Curso

Ensino de História da Bahia
Docente: Prof. Dr. Fabrício Lyrio Santos
Carga horária: 12 horas
Realização: Centro de Memória da Bahia

Fundação Pedro Calmon - Centro de Memória e Arquivo Público da Bahia

E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA - MÓ D ULO IV

Programa

Religião e religiosidade na Bahia
Outubro 2013

Ementa

Discute aspectos teórico-metodológicos relevantes para o estudo da religião e dos fenômenos religiosos. Analisa o processo de
formação do campo religioso baiano, com ênfase para o catolicismo, as religiões afro-brasileiras, o protestantismo e as denomi-
nações pentecostais e neopentecostais. Indica métodos e abordagens de pesquisa pertinentes à disciplina.

Objetivos

• Problematizar o conceito de religião enquanto objeto de estudo da História e das demais ciências humanas e sua
relação com outros aspectos da realidade;

• Discutir a importância das religiões e religiosidades no ensino;

• Incentivar pesquisas e estudos.

Conteúdo
Aula 1 - 01 de outubro de 2013, terça-feira
1. História das Religiões: aspectos teórico-metodológicos ligados à pesquisa e ao ensino

SILVA, Eliane Moura da. “Estudos de religião para um novo milênio”. In: KARNAL, Leandro (org.).
História na sala de aula: conceitos, práticas e propostas. São Paulo: Contexto, 2013. pp. 205-215.

BORTOLETO, Edivaldo José; MENEGHETTI, Rosa Gitana Krob. “Ensino religioso e a legislação
da educação no Brasil: desafios e perspectivas”. In: POZZER, Adecir et al. (orgs.). Diversidade
religiosa e ensino religioso no Brasil: memórias, propostas e desafios. São Leopoldo: Nova
Harmo nia, 2010. pp. 63-81.

2. Religião e religiosidade na Bahia

Aula 2 - 08 de outubro de 2013, terça-feira
2.1 A herança católica colonial

MATA, Sérgio da. “A religião como objeto: da história eclesiástica à história das religiões”. In:
MATA, Sérgio da. História & Religião. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010. pp. 35-69.

Edufba.3 A inserção e afirmação do protestantismo MONTES. Maria Lúcia. Lília Moritz (org. Petrópolis: Vozes. SCHWARCZ. O Dossel Sagrado .M Ó DU LO IV Aula 3 . SCHWARCZ. Peter. 63-171.22 de outubro de 2013. Diss. Solange. 1978. . São Paulo: Ática. Protestantismo e Repressão. (coordenador-geral). Lília Moritz (org. 1979. Mestrado. AZEVEDO. 1997. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalis- mo. 1998. ANTONIAZZI. Lígia. Salva- dor: UFBA.). terça-feira 2.. História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. In: NOVAIS. Salvador: Corrupio.15 de outubro de 2013. Salvador: UFBA. Gabriela dos Reis (orgs. História da vida privada no Bra- sil: contrastes da intimidade contemporânea. “A ‘Guerra Santa’ e as ambivalências da modernidade”. Formas de crer: Ensaios de história religiosa do mundo luso-afro-brasileiro. Diss. SAMPAIO.Elementos para uma teoria sociológica da religião. Aula 4 . 1996.). Fernando A. BERGER. séculos XIV-XXI. SOUZA. ALVES. Thales. In: NOVAIS.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . São Paulo: Pau- lus. Mestrado. ALVES. Igreja Católica na Bahia: Entre a Fé e a Política. 2006. 2 ed.). São Paulo: Companhia das Letras. Igreja e Estado em Tensão e Crise. Bianca Dáebs. 2004. Fer- nando A. 1998. (coordenador-geral). pp.2 As religiões afro-brasileiras MONTES. pp. Alberto et al. 2006. São Paulo: Companhia das Letras. Rubem. 63-171. “A ‘Guerra Santa’ e as ambivalências da modernidade”. São Paulo. Maria Lúcia. BELLINI. Uma História das Mulheres Batistas Soteropolitanas. Avaliação • Presença e participação durante as atividades • Leitura e produção escrita a partir dos textos indicados Bibliografia ALMEIDA. terça-feira 2. Evergton S. Ática.

2004. E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . Edilece Souza. Mircea. São Leopoldo: Nova Harmonia. 1995. PEREIRA. São Paulo: Martins Fontes. 2010. Rio de Janeiro: LTC. Os segadores e a messe: o clero oitocentista na Bahia. 2006. 6 ed. Luis Nicolau. (orgs. p. Campinas: UNICAMP. REIS. . Mestrado. A Formação do Candomblé: História e Ritual da Nação Gege na Bahia. ELIADE. Adecir et al. S. EDU- FBA. Práticas e Representações Étnicas nas Narrativas Religiosas dos Batistas em Fei- ra de Santana (1947-1988). 1989.MÓ D ULO IV BOURDIEU. Os negros cristãos católicos e o culto aos santos na Bahia colonial. São Paulo: Cia das Letras. propostas e desafios. Religião e violência em tempos de globaliza- ção. Tânia Maria de Jesus. MARTELLI. POZZER. Rio de Janeiro: DP&A. Michel de. Stuart. Cândido. 173-195. 2003. COSTA E SILVA.). COUTO. 2011. GUERREIRO. EDUF- BA. Salvador: SCI. PARÈS. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2000. 2000. Mabel Salgado e SANTOS. Lyndon de A. São Paulo: Perspectiva. João José. A identidade cultural na pós-modernidade. Na Gamela do Feitiço: repressão e resistência nos candomblés da Bahia. (orgs. DURKHEIM. Salvador: UFBA. Pierre. São Paulo: Paulinas. 1995. N. Júlio. Diversidade religiosa e ensino religioso no Brasil: memórias. São Paulo: Paulinas. Tempo de Festa: homenagens a Santa Bárbara. São Paulo: Martins Fontes. O estudo das religiões: desafios contemporâneos.). 2000. 2005. Clifford. 2000. SANTANA. Jorge Nery. 2010. As formas elementares da vida religiosa. Feira de Santana: UEFS. Émile. A escrita da história. 1998. BRAGA. MENDONCA Antonio Gouvêa. Diss. Silas (org). CERTEAU. PINTO. da Conceição e Sant'Anna em Salvador (1860-1940). 1995. O Sagrado e o Profano: A essência das religiões. Salvador: EDUFBA. HALL. A interpretação das culturas. 2003. Disser- tação de Mestrado. O Celeste Porvir: A inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: Paulinas. A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. A economia das trocas simbólicas. GEERTZ. Salvador. Stefano. A religião na sociedade pós-moderna. São Paulo: ASTE. 1992. 2 ed.

SOUZA. São Paulo: Companhia das Letras. Protestantismo ecumênico e realidade brasileira: Evangélicos progressistas em Feira de Santana. Tese de doutorado. 1995. Inferno atlântico: demonologia e colonização: séculos XVI-XVIII. A Igreja no Brasil: Normas e Práticas durante a Vigên- cia das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . Ronaldo. SCHWARCZ. Além da Exclusão: convivência entre cristãos-novos e cristãos velhos na Bahia sete- centista. 2011. Fabricio Lyrio.). História da vida privada no Brasil. 1998. São Paulo: Compa- nhia das Letras. 1993. São Paulo: Corrupio. FEITLER. Lilia Moritz. Laura de Mello. SEVERS. 1993. Salvador: FFCH/UFBA. . A Heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. Bruno (Orgs. SILVA. Orixás: Deuses Yorubás na África e no Novo Mundo. VERGER. SOUZA. 2002. Te Deum laudamus: A expulsão dos jesuítas da Bahia (1758-1763). Dissertação de Mestrado. São Paulo: UNIFESP. Pierre. 2010. 2002.M Ó DU LO IV SANTOS. Contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: USP. Elizete. Feira de Santana: Editora da UEFS. Suzana S. VAINFAS. Evergton Sales.

(orgs. In: POZZER. 205-215. “Ensino religioso e a legislação da educação no Brasil: desafios e perspectivas”. 2010. Edivaldo José. propostas e desafios. práticas e propostas. “Estudos de religião para um novo milênio”. Leandro (org. MENEGHETTI. São Paulo: Contexto. pp. 63-81. São Leopoldo: Nova Harmonia. pp. BORTOLETO. Adecir et al. 2013. Diversidade religiosa e ensino religioso no Brasil: memórias. In: KARNAL. Eliane Moura da. . História na sala de aula: conceitos.). Rosa Gitana Krob. ENSINO DE HISTÓRIA DA BAHIA Aula 1 História das Religiões: aspectos teórico-metodológicos ligados à pesquisa e ao ensino Religião e religiosidade na Bahia SILVA.).

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Realizou seu Pós-doutoramento da University of Texas at Aus- tin com bolsa da FAPESP. Estudar os fenômenos religiosos em favor da Pedagogia. de destino. Os hinduístas na Índia formam um contingente de 750 milhões e os budistas cerca de quinhentos milhões. e do sikhismo na Índia com vinte milhões de adeptos. marcados por política. budismo. uma outra visão de mundo. de maioria católica e com forte crescimento dos evangélicos pentecostais. umbanda e candomblé. Mundialmente. sendo 214 milhões de cristãos ortodoxos na Europa Oriental. somos uma nação cristã.4%) evangélicos.São Paulo desde 1990. . segundo os dados da BBC World Service. Atualmente é Livre Docente MS-5 e coordenadora do programa de pós-graduação em História do mesmo departamento. 123 milhões disseram ser católicos (73. Logo em seguida estão os muçulmanos com cerca de um bilhão e quatro- centos milhões de fiéis. docência e extensão são em História Moderna e Contemporânea e sobre os seguintes temas: história cultural das religiões. principalmente na Grécia. * Professora do Departamento de História no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campi- nas. mestrado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1985). de forma assustadora. Suas áreas de pesquisa. doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas (1993) e Livre Docência pela Universidade Estadual de Campinas (2010). Fre- quentemente. Cerca de 12. fé e violência. Os católicos são um bilhão desses cristãos e os protestantes aproxima- damente quinhentos milhões. Impõe-se a necessidade de compreender o outro atrás de seus véus e templos. Ao lado de religiões numericamente expressivas. Esses dados permitem avaliar a importância dos fenômenos religiosos no mundo em que vivemos. Entender aspectos e a originalidade das religiões. integrando-os aos novos programas escolares. história do missionarismo. temos dois bilhões de cristãos espalhados pelo mundo. Em uma população de aproximadamente 174 milhões. países eslavos e no mediterrâneo oriental. cabe destacar aquelas cuja importância cultural e política ultrapassa o número de adeptos. uma desconhecida coberta dos pés à cabeça aparece de forma inquietante nos jornais e tele- -visões. É o caso do judaísmo com aproximadamente 12 milhões1. entre outras opções. Em nome da fé religiosa. as formas de mobilização e como se situam no tempo e no espaço.Estudos de religião para um novo milênio E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA .3 milhões de pessoas afirmaram não pertencer a nenhuma forma de religião organizada e o restante da população admitiu pertencer a movi- mentos religiosos variados como espiritismo kardecista. teorias da história e historiografia.8%) e 26 milhões (15.MÓ D ULO IV 10 Estudos de religião para um novo milênio Eliane Moura da Silva* Introdução Segundo o Censo brasileiro de 2000. aviões carregados de pessoas explodem nos arranha-céus de Nova York e nos trazem. gênero e religião. judaísmo. Possui graduação em História pela Universidade Estadual de Campinas (1979). rituais e orações. é tarefa urgente dos professores e educadores preocupados com a tolerância fundamental para o respeito entre pessoas e memória histórica.

As representações de Deus. Definição de religião O conceito "religião" origina-se da palavra latina religio. deuses ou seres sobrenaturais. esse mo- vimento não aconteceu e os estudos de religião continuaram. observâncias. numa trama de acontecimentos e fatos singulares que variam grandemente tanto no tempo como no espaço. conferindo valor e significado para a existência das coisas e seres. como conjunto de crenças dentro de universos históricos e culturais espe- cíficos. o catolicismo era a religião oficial do Estado. grupos. condutas. devemos salientar que a disciplina de História das Religiões com suas cátedras. . ritos. No Brasil. áreas de pes- quisa e teorias surgiu na segunda metade do século XIX sob a influência do orientalismo. Como estudo acadêmico e científico. ações. livros. sem sentido. Contudo. para efeitos de organização e análise. são fenômenos históricos. Mas é preciso atenção: como representações do mundo que aspiram à universalidade e são determinadas por aqueles que as elaboram. cujo sentido original indicava simplesmente um conjunto de regras. islamismo etc. da filologia e da secularização da sociedade. legitimam projetos. vinculados a instituições confessionais ou seminários teológicos. ce- lebrações ou a qualquer outra manifestação que consideraríamos hoje como religiosas. condutas determinantes nas identidades culturais de pessoas. mitos. salvação. o que garante a liber- dade de opção religiosa. religiões orientais. advertências e interdições sem fazer referências a divindades. O campo específico de estudo e pesquisas sobre temas religiosos foi então ocupando um importante espaço nas grandes universidades européias e americanas. países e sociedades.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . Temas como Reforma Protestante. os fenômenos religiosos aparecem como um tipo característico de esfor- ço criador em diferentes sociedades e condições que procurando colocar ao alcance da ação e compreen- são humanas tudo o que é incontrolável. Esse processo de autonomia e de independência dos Estados frente aos sistemas religiosos é o que garante a convivência democrá-tica e o respeito necessário às opções religiosas individuais e privadas. O processo de laicização das sociedades é recente e foi implantado principalmente durante o século XIX. talvez não avaliemos devidamente a sua importância cultural e política dessa sepa- ração. são tratados no contexto da História Geral. adquirindo um sentido estreitamente ligado à tradição cristã. Como vivemos em uma sociedade laica. judaísmo. Como categoria explicativa para os estudiosos dos fenômenos religiosos. o historiador deve sempre estar atento ao uso e sentido dos termos que em determinada situação geram crenças religiosas. teologias etc. religião pode ser definida. mitos. doutrinas ou instituições. Contrarreforma Católica. sobretudo nos textos para o ensino bá- sico. a organização da fé. Apesar de sua extrema variedade. Para estudar os fenômenos religiosos. criações específicas de impulsos e silêncios. as religiões não são neutras e impõem. até a Proclamação da República. esteve atrelado e subordinado a diferentes áreas de Ciências Humanas. Essa situação está mudando aos poucos e a História das Religiões começa a aparecer com autonomia. O termo "religião" foi construído histórica e culturalmente dentro do mundo ocidental. regras.M Ó DU LO IV Estudos de religião para um novo milênio 11 As religiões raramente aparecem como objeto específico de estudos. até um período muito recente. instituições. mundos do além. com total separação entre religião e Estado. No Brasil. justificam.

crenças. co-letivos (tribos. na Inglaterra.000 a. podemos encontrar sistemas religiosos mais elaborados. étnicas e tribais variadas. por volta de 7000 a. Proliferaram estatuetas de deusas representadas como mulheres-pássaros ou serpentes. algumas religiões possuem a marca de seus fundadores (por exemplo. Esse movimento é dinâmico e nem mesmo os fundadores de uma religião escapam: uma nova religião pode partir de uma relação particular da religiosidade de uma pessoa com uma religião an- terior. enquanto outras são animistas e naturalistas. Reencarnação é diferente de ressurreição. sacramentos coexistem com associações livres. Suécia. e representações de figuras femininas e dos ciclos naturais das estações. Portugal. A única afirmação segura que podemos fazer é que esses conjuntos podem ser identificados na Pré-História e estão presentes nas culturas de todos os grupos humanos. Algumas deformações nos cérebros sugerem que teriam sido extraídos antes do sepultamento. litera- tura. Espanha. somente mais tarde. ritos. em Creta. Cristo ou Maomé). desaparecida por volta de 30. e sim exclusivamente religiões de grupos sociais. durante o período do Neolítico. Em primeiro lugar. no Sul do planalto da Anatólia. e. ao longo de determinado período de tempo. de fenômenos religiosos. sis-temas extremamente complexos. estelas.C. há sistemas reli- giosos associados a livros sagrados que não possuem tradição escrita. Culturas neolíticas deixaram também como herança de crenças religiosas cerca de cinquenta mil monu- mentos de pedras ao longo de toda a Europa. os mortos foram encon- trados deitados sobre o lado direito e com a cabeça voltada para o leste. com nádegas avantajadas e seus companheiros eram representados na forma de animais diversos como o touro. clero. surgem grandes alterações nas formas religiosas. arte e instituições que hoje chamamos de religiosos. Igrejas etc. Grécia. Os ritmos de vida e as crenças religiosas se modificaram. Estudar a história das religiões significa identificar conjuntos de ideias.). instituições religiosas com templos. Estado. nas pintu- ras rupestres representando cenas de caçadas.C. uma coletividade.Estudos de religião para um novo milênio E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . túmulos.MÓ D ULO IV 12 Costumamos chamar de religiões. os sistemas religiosos podem ser agrupados segundo regras e pres- supostos comuns para fins de estudo e pesquisa. menires. Os túmulos de todos os períodos do Paleolítico continham instrumentos de pedra. uma sociedade matriarcal. gestações. sobretudo nas esculturas em pedra de mulheres com formas avantajadas. historicamente falando. Embora durante todo o período pré-histórico possamos encontrar vestígios indicadores de crenças em poderes sobrenaturais. bode. figuras mascaradas como animais em movimento. Apesar da complexidade e diversidade. cervo. embora não possamos cientificamente indivi- dualizar ou reconstruir uma primeira forma de Religião da humanidade. Síria e Palestina. das luas e marés apa- receram em grande quantidade ao longo de extensa região geográfica e por muitos séculos. embora não seja unanimemente aceita por todos os pesquisadores. organizações etc. quando a cultura de cereais se desenvolveu no Mediterrâneo. Estudiosos lêem nessas representações. Buda. ideias. Entre a espécie humanóide Neanderthal. Compreendem templos. Alemanha. conceitos. sistema de crenças. França. O que é individual é a religiosidade como forma particular de participar e experimentar a religião pré-constituída e supraindividual. principalmente. e é indispensável marcar diferenças.C. . dando assim nascimento a uma outra instituição. sapo etc. urso. É uma interpretação sugestiva. Algum tipo de ritual era praticado e podemos pressupor a existência de crenças fúnebres. na Península Itálica. não há religião individual. porém só se constituirá como religião se for adotada por um grupo social. A partir de 8000 a. na abundância de estátuas femininas e com formas de animais es- tilizados. comportamentos. Cada sistema religioso deve ser compreendido e respeitado em sua singularidade.

Há. contudo. A maior parte das religiões é estudada a partir de dados diretos e tratam de sistemas já constituídos: os textos das pirâmides do Antigo Egito pressupõem uma estrutura religiosa bem definida. os Textos dos Sarcófagos. uma região temível dos demônios. ornamentá-las e se preocupar com o destino após a morte. os deuses. colocado nos ataúdes para fornecer ao morto segurança na sua viagem e julgamento. Apesar de extremamente conhecida como iconografia. não significa que consigamos compreen- der o real sentido dessas crenças nem esclarecer todas as suas contradições. para além desses limites. tratam de um sistema articulado. das larvas. a partir da XVIII dinastia até o período romano. Uma tal distância temporal nos separa desse passado frag- mentado que a diversidade se torna contraditória. que colocasse em perigo a vida do grupo. referem-se aos rituais de inumação do Rei e a sua instalação. provenientes da IX à XIII dinastia. tratando de períodos e sobre pessoas muito diferentes. religiões vivas ou mortas. alguns estudiosos fazem uma comparação entre as sociedades arcaicas e as tradicionais (grupos aborígines. fica localizado o desconhecido. conhecermos de fato a experiência reli- giosa dessas comunidades antigas. temos o chamado Livro dos Mortos. os Vedas. Se as religiões pré-históricas são pouco iluminadas por documentação direta. . após um percurso longo. indígenas. quando falamos de Religião egípcia não nos preocupamos em identificar suas diferenças históricas em um período tão longo e distante. a Religião continua extrema-mente enigmática. em Roma. afirmam que tanto as sociedades arcaicas como as tradicionais imaginam o mundo como um microcosmo e. esculturas. A documenta- ção principal provém de uma massa documental característica chamada de literatura funerária. dos estranhos — a morte. Essas fórmulas eram extraídas dos textos dos sarcófagos e reinterpretadas. correspondendo a uma mudança social importante desse período: o surgimento de famílias ricas e nobres que puderam construir tumbas. a noite. que consistem em aproximadamente 760 inscrições encontradas nas tumbas reais desde a V dinastia. entre outros) e procuram chegar a algumas conclusões. tudo. Religiões e história A História das Religiões também se defronta com problemas variados que diferem de acordo com a docu- mentação disponível. túmulos e hieróglifos. enfim. mitos e ritos se confundem mesmo quando a extrema repetição de deuses e herois parece não ter mudado ao longo de milênios e dinastias. Embora a profusão de amuletos. Normalmente. num trono celeste onde reinaria por toda a eternidade. a documentação literária começou a surgir alguns séculos depois da organização do sistema religioso.M Ó DU LO IV Estudos de religião para um novo milênio 13 Embora seja difícil. mas revelando articulação e sistematização. nos templos e nas casas seja uma prova concreta de crenças mágicas. dos mortos. conservando o conteúdo mágico e a preocupação em aplacar os seres sobrenaturais que viviam no mundo do além. O fato de estarmos diante de sistemas religiosos estruturados. cuja história pode ser conhecida com maior ou menor grau de precisão. o caos. fórmulas inscritas em sarcófagos. são uma reinterpretação dos Textos das Pirâmides. Os deuses. Os Textos das Pirâmides. enfim. alguns grupos indígenas contemporâneos sem escrita podem ter suas experiências religiosas reconstruídas e es- tudadas graças aos métodos da comparação etnológica. ritos e mitos da Grécia Clássica se encontram descritos nos poemas homéricos (Ilíada e Odisséia). por meio de registros históricos tão indiretos. pouco se conhece desse substrato. Basicamente.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . Apareceram no interior de sarcófagos de madeira. escri- tos arcaicos das primeiras formas de religião na Índia. Vejamos o clássico exemplo da Religião egípcia.

No Apocalipse de Paulo2 (cap. contradições e concordâncias. XXI e XXII). após o pecado original para o céu. Purgatórios. O Gênesis (2. Judeus e cristãos acreditaram (e acreditam) que o Paraíso realmente existira e continuasse existindo como um lugar de espera para os justos antes da ressurreição e do julgamento final. Tomemos como exemplo a ideia de Paraíso. o Paraíso foi imaginado. de repouso das almas saídas dos corpos. Os profetas judeus retomaram o tema tanto em Isa- ías (51.MÓ D ULO IV 14 Assim. tais como Céus. Segundo algumas crenças cristãs. 47.C. Possuem imaginários religiosos específicos. podemos trabalhar mostrando diferenças e similaridades. viagens espirituais. Infernos. Mundos espirituais. Afinal. o Paraíso é o lugar de recompensa dos justos. Esse exemplo serve para mostrar a complexidade e especialização alcançada pelos estudos de História das Religiões. o cristianismo surgiu dentro da tradição judaica helenística. onde corre um rio de leite e mel e cada árvore frutifica 12 vezes por ano com dez frutos diferentes. Na apocalíptica cristã.Estudos de religião para um novo milênio E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . e a história do seu messias. De acordo com diferentes concepções. Esse Paraíso descerá dos céus para substituir a Terra quando esta for destruída. Judaísmo. São três religiões que surgiram em períodos históricos diferentes. fresca. Nesse Paraíso. 3) como em Ezequiel (28. foi narrada nos Evangelhos. sob a dominação do Império Romano. Não devemos também esquecer os sete séculos de presença muçulmana na península ibérica. mulheres formosas e eternamente jovens pertenceriam aos homens de Alá. seres . o Paraíso é descrito como o lugar de descanso dos com- panheiros da fé. cristianismo e islamismo pode ser bastante ilustrativa para os estudos comparados de História das Religiões. o Paraíso aparece identificado como um lugar intermediário antes do Céu definitivo para os fiéis ao Senhor. com a figura do profeta Maomé. cristianismo e islamismo: uma proposta de estudo A História do judaísmo.12). desejado. um jardim com árvores sem espinhos. Ao longo dos séculos. O islamismo apareceu na Península Arábica por volta de 610 d. esses sistemas religiosos estiveram em contato constante. além de videiras de dez mil ramos e com um milhão de botões. havia comunida- des de judeus e cristãos na Arábia na época de Maomé. onde conservava o seu estado original ou havia sido transportado do solo terreno. 13-14. A história mi- lenar do povo judeu é relatada ao longo do Antigo Testamento. Contudo. que marcaram definitivamente a vida de cristãos e judeus bem como o surgimento do mundo moderno. e posterior- mente cristãos. o lugar onde Deus havia criado o "Jardim das Delícias". mas com vários elementos em comum dentro da diversidade de crenças. Cristo reabrira o Paraíso após a promessa feita ao bom ladrão no mo- mento da crucificação. Jesus Cristo. 8-17) foi a descrição para judeus. O cristianismo surgiu no início da era que recebeu seu nome na Palestina. teologia e culturas. perto de fontes de água corrente. O Paraíso também alimentou as esperanças dos muçulmanos que combatiam pela expansão da fé. e os santificados o habitarão com Jesus por mil anos. Assim. destino após a morte. histórica e culturalmente. um lugar terrestre com todas as belezas desejadas e imaginadas para desfrute e deleite. na Surata LVI. temos uma estrutura muito variada e complexa que normalmente é apresentada nos manuais di- dáticos e textos de divulgação científica e histórica de forma linear e contínua. o Paraíso ou se localizava num remoto lugar da Terra. sombreado. Segun- do o Alcorão. com frutos em abundância e forrado por magníficos tapetes e almofadas macias. ao estudá-las. livro sagrado do Islã. procurado e descrito confor- me a própria História das Religiões.

Idiomas. imagens etc. na primeira série do ensino médio. para o historiador. Romper barreiras é difícil para todos os envolvidos em educação. O tema também é muito adequado a uma pesquisa que integre várias disciplinas. imaginários. História do Judaísmo. Filmes que mostram a convivência de dois grupos re- ligiosos distintos que acabam descobrindo pontos de contato podem ser úteis. Por exemplo. podemos ir ampliando nossos conceitos e entendendo a diversidade religiosa.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . Com o advento da internet. professores. necessariamente. templos. interpretações. mas também estabelecer o di- álogo da unidade das ciências para os professores. Ao estudar e pesquisar. deve ser proporcional à faixa etária do aluno.M Ó DU LO IV Estudos de religião para um novo milênio 15 sobrenaturais. 5. conteúdo. tais esforços transformaram-se em esforço de recortar e copiar. que. implica maior reflexão do que um trabalho monográfico como "O islamismo". 4. inclusive nós. a Geografia pode analisar a distribuição espacial das religiões tocadas por Camões. Lembrem-se sempre de que um trabalho que integre disciplinas não pode ser. O primeiro fala de um detetive que é obrigado a conviver em uma comunidade amish nos EUA e o segundo fala de uma policial que compar- tilha do cotidiano de judeus ortodoxos. formas. não existe uma religião mais correta do que a outra. 2. ateu ou outra) ele deve. Cristianismo e Islamismo em suas correntes principais e movimentos místicos. teologias. Exemplo clássico no Brasil é a visão do mundo muçulmano como um mundo lascivo (com odaliscas e danças do ventre) ou violento (com terroristas). As questões devem evitar a apologética e tentar um estudo histórico efetivo. inútil para o aluno quanto ao aprendizado e tedioso para o professor que lê. mitos. um trabalho dividido em partes que cada professor vai corrigir. rituais. quando geralmente a área de Literatura trata de Os Lusíadas. as pessoas matam os adversários de outra concepção. é claro.em um estudo simultâneo do Islamismo. o estudo comparativo acaba sendo um exercício fundamental de tolerância e de convivência de culturas diversas. É sempre importante frisar que há locais em que. Crenças. perguntar se sua visão das outras re- ligiões não é estereotipada ou preconceituosa. Regiões geográficas distintas onde se originaram e espalharam as três religiões. Por exemplo. Um trabalho assim requer maior esforço de quem realiza e dos que corrigem e. comparativas e multidisciplinares. igualmente. um evangélico. Deve existir uma sensibilização com a classe para fazer uma distinção entre aula de catequese e um estudo so- bre as religiões. rituais. 3. Da mesma forma. A regra para um bom trabalho é que ele não possa ser copiado integralmente de fonte alguma. pois apresenta um desafio. . desviando de uma análise mais profunda da Religião muçulmana. É muito importante lembrar ao professor que o tema religião desperta paixões variadas em sala. em nome de uma concepção de Deus. Os diferentes períodos históricos das três religiões. existem em todos os sistemas religiosos. Assim. Um trabalho integrado tem uma resposta integrada e representar não apenas um desafio de romper gavetas-estanques na cabeça dos alunos. Como o professor também possui uma convicção pessoal (seja um católico. O professor deve dizer com clareza que. o professor de His- tória pode trabalhar o tema da intolerância religiosa na obra de Camões. como "A testemunha" (1985 .. mitos.Witness) e "Uma estranha entre nós" (1992 — A stranger among us). jamais. Os Livros Sagrados. Bíblia e Alcorão. É possível também explorar propostas temáticas. Ambos podem ser (se o professor considerar que são adequados à sua sala) um ponto de partida (ressaltando que se trata da visão do cinema norte-americano) para uma discussão sobre convivência religiosa e cultural... Judaísmo e Cristianismo pode sugerir uma série de propostas didáticas: 1.

em formas de espiritualidade que fornecem elementos para construção de identidades. a "Nova Era". religiões orientais. na formação das crenças cristãs. o espiritualismo. Notas 1 Os números de adeptos de religiões são um pouco oscilantes. adherents. opções sexuais.MÓ D ULO IV 16 Tendências atuais dos estudos de história das religiões Atualmente. revendo cronologias e desenvol- vendo análises comparativas numa área de estudos nova e emergente. neopentecostais. Para o caso do Judaísmo uma boa fonte é o site http:/Avww. novas práticas espirituais. avivadas. de privilegiar. como objeto central de pesquisas. movimentos. etnia. 2 O Apocalipse de Paulo não é uma obra considerada oficial e inspirada pela Igreja Católica ou pela maioria das Igrejas Cristãs. pentecos- tais. . acima de tudo. dos conflitos institucionais e dos novos movimentos religiosos. integrar novos códigos em que gênero. faz pouco sentido separar apócrifos de livros oficiais. Muitos movimentos religiosos procuram repensar os papéis de gênero.html. Assim. os conflitos em nome da fé. a constituição de identidades religiosas nacionais e supra- nacionais. Trata-se. classe façam parte das formas de expressão espiritual. desmontando preconceitos. As obras que estão fora da lista oficial de livros da Bíblia são chamadas de apócrifas e foram muito lidas pelos cristãos de todas as épocas.com/largecom/com_judaism. as religiões afro-brasileiras como a umbanda e o candomblé. como O nome do Bom Ladrão ou dos avós de Jesus. a participação po- lítica engajada. têm origem nos chamados apócrifos. tendências até então consideradas marginais à cultura religiosa "oficial": movimentos religiosos dos povos indígenas latino-americanos e africanos. Informações consagradas. é necessário ampliar os limites. as centenas de igrejas evangélicas. liturgias alternativas e revisões te- ológicas de acordo com as necessidades da modernidade. Dessa forma. os estudos sobre Religião e religiosidade valorizam os fenômenos religiosos de forma diversi- ficada. de me- mórias coletivas. correntes de pensamento. com destaque para o papel das mulheres e das minorias dentro da sociedade e cultura. Há o reconhecimento de que as questões religiosas permeiam a vida cotidiana como religiosidade popular. de experiências místicas e correntes culturais e de intelectuais que não se restringem ao domínio das igrejas organizadas e institucionais. Repensar a Religião e a religiosidade numa perspectiva da História Cultural é. portanto.Estudos de religião para um novo milênio E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA .

São Paulo: Companhia das Letras. Religião e cultura popular. HANS. Ioan P. Jonstein. São Paulo: Loyola. 1998. Rio de Janeiro: DP&A. Henry.. São Paulo: Martins Fontes. Obras de caráter geral e dicionários ELIADE. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores. é possível encontrar trabalhos acadêmicos e científicos. Dicionário de teologia feminista. Lidia. Ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. o rei das muitas faces. _______. ELIADE. CHAIB.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . HELLERN. DELUMEAU. São Paulo: Companhia das Letras. Várias autoras. 1997. São Paulo: Companhia das Letras. Petrópolis: Vozes. Waldenfels. Victor. 2002. KONIG. _______. Imagens e símbolos. Victor Cincent (org. São Paulo: Martins Fontes. DELUMEAU. Mircea. 2002. Rodrigues.6 v. no Cristianismo e no Islamismo. 1991. São Paulo: Companhia das Letras. O livro das religiões. ARMSTRONG. 2. A lista abaixo não pretende esgotar as possibilidades.). NOTAKES. 1995. História das ideias e das crenças religiosas. Dicionário das religiões. Rio de Janeiro: Objetiva. 1983. Léxico das religiões. De religiões e de homem. . Em nome de Deus: o fundamentalismo no judaísmo. Ainda assim. 2000. Ogum. Mircea. Petrópolis: Vozes. 2001. COULIANO. Jean. Jean. Mil anos de felicidade: uma História do Paraíso. São Paulo: Companhia das Letras. Buda. Obras específicas sobre a História e experiência religiosa ELIADE. 2000. Franz Cardeal. Elizabeth. Karen.M Ó DU LO IV Estudos de religião para um novo milênio 17 Recomendações de leitura Boa parte da bibliografia sobre História das Religiões não foi traduzida para o português. n. Maomé: uma biografia do profeta. Mircea. 1. 17 (Coleção O Sentido da Escola). 2001. GAARDER. 2000. 199 . VALLA.

enfim. ao mesmo tempo em que se configura a ciência moderna e a burguesia inicia sua estrutura de classe. com toda a sua riqueza de acontecimentos. com as atividades do trabalho. dos homossexuais. E-mail: rogimeneiSlunimep. em especial. seus sentimentos. Para Morin (2000. deportação.. conseguiu produzir como resultado da interferência de homens e mulheres na natureza. por exemplo. segmentos da população com interesses específicos. Talvez por ser o fechamento de um milênio remete a um olhar mais acurado e conduz à necessidade de reflexão crítica e análise cuidadosa.br ** Doutora em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba. Entre tantas questões. Nesse contexto emerge uma fafa mais densa sobre a questão da formação dos sujeitos. da saúde do planeta e. interesses de grupos diversos. como. E-mail: ejbortol@unimep. vem do âmago da racionalização. o século XX testemunhou a luta por inúmeras causas. A escola passa a ser mais solicitada. A segunda. que só conhece o cálculo e ignora o indivíduo. das causas coletivas. massa- cre. O século XX foi o da aliança entre duas barbáries: a primeira vem das profundezas dos tempos e traz guerras. professora de Metodologia do Ensino no Programa de Mestrado em Direito e Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Metodismo e Educação da Universidade Meto- dista de Piracicaba . seu corpo. o século que encerra o segundo milênio fala dos direitos individuais. da religiosidade. da preocupação com o campo das práticas fraternas e solidárias e. 70). * Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. professor de Filosofia na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Metodista de Piracicaba e na Faculdade Salesiana Dom Bosco de Piracicaba. pois a família começa a ampliar sua trajetória envolvendo-se.. sua alma. gélida. uma preocupação maior com a responsabilidade social. grande parte delas de afirmação de políticas públicas. é o cenário colorido e multidimensional que contém tudo o que a humanidade.UNIMEP. a causa das mulheres. anônima. além de sua introdução ao mundo acadêmico e formal? A modernidade elegeu a escola para desempenhar este papel e seu prenúncio aparece ainda ao final do sé- culo XVIII. fanatismo. pais e mães.br . e que multiplica o poderio da morte e da servidão técnico- -industriais. As falas sobre educação retomam com intensidade a importância da formação dos indivíduos.Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . E ela então se organiza. Quem cuida da formação em valores? Quem se preocupa com a educação das crianças e consegue realizar um trabalho formativo junto a elas? Quem fica atento à formação pessoal das crianças e dos jovens. em todas as frentes da cultura. p. das crianças.MÓ D ULO IV 18 Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil: Desafios e perspectivas Edivaldo José Bortoleto* Rosa Gitana Krob Meneghetti** O cenário que abriga a discussão sobre o Ensino Religioso O século XX. ao lado do cuidado com sua formação intelectual e acadêmica.

tanto da Revolução Industrial quanto da Revolução Francesa. é fundamental reafirmar que a tarefa de educar está revestida de alta complexidade e se constitui de inúmeros quesitos. atitudes. reproduzir a cultura (valores. 108). todavia. Maria Cândida Moraes (1997. iniciada nesse contexto de democratização do modelo de sociedade. Em um mundo em que coexistem instituidamente o geral e o local. É no conjunto dessa reflexão que se pode situar o tempo da modernidade -em torno dos mil e oitocentos . com abrangências que alcançam os modelos políticos e as concepções didático-pedagógicas. ou seja: surge como instituição pública. de que forma a educação poderá colaborar com o novo pensamento científico. expressa. (FRIGOTTO. assim refere: Tanto a física quanto a mística mostram que o mundo exterior e o interior são apenas dois lados de um mesmo teci- do. Demonstram também a existência de uma unidade essencial entre todas as coisas e todos os eventos. Por ser uma instituição social. desde a educação infantil até a educação superior. cuja função é desenvolver outra cultura. sobre a importância das questões da espiritualidade no que se refere ao conjunto de elementos que constituem uma proposta educacional de relevo. gratuita. não há dúvidas. que. Em se tratando da compreensão da educação formal. a tradição e a novidade.car- rega consigo o ideário. no qual todas as forças e os eventos. onde o nascente conhecimento científico moderno estará muito presente e cujo papel principal será o de aproximar as ge- rações mais novas. embora a ação de ensinar e aprender remonte aos primórdios da história humana. que se deseja falar e pensar a questão do Ensino Religioso (ER). as perspectivas de longo prazo e o imediatismo. universal e laica. no sentido de despertar maior consciência espiritual em nossas crianças? O texto mencionado é apenas mais uma tentativa para alertar sobre a importância do papel da escola na formação dos alunos. Trata-se de uma instituição que busca. sendo a realidade externa idêntica à realidade interna. o macro e o micro. portanto. enquanto sistema. sua incrível capacidade de interligar elementos isolados em mesclas ricas e consistentes de valores e . é bem mais recente. sendo referida. para além dos elementos relativos à informação e ao desenvolvimento de habilidades profissionais técnicas. e que o indivíduo e sua consciência são partes integrantes dessa unidade. a educação formal escolarizada. dos saberes do senso comum e do saber cotidiano.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . aos três ou quatro últimos séculos. símbolos) e o conhecimento definidos como "universais" pelas classes ou grupos historicamente dominantes. 1997. diante da sociedade feudal e do absolutismo reinante. a escola é de fundamental importância para afirmar. por mediações diversas. para grande parte dos estudiosos da ciência da educação. todas as formas de consciência e todos os objetos estão entrelaçados numa rede inseparável de relações interdependentes. conforme variedade de autores e no modelo atual. a competição exacerbada e a luta pela igualdade de oportunidades. tratando do novo paradigrna para a educação. do novo ideal sociopolítico dos Estados Modernos. Com base na convergência entre ciência e mística.do feudal para o moderno . sua capacidade de includência do outro diferen- te. a partir das culturas particulares. o coletivo e o individual.M Ó DU LO IV Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil 19 Como instituição social. Considerando-se que surge no contexto da troca de modelo de sociedade .e é a partir desta escola. p. o modelo burguês. os conflitos e os interesses em disputa pelas diferentes classes e grupos sociais. A apetência da cultura brasileira para a miscigenação. elementos fundamentais mas não suficientes para constituir o conceito de formação integral do ser humano. p. 140) É necessário reconhecer.

A importância do Ensino Religioso na formação dos alunos e na organização do currículo Quando a temática do ER é abordada no conjunto de ações escolares formais. Na experiência da fé. A fé está sempre vinculada ao fenômeno religioso. conforme os relatos das respectivas tradições religiosas. perpassa a vida e a prática do sujeito cognoscente. Já a Catequese alicerça-se na experiência e na vivência da fé. no campo da Catequese. Trata-se da distinção entre Ensino Religioso e Catequese. tornando-a componente fundamental para entender a totalidade do tecido social. passível de ser olhado de fora e. o objeto é o fenômeno religioso em todas as suas dimensões e manifestações. existe a partir dele. permite afastamento necessário a contemplação aca- dêmica e científica. por cultivo espiritual. Vale também considerar que esse objeto pode ser considerado tanto fora do campo das Ciências da Religião quanto do campo da Catequese. Antropologia e a Sociologia da Religião. simbólica ou não. Já no âmbito da Catequese. então.MÓ D ULO IV 20 sentidos. Artes. Por isso. Enquanto no primeiro caso a linguagem é a das diversas Ciências da Religião. organiza-se em um sistema de doutrinas e práticas que a identificam com as matrizes religiosas. o agnosticismo e a anti-ido- latria passam a ser também uma expressão cultural a ser considerada e investigada (BORTOLETO. nas Ciências So- ciais e Naturais bem como em estruturas lógico-formais. Quanto ao método de investigação.Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . além de outros campos do conhecimento. faz com que a sociedade brasileira seja um lugar privilegiado no qual podem ser construídas compreensões redimensionadas da questão da espiritualidade. mas de adesão por identidade. o objeto é a fé em sua dimensão de religiosidade e estrita ao campo da prática religiosa propriamente dita. no campo do ER a cultura é compreendida como um fundamento nuclear mítico-ético. com distintas tradições religiosas. para a construção do espectro religioso social e contribuindo assim para a formação humanística do sujeito. experiências do re-legere (conceito antropológico = várias leituras de mundo). Referentemente ao tipo de saber e à linguagem utilizada. na prática. além de em saberes como Psicanálise. leituras sobre o mundo. em que se realiza a experiência. Em termos de objeto de estudo. aquilo com o que os conteúdos escolares devem se envolver no cam- po do ER. depende dele. No campo da fé esta é uma experiência absoluta do amor incondicional na relação de alteridade do humano com o Transcendente. a experiência mística do sagrado é existencial. é sempre uma leitura interpretativa dos fatos que o envolvem. 2003). Teologia. portanto. por sensibilidade. enquanto no ER o fenômeno religioso é objeto da ciência. da ordem da confessionalidade. não é uma questão de demonstrabilidade empírica e científica. isto é. produto sempre das construções culturais e. portanto. são intrínsecos um ao outro. ou seja. As religiões são. e a noção do Transcendente permite a vivência do re-ligare (conceito teológico = religar) do humano com o divino. sujeito cognoscente e objeto cognoscível estão interligados. o grande Outro. o ER tem sua epistemologia ancorada na Filosofia. atividade própria das comunidades religiosas. todos esses aspectos relacionados à subjetividade dos sujeitos. representadas pelas diversas denominações. isto é. Nesse sentido. por percep- ção. trata-se de considerar as naturezas distintas de um mesmo problema. é apreendida pelos aspectos denominacionais. em diálogo permanente com a História. isto é. Por outro lado.Tecnologia e tantos outros. há uma questão de fundo que está presente e que merece atenção especial. o ateísmo. Literatura. . no segundo é a do campo da Teologia.

