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Aspectos orofaciais dos maus-tratos infantis

ARTIGO ARTICLE
e da negligência odontológica

Orofacial aspects of childhood abuse and dental negligence

Andreza Cristina de Lima Targino Massoni 1
Ângela Maria Brito Ferreira 1
Ana Karla Ramalho Aragão 1
Valdenice Aparecida de Menezes 2
Viviane Colares 2

Abstract The aim of this paper was to identify Resumo O objetivo deste artigo foi identificar os
the main oral and dental aspects of childhood abuse principais aspectos orofaciais dos maus-tratos in-
and dental neglect, contributing to the identifi- fantis e da negligência odontológica, contribuindo
cation of these victims in a dental office. A biblio- com a identificação destas vítimas no ambiente
graphic research was carried out, in ADOLEC, odontológico. Foi realizada uma pesquisa biblio-
MEDLINE, LILACS and BBO databases. The fol- gráfica nas bases de dados Adolec, MEDLINE, LI-
lowing key words were used: child abuse, oral LACS e BBO. Utilizaram-se como descritores:
manifestations, dentists; role; liability, legal. It was maus-tratos infantis, manifestações bucais, odon-
verified that violence against children happens tólogos, papel (figurativo) e responsabilidade legal.
in general at home and the resulting orofacial Verificou-se que os maus-tratos infantis aconte-
injuries encompass: injuries, burns and lacera- cem em geral em domicílio e os ferimentos orofaci-
tions on soft and hard tissues, bite marks and ais decorrentes incluem trauma, queimaduras e
gradually-healed wounds. It can have wounds in lacerações dos tecidos duros e moles, marcas de
other parts of the body next to the oral cavity, mordida e hematomas em vários estágios de cura.
such as periorbital wound and nasal injury. Re- Pode haver ferimentos que envolvem outras partes
garding sexual abuse, many victims do not present do corpo próximas à cavidade bucal, como hema-
any associated physic signs; therefore, behavioral toma periorbital e contusão nasal. Quanto ao abuso
indicators must be observed. The immediate rec- sexual, muitas vítimas não apresentam nenhum
ognition and report of childhood abuse and den- sinal físico associado; assim, indicadores compor-
tal negligence by dental surgeon are essential for tamentais devem ser observados. A imediata iden-
children protection. Therefore, it is critical to tificação e o relato de maus-tratos infantis e da
define more effective action from those profession- negligência odontológica pelo cirurgião-dentista
1
Pós-Graduação em
als, by registration and denunciation of suspect são essenciais para a proteção das crianças, sendo
Odontopediatria, Faculdade
de Odontologia, cases to child protection agencies. fundamental uma maior atuação destes profissio-
Universidade de Key words Child abuse, Oral manifestations, nais, através do registro e denúncia dos casos sus-
Pernambuco. Av. Genreal
Dentists, Role, Liability, Legal peitos às agências de proteção à criança.
Newton Cavalcante 1650,
Tabatinga. 54753-220 Palavras-chave Maus-tratos infantis, Manifes-
Camaragipe PE. tações bucais, Odontólogos, Papel (figurativo), Res-
andrezatargino@gmail.com
2
Faculdade de Odontologia,
ponsabilidade legal
Universidade de
Pernambuco.

