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A comédia brasileira

DÉCIO DE ALMEIDA PRADO

Aos poucos, de baixo para cima, sem que ninguém notasse, formava-se uma
mitologia teatral brasileira, centrada já na Bahia e originária da revista

Continuação da pág. 5-7

Abaixo da opereta, na hierarquia ideal dos gêneros de teatro musicado,
situava-se a revista. Também procedente da França, onde mergulhava raízes
no século 18, cresceu no Brasil nos dois últimos decênios do século 19,
quando foi praticada por autores teatrais de primeira linha, constituindo-se na
forma mais rica e mais rentável de teatro comercial. Sousa Bastos, mestre da
revista portuguesa, que frequentemente atravessava o Atlântico, assim a
definiu em 1908:
"É a classificação que se dá a certo gênero de peça, em que o autor critica os
costumes de um país ou de uma localidade, ou então faz passar à vista do
espectador todos os principais acontecimentos do ano findo: revoluções (sic),
grandes inventos, modas, acontecimentos artísticos ou literários, espetáculos,
crimes, desgraças, divertimentos etc. Nas peças deste gênero todas as coisas,
ainda as mais abstratas, são personificadas de maneira a facilitar apresentá-las
em cena. As revistas, que em pouco podem satisfazer pelo lado literário,
dependem principalmente, para terem agrado, da ligeireza, da alegria, do
muito movimento, do espírito, com que forem escritas, além de 'couplets'
engraçados e boa encenação (...). Houve época em que, nas revistas, o
escândalo predominava e eram festejadíssimas as caricaturas de personagens
importantes da política (...). Pois, sinceramente, era isso preferível à
pornografia de que quase todas as revistas hoje estão recheadas" (8).
Não tendo enredo, ou não o necessitando, a revista adquiria a sua escassa
unidade através da figura do "compère" (palavra francesa usada no jargão
teatral da língua portuguesa). Essa personagem, em parte fictícia, como as
outras, mas relacionada de perto com as características pessoais do ator
incumbido de interpretá-la, unia os diferentes quadros que compunham o
espetáculo, ora cômicos, ora de canto e dança, quando não das três coisas
juntas. Ele, o "compère", era de certo modo o mestre-de-cerimônias, não
deixando, pela sua forte ação de presença, pela empatia com o público, que a
continuidade da representação se desfizesse totalmente em números isolados.
O resto do elenco, os cômicos, em número de três ou quatro, e as cantoras,
ainda frequentemente francesas, a começar por Rosa Villiot (ela nacionalizara
o prenome), intervinham em criações individuais, nesta ou naquela cena. O