E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . quando esse passo está vencido. preocupações com o corpo docente e discente. não denominacional. está alocado dentro de uma gran- de área chamada Ciências da Religião. ao contrário. antes doutrinária. pela sua natureza e estrutura. os desafios permanecem no campo da aplicação propriamente dita e da supervisão sobre a aplicação. que trata das questões da fé. sobre o caráter mestiço da cultura brasileira que aponta. mas se constrói no viés das Ciências da Religião e da Educação. uma vez que o ER só pode ser. não-confessional. para uma concepção mais alargada. O ER é. De modo similar.M Ó DU LO IV Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil 21 Assim. só pode ser. Não é de cunho teológico. ao reconhecer o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil. preservadora dos ritos e símbolos próprios àquela tradição religiosa e. Vale reafirmar: não é tema transversal. O país vive uma história de boas relações entre os dois tipos de instituições escolares. desde a colonização brasileira. diz respeito ao campo de sua aplicação. pautando-se. processos de avaliação e regulação. praticada e preservada no âmbito das comunidades eclesiais e eclesiásticas. inclusive. e não mais a religião. pois tem estrutura epistêmica.745/97). Sobre essa temática. Legislação específica do Ensino Religioso No campo jurídico não são poucos os estudiosos que afirmam que o Brasil tem uma legislação muito bem elaborada. embora reconheça que o Ensino Religioso seja parte integrante da formação básica do cidadão (Lei n° 9. ou seja. tais como instituições religiosas. Essa concepção alargada. Segundo. a escola confessional pela mesma legislação que rege a escola laica. É componente curricular. se torna o foco do ER. por consequência. oriundas da formula- ção laica (Estado) e da formulação confessional (Igreja). confessional. pressupostos legais. formas de estabelecimentos de interferências na sociedade e desenvolvimento de com- promisso social. isto é. em síntese. para além de uma lógica monoidentitária. Ou seja: tudo aquilo que compõe a estrutura de uma pro- posta pedagógica escolar presente nas escolas da rede laica encontra-se também nas escolas de orientação confessional: estrutura de currículo. vale consultar o texto de Cury (1984). entre outros. na qual o fenômeno religioso. portanto. um dos . portanto. afirmativa de uma denominação religiosa. igrejas e escolas confessionais. e tantos outros elementos quantos forem possíveis de serem mencionados. na rede de ensino mantida pelo Estado. é reconhecido pelo Sistema Nacional de Educação. Há dificuldades para normatizar a operacionalização das leis e. não há distinções quando se fala nos elementos que constituem suas propostas educacionais. Quanto à questão das escolas confessionais. uma área de conhecimento com epistemologia própria. vinculada a um modelo de prática da religião. passa a não mais referendar o primado da religião considerada oficial desde os tempos da colonização e amplia a concepção. quando. o Brasil é um país onde existe oficialmente a separação entre Igreja e Estado enquanto conquista política desde os tempos da proclamação da República. espaços de relações. rica em detalhes e bastante qualificada em termos de princípios e concepções de sociedade e de ser humano. a Catequese. O grande problema. No ensino laico. não afirmativo de uma só tradição religiosa e. não excludente de todas as manifestações do campo religioso. Esse é. saliente- -se. está em consonância com a percepção antes mencionada. o grande salto diferencial da orientação legal se faz notar em dois aspectos: primeiro quando respeita a histórica separação entre Igreja e Estado e garante matrícula facultativa aos alunos. possui legislação federal específica e ocupa lugar importante como componente curricular ao lado dos outros nove que compõem o currículo do Ensino Fundamental. no qual uma extensa pesquisa esclarece muito bem as questões relacionadas a esse período.

as formas de gestão da escola. de matrícula facultativa. herança das lutas da humanidade em favor de processos democráticos e os ideais de solidariedade humana. contri- buindo na concepção de currículo para a mediação entre os diversos saberes. Capítulo III). Seção I. 205.liberdade de aprender. em seu art. as diversas legislações que tratam do ER e de questões correla- tas. considerando-se. constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental (§ 1º. 2) Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9. pode prescindir dos elementos mínimos de formação para a espiritualidade e para os valores. 210 da Constituição Fe- deral (BRASIL. e portanto assegurado de antemão. refere que "A educação. no exercício dos afetos e da não violência. os órgãos de classe. a título de resgate organizativo. tais como docentes capacitados. e outros. as inúmeras instâncias legais que tratam a questão. qualificando-o e reafirmando os princípios nos quais se deve ancorar para fazer cumprir a finalidade da educação. nos seguintes termos: "O ensino religioso. Os princípios de liberdade. ainda que mencionado no art. Assim. Portanto. art. III -pluralismo de ideias e concepções. direito de todos e dever do Estado e da família. dos outros e outras diferentes e singulares? Merece destaque o fato de o ER estar situado no âmbito da educação sistemática e formal pela própria Constituição. Em paralelo ocupam o mesmo espaço os interesses políticos. a arte e o saber. visando ao pleno desenvolvimento da pessoa. 210. 3º. o texto diz: "O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I . de modo que seja possível compreender. absorção das horas-aulas na composição dos horários.. na descoberta do outro. das possibilidades reais de exequibilidade.394/96 A Lei maior da educação nacional. num processo lógico-dedutivo. como pensar que esse preparo. II . elementos capazes de auxiliar os alunos na des- coberta das causas coletivas e solidárias. ensinar. únicos. garante que "A educação. em seu art. orientações dos sistemas de ensino para as escolas. seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". ainda. incluin- do-se aí o preparo para o exercício da cidadania e a sua qualificação para o exercício profissional.Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . dever do Estado..respeito à liberdade e apreço à tolerância". seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho".MÓ D ULO IV 22 problemas enfrentados pelo ER. No art. As perguntas são: Por que é tão difícil .[. que ele depende das legislações dos Sistemas Es- taduais e Municipais de Educação e. pesquisar e divulgar a cultura e pensamentos. tem por finalidade o pleno desenvolvimen- to do educando. 1) Constituição Federal de 1988 O Brasil é uma República Federativa regida por uma Constituição que. inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana. Seguem-se. 1999). IV. acrescenta ao preceito constitucional já mencionado. estão também presentes na concepção do ER e podem iluminar o ambiente escolar. realizado pela escola formal. as questões corporativas e inúmeros outros elementos que compõem a socie- dade civil e escolar. 22. constituídos como salvaguarda para que a barbárie não impere entre os grupos sociais.]. será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. O texto é claro quando afirma que a finalidade da educação é o pleno desenvolvimento da pessoa.

ciência e tecnologia. constituídos em entidade civil que. ao instituir as Diretrizes Cur- riculares Nacionais para o Ensino Fundamental. de maneira a legitimar a unidade e a qualidade da ação pedagógica na diversidade nacional. os §§ 1º e 2°. garante a participação do conjunto de denominações religiosas do Estado brasileiro. de matrícula facultativa. vedadas quaisquer formas de proselitismo". fruto de uma longa dis- cussão no Congresso Nacional.475/97 Em 1997. meio ambiente.475. constante da antiga Lei n° 5. sancionado pelo Presidente da República em 22 de julho de 1997. de forma coletiva. cultura. 1º. por um lado. 4) Resolução CNE/CEB nº 2/98 Em 1998. é parte integrante da formação básica do cidadão. 3°. a Lei n° 9. contribuem com os sistemas de ensino e que ouvirão e receberão suas contribuições para a elaboração e definição dos conteúdos. 3) Lei Nacional n° 9. em igualdade de direitos e deveres em relação às demais áreas da Educação Básica. igualmente. O novo texto. Com a nova estrutura do texto fica assegurado o caráter de amplitude do objeto de estudo do ER. para a definição dos conteúdos do ensino religioso". em seu art. se faz necessário romper com os con- teúdos segmentados e criar espaços curriculares onde as mediações sejam feitas? O que mais precisa ser dito para que se compreenda que os elementos constantes desta recomendação legal estão todos garantidos na proposta dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso? (FONAPER. Ao mesmo tempo. que: Em todas as escolas deverá ser garantida a iguaidade de acesso para alunos a uma base nacional comum. Portanto. item IV. na Resolução n9 2. Por outro lado.692/71.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . para cumpri-la. na qual estava garantido o caráter de confessionalidade para o Ensino Religioso. A base comum nacional e sua parte diversificada deverão integrar-se em torno do paradigma curricular.M Ó DU LO IV Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil 23 compreender que a escola tem esta finalidade e que. trabalho. sexualidade. fica superada a ideia de atendimento nas escolas (que são de natureza laica) das diversas denominações religiosas em sua função catequética.394/96. o que a caracteriza definitivamente como área do conhecimento. constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. que vise a estabelecer a relação entre a educação fundamental e a) a vida cidadã através da articulação entre vários dos seus aspectos como: saúde. assegurado o respei- to à diversidade cultural religiosa do Brasil. traz o elemento diferenciador para a questão à medida que supera a visão anterior. assim como as normas para a habilitação e a admissão de seus professores. 33 da LDBEN n° 9. linguagens e b) as áreas de conhecimen- . vida familiar e social. sinaliza. a inequívoca responsabilidade dos sistemas de ensino na definição dos conteúdos desta disciplina. dá uma nova redação ao art.da Lei n° 9. em seu art. O texto passa a ter a seguinte redação: "O ensino religioso. corrigindo um equívoco de compreensão dos termos confessional e interconfessional. a Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação.475/97 legislam que "os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a ha- bilitação e admissão dos professores" e "ouvirão entidade civil constituída pelas diferentes denominações religiosas. o édito legal referenda. quan- do se afirma o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil e. 1997).

Língua Materna (para populações indígenas e migrantes). Esse movimento curricular o coloca ao lado das outras áreas já mencionadas e significa. há necessidade de um profissional que reconheça seu espaço na formulação do currículo escolar e seja capaz de realizar interlocuções importantes e convenientes com as demais áreas do currículo. o reconhecimento de que o ER possui uma episteme própria. Ciências. 5) Resolução CNE/CEB n° 4. de uma pessoa. quase sempre voluntária.MÓ D ULO IV 24 to: Língua Portuguesa. Esse aspecto é fundamental porque aponta para o fato de que. na forma do art.394. Segundo.Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . Língua Estrangeira. Educação Física e Educação Religiosa. a partir dessa Resolução. após um logo período de discussões envolvendo sistemas de ensino. pois é um componente curricular reconhecido pela referida Resolução. aqui. Ao integrar a base comum nacional do Ensino Fundamental. de 13 de julho de 2010 Recentemente. 33 da Lei 9. o ER é reconhecido como área de conheci- mento. representante de uma ou outra deno- minação religiosa que venha "ajudar" na escola com algumas aulas de religião. Não se trata mais. Fica. há necessidade urgente de esta- belecimento de cursos de formação para habilitação específica e pedagógica de docentes. exercendo ações mediadoras e realizando interlocuções entre os diversos outros saberes. os cursos de Licenciatura em Ensino Religioso para habilitar profissionais para ministrar os conteúdos do ER e. o que. a hipótese não se sustenta nem pelas razões legais. o texto desta Resolução é fundamental para a questão do ER por duas razões estritas. naturalmente. É igualmente inegável que. como área de conhecimento. conseguir o reconhecimento do profissional junto as instâncias reguladoras do Ministério da Educação.o fenômeno da religiosidade . com episteme própria. (Grifos nossos) Ao reconhecer o ER como área de conhecimento. que seu objeto de estudo é o fenômeno religioso nas suas diversas manifestações de religiosidade e que seu papel em termos de estrutura de currículo supera seu objeto de estudo em si . para o pleno exercício dessa possibilidade legal. a importância da rediscussão da estrutura do currículo do Ensino Fundamental. . é primordial compreender que. não há razão para dúvidas sobre o fato de que o ER deve constar em todas as matrizes curriculares do Ensino Fundamental. muito menos pelas epistêmicas. de 20 de dezembro de 1996. Assim. portanto. abrigando mais uma área constitutiva ao lado das demais. criando assim a demanda pelo professor licenciado para essa cátedra. o ER sinaliza a necessidade de formação de um profissional habilitado para ministrá-lo. remete à necessidade de formação acadêmica desse profissional. Geografia. pesquisadores e docentes. paralelamente. O momento da legislação brasileira é outro e dimensiona a questão para outro perfil de profissional com uma formação acadêmica plena.e pode ir além. No que se refere à Escola Fundamental. nas quais o ER poderia ser trabalhado na perspectiva de Temas Transversais. História. aprovaram. Sintetizando. em parceria com as universidades. carece de profissionais habilitados para ministrá-lo. por meio do Conselho Nacional de Educação (CNE). bem como a necessidade de formalização da profissão do (a) professor (a) de Ensino Religioso. invalidada a interpretação feita em algumas instâncias de discus- são. pois. aponta-se a necessidade de reconhecer. E essa tem sido uma das grandes frentes de discussão do FONAPER: criar. Matemática. o ER pas- sa a fazer parte do conjunto de saberes denominados Áreas de Conhecimento. como área de conhecimento. o Ministério da Educação (MEC). cujo eixo é estruturante para a temática em discussão: primeiro. de concreto. em paralelo. Educação Artística.

f) o Ensino Religioso. natural. está le- gislado que a base nacional comum constitui-se de conhecimentos. incluindo-se a música. no desenvolvimento das linguagens. ao buscar que os estudantes conheçam. d) a Arte. em suas diferentes formas de expressão. No Capítulo II dessa Resolução. expressos nas políticas públicas e gerados nas instituições produtoras do conhecimento científico e tecnológico. que se desenvolvem as habilidades indispensáveis ao exercício da cidadania. baseando-se no direito de toda pessoa ao seu pleno desenvolvimento. entre eles. nas formas diversas de exercício da cidadania. intitulado Formação Básica Comum e Parte Diversificada. sequencial e articulado das etapas e modalidades da Educação Básica. a permanência e a conclusão com sucesso das crianças.M Ó DU LO IV Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil 25 no dia 7 de abril de 2010. integrante da base nacional comum da educação básica. saberes e valores produzidos cultural- mente. entre tantos outros que se dedicaram à temática. organizados pelos sistemas edu- cativos. Desafios e perspectivas 1) Quanto ao objeto de estudo O fenômeno religioso tem sido discutido desde o final do pensamento da Antiguidade Clássica. em 4 de julho de 2010. (grifos nossos) O § 2º estabelece que é por intermédio de tais componentes curriculares. c) o conhecimento do mundo físico. o fenômeno religioso está contido em toda a discussão da Escolástica. reafirma o ER enquanto área do conhecimento. Esse documento. seja de teor judaico. à medida que integra uma esfera das culturas. cujas representações estão claramente expostas em Santo Agosti- nho e em Orígenes. no mundo do trabalho. o § 1º afirma que integra a base nacional comum nacional as seguintes áreas do conhecimento: a) a Língua Portuguesa. art. a família e a sociedade têm de garantir a democratização do acesso. dos jovens e adultos na instituição educacional. muçulmano ou cristão. tanto pela Patrística ocidental quanto pela oriental. incluindo-se o estudo da História e das Culturas Afro-Brasileira e Indígena.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . e nos movimentos sociais. a Resolução que define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para o conjunto orgânico. e tendo como fundamento a responsabilidade que o Estado brasileiro. a inclusão. e) a Educação Física. Moisés Maimônides representa a discussão no campo do Ju- . na produção artística. portanto. da realidade social e política. o Parecer n° 7. na vivência e convivência em ambiente edu- cativo. a aprendizagem para continuidade dos estudos e a exten- são da obrigatoriedade e da gratuidade da Educação Básica (art. b) a Matemática. compreendam e vivenciem os diferentes direitos de cidadãos. Para tal. 14. à preparação para o exercício da cidadania e à qualificação para o trabalho. Decorrente desse Parecer foi aprovado pelo CNE. especialmente do Brasil. em ritmo compatível com as etapas do desenvolvimento integral do cidadão. 1°). o qual tornou público os resultados dos trabalhos relacionados à instituição de Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica. Já no horizonte da medievalidade. nas atividades desportivas e corporais. o direito ao livre acesso ao conjunto dos conhecimentos religiosos elaborados pela humanidade.

vale lembrar que esta não é uma discussão simples. Embora utilizando-se dessas diversas possibilidades. pela sua própria natureza. bem como São Boaventura. mas agora entendida agora como Filosofia da Religião. Para percorrer a via de acesso à questão do fenômeno religioso estão disponibilizados inúmeros caminhos. a Ciência da Religião busca estruturar-se e responder à pergunta fundamental: Que contornos deve seguir a sua metodologia? De que elementos. afirmar que essa falta de sistematização do estatuto de cientificidade da Ciência da Religião não impede que o ER prossiga seu percurso inédito de instalar. A partir da contribuição desses pensadores. muito pelo con- trário. a semiótica da religião. de cunho teológico). que precisa ser aprofundada. entre os quais a fenomenologia da religião. 2) Quanto ao Método de Investigação e aos Conteúdos Específicos A questão do método conduz a discussão para o problema do caminho. contrariando a ideia de estaticidade. pela sua própria natureza. no âmbito da escola formal. nem superficial. principalmente as Ciências Humanas. a psicanálise da religião. a nova episteme das Ciências da Religião abarca a reflexão sobre o fenômeno religioso. isto porque a compreensão sobre o objeto . Por outro lado. por outro lado. 3) Quanto às Dificuldades do Diálogo2 Ao longo desses últimos quase 20 anos de discussão sobre a questão do Ensino Religioso que. mas. sistematicamente.Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . embora não conclusos. a psicologia da religião. ao final da modernidade. na busca de contornos mais claros e mais definidos. Dessa forma. inclusive. Vale. Malebranche e Spinoza. de coisa pronta. entre outros. a única garantia para que a humanidade permaneça na sua caminhada de superação de si mesma e de seus conflitos. Leibnitz.de per si. No período contemporâneo.MÓ D ULO IV 26 daísmo. ela pode se valer para construir sua compreensão sobre o objeto em questão? Ou seja: à Ciência da Religião compete criar o seu estatuto de cientificidade próprio e dizer do seu lugar de diferença e semelhança com os demais caminhos que Ihe têm servido de ancoragem para sua caminhada1. mas pelos estudiosos da razão moderna nascente. ocasionou a criação do FONAPER. chamado Teodicéia. no âmbito das ciências emergentes. Na modernidade ocidental o tema é discutido não mais agora pelo pensamento da Revelação (portanto. em permanente processo. densa e rica. o que permite a dis- cussão sobre o Ensino Religioso. Avérrois no Islamismo e Santo Tomás de Aquino. o qual se apresenta como algo di- nâmico. inúmeros foram os parceiros e companheiros de caminhada que se . a sociologia da religião. emerge um novo campo de conheci- mento.o fenômeno religioso . inscrito na grande área da Filosofia. dentro da tradição cristã. a partir da longa tradição alemã de Kant a Hegel. Isso significa dizer que a própria construção da estrutura da matéria do ER está ainda em processo de configuração. sua discussão sobre a espiritualidade e sobre os valores que são. o fenômeno religioso passa a ser discutido.está em constante deslocamento. entre os quais Descartes. ainda sob a égide da Filosofia. de maneira simples e consistente.

em seu art. o art. embora estejam contempladas em um dos cinco eixos dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. receptiva. As questões doutrinárias não tem sido o eixo principal da discussão realizada no âmbito da escola. por con- sequência. o qual trata. considerando-se que nenhum processo avaliativo foi realizado desde a promulga- ção e a aplicação da Lei. primeiramente. o ensino religioso escolar não pode ser confessional. conforme disposto no art. cientistas da religião e lideranças das diversas Tradições Religiosas) foi surpreendida pelo ato do Exmo. isto é. 11 do Acordo está pautado em um princípio argumentativo doutrinário desconsiderando a concepção multicultural como determinante da vida societária brasileira. é remeter novamen- te o problema para o contexto da Igreja. reconhecer a profissão de professor de ER. de um reposicionamento do governo frente à questão do ER. 11. envolvidos com a temática e. Para melhor entender a situação do Acordo em seu art. estabelecida e reconhecida como constitutiva da personalidade de base do povo brasileiro. Trazer essa questão. Luiz Inácio Lula da Silva que. organismos religiosos. pior que isso. não a reconhecendo como elemento norteador das ações da escola no campo do Ensino Religioso. saindo. no final do ano de 2008. já amplamente legislado desde 1997. assinou um Acordo com a Santa Sé. faz-se necessário retomar os princípios argumentativos que nortearam a discussão na década de 1990 e que foram preservados na legislação de 1997. Paralelamente. O texto do art. em nível municipal e estadual. Isto é: historicamente. supondo-se que os gestores das escolas desconhecem a Lei e. relativo ao Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil. e não considerados pelos formuladores do Acordo. o Acordo atropela e ignora a legislação existente. ignoram sua importância constitucional como garantidora dos direitos individuais dos alunos. Voltar a ele. 11.M Ó DU LO IV Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil 27 identificaram e contribuíram para o andamento dos propósitos daqueles que acreditaram e buscaram le- var a termo a questão do Ensino Religioso. Sobre esse fato. instituições. setores do governo e outras instâncias governamentais.475/97. no que se refere aos propósitos desta discussão. em visita à Itália. caracterizando-se também por uma prática popular religiosa. garantindo que as práticas previstas em Lei sejam materializadas através de medidas orgânicas e funcionais. do campo das Ciências da Religião e do cotidiano da prática escolar. Essa é a religiosidade estabele- cida pela prática. O momento agora não é de retornar a essa questão. é de avançar. também inúmeras foram as dificuldades e os antagonismos encontrados na interlocução com pessoas. porque não há qualquer sinal claro de que precise ser revisto. a comunidade acadêmica (professores de ER. Presidente da República do Brasil. objetivo. 33 da LDBEN nº 9. Sr. afirmando as necessidades já evidenciadas: criar cursos de Licenciatura em Ensino Religioso em todo o território nacional e. 11 do Acordo. lideranças. pois. em permanente processo de auto-organização. pois. O fundamental é a . 11 do Acordo é desnecessário.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . pois o texto da Lei n° 9. Em segundo lugar. não se justifica.394/96 não se encontram conteúdos de uma determinada reli- gião ou confissão religiosa. mais especialmente. a cultura nacional tem se notabilizado por ser includente. além de buscar a integração dos sistemas de ensino. acolhedora nas diferenças. É como legislar sobre o já legisla- do. e resultou de muita discussão acumulada entre os poderes públicos e os representantes legítimos da escola e das diversas tradições religiosas. com a assina- tura da Lei n° 9. teólogos. No ER previsto no art. ao contrário. Entre as várias situações enfrentadas.745/97 é claro. segmentos da sociedade civil brasileira.

Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA - MÓ D ULO IV

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discussão sobre a importância da religiosidade e do fenômeno religioso na vida das pessoas e das socieda-
des. O § 1º do art. 11 do Acordo, ao contrário, ao anunciar um ensino religioso "católico e de outras con-
fissões religiosas", limita sua abordagem e centraliza no cristianismo o viés de abordagem da problemática,
retroagindo ao espírito da Lei n9 5.692/71, já superada e, portanto, revogada, em razão da nova fonte legal
aprovada em 1996.

4) Quanto a Importância e ao Papel do FONAPER

O FONAPER tem sido a instância organizativa da discussão sobre o ER em todo o território nacional, des-
de sua estruturação em 1995. Antes da criação do FONAPER experiências na direção desde entendimento
sobre o Ensino Religioso já existiam, mais em alguns Estados que em outros, mas de qualquer forma como
experiências isoladas e, portanto, frágeis em sua manutenção.

A partir do momento em que o Fórum é organizado, as ações podem ser planejadas e executadas, de forma
integrada e orgânica, com vistas à consecução de objetivos claramente delineados. A ideia do coletivo é
sustentadora para as ações em rede que passam a ocorrer.

Além disso, a organização do Fórum facilita a interlocução com outros organismos similares e, em espe-
cial, cria uma referência para o diálogo com as frentes governamentais, o que auxilia, inclusive, na formu-
lação das legislações que foram sendo construídas e aprovadas ao longo desses anos.

Nesse contexto, é importante reafirmar que o trabalho do FONAPER se põe como fundamental para a ma-
nutenção das ações integradoras já mencionadas e, ao mesmo tempo, para a inserção na mesma discussão,
de outros grupos, Estados federativos e organizações.

Por outro lado, seu cenário de atuação tem-se ampliado paulatinamente, em particular no diálogo com
algumas frentes de trabalho e com outras fontes de reflexão, qualificadoras da discussão sobre o Ensino
Religioso.

Com relação ao Acordo assinado pelo governo federal com o Vaticano, criou-se um impasse de natureza
técnico-operacional para além de seu significado político, que precisará ser enfrentado pelo FONAPER
em sua caminhada como liderança na discussão do ER no Brasil. Isto é: com a assinatura do Acordo que
discorda de tudo o que tem sido, orgânica e harmoniosamente, construído nos últimos anos por todos os su-
jeitos parceiros do FONAPER/instaura-se um divisor de águas, pois se torna insustentável concordar com
as ideias ali apregoadas. Isso porque, conforme demonstrado no corpo do texto, os propósitos constantes
do Acordo, especialmente no que se refere ao art. 11, são de natureza involutiva em relação ao que hoje já
se avançou no trato da questão do Ensino Religioso.

Entre as várias questões que ainda carecem de avanços no campo do constructo teórico, no que se refere ao
trabalho realizado pelo FONAPER, podem ser mencionadas a formulação da episteme própria para o ER,
para além da estruturação didático-pedagógica dos eixos organizadores do conteúdo (Culturas e Tradições
Religiosas, Escrituras Sagradas, Teologias, Ritos e Ethos)3, a démarque entre as epistemes das Ciências da
Religião e da Teologia e a abertura de uma discussão acadêmica formal sobre a questão do ensino sobre a
espiritualidade, na perspectiva de problematizar o tema junto às reflexões que caracterizam as discussões
das demais áreas de conhecimento presentes na academia.

E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A - M Ó DU LO IV Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil

29
No que se refere às ações mais pontuais e direcionadas, faz-se necessário: continuar a dialogar com as Ins-
tituições de Ensino Superior para tratar da formação dos professores licenciados em ER; manter a luta pelo
reconhecimento da profissão de professor de ER junto ao MEC; estimular ações pela abertura de concursos
públicos para os professores; perseverar no estímulo a discussão da questão do ER nos diversos Estados
da Federação, em especial naqueles em que a discussão pouco avançou; reforçar junto aos sistemas de en-
sino para que a legislação normatizadora das ações escolares esteja mais próxima do espírito da legislação
maior vigente sobre o ER, disponibilizando-se para assessorias, diálogos, interlocuções e outras formas de
contribuição.

Notas
1
Conferir sobre este tema, as seguintes obras: FIROLAMO, Giovanni; PRANDl, Carlo. As ciências das Religiões. São Paulo:
Paulus, 1999; TEIXEIRA, Faustino (org.). A(s) ciência(s) da religião: afirmação de uma área acadêmica. São Paulo: Paulinas,
2001; SENNA, Luzia (org.). Ensino religioso e formação docente: ciências da religião e ensino religioso em diálogo. São Paulo:
Paulinas, 2006.

2
Conferir sobre este tema: BORTOLETO, Edivaldo José. Culturas e tradições religiosas: um breve ensaio em torno da questão
do diálogo, da escuta e do outro. In: FONAPER. Ensino religioso: culturas e tradições religiosas. Caderno Temático n. 2, 2001,
p. 31-88.

3
Conferir FONAPER, Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. 3. ed. São Paulo: Ave Maria, 1998.

Referências
BORTOLETO, Edivaldo José. Culturas e tradições religiosas: um breve ensaio em torno da questão do diálogo, da escuta e do
outro. In: FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Ensino religioso: culturas e tradições religiosas. Ca-
derno Temático n 2, 2001, p. 31-88.

______. O quinto impossível - ou quando Deus é impossível e a impossibilidade do ofício do teólogo. In: Impulso, Revista de
Ciências Sociais e Humanas, Piracicaba/SP, v.14, n, 34, maio/ago. 2003.

______.Mistério humano, berço da paz. In: Diálogo, Revista de Ensino Religioso, ano Xl, n.41, fev. 2006.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 14. ed. São Paulo: Atlas, 1999.

______.Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União:
Brasília, 1996.
______. Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997. Dá nova redação ao art. 33 da Lei n° 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que esta-
belece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 1997.

______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº 2, de 07 de abril de 1998. Institui as Dire-
trizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental.

Ensino Religioso e a Legislação da Educação no Brasil E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA - MÓ D ULO IV

30
______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Parecer nº 7, de 7 de. abril de 2010. Assunto: Diretrizes
Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica.

______. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução n° 4, de 13 de julho de 2010. Define Diretrizes
Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica.

CURY, Carlos Alberto Jamil. Ideologia e educação brasileira. 2. ed. São Paulo: Autores Associados, 1984.

FONAPER. Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso. 3.
ed. São Paulo: Ave Maria, 1998.

FIROLAMO, Giovanni; PRANDI, Carlo. As ciências das religiões. São Paulo: Paulus, 1999.

FRIGOTTO, Gaudêncio. A escola como ambiente de aprendizagem. In: CASALI, Alípio et al. (org.). Empregabilidade e edu-
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Sérgio da. História & Religião. 35-69. In: MATA. Sérgio da. “A religião como objeto: da história eclesiástica à história das religiões”. . ENSINO DE HISTÓRIA DA BAHIA Aula 2 A herança católica colonial MATA. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 2010. pp.

.

que se diria quase maciça. a utilização dos mé- todos antiquários. com um máximo de discursos inventados e um mínimo de documentos autênticos" (MOMIGLIANO. 66-70). Possui graduação (1990) e mes- trado (1996) em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. * Professor adjunto de Teoria e Metodologia da História da Universidade Federal de Ouro Preto. que sentido há em reservar-lhe um espaço a parte? A vitória do cristianismo na Europa transformou a totalidade do processo histórico em "história da salvação". O ofício de historiador seria concebido por Eusébio como o que almeja produzir "uma obra de retórica. p. certamente. bem como o escopo "universal" mostram que também do ponto de vista metódico a sua contribuição teve importância. introduziu-se algo que a Antiguidade desconhecia: uma perspectiva histórico-filo- sófica. desestimulando qualquer iniciativa de se transformar a história eclesiástica numa história das religiões. do mito na historiografia levaria Jacob Burckhardt a ver em Eusébio o primeiro historiador total- mente desonesto da Antiguidade. As páginas da História eclesiástica estão repletas de histórias fantásticas como a da suposta correspondência trocada entre Jesus e o Abgar. 1993. . não raro beligerante. 103). Tal atitude perduraria por séculos.A religião como objeto E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . Pós-doutorado (2009-2010) pela Faculdade de Ciências Culturais da Europa-Universität Viadrina (Frankfurt an der Oder). Atuou como pesquisador convidado no Instituto Max Weber para Estudos de Ciência Social e Ciência Cultural da Universidade de Erfurt (2008). Fora do cristianismo. Com isso. Por outro lado. que sentido há em destacá-la do todo da vida social. com Eusébio se dissolve a fronteira entre "fato" e crença.MÓ D ULO IV 34 A religião como objeto: da história eclesiástica à história das religiões Sérgio da Mata* Eusébio e a História eclesiástica Se Heródoto e Tucídides merecem ser chamados os pais da historiografia ocidental. desde cedo. era natural que o Ocidente cristão expurgasse do âmbito da "religião" toda manifestação ou tradição religiosa que não se adequasse aos seus preceitos teológicos. Com isso. a mesma aliança entre Atenas e Jerusalém que aos poucos se produzia no campo religioso. "heresia". nunca se- parar inteiramente a esfera eclesiástica da política. nenhuma expe- riência religiosa autêntica fora do cristianismo. "idolatria". O recurso a fontes escritas. Tendo escrito sua obra numa época de intensa agitação política e religiosa. Na Idade Média a historiografia dos fenômenos religiosos perde sua razão de ser. "superstição". A fórmula extra ecclesiam nulla salus ("fora da Igreja não há salvação") é a sua expressão definitiva. Doutor em História pela Universidade de Colônia (2002).não obstante Eusébio. Mas o universalismo da ética cristã esbarrou. no âmbito do conhecimento histórico. Nenhuma diferença possível. em suas próprias contradições. A reintrodução. coube a Eusébio de Cesareia (260-340) a autoria do primeiro grande empreendimento historiográfico voltado para o campo religioso . o que resta é "paganismo". 2000. O sincero interesse com que os antigos reportavam as cren- ças dos outros povos deu lugar a uma atitude intolerante. p. ele promove. na condição de bispo e fiel aliado do imperador Constantino. rei da cidade síria de Edessa (EUSÉBIO DE CESAREIA. Quando tudo é religião.

Seu autor. De um lado. 150) observou. e não como uma disciplina autônoma. p. fazia parte da astronomia. Este ponto de vista marcou fortemente a produção historiográfica protestante dos primeiros tempos. A resposta católica viria com os 12 volumes dos Annales ecclesiastici (1588-1607) de César Barônio. o Ocidente cristão se enredava num longo período de guerra fratricida. Isso se dá num contexto de crítica crescente à Igreja de Roma. a esse pro- pósito. Nessa condição. a dialética e a retórica.M Ó DU LO IV A religião como objeto 35 Como seria de se esperar de clérigos. geometria e aritmética. se produz uma primeira grande virada nos estudos religiosos. Francis Bacon. p. Ao voltar-se para um obje- tivo tão elevado. 623). A essência desta época estaria menos na redescoberta da tradição clássica e do indivíduo que na oposição ao ideal cristão de "fuga do mundo" e na substituição da tradição pela dúvida metódica como princípio estruturador do pensamento. os mais conhecidos historiadores da alta Idade Média (Gregório de Tours. Um ideal de historiografia humanista e "apartidária" poderia vingar num mundo em que a verdade religiosa se media pela força dos exércitos? A primeira geração de historiadores eclesiásticos luteranos de Magdeburg. Beda) centram sua atenção na trajetória institucional da Igreja. A razão para isso é que a cronografia (jundamentum jundamenti). mais que à compreensão das coisas humanas (ENGELS. que "não se considerava um mérito fazer prova de originalidade de pensamento e o plágio não se assemelhava a um erro". Que tantos eruditos e pensadores tenham sido vítimas de perseguição mostra o quanto um tema sempre tão sensível como o da história religiosa não se beneficiava de um clima intelectual favorável. O medievalista russo Gurevitch (1990. mais tarde. ela estava intei- ramente subordinada à teologia e era entendida como um método auxiliar da exegese bíblica. como Matthias Flacius. seguiam à risca o preceito de Lutero de que a história do catolicismo se resumia à história de uma decadência. mandando traduzir seus livros sagrados e estudando-os. Deve-se ter em conta que a história vivia uma situação ambivalente no quadro das ciências na Idade Média. O mesmo espírito animara o escrito A falsa doação de Constan- tino (1440). 2004. o erudito italiano Lorenzo Valla. Enquanto na Índia o rei Jalaluddin Muhammad Akbar (1542-1605) reunia em sua corte. A revolução filológica e os limites da história eclesiástica moderna Com o advento do movimento humanista e da crítica filológica. demonstra que o documento por meio do qual o imperador Constantino supostamente teria feito doação de grandes extensões de terra à Igreja católica não passava de uma falsificação. que havia chegado ao poder na Florença de fins do século XV. O abandono da tradição clássica e a redução da historiografia à condição de crônica seriam lamentadas. Galileu e Mon- taigne: é o século da Reforma e das grandes e trágicas guerras de religião. O que conferia autenticidade a um relato era o fato de ele se inserir numa tradição.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . Como toda modalidade de história deveria estar a serviço da salvação. ciência encarregada de situar o homem e o mundo no tempo. adeptos do islamismo. A história se prestava basicamente a confirmar as verdades já estabelecidas e a estabelecer modelos de orientação. ela era considerada uma modalidade de ciência numérica. O século XVI não é apenas o século de humanistas como Giordano Bruno. além de brâmanes. pelos grandes historiadores eclesiásticos do século XIX. Isidoro de Sevilha. Predominava a . o estudo do passado articulava-se a um "ponto de referência transcendental". Já enquanto narratio ela contava entre as artes liberais como a gramática. ao lado de disciplinas como astro- nomia. Em nenhum momento da his- tória moderna o contraste entre trevas e luz foi tão acentuado. a Bíblia pôde ser considerada um livro de história tão fidedigno como qualquer outro. crítica que se expressava tanto na literatura de Boccaccio quanto na figura do monge Jerônimo Savonarola. do zoroastrismo e do cristia- nismo.

de rejeitar todas as traduções eclesiásticas que dele foram feitas. e para a história em particular. ”sobretudo a da verdadeira religião revelada": . queixa-se Simon. As instituições eclesiásticas tinham lá seus motivos para assim proceder: a distância que separava a crítica filológica da crítica da religião (e mesmo da contestação política) era relativamente tênue. ao concluir sua Crítica sacra em 1634. 229). Simon foi expulso de sua congregação em 1678. Capell concluiu que era destituída de fundamento a ideia. consequentemente. o mesmo que a matemática significava para o estudo da natureza. pela mes- ma razão. a Crítica sacra finalmente aparece em Paris. no ano 1650. sem sucesso. observou Wilhelm Dilthey (1991. Embora os resultados dessas investigações tenham sido promissores. Tais avanços se produzem no rescaldo das sangrentas guerras religiosas que marcaram o século anterior e. podem ser considerados uma consequência destas. de que o texto hebraico da Bíblia seria sua versão "definitiva". A contradição entre fé e razão seria apenas aparente. História crítica do Antigo Testamento (1678). pagaram um alto preço por seus escritos. todavia tais extremos são muito perigosos. posto que são tão faltosas quanto o texto hebraico. de autoria do oratoriano francês Richard Simon. e sua obra incluída no index em 1683. 2007. teríamos também. a história da literatura. a história jurídica e a história das religiões. se guiou pela mesma perspectiva metodológica. 112-113). por volta de meados do século XVII. evidente. em Genebra e em Zurique. o grande problema de se articular a filologia ao estudo da religião fica. Depois de cotejar diferentes versões das escrituras. Dentre as modalidades de estudo do passado. p. Do lado católico.A religião como objeto E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . Um lugar de destaque cabe aqui a Louis Capell. e. 68) entendia serem necessárias a história universal. Polemizando com o princípio protestante de que toda autoridade emana das escrituras. "produziu-se um grande progresso da crítica histórica entre os teólogos ecle- siásticos das diferentes confissões que estavam em disputa". A Crítica sacra teve de esperar nada menos de um século para receber autorização de republicação por parte das autoridades protestantes. um huguenote francês. Tanto de um lado quanto do outro. grifos nossos) admitia que Se tivéssemos de rejeitar o original hebraico [da Bíblia] devido aos erros que contém. Leibniz (2004. prefácio. sopra um vento novo sobre esse campo de estudos. corrente entre os protestantes. entre autores "seja católicos. publicar seu estudo na Holanda. p. Finalmente. ele apontou os inúmeros erros de tradução existentes nas versões então disponíveis do texto bíblico. Nessa época. A resistência era ainda maior do lado protestante. O próprio Simon (1682. para os quais o uso do método crítico na his- toriografia viria antes em benefício que em prejuízo do cristianismo. nenhuma cópia da escritura poderia ser admitida. a fé só parece assentar em bases firmes quando o espaço da crítica é cuidadosamente delimitado. A filologia ganha ainda mais importância: ela passa a representar para os estudos humanísticos em geral. a quem dirigia seu livro. Após tentar. p. onde a análise histórico crítica era considerada praticamente como uma "heresia" (REI- SER. Tanto Simon quanto Capell. desde logo. No estudo da Bíblia.MÓ D ULO IV 36 polêmica entre os dois partidos e a estrita submissão da pesquisa histórica a interesses apologéticos. Para os homens de Igreja. não encontrei um sequer que estivesse completamente livre de preconceito". seja protestantes. como Gottfried Leibniz e Jean Mabillon. por estranho que seja. Eruditos houve.

p. 1700. falso. com razão. 41). ele entregou-se à insólita tarefa de defender a autenticidade da famosa relíquia da Abadia de Vendôme: uma "autêntica" lágrima de Cristo. de fato. como já vimos. Esse movimento. p. que ao se aplicar esta regra para atestar a autenticidade das relíquias haverá poucas ou mesmo nenhuma que poderá passar por verdadeira. e as leis e cânones da jurisprudência divina. ele constata que . diz ele. pode-se dizer. Em outros termos: significava uma forma de "disciplinar" o sagrado. Igrejas havia que reclamavam para si até mesmo o privilégio de possuir o prepúcio de Cristo. Tais objetos de veneração são verdadeiros porque homens notáveis do passado acreditaram neles. Tal princípio pode perfeitamente servir para colocar à prova uma questão dogmática. A edição da Acta sanctotum por Mabillon implicava. mais tarde. e. e enfim para conhecer a doutrina e a prática da igreja de Deus. Uma tentativa de controle do imaginário que o Iluminismo. Senhor. num certo sentido. um opúsculo que nada faz lembrar o epíteto de "Galileu da história erudita" com que seria distinguido pelos franceses. Tão logo a crítica arrisca arranhar o edifício sacrossanto da fé. poucos anos antes de sua morte. A seguir o método de Thiers.M Ó DU LO IV A religião como objeto 37 Como esta história das religiões é a mais importante para nossa salvação. podemos até mesmo supor que não é a fé que a sustenta. Sua preocupação é menos a "veracidade" dos objetos de culto que o preço a ser pago caso todos eles sejam submetidas ao mesmo es- crutínio crítico. Em 1700. para quem a autenticidade das relíquias deveria ser aferida a partir da literatura conciliar e dogmá- tica católica. Pois. E isso. uma tentativa de depuração do elemento ma- ravilhoso tão evidente em outras obras da mesma natureza como a Legenda Áurea. que a maior utilidade do conhecimento da Antiguidade e das línguas mortas é o que dele advém para a teologia. injusto e temerário". Alguns dos casos enumerados pelo autor mereceriam um capítulo a parte neste livro. o melhor a fazer é deixá-la de lado! O pensamento de Mabillon não é um "duplo pensar". não poderia ter se dado sem contradições. Mabillon coloca entre parênteses a atitude de vigília crítica que defendera para o estudo das vidas dos santos. seria o caso de suprimi-las todas? A saída mais apropriada lhe parece ser. Contra seu contemporâneo Thiers. simplesmente.pro- mover uma expropriação religiosa daqueles que não eram tidos pela Igreja católica como seus porta-vozes "legítimos". apenas levaria às suas últimas consequências. o de dar crédito à "boa fé das igrejas".2 Mabillon diz acreditar que porções da santa cruz preservadas em alguns santuários eram verdadeiras. O fato de Mabillon não evocar nenhuma categoria intelectualmente opaca (mas carregada de força simbólica) como "mistério" ou "milagre" para justificar a veneração às relíquias é um indicativo claro disso. Thiers entendia que o culto às relíquias seria ilegítimo desde que se baseasse apenas na tradição popular. . Mabillon tenta convencer o bispo de Blois de que tal critério era "insustentável. Ele é um moderno na sua acepção plena. Não é um amálgama instável em que estratégias cognitivas opostas se defrontam. tanto no que se refere à verdade da religião cristã e da autoridade dos livros sagrados quanto para explicar estes mesmos livros e sanar milhares de dificuldades. Mabillon publica. não obstante admita que "é difícil acreditar que a Santa Lágrima de Nosso Senhor se tenha conservado até nossos dias" (MABILLON. A alternativa que coloca à pro- posta de Thiers é tímida. sem que nada se encontre na tradição escrita a seu respeito. parece-me. Mas do postulado à prática a distância é grande. a fim de saber o que Deus revelou ou não. Tomemos o caso das obras sobre as vidas dos santos.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . moral ou disciplinar: mas querer fazer depender dela a autenticação das relíquias é reduzir praticamente todas as igrejas à impossibilidade de expor relíquias.como diria Pierre Bourdieu . Mabillon (1700. 7-8) discorda: É evidente.