critores maus-tratos infantis. visto que a noti. os dados epidemiológicos sobre da odontologia deveriam está atentos. medo de tratar com os pais adultos que supostamente deveriam protegê-las.6. mas apenas registros esparsos de Objetivo serviços isolados ou de pesquisadores. que resulta em ferimento ou dano emo. Foi utilizado tam- formas inadequadas de nutrição. por têm o hábito de denunciar ou registrar casos sus- ação ou omissão. (13-18 anos). Já o abuso sexual envolve toda a lar (2-5 anos). problemas para os quais todos os profissionais No Brasil. os maus-tratos infantis representam são negligentes. ou ser chutada. Introdução Alguns estudos demonstram que a maioria dos ferimentos decorrentes dos maus-tratos in- A infância é vista tradicionalmente como uma fantis envolve a região orofacial: cabeça. cam o cirurgião-dentista em uma posição opor- to de qualquer forma de negligência. lactente (1-23 meses). ção.7.15-18. que não traduzem a realidade atual.15. aos seus direitos fundamen. odontólogos.13. cais. não existindo estatísticas nacionais fidedignas sobre o tema. a pelas quais os cirurgiões-dentistas não relatam o violência e a negligência são partes da vida diária.404 Massoni ACLT et al. publicado pelo Ministério da Saúde1. Tsang e Sweet10 acrescentaram que os dados estatísticos Metodologia sobre o abuso infantil são de difícil obtenção por este ser um comportamento “secreto”. O abuso De forma combinada utilizaram-se como des- emocional inclui atos que podem conduzir a de. muitas vezes. peitos de agressão infantil2. dispõe no seu artigo 5.3. Enquanto a negligência po de 25 anos (entre 1983 e 2008) e os idiomas refere-se ao prejuízo ou risco como resultado de português. crueldade e opressão. exploração. aque- da Criança e do Adolescente. jogada. bém o Estatuto da Criança e do Adolescente. face. mentar em até cinco vezes a possibilidade de reco- gligência (abandono e o não-oferecimento de nhecer os sinais de agressão e negligência à crian- necessidades básicas) ou o abuso físico. considerando o intervalo de tem- sual) junto à criança2. Entretanto. emocio. e o Estatuto e pescoço2. Estes são entendidos como a ne. violência. pré-esco- amarrado)5. sabilidade legal. o tratamento odontológico. manifestações bu- sordens emocionais em longo prazo.9.15. ou golpeada pelos responsáveis. contribuindo em nosso país. além disso.6-8. ça pelos profissionais da odontologia2. citam-se a falta da confiança e não ocorrem apenas nas ruas. desconheci- seus próprios lares. inglês e espanhol.10. a rejeição. tendo como limites recém-nas- nições não físicas inadequadas (por exemplo. percebe-se que os maus- criança.12. Apesar da pais aspectos orofaciais dos maus-tratos infan- violência doméstica junto à criança ser frequente tis e da negligência odontológica. abuso de crianças. Entre as razões tais”1. Foi realizada uma pesquisa bibliográfica através Considera-se que existe abuso físico quando da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). a humilhação e as pu. dificultando um O objetivo deste estudo foi identificar os princi- maior enfrentamento do problema. ou de se envolver. maus-tratos infantis apresentam-se deficientes. odontológico. quei. sacudida. para milhares de crianças. vestimenta. papel (figurativo) e respon- lamento social. em decorrência da ação de mento sobre o tema. giene e supervisão5.6.11.9. tuna para identificar essas vítimas10. tratos e a negligência odontológica infantil são cional significativo4. ficação dos casos a órgãos competentes é uma prática pouco exercida pelas pessoas5. objeto. recusa em acreditar que os pais Assim. LILACS e MEDLINE. muitos destes profissionais não punido na forma da lei qualquer atentado. sob a Lei no 8. mas também em no seu diagnóstico de maus-tratos. como o iso.16.14. mada. hi. Estes aspectos colo- que “nenhuma criança ou adolescente será obje. . nal ou sexual5 de pais ou responsáveis junto à Diante do exposto. Este último aspecto poderia au- da sociedade2-4.069. identifi- uma criança foi vítima de danos ou correu risco cando-se artigos publicados nas revistas indexa- de danos por ser agredida com a mão ou outro das nas seguintes bases de dados: Adolec. criança (6-12 anos) e adolescente exploração sexual (não consensual ou consen. discrimina. estima-se que apenas 20% das com a identificação destas vítimas no ambiente ocorrências sejam denunciadas. No entanto. ser cido (até 1 mês). medo de perder o paciente e falta um problema crescente em todos os segmentos de treinamento. BBO. de 13 de Julho de le indivíduo que sofreu agressão é levado a buscar 1990. boca fase de divertimento e tranquilidade.8.

