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RENATO ORTIZ

CULTURA E MODERNIDADE
A FRANÇA NO SÉCULO XIX

J ,

editora b ra sle n se
Copyright © by Renato Ortiz, 19 9 1
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ISBN: 85-11-08072-4
Primeira edição, 19 9 1
2a reimpressão, 2001

Preparação de originais: Janice M aria Florido
Revisão: Eduardo Keppler e Rosemary C. Machado
Capa: Paulo Monteiro

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Ortiz, Renato, 1947
Cultura e modernidade : a França no século XIX /
Renato Ortiz. -- São Paulo : Brasiliense, 1998.

Ia reimpr. da 1“ ed. de 1991
Bibliografia.
ISBN 85-11-08072-4

1. França - Civilização - História - Século 19
2. França - Cultura I. Titulo. II. Titulo: A França no
século XIX.

98-5761 CDD-944

índices para catálogo sistemático:
1. França : História : Civilização 944

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SUMÁRIO

Introdução ............................................................. . . . 7
Os Dois Séculos XIX ........................................... . . 13
Cultura e M ercad o ..................... '6 3
Luxo e Consumo ......................... 121
Espaço e T e m p o .............................................................. 189
Digressão . ......................................................................... 263
B ib lio g rafia..............., ...................................................... 269
0 5 DOIS SÉCULOS XIX

Os historiadores costumam se referir à existência de
um “longo século XIX”, duração que em princípio se pro­
longaria de 1789 até 1914. Porém, quando o observador
se debruça sobre a extensão deste tempo “longo”, aos pou­
cos ele percebe que o período demarcado, longe de ser
contínuo, é marcado por rupturas e descontinuidades. A
própria Revolução Industriai é um processo lento e cumu­
lativo, mesmo na Inglaterra1, onde ocorre na sua forma
mais radical; as transformações pelas quais passam as so­
ciedades européias não se concretizam imediatamente, elas
se distendem no tempo, estabelecendo algumas vezes uma
continuidade com os parâmetros do Antigo Regime, em
outras, rompendo com a tradição legada pelo passado. Uma
discussão sobre cultura deve levar em consideração este rit­
mo histórico, pois há ocasiões em que certos problemas
se colocam para uma parcela de pessoas, mas que nao pos­
suem ainda uma abrangência tal para se imporem à so­
ciedade como um todo. Por outro lado, os pontos de rup­
tura, que dificilmente podem ser datados com precisão,
implicam a precipitação de elementos anteriores, dando
agora à ordem sociocultural uma configuração particular.
14 Kl-NATO OKTIZ

Creio que dentro desta perspectiva pode-se distinguir no
século XIX dois momentos: um primeiro, que se estende
da Revolução Francesa até sua metade; um outro, que se
inicia com a aceleração da própria Revolução Industrial.
É importante marcarmos as diferenças que separam essas
duas fases, pois elas constituem, por assim dizer, o quadro
social em que a problemática cultural se manifesta.
Os estudos mostram que as medidas revolucionárias in­
troduzidas na sociedade francesa são fundamentais para o
desenvolvimento do capitalismo: abolição dos direitos feu­
dais; fim do caráter inviolável das corporações e dos pri­
vilégios das manufaturas; consagração da propriedade pri­
vada; interdição de qualquer associação de empregados ou
de patrões com o intuito de influir nos salários ( laissez-
falre)1. E dentro deste contexto que a Revolução Industrial
se instala, com a introdução de novas formas de energia
(vapor), mecanização das fábricas (sobretudo as indústrias
têxteis), crescimento da indústria de construção e da me­
talurgia e o advento das ferrovias. Esses acontecimentos,
que se manifestam no nível da infra-estrutura econômica,
têm conseqüências fundamentais na organização da socie­
dade: criação de grandes empresas.industriais e comerciais,
desenvolvimento do patronato, do assalariado burguês e da
classe operária3. Paralelamente a eles, tem-se um movimen­
to de imigração rural, com a população concentrando-se
cada vez mais nas cidades. Entretanto, sc na Inglaterra este
processo de mutação social é rápido, na França é lento
e se prolonga por vários anos. Aí, não ocorre um verdadeiro
take-off da economia, o que significa que até meados do
século o país se sustentava numa forma de produção ba­
sicamente agrícola. Ainda em 1852, 44,7 por cento do pro­
duto global das atividades econômicas provinham da agri­
cultura, contra somente 20 por cento do setor industrial.
OS DOIS SÉCULOS XIX 15

Em 1850, 52 por cento da população economicamente ati­
va encontravam-se empregados na agricultura, o que evi­
dencia a fragilidade do impulso industrial francês4.
Na verdade, o descompasso não se limita à esfera eco­
nômica; ele tem implicações sobre o nível demográfico.
Em meados do século, somente um quarto da população
francesa vivia em cidades; como mostra Philippe Ariès, do
final do século XVIII até 1851 a população urbana au­
menta cerca de 3,5 milhões de pessoas. Mas, se em 1800
ela constituía 20 por cento da população global, em 1851
ela atinge apenas 25 por cento5. A rigor, o peso da po­
pulação rural se faz sentir ainda no início do século XX.
Enquanto na Inglaterra já em meados do século o número
de citadinos supera o de habitantes que vivem no campo,
na França, ainda em 1926, o conjunto de pessoas que po­
voa a zona urbana é de 49 por cento. Entre 1789 e 1914,
em números absolutos, a população rural permanece a mes­
ma, algo em torno de 23 milhões de habitantes. Neste
mesmo período, a população global cresce relativamente
pouco, passando de 28 para 41 milhões de pessoas. Os
franceses, que eram 15 por cento da população da Europa
em 1789, são somente 10 por cento em 1914. Se a taxa
de crescimento demográfico entre 1800-1900 é de 11 por
cento na Inglaterra, ela se limita a apenas 3,5 por cento
na França6. A importância de um contingente populacional
de origem e de permanência rural, associada a um certo
malthusianismo, tem implicações cruciais para a industria­
lização francesa. Há uma estreita correlação entre essas va­
riáveis e a lentidão pela qual se caracteriza a evolução in­
dustrial na França. Os historiadores têm reiteradamente su­
blinhado a especificidade do caso francês. A estabilização
de uma parte considerável da população na zona rural fez
com que a imigração para as cidades tenha sido menor
do que na Inglaterra, significando uma concentração in­
16 RENATO ORTIZ