Arnold reabilita as chamadas heresias por meio de um vigo- roso trabalho de pesquisa documental. num sentido mais geral. Pela primeira vez o sentimento reli- gioso. Vê-se que já no alvorecer do século XVIII uma ciência histórica está sendo pensada. se encontraria a única "verdadeira" Igreja. A historiografia do Iluminismo não deu maior atenção a esse fato. até os dias de hoje. 20-21). não sem dificuldade. posto que para homens como Hume. ao menos por representação (p. ensina ele. 2005. quanto mais a que se produzia nos estados alemães. segundo disse. teria contribuído para a derrocada de Roma. Estas palavras mereceriam figurar entre as pérolas da política eclesiástica de todos os tempos. Gibbon e Voltaire tudo aquilo que pertence à reli- gião estabelecida nos afasta de uma concepção racional de Deus (a essa posição deu-se o nome de deísmo). É o efeito de verdade o que realmente importa. "se evita igualmente a superstição e a irreligião. autênticas. p. Assim procedendo. O caminho a ser seguido é o do meio. é a tendência à intolerância deste. O que afasta Hume do cristianismo. O politeísmo antigo estaria mais próximo de um ideal de civilidade. .3 Teólogo fortemente marcado pelo pietismo (uma das correntes que surgiram do luteranismo). 19). diz Mabillon. e que re- nunciou à cátedra na Universidade de Giessen por não se adaptar. Arnold promoveu um grande salto que consistiu menos na "imparcialidade" evocada no título que na sua inversão radical de perspectiva.A religião como objeto E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . Gibbon via no cristianismo um insuflador da fraqueza. e. e que. Seguindo um caminho oposto ao de Hume. Em vista disso. Antecipando Nietzsche. com muito maior razão ainda. ainda que com todas as contradições de direito. com efeito. àquela época situados na periferia intelectual da Euro- pa. que Gottfried Arnold publica sua História imparcial da Igreja e das heresias (1699-1700). 338. Embora isso seja absolutamente correto de um ponto de vista sociológico – não nos seria difícil identificar passagens similares em Durkheim – talvez não o seja do ponto de vista do erudito interessado em distinguir o "verdadeiro" do "falso". 539-570). É sobre esse mesmo fio de navalha que a maior parte dos santuários católicos caminham. p. É ali. É de certa forma compreensível que tais homens não tivessem tido olhos para a historiografia eclesiástica. Nem reconhecer todas as relíquias nem rejeitá-las em bloco. mais que nas grandes confissões oficialmente reconhecidas. ainda que esta assentasse sobre o absurdo. para quem o "entusiasmo" religioso não passa de uma forma cor-rompida de religião. como tal. seria preferível a simplicidade e o vigor da mensagem religiosa do islamismo (HUME. do ponto de vista do sacerdote. pois ainda que elas não sejam. iniciado já na época dos apóstolos e apenas brevemente estancado durante a Reforma. do monoteísmo. 1839. conserva-se a paz na Igreja e não se escandaliza as pessoas com mudanças indiscretas" (p. e. GIBBON. Para Arnold a trajetória da Igreja cristã se resumia à longa história de um declínio. Mabillon provavelmente acreditava tão pouco nas relíquias quanta o nosso leitor. entretanto a questão que ele coloca a seu superior hierárquico é de outra natureza.MÓ D ULO IV 38 Ainda que fosse verdade que estas relíquias não sejam todas autênticas. a Igreja invisível do espírito. no apagar das luzes do século XVII. ao "vício da busca pela fama do meio acadêmico". de alguma maneira elas são a mesma coisa que as autênticas. porém. A Igreja agiria mais razoavelmente caso não co- locasse sob suspeição a crença coletiva. elas podem merecer algum respeito em rela- ção à pessoa a quem são atribuídas. Nelas. e não as instituições tornava-se objeto de pesquisa histórica. no interior das próprias Igrejas.

mais que uma disciplina instrumental da teologia. era para ele uma instituição social. Aquele que narra os fatos brutos apenas enriquece nossa memória e nos diverte.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . mas aquele que. tendo se tornado seu primeiro chanceler. 34-36). O fato de que na passagem dos séculos XVII e XVIII a historiografia de língua alemã passou a ser produzida. p. A Igreja. ele não revela qualquer predileção pelos "heréticos". Até aquele momento. porém.M Ó DU LO IV A religião como objeto 39 Ao defender um estudo "imparcial" das fontes. nos dizeres de Ferdinand Christian Baur. ao mesmo tempo. Mosheim lhe atribui o papel de explorar imparciahnente o que se passa tanto no "exterior" quanto no "interior" (a esfera propriamente religiosa) da comunidade cristã.. Em condições tão favoráveis.. como o Estado. um século depois. a história eclesiástica. mas. ao realçar a importância dos elementos subjetivos na vivên- cia religiosa e ao pregar a tolerância. Vindo de Helmstedt. Ela era uma "república cristã". o fim da censura e a ênfase na produção científica. [. O âmago de seu projeto historiográfico não assentava num modelo rankeano de objetividade. Gottingen representava um experimento radi- calmente novo na história das universidades. desta forma. estudio- sos da importância de Friedrich Meinecke e Ernst Benz renderam homenagem à "virada crítica" da história da Igreja por ele produzida. Diferentemente de Arnold. pelo contrário: Arnold produziu a primeira grande história eclesiástica contra as Igrejas. ele deve dizer-nos não apenas o quê aconteceu. 2000. 1982). a história da Igreja era uma disciplina instrurnentalizada. o pai da "nova historiografia eclesiástica".] isto é. Mosheim (1867. A publicação do primeiro volume de suas Institutiones historiae ecclesiasticae no ano 1726 (os volumes se- guintes aparecem em 1738. em muito. Mosheim clama por um tratamento honesto das "heresias": trabalho árduo e difícil. No mesmo espírito de Arnold. era de se esperar que a pesquisa histórica realizasse avanços sem precedentes e antecipasse. seria preciso esperar por Johann Lorenz Mosheim (1694-1755) para que ela se transformasse numa disciplina autônoma e dotada de um estatuto metodológico pleno. Mosheim foi nomeado professor honorário na então nascente Universidade de Got- tingen em 1747. dentro das universidades (e não no interior das ordens religiosas) não é de pouca importância para a compreensão do contexto de surgimento da obra de Mosheim. mas apenas o potencial de suscitar conflitos e disputas no seio da cristandade. Do ponto de vista metódico. como e por que. diz ele. Ele colocava em prática. Século XX adentro. estabelece as causas operantes dos acontecimentos nos é benéfico. Liberando-a de um lastro tão pesado. da mesma forma. continuaria a reclamar. p. O que caracteriza tais movimentos não seria o entusiasmo ou o erro. Arnold antecipa o espírito da Ilustração e demarca a passagem de uma historiografia estritamente confessional para uma historiografia pragmática. em ritmo crescente. . o que precipitadamente se costuma atribuir a homens como Barthold Georg Niebuhr e Leopold von Ranke (IGGERS. 1741 e 1755) fez de Mosheim. pois simultaneamente fortalece nosso juízo e aumenta nossa sabedoria. a necessária separação entre Igreja "visível" e "invisível" que Carlyle. Foi nas universidades alemãs que pela primeira vez se estabeleceu a distinção entre história eclesiástica e história universal "profana" (HEIM. A metodização da historiografia eclesiástica no século XVIII Se Eusébio criou este gênero historiográfico novo. 2-3) defende que todo aquele que se interessa pela história interna e externa das Igrejas deve reduzi-las às suas causas. mas necessário em vista da incompreensão de que elas haviam sido alvo. e que incluía a valorização dos docentes.

seria uma tarefa ingrata negar que a pro- fissionalização e cientificização da historiografia acadêmica no século XIX foi largamente antecipada nos ambientes teológicos. da filosofia. p. da tradição e da realidade política dos Estados cristãos. Nos termos deste discurso. Ainda que ali a história fosse consi- derada uma auxiliar da teologia. 1867. liberdades civis. e como! . O bom historiador da Igreja deve ser culto. essa disciplina cumpriria um importante papel formador. "inflexível em seu amor à verdade e à justiça. conclui Mosheim (“1867. As "maravilhosas revoluções" pelas quais passou a Igreja cristã. esse termo denotava o trabalho de pesquisa desvinculado de preocupações de ordem proselitista e atento à necessidade de reconstituir cadeias causais. Na Alemanha. As suas fontes devem abranger todo o espectro dos autores cristãos "e especialmente daqueles contemporâneos dos acontecimentos. mas não praticado. em especial para as camadas dirigentes da própria Igreja. como vimos há pouco. Mesmo admitindo que essa advertência tem toda sua razão de ser. Concebida nos seus termos. haja vista a estreita ligação da teologia com a filosofia alemã. assim como das crenças populares ("superstições") de um povo.4 O que não quer dizer que com isso o estudioso da história eclesiástica se livra de toda finalidade pedagógica. Levado a sua consequência lógica e entendido em seu sentido último. aliar memória e discernimento.conceitos jurídicos. tal movimento foi beneficiado pelo fato de que a pesquisa teológica passou a ser produzida dentro das universidades. uma vez que esta nada teria instaurado de autenticamente novo. Pensa-dores como Kant.MÓ D ULO IV 40 Para estar à altura de sua tarefa. Ele deve entregar-se ao seu trabalho de forma paciente. Professor na Universidade de Erlangen. – não passaria de uma versão secularizada de instituições e formas de pensar sur- gidas num contexto religioso pré-moderno.receamos ter de dizer: sim. Uma peculiaridade alemã: as raízes teológicas da historiografia acadêmica Numa obra justamente reputada como clássica.” proclamam em alta voz a providência divina e o caráter instável e vão de todas as coisas humanas". tudo o que há de central no mundo moderno . "espírito" do capitalismo. a história. Reforçada por meio de exemplos e blindada contra ataques (falamos de um autor que escreveu em pleno século das luzes e que polemizou com o deísmo) advindos dos "profanos". uma vez que a base de toda história verdadeira assenta em testemunhos". tal parceria não deixou de render bons frutos. Na época. com grau maior de sucesso. Schleiermacher e Hegel eram tão lidos nas faculdades de teologia quanto nas de filosofia. da história da formação cultural e. A tradição de rigor e profundidade do trabalho intelectual que emanava deste ambiente ajuda a explicar por que um livro como a Allgemeine Geschichtswissenschaft ("Ciência geral da história") tenha sido publicado pelo teólogo e historiador Johann Martin Chladenius em 1752. De modo que quando Richard Dawkins se pergunta "se todas as realizações dos teólogos forem apagadas do mapa no futuro. Fries. sobretudo. 4). filosofias da história. o ideal de imparcialidade defendido. etc. alguém perceberia a mínima diferença?" . diz Blumenberg (1985). pela primeira vez. o método "dogmático" pelo método "prag- mático".A religião como objeto E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . tal discurso leva a uma negação da legitimidade da modernidade. Hans Blumenberg expressou sua desconfiança face a um discurso recorrente nas ciências humanas: o de que "tudo vem da religião". a fé sairia purificada de tal empreendimento historiográfico. 3). Com Mosheim a história da Igreja substitui. ele exerceria forte influência sobre o já citado Mosheim. sagaz e racional. Ele deve dispor de um conhecimento da natureza humana. p. o estudioso da história eclesiástica precisa estar atento aos mais diferentes contextos e conexões possíveis. É amplamente aceito que Mosheim levou a efeito. por Arnold. e livre de qualquer preconceito" (MOSHEIM. ser perse- verante.

p. não significou um estorvo para a ciência histórica. ele ousou devassar o eixo simbólico do cristianismo. obra admirada pela ênfase dada às experiências religio- sas . Gabler e Bauer (para aos quais o texto bíblico era uma fusão de história e mito). O mito não era para ele o oposto da verdade histórica. Este ensaio aplica o conceito de mito ao escopo geral da história de vida de Jesus. August Neander (1789-1850). Aplicando à figura de Jesus o método de "interpretação alegórica".mais que a administração do sagrado . Nietzsche. A vida de Jesus teve um efeito duradouro e perturbador sobre a intelectualidade burguesa européia. A publicação de A vida de Jesus (1835). Os estudos bíblicos eram outro campo da teologia que passava. 2000. Ranke. Na Universidade de Berlim. Para Gooch (1942. Numa época já sacudida por uma crescente agitação política liberal. nas palavras de Jacob Burckhar- dt. p. 509) resumiu não só a própria condição quan- do afirmou que "Wilhelm Dilthey começou com estudos em teologia. pelo contrário. é mais atraente que a deste sábio". 13 anos depois.e pelo equilíbrio com que percorre a trajetória das distintas confissões.e não apenas nos meios teológicos. aceitava um convite para lecionar na Universidade de Basiléia. revela [a presença de] narrativas míticas. Wilhelm de Wette rompe com a tradição e dispõe-se a estudar o passado bíblico não mais como teria sido. p. em 1822. Marcado pela leitura de Schelling. menos condescendente. De Wette teve em David Friedrich Strauss o seu mais importante seguidor. Tendo assumido sua cátedra aos 24 anos. p. dos chamados "neólogos" como Semler (para quem as escrituras continham. que com ele dividia uma visão desapaixonada do catolicis- mo. a cátedra em Berlim. e coloca na categoria de míticas não apenas as narrativas milagrosas da juventude de Jesus. mas também os por ele realizados (STRAUSS. mas como foi produzido e pensado através de mitos. tida pelos mais conserva-dores como um "ninho de demagogos". Três anos mais tarde. por transformações profun- das.M Ó DU LO IV A religião como objeto 41 A excelência da pesquisa teológica alemã. ele publica em 1825 o primeiro volume de sua História da Igreja cristã. Jacob Bur- ckhardt (HOWARD. colocando em questão a sua autenticidade "histórica". Críticas à parte. escreveu em suas memórias que via na teologia "a maior de todas as ciências". internacionalmente reconhecida. afirmou que Neander se eternizara por meio de sua obra. pela publicação do Manifesto do partido comunista. 110-136). Neander é quase o que se poderia chamar de uma "vida paralela" à de Ranke. não são uma preparação nada má para a historiografia". 51). advindo de uma família de pastores e estudante de filologia e teologia em Leipzig. Johann Gottfried Herder era pastor em Weimar. enfim. que. Seus livros e suas posições políticas custaram-lhe. a história eclesiástica se faria representar na figura de um judeu convertido ao cristianismo. 1840. A especial atenção que dedicou à história do sentimento religioso revelava a clara influência de Schleiermacher. Max Weber afirmou ter tido uma "extraordinária impressão" quando leu o livro de Strauss pela primeira vez. que igualmente os iniciou. cuja carreira em Berlim dá-se simultaneamente à sua. Esse caminho da teologia à história foi tudo menos incomum na Alemanha. Essa obra constitui um índice a partir do qual vislumbramos a preco- . Strauss abalou a opinião pública alemã de uma forma que só seria sobrepujada. via em seu autor o produto de uma "historiografia cética".E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . entre os historiadores eclesiásticos do século XIX. não apenas os milagres que se passaram com ele. colocaria Strauss no centro de uma polêmica sem precedentes . mas a poesia (Dichtung) de um povo. mas não eram a palavra de Deus) e da "escola mítica" de Eichhorn. mas também as de sua vida pública. Ranke. naqueles anos. Homens como Ludwig Feuerbach e Karl Marx ficavam fascinados pela tese de que toda a história evangé- lica não passaria de um mito. Lá se tomaria uma das referências principais de um jovem estudante de teologia. ou pelo menos de floreios (Ausschmuckungen) em todas as suas partes. 534) "nenhuma figura. Ernst Troeltsch (1977.

é verdade. na arena política. tal afastamento é o reflexo de um contexto em que os representantes oficiais da religião assumiam uma atuação conservadora.5 Não é. De uma espécie de antidivindade. embora eu acredite ser um bom cristão evangélico.A religião como objeto E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . 1987. MATA. Como se tratava de historiadores que não costumavam recuar ante a palavra "Deus". 237-286). Burckhardt estreia com A época de Constantino.. É compreensível que. Ao longo de mil páginas. Ranke só se torna internacionalmente conhecido com sua História dos papas (1834-1836). curiosamente. algo que. Ignaz von Döllinger. dos primórdios ao século XVIII. sendo incompreensível. p. Os impulsos advindos da teologia não cessavam. Somente um século e meio mais tarde pesquisas semelhantes seriam feitas pelos antropólogos sociais britânicos (Cf. 88) afirmava: Ao evocar seu nome [de Cristo]. [. Eis um exemplo interessante: em 1869. Mesmo um homem profundamente religioso como Ranke partilhava da opinião de De Wette e Baur de que as verdades religiosas estão para além de qualquer demonstração científica. Ao abordarem a religião. DA MATTA. preciso ainda me prevenir aqui contra a presunção de falar do mistério religioso. Po- rém foi o mais brilhante e erudito historiador católico do século XIX.MÓ D ULO IV 42 cidade. Mas os que dizem tal coisa incorrem em erro. ela nunca chegou a experimentar em relação à história da arte ou da eco- nomia.. Dada a centralidade do político e a exigência crescente de rigor metódico na historiografia do século XIX. cuja História universal da Igreja católica aparece entre 1842 e 1849. por uma mera coincidência que dois dos mais importantes historiadores do século XIX tenham saído das fileiras da teologia e reservado à religião um papel de destaque em sua obra. não pode ser apreendido pelo pen- samento histórico. às vezes reacionária mesmo. p. da transição do "paganismo" ao cristianismo. 2007. pois na realidade da vida as duas esferas estão sempre imbricadas uma na outra. publicava uma História do diabo cujo subtítulo dava mostras de seu caráter inovador: Uma satanologia histórico-cultural. o Grande (1853). Pode-se falar aqui de uma gradativa alienação da historiografia profissional face à história eclesiástica e da religião. um obscuro professor de teologia da Universidade de Viena. De fato. um monumento historiográfico digno de nota na figura do abade francês René-François Rohrbacher. Está fora das possibilidades do método histórico tanto comprová-las quanto refutá-las. p. e o temor diante dele caiu no ridículo" (ROSKOFF. o qual. 2003. p. Roskoff faz recuar as origens do "anjo das trevas" aos sistemas religiosos das primeiras civilizações. basicamente. não obstante a historiografia leiga não lhes dar atenção. originalidade e rigor metódico atingidos pela erudição histórico-teológica protestante entre fins do século XVIII e inícios do XIX. 560). Após a queda de Napoleão Bonaparte. experimentos como o de Michelet em A feiticeira (1862) passariam despercebidos. livro que trata. quem desempe- nhou o papel de principal porta-voz da oposição à Igreja de Pio IX e a este documento que escandalizou a opinião pública européia da época. de uma . o Syllabus (Cf. Gustav Roskoff. os historiadores stricto sensu ocupavam-se majoritariamente com as relações entre poder político e poder religioso.] Os campos da crença religiosa e da ciência histórica não são mutuamente opostos. mostrando que com o avanço do racionalismo e a cientificização moderna a crença no diabo entra em franco declínio. Em certa medida. Ao fim de sua longa e produtiva vida. ele acaba reduzido à condição de alegoria do mal moral que habita o próprio homem. mas são distintos em sua natureza. Ranke (1921. "A crença no diabo enquanto um ser dotado de uma personalidade própria é doravante tomada como superstição. O fundamentalismo religioso de Roma produziu. 85. pois. 225-244). nada perdeu em atualidade a afirmação de Ranke de que a separação entre história eclesiástica e história política e puramente formal. o Vaticano torna-se a face mais visível da antimodernidade. inúmeros críticos do século XX atribuíram a eles uma visão providencialista da história.

sobretudo após a vitória na Guerra Franco-Prussiana. 9-94). principal vulga- rizador do darwinismo na Alemanha. O máximo que se obteria com isso seria uma religião de eruditos. Pois a história. A causa da religião parecia definitivamente perdida: as conhecidas palavras de Nietzsche sobre a "morte de Deus" no prólogo de seu Zaratustra davam o retrato espiritual razoavelmente fiel de uma época. ele não via em Strauss um simples "filisteu da cultura". 63). defende a introdução da "história natural da criação" no ensino fun- damental.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . assim como pelo obscurantismo da Santa Sé. Se a de Niet- zsche é bem conhecida. afirma. com sua Vida de Jesus. Tendo adquirido extraordinário sucesso junto ao público leitor. ao contrário do que defendiam teólogos como Paul de Lagarde. Sybel. Historicização e pluralismo moderno: o nascimento da história das religiões Entre as décadas de 1870 e 1880 o mundo de língua alemã sofria as dores do parto da fase "heróica" da modernidade. 54). o mesmo não se pode dizer de Franz Overbeck. e o saber teológico. O próprio Strauss volta à carga num livro que é quase um novo evangelho (A velha e a nova fé. Essa separação era algo novo e deitava um véu sobre as estreitas relações que as duas disciplinas haviam mantido desde há muito. O entusiasmo pela ciência foi em grande parte favorecido pelo con- servadorismo político-social das Igrejas protestantes. e antecipava o anátema lançado . Duas vozes dissonantes se levantaram contra a cientificização e a historicização crescentes. Eram tempos de embriaguês nacionalista sob a liderança de Bismarck. A sensibilidade religiosa dominante era continuamente tomada de assalto. em 1879. reitor da Universidade de Berlim. não estaria em condições de. o grande público de seu país aos intensos debates detonados por Strauss do outro lado do Reno. p. os historiadores franceses e alemães de maior prestígio (Michelet. do outro. como toda reli- gião.M Ó DU LO IV A religião como objeto 43 maneira geral. Sua crítica tocava no nervo mesmo das coisas. cria uma doutrina própria ("monismo") e reforça o partido anticlerical. e que foi longa e duramente criticado por Nietzsche (1981. "Não é segredo". mas não deixava dúvida de que a preeminência caberia à história política. o biólogo Ernst Haeckel. a profissionalização e a especialização crescentes levam a uma separação cada vez maior entre a ciência histórica. mas o sintoma de uma teologia que negaria a si mesma ao abraçar uma perspectiva histórico-crítica. Quatro anos mais tarde. Treitschke) só abordassem os temas religiosos na condição de polemistas. Era uma espécie de desconvite. a ponto de o governo prussiano retirar. Para Overbeck uma religião só se ocupa com seus próprios mitos quando eles deixam de ser forças vivas. Ao adotar uma perspectiva histórica. que assumira publicamente sua adesão ao darwinismo. a teologia se subordinara à ciência e perdera sua razão de ser: "o cristianismo. 1872). Ernest Renan desperta a ira dos católicos franceses ao introduzir. tem a mais clara antipatia em relação ao pensamento racional. de um lado. Eu digo 'como toda religião' porque o antagonismo entre fé e conhecimento é permanente e absolutamente irreconciliável" (p. Overbeck se opunha frontalmente ao otimismo de Leibniz e Mabillon. estabelecer a verdade do cristianismo. 2001. o teólogo Overbeck lecionava no que o status quo acadêmico germânico chamara o "ninho de de- magogos" de Basiléia. Quinet. o parlamento alemão debateria durante dois dias o "escândalo" causado pelo renomado fisio- logista Emil Du Bois-Reymond. Da mesma forma que seu amigo filósofo. "que no mundo cristão tais forças estão mortas há tempos" (OVERBECK. Com isso. Diferentemente de Nietzsche. Ele se queixa de que não se praticava então nenhuma interpretação dos textos cristãos que não a histórica. virando-as ao avesso. por si só. p. A partir de meados do XIX. as aulas de biologia do currículo do ensino secundário. Basta lembrar que o editorial de Sybel ao primeiro número da Historische Zeitschrift (1859) assinala que os es- tudos de história eclesiástica poderiam ser ali publicados.

e a nascente história das religiões. .. No segundo Congresso Internacional de História. Em 1901. Adolf von Harnack. 1901. Foram traduzidas em 15 línguas e tiveram mais de 70 edições apenas na Alemanha. Ao desenvolver o conceito da autonomia (Selbständigkeit) dos fenômenos religiosos. Tal como a modernidade havia signi- ficado um processo estrutural de pluralização e diferenciação das sociedades européias. Ela não fora o ponto de partida do Estado de Israel. Mesmo reconhecendo que "as religiões devem ser estudadas por meio de um só e mesmo método. a importância desse erudito não foi menor. os estudos de Albrecht Ritschl sobre a história do pietismo marcaram época. p. Wellhausen de- monstrou que a lei mosaica só se constituiu na era pós-exílica. Nada disso quer dizer que a história da Igreja tenha entrado em declínio. dificil- mente teria ocorrido.] Porque o cristianismo. Rejeitando a interferência de pressupostos teológicos no trabalho de pesquisa. Marc Bloch. 50). Sem ela. em 1878. Nesse trabalho de imenso fôlego. realizado em Roma.MÓ D ULO IV 44 pelo papa Pio X sobre os avanços feitos pelos historiadores eclesiásticos "modernistas" dos primeiros anos do século XX. faz publicar um opúsculo em que ataca a proposta de se transformar. Harnack considera que a teologia continuava tendo toda sua razão de ser ao lado da história e da filologia. porém. que assim havia resumido a diferença entre a história eclesiástica e a teologia. segundo o modelo holandês. p. mas sim da religião judaica. tal como a entendemos hoje. 1982. a gradativa ampliação da história eclesiástica em uma história das religiões. Do ponto de vista metodológico. não é uma religião dentre outras. antes de qualquer outro. No ano seguinte. em 1903. na esfera acadêmica. a contribuição da filologia havia sido decisiva. Em questões de política acadêmica. 8) e que para esse fim o historiador deve ter em vista o contexto histórico mais amplo. Abdicar dela significa- ria renunciar à centralidade do cristianismo.A religião como objeto E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA .. em sua forma pura. Com essas palavras. Seu colossal Compêndio de história dos dogmas (1885-1889) elevou o conhecimento sobre a história do cristianismo na Antiguidade a um patamar desconhecido até então. ele influenciaria diretamente alguns dos gigantes da ciência alemã fin-de-siècle. A fé era abalada. o histórico" (HARNACK. ele era a maior atração da comitiva de cientistas alemães enviados à Exposição Universal de Saint Louis. Todo este prestígio ajuda a entender porque entre os alunos das suas preleções no semestre de inverno 1909 e 1910 encontrava-se um jovem historiador francês de 23 anos. o surgimento da história das religiões. pois "quem não conhece esta religião não conhece nenhuma outra. ele entendia que "a análise histórica de uma religião pressupõe um senso de fé não-dogmática e não confessional" (MOMI- GLIANO. Suas preleções sobre A essência do cristianismo (1900) obtiveram um sucesso imediato. Não é um exagero afirmar que esse historiador-teólogo tornou-se uma das principais estrelas do firmamento acadêmico europeu. do outro: "aquele que conhece apenas uma [religião] não conhece nenhuma". Harnack foi eleito vice-presidente. mas a religião" (p. retumbante. Fruto notável desta parceria é a História de Israel publicada por Julius Wellhausen. É a primeira história crítica do povo judeu. o que possibilitara o advento da liberdade religiosa. Em Göttingen. Para tanto. [. de um lado. Harnack era decididamente um conservador. as faculda- des de teologia em faculdades de história das religiões e ciência da religião. 11 e 16). mas os progressos da ciência eram in-discutíveis. Harnack estava na verdade polemizando com Max Müller. tornava-se possível agora.

Max Müller acreditava que "uma ciência da religião. Mais que as distintas teorias a respeito . resolve em 1846 radicar-se na Inglaterra. Se é certo que o legado de Eusébio não foi abandonado. baseada numa compreensão imparcial e verdadeiramente científica de todas. Com isso. obra que se chegou a qualificar como a mais importante realiza- ção científica da Era Vitoriana sobre a religião. e não é por mera coincidência que Friedrich Max Müller seja considerado por muitos o pioneiro da história das reli- giões. seu antigo profes- sor em Berlin. mas também abordados da forma mais rigorosa possível (KIPPENBERG. Müller devota-se ao gigantesco projeto de edição dos 51 volumes dos Sacred books of the East. onde a tradição historicista encontrara sua fundamentação teórica nas obras de Droysen e Dilthey. depois de estudar em Leipzig. p. Após assumir uma cátedra em Oxford. sociologia. Com efeito. os pesquisadores de fins do século XIX viram-se obrigados a formular toda uma nova agenda de investigação em vista do colossal acervo de conhecimento que outras disciplinas (linguística. O livro foi rapidamente traduzido em francês. Inglaterra e Holanda o projeto de uma ciência geral das religiões jamais deixou de ver na comparação o seu ovo de Colombo. p. psicologia) colocavam a seu dispor. A internacionalização e profissionalização da pesquisa aca- dêmica sobre a religião tornam-se evidentes. Müller entendia que esta tão ambicionada cientificidade passava necessariamente pelo emprego do método comparativo. e que em 1833 produzira a primeira gramática comparada das línguas indo-européias. 12). de James Fraser. William Robertson Smith demonstra a íntima relação entre rito e manu- tenção da coesão social . qualquer que fosse sua crença. O convidado tinha apenas de ser um especialista de notório saber.M Ó DU LO IV A religião como objeto 45 O termo "religião" passa a significar algo mais que cristianismo. baseia-se na comparação" (MÜLLER. Sob o impacto da teoria da evolução das espécies. livro no qual lança as bases para a teoria dos estágios primevos da evolução religiosa. por Fustel de Coulanges em A cidade antiga (1864). Enquanto que na França. os avanços nesse sentido foram lentos e tímidos. Berlim e Paris.relação anteriormente explorada. Tylor publica Cultura primitiva em 1871. bem como às ciências sociais. a problemática dominante entre os estudiosos era indis- cutivelmente a da "evolução religiosa". . ou ao menos das mais importantes religiões da humanidade. etnologia. sob um prisma ligeiramente distinto. Edward B. é agora apenas uma ques- tão de tempo" (p. 38-39). que "todo conhecimento superior é adquirido pela comparação. numa série de conferências reali- zadas em 1870. 2002. revela-nos o fascinante mundo das práticas mágicas e da realeza sagrada.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . que deixaram parte de suas fortunas para o patrocínio de séries de conferências dedicadas a temas religiosos. Na Alemanha. a história das religiões se antecipava à historiografia acadêmica (nas suas diversas modalidades). 1873. italiano e alemão. Na Grã- -Bretanha. 34-35) Sua Introdução à ciência da religião (1873) teve a publicação antecipada. Os temas deveriam ser tratados de forma aces- sível aos não especialistas. Em suas notáveis Preleções sobre a religião dos semitas (1889). O primeiro volume do monumental O ramo de ouro (1890). Na linguística esse método já demonstrara e continuaria a demonstrar toda a sua vitalidade. pois nos Estados Unidos já cir- culava uma edição "pirata".e que cairiam em desuso já nas primeiras décadas do século XX . Esse sanscritista alemão. as limitações impostas pelos teólogos no ambiente universitário eram contornadas graças à iniciativa de benfeitores como Robert Hibbert e Lord Gifford. Ele afirmara.o legado mais importante daquela geração está no plano meto- dológico: o enfoque histórico foi gradativamente articulado com o (e às vezes substituído pelo) método tipológico-comparativo. Costuma-se atribuir a ele a criação do termo "ciência da religião". o interesse por estudos sobre a religião realizados numa perspectiva não teológica era crescente. Essas palavras dão prova da influência recebida de Franz Bopp.

2000. a ciência da religião preservaria um importante caráter filosófico. À Holanda coube o pioneirismo. da filologia. Em 1897 são publica- das. Mas com que poder de síntese. Desde muito cedo. seus alicerces institucionais aos poucos eram estabelecidos. A demanda pelo estudo dos fenômenos religiosos a partir de novas bases não era menor na Alemanha que na Inglaterra ou na Holanda. p. 19-56). Em 1880. p. ela se fundamenta na investigação sistemática e metodologicamente conduzida de um dado objeto de conhecimento. seu autor caracteriza a nova ciência como o estudo da essência e das distintas manifestações do religioso. com a criação da primeira cátedra em 1876. para Tiele (1897. é compreensível que Tiele tenha se dedicado mais à reflexão teórica que seus ante- cessores. Escrevendo em meio à febre metodológica que assola o último decênio do século XIX. da etnografia. três anos depois realizava-se na capital francesa o primeiro congres- so internacional de história das religiões. outras ainda em "religião comparada"). As dificuldades na Alemanha foram maiores. do folclore". A perspectiva histórica continua sendo essencial para a ciência da religião. Mas essa dedução. p. Ela seria composta de duas subdisciplinas. em 1880. não basta. a que se somam agora a legitimidade e a liberdade conferidas pelo ambiente universitário. "deve partir dos resultados obtidos por meio da indução. Depois de enaltecer a figura de Max Müller. apenas. 18). assim. Tiele afirma: "nós queremos compreender e explicar" (we wish to understand and to explain). afastando-se. a antropologia e a sociologia são igualmente importantes. Estocolmo sediava um congresso de ciência das religiões. não haveria falta de lógica ou excesso de pompa na utilização do termo "ciência" pela nova disciplina. com o título pouco atraente de Elementos de ciência da religião. as conferências que Tiele realizara um ano antes na Universidade de Edimburgo. ela deve abdicar de pretensões de natureza especulativa ou metafísica. da psicologia dos povos. surgia a Revue d'histoire des religions. do histórico e do com- parativo". Mas história. em termos metodológicos. A ciência da religião é para Tiele uma ciência da realidade. outras em "história das religiões". Sua tarefa: o estudo de todas as religiões. O praticante da ciência da religião vê todas as formas religiosas "como simples objetos de investigação. estabelecida por Dilthey. A última. ela deve ignorar qualquer pretensão normativa. De resto. da mitologia. tudo isso ajuda a explicar porque vários dos clássicos da história das religiões tenham sido escritos por holandeses. por sua vez. de toda intenção apologética. a história das re- . diferentes linguagens nas quais o espí- rito religioso se manifesta". As características singulares do campo religioso holandês parecem se traduzir. se dividiria no estudo das religiões dos povos "primitivos" e na história das religiões "no sentido estrito". A mesma abertura para o diálogo pode ser observada na obra de seu compatriota Cornelis Petrus Tiele. Para tanto. A criação de cátedras de história das religiões nas faculdades de filo- sofia alemãs ocorreria somente em 1913. Rompendo com a divisão dogmática. posto que trabalha dedutivamente. Em 1897. Esse anseio de objetividade não significa que seus métodos se inspirem nos das ciências da natureza. a filosofia da religião e a história da religião. Seguiu-se a França. 4) crê que "a ciência da religião deve suas descobertas e seu progresso aos campos da lin- guística. Chantepie de la Saussaye (1887.A religião como objeto E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . aliás: o notável Manual de história das religiões de Pierre Daniel Chantepie de la Saussaye data de 1887. Um indicativo a mais deste "atraso" é o fato de que os dois primei- ros professores de história das religiões na Alemanha eram estrangeiros: o dinamarquês Edvard Lehmann e o sueco Nathan Söderblom. Ciências como a psicologia. Mais ainda. com que clareza e senso de equilíbrio o faz! Aos seus olhos. em uma abertura precoce para a interdisciplinaridade (MOLENDIJK. A longa tradição de pluralismo religioso. Mas na ausência de uma estrutura institucional apropriada. entre ciências da natureza e ciências humanas. como o opúsculo de Harnack mencionado há pouco permite supor. vivas ou mortas.MÓ D ULO IV 46 Embora o nome da nova disciplina fosse motivo de desacordo (às vezes se fala em "ciência da religião". por meio do método empírico.

unidas pelo desejo comum de "abordarem. advindos das mais diferentes disciplinas. Em Göttingen. p. do círculo Eranos. As diferenças. em 1894) sobre as relações entre protestantismo e modemidade. Weber e Troeltsch. Chantepie de la Saussaye (1887. o filósofo Wilhelm Windelband. e que produziram uma articulação nova. e sim enquanto determinação do conteúdo da religião cristã através de sua comparação com as poucas grandes religiões que conhecemos com maior exatidão. p. Entre 1903 e 1905. de Troeltsch (que se transferira para Heidelberg. O exemplo de Burckhardt teve aí a sua importância. a partir das mais distintas perspectivas. a centralidade que ele conferia ao cristianismo e as suas preocupações de ordem normativa e pastoral. em todo o caso. ele se esforçava desde a virada do século por entender a fundo as relações entre religião e cultu- ra. O que separava a teologia histórica de Troeltsch da moderna história das religiões era. p. Livre de constrangimentos dessa natureza. do islã e da Reforma. não devem ser superestimadas. jovens teólogos como Ernst Troeltsch e Wilhelm Bousset reuniram-se em um grupo que se tornou conhecido como "Escola da História das Reli- giões" (Religionsgeschichtliche Schule). sua ênfase no emprego do método histórico-crítico. na Holanda. Marcaram época os livros de Eberhard Gothein sobre Inácio de Loyola e a contrarreforma. 37). em 1904. basicamente. no uso de teorias nos estudos religiosos e na comparação do cristianismo com as grandes "religiões universais" tornava sua agenda muito próxima da de Max Müller e Tiele. 74) em seu exame de doutoramento: A teologia é uma disciplina histórico-religiosa. entre estudos históricos e estudos religiosos. o problema da religião enquanto o mais importante dos problemas da humanidade".E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . além dos citados Gothein... oferece cursos sobre história do budismo. criativa. 4) havia percebido com clareza que a história cultural era "indispensável. Um indicativo disso foi a formação. Mesmo hoje em dia. 148) afirma que "as principais figuras dos círculos filosóficos daqueles anos" faziam parte do Eranos. [.] a cópia e o contorno que estes povos e civilizações projetam e formam no infinito" (BURCKHARDT. A história/ciência das religiões surgida em fins do século XIX preservaria ainda por muito tempo as marcas de um etnocentrismo ocidental-cristão às vezes mais. contudo. simultaneamente. O programa desse grupo é re-sumido pela primeira das proposições defendidas por Troeltsch (apud Drescher. o historiador Erich Marcks. o filólogo e classicista Albre- cht Dieterich. Quanto a Troeltsch. essas palavras resumem o que há de mais relevante nas obras de alguns professores da Universidade de Heidelberg. Jelli- nek (que era jurista). Disposto a abandonar a indologia. À exceção de Gothein. não é incomum que ela seja incentivada apenas para ser posta a serviço dos projetos missionários das grandes Igrejas. ao mesmo tempo. pois ela revela as cone- xões da religião com outras esferas da vida". "o reflexo de povos e civilizações inteiras. Johan Huizinga. nenhum deles era historiador de formação. É como potência histórica e. mas a problemática moderna por excelência. . 1991. de Georg Jellinek sobre a origem puritana dos direitos civis.M Ó DU LO IV A religião como objeto 47 ligiões floresceria ali através de duas vias alternativas. de um ambiente intelectual no qual o problema da religião era considerado não uma problemática como qualquer outra. de Max Weber (em Heidelberg. Marie Luise Gothein (1931. De fato. p. mas não como parte de uma construção da história universal da reli- gião. Na biografia que dedicou ao marido. desde 1896) sobre a relação entre calvinismo e desenvolvimento capitalista. em que se encontravam regularmente para debater questões ligadas à história das religiões: o teólogo Adolf Deissmann. às vezes menos sutil. tema ao qual se dedicara no doutorado. como espelho da história que Burckhardt entendia o fenômeno religioso. 1910. Eles se beneficiavam. Em 1905 tinham vindo a público as Considerações sobre a história universal nas quais o mestre suíço via nas religiões a expressão das necessidades metafísicas do ser humano e. um jovem professor universitário. a história cultural alemã revelou-se um celeiro de onde sairiam alguns dos mais inovadores estudos sobre as religiões produzidos nesta época.

Tal como outrora Döllinger. a encíclica Pascendi dominici gre- gis aprofundava os termos do decreto.A religião como objeto E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . a história das religiões aos poucos se constituiu em uma disciplina marcada pela diversidade de aborda- gens e perspectivas analíticas. No calor da hora. e o Vaticano com as da autoridade.MÓ D ULO IV 48 Influenciado por essas ideias e ainda pelos trabalhos de Usener e Troeltsch. tais pressupostos exercem ainda influência no interior de uma ou outra subdisciplina. Surge então o chamado "modernismo" católico. p. Harnack observou. agora. Numa longa e inspirada resenha das memórias de Loisy. que prontamente lhes reconhece a importância. 362) compara-o a Lutero e formula uma frase que é quase um postulado: "a história de uma reli- gião é bastante difícil de escrever de fora se ela o é. com perspicácia. A historiografia contemporânea e a história das religiões Recapitulemos. e (c) os pressu- postos teológicos tornam-se um corpo estranho na história das religiões. e a nova atmosfera produzida pelo Risorgimento italiano. o inglês von Hügel. No mais das vezes. o peso da autoridade papal se fez sentir mais uma vez. simultaneamente. "mas desonrado. A agitação intelectual e política nos meios católicos de fins dos Oitocentos e a incorporação do método histórico-crítico produ- zem uma reviravolta no campo da pesquisa histórica. um proble- ma. Overbeck tentou resolvê-lo com as armas da crítica. injuriado. 23). Pio X publica o decreto Lamentabili sane exitu (houve quem o chamasse "novo Syllabus") condenando os "erros gravíssimos" dos modernistas. Dois meses depois. Suas obras não passam despercebidas a Ha- mack. p. Seus representantes principais: o irlandês Tyrrel. Anseia-se agora por rigor. Tentamos mostrar como. Com a apro- vação da lei que garantiu a liberdade de pesquisa nas universidades francesas. abandona a ordem. seriam as seguintes: (a) o fenômeno religioso passa a ser contemplado em todas as suas formas. p. porém. institucionalizadas ou não. partindo do campo da história eclesiástica e dos estudos bíblicos. difamado". . um dos mais belos e importantes livros já escritos sobre o universo religioso e cultural da baixa Idade Média (STRUPP. 160-168). Um direito que a alguns custou caro: Tyrrel. o principal nome do movimento. Para o historiador das religiões a teologia continua a ter importância apenas na medida em que lhe permite conhecer o discurso (às vezes um discurso extremamente sofisticado) que a religião elabora sobre si mesma. Um deles foi Lucien Febvre. em 1878. este quadro de estagnação começa a alterar-se. Quando muito. Buonaiuti e Loisy são excomungados. Se pudessemos resumir em três características o que há de essencial nesse processo. Segundo Poulat (1962. que o que estava em questão era nada mais nada menos que "o direito à crítica histórica". o italiano Buonaiuti e. jesuíta. Aquela mesma historicidade legada ao Ocidente pela tradição judaico-cristã tornara-se. erudição. Febvre (1931. Huizinga trabalharia quase que anonimamente por mais de uma década. seria não apenas criticado. Ora. sobretudo. 1999. publicando trabalhos de menor importância. justamente quando esta brilhante geração de historiadores da religião provava ao mundo que os es- tudos bíblicos e a história eclesiástica podiam existir em outras línguas que não o alemão e em outro am- biente que não o protestante ou o agnóstico. originalidade. Loisy. Somente em 1919 ele lança seu Outono da Idade Média. ao comentar os eventos. ele contaria com a simpatia de historiadores de prestígio. como a história eclesiástica. E quanto ao mundo intelectual católico? O atraso da historiografia eclesiástica e da história das religiões produzidas na França e Itália ao longo de quase todo o século XIX é amplamente reconhecido. Em julho de 1907. (b) não há qualquer pretensão de centralidade do cristianismo. o francês Loisy. eles são inteiramente abandonados mesmo por pesquisadores que se consideram adep- tos de uma dada confissão. (mas por outras razões) de dentro".

da vida religiosa. 2006). Influência incomparavelmente maior. com muito mais razão na história das religiões propria- mente dita. temas como a magia. Henri Hubert e Robert Hertz. . ainda que sob um prisma não inteiramente novo (a dívida em relação a William Robertson Smith nunca foi devida- mente reconhecida).M Ó DU LO IV A religião como objeto 49 Resta-nos ainda dizer algumas palavras sobre a história das religiões a partir de inícios do século XX. quem despertou imediato interesse dos historiadores do religioso que buscavam alternativas à psicologia de tipo positivista (HENNIS. As designações que o novo enfoque vai receber variam conforme o gosto e a ocasião: compa- rativo. e cuja utilidade historiadores como Al-bert Mathiez. 1996). seria desfrutada pela sociologia francesa. a psicologia parecia destinada a dar-nos uma importante con- tribuição. Em 1912. Durkheim cercou-se de jovens e brilhantes estudiosos como Marcel Mauss. Georg Simmel (1858-1918) deu dignidade teórica ao conceito de religiosidade e caracterizou a redução da religião à religião de Igreja como uma "caricatura" (LAERMANS. Idealizador e diretor do L' Année sociologique. Trabalhando numa linha de frontei- ra entre filosofia e sociologia da religião. na forma de um extenso capítulo inserido no volume póstumo Economia e sociedade. o aporte de William James e Wilhelm Wundt à psicologia da religião foi decisivo. elaborou sua teoria da religião ancorada numa psicologia de tipo experimental. uma verda- deira sociologia do cristianismo no tempo presente. Weber começa a escrever sua sociologia da religião em 1911. A publicação só aconteceria em 1920. O próprio Durkheim só sistematiza sua teoria da religião mais tarde. Entre os historiadores seu trabalho não teve maior repercussão. tipológico. Tudo aqui parece ter girado em tomo de um homem: Émile Durkheim (1858-1917). criado em 1898. Se isso se pode per- ceber na primeira geração da Escola dos Annales. o fascínio suscitado pela sociologia da religião coincide com a crise do historicismo. como não teria o de Freud. num livro que até hoje não se pode ler sem certo assombro: As formas elementares da vida religiosa (1912). Sob a firme liderança intelectual de Durkheim. Seu amigo Troeltsch produzia desde 1907. cujo prestígio à época costuma ser hoje subestimado. Sem ela. Embora não esteja isento de críticas o postulado de que a essência da religião residiria na sua dimensão social (ou antes: societária). Tanto na França como na Alemanha. Wundt. o sacrifício. através de diversos ensaios. Na Alemanha. morfológico ou "fenomenológico". Como ciência dos fenômenos do "espírito". em face da contribuição desse grupo. todavia ignorado. Igualmente importante. Perde espaço uma perspectiva estritamente genética.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . Marc Bloch e Lucien Febvre cedo reconheceram. Foi principalmente James. como se sabe. ele revelou-se uma chave analítica válida e indispensável. enfim. Troeltsch finalmente publica sua obra-prima As doutrinas sociais das Igrejas e grupos cristãos (TROELTSCH. Taxada de pré- -científica pela escola sociológica francesa e pelos antropólogos culturais (que lhe fagocitaram o objeto e. nosso conhecimento so- bre o universo religioso das camadas populares e do campesinato nunca seria o mesmo. e. concluindo-a dois anos mais tarde. alheia às "leis". como um universal humano. momento em que inúmeras disciplinas que se dedicaram ao estudo da religião estabeleceram seus funda- mentos. não obstante entendesse a religião como a expressão de uma "constante antropoló- gica" . Nesse sentido.ou seja. que a sociologia nasce estreitamente ligada ao estudo dos fenômenos religiosos. 1994). alheia às semelhanças existentes entre culturas religiosas distintas. a dádiva e o totemismo foram abordados de forma sistemática. monográfica. Pode-se dizer. é o legado da folclorística. James estava preocupado com a descrição da experiência subjetiva do religioso. autor do clássico As variedades da experiência reli- giosa (1902).