Estas aparecem de várias formas. sada ou atual. que depende das circunstâncias nas quais são pro- deriam protegê-las12. por estes estarem muito corroborado por Jessee2. Determinadas crianças apresentam estatisti- camente risco aumentado para maus-tratos. Dessa forma. bem como tória de abuso/negligência quando criança. zes caracterizadas como hematomas são de difícil são à criança do gênero masculino. falta má-oclusão incomuns resultando de trauma an- de suporte social/isolamento social. independem da classe socioeconômica. gios de cura3. micas específicas do suspeito18. 405 Ciência & Saúde Coletiva. paternidade/ É importante estar atento a ferimentos que maternidade muito jovem. do abuso infantil por causa de sua associação fermeiros e médicos). como a forma da tes do abuso físico incluem o trauma dos tecidos dentição. Para palato ou assoalho da boca. sínfise. utiliza-se o teste padrão no qual características Ferimentos orofaciais não-acidentais decorren. tro de casa12. com mobili- maus-tratos. equimose. além de queimaduras. to que são associadas ao abuso da criança. Abuso físico Para a avaliação de uma marca de mordida. vocadas. língua. além do Estatuto da Crian. estas têm mais dificuldade de estabelecer co ou sexual.18-22: . foram incluí. causadas por ali- Tsang e Sweet10 e Naidoo19. são eles: his. ptose e hematoma perior- parentesco ou ligação com a criança. da personalidade ou experiências da vida do adul. contusões e fraturas nasal. lace- rações. Assim. e danos à mem- res são em sua maioria mãe ou pai. raízes residuais múltiplas Dubowitz e Bennett4. alimentação vel de instrução. Maxila ou mandíbula: sinais da fratura pas- identificar possíveis fatores de risco. mento ou utensílios quentes são outras manifes- seja ele financeiro. 2010 Foram encontradas 140 publicações. tos. suras. expectativas terior. importantes são identificadas. ramos. das trinta publicações. sendo a suspeita mais evi- dente quando a natureza do ferimento for incon- sistente com o relato do responsável e da criança18. Tais ferimentos podem incluir no relacionamento com a criança. Boca: pode apresentar lacerações no freio son11. É importante observar que a tos de casos ou experiências e por se dirigirem a boca é frequentemente traumatizada nos casos outros profissionais de forma mais específica (en. marcas de mordida (tópico observado se repetiam entre as bases de dados e 86 foram separadamente) e os hematomas em vários está- excluídas por se referirem a idosos. seguidos de brana timpânica. o que não foi diagnóstico diferencial. . em que o choro e o grito incontroláveis Marcas de mordida de adulto em crianças são ge- tendem a ser um fator predisponente11.19. família. por serem rela. labial ou lingual causadas por beijo. dos dentes e as características anatô- duros e moles. avôs e tios12. destas. sen. drogas ou desemprego. uso de tações associadas. Queimaduras ou lacerações na gengiva. sendo ou sexo oral forçados. religião e cultura. os agresso. cluem2-4. Johnson11 e Naidoo19 sem história plausível para esclarecer os ferimen- acrescentaram alguns perfis psicossociais obser. Estes últimos autores ain. . Quanto ao hemorragia da retina. cicatrizes do trauma persistente. o estresse em família.10. arranhão ou cicatrizes nas comis- Os maus-tratos infantis acontecem em geral den. 24 fraturas. côndilos.19-22. companheiros da mãe. Marcas de mordida do em sua maioria até três ou quatro anos de idade.8.19 e segundo Tsang e Sweet10 e John. doença. bital. ní. comprometimento envolvem outras partes do corpo próximas à mental/depressão e reversão do papel pai-filho cavidade bucal. pode contribuir para os . Manifestações orofaciais do abuso físico in- ça e do Adolescente1. frustradas em relação à criança. por separação. queima- Perfil do agressor e da criança duras causadas por alimento quente ou cigar- ros. com hematoma na orelha. lacerações. vados em agressores denunciados que podem . 15(2):403-410. além ralmente associadas a alguma forma de abuso físi- disso. presente na infância2. psicológica com a pessoa agredida20. Lábios: podem apresentar hematoma. os quais são sinais carac- difícil identificar de forma fiel traços preditivos terísticos de casos severos do abuso de criança.19. dade ou avulsionados. Dentes: fraturados. o de forma independente contatos sociais que po. as marcas de mordida muitas ve- da associaram uma maior ocorrência de agres. indicativos da utilização de mordaça. anteriormente mencionado. deslocados.

