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A RENÚNCIA DO PAPA
na visão de um Pensador
Medieval

José Antônio de C. R. de Souza

2000

www.lusosofia.net

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Texto publicado em Teocomunicação.
Revista Quadrimestral de Teologia da
PUCRS, no128 (2000), pp. 303–364

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Covilh, 2010

F ICHA T ÉCNICA
Título: A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval:
Pedro de João Olivi o. Min. (1248-98)
Autor: José Antônio de C. R. de Souza
Colecção: Artigos L USO S OFIA
Design da Capa: Antônio Rodrigues Tomé
Composição & Paginação: José M. Silva Rosa
Universidade da Beira Interior
Covilhã, 2010

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non vero ut a quouspiam acceptetur”. 3 i i i i . Doutorando em Filosofia pela Universidade Nova de Lisboa. tivesse declarado que só deixaria a Sé Apostólica depois de morto. temos visto os meios de comunicação insistir na possibilidade de João Paulo II vir a renunciar ao papado. embora. ao completar 75 anos no dia 18 de maio de 1995. 221: “Si contingat ut Romanus Pontifex renunciet. can. 2. 1 Codex Iuris Canonici Pii X Pontificis Maximi iussu digestus. Par- ticipante do Programa de Pós-graduação em Filosofia da PUC-RS. R. motivado por um tema da atualidade que respeita à es- fera do poder papal e do governo eclesiástico. Min. 332. Prof. Romae. “Si contingat ut Romanus Pontifex muneri suo renunciet. Entretanto. aparenta ser um tabu. II promulgatus. ad eiusdem renuntiationis validitatem non est nec- essaria Cardinalium aliorumve acceptatio”. inclusive em janeiro passado. de Souza∗ Nos últimos anos. Romae 1917. apesar de esse tema haver-se tornado recorrente neste final de século e de milênio. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval: Pedro de João Olivi o. ad valididatem requeritur ut renuntia- tio libere fiet et rite manifestetur. conquanto se saiba o que dizem os últimos Códigos de Direito Canônico1 . Codex Iuris Canonici auctoritate Ioannis Pauli PP. 1983. face ao agravamento do seu estado de saúde física. can. Benedicti Papae XV auctoritate promulgatus. resolvemos verificar ∗ Professor Titular aposentado da Universidade Federal de Goiás. (1248-98) José Antônio de C. Por isso.

Pietro di Giovanni Olivi – Scriti scelti – Roma. Liber de renuntia- tione papae. 513- 529.edu/. Louvain. Roma. t. Ao final de seu livro. Città nuova editrice. 277-298. o ônus e a honra (. movido por razões legítimas (.. em 13 de dezembro de 1294. L’ Atentat d’Agnani. 3 Cf. L. BURR. Nasceu em Serig- nan. i i i i 4 José Antônio de C. Levis de MIREPOIX. 155 (1994): 481-498. Ed. pp. “Pierre J. Olivi e la povertà francescana. Entre outras con- tribuições. Paolo VIAN “Pietro di Giovanni Olivi Scritti Scelti.lusosofia. na Provença. Ainda sobre a produção intelectual de Olivi. primeiramente decretou que tal ato era perfeitamente legal. R. Celestino V papa. de SOUZA. “Pietro di Giovanni Olivi di fronte alla rinuncia di Celestino V”. II. esse estudioso arrola a bibliografia oliviana produzida entre 1968-89. “A eleição de Celestino V em 1294 e a crise da Igreja no final do século XIII”. BISIME 99 (1993): 117-157. P. 1695. www. HOFFMANS. arrola a bibliografia oliviana produzida entre 1989-99. lista as fontes e os estudos publicados entre 1885-1967. Em 1260 in- 2 Nessa altura. em 1248. Pedro de Auvergne. Collectanea Franciscana. 1992. 1969: 143. próximo de Béziers. t.. Bibliotheca maxima pontificia. Milano. R. também escreveram sobre o mesmo problema Godofredo de Fontaines. pp. 38 (1968): 167-195.hist. acompanhada de uma preciosa seleção de fontes traduzidas para o italiano e precedidas de uma intro- dução geral e de uma específica referente a cada conjunto. depois.) espontânea e livremente deixo o papado e renuncio o cargo. Etudes Franciscaines 45 (1933): 129-153. Gallimard. ROCCABERTI. Antônio de C. a saber: a efetuada por Celestino V. Romae. cujos títulos chegam a mais de 50. Les philosophes belges. sa doctrine”. VIAN. Paris.net i i i i .)3 . Este professor da Universidade de Virginia (USA) tem uma página na in- ternet consagrada a Olivi.vt. 1989. ed. Olivi. 1932. e. Sobre este assunto. Egídio Romano OSA. face à rebelião dos cardeais Colonna. cujo site é http://d. 1989. Servus GIEBEN “Bibliographia oliviana”. invocando a plenitudo potestattis. cf. num total de 5. cf. sa vie. de Souza como tal assunto foi compreendido pelo primeiro2 autor medieval que o considerou. Esse pensador foi Pedro de João Olivi4 . o qual. Veritas. a dignidade. e pouco depois.. num contexto mais complicado ainda. cfr o meticuloso estudo histórico de Alberto FORNI. também J. Biblioteca Francescana. D. cf. “Les Quodlibets XI et XII de Godefroid de [305] Fontaines”. em 1297. JARROUX OFM. 1-64. 95-99. Cf. col. 5. tomou aquela decisão declarando “Eu. J.. face à única renúncia [304] pontifícia oficial de que se tem conhecimento. 4 Sobre a agitada trajetória de Olivi.burr.

op.lusosofia. igualmente. exis- tiam também. se entre a maioria dos frades que dirigiam as províncias e ensinavam nas Universi- dades (João Peckham) havia a tendência de aceitar a evolução da Ordem e sua adaptação às exigências históricas concretas e. Henrique de Susa. em 1278. no interior da Ordem. as- sim. ao citar não apenas as Escrituras.. e as decretais dos Pontífices Romanos. grupos esses que in- fluenciavam negativamente o conjunto. os autores con- temporâneos como Tomás de Aquino. 11-13. cit. Com efeito. Boaventura. Desde essa altura até o ano de 1273.. Pseudo Dionísio. Jerônimo. Bernardo de Parma. João Peckham. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. os Padres da Igreja (Agostinho. quase havia desaparecido por completo. Aristóteles. Jerônimo de Ascoli (19-05-1274-20-05-1279) ordenou-lhe queimar uma Quaes- tio que havia escrito sobre a Virgem Maria porque nesse texto a enaltecera excessivamente. O exame. p. Olivi regressou à sua província incumbido de ensinar os seus confrades. Pouco depois. um número considerável de frades acomodados e. ainda que superficial de um texto qualquer do Frade provençal revela sua erudição. 5 gressou na Ordem dos Menores no convento de Béziers. um outro não pequeno. E. entre os quais Guilherme de la Mare. como ocorreu durante o generalato de Boaventura de Bagnoregio. João Peckham e Mateus de Acquasparta. BETTONI OFM.net i i i i . o Ostiense (card. há pouco referido. tendo escrito alguns textos sobre esse assunto. quando foi ordenado sacerdote. Gregório Magno. Estudou filosofia e teologia na Universidade de Paris. o Ministro-geral. tendo tido como pro- fessores renomados mestres da Ordem. como é natural entre os seres humanos. Bernardo de Claraval. O religioso prontamente acatou a or- dem do superior. as Glosas. notabilizou-se por ter sido paralelamente um aluno brilhante5 e ardoroso defensor da estrita observância da po- breza franciscana. de religiosos negligentes e relapsos.. mas também o Decre- tum de Graciano e seus principais comentadores Gofredo de Trani. cujo idealismo. [305] justa- mente na ocasião em que o aristotelismo averroista alcançava seu maior prestígio. falecido em 1271). 5 Cf. www. acolher as interpretações à Regra feitas pelos papas.

entre os quais. a comissão apresentou ao Geral o resultado de seu trabalho. Archivum Franciscanum Historicum –AFH . Olivi continuou ensinando e escrevendo. No ano seguinte. Depois. R. censurou e con- denou uma série de proposições eivadas no aristotelismo averroista que grassava na Universidade.26 (1933): 127- 140. chegou à direção da Ordem um texto em que Olivi era acusado de professar doutrinas filosó- fica e teológicas dissonantes dos ensinamentos de seus confrades. futuro Bonifácio VIII (1294–1303). Tomás. 7 Trata-se do famoso Correctorium fratris Thomae. www. lavrado no documento intitulado 6 [306] Idem. i i i i 6 José Antônio de C. o Geral ordenou que uma comissão consti- tuída por sete frades. as quais foram catalogadas em 34 proposições extraídas ad litteram de seus escritos. 1279.14. através do Ministro geral. em 1277 o bispo Estêvão Tempier de Paris. de Souza No ano seguinte. entre as quais. algumas atribuídas a Sto. da comissão pontifícia incumbida de estudar e emitir parecer conclu- sivo. pro- mulgada por Nicolau III em 14 de setembro de 12796 . O capítulo geral dos Menores. determinou que os ministros provinciais fiscalizassem o ensino e a produção int- electual de seus súditos8 . Nessa altura. FUSSENGER OFM.net i i i i . participou junto com o canonista Bened- ito Caetani. 8 G. Outrossim. o qual resultou na bula Exiit qui seminat. contaminando-se com as novidades que estavam sendo ob- jeto de controvérsia na Universidade. realizado em Estrasburgo em 1282.lusosofia. Depois de alguns meses de trabalho. acerca da interpretação do significado da pó [306] breza na Regra franciscana. Arloto da Prato. e outros frades. “Definitiones Capituli Generalis Argentinae cele- brati anno 1282”. Nesse meio tempo. Ricardo de Midlletown e João de Murrovalle examinasse as mencionadas proposições. Bonagrazia de São João (1279– 83) incumbiu frei Guilherme de la Mare de escrever uma espécie de roteiro7 para os professores e pesquisadores franciscanos a fim de que estes não se afastassem do caminho intelectual que a Ordem seguia. ibidem.

escreveu-lhes uma carta11 em que os criticava não só pelo pouco cuidado que tinham tido ao examinar os seus es- critos. 365-389. absolutamente não concordava com as opiniões de seus censores. Ainda recomendavam que Olivi renun- ciasse publicamente àquelas teses e que seus escritos fossem reti- rados de circulação. D. passíveis sempre de debate. declarar se concordava ou não com o mesmo.lusosofia. no começo de 1285. t. AFH 47 (1954): 51-53. mas no tocante às outras. fazendo uma enorme confusão entre as idéias que havia ex- posto. ALKG. “Fr. III. 29 (1936): 98-141. ordenando que Olivi fosse ao convento de Avinhão para ouvir a leitura do primeiro documento e. e juntou-lhe um texto12 em que fazia uma distinção entre as teses filosóficas e teológicas que pro- fessava. p. Igualmente redi [307] giram um outro doc- umento intitulado Rotulus contendo 34 proposições suspeitas de heresia e o fizeram circular pelos conventos da Provença. www. 9 G. mas também pela falta de honestidade e legitimidade quanto à maneira que haviam procedido.net i i i i . 7 Littera de septem sigillis9 . redargüindo-as e justificando um a um seus pontos de vista. Petri Iohannis Olivi Tria Scripta sui ipsius apologetica”. O Ministro acolheu apenas parte das sugestões.. pág. op. como se fossem “custodi dell’ortodossia dottrinale e in questa veste si er- ano arrogati il diritto e l’autorita di mettere in guardia i confratelli contro gli errori e le periculose novità dell’ Olivi. 17. 418. como não obteve autorização para tanto. em Nîmes. BETTONI OFM. em seguida. aceitava muitas das censuras que lhe imputavam. 10 [307] E.”10 . FUSSENGER OFM.. O Frade provençal em sua autobiografia diz que pediu ao seu ministro provincial licença para ir a Paris encontrar-se pessoal- mente com a comissão e discutir com eles os pontos controversos. 11 Cf. Com referência às primeiras. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. AFH 28 (1935): 126-155.. Todavia. em que arrolavam 22 proposições que foram julgadas suspeitas. 374-407. LABERGE OFM. 12 Cf.. cit.

i i i i 8 José Antônio de C. 128. cit. um dos 7 mencionados censores. cidade que era um outro reduto dos Espirituais. reunidos no capítulo de Milão. O novo ministro geral. e defensor de seu antigo mestre. devido ao falecimento repentino do Geral. conhecia muito bem o pensamento de seu aluno. antigo professor de Olivi. 14 Cf. o resultado da polêmica com seus censores. “Acta Capituli Generalis Mediolani celebrati anno 1285”. op. Mi- lano: Vita e Pensiero. Arloto da Prato. obrigou os dirigentes da Ordem. Gian Luca Potestà Storia ed Escatologia in Ubertino da Casale. Todavia. Mateus de Acquasparta. eleito no capí- tulo de Montpellier (1287). 262-279. os quais. FALBEL. ao que parece. a decisão sobre a matéria13 . AFH (1929): 289. N. p. 1980. Ricardo de Middletown e João de Murrovale. de Souza Apesar de Olivi já não ser bem visto pelos frades acomodados. Frei Arloto finalmente autorizou que Olivi fosse a Paris explicar- se perante ele e os outros Doutores em Teologia. mas ainda o nomeou leitor de teologia para o studium de Santa Cruz em Florença. o que efetivamente incomodava o partido da Comunidade eram as duras críticas que ele continuava a fazer contra os abusos perpetra- dos contra prática da pobreza14 . o estudioso arrola as fontes e a bibliografia relacionadas com o objeto de sua investigação. mais tarde. CALLEBAUT OFM. deram-se por satisfeitos com os esclarecimentos que ele prestou. Por isso. Olivi aí ensinou entre 1287-89 e teve entre seus alunos Ubertino de Casale15 . pelos negligentes e relapsos face à sua atitude e pensamento sobre a vivência da pobreza. em 1286. famoso líder dos Espirituais da Toscana. 128. e ainda estava a par de que por trás da cortina acerca de suas idéias filosófico-teológicas. www.net i i i i . a decisão oficial sobre o assunto foi novamente postergada. p. 15 Cfr.. em 1285. Mateus não só o eximiu de qualquer suspeita de heterodoxia. R. Ao final do livro. nomeadamente. e remeter ao novo Geral. face às novas acusações que os rep- 13 [308] A. a examinar o [308] problema suscitado com mais cuidado. bem como por um grupo de professores que o consideravam muito independente.lusosofia.

net i i i i . consoante o que já havia escrito antes. cen- surando tanto os radicalismos de certos Espirituais e Beguinos. os problemas persistiam. simpático à causa dos Espirituais. ter permitido que 16 [309] Assim eram designados os terciários leigos da Provença. tamanha era a agitação na Provença que. mas sem sucesso. na Toscana e na Marca de Ancona. antigo monge cenobita. igualmente com o propósito de fazer com que ele.lusosofia. Papa sob o nome de Nicolau IV (15-02-1288-04-04-1292). conseguisse refreá-los em vista de seu exacerbado rigorismo e das duras críticas que faziam às lid- eranças da Igreja. pouco depois. talvez. em 28 de [309] maio de 1289. fato esse que levou os Menores a reunirem-se em Capítulo. Francisco. a ponto de o papa Celestino V (eleito em julho de 1294). que estavam ao redor dos frades. A eleição recaiu sobre Raimundo Gaufridi. e à Ordem. na Sicília. www. pois. o que levou alguns frades deste mencionado grupo a julgar que ele os estava traindo.. e junto dos Beguinos16 . que no entender deles. em 1290. por causa de sua sanha por poder e riquezas. 9 resentantes da Comunidade tornaram a fazer-lhe à altura do Con- cílio de Vienne (1310–12). havia se afastado completamente do espírito de S. por seu confrade Jerônimo de Ascoli.. outro importante centro de estudos da Ordem. graças ao prestígio e a popularidade de que gozava entre todos os membros daquele partido. quanto os abusos que continuavam a ser cometidos contra a Re- gra. o qual trans- feriu Olivi para o convento de Montpellier. Nicolau IV dirigiu uma carta ao Geral mandando que corrigisse energicamente os Espirituais mais extremistas. porquanto no capítulo geral de Paris. em 1292. A situação no interior da Ordem também era tensa em Aragão. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. Olivi compareceu a esse Capítulo e expressou o que pensava a respeito do assunto. Entretanto. fun- dador dos Eremitae Sancti Spiritus de Magella. o que foi feito. Mateus de Acquasparta foi elevado ao cardinalato. para escolher um novo Geral. Parece que o intento de Gaufridi fra- cassou.

R. de Souza os Espirituais dessa última região. escreveu uma outra carta endereçada aos filhos do rei Carlos II de Anju. op. Durante esse tempo. em Brignoles. Entretanto. OLIGER OFM. primeiramente. em 19 de agosto de 1297. p. Ante essa resposta. Frade Menor. em 29 de outubro de 1295. O primeiro deles é uma Epistola20 di- 17 N.A. Olivi continuou exercendo o magistério no studium de Nar- bona. Francisco. de teor ascético e escatológico. liderados por Pedro de Macerata e Angelo Clareno ingressassem na Ordem que ele havia fundado. FALBEL. e canonizado por João XXII em 1317. Celestino V renunciou ao papado18 .. ofereceu o bispado de Pádua a Raimundo Gaufridi.. não mais foi molestado por seus adversários. 20 Ed. mesmo tendo sido elevado ao cardinalato em 1302. em 18 de maio de 1295. temeroso de que isso viesse a ocorrer. Cap. João de Murrovale19 . particularmente 481-486. “Quelques pages d’ Histoire Franciscaine. e. em dezem- bro de 1294. articulando para que em seu lugar viesse a ser eleito no próximo capítulo de Pentecostes (14 de maio de 1296).R. cit. Roberto. ciente da querela que agitava os franciscanos resolveu pôr um cobro na mesma. art. o qual agrade- ceu humildemente. rei de Nápoles. 18 Cfr. cit.net i i i i . L. www. bispo de Tolosa. a fim de poderem efetivamente viver o seu ideal17 . falecido em 1343 e Raimundo Berengário. 114. Mas.lusosofia. Etudes Franciscaines 17 (1907): 155. Provença. o depôs. mais tarde. um dos antigos censores de Olivi. quando foi escolhido um novo Geral. falecido aos 23 anos. i i i i 10 José Antônio de C. Luís. eleito em 24 de dezembro daquele mesmo ano. que. como outros tantos escritos. de SOUZA. referidos. de C. ainda escreveu três textos que merecem nossa atenção por seu teor. sem ter resolvido a contenda entre os filhos de S. Bonifácio VIII. até sua morte em março de 1298. AFH 11(1918): 366-373. o pontífice retrucou dizendo-lhe que o considerava muito menos apto para dirigir uma Ordem tão grande. J. [310] O novo papa. permaneceu no cargo até maio de 1304. Assim. Pouco antes. aplicando o antigo e sábio jargão eclesiástico: promoveatur ut amoveatur. em seguida. em seguida. adiante. famosa e importante como a dos Menores. 19 René de NANTES OFM. dizendo que era incapaz de governar uma dio- cese.

