alunos e professores são avaliados. Pais ou professores assessoram também. mia. Nesse mo- foi adotar o tukano. trabalhando Funcionamento da escola conforme a realidade e conforme o planejamento Optamos pela metodologia do ensino via pes. REGIÃO . temas escolhidos pela comunidade junto mes de benzimentos e a assumir uma identidade com os professores. os conselheiros de cada sala quisando em tukano. a falar. então assim seguimos melhorando pouco 1º e 2º ciclos da escola (ou do 1º ao 5º ano). queremos encontrar quisa e seguiam a metodologia tradicional. tukano. na fala. Mas na nossa região também tinha al. Na escola Ye’pa Mah- todologia permite o envolvimento da comunida. acompanhamento e visitas perió- sofia educacional indígena. a opção das comunidades. guintes. As pes. vencional.indd 203 5/31/12 2:48 AM . de cada sala de extensão. músicas. Outros não fala. quisa com currículo pós-feito. em auto- de/escola. Com todo esse movimento.

por cados.  Para evitar o êxodo. Todos os parceiros sempre respeita. e todas elas teriam que se continuarem com essa metodologia. apoiando o coordenador sempre que solici- ensino fundamental. Toda a população daquela comu- ter moradores. As comunidades diziam fessores daquela escola (antiga Escola Agrotécnica que o aluno que concluía no ensino acadêmico Federal. Mas por falta de recursos condução do ensino médio ou transporte. guns seminários em parceria com a Semec. antiga Escola Agrotécnica). não vão conseguir passar. Já procurando montar um pro. mas garantiu o apoio também para algumas Por isso no início de 2007 fizemos essa mobi. médio profissionalizante. Em 2008 iniciou a primeira turma de ensino Ibama e Ipol. aprendendo e valorizando tado. através de um projeto que sustentou funciona- mos e decidíamos coletivamente em assembleias mento apenas da primeira turma de ensino mé- e seminários. Não queriam diálogo com o experimentando trabalhar dessa forma. para planejar e organizar a Escola. versei muito com as comunidades. pediram o ensino médio indicada e aprovada pela assembleia. e não o contrário. Durante o planejamento do ensino médio. con- no. muitas vezes eu não ia. que tinha experiência de trabalhado logia via pesquisas durante o ensino fundamental. ESCOLA INDÍGENA YE’PA MAHSÃ Conquistas e encaminhamentos em 2007 como assessor pedagógico indígena dessa região Aconteceu a formatura do primeiro grupo de (API). propondo que no. as comunida. não fazia nada a não pegar a caneta e o cader. em cada comunidade. em cinco comunidades. as danças. Ufam. por exemplo. dio. des também começavam a discutir com a Escola como alimentar os peixes). entran. Federal do Amazonas. na associação de professores. não vão receber alunos do ensino médio. para acompanhar os Agrotécnica a implantação do ensino médio na alunos que concluíssem o ensino médio e quises- nossa região. assessor pedagógico que propunha a metodolo- Nesse ano acontece eleição para coordenação gia de pesquisas também para o ensino médio. Al- da escola. sem continuar fazendo esse trabalho com os pais. muito a cultura. guns alunos que vinham trabalhando a metodo- lino Azevedo. Posterior- profissionalizante. sendo eleito como coordenador Jusce.indd 204 5/31/12 2:48 AM . ao ensino com pesquisa. com críticas não deveria ficar concentrado em uma comunida. Em 2007 acontece também a mudança da coordenação As comunidades apoiaram a ideia do ensino da escola. “porque se vocês forem de. Saí da coordenação sentiram dificuldades no início do ensino médio da escola. Estávamos animados e nos chamavam para ir às outras escolas contar 2008-2010: Planejamentos e como trabalhávamos. pois no ensino funda- Muitas famílias e alunos da sede do município mental já tinham começado a fazer trabalhos apli- continuavam voltando para as comunidades. nidade teria que participar dos cursos (como criar. cada comunidade para diagnosticar como o en. embora os cursos técnicos fossem dados por pro- sino médio teria que ser. do no nosso projeto a partir do que nós quería. construções de escolas em comunidades e con- lização e planejamos juntos. Fiz mobilização em tratação de alguns professores da comunidade. Como já vinham com uma prática de trabalho uma pessoa coordenasse o ensino médio. EAF). que voltou a ra. os velhos também poderiam aprender piscicultu- mente da comunidade de Trovão. Passou a existir certo con- 204 188a233_CORR_V1. O ensino fundamental completo já funcionava disputar no vestibular. Principal. médio com apoio pedagógico do Ifam (Instituto ram nossos projetos e a nossa autonomia. Começaríamos encontrar empregos”. que foi no ensino fundamental. com o plano de seguir meu trabalho com várias disciplinas. mente essa coordenação acabou seguindo um jeto. por isso não queriam mais esse tipo de ensi. já realizando ao longo de 2007 al. Nesse ensino médio conta das escolas indígenas da região. disseram que esse grupo de ensino médio rumo um pouco mais convencional.

e de conversar com a Semec ou dava um pouco afastada da escola por conta de Seduc. a tantas demandas pendentes. de agilidade de planejar e fazer novo projeto Enquanto a nova coordenação da Aeitym an. tudo escola. O grupo inicial de assesso. Com isso. Seguia organizan- ticulação a eles. Em 2009 uma segunda turma. que seguia com difi- aos APIs. zou mais a equipe de assessores pedagógicos in.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS flito entre o API. culdades de planejar a continuidade do ensino apesar de repassarmos nosso planejamento de ar. Mas esse período mais recente eu para comandar a secretaria. médio. a associação Aeitym tas originais da associação Aeitym. e em 2010 compromissos que tinha na cidade. Nesse momento. avaliar e reprogramar seus projetos e ru- porque a Semec não trabalhou mais com a equipe mos. A Foirn também passou dígenas. os parceiros. Ainda seguimos na luta. equipes da Semec. com o IF-AM. por isso talvez outros pudessem contar melhor deram o que alguns APIs estavam tentando dizer. e as propostas procurando se organizar para planejar e enca- do Ifam exigindo mais um ensino disciplinar. Com alguma dificuldade. não valori. 205 188a233_CORR_V1. espaço para discutir educação escolar indígena que eles precisavam escolher as pessoas certas com a Semec. aconteceu uma terceira turma estava concluindo o ensino que a partir de 2009 a Semec deixou de dar apoio fundamental na escola. estive um pouco fora. Mas eles não enten. que minhar novo projeto para continuidade do en- começa a orientar o ensino médio e gerar alguns sino médio. sem entrosamento com novas não deu mais para nós. em qual modalidade. Queriam trabalhar sem o apoio dos APIs. REGIÃO . também para buscar melhor diálogo com de Apis montada nos anos anteriores. nossa história. sem ter mais condição ou res pedagógicos indígenas explicava para a Semec. e meio escondida. para conseguir atender não acompanhei de perto. as comunidades é que do suas lideranças para rever todo o trabalho da acabavam ficando insatisfeitas com a gente. Não conseguíamos nada com a Semec. que procurava reforçar as propos.indd 205 5/31/12 2:48 AM . pela falta conflitos internos.

Encontro organizado pelo lin- população hupd’äh da área de abrangência deste guista Henri Ramirez e o antropólogo Renato Athias. 2  Ver www. para a população Hupd’äh do médio rio Tiquié.br. realizada em São Gabriel da Cacho- eira. Nova Esperança e Santa Cruz do Pahsá. Diagnóstico 2006 e 2007. 1  A partir de documentação da SSL (Saúde Sem Limites). tal de alfabetização na língua hupd’äh. projeto aumentou para 600 pessoas. atividades voltadas à educação escolar2 Levantamento preliminar da situação escolar Oficinas para discussão do Projeto hupd´äh Político-Pedagógico Novembro e dezembro de 2004. número de professores. des: Taracuá Igarapé. Uaupés. Em 2007. Participa- ram da oficina. relevantes para o planejamen- preventiva. já que até então ção de seus conhecimentos. Papuri e afluentes. O intuito das nas à educação e saúde diferenciadas.org. Nova Fundação. Taracuá Igarapé e Barreira Alta. financiado por três de outras informações relativas à região de abran- anos pela Manos Unidas (Espanha). 206 188a233_CORR_V1. matrículas. tendo como resultado a edição de um dicionário e Um dos principais objetivos do projeto foi guia de conversação. publicações foi subsidiar o processo de letramento do a participação das comunidades e a valoriza. Hupd’äh de dez comunidades localizadas nos Projeto Saúde e Educação entre os Hupd’äh: rios Tiquié. Oficina de grafia hup que totalizavam na época 550 pessoas. dos Hupd’äh em sua própria língua. Embaúba. Barreira Alta. para mais informações sobre as ações em saúde e educação do projeto. aliando saúde gência do projeto. infraestru- Limites (SSL) iniciou em 2004 o projeto Saúde e tura das escolas nas comunidades hupd´äh. e de uma cartilha experimen- apoiar a efetivação dos direitos dos povos indíge. Realizadas nas comunidades de do nível de escolaridade da população. assistência à saúde e educação escolar to das atividades de educação escolar entre eles. promoven.indd 206 5/31/12 2:48 AM . das escolas hupd’äh e de consultas a professores e lideranças. da área de abrangência do projeto. a Setembro de 2004.saudesemlimites. Atingiu 100% da população das seis comunidades O projeto foi desenvolvido em seis comunida. não havia materiais didáticos nesta língua. ESCOLAS INDÍGENAS HUPD’ÄH O rganizado por L irian R ibeiro M onteiro 1 A organização não governamental Saúde Sem evasão escolar. além Educação entre os Hupd’äh.

Profissionais da equipe da SSL as. vivendo em comunidades vizinhas mais do os direitos desta população a uma educação no interior da floresta. em geral mantendo contato com Político-Pedagógico das Escolas Hupd´äh.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Lirian Monteiro. que sempre viveram próximos ao rio. Várias etapas de acompanhamen.indd 207 5/31/12 2:48 AM . REGIÃO . des tukano. A partir da década de 60. e crianças hupd’äh eram O trabalho com educação escolar para a popu. matriculadas para compor o número mínimo lação Hupd’äh no âmbito do projeto Saúde e Edu. Ali. há maior aproximação com a Formação em serviço de professores hupd´äh sociedade envolvente através das escolas de do médio rio Tiquié ensino fundamental existentes nas comunida- 2004 a 2007. Até então os Hupd’äh viviam mais no interior mas do curso. Suas que as políticas públicas não vinham contemplan. por professores tukano. discussão participativa da estrutura e cronogra. as aulas eram ministradas Taracuá Igarapé. cação escolar missionária na região. famílias. alunos. e dão início aos debates do Projeto da floresta. coordenadas durante muitos anos to pedagógico e formação nas comunidades de pelos salesianos. escolar que atendesse suas especificidades. de alunos exigido pela Secretaria Municipal de cação entre os Hupd’äh foi iniciado ao se perceber Educação e Cultura (Semec) do município. Encaminham de 1960. Barreira Alta e Nova Fundação. 2006 Comunidade hupd’äh de Nova Esperança II Magistério Indígena das etnias Hupd´äh. que veio se sessoram sua implementação e colaboram para fortalecendo entre os Hupd’äh a partir da década sua realização em área hupd´äh. tradicionalmente já presta- 207 188a233_CORR_V1. com os missionários por intermediação dos Tukano. Fato Yuhup e Däw: assessoria e colaboração que decorre da conjuntura do processo de edu- 2005 e 2006.