Desde logo se manifestou o desejo de promover a difícil articulação entre perspectiva comparativa e histórica. Distanciando-se tanto de Kant quanto de Hegel. 1986. eles seguiram o caminho outrora aberto por Friedrich Schleiermacher. impulsionada pelo debate em torno das obras de filósofos como Dilthey e Husserl. Tal diálogo. Ritos de passagem (1909). ela trilhou um caminho próprio. experiência subjetiva e condicionantes histórico-sociais. por não ver nele nada de "histórico". Gerardus van der Leeuw e Friedrich Heiler. os métodos). não se instaurou sem dificuldades e incompreensões mútuas. É a dimensão irracional. As obras de Mircea Eliade. e Formas simples (1930). antes a complementa" (PETTAZONI. Alphonse Dupront (Do sagrado. Especificamente no que diz respeito à historiografia dos fenômenos religiosos. 93). bem como a mitologia comparada de seu colega Georges Dumézil. Ernst Benz (Descrição do cristianismo. o Manual de história das religiões (1948). Mais que um programa. todavia.MÓ D ULO IV 50 muitas vezes sem o saber. somente sua alienação em relação à própria história explica por que o grande interesse de Bloch e Huizinga pela folclorística passa hoje despercebido. fruto de um gigantesco esforço de catalogação do que o estudioso romeno chamou de "hie- rofanias" (manifestações do sagrado). a morfologia histórica ou "fenomenológica" das religiões finalmente provou ser uma realidade com Axon Gurevitch (As categorias da cultura medieval. sua oposição à escola sociológica francesa (criticada por reduzir a religião à mera expressão de necessidades sociais). A reação dos historiadores acadêmicos a tal perspectiva não foi homogênea. "a fenomenologia e a história se complementam mutuamente". ela nos deu trabalhos clássicos como a Mitologia alemã (1835). de André Jolles. 1975). demonstra a que ponto as dificuldades próprias a em- preendimentos dessa natureza tendem a afugentar tanto leitores quanto colegas de profissão. Nelas. salvo talvez na Itália. estão igualmente marcadas por uma tendência anti-historicista. e. pois compreende-se que "o estudo sincrônico de um sistema sociocultural não contradiz de modo algum a abordagem histórica. de Arnold van Gennep. descrição e explicação. Es- sas obras podem ser consideradas tentativas bem-sucedidas de articular sincronia e diacronia. de outro. pode-se dizer. de Jacob Grimm. 1989). o sentimento e a experiência subjetiva do "numinoso" que esses estudiosos minuciosa- mente descreveram e classificaram. p.A religião como objeto E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . o italiano Raffaele Pettazzoni. De um lado. Quem sabe no futuro a fenomenologia histórica das religiões venha a gozar de melhor sorte. e cuja originalidade é atestada pelos trabalhos de Rudolf Otto. especialmen- te. Enquanto Paul Veyne considerou absurdo o título do principal livro de Eliade. Georges Duby escre- ve seu As três ordens ou o imaginário do feudalismo (1978) a partir das teorias de Dumézil. . generalização e individuação.6 A história das religiões viveu uma fase de ouro entre as décadas de 1910 e de 1930. Os avanços não pararam por aí. 1972). mas para entendê-la não basta evocar a crise do historicismo. 1987) e Carlo Ginzburg (História noturna. O fato de que nenhum destes livros tenham se tornado conhecidos para além de pequenos círculos. Para isso concorreu.

em boa parte. BAUR.] de certaines Églises. Goethe (1866. 3 Em suas memórias. 1852. Esse homem não é apenas um historiador reflexivo. p. 2003. 5 Para uma crítica poderosa de tais interpretações. p. ao mesmo tempo. como Spittler (1752-1810) e Planck (1751-1833). qui pretendoient posseder le Prepuce de Nôtre Seigneur" (MABILLON. 237-286. p. Suas ideias muito convergiam com as minhas". Carlo Ginzburg nunca escondeu o que seus livros devem a Vladimir Propp e "às esplêndidas páginas de Jacob Grimm". 6 Limitemo-nos a enumerar três exemplos: Huizinga era amigo pessoal de Jolles. 421) fala do impacto que sobre ele exerceu esta obra: "Fui fortemente influenciado por um importante livro que me caiu às mãos: era a História da Igreja e das heresias de Arnold. Cf. 152 e seguintes. 1700. 12).. mas é. BLUMENBERG. . p. cf.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . 4 Tal perspectiva ganharia expressão plena nas obras de outros especialistas em história eclesiástica que lecionaram em Göttin- gen. piedoso e sensitivo. de obras de folcloristas.M Ó DU LO IV A religião como objeto 51 Notas 2 "[. a literatura empregada por Bloch em seu famo- so artigo de 1921 sobre as "falsas notícias de guerra" é composta..

In: NOVAIS. “A ‘Guerra Santa’ e as ambivalências da modernidade”. História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. 63-171. SCHWARCZ.). Fernando A. Maria Lúcia. (coordenador-geral). . 1998. ENSINO DE HISTÓRIA DA BAHIA Aulas 3 As religiões afro-brasileiras & 4 A inserção e afirmação do protestantismo MONTES. Lília Moritz (org. São Paulo: Companhia das Letras. pp.

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a azáfama conhecida nas dependências de acolhimento aos romeiros. seria divulgado pela Rede Globo de televisão. negros vindos de todo o Vale do Paraíba e mesmo de mais longe. atuando principalmente nos seguintes temas: construção cultural do espaço urbano. religiões no Brasil. a imagem tradicional dessa capital da fé cató1ica no dia em que atingiam seu ponto culminante os festejos da Senhora da Conceição Aparecida. patrimônio imaterial. . adquirida quatro anos antes pela Igreja Universal do Reino de Deus. arte e história. e atingindo já a enorme praça circular que se estende em torno da basílica nova. que nesse dia faz sua própria festa. provocando enorme indignação popular e mobilizando em defesa da Igreja católica não só sua hierar- quia como também figuras eminentes de praticamente todas as religiões. faziam ecoar a batida dos tambores no toque de congos e moçambiques. e os ecos do escândalo por ele suscitado se estenderiam por meses a fio. a televisão brasileira transmitiria para todo o país.MÓ D ULO IV 54 A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade Maria Lúcia Montes* D oze de outubro de 1995. réplica da de São Pedro de Roma. É que nesse 12 de outubro. a tradicional chegada dos romeiros. mestrado em Sociologia . O episódio. que o retransmitiria várias vezes em horário considerado "nobre" e inclusive pelo Jornal Nacional. viria a estilhaçar essa piedosa imagem. a imagem do que seria considerado um ato de profanação e quase uma ofensa pessoal a cada brasilei- ro. cultura afro- -brasileira. nas crenças e ritos de sua própria fé. surpreendendo a opinião pública e obrigando os especialistas a repensar a configuração do campo religioso brasileiro às vésperas do terceiro milênio. exibiria. e as intermináveis filas da comunhão e dos fiéis pacientemente à espera de poder chegar aos pés da imagem milagrosa surgida das águas do Paraíba nos idos do século XVIII. surgidos das angústias terrenas. E. Tudo comporia. Arte e Patrimônio. como uma bomba. Missas ininterruptas. dos tempos de infância. em 1931. que por vários dias já afluíam à cidade. Durante a tradicional pregação evangélica. Antropologia das Religiões. os mesmos antigos cânticos.University of Essex (1973) e doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (1983). e a sempiterna mesma piedade do povo. mais recentes. Em Aparecida do Norte. além de levantar uma polêmica inédita nos meios de comunicação sobre uma instituição religiosa no Brasil. atendendo às multidões que demandam a pequena cidade. sobretudo. repetindo assim a prática centenária de louvor à Virgem. esse ano. e outros. centrada no ataque aberto às crenças das demais religiões. De fato. o bispo se referia com horror aos descaminhos idólatras da fé católica em sua "adoração a uma imagem de barro". afirmando que o poder do sagrado se encontrava em outra parte — na- turalmente. e que nesse dia preciso atingia seu ápice nas celebrações em Aparecida do Norte. ao vivo e em cores. novas e velhas. Tem experiência na área de Antropologia. um gesto de seu bispo. Sérgio von Helde. cultura popular. para melhor ilustrar seu ponto de vista. Repor- * Possui graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1964).1 Fora do templo. nesse dia. a Rede Record de televisão. Entretanto. que ficaria conhecido como "o chute na santa". durante uma cerimônia religiosa desse florescente grupo neopentecostal. um fato inédito. memória e identidade. que divide com Nossa Senhora do Rosário e são Benedito sua devoção. pois. do interior das Gerais. agora lotava de gente os espaços monumentais entre a velha e a nova basí- lica. cultura. Antropologia das Populações Afro-Brasileiras. opondo-lhes a ênfase quase exclusiva no poder do Cristo Salvador. No interior da igreja. Sob a imensa passarela.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . local e ambulante. que desencadearia violentas reações. na sala dos milagres e. negando qualquer valor sagrado à figura da Virgem da Conceição. via Embratel. com ênfase em Antropologia Urbana. pôs-se a dar pontapés numa imagem que a representava. a movimentação frenética do comércio. que se repetem a cada ano desde sua entronização solene como Padroeira do Brasil.

Mais tarde. A isso tudo se seguiria um inquérito da Polícia Federal para apuração das possíveis fraudes. AEVB. como "lições" dadas aos pastores sobre as formas de angariar recursos para a Igreja. segundo a estimativa dos organizadores. recusar-se-ia a participar da passeata em São Paulo. na opinião do pastor Caio Fábio. Carlos Magno de Miranda. mas continuaria a apresen- tar novas denúncias contra a Igreja Universal em outros veículos de comunicação. presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana no Brasil. Vinde. o ataque direto à Igreja Universal. eles indicavam transformações profundas. Um episódio anterior. ditas em tom jocoso. Significavam.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . em razão do outro componente essencial.3 Qual a significação desses episódios. cujos efeitos só agora emergiam escancaradamente à superfície. em meio a passeatas que. Sérgio Motta. As alegações. centradas sobretudo na compra da TV Record. inclusive financeiras. como a Revista Vinde. este inteiramente profano. o reverendo Guilhermino Cunha. no interior do protestantismo histórico. declararia entender que "estamos vivendo sintomas de intolerân- cia religiosa no Brasil e é hora de dizer basta a qualquer discriminação ou preferência por este ou aquele segmento cristão". até ligações com o narcotráfico colombiano. eram claramente audíveis. por exemplo. é uma versão cristã da macumba"2 Já outro líder evangélico. em primeiro lugar. e da Visão Nacional de Evangelização. para divulgação. e . já que essa nova visibilidade protestante se devia ao crescimento. em situações domésticas e em momentos de lazer. Paulo César Farias. membro da Igreja Presbiteriana Independente. além de uma ampla repercussão na mídia. em meio a uma verdadeira guerra de imagens que agora apenas recrudescia. em que se encontraria envolvida a Igreja Universal. de dimensões inéditas em um país tradicionalmente considerado cató1ico. tendo declarado à imprensa que a "igreja é uma máquina de arrancar dinheiro dos fiéis" e que ela é "o primeiro produto de um sincretismo surgido entre os evangélicos brasileiros. Tudo isso representava um desdobramento nem tão inesperado das batalhas que se travavam entre a TV Globo e a TV Record já por alguns meses. no panorama religioso brasileiro de meados da década de 90? Sem dúvida. envolviam desde conluios escusos com o ex-presidente da República Fernando Collor de Mello e o tesou- reiro de sua campanha eleitoral. O pastor dissidente não se limitaria. ao lado de acusações de negociação de favores com o então ministro das Comunicações. "as práticas da Igreja Universal geraram um constrangimento profundo no meio evangélico".M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 55 tagens sobre os métodos de recrutamento dos pastores e da clientela da Igreja Universal seriam a seguir exibidas pela Globo. Entretanto. contraída por ocasião da compra da emissora. desencadeando-se a partir daí operações que contaram com a cobertura da Procura- doria da República. em meados de 1995. ligada ao pastor Caio Fábio d'Araújo Filho. Mas significavam também. de técnicos da Receita Federal e do Banco Central. mediante a divulgação de suas práticas profanadoras e de seus negócios escusos. envolvera uma polêmica minissérie da TV Globo retratando um pastor evangélico cujo fervor messiânico ao pregar a salvação espiritual só se equiparava à ganância apaixonada com que se entregava à conquista dos bens deste mundo. chefe da Igreja Uni- versal. presidente da Associação Evangélica Brasileira. a fornecer à emissora. chegaram a envolver quase 1 milhão de pessoas. além de uma série de vídeos fornecidos por um ex-pastor dissidente da Igreja. esse material no mínimo constrangedor. a afirmação de um novo poder do protestantismo no Brasil. inclusive publicações de grupos do próprio meio evangélico. envolvido no conflito que chegou a ser denominado de "guerra santa": "É uma manifestação liderada pela Igreja Universal e vejo conflito de interesses entre a Rede Globo e a Record como pano de fundo deste pseudoconflito religioso”. Agora. De fato. desencadearia não só a reação católica como também a reação defensiva dos próprios evangéli- cos. que teria financiado parte da dívida do bispo Edir Macedo. embora sem contar com a unanimidade do apoio dos próprios evangélicos. que se negou a participar da manifestação no Rio de Janeiro. porém. no Rio de Janeiro e em São Paulo. em meio aos quais frases inescrupulosas sobre como "arrancar dinheiro" dos fiéis. em que se divulgavam cenas da intimidade do bispo Edir Macedo. o envolvimento com políticos malufistas também viria à tona.

graças à sua influência. por quatro séculos. cuja proximidade com a macumba era apontada depreciativamente nos pró- prios meios evangélicos. porque. um envol- vimento cada vez maior e mais complexo por parte das igrejas com o mundo social. religião histórica da tolerância e do valor da razão como base da crença — o enrijecimento das posições institucionais. Da mesma forma. de modo contraditório ela mesma seria responsável por promover — sur- preendentemente a partir da expansão do protestantismo. a privatização e intimização das crenças e práticas constatadas no universo religioso corresponderia. Uma maior autonomia reconhecida aos indivíduos que. proliferação de seitas. a transformação em curso no interior do protestantismo significava uma espécie de mu- tação interna. a religião que. na vida pública assim como na vida privada. mostrando uma outra face dessa modernidade.MÓ D ULO IV 56 muitas vezes em oposição a ele. das igrejas chamadas "evangélicas". elevando ao mesmo tempo o irracionalismo aparentemente mais delirante à condição de prova da fé. indissociável das vicissitudes por que passavam. pareceria enfim ter se inclinado definitivamente para o campo do privado. as próprias religiões afro-brasileiras. ainda deveriam ser melhor explorados para que pudessem ser devidamente avaliados. visto que no centro da polêmica se encontravam as práticas da Igreja Universal do Reino de Deus.6 eles não deixariam de se fazer notar também nas outras religiões. esses episódios evidenciavam que. a disputa no interior do campo religioso em cada uma das confissões e a intolerância para com as crenças das igrejas ou formas de reli- giosidade rivais. por meio desses episódios. graças à participação direta na política. Embora esses sinais fossem mais visíveis no interior do protestantismo. evidenciava-se.7 evidenciando que a ação dos fatores cuja presença denunciavam atingia o campo religioso em seu conjunto. seriam julgados em condição de escolher livremente sua própria religião. Modernidade ambígua. deixavam claro para o grande público um fenômeno que os especialistas vinham já apontando havia algum tempo e logo passariam a explorar em profundidade. diante de um mercado em expansão.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . mais ou menos entregues à improvisação ad hoc sobre sistemas de cren- ças fluidos. Tomando-se . De fato. oscilando entre o mundo público e o privado. e a disputa aberta de posições de poder na vida pública. agora dependente quase de modo exclusivo de escolhas individuais. em especial nas igrejas conhecidas como neopentecostais.4 e cujo sentido geral talvez pudesse ser indicado designando-o como as "ambivalências da modernidade" que enfim atingiam o universo religioso em um país onde a religião. sua busca de controle dos instrumentos de riqueza e prestígio. tais eventos. a exemplo das declarações do pastor Caio Fábio. imbricada com a própria estrutura do poder de Estado por meio da instituição do padroado. no Brasil. um passo adiante. fragmen- tação de crenças e práticas devocionais. contraditoriamente. fora indissociável da vida pública. do ponto de vista organizacional. Igrejas enfim gerenciadas aber- tamente como verdadeiras empresas. seu rearranjo constante ao sabor das inclinações pessoais ou das vicissitudes da vida íntima de cada um: esses seriam os sinais que revelariam a face da modernidade — ou seria já da pós-modernidade? — enfim se deixando entrever no campo religioso brasileiro. sempre tivera um papel de reconhecida relevância. Os modernos meios de comunicação de massa postos a serviço da conquista das almas. no entanto. Instituições religiosas que. pareciam fragilizar-se ao extremo. na figura da Igreja católi- ca. deixando ao encargo dos fiéis complementar à sua maneira a ritualização das práticas religiosas e o conjunto de valores espirituais que elas supõem. na verdade. baixo grau de institucionalização das igrejas. Fluidez do campo religioso. cujos efeitos. doutrinário e litúrgico. Numa palavra. que se achava em curso um rearranjo global do campo religioso no Brasil. Por fim. Os sinais da transformação? A evidente ampliação e diversificação do "mercado dos bens de salvação". uma transformação importante no próprio campo protestante. Assim. e a polêmica que se seguiu. Nunca a economia política do simbó1ico5 havia parecido mais adequada à explicação do fenômeno religioso no Brasil.

os antropólogos se acostumaram a considerar como característica que lhe é inerente seu poder de criar um corpo consistente de símbolos. podendo agregar-se de forma mais ou menos coerente em uma mesma visão de mundo. que vai resultar a definição do que é encarado como parte da vida pública. concomitantemente ao progressivo processo de laicização que. das normas e .12 É dessa relação. firmemente ancoradas neste mundo. no universo das religiões no mundo atu- al. E é diante desse quadro que se pode caracterizar o lugar que compete à religião.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 57 o efeito pela causa. a experiência inte- rior do sagrado que toda religião pressupõe? Quais suas consequências para a vida social. a gênese das transformações que resultaram na atual configuração do campo religioso brasileiro.9 um renomado antropólogo chegaria a se questionar se no Brasil. nelas. crenças e regras de conduta — em outras palavras. um "sistema cultural" — capaz de responder às situações-limites. diante dessas transformações. Constatar essas transformações significa pensar a religião com base em sua ancoragem na vida social. portanto. em diferentes contextos ecológicos e sociais. do convívio em um círculo de amigos ou na interioridade da própria consciência. portanto. e fazendo eco a outros especialis- tas. ou. como gostam de inventariar os psi- cólogos —. as práticas da intimidade. vem tomando conta das sociedades do mundo ocidental. mais propriamente. chegou-se mesmo a profetizar que o Brasil e toda a América Latina seriam protestantes no próximo milênio. o campo religioso seria ainda o cam- po das religiões. coletiva. pois disso depende em parte nossa avaliação sobre o seu significado. Em outras palavras. uma mesma cosmologia.11 Hoje. práticas e ritos. numa sociedade cada vez mais dessacralizada. e no mundo contemporâneo de um modo geral. e o que a cada um pertence no domínio da vida privada. e como se acomoda. quase sempre compósitas. nas múltiplas esferas de experiência em que o homem é chamado a conferir sentido à sua existência — em sua relação com o mundo da natureza. deixando a cargo de cada um a tarefa de encontrar num campo religioso também ele aberto às vicissitudes do mercado seus próprios caminhos e respostas. a ameaça de colapso dos valores morais ou a perda de inteligibilidade da experiência do mundo. sobre sua vida doméstica. evidenciando o significado da famosa metáfora weberiana do "desencantamento do mundo". em vista das quais se torna necessário ao homem recorrer a um outro mundo para ainda atri- buir sentido ao que Ihe ocorre nesta vida.8 Ao mesmo tempo. na redefinição de fronteiras entre o público e o privado? A resposta a essas questões supõe que se compreenda em primeiro lugar. na multiplicidade dos papéis sociais que a cada um cabe de- sempenhar. a religião pode desempenhar um papel de maior ou menor relevância. responderiam em grande parte a essas demandas — da psicanálise ao consumo compulsivo compensatório.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . da busca do prazer e do lazer às drogas. de uma perspectiva centrada na história da vida privada. na definição das práticas e valores. às poucas questões para as quais não encontra neste mundo outras já dadas e igualmente satisfatórias. como o sofrimento e a morte. dependendo. da perspectiva de uma história da vida privada no Brasil? Como as transformações que eles anunciam incidem sobre o indivíduo e as escolhas morais que realiza. valores. ainda que de modo esquemático. Entendendo a religião como parte do universo da cultura. Um campo em transformação Uma das características mais notáveis que marcam a situação das religiões no Brasil atual. outras instituições e práticas. talvez seja aquela definida pelos especialistas como sua "perda de cen- tralidade" com relação à capacidade de conferir significado à existência do homem e à sua experiência de vida. do grau de integração a que é suscetível a experiência humana nessas várias esferas. desde o início da modernidade — quer a situemos no Renascimento quer façamos dela sinônimo do domínio técnico propiciado pela Revolução Industrial no século XIX —.10 Quais as implicações desses fenômenos. na intimidade da experiência familiar. a vida social ou o universo do sobrenatural —. mais centrada no indivíduo e regida pelas regras do mercado. é o campo de abrangência o que mudou. compreendendo que.

dois anos mais tarde. procurando dar corpo ao projeto de re-criação de um "Brasil católico. o Almanaque de Nossa Senhora Aparecida. ao mesmo tempo que. cuja ação incansável vinha sendo desenvolvida desde os anos 20. num mundo dilacerado pelo pluralismo ideológico dos regimes democráticos e a ameaça constante dos conflitos armados em escala mundial. na implementação da "Restauração Católica”. com um novo espírito triunfante. a Igreja. a incorporação dos leigos nas paróquias. em 1931. promovendo uma nova centralização do poder eclesiástico segundo os ditames de Roma. uma nação perpassada pelo espírito cristão”. é sob esta dupla determinação — do grau de abrangência e da concorrência no mercado — que é preciso pensar o processo de transformação no campo religioso brasileiro que veio a determinar sua con- figuração atual. o Mensageiro do Rosário.MÓ D ULO IV 58 das crenças que norteiam a ação do homem nesses diferentes domínios. Ora. como consequência do triunfo da romanização.13 Submetida à injunção de reorganizar-se institucionalmente. pelo conflito e a concorrência interna. da tentativa de recuperação de seus laços privilegia- dos com o poder político. reduzindo o catolicismo a uma dimensão puramente individual e familiar. no bojo desse processo. porém. mais que um processo de transformação social que a obrigaria a redefinir suas próprias posições. Assim. crenças e práticas institucionalmente organizadas e incontrastadamente hegemônicas que por quatro séculos definiram de modo coerente os limites e as interseções entre a vida pública e a vida privada. a realização do II Congresso Eucarístico Nacional são símbolos desse espírito militante com o qual. enquanto as Congregações Marianas. além do mais. por um lado.16 A publicação de revistas como o Lar Católico. como já foi assinalado. para engajar-se. abandonaria a posição defensiva em que se encontrava ante o avanço da laicização do Estado e a ideologia do progresso inspirada no positivismo. no interior do "mercado dos bens de salvação". o Brasil encontrou no catolicismo um conjunto de valores. Graças a Jackson Figueiredo. a crescente presença das ordens estrangeiras.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . dos dominicanos. as Filhas de Maria ou os movimentos de Ação Católica propiciam concomitantemente. no mais puro estilo conservador. levará a Igreja a buscar manter sua influência na vida pública mediante um re- torno "privatizante" sobre si mesma. ou as Leituras Católicas. do Progresso. o Centra Dom Vital. por ele criado e dirigido até sua morte. volta-se ainda uma vez para a esfera privada. procurando controlar instituições sociais capazes de formar o caráter e moldar as atitudes do homem por meio da educação. País historicamente marcado pela influência da religião. e dilacerado. en- tre as diversas práticas e sistemas de crenças que. Quando um projeto de uma nova ordem social e política se esboça. disputam entre si a hegemonia no campo religioso. por isso mesmo. com ela. é. e que compete com os significados veiculados no interior do universo religioso na tarefa de conferir significado à sua existência. nos meios intelectuais. dos padres do Verbo Divino. Formalmente ligada enquanto instituição ao Estado até o final do Império. no plano propriamente re- ligioso.15 Curiosamente. dos redentoristas. o que se constata no mundo contemporâneo. por assim dizer.17 . procura aliar à fé cató1ica o espírito positivista da Ordem. a consolidação do papel da Igreja na sociedade existente. através dessas instituições e dessas práticas. a Igreja católica entra no século XX sob o signo da romanização e. ao incentivar a formação da consciência e as práticas de devoção. recorrendo a tradição para solutionar suas longas décadas de crise. O que se visa. e. por uma experiência multifária do mundo por parte do homem con- temporâneo. desde meados dos anos 20. ele é. no plano devocional e litúrgico.14 A inauguração da estatua do Cristo Redentor no alto do Corcovado. um encolhimento do universo religioso sobre si mesmo: ameaçado. francamente reacionário. ameaçando pulverizá-lo em miríades de fragmentos desconexos. e obrigada a reencontrar para si um novo lugar na sociedade. ajudam a difundir essa mentalidade. ao mesmo tempo. é antes a transformação espiritual dos fiéis e. dos salesianos. descrente. o catolicismo atravessará as décadas de 30 e 40.

primeiro. a ser cultivada inclusive nos Círculos Operários e no seio das Forças Arma- das. A guinada que começaria a reverter essa situação viria na década de 60. no entanto. estivessem fundadas em uma preocupação profunda e sincera com o revigoramento da mensagem cató1ica. ao longo da década de 40. TFP. o catolicismo voltaria a retomar com novo vigor uma preocupação que chegara a inquietá-lo na década de 20. a pre- sença da Igreja católica como porta-voz da sociedade civil na longa luta pela redemocratização do país nas . obrigando-a a declarar sua posição nessa frente. orientada por uma profunda e dilacerada revisão autocrítica de sua própria história. sendo a ética da vida privada. pela vivência integral. em 1968. que seria emblemático dos estertores da reação ultramontana da Igreja católica à guinada à esquerda em que começava a engajar-se sua hierarquia. A expansão das atividades da Ação Católica e a atuação de d. a partir de então.23 a Igreja daria início a uma verdadeira revolução.25 Embora a descentralização e a democratização das estruturas de poder que resultaram desse processo.21 De certa forma. avançariam a passos largos no meio sindical e operário. assim como a progressiva organização-incorporação das comunidades leigas de fiéis a ele concomitante. representado pelas ideias marxistas e socialistas que já alcançavam alguma penetração significativa entre os intelectuais e. o pensamento de Alceu Amoroso Lima. Família e Propriedade. incorpo- radas sob a designação vaga de "espiritismo". espe- rar ainda pelos anos 50 para que alguma preocupação social mais ampla começasse a se evidenciar no in- terior da Igreja. isto é. ameaçando conduzir por uma via indesejada pela Igreja os projetos nacionais desenvolvimentistas. sobretudo a partir de 1962. ao lado do pensamento cientificista e da secularização. embora manifestando algum apoio aos projetos de desenvolvimento nacional do período. do seu significado. foi criada a Tradição.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . no final da década e nos anos seguintes. em 1979 — que procura- vam aplicar ao continente as diretrizes do Concílio. porém. após a Revolução de Outubro na Rússia. e o impacto da derrocada do fascismo e das ditaduras no final da Segunda Guerra Mundial.18 Todavia. sobretudo a moral familiar. No mesmo sentido. em seus posicionamentos políticos e em sua própria estrutura organizacional. E nem se poderia esperar da Igreja outra coisa.19 Seria preciso. grupo ligado aos setores mais conservadores do catolicis- mo no Brasil. a principal ênfase de sua vertente doutrinária e eclesial.24 procurando redescobrir ou reinventar sua vocação com base em uma releitura de sua atuação "do ponto de vista do povo”. que ameaçam a posição institucional e a hegemonia espiritual do catolicismo num Brasil "verdadeiramente cristão”. mas em direção inversa. progressiva- mente iria tomar conta da Igreja nas décadas seguintes acabaria por levar sua atuação a pender mais para a vertente pública da vida social que para a interioridade da fé na vida privada. contra o projeto abertamente reacionário de Jackson Figuei- redo. temendo fazer frente às suas demandas sociais e recusando-se a entender a linguagem em que tradicionalmente manifestara suas aspirações espirituais.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 59 Por isso. graças à influência de Jacques Maritain. Mas aí. os bispos brasileiros dariam início a uma profunda mudança no seu discurso perante a realidade social.20 Tudo isso. num clima de guerra fria. a Igreja ainda continuava a manter-se de costas para o povo. os "inimigos" da Igreja católica ainda são o protestantismo e as religiões afro-brasileiras. que deveria ser absorvido como uma ética coerente capaz de reger a conduta do fiel na vida pública assim como na vida privada. que substituirá Figueiredo na direção do Centro Dom Vital passa a liderar a corrente liberal do catolicismo. Hélder Câmara na discussão de questões relativas ao Nordeste e à Amazônia são importantes nesse período. e começando a organizar as Comunidades Eclesiais de Base. Postos em contato com as novas correntes do pen- samento católico europeu e latino-americano. quando se realizou a primeira sessão do Concílio do Vaticano II. individual e comunitária.22 Abraçando a "opção preferencial pelos pobres" pregada pelas Conferências do Episcopa- do Latino-Americano — a de Medellín. pouco se afasta dos marcos conservadores mais ou menos explícitos pelos quais a Igreja católica pauta seus posicionamentos perante a vida pública. o envolvimento social e político que. Em tempos de profunda conturbação social e política. o perigo do "comunismo". e depois a de Puebla.

através do controle dos meios de comunicação de massa. numa outra aproximação a contrapelo com o pentecostalismo. d.29 em face das vicissitudes de um "mercado dos bens de salvação" em processo de crescimento e diferenciação. porém. ao lado do povo. implantaram- -se pacificamente no Brasil.30 Ao longo do século.31 É somente após a Segunda Guerra Mundial que esse quadro começa a sofrer uma mudança radical. da política e do compromisso com os pobres e suas causas sociais. a Igreja católica havia muito teria podido articular sua reação. não mais se reconheceria nessa nova Igreja. como ao se precisar de conforto diante das agruras da dor íntima. mas sem um crescimento que pudesse inquie- tar a hierarquia católica. que passa a crescer de uma maneira assombrosa com base nos grupos pentecostais. Depois. naquela época: "Estou convencido de que em nenhum outro país cató1ico do mundo existe maior tolerância e um senti- mento mais liberal para com o protestantismo”. Longe da vida pública. Sentindo-se abandonados à própria sorte. marcadamente minoritária. a urgência quase insuportável das causas que a obrigavam a engajar-se na nervura viva do presente. criada por missionários suecos em Belém do Pará. a Congregação Cristã do Brasil. dando continuidade à presença. representada pelo fortalecimento e progressiva expan- são da Renovação Carismática Católica. e que aos poucos ira se implantar em meio à colônia italiana de São Paulo. anglicanos. sua resposta foi partir em busca da modernidade e das linguagens contemporâneas da fé já havia muito dominadas pelos novos grupos pentecostais dentro do protestantismo. como diretriz para a recuperação de uma dimensão privada da experiência religiosa.27 Ao mesmo tempo. em 1910. resultaria. chegariam ao país as primeiras igrejas pentecostais. e o fervor com que se dedicara a essa tarefa. a busca do vigor interior da crença. presbiterianos. seria igualmente emblemática do novo compromisso da Igreja cató1ica com as causas do povo.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . nas primeiras décadas do novo século.26 tendo como figura-símbolo o cardeal arcebispo de São Paulo. e da formação de uma classe média urbana. na união da palavra de Deus com os rumos da história. em que fé e política se tornavam termos indissociáveis e praticamente intercambiáveis. no interior da Igreja. Embora já em meados do século XIX se registrasse a presença protestante no Brasil. núcleos junto aos quais se enraizaram. deveria ser pago pelo catolicismo nesse processo. vista por muitos como incapaz de lhes fornecer respostas quando as exigências da fé não encontravam uma equivalência necessária no plano da política. Paulo Evaristo Arns.MÓ D ULO IV 60 décadas de 70 e 80. Quando a hierarquia — inclusive a de Roma — enfim voltou de novo a atenção para essa dimensão de suas tarefas eclesiais e evangelizadoras. no âmbito da vida privada. traduzidas agora nos novos ditames da Teologia da Libertação. luteranos. a ponto de um missionário americano afirmar. como registraram em pertinente metáfora estudiosos que analisaram esse processo. desde a década de 40. dos protestantes no Brasil. inteiramente íntima e pessoal. muitos deles se bandearam para o lado do protestan- tismo então em plena expansão. com a irrupção de um novo tipo de protestantismo de massa. trocando em sua atuação a orientação ética pela dimensão profética. detectando os sinais de alerta que aponta- vam para essa profunda transformação do campo religioso então em curso. No ano seguinte será a vez da Assembléia de Deus. O protestantismo era um velho e conhecido "inimigo" das hostes católicas. que enfim conquistavam reconhecimento e legitimidade no campo religioso no Brasil. uma grossa massa de fiéis. para que enfim o Verbo pudesse se fazer Imagem.28 Não fosse pelas agruras do tempo. ganhando adeptos ao ritmo da imigração estrangeira. Um preço. metodistas. primeiro. da perda pessoal ou da carência espiritual. ricos assim como pobres. e das religiões afro-brasileiras. na verdade ela jamais chegara a ser objeto de hostili- dade declarada por parte da Igreja católica. da experiência de exalta- ção da fé e do transporte espiritual diante do milagre. batistas. Sobretudo graças à ação missionária financiada por igrejas norte-ame- . congregações tradicionais do chamado "protestantismo histórico".

ou protestantismo de conversão". sobretu- do entre as camadas mais modestas da população.34 em especial aqueles ligados a uma terapêutica mágica de benzi- mentos e simpatias ou à medicina tradicional de ervas e plantas curativas sobejamente conhecidas no meio rural de onde provinham. a "cura divina". Ao rejeitarem também a hierarquia sacerdotal tradicional da Igreja católica. Deus É Amor. como eram então comumente designadas as religiões afro-brasileiras. ginásios de esporte e estádios de futebol. aquelas mesmas que. no novo meio em que passam a viver. no uso de instrumentos não convencionais de evan- gelização.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . sob vários aspectos. essas igrejas rapidamente reconstituem para esses novos trabalha- dores que chegam aos grandes centros urbanos os laços de solidariedade primária de seu local de origem. Mas inovava também em sua própria mensagem. Essas são igrejas que nascem sem os vínculos tradicionais que sempre uniram o catolicismo às classes superio- res.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 61 ricanas. por meio do rádio. no início dos anos 50. mais de per- to diziam respeito ao indíviduo. a Casa da Benção e outras.33 trazia importantes inovações para o campo religioso. longe da devoção altamente espiritualizada do catolicismo então ainda dominante. como a do Evangelho Quadrangular. da mente e da alma. num país majoritariamente católico. É que esse novo protestantismo de massa. Era a essa dimensão privada de sua vida que a nova mensagem evangélica dirigia agora a atenção. Essas novas igrejas pentecostais — que viriam a constituir o chamado "pentecostalismo neoclássico" —32 rapida- mente se implantam e passam a ganhar centenas de milhares de adeptos em velocidade crescente. Daí surgiriam as igrejas conhecidas como de "cura divina". perdidos com o processo migratório. e diante da qual esses males deveriam parecer mesquinhos ou só vergonhosamente confessáveis. por desnecessária. que vieram se somar à Congregação Cristã do Brasil e à Assembléia de Deus. centrados sobretudo na comunicação de massa. rejeitando. elas promovem a adesão a um sistema de crenças religiosas que "colocam . o novo pentecostalismo inovava ainda. tendas de lona itinerantes junto às quais se agrupavam os adeptos potenciais para ouvir a nova mensagem evangélica. para as doenças do corpo. ao 1ado do "espiritismo" kardecista e do "baixo espiritismo". a adesão às igrejas pentecostais emergentes seguramente representaria uma "subversão simbólica da estrutura tradicional do poder" como afirma Willems. dando-lhes enfim o sentimento de pertencimento que lhes falta na grande cidade. mais incapaz. o Brasil para Cristo. a emergência dessas igrejas viria ao encontro dos valores tradicionais da cultura desses migrantes. absorvendo-os numa comunidade. Será a partir de então que o "protestantismo" começará de fato a inquietar a hierarquia católica.35 Por outro lado. agora colocada nas mãos dos próprios fiéis. mais ignorante que seja. por meio da Cruzada Nacional de Evangelização. Para estes. seus serviços são solicitados por pessoas que falam como ele e que têm a certeza de pertencer ao Povo de Deus". Primeiro. do ponto de vista teológico e organizacional: suas igrejas prescindiam da hierarquia sacerdotal e negavam ao catolicismo e seus prelados o monopólio da salvação.36 Por fim. passando a ser sistematicamente incluído entre os "inimigos" a cujo combate deveria entregar-se a fé cató1ica. estas fazendo parte do que se conheceria como o "pentecostalismo clássico". Por fim. para esses novos fiéis. com a aceleração do processo de industrialização e a consequente migração para os grandes centros urbanos de significativos contingentes populacionais vindos de um Brasil rural pobre em busca de melhores condições de vida na cidade. um grande empreendimento proselitista teria lugar no Brasil. a promessa da "cura divina" não seria algo estranho. em especial a International Church of the Foursquare Gospel. "Por mais humilde. Muitos viram no crescimento dessas igrejas entre os segmentos mais pobres da população — que não por acaso se dá em uma época de crescente conquista de legitimidade no campo religioso por parte da umban- da e do espiritismo kardecista — também um elemento de ordem funcional ou utilitária. sua tutela paternalista. o convertido sente imediatamente que é útil e que nele depositam confiança: chamam-no respeitosa- mente irmão. assim como nas concentrações em praças públicas. fir- memente ancoradas na imediatidade física do corpo ou na interioridade recôndita do espírito. Num período de transformação social.

como instrumento de evangelização de massa. supermercados e galpões agora desativados. elas chegaram mesmo a inovar. essas organizações desenvolvem um tipo de ação segmentada. homens de negócios. sendo suas mais co- nhecidas representantes a Igreja Universal do Reino de Deus. penetrando na intimidade do lar a cada noite. para neles instalar locais de culto que atraem grande número de fiéis. amplos setores das camadas populares emergem no campo religioso como sujeitos de suas próprias crenças e instrumentos de sua própria salvação. voltando as costas para o catolicismo. sua presença pública é menos notória. Em menos de três décadas.37 Assim. os evangélicos multiplicarão sua visibilidade social apenas em razão do crescimento vegetativo de suas igrejas. ensinando a não ambicionar outra projeção senão aquela que se conquista no interior da própria Igreja. mediante uma adesão de foro íntimo. como cinemas e teatros. Sem estarem ligadas a uma igreja em particular. mediante a compra sistemática de edificações de porte em lugares públicos de notória visibilida- de. onde configuram o que veio a ser chamado de "neo- pentecostalismo”. dando corpo à ideia de uma "Igreja eletrônica" em que varia apenas o estilo — mais intimista na Renascer em Cristo.39 Entretanto. com a presença constante. chamando a atenção por sua presença ostensiva. inteiramente de cunho privado. até praticamente os anos 80. começa a surgir um novo tipo de igreja evangélica. ao contrário.38 É que. voltando-se indistintamente para pastores. ela encerra os fiéis no âmbito da comunidade que partilha as mesmas crenças e as mesmas esperanças. que as distingue entre si e mesmo no interior do campo evangélico. Em alguns casos. atletas ou crianças. é provável que essas organizações tenham tido um papel importante na preparação da grande guinada que nele se iria produzir a seguir. já que. os eventos em estádios de futebol ou em grandes espaços públicos abertos têm multiplicado sua presença nos grandes centros urbanos por todo o país.MÓ D ULO IV 62 o sobrenatural ao alcance imediato de todos os que abraçam a nova fé”. das igrejas da Assembléia de Deus. ao longo das décadas de 50 e 60 — os desafios sociais. Mas é sobretudo por intermédio da mídia que o poder dessa nova presença evangélica se faz sentir. eclesial e pastoral. inédito no Brasil. Embora seu impacto na reordenação do campo evangélico ainda não tenha sido devidamente avaliado. a Igreja Internacional da Graça de Deus ou a Renascer em Cristo. entre outros grupos sociais. em contraste. Assim. mas abertas ao intercâmbio com todas as que se mostrarem dispostas a trabalhar com elas. presidiários. pela intermediação de organizações pa- raeclesiásticas que afluem do exterior para o Brasil durante o período. sempre obedecendo a um mesmo padrão arqui- tetônico. a partir de meados da década de 70. enquanto no caminho cató- lico — num período de grande conturbação política no Brasil e sobretudo de profunda transformação no interior da própria Igreja. longe da agitação da vida social mais ampla. o que aproxima essas igrejas é o mesmo uso extensivo e agressivo que fazem dos meios de comunicação. apesar de suas diferenças significativas. dependente apenas de sua consciência. mas nem por isso sua influência deixará de aumentar. pela característica mesma da nova fé que assim se difunde. atingindo também seu próprio rebanho. irão progressivamente polarizar as posições da hierarquia da Igreja. então. graças à programação . já o protestantismo evangélico afastará seus fiéis das tentações da participação na vida pública. como no caso da Igreja Universal. que passarão a crescer cada vez mais como tema e problema teológico. sobretudo graças a uma estratégia descentralizada de ação evangelizadora. principalmente o rádio e a TV. por exemplo. por exemplo.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . porém mais modesta. mais espetacular na Universal do Reino de Deus. diversificando suas atividades e formas de atuação a ponto de definir um perfil próprio. essas igrejas conhecem um crescimento vertiginoso. Ao contrário por quase três décadas a partir de então. Apesar do extraordinário crescimento que o protestantismo conhece então. ou. como na organização de enormes cortejos festivos que carreiam verdadeiras multidões para o local de uma grande manifestação previamente programada. Não é que com isso elas tenham abandonado as concentrações de massa como forma de proselitismo. mulheres. graças à multiplicação dessas igrejas evangélicas. Individualista.

se refletiu também no inte- rior do próprio grupo. O grupo que se tornaria conhecido como a "bancada evangé- lica" do Congresso Nacional. Calculava-se. Na verdade. com velocidade quase espanto- sa. a exemplo da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil. E isso não deixaria de ter consequências. que os evangélicos em seu conjunto deveriam ter chegado a constituir 10.40 É certo que se torna difícil delimitar com precisão a categoria "evangélico".17%. gozando de extraordinária autonomia. clipes musicais e mensagens religiosas. marcar sua presença na cena pública. de fato. "evangélico" remete a um conjunto de características que traçam um perfil relativamente bem defini- do de um grupo que engloba um número cada vez mais significativo de pessoas. um rótulo identitário por meio do qual. ao mesmo tempo que também ajuda a promover a influência protestante no Brasil. de propriedade das próprias igrejas. sozinhas.99%. teológica e litúrgica. valendo-se da participação política. elas não contam com uma organização institucional capaz de so- brepor-se à sua fragmentação e às divergências internas que exibem. de participação. se demarcam fronteiras. adesões. que desde a década de 80 procura. sem estar diretamente subordinadas às igrejas. e agressivamente. quando se consi- dera que em 1970 seu número chegava apenas a 5.43 Também não é estranha a essa projeção pública dos evangélicos a forma peculiar de organização de suas igrejas. Assim.41 Entretanto. No interior do protestantismo em seu conjunto. a exemplo da TV Record.42 Desde então. visto de fora. Atuando de modo disperso. no constante processo pelo qual se desconstroem e se refazem identidades.95% da população em 1996. da população brasi- leira.57% e 2. sem dúvida. asseguram-lhes. Assim.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . "neoclássico" ou "neopentecostal". índices de crescimento que quase chegam ao dobro daquele registrado entre as igrejas evangélicas tradicionais — representando 5. a ponto de terem. que se multiplicaram. com relação ao catolicismo. o termo é usado ora englobando o conjunto das igrejas protestantes. o crescimento dos evangélicos. ainda segundo estimativas do IBGE. porém. "clássico". se tornaria uma tarefa obrigatória dos analistas da religião e da política no Brasil. ou mesmo o horário integral de algu- mas estações de rádio e TV. respectivamente. apesar de algumas tentativas recentes nesse sentido. "evangélico" torna-se antes uma categoria "nativa". a cada eleição. e das próprias igrejas com relação a outros candidatos. a possibilidade de aumentar o . no grupo disperso. das igrejas pentecostais e neopente- costais. representou um primeiro exemplo. adquirida pela Universal no início da década de 90. inédito. no processo de construção contrastiva e relacional da identidade. divergências e alianças de candidatos evangélicos. sem dúvida extraordinário. um aumento mais que significativo. as chamadas congregações "históricas" as- sim como as igrejas pentecostais. a CNBB. cada uma se projeta no espaço social segundo a iniciativa dos pastores ou de suas comunidades locais. o acompanhamento dos apoios. já que engloba um número importante de igrejas com grande diversidade organizacional. ora referindo-se apenas às diversas modalidades do pentecostalismo. sobretudo nas três últimas décadas.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 63 radiofônica e televisiva especializada que preenche os horários tardios de grande parte das emissoras com a difusão de sessões de culto. e muitas vezes o próprio crescimento numérico de sua membresia permite-lhes desenvolver organizações paraeclesiásticas que. no interior de um grupo que historicamente se mostrara avesso à política. o IBGE. malgrado essas indefinições no discurso "nativo". durante os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte. Essa visibilidade reflete o crescimento. representando-as como unidade. que lhes deu visibilidade pública. incluindo-se ou não determinados segmentos no interior do grupo de acordo com aquele que dele se utiliza. as que têm conhecido um aumento mais significativo do número de fiéis. Na verdade. segundo os dados do censo demográfico de 1991 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. são elas.