ferior do proletariado nas regiões urbanas. Por outro lado,
o. malthusianismo tem conseqüências para a própria ex­
pansão do sistema econômico: ele reprime a demanda, im-
. pedindo que se forme um mercado de dimensão análoga
ao inglês (que evidentemente incluía seu grande império
colonial). Não obstante, apesar das diferenças que marcam
a consolidação da ordem industrial nesses dois países, não
se deve cair num certo exagero que algumas vezes permeia
a literatura sobre o assunto. Não resta duvida de que, em
comparação à Inglaterra, há um atraso relativo na conso­
lidação da Revolução Industrial na França. Porém, essa in-
cipiência do industrialismo francês é sobretudo uma ca­
racterística do “primeiro século XIX”. A partir de 1870,
a defasagem entre diversos países do continente europeu
(inclusive a Alemanha) tende a diminuir. Seria ingênuo
imaginarmos a existência de uma sociedade francesa pouco
industrializada no final do século. A constatação de um
índice elevado da população rural, ainda no início do século
XX, como um fator isolado, não implica necessariamente
na presença de um Antigo Regime. David Landes observa
que a mecanização dos diversos trabalhos e manufaturas
rurais “paradoxalmente” aceleram a implantação de uma
sociedade industrial.
Na medida em que a Revolução Industrial se encontra
estreitamente associada à expansão das ferrovias (elas im­
pulsionam a indústria metalúrgica e distribuem as merca­
dorias), temos na França, também sob este aspecto, um
descompasso no tempo. As primeiras linhas (1830: Saint-
Étienne/Andrézieux (21 quilómetros); 1832: Saint-Étien-
ne/Lyon (58 quilômetros); 1834: Andrézieux/Roanne (67
quilômetros); 1835: Epinal/canal de Bourgnone (27 qui­
lômetros) eram curtos troncos locais, com a finalidade de
escoar a produção das minas de carvão para os portos flu­
OS DOIS SÉCULOS XIX 17

viais. A ligação entre Saint-Étienne/Andrézieux utilizava de­
clives, e a tração era feita por cavalos. Somente um trecho
da linha Saint-Étienne/Lyon operava com locomotivas a
vapor7. Neste período de pré-história das ferrovias fran­
cesas, os sansimonistas desempenharam um papel prepon­
derante. Por meio de seu jornal, Le Globe, eles desenca­
dearam uma campanha nacional a favor desta nova forma
de transporte, elemento fundamental para a realização de
seus sonhos industrialistas. Os sansimonistas agrupavam em
seu meio engenheiros e financistas, e uma de suas ambições
era incentivar a construção das estradas de ferro. O em­
preendimento dos irmãos Pereire é neste sentido exemplar.
Ao projetarem a linha. Paris/Saint-Germain (1837), eles
abrem um campo de experimentação técnica de onde sairá
um conjunto de engenheiros que futuramente irá cumprir
um papel-chave na criação do sistema ferroviário.francês8,
Todavia, a ligação Paris/Saint-Germain (19 quilômetros)
não possui um caráter comercial; trata-se de uma promoção
política, tecnológica e pedagógica. O que se pretende é
mostrar à nação a viabilidade das novas conquistas tecno­
lógicas, abrindo caminho para utilizações posteriores. Um
futuro ainda incerto, pois em 1835 a França possui so­
mente 149 quilômetros de trilhos, quadro que em 1841
se encontra praticamente inalterado9. A utopia dos discí­
pulos de Saint-Simon terá de esperar por alguns anos para
se tornar realidade. Esta primeira fase do século se define
pela dificuldade das comunicações, o que limita a circu­
lação das mercadorias e das idéias.
Dizer que a Revolução Industrial francesa é, no seu
primórdio, incipiente, não significa entretanto negá-la, O
historiador que, por exemplo, afirma: “até meados do sé­
culo o trabalhador não é um operário de fábrica, mas so­
bretudo um artesão”, procurando ilustrar que o sistema fa-
18 RLLNATO ORT1Z

brii não é ainda dominante neste período, fundamenta seu
•comentário numa perspectiva mais ampla do processo de
industrialização, e tem frequentemente como parâmetro o
que se passou na Inglaterra. Porém, este mesmo historiador
sabe que as transformações pelas quais passa a sociedade
francesa, apesar da lentidão que as caracterizam, sao cumu­
lativas e profundas. Os homens da época também possuíam
uma clara consciência do movimento que os afastava do
passado. E em Paris, durante o exílio, que Marx sofre o
impacto decisivo para seü destino político, ao tomar con­
tato com uma dimensão recente da vida económica c social:
a classe proletária. Em 1844 ele descobre e se apaixona
pela realidade deste mundo operário, com suas organiza­
ções, suas potencialidades, suas lutas. Em seus primeiros
artigos para a Gazeta RenanOy ele retrata de maneira ex­
pressiva o ambiente que envolve o meio operário: “Quando
os artesãos comunistas formam uma associação, seus pri­
meiros objetivos sao a educação e a propaganda. Mas, o
ato de associar-se cria uma nova necessidade, necessidade
da sociedade; o que era apresentado como um meio tor­
na-se um fim. Os resultados desse empreendimento prático
podem ser observados quando trabalhadores socialistas
franceses se encontram. Fumar, comer, beber não são ape­
nas meios para juntar as pessoas. O companheirismo, as
distrações associativas, que também visam a sociedade, são
suficientes para eles; a irmandade entre os homens não é
mero palavrório: ela torna-se realidade10. Poderíamos talvez
argumentar que o testemunho de Marx é parcial, afinal
ele tem como pano de fundo uma Alemanha rural que
se distanciava ainda mais do padrão inglês. Mas suas im­
pressões são sugestivas, pois, sem conhecer a Inglaterra (que
lhe servirá posteriormente como modelo do desenvolvi­
mento do capitalismo), elas revelam as mudanças que ocor­
os d o is si'x:ui,os xíx ü>