é raramente encontrada em cri- um adulto. assim. ência de um pai em buscar ou manter o trata- nosa e lesões condilomatosas nos lábios. formado das condições bucais e possibilidades devem ser fotografadas. com aspecto de couve-flor. face ou na faringe2. na faringe. Gonorréia: a mais frequente doença sexual.23-25. As marcas de mordida humana são geralmente superficiais. Outro aspecto importante é distinguir entre Negligência odontológica mordidas humanas e de animais.26. Uma área de hemorragia característica a membranosas. Por como a falha do pai ou responsável em procurar outro lado.25.25.406 Massoni ACLT et al. tológica em alguns casos torna-se difícil. as mordidas de animais resultam ge. O que deve ser palato. como o comportamento sexual impróprio. Sífilis: pápulas nos lábios ou pele da região em determinar se o agressor foi uma criança ou perioral. A aparência . a qual permite a realiza. tratamento.23. Eritema e petéquias: quando presentes na da marca de mordida muda enquanto o edema junção dos palatos duro e mole ou assoalho da diminui e o tecido começa a se reparar. na língua.23. tar o tratamento odontológico apropriado10. visto tição do suspeito 2. assim sendo. indi. incluindo na fotografia de terapia viável28. A avaliação do tamanho do arco pode ser útil . ros e de transporte foram eliminados. o tratamento necessário foi expli- Quando presentes. podem ser sinais de sexo oral forçado. Pode aparecer sintomatologi- configuração oval ou circular de equimose. de do tratamento da patologia identificada2. camente nos lábios. Porém. considerar a cárie dentária como inerente à vida gião-dentista forense pode ser importante para a de qualquer pessoa são algumas razões para evi- documentação e a preservação da evidência2.18. mente transmissível entre as crianças que sofre- . além de observadas. ou a falha em seguir nhadas por lacerações e até avulsões dos tecidos18. Porém. tratada. possibilitando a odontológica? Diagnosticar a negligência odon- comparação desta com as características da den. provavelmente foi de uma criança24. no palato. é uma lesão única ou dentes2. pedunculada. ponsáveis. quando a patologia bucal foi di- co e até mesmo a história relatada2. questiona-se: a cárie uma régua milimetrada. sen. o tratamento para cárie visualmente não-trata- ralmente na penetração profunda. da. se A negligência odontológica pode ser definida apresentando como hematomas ou abrasões. Condiloma acuminado: causado pelo papi- sionalmente ser encontrada entre as marcas de lomavírus humano (HPV). úlceras. Baseado na suposição de que certas patolo- gias bucais são facilmente identificadas por pes- Abuso sexual soas leigas. agnosticada. dentária não-tratada indica sempre negligência ção do teste padrão da marca. afetando a região orofacial e falta da continuida- dos. variando de eritema à revelar o dente de forma individual e a forma do ulceração e de lesões vesículo-pustular a pseudo- arco. língua. se a largura de canino a cani.23. infecções bucais e dor. Um positivo da cultura para go- qual representa o ato de “sugar” ou de “empur. vesícu. que obstáculos como os financeiros. a defesa por se sentir ameaçado pelo contato físi. Assim. A dificuldade respeito do recolhimento de evidências de marcas dos pais em pagar pela terapia adequada e por de mordida. anças. e os obstáculos financei- fortes de abuso sexual: eritemas. Em síntese. . a inefici- las com secreção purulenta ou pseudomembra. infecção. considerando-se sempre ciadas às patologias ou alterações abaixo2. impressões dos dentes tornam-se mais visíveis após dois ou três dias da agressão2. na face do que com o exame mais aproximado pode-se e.27: as circunstâncias que levaram à omissão dos res- . múltipla. norréia em uma criança indica geralmente abuso. sendo acompa. e sociais devem ser considerados antes que a de- tologia tenham consciência de suas limitações a cisão de denunciar seja tomada2. a mordida ponema sugere fortemente o abuso sexual. têm-se os seguintes indicadores para a negligência odontológica: cárie rampante não- Muitas vítimas do abuso sexual infantil não apre. intelectuais É importante que os profissionais da odon. rar” a língua durante o ato de morder pode oca. são indicadores muito cado e compreendido. em especial. completamente com o tratamento uma vez in- As marcas de mordida. sintomatologia dolorosa sem buscar sentam nenhum sinal físico óbvio. A típica marca de mordida humana tem uma ram abuso sexual. um positivo do teste para o pallidum tre- no for menor que três centímetros. as boca. mento se constitui negligência29. as quais estão asso. Assim.23. o relato a um cirur. definido com cautela.10. sangramento ou trauma cadores comportamentais devem ser observa.