engajaram-se tão direta e publicamente na disputa política. e mesmo chegue a chocar. organizando-se cada vez mais de forma centralizada. Não só conta com um bispo para as funções de "coordenador político" de sua atuação na vida pública como. sabe que suas bases de poder estão em outra parte. uma prova a mais do grau de impregnação da cultura brasileira pelo etos católico. no entanto. de que diferentes religiões comportam diferentes cosmovisões. talvez. constitui uma verdadeira corporação. ou então de uma cumplicidade mais ou menos declarada. já que dependentes da relação privilegiada da hierarquia eclesiástica com o Estado e os governantes. noutro. graças à sua Igreja apostólica e romana. ou pareça novo. Uma prova a mais. ali. Mesmo ao firmar declaradamente sua presença na vida pública. A fé católica no Brasil. um pouco à semelhança da hierarquia cató1ica. mediado pela ação do outro que produz o estranhamento. Nesse terreno. em diferentes circuns- . a do contato face a face. é ver através do outro — uma religião minoritária — aquilo que nos envolve de tão perto e desde sempre que acabou por se tornar invisível. a Igreja falou aos governantes de modo direto. pleiteando cargos eletivos. Tudo isso é novo no panorama religioso brasileiro. mais agres- sivamente declarado. Talvez o que espante. e de que é também a partir do seu interior que se definem as fronteiras entre o público e o privado. social e política. aqui. A formação de seus quadros especializados. se fosse necessária. Ou. Talvez tudo resulte apenas de uma diferença de estilo. e cuja rescisão pode até mesmo dar lugar a processos trabalhistas. controlando uma série de empresas. quase a sua nega- ção. como talvez alguém dissesse? —. a Universal também governa seus negócios espiri- tuais. nunca foi alardeado de forma aberta e com orgulho. E com a mesma desenvoltura com que gerencia seus negócios terrenos. sua atuação em moldes empresariais. se provas fossem ainda necessárias. propulsiona- dos por diferentes processos de desenvolvimento histórico.45 A participação de seus fiéis na vida pública por meio da representação política jamais resultou numa ação coordenada nos moldes desenvolvidos pela "bancada evangélica". longa e dispendiosa. sempre procurou garantir sua projeção na vida pública. A ética de Inácio de Loyola. fundada no compartilhar de objetivos sociais e políticos comuns. no seio do povo. seria então. para além da novidade. Nem seus sacerdotes. nem tudo seja tão novo. mudando de rumo. mais elitistas talvez. com cláusulas bem defi- nidas de obrigações e direitos. mas de igual para igual. Dois estilos de ação privada marcando diferentes instituições religiosas. na altaneira distância de quem. Talvez nem tudo seja tão novo. afinal. é o modo como diferentes motivos.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . administrando os bens da igreja no Brasil e no exterior. O que importa registrar. na esfera civil. a fé e os negócios demonstram poder sem dificuldade caminhar no mesmo sentido. ou pelo menos assim parece. arrisca-se a todo instante a sofrer solu- ção de continuidade. nos duros anos do regime militar. afinal. ela pauta. a de Lutero e Calvino. De fato. por meios menos diretos. com as classes dirigentes da vida social e política do país. autônomos e separados. além de ser proprietária de uma empresa de consultoria que funciona como um holding. paradoxalmente. a contrario. da movelaria ao setor bancário. O que é peculiar a essas empresas é que muitas delas têm como sócios-proprietários ou acionistas majoritários parlamentares do Congresso Nacional. na vívida expressão de um analista. O próprio recrutamento de seu clero também obedece a um modelo empresarial de tipo franchising.MÓ D ULO IV 64 âmbito de sua influência em setores diversos da sociedade civil. Nosso espanto. encarando a tarefa de ocupar o espaço público e granjear prestígio social em termos profissionais.44 Assim. Seu poder econômico. ainda que este fosse apenas "o povo visto do altar". íntimo e pessoal. de diversos estados e filiados a diferentes partidos. do setor gráfico ao jornalismo. cosmologias. a Igreja Universal do Reino de Deus representa ao mesmo tempo a culminação dessa tendência e. uma vez que os pastores "adquirem" seus postos mediante contrato com a igreja. porém. em face da ameaça sempre presente da "crise das vocações". que vão do ramo das telecomunicações ao turismo. certamente um verdadeiro império. mais contido e eivado de meandros e mediações — maquiavelicamente dissimulado. à exceção talvez dos tempos colo- niais e do Império. num caso. e a da iniciativa privada.

com seu forte componente social e político. con- tudo. contando com líderes genui- namente brasileiros. que reside um dos fatores fundamentais do seu êxito. ou a um apelo mais abrangente à participação na vida pública. que eles sofreram no Brasil um processo de reelaboração profunda. fula e outros. Assim. nem sequer no fato de terem feito da mídia eletrônica seu instrumento essencial de proselitismo e mesmo evangelização. por se fundir ou confundir no panteão de origem nagô ou ioruba — keto. enquanto o catolicismo se projeta na vida social e política. tendo sido originalmente formulados nos Estados Unidos. Oriundos do mundo da escravidão. ao fazer da "guerra espiritual" uma agressiva arma de combate às demais religiões. Neles se incluiriam. estas são igrejas nacionais.49 esses grupos passaram a ser encarados pelos estudiosos quase como paradigma da pureza das religiões afro-brasileiras. O que as singulariza no panorama evangélico é que estas são igre- jas autóctones. um rico filão da fé já dado na tradição das religiosidades populares no Brasil. à diferença das igrejas pentecostais "neoclássicas" que as precederam. Na verdade. são o resultado de um amálgama peculiar entre dis- tintas formas de religiosidade de nações africanas aqui forçosamente obrigadas ao convívio pelo poder do colonialismo escravocrata. os candomblés. oriundas de empreendimentos proselitistas vindos do exterior. no Brasil.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . De fato. envolvendo atores e visando setores distintos. com base na experiência íntima da conversão. identificando neles a obra do Demônio que impede os homens de gozar de todos os benefícios que Deus lhes concede no momento em que o aceitam como Senhor. da distorção de significado a que foram constantemente sub- metidas suas práticas e crenças. xangôs ou batuques. que se reflete na ética privada do fiel. se combinam para imprimir uma dinâmica própria ao processo de transformação do campo religioso brasileiro e promover a abertura do "mercado dos bens de salvação". em contato com o mundo do catolicismo do colonizador branco e com as religiões dos povos indígenas nativos da América. benguela –. no contexto brasileiro. em detrimento das demais etnias.48 De fato. Em particular no caso das religiões afro-brasileiras.46 bem como o rico universo jeje do culto dos voduns47 as formas religiosas fantiachanti ou de nações islamizadas como os haussá. que as novas igrejas pentecostais emergem reivindicando sua participa- ção na cena pública.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 65 tâncias sociais. mas pelo avesso. mandinga. segundo ensina a "teologia da prosperidade". fundamentalmente centradas no culto dos ancestrais. é preciso reconhecer. ijexá. Dessa forma. . mais cedo incorporados ao processo de colonização. nem em seu crescimento vertiginoso. A característica peculiar dessas igrejas que vêm decididamente ameaçar a hegemonia católica nesse perí- odo não está. ao catolicismo e em especial ao universo religioso afro-brasileiro. nem em sua forma de organização. essa situação seria francamente inquietante. dos povos banto – congo. E é nessa retradução doutrinária em termos das linguagens espirituais mais imediata- mente próximas. como são chamados em diferentes regiões do Brasil. é quando o catolicismo começa a viver a crise de apelo da Teologia da Libertação. quiloa. nesse universo. delineia-se um movimento simétrico e inverso no interior do catoli- cismo e do protestantismo. rebolo. em especial na Igreja Universal do Reino de Deus. an- gola. Ao contrário. não fosse pelo caráter quase habitual. engajando-se decididamente na via da "opção pelos pobres". em muitos casos.50 considerando-se que teriam tido condições de conservar mais de perto suas tradições de origem pelo momento tardio — já no século XIX — em que significativos contingentes de es- cravos provenientes da Nigéria ou do Daomé são incorporados ao mercado brasileiro. por intermédio da disputa política em que se engajam seus líderes e mesmo da postura mais combativa de seus fiéis perante as demais religiões. quando muito comunitária. porém. a Igreja Universal conseguiu reapropriar em seu benefício. devocional e comunitária. Assim. ao mesmo tempo que também se transformam. as tradições religiosas. nem em sua projeção pública inédita. E se é certo que os princípios doutrinários segundo os quais se organiza sua teologia são "importados". com relação à maior ou menor ênfase dada em momentos distintos a uma reli- giosidade íntima. egbá — do culto dos orixás. as igrejas evangélicas ainda se recolhem em uma religiosidade mais pessoal. acabariam.

de súditos e devotos que estão na origem de algumas das mais importantes casas de candomblé do Brasil. membros da realeza e de castas sacerdotais.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA .55 aparentemente desmentindo os esforços de integração dos escravos às devoções do catolicismo que se multiplicavam desde os primeiros tempos da colonização. com a publicação de Casa-grande & sen- zala.64 e posteriormente retomada por pesquisadores estrangeiros como Roger Bastide65 e Pierre Verger.53 sendo tornados no mundo dos senhores por "diverti- mento" a que se entregavam os negros.60 ao mesmo tempo que se denunciam as condições de abandono e pobreza a que foram relegados os negros no país. a evidente miscigenação racial a que dera lugar a colonização no Brasil aparecia agora como risco de inviabilização da própria nação. e mesmo ao longo das décadas de 30 e 40. a tranquilidade da senzala e a submissão dos escravos. as religiões afro-brasileiras adentrariam o período de modernização da sociedade brasileira que se anuncia nos anos 30 ainda sob o duplo peso da estigmatização e da perseguição. ao seu redor.54 Mesmo após a independência. ou francamente de esquerda. em nome de um novo projeto civilizatório. ainda nos anos 20 ou 30. seria relativamente recente. Sob o signo do evolucionismo. resgatar em algum sentido positivo as tradições culturais dos afri- canos no Brasil. isto é. consentidos em razão dos benefícios morais e políticos que deles se esperava. entretanto. que escritores e artistas dissidentes. Menor complacência. que resultaria paradoxalmente em uma nova desqualificação e. Não por acaso. porém. visto em perspectiva. os terreiros de candomblé passariam a ser objeto de rigorosa perseguição por parte da polícia e do Poder Judiciário. ao longo dos anos 20 e 30.56 e as religiões afro-brasileiras figura- vam práticas "animistas" e "fetichistas" habituais entre os povos "inferiores" como eram então considerados negros e índios no Brasil. Sob as condições da escravidão. Gilberto Freyre. por Aluísio Azevedo e Euclides da Cunha. ao mesmo tempo. porém. que incluiu desde extensas reformas urbanas na capital federal58 até uma nova política sanitarista e depois eugenista para todo o país. foram objeto de constante perseguição pelos visitadores do Santo Ofício.63 Edison Carneiro. em que a contribuição das culturas africanas é incorporada de modo positivo — a ponto de inverter o viés racista dos teóricos marcados pelo espírito evolucionista. como Jorge Amado. procurarão.57 Nesse período. retomando uma tradição já de finais do século XIX e início deste século. não seria tanto em nome da teologia quanto da ciência que as práticas religiosas dos africanos e seus descendentes no Brasil seriam objeto de nova desqua- lificação. Em fins do século XIX.61 Assim também. em 1933. . teriam senhores e autoridades eclesiásticas para com as práticas mágicas indissociáveis dessas formas de religiosidade que. as religiões afro-brasileiras conheceriam uma tentativa inédita de legitimação. o que permitiu uma certa aglutinação. inauguraria uma outra vertente dos estudos sobre o negro no Brasil. como seriam mais conhecidos. sendo igualmente denunciados como "curandeirismo" pela corporação médica seus ritos de caráter mágico-religioso. que significou uma certa autonomia na organização dos seus cultos. represen- tada. para dar lugar ao elogio da miscigenação —62 numa tradição que seria desenvolvida por Arthur Ramos. suas tradições culturais e religiosas só poderiam subsistir de modo fragmentário. vistas como feitiçaria. por exemplo. nas primeiras décadas deste século. entre os acadêmicos. esse fenômeno. a missão cristianizadora que dera sentido ao empreendimento co- lonial português no ultramar e agora presidia à construção do Império no Brasil não se cansaria de conde- nar as práticas pagã e a lassidão moral que campeavam soltas nas senzalas. expressando-se em meio aos batuques e calundus cuja presença é amplamente atestada nos documentos do período colonial52 e na literatura dos viajantes. sendo assim classificadas até mesmo pelos homens de ciência que se dedicaram ao seu estudo. ou terreiros. será em meio à elite intelectual.51 Entretanto. e do ponto de vista dos próprios africanos no Brasil.MÓ D ULO IV 66 em alguns casos.66 Por outro lado. como os participantes da Semana de Arte Moderna em São Paulo. revalorizando suas práticas religiosas como constitutivas da própria identidade da nação.59 Assim.

dos povos banto. é que.69 Entretanto. com a crescente expan- são da industrialização e urbanização servindo como forte pó1o de atração para a migração interna. Não por acaso. da macumba ou da quimbanda. de cura de doenças físicas e mentais. será abandonado pelos fiéis da umbanda que. que se acen- . além dos orixás dos ritos jeje-nagô. Assim. mas ao preço de uma transformação que resultaria na "morte branca do feiticeiro negro" como qualificou com propriedade esse processo um analista.70 Mas é sobretudo na década de 60 e em especial nos anos 70 que a umbanda passará a granjear um crescente número de adeptos. familiar ou profissional dos indivíduos. um importante instrumento de reapropriação das religiões mediú- nicas afro-brasileiras. rapidamente ganham adeptos ao longo das décadas de 40 e 50. as giras nas quais se incorporam. sob a forte influência da mentalidade cientificista de fins do século XIX representada pelo evolucionismo e o positivismo. assim como em razão do exacerbado nacionalismo anticomunis- ta dos novos governantes que se apossam do poder nessa época. marcados por transformações sociais significativas.68 Garantia-se assim uma nova respeitabilidade — branca. que agora já não necessitariam requisitar da polícia autorização para o seu funcionamento. Por exemplo. nunca cresceu tanto como nos anos 70 o número de centros de umbanda e de federações umbandistas. O que é certo. exus e pomba-giras. ao lado do espiritismo karde- cista. por parte de uma pequena burguesia branca. e uma moral que reivindica a herança das virtudes cristãs. considerados próprios a uma forma de religio- sidade "inferior". e com razão. por Allan Kardec. num processo que a consolidação do novo modelo econômico trazido com a era dos governos militares viria a ampliar ainda mais nos anos 70. inicialmente no Rio de Janeiro e logo em outros centros urbanos. porém. ao processo de modernização que progressivamente toma conta da sociedade brasileira a partir da década de 30 e se acentua nos anos 50 e 60. representaria. embora ainda não se façam represen- tar pelo próprio nome nas estatísticas dos censos oficiais. principalmente. superando o espiritismo kardecista em número declarado de fiéis e passando a inquietar também a Igreja católica. que assim prestava homenagem ao espírito nacionalista do tempo ao criar uma religião "autenticamente brasileira". e em especial os sucessi- vos surtos de expansão da clientela da umbanda. visto como característico do "baixo espiritismo". urbana e letrada. o sacrifício de animais. boiadeiros ou ciganas. talvez. e de aconselhamento sobre pro- blemas da vida pessoal. no interior do "espiritismo".M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 67 na criação de um novo tipo de culto. que viria a constituir uma das formas de religiosidade mais populares no Brasil. civilizada e nacionalista — a religiões até então desqualificadas como próprias de negros incultos. no Brasil dos anos 30. mas antes procurava incorporá-la em benefício de suas crenças. sob essa nova roupagem umbandista.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . Já se associou. procurarão dedicar a finalidades mais "altruístas". as religiões afro-brasileiras. a umbanda procurará "expurgar" as religiões afro-brasileiras de alguns de seus aspectos mais "bárbaros". a criação na França. De fato. à pretensão de cientificidade da "evolução" até mesmo no plano espiritual.67 Incorporando a crença do kardecismo na possibilidade de comunicação com os mortos a tradição de culto aos ancestrais herdada. a partir de 1964. que então já sofria uma significativa concorrência por parte do protestantismo de conversão das novas igrejas pentecostais em expansão no período.71 a gradativa legitimação das religiões afro-brasileiras. sobretudo. possivelmente pela legitimidade de que sempre gozou o espiritismo. ainda "católicos". a distinguir. de um espiritua- lismo que não mais se opunha à ciência. sendo a fé umbandista quase sempre escondida pelos próprios recenseados sob o rótulo genérico e bem mais legítimo de "espíritas" e. também espíritos de pretos-velhos e caboclos. mas seriam devidamente registrados em cartório por todo o país. a umbanda. os kardecistas dos umbandistas. sem com isso abrir mão do projeto civilizatório que por décadas tinha servido de base à condenação desses cultos. nas sete linhas características do culto. junto aos círculos militares. os censos passarão. no espaço deixado em aberto pela disputa que separava os governos militares dos setores da Igreja católica já então em franca oposição ao regime. em contrapartida. por sua filiação positivista. em especial a caridade.

fundando-se na reconstituição. Religiões de possessão essencialmente baseadas no culto dos ancestrais. local por excelência de culto aos ancestrais e práticas iniciáticas. tendo como modelo "puro" de religiosidade afro-brasileira a versão dos terreiros nagô da Bahia. o candomblé. o ponto focal de contato entre o mundo dos homens e o outro mundo. demonstrando um engajamento social e político cada vez maior. criando assim cultos dinásticos de cunho regional. Por outro lado. esses anos assinalam os períodos em que tais religiões conhecem um maior índice de crescimento. ao modo oblíquo do tempo.79 em nações africanas de origem jeje-nagô.80 sem a abrangência generalizante que o panteão recriado no Brasil viria a conhecer. ao mesmo tempo em que. As condições socioeconômicas e culturais do período — o processo de metropolização da cidade que se acentua. inerentes às próprias religiões afro-brasileiras. por razões históricas e mesmo de ordem cosmológica. cuja presença numa cidade como o Rio de Janeiro já se evidencia desde o iní- cio do século. elas sempre foram centradas nas estruturas de parentesco. no plano ritual. ao lado dos motivos de ordem social mais ampla. se iniciaria o movimento de "retorno às origens". novos sistemas de valores e uma nova espiritualidade.74 só na década de 60 chegaria à me- trópole paulistana. nos próprios meios religiosos afro-brasileiros. é preciso refletir também sobre as razões estruturais.76 Contudo. para além da autoridade religiosa.72 Ao mesmo tempo em que a Igreja católica acabaria por voltar-se progressi- vamente para a esfera pública. a organização dos terreiros de candomblés. aumentaria também a procura por essas religiões de intimidade e intervenção mágica no mundo como forma de poder. que levam à sua legitimação crescente e sua aceitação cada vez mais ampla. articu- lam sacerdotes e fiéis em instituições de direito civil agregadas em federações. voltando-se para a interioridade do indivíduo para mostrar seus vínculos com uma ordem cósmica de que ele participa como herdeiro e artí- fice. a ausência de respostas institucionais. enquanto o apelo comunitário dessas religiões encontra seu fundamento em divindades hereditárias de famílias ou clãs. em culturas distantes e exóticas. num mundo que começa a registrar sintomas de crise profunda — já foram invocadas como responsáveis pela atenção que passam a despertar entre as classes médias urbanas os cultos afro-brasileiros. Assim. o culto dos orixás teve em suas origens an- cestrais divinizados.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA .MÓ D ULO IV 68 tuam a cada década como um divisor de águas qualitativo em um processo contínuo. que ampliam seus atributos para se acomodarem ao convívio com deuses de tradições religiosas de distintos grupos étnicos. Ao contrário da umbanda. es- sas religiões representariam assim a versão doméstica de um "exótico" que já não se necessita buscar nos modelos indianos da contracultura hippie.77 sempre obedeceu a um modelo inteiramente centrado na ordem do privado. Intelectuais e artistas do eixo Rio—São Paulo se encarregariam de tornar conhecidas por todo o Brasil as referências aos candomblés da Bahia. que desde a sua criação se organizou segundo um modelo burocrático de funções que. também as igrejas pentecostais e os centros espíritas kardecistas passam então por um processo de expansão análogo ao dos centros de umbanda. ou sobrepondo-se à sua hierarquia.73 registrando-se também. inclusive por parte de elites que durante séculos só tinham visto nelas prova do atraso brasileiro e motivo de inquietação quanto à viabilidade de uma sociedade plenamente civilizada entre nós. juntamente com os afoxés carnavalescos. Longe do estilo mais ascético da umbanda. o aumento da solidão do indivíduo num mundo cada vez mais sem referências fixas. os intercâmbios constantes que as co- munidades negras locais mantêm com centros como Salvador e Recife. Não por acaso. o Olodum e a axé music.75 Só mais tarde os próprios baianos — suas elites intelectuais e políticas — reinventarão por inteiro a "Bahia negra". levando à busca. são os centros de umbanda que se "reconvertem" em terreiros de candomblé. a influência da contracultura que se faz sentir em escala planetária. às suas aflições. de uma ordem de . invertendo o processo de legitimação que levara os candomblés a se diluir na versão mais soft da umbanda — agora. de novos modelos de sociabilidade. laicas e religiosas. incorporando o candomblé ao patrimônio afro-brasileiro que se "resgata". a própria or- ganização interna dos terreiros reflete uma transformação simétrica e inversa àquela que se produz no mundo de inquices.78 Se entre os povos banto a religião se fundava numa cosmologia que fazia da encruzilhada. orixás e voduns.

entender o etos e a visão de mundo diferenciais que cada religião procura tornar congruentes ao seu modo específico82 e que se desfazem e refazem. todavia. como no caso das confrarias e irmanda- des. o escravo. capaz. É preciso avaliar também o espírito que preside a essas transfor- mações. como assinala Moura Castro86 a propósito das tábuas votivas do século XVIII em Minas. da perspectiva da vida privada. portanto de promover a legitimidade do poder ou gerenciar a economia moral da propriedade privada. da doença ou da pobreza. a Igreja católica. o que as elites intelectuais iriam reencontrar nos terreiros. De fato. e não se tendo desenvolvido nas Gerais durante o ciclo do . isso não é tudo. vividos como crise de civilização. como a que se traduz. que esse breve esboço de evolução histórica desde a década de 30 procurou resumir. no Brasil. nas agruras do sofrimento. ao longo desse processo. nas formas de culto ou nas práticas mágico-rituais que os sus- tentam no plano cósmico diante das vicissitudes da vida cotidiana. nem por isso se voltará menos para as necessidades materiais e morais do indivíduo.81 Tudo isso reflete o complexo processo de reelaboração pelo qual passaram as religiões afro-brasileiras sob as condições da escravidão que. pela repressão mesma a que deram lugar.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 69 parentesco mítica à qual os indivíduos se integram por meio da iniciação. antes deles. num movimento paralelo ao que é desenvolvido pelas igrejas pentecostais na mesma época. as ajudaram a manter-se encer- radas na ordem do privado. sob pena de se reduzir o significado da religião a epifenômeno do social. que não basta entender a dinâmica do mercado dos bens de salvação e a oscilação entre o pólo público e o privado da ênfase eclesial. na umbanda. uma vez que vinham já prontos de Por- tugal os retratos oficiais de reis e autoridades. ou se esboçam e consolidam. fechadas sobre si mesmas. desde os tempos coloniais. por exemplo. doutrinária ou litúrgica das principais confis- sões que integram o campo religioso brasileiro. O panorama atual do campo religioso no Brasil sem dúvida guarda as marcas da profunda transformação por que passou em pouco mais de meio século. O etos católico e a religião no Brasil Os estudiosos das religiões sempre reconheceram. adaptar-se a devoções de cunho privado e mesmo incentivá-las. indivíduos que hoje vivem mais de perto a crise das instituições e os dramas da fragmentação da experiência do mundo característicos das sociedades contemporâneas que já vêm sendo chamadas de pós-modernas. é esse sentido de pertencimento comunitário. Mesmo a versão mais sincrética dessas crenças. nos ex-votos populares encontrados por toda parte no país. e assim avaliar mal o impacto das diferentes religiosidades que se confrontam no campo religioso contemporâneo no Brasil.83 foi igualmente capaz de acomodar-se ao etos da sociedade em que se inseria84 e assim incorporar sistemas de crenças particularistas e locais. os migrantes rurais haviam ido buscá-lo nas religiões evangélicas. passando a pertencer a partir de então a uma família-de-santo. como. diante da expansão do mercado dos bens de salvação. Em tempos de transformação social. em face de um catolicismo cada vez mais voltado para a vida pública. e a lógica do mercado certamente impulsiona a diversificação da oferta dos bens de salvação a que têm acesso.85 ou criar práticas religiosas e devocionais de marcada característica intimista. Entretanto. a curiosa mistura por meio da qual uma Igreja católica plenamente atuante na vida pública graças ao seu vínculo com o Es- tado. no interior do campo religioso brasileiro. envolvendo na intimidade doméstica de uma família as figuras do sagrado.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . apesar de sua organização institucional burocrática. Compreende-se assim que. apos- tólica e romana passe progressivamente a ver ameaçada sua hegemonia. de modo cada vez mais pri- vatizado. ainda que esta se referisse a outro ser humano. É preciso dizer. acentuando as características do segredo dessas religiões iniciáticas e a estrutura comunitária das práticas mediante as quais os indivíduos se religam à totalidade do cosmos nos ritos de iniciação.

Anna. Nos exemplares mais eruditos. talvez. se vos foge um escravo: Santo Antônio. nada incomum nos perigosos caminhos do ouro de então. é o que registra um curioso sermão de Vieira sobre as múltiplas invocações de santo Antônio: Se vos adoece filho: Santo Antônio. M. tentativa de assalto. se requereis o despacho: Santo Antônio. elas às vezes apare- cem.MÓ D ULO IV 70 ouro uma classe de poderosos locais suficientemente estável para fazer-se perpetuar na tela dos pintores. impregnado de magia. ou até mesmo as penas do amor.87 E a lista dos eventos miraculosos é extensíssima. assim como outros móveis e algum detalhe arquitetônico. risco de encalhe de um negreiro vindo de Angola com sua preciosa carga e que por intercessão de Santana pôde chegar a salvo ao porto. quase sempre usando uma touca.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . como motivo de agradecimento. uma religião íntima e próxima. numa infi- nita variedade de situações do dia-a-dia. refletida nas situações em que a religião é chamada a intervir. no plano superior ou a um canto do quadro. nesse tempo ainda raras e privilégio das autoridades. vir embora se este grande santo assim fizer obrigo a pagar adita qtia e qdo não pague obrigo meos bens presente e futuro pa. nos santos. O cortinado se arregaça para permitir que se veja a cabeceira da cama rústica. os vestu- ários. e de que saiu ileso o atacado. que tem. O santo protetor flutua envolto em nuvens convencionais. Pintado geralmente em madeira de cedro. o ex-voto com frequência "mostra um aposento em que o ofer- tante se encontra acamado. se perdeis a menor miudeza da casa: Santo Antônio. inextricavelmente imbricada com as comezinhas mazelas cotidianas da vida humana. ahu preto Luis escravo de Luiz Pra. se aguardais a sentença: Santo Antônio. ficou a cargo das pinturas de fatura rústica. no qual se expres- sa um curioso contrato entre o eterno e o homem sofredor: "Devo q pagarei ameo gloriozo Padre Santo Antonio a qtia de 40 $ pa= minha mulher arependase de tudo q me tem feito o q for de mal pa= ella fique dezatinada pa. tal a que se registra como "M. e que revela. Nota-se a falta de cadeiras. como se descobre em um ex-voto. travesseiros roliços e muitas vezes um dossel. sem denehuma soldar lhe abrio o Syrorgião a perna e serrando-lhes as pontas dos ossos por entercessão da milagrosa S. em suas formas despretensiosas e às vezes pitorescas. se mandais a encomenda: Santo Antônio. mostra o quanto o catolicismo colonial brasileiro é. benévolos intercessores dos homens junto à divindade. quase sempre vermelho. os ambientes ou os hábitos daquela época. se quereis os bens alheios: Santo Antônio!90 . se vio Sam em 20 8tembro de 1732". dedicadas como ex-votos ao Cristo. mesmo quando o milagrado é de condição humilde. e. O leito é reproduzido com riqueza de deta- lhes: lençóis alvos e rendados. S. não pintado mas escrito em forma de mandala. antes de tudo. se esperais o retorno: Santo Antônio. Uma faixa inferior é reservada ao texto que descreve de maneira sumária o ocorrido e costuma mencionar o nome do ofertante e a data em que ocor- reu o milagre". para proteger dos maus ares e talvez dos maus espíritos. O mais frequente é sem dúvida a cura de doenças de variada sorte. que quebrando hua perna pella Coixa e sendo Emcanada 3 vezes.89 Essa presença constante do sagrado. q ffez S. E que dos santos se possa esperar com confiante e inocente certeza o milagre sempre possível. entre os milagres: enfermidades que vão de istupor a picada de cobra e gangrena. a responsabilidade de nos transmitir uma imagem da vida privada do tempo.88 Mas há de tudo. à Virgem e aos santos. clareza paso esta q me assino Paciencia 19 de Fever 89 Gil—Ferreira da Silva".

depois. forma imprescindível de legitimação do poder e de incorporação desses diferentes estoques étnicos e culturais que aqui se confrontam e aos poucos se fundem. evi- denciando que era preciso aturdir as almas simples para conquistá-las e elevá-las por meio da imaginação e dos sentidos à grandeza inefável do sagrado. a perfeição do entalhe e da encarnação dos santos. portanto. franciscanos. o teatro. a dança e a poesia haviam se integrado ao arsenal catequético. com outros meios e em outras bases. a fome e a guerra. que o Barroco realiza plenamente sua magia aglutinadora. evento em que "um ideal moral. entre a vida comum e a arte". como os indígenas. O portador que levou foi o Padre São Francisco. cujo etos barroco aqui se reinventa.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . o canto. quando conduzidas nos palanquins das pro- cissões. o canto e a oratória do sermão se encarregarão de produzir essa atmosfera mágica em que as verdades da fé impreg- nam a alma pelos cinco sentidos. nem a lembrança histórica dos tempos heróicos de reconquista da Europa cristã ao domínio do mouro. interpolada. pondo a arte a serviço da fé. é também o que escande no plano do sagrado a vida pública por meio da festa."94 Como um condensado cultural. são exemplos dessas devoções. como indica um bendito ainda hoje cantado na região do São Francisco: Santa Madalena escreveu a Jesus Cristo. índice privilegiado de mentalidade. Firmemente entranhadas na sensibilidade dos primeiros colonizadores. Tudo o que nela se manifesta aponta para o invi- sível. com seu favinho de mel. É nas festas e celebrações. o imponderável.96 tornando-se.95 a festa barroca pode assim ser lida como um texto no qual a sociedade fala sobre si mesma por meio da ritualização dos valores que impregnam em profundidade o cotidiano de seus membros. o impalpável.93 Desde os primeiros tempos jesuíticos. o catolicismo brasileiro traz a marca desse etos festivo. Assim. Veio fazer a papinha para Divino Manuel. são Jorge guerreiro.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 71 Mais ainda. o esplendor do ouro que reluz em seus ornamentos e se alia à prata para dar aos objetos litúrgicos uma luz própria. religioso e poético ganha expressão estética. num Brasil em formação.91 Mas esse catolicismo. logo dos beneditinos. desde os tempos coloniais. as devoções tradicionais do Reino desembarcam no Brasil já com os jesuítas e logo se transplantam para as celebrações nos aldeamentos indígenas. aparentemente incapazes. A heresia não é apenas a refe- rência mítica dos primeiros tempos do cristianismo em luta contra os pagãos sob o Império romano. a organização corpo- rativa dos ofícios ou das devoções e a lassidão que a natureza dos trópicos e o convívio com índios e negros escravos propiciam. tudo dá lugar à celebração. Sua lógica é dinâmica. carmelitas e mercedários. Nada nela é estável. "A arte barroca tem que ser vista com os olhos da alma. dos jesuítas primeiro. a música. para depois ganhar os povoados. portanto. confrontados com a inconstância da alma dos selvagens da terra92 e. assumindo seu misterioso esplendor. o espírito da Contra-Reforma logo se encarregará de recriar aqui. na distância da metrópole. As imagens nos templos se movem. O anjo Custódio. os santos eles próprios são figuras próximas. mas o amargo pão cotidiano com que a duras penas se alimenta a fé nas ordens religiosas. que se misturam com tranquila familiaridade à intimidade da casa e aos afazeres domésticos cotidianos. a música. a forma de construção dos templos. cuja imagem a cavalo é acompanhada por guarnições militares nas procissões. de norte a sul. controlando as perspectivas e presidindo as praças.97 Na verdade. Nele. com a "boçalidade" dos negros trazidos da costa africana. Mais tarde. Então toda a cidade se move. luz e sombra e manipula a orien- tação urbana monopolizando os relevos. o santo Antônio das mil invocações de Vieira. o fausto europeu da "sociedade do espetáculo" e o etos barroco de sua cultura. de entender os mistérios da fé cristã. são Sebastião que nos defende contra a peste. Lá vem Santa Catarina. A arquitetura monumental das igrejas altera as percepções convencionais de espaço. protetor do Reino. vilarejos e vilas que aos poucos irão se esten- dendo pelas capitanias. em meio à névoa perfumada do incenso. a profusão decorativa de suas talhas.98 Ao .

que chamaríamos civis. ou então. que separa brancos. já que lhes rege o destino. Corpus Christi ou os santos padroeiros —. compulsória — as- sim como a de algumas festas religiosas consideradas oficiais. negros ou pardos.MÓ D ULO IV 72 lado delas. No entanto. a Semana Santa. são Francis- co ou as diversas invocações da Virgem. do casamento de um príncipe ao nascimento de um herdeiro da Coroa. Estas se distinguem segundo a categoria social dos que delas fazem parte e sua condição étnica. a festa de Reis. com o qual faz coincidir a comemoração do Natal.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . quer delas façam parte homens brancos. à inclinação de sua balança onde se contrapõem o peso das virtudes e o dos pecados. para os pardos. mouros a princípio. negros e pardos. convertidas em festas em louvor a santo Antônio. da morte de um monarca à aclamação do seu sucessor. encarregados de velar pelos membros das distintas corporações de ofícios. que faria multiplicar o esplendor da arte barroca por todo o território conquistado à brenha da selva pelos paulistas até o século XVIII. o caminho de glória ou de purgação a ser dado ao homem após sua morte. o Senhor da Cruz ou são Gonçalo. são João e são Pedro. santo Elesbão. irmandades e ordens terceiras compartilham um mesmo empenho: fazer construir e ornar suas igrejas com a máxima riqueza e reunir o melhor de seus recursos para o lustre de suas festas. Logo será a festa do Divino Espírito Santo. cívicas. a soleníssima celebração da transubstanciação do Corpo de Deus. na execução da tarefa comum. É esse código partilhado do prestí- gio e da fé que transforma a competição em que todas elas se engajam. a elas dão ensejo eventos significativos que envolvem a família real e a monarquia. decidindo. enquanto estes se agrupam sob a invocação de são Benedito. as celebrações maiores são as que se desdobram ao longo do calendário litúrgico. por ocasião do julgamento dos inconfidentes e a execução de Tiradentes. mecânicos e liberais. tempo de ganância. tem lugar nas vilas de todas as províncias. E ainda na mesma chave se registram os festejos em ação de graças por ver-se livre a nação dos mais diversos perigos — a doença do rei ou a seca. e sobretudo Corpus Christi. celebração da abundância bem mais próxima de antigas tradições pagãs e que o cristianismo integra ao calendário litúrgico para neutralizar o poder de permanência da crença herética. irmandades e ordens ter- ceiras. Não por acaso. dando lugar ao cortejo que se desenrola por ruas esparzidas com ervas odoríficas e cuja passagem é saudada pelo povo das janelas recobertas por finos damascos e brocados. e logo também pelas associações leigas que se integram à Igreja nas confrarias. com seus ritos mágicos. entronizados ao sabor do calendário de descobertas ou fixação da gente cristã no imenso território. são José. . a sociedade colonial brasileira vive com intenso esplendor também um outro tipo de festividades. em motivo de um extraordinário surto de criação. celebram-se com grandes festividades também os santos padroeiros. e no qual a salvação do pecador é muitas vezes barganhada ao peso do ouro do pecado. com sua liturgia solene e suas procissões. colocados aqueles sob a proteção do Santíssimo Sacramento. como o anjo Custódio. com o mesmo fervor e idêntica finalidade.101 Entretanto. entre a dor da morte do Cristo e o júbilo de sua ressurreição. as confrarias. num outro registro.100 Contudo. a fome e a peste em meio ao povo. indissociável da devoção às Almas. são Miguel Arcanjo. como ainda se veria no Brasil em 1792. e logo espanhóis. como faz também com as celebrações do solstício de verão e das colheitas. em troca das missas perpétuas que a Irmandade de São Miguel e Almas se compromete a mandar rezar pelo espírito desgarrado. entre fogueiras e fogos de artifício. essa é uma devoção que cresce no ciclo do ouro. quando por tradição se coroa um rei negro e de que o Rei de Congo se tornaria o exemplo mais ca- racterístico. O Senhor do Bonfim e Nossa Senhora da Boa Morte são também invocados. ou. cobiça e dos muitos crimes que se praticam em seu nome. santa Ifigênia.99 Juntamente com estes. passando também pela celebração das vitórias do reino sobre os inimigos. e cuja celebração. por ordem do Senado da Câmara. ou o solstício de inverno. com seu cortejo de folguedos. celebra- dos no Rio de Janeiro e nas principais vilas de Minas com te deum e encenações de teatro em praça pública. nas guerras da Reconquista. talvez. a Senhora do Rosário. bem como os santos patronos. bem como os crimes políticos e a sedição. Associa- das aos ritos mundanos do poder temporal.

como demonstração de júbilo por se acharem seus habitantes "livres do contágio" do projeto sedicioso. ganha uma projeção pública nos eventos festivos.103 Também no Ocidente. quer de um casamento real. fórmula que não só serviu de modelo à sacralização do poder real nos albores do absolutismo. a honra dos dignitários de Deus e a grandeza dos homens. o fervor íntimo da devoção e a mais pura ex- pansão da alegria festiva. desde os tempos medievais. às vezes mesmo declamações poéticas. na parte mais "profana" da celebração. Por isso. envolvendo em tabus e ritualizando ao extremo tudo o que cerca o governante ou lhe diz respeito. que ordena em um mesmo eixo de homologias o espiritual e o temporal.e comportando as maiores festas. no dizer de Thomas Hobbes. constitui a mediação essencial entre o público e o privado. que. As celebrações da vida privada dos grandes da terra. a natureza e a ordem social.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . já que nele literalmente se exibe a ordem social que ganha forma visível.107 Missas. sejam eles ligados a uma irmandade religiosa ou ao Senado da Câmara. um "homem artificial" que tem como cabeça o monarca. bandeiras — tão cruciais em períodos de liminari- dade. sendo a hierarquia social e de poder parte de uma ordem natural. e logo. Quer se trate de uma celebração devota. política. sacralizadas. Depois. exceto pela humana falha no uso do arbítrio. tudo se concluindo às vezes com banquetes que oferecem uns aos outros as autoridades de governo ou eclesiásticas e os poderosos locais. quase sempre. em meio aos andores e carros alegóricos graças aos quais a procissão constrói em linguagem estética uma narrativa sobre as verdades da fé. "más- caras". afixado em lugares públicos e depois feito de viva voz por personagens de fantasia. a organização privada da devoção. como escreve o narrador do Triunfo eucharistico em 1734. a posição que cada um ocupa no cortejo é sempre motivo de disputas. atendendo ao costume devoto ou à injunção do poder. e que permitiria à monarquia triunfante aprender a proclamar.106 "dilatar(ão) o império do dia sobre as trevas da noite". Há muito o estudo das sociedades ditas "primitivas" nos ensinou a compreender o fundamento sagrado dessas formas de poder que suspendem a uma ordem cósmica os mínimos atos do seu exercício. Assim se compreende que.104 como também inspirou a realeza a compreensão do valor das entradas festivas ou do uso espetacular das insígnias — efígies. de "comédias" ou "operas". ricamente trajados.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 73 ou sessões literárias no Senado da Câmara. na irmandade religiosa ou por intermédio da corporação de ofício. adquirem imediatamente significação pública. pela gravidade da com- postura ou as brincadeiras que fazem ao longo das ruas. numa atmosfera de ensuenõ. não há. a ordem sobrenatural. Na concepção política do tempo. em ocasiões como o passamento de um monarca: "Le Roi est mort! Vive le Roi!". o programa festivo extenso. é sempre o mesmo. às vezes se prolongando por todo um mês. nas celebrações a que dá lugar esse tipo de religiosidade. às vezes a cavalo. sob pena de ver desencadear-se uma série irrefreável de calamidades. "espetáculo de touros" ou "cavalhadas". graças à teoria dos "Dois Corpos do Rei". e que assombram ou divertem a todos.105 A festa se anuncia por meio de pregão. religiosos ou . Conversamente. distância entre a vontade divina e o funcionamento do corpo político. permitindo ler através desses lugares a hierarquia de prestígio e poder na sociedade. serão providenciadas "luminárias" por várias noites consecutivas.108 Seguir-se-á também um espetáculo de fogos de artifício. cantos e danças. se aprendera nas celebrações de Corpus Christi o valor da exibição simbólica espetacular dos mistérios da fé nas procissões e nas festas. sendo o cortejo mais ou menos solene ou espetacular segundo a ocasião. apresentações de teatro. estandartes. não se possam distin- guir com precisão as fronteiras entre o sagrado e o profano. acompanhados de "serenatas" noturnas. e que fazem da política teatro e espetáculo. sustentada por uma cosmologia arcaica.102 Nem espanta que um tão amplo rol de celebrações se incluísse entre as festas civis. graças à cosmologia arcaica em que se inscreve."109 O que importa assinalar com relação a esse etos festivo do catolicismo colonial é que ele evidencia que a religião. te deum e procissões estarão invariavelmente no centro das celebrações. música.

sendo espaço de exibição de riqueza e de disputa de prestígio e poder na vida social. fragmentários e no entanto disponí- veis. arcos de triunfo. no final do século. para que aos poucos se desarticulasse esse complexo cultural que se condensa na festa e que se desagrega juntamente com as formas materiais que lhe dão sustentação. Assim. ainda ao longo de todo o Império. do poder de Deus ou da realeza. as elites e a grossa massa do povo. nas fronteiras entre o público e o privado. as bases do catolicismo popular. seguiriam se acentuando de forma contínua. em face da ofensiva de romanização do catolicismo já então em curso. porque a festa.MÓ D ULO IV 74 civis. disjecta membra. se destinava a pedagogia da festa —. para não ver mais que a contrafação degradada do folclore. o indígena e o africano. que causa- vam espanto e horror aos viajantes. nenhum país vive impunemente sob o império da união do poder espiritual e temporal. e o baile da Ilha Fiscal encontraria. nesse catolicismo. ou aquém. Essas são. inclusive. a antiga glória da festa iria permanecer como memória ou forma viva apenas entre os segmentos populares — estes mesmos a quem. mesmo — e talvez. Entre- tanto. essas associações. 110 Na realidade. sob o governo do monarca ilustrado d. essencialmente estética. ainda. Só aos poucos. a forma erudita da cultura e sua difusão de massa. costumava aturdir as almas simples para convencê-las das verdades da fé ou da legitimidade da hierarquia das posições sociais neste mundo. a entender a forma da cultura. o local e o universal. o público e o privado. autorizados a festejar com o rei o fausto e o esplendor daquele que seria o último ato da monarquia. a contrapartida das congadas dançadas pelos negros. uma astúcia opera. Graças a ela fora possível unir numa mesma totalidade de sentido de pertencimento o colonizador e o colonizado. como aqueles construídos para as procissões de Corpus Christi. abandonada pelas elites e pelo poder eclesiástico. as marcas do catolicismo barroco que assim se deixavam ainda entrever. para além do tempo da história européia em que se convencionou fixar a vigência do barroco como estilo de arte e visão de mundo. O que é extraordinário nesse catolicismo barroco que embebe a sociedade e a cultura brasileiras em sua formação é o quanto ele é capaz de permanecer como modelo hegemônico de cultura e princípio de legiti- mação da ordem social. contu- do. por quatro séculos.112 e que . no mundo colonial.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . tendo por mediação fundamental esta forma por excelência sensível. com todas as ambivalências e ressignificações que esse processo comporta. que trazem consigo o projeto de independência política e outro mo- delo de cultura para as elites. no entanto. com o fim da organização corporativa dos ofícios e a decadência das irmandades.111 passariam a ser vistas com estranheza também pelas elites locais e. sobretudo — durante o Segundo Reinado. que viria a ser chamado de "tradicional". desde o fim do Império e através da República. sempre se recusara a separar o sagrado e o profano. prontos a se agregar a outras celebrações. da inexorável lógica do "mercado dos bens de salvação". sensual. Por outro lado. o senhor e o escravo. Em pleno século XIX. de Igreja e Estado. continuam a enfeitar as ruas do Rio de Janeiro por oca- sião de solenidades presididas por d. para além. que dá continuidade profunda a estruturas de significação onde se inscreve a marca da religião. entre os quais desaprenderíamos. Seria preciso esperar pelos novos ventos da modernidade. sem que isso deixe na sociedade e na cultura marcas indeléveis. escasseando cada vez mais os eventos festivos que permitiam reunir num mesmo todo aquela variegada multiplicidade de elementos. Pedro II se manteria a tradição das celebrações festivas da realeza. das "entradas festivas" com que o espe- táculo do sagrado. evidenciavam que ele fora capaz de sobreviver precisamente por sua capacidade de soldar num mesmo todo o alto e o baixo. João VI. na inevitável transformação que lhes impõem a dinâmica da cultura e o processo de mudança social que. nas ruas. o europeu. representada pela festa. Na longa duração da história. com a Missão Artística francesa que chega ao Brasil em 1818. estes permaneceriam. de transmissão de um etos e de uma visão de mundo. das vicissitudes das instituições que as moldaram originalmente. rememoração. afirmando sua per- manência. e talvez.