rem no universo do trabalho. Na verdade, entre a Restau­
ração e o início do Segundo Império, a sociedade francesa
conhece uma mudança radical na sua própria estrutura.
Não é por acaso que este é o período escolhido por Louis
Chevalier para estudar as classes perigosas11. E no interior
de uma Paris superpovoada, sufocante e miserável que ele
retrata a existência das classes trabalhadoras*- Sua descrição
possui no entanto um valor que transcende o quadro da
vida parisiense; ela revela uma situação semelhante às con­
dições que imperam em várias cidades. O relatório cie Vil-
lermé sobre a condição física e moral dos operários no iní­
cio do século XIX evidencia um elemento universal, in­
trínseco à implantação do sistema fabril; processo violento
de transformação do modo de produção e de organização
do trabalho, que Poianyi, numa expressão feliz, denominou
de “moinho satânico”12.
O florescimento da nova ordent econômica pode ser
captado de maneira viva através da discussão sobre as “duas
Franças”. O tema emerge em 1822, quando o geógrafo
italiano, Adrien Albi, estabelece uma diferenciação espacial
do território francês. Com base na distribuição da instrução
pública, ele distingue dois espaços geográficos: uma França
do Norte, que concentrava os efetivos escolares, e outra
situada ao Sul, carente de uma base educacional. A parte
Norte começa a ser associada à imagem de um país “escla­
recido”, em contraposição a uma França “obscura” que vi­
cejaria no Sul. Esta caracterização é no princípio de na­
tureza pedagógica, mas em 1826 o barão Charles Dupin
vincula à idéia de uma França “esclarecida” um elemento
novo: a riqueza. Como observa Roger Chartier, “com Du-
pin, o motivo das duas Franças torna-se o fundamento de
uma defesa vibrante que reúne a exaltação da manufatura
e a celebração das instituições parlamentares, O modelo
20 RENATO ORTIZ

de desenvolvimento encontra-se ao Norte, na Inglaterra e
■na Escócia, onde ocorre um equilíbrio novo e ótimo entre
as populações agrícola e industrial”13. O debate se desloca
assim para o terreno da conveniência e das conseqüências
da Revolução Industrial. Nele, os conservadores não dei­
xarão de intervir; Bigot de Morogues (1832) e Villeneu-
ve-Bargemon (1834) procuram refutar os argumentos de
Dupin, mostrando que a industrialização levaria necessa­
riamente à desmoralização da população francesa. Inver­
tendo o raciocínio anterior, e a linha que separa Norte
e Sul, eles defendem o ponto de vista de que a felicidade
e a moralidade estariam mais bem preservadas no Sul, onde
a ordem social seria mais estável, as condições de trabalho
menos árduas do que nas regiões industrializadas e os cri­
mes e suicídios ocorreriam com menor frequência. A te­
mática das “duas Franças” traduz um conflito ideológico
que agrupa os interlocutores em campos opostos: de um
lado aqueles que se definem sem reservas pela generalização
do progresso: do outro, os que pensam ser possível a volta
a um Antigo Regime idealizado. Mas ela revela também
uma relativa indefinição diante dos fatos que se sucedem;
é ainda possível imaginar que a ordem industrial é não
somente nefasta, como em princípio poderia ser evitada.
Já em 1836, os termos da discussão começam a mudar.
Quando Adolphe d’Angeville escreve seus Ensaios sobre a
estatística da população francesa> utilizando pela primeira vez
dados numéricos para todo o país, este conservador agra-
rista se dobra diante da inevitabilidade da civilização in­
dustrial. Ao caracterizar a existência de uma França que
hoje chamaríamos de “desenvolvida” em contraposição a
uma outra “subdesenvolvida”, ele precipita uma dicotomia
que se torna clássica a partir de então: a necessidade da
vitória de uma França “esclarecida” diante das forças “obs­
OS DOIS SÉCULOS XIX 2)

curas” do passado. Durante a Terceira República, esta será
a tônica de uma ideologia que alimenta o pensamento po­
lítico e educacional republicano.
Os historiadores tendem a concordar que, a partir de
meados do século, o ritmo da história social se modifica.
O termo em si é impreciso — “meados do século” —,
mas quando lemos sobre as diversas histórias específicas
(econômica, demográfica, urbana, técnica) parece haver
uma convergência no sentido de se localizar, dentro dos
limites dessa duração, senão uma ruptura, pelo menos uma
aceleração. Por exemplo, é entre 1853 e 1870 que a cidade
de Paris transforma-se radicalmente, época em que se rea­
lizam as grandes reformas urbanísticas do barão Haus-
smann, procurando remover a população do antigo centro,
empurrando as classes populares para os bairros periféricos,
onde se instalam as empresas fabris. Tudo se passa como
se as mudanças estruturais da sociedade se refletissem no
espaço urbano, que deve agora se distanciar das cidades
vetustas do Antigo Regime, com suas ruas estreitas e tor­
tuosas. Um novo modelo de modernidade urbanística se
impõe, privilegiando as grandes vias, a circulação dos trans­
portes e dos homens. A reformulação do espaço urbano
não se restringe, porém, a Paris; ela se estende a localidades
variadas — Lyon, Marselha, Bordeaux.
Marcei Roncayolo, analisando o crescimento e a re­
organização das cidades, considera que o ano de 1851 inau­
gura um verdadeiro “segundo século XIX”. Se até então
o crescimento urbano se restringia a Paris e às cidades in­
dustriais do norte da França, tem-se agora uma intensi­
ficação do processo. A tabela abaixo é sugestiva (mil ha­
bitantes)14:
22 RKNATO ORTIZ

Cidades População (1851) População (1911)
Lyon 177 558
Marselha 195 490
Bordeaux 131 334
Rouen 100 188
Nantes 96 191
Toulouse 93 150
Lille 76 317
Toulon 69 126
Roubaix-Tourcoing 62 266
Brest 61 120
Saint-Étienne 56 149
Reims 46 115
Nancy 45 120
Le Havre 29 163
Nice 27 143 '

No início do século, Paris era a única cidade com uma
população superior à 100 mil habitantes; em 1911 são
quinze os núcleos urbanos que atingem este patamar. Mas
não são somente as cidades que crescem; surge um novo
tipo de aglomeração: a periferia. Em 1911, os subúrbios
parisienses compõem 30 por cento das cidades com mais
de 30 mil habitantes, 17 por cento das de 10 mil a 20
mil habitantes, c somente 8 por cento das de 5 mil a 10
mil habitantes15. Este movimento de concentração se inten­
sifica sobretudo a partir de 1906, momento em que as in­
dústrias de consumo (construção, vestimenta) cedem lugar
às indústrias de transformação (automóvel, avião, química).
O corte de “meados do século” pode ser reencontrado
no setor das comunicações; não é por acaso que se fala
também em um “segundo momento da história das fer­
rovias”. Uma das dificuldades na implantação das estradas
de ferro na França dizia respeito à indefinição sobre quem
OS DOIS SfiCULOS XIX 23