à véspera de sua morte. 24 Cf.. 23 Ed. intitulada Peter John Olivi: Prophet of the Year 2000. Etudes Franciscaines 17 (1907): 160-162. Esse estudo ainda é um dos melhores sobre a referida obra do Menorita provençal.. David BURR. porém. Roma. Não estamos a par de que este texto oliviano já tenha sido publicado. igualmente disponível na Internet. escreveu uma professio fidei25 em que reiterou as teses que sempre defendera durante toda a sua vida a respeito do sig- nificado da pobreza franciscana e de seu corolário. hoje. 142-144. mimeografado na tese de doutoramento de W. p. L.) santo. 25 Cfr. finalmente. René de NANTES OFM Cap. cit. “(.. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. p.lusosofia.net i i i i . Encontra-se. na supra mencionada página do Prof. iremos analisar. Em 1297 escreveu a Postilla super Apocalyp- sim24 . 11 rigida a seu confrade amigo e líder espiritual. o usus pauper 21 Alberto FORNI. LEWIS. Esse texto está. 1955. “Quelques pages d’ Histoire Franciscaine. quanto por julgarem que Gregório IX e Nicolau III e outros pontífices não tinham o direito de interpretar a Regra bulada de 122322 . fatos esses que os levaram a abandonar a Ordem. Cf. Conrado de Offida. tanto por considerarem ilegítima a renuncia de Celestino V e sua [311] substituição por Bonifácio VIII. erede spirituale di Frate Leone. JARROUX OFM. protagonista di alcuni luoghi dei Fioretti. www. delle testimonianze orali dei primi compagi di Francesco (. La Lectura super Apocalypsim di Pietro di Giovanni Olivi. cit. art. mais adi- ante... Studi sull’ escatologismo medioevale.)”21 .. Trata-se respectivamente das bulas Quo elongati (1230) e Exiit qui seminat. também a tradução. 1972. OLIGER OFM. AFH 11(1918): 340-366. Tübingen. em que censurou duramente o radicalismo de um bom número de Espiritu- ais italianos da Marca de Ancona. 22 [311] Ibidem: 370. L. Raul MANSELLI. depoistario dei secreta ordinis. escreveu uma Quaes- tio intitulada De renuntiatione papae23 sobre o tema que. art. austero.. Outrossim. sua obra de Teologia da Historia e. 140. Nesse Carta ele também refutou os argumentos que tais frades alegavam em favor de seus pontos de vista.

BETTONI OFM. cit. 26 Todavia. colega. art. as idéias do Doutor Especulativo contidas na Postilla foram re- tomadas27 e ampliadas e reinterpretadas pelos Espirituais e Be- guinos da Provença.) L’ età dello spirito e la fine dei tempi in Giocchino da Fiore e nel giochimismo medioevlae.. 30 Quanto a este aspecto. 24-25.. há que considerar que.FALBEL. ao terem identificado o papa Bonifácio VIII com o Anticristo místico. Roma/Vicenza. 30 Por isso. S. seus adversários insistindo que ele era o princi- pal mentor intelectual dos Espirituais e dos Beguinos. www. 28 Ângelo Clareno. em 1299.. escreveu uma história da Ordem franciscana. pág. BURR. 27 A.)in the way he [Olivi] reads the current Franciscan usus pauper dispute into coming persecution of Antichrist. op. A propósito. N. 122: “(.. Olivi não teve sossego nem depois de morto. embora reputemo-lo introdutório. 1986. Teve o bem- aventurado João Duns Escoto (1266– 1308) como aluno. conseguiram que o Geral João de Murrovale condenasse seus escritos à fogueira. intitulada Chron- icon ou Historia septem tribulationum Ordinis Minorum. de Gabriella SCALISI intitulado L’ Idea di Chiesa negli Spirituali e nei Fraticelli...)”. 1958–59. Giovanni in Fiore. LIEF. e depois. e o que pensava também daqueles frades que abertamente transgrediam a Regra menorita. and his remarcable openness to the possibility that the persecution will be led by the pope himself (. nota D. i i i i 12 José Antônio de C. R. por exemplo. Frei Gonçalo era natural da Galiza. inspirando-se na Postilla de Olivi. a quem. não demorou muito tempo. Havia sido professor em Paris. Primeira- mente. da Toscana28 e da Marca de Ancona. CROCCO (Org. 1973. 131-132. de Souza dos bens materiais. e [312] em seus escritos assumiram conotações heréticas29 . op.net i i i i . em que a [312] divide em sete períodos. sob a ótica dos Espirituais. cit. pelo fato de as terem transposto para o plano concreto dos acontecimentos históri- cos. p. 29 Cf. publicada por Alberto GHINATO OFM. 31 26 Cfr.. o interessante estudo. cit. em 1308 nomeou leitor em Colônia. e proibisse a leitura dos mesmos. Pontificio Ate- neo Antonianum. por exemplo. Roma. determinação essa que foi reno- vada durante o durante o generalato de Gonçalo Gomes Chariño (16-04-1304-13-04-1313). antes de ser elevado ao generalato. 31 E. p.lusosofia.

como entre 1315-17. N. FALBEL. 13 Depois. Cf. BF V. ibidem BF V. The Franciscan Institute. através de três bulas promulgadas em 1317-1833 . Alem disso. Mas. Francis- can Poverty. p. e a Gloriosam Ecclesiam (23-01-1318).. 2 ed. na Provença. Tal estudo foi concluído no princípio de 1326. o Pontífice reservou para si o exame e a análise daquela obra sus- peita. No entanto. o conflito entre os frades tornou a recrudescer novamente. ocorrida entre 1310–12. ed. dado que eles o consider- avam como o próprio Grande Anticristo e a igreja de Avinhão. 33 [313] São a Quorundam exigit (07-10-1317). D. York. EUBEL. em 1319. Enfim. durante a magna disceptatio entre os representantes dos Espirituais e os da Comunidade. cit. 34 N. tentando resolver definitivamente o problema entre os dois mencionados grupos promulgou a bula Exivi de Paradiso 32 . foi condenada como 32 N. (Provença) sequer mencionaram o nome do frade provençal e Clemente V (05-06-1305-14-04-1314). 175. incumbiu uma comissão de oito teólogos de pro- ceder àquela tarefa. p. como a nova Babilônia referida no Apocalipse e na Postilla do Menorita Provençal. também M. FALBEL. particularmente este último era. 139–142. João XXII 1316/34 re- solveu definitiva e oficialmente condenar os Espirituais e os [313] Beguinos seus seguidores como hereges e cismáticos. da qual teriam derivado suas idéias eclesiológicas e sua Teologia da História. a Sancta Romana e Univer- salis Ecclesia (30-12-1317).. BISIME 70 (1958): 365-424. Saint Bonaventure.net i i i i . “Le polemiche sulla Lectura super Apocalipsim di Pietro di Giovanni Olivi fino alla sua condana”. LAMBERT. 1998. na ótica da Sé Pontifícia a fonte onde tinham bebido aqueles ensinamentos. Bonaventure University. cujos escritos e. p. se- gundo a mencionada comissão. naquele tempo a sede do Papado. www. estribados na sua concepção sobre o usus pau- per e a obrigação de os Menores observá-lo. cit. igualmente E. Essa bula foi promulgada durante a 3 a sessão conciliar. os padres conciliares reunidos em Vienne. St. Depois. 137-142. p. op. C. PÀSTOR. p.. Dela foram extraídos 60 erros.. op. 134-135. 232-237. em de 6 de maio de 1312. con- seguiram ressuscitar as suspeitas de heresia que os sete censores de Olivi haviam-lhe imputado. Cfr. no dia 8 de fevereiro daquele ano34 .lusosofia. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval..

cf. BISIME 125-126. so- mente hoje comece a ser corretamente avaliada (.TODESCHINI. que Olivi passou a merecer nova- mente a atenção dos estudiosos. acompanhada de uma preciosa seleção de fontes traduzidas para o italiano e precedidas de uma introdução geral e uma específicada referente a cada conjunto. sobre o seu método e a sua utilidade.. de restitutionibus (ed. de ascética e mística39 . Patristica et Medievalia. Roma. Brevis monitio ad amorem. www. “(. A maior parte dos manuscritos contendo os textos de Olivi foram queimados. 38 Quaestiones de perfectione evangelica. quando um bom número deles foi utilizado pelos representantes da Comunidade e apresentado a Clemente V para servir de peças acusatórias contra 35 Luís Alberto DE BONI. porque à altura do Concílio de Vienne.. num total de 107. Ainda sobre a produção intelectual de Olivi. uma quantidade enorme de textos [314] filosófi- cos36 . Super Isaiam. Super Matthaeum.) embora sua obra. de Souza herética e assaz perigosa. Remedia contra tentaiones spirituales. XIX (1998): 33.net i i i i . 1989. Summa quaestionum super Sententias. descobriu- se. porquanto. principal- mente os apologéticos. Para além dos escritos tradicionalmente conhecidos. Super Genesim e outros tantos. teológicos37 . 37 Entre estes enumeram-se Quaestiones textuales. e que já haviam sido impressos. seja por seus escritos e seu pensamento. De humilitate e ainda outros. 36 [314] Bastem citar as Quaestiones quodlibetales. em que expôs suas idéias acerca dos limites da Filosofia.. no entender do papa. Città nuova editrice. Expositio super Regulam et outros mais. 39 De 14 gradibus amoris gratiosi. por exemplo.. De oratione vocali. “O debate sobre a pobreza como problema político nos séculos XIII e XIV. De emptionibus et vendi- tionibus de usuris. 1980) e vários comentários a Sagrada Escritura e acerca de muitos de seus livros (Super Canticum canticorum. de espiritualidade franciscana38 . Tractatus de usu paupere. aí es- tavam os gérmenes das teses em que os frades radicais e extrema- dos haviam-se inspirado para atacar duramente a Igreja e romper com ela. Faz pouco mais de cem anos. seja por sua atuação como Menorita zeloso pela observância do usus pauper. Commentarius in IV libros Sententiarum. G. Roma.lusosofia. R.o De perlegendis philosophorum libris. i i i i 14 José Antônio de C. em grade parte inédita. Paolo VIAN “Pietro di Giovanni Olivi Scritti Scelti. num total de 5.)” 35 .

agora. ao nosso ver. discuti-lo. o Doutor Especulativo ao mesmo tempo em que refutou os preditos 12 argumentos dos adversários. e considerado. cit. passamos a analisar. está organizada em três partes.. Ed. 41 Cfr. como acima aludimos. até aquela época havia precipuamente sido tratado pelos canonistas. em especial do Novo Testamento. 366-367: “Primus autem error ipsorum est. de sua finalidade. apenas de passagem.. sendo. nec ipso vivente alter sibi substitui (. aspectos esses. estando vivo. 25. OLIGER OFM. Na primeira delas Olivi expôs 12 argumentos e seus fundamentos. op. não foram devolvidos àqueles frades. a mais importante em vista do pen- samento político. por isso. tema esse que. A Quaestio que. de suas competências na esfera eclesiástica e dos seus limites. fundamentais para a compreensão do objeto central do tema abordado no opús- culo. tre- chos das Escrituras.. L. não ire- mos. Todavia. BETTONI OFM.. o frade provençal analisou o poder pontifício tratando de sua origem. p. em primeiro lugar. Na 3a . depois. Epistula. Na 2a parte.)”. depois de Santo Tomás de Aquino (1226–74). de acordo com os quais seus oponentes contes- tavam a legalidade e a legitimidade quanto a um papa poder renun- ciar41 . o frade provençal foi o escritor mais fecundo e versátil. pelos teólogos ao comentar as Sentenças de Pedro Lombardo e algumas passagens sugestivas do Novo Testamento. depois. www. As fontes mais usadas na Quaestio são. passagens do Direito Canônico. aqui. especificamente.net i i i i . esclareceu e aprofun- dou suas reflexões acerca do poder pontifício. p.lusosofia. vir a ser substituído por um outro.. Mas o Doutor 40 E.40 Comparativamente. designado por Doctor Specula- tivus. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. tendo sido con- servados pela Sé Apostólica. na qual nos deparamos com os mesmos argumentos [315] citados na supra referida Epistula endereçada a Conrado de Offida. e. quod papa renuntiare non potuit neque potest officio et dignitate papali. julga-se que entre os autores da 2a metade do século XIII. 15 Olivi.

[316] O primeiro argumento que Olivi apresentou em favor das teses contrárias estriba-se no Direito Canônico e pode ser resum- ido nas seguintes idéias: a) graças à autoridade que recebeu de Cristo. “Pietro di Giovanni Olivi nella recente storiografia sul tema dell’ infalibilità pontificia”.J. cf. i i i i 16 José Antônio de C. 110-129. Milano. Michelle MACCARRONE.lusosofia. 1976. E. 309-324. apoiou-se direta e parcialmente num outro texto que tinha escrito alguns anos antes. Brian TIERNEY Origins of Papal Infallibility 1150-1350. cf. LECLERCQ. deve-se-lhe dar um auxiliar ou designar um administrador para a mesma. “Dottrine sulla Chiesa nella seconda parte del Medio Evo”. “Una questione inedita dell’Olivi sull’ infalibilità del papa”. c) caso um prelado adoeça grave e permanentemente ou seja incapaz de governar a sua igreja por algum outro motivo. www. Sobre a polêmica suscitada devido aos pontos de vista desse estudioso com referência a este opús- culo de Olivi. a fim de evitarmos cometer anacronismo. na Ética e na Política de Aristóteles. texto 325-343. Lei- den. igualmente. b) assim como Deus proíbe que o marido abandone sua esposa para unir-se a uma outra mulher e vice-versa. p. R. graças ao poder espiritual que recebeu 42 [315] Ed. In- trodução. págs. que esse matrimônio espiritual só pode ser dissolvido mediante o poder divino. que ninguém possui a autoridade divina para dissolver o próprio casamento.net i i i i . Brill. pp. Rivista di Storia della Chiesa in Italia 3 (1949). o qual preferimos intitulá-lo De inerra- bilitate papae42 . considerando que o vínculo matrimonial espiritual que há entre o papa e a Igreja não é menos adstrito do que aquele que há entre os demais prelados e suas respectivas igrejas. apenas o Pontífice Romano pode transferir e depor um bispo e aceitar a renúncia dum prelado. entre os antístites e as igrejas para as quais foram designados há um matrimônio espiritual que só pode ser dissolvido por Deus. A propósito deste texto e do tema que ele sugere. Ainda. especialmente. 1972. então. de Souza Especulativo também estribou-se no pensamentos filosófico de cariz neoplatônico e. 145-156. BISIME 99 (1994): 149-200. Marco BARTOLI. p. 297. um bispo não pode abandonar a igreja que lhe foi confiada e vice-versa. Logo. in Problemi di Storia della Chiesa. assim também. Vita e Pensiero. J. dado que.

. que secundum apostolum [2a Cor 11. respectivamente.)”. b) É mediante os poderes petrinos que o Pontífice Romano atua como elo de ligação entre o céu e a terra. 44 Portanto. 367: “Est autem eorum ratio. Sicut ergo virgo Maria tantum unum genuit filium et sponsum sic sancta ecclesia mistice potest tantum unum papam parere. 17 de Cristo. qui eius filius sit et sponsus (. 5. o que faculta- lhe. condenar-se a si própria e impor-se uma pena do mesmo modo como o pode fazer no tocante a todos os [317] réus. an eius renuntiationem accepetet. 369: “Si vero adhuc arguatur efficacius. c) toda pessoa que renúncia a um cargo deve apresentá-la ao seu superior. nisi soli Deo.net i i i i . não pode fazer isso. 2] est ut virgo in- corrupta Christo única desponsata. quia secundum apostolum [Ef. exemplificando-as com outros ca- sos pertinentes às esferas religiosa e político-judiciárias: a) nen- hum sacerdote ou bispo pode ministrar a si mesmo qualquer Sacra- mento. ainda que seja criminosa. p. ibidem.. nisi per signum miraculosum aut per revelationem indubitabilem hoc monstraret (. 43 O 2o e 3o argumentos fundamentam-se na mesma fonte e am- pliam as idéias acima referidas. 44 [317] Idem. cui renuntiet. transferi- 43 Idem. ibidem. ergo papa non potest renuntiare. pode julgar. e. Cristo concedeu a Pedro o poder espiritual. estabelecendo-o como chefe visível de sua Igreja. p. considerando que o papa não tem um superior na terra a quem possa apresentar a sua renúncia. quod scilicet papa non habet superiorem.)”. caso o faça.. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval.lusosofia. 16-19. Deu-lhe também o primado ou a liderança sobre os demais Apóstolos. as competências para confirmá-los. representada pela Igreja Romana. ninguém poderá legitimamente vir a substituí-lo. quam ar- guant predicti. www. de quo non claret. c) Igualmente é através do primado que o papa e a Igreja Romana estão à frente dos outros antístites. o Sumo Pontífice não pode dissolver em si mesmo esse matrimônio espiritual que o une à Igreja. Con- têm as seguintes idéias: a) Consoante o Evangelho de Mateus. O 4o e o 5o argumentos estão articulados entre si e são de na- tureza teológica.. então.. Tratam da causa eficiente do poder pontifício e de seu vínculo com a Igreja.32] sacramentum indivisibilis coniugii inter uxorem et virum est magnum in Christo et ecclesia. et a quo eius renuntiatio aprobetur seu recipiatur. b) nenhuma autoridade secular. 16..