118 A adequação. com seu espírito elitista de então.] Uma religião que apenas se reduz a exterioridades e aparências. a moderação e o recato. a Senhora do Rosário e a Aparecida. tal como o cortejo processional que o desfile das escolas de samba recria. assim como para o controle da perturbação da ordem à qual inevitavelmente conduziria qualquer excesso nesse sentido. cardeais e arcebispos. Renovamos a proibição de desfilarem nas procissões meninos e meninas. Considerado forma de exteriorização "vazia" da fé. em pleno século XX. só poderiam mesmo levar sua hierarquia a ver com horror e assim procurar enquadrar as manifestações do catolicismo popular. imitando determinados santos e santas. estejam conveniente- mente vestidas e convenientemente preparadas para servir de edificação dos fiéis. fornecer repertório adequado. cientificar os fiéis dessas nossas determina- ções.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . mês de Maria.116 e que continuarão.. tão ao gosto da sociedade burguesa ao qual.113 São suas marcas que se vêem nesses maracatus que. se deslocam agora. verberado tão severamente por Jesus. não é senão farisaísmo redivivo. que a Igreja.114 bem como nessas congadas e moçambiques que ainda celebram são Benedito. Sobre as procissões: "De mais a mais é necessário que se compreenda que a religião não consiste em passeatas. nas comemorações juninas. volta decididamente as costas. será mesmo as- sim? —. É para esse catolicismo do devocionário popular. o cardeal Câmara prosseguiria no mesmo tom: Toleramos nas procissões as bandas de música. nos pastoris e bumba-meu-boi dos autos de Natal. ao Juazeiro do Padre Cícero. levando-os a mudar para tornar mais esclarecido o testemunho de sua devoção e de suas promessas. no projeto para o I Sínodo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 75 se expressa nas folias de Reis ou do Divino. Ouçamos o que dizem a seu respeito os senhores bispos. nas festas dos santos padroeiros. no entanto. tolerando-se apenas os chamados "anjos" desde que se trate de crianças menores de 12 anos. nessas devoções de maio. Confiamos aos párocos e reitores de Igrejas. contanto que só toquem de quando em quando. princi- palmente da liberalidade sexual. o controle da moralidade.. quando comunidades negras ainda coroam seus reis de Congo. acompanhadas de ruidoso foguetório e de luzes artificiais. A modéstia das roupas e dos modos. eram considerados essenciais para a expressão da verdadeira fé. na celebração do antigo poder de são Sebastião ainda invoca- do contra a peste. ao término da V Conferência Episcopal realizada em Luz em 1941. cujos membros poderão. para o Carnaval. mediante avisos oportunos. expressão da ignorância do povo ou obra de perversão e maldade. Velem os responsáveis pelas procissões para que as peças tocadas por bandas obedeçam às determinações da Comis- são de Música Sacra. a conveniência. nessas procissões e romarias a santuários que se espalham do Bom Jesus da Lapa e dos Perdões ao de Pirapora. a pastoral coletiva do episcopado da província eclesiástica de Belo Horizonte declararia: . a fome e a guerra que continuam a perseguir como ameaça constante a existência dos pobres. inteiramente "profanos" — todavia. Assim. É preciso que se saiba que é uma acerba ironia e uma sacrílega irrisão querer coroar uma festa religiosa com baile e outros diver- timentos profanos e perigosos.117 Mesmo em 1949. nosso Rei". a ele o clero livra um combate sem tréguas ao longo das déca- das de 30 e 40. que chamam de procissões.115 nessas ladainhas em latim que os velhos rezadores ainda são capazes de recitar. se amolda a Igreja cató1ica. inclusive.onde o homenageado é sempre e somente o demônio [. sob o império da romanização. permitindo assim ao clero e ao povo cantar ou rezar orações adequadas.. tão diametralmente opostas aos desígnios da romanização. que só alimenta os sentidos sem penetrar a alma.

assim como os meios impróprios para obter recursos para as despesas. para melhor firmar o poder da hierarquia eclesiástica e. em franco desacordo com os propósitos da Igreja. se "envergonha" de seu país e de sua cultura. Toda esta encamisada era precedida de Huma de- . ou cassa bran- ca. quase duas décadas mais tarde. ou ainda. e no encerramento. que em índios do século passado. diante de estrangeiros verdadeiros. produzir uma interiorização intimista da fé. Devem ser evitadas novas devoções não aprovadas. Assim. uma das formas mais antigas de devoção popular. e turba ingleza. num âmbito privado e familiar de devoção. por exemplo. mas vestidos de saccos.121 Todo esse posicionamento do clero trai o olhar estrangeiro da hierarquia que. proibi- mos jogos e danças. em seus diversos níveis de condenação.MÓ D ULO IV 76 Quanto à celebração do mês de Maria.] Haja. e pés descalsos. Eis o que descreve o observador: Quase duzentos rapazes de nove e dezasseis annos com cabeça. a Igreja católica faz eco. já alli es- tabelecida". em 1806. uma procissão de meninos penitentes. a saber: determinamos que na celebração do mês de Maria atenda-se mais à piedade que às pompas exteriores. por meninas que não tenham mais de sete anos [.. as danças e as abundantes refeições servidas a todos os presentes. aos quais injuriam os falsos devotos com os muitos escândalos dados nessas ocasiões". o público e o privado. reminiscência da atuação das irmandades e do espírito festivo do catolicismo barro- co evidenciada nesses grupos devotos que saíam em cantoria de porta em porta levando o estandarte do santo e cuja presença nas casas dos fiéis era considerada uma verdadeira bênção. reforma dos templos. Assim. a um outro olhar mais antigo. e determinamos que sempre haja prestação de contas por parte dos festeiros".. a servir de modelo inclusive para organizações sociais mais amplas. ignora o catolicismo popular ou francamente abomina a indefinição de fronteiras entre o sagrado e o profano. como os Círculos Operários. que desejaria ver esse dinheiro melhor empregado servindo à compra de material do culto. em 1941: "Nas festas religiosas de acordo com o Concílio Plenário Brasileiro. com oferta de esmolas ou de velas. entre os quais os sorteios de dinheiro e o peditório pelas roças com bandeiras e cantorias (folias). eliminando-se as ornamentações mundanas e as iluminações perigosas. Destinavam-se a angariar esmolas para a festa. já em moldes burgueses. ou trinta figuras allegoricas. com rito próprio de crianças. que deveriam custear as bandas de música. o uso do padrinho.120 No mesmo sentido. em conferência realizada em Montes Claros com seus bispos sufragâneos. desfilavaõ em duas compassadas alas: em distancias medidas hiaõ no centro vinte. devem ser evitados os atos muito demorados ou feitos com precipitação e sem aquela gravidade própria da casa de Deus. ou homens vestidos com os simbolos de todas as virtudes christans. na consagração das crianças. ainda na década de 20. sustento do clero e das vocações sacerdotais. Proibimos igualmente os esbanjamentos das esmolas dos fiéis em banquetes e bebidas. a pretexto muitas vezes de honrar os santos. os foguetes.119 Mas o principal inimigo da hierarquia católica seria mesmo a folia dos santos. porém todo o cuidado em evitar os exageros e tudo o que poderia causar má impressão e prejudicar a santidade de que se deve revestir o culto religioso. e devendo a coroação de Nossa Senhora ser feita apenas aos domingos. ao mesmo tempo. das conferências de Juiz de Fora. imagens ou associações religiosas. dias santos. que se expressa no espírito festivo que lhe é próprio. o arcebispo de Diamantina determinaria: "Continuem os sacerdotes no tra- balho de supressão do maldito passatempo de folias. estrangeiro voluntário este. ao testemunhar.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . a V Conferência Episcopal dos bispos da província eclesiástica de Belo Horizonte continuaria a insistir. organizada pelos mulatos de Olinda "para edificar e mover a compunção do povo de Recife. Deve ser evitada a multiplicação desnecessária de altares. assim como a admissão de adultos ao ato da consagração a Nossa Senhora. está inteiramente em vigor a nossa resolução nº 21. entre as quais a da visita domiciliar de Nossa Senhora ou outros santos. Interessada em delimitar com rigor essas fronteiras. sob a política de romani- zação.

a Igreja. nos quais o catolicismo tradicional sempre vira os símbolos de sua fé. mais lubrico. a clientela popular por ele abandonada. adeante da qual marchava um medonho espectro. o catolicismo se recusaria a reconhecer a dimensão coletiva da celebração pública e festiva da devoção popular. aqui se desafiava com o espectro da morte. fundada. e ignominiosos movimentos!122 Assim. Ora as graves e figuradas virtudes. pa- radoxalmente ao abraçar a "opção preferencial pelos pobres". nessa religiosidade popular. mais deshonesto se ostentaria nos seos detestaveis.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . e innocentes donzellas nas rotulas de suas casas terreas.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 77 vota Crus. ora a glebe expectadora. agora. na longa duração. sob a forma do Demonio. figurando a morte. os pequenos altares com as imagens do Cristo. Com sua força integrativa. em seu esforço de modernização. Por fim nas ruas mais solemnes. Em outras palavras. no discurso profético da Teologia da Libertação. substituído o órgão pelo violão. cortando transversal- mente a história. ainda uma vez progressivamente se afastaria do povo. contraditoriamente perpassada pela negação e a atração. e os cantos devotos que falavam de um Deus distante. ou ao insistir na formação da consciência e do caráter por meio da educação. que ele todavia condena. outros sistemas de crenças e práticas rituais. para uma fé internalizada. tudo sem exceiçaõ era acometido pelo tal Diabo. a fusão e a repulsa. Era isso o que. a festa traía uma pe- rigosa zona de liminaridade. pronto a ouvir e consolar as aflições dos homens. a partir da década de 60. sempre foram os meios pelos quais as grandes massas do povo. permitindo que por meio delas se integrassem segmentos étnicos distintos à sociedade e à cultura brasileira em processo de formação. com a emergência de outras religiões que disputariam com o catolicismo. Perderia. a Virgem e os santos do altar. Depois. ao desritualizar suas práticas litúrgicas. Aban- donado o latim e os solenes responsórios do canto gregoriano. ela o faz de certo modo voltar as costas para o Cristo. o qual dançando continuamente o deshonestissimo — Lundum — com todas as mudanças da mais lubrica torpeza. eram já — ou pareceriam ser — ininteligíveis a uma elite branca que não se reconhecia ou não queria reconhecer-se nessa imagem de si projetada pela devoção marcada pela inconfundível presença do negro. o encanto solene de sua liturgia. Entretanto. e dançavaõ a competencia do qual mais torpe. Graças a ela. talvez se possa dizer que é a partir das décadas de 30 e 40 que o catolicismo progressivamente se protestantiza. acometia com — mingadas — a todos indistinctamente. ao se voltar. se tornava preciso eliminar. ora os individuos penitentes. De fato. o esplendor de suas procissões e a alegria de suas festas que. ainda. o público e o privado. no entanto em uma fé intimista e próxima. Sobressahia a toda esta penitente chusma um duendo. Fazendo o sacerdote voltar-se de frente para o público dos fiéis. com a veemência do horror. para que a civilização triunfasse e a Igreja pudesse firmar em outras bases o poder da fé. ou hum Diabo em carne. a sedução e o horror. este seria também o caminho para a progressiva perda de hegemonia do catolicismo e a abertura do mercado dos bens de salvação. com arqueada e longa fouse na maõ esquerda e ferós matraca na direita. desde a década de 30. definindo com precisão as fronteiras entre o sagrado e o profano. integrar-se ao etos cató1ico dominante e nele dissimular ou fundir outras visões de mundo. em cuja ambiguidade mesma as culturas afro-ameríndias haviam podido ao mesmo tempo transformar-se e resistir. as formas simbólicas que laboriosamente haviam sido introjetadas por culturas africanas e indígenas. enquanto o crescimento do protestantismo a partir da expansão das igrejas pentecostais entre os setores populares se dá ao preço de sua catolização ou sua pro- gressiva incorporação ao universo da macumbaria. mas familiar e acolhedor. inteiramente concentrada na dimen- são individualista e familiar das práticas devocionais. ora as molheres. e que o catolicismo tradicional foi capaz de conservar. o catolicismo perderia a antiga magia da fé tradicional que lhe proporcionavam suas celebrações revestidas de pompa. bem ou . da Virgem e dos santos sempre foram uma presença constante em todos os lares. para o novo catoli- cismo romanizado e as "elites modernizadoras". firmemente enraizada no cotidiano. mas dentro de seus próprios referenciais. apesar do esforço de elitização da Igreja por parte de sua hierarquia. pelas novas canções militantes que convocam cada um à luta para que o Reino de Deus se realize na história. e deante das Gallarias mais povoadas de senhoras.

de um modo geral. ou a organização de grandes cortejos festivos para conduzir os fiéis a esses lugares. a Bíblia sempre carregada orgulhosamente na mão e a recusa de ter em casa aparelhos de televisão ou participar de festas onde o canto. o protestantismo se ca- toliciza. "trocar fitas" com o estandar- te. que uma enorme profusão colorida de finas tiras de pano já enfeita. Entretanto. procu- rando afastá-los das devoções tradicionais do catolicismo popular. Sem dúvida. Na década de 50. é no plano da teologia que essas igrejas se aproximam de forma mais direta.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . o catolicismo se protestantiza. e de controle estrito da moralidade. apenas algumas vezes invertendo o seu significado. retirando alguma já pendurada no topo do pendão. não estariam longe dos ideais de modéstia e decoro que. antes de ser recortada em pequenos pedaços posteriormente entregues aos fiéis. saias compridas das mulheres — ou os hábitos peculiares com que geralmente se identificam os chamados "crentes". se faz apelo à consciência do indivíduo. permanecendo com uma ponta atada ao lugar central onde se desenvolve o culto. embora nem sempre claramente visível. depois. e em primeiro lugar do . a dança e a bebida podem incitar à depravação dos costumes. Por exemplo. podese pensar. fundando uma ética de recusa do mundo. Mais ainda. o protestantismo. se aproxi- maria de outra forma do catolicismo e. que sempre podiam descambar para a temida "desordem". assim como o domínio do espaço pela presença de seus templos em lugares públicos de grande visibilidade. que. a ênfase que as igrejas pentecostais "neoclássicas". que tanta significação tem para a vida pessoal do convertido. em seguida. sobretudo graças às igrejas neopentecostais. porém — de seus fiéis. há aqui uma clara reminiscência da benção do Divino reverencialmente solicitada pelos fiéis católicos na cerimônia de beijar a sua bandeira. porém. É nesse movimento de procurar produzir de si a imagem de uma religião internalizada na qual. mas inverso. que no ano seguinte poderá ser retirada da bandeira por outro fiel e guardada como relíquia. não seria difícil dizer que. que todavia aproxima esse "novo" protestantismo da antiga experiência do catolicismo tradicional na organização das grandes festas públicas de devoção. realizadas coletivamente em ginásios de esporte. nas agruras cotidianas com que se defronta a existência humana. Simetricamente. a exemplo do que tem feito a Igreja Universal do Reino de Deus. como a bandeira do Divino. a ser usada depois em circuns- tâncias especiais de grande aflição. de efeito mágico-protetor. faz o contorno de todo o semicírculo.MÓ D ULO IV 78 mal. com seu séquito ambíguo de excessos na devoção e na celebração. Já nas décadas seguintes. dos dogmas de outras tradições religiosas populares. pela pura e simples incorporação de algumas de suas práticas rituais. representam um inves- timento não habitual do protestantismo "clássico". de maneira tipicamente burguesa. de maneira a cobrir sucessivamente todas as cabeças. se cristianizaram. ao lado das concentrações de massa em estádios de futebol e praças abertas. As vestimentas características — terno escuro e gravata dos homens. apenas realiza. com o rigor clássico do protestantismo. a celebração de Pentecostes é claramente associada aos ritos tradicionais das festas do Espírito Santo quando. cobrindo com ela a cabeça por um instante para. num processo paralelo. o sonho de conversão moral das consciências que a Igreja católica pregava aos seus fiéis nas décadas de 30 e 40. é estendida em todo o comprimento do templo por sobre a cabeça dos fiéis e. das religiosidades populares. ou reinterpretaram a fé católica na lógica de outras cosmologias afro-ameríndias. em uma celebração litúrgica da Igreja Universal realizada em um anfiteatro. ou do "pentecostalismo de conversão". a Igreja católica exigia pouco antes — sem sucesso. no interior da religiosidade barroca do mundo colonial. e recolocando em seu lugar uma outra fita. dão a um compromisso individual com a fé. como os longos cabelos soltos ou atados em coque exibidos pelas mulheres. com fundamento em uma análise racional e científica do mundo.123 na zona de ambiguidade que o recurso às formas sensíveis e ao jogo da imaginação sempre lhes permitira realizar. as grandes cerimônias de batismo por imersão. como o império do mal. ainda que para engajá-lo na recriação dos rumos da história. uma imensa e larga tira de pano vermelho.

engajando-os na senda do pecado. no entanto. sob todas as suas invocações possíveis. a pobreza. o impacto dessa operação não deixa de ser extraordinário. ou o sentimento de culpa por ser cúmplice na ação do Mal. cujos bons frutos eram vistos como prova da eleição. se desenrolam como sessões de exorcismo. Como Rei e Senhor. A mediação do trabalho desapareceu. Não por acaso. terem também assegurada a salvação na vida eterna. a doença. mediante o simples ato da conversão. se certificavam de serem objeto de Sua graça e. ao reconhecer os homens como seus filhos. o sofrimento. que. ao vivo nos templos ou mostrados pela TV. apesar da incerteza de seus resultados. Os mais inconfessáveis sentimentos. por Deus. tem direito sobre todas as coisas por ele criadas e. Esvaziam-se assim o dilaceramento diante da tentação. a injustiça. os cultos. retirando-se dela.124 a teoria da predestinação sempre se associou à ética do trabalho. a teologia neopentecostal parece distante do catolicismo. o que nem ele ainda sabe precisar ou querer. a dor? É porque tudo isso é obra do Maligno. são reconhecidos como "filhos de Deus". No plano espiritual. nas quais o Mal. e é para combatê-las que o fiel trava incessantemente. Aposta-se na salvação e na graça da prosperidade material. Como há muito nos fez compreender Max Weber. a dúvida quanto ao caminho do Bem a ser trilhado. Senhor do universo. quando melhor considerados os seus termos. aos homens só resta tomar posse do que. e mesmo mais. o Criador. muito mais próxima a doutrina protestante canônica da predestinação. ao democratizar. entre a prosperidade a que o fiel já tem direito desde a sua conversão e sua vida presente interpõem-se as forças do Mal. segundo a qual todos os fiéis. dada a demonização hipostasiada do Mal. Materialmente. os desígnios divinos. que é o da "guerra espiritual". é a "teologia da prosperidade". a miséria. Entretanto. De fato. o dila- ceramento existencial.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . ele deixou de ser o elemento fundamental por meio do qual se conquista a prosperidade. um segundo princípio. porque os tomou sob sua proteção para serem abençoados e terem êxito em seus empreendimentos. é chamado a manifestar-se e dizer seu próprio nome. na astúcia de suas mil faces. ao lhe trazer a vitória. coloca todas as coisas ao dispor deles. sobretudo na Igreja Universal. essa aparência se desfaz. A participação na liturgia dos cultos de sua Igreja é o modo como o fiel trava esses infindáveis combates. Ora. Há. a incansável "guerra espiritual" que. tanto no plano material como no espiritual. dos seus filhos. traduzida na prosperidade forçosa de que todos devem gozar. em que lance maior corresponderá maior recompensa: é dando-se à Igreja e ao seu pastor que se recebe de Deus essa graça que de todo modo já nos foi por Ele garantida. mas sua atenção e presteza no combate a uma força intei- ramente exteriorizada. do que ao poder que o impulsiona a tocar adiante seus empreendimentos. do vício e do desespero. da saúde física ou da paz espiritual como em um jogo. sendo a fé algo mais próximo à "força do pensamento positivo". independentemente de ser diferenciada sua liturgia. que quer perder os homens e assim procura afastá-los de Deus. Para a vida interior dos indivíduos. na doutrina neopentecostal. a perda. a mediação do trabalho também se torna irrelevante. Não são obras que Deus requer de seus filhos. "nascidos de novo" em Cristo. para que possa ser depois escorraçado.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 79 catolicismo. lhe permitirá gozar enfim da prosperidade que Deus já lhe concedeu. desde já. fazendo-os duvidar Dele. complementar a este. para levá-los à per- dição final. porém. mas fazendo a economia da ética protestante do trabalho. por assim dizer. assim. A nova ética que toma o seu lugar tem algo da aposta jansenista de Pascal. ao se converterem. no momento da conversão. eles não são responsáveis. Colocada nesses termos simples. em nome de Deus. Assim. Ora. o primeiro princípio doutrinário em que se fundamenta a prática religiosa das igre- jas neopentecostais. Deus já lhes deu tudo no próprio ato de reconhecê-los como filhos e. assim. que é a sua vitória. os mais profundos temores ou as ações . por que vivem em conflito e enfrentam adversidades. Pois se Deus já deu ao homem tudo aquilo que necessita ou deseja. com o qual o homem enfrenta as adversidades do cotidiano. lhes pertence. exceto por seu descuido. ao terem êxito em seus negócios terrenos. confundindo-os com falsas crenças ou falsas promessas. a teologia neo- pentecostal incorporou o espírito do capitalismo. em todas as frentes. fazendo Deus estender potencialmente a todos os homens Sua graça. por que então nem todos alcançaram ainda a prosperidade. e por cuja ação.

Assim. versão própria. velho conhecido da Igreja católica. Lavado de todo mal e de toda culpa. desde os tempos coloniais. de que elas são uma imagem distorcida e quase caricatural. as elites e mesmo os intelectuais se encarregariam de desqualificá-las em nome da ciência e da civilização. pouco sobrou nesse processo. A teologia protestante foi. o homem de fato renasce. havia muito. ser devidamente "exorcizadas" e submetidas à injunção de não mais vol- tar a atormentar aquele espírito. incorporando todas as figuras do sagrado das religiosidades populares sob a mesma designação comum das múltiplas identidades do Tinhoso. única cosmologia em opera- ção ao longo de todo o rito francamente mágico que é ali executado. porém. na vida íntima do fiel. substituída por esse ecumenismo popular negativo. também se registram casos em que a prática ritual é capaz de produzir um surto psicótico reativo. as entidades do panteão afro-brasileiro são chamadas a incorporar-se no cavalo para.MÓ D ULO IV 80 mais cuidadosamente encobertas — o ódio aos pais ou a um irmão. Em tempos modernos. e põem em ação. na prática neopentecostal. Sob a mesma forma ritual geralmente já conhecida pelo fiel nos ter- reiros de candomblé e de umbanda. como em seguida à confissão e à penitência no catolicismo. se multiplica em miríades de olhos e ouvidos que vêem e não se escandalizam. de ben- zimentos. pajelanças e operações espirituais abortadas. das entidades dos terreiros de candomblé e centros de umbanda. Nisso também os neopentecostais não inovam. os efeitos liberatórios da confissão do inconfessável e da admissão do inadmissível são evidentemente reconhecidos. assim como as técnicas de produção e manipulação do transe das religiões de possessão. a incerteza quanto à identidade sexual. ou às avessas. O que os ritos neopentecostais supõem. de fato. de orixás malévolos e falsos santos. Entretanto. pela graça do Cristo que ele agora reconhece como Senhor e Salvador. A perseguição às crenças religiosas e práticas rituais de origem afro-ameríndia era já um fato sob o catolicismo. de trabalhos da direita ou da esquerda. mas também de outras igrejas neopentecostais. de exus e pomba-giras. Da Bíblia e seus versículos recitados com ardor pelos pastores. e esta nunca fora branca: aqui também a visão católica apenas se reproduz. Se a forma do culto é a do exorcismo. por tanto. o que inquieta são as figuras do sagrado por trás das quais o Maligno revela sua ação. Não por acaso setores dissidentes entre os evangélicos falariam de "versão cristã da macumba" a respeito dessas práticas. No Brasil. que o Diabo tinha cor. produzida nessas igrejas. Os cultos da Igreja Universal. rezas. Se. se povoam de feitiços e macumbarias. acabaria por demonizar as devoções de pobres e negros. o que se exorciza é. além de falsas promessas de pais-de-santo de umbanda e candomblé ou beatos milagreiros que enganam um povo crédulo e ignorante. como vimos. é um profundo conhecimento dessas outras cosmologias que sustentam tais religiosidades. enquanto a Igreja cató1ica. ainda nos anos 40. graças à mídia. A prática é tão comum que já se fala de exus e pomba- -giras específicos aos cultos neopentecostais. porque não se encontram perante algo pelo qual o indivíduo é responsável. das devoções e práticas mágico-rituais do catolicismo ainda conservadas pelos pobres às religiões de ne- gros perseguidos só recentemente apropriadas pelos estratos médios das populações urbanas. mesmo travestidas sob as formas do catolicismo popular. mas apenas diante de mais um espetáculo em que o Maligno revela suas múltiplas faces. Para alguém levado a uma igreja neopentecostal que tenha sido um verdadeiro praticante dos ritos das religi- . uma relação incestuosa ou perversa. sobretudo o conjunto das entidades do panteão afro-ameríndio incorporado às religiosidades populares. depois de "desmascaradas" como figuras demoníacas enviadas por alguém conhecido para fazer um trabalho contra a pessoa. Onde essas igrejas inovam. por exemplo — são proclamados diante de um público que. é na operação de apropriação reversa que fazem das religiões afro- -brasileiras. escutam e não condenam.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . pelo poder de Deus. o que a nova liturgia evangélica realiza é um ecumenismo popular negativo. ou nem tanto.

De tanto serem repisadas. Quando o pesquisador deu início ao seu trabalho de campo nos subúrbios cariocas. nem sabiam como fora se meter naquilo. mas este é quase um heroi civilizador. valores e práticas rituais que por anos se agregaram para compor um etos e uma visão de mundo minimamente coerentes. como é próprio de toda religião. para dar exemplo de respeito às mulheres e às famílias. ao lado de outras mais amplas onde o comércio prospera. Contudo. no embate entre o tráfico e a polícia. com suas fogueiras e sortes. divertimento de todos. cobrando frequência à escola. Coroado. é necessário inventariar também outras formas de incidência sobre a vida privada desses bruscos câmbios de registro religioso na interpretação da experiên- cia de vida a que tem acesso os indivíduos na sociedade brasileira contemporânea pela crescente expansão do mercado dos bens de salvação. Agora. polícia e logo o Exér- cito nas ruas estreitas. conhecido de todos. ou a incursão eventual da polícia. e a imprensa alerta para noticiar o crime mais espetacular que não pode deixar de ocorrer nessa zona próxima à Baixada marcada pela violência. como essas mudanças se expressam na redefinição de fronteiras entre o público e o privado. Naquele tempo se festejavam ainda os santos de junho. as imagens da violência passam a ganhar consistência própria. o cotidiano de Acari se desenrolava com a tranquila pachorra da vida dos subúrbios. para além das imagens. Não é impunemente que se revertem cosmologias. É claro que existira Tonicão. mas era um pouco fraco. a transposição negativa. se deveria ter notado que na outra calçada "fazia mais calor". muitos. e nos efeitos que são assim produzidos para o indivíduo. Um mundo de ruas estreitas e becos. que são os próprios moradores. Vila Esperança e o conjunto habitacional conhecido como Amarelinho — começaria a revelar intrincados meandros de sua realidade social e de seu viver cotidiano. pode ter um efeito de profunda desestruturação psíquica. acostumada ao convívio cotidiano com a luta em que não há herois e vilões. Acari. Tráfico. sobretudo. Sob o signo da violência Rio de Janeiro. nessa zona marcada pela violência.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 81 ões afro-brasileiras. espaço minuciosamente entrecortado por redes de sociabilidade que definem diferentes sentidos de pertencimento a microáreas rivais. na sua vida íntima assim como em sua vida social mais ampla. mais temida e perturbadora que as escaramuças do tráfico. que assusta os moradores da Zona Sul mas nem tanto a gente dos próprios subúrbios. Como saber que. políticos e igrejas. polícia e políticos. diziam. de crenças. num rito de exorcismo. moço bom. "para depois não terem de levar a vida do Tonicão". Os moradores mais antigos se lembravam ainda dos tempos quase heroicos em que desbravavam o lugar a foice e pica- reta. moradores. uma realidade onipresente no imaginário urbano. que não podem deixar de ocorrer numa zona de subúrbio marcada pela violência. tráfico e polícia. e a imprensa sempre à espera da notícia mais sensacional sobre os embates entre a ordem e o crime organizado. governo.126 No entanto.125 Associações de moradores e políticos. tráfico e polícia. derrubando o mato para ali construir um lar para a família. e a imprensa que não poderá deixar de noticiar a morte espetacular do chefe do tráfico. ao atravessar uma rua. porque se havia passado para "o outro lado" controlado por outras regras.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . Moradores e tráfico. como o costume de acender velas ou invocar a proteção do anjo da guarda ou das santas almas num momento de aflição. ou tenha mantido algum tipo de crença nas práticas de um catolicismo tradicional aprendido na infância. É preciso verificar. . são quatro: Parque Acari. o complexo urbano que se esconde sob o nome de uma úni- ca favela — na realidade. Então não havia bandido em Acari. mas só vítimas. só às vezes movimentada pelas correrias dos meninos em choques com grupos rivais. bem perto da Baixada Fluminense. Migrantes. agentes do governo. e se organizava a caipira. assassino que matava quando preciso. e distribuía cadernos às crianças. Jorge Luís estava à frente do tráfico. 1995. organizações não governamentais e igrejas. nas formas de sociabilidade que a partir daí se desen- volvem ou se retraem. dependentes de um outro esquema de poder? Um bicho-de-sete-cabeças.

outro negro. sinais deixados nas perigosas zonas liminares de fronteira. sozinhos ou ao lado da sigla TC. que divide com o Co- mando Vermelho o controle do tráfico na Baixada. mas também. considerada como "time de pobre e de preto". um urubu vestido com uma camisa do Flamengo e as insígnias do time. Ogum guerreiro. símbolos e estranhos desenhos marcavam então os becos e ruas no complexo de Acari. dono do tráfico local. maiores ou me- nores. tendo que participar. pichações diversas. colocando a comunidade e os traficantes sob a proteção comum dos santos católicos e dos orixás. por outro. um empreendimento evangélico dirigido pelo pastor Caio Fábio e que já então desenvolvia um importante trabalho social na região. obviamente em atenção às crianças: "É expressamente proibido jogar futebol ou andar de bicicleta nesta área. usando salmos como rezas bravas. ao lado do Cristo Redentor do Corcovado. inúmeros templos pentecostais.MÓ D ULO IV 82 Como um mapa. a reger o mundo doméstico da família e outro univer- so em que circulava a gente do tráfico. um branco. enquanto justiça divina. Numa parede lateral. na linguagem do tráfico. Xangô justiceiro. sobretudo da Assembléia de Deus. Para explicar sua origem. Aliás. "Mister King". associando-se a fortes imagens de identificação étnica — o urubu da equipe de futebol mais popular do Rio. na enorme favela: 34 ao todo. No Coroado. significativamente. invocando a proteção no combate. Na quadra de areia. Logo abaixo. inscrições. demarcando territórios. muitas havia. pela qual se sabiam nem sempre com razão perseguidos. imagens de Nossa Senhora Aparecida. sob um comando comum. tal como nos vilarejos nordestinos onde se venera a figura do Padre Cícero. uma su- cinta inscrição. dois antebraços. de negros ou mestiços po- bres. vendo-se nitidamente desenhados. ao lado da imagem de Bob Marley e. nem era preciso procurar pelas igrejas. desvalidos e injustiçados. para os que se sabiam em meio à guerra. às vezes ao lado de um salmo da Bíblia. depois rabiscada por cima. distinguindo. afirmando valores e regras de conduta conhecidos e respeitados. Dos terreiros de umbanda. mãos se apertando cerradas: dir-se-ia um conhecido símbolo de poder encontrado nas igrejas católicas. No entanto. da escrava-santa. ao contrário da Fábrica de Esperança localizada às portas de Acari. o estádio e a pas- sarela do samba. sob uma coroa pintada de verde. disfarçada em almofada ou saco de batatas. distinguindo espaços proibidos e permitidos. o sambódro- mo e o Maracanã. a modo de escrita em código cifrado. a defendê-los da justiça dos homens. mas. imagens de são Jorge e da escrava Anastácia. mas tampouco tinham grande visibilidade. por lado. Ladeando a figura. mais uma vez são Jorge. numa dupla construção identitária contrastiva. imagens pintadas de são Jorge. aqueles símbolos retomavam o elemen- to mágico comum às devoções do espontâneo ecumenismo popular.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . além de indicar a unidade da favela do Coroado e de Parque Acari. Também por toda parte. numa linguagem sim- bólica por todos partilhada. fechadas a maior parte da semana ou reduzidas às atividades do centro comunitário. valendo em sua linguagem forte por um fechamento de corpo. mas também para as reuniões mais importantes da comunidade. perto do Cruzeiro. sabia-se que muitos os frequentavam. Por toda parte. da luta comum pela sobrevivência. comum nessas favelas da região. uma bela paisagem de cartão-postal da baía de Guanabara. cada um a seu modo. o baile funk. Num beco levando ao coração da boca-de-fumo. Anastácia — aqueles símbolos falavam de um sentido de pertencimento comum a todos os membros da comunidade. e a justiça como linha divisória. o santo guerreiro e o sábio rei da justiça. se não se soubesse que significam também o pó branco e a folha negra. próximo a um desenho de Bob Marley quase flutuando por sobre uma folha de Can- nabis sativa. quatro católicas. Os responsáveis serão severamente punidos”. além do nome do "doador" da pintura — um deputado federal. afirmando também a integração de uns e outros numa mesma condição. certo ou errado. os traficantes e as famílias. uma inscrição. os triângulos. zona de lazer para o joguinho de futebol. de são Jorge e de são Jerônimo. Por outro lado. pontuada pelas figuras do sagrado que assim inscrevia suas marcas no cotidiano dos moradores da favela. marca do Terceiro Comando. . ao lado de uma foto de Tonicão. indicando o Reizinho.127 Toda uma ética se explicitava ali. Num pequeno nicho. pintados em verde. a separá-los da comunidade. No Amarelinho.

É certo que a "zona neutra" que separa Vigário Geral de Parada de Lucas era ainda chamada de Paralelo 38. ali já estavam em funcionamento um centro de saúde. continuavam a ter lugar os bailes funk no fim de semana. como amigos. A entrada da favela. por intermédio do pastor Caio Fábio. sabiam. uma biblioteca onde escritores de renome vinham dar palestras às crianças. No entanto. Na feitura-de-santo. era a vez de os meninos produzirem a festa. se reconheceria uma atmosfera em nada distinta desta dos subúrbios cariocas. são Lázaro e Ogum guerreiro são Jorge velavam por Vigário Geral. e que as escadarias que dão acesso à favela. cursos de arte e de computação. graças à organização Méde- cins sans frontières. os esperava. quando. à porta de um bar ou dentro de casa. Cosme e Damião. a propósito de uma rixa entre as diferentes gangues do tráfico que dominam áreas vizinhas. Na sexta-feira. às vezes um bolo de notas. a féria do dia ou da semana. mas que conseguira. sendo sumariamente eliminados. como assalto ou drogas. providenciando com frequência imensos carros de som de trio elétrico. um jeito de tentar garantir para eles um futuro distinto daquele que. no final da ruazinha estreita da Casa da Paz. nascido ali mesmo. para tornar-se a Casa da Paz. e precisava de muita firmeza quando. onde haviam sido baleadas seis pessoas. nenhum bandido. Figura popular no bairro. costumava praticar tiro ao alvo por lá. formando-se na Universidade Federal do Rio de Janeiro em sociologia. às vezes mesmo coisa mais pesada. num saco amarelo de compra de supermercado. uma parte dos animais sacrificados na matança era sempre reservada à vizinhança pobre. Em Vigário Geral. um templo evangélico. delicada mas decididamente. na distância: um mesmo código comum de valores tornava possível a comunicação. ou na periferia da grande metrópole paulistana. obter um diploma universitário. fora comprada. Assim. e. Quanto ao mais. entre as quais duas crianças. "Perigoso" significava que. vez por outra. a favela fora certa noite invadida de surpresa. ao lado de uma favela que crescera em torno da pedreira costumeiramente frequentada pela gente da casa-de-santo para as oferendas a Xangô. na quadra ao lado da estação. quase 30 mil reais. tocava o trabalho. segundo comentário bem-humorado dos moradores. Também em São Paulo. e depois reconstruída. por exemplo. com apenas um passe de ônibus no bolso e sem um tostão para pagar as contas a vencer na manhã seguinte. o pai-de-santo era que- rido e respeitado por todos. se descobria que alguém "saíra de circulação" por ter se envolvido em pequenos crimes de furto. após a chacina da polícia em 1992. a casa jamais fora assaltada . principalmente quando o terreiro ficava ainda num bairro mais distante. respeitavam-se. no bairro de periferia onde fica o terreiro de candomblé.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . As saídas-de-iaô e as grandes festas dos orixás atraíam gente de longe. de forma inédita em Vigário. numa pracinha dando para a quadra. Pois muitos dos envolvidos com o tráfico queriam mesmo que a Casa da Paz prosperasse. empunhadas com orgulho pela guarda do chefe. um pequeno nicho envidraçado: seu Zé Pilintra. ninguém podia escolher seus vizinhos. pertencente a uma família de evangélicos. dormindo em suas camas. Com a colaboração voluntária de profissionais das mais diver- sas áreas e do pastor — eram "os dois Caios"— fazia verdadeiros milagres com o orçamento apertado. À frente da Casa da Paz. que mal passavam pelas ruazinhas estreitas. A boca-de-fumo ficava logo ali. eles vinham lhe oferecer. e para lá mandavam seus irmãos menores ou seus filhos. 22 pessoas — todos trabalhadores. Na esquina oposta da praça. Caio Ferraz. colegas de infância. como em grande parte dos bairros de periferia. para manter a separação. após o acerto de contas da semana.128 A casa. passando por sobre a linha da estrada de ferro. Era preciso recusar. depois que a instalação da Casa da Paz conseguira garantir que nenhum desta- camento policial entraria em Vigário sem que a população fosse previamente avisada. em troca da oferenda da garrafa de cachaça. de bom coração e para ajuda. por ocasião da iniciação dos iaôs. Caio conhecia todos os meninos. apesar da fama de "lugar perigoso" às vezes atribuída ao bairro. Então. dos doces e do prato de pipocas. sob a proteção das AR15. a vida voltara a reconstituir alguma ordem.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 83 Nem era diferente a situação em outros subúrbios pobres do Rio. guardavam as marcas das muitas balas da polícia que.

tudo parecia ter voltado à "normalidade". anteriormente. Dessa vez. Em Acari. se recusaria a repetir o gesto solidário. se começaria a vislumbrar a face do terror.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . tanto em razão da vizinhança como pelo respeito devido à casa-de-santo. na Barra da Tijuca. conhecido e temido por ter sido sempre encarregado do "serviço sujo" do tráfico. uma mulher. e chorava. que resultaria na ocupação militar das favelas cariocas em 1996. se cruzassem seu caminho atrapalhando os negócios. invariavelmente. fugira para a Bahia. um "culto ecumênico" proposto por uma igreja evangélica. seu lugar seria agora tornado por um jovem do segundo escalão na hierarquia de poder. em meio a um assalto. em Copacabana. . Ele próprio mandaria caiar alguns muros onde a linguagem simbólica das imagens inscrevera a marca de líderes de outros tempos ou de valores que deveriam ser deixados para trás. que trouxera a paz mas congelara os negócios na favela. participando também com suas famílias. a novidade era uma estação de rádio comunitária. indo e voltando. De Jorge Luís diriam que era "o último de sua linhagem" que evidente- mente remontava a Tonicão: à frente do tráfico. os trabalhos habituais ou em dia de festa. só o terror e a fé militante para combater o Maligno. que por horas caminhara pela ruazinha estreita. Na periferia de São Paulo. fazendo minguar o dinheiro ao pôr em quarentena o tráfico. perpassado pelas figuras do sagrado. Enlouquecera. mas logo se sentiria que não era bem assim. com dezenas de carros e ônibus alugados levando os moradores para o cemitério. Então. entretanto. se veriam as belas figuras de são Jorge e Bob Marley ser cobertas de cal. Seus vínculos com Acari eram tênues. indo e voltando. Como um código de honra. das festas. dinheiro grande do pagamento de obras de ampliação do terreiro levado por um ogan da casa.130 Em Acari. segundo se dizia. era a única coisa que a religava de novo com o mundo. Em seu lugar. em várias ocasiões fora à delegacia pagar fiança para livrá-lo da prisão. o pai-de-santo que. pela primeira vez se soube que a casa do pai-de-santo fora roubada. entre os vizinhos. Em Vigário Geral. com músicas e pregações contínuas. instalada pelo tráfico. a palavra de Deus. sentara-se. as igrejas evangélicas acen- tuariam a conexão dos símbolos sagrados das religiões afro-brasileiras com as obras do Maligno e. vez por outra parti- cipavam do toque como ogans. ao lado da Cinelândia. Na ocasião. e em- bora a ele tivesse comparecido um significativo número de pessoas. mas que difundia ao longo de todo o dia uma programação evangélica. as coisas começaram a mudar129 e com uma rapidez espantosa. como se descrevia o novo chefe. contraventores ou não. tornava possível a negociação do convívio cotidiano. já que o objetivo era ganhar rápido o di- nheiro e ir consumir na Zona Sul. na quadra de areia. em versão evangélica. "Sanguinário". Os triângulos verdes e a insígnia TC migrariam para a Lapa. No seu rastro. no deserto branco da cal. esta era uma regra por todos conhecida e acatada. Preso em Salvador. fora realizado na quadra de areia. da numerosa clientela que frequentava o terreiro para o jogo de búzios. Seu enterro se transformaria em um grande evento local. como a alegação oficial sempre faz constar nessas circunstâncias. por um negro. ou no Metropolitan. Jorge Luís.MÓ D ULO IV 84 e nunca se soube de carro algum à sua porta. Aqui também. depois que seus três filhos foram mortos na guerra do tráfico. acossado. confrontando-se face a face. morreria enforcado nas dependências da polícia carioca: suicídio. Agora. do qual logo se alheava. segundo contaram. nenhuma liderança de qualquer outro credo religioso dele tomou parte. num universo onde a violência fazia presentes as suas marcas. finda a ocupação militar. Assim. para pagar dívidas contraídas no envolvimento com drogas. pouco antes do início da Operação Resgate. que jamais fosse tocado. A linguagem cifrada das imagens que falavam de uma comunidade de sentido na percepção do mundo entre os moradores da favela deixara de existir. dialogando com o invisível. portanto. ou num momento de desvario. um universo comum de sentido. ele não respeitava mais nada nem ninguém e não hesitaria em matar a mãe ou os próprios companheiros. De repente constatava-se que ocorrera uma espécie de salto qualitativo: por trás da violência. diante da dor insu- portável. enlouquecido pela droga. À porta da Casa da Paz. muitos eram os que. e o jovem amargaria cadeia por um ano. certa tarde. Logo depois se saberia que fora preso.