deveria construí-las. Até 1839, a iniciativa dos empreen­
dimentos estava reservada ao capitai privado, porém a crise
econômica fez com que a maioria das companhias mal ti­
vessem cumprido suas propostas. Em 1842, depois de uma
polêmica que colocou em choque diferentes grupos de in­
teresse, o Estado e as empresas chegam a .um acordo mútuo.
Caberia ao primeiro a aquisição dos terrenos, a construção
dos canteiros e das obras (incluindo as estações); às com­
panhias competiria os trabalhos de superestrutura, forne­
cimento de material e exploração das linhas. Elabora-se as­
sim em 1842 um mapa ferroviário do território francês.
Porém, as dificuldades financeiras e os acontecimentos po­
líticos de 1848 irão retardar a realização dos projetos. E
somente no decorrer do Segundo Império que se formam
as grandes companhias de estrada de ferro, mobilizando
capital suficiente para consolidação de uma rede nacional
ferroviária. Durante a Terceira República, o sistema de
transportes irá se expandir, tomando praticamente a con­
figuração que possui atualmente. Os dados apresentados
por Levasseur são esclarecedores16:

Ano km explorados Viajantes p/km Toneladas p/km
(milhões) (milhões)
1869 16 938 4 272 5 508
1875 19 746 4 786 8 136
1890 33 550 7 942 11 759
1900 38 044 14 063 16 557
1908 40 239 16 034 20 603

Os números deixam distante a primeira fase da história
das ferrovias, se em 1847 a quilometragem explorada era
de 1832 quilômetros em 1908 eia atinge 40 239. Mas não
é somente a rede ferroviária que cresce. A quantidade de
24 Kl-NATO ORTIZ

pessoas e de mercadorias que nela transita indica o grau
.de mobilidade que particulariza a sociedade francesa. Entre
1869 e 1908, o número de passageiros e de produtos trans­
portados por quilômetro é quadruplicado. Em termos reais,
isto significa que “se em 1871 havia 95,5 milhões de via­
jantes e mais ou menos 38 milhões de toneladas transpor­
tadas, em 1908 havia 479 milhões de viajantes e 158 mi­
lhões de toneladas transportadas”17. Volume que certamen­
te coníere à França um aspecto qualitativamente distinto
do passado.
Os analistas de demografia rural também sublinham
a passagem deste “meados do século”. Philippe Àriès situa
a primeira fase importante de êxodo rural entre 1850 e
1860, período em que a indústria se difunde no campo
e a agricultura começa a se transformar em um sentido
capitalista18. Com o correr do tempo, essa tendência se
acentua: a migração atinge taxas elevadas em dois outros
instantes, 1876 é 1881 e 1896 e 1901. Pode-se ter uma
idéia do impacto do deslocamento desta massa populacio­
nal quando se sabe que, entre 1801 e 1831, o número
de indivíduos que deixam o campo é de 325 mil; sob a
Monatquia ele cresce para 1 milhão, e entre 1851 e 1911
atinge 6 milhões de pessoas19. A população rural econo­
micamente ativa diminui drasticamente. Na verdade, o mo­
vimento migratório segue o ritmo da indústria; basta olhar­
mos o quadro do produto global das atividades econômicas
para termos uma idéia disso20:

Ano Agricultura Indústria Outras atividades
1852 44,7% 20,1% 35,2%
1892 32,4% 35,2% 32s4%
1912 27,0% 40,7% 32,3%
OS DOIS SÉCULOS XJX 25

Os economistas apontam, no entanto, no interior deste
processo, dois momentos. Um. primeiro, que se prolonga
até 1880, se refere à implantação da “Primeira Revolução
Industrial”; em seguida teríamos uma “Segunda Revolução In­
dustrial” — a indústria descola da agricultura; no interior
do setor industrial diminui a produção de bens de consumo
(têxtil, alimentos etc.) em benefício da produção de equi­
pamentos, desenvolvimento das indústrias vinculadas às ci­
dades (água, gás, eletricidade), da indústria de metais (ligas)
e produção de energia. Como observa Hobsbawm, no final
do XIX a economia “muda de marcha”, alcançando urna
velocidade que prenuncia uma série de eventos que se ma­
nifestarão no século XX21.
Ao situarem no final do século XIX uma Segunda Re­
volução Industrial, os economistas nos propõem um tipo
de datação, mais de caráter sociológico do que propria­
mente histórico, que penso ser interessante explorar. Po­
rém, antes de examiná-la, creio que seria importante lem­
brar alguns elementos que a história da técnica nos pro­
porciona. Há um certo tempo, Lewis Munford já havia
estabelecido uma relação entre técnica e civilização; em
princípio, a cada formação social específica corresponderia
um grau de desenvolvimento tecnológico. Com base nesta
idéia ele divide a história da tecnologia em três grandes
períodos. A fase eotécnica (1000-1750) se caracteriza por
um sincretismo técnico, acumulando as descobertas pro­
venientes das mais diversas culturas (roda hidráulica, usada
pelos egípcios; moinho de água, conhecido pelos romanos;
moinho de vento, proveniente da Pérsia; papel, bússola e
pólvora, originários da China) e pela utilização da energia
natural (água, vento, tração animal). A debilidade desta fase
residç na impossibilidade de se produzir energia com re­
gularidade. O homem engenhosamente emprega os recur­
sos imediatamente disponíveis na natureza. Uma segunda
26 RENATO ORTIZ

etapa da progressão tecnológica, que Lewis denomina de
paieotécnica, coincide com a Revolução Industrial; a ela
segue-se uma terceira (neotécnica), que emerge no final
do século XIX com a descoberta de novas formas de ener­
gia. Sinteticamente, a história pode ser descrita nos seguin­
tes termos: “a fase eotécnica é um complexo de água e
madeira; a paleotécnica, um complexo de carvão e ferro;
a neotécnica, um complexo de eletricidade e ligas de me­
tal”22.
Não pretendo discutir se a periodização proposta pode
ou não ser generalizada para uma duração tão longa (1000-
1750) sem que nenhuma modificação substancial tenha
ocorrido neste lapso de tempo. Interessa-me a idéia de que
existem dois marcos no interior.de um mesmo século. Re­
centemente, alguns historiadores têm sublinhado ‘ este
aspecto; Bertrand Gille, procurando romper com uma his­
tória da técnica que funda o mundo moderno exclusiva­
mente sobre a Revolução Industrial, realça a emergência
de uma “Nova Revolução Industrial”, a partir de 1880,
qualitativamente distinta da anterior23. Sua noção de “sis­
tema técnico” é interessante. Gille considera que todas as
técnicas sao, em graus diversos, dependentes umas das ou­
tras; existe portanto entre elas uma relação de coerência,
e o conjunto dessas coerências encontra-se articulado numa
estrutura, que ele chama de sistema técnico. Em princípio
um sistema técnico só se torna viável quando obtém um
certo equilíbrio. A partir de um determinado limite estru­
tural, ele não consegue mais se expandir. Isso significa que
os limites tecnológicos podem bloquear rodo um sistema,
criando desequilíbrio e crises. Dentro desta perspectiva, de
maneira análoga à proposta por Lewis, pode-se dizer que
o sistema técnico inaugurado pela Revolução Industrial,
que se fundamentava em formas energéticas como o vapor
e o gás natural, e em materiais como o terro, entra em
U$ DOIS SÉCULOS XIX 11