e a maioria das crianças fa. casamento e gravidez. local. jovens. Semec e outras instituições. como resultado dessas mais em português. O calendário culdade de manutenção fora de sua comunidade escolar exigia a frequência dos alunos durante de origem. ações entre os Hupd’äh e em interface com a vens de Taracuá Igarapé. no aprendizado. dos 448 Hupd’äh em comunidade para estudar em outra interferia na idade escolar. Barreira Alta e Nova Fundação 2007 • EJA em Barreira Alta e Taracuá Igarapé. comparativamente aos jo. dificuldades todo o ano. Educação lar (2004) revelaram um índice de aletramento de Continuada e Diversidade (Secad) do Ministério 27%. ções Indígenas do Rio Negro (Foirn). a família trabalhando na roça.indd 208 5/31/12 2:48 AM . a Secretaria colarização formal há mais de 30 anos. os números Municipal de Educação de São Gabriel da Cacho- apresentados no Levantamento da Situação Esco. ESCOLAS INDÍGENAS HUPD’ÄH vam serviços para seus patrões e vizinhos tukano. por motivo de desavenças com pessoas de outras lava somente a língua hupd’äh. Os entrevistados alegavam que a saída da bro de 2004 mostrou que. apenas um terço era do sexo feminino. tituto Socioambiental. o Ins- educação escolar foi inserida no alto rio Negro. eira e a Secretaria de Alfabetização. abandonar seus familiares para estudar em outro lar Hupd’äh realizado entre novembro e dezem. os de Nova Fundação se comunicavam Em fevereiro de 2006. Em relação aos etnias. e opção por dar continuidade nadas pela missão. exceto em férias escolares determi. Barreira Alta. entre outras instituições. 81% não falava português. pescando e caçan- tuguês. Enquanto 36% dos entrevistados estavam da Educação. mas voltaram sem concluir o curso de sua língua própria. residindo próximo eram egressos por motivos variados como: difi- ou na própria comunidade tukano. pois os filhos precisam ajudar das 87 pessoas que se comunicavam em por. Muitos foram estudar na missão salesiana em Todos os adultos falavam a língua tukano além Pari-Cachoeira. aos estudos em suas próprias comunidades. foi formalizado um rança e Santa Cruz do Pahsá. O objetivo do termo era potencia- CRONOLOGIA NA EDUCAÇÃO ESCOLAR HUPD´ÄH 2004 • Uma professora hupd’äh conclui o I Magistério Indígena 2005 • 40 alunos hupd’äh matriculados no II Magistério Indígena 2005 • Escolas hupd’äh ofereciam somente primeiro segmento do ensino fundamental (4ª série) 2007 • 21 novos professores hupd’äh contratados: dez no rio Tiquié. Nova Espe. a Federação das Organiza- apesar de os Hupd’äh estarem em processo de es. ministrado por professores hupd’äh e tukano 2007 • EJA em Nova Fundação. ministrado por pro- fessoras da congregação salesiana 208 188a233_CORR_V1. outros 36% e acabavam por se deslocar. composto por alunos do Ensino Fundamental II. e que economia do grupo. nove no igarapé Japu e dois no rio Papuri 2011 • Ensino até o 9º ano (8ª série) nas comunidades hupd’äh de Taracuá Igarapé. a SSL. sem O Levantamento Preliminar da Situação Esco. do. matriculados no ensino fundamental. termo de parceria interinstitucional do qual são Considerando o contexto e a forma como a signatários. separado da turma de ensino fundamental.

embora o processo de letramento fosse havia 11 professores hupd’äh contratados. A hupd´äh dos rios Tiquié. além de um Assessor ção eram tukano. magistério indígena por polos linguísticos. Barreira Alta e Nova Funda. nas suas próprias comunidades. onde cos de educação dos povos indígenas da região. A SSL passou além de promover ações conjuntas entre as insti. contratados. foi imprescin. em data e horário escolhidos pela contratados em Taracuá Igarapé. reuniões pedagógicas e impressão de ção. os Hupd’äh foram contemplados. Uaupés e Papuri. Ela utilizava as línguas hup e a Em novembro de 2010. sendo realizado em português. sessoria em educação escolar passou a ser mais Durante as viagens a campo da equipe mul. o trabalho da as- havia escolas). fessores iniciantes nas comunidades hupd’äh. genas salesianas. técnicos de enfermagem e assessor em educa. povos Hupd’äh. Um dos te e em grupo. Pedagógico Indígena (API) hupd’äh. No que se materiais didáticos na própria língua. além de três própria comunidade. das Escolas Hupd’äh iniciou-se com o segundo 209 188a233_CORR_V1. Então já havia mais dois professores hupd’äh do ao capitão.Educação de Jovens e Adultos .progra- Em 2004 ainda havia apenas uma professo. Fundação o EJA era ministrado pelas irmãs indí- trando aulas na comunidade de Taracuá Igara. quatro em Taracuá Iga- em Taracuá Igarapé. composta por enfermeiros. REGIÃO . EJA . cuá Igarapé. a assessora observava aulas ministra. e outros três em Nova Funda- reuniões. ser contratados pela Secretaria de Educação para iniciarem o processo de letramento na própria língua. contemplando Municipal de Educação 21 professores da etnia 40 Hupd’äh dos rios Tiquié. nas escolas de suas comunidades. com foco em suas dificuldades professores hup passou a ministrar aulas para o pedagógicas. ção. ganizadas junto às lideranças hupd’äh. minis. pé. a SSL passa a atuar A assessoria durante o projeto Saúde e Educa. dos pelos professores e alunos em sala de aula. que atuava Dada a falta de professores hupd’äh atuando nestas comunidades. direcionado ao acompanhamento desses pro- tidisciplinar da SSL. Em Processo de formação de 2007 já haviam sido contratados 21 professores professores hupd’äh hupd’äh. Nova Fundação e Barreira Alta (onde A partir dessa contratação. sobretu. para atuar partir desta iniciativa. só no médio Tiquié tukano. Em 2005 iniciou-se a discussão de um Negro com vistas à efetivação dos direitos bási. até a 3ª série do ensino fundamental. de São Gabriel da Cachoeira. nas escolas em suas comunidades. também no auxílio a esses professores na cidade ção entre os Hupd’äh consistiu em iniciar o pro. nos trâmites buro- cesso de formação de professores hupd’äh nas cráticos para que os professores pudessem ser próprias comunidades. a assessorar o Magistério Paah Sák Tëg para os tuições envolvidas.indd 209 5/31/12 2:48 AM . produzi- refere à educação escolar. enquanto em Nova Educação de São Gabriel da Cachoeira. todos atuando desde a etapa pré-escolar das e se reunia com professores individualmen.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS lizar as ações das instituições que atuam com taria Municipal de Educação e as comunidades educação escolar indígena na região do alto rio hupd’äh. estes cursistas passam a em novas escolas. no rio Tiquié. ocorriam reuniões comunitárias. A discussão do projeto político-pedagógico dível estabelecer uma interlocução entre a Secre. Os demais professores cinco em Nova Fundação. especificamente em Tara. as reuniões eram or. Foram realizados Em 2007 foram contratados pela Secretaria dois módulos entre 2005 e 2006. Neste momento. Uaupés e Papuri. ma implementado pela Secretaria Municipal de ra hup contratada pela Secretaria Municipal de Educação em Barreira Alta. Além de participar das em Barreira Alta. nas aulas. rapé e dois em Barreira Alta. Däw e Yuhup.

As maiores preocupações professores hupd’äh ainda hoje. Também passaram a considerar assessoria em educação escolar voltada à es. En- meiro esboço nas comunidades de Taracuá fatizam assim a necessidade de uma assessoria Igarapé e Barreira Alta (em Nova Fundação. 1991 Conjunto de cariço hupd’äh. Os 210 188a233_CORR_V1. seu aprofundamento foi in. to”. muito importante que seus alunos tivessem pecificidade nestas comunidades preocupa os professores hupd’äh. No entanto. os professores dades e várias reuniões comunitárias acompa. das comunidades eram o processo de formação ram alguns deles. “fica difícil a gente fazer o PPP desses professores e a manutenção de uma as- sozinho. o mais constante junto aos professores. A interrupção da necessários. com a finalização que os Hupd’äh do Tiquié começaram a vislum- do projeto Saúde e Educação entre os Hupd’äh brar sua contratação como professores. Acompanhando este processo. até então se consideravam incapazes por não terrompido. sem uma assessoria para trabalhar jun. via pesquisa e com a construção de textos. PPP foi discutido junto à comunidade pelas ir. Alto Tiquié módulo do Magistério Paah Sák Tëg e foi ocor. ESCOLAS INDÍGENAS HUPD’ÄH © Aloisio Cabalzar/ISA. hupd’äh ainda sentem dificuldades com a gra- nhadas pela assessoria viabilizada pelo projeto fia na língua hup. Em 2007. já que neste mesmo ano. durante viagens às comuni. observou-se mãs salesianas). Como informa. impedindo uma discussão mais possuírem cursos de formação e documentos ampla e seu reconhecimento.indd 210 5/31/12 2:48 AM . foi possível elaborar um pri. sessoria mais permanente nas comunidades. com metodologias de ensino da SSL. De acordo com o API (Assessor Pedagógico rendo aos poucos. Indígena) hupd’äh do rio Tiquié.

mais conhecimento por terem estudado para Também era preciso aprender matemática. bado na hora do troco”. agentes do governo. pais. um espaço de domes- ciedade envolvente: profissionais de saúde. REGIÃO . co. uma relação menos assimétrica com os do dos brancos. com os programas sociais do da região. auxiliá-los na cidade com as moradores da cidade e demais grupos étnicos documentações. os Hupd’äh é. são fun- portuguesa. sobretudo. ler e falar melhor a língua genas de saúde ou demais lideranças. fazer o magistério. agentes indí- sobretudo escrever.indd 211 5/31/12 2:48 AM . pois tais domínios 2004 e 2007. ticação do branco. que também são professores. Estas inquietações dos aprender a escrever bem a língua hupd’äh. se- isso e que o mesmo deveria acontecer com gundo eles “para contar dinheiro e não ser rou- os Hupd’äh: estudar mais. lizados. os pais enfatizavam que os filhos conferem-lhes.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS pais costumavam dizer que os Tukano tinham governo e na negociação com comerciantes. antropólogos. e do conhecimento matemático dos brancos entre outros. em função das relações cada vez damentais para compreender que a escola para mais frequentes com os diversos grupos da so. 211 188a233_CORR_V1. A apropriação do português merciantes. são instrumentos para que os Hupd’äh possam Em reuniões comunitárias realizadas entre transitar na cidade com êxito. além do almejado status de civi- deveriam ir à escola para aprender sobre o mun.