Aliás. 6. como o atestam certos cânones. Ora. 20. Daí. ou que ele fosse julgado e destituído do papado por outrem. nem tampouco. o próprio Pontífice tem o direito de diminuí-lo ou anulá-lo. Cleto precederam-no à frente da Igreja Romana. julgá-los. dividi-las. i i i i 18 José Antônio de C. pois. no que concerne à remoção dum papa. Para mais. segundo os quais.net i i i i . R. sequer apoiam-se ou no Novo Testamento. tendo presente a causa eficiente do poder papal. Além disso. depois. Por isso. e de outro.lusosofia. tudo indica que as supramencionadas renúncia e nova eleição pontifícias são novidades sem precedentes na multissecular história da Igreja. em que o Apóstolo ordena aos cristãos [318] evitar toda novidade profana. Por isso. depô-los. Portanto. Fundamenta-se na 1a Carta de Paulo a Timóteo. fato esse que o levou a abrir mão daquela indicação. a única hipótese contemplada pelos cânones refere-se ao seu afastamento da sã doutrina. o Direito Canônico e outros textos demon- stram que Lino e. ou nos escritos dos Padres da Igreja ou no Dire- ito Canônico. de Souza los. de um lado. e também seria ilógico ou um absurdo pensar que Deus o criou para que viesse a ser destruído ou diminuído. especialmente. é igualmente óbvio que ninguém pode fazer isso. houve cismáticos que ex- erceram o Sumo Pontificado ou que houve papas verdadeiros que foram depostos. aqueles atos não poderem ser aceitos como válidos e legítimos. a Igreja recusou como novidade profana a escolha de Clemente como papa. O 6o argumento tem a mesma natureza que os anteriores e é o mais extenso de todos. e criá-las. pelas autoridades seculares. www. agrupá-las e transferi- las de um lugar para outro. efetu- ada pelo próprio Pedro. aquela fonte prova também que jamais a Igreja aceitou como válidas e legais ou a autodeposição papal. ainda que o Pontífice tivesse cometido uma heresia. não servem como provas à tese contrária. é evidente que apenas o Seu Autor pode privar o papa do mesmo. os fatos.

Dado que o sumo pontificado da Antiga Lei só era transferido de um sumo sacerdote para outro. apoiando-se em passagens do Êxodo. retomando a idéia de que a renúncia e a escolha dum novo papa. c) Há muito. embora breves. O 11o argumento é também de natureza teológica. assim também o sumo pontificado da Nova Aliança. 19 Os quatro argumentos apresentados a seguir. estando vivo o ante [319] ces- sor. Ora. não fizeram isso. o qual fundamenta-se num dado da Revelação. da Carta aos Hebreus e do Evangelho de João. inicialmente. A história e os cânones demonstram que as questões dúbias e controversas relativas à fé cristã foram primeira- mente discutidas por um Concílio Geral e. depois. cientes de tal prejuízo. Ademais. só pode ser transferido de um papa para outro. www. por ser mais perfeito que o outro. após a morte do antecessor. julgando-se incapazes de governar a Igreja e vendo outras pessoas mais competentes para tanto. b) se os Pontí- fices Romanos pudessem efetivamente renunciar ao papado a qual- quer momento que o desejassem. Entretanto. os cânones determinam como e por quem há de ser efetuada a eleição pontifícia. se a renúncia e a subsequente eleição papais fos- sem legais. de certo modo articulam-se com os precedentes e contêm as seguintes idéias: a) se fosse possível renunciar ao papado. poderiam fazer isso.net i i i i . muitos papas san- tos teriam feito isso. aqueles atos de- viam ter previamente sido examinados e definidos como perfeita- mente legais pelo Concílio Geral. já haveria textos canônicos sobre tais matérias.lusosofia. posto que havia uma dúvida a re- speito e nenhum cânone tratava dos mesmos. ainda que a sua renúncia fosse muito prejudicial à administração eclesiástica. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. Ora.. dos Números. estão rela- cionados com o supremo poder eclesiástico. a solução das mesmas foi confirmada pelo Sumo Pontífice. algo de suma relevância. acrescenta-lhe um outro dado teórico mais complexo. O argumento 10o . em seguida à morte do predecessor.. são inovações sem precedentes. e concernem ao governo da Igreja.

seja por causa ou do julgamento e da condenação de um pontífice por ter professado uma heresia. ou devido à renúncia papal. Ademais. de Souza O 12o argumento pressupõe o que foi mencionado antes e haure- se no precedente.lusosofia. ainda que um deles venha a aderir a uma heresia. o Doutor Especula- tivo rechaçou-os mostrando que. Com referência àquele celebrado entre um casal. Ora. Com referência ao 2o e 3o argumentos. esquecendo- www. ou face à usurpação do papado por alguém. R. quanto na instabilidade do governo eclesiástico. ao argumentar. o que. definida. aquela predita união está automaticamente dis- solvida. i i i i 20 José Antônio de C. ele tem competência para ou transferir ou de- por ou aceitar a renúncia de um bispo. graças à mesma au- toridade. pode tam- bém dissolver o vínculo que une-o à mesma. mantida e defendida”. o frade provençal desmantelou o raciocínio dos oponentes. se parecer-lhe igualmente proveitoso à Igreja. porém. é indiscutível que. quando um antístite pro- fessa uma heresia. No que concerne. Logo. os adversários re- stringiam seu discurso só às formalidades canônicas. posto que o papa recebeu de Cristo a autori- dade para governar toda a Igreja. em primeiro lugar. Quanto ao 1o . se esta autori- dade for freqüentemente transferida de um papa para outro. dizendo que faziam uma confusão entre os dois tipos de matrimônio que alegavam em favor de seu ponto de [320] vista. à união entre um determinado bispo e uma certa Igreja. se parecer-lhe proveitoso à mesma. acarretará tanto na impossibilidade de manter-se a unidade doutri- nal. uma vez con- sumado. há que considerar que não se trata dum sacramento. por via de conseqüência. Visto que a autoridade pontifícia tem um fun- damento divino. Na 3a parte da Quaestio Olivi refutou os supra 12 argumentos referidos.net i i i i . é verdade que ninguém pode separar os cônjuges. Além disso. é graças ao mesmo que a doutrina cristã é “in- terpretada. porque trata-se dum sacramento vinculado por um preceito proibitivo da parte de Deus. em todas esses casos haverá uma diminuição daquela autoridade.

tal pessoa podia fazer o que bem entendesse com o mesmo. a capacidade psicológica mais importante que o ser humano possui.. que é privado delas. Ademais. a saber: “um poder dado apenas por Deus. conforme acontece com os outros dignitários eclesiásticos. o Filho de Deus. o 4o e o 5o argumentos dos oponentes estão correlacionados e apoiam-se num fundamento de natureza teológica.. apenas aludindo às graças que imprimem um sinal indelével na alma. através da qual toma as decisões que lhe apraz ou convém-lhe. os cardeais. de modo que qualquer fiel ou um ministro eclesiástico pode batizar uma outra www. Sob outro aspecto. Logo. Refutando a primeira proposição alegada. as quais. por exemplo. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. tratando-se da autoridade papal. todos sabem que Jesus Cristo é sua causa eficiente. na hipótese da morte. que ele não tem um superior a quem deva apresentar a sua renúncia. ato contínuo. nesta vida.net i i i i . da liberdade. o Doctor Specula [321] tivus enveredou pelo mesmo caminho. Ora. quando este peca. são livremente dadas por Deus ao ser humano. do batismo e da ordem. ou da deposição ou da renúncia do papa. quanto qualquer pessoa pode abrir mão de quaisquer de seus direitos. Por isso. considerando o que estipulam os cânones. a mencionada proposição é verdadeira. ninguém duvida.lusosofia. isto é. ele afirmou que a mesma tem muitas acepções. no 2o também. uma delas pode aplicar-se às graças. por exemplo. os sacramentos. Entretanto. só por ele pode ser retirado”. eles também se esquecem de que o papa ocupa uma posição tão singular e exclusiva à frente da Igreja. ao concedê-las. Por isso. ao redargüí-los. os cardeais assumem o governo a Igreja em lugar de seu governante regular e esta não fica acéfala. esses im- pedimentos canônicos não se sustentam. em primeiro lugar. Portanto. fundamentalmente. 21 se de que o predito ato de renúncia depende. como das graças sacra- mentais. tanto o Pontífice Romano pode renunciar ao papado. Em segundo lugar. serve-se duma causa instru- mental ou secundária. entretanto. Como referimos antes. se Deus desse um presente qualquer a alguém. no 1o caso. em geral.

em que. o frade provençal apresentou-lhe três respostas. Igualmente possui o poder de trans- ferir a Sé Apostólica de um lugar para outro. Com respeito ao 5o argumento. administrar os seus negócios e julgar as questões mais importantes ou àquelas apresentadas à Sé Apostólica. Pedro o fez por duas vezes. no 3o caso. i i i i 22 José Antônio de C. enquanto capacidade político- jurídica para governar a Igreja. acontece. o qual passa a ser exercido pelos re- spectivos sucessores. e então. de acordo com o que ensina o Direito. porquanto o receberam em plenitude. sem ter sofrido qualquer espécie de alteração essencial. todo papa tem competência tanto para remover de si o sumo pontificado ou renunciar. porém. graças à autoridade divina que possui. legislar para a mesma. enquanto durará até ao final dos tempos. Segunda: posto que a renúncia pontifícia sempre deva www. ou em tal circun- stância ou quando ele morre. de fato. como. haurindo-se em Paulo. sendo a primeira é a seguinte: quando um rei ou um papa renunciam ao cargo que exercem. ou tal autoridade exercida por este ou aquele papa. e isso. Olivi afirmou que. R. enquanto cada papa a exerce. e igualmente ainda. é indiscutível que a autoridade papal é mais importante do que aquela que a Sé Romana detém. dado que têm o direito de fazer isso. em grau de recurso. a autoridade da Sé Apostólica é maior. mas somente os bispos têm a competência para ministrar o sacramento da ordem a um diácono. de Souza pessoa. apenas deixam de exercer o poder governativo que detinham. Em seguida.net i i i i . Considerada. ela restringe-se ao período de seu [322] pontificado. porquanto. não é um lugar que possui a supradita capacidade.lusosofia. Na primeira perspectiva. inicialmente o Menorita provençal afirmou que também é preciso fazer uma distinção entre a autori- dade pontifícia considerada em si. segundo o qual nenhum poder é estabelecido para sua autodestru- ição. aliás. os adversários sustentavam que o papa não podia ou anular ou diminuir a própria autoridade. Com referência ao princípio alegado pelos oponentes.

para não ser diminuído. ela é imperecível na pessoa dos papas. pois. cuja Cabeça é una. o que é ilógico pensar. a autori- dade pontifícia ou seria diminuída com alguma ou sem nenhuma compensação. pela mesma razão. e o corpus Ecclesiae reunindo todos os batizados. como se pudesse ao mesmo tempo possuir o sumo e o não- sumo poder. deixaria de ser sumo. é mais correto dizer que o poder papal permanece inalterado do que afirmar que ele foi de- struído por causa daquele ato. dado o exposto imediatamente atrás. 23 ocorrer por causa do bem comum. único e singu- lar. quando ele morre ou renuncia. Na segunda.net i i i i . isso acar- retaria numa enorme confusão para a Igreja.. e não o próprio Filho de Deus. antes. o poder papal teria que ser igualmente compartilhado ao menos por dois ou mais papas. o menorita provençal rebateu-a apresentando duas respostas. um papa renunciando ao Papado permanecia como tal. deixando singularmente de ser possuída por este ou aquele papa. o que também se opõe à hierarquia celeste. dizendo que www. ou a autoridade pontifícia adequa-se à natureza mortal dos papas que a recebem.. se assemel- haria a um monstro disforme com várias cabeças. e estaria fazendo isso ao renunciar. isto é. ao afir- marem que o Sumo Pontífice não pode diminuir ou anular sua au- toridade. então. Enfim. estribado no que havia afirmado antes. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. A 3a resposta ainda requer mais uma consideração que Olivi apresentou-a sob a forma de um dilema de per si insolúvel: ou a autoridade papal é a mesma coisa que o poder divino. o poder papal estaria deficitário ou incompleto e. o Pontífice Romano é apenas o vigário de Cristo. o que é um absurdo cogitar. Olivi afirmou que o erro dos adversários respaldava-se no fato de pen- sarem que. Quanto à segunda. quanto à última prova alegada pelos adversários. pois. em que se espelha. Ademais. Na primeira hipótese. entretanto. No tocante à primeira. o Doutor Especulativo explicou mais o seu raciocínio. e então.lusosofia. aceito o raciocínio dos [323] oponentes. absolutamente não poderia ser considerado sumo e único.

algo é considerado como novo só na aparência.net i i i i . e em seu proveito. porém não- consagrado. R. ou aprovar uma nova congregação religiosa e sua Regra como o fizeram Inocên- cio III e seus sucessores no tocante à Ordem franciscana e sua Regra. da parte de um pontífice. tanto podia transferir um bispo eleito. eles não compreendiam que. i i i i 24 José Antônio de C. de Souza os oponentes de novo pensam e argumentam erroneamente ao não distinguir entre uma interrupção temporária do exercício do poder pontifício. mas já preexistia implicitamente no poder causal criador de Deus que age na natureza. quando este morre ou renun- cia. inicialmente. tinham de admitir também que jamais a Igreja poderia.g. só no que concerne à sua explicação. e uma definitiva anulação. a qual. imediatamente devem prover a eleição dum outro papa. Semelhantemente. os quais. quanto um prelado já consagrado de uma diocese para outra. aos cardeais que a representam. às vezes. Com efeito. por isso mesmo jamais deverá ser aceita pela Igreja. através da decre- tal Inter corporalia. ou es [324] clarecer um ponto obscuro da doutrina cristã e defini-lo.lusosofia. v. algo é tido na conta de novo. a Nova Lei dada por Cristo é assim designada porque veio a esclarecer a Lei Mosaica e a Lei Eterna. Em seguida. às vezes. No tocante ao 6o argumento. posto que. extinção ou desaparecimento do mesmo.. Aliás. ambos www. os oponentes de novo argumentavam erroneamente ao empregar o conceito novo de modo unívoco e. e. também foi aquele papa que explicou que. então. dadas aquelas preditas circunstâncias. Por isso. o poder político dos reis e dos pa- pas faculta-lhes promulgar novas leis virtualmente existentes em tal poder. graças à autoridade que possuía para administrar toda a Igreja. o poder pontifício reverte-se à Igreja. disse que é preciso saber que. sob essa perspectiva. Olivi esclareceu que uma novidade profana é aquela tida na conta de irreligiosa. fundamentadas nos Evangelhos. através de causas se- cundárias. Por outro lado. desde o momento das respectivas eleições.

aliás. Ademais. ainda que fosse o seu sufragâneo.. Olivi rebateu a última prova dos adversários. e esclarecer os cânones que suscitem dúvidas.net i i i i . na esfera eclesiástica. con- denar e depor ou absolver um outro prelado. Inocêncio III ter afirmado que uma inovação legal despropositada é aquela que é redundante e desnecessária. que sob o aspecto teórico a renúncia papal é perfeitamente legal e possível. concedida ex- pressamente pelo papa. v. ao não fazer uma distinção entre os atos de renúncia. aplico-a a si próprio. 25 tinham contraído um matrimônio espiritual com as igrejas para as quais haviam sido escolhidos. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. o de julgar-se na condição de confitente. todos os precedentes decretos pontifícios atestam clara- mente que os papas podem legislar sobre qualquer assunto de in- teresse eclesiástico. dizendo. como a entendem muitos juristas que de- www. desde que não decretem nada que se oponha à doutrina cristã. tratada naquela decretal. um arcebispo ter o direito de julgar. afir- mando que eles sofismavam acerca de Celestino V. pelo fato de que não se encontra explicitado nas leis. Com efeito.. Celestino V muito jul [325] gou- se incompetente para exercer o sumo pontificado.g. na esfera do direito. salvo aquilo que de per si é ilíc- ito a qualquer um fazer.. pois. foi baseando-se nisso que Celestino V.lusosofia. pôde introduzir uma lei sobre a renuncia papal. um pouco mais adiante. aliás. nunca se deve interpretar algo como sendo proibido. o de julgar-se como inapto para exercer o sumo pon- tificado. Por último. matéria. considerando a plenitudo potestatis num sentido literal. por causa de um delito grave que lhe era imputado. sem estar gozando da delegação de competência para tal. O frade provençal rebateu o 7o argumento. renunciando ao mesmo. primeira- mente. Ora. e em seguida. tais atos extrapolam o âmbito de sua autoridade. e o de julgar os demais fiéis exercendo aquele ofício. no mesmo cânon. impelido por um mo- tivo razoável. e que. Na verdade. Daí. após refletir muito.