crise, não mais conseguindo se expandir para além de seu
limite estrutural. As transformações que ocorrem, com a
descoberta de novas fontes de energia (eletricidade, petró­
leo), com a produção de energia (introdução de novos con­
versores: turbinas hidráulicas, motor de explosão), com o
advento de materiais como o aço e as ligas de metais, im­
plicam numa mutação técnica global. As vésperas da Pri­
meira Guerra Mundial, este novo sistema técnico é uma
realidade.
Mas qual o significado real de uma mudança de sis­
tema? Em termos puramente técnicos pode-se dizer que
temos a partir de então o surgimento de uma verdadeira
“tecnologia”, isto é, uma exposição racional e sistemática
das operações técnicas (o que pressupõe a criação de escolas
especializadas em cada ramo do conhecimento). Até a Re­
volução Industrial, as técnicas evoluíram empiricamente e
não compartilhavam um terreno comum com a ciência.
O exemplo típico é a descoberta da máquina a vapor, cujo
funcionamento só foi compreendido anos depois; as in­
venções eram realizadas por homens eminentemente prá­
ticos, e não contavam com a presença incisiva do conhe­
cimento científico. A bomba a vapor, e posteriormente a
máquina e a locomotiva a vapor, nasceram para atender
a necessidades empíricas: produzir e transportar o carvão
das minas inglesas. O panorama é outro no final do XIX,
e à medida que entramos no século XX, a técnica torna-se
um prolongamento da ciência. A industria elétrica é uma
conseqüência direta das investigações científicas; as inven­
ções do telégrafo, dínamo, motor elétrico e rádio, normal­
mente atribuída à “genialidade” de seus criadores (Morse,
Siemens, Jacobi, Marconi), sao na verdade aplicações de
princípios desvendados por Hey, Faraday, Oersted, Ma-
well, Hertz24. Entretanto, um sistema técnico não significa
somente uma inversão da relação entre ciência e técnica.
28 RENATO ORTIZ

Como observa Bertrand Gille, “o automóvel nao é somente
o. instrumento propriamente dito, com todos os seus com­
ponentes, nao somente o motor e a carroceria, os materiais
apropriados do qual ele é feito, os pneus, mas também
a distribuição regular dos carburadores, a estrada construída
para ele. O progresso econômico passa necessariamente pe­
lo progresso técnico; o progresso técnico só pode ser a pas­
sagem de um sistema técnico para outro sistema técnico25.
Se os historiadores muitas vezes privilegiam os níveis
técnico e econômico, podemos argumentar que o advento
de novas tecnologias implica também mudanças substan­
ciais na esfera da cultura. O automóvel redimensiona o
uso do tempo pelas pessoas, que podem agora se deslocar
a uma velocidade maior sem mais ter de fazer uso dos
fiacres ou de transportes coletivos como o trem ou a di­
ligência. A eletricidade propicia um padrão de conforto
(elevadores, iluminação das casas) desconhecido até então.
Dentro desse contexto, a própria sociabilidade dos indi­
víduos é reorganizada. Um exemplo é a difusão do telefone.
Utilizado pelos homens de negócio, ele é certamente um
instrumento de trabalho, mas sua função extrapola o uni­
verso das transações comerciais. Áo colocar em contato as
pessoas, ele modifica as noções de proximidade e distância.
Um testemunho da época ilustra bem esse aspecto26:
É difícil dizer em que ano foi instalado o telefone em casa.
Creio que foi mais ou menos em 1886. Creio que em grande
parte meus pais fizeram este sacrifício ao espírito moderno,
para remediar a separação e a solidão de minha irmã mais
velha, que, depois de seu casamento com o marquês Luppè,
habitava um belo hotel, solene e triste, no final da rua Bar-
bet-de-Jouy. Tínhamos pena dela. Aquilo parecia tão longe,
quase no campo. A idéia de podermos conversar todas as
manhãs, sem se deslocar entre a rua Barbet-de-Jouy e a rua
Boétie-, pareceu tão sedutora, que não hesitamos mais.
OS DOIS SÉCULOS XIX 29

Enquanto meio de comunicação entre privacidades, o
novo instrumento é logo apropriado pelo imaginário da
Belle Époque. Uma série de cartões-postais e peças de teatro
começam a associá-lo à galanteria. “O telefone se impõe
como o instrumento dos apaixonados, e pouco a pouco
as cartas de amor são substituídas pelas palavras de amor,
roubadas do tempo e do espaço, mas permitidas pelo te­
lefone. O telefone introduz uma dimensão nova na história
das sensibilidades”27. Mas até mesmo as hierarquias sutis
que imperavam no interior das casas começam a ser que­
bradas. Jacques Attali observa que “a instalação de cam­
painhas (sinos) nas casas era sinal de mudanças profundas
na sociabilidade urbana do século XVIII. Os sinos respon­
diam a uma nova demanda decorrente da especialização
funcional dos quartos da casa. Sebastien Mercier* chama
a atenção para o hábito de as senhoras utilizá-los para cha­
mar as criadas: Os sinos eram instalados de forma que pu­
dessem ser acionados a distância, embora só fossem ouvidos
nas peças onde se encontravam28. O telefone surge neste
sentido como um intruso, pois sua campainha deve soar
num espaço comum sem que necessariamente signifique
“chamar os criados”. Por outro lado, a separação entre casa
e trabalho, que pressupõe uma especialização entre as esfe­
ras privada e pública, começa a se esvanecer. Pelo telefone
o mundo dos negócios aos poucos se aproxima das resi­
dências burguesas.
Quando Walter Benjamim compila informações para
sua obra inacabada, Paris no século XIX, ele se interessa
por temas diversos como ferrovias, sistema de iluminação,
construções em ferro etc.29. Benjamim percebe que a mo­
dernidade encontra-se ancorada num substrato material,
sem o qual eia não poderia se expressar. Por isso, as “pas­