Eu quero fazer parte dessa para desenvolverem uma escola Hup. com a nossa escrita podemos ter língua escrita e. chegou a se manifestar dessa cluída em 2004.se já temos uma escrita. com a participação ter uma escola só nossa”. Até então o hupd’äh.1 movendo o interesse por se tornarem professores das suas escolas em suas próprias aldeias..3 ESCOLAS. As publicações e tas. A partir delas se queria com a publicação: mostrar em todas as os Hupd’äh puderam perceber o impacto de uma aldeias hupd’äh que a língua deles poderia ser 1  Palavras de Eliseu Caldas Sales em 2006. 212 188a233_CORR_V1. um calendário e Hupd’äh. Dedico a ele esse texto. O Calendário. SABERES E PRÁTICAS DE ENSINO ENTRE OS PROFESSORES HUPD’ÄH R enato A thias “Agora. as oficinas foram coordenadas por que. A convenção da grafia da língua hup foi con. Vamos fazer a nossa associação o debate sobre a educação escolar hupd’äh e pro- para ter a nossa escola”. Tiquié e Japu. blicado apenas pelo Padre Antonio Giacone. sustentando o surgimento do deba- Como resultado das oficinas de grafia que te por uma escola própria. lecionassem professores mim e pelo linguista Henri Ramirez. 1980). Odilon. conduzimos. da política indígena na região. durante a 2ª Etapa do Curso Paah Sak Teg em Barreira. hupd’äh como uma possibilidade real. sobretudo. aos Hupd’äh. então podemos em São Gabriel da Cachoeira. foi publicado um dicionário da lín. da bacia hidrográfica do rio junto à Secretaria Municipal de Educação e Cul- Uaupés. “. Essas publicações te em todos os povoados. em e que poderia romper com o processo de tornar 1955. e em dois estudos do Instituto Linguístico esse povo invisível.. permitindo escola. após quatro oficinas realizadas forma. que pesquisavam entre os Hupd’äh da Serra a convenção do alfabeto hup davam visibilidade dos Porcos. sempre presente no âmbito de Verão (Moore. de vinte Hupd’äh de diversos povoados dos rios Foi nesse momento que se iniciou a pressão Papuri. Com o apoio da Associação Saúde Sem tura (Semec) de São Gabriel da Cachoeira para Limites (SSL). foi a publicação que mais gerou deba- uma cartilha de alfabetização. nos anos 1980 por linguis. concreta. de Santo Atanásio. Essas publicações colocavam as escolas material escrito sobre essa língua havia sido pu. organizado e ilustrado pelos gua com guia de conversação. Era exatamente o que foram extremamente importantes.indd 212 5/31/12 2:48 AM . nas escolas hupd’äh. as novas possibilidades a nossa escola. Em 2009 ele suicidou-se no povoado Cabari.

escutar os outros. (Magistério Indígena II) do município de São Além da ênfase do Magistério Indígena II na Gabriel da Cachoeira. como eixo norteador. em julho de 2005. atividades aparentemente negligencia.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS escrita. culturais e linguísticas dos povos ação. e se encontraram para debater a formação de ram continuidade também com outros linguistas professores e realizar uma primeira reflexão so- como Pattie Epps (2006). Baniwa e Nadahup (Hup. comunidade Nova Fundação 1976 e 2007 213 188a233_CORR_V1. atenção minuciosa de cada um dos presentes em das na atual gestão da educação escolar (2009. 1976 gatu. aconteceu pela primeira vez que a língua deles equiparava-se ao tukano. Yuhup e Dâw). reconhecer e identificar as es- 2011) no município de São Gabriel da Cachoeira. Os cursistas estariam vinculados a cada um desses polos de acordo com sua língua. Tivemos a oportunidade de observar a Hupd’äh. Verificar Também nesse ano. pecificidades étnicas e linguísticas. contou com apoio de grama de formação apresentava outras caracte- várias ONGs que atuam na região. interesse em conhecer os relatos da mobilidade grama de Formação de Professores Indígenas e migrações históricas de cada um dos grupos. que na história.indd 213 5/31/12 2:48 AM . criando-se quatro polos viço como estratégia metodológica. teoria e prática. elaborado pela Prefeitura especificidade linguística e identitária. Nheen- © Juan Pablo e Rocio. O planejamento de todas as nove etapas do processo formativo específico para o polo nadahup deu-se de forma participa- tiva no povoado de Barreira. Yuhup já tinha uma grafia. foi extremamente positivo. com grande A construção do Projeto Pedagógico do Pro. 2007 Alunos e o professor Severino Sampaio na escola Cristo Libertador. esse pro- na gestão anterior à atual. Enquanto linguísticos de formação. um encontro entre Hupd’äh. povos que vivem em territórios distantes atividades e discussões em torno da língua tive. REGIÃO . © Renato Athias. a saber: Tukano. Introduziu a prática reflexiva procurou levar em consideração as especifici. As e Dâw. tal qual o português ou o tukano. O programa rísticas importantes. articulando pensamento e dades étnicas. disposta a oferecer apoio bre escolas específicas e diferenciadas para eles necessário para seu desenvolvimento entre os próprios. onde comple- tariam o ensino médio. além da formação em ser- indígenas do município.

cuja construção contou com mão de o ensino médio que cursava na Escola São Miguel obra hupd’äh. Em cada uma la intercultural. e em aspectos centrais de uma escola só para os Hupd’äh se deu no povoado de economia mais autônoma. que parece 214 188a233_CORR_V1. a estratégia pastoral missionária de construção de volvimento dos cadernos de pesquisas de cada povoados-missão (Athias. A estratégia era colocá-los na mar- de Iauaretê. ganizada pelos missionários. na confluência do rio Papuri e três línguas (Athias. o curso de formação Correspondeu a uma opção dos missionários após desse polo linguístico foi denominado pelos parti. e como havia uma colaboração nessa direção como professores os Tukano. então. Vários povoados-mis- Serra dos Porcos (hoje Santo Atanásio) em 1965. ESCOLAS HUPD’ÄH . riam outras no Japu e no alto Papuri. Essa estratégia de agrupar vários clãs hupd’äh em sobretudo pela dificuldade de produzirem uma um mesmo local. quando esse povo desperta o interesse dos mis- nha e planejava um esquema de pesquisa para os sionários salesianos. bastante empolgados. de fato. mas indo contra o facilitador ou formador. carregada do acompanhamento escolar por parte os coloca em uma situação muito difícil com re- da Semec não chegou a entender. no rio que se aproxima do conceito de participação nas Tiquié. wedrn pã (“muita gente sempre Foi durante a 1ª etapa do curso de magistério pouca comida”). dessas localidades sempre havia uma escola. como A experiência missionária de Nova Fundação professor indígena na sua própria comunidade. mais importantes discussões. Essas escolas tinham da. Eliseu decidiu abandonar Uaupés. noção ligaria o atual povoado de Boca da Estrada. modelo tradicional de organização social hupd’äh. potencializa prática pedagógica que propiciaria aos cursistas conflitos. Outra iniciativa foi o estabelecimento da Fa- meçaram a discutir realmente uma escola própria zenda de Fátima. 2010). a Iauaretê.indd 214 5/31/12 2:48 AM . (no rio Tiquié) aconteceu em seguida. para completar essa etapa de ensino gem dessa estrada com suas moradias. a tentativa frustrada da construção da estrada que cipantes de Paah Sak Teg ou crescer juntos. com o desen. e logo surgi- Eliseu visualizou as possibilidades de uma esco. a própria en. A educação es- cursista. 1995). Como os próprios Hupd’äh dizem: sificadas de cada povoado. propu. Além disso. por parte dos gestores da Semec entre 2004-2008. Durante uma das Missão de Pari-Cachoeira no início dos anos 1970. sobretudo. or- truir uma educação escolar específica e diferencia. da pastoral catequética Breve histórico da educação entre os Hupd’äh e do modelo de povoados-mis- escolar entre os Hupd´äh são com grandes impactos na organização social. Hupd’äh dam ni. Essa prática foi a que mais dificuldade colar entre os Hupd’äh inicia-se mais de 50 anos apresentou: os cadernos de pesquisa chegaram após ter sido implantada entre os povos Tukano. ado- vários professores hupd’äh se empenharam nesse tando o português como primeira e única língua processo e alguns se tornaram APIs (Assessores de instrução. Todos pensavam ser possível cons. missionários. são se estabeleceram nesse modelo. essa lação à alimentação e. sendo inaugurada entre eles momentos de dispersão do curso. para receberem uma atenção prática reflexiva de maneira independente do privilegiada dos missionários. de itinerância. Em suas publicações o Padre Acioní- Pedagógicos Indígenas) de suas áreas. Desana ou Tuyuka.SABERES E PRÁTICAS ENTRE OS PROFESSORES programa intensivo de formação modular. Dâw e Yuhup. Essa estratégia facilitou apenas para os uma reflexão sobre a sua própria realidade escolar. co. vazios durante as três primeiras etapas do curso. com forte apoio da para os Hupd’äh. no modelo bem tradicional e monocultural. lio Bruzzi Alves da Silva (1978) e o Padre Noberto Hohenscherer (1985) falam explicitamente do mé- todo civilizador salesiano. no rio Tiquié. que os 42 participantes. A primeira experiência em toda região de uma sistema político. no Curso Paah Sak Teg e poder atuar. o acesso para realizarem sua pastoral e sua interação com as realidades escolares diver.

Severiano Sampaio. II torna-se espaço privilegiado para a discussão de mínio também para as suas casas. Hupd’äh que vivam nos interflúvios passaram a voluntários espanhóis iniciadores da escola em ser convidados pelos professores dos povoados Nova Fundação em 1973. Aconteceu quando os entrevistar o casal Rocio. várias comunidades início por introduzir o ensino bilíngue. todos os anos”. hupd’äh se mudaram do interior da floresta para gou a fazer um curso de linguística aplicada. Em 1978. um dos primeiros alunos temente entre eles é o da escola como lugar de dessa escola e hoje pai de alunos: “Todos os anos aprendizagem das coisas dos não-índios. Em 1976. relacionado ao movi- análise realizada. um professor tukano de São O relatório de atividades da SSL de 2000 apon. eu tive a opor. nessas es- anos entre os Hupd’äh do médio Tiquié e tiveram colas. Norte é um caso interessante no alto Tiquié. que viveram vários da beira do rio para completarem. Desta forma as escolas destes povoados não Eles relataram vários detalhes da experiência de eram fechadas por falta de alunos e seus pro- Fátima e do início dos trabalhos em Nova Fun. a primeira locarem seus filhos na escola. mento ou mobilidade de povoados inteiros na Tive recentemente (2007) a oportunidade de região do médio Tiquié. antes disso. educação escolar. e continua sendo denominada de Umari tunidade de visitar Nova Fundação: um grande Norte.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS permanecer. para os Hupd’äh. O 215 188a233_CORR_V1.indd 215 5/31/12 2:48 AM . chegava de São Gabriel e era preparada com pro- Eram sempre as mesmas coisas. a escolinha de Nova Fun. A escola era a principal ativi. convidaram definitivamente igrejas indígenas nesses povoados. Inclusive a merenda escolar E todo ano. tação de uma educação específica e diferenciada dade desses voluntários. nunca acabava essa alfabetização. os um modelo próprio de escola para os Hupd´äh. Francisco. foi iniciada nessa mesma época por Rosário se estabelece acima do povoado tuyuka de São no Igarapé Yuyudeh. Em 1974. quase toda região. Rocio che. Nessa ocasião. REGIÃO . Esse das casas dos Hupd’äh por folhas de alumínio. mesmo quando não estava mais no iga- povoado. Nessa época. ela reira. Segundo eles. dos eles começavam a alfabetização em português. de de uma escola própria e o curso de Magistério zinhos Desana. Como nos O modelo que vai se consolidando muito for- informa Antonio Moraes. o número de alunos exigido pela Semec. para trabalhar com eles na escola de tava que. os sale. dutos inexistentes em suas comunidades. Os Hupd’äh não tinham interesse nesse tipo de Nos anos 1990 deu-se início a outro processo. pois já haviam agrupado vários clãs rapé Umari. Esse tipo de escola se generaliza em nesse espaço (cedido pelos Desana de Cucura). Não é à toa que novos missionários voluntários foram obrigados pela Funai a deixar continuam muito interessados em implantar suas a área. os Hupd’äh tinham preparado um cam. em 25 anos. o interesse da Semec os leva a pensar na possibilida- que foi considerado grande progresso pelos vi. Informaram que tinham interesse desde o seu posto. os anos iniciais do ensino fundamental. nificativas na educação escolar dessa região. A Semec contrata professores sianos substituíram a palha caraná dos telhados hupd’äh para escolas em suas comunidades. duas de suas filhas nascidas entre os Hupd’äh. brancos tëghõih-d’äh. tendo construído 21 casas dispostas em formato A partir de 2005 aconteceram experiências sig- circular. para a margem do rio Tiquié com a justificativa de co- elaboração de cartilhas. fessores Tukano. que po onde estava um boi e uma vaca que haviam nos permitem analisar o processo de implemen- recebido da missão. segundo pudemos deduzir na ainda por ser estudado. A aldeia de Umari escola entre os Hupd’äh que vivem hoje em Bar. Juan Pablo e Rosário. que nunca tinham completado sequer um batismo coletivo. Pedro. Tuyuka ou Desana mantinham dação. o bispo Dom Miguel dação havia recebido aproximadamente 135 Alagna chega em Nova Fundação para realizar crianças. que insistem para trazerem alu. Nova Fundação.