e por isso é vulgar tais peças aparecerem muitas vezes cheias de inépcias. obrigatório nas boas revistas. sem se levar em conta a colaboração de . dirigia a pequena orquestra e se responsabilizava pelo arranjo musical.coro. para se despedir do público. desde canções sertanejas tiradas do repertório popular até páginas conhecidíssimas de Suppé e Offenbach. em obediência às regras do gênero). a revista confinava com a mágica (derivada da "féerie" francesa) o terceiro e o mais baixo degrau do teatro musicado. grosserias e infantilidades tolas" (10). antes que o cinema viesse a suplantar o teatro em riqueza e veracidade dos detalhes materiais. Gomes Cardim (português radicado no Brasil) ou Assis Pacheco.. (apontando para o fundo) Benjamin Constant e dom Pedro de Alcântara! (mutação). cujo nome. Nicolino Milano ou Paulino Sacramento. mutações à vista. podia recorrer livremente ao estoque de música ligeira armazenado durante anos pela opereta européia. Esse aparato cênico culminava nas apoteoses de fim de peça. A música também se fragmentava. do galhofeiro ao solene. cai em mãos inábeis quase sempre.. A revista tendia ao grande espetáculo. por sua importância no bom andamento da representação.). do satírico ao comemorativo e patriótico (sentimentos de encomenda. (Apoteose) (9). cantando e dançando. A palavra final ficava assim a cargo dos cenógrafos e do maquinista-chefe. Infelizmente o gênero. passava do cômico ao sério. além de contar com a inspiração própria. Artur Azevedo deu o seguinte desfecho a "O Tribofe". entre outros. que. mas com uma apoteose. não ambicionando ter a unidade e originalidade da opereta. Por esse lado.. belos figurinos (muitos desenhados por Aluísio Azevedo nas revistas do seu irmão Artur). Sousa Bastos desta maneira a identificou: "É uma peça de grande espetáculo cuja ação é sempre fantástica ou sobrenatural e onde predomina o maravilhoso (. fazendo-o sair do teatro com uma carga renovada de energia. acompanhava de princípio a fim a ação. patrocinado pelos deslumbramentos das visualidades e riqueza dos acessórios. revista encenada em 1892: "GOUVEIA: E o 'couplet' final? QUINOTA: As revistas do ano nunca terminam com um 'couplet'. o autor quis manifestar o seu respeito por dois brasileiros ilustres falecidos em 1891. mudava subitamente de tom. numa revista.. O espetáculo. permitindo-lhe simular viagens e naufrágios em alto-mar. Não se compreende bem o final do século do teatro brasileiro. Ouvia-se. A eles cabia movimentar com fantasia e competência técnica a complexa maquinaria que caracterizava o palco no século 19. figurava às vezes no programa. retribuindo o que recebia na bilheteria sob a forma de um certo esplendor visual: cenários variados. Um maestro de atuação local. o interesse popular pela revista e pela mágica. (Vindo ao proscênio) Minhas senhoras e meus senhores.

mas sem confundir planos. como última virtude. que eu saiba. regionalismos. deslumbrantes de ouro. só dele-. de outro. As suas apoteoses nunca deixam de apresentar alguma novidade. há flores que se transformam em estrelas. estofos e pedrarias. eu supus que a sua opulenta fantasia ficasse completamente esgotada depois de imaginados e concluídos os cenários daquela mágica. águas que jorram. as praças exóticas de cidades imaginárias -as cavernas tenebrosas-. Na boca das personagens ele empregava o vocabulário e a sintaxe vigentes nas casas e nas ruas. Para tudo ele descobria uma rima inesperada e cabível -portanto. de um lado. para chegar ao grosso público. o Brasil real e grosseiro. grupos maravilhosamente combinados. em 1885. empreendia uma Viagem ao Parnaso. de maneira a não comprometer jamais a sua posição de escritor erudito e gramaticalmente correto. o maior entre os revistógrafos do período. nem sempre com bons resultados. com o 'Gênio do Fogo'. de pedantismo. no entanto. sem esforço aparente. a habilidade no jogo de palavras. Sobre o primeiro escreveu Artur Azevedo: "É um extraordinário artista o Carrancini! Quando ele aqui apareceu. uma contradizendo a outra. Aí o cenário é sempre maquinado e o cenógrafo reclama a colaboração subalterna do carpinteiro. inclusive nomes próprios excêntricos e vocábulos estrangeiros. Gaetano Carrancini e Oreste Coliva. e ele as tem pintado às centenas. colunas que giram. chamava à cena a Fantasia. e. . de uma arquitetura revolucionária. distinguindo com nitidez entre a realidade deles. porque se abria uma espécie de vazio entre forma e conteúdo.dois cenógrafos italianos que se fixaram no Brasil. aceitava a popularização do teatro efetuada pela revista. o interesse jornalístico pelos modismos. durante nove anos ele tem pintado sem interrupção para o nosso teatro. pelo que estava acontecendo no Brasil e mais ainda na cidade do Rio de Janeiro (12) e. o dom da caricatura. a pasmosa facilidade em metrificar. Artur Azevedo. no uso do trocadilho. e. o gosto pelas idéias e expressões simples. Entretanto. Serviram a Artur Azevedo. como a literatura fará a partir do modernismo. suprema numa época que cultivava e prezava o verso bem-feito. sem buscar matéria e inspiração no popular. algumas qualidades requeridas pela revista: a ausência de pose. Reproduzia-se no romance ou na comédia o que se ouvia. os bosques misteriosos -as grutas infernais etc. da graça fácil e espontânea. não se igualando jamais ao popularesco. efeitos de projeções luminosas etc. No palco quem dava vida e consistência aos tipos esquemáticos da revista. no contexto." (11). mas sempre como citação. enxertava em seus espetáculos um tema literário. harmonia de cores. nunca se repetiu! O seu forte são justamente os cenários da mágica -os palácios encantados. cheia de brasileirismos. Quando podia. julgado mais elevado. engraçada. Quer dizer que ele não traía o pacto estabelecido tacitamente pelos intelectuais de então. mas guardando certa distância. tudo o que lhe passava pela cabeça.