Caio começaria. Caio iria abrigar-se. transforman- do espaços em lugares. solicitando e obtendo das autoridades americanas o apoio necessário. Por isso. quase sem exceção. anunciando a chegada de um carre- gamento. dirigidas a ele. quase incidentalmente. começaria a se revelar. a mãe-pequena do terreiro já avisara o vizinho. surpreendente por inesperada. Nas áreas de enclave. inclusive em horários "nobres". que já tinham montado a sua própria estação. a receber insistentes telefonemas anônimos com ameaças de morte. como se fosse uma coisa natural. ironicamente para receber do presidente da República um prêmio por sua atuação em defesa dos direitos humanos. Recrudescendo as ameaças. e sem qualquer perspectiva de retorno a Vigário Geral. à procura dos poucos espaços da natureza ainda não devorados pela cidade — pequenas cascatas. a polícia começara a "limpa" de seus quadros. Em São Paulo. para onde de todo modo já fora chamado a comparecer. de periferia a periferia. dentro e fora da cidade e. Mais que familiarizados com os códigos da violência. e havia muito em jogo e muito a per- der. poderosa chefia do tráfico em uma das maiores favelas da zona norte. Entretanto. para escân- dalo dos vizinhos. e acostumados a circular por lugares distantes e ermos. nas casas vizinhas. E. acabaria por viajar com a família para os Estados Unidos. em competição com amigos de um bairro distante bastante favelizado. entre um e outro ponto. se descobriria que. são ouvidas por todos. substituindo o som da TV.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 85 Também em Vigário Geral as mudanças seriam bruscas. faziam parte da rede. a gente do terreiro era mestra. podendo dar lições. Entretanto. foguetes eram lingua- gem e os clubes de baloeiros. ameaçando-o de morte caso tentasse influenciá-los a usar drogas ou cooptá- -los para as atividades da rede. Nas escolas. nem ali podendo se sentir seguro. as mais velhas em troca da primeira arma. tendo por critério a segurança definida segundo a maior ou menor proximidade desses lugares às periferias "bravas" da cidade e um cálculo de probabilidades sobre o tempo que demoraria para serem incluídos nas rotas do tráfico. interferindo na rede telefônica e da TV a cabo da rua. pedreiras ou trechos de mata. Sob a pressão da opinião pública e do governo. o mesmo fato evidenciaria uma outra signi- ficação: a montagem. e profundas. Dando continuidade à lista de surpresas. concluiria dizendo que o desenho era uma . a serviço do tráfico. em Brasília. também aqui símbolo de status. encarregara-se de ocupar todo o tempo livre dos jovens com atividades educacionais e desportivas. que montavam em casa um sistema de radiotransmissão. Então. mas algumas semanas mais tarde. no entanto. E. toda uma complexa trama de relações. incentivando inclusive o pendor artístico de um deles. a Polícia Federal viria a investigar as atividades de um grupo de escolares entre catorze e dezessete anos. na condição de exilado político. em se tratando de São Paulo. para o desenho e a música. conheciam como a palma da mão as últimas áreas habitadas que era preciso atravessar para atingí-los. oferecido em retribuição. a favelização de uma área de ocupação recente significava potencialmente a formação de outro enclave. Sem dificuldade para negociar com os meninos a segurança da favela por ocasião dos eventos organizados pela Casa da Paz. de uma rede de comunicação radiofônica que permite captar as frequências utilizadas pela polícia e transmitir escancaradamente suas mensagens em código cifrado que. assim como as densas redes de sociabilidade que as recortam e os símbolos pelos quais se dão a reconhecer. dono de um desses sistemas. para ficar longe de seus três sobrinhos adolescentes. crianças eram recrutadas como aviões por um par de patins. A conclusão da perícia policial seria a de um inocente passatempo de meninos inte- ligentes e irrequietos. sob proteção da Polícia Federal. à mulher e à filha de menos de dois anos.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . visto da periferia. alguém se confrontaria com a embaraçosa obrigação de recusar um pacote de meio quilo de erva da melhor qualidade. uma pesquisa imobiliária daria ocasião a um estranho mapeamento dos municípios vizinhos da grande metrópole. nessa tarefa. Para maior segurança. como um memo- rável show de Caetano Veloso. essenciais à prática dos ritos dessas religiões em que o sagrado se evidencia em cada coisa do mundo —. tal como no Rio. Por uma gentileza feita a uma mulher. pouco mais de um ano depois. A rota do tráfico corria por enclaves. como um foragido. num bairro de baixa classe média.

pedaços — de inimigos ou de vítimas. esta seria uma prática saudável. suficientes para conter os pedaços de um ser humano — se tornou. longe das tentações de uma carreira ar- tística que. mas com a qual a cada dia se é obrigado a conviver. Na verdade. mas com uma característica nova: a foto é sempre tirada de viés. ao menos. Isso é o que dá uma credibilidade nova à hipóstase do Mal como criatura autônoma. De fato. num contato próximo e familiar dentro das redes de vizinhança. um fragmento de pé descalço — que se torna absurdo ou incompreensível. a morte. de uma forma que acentua a deformação da ima- gem.131 Ou a certeza da iminência da própria morte. no tráfico. E o saco — desses mesmo de lixo. Lúgubre porque. enfatizando um detalhe ainda reconhecível — um braço que parece mutilado. como tudo o que é obscuro. com sua mentira e falsidade. por ali anda o "Diabo na rua. levaria quase inevitavelmente ao envolvimento com as drogas.". no interior da família. para o sagrado. as trevas. não se fala mais em matar. mas picar. é preciso esquartejar o inimigo. por fim. sobretudo cor. não como um fato esporádico. as falsas promessas. exceto quem é deles objeto. a mão cujos dedos não se vêem. aqui também ser evangélico significava adquirir uma credencial de respeitabilidade. os povos indígenas há muito nos ensinaram a compreender que só se ri do que se teme — o jaguar. Ruído ou música cacofônica ininterrupta. este é propriamente o terror. Na verdade. os espíritos dos mortos. sem a totalidade do ser humano a que devem ter pertencido. e a música poderia incentivá-lo a frequentar. Em Acari. Nesse contexto. e.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . mas como uma atmosfera que passa a envolver cada ato cotidiano da existência. Negro como a noite. produz um zumbido contínuo. diante da violência que agora fechava o cerco em torno das famílias. negro. Por isso. escandida entre o sobressalto em clave alta de violino e a angústia constante que. agora sejam obrigados a procurar em outro lugar uma ancoragem simbólica para dar conta de uma experiência do mundo que parece chegar aos confins de sua inteligibilidade. o tema circula em conversas de botequim ou é motivo de practical jokes horripilantes. acuados. Nos jornais populares.MÓ D ULO IV 86 atividade útil para o futuro profissional do adolescente. sinônimo da operação de extermínio. dos quais todos riem. agora. o crescimento evangélico entre as chamadas "classes populares" começa a revelar um outro e inquietante significado. cada um tem a sensação de poder ser a próxima vítima. As metáforas falam por si. A demonização das religiosidades afro-brasileiras que se produz nesse contexto . o feiticeiro. Caso extremo. faz com que. no limite. não há mais seres humanos. Assim. metonimicamente. A violência. cidadão". da qual. que agora estende seus tentáculos aparentemente sem regras. Sem atingir as fronteiras do terror de modo homogêneo em toda parte. dos grandes. leva à perdição nas trevas da morte. no tom abafado de um baixo. de cem litros. a igreja evangélica! Lá. Acari ilustra essa tensão imposta pela violência não mais inteligível. também ela. Mentiroso como esses orixás que se dizem deuses e são apenas expressão das múltiplas faces do Demônio. na consciência mais interior do indivíduo. no sentido absolutamente literal do termo: não basta assassinar. essa cultura da violência verdadeiramente nova que parece esboçar-se aponta. "solto por si. sombrio. no recesso mais íntimo do lar e. no meio do redemunho. no entanto habituados ao convívio cotidiano com a con- travenção e o crime organizado.. apenas coisas picadas. no lugar de moradia. um pedaço de orelha. em face do sentido dolorosamente concreto que agora adquire a presença do Mal. Mas ali também o Diabo tem cara. esses segmentos. Falso como os falsos amigos. no varejo do cotidiano. dos pais-de-santo ou dos caboclos e pretos-velhos dos terreiros. ou pelo menos não mais permitindo a negociação do convívio dentro de regras conhecidas ou minimamente estáveis. as costumeiras imagens das vítimas de crimes continuam a se reproduzir... pois a ame- aça de hoje pode ser uma realidade amanhã.. pano de fundo invariante da experi- ência de vida e contra o qual é preciso agarrar-se com unhas e dentes à vontade de sobreviver e encontrar um sentido para a existência.

de fato. apesar de tudo. e que sempre constituiu um universo de significados partilhados. em seu recanto mais íntimo. diante de um tipo de violência que parece desafiar as formas conhecidas de atribuir inteligibilidade à experiência do mundo. de muitas crenças e práticas rituais outras. não há lugar para o outro. Não é difícil entender que as igrejas neopentecostais tenham mudado a face do protestantismo e que o pró- prio pentecostalismo esteja. a tota- lidade de um patrimônio cultural negro. Os iniciados não deixaram de "crer" nos antigos deuses da África. Não são suas crenças e ritos que parecem ameaçados pelo avanço do neopentecostalismo. As- sumindo a face do Maligno. Este seria também o espaço em que. voltando os terreiros a novamente fechar-se sobre si mesmos. No interior das religiões cristãs. com seu etos festivo. não obstante a violência para a qual serviu de instrumento de legitimação. as novas gerações. já se encarregou por conta própria de desestruturar o antigo significado daqueles símbolos. sejam elas brancas ou negras. a diferença essencial entre o catolicismo e o protestantismo talvez esteja no grau de abertura à alteridade que são capazes de suportar em seu interior. ou se está do lado de Deus. e nos subúrbios e periferias pobres das grandes metrópoles os neopentecostais já não precisam perseguir de forma direta seus inimigos. dando origem aos can- domblés e sua reinvenção na umbanda. para além do universo religioso. preservado ou recriado ao longo de séculos de história no Brasil. cuja associação com as religiões afro-brasileiras é cada vez mais enfa- tizada. muitos dos que até ontem eram vistos como seus adversários acabam por ser atirados para os braços do Cristo Salvador. e nem poderiam fazê-lo. Inteiramente incorporado. mais . o que é grave é que não sobra às pessoas nenhuma opção. em um universo comum de sentido. também. O catolicismo barroco que serviu de matriz à formação das religiosidades populares no Brasil. Diante de uma religião que se apropria em negativo de todo um conjunto de símbolos que conformam o etos e a visão de mundo próprios às religiosidades afro-brasileiras. teimosamente sobreviventes nas formas de devoção des- se catolicismo negro que dá lugar aos batuques e candombes ou se expressa nas congadas e moçambiques do Rosário e são Benedito. Nada disso é já preciso.133 Certamente já ficou para trás o tempo em que a obtenção de uma franchising da Igreja Universal por um pastor incluía a obrigação de fechar um certo número de terreiros de candomblé e umbanda. Ou se serve aos desígnios do Maligno. ao se manter qualquer contato com esse universo cultural demonizado. Todavia. mas as condições sociais de sua re- produção. capaz de permitir a incorporação. fragmentos de cosmologias africanas seriam preservados e ressignificados. A mídia multiplica de forma muito mais eficaz o proselitismo ao exibir suas sessões de exorcismo.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 87 assume características de verdadeiro etnocídio. o sagrado do profano. sem o espaço coletivo dos ritos de iniciação e das grandes festas públicas que marcam seu encerramento ou a celebração da descida dos deuses à terra para cantar e dançar com os homens. e em que o espírito militante dos fiéis os levava a agredir a golpes de Bíblia pais-de-santo e iaôs em dia de festa de terreiro. Na visão de mundo do novo protestantismo que ganha uma signi- ficação quase inquestionável nas periferias pobres sob o império da violência e do terror. afro-ameríndias. na ordem social escravocrata. o universo dessas religiosidades só pode ser. mudando. de ser alterados por nenhum tipo de decreto ou decisão voluntária.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . integralmente rejeitado. ou recolhi- dos os seus assentamentos ao espaço privado da casa dos filhos-de-santo. pelo menos nas grandes metrópoles. penosamente. não se quer com isso preconizar o "fim" das religiões afro-brasileiras. que agora só tem uma única face. até porque o etos e a visão de mundo que uma religião integra não são suscetíveis. Obviamente. na situação- -limite em que a violência se transforma em terror. Sem alternativa.132 para mais tarde reorganizar-se. o terror. porque se estende. sem nunca separar o público do privado. mas com um sinal negativo. fora. permitindo a construção positiva de uma identidade de contraste. como aliás nenhum outro fenômeno de cultura. ou a constante perseguição a que submeteu a feitiçaria dos ne- gros.

mediação essencial entre o homem e o sagrado. Mas esta será. ligados a outras dimensões profanas da vida social. de toda e qualquer religião. De qualquer modo. elas não são as únicas. em seu espontâneo ecumenismo. para além da organização interna do sagrado. constituem mediações essenciais. sustentadas por cosmologias em que o sagrado é capaz de ordenar de forma mais ampla .A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . seguramente. Entretanto. ou mesmo no catolicismo tradicional. sob a égide das religiões afro-brasileiras. sob o impacto das classes médias que a eles não cessam de afluir. sinagogas. é diante do processo de dissolução dessas comunidades. as instituições — igrejas. a exemplo dos próprios evangélicos. nas periferias das grandes metrópoles brasileiras. já uma outra forma de existência. entre o indivíduo e a sociedade interpõe-se uma infinidade de mediações. e a ordem social mais imediatamente dada à experiência individual. e não é em toda cidade que a mudança social e a dinâmica da cultura imprimem ao campo religioso esse ritmo de transformação que vem ocorrendo nas grandes metrópoles. na crença e na prática ritual e devocional. Não. num contexto em que a violência se aproxima do terror —. ou uma nova "versão". diante da demonização de suas crenças e práticas rituais. com suas miríades de símbolos e signos. das religiões afro- -brasileiras. Um mesmo universo de significações corroborava re- ciprocamente a interpretação dessas diversas dimensões da experiência. tradicional versão católica do Diabo. permitindo inclusive negociar com a violência as fronteiras da ordem e da de- sordem. na delicada trama social que sus- tenta. as variações regionais das religiões afro-brasileiras são significativas.136 passando pela família-de-santo do terreiro — porque passível de ser encarnado em realidades diversas mas imediatamen- te tangíveis e socialmente significativas. Mesmo ali. num universo onde a violência se transforma em terror. Agora. e as organizações mais abrangentes de que são parte — responsáveis pela sistematização e transmissão das crenças. o seu significado. já que. o valor da reciprocidade. outros sistemas de valores e práticas ritualizadas. nas sociedades. tudo isso serve para relativizar o alcance explicativo do pressuposto metodológico do individualismo possessivo135 que sustenta a teoria do mercado dos bens de salvação: passando por um processo de expansão. passíveis ou não de ratificá-los ou se mostrar com eles compatíveis. talvez os terreiros se rearticulem. reativamente. assim como das práticas litúrgicas. nos rituais e nos cultos. certamente irão apreender de um modo muito particular. e regido como todo mercado pela 1ógica do interesse. Por outro lado. Contudo. Até bem pouco tempo atrás. mesmo no espaço privado da própria casa. fazendo da comunidade um valor passível de permanente reinvenção — da vizinhança às Comunidades Eclesiais de Base. na vida doméstica ou nos círculos de amizade. com a criação tal como ocorreu com a umbanda. templos. inclusive. porém. para os homens. que se desloca o lugar da religião. No caso da religião. É assim que. mas daquelas religiosidades populares que. transitava sem solução de continuidade entre a organização institucional da fé. no campo da religião. uma nova projeção no espaço público. dialogam com esse sistema interpretativo. de federações que acabem por lhes garantir. centros.MÓ D ULO IV 88 uma vez socializadas no convívio de um Deus único e ciumento que faz ver como obra do Demônio essas crenças e ritos — e agora de forma verossímil. naturalmente também não é essa uma situação característica dos cultos afro- -brasileiros por toda parte. terreiros. este faria da escolha religiosa no mundo contemporâneo uma questão de opção individual. se constituem comunidades de sentido mais ou menos abrangen- tes: é em função delas que a experiência do mundo se torna interpretável e é no seu interior que também se define o lugar da religião. como se sabe. se vejam crescer no seu interior. os cultos de Exu. graças à fragmentação dessa comunidade de sentido que lhes dava sustentação. trabalho e vizinhança. ou talvez mesmo. O Brasil é muito grande. a credibilidade de um sistema de interpretação de sua experiência do mundo.134 Ou talvez todo esse processo venha a provocar uma reorganização institucional.

foi gran- de e profundo. com base no leque de escolhas progressivamente mais amplo que a vida social lhes oferece como modelos alternativos de conduta. toda religião toca a ordem do privado. não escapam a essa regra. e a consequente "perda de centralidade" da religião na economia dos sistemas simbólicos graças aos quais os indivíduos atribuem significado à sua existência. O progressivo processo de modernização da sociedade brasileira que ocorre nesse período traz inevitavelmente consigo o corolário conhecido da laicização.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . capazes de enfeixar numa totalidade única a compreensão da realidade. também a adesão à fé pressupõe um trabalho mais amplo do social que. quando consideradas da ótica do mundo privado. velha ou nova. As metamorfoses do sagrado. o que determinará suas atitudes religiosas. Diante de uma realidade cada vez mais incompreensível com que se defronta e a solidão que agora experimenta. vão perdendo gradativamente sua força normativa. também no interior do catolicismo. não é a liberdade individual de escolha o que preside à sua adesão a um (novo) credo religioso ou sua permanência na fé herdada de seus pais ou aprendida na infância. leva a Igreja cató1ica a empreender um novo esforço para reinventar o sentido de uma fé íntima e ao mesmo tempo capaz de expressar-se intensamente no plano comunitário. é a pressão da comunidade na qual se insere. À medida que. situavam para além da afi- liação institucional de cada pessoa a uma ou outra confissão religiosa o valor do sistema de dons e con- tradons a que a reciprocidade obriga. como as demais instituições. é a mesma busca da comunidade que. de trabalho ou vizinhança. assim como a construção dessas cosmologias. na qual procura manter-se ou inserir-se. nas relações familiares. Nesse contexto. as instituições que pretendiam formular sistemas de interpretação abrangentes. Todavia. Não por acaso. entre o público e o privado Visto em perspectiva. ou a procura da comunidade. numa sociedade cada vez mais complexa. graças ao Movimento de Renovação Carismática. a experiência da vida social se torna múltipla e fragmentária. nos confins do sofrimento. um Deus exclusivista reserva agora à comunidade dos seus fiéis a lógica desse sistema de trocas. prometendo a eles somente as benesses da prosperidade nesta vida e a salvação no outro mundo. é tempo já de nos perguntarmos de modo mais preciso qual o significado que assumem essas transformações no campo das religiões no Brasil. que procuramos pontuar através de alguns exemplos significativos. o sagrado volta a emergir como fonte de significado para a existência humana. ao longo de mais de meio século de história. para todos os demais excluídos da comunidade dos renascidos no Cristo Salvador. é evidente que o impacto das mudanças do campo religioso no Brasil. traçando a partir daí seu próprio projeto. anterior aos indivíduos. Entretanto. Em seu lugar. para além dessas questões que dizem respeito à construção social da vida religiosa.137 E as igrejas. molda para eles suas "opções" no campo religioso. derivando daí os preceitos ade- quados à orientação da conduta nas diversas dimensões da vida privada. Nesse sentido. buscando compartilhar com outros um sistema de interpretação do mundo ao seu redor capaz de dar sentido às experiências-limites em confronto com as quais. num mundo cada vez erodido pelos valores do individualismo possessivo. reapropriando-se de sua antiga tradição de ce- lebrações festivas. A transformação mais visível que se dá no interior do campo religioso em razão desse processo atinge .M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 89 também outras dimensões profanas da experiência individual e comunitária. do colapso moral ou da própria inteligibilidade do vivido. pressupondo uma adesão íntima e profunda do indi- víduo a um sistema cultural no qual um mesmo etos e uma visão de mundo a ele congruente conformam sua interpretação dessas experiências. É nesse contexto que os indivíduos são chamados cada vez mais a depender de si mesmos na eleição dos valores necessários ao desempenho dos variados papéis sociais que passam a ser deles re- queridos.

ou o corpo belo mas pecador da Madalena arrependida. sobretudo da moral sexual. na reivindicação de maior liberdade feminina e maior igualdade entre os sexos. o domínio da moral. É em face da concorrência desses novos padrões valorativos que se aprofunda a crise moral nas institui- ções religiosas católicas. na institucionalização da reprodução humana mediante o casamento que também escapa aos poucos ao domínio do sagrado.MÓ D ULO IV 90 como não poderia deixar de ser. Formas tradicionais de conduta masculina. pilar da moralidade familiar católica há pouco mais de quatro décadas. do topless e agora o sexo via Embratel. perdendo a virgindade e. O valor da virgindade feminina a ser preservada até o casamento. a moda da minissaia. uma das "posses essenciais" que deve ser garantida de forma normativa em toda sociedade. que aos poucos vão se amenizando para dar lugar a uma atitude mais liberal ou flexível em relação às condutas "desviantes". seria a ameaça representada pela AIDS. da sociedade escravocrata —. ou a tolerân- cia para com a infidelidade conjugal. para conformar o seu porte físico aos padrões de beleza ditados pela moda. vão aos poucos perdendo sua consistência. mais que os esforços das igrejas nesse sentido. para se garantir também a submissão das almas e. representam uma erosão profunda das estruturas da família patriarcal. passa cada vez mais a ser questionado. sob o estrito controle desses valores. Do mesmo modo. escondido pelo planejamento abundante da estatuária religiosa das igrejas. que traria de volta à ordem do dia valores como a fide- lidade conjugal e a própria instituição do matrimônio. encerrava a mulher no mundo privado da casa e da vida doméstica. como as experiências sexuais da juventude. graças ao Disk-Erótica e outros serviços 0900 da Telebrás. . Na sociedade em transformação. à medida que a modéstia deixa aos poucos de ser vista como um atributo fundamental da mulher. ou. por razões de conveniência na preservação do patrimônio ou pela simples autoridade paterna inquestionável. também ele. na malhação e nas academias de ginástica e musculação. o controle da riqueza e do prestígio e a hegemonia do poder de uma clas- se. destinado a projetar-se na esfera pú- blica. Assim. de forma inversa e simétrica. Assim. aparentemente de novo em moda entre a juventude yuppie das classes médias urbanas. o estrito rigor na conduta exigido à mãe de família largada pelo marido assim como a obrigação de aceitar um casamento imposto pela família. Virgem Mãe de Deus. na sociedade brasileira ainda tradicional. As estruturas da família patriarcal. tendo como modelo a santidade de Maria.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . valorizadas enquanto prova de virilidade e admitidas inclusive no recesso do próprio lar — tendo como parceiras mulheres de condição social inferior. como o corpo virtuoso de Marta e Maria. Nos antípodas da visão cristã. que cada vez mais se revela centrada no indivíduo. que se consolidaram ao longo da história brasileira juntamente com o predomínio inconteste da Igreja cató1ica. não o corpo macerado pelo sofrimento do Cristo na Cruz. herança. e. é a nudez de um corpo jovem e saudável que deve ser exibida na força de sua beleza triunfante. passaram a ser inevitavelmente postas em questão. graças ao imaginário cristão da Sagrada Família. a partir da progressiva incorporação da mulher ao mercado de trabalho. em geral pela religião. pouco espaço sobra ao valor do recato feminino. Perdido o seu controle sobre o corpo. uma liberdade na vida privada que era negada à mulher. a nova cons- ciência da realidade física do corpo humano faz com que este passe progressivamente a ser encarado da perspectiva de valores estéticos inteiramente profanos. em tempos feministas de emergência do Women's Lib. com ela. a dupla moral sexual que. pior ainda. engravidando antes do matrimônio.138 é o destino social do corpo. já sem força para impor de medo unívoco uma ética que reinara inconteste quase até meados do século. foi também perdendo pouco a pouco sua força normativa. exigindo-se muito esforço de homens e mulheres. em especial o corpo feminino. O desconforto familiar diante da jovem que deu um mau passo. ainda. permitindo ao homem. e que vai desaparecendo aos poucos numa sociedade que acaba por aceitar. embora de forma a princípio relutante. após o casamento. que sempre teve por modelo normativo valores éticos impregnados pelas figuras do sagrado.

no transe. dentro e fora da Igreja. como costuma caracte- rizar ainda hoje um preto-velho de terreiro — cujo cavalo é ele próprio homossexual — as práticas sexuais de alguns de seus devotos. sua luta agora se estende ao aborto. De fato. em detrimento de uma formação moral saudável das novas gerações. o corpo é um mediador essencial graças ao qual. tal como uma mulher não é necessariamente filha de uma iaba.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . cavalos de que eles se apossam. como brincos e pulseiras. o êxito de tais iniciativas parece ser apenas modesto. "contra Deus" e "contra a natureza". porque estritamente vinculada ao plano cósmico em que é reconhecido seu vínculo com uma divindade. a cada novela que. Ademais. no plano institucional. a homossexualidade deixa paulatinamente de ser encarada como patologia física ou moral. Assim. em especial a televisão. Entretanto. parece se entregar a uma exibição desenfreada da sexualidade. como foi demonstrado pela atuação da "bancada evan- gélica" nos trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte. aos olhos dos conservadores. continuaram a lutar com palavras e obras. a identidade do indivíduo é sempre uma questão em aberto. na sociedade brasileira. Todavia. os deuses e os espíritos tutelares descem à terra para festejar com os homens. há muito deixaram de levantar suspeitas de homossexualidade. os padrões aos poucos se deslocam de um universo social de valores tradicionalmente admitidos. determi- nando a distinção entre o masculino e o feminino. é conside- rada perfeitamente normal nos terreiros. no qual características físicas e formas de conduta convencionais eram definidas sem ambiguidade. já que também os protestantes assumem posições semelhantes. adornos masculinos. corpos dóceis que se entregam à celebração do sagrado com a força e a alegria selvagem da própria vida. sendo a identidade sexual de ambos determinada tanto pela sua cons- tituição biológica como pelo santo que rege sua cabeça. na continuidade estabelecida pela entidade entre um imaginário dos tempos da escravidão. revelada nesses padrões de uma moral tradicional segundo os quais julga a conduta de filhos-de-santo que nem por isso deixam de explicitar suas preferências sexuais. para além das funções biológicas ou das convenções sociais. incorporando em benefício de uma nova fé os ensinamentos platônicos. bem como roupas enfeitadas. sua função enquanto modelos normativos na determinação das condutas na vida privada. sermões.139 . considerando o invólucro corpóreo da alma fonte de sofrimento ou perdição que fez do soma (corpo) sema (sepultura). em que a iden- tidade sexual se redefine. Mesmo na esfera mais interior da existência em que se define para os indivíduos sua identidade como seres humanos sexu- ados. incorporados nos seus filhos. elas sempre tiveram com relação ao corpo uma postura muito distinta da tradicional denegação cristã que. para um plano íntimo da consciência. sempre viu na encarnação uma queda. era inevitável que as figuras do sagrado fossem perdendo. Religiões de possessão. escancaradas as portas a uma nova moral a partir do surgimento desses novos padrões de sexua- lidade. nessas religiões. essencialmente centradas no valor da vida. não é essencial que um homem seja filho de um orixá masculino. a figura do adé. os conservadores. No candomblé e na umbanda. contemporâneas ao surgimento dos movimentos ecológicos. e de modo cada vez mais profundo. de que seria originária. pilar da moral fa- miliar em que se assentou por décadas o catolicismo no período. em que a dança e o canto são elementos essenciais dos cultos. encontrando inesperados aliados entre os adeptos de novas religiosidades que. como uma questão de escolha individual no uso do corpo e dos prazeres. o homossexual. ou mesmo contra os meios de comunicação de massa. Desse modo.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 91 É claro que. dividem sua lealdade entre as reivindicações modernas da liberação feminina e a sabedoria mais antiga de religiões de outros povos. bulas papais e lobby político contra o divórcio. de um modo geral. Mas a atitude conservadora defensiva não é privilégio católico. campanhas. a se julgar pela grita contra a degeneração dos costumes que se levanta a cada nova ofensiva legislativa mais liberal em relação a essas matérias. Na verdade. no terreiro assim como. e o mundo contemporâneo. Perdida porém essa batalha. todo esse movimento de abertura liberalizante no domínio da moral que gradativamente vai ganhando a sociedade no período encontra ressonâncias profundas nos meios religiosos afro-brasileiros. Assim.

já não são mais necessárias as missas e festas litúrgicas como ocasião de encontro. tentando reatar no plano do sagrado os laços de solidariedade familiar e vicinal ameaçados de ruptura pelo progressivo isolamento do indivíduo. É contra esse pano de fundo que se compreende o quanto é significativa. a renovação que os grupos carismáticos pretendem introduzir no interior do catolicismo. facilitando negócios e trocas. e criando para os jovens a possibilidade do flerte. tanto em suas construções cosmológicas como em suas formas organizacionais. Em seu lugar. que jamais se confundiram com a família nuclear burguesa. pela televisão. com base em estruturas de parentesco muito mais amplas. Quanto aos jovens. que tanto desestruturou o domínio cató1ico ou protestante so- bre a conduta privada dos fiéis. Assim. já que. do sistema de parentesco que une e opõe entre si os deuses e seus filhos na terra. o colapso da moral familiar. o modelo burguês da moralidade familiar dominante na vida social nunca teve o mesmo sentido que para aqueles que o erigiam em paradigma da conduta na vida privada. que desde os tempos coloniais sempre foram ocasião de exibição de prestígio social. Por outro lado. se mudam às vezes de forma radical alguns hábitos e formas de conduta dos fiéis pela adesão à mensagem evangélica difundida pelas igrejas do pentecostalismo de conversão "neoclássico" — as vestimentas sóbrias padronizadas para homens e mulheres no culto dominical. mítica e ritual. riqueza e poder. ao vivo e em cores. estranho às modas do momento. se declaram católicos praticantes. graças ao rádio e. constituindo originariamente religiões de clãs. isso acabaria por propiciar tanto um estreitamento dos laços familia- res como. substituídas pela sessão de cinema ou o passeio nos shopping centers. o corte do cabelo e o penteado que passam a se conformar a um mesmo estilo uniforme. oferecendo a pessoas isoladas em núcleos familiares dis- tantes a oportunidade do encontro. que vêm aos fiéis. modelo inextricavelmente imbricado na moralidade familiar cristã. entre seus sacerdotes e adeptos. Contudo. a frequência à missa dominical ou a participação nas grandes celebrações do calendário litúrgico católico. comunitária. ou a recusa de continuar a participar de redes de sociabilidade que davam ocasião a divertimentos profanos . as formas de sociabilidade e os ritos da intimidade. Para os negros pobres herdeiros da moral da senzala de onde se originaram essas religiões. sendo integrada por indivíduos que apenas esporadicamente tem também entre si vínculos de sangue. depois. se transforma em celebração interior e. elas sempre operaram.MÓ D ULO IV 92 Além disso. da perspectiva da vida privada. era natural que as religiões afro-brasileiras contassem. à medida que avança o processo de urbanização e modernização da sociedade brasileira. tendo só em tempos relativamente recentes incorporado também indivíduos das classes médias urbanas e intelectuais. no mais das vezes. como a benção do papa por ocasião do Natal ou da Páscoa. uma forma conveniente de se desincumbir de uma obrigação herdada de um outro tempo.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . para o catolicismo meramente formal de muitos dos que. do namoro e de um futuro casamento.140 perdem progressivamente sua importância. impregnada agora de um novo fervor. é a missa. ao mesmo tempo. A segunda razão é de ordem histórica. incidindo também sobre os hábitos individuais e familiares. Primeiro porque. Reiterando o valor da experiência íntima do sagrado. saídas do universo da escravidão e constantemente perseguidas ou desqualificadas pela Igreja e pelas elites ao longo de séculos. a oração cotidiana e mesmo as grandes cerimônias litúrgicas. a família- -de-santo de que vem a fazer parte um iniciado é uma reconstrução simbólica. não teve o mesmo efeito no interior das religiões afro-brasileiras. como realidade sonora primeiro. nos censos. nações e grupos étnicos. com pessoas oriundas dos segmentos mais desprivilegiados da sociedade. e que conservaram ainda no meio rural uma importante função de sociabilidade. e por duas razões. as novenas rezadas de casa em casa ou a peregrinação de uma imagem milagrosa pela vizinhança. nesses grupos que se reúnem em torno de práticas devocionais de cunho doméstico. como um hábito de infância. Por outro lado. Num lar devoto. a fé. não é só no plano da moralidade que as transformações que têm lugar na vida social e no cam- po religioso em consequências para a esfera do privado.

da qual participam pessoas próximas e conhecidas. em hora certa. mesmo no centro da cidade.141 recriando para seus frequentadores um novo sentido de pertencimento à cidade. exigindo a observação de formas de conduta específicas que alteram significativamente a rotina do seu cotidiano. Desse modo. o novo significado atribuído às suas origens africanas dão lugar a uma verdadeira transformação no estilo de vida dos fiéis. também a nova legitimidade conquistada pela umbanda e. sobretudo no caso da Igreja Universal do Reino de Deus. a extensão da rede física dos locais de culto. passam a ser exibidos nos terreiros por ocasião dos toques. juntamente com valores morais tidos como nefastos. Todavia. a que se entregue . hoje oferecem o espetáculo insólito de pessoas que saem apressadas dos escritórios à sua volta. para. No entanto. na voragem da vida urbana. mas. A revalori- zação dessas religiões afro-brasiieiras e. mais recentemente. em especial. com suas portas sempre abertas e seus pastores disponíveis em diversos horários diários para a pregação e a oração comunitária dos fiéis. orgulhosamente fundidos com outros símbolos de afirmação de identidade étnica. a uma demanda individual pelo sagrado que deve acomodar-se ao ritmo vertiginoso da cidade movida pelo ca- pital e a necessidade do trabalho. com os quais. numa época em que começam a surgir e depois consolidar-se os movimentos negros. familiar. aglutinando ao seu redor uma rede frouxa de sociabilidade à qual acabam por integrar-se os fiéis. a que assistem juntamente com a família. profissional ou de outro tipo. entretanto. aproveitando o horário de almoço ou no final do expediente. integradas em redes de vizinhança que transformam o agrupamento de fiéis em uma verdadeira comunidade religiosa. o pertencimento ao universo religioso afro- -brasileiro incide de modo muito mais direto sobre a vida privada dos seus adeptos. Nem por isso. faz com que. distantes do ambiente doméstico da família e da vizinhança. Assim se revelam as inúmeras mediações que. suspen- dendo durante esse tempo qualquer atividade. às vezes sem jamais se falar. voltam a encontrar-se à cada dia. esses templos evangélicos. um certo ar de família.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 93 e deixar-se influenciar pelos meios de comunicação de massa que os difundem. Vestimentas ostensivamente colori- das. a vida privada não se confina apenas num isolamento individualista. o "neopentecostalismo" das igrejas evangéli- cas contemporâneas exige bem menos dos seus fiéis. nos limites da casa e do círculo familiar. Em geral. em termos do que deve ser deixado para trás ao se aceitar o Cristo Salvador. como eles. esses templos se inscrevem na lógica do pedaço. gorrinhos e panos-da-costa em tecido africano. sua presença seja mais visível até mesmo que a dos templos cató1icos. batas. e migram dali para a danceteria. para os fiéis. diante da realidade urbana. Sem depender. no domínio do sagrado. pelo candomblé estende para além das fronteiras do terreiro novos e velhos hábitos ou formas de sociabilidade de seus adeptos. em muitos locais. tal como acontece no universo evangélico. A começar pelo próprio ritual de iniciação. em igrejas próximas ao seu local de moradia. a exemplo do que acontece com os grupos carismáticos dentro da Igreja católica. a lanchonete ou o bar mais próximos. na cumplicidade silenciosa que passam a manter com os demais fiéis. fios-de-conta de pedras e cerâmicas importa- das. como no caso da televisão —. diante do anonimato em que se perdem.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . Da mesma forma. mas. diferentemente do que ocorre em outras religiões. se dirigir aos locais de culto evangélico e ouvir a palavra de Deus. cabelos à moda "afro" de corte geométrico ou em dreadlocks. levando-os a engajar-se também em outras redes de sociabilidade. ao mesmo tempo que recriam para eles. demonstrando que. da tradição histórica que fixou sua localização em lugares hoje muitas vezes engolidos pela expansão urbana. se estende para além da esfera doméstica. Como em outras igrejas evangélicas. não são estes os templos frequentados por tais pes- soas nos cultos dominicais. ele deixa de propiciar novos hábitos aos seus adeptos. se interpõem entre o indivíduo e a vida social mais ampla. esses templos situados em locais de grande movimento respondem. ao contrário. que ganham nova visibilidade social. que exige o recolhimento do iaô por 21 dias na camarinha do terreiro. de implantação recente e situados em pontos estratégicos que já contavam anteriormente com a frequência do público.

Mesmo nesses ritos mais simples. podem provocar desequilíbrios que resultam em doenças físicas e psíquicas ou.144 A participação em um ritual significa. ao se tornar seus filhos. recebe até mesmo um outro nome ritual. mantendo-a protegida por um boné ou. de modo mais preciso. Para o cliente do terreiro assim como para o iniciado. e que. no caso das mulheres. qualidades e idiossincrasias dos orixás. uma vez que se destina a reforçar as próprias energias da pessoa. portanto. fogo. ou seus tabus. ainda que de forma mais branda ou por um tempo menor. o que está em jogo é uma complexa cosmologia orde- nada em torno da noção de axé. o que impõe ao iniciado a obrigação de recolher-se ao pôr-do-sol. familiar ou mesmo profissional e material. ao fim do qual. o consulente poderá ser solicitado a dar um bori. a cabeça que foi inteiramente raspada durante a iniciação. de ordem física. chuva. como as proibições alimentares e de ingestão de bebidas alcoólicas. sob pena de provocar a quizila do santo para com aquele a quem deveria proteger. Em situações mais graves. seu nome-no-santo. A partir de então.142 Mesmo para o não-iniciado. de modo geral. após uma prática divinatória corrente no candomblé utilizada para identificar a causa espiritual de algum problema pessoal. a interdição do uso de talheres. envolta no pano-da-costa enrolado em turbante. e assim se compreende que ele deva ser preservado também da carga nefasta . de quarenta dias a alguns meses: o uso obrigatório da roupa branca e do quelê. que retraduzem para o plano do cotidiano episódios dos mitos por meio dos quais se caracterizam atributos. a abertura do corpo humano a esse influxo de energias cósmicas. em empecilho à realização de seus projetos e suas tarefas cotidianas. a obrigação de comer e beber em vasilhame simples de ágata branca. ou pelo menos claras. tendo adquirido uma outra identidade. ritual de limpeza comumente re- querido para descarregar o indivíduo de energias estranhas àquelas que lhe são próprias em razão de sua filiação cósmica ao domínio do seu orixá. Assim se adquire todo um conjunto de hábitos relativos ao trato com o corpo. e que deve ser levado enrolado em um lenço ao redor do pescoço. vento.143 o consulente pode ser aconselhado a submeter-se a um ebó. tal como o de uma parturiente. segundo a lógica do dom e do contradom. e que deve protegê-lo da influência nefasta dos espíritos dos mortos.MÓ D ULO IV 94 habitualmente. toda uma série de comportamentos prescritos é dele esperada no período de resguardo que. se requer daquele que a eles se submete. a realização de rituais simples exige dele uma consciência do próprio corpo como sede do sagrado que é inteiramente estranha a sua experiência cotidiana de vida. para evitar que seja exposta ao calor do sol ou ao sereno da noite. cliente de um terreiro de candomblé. sobre a totalidade da (nova) pessoa que passa a existir a partir do rito de iniciação. folha. pelo resto de sua vida. terra. esses tabus deverão ser respeitados. bicho ou ser humano —. nos terreiros. força cósmica que impregna e dá forma a cada coisa e a cada criatura exis- tente no mundo — pedra. fina tira de palha-da-costa trançada que é amarrada apertada no braço. a força cósmica do orixá dono de sua cabeça. a interdição da sexualidade e a obrigatoriedade do uso de roupas brancas. água. de acordo com o que é considerado ewó do santo. o respeito a prescrições e tabus rituais exigidos do iniciado. o pesado colar que recebe durante a iniciação. selando por meio do ori (cabeça) sua aliança com o sagrado de que é parte. planta. fazendo do rito um instrumento de troca do axé entre o homem e a totalidade do cosmos. Depois. De fato. a oferta ritual de um sacrifício à sua cabeça. correspondendo já a um começo de iniciação na religião. que os iniciados fazem seus. há toda uma série de prescrições e restrições alimentares que acompanham o tempo do rito. Mesmo após o término do tempo ritual de recolhimento do iniciado. sentado em uma esteira no chão ou em um pequeno banco de altura menor que a das cadeiras de uma casa. afetiva. a obrigação de nunca deixar descoberto o ori. além do contra-egum. que o obriga a comer com as mãos. se estende por um tempo que varia.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . cujos efeitos incidem de forma imediata sobre a alma ou. sobrecarregando-o. como parte da própria iniciação. a proibição de manter relações sexuais.

de seus problemas cotidianos e de seus relacionamentos pessoais familiares. e das quais terá de desincumbir-se. numa situação de emergência do cotidiano dos pobres como o desabamento de um barraco na favela. que depois serão redistribuídos a todos. período em que está com o corpo naturalmente aberto. como as de sete e catorze anos. que nem sempre correspondem necessariamente à realidade. em face das inúmeras obrigações que contrai para com o sagrado através da iniciação. mesmo num agrupamento religioso firmemente estruturado como a família-de-santo. que o obrigará a manter para com seus irmãos-de-santo — que participaram com ele do ritual de iniciação. de sua vida psíquica. através do calendário ritual. No entanto. caso a família consanguínea não possa auxiliá-lo a enfrentar as inúmeras despesas que a realização de tais encargos acarreta. De fato. que acompanham o processo de modernização da sociedade brasileira. tanto que o apoio da família e dos amigos se torna essencial para o cumprimento integral de todas as prescrições rituais. já que legitimados no plano do sagrado. a regra. De qualquer modo. já que assim se marcam os anos decorridos desde o "nascimento" do seu orixá. para o iniciado. Todo esse conjunto de práticas rituais literalmente molda. no tempo comum dos afazeres cotidianos e sua rotina.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . com ele. É claro. como voltar periodicamente à casa do pai-de-santo onde se encontra o assentamento de seu orixá para limpá-lo.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 95 e indesejada que poderia atingí-lo nesse processo. um filho-de-santo sempre poderá contar com a solidariedade irrestrita de seu pai-de-santo. Daí a incisão feita na cabeça do iniciado — a abertura da cura — mas também a obrigação do resguardo do ori. A iniciação o insere em uma rede de sociabilidade. recria sua própria identidade. Daí também as interdições alimentares e sexuais. ou celebrar festivamente a cada ano a data de sua iniciação. que esse é o preceito. ele passa a ter de si mesmo uma visão distinta — de seu corpo físico. nessa trajetória. Em compensação. afetivos ou profissionais — e que se reitera nas obrigações rituais que passam a incumbir-lhe a partir da iniciação. verdadeira comemoração de aniversário. correspondendo a um processo contínuo de construção de sua própria identidade. do recolhimento para um bori à iniciação e desta às obrigações. o iniciado não está só. Tudo isso representa uma interferência constante do tempo do sagrado. nas grandes festas que se celebram nessas ocasiões. geral- mente elevados à condição honorífica de ogans. auxiliares do culto ou conselhei- ros eméritos —. sobretudo as maiores. submetendo-se a um ebó. se fazem sentir os efeitos desagregadores do individualismo. no mesmo barco — e. bem como a progressão do filho-de-santo nas etapas de iniciação nos segredos da religião. mantendo a cabeça sempre coberta. independentemente de se tratar de um iniciado ou simples consulente a quem foi prescrito um ebó. ele deverá poder contar com a ajuda de sua família-de-santo. na família-de-santo. Também para as pessoas enfermas sozinhas ou abandonadas pela . por meses a fio. ou simplesmente o desemprego do pai ou da mãe de família. de fora da casa — amigos ou clientes de posição social mais alta. Daí. da compra de roupas e objetos rituais aos animais do sacrifício. isto é. por fim. na festa de celebração do seu aniversário. que muitas vezes acolherá e abrigará no terreiro. ekedes ou obás da casa. que são chamadas a realizar essas tarefas. o despejo da casa cujo aluguel não foi pago. o acesso ao quarto-de-santo ou não lhe permite redobrar ritualmen- te a abertura do corpo. ao longo de sua trajetória no santo. Graças aos hábitos que assim vão sendo adquiridos. É comum ouvir nos terreiros queixas constantes do pai-de-santo contra seus filhos nem sempre disponíveis para ajudar na manutenção da casa ou vir em socorro de um irmão-de-santo em dificuldade. porém. seu corpo como veículo do sagrado e. sobretudo para com os mais velhos — em termos de anos de iniciação — uma relação de reverente e incondicional respeito. toda a sua família. na observância de uma hierarquia rígida de prestígio e poder que ordena a vida do terreiro. sendo então outras as pessoas. fundado em fortes laços obrigatórios de solidariedade. a regra que interdita a uma mulher menstruada.

essa característica. para que os deuses e os espíritos tutelares venham à terra cantar e dançar entre os homens. toda essa celebração. no catolicismo. no vestir-se ou no portar-se. de pretos- -velhos e caboclos. a entrada na vida adulta. de sétimo dia. As religiões sacralizam esses momentos. primeira comunhão. que todo rito religioso efetua. de ano e de aniversário. casamento. Diferentes grupos humanos sempre reconheceram a necessidade de celebrar de forma solene esses momentos. Ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo. assim como a cerimônia do bar mitzva judeu constitui. e que constitui uma mediação essencial entre o público e o privado. a incorporação de não-iniciados à vida do terreiro. missa de bodas de prata e de ouro. Trata-se da sacralização do tempo. passando pelo aprendizado de novos hábitos cuja influência se explicita no pensar e no falar. Em alguns agrupamentos sociais. só revela seu significado profundo no ato de sua exibição pública. permitindo ao ritual coletivo reiterar o significado íntimo da celebração e ao indivíduo reconstruir sua identidade social. e o poder de cada filho-de-santo. aquele em que o público e o privado mais se confundem. Da reinserção em redes de sociabilidade que se constituem também em redes de solidariedade — tendo como modelo a família e também a ela se estendendo — à reconstrução integral da identidade através da iniciação e da série dos ritos que a completam. no entanto. e que a inscreve na intimidade do próprio corpo. o que ali se celebra é o que há de mais íntimo e privado nos indivíduos — sua identidade pessoal. põe em evidência uma dimensão da vida religiosa que mais de perto diz respeito ao domínio do privado. Também entre os evangélicos o batismo e a celebração de um novo nascimento. ao mesmo tempo que projetam de volta o indiví- duo na vida social. para o jovem na entrada . cujo final é quase sempre celebrado festivamente. transfigurada pela divindade. Em toda sociedade. nas festas em louvor aos orixás ou que encerram cada etapa da iniciação dos homens no convívio íntimo com a vida dos deuses. crisma. De fato. ao ser colocado perante a sociedade em uma nova posição. não é estranha à lógica do sistema de parentesco e à ideia da família extensa que sustenta a organização das atividades dessa família imaginária reinventada por meio do sagrado que é a família-de-santo. independente da confissão à qual cada um se afilia. o terreiro pode representar o último refúgio onde encontram acolhida e solidariedade até a morte. para dar a ver o poder e a alegria dos deuses ou o momento mais solene de afirmação da (nova) identidade de cada filho-de-santo. servindo como elemento essencial de ordenação da vida privada. entre todos os locais de culto religioso. de dar corpo às figuras do sagrado. tal como ocorre nas nossas modernas socieda- des do mundo ocidental. na figura dos amigos beneméritos chamados a ajudar nas situações de necessidade. Batizado. que diz respeito de forma exclusiva à inferioridade mais íntima de cada indivíduo e simultaneamente à totalidade da ordem cósmica de que ele é parte.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . mesmo quando não se acompanham de uma comemoração religiosa institucionalmen- te estabelecida. podem-se mesmo celebrar efemérides intermediárias como. de múltiplas maneiras. o terreiro é talvez. o nascimento. como ocorre com frequência com os portadores do vírus da AIDS ou com os que manifestam essa doença. com base em uma ex- periência interior avassaladora da sacralidade. o casamento ou a morte dão lugar a ritos de passagem. Entretanto.MÓ D ULO IV 96 família. são cerimônias que. Contudo. o pertencimento ao universo religioso afro-brasileiro afeta a vida privada de seus adeptos. os aniversários. enquanto cavalo de seu orixá. de corpo presente. Assim se vê como. de mês. ungem com a bênção da sacralidade esses momentos de ruptura e transição. sob a lógica do espetáculo que ali preside aos ritos e às celebrações cerimoniais. graças ao transe. como as bodas de prata ou de ouro que comemoram o casamento. é toda a vida privada do indivíduo que é percorrida pelas figuras do sagrado. mais visível numa religião iniciática como o candomblé. por exemplo. onde o princípio da individualidade passa desde o Renascimento a dominar pro- gressivamente a organização da vida social e a cultura. natalícios ou de celebração de momentos de transição de status.