sobretudo. Os conhecimentos são constru- não. Sa. tendo em vista beres que. que ainda não conheça. ce de informações sobre possibilidades e modelos que partam deles mesmos. cialistas (Sabana. que envolvem um “saber-fazer” (Siverwood-Cope. principalmente os pais mento os princípios filosóficos e cognitivos es. o debate sobre uma Escola Hupd’äh care- como nos rios Uaupés e Içana. Para os Hupd’äh. Cada clã desenvolve meios para facilitar sua dos a um determinado clã (Pozzobon. conhecimentos. sendo que cada clã detém conhecimentos conhecimentos em um espaço específico deno- específicos. Essa questão merece um debate mais apro. res. que podem ou não ser compartilha. com ipadu tral no processo narrativo. saberes (referido como oralidade) é fundamental No entando. avôs e netos. transmissão aos seus membros. Outra questão relativa ao processo de forma- ciado à noção de hipãh. que repassam aos parentes mais de um tempo. fundado no âmbito da educação escolar indígena. Nos processos de aprendizado. e o sucesso do método e caxiri (J. que são pessoas de fato nas escolas onde a escrita ainda não é ele.indd 216 5/31/12 2:48 AM . mantendo a dinâmica da estrutura or- relatos mitológicos e saberes sobre o cotidiano. que usando e servindo-se destes conhecimentos. Os saberes são mantidos na memória tabelecidos por seus ancestrais nos primórdios dos mais velhos. denominamos de oralidade. expressando-se através de longos próximos. e os avôs. O único modelo de escola que os Hupd’äh ainda continua fortemente presente. o conhecimento está asso. sentido. responsável por repassar os nhecer. Saberes assim construídos nas suas especificida- A transmissão de saberes envolve sempre os des têm validade. que desencadeou o surgimento de esgotou. precisa ser recolocado Transmissão de saberes de uma maneira bastante aberta. aspecto desafiador se O processo de transmissão de conhecimentos pensado como prática pedagógica nos cursos de entre os indígenas desta região sempre pressupo- formação de professores indígenas. responde a uma das formas de transmissão de 216 188a233_CORR_V1.SABERES E PRÁTICAS ENTRE OS PROFESSORES modelo escolar incentivado corresponde ao con. determinados conhecimentos. apesar de conhecem foi aquele introduzido pela missão e existirem experiências piloto propondo outros ainda reproduzido em muitos povoados. Apenas os clãs aliados podem compartilhar ídos em um momento e contexto determinado. professor indígena. tanto na região do rio Tiquié. seus detento. ao ensino e aprendizagem entre os povos indí- gro merece um estudo mais aprofundado. para os povos indígenas do rio Negro. Nesse modelos escolares. reco. o exemplo cor- 1985). ESCOLAS HUPD’ÄH . sobretudo. que assumem a tarefa de transmitir o conheci- mento central na comunicação cotidiana. são transmitidos principalmente através do que eles continuam se perpetuando como pessoas. Esse debate. Jackson. 1997). Muitos mento do seu grupo social a um novo membro Hupd’äh dizem que os conhecimentos sérios de. disposto a explorar as possibilidades. 2002). A memória é o eixo cen- vem ser transmitidos durante as festas. de transmitir e repassar conhecimentos para gru- res mantêm a discrição de transmitir a outros. e que esse processo de transmissão de grande número de escolas indígenas no Brasil. de aprendizado dependerá dessas pessoas espe- Essa oralidade é construída tendo por funda. minado de escola. 1974). ganizacional. que poderíamos traduzir ção de professores é a escolha (comunitária?) do como saberes. Não existe tradicionalmente en- dos. saberes sempre associa. para seus detento- pais e filhos. a rede escolar na região do rio Ne. pois o genas e na prática pedagógica do professor indí- modelo de escola estabelecido pelos missionários gena. como prática rá a existência de especialistas. ou pos de pessoas. texto da Resolução 003/96 do Conselho Nacional Alguns colegas acham que esta temática não se de Educação. tem um lugar nomeado tre os Hupd’äh uma pessoa com o papel exclusivo onde é desenvolvido e. saber-fazer. Esse saber tem dono.

Os pais. pois dos publicamente os conhecimentos mais corri. os acidentes geográficos. debatem essa crianças (Fontoura. avós. para localizar os lugares de caça. por sua vez. até os banhos matinais. lugares e espaços apropriados para pro. tal como todas as coisas nesse mundo) que deixou para a descrito por Dorvalino Chagas (2001:41). Sobre liáseri. entre professores como entre os gestores da edu- tendo em vista que certos conhecimentos não cação escolar. los missionários ainda está muito presente. dentro de um Mães e avós relatam para as filhas conheci. afirmam que foi K’èg’teh (aquele que fez vendo os pais. Quando questiona. completam os saberes específicos do clã. Nessas humanidade. a mente está descansada lidade. e outras atividades aos filhos. Estas informações sobre transmissão de saberes O dono da música ou Mestre do Canto e Dan. 2007). práticas de ensino e do modelo introduzido pe- Algumas vezes as narrativas acabavam se esten. esquema próprio dessa região. é de difícil entendimento tanto para gestores de queiros da vida econômica. ensina aos meninos os cantos e professores e os conteúdos curriculares dos cur- danças. são importantes para mostrar que a formação de ças. Eles se servem das narrativas míticas ocasiões. lembram sempre as narrativas mitológicas. seguidos dos tios (pater- realizar durante sua vida. conhecimentos sobre as plantas comestíveis tos básicos do clã de sua esposa. orientan- indígenas hup’däh do como deverá dirigir sua unidade doméstica de produção e consumo (Athias. educação quanto para formadores de formadores. biliza por transmitir os conhecimentos da cultura com os sons de Jurupari. Esses saberes e plantas de uso terapêutico. Durante as festas. tanto dendo pela madrugada. os Hupd’äh sobre a transmissão de conhecimento entre os Ta. O pai se responsa. Pela importância que portantes. como a escolha do terreno para a abertura dos roçados. como a culinária. cruzamentos e seleção das mani. técnicas e armadilhas de caça que co- e prática de atividades cotidianas. nos).indd 217 5/31/12 2:48 AM . temática que ainda merece ser melhor e mais am- Dentro da casa também são debatidos e fala. plamente discutida nos espaços de formação. as casas comunais fun. levar em consideração aspectos relacionados à res específicos. O nicas de plantio. sogro e os tios maternos ensinam conhecimen- vas. delas e dos seus A linha hierárquica sinaliza que os detentores próximos. são literalmente trocados em festas de dabucuri. como his- e do saber-fazer tradicional (Sabana. A aquisição se dá pela observação. Durante as noites. mento e cuidados com o corpo. REGIÃO . as técnicas e Formação de professores armadilhas de caça e lugares de caçar. quando todos cultura específica do povo (o que não é novidade) se encontram acomodados. histórica e cosmológica. onde os mitos são mentos sobre as regras de parentesco e de casa. nhecem. entre as quais a podem ser narrados na presença de mulheres e de Nietta Lindenberg Monte (2000). 1995). sos de formação de professores hupd’äh devem cionam como principais lugares de troca de sabe. sem que qualquer e. todos os momentos são aproveitados têm no contexto vivido por eles.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS saberes aos novos membros. fazem questão para dar mais informação sobre aspectos do saber de transmitir essas histórias aos filhos. sos na região do rio Negro onde a reprodução de lativos à trajetória percorrida por seus ancestrais. sobretudo. nem sempre evidenciados nesses proces- para a memorização dos extensos conteúdos re. Sempre envol. as téc. referência geográfica. 1997). Assim assinalou Ivo dos sobre como adquiriram os conhecimentos Fontoura em sua dissertação de mestrado (2007) voltados às atividades econômicas. tórias que norteiam suas atividades. para identificar ferirem as narrativas se tornam necessários e im. escuta os locais. avôs. aspectos relacionados à intercultura- barulho os incomode. 217 188a233_CORR_V1. Várias publicações. As mães assumem a tarefa de ensinar dos saberes têm responsabilidade na educação às filhas todas as atividades que uma mulher deve de seus filhos. mais velhos.

É mais provável que escola do povoado com professor tukano. Tal e debatido a incorporação de novas práticas esco. A partir dessa perspectiva intercultural. a dos principalmente pela comunidade. nesse contexto. O objetivo desse livro é justamente mostrar Desde a sua seleção. Várias informações etnográfi- de escola introduzido pelos missionários. que considero ainda presente nos discursos hupd’äh é o mesmo importantes e que foram debatidas entre profes. os professores No caso hupd’äh. por exemplo). solicitamos dos cursistas duas escolas indígenas escolares mais recentes na esquetes teatrais.. com o objetivo de transmitir conhecimentos a tágios. Já Uma das principais questões que se assinalam discutidas por especialistas da educação escolar nesse processo formativo (no contexto acima indígena como Bartomeu Meliá (1979) e Eunice descrito). resse mais geral entre os cursistas. e não os saberes dos Hupd’äh. povo vizinho aos Hupd’äh. não têm tanto do lado brasileiro como do lado colombiano conhecimento dos elementos centrais da cultura (Becerra. Tukano do médio rio Tiquié) que es. 2004:15) ainda nos anos de 1910. Nota-se que esse é o inte- tipos de professores usando os mesmos gestos. iniciaram o processo de escolarização. de fora. experimentado dos brancos. Isso também tem a ver com Hupd’äh tiveram acesso à escola apenas a partir o processo de seleção desses professores. de fato. São levadas de 1996. onde “ao for- modelo missionário em toda a região. As dos para poder realmente transmitir a história esquetes eram extremamente parecidas. é a necessidade de a comunidade de- Dias de Paula (2000). podendo transmitir aos demais Hupd’äh. der bem (tudo!) o que os tëghoîdeh (os brancos) tão sendo desenvolvidas na região do alto rio Ne. No entanto. esses professores hupd’äh algumas experiências de escolas (Tuyuka. ESCOLAS HUPD’ÄH .”. o lugar onde se aprende coisas que vêm curricular e a prática pedagógica desses cursos. Uma sobre o professor em uma própria região do rio Negro. Apenas cas levantadas pela equipe da SSL assinalam esses em 2006 encontra-se escola hupd’äh com profes. a partir de uma a régua para amedrontar o aluno. o Com a diferença que o professor hup não utilizava processo formativo faz com que. dilemas próprios do processo formativo hupd’äh sores hupd’äh (Taracuá Igarapé. E são essas escolas que estão Nietta Lindenberg Monte (2000:21) com relação procurando romper com a prática de ensino do aos professores indígenas no Acre. os dois e a cultura ocidental. Magistério II. também os conheci- representação percebi que o modelo de escola mentos hupd’äh venham a ser transmitidos por 218 188a233_CORR_V1. nesses cursos de forma- em aldeias hupd’äh só foram implantadas a partir ção. A escola ainda sores do Magistério II. As pessoas maioria em escolas dos povoados Tukano. finir pessoas com identidades sociais específicas damento em contextos onde processos de esco. por partir de uma proposta de escola centralizada e exemplo. Já os indígena em questão. gro e que têm registrado uma excelente relação O professor deve saber transmitir o saber-fazer com a comunidade e. existente em quase toda a região. carecem de maior aprofun. (destaque-se que este debate não é novo). alguns em povoados-missão.SABERES E PRÁTICAS ENTRE OS PROFESSORES Apresento agora três questões. em um processo similar ao dos Tukano a aprender uma didática distinta daquela em uso onde muitas vezes ainda é reproduzido o modelo nas diversas aldeias. durante a terceira etapa do procuravam centrar seus interesses na própria Curso Paah Sak Teg. (chamadas de professores) para serem formadas larização indígena encontram-se em diferentes es. Os Tukano. entender o que é um professor. escolhi- dos anos 1970. discutida por profissionais que. e uma esses professores hupd’äh tenham sido escolhi- encenação de como seria o professor hupd’äh. focalizando a organização é. mularem suas identidade sociais. às vezes. E difere também das experiências de novembro de 2007. Escolas selecionadas buscam.. sabem. em Taracuá em história.indd 218 5/31/12 2:48 AM . interesse geral desses cursistas difere do que diz lares e pedagógicas. sobretudo. Tukano são direcionados pelos mais velhos para apreen- do alto tiquié.