* Sebastien Mercier escreve sobre Paris do final do século XVI1L
30 RENATO ORTIZ

sagens” e os grands magasins lhe retêm tanto a atenção.
A “passagem” dos Panoramas foi o primeiro lugar público
a utilizar em Paris a iluminação a gás (1817); a Ville de
Saint-Denis a primeira loja a fazer uso de um elevador
(1869); Le Printcmps e Au Bon Marche (1883) empregam
a eletricidade para iluminação de um grande espaço pú­
blico, muito 'antes de esse tipo de energia ser utilizado em
larga escala (a primeira usina elétrica parisiense será inau­
gurada em 1889). Se a arquitetura em ferro é vista como
um sinal de modernidade arquitetônica, não se pode esque^
cer que muitos anos antes da construção da “torre dos 300
metros”, Eiffel trabalha juntamente com Boileau na refor­
ma de Au Bon Marché (1874), Como bem observa Ber-
nard Marre/, os magasins de nouveautes c os grands magasins
são, técnica e arquitetonicamente, um “lugar de moder­
nidade”30. A problemática da técnica possui uma impor­
tância grande para a escola franklurtiana, e Marcuse não
hesitará em percebê-la como forma de denominação. Em
Benjamin, esta posição é mais nuançada, mas certamente
sua relevância não é menor; a técnica tem implicações de­
finitivas, inclusive no domínio das artes, a própria idéia
de original e de cópia sendo comprometida diante de seu
predomínio. Porém, se levarmos realmente a sério a relação
entre técnica e cultura, não teríamos de dizer que a um
novo sistema técnico corresponderia uma nova civilização?
Creio que neste ponto devemos precisar melhor o que
entender por um “segundo século XIX”. Não se trata sim­
plesmente de um prolongamento de “meados do século”.
Sociologicamente, eu diria que uma descontinuidade se ins­
taura, isto é, a organização da sociedade se desloca para
um outro patamar. Neste sentido penso que existem duas
modernidades. Uma primeira, Baudelaire a descreve com
ironia e vivacidade, que se associa à Revolução Industrial
— estradas de ferro, iluminação a gás, telégrafo, íotografia.
OS DOIS SÉCULOS XJX 31

Uma segunda, que tem como substrato um outro sistema
técnico — automóvel, avião, eletricidade, telecomunicação
(rádio), cinema. Evidentemente, essas modernidades se re­
cobrem durante o período que nos interessa, mas creio ser
importante distingui-las, pois esse “segundo século XIX”
anuncia aspectos que serão correntes no XX. Alguns autores
têm apontado para este elemento de ruptura. Donald Lo-
we, por exemplo, considera que é entre 1905 e 1915 que
uma cultura eletrônica (sincrônica e de multiperspectivas)
se sobrepõe sobre uma cultura tipográfica (diacrônica e li­
near) fundamentada na escrita31: Henri Lefebvre pensa que
em torno de 1905 as experiências que se fazem no mundo
da ciência e da estética (início do Cubismo) apontam para
um outro tipo de modernidade32. Já Stephen Kern recua
um pouco mais no tempo. Para ele, “entre 1880 e o início
da Primeira Guerra Mundial uma série de transformações
tecnológicas e culturais criaram novos modos de pensar e
de experimentar o espaço e o tempo. Inovações tecnoló­
gicas como telefone, telégrafo sem fio, raio X, cinema, bi­
cicleta, automóvel, avião estabeleceram o alicerce material
para esta reorientação”33. Não obstante, esses autores, para
captar o movimento de descontinuidade, privilegiam as
manifestações de uma esfera erudita — ciência, filosofia,
literatura, pintura. Minha intenção é voltar-me para um
aspecto mais prosaico, retomando o tema da modernidade
do lado de uma cultura de mercado, do consumo e da
racionalização da sociedade,

Procurei anteriormente esboçar o contexto que envolve
a sociedade global francesa; é necessário agora voltar-me
para as mudanças culturais que ocorrem no seu interior.
Penso que um dos aspectos importantes desse processo diz
respeito às mani[estações populares legadas pelo Antigo Re­
gime. Elemento de permanência, esta cultura tradicional,
32 RENATO ORTIZ

marca de uma Europa agrícola, possuía desde o século XVI
traços que lhe conferiam um caráter individualizado34. Tra­
tava-se sobretudo de um universo voltado para o mundo
mágico e calcado na concepção de um tempo cíclico, re­
petindo entre os homens o caminhar das estações do ano.
Por isso várias das festas populares se recobrem do signi­
ficado de um' rito de passagem: carnaval (renascimento do
ano cristão), fertilidade da terra (rituais de agricultura), mo­
bilidade de um grupo de idade para outro (passagem da
adolescência para o mundo adulto). Esse domínio popular
era fechado sobre si mesmo, impondo barreiras à difusão
cultural; a comunidade ou a região era a sua fronteira. Ro-
bert Muchembled mostra que “além da comunidade rural
e do espaço que ela controla — aldeia, culturas e pradarias,
caminhos e florestas — começa uma zona de perigo cada
vez mais impositiva, na qual a cooperação não funciona
mais”35.. Esta predominância do local em detrimento do
universal não se manifestava somente junto aos enclaves
rurais; as corporações, no seio da ordem citadina, assegu­
ravam uma divisão multicelular, enfatizando o peso de cada
corpo profissional, e ao mesmo tempo separando-os uns
dos outros. Um sinal desse distanciamento pode ser en­
contrado nas festas patronais, celebrações que realimenta-
vam os laços de uma memória coletiva partilhada exclu­
sivamente por cada atividade específica. Não se deve esque­
cer de que as classes populares urbanas, ao contrário dos
mercadores, autoridades e intelectuais, viviam enclausura­
das nas cidades, reproduzindo um localismo voltado para
o interior de seus próprios muros. As manifestações da cul­
tura popular se assentavam ainda sobre uma solidariedade
coletiva, pois as instituições rurais se singularizavam através
das práticas comunitárias: propriedade comum (terras, flo­
restas, fornos para pão, prensas), serviços coletivos, reuniões
OS DOIS SÉCULOS XJX 33