adaptado do Gerbert et al.12 (Quadro 1). mamadeiras. aplicando-se o dobro em caso de reincidência1. Na falta do crianças mais novas muitas vezes não conseguem Conselho Tutelar. permite o registro dos ferimentos de forma cate- vem ser incluídas com naturalidade em meio às gorizada. de maus-tratos contra a criança ou o adolescen- Quando possível. forma. Assim. cigarro. Pena – multa de 3 a 20 salários de referência. o que pode ser verificado quando possível. Bem como o registro da circunstância relatada pelo Embora muitos ferimentos não sejam causados responsável. Em seguida. observando As informações devem ser anexadas ao prontuá- sempre o relacionamento “responsável-criança”. ta para tratar de dentes com mobilidade ou fra. deve-se comunicar ao Conselho Tutelar do relatada pelo responsável e pela criança. se selho Tutelar da respectiva localidade. incluindo aspectos sobre a bem como mudanças no comportamento da cri. 2010 Diagnóstico estruturas envolvidas. fras. sem ção do ferimento. 15(2):403-410.26. aparência.10. de Pediatrics Committe on Child Abuse and Neglect23: comunicar a autoridade competente os casos de que mãos. os quais foram cita. do abuso infantil está a preocupação de os pais os pais agressores parecem frequentemente re. cente. Dessa da Infância e da Juventude7. município de moradia.30 sugerem que.25. serem informados sobre a fonte do relato. A documentação apropriada da criança fisica. fotografias e radiografias das que o agressor tome conhecimento8. pai com quem um relacionamento profissional forto ao contato físico e olhar vigilante2. posição. mas pode não procurar um médico para informações relacionadas às manifestações oro- o tratamento de outros tipos de ferimentos3. tenha conhecimento. O mesmo dagem de vítimas de agressão. peitar dos ferimentos traumáticos. madeira. Um pai pode trazer uma criança ao dentis. o cirurgião-dentista deve sus. deve-se comunicar ao Juizado recordar uma data ou um mês específico. é importante que o registro te serão obrigatoriamente comunicados ao Con- inclua o período no qual o abuso aconteceu. um formulário para registro de turados. pés. entre os questionamentos levantados pelos consultório apresentam-se ansiosos e preocupa. ferimentos10. vara. como seu aniversário. além de expor o profissional ou a criança ao risco10. nem ao seu paciente. para reduzir o descon- forto da situação para o profissional e para o seu paciente. quando da abor.25. líqui. As juízo de outras providências legais”1.31. como. Em caso de suspeita de maus-tratos contra a cri- crepância entre os achados clínicos e a história ança. rio odontológico. faciais dos maus-tratos infantis. pré-escola ou creche. sem pre- ocorreu mais de uma vez e o número de vezes. . Assim. Relato de suspeitas Uma característica importante para o diag- nóstico do abuso e da negligência infantil é a dis. não devendo ameaçá-lo. Por outro lado. 407 Ciência & Saúde Coletiva. garfo. por exemplo. A maioria Apesar das orientações propostas pelo Esta- de pais que acompanham sua criança ferida ao tuto. a estratégia de inter- venção nos casos de abuso infantil deve ser dire- Registro de informações ta e integrada facilmente à prática profissional do cirurgião-dentista. ou ainda agressivas. uma linha de tempo contextualizada à vida Deixar de notificar o caso suspeito é conside- da criança pode ser criada. visto traídos e as crianças indiferentes quando separa. estudo de Cairns et al. do Adolescente: Deixar o