Nessa perspectiva. se forem considerados de acordo com as finalidades para as quais foram estabelecidos. inclusive do próprio bem. entre os quais. pois. e. Assim. ainda que hereges. os cismas. cu- jos deveres de Supremo Pastor impõem-lhe guardar e [326] zelar acima de tudo. a instabilidade do regime. de acordo com esta visão. por força do sacramento da ordem que receberam. também afirmou o Doctor Speculativus convém evitar que ou a destituição ou a renúncia pontifícias tornem-se fatos cor- riqueiros.net i i i i . nesta perspectiva que Olivi julgava que o poder pa- pal deva ser exercido e.lusosofia. conforme as finalidades das missões eclesiais que desempenham. é inquestionável que todo Sumo Pontífice tem o direito de renunciar ao papado em qualquer mo- mento que deseje. então. os poderes inerentes ao sacramento da ordem são conferidos parcial ou plenamente aos sacerdotes e aos bispos e só podem ser legitimamente exercidos. R. a fim de que possam dispor de todos os meios para al- cançar a bem-aventurança eterna. comumente são desig- nados por poderes ordenados e tal ordenamento impõe-lhe certas restrições. do mesmo modo que muitos sacerdotes e prela- dos. Por isso. de Souza batem acerca de sua amplitude. distribuir-lhes os Sacramentos e ajudá-los a caminhar rumo à Pátria derradeira. ambos os poderes são considerados em termos absolutos. pois é evidente que isso causará um enorme dano ao gov- erno da Igreja. anunciar a Boa Nova aos fiéis. Entretanto. Igualmente também. i i i i 26 José Antônio de C. É. nomeadamente. tendo afirmado que só poderá fazê-lo caso tal ato fundamente-se numa necessidade e utilidade evidentes para a ad- ministração eclesiástica e redunde no bem comum dos fiéis. notamos clara- mente a influência da ética aristotélica aplicada à política. é o caso do poder pontifício que foi estabelecido com vista à boa adminis- tração geral dos assuntos eclesiásticos em função do proveito dos cristãos. é que ele tam- bém estava convicto de que um papa tinha o direito de renun- ciar ao papado. www. depostos de seus cargos e excomungados. aqui. podem ministrar os sacramentos aos fiéis.

Inocêncio III indicou em que circunstâncias o bispo pode renunciar ou vir a ser deposto. se cometer um grave escândalo. os quais. é sabido que as leis restringem o exercício do poder papal. tanto da parte dos fiéis que lhes devem respeito. for entendido como ilimi- tado. se estiver fisicamente in- capacitado. A 2a resposta diz respeito ao poder que os cardeais têm sobre essa matéria. o menosprezo aos novéis papas. título Sobre a renúncia. ao contrário do que pode ocorrer.net i i i i .lusosofia. entre o papa e a Igreja.. o frade provençal retrucou o argumento do adver- sário dizendo que na Carta aos Efésios. no tocante à renúncia episcopal. Olivi estava convencido de que a renúncia de [327] Celestino V havia sido efetuada perante os cardeais. tratando-se dum matrimônio espiritual entre um bispo e uma determinada igreja. por um lado. sua esposa. capítulo 5. A respeito do 9o argumento. se tiver sido previamente advertido pela Sé Apostólica de que cometeu uma falta grave. o Doutor Especulativo rechaçou- o como improcedente afirmando que todas as leis são e devem ser www. até mesmo. tais como a bigamia e a viuvez. Ao 8o argumento proposto pelos oponentes. se houver algum impedimento de sua parte. Olivi apresentou duas respostas. a saber: se o antístite cometer um crime. o papa poderia renunciar a qualquer momento que lhe aprouvesse. as quais podem muito bem ser aplicadas aos papas.. Entretanto. capítulo Nisi. e. e até mesmo. o fizeram. no Livro Ex- tra das Decretais. e que este jamais será dissolvido. Se este. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. assim. A primeira concerne novamente à plenitudo potes- tatis pontifícia. na condição de representantes da Igreja e de eleitores do papa tinham a competência para aceitá-la e. Por último. o Apóstolo havia dito que há um grande sacramento entre Cristo e a Igreja. se lhe faltarem a sabedoria e a discrição. que ele é incapaz de corrigi-lo. então. quanto de seus próprios eleitores que os considerarão inexperientes para exercer o sumo pontificado. se tamanha for a maldade do seu rebanho. 27 as disputas acirradas entre os virtuais candidatos à Sé Apostólica e seus partidários e.

sempiterno e espiritual é o mesmo possuído pelos ministros da Nova Aliança. Por isso. o papa legislou sobre este assunto. R. o sacerdó- cio de Jesus. apoiando-se em passagens bíblicas. conforme ensina a Carta aos Hebreus.lusosofia. posto que o sa [328] cramento que re- cebem. muito menos grupos com opiniões divergentes a respeito daqueles atos. inicialmente. que o pontificado da Nova Lei tinha de ser mais intransferível do que o foi o da Mosaica. aconteceu com os legisladores e juizes do povo de Is- rael. Olivi afirmou que as leis. em cujo inte- rior. outrora. de Souza promulgadas conforme as circunstâncias concretas o exigirem. Olivi recordou que não havia dúvida alguma quanto à renúncia de Celestino V e à subsequente eleição de Bonifácio VIII. embora. Acerca do 10o argumento. nem risco de cisma. continuassem a sua obra de salvação. Olivi refutou-os declarando que. Quanto ao 11o . www. Com referência ao que diziam os oponentes. não era o caso de se convocar um Concílio Geral para deliberara e legislar sobre os mesmos. através dos tempos. Em seguida. imagem prefigurada da sociedade cristã/Igreja. sempre contemplam os casos e as situações mais gerais. i i i i 28 José Antônio de C. é preciso que os legis- ladores e os juízes sejam sábios e saibam discerni-los muito bem. se este tivesse sido convocado com tais finalidades conferir-lhes-iam mais solenidade. a fim de evitar cometerem injustiças. As- sim. ao serem promulgados. baseando- se nos ensinamentos do direito. foi instituído pelo próprio Filho de Deus. No tocante aos casos singulares. os quais haviam sido suscitados pelos fautores de heresias. primeiramente. ele declarou que os primeiros Concílios foram pre- cipuamente convocados para discutir e definir pontos controversos relativos à fé cristã. cuja refutação pressupõe o que foi anterior- mente explanado ao rebater-se o 9o argumento. isto é.net i i i i . por isso. era preciso que os cardeais escolhessem um outro papa. tendo ocorrido uma renúncia pontifícia. a fim de que. embora Celestino V tivesse renunciado ao papado e continuasse vivo.

[340] Devido à renúncia de Celestino. essas três decisões que mencionamos. Por isso. 7) Inocêncio III diz: ‘Como mais forte é o vínculo espiritual do que o carnal. o meio termo equilibrado. de modo que o bispo é removido da igreja através da autoridade do Pontífice Romano. estando vivo. entre os quais. a fim de que. no tocante ao 12o argumento. FONTE Sobre a renúncia do papa AFH 11 1918: 340–366. por meio da translação. outro possa vir a substituí-lo. capítulo Inter corporalia. o casamento es- piritual não se dissolve por intermédio do poder {329} humano. da cessão. título De translatione. não se deve duvidar que o Deus Onipotente reservou somente ao seu julgamento dissolver o matrimônio espiritual que existe entre o bispo e a igreja. através de sua refutação. defendamos a tese contrária. os Espirituais extremados que negavam-lhe tal direito. da deposição.lusosofia. por último. I. tril- hando a via media. 2. iremos tratar disso com o propósito de bem esclarecer a questão. uma vez que Ele igualmente reser- vou para Si a dissolução do casamento carnal. Faço-o. isso seria pernicioso à unidade doutrinal e ao governo eclesiástico. O primeiro argumento é o seguinte: no Livro Extra das Dec- retais.net i i i i . o menorita provençal admitiu que os oponentes estavam certos ao dizer que. de modo que. ordenando que o que Deus uniu o homem não separe. ocorrida há pouco tempo.. entre os defensores do poder absoluto do papa neste e noutros aspectos do governo eclesiástico e aqueles. como bom filósofo que era. quanto mais vigorosamente pudermos. Por isso. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. retomando o que havia dito ao final da refutação do 7o . 29 Enfim. apresentando 12 argumentos.. pois. que é o Vigário de Jesus Cristo. alguns duvidaram se o papa pode renunciar ao papado. Por isso. se a renúncia papal fosse um fato corriqueiro. a verdade da conclusão pro- posta brilhe mais claramente. mas antes mediante o divino. Em primeiro lugar. De fato. estão-lhe www. [C. Olivi conclui a Quaestio recomen- dando que a destituição e a renúncia pontifícias só devam acontecer por causa de uma enorme e evidentíssima necessidade.

abandoná-la. os bispos não devem ser afastados de suas sés. mas antes em razão da disposição divina. questão 1a [c. mas antes ou mantenha-o. no mesmo passo. Por conseguinte. isto é. se a união dos prelados inferiores. Tampouco.net i i i i . não podemos conceder-lhe a renúncia. Item. o rei ou juiz pode matar-se por causa de www. Gregório ainda acrescenta que. que há entre o papa e a igreja universal. com respeito a si próprio. mediante o matrimônio. apesar da enfer- midade ou da doença. não é menos forte do que aquele que há entre os antístites inferiores e suas dioceses. estando ele vivo. Ora. para a qual foi consagrado. nem outros devem ser consagrados em seu lugar. E como não é lícito à esposa deixar o seu esposo. não tanto por força duma constituição canônica. ninguém tem a competência do prelado e do superior. 2. na 7a dis- tinção. não pode ser dissolvido senão mediante a autoridade de Deus. mas. e assim também outros casos semelhantes. R. então.lusosofia. pois [entre eles] há um contrato espiritual’. 11]: ‘Como o marido não deve adulterar a sua esposa. assim também o bispo não o deve fazer com a sua igreja. de Souza exclusivamente reservadas. i i i i 30 José Antônio de C. e dado que ninguém possui por si mesmo a autoridade para dissolver o próprio casamento. ou permaneça inupta’. para unir-se a outrem.’ E infra acres- centa que em caso de dúvida não deve ser anulado ‘o casamento entre as pessoas dos eleitores e do eleito. E aí mesmo os papas Nicolau e Gregório dizem que. do que foi exposto. argumento: é óbvio que o vínculo do matrimônio espiritual. É o que também diz o capítulo do papa Evaristo. consoante o procedimento judiciário. apenas se deve dar-lhe um administrador ou coadjutor e. para receber um outro. depois da eleição e da confirmação canônica. igualmente também não é lícito à igreja deixar o seu bispo. a qual é muito menos espiritual do que a união do papa. estando ele vivo. onde for necessário. a menos que venha a requerê-la. daí ninguém poder batizar-se {330} ou absolver-se dos próprios pecados ou conferir-se as sagradas ordens. o papa não possui a autoridade de Deus para dissolver em si mesmo este vínculo.

Logo. o poder do papa e o seu vínculo com a Igreja provêm apenas de Deus. 4. exclusiva- mente por Ele pode ser dissolvido. 3. exceto se revelar isso mediante um sinal indubitável e que sua Igreja o confirme. pois uma vez investido o primeiro. 31 qualquer crime que tenha cometido. como se es- tivesse a condenar-se ou se renunciasse. na distinção 22a [c. ‘e foi da vontade de Deus e firmado com a concordância de todos nós que. o lugar de Pedro. se acha confirmado nos Decretos. o papa não pode depor a si próprio do papado.net i i i i . recebido por Cornélio. não é mero segundo mas nenhum’. ‘de Deus e de Cristo. isto é. Portanto. ninguém é o superior do papa senão Deus.lusosofia. é necessário que seja de fora. E infra: ‘Logo a primeira [342] sé é um benefício celestial para a Igreja www. con- tra o cismático Novaciano. um poder dado apenas por Deus. romano. Ora. Item.. como o pode fazer no tocante aos demais réus. o qual disse ao bem-aventurado apóstolo Pedro: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja’. só por Ele pode ser retirado. mas {331} do próprio Senhor e Salvador nosso. e. que se encontra na Causa 7a . pelo qual foi ocupado’. Ora. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. qualquer um que venha depois deste. como ninguém antes dele havia-se tornado. Item a renúncia de ninguém é válida. o qual fora feito papa. tampouco um outro pode substituí-lo. estando ele vivo.cada um que já foi bispo. e um vínculo estabelecido somente por Deus. somente por Ele pode ser removido e dissolvido. 2] em que o papa Anacleto diz: ‘A sacrossanta igreja romana obteve o primado não dos Apóstolos. que esse poder provém apenas de Deus. que há de ser o único. a não ser que seja aceita por seu superior. de quem não consta que a aceite. por conseguinte. isto é. o papa não governa como se estivesse no lugar de outro prelado ou superior. em que está escrito: ‘Cornélio foi feito bispo’. Logo. com respeito a si próprio. questão 1a .. ‘que quiser sê-lo. pois o lugar de Fabiano’. e. fundamentando essa opinião parece que há um capítulo do bispo são Cipriano. quer dizer. isto é. papa. Ora. ‘e o grau da cátedra sacer- dotal estavam vago. e mediante seu jul- gamento.

o primado dos metropolitas e as cátedras dos arcebispos. com referência aos direitos sobre império terreno e ce- leste [o papa Nicolau] entendia tratar-se o poder espiritual tanto no que concerne à Igreja na terra. mas em razão da palavra evangélica de Cristo. tornou o bem-aventurado Pedro clavígero da vida eterna e concedeu-lhe os direitos sobre os impérios celeste e terrestre. Ora. Ora. tirá-lo da www. Logo. que fundou a Igreja Romana. em que somos introduzidos por intermédio de suas chaves. Com efeito. os beatíssimos Pedro e Paulo num dia e igualmente na mesma ocasião consagraram com o seu martírio’. não foi uma decisão humana qualquer. mediante a autoridade que foi dada a Pedro. erigiu-a sobre a pedra da fé nascente. o papa não poderia diferentemente modificar a Sé Romana.lusosofia. e. de Souza Romana. mas foi o Verbo. simultaneamente. Ora.net i i i i . R. pelo que designa Pedro ‘clavígero da vida eterna’. Logo. [332] Isto também é reforçado pelo fato de que não existe nen- hum poder que é estabelecido para a autodestruição. com certeza. a qual. e aquele que ignora que ela foi posta à frente de todas as igrejas é tido na conta de contumaz’. viola a fé aquele que procede contra ela. i i i i 32 José Antônio de C. Aquele que. caiu em heresia e deve ser considerado herege. que é a genitora da fé. conforme. muito menos pode por si mesmo modificar o seu poder. ou nesta vida passageira. quanto ao reino dos céus. Aí mesmo o papa Nicolau também diz: ‘A Igreja Romana institui todos os ápices patriarcais. Na verdade.’ 5. em seguida. Daí não haver dúvida al- guma que quem tentou tirar o privilégio dado por Ele à Igreja Ro- mana quanto a ser a cabeça mais preeminente de todas as igrejas. Item maior é a autoridade do papa do que de sua sé. E o papa Pelágio [Gelásio] na distinção 21a [capítulo Quamvis] diz que: ‘a santa Igreja Romana foi colocada à frente das demais igre- jas. ao dizer: Tu és Pedro etc. foi ape- nas Ele que fundou-a. não por força dum decreto sinodal. comemora-se. pois a autoridade coube à Sé Romana. mediante o qual foram feitos o céu e a terra. como é evidente do exposto.

questão 1a . um outro possa substituí-lo. ‘contudo não deu o poder de pontífice e a norma’. pois aí mesmo está registrado que o Papa João escreveu às igrejas da Germânia e da Gália dizendo: ‘Embora o Príncipe dos Apóstolos tenha dado a si um auxiliar’. ou que.. a renúncia e a substituição papais. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. consta que se deve evitar muito mais uma novidade profana concreta e proferida do que semel- hante. [c.. capítulo 6 [20]. ou que possa depor-se ou ser deposto por outrem. como Pedro o havia escol- hido. título De translatione episcopi. [c. 7]. De fato. Clemente foi o primeiro apostólico ou papa. Ora. capítulo Inter corporalia. Daí. tendo falecido. não se haurindo na Escritura Sagrada ou na tradição dos Padres. [333] isto www. renunciou ao papado. de- pois de Pedro. 33 própria pessoa a quem compete exercê-lo. o Apóstolo na 1a Epístola a Timóteo. há pouco ocorrida. tendo falecido este. parece ter sido dessa maneira. é destruí-lo. o que. Igualmente. I. na distinção 8a . em texto algum está escrito que o papa possa ceder. In- ocêncio III dizer [343] ‘Não se deve presumir que um decreto san- cionado pelos Padres é uma inovação supersticiosa. e então Lino foi eleito. de modo que nunca deve ser entendido como tendo sido proibido’.lusosofia. 6. Logo. etc. 2 .net i i i i . o qual. apenas dita. tenha-o associado a si. Ora. etc. Item toda novidade relativa aos precípuos fundamentos da fé e da Igreja. Cleto foi eleito e. estando vivo. o papa não pode fazer com que o poder papal seja detruncado ou diminuído em si mesmo. mas afirmo que essa nótula contradiz parte do texto do capítulo. pois. muito menos pode integralmente anulá-lo em si mesmo. especialmente tratando-se de algo que não está explicitado. também ordena evitar novidades profanas. no Livro Extra das Decretais. se [o papa] não pode detruncá-lo ou diminuí-lo em si mesmo. na verdade. Ora. a saber: que alguém escolhesse o próprio sucessor. a não ser que se afaste da fé. 1] diz uma certa glosa ou nótula que. Clemente foi eleito de novo. deve ser evitada como se fosse algo profano. Ora. sobre aquele capí- tulo Si Petrus. isto é. Clemente vendo que isso era um exemplo perigoso.