periódicas (festas publicas, assembléias). Nas cidades, as ta­
vernas, os cabarés e os festejos religiosos reproduziam esse
mesmo tipo de sociabilidade.
Não se deve imaginar que as manifestações da cultura
popular tenham permanecido idênticas no decorrer dos
anos. Entre o século XVI e o XVIII, uma série de fatores
atuam conjuntamente, seja para sua manutenção ou mu­
dança. Entre os historiadores, as opiniões divergem quanto
à intensidade dessas interferências. Mandrou, por exemplo,
ao estudar a literatura de cordel, pensa que desde o seu
surgimento a imprensa teve uma influência considerável,
e negativa, sobre o imaginário popular36. Natalie Davis to­
ma posição inversa. Ela acredita que “os primeiros 120 anos
da imprensa na França, que trouxeram poucas mudanças
no interior do país, reforçou mais do que minou a vita­
lidade da cultura do povo; nas cidades, a organização po­
pular era suficientemente resistente para enfrentar a cor­
reção e a padronização vindas de cima”37. Porém, as dúvidas
se dirimem quando avançamos no tempo; há uma con­
cordância entre os autores, ao se considerar que uma rup­
tura se instaura em meados do século XVI, ou o mais tardar
no iniciado XVII. A Reforma e a Contra-Reforma cons­
tituiriam uma espécie de divisor de águas, uma vez que
a própria noção de sagrado é redefinida segundo outros
critérios. “Até a Reforma, o catolicismo não havia'deixado
de condenar seus desviantes, cátaros e vaidenses. Assim fa­
zendo, de alguma forma a Igreja definia o sagrado. Mas
a situação do baixo clero era tal, antes do ano 1520, que
nas paróquias rurais e urbanas nenhuma fronteira clara exis­
tia entre o profano e o sagrado. Na realidade, tudo podia
participar da segunda categoria, desde as cerimônias pascais
até a fustigação das imagens dos santos ou as refeições nos
cemitérios. A Reforma e a Contra-Reforma modificaram
esse estado de coisas. O sagrado foi definido como uma
34 RBNATO ORTIZ

categoria à parte, não mais devendo manchar o mundo
•profano. A ortodoxia livresca católica começou a ser apli­
cada na realidade”38. Dentro dessa perspectiva, a hierocracia
católica e protestante passa a administrar um conjunto de
regras e prescrições visando, senão a eliminação, pelo me­
nos o controle das crenças populares. As igrejas atuam co­
mo instâncias corretoras, procurando apagar os traços con­
siderados pelo clero como pagãos ou como sobrevivência
de superstições religiosas. Paralelamente à ação dessas ins­
tituições, o Estado irá também reforçar o movimento de
disciplinarização das condutas. Inúmeras festas e diverti­
mentos populares, mas sobretudo aqueles considerados co­
mo explosivos, perigosos (carnaval, charivari , na Inglaterra
os jogos de futebol) e que, E.P. Thompson diria, mani­
festam uma consciência pré-política das classes populares,
são colocados sob vigilância39.
Apesar das restrições que o Estado e a Igreja impõem,
em que medida a cultura tradicional entra realmente em
declínio até o final do século XVIII? Creio que a tese de
Keith Thomas sobre o fim da magia nos auxilia a esclarecer
este ponto. Seu argumento principal consiste em apresentar
o recuo das crenças mágicas não como decorrência da di­
fusão das conquistas tecnológicas ou científicas, que na
época eram negligenciáveis, mas devido a uma mudança
de mentalidade. Na verdade, a magia teria perdido terreno
antes que as soluções técnicas tivessem uma influência prá­
tica mais abrangente. Dito de outra forma, men em anei -
pa ted themselves from those m agicai beliefi without necessarily
having deviscd any effective tecnology. with wich to replace
them*. A interpretação proposta sugere que tenha ocorrido

* "Os homens emanciparam-se das crenças mágicas sem que tivessem in­
ventado qualquer tecnologia efetiva para substituí-las”. Keith Thomas, Re-
ligion and dcclinc o f magic, London, Gardeii City Press, 1971, p. 663.
OS DOIS SÉCULOS XIX 35

durante o Século das Luzes uma reforma intelectual que
caminharia na direção de um desencantamento das cons­
ciências. O Iluminismo, enquanto ele mentõ^pro motor da
racionalidade, seria a antítese da irracionalidade das práticas
populares. Por isso na Inglaterra, a partir de 1736, não
mais existem processos formais contra a feitiçaria, pois os
homens educados que controlavam a máquina judiciária
deixam de acreditar na substância da própria matéria que
estava sendo julgada. O ceticismo crescente impede, dessa
forma, a formulação jurídica da ofensa; os casos de feitiçaria
deixam de ser considerados como crime, para serem tra­
tados como ilusões derivadas da ignorância do povo. Não
tenho duvidas de que o movimento de racionalização da
sociedade tem implicações sobre a objetividade das crenças
mágicas (embora isto necessariamente não leve a seu de­
saparecimento). Mas não se pode perder dc vista que não
existe um Iluminismo das massas: quando Keith Thomas
fala no declínio da magia, ele está se referindo à regressão
da consciência mágica de uma elite. Podemos dizer que
este racionalismo é dominante, no sentido de que "faz”
a história do mundo ocidental, mas ele é certamente mi­
noritário e inexpressivo diante do conjunto da população.
Isto significa, como pondera Paul Gerbod, que a cultura
popular é ainda forte no início do século XIX; Maurice
Agulhou poderá inclusive retraçar sua importância até os
eventos de 184840.
Penso que a temática do fim da cultura popular é espe­
cífica ao século XIX. Ela não se encontra inteiramente ex­
plicitada nos escritos dos românticos, que pensam ser ainda
possível construir uma ponte em direção ao passado. Os
irmãos Grimm, na Alemanha, ao idealizarem a existência
de uma poesia popular, acreditavam na sua materialidade,
integrando-a ao discurso ideológico sobre a questão po­
36 RENATO ORTIZ