ajoelha. compositor e cantor de lundus. Sousa . especialistas da comunicação imediata com a platéia. Enterra o chapéu até as orelhas. Nada era dito com todas as letras. e Aurélia Delorme (1866-1921). capadócios e outros tipos populares do Brasil". reconhecidamente mais fraco. Cantavam com a pouco voz que tinham. revelou-se o primeiro entre eles. conhecido como Machado Careca. para que explodissem na hora certa em cena. o destaque iria para Cinira Polônio (1862-1938). e João Colás (1856-1920). Entre os nascidos no Brasil não se poderiam esquecer pelo menos dois cômicos: Xisto Bahia (1841-94). gesticula exageradamente. mas que ao seu feitio não ficam mal. Machado. sem aperfeiçoamento musical. além de protagonizar operetas. nele faz-nos rir a valer. deixa cair a calça. filho de um maestro de música ligeira. vieram meninos de terras portuguesas. dirigidas menos ao ator que à falta de compostura que começava a marcar a comicidade brasileira: "O que é forçoso confessar é que. aos gestos e inflexões equívocos dos intérpretes. ou uma das precursoras. passada certa época. escancara a boca. tudo ficava subentendido. dois. que percorriam o interior do Brasil. João Machado Pinheiro e Costa (1850-1920). atriz medíocre.bem como os da opereta e da mágica. Em quase todas as casas de espetáculo o gênero predileto era a revista levada ao extremo da libertinagem e a 'pochade' desbragada. em ordem cronológica e ao que parece também em ordem de mérito. do chamado teatro rebolado. O Vasques. perdeu muito do seu valor por transigir demais com as platéias ávidas de cambalhotas e ditos mais do que equívocos" (14). que realmente ele fazia a primor" (15). Os artistas transformaram-se na sua maioria em 'clowns' e bailarinos. graças aos olhares maliciosos. mas que merece menção por ter sido a inventora. sofreu por parte do mesmo Sousa Bastos. sem de todo perder o mérito que lhe reconhecem. "extraordinário nos papéis em que imitava roceiros. Machado deixou-se arrastar por uma onda de loucura que invadiu os teatros do Rio de Janeiro. chega a ver-se-lhe a carne. algumas restrições. Entre os que se seguiram. esbugalha os olhos. dos mais celebrados. dá pernadas. "festejadíssimo na canção 'Matuto do Piauí'. eram os atores cômicos. De mais a mais improvisa. 1845-1921). que estudara música na Europa e cantava com malícia e finura cançonetas francesas. autor e empresário tão ativo no Brasil quanto em seu nativo Portugal. fazendo-se atores nas companhias secundárias -os mambembes-. e por vezes com felicidade" (13). o duplo sentido sexual que os autores haviam disseminado no texto. grita. Brandão (José Augusto Soares Brandão. No naipe feminino local. foi assim descrito: "Faz umas coisas extraordinárias. mas sabiam extrair do texto a salacidade. deita para fora a fralda da camisa. já citado. mas tudo que era insuportável noutro. por seu poder de criação. já quase de autor. por si mesmo cognominado O Popularíssimo.