dando-lhe o bem-aventurado Pe- dro o poder pontifício. e que ‘foram or- denados bispos para exercer o ministério sacerdotal pelo próprio Príncipe dos Apóstolos’. mas ao seu sucessor. conforme o breviário da Igreja Romana. na festa de São Clemente que ele ‘por ordem do bem-aventurado Pe- dro recebeu [344] o pontificado para governar a Igreja’. 15. Além disso. De fato. dirigida a tão importantes igrejas. e que ‘por isso Lino e Cleto estão inscritos antes dele’. Pedro ocupava-se com a pregação e a oração’. Logo. a da Germânia e a da Gália. quer dizer. Lino e Cleto cuidavam das coisas exteriores. Com certeza. Clemente teria sido compelido a renunciar. i i i i 34 José Antônio de C.net i i i i . Mas isso parece estar mais consoante àquela solene carta do Papa João. que se encontra no Livro dos homens ilustres [cap. o qual. de Souza é. vivendo o bem-aventurado Pedro. ao dizer que Clemente foi ‘o quarto bispo de Roma. papal. pois aquela nótula pensa mal de Pedro. pela mesma razão pela qual Pedro acreditava que tivesse errado. Com efeito. R. e que na epístola que Clemente escreveu a Tiago. no entanto. PL 23: 631]. não porque tivessem verdadeiramente sido papas como Clemente. por isso. a predita glosa parece apoiar-se e concordar com esse dito do papa João e de Jerônimo. embora alguns digam que ele foi ‘o segundo’. depois de Pedro’. ‘não lhes deu o poder de ligar e de desligar. Clemente. isto é. ao fazer isso. dando um mau exemplo aos que o sucedessem e ao pô-los em perigo. eram como que seus vigários no ministério das coisas exteriores. o qual. www. ‘a Lino e a Cleto’. Na verdade. seus sucessores não a obtiveram senão por seu intermédio. encontra-se ‘de que modo a Igreja foi-lhe confiada pelo bem-aventurado Pedro’. antes de Lino e de Cleto. teria escolhido um sucessor para si. de modo que. lê-se. poder-se-ia que tivesse falsamente estabelecido Roma como sede papal. próximo de sua morte. mas porque também. depois dele mereceu ter a Sé Apostólica.lusosofia. tudo indica que o papa João expressamente en- sina que Lino e Cleto são considerados como propostos romanos.

viveu durante algum tempo. Ora. mas disseram-lhe: ‘Tua boca julga tua causa. no 30o ano após a morte de Cristo. ‘ter confessado tal coisa. depois da morte de Cristo. ele disse que não lhe era lícito proferir uma sentença contra o pontí- fice. e.net i i i i . ou segundo aquela epístola. esse Tiago morreu antes de Pedro. fala-lhe e aos seus de modo exortativo. não nosso julgamento’. no seu Livro sobre os homens ilustres. ‘por ordem do bem-aventurado Pedro ordenou 25 presbíteros’ na cidade de Roma. na condição de papa e sucessor de Pedro. e conforme Beda no seu Comentário sobre os Atos. pois ‘a primeira sé não é julgada por qualquer outra’. Item na causa XII. pois na Distinção 21a . A respeito do bem-aventurado Lino em sua festa. lê-se que Clemente. erguendo-se imediatamente. compelido pe- los pagãos’. conforme o breviário romano. o papa Marcelino. capítulo Nunc autem . quer dizer. no capítulo Dilectissimis. ao afirmar que o papa pode judicialmente depor-se. as nótulas não comprovam bem que o papa possa depor-se. lê-se também que ele. na 4a epístola que enviou ao bispo de Jerusalém. en- tão. E aí mesmo o papa Nicolau acrescenta que ‘quando alguns tentaram insinuar certas calúnias contra o Papa Sixto. ‘foi reunido um concílio de’ todos ‘os bispos’ e que apesar de o papa. ‘por ordem do bem-aventurado Pedro estabeleceu que a mulher entrasse na igreja com a cabeça coberta’.lusosofia. nenhum deles ousou proferir uma sentença’. ou segundo Jerônimo. pois não se depreende do texto supra que o papa tenha julgado a si mesmo daquele modo. tinha queimado incenso aos ídolos e por isso. Do exposto. lê-se na festa de São Cleto que ele.. 35 {334} Item. mas apenas da maneira como o penitente [335] www. É o que também comprovam certas outras nótulas. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. como julga e con- dena aos outros. o imperador deixou ao arbítrio do pontífice julgar o que lhe imputavam’. no con- cílio em que o imperador Valentiniano Augusto estava presente. Tiago.. o Papa Nicolau diz que no ‘no tempo de Diocleciano e Maximiano.

mas apócrifo. i i i i 36 José Antônio de C. e é castigado por causa de suas faltas. diz o papa Leão a Ludovico Augusto: ‘Se nós indevidamente fizermos algo. um certo papa deixou o cargo papal e foi com elas. em determi- nadas ocasiões. tenha-o renunciado. 7. nem tampouco pode-se comprovar que aquele papa.net i i i i . muitos santos papas tivessem re- nunciado. graças a um poder tirânico. www. até aos dias atuais. ou por julgar-se inúteis e inaptos. daqueles que tenham isto. e por tal motivo não é contado entre os pontífices. de fato. não servem como prova os fatos. os cismáticos também foram entronizados no pa- pado. isto é. segundo os quais. no capí- tulo ‘Nos si incompetenter’. sobre aquela frase do Papa Inocêncio: ‘Ninguém julgará a primeira sé’. no tempo das onze mil virgens mártires. esse relato não é autêntico. não se lê na Sagrada Es- critura e nos textos autênticos que nenhum deles. e que os pontífices verdadeiros dele foram igualmente expul- sos. [345] É o que também na 2a [Causa 41a ] 7a questão. pois. quer dizer. através do decreto do papa Nicolau. a sua submissão será sempre livre e anteposta ao julgador. Diz-se também que. no foro da consciência. um poder judiciário sobre ele. Mas. tudo indica que todos julgaram que isto era–lhes ilícito e impossível. a quem se submete. outra nótula dizer que tal frase não deve ser entendida como que significando que ele possa submeter- se ao julgamento dos outros. por ter abandonado o papado.lusosofia. fez isto. ao confessar. conforme é evidente. ainda que tivesse sido muito santo. seria igualmente verossímil que. Logo. queremos ser corrigido por vosso julgamento e pelo de vossos enviados’. Se fosse possível renunciar ao papado. nesse mesmo passo. R. Para mais. Uma certa nótula so- bre isso diz que ele pode submeter-se ao julgamento de alguns. se submete sacra- mentalmente ao seu confessor. daí. ou por ver que alguém mais apto e útil poderia substituí-los. entretanto. inserido na Distinção 33a . senão que. de Souza julga a si mesmo.

foi dada e escrita solen- emente. E no capítulo 20 do Livro dos Números [26-29] se lê que de- pois da morte de Arão. a forma de eleger um papa em seguida à morte de um outro. por tratar-se de algo suma- mente árduo. para que. sejam ungidos e as suas mãos sejam consagradas’ etc. 11. segundo a lei. desde outrora. Item no tocante às questões dúbias.net i i i i . filho dele. poderia fazê-lo. se a forma de sua re- nuncia ou de sua deposição fosse possível e lícita. fazer isso é inconveniente. teria sido au- tenticamente transmitida. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. uma vez que não foi transmitida desse modo. Logo. 37 8. Item pela mesma razão que. esse era tão intransferível. Ora. Item se [o papa] pode renunciar.. o filho não devia ser consagrado pontífice senão em www. que o filho não podia suceder o pai no pontificado. Logo. Moisés vestiu Eleazar. Disso é evidente que.. senão após sua morte. refere-se ao sumo e radicalíssimo poder apos- tólico e eclesiástico. assim também pelo mesmo motivo. esse assunto devia ter sido tratado e definido pelo Concílio Geral [da Igreja]. com a veste pontifical. sumamente árduas e delicadas. semelhante omissão torna essa novidade mais suspeita e digna de permanente desconfiança. segundo [aquela] lei. também as conseqüências de tal ato. Logo. 9. Item o pontificado da nova lei é e deve ser mais intrans- ferível do que foi o pontificado da antiga lei. então. por ordem de Deus. daí o Êxodo dizer no capítulo 29 [29]: ‘Os filhos de Arão terão depois dele a veste santa que ele usar. se havia dúvida a respeito de semelhante renún- cia por causa de sua inexperta novidade. vestidos com ela. antes que as mesmas sejam solenemente definidas e o ato confirmado. quando bem o quisesse. tudo indica que foi tida na conta de impossível e ilícita pelos antepassados. ainda. ainda que isso causasse enorme prejuízo [336] à Igreja. então. Portanto. Ora. primeiramente deve-se indagar do Concílio Geral da Igreja. 10.lusosofia. e porque os cânones ex- pressamente não falam disto e. pois.

lusosofia. nada é-lhe mais perigoso do que apresentar-se uma grande oportunidade em que a principal autoridade e poder da fé seja condenada. em seguida. Antiquitates iudaicae. e tirânica e ambiciosamente usurpada. e igual e respectivamente é também o que está escrito na Carta aos Hebreus capítulos 7o . no to- cante àquela frase que se encontra no Evangelho de João. [347] Resposta. Ao contrário. os santos dizerem que. [25].net i i i i . 12. sua intransferibilidade concorre ao oposto. seja por força da definição eclesiástica solenemente promulgada pelo papa com o conselho e o assentimento dos cardeais e mediante os atos que se seguiram. nada dizendo se. No entanto. www. a reta e fiel razão dita que tal autoridade seja intransferível. em muitos aspectos. que foi ungido com o santo óleo’. Logo. Basileae. por intermédio da qual ela deve ser precipuamente interpretada. 3. contrariamente à santa lei havia um pontifi- cado venal e anual. capítulo 11. Item nada é mais necessário à Igreja do que uma sólida autoridade da fé. e infra acrescenta ‘os desterrados e os fugi {337} tivos de modo algum poderão voltar para as suas cidades antes da morte do pon- tífice’. etc. e Josefo igualmente referir que Caifás com- prara o sacerdócio durante um ano. por uma certa quantia. i i i i 38 José Antônio de C. conservada e defendida. [49]. um outro podia substituí-lo. capítulo 35. ou cismaticamente subtraída e diminuída. a fim de que a mesma e toda a fé da Igreja seja mais firme e permanente acatada e reverenciada e que e se acredite nela. seja também em razão de. em que Deus ordena que o fugitivo permaneça na cidade de refúgio ‘até que morra o sumo sacerdote. Ora. 1554]. Deus não determinou nada contrário à sã doutrina e à reta razão. A verdade dessa questão já é evidente. de Souza seguida à morte do antecessor a quem sucedia. a máxima ocasião para tais perigos ocorreria em razão da fraca e inconstante transferibilidade do poder pontifício. Ora. Ora. R. 3o e 8o . com o que também anui a [passagem] do Livro dos Números. 18. definida. antes da morte do [sumo sacerdote]. então. ‘Como Caifás fosse o pontífice daquele ano’. [cf. Daí.

mas a plenitude do poder papal. Dâmaso. que nen- hum direito se lhe oponha é bastante {338} óbvio. O terceiro: de que modo a juris- dição episcopal e igualmente a papal devem ser transferíveis. no que concerne à substituição do seu sucessor. No capítulo seguinte [c. reside nas mãos do papa. de um lado.. Júlio. mas antes. de modo que sem a sua autoridade não têm por si próprio nenhuma força. e tampouco não há ninguém que possa dizer algo contra isso. O segundo: qual poder a Igreja possui sobre isso e. De outro lado. Gregório. o divino e o canônico. Daí não ser necessário demonstrar senão que essa definição e sua acolhida não se opõe nem contradiz nenhum dire- ito divino ou canônico. como adiante aparecerá plenamente. e como não é plena sem as mesmas. Ora. Quanto ao primeiro ponto. a fim de se verificar de que modo ela se estriba em ambos os direitos. ainda sobre os Concílios Gerais. O quarto: de que modo a ordem sacerdotal e episcopal não são essen- cialmente uma [jurisdição] inseparável e conjunta. Pelagio. graças à refutação das objeções apresentadas. todo o direito canônico estabelecido e exercitado ates- tam que o supremo poder quanto a definir as questões dúbias acerca da fé e de todas as causas mais importantes da Igreja. conforme é evidente na Distinção 17a no capítulo Synodum e nos cinco capítulos seguintes. que são decretos dos papas Marcelo. 39 ter sido acolhida pela Igreja universal e firmada por meio da so- lene obediência. senão falaciosa- mente. precipuamente aqueles a quem compete eleger o papa.lusosofia. há que saber que inúmeros cânones e. em geral. bem como para estabelecer as sés e para nomear os bispos e os reitores de to- das as outras Igrejas e. O primeiro é o seguinte: de acordo com os preditos direitos. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval.. sustenta-se em ambos e é cor- roborada e aclarada pela reta razão. qual é a amplitude do poder do papa no tocante a estabelecer e a especialmente definir algo. há que estar diligentemente atento para quatro pontos. episcopal e sacerdotal é constituída por ambas em conjunto. 2 Regula] o Papa Júlio diz que os cânones determinam www.net i i i i . porque nem nele nem nas glosas não há nenhum texto contra isso.

na mesma questão o Papa Higino diz: ‘Salvo o privilégio da Igreja Romana. e no capítulo Denique. E no 4o [Enimvero]. de Souza que ‘os concílios não devem ser realizados sem a autoridade da Igreja romana nem que nenhum concílio seja validado ou venha a sê-lo. no 2o . tomado em conjunto. acima dela é evidente que não há uma autoridade superior’. ‘nem pelo rei. isto é. o Papa Agatão diz: ‘As- sim todas as [determinações] da Sé Apostólica devem ser acolhi- das como se tivessem sido confirmadas pela palavra do próprio {339} Pedro’. ‘deles’. nenhum metropolitano julgue as causas. o papa Estêvão declara: ‘Tudo aquilo que a santa igreja Romana estabeleceu e ordenou deve ser observado perpétua e irrefragavelmente’.lusosofia. no capítulo Omnes. R. o papa. no capítulo Si qui. Disso claramente se infere que o papa romano por si só pode fazer isso e outras coisas semelhantes. no capítulo Si romanorum e nos seis capítulos seguintes. e na Distinção 81a . [348] Item na Distinção 19a . e na Distinção 22a . no capítulo Patet e nos dez capí- tulos seguintes. sem a presença de todos os demais bispos co-provinciais. isto é. quer dizer. i i i i 40 José Antônio de C. pois. em que o papa Gregório diz que incorre em pecado de paganismo qualquer um que desdenhe obedecer à Sé Apostólica. em que. criminais. e no capítulo Sacrossancta. www. E antes de todos esses capítulos [c. ‘nem por todo o clero’. dele. no capítulo In novo testamento. 3a questão. não deve ser reformado por ninguém. e no 4o [13] o Papa Inocêncio diz ‘que ninguém julgará a primeira sé. pelo imper- ador.4]. se não estiver apoiado em sua autoridade’.net i i i i . a saber. nem tampouco será julgado pelo Augusto’. Item na Distinção 20a . Item no 5o diz o papa Gregório: ‘A ninguém é lícito querer ou poder transgredir as de- terminações da Sé Apostólica’. em que no 1o [10] o papa Nicolau diz que ‘um jul- gamento da Sé Apostólica. Item na Causa 9a . nem pelo povo’. quer dizer dos bispos. no capítulo Si decreta e na Distinção 21a .

. [349] Item na Distinção 25a . no capítulo 6o [Sunt quidam]. sobre o que o Senhor ou os seus Apóstolos e os Padres da Igreja seguindo- os espiritualmente. se ele destruir o que os Apóstolos e os profetas ensinaram. em que no oitavo. Por outro lado. 41 Item na Distinção 24a . não para dar uma sentença. no entanto. terá de comprovar que fui imperito. dizendo: ‘ Deve-se atentamente saber que também pode decretar novas leis acerca do que os evangelistas nada disseram. questão 1a . nem a autoridade desta sé pode determinar. 5]. esta nossa confissão {340} com- prova o julgamento do teu apostolado. aí mesmo [c. ao autor de seu nome e de sua honra’.net i i i i . a antiguidade vive conosco nas www. na qual se algo foi proposto menos habilmente ou pouco prudentemente. questão 1a .lusosofia. no tocante à substância da fé e da lei divina. malévolo e também herético’. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. E no 10o [c. sem incorrer em perigo’. Jerônimo diz ao papa Dâmaso: ‘Esta é a fé. uma causa ou uma questão. [c. isto é. em que no 4o o papa Hilário diz: ‘A ninguém é lícito transgredir os mandamentos divinos ou os decretos da Sé Apos- tólica. empenha-se. qualquer um que quiser me inculpar. [c. definiram claramente algo’. mas antes demonstra que está a errar’. desejamos ser corrigidos por ti. que tens a fé e a sé de Pedro. ‘Na verdade. no entanto. quer dizer. que aprendemos na Igreja Católica. ‘na verdade. está escrito: ‘Todas as vezes em que o interesse da fé estiver em debate’. beatíssimo papa.5]. se. isto é. quer dizer. capítulo Manet ergo. e nos 13 capítulos seguintes. até ao martírio e à morte. a saber: no tocante à substância da fé e da lei cristã. que o papa romano possa decretar novas leis. ‘o Romano Pontífice não deve leg- islar. De fato. devem apresentá-la a Pedro. 12 Quoties]. ‘julgo que todos os ir- mãos e co-epíscopos nossos. mas antes deve confirmar o que foi ensinado até à alma e ao sangue’ . que Deus não o permita. conceder ou mudar alguma coisa. capítulo 1o e nos qua- tro seguintes.. 7] o papa Zózimo diz: ‘Contra o estatuto dos Padres’. ensina o Papa Urbano. adiante. Item.