médico. observado no artigo 245 do Estatuto da Criança e Também é relevante identificar o instrumen. cano. além da localização dos mesmos questões do prontuário. firmação de maus-tratos contra criança ou adoles- dos quentes. com descon. foi estabelecido. Também pelos maus-tratos. fio elétrico.3. pedras e sapatos. sável também devem ser observados. mações sejam transmitidas de forma sigilosa. ponsável por estabelecimento de atenção à saúde e dos por Naidoo19 e pela American Academy of de ensino fundamental. as questões de. a criança deve ser questionada no artigo 13º do Estatuto da Criança e do Ado- separada dos pais. envolvendo suspeita ou con- co quebrado. É importante que as infor- mente agredida ou negligenciada inclui a descri. que pode ser extremamente difícil confrontar um das dos pais. sempre que possível. garrafa.21. deve ser registrado o mecanismo de agressão26. e posteriormente estes devem lescente: “Os casos de suspeita ou confirmação ser questionados2. cirurgiões-dentistas em relação à problemática dos sobre a situação da criança. um feriado ou as férias26. o rado omissão e está sujeito à penalidade. Os comportamentos da criança e do respon. professor ou res- to ou mecanismo de injúria. bem como pelo paciente. severidade e distribuição dos ança.

Se existir dúvida a respeito de realizar uma Considerações finais denúncia ou não. Quadro 1. Formulário para registro de informações relacionadas às manifestações orofaciais dos maus-tratos infantis e negligência odontológica. Face ( ). para evitar que outras agressões tornem a ocorrer. Face ( ). Data de nascimento Masculino ( ) Feminino ( ) Sexo Sim ( ) Não ( ) Sinais de agressão orofacial? Lesão no olho S( )N( ) Hematoma S( )N( ) Cabeça ( ). Além disso. é recomendado o dentista são essenciais para a proteção das crian- contato com outras pessoas que têm ligação com ças. consultar o médico do pacien- te. Pescoço ( ) Lacerações S( )N( ) Cabeça ( ). Pescoço ( ) Fraturas S( )N( ) Cabeça ( ).12. relatar significa con- tribuir e assumir a responsabilidade profissional inerente à profissão odontológica. Pescoço ( ) Laceração no freio labial S( )N( ) Laceração no freio lingual S( )N( ) Trauma no palato S( )N( ) Trauma dental S( )N( ) Momento da injúria (Se relatou e quem relatou) Local da injúria (Se relatou e quem relatou) Mecanismo da injúria (Se relatou e quem relatou) Alguma manifestação bucal suspeita de abuso sexual? Qual? Impressões quanto à negligência odontológica Registro/impressão da história relatada pelo responsável Registro/impressão da história relatada pela criança Detalhes e outras observações Fonte: adaptado de Cairns et al. Além disso. gistro e denúncia dos casos suspeitos às agências de proteção à criança. através da observação.408 Massoni ACLT et al. . é fundamental uma maior atuação a criança e que podem ter suspeitas similares e destes profissionais. mas assegurar a segurança da criança deve ser prioridade. Face ( ). Pescoço ( ) Queimaduras S( )N( ) Cabeça ( ). Sabe-se que a denúncia de maus-tratos não é fácil. Assim. Pescoço ( ) Abrasões S( )N( ) Cabeça ( ). Face ( ). Face ( ). Face ( ). um assistente social. re- estejam dispostas a discuti-las10. autoridades locais ou até A imediata identificação e relato de maus-tratos um colega de profissão experiente neste assunto e negligência odontológica infantil pelo cirurgião- é recomendado. Pescoço ( ) Mordidas S( )N( ) Cabeça ( ).

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