mas também brasileira por ter se deixado ficar por aqui. "Atores e Atrizes". 165. 1937. "A Noite". RJ. "O Mungunzá". mais requebrada. pág. francamente erótica. e o decréscimo de aspirações literárias. RJ. sem dúvida. Oficinas José Magalhães. a partir de uma maneira de dançar. em suas várias encarnações. "Dicionário do Teatro Português". deixam transparecer sem margem de dúvida a mesma decepção perante o fato de que o teatro se contentara com limites afinal de contas modestos. "Artur Azevedo". Eduardo Vitorino. ibidem. a opereta. SP. Machado de Assis. 366. 1950. assinalou em que consistia o seu específico talento: "Dava umas tais voltas. 26. Pepa Ruiz (1859-1923). que examinou moralmente os fundamentos da família burguesa. 21. que se constituiu em gênero musical. Nunca mais teve tamanhas ovações porque nunca mais teve papel em que pudesse ir tão despida. não desejando ultrapassar as fronteiras de boa diversão. vol. "O Ator Vasques". feita atriz em Portugal. vol.. Palavras de atores como Vasques e Xisto Bahia. pág. sem que ninguém notasse. nascida na Espanha.). 3. 181. Moreira. 155. Procópio Ferreira. Aos poucos. "Obras". RJ. destinada a pessoas não particularmente interessadas seja na literatura seja na música. em que aparecia vestida de baiana. 6. de baixo para cima. antecessor do samba. 7. a revista e a mágica surgiam como nítido anticlímax. 1884. Num só espetáculo ela criou 18 personagens diferentes. 39. O exemplo mais claro disso foi a lenta e difícil ascensão do maxixe. págs. 1951. Essa impressão não é só da posteridade. Jackson. 4. 1939. Libânio da Silva. pág. com benefícios econômicos para intérpretes e autores. quando os escritores acharam que poderiam dizer alguma coisa de importante sobre a liberdade e a nacionalidade. 26. que a viu no começo da carreira. SP. Até o amor descera a níveis mais corpóreos e menos idílicos.Bastos. Cf. Idem. que a platéia levantava-se entusiasmada e cobria-a de flores. formava-se uma mitologia teatral inequivocamente brasileira. inclusive um número. 128. fazia tais requebros. vol. não aceitável a não ser pelas camadas populares (17). significou um aumento ponderável de público. Maximino e Cia. "Galeria Teatral". 1908. 1937. ABC. Machado de Assis. centrada já na Bahia e originária da revista. O teatro musicado.. "Obras". de autores como Artur Azevedo. 430. Roberto Seidl. Era o delírio da libertinagem no teatro (.. pág. 2. Gryphus (José Alves de Visconti Coaracy). e após o realismo. em que tanto pudesse rebolar o que a natureza lhe pôs do outro lado" (16). 8. . Notas: 1. pág. pág. 115-6. Lisboa. Após os sonhos despertados pelo romantismo. Sousa Bastos. 5. Mas a rainha da revista foi.

Nas páginas 173-276 acha-se uma cuidadosa cronologia das 19 revistas escritas por Artur Azevedo. com a colaboração de Rachel T. Petrópolis. pág. 16. págs. J. 1898. "O Tribofe". Artur Azevedo. "Pequena História da Música Popular". 230. 1974. Cf. Nova Fronteira/Casa de Ruy Barbosa. Idem. "O Tribofe". "As Revistas do Ano e a Imagem do Rio de Janeiro". Vozes. Lugares". págs. 628-9. pág. "Carteira do Artista". 13. Coisas. Texto Anterior: A comédia brasileira Próximo Texto: Crítico escreve sobre Pelé Índice . 17.A Dança Excomungada". 179. F. 267-8. 290. RJ.R. Sousa Bastos. Cf. "Maxixe . O texto acima é a primeira parte de um ensaio maior publicado no livro "Seres. Sussekind. entre 1877 e 1907. 1974. a ser lançado pela Companhia das Letras. 11. Tinhorão. Idem. pág. Bertrand. 89. 289. Conquista. Artur Azevedo. 15. 14. pág. Idem. 1986. 12. 10. J. Lisboa. págs. 627. Efegê. RJ. RJ. 1986.9. feita pela autora. Valença. Nova Fronteira/Casa de Ruy Barbosa. Sousa Bastos. "Dicionário do Teatro Português".