reverbero todas as pessoas que rebatem os venerandos concílios supraditos. E acrescenta: ‘também venero o 5o Concílio no qual Teodoro. isto é. 9] o papa Ormizadas diz: ‘A primeira salvação consiste em guardar a regra da fé. Com efeito. [c. capítulo [8] Sancta Octo. E na Distinção 16. de Souza raízes confiadas. o constantinopolitano.lusosofia. enquanto foram con- stituídos por um consenso universal. a si [350] se destrói aquele que não queira acatá-los e presumir desligar o que eles ligam ou ligar o que desligam’. ergue-se a es- trutura da santa fé e mostra-se a norma de vida e ação de qual- quer pessoa’. Entretanto. Ora. o bem-aventurado Gregório diz: ‘acatá-los e venerá-los como os quatro livros do Evangelho. [c. ‘os decretos dos Padres tornaram-se sagrados. Item. é óbvio que isso não deve ser entendido acerca do que não concerne à substância da fé e à lei divina. o que for determinado pelos infiéis ou hereges será nulo’. louvo as que os veneram. deve-se mantê-los’. não só em razão dos capítulos anteriormente alegados. E infra.8] o Papa Marcelo diz: ‘Todo aquele que é irrepreensível defende a Igreja Católica’. em seguida. a antiguidade. aí mesmo. porque neles como em lápide quadrada. Item. à qual’. é evidente que está a referir-se a uma cânon que concerne à fé. Item. referindo-se aos quatro Concílios. porque. a saber. o que os oito santos concílios universais determinaram e propuseram há de ser observado e ensinado de todas as maneiras e tudo o que condenaram dever ser condenado no coração e pela palavra’. e especialmente dos capítu- los constantes da 17a Distinção. acrescenta: ‘Na verdade. mas também por força do que se www. a saber. e absolutamente não {341} desviar-se do que foi estabelecido pelos Padres’. ‘Aquele que agir contra a doutrina evangélica ou apostólica ou contra a de- terminação deles ou dos Santos Padres de modo algum subsistirá’. o efesino e o calcedoniense. na Distinção 15a . R. o niceno. separando a pessoa de Cristo em duas substâncias é con- vencido de haver incidido na perfídia [de impiedade].net i i i i . o Pontífice Romano diz: [deve-se] ‘sem distorcer um só ponto. i i i i 42 José Antônio de C. pois. aí mesmo.

isto é. ‘para que a tua fé não desfaleça. 4. www. em que Pedro interrogando quantas vezes devia perdoar o irmão que peca. título Sobre o Batismo e seu efeito. que esse [poder] proceda da lei divina é evidente através do que está escrito no Evangelho de Mateus. excluía- se claramente a Igreja’ Romana. capí- tulo 22 [32]. III. conforme está escrito no Evangelho de Mateus. E no capítulo 18 [21-22].. título de electione. 3.net i i i i . Inocêncio [III] confirmar ambas as pas- sagens assim: ‘As mais importantes causas da Igreja. Cristo disse-lhe: ‘até setenta vezes sete’. [c. Em segundo lugar. em que o Papa Pascoal diz que nenhum concílio prefixou a lei da Igreja Romana.lusosofia. acharás dentro um estáter e dá-lho por mim e por ti’. E dar-te- ei as chaves do reino dos céus. conforme está escrito no Livro Extra das Decretais. [c. e tu quan {342} do te tiveres conver- tido. em primeiro lugar. nos seus estatutos. isto também é óbvio daquilo que está es- crito no Evangelho de João. em que Ele lhe disse: ‘Eu roguei por ti’. capítulo 16 [18-19]. que só Pedro está à frente dos demais co-apóstolos e condiscípulos. E igualmente daquilo que em toda parte se verifica. precipua- mente aquelas relativas aos artigos da fé devem ser submetidas à Sé de Pedro’. último capítulo [21. e mediante o que está escrito no Evangelho de Lucas. 43 encontra escrito no Livro Extra das decretais. confirma os teus irmãos’. Pedro. I. Daí. 17] em que Cristo confiou-lhe singularmente o cuidado geral e pastoral das suas ovel- has. em que Cristo disse singularmente a Pedro: ‘Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. e tudo o que ligares será ligado’ etc. e que nele todos estão compreendidos. isto é. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. capítulo Significasti. na condição de dirigente de toda a Igreja. ‘porquanto to- dos os concílios foram realizados mediante a autoridade da Igreja Romana e por ela foram confirmados e. 6]. em que Cristo disse-lhe: ‘Abrindo a boca do peixe. ‘por mim e por todos os meus discípulos’. Por outro lado. 42]. capítulo Maiores... capí- tulo 17 [26].

Mediante esse passo. i i i i 44 José Antônio de C. como é óbvio no 1o capítulo [15-26] [daquele livro]. capítulo 22. até Pedro e seus co-apóstolos e presbíteros para que esta questão fosse determinada por eles. para resolver a questão dos costumes legais. Item no capítulo 15 [5-30]. Pedro disse: ‘Eis que nós deixamos tudo e te seguimos’. em seguida.net i i i i . capítulo 6 [6-9]. no Deuteronômio. [351] Em terceiro isto também é evidente. Paulo e Barnabé foram enviados pela Igreja antioquena a Jerusalém. pouco depois da as- censão de Cristo. etc. E no Evangelho de Lucas. {343} erguendo-se. Cristo disse-lhe: ‘Simão. Isto também é claro através da Antiga Lei. e tudo o que eles te ensinarem con- forme a Sua lei’. após o envio do Espírito Santo. aí mesmo. nos capítulos subseqüentes. E no Evangelho de João. capítulo 17 [8-13]. de Souza Também no capítulo 19 [27]. e eles te indicarão a verdade do juízo.lusosofia. Deus disse: ‘Se vires que é difí- cil e ambíguo o teu juízo entre sangue e sangue. por ocasião do Concílio suscitado. Pedro na condição de cabeça. representando todos os demais. no trecho em que está dito: ‘Tendo ocorrido uma enorme discussão. no lugar de todos [Pedro] disse: ‘Senhor. levanta-te e vai ao lugar que o Senhor teu Deus tiver escolhido e irás ter com os sac- erdotes da linhagem de Levi e com o juiz que na ocasião estiver exercendo a função. e constatares que no interior das tuas muralhas são diversos os pareceres dos juízes. entre causa e causa e entre lepra e lepra. em primeiro lugar definiu-a sentencialmente. no episódio relativo à escolha de Matias e. a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna’. R. demonstra- se que as questões relativas à fé e a todas as causas mais impor- tantes eram apresentadas a Pedro e ao seu conselho. Pedro disse’ etc. de acordo com o que Lucas refere no livro dos Atos dos Apóstolos. E farás tudo o que te disserem os que presidem o lugar que o Senhor tiver escolhido. Pedro se colocou como cabeça de todos. eis que satanás vos busca’. [31] referindo-se a todos. e os consultarás. De fato. donde é evidente que nada podiam fazer contra www. Com efeito.

contudo. as quais inesperadamente surgiram.. a fim de que daí em diante. toda a Igreja terá de concordar com ele e obedecer-lhe. no Livro Extra das Decretais. só pelo Ro- mano Pontífice e que tais coisas não haviam sido explicitadas no tocante aos eleitos e confirmados. ‘e seguirás o parecer deles sem te afastares nem à esquerda nem à direita.net i i i i . {344} Logo. nesse documento. conforme a diversidade dos casos e as várias conveniências das ocasiões. e todo povo ouvindo isto temerá. [c. 17].lusosofia. o papa pode ordenar uma lei sobre isso e. Inocêncio dizer que. a deposição ou a absolvição dos bispos havia sido feita. ao fazer tais coisas. foram esclarecidas pelo papa e sua Sé Apostólica. ninguém se inche de soberba’. no capítulo Inter corporalia. morrerá.. de tudo isso que foi precedentemente dito. decorre um argumento irrefragável: é evi- dente que o papa pode ordenar uma nova lei acerca de qualquer coisa que não seja contra a fé e a lei de Cristo. ainda. e que ele pro- mulgou novas leis modificando as que haviam sido anteriormente dadas. com cautela. Portanto. I. o poder soberano do Sumo Pontífice. e que o seu julgamento não é menos seguro. volta a explicar tal assunto. ‘que na ocasião é o ministro do Senhor. [352] E. pode igualmente esclarecê-la e. Porém. o orgulhoso que não quiser obede- cer ao mandado do sacerdote’. quanto ao propósito em exame. a transferência. que deva ser obedecido nesses aspectos. que se deve crer em tudo e em todo esclarecimento sentencial e autêntico que ele definir acerca dos pontos dúbios relacionados com as mesmas e. até sua época. confirmado www. se houver alguma dúvida a re- speito. que o papa possa renunciar ao papado não é algo contra um artigo da fé nem tampouco contra algum preceito de Cristo. 45 a lei de Deus. Daí. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. isto é. com certeza. con- statamos que muitas dúvidas. título Sobre a transferência do bispo. dizendo que entre um antístite. é óbvio que o Sumo Pontífice e juiz da Nova Lei não deve ser menos obedecido do que o pontífice da Antiga Lei. em todo peregrinar da Igreja desde o início até agora. 2. Ora. a saber. contra o Supremo juiz e Pontífice. Ora.

o papa Nicolau [II] ter determinado que o sucessor [do papa] podia ser eleito apenas pelos cardeais. Depois. 4 I. 1]. In nomi {345} ne]. Distinção 23a . e maximamente. os Sumos Pontífices legislaram acerca da maneira de prover um sucessor para si e. há simultaneamente um matrimônio espiritual e um contrato. capítulo Ad honorem. se não tivesse sido eleito por 2/3 dos cardeais. no capítulo do Papa Símaco está escrito que. escolheria um sucessor para ele. desde o início da Igreja. ou tinha decidido que. questão 1a .lusosofia. capítulo Licet. esse poder deve estar mais radicalmente na cabeça do que nos membros. i i i i 46 José Antônio de C. É óbvio que pela mesma razão que convém que um sucessor o sub- stitua. E segura e principalmente por www. título. conforme está escrito no Livro ex- tra das Decretais. o Sumo Pontífice pode decidir tratar ou deliberar acerca da eleição de seu sucessor.net i i i i . ‘exclu- sivamente é elevado à plenitude do poder eclesiástico. deve-se fazer um julgamento idêntico. 8]. De fato. também é necessário que a Igreja de Cristo tenha um poder para fazer isso. [c. Daí. Por isso. pois. dado que sempre usa-o nas missas solenes e em toda parte’. no ano de 1059 da Encarnação do Senhor. ele fez isto estando em lugar de toda a Igreja. alteraram a legislação consoante as circunstâncias o exigiram. de acordo com o que diz Inocêncio III. R. 6]. igualmente. [c. naquele que. Isso mesmo também é claro. Alexandre III orde- nou que ninguém seria considerado papa [legítimo]. título Sobre a eleição. Portanto. antes de sua morte. [c. acerca desse assunto. é dessa maneira que entendo aquele capítulo do Papa João. Sobre a autoridade e o uso do pálio. constante da Distinção 8a . aí mesmo. Ora. segundo está escrito nos Decretos. especialmente notando o poder que o papa possui com referência a legislar sobre sua sucessão. I. em que ele afirma que Pedro deu o poder papal ‘a Clemente seu sucessor’. tratando-se de casos semelhantes. a qual ou tinha consentido que escolhesse um sucessor para si. cujo sím- bolo é o pálio. 1. [c. 6. de Souza e uma Igreja. no Livro Extra das Decretais. Ora.

Entretanto.lusosofia. senão porque tinha decidido que. que ele re- nunciou [353] ao seu pontificado. em razão de uma causa necessária ou muito útil. aquilo do que segue. o segundo procedimento está mais em consonância com as palavras do Papa João. 47 força de três motivos.net i i i i . e não antes. depois da morte do papa. mas para o seu fortalecimento. Clemente se tornasse papa. a Igreja o havia de escolher como tal. se o papa não pode fazer isso. quer dizer. Logo. Ora. isso terá sido verdadeira e salutarmente estabelecido. posto que esse poder foi útil e necessário à Igreja de Cristo. igualmente. com o intuito de que. enquanto ainda estava vivo.. argumento: é certo que o papa tem pleno poder para legislar acerca da forma de escolher um sucessor para si. a saber. {346} Por conseguinte. em seguida àquele acontecimento. quais sejam: ou Pedro fez Clemente papa. se. do que foi explanado. exceto se isso. viesse a suceder após a morte do papa. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. dada pelo antecessor tivesse força e eficácia após sua morte. então. redundasse claramente na destruição da Igreja e de seu governo. o poder apostólico ‘não’ foi dado ‘para a destru- ição’. assim. por quem tinha sido estabelecida. que não possa ordenar tal coisa. o Pontí- fice não pudesse fazer de outra maneira. pois o Pontífice com a Igreja pode ordenar que. da Igreja. de modo que a ordenação pontifícia de Clemente. do que se segue. depois. ele não possui o pleno poder para ordenar aquelas coisas que são necessárias e úteis ao governo da Igreja de Deus. mais tarde. ou que a forma eleger o papa seguinte. no tocante ao assunto em apreço. a fim de que o sucessor fosse eleito de acordo com a mesma e.. aquele que tivesse previamente sido eleito Pontífice. dado que. ele ordena que seja escolhido um sucessor para o Pontífice que renuncia ou que caiu em heresia. isso to é evidentemente falso. segundo o Apóstolo na 2a Epístola aos Coríntios 10 [8]. então. ou que Pedro não o orde- nou [pontífice] de outro modo. feita por Pedro tivesse força e eficácia após sua morte. Ora. www. Logo.

mas só para essa’. e de. Foi por essa mesma razão que Francisco. de ainda governá-la no lugar do Pontífice falecido. por várias causas. ao menos face àqueles casos necessários. mas a corporação comunitária deles’. e especialmente. está escrito que. pode vir a ser impedido de exercer o governo necessário à Igreja. com quem contraiu um matrimônio espiritual’. o faz não para aquelas [igrejas]. precípuo seguidor de Cristo e dos Apóstolos. mediante a bula Solet anuere] ‘prometeu obediência’ não ‘só ao papa e aos seus sucessores’. de Souza Com referência ao segundo tópico principal. isto é. na sua e nossa Regra [Bulada. pudessem de muitas maneiras e inúmeras vezes contribuir para um enorme pre- juízo e dano a todo governo da Igreja. também foi oportuno que colégio constituído por homens sábios e distintos tivesse o poder de eleger o papa. acrescente. E infra no mesmo. 12. que é acometido por muitas enfermidades e que. pelo que absolutamente não entendia tratar-se de todas as igrejas. III. e infra acrescenta: ‘porque não há tanta comunhão entre o bispo e as capelas e o mosteiro e out- ros lugares piedosos. mas também ‘à Igreja Romana’. quanto poder a Igreja de Deus possui sobre isso. a saber. i i i i 48 José Antônio de C. quanta há entre ele e a igreja catedral. como está escrito no Livro Extra das Decretais. o capítulo. título Sobre os testamentos e últimas disposições. [c. aprovada em 29/11/1223.lusosofia. onde está a corpo- ração dos clérigos. aliás. por igreja entende-se a igreja catedral. quando o testador diz: ‘deixo isso ao bispo e à igreja’. R. do mesmo modo que pelo termo igreja entende-se o cabido dos cônegos da igreja cate- dral. no capítulo Requisisti. nosso pai santíssimo. deve-se saber que pelo mesmo motivo que o papa morre. aquele colé- gio que elege o papa. 26]: ‘Foi-nos relatado que pela palavra igreja [não se entende] o bispo ou o sucessor do clérigo que {347} está a morrer. www. pleno do Espírito Santo.net i i i i . nesse ínterim. nem todo o povo da Igreja Romana. ‘por isso o que o bispo adquire. que. mas apenas do colégio de cardeais. mais estrita e propriamente falando. que própria e antonomastica- mente é mesma sé [354] da Igreja Romana.

por isso não pode ter acima de si um metropoli- tano’ por isso ‘de certo modo os cardeais-bispos estão no lugar do metropolitano’. Além disso. porém. que é ótimo é aquele governo civil em que há uma mistura do regime monárquico com aquele em que co-participam parte dos mais im- portantes e melhores do povo e parte de todo o povo. a reta razão também ditou aos filósofos pagãos. título Sobre a eleição.net i i i i . salvo que. 49 Por conseguinte.. pela mesma razão que toda causa. poderem or- denar àquele que elegeram que concorde com sua eleição. [c. os eleitores do fu- turo papa precedem-no ao escolhê-lo como tal. pelo que [355] a monarquia é mais útil. assim também as fraudes menores podem ser controladas pelo monarca. Daí. [IV.lusosofia. antes pode evidentissimamente alegar sua assaz notável in- capacidade como muito prejudicial a toda Igreja. 12]. capítulo In nomine. tal regime é mais aceito por www. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval.6] em que. I. o qual no livro Política. tratando-se das igrejas subalternas. enquanto tal. no capítulo Licet.. [6. Isso igual- mente concorda com que está escrito no Livro Extra das Decretais. como é possível fazer. às vezes. porque aí não se pode apresentar um recurso ao superior’. a respeito da eleição pontifícia. enquanto causa. No referido ou naquele regime em que os súditos co-participam em determinadas eleições e concelhos. De fato. em algumas circun- stâncias especiais convém que ele recorra ao conselho de muitos e dos melhores. do mesmo modo como a unidade da cabeça tem {348} força contra os cismas e as divisões. precede o seu causado. e ainda porque é mais fácil encontrar al- guém perfeitamente sábio e bom do que muitos. Alexandre III afirma que por tal razão ‘algo de especial foi estabelecido para Igreja Romana. a Aristóteles. a fim de que ‘eles provejam a eleição daquele antístite que será elevado ao ápice do cume apostólico’. e que. 1] em que papa Nicolau afirma: ‘Dado que a Sé Apostólica precede todas as outras igrejas espalhadas pelo orbe terrestre. por exemplo. E isso está em consonância com ao que está escrito na Distinção 23a .