enquanto sua prática pe. De um lado. ao ponto dos próprios Hupd’äh Um dos velhos hupd’äh perguntava aos meni- se questionarem “que ensino é esse?” nos que acabavam de sair da escola. Para um gua indígena. sempre vel que o português. a ausência de discussões e implementação dos conteúdos des- material apropriado para essa fase de letramento ses processos de formação hupd’äh. sobretudo. em última são devendo obedecer às questões de idade. Mas isso tem sido muitas instrumentos pedagógicos apropriados que faci. ini. sua transmis. quando eles A segunda questão é aquela relacionada à lín. instância e com todos os seus sentidos. 219 188a233_CORR_V1. tura dos brancos. Os Hupd’äh esperam que a escola mostre a cul- percebem que a formação coloca a escrita e a lei. Essa acerca das práticas pedagógicas e processos de ênfase tem relação direta com o entendimento aprendizado desenvolvidos nesses cursos de for. que têm dos processos de aprendizagem próprios mação. To. de contradições. vezes mal compreendido pelos encarregados das litem a transição para o português. iriam aprender a fabricar uma espingarda. já que muitos desses conhecimentos este mundo. a caça é central e faz parte de todas as etapa do curso de magistério. um dilema importante. e partem de escola. Para esse velho. Durante nossa atuação na terceira Hupd’äh. Para alguns velhos detentores de são específicos de cada clã. Sabedoria ciação e hierarquia. Está eviden- aumenta a dificuldade sentida pelas crianças. te nas temáticas inseridas nos cursos. ais processos de formação de professores. REGIÃO . já Peña Márquez já levantava essa questão em sua os Hupd’äh em sua maioria. ao saber-fazer dos brancos. ainda que ou já utilizados por eles. e que foi muito bom poder focados em temáticas que visam inserir a cultura ler na sua língua. Com relação à língua indígena. E nos coloca diante de os professores hupd’äh valorizem a escrita na pró. a como veem se processo. mostre o saber dos brancos. pelo fato de colocá-la no mesmo ní. vários senhores e senhoras hupd’äh deveria dar o dagógica demonstra a centralidade da oralidade. tos essenciais da cultura hupd’äh. a escola nada mais é que o lugar de apren- saberes não pode ser coletivizada. o que os impede de avançar. conduzimos um conversas no cotidiano.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS esse professor indígena ao conjunto de seu gru. a prática pedagógica coloca avaliação feita pelos professores na terceira etapa em evidência que a escola deve levar em conta do curso de Magistério Indígena II. uma esco- processo de avaliação que recuperou aspectos la que não ensine a fabricar as coisas dos brancos fundamentais do ponto de vista dos Hupd’äh que lhes interessam. der coisas do mundo dos tëghoîdeh. Juan Carlos aspectos e elementos importantes da cultura. E aqui se encontra a grande contradição des. não será uma boa escola. textos para leitura. ainda ressentem-se da falta de hupd’äh no aprendizado da escola. considerando-se os atu- pria língua. esperam que a escola dissertação de mestrado (2004). e grande parte desses saber. A escola tal como formulada por tura em primeiro plano. A realidade detecta uma série associada. essencial para a compreensão do mundo e do sa- Os professores também se ressentem da falta de ber-fazer dos tëghoîdeh. A terceira e última questão se relaciona a aspec- po. a tentativa dos esses aspectos debatidos e avaliados pelos de priorizar a cultura hupd’äh no aprendizado da Hupd’äh merecem aprofundamento.indd 219 5/31/12 2:48 AM .

Extender estas en el río Tiquie se pueda recuperar la cultura tra. que involucran al depar- ma de Cooperación y Aliança para el Noroeste tamento del Vaupés. lo cual le de los actuales proyectos educativos indígenas otorga alcances transfronterizos. retomar sus reflexiones para pensar en los retos había estado bajo el control de la iglesia católica. perando que lleguen a oídos de las comunidades dígenas del río Tiquie a los requerimientos legales indígenas de Brasil para buscar puntos en común educativos del estado colombiano? Finalmente. culturales y pedagógicos de los actuales legio de la zona del Tiquié (Departamento de proyectos educativos de los pueblos indígenas de Vaupés) – se originan en el marco del Progra. que nos permitan acercarnos con nuestras dife- ¿Cómo lo pensaron para su educación? rencias. que son necesarios de afrontar en la construcción producto de un contrato de administración cedi- de un proyecto educativo de estas dimensiones do por el estado colombiano a la iglesia católica en la región amazónica. lar involucra a las comunidades sobre el río Tiquie munidades indígenas? ¿Es posible que a través que limitan con la amazonía brasileña. Amazónico – Canoa –. es importante mencionar algunos elementos le- tivo de Aatizot (2009-2011) y el rector del co. es- dicional? ¿Cómo se adaptan las comunidades in. este proyecto educativo y esco- construcción de un proyecto escolar para las co. PROCESOS EDUCATIVOS EN LA ZONA DEL TIQUIÉ COLOMBIANO (DEPARTAMENTO DEL VAUPÉS) O mar G arzón ¿De qué manera incide la cultura propia en la Por otra parte.indd 220 5/31/12 2:48 AM . propuesta impulsada por Inicialmente hay que señalar que el desarrollo la Fundación Gaia Amazonas y que involucra a de los actuales proyectos educativos indígenas organizaciones de países vecinos como Brasil y tuvo una fuerte variación en su contenido y orien- Venezuela. voces más allá de las fronteras de Colombia. hasta entonces. ba de educación propia como una forma de rei- dagógico. Entrevistas como la que a continuación se Para una mayor comprensión de los lectores presenta – con el Presidente del Comité Ejecu. es la intención. 220 188a233_CORR_V1. la amazonía colombiana. más allá de años 80’ y 90’. gales. nos presentan un panorama profundo vindicar las particularidades de la cultura indígena de cómo se viene pensando la educación en esta y una manera de establecer distancias culturales zona de la amazonía colombiana y nos invitan a con la educación occidental que. En la década de los años 80’ se habla- un análisis exhaustivo del tema educativo y pe. desde los años cincuenta. tación política y cultural entre la década de los Las voces de Belarmino y Plinio.

a través de una de una educación acorde con las particularidades modalidad conocida como prestación integral del territoriales y lingüísticas de las minorías étnicas servicio educativo y que consiste en una contra- de la nación colombiana) y el Decreto 804 de tación directa por parte del estado colombiano 1995 (conjunto de normas especiales para la edu.Mesa per. las Asociaciones de educación en territorios indígenas de la amazonía Autoridades Tradicionales Indígenas (Aatis) cuen- por parte de la iglesia (acuerdo logrado en 2002) tan con escenarios representativos de discusión y y la posibilidad de que las comunidades indígenas debate de sus planes y proyectos educativos que (organizadas bajo la forma de Asociaciones) deci. promoviendo e el departamento de Amazonas (MPCI . sus programas curriculares interculturales medio ambiente amazónico. localizada General de Educación de 1994 (reconocimiento en el departamento de Vaupés. permiten el fortalecimiento cultural de los pue- dan el rumbo de sus proyectos educativos. Pani. A partir de este marco jurídico las comunida. Bajo recursos financieros correspondientes para que este marco legal y jurisprudencial ha sido posible. entre otras cosas. el cese de la administración de la En este marco de acciones. Esta última acción ha sido posible junto a norías étnicas del país (Artículo 7). de protección y conservación de las culturas y el tivos. a nivel político. ción. Aipea – Asociación de Autoridades Indígenas de La Pedrera Amazonas Pani – Asociación Pueblo Pani (Bora Miraña). Cimitar y Aiza) largo de la década de los años 90’ mediante la Ley y con la Asociación Acaipi (Vaupés). queda por entre las Aatis y la Gobernación del Amazonas) fortalecer y acompañar el conjunto de iniciativas y el departamento de Vaupés donde se pudiese pedagógicas y educativas de los pueblos indíge- discutir y acordar la manera de que fueran los nas amazónicos en aras de mantener una política indígenas quienes diseñasen sus planes educa.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS Estas situaciones van a modificarse con la pro. con pertinencia lingüística y sus sistemas de mulgación de la Constitución de 1991 donde se administración de los recursos para la educa- reconoce la existencia y los derechos de las mi. ríos Caqueta Cahuinari y Amazonas Acima – Asociación de Capitanes Indígenas del Miriti Amazonas Acaipi – Asociación de Capitanes y Autoridades Tradicionales Indígenas del río Pirá Paraná Aatizot – Asociación de Autoridades Tradicionales Indígenas Zona Tiquié Cimtar – Asociación del Cabildo Indígena Mayor de Tarapaca Resguardo Cothue Putumayo Aiza – Asociación de Autoridades Indígenas de la Zona Arica 221 188a233_CORR_V1. blos indígenas de la amazonía colombiana. seis Asociaciones ubicadas en el departamento miento constitucional se irá materializando a lo de Amazonas (Aipea. Después de más de una década de impulsa- des y sus Asociaciones iniciaron acciones políti. pedagógicas y administrativas con las cuales Gaia Amazonas ha jugado un papel protagónico establecieron un diálogo con el gobierno local y apoyando en el terreno las iniciativas de forma- nacional. REGIÃO . Acima. Este reconoci. titucional (Mesas de Concertación) – . impulsando los espacios de concertación interins- manente de Coordinación Interadministrativa. puedan cumplir con esta labor. con las Asociaciones a quienes se les giran los cación de las minorías étnicas de Colombia).indd 221 5/31/12 2:48 AM . das estas propuestas – en donde la Fundación cas. Para ello se crearon mesas de trabajo en ción docente y.