E se comemora- ções dessa natureza estão ausentes nas religiões orientais. como ocasiões festivas de exibição ou espetáculo nas festas devotas e cívicas do catolicismo barroco colonial. preferindo substituí-la pela celebração da memória de Zumbi dos Palmares. um bom indicador de mentalidade para se pensar o lugar da religião na redefinição de fronteiras que as transformações da sociedade brasileira acabaram por produzir. apesar de tudo. em que se comemora a abolição da escravidão. no Brasil. ou simplesmente mais conhecidas. talvez a festa seja ainda hoje. congadas. coincidindo com festas católicas. juntamente com os guerreiros. Nessas devoções características do catolicismo popular. nas celebrações das devoções tradicionais do catolicismo ou nas festas em louvor aos santos juninos e nos autos de Natal. na família extensa. como tradição piedo- samente conservada pelo grupo doméstico. a exemplo do que ocorre ainda hoje em muitas partes do território brasileiro no dia 13 de maio. os bois-bumbás e os pastoris nordestinos. No Brasil. Ao mesmo tempo. o caráter público dessas festas projeta de volta seus efeitos sobre a vida privada dos que delas participam. a marca característica desses momentos de ruptura e transição. a iniciação e o axexé são ritos mediante os quais os indivíduos passam a integrar-se à vida da coletividade religiosa e depois dela são dissociados. nesses ritos domésticos e da intimidade. constituem hoje celebrações privadas que adquirem significação pública. Nas religiões afro-brasileiras. assim como as folias de Reis e do Divino. A festa é. na reiteração das verdades da fé de seus ancestrais em que foi criado. a solenidade e as celebrações festivas sempre escandiram o registro do tempo da vida privada. a realização das festas supõe que sejam previamente incluídas em . ao longo de sua história. ou em redes de vizinhança integradas por conterrâneos. catopês são ainda hoje quase por toda parte no Brasil expressões das me- tamorfoses de um catolicismo negro arcaico. graças à celebração dos acontecimentos da vida privada dos grandes e poderosos deste mundo en- quanto eventos que dizem respeito à vida de toda a coletividade — do Reino. embora não pelos que delas participam diretamente. tal como ocorre em outras religiões tradicionais. nessa trajetória. como a de são João. Por influência do catolicismo. a umbanda também batiza seus filhos ou celebra seu casamento. um processo contínuo de ressignificação do motivo original da celebração. como nas festas das irmandades e confrarias religiosas dos tempos coloniais. pois. projetando-se igualmente como metáfora na vida pública. que batizou Jesus antes do início de sua pregação. são ainda as festas que permitem aos ritos da intimidade ser reproje- tados no espaço público.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 97 da adolescência. uma confirmação do seu pertencimento à comunidade.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . De fato. ou datas comemorativas celebradas pelos negros como verdadeiras festas cívicas. podendo se constituir. primeiro e. Assim. ou dando lugar a celebrações privadas que constituíam ao mesmo tempo instrumentos de projeção pú- blica dos indivíduos ou grupos sociais. já que se realizam na e por meio da intimidade doméstica do grupo familiar ou de vizinhança. em termos de prestígio e de poder. permitindo-nos visualizar de uma perspectiva mais ampla as metamorfoses no sagrado. moçambiques. nem por isso elas deixam de celebrar ritos fune- rários e em honra aos ancestrais. à semelhança do ritual de crisma entre os cató1icos. por isso mesmo. no espaço social — ainda que este seja apenas o espaço restrito da rua. criando. indubitavelmente. dada a tradição festiva das religiosidades no Brasil. candom- bes. De parte da vida pública. ainda que os movimentos políticos negros tendam a desacreditar essa data. Nesse sentido. depois. em geral em ocasiões solenes. porém. essas manifestações hoje se transformaram praticamente em patrimônio familiar. do grupo de vizinhança ou do bairro em que os celebrantes dessas alegres devoções são conhecidos. Batuques. da Nação —. por ocasião da morte. guardam de modo mais ou menos explícito as marcas das cerimônias religiosas que a eles davam ocasião. Disso são exemplos as muitas manifestações culturais tidas como "folclóricas" e cujo fundamento religioso é na maior parte das vezes ignorado pelos espectadores que assistem aos belos espetáculos a que elas dão lugar. ao mesmo tempo que conferem aos que delas participam uma nova forma de projeção. em poderosos instrumentos de afirmação coletiva de identidade. entre o público e o privado. no Brasil contemporâneo.

que não podem faltar no banquete em família na celebração do Círio de Nazaré. que retornam para a festa. Dada a dispersão dos membros que hoje integram grupos de foliões de Reis. o tacacá. muitas vezes marcada por uma trajetória de migração para os grandes centros urbanos.147 Essas festas marcam momentos em que a religião transborda por sobre a vida social mais ampla e daí volta a refluir para a esfera do privado. a um intenso circuito de sociabilidade e reciprocidade. que reconstitui no espaço de uma cidade cenográfica o grande drama da Paixão de Cristo. é ainda uma reafirmação de pertencimento e reforço de laços de solidariedade comuni- tária o que se encontra em algumas celebrações religiosas oficiais do catolicismo. ancoradas em outras instituições. divididos pela migração. reunindo famílias e conterrâneos. No entanto. graças às condições da vida moderna. nem por isso deixam de ser ocasiões de um reencontro festivo da família e de amigos distantes.145 e a morte de um velho Rei de Congo que ficou para trás no processo migratório firmemente ancorado no distante lugar de origem. a Juazeiro do Padre Cícero. sob o pálio. o peixe e a verdura amarga — na Semana Santa pernambucana. Também a celebração da Semana Santa em Nova Jerusalém. a comida branca feita com leite de coco — arroz. entre de- zembro e janeiro. Congadas levam migrantes mineiros. deslocando entre bairros pobres da periferia de uma grande metrópole e pequenas cidades interioranas grandes grupos familiares que. que cada vez mais parecem pender para o lado profano.MÓ D ULO IV 98 um complexo cálculo de probabilidades. feijão. na celebração íntima do reencontro familiar e dos laços de amizade. preferindo enfrentar a demissão sumária por abandono de serviço a faltar com sua obrigação em tal ocasião solene e dolorosa. que será sempre a do seu lugar de origem. no aluguel dos ônibus. ainda que também. de volta a pequenos municí- pios do Sul do estado como Monsenhor Paulo ou Cordisburgo por ocasião das festas do Rosário ou de São Benedito. é a realização das festas o que lhes oferece a ocasião de refazer seus laços de solidariedade primária. na celebração de laços de afeto travados em suas anteriores excursões devotas. a organização e apresentação de folias de Reis podem dar lugar a cada ano. ainda que por um breve período. operários da grande indústria automobilística do ABC. Da mesma forma. embora incluídas no calendário turístico oficial dos seus respectivos estados. a maniçoba e o pato no tucupi. A procissão de Corpus Christi pode mobilizar uma cidade inteira na confecção do tapete de flores. Na mesma categoria devem ser ainda pensadas as romarias tradicionais. Membros de ternos de congos ou foliões de Reis que se exibem num Festival Folclórico em Olímpia podem ter os olhos voltados para sua projeção na mídia e a esperança de um contrato com uma gravadora. o Corpo de Deus. a apresentação .A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . que envolve o rearranjo contínuo das tarefas sagradas e profanas de indivíduos ou de pequenas coletividades. a Bom Jesus da Lapa ou Pirapora: também sua organização constitui quase sempre um empreen- dimento doméstico e familiar que se estende depois à vizinhança. ternos de congos ou moçambiques. ou só para comer os pratos típicos preparados especialmente para essas ocasiões. na geografia do chão. ou mesmo permitindo sua volta "para casa". lá e cá. garantindo a sua continuidade. ou a festa do Círio de Nazaré em Belém do Pará. a Aparecida do Norte. embora nem por isso percam seu significado de devoção para os que delas participam. caminhões ou mesmo cavalos que permitirão aos romeiros chegar ao santuário e comemorar na cidade o reencontro com conhecidos e amigos. serragem colorida e outros ma- teriais heteróclitos com os quais se reinventa. pode fazer esses mesmos trabalhadores urbanos encarar de modo altivo a ameaça do desemprego. se interessem mesmo pelos prêmios em dinheiro. reinventando outra forma de sacralidade. ainda são os que. permitem a realização da celebração devota. que permitirão a renovação das roupas e dos instrumentos do grupo. Em outra dimensão. as celebrações festivas de caráter devoto podem também resultar em outros tipos de projeção social.146 Da mesma forma. guardando apenas tênues vínculos com o motivo religioso da cele- bração. e no mais das vezes. o esplendor dos tecidos adamascados de colchas e toalhas que em antigos tempos coloniais enfeitavam as janelas das ruas por onde desfilaria.

para depois dar lugar a uma calmaria de deserto. os estabelecimentos comerciais e as repartições públicas encerraram tempo- rária ou antecipadamente suas atividades nos dias de jogo da Seleção Canarinho. são tênues as fronteiras entre o sagrado e o profano. Como no nosso catolicismo barroco arcaico. da dupla Leandro e Leonardo. de construção tão difícil num país marcado ao longo de tantas décadas recentes pelo signo da crise — econômica política e social — sob o qual se deu a moder- nização da sociedade brasileira. fez do corpo marcado com as insígnias da Pátria a linguagem do protesto político. nas vias públicas abandonadas por motoristas. Mãe de Deus e dos homens. que corriam de volta às suas delegacias para. sem a tensão que. no convívio em família. filhos longínquos dos autos devotos natalinos. ao contrário do que ocorria nos tempos coloniais. Nas ruas. converter o evento oficial em celebração íntima da dor. Desse modo se evidencia que aqui também. profunda e significativa. celebrações de massa. Não é. em que só de longe ressoam os ecos dos motivos religiosos da celebração. a vida dos grandes e poderosos continua a ser motivo de celebração religiosa no Brasil. pedestres e até poli- ciais. a bandeira nacional se redesenhou de mil formas no chão das cal- çadas. pois. Sob o signo da festa desportiva. ainda que em sentido inverso. e enfeitaram rostos jovens de um outro tipo de caras-pintadas. e a celebração do Dia das Mães não por acaso foi escolhida no mês de maio. no entanto. constituem. biquínis. marcando momentos em que a vida social adquire um caráter sagrado.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 99 dos bois-bumbás em Parintins. cada vez mais transforma o Festival Folclórico da Ilha de Tupinambarana. que em tempos recentes as quatro vitórias da Seleção Brasileira de futebol na disputa da Copa do Mundo e a perspectiva da conquista de um pentacampeonato em 1998 tivessem transfigurado o evento desportivo em ritual que literalmente transformou e transtornou. e nas grandes cidades o trânsito se converteu em verdadeiro inferno nas horas que antecediam o início de cada partida. portanto laicas. como quase todos os demais 150 milhões de brasileiros. como nas antigas cele- brações festivas dos tempos coloniais. Ayrton Senna ou os jovens Mamonas Assassinas. ocasiões propícias para a comemoração da alegria. nossas celebrações oficiais. a vida pública e a vida privada. cada um inventou seu próprio rito. mês de Maria. ainda comemora o nascimento do Cristo. porém. a vida da nossa sociedade. capaz de projetar os ritos da intimidade na vida pública e. no fulcro da tradição das religiosidades no Brasil. hoje é sobretudo a morte que se transfigura em motivo de festa. O Natal. das Diretas Já ao impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. em que se comemorava a alegria do nascimento e dos desponsórios reais. do Oiapoque ao Chuí.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . passando por outros herois como Elis Regina. podem de repente se transfor- mar em festas cívicas envoltas num halo religioso. de cunho familiar. de estranhar. É que nesses herois mediáticos se projeta uma identificação positiva de nós mesmos. os bancos. Então. Todavia. No mesmo veio. sua ressurreição. na troca de presentes. suas cores se transmutaram em camisetas. a Páscoa. Nossas festas propriamente modernas. as festas juninas esvaziam o Congresso Nacional das bancadas nordestinas. inversamente. mediado pela muito antiga lógica da reciprocidade que obriga ao dom e ao contradom. como experiência íntima. a devoção e o interesse. em contrapartida. suspensa aos edifícios mais altos. na distante Amazônia. hoje transmitido pela TV para todo o país. criou suas próprias . poder grudar os olhos na telinha da TV. chapéus. Ao mesmo tempo. ainda que os parlamentares talvez se empenhem menos em retornar às suas tradições religiosas de origem que em exibir os sinais exteriores de uma devoção que lhes poderá granjear preciosos votos nas eleições seguintes. os ritos coletivos podem facil- mente se transformar também em celebrações domésticas. inocentemente festivos. nos muros das casas. apesar de tudo. ao serem vividos intensamente no plano individual. e. interferindo de maneira direta na vida pública e privada de cada brasileiro. num Estado e num país que se querem modernos. típicas da sociedade de consumo. a bolsa de valores. Assim também. de Getúlio Vargas e Tancredo Neves ao cantor sertanejo Leandro. de alto a baixo. que transforma o luto em festa cívica. em um "espetáculo global".

do Grêmio ou do Atlético. também o campo religioso em senti- do estrito se redesenha como território de estranhas misturas. o objetivo comum de todos os brasileiros: "Diretas Já". ou de um grupo musical de su- cesso. o sapato ou aquele chapéu usado no dia da primeira vitória. portanto. no orgulho do se saber brasileiro e de pertencer à Pátria — Pátria não. mãe amada Brasil. um anel. No Brasil. sob o signo da festa em que se redefinem os contornos do profano e do divino. ao mesmo tempo. as torcidas organizadas de futebol se reúnem sob o signo da nação corintiana. onde os efeitos modernos da laicização se fazem sentir. As festas cívicas. da Viradouro ou da Beija-Flor. do público e do privado. que cada um experimentou naquele domingo fatídico da decisão da Copa Mundial em que a sorte. rein- venção do sacrifício expiatório das religiões. quando finalmente se pudesse repetir com o locutor desportivo o tão desejado "GOOOOOOL!!! É do Brasil!!!". cada um de nós se concentrava em um só objetivo. renegou seu santo e seu orixá e proferiu impropérios contra o juiz. "Mátria". e que a partir de então se encarnaria na Nação e na Pátria. acarretando uma perda de influência das igrejas e o rearranjo constante de sua projeção na vida pública diante da ampliação do mercado dos bens de salvação. à espera de soltar aquele grito angustiado preso na gar- ganta. A festa aconteceria nas ruas de Paris. E se nessas celebrações falta o motivo religioso explícito. não sendo portanto difícil en- tender por que. num rito verdadeiramente religioso. Deus não quis. os jogadores ou o técnico da Seleção a cada falta marcada. pessoal e coletiva. explicitando assim a diferença e. Também as escolas de samba do Rio de Janeiro. foram a contraprova da extensão do confuso sentimento de perda. mas onde. a cada passe de bola que não deu certo. se voltou para o time adversário e não mais sorriu para a Seleção Brasileira. meiga e gentil. com ou sem motivo religioso explícito. refletindo uma dor íntima profunda. Sem esquecer. antes do início do desfile. ecoado por 150 milhões de bocas brasileiras exultantes. o pertencimento a um fã-clube de astro da mídia. graças ao qual se procurou transferir da figura do rei a sacralidade que ele já tomara emprestada à celebração de Corpus Christi. a tristeza que se via estam- pada em cada rosto.MÓ D ULO IV 100 fórmulas mágicas. sempre foram um instrumento privilegiado de metamorfose do sagrado. Todos nós. do Salgueiro. os atos de violência ritual praticados contra as figuras desse novo imaginário de um sagrado do espetáculo. conclamam seus membros a dar o melhor de si. nas metamorfoses do sagrado. funkeiro. poderá determinar modas e hábitos de consumo com características de culto idólatra e fetichista. E o silêncio das ruas. em variações sutilíssimas do amor sobre o tema do poeta. fazendo despacho em terreiro. se Deus quisesse. o locutor desportivo Osmar Santos. Todavia. que os especialistas em questões de religião149 se interroguem com razão se.151 Da mesma forma. não nos enganemos. a cada comício reunia a diversidade do povo no sentimento de pertencimento a uma mesma pátria sob a bandeira dos times de futebol. e cada um amaldiçoou seu amuleto. apesar dela. Na sociedade brasileira contemporâ- nea. em 1984. longe dessa violência ritual. Depois. a recepção dos herois pentacampeões da Copa do Mundo deveria transformar a comemoração oficial em alegria interior de cada um. no comando da enorme campanha nacional pela eleição direta para os cargos políticos majoritários. invocando seu santo mais forte. usando a mesma roupa. como Xuxa ou Angélica. como no assassinato de John Lennon ou no atentado ao papa. incerta e infiel. em todo o mundo. lembrando-lhes que vai entrar na avenida a nação mangueirense. rockeiro ou sambista de partido alto. passando pela morte do presidente Kennedy para chegar à re- compensa oferecida pelo assassinato de Salman Rushdie no Estado teocrático do Irã do aiatolá Khomeini. do Mengo. a cabeça baixa. elementos . no mundo moderno. ou então Patriazinha. o campo religioso é ainda o campo das religiões. palmeirense150.148 Não surpreende. a cada ofensiva do adversário. motivo de intenso sentimento íntimo de celebração. como cada um provavelmente diria no coração. desde os tempos da Revolução Francesa.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . Assim também. como contraprova. não é só o evento desportivo na disputa do Campeonato Mundial de futebol que recria no plano de uma sacralidade transfigurada o sentido íntimo do pertencimento e da celebração. tudo dando certo.

Engolindo em escala planetária todo espaço da diferença. uma reordenação profunda ou até mesmo integral da vida privada do novo adepto. seus hábitos alimentares e suas redes de sociabilidade. também aqui a adesão acarretará. sua compreensão dos próprios problemas interiores. do xintoísmo e do budismo. arcaicas. submetendo os povos do mundo ao império de modelos que se repetem. de outros tempos ou de outras gentes. no máximo. porém agrupando comunidades lábeis que se fracionam e se rearticulam ao sabor de vicissitudes locais ou sob o efeito de onda de um movimento dis- sidente iniciado a milhares de quilômetros. Aqui.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 101 de religiosidade nitidamente pós-modernos. seus regimes políticos. comunhão interior e benévola cumplicidade para com o fluir e o fruir da própria vida. no qual muitas dessas religiosidades se inscrevem. a sacralidade. Talvez aqui. na totalidade do cosmos. “primitivas”. gratidão. Essas novas/velhas religiosidades. As- similadas sobretudo — embora não só – num universo de classe média. do estreitamen- to do círculo de relações do indivíduo à desagregação e reordenação das estruturas familiares. que completa nas sociedades contemporâneas o ciclo das metamorfoses do sagrado. os países desenvolvidos do Ocidente hoje testemunham os efeitos da exportação de suas formas de organização social. . em alguma parte do mundo.152 reinventam formas arcaicas de devoção. fundada no entanto em cosmologias que agora se abrem para a totalidade da vida como um valor em si mesma. transfigu- radas. constituindo ao mesmo tempo o epicentro de um processo de transformação igualmente vertiginoso. ampliadas agora à escala cósmica. hoje se difundem. e quando a civilização ocidental pareceria testemunhar seu triunfo definitivo. saindo de suas próprias entranhas. reorganizando sua visão de si mesmo e de suas relações com os outros. é alimento. elas começam a adquirir força de verdadeiros movimentos de massa. lançando-nos de volta ao passado em direção ao futuro. iluminação. transformando suas práticas no cuidado de si.155 Na verdade. algumas práticas religiosas contemporâneas no Brasil não só redescobrem formas tradicionais de devo- ção e culto dos tempos coloniais como também incorporam e ressignificam práticas de outras religiões. se pudesse dizer que verdadeiramente opera a lógica do mercado.153 na nova presença das religiões orientais. esotéricas. de caráter comunitário. como a redescoberta a reinvenção do hinduísmo. Tal como no universo de outras religiões iniciáticas ou de conversão. com seus modos de regulação da vida privada. assiste-se ao que talvez se pudesse chamar de vingança da pós-modernidade. mundo em que se pensaria a religião em declínio. suas formas íntimas de devoção. a partir de uma nova e intensa vivência do sagrado. do qual é preciso isolar-se para salvar-se. recém-inventadas sob o império de uma crise de civilização em escala global. num. orientais. só se pode contar com a auto-ajuda ou. fazendo da escolha religiosa uma questão de opção ou simplesmente reinvenção individual. com a ajuda comunitária dos que partilham a mesma crença. De fato. fragmentários e dispersos. que hoje se assiste ao ressurgimento dessas religiões outras que ela parecia ter tragado no movimento vertiginoso de sua expansão. é no entanto do interior dessa civilização global. o que se evidencia no ressurgimento de religiosidades de fundo esotérico. mais que em qualquer outro domínio das religiões no Brasil. os cultos e ritos públicos de que participa. limpidez. em toda parte.154 ou na invasão dos centros urbanos por religiões da floresta que se organizam em torno do culto do Santo Daime. Em todo o pla- neta. por toda a Terra. monotonamente homogêneos. saúde. ameaçado e ameaçador. seus padrões e hábitos de consumo e suas religiões dominantes. ressignificando-se em cada novo contexto ao qual são forçadas a adaptar-se. do cuidado do corpo à intimidade da alma. típicos do novo tempo das tribos. que se inscreve no mais íntimo recesso do corpo e da alma e os transfigura. como entre os filhos-de-santo do candomblé ou os membros de grupos pentecostais evangélicos e da Renovação Carismática católica. Aqui. numa espécie de retorno do recalcado. ou simplesmente novíssimas. nestes novos tempos de globalização. diante de um mundo visto como malévolo ou doente. e que se reafirmam como uma das linguagens por excelência de expressão da diferença.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A .

158 é a importância do sagrado que assim se reafirma. "Neopentecostalismo". além do compartilhar constante de inquietantes surpresas diante das metamorfoses das religiões afrobrasileiras e do catolicismo popular. Notas 1 Para uma primeira notícia histórica sobre a Aparecida. 4 L. 6 R. ver o relato do padre Jose Alves Vilela. no caso das religiões afro-brasileiras. em E. p. em nível de doutorado e mes- trado. Paulo. 1994. membro do Centro de Estudos Migratórios e da Pastoral do Migrante. devo a descoberta de todo um mundo de símbolos nos subúrbios cariocas. em E. 3 O Estado de S. bem como estimulantes discussões sobre alguns dos impasses com que se confronta o novo projeto de "inculturação" da Igreja católica. produtos tipicamente na- cionais. de formação teológica protestante. HOORNAERT (org. buscando uma nova projeção pública. 350. e que realiza um in- teressante trabalho sobre a crescente presença evangélica na política. no caso do catolicismo ou algumas igrejas evangélicas. Paulo. Marcos Alvito de Souza. "O campo religioso será ainda hoje o campo das religiões?". Revista Brasileira de Ciências Sociais. out. São Paulo. enquanto se estilhaçam as instituições. 2 Folha de S. A economia das trocas simbólicas. em outros. boa parte da reflexão que aqui se apresenta. HOOR- NAERT. BOURDIEU. Sinais dos tempos. bem como importantes insights sobre o seu significado. SANCHIS. como os templos da Igreja Universal do Reino de Deus. História da igreja na América Latina e no Caribe. A Carlos Siepierski.A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . datado de 1745. também em quase todo o mundo hoje podemos encontrar. no mercado planetário dos bens da salvação. "longe das igrejas. num contexto marcado pela presença do tráfico . 7 Devo a meus orientandos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). e P. LANDM. 5 P. MARIANO. num mundo que lentamente volta a reencantar-se. 1945-1995. solidamente implantados em Portugal. racionalidade e sujeitos políticos". e os terreiros de umbanda e candomblé que hoje se difundem por toda parte na Europa e já começam a firmar presença nos Estados Unidos. MONTEIRO. em face de um contexto de violência urbana que hoje representa para elas uma verdadeira ameaça. demonstrando que a religião na sociedade brasileira ainda é um elemento essencial na demarcação de fronteiras entre a esfera pública e a vida privada. conversamente em escala local.). que pesquisa o significado das festas devotas como elemento de recriação de identidade entre imigrantes bolivianos em São Paulo. que atualmente conclui um primoroso trabalho etnográfico sobre o significado da violência em Acari. 4/1/96. n°. 7/1/96. A. devo valiosas referências bibliográficas para uma visão interna das transformações recentes do catolicismo. as igrejas acabem por enrijecer-se ou fragmentar-se. como o budisrno tibetano. ou simplesmente enfrentando uma incógnita quanto ao futuro.MÓ D ULO IV 102 Em contrapartida. História da Igreja no Brasil. 26. A Sidney Silva. P. "Magia. apostando nos movimentos de caráter setorial. devo a maior parte da sistematização dos dados históricos sobre a evolução das novas igrejas do protestantismo moderno. se importamos do resto do mundo essas religiosidades globais. perto da magia". Por isso se compreende que. ano 9. professor da Universidade Federal Fluminense. Entretanto. às vezes em consórcio com outras religiosidades "exóticas". ao mesmo tempo que as instituições religiosas procuram renovar-se era termos organizacionais e expandir seu âmbito de atuação.156 as práticas terapêuticas xamânicas de origem indígena157 ou os toques de palo dos imigrados cubanos de Miami.

em L. mãe-pequena do Ilê Axé Ossanyin. HOORNAERT (org. SANCHIS. 14 R. Anteriormente. como aos outros. AZZI. 12 M. respectivamente. M. A congruência dos dados de pesquisa sobre a violência no Rio de Janeiro com a situação encontrada. 29. 13 Desde meados do século XIX. devo a atenção para com a significação sóciopolítica mais ampla dos processos recentes de legitimação das religiosidades afrobrasileiras. . após a invasão chinesa do Tibet. A neocristandade. 105-28. Sinais dos tempos. 17 R. ALVES. a Ana Cristina Lopes devo o acesso a uma bibliografia internacional alta-mente especializada sobre o budismo tibetano que hoje. de Figueiredo LUSTOSA.). assumindo características inesperadas no contexto brasileiro. G. devo. 1945-1995. AZZI. "O campo religioso será ainda hoje o campo das religiões?".M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 103 e o crescimento das igrejas pentecostais. Elisa Regina Gomes Torquato Salles e Cristina Rocha. cuja infalibilidade é reafirmada. RICHARD. em E. que concluiu em 1997 um interessante trabalho sobre os desafios enfrentados pela educação nesse mesmo contexto. A neocristandade. 20 Frei O. produzindo-se igualmente uma supervalorização da moralização dos costumes e uma "espiritualização" do clero. "Cosmologias do capitalismo". intensifica-se a tendência na Igreja à cen- tralização do poder nas mãos do papa. P. pp. e Ricardo Vieira de Carvalho. 18 M. AZZI. Religião e Sociedade. diante de um processo acentuado de decadência. Em parti- cular. e relevantes informações sobre as metamorfoses das religiões orientais no contexto brasileiro atual. ao mesmo tempo que ressalvo minha inteira responsabilidade pela utilização dos dados bibliográficos. A. aluno do curso de Ciências Sociais da FFLCH-USP. Aos meus orientandos de mestrado. me foi confirmada numa rápida pesquisa de campo "selvagem" — incidental — que com- partilhei com Terezinha dos Santos Rosa. p. 16 P. 22 M. professor da Universidade Federal da Bahia. A Jocélio Teles dos Santos. Morte das cristandades e nascimento da Igreja. bem como a de alguns dos impasses com que hoje elas se confrontam. ainda que de forma menos visível. A Igreja e a política no Brasil. 130-58. GERTZ. História da Igreja na 10 América Latina e no Caribe. A Igreja e a político no Brasil. 11 C. enclausurado nas questões da Igreja e desligado dos problemas sociais e políticos. 9 L. 8 D. Azzi. Presença da Igreja no Brasil. "O novo e a novidade no 'mundo das crenças'". em São Paulo. estudando as escolas públicas de primeiro grau em Belford Roxo. pp. SAHUNS. em São Paulo. A interpretação das culturas. ALVES. 15 Idem. a reflexão sobre a continuidade do etos festivo do catolicismo e suas transformações na sociedade brasileira contemporânea. vol. Esse seria um processo essencialmente vertical. A neocristandade. Latim American is becoming protestant. incidindo sobre a organização interna do clero e guardando rigidamente as ordens estabelecidas. M. de SOUZA. STOLI. aos quais. 19 R. de pesquisa documental e de campo que por eles me foram fornecidos. 15. A neocristandade. 21 R. devo meus mais sinceros agradecimentos. ibidem. já havia aprendido a frequentar esse universo com minha orientanda de mestrado Ana Lucia Lopes. se difunde por todo o mundo.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A .). LANDIM (org. que pesquisa em Salvador o envolvimento de representantes de terreiros de candomblé e das elites políticas na criação de uma verdadeira mitologia da "Bahia negra".

A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA - MÓ D ULO IV

104
23
L. BOFF, "Eclesiogênese", SEDOC, out. 1976.

E. HOORNAERT e outros (orgs.), História geral da Igreja na América Latina, t. II: História da Igreja no Brasil, e P. SIEPIER-
24

SKI, "(Re)(des)cobrindo o fenômeno religioso na América Latina", em E. HOORNAERT (org.), História da Igreja na América
Latina e no Caribe, 1945-1995.

E. DUSSEL, "Sistema-mundo, dominação e exclusão", em E. HOORNAERT (org.), História da Igreja na América Latina e no
25

Caribe, 1945-1995; A. F. PIERUCCI, "O povo visto do altar", Novos Estudos-Cebrap, São Paulo, 1986, nº 16.

26
E. de KADT, Catholic radical in Brazil; R. DELLA CAVA, "Igreja e Estado no Brasil do século xx", Novos Estudos-Cebrap, nº
12; M. M. ALVES, A Igreja e a política no Brasil, e S. MAINWARING, Igreja católica e política no Brasil.

27
R. DELLA CAVA e P. MONTEIRO, E O Verbo se fez imagem.

28
D. e K. KANAGHAN, Católicos pentecostais; e R. PRANDI, Um sopro do espírito.

29
L. R. BENEDETTI, "Igreja cató1ica e sociedade nos anos 90".

30
M. M. ALVES, A Igreja e a política no Brasil, p. 46.

31
C. P. F. de CAMARGO (org.), Católicos, protestantes, espíritas, e C. T. SIEPIGRSKI, "OS evangélicos e a política".

32
R. MARIANO, "Neopentecostalismo".

33
C. P. F. de CAMARGO (org.), Católicos, protestantes, espíritas.

34
Idem, ibidem.

35
E. WILLEMS, "Religious mas movements and social change in Brazil", em E. BLAKANOFF, New perspectives of Brazil

36
Idem, ibidem, p. 224.

37
Idem, ibidem, p. 227.

38
C. T. SIEPIERSKI, "OS evangélicos e a política".

39
R. MARIANO, Neopentecostalismo.

40
C. T. SIEPIERSKI, "OS evangélicos e a política".

41
P. FRESTON, Fé bíblica e crise brasileira.

42 A. F. PIERUCCI, "Representantes de Deus em Brasilia", Anpocs-Ciências Sociais Hoje.

43 P. FRESTON, "Protestantes e política no Brasil", e R. MARIANO e A. F. PIERUCCI, "O envolvimento dos pentecostais na
eleição de Collor", Novos Estudos-Cebrap, São Paulo, 1992, nº 34.

44
C. T. SIEPIERSKI, "Os evangélicos e a política".

45
A F. PIERUCCI, "O povo visto do altar", Novos Estudos-Cebrap, São Paulo, 1986, n°16.

46
A. RAMOS, O negro brasileiro.

E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A - M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade

105
47
S. F. FERRETTI, "Voduns da Casa das Minas", em C. E. M. de MOURA (org.), Meu sinal está em teu corpo.

48
R. BASTIDE, As religiões africanas no Brasil.

49
V. G. da SILVA, Candomblé e umbanda.

50
R. N. RODRIGUES, O animismo fetichista dos negros baianos.

51
Contam-se, entre eles, casas de culto da Bahia ou no Maranhão, a exemplo da Casa Branca do Engenho Velho, o Gantois, e o
Axé Opô Afonjá, em Salvador, e a Casa das Minas, em São Luis. As três casas de Salvador originaram-se de um mesmo núcleo
religioso comum, o Ilê Yiá Nassô ("Casa de Mâe Nassó"), cuja criação data de fins do século XIX e se deve a três ex-escravas
africanas de origem ioruba, Adetá, Iyakala e Iyanassô. Membros da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, as três prova-
velmente dividiam entre si as tarefas de direção do culto africano, mas, com o seu falecimento, em gerações sucessivas, a disputa
pela chefia da casa deu lugar a dissidências, de que se originariam outras duas famosas casas-de-santo, Iya Omi Axé Iyamase, o
conhecido terreiro do Gantois, fundado por Maria Julia da Conceição, e, mais tarde, o Ilê Axé Opô Afonjá, também originário
de outra dissidência da casa de Iyanassô, criado em 1910 por Eugênia Ana Santos, brasileira filha de africanos, e Joaquim Vieira
da Silva, africano que viera do Recife para Salvador (V. da Costa Lima, "A família-de-santo dos candomblés jije-nagôs da Bahia";
E. CARNEIRO, Candomblé da Bahia; D. M. SANTOS, História de um terreno nagô. Em São Luis, pesquisas históricas revela-
ram que desde finais do século XVIII a Casa das Minas teria sido o central de difusão dos cultos dos voduns ligados à família real
do Daomé, em razão de ter a rainha Agontime vindo parar no Maranhão, vendida como escrava após a derrota do rei seu ma-
rido, vencido por um rival (P. VERGER, "Uma rainha africana mãe-de-santo em São Luis", Revista USP, São Paulo, 1990, n° 6.

L. MOTT, "Cotidiano e vivência religiosa", em F. A. NOVAIS (org.) e L. de Mello e SOUZA (org.), História da vida privada
52

no Brasil vol. 1.

53
H. KOSTER, Viagens ao Nordeste do Brasil (1816), e T. EWRANK, A vida no Brasil ou Diário de uma visita ao país do
cacau e das palmeiras.

54
L. de Mello e SOUZA, O Diabo e a Terra de Santa Cruz.

55
J. B. de Andrada e SILVA, Projetos para o Brasil.

56
L. M. SCHWARCZ, O espetáculo das raças.

57
R. N. RODRIGUES, O animismo fetichista dos negros bahianos.

58
R. MOURA, Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro.

59
Y. MAGGIE, Medo do feitiço.

60
M. de ANDRADE, Macunaíma e A arte religiosa no Brasil.

61
J. AMADO, Capitães de areia e Jubiabá.

62
Ver L. M. SCHWARCZ neste volume.

63
A. RAMOS, O negro brasileiro.

64
E. CARNEIRO, Candomblés da Bahia e Religiões negros, negros bantos.

65
R. BASTIDE, Estudos afro-brasileiros e As religiões africanas no Brasil.

66
P. VERGER, Orixás e "Uma rainha africana mãe-de-santo em São Luis", Revista USP, São Paulo, 1990, n° 6.

A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA - MÓ D ULO IV

106

67
M. H. V. B. CONCONE, Umbanda, uma religião brasileira; R. PRANDI, Os candomblés de São Paulo; V. G. da SILVA,
Candomblé e umbanda, e L. N. NEGRÃO, "A umbanda como expressão de religiosidade popular" Religião e Sociedade, Rio
de Janeiro, 1979, n°. 4.

68
L. N. NEGRÃO, "A umbanda como expressão de religiosidade popular", Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 1979, nº 4.

69
R. ORTIZ, A morte branca do feiticeiro negro.

70
C. P. F. de CAMARGO (org.), Católicos, protestantes, espíritas, pp. 173-4.

71
R. PRANDI, Os candomblés de São Paulo, e L. N. NEGRÃO, Entre a cruz e a encruzilhada.

72
C. P. F. de CAMARGO (org.), Kardecismo e umbanda.

73
J. do Rio, As religiões no Rio.

74
R. MOURA, Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro.

75
R. PRANDI, Os candomblés de São Paulo.

76
D. M. dos SANTOS, História de um terreno nagô.

77
V. G. da SILVA, Candomblé e umbanda.

78
M. L. MONTES, "Cosmologias e altares", em E. ARAÚJO e C. E. M. de MOURA (orgs.), Arte e religiosidade no Brasil.

79
R. F. THOMPSON, Flash on the spirit.

80
P. VERGER, Orixás.

81
V. G. da SILVA, Candomblé e umbanda.

82
C GEERTZ, A interpretação das culturas.

83
J. BENCI, Economia cristã dos senhores no governo dos escravos.

84
G. FREYRE, O mundo que o português criou.

85
E. HOORNAERT, Formação do catolicismo brasileiro, e E. HOORNAERT e outros (orgs.), História da Igreja no Brasil.

86
M. de Moura CASTRO, Ex-votos mineiros.

87
Idem, ibidem, p. 341.

88
Apud idem, ibidem, p. 340.

89
Apud E. ARAÚJO (org.), O universo mágico do barroco brasileiro, p. 14.

90
Pe. A. VIEIRA, cit. por E. HOORNAERT e outros (orgs.), História da Igreja no Brasil, p. 351.

91
F. GUERRA, Velhas igrejas e subúrbios históricos, cit. por E. HOORNAERT e outros (orgs.), História da Igreja no Brasil, p.
354.

em E. 99 L. 111 Idem. 198-230. 110 L. "AS barbas do imperador". G. "Tem mouro na costa. em Atas do Congresso Imaginário e Política no Brasil. 95 J. C. MEYER. de CASTRO. . e Caminhos do imaginário no Brasil. 97 M. BASTIDE. F. FERNANDES. O lúdico e as projeções do mundo barroco. Festa e Utopia no Brasil colonial. 116 R. P. A interpretação das culturas.). SCHWARCZ. 94 N. KANTOROWICZ. K. "Ritmo e ancestralidade na força dos tambores negros". DARNTON. O grande massacre de gatos e outros episódios da Revolução Francesa. MACHADO. Modernidad y politico.). ÁVILA. pp.). "O mármore e a murta". A música nas Minas setecentistas. Maracatu. São Paulo. KANTOR. H. DEL PRIORE.E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . 103 G. 105 M. Escravismo e devoção. MONTES. L.). 365-72 e pp. de CAMARGO (org. L. da Câmara CASCUDO. 93 E. 114 P. Carlos Magno Reis de Congo". 98 M. 96 C. A cultura do Renascimento na Itália. "Entre a vida comum e a arte". F. GEERTZ. Católicos. MOURA. Dicionário do folclore brasileiro. 107 S. Resíduos seiscentistas em Mates. SEVCENKO. O universo mágico do barroco brasileiro. V. BURCKHARDT. 35. BALANDIER. ibidem. Os cavaleiros do Bom Jesus. "1789". protestantes. DEL PRIORE. em E. Festa e Utopia no Brasil colonial. ARAÚJO (org. R. J. e I. 112 C. pp. ARAÚJO (org. F. vol. 375-7. 113 M. L. 1992. "A magia do barroco". em A. L. O barroco mineiro. 104 E. e R. MONTES. Os Dois Corpos do Rei. O universo mágico do barroco brasileiro. ARAÚJO (org. MACHADO. L. O universo mágico do barroco brasileiro. As religiões africanas 100 no Brasil. "Entre a vida comum e a arte". SCARANO. MONTES.). 115 G. Revista de Antropologia. 101 L. 106 A. "Pacto festivo em 108 Minas Gerais". L MONTES. ou. espíritas. 109 M. ARAÚJO (org. em E.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 107 92 E. O universo mágico do barroco brasileiro. M. ÁVILA. 102 M. RIBEIRO M. Triunfo eucharistico. LANGE.

"Um bicho de sete cabeças" em A. C. ibidem. A neocristandade. graças sobretudo aos estudos pioneiros de Alba Zaluar. 99. ibidem. todos os relatos desta seção têm por base a experiência pessoal da pesquisadora. 128 Z. Antônio Mazzarotto. 1985. 136 C. . 118 Apud R. 98. Condomínio do diabo e seu capítulo neste volume. p. nº 12. A neocristandade. ZALUAR. MACNANI e L. 127 Idem. RIBEIRO. O duplo e a metamorfose. de Mello e SOUZA. 120 Apud idem. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tempo de Gênesis. 140 A. QUERINO. S.). 142 M. Álvaro. A esse respeito. VENTURA. p. bispo de Ponta Grossa. Exu.). apud R. colonialism and the wild man e The nervous system. de Lucca TORRES (orgs. FERREIRA. 139 P. 97-8. 137 G. MACEDO. A sociedade contra o Estado. poder e perigo. VELHO. A mágica e a revolta. AUGRAS. e C. Individualismo e cultura. "Neopentecostalismo".A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade E N S IN O D E H IS TÓ RIA DA BAH IA . MARIANO. C. G. Na metrópole. Costumes africanos no Brasil. Os parceiros do Rio Bonito. "Identidade social e homossexualismo no candomblé". 96-7. BIRMAN. 134 L. 133 R. TRINDADE. 90-1. 125 M. pp. 96. Um século de favela. 121 Apud idem. 130 M. A teoria política do individualismo possessivo. 124 M. 141 J. 135 MCPHERSON. Rio de Janeiro. CLASTRES. ibidem. 138 O. 123 M. pp.MÓ D ULO IV 108 117 D. 126 Idem. AZZI. ver A.). pp. E. ibidem. 132 M. ibidem. carta pastoral. não pretendendo de forma alguma inovar na análise de um fenômeno já agora bastante conhecido. 122 Apud R. Festas e tradições populares do Brasil. 119 Apud idem. p. Religião e relações raciais. Meu sinal está em teu corpo. Os 45 cavaleiros húngaros. Cidade partida. 129 Naturalmente. ZALUAR (org. TAUSSIG. WEBER. de MOURA (org. fev. MORAIS FILHO. 131 P. M. AZZI. 1931. Shamanism. Religião e Sociedade.

. O jogo de búzios. Olóòrisá. G. 157 R. LANDIM (org. MONTES. São Paulo. nov. 149 L. de MOURA (org. LOPES. GOULART. "Perto da magia. nº 28.). nº 34. MAFFESOLI. 1945-1995. MAGNANI. Redescobrindo o Brasil. "Festa a brasileira". "Renuimo's fulião". 145 S. de TOLEDO. (org. Torcidas organizadas de futebol. 1996.).E NSIN O DE HI STÓRI A DA BA HI A . PRANDI.M Ó DU LO IV A "Guerra Santa" e as ambivalências da modernidade 109 143 J. SANCHIS. 1992. em E. História da Igreja na América Latina e no Caribe. H. E. Revista USP — Dossiê Magia. C. O caminho do xamã. "O campo religioso será ainda hoje o campo das religiões?". Sinais dos tempos. 144 C. 151 M. 153 L. HARNER. 148 P. longe da política". "O neo-esoterismo contemporâneo" Revista USP — Dossiê Paulo. nov. L. MEYER e M. A. 146 R. 155 A. REILY. 1996. O tempo das tribos. 147 M.). 150 M. "Histórias da diáspora tibetana". de Cassia AMARAL. BRAGA. OZOUF. nov. 152 J. La fête revolutionnaire. 154 S. M. 156 M. nº 28. "As raízes culturais do Santo Daime". L. Novos Estudos-Cebrap.