por esse motivo. juntamente com muitos. pois é mais difícil e inadmissível que um. na Distinção 25a . Si Petrus]. i i i i 50 José Antônio de C. atesta-o abertamente a Distinção 8a . na verdade.net i i i i . ‘bispo’: ‘Se anular o que nossos antecessores estabeleceram’ cor- reta e utilmente. começou a oferecer o cargo. pois. {349} Por outro lado. que tal eleição não deva ser efetuada só pelo papa . ‘não será justamente considerado edificador. conforme atesta a Voz da verdade que afirma que ‘todo governo dividido em si mesmo será desolado’. ao dizer que ‘mediante aquele [exemplo] dado pelo bem-aventurado Pedro [prova-se]. 1a questão. 17]. 16]. na questão 1a . façam como o bem-aventurado Pedro agiu. onde está escrito que: ‘se o famoso Moisés não permite um tal e tamanho julgamento pessoal quanto a eleger um juiz do povo e a estabelecer um sucessor. nem de- vem ser utilizados em proveito pessoal. estar escrito. a re- speito daquela opinião de Graciano. [c. na Causa 8a . porque. não para a vida mas para o martírio. respeitado e garantido. porque isso seria mudar os cânones da Igreja. Daí. o que deve-se entender a respeito daqueles estatutos. capítulo Si ergo. torna-se mais deliberativo. mas destruidor. sobre os quais. viria a causar a ruína da Igreja e uma previsível dis- córdia entre os sucessores e dos predecessores. em geral. foram estabelecidos para a utilidade perpétua. cuja supressão. pois foram prefixados para o bem comum’. [c. daí os sagrados cânones determinarem que ninguém procure um sucessor para o seu cargo. mas que ele seja indicado mediante a eleição do povo. digo que no Aparato está escrito: por acaso o Pontífice pode escolher o seu sucessor? Não. possam simultaneamente errar do que um sozinho. E na questão 2a [c. A propósito. de Souza eles e ou. 3]. [Lc 11. Gregório escreve a Félix. quem irá julgar-se a si mesmo como juiz idôneo?’ www. 4]. está dito ‘que não devem ser alterados.lusosofia. a saber nos argumentos para o seu [o edi- tor ressalta que o texto está corrompido] que substituem tal suces- sor. R. ev- identemente. questão 1a [c. fazendo-se substituir Por Clemente.

do que foi exposto no tocante ao propósito em apreço. Ademais. a sinagoga foi convocada.lusosofia. o é a eleição do seu sucessor. a saber. por isso foi concorde- mente estabelecido que. conforme demonstrei no Tratado ou nas Questões dos sacramen- tos. exigia-se o necessário assentimento do povo. anteriormente para validar a eleição pontif- ícia. Ora. Requer-se. a presença do povo à ordenação de um sacerdote. isso fosse feito por al- guns homens notáveis que. por causa das inúmeras desvantagens que decorreriam. pois. de acordo com o que está escrito ao final da Distinção 19a [c. isto é. do mesmo modo. Anastasius] que ‘muitos clérigos afastaram-se da comunhão’ ou se separaram do papa Anastácio porque ‘mantivera comunhão com Fócio’. se fossem intransferíveis. e ‘porque ele quis ocultamente chamar de volta Acácio’ para sua comunhão. ao contrário. agora. sequaz do herege Acácio. lê-se aí. o próprio Josué [Arão]. foi ferido por Deus. igual- mente deve possuí-la ao aceitar a renúncia do papa. pela mesma razão que o colégio de cardeais goza de uma força superior ao substituir o papa. 51 Item no capítulo precedente [15] Jerônimo diz que: ‘embora [o Senhor] tivesse ordenado a Moisés que escolhesse um dirigente’. a fim de que todos saibam.. ao menos quando ela é simultaneamente é necessária e útil. afirmando que. Portanto. ao con- www. pelo que. são designados por cardeais. foi conveniente e útil que as jurisdições fossem transferíveis no tocante às pessoas a quem são dadas.. se por acaso o papa caísse pública e pertinazmente em heresia não lhes caberia precipuamente discernir isso e julgar? Certamente que sim. Essas são as palavras de Jerônimo. acerca desse julgamento. no lugar de todos. porque aquele que é escolhido para o sacerdócio é mais superior. mais poderiam ocorrer muitos perigos inconvenientes [356]. eles próprios teriam um motivo mais forte para o fazer. e tal coisa deve ser por ele confirmada’. argumento. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. douto e santo do que todo o povo. em seguida à morte do papa. que a juris- dição papal e episcopal é e deve ser transferível. ‘todavia. Logo. há que saber que. se. {350} Quanto ao terceiro tópico principal.net i i i i .

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trário, do que acontece devido aos múltiplos benefícios decorrentes
de sua transferibilidade. Ora, é óbvio que, devido aos vários condi-
cionamentos desta vida corruptível, toda pessoa pode normalmente
ser afetada por alguma deficiência da mente e do corpo, que a torna
completamente inútil, nociva e perigosa para exercer o cargo para
o qual foi escolhida, por exemplo, se perder a razão, ou se abraçar
pertinazmente uma heresia , ou se praticar descarada, incorrigível
e apatifada todo tipo de impudicícia ou se devastar e exterminar a
Igreja com uma raiva lupina, ou se, ainda ficar cega, muda e surda,
e demais situações semelhantes.
Item, em geral, apenas em razão da terra e do povo, em geral,
foi útil transferir as jurisdições duma região para outra e os gov-
ernantes de um povo para outro. Às vezes, por vários motivos,
também foi conveniente ou restringi-las ou ampliá-las, e, por isso,
na Distinção 7a , na questão 1a [c. 34 Mutationes episcoporum],
o papa Antero escreveu a todos os bispos: ‘Sabei que as trans-
ferências dos bispos são lícitas e devem ser feitas em proveito da
utilidade e necessidade comum, não por causa da própria von-
tade ou da dominação de qualquer um. São Pedro, nosso mestre
e príncipe dos Apóstolos, [357] se transferiu da cidade de Antio-
quia para Roma, para que aí mesmo pudesse ser mais útil’, e, por
último, acerca disso, tendo dado outros exemplos, acrescenta: ‘De
fato, uma causa é a utilidade, outra é a avareza e a presunção,
outra, ainda, é a própria vontade’. E aí mesmo há muitos outros
capítulos sobre este assunto, em que se nota que o bem-aventurado
Pedro mudou a sé papal de Antioquia para Roma, por causa duma
utilidade evidente.
Além disso, se Roma e toda a terra dos Latinos fosse devastada
e ocupada pelos Sarracenos e outros infiéis, e se os católi- {351}
cos tivessem necessidade de viver noutro lugar, se o papa cogitasse
ser necessário mudar a sé papal para tal lugar, face a tais circun-
stâncias, acolhendo a deliberação da Igreja, a respeito disso e com
o seu assentimento, por acaso não lhe seria lícito transferi-la?

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A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval... 53

Portanto, do que foi exposto, no que concerne ao assunto em
exame, demonstro, afirmando: tudo o que na Igreja é modificável
e, às vezes, é útil e necessário ser modificado, e tal mudança pode
ser lícita e retamente efetuada pelo papa e pela Igreja, deve ser
aceita. Ora, como é evidente no caso do papa que cai publica e
pertinazmente em heresia, a jurisdição episcopal e pontifica são
transferíveis. Logo, todas as vezes que é necessário e útil transferi-
la, isso pode ser ordenado e feito pelo papa e tem de ser aceito pela
Igreja.
Com respeito ao quarto tópico principal, é preciso saber que o
poder papal é constituído pelo poder sacramental da ordem sacer-
dotal e episcopal, sem o qual o papa não pode celebrar missa nem
conferir as ordens, e pelo poder jurisdicional, graças ao qual é o
prelado e juiz ordinário e próprio de todos os cristãos e Igrejas, e
a quem todos têm o dever de obedecer. Entretanto, esse segundo
poder não está essencial ou inseparavelmente coligado àquele, nem
vice-versa, pois, se alguém for eleito papa, graças à eleição, ainda
que não seja sacerdote, possui toda jurisdição pontifícia, entre-
tanto, não tem os graus sacerdotal e episcopal do sacramento da
ordem. Todavia, se já era sacerdote e bispo, possuía tais graus
sacramentais, mas não tinha a jurisdição pontifícia.
Além disso, a colação dessa jurisdição não imprime um caráter
sacramental, como o faz a colação daquele sacramento, no tocante
aos graus sacerdotal e episcopal, daí a colação da predita jurisdição
não possuir um fundamento sacramental, como é o caso dos men-
cionados graus da ordem.
Ora, do que foi dito é óbvio que a plenitude do poder papal não
é inerente nem está ligada à pessoa do próprio papa; em primeiro
lugar, porque integram-na duas coisas não co {352} -essenciais
para si, nem inseparáveis, nomeadamente, a jurisdição e a ordem.
Em segundo lugar, pelo fato de a própria jurisdição não se fun-
damentar num caráter inerente, como é o caso dos graus sacerdotal
e episcopal do sacramento da ordem, daí tais graus não poderem ser

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suprimidos por causa da heresia, ou da deposição ou da renúncia.
Mas, toda jurisdição eclesiástica é retirada de alguém que tenha
evidentemente proferido uma heresia, [358] pois, se esta separa o
ser humano da unidade do corpo eclesiástico e da cabeça de Cristo,
com muito mais razão deve ser-lhe retirada por ser a cabeça de todo
o corpo eclesiástico.. Todavia, o motivo principal que levou alguns
a duvidaram de que o papa não podia renunciar à jurisdição pon-
tifícia era porque acreditavam que essa jurisdição fosse inerente
à própria pessoa e nela tivesse sido impressamente colada. Logo,
dessas duas premissas fica evidente que seu principalíssimo suporte
é falso e falacioso.
Portanto, refuta-se o primeiro argumento, dizendo que mais
forte do que um vínculo espiritual é a dignidade e a utilidade e,
também, que, para a sua dissolução não basta apenas o consen-
timento mútuo entre o bispo e sua igreja, como para o cumpri-
mento da obrigação quanto ao débito conjugal e à coabitação dos
cônjuges é suficiente a anuência recíproca e o compromisso fir-
mando entre eles. Aliás, para mais, a consumação do matrimônio
é mais forte e indissolúvel, dado que sempre serão cônjuges, de
maneira que não podem vir a ser separados nem pelo papa, ainda
que venham a cometer uma heresia. Entretanto, um bispo pode ser
transferido duma diocese para outra pelo papa. Todavia, naquele
documento, Inocêncio fala apenas sobre o primeiro modo, con-
forme é evidente de suas próprias palavras. Quanto àquilo a que
o Papa Evaristo aduz, só se aplica quando abandona a sua igreja
ou vice-versa. No tocante ao que o papa Gregório acrescenta –
‘não podemos dar-lhe’ –, a menos que o bispo solicite a cessão, há
que ser entendido assim: não podemos fazer isso de maneira justa
e sem cometer pecado, todavia, se ele fizer, está feito. Mas disso
não decorre que o papa {353} não possa depô-lo, se o seu delito
assim o exigir. Por outro lado, no que concerne ao que é acres-
centado ao argumento, a saber: que ninguém possui a autoridade
divina para dissolver o próprio casamento, é verdade, tratando-se

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e Cipri- ano falava contra isso e outras coisas semelhantes. aquilo que foi dito por Cipriano. cismaticamente. o que. mais ainda. na verdade. como era o caso de Novaciano contra o Papa Cornélio. como acima foi comprovado. deve ser enten- dido. da maneira acima referida de passagem. igualmente também o pode fazer em si próprio. ele obviamente carece de fundamento. Por outro lado. porém. 55 do vínculo de um casamento carnal. aliás. quando um outro cismaticamente tenta substituir o papa contra a vontade dele. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. muitas vezes ocorre. creio que essa deposição antes seria à maneira duma renúncia do que propriamente uma conde- nação judicial. porque qualquer pessoa livre pode renunciar o seu direito.. o que. Ora. afirmando que renunciar não é um ato que exija haver um superior acima daquele que renuncia. pela mesma razão que. Rebate-se o 2o . Responde-se ao 3o argumento. ao professar abertamente uma heresia. qualquer bispo. nem diferiria da simples renúncia. não o é. os cardeais gover- nam no lugar do superior ao eleger o papa. o que será tratado mais amplamente ao analisarmos o caso especí- fico. então. ao consagrá-lo e ao aceitar a sua renúncia.. se depusessem o papa por causa de al- gum crime [que tivesse cometido]. a partir do que foi explanado. desde {354} que www. Além disso.net i i i i . os cardeais governam no lugar do superior.lusosofia. dissolve- o em si mesmo. Ademais. contudo. dizendo que. Para mais. pois. pois. em razão do bem comum que prevalece sobre o particular. a não ser por aplicar-se ao crime [por ele] cometido. ao coagi-lo precepti- vamente a concordar [359] com sua eleição. o papa. mas apenas a liber- dade. referindo-se ao vínculo de um matrimônio espiritual. ante uma im- periosa necessidade da Igreja. pode dissolvê-lo noutros bispos. admite-se que tal assertiva seja verdadeira. quando tratar-se de um papa que não renuncia. naquela circunstância. graças à autoridade divina. era um papa de pseudoforma. que. é óbvio. a menos que naquela situação esteja subordinando ao seu superior.

isso não deve ser literalmente entendido. dado que o papa não tem um superior. Rebate-se o 4o argumento. embora. de modo que absolutamente não possa usar de sua liberdade. a respeito que o poder e a sé a pontifícias provêm de Deus. a proposição inicial não é verdadeira. Aliás. não provêm menos de Cristo nem são menos divinos do que se tivessem sido diretamente colados por Cristo. Ninguém deve ficar admirado com isso. a qual imprime nele um sinal imutável. tal pessoa poderia dar aquelas coisas a outrem ou abrir mão delas. o que também se acrescenta naquele passo. afirmando que a proposição ini- cial tem muitas acepções. www. isso não signifique que seja menos divinos do que se proviessem apenas de Deus. sem a colaboração de al- guma causa ministerial. para poder renunciar. Com efeito. por causa do pecado cometido pelo ser humano pode ser aniquilada e. se Deus por Si mesmo e diretamente desse algum reino ou um castelo ou uma casa ou um livro a alguém. que nessa situação. qualquer um pode livremente abrir mão e seu próprio direito e de seus bens. i i i i 56 José Antônio de C.lusosofia. e muitas vezes. Igualmente também. de fato. e que implica uma obrigação que só pode ser dissolvida por Ele. R. os sacramentos da ordem e do batismo dados a alguns através do ministério de Pedro ou de outrem.net i i i i . alguém esteja-lhe de tal modo subordinado enquanto tal. Por outro lado. pois. Com efeito. senão ao referir-se a uma graça dada por Deus a alguém. não precisaria da aqui- escência de aleguem que fosse o seu superior. o efeito natural das causas segundas não é menos diferente daquele que é produzido pela primeira. o é. a primeira é que a graça provém apenas do uso do livre-arbítrio divino. e. contudo. caso esse efeito só ocorresse por seu inter- médio e sem que houvesse a concomitância das causas segundas. Logo. sem o min- istério deles. tal procedência ocorre mediante a eleição dos cardeais. é óbvio que estando a gozar de sua liberdade da vontade. ainda mais porque tratando-se dos sucessores de Pedro. de Souza haja um superior e.

isto é. bem como à Igreja para aceitá-la e para o substituir por outro. dupla é a re- sposta. De fato. Primeira: o papa que renuncia não transfere o sumo pon- tificado de si para outrem. porém. o qual é aniquilado. de acordo com o que está na Distinção 7a . mas antes um outro poder.lusosofia. Mais tarde. não é maior do que a sua sé. daí na Epístola aos Gálatas. sem que esteja a gozar da autoridade divina que lhe foi dada.net i i i i . Paulo dizer: ‘que me tinha sido confiado o apostolado para os gentios. [c.. conforme o papa Antero diz. a saber. tornar-se inútil ao governo das Igrejas. mediante a qual pode renunciar. logo após a morte de Cristo aquela sé esteve primeira- mente em Jerusalém. o reino e seu poder régio e o direito que tem sobre ele. é maior do que a sé papal enquanto impera e a preside. Mas. 57 Contesta-se o 5o . declarando que o poder pontifício pode ser considerado em si mesmo e. depois. a força seminal que contribuiu para isso www. sob esse aspecto. ela foi transferida e Pedro teve-a em Roma. inicialmente. Com respeito àquilo que é aditado. A segunda: porque a sé petrina foi transferida duas vezes. e. A segunda: posto que. com referência à diuturnidade de perdurar. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. ainda. a liberdade ou a licença da pessoa no tocante a cedê-lo. que nenhum poder é estabelecido para a sua destruição. como a Pedro para os circuncidados’. capítulo Mutationes. De fato. Pedro teve-a em Antioquia. através do ato de renúncia. e supra foi tratado.. é óbvio que um rei pode ceder sua própria possessão. conforme o texto sagrado. de Jerusalém para Antioquia. É verdade. dado que a pessoa do papa mais facilmente pode enfraquecer-se do que a Sé Romana. nessa perspectiva. tripla é a resposta. é ev- idente que. que nem nele o poder e a propriedade reais e tampouco no papa que renuncia tais poderes aniquilam-se a si próprios. qual seja. formado o corpo humano. que a Sé Romana não pode ser mudada senão por Deus. A primeira é como se se tratasse de um assassínio. questão 1a . capítulo 2o [8]. ou pode ser conside – {355} rado no tocante à pessoa em que está e. porém. [360] Quanto àquilo que igualmente se acrescenta. 34].