yo me yoamu. Pertenezco formar a algún hijo para que pudiera reemplazarlo a la etnia tuyuka. elegido como presidente del Comité Ejecutivo de Aatizot y. Desde 2009 fui él pensaba así. Nos va hasta el 2011. a la cual hoy no ven posible renunciar pero si adecuarla a sus necesidades. SÓLO SOMOS UN PASAJERO MÁS DE ESTE PROCESO EDUCATIVO B elarmino V alle . tiempo no había educación occidental entonces dad de Bella Vista de Aviyú Tiquié. Si. los kumua me prepa- hermano de todos los seres raron ese nombre cuando yo nací en el 75. Nelson Ortiz.indd 222 5/31/12 2:48 AM . De acuerdo a los estatutos mi periodo BV: A nosotros nos tocó pero muy difícil. en lengua era un líder tradicional. estudié aquí en el Internado. o un kumu o un el Colegio de la Comunidad de Trinidad. N: ¿Usted tuvo una formación tradicional que es hermano nuestro. Los profesores Belarmino y Plinio nos presentaron su punto de vista en relación a su experiencia escolar. pero de la naturaleza” la interrupción fue cuando me mandaron para la escuela. En ese nombre está todo el aprendizaje acuerdo. ellos. Editor Omar Garzón. Terminé de estudiar en 1986 cuando te- que hemos recibido. por eso buscaron ese nombre. BV: Desde el rezo. como Belarmino Valle (BV): Mi nombre. Esta entrevista fue realizada en el mes de noviembre de 2011 por el asesor de la Fundación Gaia-Amazonas. Como en ese me llamó Yukuro. En propia lengua Utapinopona a él. 222 188a233_CORR_V1. agarraron así no más. A lo largo de la conversación se recrean algunos episodios de sus vidas en los internados y la manera cómo sus conocimientos y prácticas culturales tradicionales fueron afectados por la escuela occidental. nía 11 años. es Belarmino Valle Trujillo. soy el Representante Legal de la N: ¿A qué edad lo enviaron a la escuela? Asociación. Sí. Soy procedente de la comuni. pusieron? de los seres del día. yo estoy seguro de que mi papá. A mi me cogieron como a los cinco años.Y ukuro P linio R estrepo “Llegó otro pariente de nosotros. A los cinco años empecé a estu- Nelson Ortiz (N): ¿Qué significa Yukuro? diar en la misma comunidad y a lo seis años ya BV: Tradicionalmente dicen que ese era el nom. a la vez. lo llevara a poder realizar ese nombre que le de los seres de la noche. estaba preocupado por española. que actualmente es bre apropiado para un danzador.

curso N: ¿Qué opina Ud. En esos tiempos último año. me acuerdo de eso.indd 223 5/31/12 2:48 AM . En ese tiempo era un cuadro. Fui a estudiar que pasó. aunque tam. Es que aquí sólo vi la básica primaria. Allí estudié mi años y volví al colegio otra vez. y allí Me acuerdo no más cuando me dieron un di. cogía el ritmo del colegio. de los internados. 223 188a233_CORR_V1. en la zona del Tiquié colombiano N: ¿Qué aprendió en la escuela? oro como dicen ellos. edad avanzada. Allá estuve como tres Después fui al Colegio Departamental José Eus- años. zona minera. en Taraira. Simple. No decía nada. pre estaba preocupado. terminé mis estudios. tenía. periencia de estar lejos de su familia convivien- mente eso. pero al cabo de unos 15 estaba en otra cuestión de plata.RIO TIQUIÉ E BAIXO UAUPÉS © Nelson Ortiz Colégio de la comunidad de Trinidad. poco sabía realmente qué era eso. digamos. No me acuerdo de nada de lo y como a los 19 regresé al colegio. Allá fue muy diferente porque ya que yo andaba en la zona minera pues ya no ha. Después regresé a mi casa como a los 19 tacio Rivera – Coljer – en Mitú. en el Colegio de Acaricuara como interno. Trabajando pero nadie nos contaba la historia de nosotros. REGIÃO . Al inicio siem- bía preocupación ni en lo tradicional ni en nada. ploma. Después regresé a la casa BV: Pues nada. A los doce años do con otros niños en condiciones limitadas? terminé la escuela. días ya me amañaba. de esa ex- aprobado educación básica primaria”. a los 14 años me fui para la BV: Pues yo pasé por diferentes internados. no era certificado y decía: ”diploma.

de he- dicen los abuelos. zona del Tiquié. damente desapareció todo lo que tiene que ver PR: La situación educativa en el departamen- con la cultura propia. en el Cananarí. sobre todo en la zonas alejadas de la terio y gracias a ello he aprendido durante doce capital del Departamento. experiencia ha sido el haber laborado cinco bros. Allí adelanté mis estudios. en la institución educativa desde aunque no me acerqué a investigar directamen. tos por invitación de ellos mismos. como rector. de dón. Yo sabía un poco de eso. hijo de un N: Antes de eso. lo tradicional. a sus costumbres. Actualmente del trabajo que se ha venido realizando hemos me desempeño como rector del colegio de la hecho un diagnostico. así. hablemos un poco del mo- indígena Desano y una madre Piratapuya. la for- durante las vacaciones participaba en las fiestas ma como ellos vivían. en los computadores. pues empeño aquí. porque el de venían los Tuyuka. Entonces existió unos cinco años. SÓLO SOMOS UN PASAJERO MÁS DE ESTE PROCESO EDUCATIVO o sea lo tradicional. Al lo que se llamó la educación contratada en mu- culminar la Escuela Normal me vinculé al Magis. porque en coordinación con la completo. en el departamento del Vaupés y por lo giones del Vaupés colonizadas por misioneros y tanto también aquí en el colegio de Trinidad por ende es una de las regiones donde más rápi. La educación contratada nos y lo más significativo que he tenido como siempre fue una educación cuya filosofía estaba 224 188a233_CORR_V1. Ha sido uno de los te. lo que ellos pensaban. Cuando mis damentales. sus saberes. chas zonas. eso ha sido el traba- Prada. y bueno… to podríamos dividirla en dos momentos fun- desde muy niño emigré hacia Mitú. El otro cuando la pres- años todo lo que es la esencia de la vida indíge. que uno siempre aprende en cho. había unas áreas donde nos indicaba la zona de Buenos Aires. porque me ha medio de yagé. pues du. el año pasado. investigar so. jo. En la actualidad me des- der presentar al profesor. tación del servicio educativo fue liderada direc- na. docente vinculado a la Secretaria de Edu. de acuerdo de eso yo lo transcribí para po. He tenido tamente por la misma Secretaria de Educación la oportunidad de trabajar entre indígenas tuca. Por favor díganos su nombre zona del Tiquié. cuando el Departamento del padres con el afán de continuar con los estudios Vaupés tenía el contrato para la prestación del de mis dos hermanos mayores me llevaron de servicio educativo con la Iglesia. fue excelente mi trabajo. organización zonal hemos tenido que empezar empeña actualmente en esta zona. correspondido liderar uno de los procesos más significativos que se están gestando a nivel de N: Belarmino. Soy oriundo de la comunidad de Teresita Piramiri en el bajo Papurí. Uno. y cuál es el cargo que des. el reto principal que hemos tenido y dentro cación Departamental de Vaupés. también en la vida personal. Sin años entre los Kabiyarie. Tiquié. Departamental – SED. mi experiencia laboral. todo era así como grandes retos en mi vida profesional y. aprendí la esencia del ser indígena. donde investigar sobre la vida indígena. A mí me tocó. un proceso de construcción de una propuesta PLINIO (PR): Mi nombre es Plinio Restrepo etnoeducativa para la zona. ellos tenía que aprender para poder entender rante todo esos años que uno pasa en el colegio lo que ellos eran. La delo educativo que se imparte actualmente zona del bajo Papurí fue una de las primeras re. ha sido como regresar a mis raíces.indd 224 5/31/12 2:48 AM . uno conocía trascendental para mí en lo que ha corrido de eso. me acerque bre todo lo que nos pertenece a los indígenas. su etnia. sus conocimien- a mi me toco investigar cómo era yo. cómo fue el origen de los concepto de ellos era que si yo iba trabajar con Utapinopona. en la televisión. Barasano y Tatuyo de embargo. también nos acompaña el educación en todas las zonas y en este caso la profesor Plinio. Eso ha sido como lo más tradicionales y por medio del yagé. uno está basado en los li.

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basada en la educación a través de la evangeli- muchos no aprendieron nada en ese tiempo por-
zación. Ese contrato de educación contratada que eso no era educación.
culmina en el 2005, creo, y siguió una etapa en
donde la SED asumió la prestación del servicio N: Los sabedores tradicionales y payés que
educativo en todo el departamento. En ambos existen hoy en día en la zona del río Tiquié en
momentos, todo lo que se ha trabajado a nivel Colombia, ¿pasaron por la escuela?
de educación en las diferentes zonas y comuni- BV: En su mayoría no, no se escolarizaron.
dades del departamento -y hasta ahora-, ha sido
un modelo basado en un currículo nacional, con N: Tal vez eso ayudó a que no perdieran el
unos lineamientos conformes a los requerimien- interés por el conocimiento tradicional.
tos del Ministerio de Educación Nacional – MEN BV: En la zona, en general, si existe tradición,
–, donde se trabaja con unos estándares y crite- digamos que está viva la cultura. Contamos con
rios curriculares que se establecen para lograr danzas Yuruparí en ambos grupos étnicos, tanto
unos objetivos propuestos por el MEN. Todo el los Tuyuka como los Bará; practicamos, todavía lo
proceso, lo que es la planeación, la ejecución, conservamos, tenemos la maloca; algunos de los
la evaluación del proceso educativo se hace de sabedores que están ahorita como los danzado-
acuerdo a estos lineamientos de nivel nacional, res, los payés, ellos no saben escribir, ni saben leer
ese es el esquema educativo que se ha trabajado porque son de tiempos pasados, algunos de los
hasta ahora en las diferentes comunidades del que pasaron un tiempo por la educación, después
departamento. de esa formación volvieron a retomar su tradición.
Terminado su quinto de primaria ingresaron a la
N: ¿Usted estudió bajo el modelo educativo de escuela tradicional. Antes la educación, digamos
la Educación Contratada? occidental, era obligatoria, ya con el tiempo hubo
BV: Pues en ese tiempo de la Educación Contra- un cambio.
tada, la mayor parte de los docentes, aquí del in-
ternado durante esos años, eran monjas; entonces N: ¿Actualmente hay niños que están vincula-
no había espacios para interpretar lo tradicional, dos al aprendizaje en ese modelo ancestral de
en la lengua de uno; sencillamente era prohibido conocimientos?
expresarse en lengua, en los salones o donde fue- BV: Sí, la mayor parte. En todas las comunida-
ra dentro de la Institución. des hay niños y jóvenes interesados en eso; con lo
que estamos organizando ahora, muchos ya están
N: ¿No podían hablar en sus propias lenguas? volviendo, retomando, digamos que están miran-
BV: Ni siquiera al propio hermano de uno, ni do otra vez el modelo propio, la propia educación,
nada. Las monjas pensaban que uno estaba ha- lo que nosotros llamamos formación o educación
blando mal de ellas, aunque en realidad no era tradicional.
así. Pero con el tiempo ha ido cambiando. Ahora PR: Aunque el 97% o 98% de los niños de la
la misma Secretaria, los mismos jefes de ellos em- zona en edad escolar, están inscritos dentro del
pezaron a decir que poco a poco se tiene que ir sistema de educación escolarizada.
mejorando, permitiendo más flexibilidad en ese BV: De acuerdo de lo que hablamos en este
esquema. Tal vez la educación siempre fue exce- último recorrido que hicimos con los miembros
lente de acuerdo a lo que ellos piensan que tiene del Comité Ejecutivo de Aatizot por todas las co-
que ser, pero sin embargo no tenía nada que ver munidades, se estaba planteando que por qué no
con lo nuestro, sin embargo con el tiempo ellos llegan los otros alumnos de las comunidades más
mismos empiezan a reconocer nuestra identidad, lejanas, por ejemplo los Hupda de Santa Catalina,

