O fascínio que o Egito exerce sobre a humanidade, com suas pirâmi

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des, deuses, faraós, múmias e hieróglifos, não é um fenômeno recente.
Na realidade, é algo que existe desde a Antiguidade. Heródoto, por exem-
plo, o mais importante dos historiadores gregos da época clássica, escre-
veu um de seus livros mais notáveis para falar dessa instigante civilização,
que nasceu há mais de seis mil anos, às margens do Nilo, e desenvolveu
ali uma cultura singular, marcada por uma arquitetura grandiosa e pela
crença na vida após a morte. Os romanos, que os conquistaram, e os
hebreus, que foram por eles escravizados, também compartilharam, cada
um a seu modo e na sua própria medida, o mesmo fascínio pelos antigos
egípcios, povo que para nós ainda permanece envolto em uma aura de
mistério e magia.
Afinal, o que há no Egito que explique tamanho
fascínio, capaz de resistir – e, na realidade, crescer
ainda mais – ao longo de tantos séculos? O que faz
uma civilização tão antiga como essa continuar
ditando modas e, seis milênios depois, prosseguir
influenciando aspectos tão diversos da vida con-
temporânea, seja na arquitetura, nas artes, no
espiritualismo, na ciência e na filosofia? E o que
faz, nos dias de hoje, movimentos sociais tão
variados, como a maçonaria e as associações de
consciência negra, reivindicarem uma relação
de descendência direta ou indireta com ela?

Estatueta da rainha Nefertiti: seis mil anos depois,
o Egito continua ditando modas

encontrada então pelos soldados franceses. Por intermédio das ferramentas conceituais da egiptologia. 3) pela “egiptologia”. A descoberta da famosa Pedra de Roseta. quando os livros de divulgação científica se multiplicaram e os progressos técnicos facilitaram a navegação ao Oriente. Antes de mais nada. trataremos neste livro mais especificamente da egiptomania. no Brasil. finalmente. procura identificar. no século XVIII. o ramo da ciência que trata de tudo aquilo relacionado ao antigo Egito1. convive- mos diariamente com símbolos e objetos típicos da civilização dos faraós. também redescobriu o Egito por meio dos relatos dos viajantes e dos historiadores antigos. sem percebermos. e. A paixão pelo Egito ressurgiu na Renascença. face ao incentivo dos humanistas. é preciso compreender que esse interesse pelo Egito se apresenta por meio de três diferentes formas: 1) pela “egiptofilia”. contendo inscrições em três caracteres diferentes – em escrita hieroglífica. graças à criação da imprensa. proporcionaria um avanço extraordiná- rio do conhecimento que temos hoje sobre a civilização egípcia.10 Egiptomania Este livro busca respostas para essas e muitas outras perguntas. Afinal. o saber popular e os relatos de viajantes e escritores. adaptados. tendo se alimen- tado continuamente do repertório ilimitado de crenças e mitos universais2. demótica . estilizados ou mesmo simplesmente decalcados de seus antigos modelos originais. tem uma longa história no Ocidente. Um fato marcante para o seu desenvolvimento se deu quando o imperador romano Augusto providenciou o translado de monumentos e obeliscos egípcios para Roma. de forma triangular. a egiptomania passou a representar uma verdadeira febre na Europa. Às vezes. é o fragmento de uma estela de basalto. marcas que comprovem a presença e a in- fluência egípcia em nossa vida cotidiana. A pedra. a fim de representar aos súditos o seu grande poderio. sabe-se. Com a expedição científica e militar de Napoleão Bonaparte ao Egi- to. 2) pela “egiptomania”. Mais que isso. que é a reinterpretação e o re-uso de tra- ços da cultura do antigo Egito. a egiptomania se desenvolveu da conjunção entre as descobertas acadêmi- cas. de uma forma que lhe atribua novos sig- nificados. A egiptomania. elementos que atravessaram os séculos e chegaram até nós. O mundo letrado dos finais do século XV. um fenômeno que tem a característica básica de conjugar ciência e imaginação. que é o gosto pelo exotismo e pela posse de objetos relativos ao Egito antigo.

” Com essas palavras. em 1821. Como veremos. o que possibilitou ao francês Jean- François Champollion. que acompanhou a expedição de Napoleão ao Egito e grega –. segundo ilustração de Vivant Denon. “Fizemos uma descoberta maravilhosa no vale. No Brasil. talvez a maior de todos os tempos: o achado dos tesouros funerários do faraó Tutankhamon. dedicada e incansável busca nos desertos egípcios e anunciou. todos de um mesmo texto. o que inspirou des- de fabricantes de jóias até arquitetos e decoradores. a febril apropriação dos elementos e símbolos ali encontrados. os primeiros protagonistas desse hábito . a egiptomania ganhou força. é de fácil resgate. Introdução 11 Cientistas medem a gigantesca esfinge de Gizé. a origem da egiptologia e da egiptomania. em novembro de 1922. Na primeira metade do século XX. em todo o planeta. o arqueólogo Howard Carter encerrou uma longa. Tal descoberta desencadeou. com a ação de novos exploradores e o conseqüente aumento das descobertas de túmulos e monumentos perdidos. apesar de antiga. uma magnífica tumba intacta. todos seduzidos pelo encantamento característico da fabulosa cultura egípcia. decifrar pela primeira vez o conteúdo até então secreto dos hieróglifos. a mais importante façanha arqueológica do século XX.