quando o papa renun- cia. de Souza deixa de existir. é aniquilado. porquanto sua virtude. mas antes é mais exato afirmar que ele perpetua-se no bem comum finalmente alcançado do que é aniquilado. apenas porque no papa [361] cessa o poder de conservá-lo. na plena formação do corpo. aniquila-o. Algo semelhante pode-se falar com referência a todo movimento que. sempre deixa de existir. esse poder subsistiria e passaria ao seu sucessor. porque está a supor-se que o papa permaneça como tal e. Ademais. R. assim. A primeira: diminuí-lo. mas pelo fato de que o poder de di- vino. Quanto àquilo que. A terceira: ou o poder pontifício tal qual foi dado e conferido ao papa. não por causa disso. é idêntico ao poder divino e assim estaria formalmente impresso nele. separada do corpo. tampouco anular. enfim.lusosofia. destruir-se. igualmente em razão dum bem comum maior. i i i i 58 José Antônio de C. e então. que o poder do papa não pode diminuir a si próprio. isso não acontece quanto à sua anulação na pes- soa singular do papa. conserve o poder pontifício. falava- se que o poder pontifício aniquila a si próprio no tocante à pes- soa do papa. quer dizer. por conseguinte. nomeadamente. diminuição implica uma con- tradição. entretanto. ou. Digo. um enorme inconveniente e prejuízo à Igreja. e assim tende à auto-aniquilação. além desse poder. o poder papal é o mesmo que o sumo poder da Igreja e na Igreja. também se aduz. Ora. quando o papa morresse ou renunciasse. à semelhança do que acontece quando ele morre. a re- sposta é dupla. que é anexo ao pontifício.net i i i i . mas antes nele manter-se. poder dimin- www. se Deus o quiser poderá conservá-lo na sua alma. logo. ao atingir sua meta final. implica uma contradição e. não deve. resultado final {356} e intenção de perfeição. mas. per- manece em seu efeito último. para qual nec- essariamente segue a sua destruição. de outro. por outro lado. aniquila-o. uma vez que espontaneamente propende à formação do corpo. Com efeito. de modo que nele não ocorreria nenhuma mudança concreta. aí também há um outro que foi produzido. que perece. de um lado.

lusosofia.. por esse motivo. pois a unidade permanece na Igreja. quando o papa renuncia. Ora. anulá-lo é mais legítimo e menos deficitário do que diminuí-lo daquele modo. então a unidade da Igreja seria destruída e a sua cabeça seria trans- formada em muitas cabeças e igrejas gerais. se isso ocorresse conforme o segundo modo. De acordo com esse modo. declarando que uma novidade pro- fana é a mesma coisa que uma novidade irreligiosa. pois ou esse poder seria diminuído a tal ponto. ocasião é o papa. e igualmente ao conjunto da totalidade das criaturas. a diminuição do poder pontifício diria respeito não só à pessoa do papa. seja por subsistir no sucessor. seria o mesmo que o sumo e o não–sumo. e outra. então aquela plenitude da utilidade. é anulá-lo no que con- cerne à pessoa que. deixaria de ser pleno. De outro lado. e ela teria uma forma e uma composição monstruosa. repartindo-o [357] entre muitas pessoas. ao pressupor que há maior an- ulação do que redução do poder. A segunda: uma coisa é anular o poder papal no tocante à Igreja em todo o tempo. ou seria diminuído com uma compensação. a proposição ou suposição é falaciosa. mas também à comunidade eclesiástica e. conforme foi exposto. se fosse diminuído. Contesta-se o 6o argumento. Por outro lado. sem que sua redução fosse compensada por algo equivalente. na ocasião em que diminuísse. ao substituir-se o papa que renunciou ou que morreu. por exemplo. Entretanto. daí ser chamada www.. isso implica enormes danos e inconvenientes. por um outro. como se houvesse muitos papas. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval.net i i i i . da honra e do decoro e da imagem para a Igreja ou para a arquia ce- leste que ele possui [decorrente] da plenitude do poder pontifício. em determinada. 59 uído é o mesmo que o não–sumo. a saber: uma Igreja geral teria muitas cabeças e seria contrária ao exemplar da hierarquia celeste e em que só Cristo uno e único é a sua cabeça. segundo o primeiro modo. bem diferente. Logo. seja por ficar na força que escolhe e substitui o sucessor. não se anula o poder pontifício. pois con- soante o modo predito.

estava casualmente e. porque está distante de phano. na qual. Igualmente. conforme. de Souza profana. Daí. mas. pelo fato de que ambos tinham celebrado um matrimônio espiritual. R. neste 13o centenário da Encar- nação de Cristo ter florescido em Francisco e em seu estilo de vida a Regra e a religião evangélica. por causa da explicação aparente. Inocêncio III ter afirmado que voltava a explicar que a translação dum [bispo] confirmado. a Nova Lei de Cristo quanto aos seus preceitos e artigos eternos. na decre- tal que principia com as palavras Inter corporalia. mediante {358} o qual foram decre- tadas não é novo ou recentemente estabelecido. [362] segundo essa modalidade. o que podemos comprovar mediante o transcorrer da própria [História] da Igreja. algo é novo em si. e. através dos tempos. e de acordo com essa acepção a palavra. por isso o poder causal. aprovadas por ordem da Sé Ro- mana e de seu poder pontifício. dado que Inocêncio III pôde nova- mente esclarecer tal questão. nunca seria possível explicar as sublimes verdades da fé católica. estavam prévia e casualmente no poder de- les. em seguida acrescenta. porém. bem como a transferência dum outro já consagrado eram da competên- cia exclusiva do papa. Também. Celestino www.lusosofia. às vezes. antes. é opor- tuno saber que algo é chamado de novo. não. Logo. Caso contrário. na mesma ocasião. mas não o é em sua causa. muitos efeitos novos provêm de Deus e de causas naturais. conquanto ainda não tivesse sido consagrado. na santa Igreja de Deus. embora não da mesma maneira. do santuário de Deus.net i i i i . aquelas que estão em consonância com a segunda e a terceira acepções do termo. há pouco. i i i i 60 José Antônio de C. toda novidade irreligiosa poluidora e violadora do santuário di- vino deve ser afastada da Igreja de Cristo. simultaneamente foi nova. aliás. isto é. no que se refere à exemplificação que antes havia na Antiga Lei ou na mente eterna de Deus. e muitas leis que foram promulgadas pelos reis e pontífices. conforme a sua existência e verdade oculta e im- plícita era antigo ou eterno. convém saber que. assim também. Portanto.

ou que o papa não poderia legislar ou promulgar um novo decreto sobre isso. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. mas a nosso favor. às vezes. quanto a uma inovação supersticiosa. Com efeito. além do próprio papa. dizendo que uma coisa é renunciar. a saber: que ‘nunca’. No entanto. ora. ou que não podiam fazê-lo. tratando-se de algo que não está explici- tado’. havendo uma causa razoável.lusosofia. algum metropolita pudesse trans- ferir alguém eleito bispo para uma outra {359} Igreja. o argumento não está contra. e outra coisa ainda própria e simplesmente julgar-se. e em razão disso e de outras coisas semelhantes entende-se o que ele acres- centa. os decretos de todos os Padres da Igreja dizem expressamente que o papa pode promulgar novas leis. salvo se ele conceder expressamente essa competência ou mediante um decreto. o papa pode renunciar ao papado. como era a questão que estava sendo tratada pelo papa. vã e presunçosa. [363] Mas quanto àquilo que é acrescentado a respeito de Clemente. ‘deva ser entendido como tendo sido proibido. convém saber que é chamada assim aquela é supér- flua. Quanto àquilo que se diz que o papa propriamente não pode jul- gar a si próprio. tampouco aquilo que está implicitamente em sua causa e raiz e que foi aprovado pelos santos padres deve ser entendido como não ter sido sancionado por eles.. responde-se. isso é verdade. depor ou absolver os bispos. todas vezes que fosse necessário e útil. porém. e explicar o que nelas está implícito. desde que não sejam contrárias à lei de Cristo. 61 pôde novamente explicar e demonstrar que. outra julgar-se na condição de renunciante ou de penitente. a saber: que sem a aprovação do Romano Pontífice. isto é. não é lícito a ninguém. refuta-se dizendo que ou Clemente e alguns outros renunciaram ou não. Se renunciaram.. poderiam fazê-lo. Todavia. a saber: se quisessem renunciar. no tocante ao ar- gumento em exame. Se não renunciaram.net i i i i . disso não segue. no tocante àquelas coisas que são ilícitas de direito. conforme a primeira www. é suficiente afirmar que. o que Inocêncio acrescenta. salvo se forem expressamente concedidas. Ora.

23]. há um grande sacramento entre Cristo e a Igreja. que na condição de vigário de Cristo www. de acordo com o Apóstolo. no tocante à Igreja de Deus e ao bem comum. os papas santos pudessem fazer ou tives {360} sem feito isso e. da parte dos súditos não é tratado com a mesma reverência devida que se prestava ao antecessor. Mas se contra o predito argumento. e às vezes. durante as eleições. graças a essa segunda modalidade de poder. é tomado por poder ordenado e falamos: só podemos fazer algo. refere-se ao poder abso- luto e. não poderiam lícita e santamente fazer tal coisa. seja porque a destituição e a sucessão muito freqüentes prejudicam o governo previdente e circunspeto. até aí. De fato. logo esta é mais indissolúvel do que aquele que houve entre Adão e Eva. sem haver uma ne- cessidade e utilidade evidentes.net i i i i . Afirmo. [Gn 2. sem haver uma necessidade não só quanto a eles próprios. que todo pontífice. Ora. entretanto. etc. não fizeram tal coisa. às vezes. de Souza modalidade. na Carta aos Efésios 5 [30-32]. a cessão pontifícia da Igreja de Cristo freqüente e corriqueira é-lhe é muito perniciosa. R. não se entende que. por força da disposição divina e do vínculo conjugal. a saber: que é possível e. Ao 7o argumento deve-se responder uma outra coisa. dizendo que. afirmamos que um sacerdote mau e herege. graças ao poder absoluto. e. i i i i 62 José Antônio de C. seja por causa dos inúmeros riscos de cisma que podem sobrevir e da ambição que pode ocorrer. então. como alguém argüia. aquela frase de Adão: ‘agora é osso dos meus ossos’. graças ao direito. embora fosse lícito aos papas santos renunciar. principalmente. e por isso será mais indissolúvel entre o papa e a Igreja e. deposto ou excomungado pode consagrar o corpo de Cristo. o novo governante não é considerado experi- ente e circunspeto ao governar. da parte de seus pares. mas. e precipuamente o papa. tem o dever de respeitar. e que um bispo herege ou simoníaco pode consagrar e conferir ordens.lusosofia. pois. pois. em direito é conhecido como poder. e serão dois numa carne. por essa razão. o papa pode julgar-se e submeter-se ao julgamento de outrem.

graças ao poder absoluto. A 5a é o impedimento dum escân- dalo grave. www. Inocêncio III apre- sentar as causas para a renuncia: a 1a é ‘a consciência do crime pelo que se impede que exerça o seu próprio cargo. contudo não o pode. como se aí houvesse uma semelhança omnímoda e adequada. quer dizer. título Sobre a renúncia. capítulo Nisi. I. quer dizer. e ele fala de um escândalo da parte do próprio pastor. que efetivamente é o esposo ín- timo e eterno das almas e de toda a Igreja. se for bígamo ou marido de viúva. pelo contrário. depois de ter cumprido uma penitência’. 9]. [c. mas aquela que é impossível de ser corrigida exclusivamente por tal pastor. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. e ainda que fosse tão grande com papa. de modo que algum dia possa convir-Lhe dissolver Seu casamento com a Igreja. de Quem separar-se é simplesmente cometer adultério. mas com Cristo. no Livro Extra das Decretais. da mesma maneira como pode ocorrer com um bispo e com o papa. não pode sempre e licitamente ceder e sem haver culpa. A 6a é a ‘irregularidade da pessoa’. sem qual não é lícito fazer isto. ela é em parte vã. nem tampouco pode haver algum motivo útil e necessário da parte de Cristo. por força do poder ordenado. rebate-se afir- mando que Paulo não disse que há um grande sacramento com papa. 10. Daí. ‘não sanável’. ou será que a alma de Cristo {361} não é tão semelhante a Deus que Lhe falte ao infinito uma adequada semelhança? A resposta ao 8o argumento é dupla. A 4a é ‘a maldade do povo’. a não ser pela ‘cessão’ do pastor. A 3a é a falta de ‘sabedoria e discrição’ necessárias para exercer tal governo. dado que não é mais capaz de suportá-la. A 7a é se foi anteriormente informado por ele. 63 governa-a [364] em seu lugar como se fosse Ele.lusosofia.. Primeira: embora [o papa] possa fazer isso. pendente há bas- tante tempo. isto é. não qualquer uma. não seria tanto quanto em Cristo. Nem se deve entender que o papa nesses e noutros aspectos governa no lu- gar de Cristo..net i i i i . advertido pela autoridade papal. A 2a é ‘a debilidade física pela qual torna-se impotente para exercer o ofício pastoral’.

com {362} forme [365] é evidente.lusosofia. próximo do final dos tempos muita coisa que. de maneira que. então. novas leis são aditadas por causa dos novos casos emergentes nas inúmeras ocasiões. ao haver uma dúvida geral na Igreja e acerca questão haver partidos que têm opiniões con- trárias. como também a respeito da maneira quanto a pro- ceder a eleição pontifícia. capítulo 24. capítulo 43. desde o início. [10s]. a menos que lhe pareça. Contesta-se o 9o argumento. Por outro lado. R. ao final do c. julgo que a renúncia do papa não teria validade. por esses motivos. no IV Livro dos Diál- ogos. deve-se www.net i i i i . Responde-se ao 10o . de maneira que. não ter sido feita nenhuma alusão a esse assunto. Todavia. assim também o foi em seguida à renuncia. [6s. nesta época recentíssima.]. desde o início. ser inútil. segundo Gregório. outrora. dizendo que não. estava oculta. Daí. tudo tivesse sido estatuído e promul- gado. se não tivesse sido aceita em consenso pe- los cardeais ou efetuada acordo com a antiga forma previamente ordenada pelo papa e sido acolhida pelos cardeais e pela Igreja. de Souza A segunda resposta: assim como o eleito papa pode ser pre- ceptivamente coagido a concordar com a aceitar a sua eleição. mediante a qual seria claramente explicado por que o papa pode renunciar ao papado. dado que. e da lei quanto a retardar a fase até o segundo mês por causa da impureza do tato decorrente do mor- ticínio. Ao contrário. absolutamente não possa ser obrigado a tanto. conforme o costume primitivo. por causa disso. assim também. i i i i 64 José Antônio de C. no que respeita ao caso do blasfemo que se encontra no Levítico. [PL 77: 397. tendo sido necessário prefixar a eleição papal. Com efeito. perigoso e inepto para exercer tal ofício. capítulo 11. é iminente um perigo geral de cisma e de erro. ocorreram muitos interesses e ambições. Ora. pois uma lei antiga e uma nova não são simultaneamente estabele- cidas. será e há de ser revelada. afirmando que. desde o início. caso. 40 e início do 41]. não foi sem ter havido uma causa que a ocasião foi permitida ou dada por Deus. tudo deve ser estatuído e promulgado no seu momento oportuno. que acha-se nos Números.

Daí aquela a antiga lei sobre a sucessão dos pontífices contemplar o que mais comumente ocorria. capítulo 30 [PL 158: 317–318. Com efeito. disso não se segue que tal ato não seja verdadeiro e não tenha sido legitimamente definido. no caso em apreço. Por outro lado. [366] Além disso. cardeais e demais peritos em direito que atuam na Cúria romana. quando se tratar de uma questão bastante profunda que gera perplexidade. o sacerdócio da nova lei é mais imutável no espírito e segundo o espírito pelo fato de que o novo não sucede o novo. e. os casos particulares requerem a discrição e a moder- ação dos juízes e dos governantes sábios. no tocante às demais heresias. face a muitas outras exceções consideradas pela lei. a Igreja Grega não foi convocada para tal. Assim também. especialmente.lusosofia. nada disso aconteceu. sobre o que Anselmo apresenta um argumento semelhante no livro Sobre a processão do Espírito Santo. contra as quais foram reunidos Concílios Gerais. seria julgado por uma lei extraordinária respeitante ao oficio sacer- dotal.. uma discussão e uma aprovação solene.. dizendo que. pois. na verdade. Ademais. embora o papa estivesse vivo. pois Cristo faz mais e precipuamente obras es- www. a qual acima de tudo exige um exame. o próprio sacerdócio de Cristo está em todos os sac- erdotes da Nova Lei. i i i i A Renúncia do Papa na visão de um Pensador Medieval. De fato. as leis consideram o que mais comum e freqüentemente acontece. que a verdade a seu respeito não pudesse ser plenamente declarada pelo papa. quando a Igreja Latina acrescentou ao maior si {362} mbolo [da fé] que o Espírito Santo procede do Filho. em razão do qual foi celebrado o Concílio niceno e assim também. con- vinha dar-lhe um sucessor. c. tal como ocorreu contra a heresia de Ário. na maior parte dos casos. nem era de tamanha obscuridade e profundidade. sobre isso não havia sido concitada nem ventilada nenhuma dúvida. 65 convocar um Concílio Geral e. Ao 11o refuta-se. embora fosse melhor e mais solene que tal declaração tivesse sido feita num Concílio Geral. Mas. por força das mesmas. 22].net i i i i . se o pontífice se tornasse leproso ou cego.

Amém. R. dado que não podia ser transferido da estirpe de Arão para uma outra. de Souza pirituais do Seu sacerdócio através deles e do seu ministério opera neles. limitadamente. depois de pesadas em todos os aspectos. Por isso. Aliás. portanto. na Carta aos Hebreus. sob tais circunstâncias. i i i i 66 José Antônio de C. o antigo sacerdócio era segundo a carne e. isto seja mais útil à Igreja dos eleitos e assim. A par- tir do que foi dito. de maneira que por causa disso não venha a ocorrer nenhum escândalo notável. ou pelo menos. capítulo 7 [23-25]. vivendo sempre para interceder por nós’. afirmando que sem haver uma dúvida. o Apóstolo diz: ‘Muitos foram feitos sacerdotes’ segundo a lei. Por isso pode salvar perpetuamente os que por Ele mesmo se aproximam de Deus. mais imóvel. responda ao motivo de escândalo a ser suscitado pelos réprobos.lusosofia. e tudo o que realizam tem um fundamento no sacerdócio de Cristo.net i i i i . ‘porque permanece para sempre. senão por uma enorme e evidentíssima necessidade e. ‘pelo que estavam proibidos de permanecer na morte’. www. Cristo. responde-se ao 12o argumento. tem um sacerdócio sempiterno. essa cessão não deve ser feita.