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accedieran a beneficios como la salud, la educa-
© Nelson Ortiz

ción, los mismos recursos de transferencia de la
nación. Sin embargo, la experiencia de la escuela
de la comunidad de Santa Catalina nos dice que
el sistema actual no corresponde a los intereses
y a la realidad de los Hupda, porque de hecho,
en el presente año, tuvimos que cerrar tempo-
ralmente la escuela allá. De hecho, en el Proyecto
Etnoeducativo que estamos elaborando, ya está
plasmado ese asunto, como una situación muy
especial que hay que mirar con mucho deteni-
miento y analizar cual es la alternativa más apro-
piada, por qué de acuerdo al sistema y a los crite-
rios de evaluación y seguimiento que se tienen,
los niños hupda de la escuelita Santa Catalina
presentan un alto índice de deserción, si se ma-
triculan 27 niños, entonces cada fin de año ter-
minan 10 y además hay una inasistencia altísima.
Belarmino Valle del Tiquié colombiano Según el sistema, nos piden llevar un control de
asistencia, entonces el profesor dice: “bueno, hay
niños que vienen dos o tres veces a la semana y
el resto no están” y eso lo entiende uno cuando
pues los papás se preocupan por mandarlos al co- uno empieza a mirar que en su condición natu-
legio pero ellos económicamente no cuentan con ral, ellos deben estar por allá en las cabeceras de
que sostenerlos, digamos. los caños, mirando qué parte del caño o chucuas
se secaron para poder buscar pescado y estas
N: ¿Se está promoviendo que los niños de la son situaciones naturales que van en contravía
etnia Hupda que habitan en la zona vengan del sistema educativo que se quiere imponer.
también a escolarizarse? Esta es la situación actual, y es una imagen que
BV: Aquí, entre nosotros, digamos entre los Bará nos muestra de una manera muy clara cuál es la
y los Tuyuka para familiarizar con ellos, porque es- identidad cultural de los pueblos indígenas y lo
tán solos allá. que se trató de imponer a través de un sistema
educativo convencional que no corresponde a
N: ¿Qué opina profesor Plinio? los intereses indígenas.
PR: Ese es un problema bastante delicado que
hay que mirar con mucho detenimiento. Hay que N: El sistema educativo convencional entonces
examinarlo bien, porque el grupo étnico Hupda es muy homogeneizante y colonizador, según
mantiene su condición de seminómadas, esa lo que nos están contando…
es su tradición milenaria, su condición de cami- PR: Exactamente. Entonces lo que nosotros
nantes naturales en un extenso territorio consi- vemos a nivel estadístico en estos momentos, de
derado por ellos propio. Dentro del diagnóstico acuerdo a los parámetros nacionales, es que la
que nosotros tenemos, ellos se asentaron como escuela de Santa Catalina es un fracaso porque
localidad con la ayuda de las hermanas misio- presenta altísimos índices de deserción y tuvi-
neras y del cura, dizque con el fin de que ellos mos que cerrar la escuela porque al reanudar el

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segundo semestre escolar se presentaron, de 27 zonas. Es así como se empiezan a asumir com-
matriculados, tan sólo cinco niños, además de promisos. Inicialmente el presidente o repre-
otras dificultades y problemas que el profesor ve- sentante legal de cada zona, en coordinación
nía teniendo con la comunidad, por eso se des- con el rector de la Institución Educativa, debían
animó y renunció y tuvimos que cerrar la escuela conformar los llamados Comités Etnoeducati-
temporalmente. vos de Apoyo y debían empezar a trabajar una
propuesta integral, iniciando con un diagnósti-
N: La decisión de implementar una escuela allí, co. Posteriormente se logró un apoyo del MEN
en la comunidad de Santa Catalina, ¿de dónde con relación a las políticas de atención a las
provino?, ¿de la Asociación Aatizot, de la SED, poblaciones minoritarias, de acuerdo con la Ley
o fue iniciativa del colegio de Trinidad? 115/94 y su Decreto reglamentario 804/95 don-
PR: Yo sólo estoy aquí desde el año pasado, de se habla específicamente de la educación
por eso no conozco bien la historia, pero creo para pueblos indígenas. Se inicia entonces un
que había intereses de diversos sectores, del proceso en todas las zonales del departamento,
mismo colegio, entiendo que también de la aunque en el Vaupés Acaipi es la organización
misma comunidad pero no por iniciativa propia indígena que ha desarrollado los programas pi-
sino a través de las visitas pastorales del cura, lotos a nivel de educación propia en el depar-
entonces empiezan ellos a redactar oficios soli- tamento; los demás asumen ese compromiso y
citando la escuela. empezamos a avanzar.
Entonces, desde 2009, iniciamos con una serie
N: Profesor, ahora si cuéntenos que está de talleres para hacer un diagnóstico inicial y em-
ocurriendo actualmente, qué proyectos pezamos a revisar todo el proceso educativo de
educativos se están liderando desde el colegio la historia de los pueblos de la zona, en este caso
de Trinidad y Aatizot para trabajar sobre estas del Tiquié. Empezamos a mirar con los sabedores
situaciones problemáticas. y con los padres de familia cuál fue la educación
PR: Bueno, en la actualidad a nivel departa- ancestral, cómo fue la educación ancestral, qué
mental, desde el 2008, si no estoy mal, se instala se enseñaba, cómo se enseñaba, en qué consis-
la primera Mesa de Concertación Departamen- tía la educación, toda esa parte de lo que fue la
tal de los Pueblos Indígenas del Vaupés, ya que educación de los abuelos. Luego empezamos a
desde mucho tiempo atrás la queja generaliza- revisar esa etapa que les tocó vivir a los padres de
da de los líderes indígenas era que el sistema de familia cuando llegó la escuela: cuáles fueron sus
salud y el sistema educativo hasta este momen- primeras experiencias en los procesos de alfabe-
to no correspondía a los intereses de los mis- tización, por ejemplo, en su vinculación inicial al
mos pueblos indígenas, pero esto nunca tuvo sistema escolar debían caminar jornadas de una
eco. Sin embargo, las zonales indígenas nunca semana y hasta 15 días, porque la gente de aquí
hicieron una propuesta clara, no plantearon debía ir a la escuela en Monforth, debían caminar
otro modelo, pienso que todo es un proceso con paneros de fariña días enteros; como allá eran
que toma tiempo; tal vez las organizaciones maltratados y menospreciados por los mismos
zonales indígenas estaban como en ese pro- paisanos, por los mismos estudiantes de allá que
ceso inicial de formarse en todos los aspectos ya estaban más familiarizados con los misioneros,
organizativos concernientes a lo propio. Enton- entonces al llegar los de acá, los denominaban
ces llega esa oportunidad en el 2008, donde las inferiores los recién salidos del monte. Todas esas
zonales indígenas debían empezar a liderar una experiencias que ellos tuvieron que padecer por
propuesta etnoeducativa para cada una de sus la pedagogía y la educación de la época basada

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en la disciplina rígida, el castigo físico y psicoló- vestigar cómo era la pedagogía indígena, cómo
gico. Repasamos esas etapas que tuvieron que se enseñaba, de qué manera, que era lo que se
vivir hasta la actualidad más reciente, lo que me enseñaba y a partir de allí, entonces, definir cómo
refería a la Educación Contratada. Entre las cosas vamos a enseñar; qué queremos enseñar; qué es
que se destacan, como aspectos positivos de la importante para nosotros y poder definir ya una
llegada de la escuela a la zona las comunidades ruta de manera que sea una educación mucho
resaltan sólo una sola cosa fundamental: el he- más pertinente de acuerdo a los intereses de la
cho de entender, hablar y escribir en español, ya comunidad; eso es lo que en general busca el
que les permite interactuar con la ciudad, en este proyecto etnoeducativo y en esa tarea nosotros
caso con Mitú, y poder acceder a los beneficios los docentes cumplimos una labor de acompa-
como la educación, la salud, los mismos recursos ñamiento, de orientación, porque es la comu-
de transferencias, etc. Lo demás son aspectos ne- nidad, los padres de familia, los sabedores, los
gativos. Por ejemplo, que la llegada de la escuela viejos los que deben decidir cuál es el horizonte,
interrumpió ese proceso de formación natural cuál es el rumbo a tomar de aquí en adelante. A
tradicional en las comunidades, que la llegada través de esa propuesta etnoeducativa, el Minis-
de la escuela implementó un sistema de inter- terio de Educación Nacional, a través de la Secre-
nados, entonces se deben traer los estudiantes taria Departamental de Educación, nos ha dado
de las comunidades a un determinado lugar y la toda la autonomía a las zonales, a la población, a
mayor parte del tiempo el estudiante pasa en el la comunidad, para que sea la misma comunidad
colegio bajo la orientación, bajo la coordinación, la que decida qué tipo de educación es la que
bajo la observación vigilante del profesor y eso quiere de aquí en adelante. Entonces nosotros,
interrumpe totalmente ese proceso de cono- los docentes oficiales, nos convertimos en ese
cimiento tradicional, ya que el niño o la niña se apoyo para poder orientar, con el fin de que ellos
distancian totalmente de sus padres. Hay incluso mismos decidan de qué manera van a definir
niños que se quedan en un internado un mes, este rumbo educativo de aquí en adelante.
dos meses, hasta un semestre completo, cuando
vienen de lugares demasiados retirados y eso ha N: ¿Cómo ha sido la respuesta de las comuni-
sido como de los desastres educativos más gran- dades? ¿Cómo es la forma de participación en
des, lo ha sido, eso nosotros lo vemos esta parte?
La perspectiva y la propuesta etnoeducativa PR: Ha sido satisfactoria, normal. Sin embar-
actual, precisamente, busca remediar ese colap- go, hasta ahora sólo llevamos tres talleres e
so educativo y proponer algo que pueda abordar iniciamos con un diagnóstico en donde reco-
la esencia de la educación propia y es así como rrimos algunas comunidades con la compañía
después de hacer ese diagnostico, de revisar lo de algunos padres de familia del Comité de
que fue la educación ancestral, de analizar lo Apoyo Etnoeducativo. De todas maneras este
que ha sido la llegada de la escuela, lo que se es un tema muy novedoso para la gente por-
pretende es proponer una alternativa educativa que ha sido una larga trayectoria la del sistema
que tenga en cuenta todo lo que es la cultura educativo convencional. Yo creo que más de
tradicional, la cultura propia, la cultura autóctona una generación completa vivió la educación del
de los grupos étnicos y en ese trabajo nos en- sistema nacional, se acostumbraron a la escue-
contramos. En este momento hay necesidad de la y a la educación de esa manera, entonces es
trabajar arduamente en los aspectos pedagógi- difícil romper esa idea de escuela que se tiene
co, metodológico, y educativo pero a partir de y pretender que ellos entiendan rápidamen-
lo que la comunidad diga, para ello hay que in- te qué es lo que se busca de aquí en adelante,

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pero la colaboración y la participación ha sido los docentes somos sólo orientadores, pero si
muy efectiva. Llama la atención ver el interés de el proyecto etnoeducativo requiere definir los
los jóvenes. Esa es una fortaleza para lo que se perfiles de los nuevos maestros hay que hacer-
espera del proyecto. La participación en general lo: hay que definir de qué manera se va imple-
ha sido buena. De pronto, por dificultades muy mentar la propuesta para hacerla realidad, de
puntuales, no tenemos la participación efectiva hecho hay algunos maestros de la zona recién
de los viejos sabedores, pero es algo que hay graduados de la Normal Superior de Mitú, que
que mejorar con diferentes estrategias, tal vez andan trabajando en otras zonas y no se han
acudir allá, donde están ellos, donde deben es- vinculado.
tar, en su banquito, mambiando en la noche, en
la hora en que ellos empiezan a pensar, a hablar. N: ¿Ud. cree que es posible hacer cambios
También ha habido un compromiso grande por estructurales en el modelo educativo actual,
parte de Belarmino y del Comité Ejecutivo de por ejemplo con relación al calendario escolar,
Aatizot, eso es algo que se rescata porque a ve- al esquema de internados, etc.?
ces a los profesores se les ha dejado solos y así PR: Reitero que desde los fundamentos le-
es muy difícil caminar también. gales del proyecto etnoeducativo se dan todas
las garantías, las condiciones, para que la comu-
N: Con lo que se ha trabajado hasta el mo- nidad sea la que defina como quiere que sea la
mento en los talleres, en la fase de diagnos- nueva educación, entonces depende ya un poco
tico, ¿se vislumbra cómo podría ser el nuevo
modelo de educación que se implementaría
aquí en el Tiquie?