seja menos evidente e. por exemplo. em nossa vizinhança – e até mesmo dentro de nossas casas – símbolos e referências à civilização egípcia estão por toda parte. Três décadas depois. o precursor do turismo brasileiro àquele país. Em nossas cidades. Já a egiptofilia. pode-se assim dizer. O surgimento. é igualmente um fato cotidiano no país. de diversos pro- gramas de pós-graduação com especialização em Egito antigo promoveu considerável avanço no campo da egiptologia no país. o apreço por objetos e relatos do antigo Egito. isto é. Pedro I. um forte imaginário social so- bre o Egito antigo. no Brasil. Da atuação de D. os monarcas portu- gueses. menos notada e estudada. D. vive- mos cercados por eles. Isso se evidencia em diversas práticas de reutilização de elementos egípcios. que deixaram amplos registros de sua paixão e interesse pelo Egito. um notório estudioso da cultura egípcia e. só tem crescido. em nossas ruas. embora justamente a egiptomania. em 1871. Esfinge de Tutmose III: a descober ta dos tesouros funerários dos faraós deu grande impulso à egiptomania em todo o mundo . resta-nos um magnífico acervo de peças egípcias. ao tornar-se. por exemplo. Do obelisco fin- cado no meio da praça pública à imensa quantidade de placas de lojas batizadas de “Pirâmide” e “Faraó”. o interesse pela civilização egípcia. adquiridas por ele em 1824. ou seja. o Egi- to está entre nós. É inegável que se desenvolveu. que um observador mais atento e mais treinado logo identificará. De lá para cá.12 Egiptomania cultural foram ilustres personagens de nossa história. nas universidades brasileiras. conseqüentemente. Na verdade. a reinterpretação e re-elaboração de elementos daquela civilização. Pedro II fortaleceu o vínculo iniciado pelo pai entre o antigo Egito e o Brasil. no Brasil.

1730-1930. que valori- zou cada indício encontrado sobre a utilização de elementos egípcios no Brasil. Séc. uma oportunidade ímpar de unir ciência e paixão. integrada3. E é assim que. A fundamentação teórica foi abalizada pelos textos de Jean-Marcel Humbert. ao longo desses anos todas as contribuições que constituem o corpus documental deste livro foram fruto da colaboração espontânea de colegas e de seus dedicados alunos. nossa pesquisa partiu de referenciais construídos com base em experiências realizadas em outros países. para o coordenador do projeto. O marco inicial deste trabalho foi 1995.M. Ottawa: Éditions e La Réunion des Musées Nationaux. A todos o nosso agradecimento. apenas se desenvolveu com a aprovação do “Projeto Egiptomania no Brasil. Desta feita. exceto pelo apoio da PUCRS. Introdução 13 Este livro procura chamar a atenção para isso. sem as quais estes não existiriam. A pesquisa. a busca sistemática e o registro crítico dos dados. Notas 1. poemas e festas populares. em 2001. . Pela ausência absoluta de alguma publicação sobre egiptomania no Brasil. Foi preciso realizar uma investigação conjunta. Para tanto. em âmbito nacional. no entanto. escrever este livro foi. que disponibilizou três bolsas PIBICPUC para o projeto. quadros. Ibidem 3. quando se formou um grupo de pesquisadores. tendo por base o interesse de professores que. Porém. Assim. integravam o Laboratório de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LHIA). pelo CNPq. e outra na categoria de Iniciação Científica. que está também registrado nos capítulos em que constam as suas colabora- ções. alia a cu- riosidade científica típica da egiptologia à emoção mais autêntica da egiptomania. por meio da concessão de uma Bolsa de Pesquisa de Produtividade. ele também possa vir a ser igualmente recebido por seus leitores. numa espécie de pesquisa arqueológica. J. se a metodologia de nosso trabalho seguiu à risca o rigor acadêmico. esperamos. então. Humbert (ed). dos monumen- tos em pedra a logomarcas. autoridade francesa no assunto e reconhecido internacional- mente. também nos permitimos deixar levar ao sabor das contribuições espontâneas e das descobertas imprevistas. Egyptomania: Egypt in Western. XIX e XX”. 2. especialmente os europeus. para nós. 1994. presentes nas mais diferentes formas e materiais.