© Nelson Ortiz
PR: Sí, ya tenemos un panorama claro de qué
es lo que se quiere. En términos generales se
busca una educación articulada, partiendo de lo
propio, de la cultura propia y que gradualmente,
en la medida que el estudiante vaya avanzando,
entonces se avanzaría en la articulación de lo
occidental.

N: ¿Y en cuanto a política lingüística?
PR: El tema de la lengua… en la primera eta-
pa, equivalente a tres o cuatro años de lo proceso
educativo, se trabajaría solamente en la lengua
materna o en la lengua propia, la lectura y la escri-
tura empezarían con su propia lengua.

N: ¿Se cuenta con maestros de la zona capaci-
tados para enseñar en lengua propia?
PR: En estos momentos, no. Pero es algo que
hay que ir definiendo dentro de la misma pro-
puesta educativa; en el componente metodoló-
gico y operativo debe quedar estipulado de una
manera clara qué personal se necesita; nosotros Plínio Restrepo, reitor do Colégio Trinidad

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de las organizaciones indígenas, de las propues- ahorita ya lo estamos construyendo, todos los
ta que puedan plantear para que avancen en la sectores deben estar plasmados en nuestro plan
dirección que realmente quieren. Lógicamente de vida. Ahorita estamos solamente construyen-
si la comunidad desea darle un vuelco total al do los pilares. Más adelante la educación la podría
sistema actual debe acabar ese referente cuadri- asumir la misma Asociación. Pienso que si puede
culado del sistema educativo al que ellos ya se llegar pero hasta el momento nadie es capaz de
acostumbraron, si desean proponerlo, están da- asumir eso; uno no dice que no se asume ese car-
das todas las condiciones. go, pero a su debido tiempo.

N: ¿Las garantías que propicia el proyecto N: Idealmente ¿cómo le gustaría a usted que
etnoeducativo, también posibilitan la des- fuera la educación en la zona? Si pudiera
centralización, la administración y prestación soñar, no limitarse por el esquema que existe
del servicio educativo por parte de la misma actualmente, ¿cómo le gustaría que fuera la
Asociación Indígena? educación de sus hijos, por ejemplo?
PR: Exactamente, incluyendo la descentraliza- BV: Lo que es de nosotros ya está. Lo que es
ción. Hay unas condiciones totales por que incluso de los blancos, pues toca asumirlo. De la educa-
una de las preguntas orientadoras dice: ¿Quién va ción occidental es bueno asumir lo que sí nos
administrar el proyecto etnoeducativo? ¿De qué puede servir; es importante conocer lo que es
manera? Entonces por ahora los padres de fami- el mundo actual, lo mismo la parte de nosotros,
lia opinan que la SED debe seguir administrando, claro. Hay cosas de la vida tradicional que ya no
porque no se sienten capaces, no están prepara- se pueden asumir, no todo puede ser bueno;
dos para administrar un proceso, pero en el mo- con eso quiero decir que la educación tiene que
mento en el que la comunidad decida y esté pre- ser intercultural de acuerdo a la necesidad de la
parada y ya tenga las condiciones y la suficiente zona. Es muy sencillo: tenemos que escoger qué
confianza para eso, vamos a manejar nuestro pro- queremos aprender de los blancos. Que no nos
pio sistema educativo con todo incluido. Entonces obliguen, que podamos escoger. Pensando en lo
las condiciones están dadas porque el proyecto es nuestro, lo más importante de la vida indígena es
un cuerpo dinámico que debe ir constantemente no perder la identidad, la lengua, lo más básico
abonándose con los requerimientos y los intere- del conocimiento de los Rezos, porque con esos
ses de la comunidad educativa. vivimos… si un día se pierde esto, si un día lle-
gamos a perder a nuestros sabedores, totalmen-
N: Belarmino, ustedes en este momento están te se puede acabar toda la gente. De acuerdo
trabajando en un proceso para la construcción al conocimiento nuestro, cuando nace un niño
de un Plan de Vida para las comunidades que simplemente los sabedores lo bendicen dicien-
conforman Aatizot. ¿Usted cree que una de las do: “llego otro pariente de nosotros, es hermano
proyecciones dentro de ese Plan de Vida será nuestro, de los seres de la noche, de los seres del
asumir autónomamente la administración de día, hermano de todos los seres de la naturaleza”,
la educación en su zona? ¿Cree que es posible? por eso hay que conocer el territorio y valorarlo,
¿Les interesa como organización el empo- no dejarlo explotar.
deramiento en este sentido? O prefieren que
definitivamente sea la SED la que administre la N: El modelo occidental de desarrollo tiene
educación de ustedes? pautas de intervención muy depredadoras. La
BV: Si. En el proceso todos estamos iniciando, producción está enfocada en alcanzar una eco-
primero no contábamos con los planes de vida, nomía muy sólida (para unos cuantos), pero

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eso muchas veces va en contra de los recursos bastante importante, ya van en una etapa avan-
de la naturaleza y del medio ambiente. zada. Se destaca el proceso de investigación a
BV: Sin embargo, ahora contamos con entida- partir del contexto que aborda de una manera
des de apoyo, que sí están a favor de nosotros, de muy eficaz el conocimiento de lo propio, de su
que no destruyamos, que no acabemos el medio entorno, de la vida de su pasado, de su presente
ambiente. Pero como las multinacionales tienen y concientiza a los estudiantes de lo que pue-
mucha plata y quieren más, piensan acabar de da suceder en un futuro. De la misma manera
una. Los de Gaia, los de la Secretaria de Salud, ha- otras cosas que vemos como un aporte y una
blan de que hay que proteger el ambiente, los de fortaleza, para lo que nosotros pretendemos en
la educación también hablan de eso mismo, que la educación en la zona, es el hecho de que la
hay que cuidar el medio ambiente, en cambio los Escuela Tuyuka ya ha avanzado en la escritura de
políticos solo quieren es la explotación. La natura- la lengua tuyuka y esto es un referente, quiero
leza para ellos no vale nada, pero nosotros ahora decir que no estamos empezando de cero. De
también tenemos una organización, el derecho a hecho ya unos estudiantes de esta zonal que
tomar decisiones sobre nuestro territorio, pode- han ido allá, ya escriben en lengua. Entonces lo
mos definir políticas claras frente a eso. que tenemos que hacer es simplemente definir
nuestro propio sistema de escritura y concertar
N: Muy bien Belarmino, gracias. Profesor con los hermanos tuyuka de Brasil para que no
Plinio, para terminar… me comentaba usted haya grandes diferencias en los alfabetos y todos
anteriormente que están realizando inter- nos podamos comprender aunque haya peque-
cambios de trabajo con los compañeros de las ñas diferencias entre el habla tuyuka de ese sec-
escuelas diferenciadas de Brasil, aquí del tor río abajo y el habla de esta zona del Tiquié.
río Tiquié… Estas son las experiencias que se van tomando
PR: Sí, hemos establecido un contacto con como fortalezas dentro de lo que se busca y ha
la escuela Tuyuka Utapinopona de San Pedro, sido como lo más constructivo. Igualmente nos
Brasil. Eso nació como una inquietud entre do- ha permitido hacer un diagnostico real de cuál
centes de allá de San Pedro y docentes de aquí es el nivel de conocimiento cultural de los jó-
del colegio de Trinidad. Inicialmente fue algo venes, porque nosotros, los profesores actuales
informal, pero a mí me pareció muy importante del Colegio de Trinidad, no pertenecemos a los
y decidimos suscribir un convenio entre las dos grupos étnicos de la zona, no poseemos ningún
instituciones basados en el acuerdo de Yavara- conocimiento tradicional y simplemente nos
té (de 2008 o 2007 no me acuerdo bien) y en convertimos en animadores y promotores de
ese orden de ideas decidimos que anualmente la actividad de los estudiantes. Ellos, por propia
realizaríamos un intercambio pedagógico edu- iniciativa, participan de actividades culturales
cativo cultural de docentes y estudiantes. Es así como tocar carrizo y otras danzas de corte re-
como hemos iniciado un proceso de intercam- creativo bajo la orientación de sus padres o de
bio de experiencias educativas pedagógicas y viejos sabedores en otras, danzas mucho más
culturales donde cada institución da a conocer serias. Entonces los padres también se vinculan
las experiencias que viene desarrollando, y debo a las actividades, esto es una muestra clara de
reconocer que han sido más las cosas que he- que ellos, los viejos, sueñan con eso, buscan eso
mos aprendido de los amigos de Brasil que lo en el proceso educativo; y nos han apoyado en
qué hemos aportado nosotros, como novedoso el sentido de que se involucran incondicional-
y pertinente. La Escuela Tuyuka de San Pedro mente para que sus hijos actúen en una danza
ha adelantado un proceso de educación propia tradicional. Hemos tenido dos experiencias de

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estudiantes que danzan, no es algo deportivo, gelizador se vivieron unas épocas bastantes cri-
simplemente cumplen con compromisos an- ticas como las bonanzas de todas las épocas que
cestrales, su entrenamiento, su ensayo está en han pasado por el Vaupés (caucho, pieles, coca,
la danza con el Yuruparí, en el yagé; y esos pro- etc.) y además una influencia muy marcada del
cesos ya los tienen los muchachos; hay muchos Instituto Lingüístico de Verano (ILV), entonces
jóvenes que ya manejan eso, que tienen ese co- todos esos factores han incidido en que no haya
nocimiento cultural en cuanto a danzas y hay un mucho interés en esto y ha habido dificultades.
significativo número de niños que tocan un ins- Yo estoy seguro de que seguirán presentándose
trumento musical. Lo que es la cultura de la dan- dificultades porque si yo quiero regresar a mi re-
za, del carrizo, son cosas que hemos podido evi- gión a mi zona y pretendiera hablar, ya hablaría
denciar a través de esos encuentros; esto nos ha de fortalecimiento y afianzamiento cultural, si no
servido para ir, poco a poco, incentivando a los de recuperación cultural pero ¿A través de quién
estudiantes frente a lo que puede ser ese ideal me orientaría? ¿Quién me fundamentaría en lo
de educación pertinente dentro del grupo indí- propio? ¿Quién me diría esto es lo nuestro? Esto
gena. Este es el fin de intercambiar experiencias: es lo que pretendemos?, y eso sumado a que es-
ir motivando a los estudiantes en lo que es de tamos tan débiles e incipientes en la práctica de
ellos, en lo propio, en la esencia, para que ellos la cultura propia en mi zona de Acaricuara y la
cada día se interesen más y se identifiquen más zona del bajo Papurí donde habitan Tukanos que
con lo que es de ellos. Esta ha sido la esencia de desconocen directamente a los Piratapuyo y a
los encuentros que hemos tenido con la escuela los Desano porque son ya una minoría que está
tuyuka de San Pedro. en la comunidad de Teresita y Winambi. Esta es
la triste realidad de mi grupo étnico de mi zona;
N: Profesor, ¿conoce usted cómo va el proceso es triste decirlo pero es la realidad, yo veo eso
de construcción del nuevo modelo etnoeduca- desde la distancia.
tivo en la zona de Acaricuara de donde usted De todas maneras estoy muy satisfecho de es-
proviene? ¿No le gustaría estar participando tar aquí, simplemente soy un pasajero más de este
también de ese proceso? proceso educativo, mientras esté aquí pienso ha-
PR: Si me gustaría, pero lo que yo tengo en- cerlo con todo lo que exige un compromiso. He
tendido es que no va muy bien. Es una de las aprendido a conocer la historia y la esencia indí-
zonas que va como más atrasada, no ha habido gena aunque no de mi etnia, pero he aprendido a