pular; para eles, bastaria uma postura simpática de inte­
lectualidade em relação ao povo, para que um tesouro
escondido pudesse exprimir os anseios de uma cultura na­
cional. Neste sentido, o passado não é simples nostalgia,
mas uma atualização presente, um reservatório de forças
para se edificar o futuro. Esta é a motivação, que leva os
românticos a coletar “fidedignamente” as histórias contadas
através da boca do povo; testemunhas do passado, elas en­
cerram em seu enunciado uma esperança de futuro. O mo­
vimento folclorista, que surge anos depois, apesar de sua
idealização das riquezas da “alma popular”, principalmente
nos países centrais como Inglaterra e França, perde este
traço específico. As transformações estruturais pelas quais
passa a sociedade induzem ao desaparecimento de toda uma
cultura tradicional; a própria idéia de sociabilidade coletiva
entra em crise. Um exemplo, as assembléias de jovens que
informalmente agrupavam os homens de uma aldeia. “M al­
vistas pelo padre e pela comunidade de habitantes, cada
vez mais limitadas à preparação da quermesse anual, essas
assembléias de jovens, em certas regiões, não deixaram de
desenvolver o embrião de uma cultura específica, expres­
sando-se nas danças e nas práticas ritualísticas algumas vezes
contestatárias (charivaris) y práticas existentes por um longo
tempo, apesar das proibições eclesiásticas. Está sociabilidade
de juventude perdeu sua importância, durante a primeira
metade do século XIX com a intensificação das migrações
sazonais, depois o êxodo rural, com a atração crescente
exercida pelos novos modelos culturais difundidos pelas ci­
dades e com a desagregação da antiga homogeneidade re­
lativa à classe de idade, provocada pela acentuação dos con­
trastes sociais41”. O mesmo pode ser dito em relação às
festas públicas. Durante o século XVIII contava-se em Paris
pelo menos 32 festas por ano (não incluindo os domingos).
OS DOIS SÉCULOS XIX 37

Em Marselha, um dia em cada dez havia procissão. O go­
verno revolucionário, e o processo de secularização que se
acelera a partir de então, irá reverter este quadro de piedade
religiosa, precipitando o fim desta sociabilidade festiva*.
Diante da progressão dos acontecimentos, os folcloris-
tas devem rever a inclinação romântica que lhes animava.
Escrevendo bem mais tarde, Gaidoz dirá que “a França
foi o último país da Europa a abordar o estudo e a pu­
blicação das poesias populares”42, eles se agrupam em tomo
de revistas especializadaa-tomo M êlusine (1878), Revista das
Tradições Populares (1886) e A Tradição (1887). Porém,
a conceituação “científica" (e não mais política ou estética
como outrora) do folclore enquanto “sobrevivência da tra­
dição nas sociedades modernas" altera a maneira de eles
se relacionarem com a cultura popular43. Os folcloristas
criam os museus de tradições populares com o intuito de
“salvar" os resquícios de uma época primeva. Mas, assim
fazendo, eles se contentam em mirar “a beleza do morto”44,
pois seu objeto de estudo é o passado em vias de extinção.
Andrew Lang, um dos fundadores da Falkiore Society
(1878), já dizia que “as relíquias de um pensamento pri­
mitivo estavam morrendo na Europa”45; e Colchiara, quan­
do faz o elogio do folclorista italiano Pitrè, reconhece o
mesmo estado de coisas: “compilando seus dados, Pitrè ti­
nha um único objetivo: procurar pela história do folclore
onde ninguém havia procurado. Era necessário salvar na
Sicília uma herança que estava desaparecendo: a herança
do povo”46. Um testemunho pungente, que revela a nos­
talgia da tradição perdida, é o de Sebillot; escrevendo já

* Existe da parte do Estado, tanto na Revolução quanto na Terceira Re­
pública, uma tentativa de se apropriar deste espírito festivo da população
canalizando-o para celebrações políticas do tipo profano. Porém, poucas
dessas tentativas tiveram êxito.
38 RENATO ORTJZ

no século XX, ele rememora a idade de ouro das pesquisas
folclóricas, momento em que “os pesquisadores puderam
explorar e recolher o tesouro maravilhoso da alma popular,
interrogando as pessoas que contavam o que elas haviam
aprendido das gerações passadas. As tradições ancestrais
eram perpetuadas e transmitidas oralmente, algumas depois
de milhares de anos, junto aos camponeses, que até lá ti­
nham vivido isolados do resto do mundo, habitando, de
século em século, a mesma aldeia ou o mesmo condado.
Elas estavam inscritas na memória fiel, como um disco vir­
gem; nenhuma outra leitura tinha podido transformá-la.
Elas ainda estavam intatas, precisas, vivas. Depois — cons­
tatemos sem deplorar — veio a escola obrigatória, os des­
locamentos fáceis, a diminuição da fé religiosa e seu co­
rolário: o ceticismo em relação às numerosas crenças po­
pulares”4-.
Uma reflexão sobre as culturas tradicionais pode ser
empreendida sob vários ângulos, mas existe um aspecto que
me parece- importante sublinhar: a constituição do Estado
francês. Não me refiro tanto ao Estado na sua acepção
de máquina político-administrativa, instituição que detém
o monopólio da violência sobre um território determinado.
Entendida desta maneira, a origéín do Estado francês é
antiga; a aristocracia assegurava com mão forte o Estado
clássico. Suas fronteiras estavam garantidas. Interessa-me
chamar atenção para a formação da nação francesa, en­
tendendo por este conceito um espaço integrado a um po­
der central, mas articulando, como diria Mauss, uma “uni­
dade mental e cultural dos habitantes que conscientemente
aderem às leis do Estado”48. Neste caso, não é a violência
ou a coerção administrativa do poder real que importa.
A constituição da nação requer a emergência de uma cons­
ciência que solde os franceses no interior de um mesmo
OS DOIS SÉCULOS XIX 39

território. Neste sentido, a consolidação de uma memória
coletiva nacional é um produto recente da História. O pri­
meiro desafio que o Estado-nação enfrenta diz respeito a
sua unidade lingüística; a realização de sua organicidade
implica uma luta sistemática contra os dialetos regionais.
Ora, até a Revolução, este processo de unificação da língua
nao se havia completado. Pierre Bourdieu entçnde o con­
flito entre a intelligentsia revolucionária e os idiomas locais
não apenas como ruídos de comunicação (os éditos revo­
lucionários deveriam em princípio ser compreendidos por
todos)4‘; . Trata-se na verdade de um desencontro de estru­
turas mentais diversas, que se exprimiam através de códigos
linguísticos diferentes. É necessária a imposição de uma
língua legítima sobre as falas locais; o “todo” encontrava-se
fraturado pela existência de culturas “parciais-. No entanto,
como mostra Eugen Webere, até meados do século XIX
a França era “uma profusão de línguas”; “de acordo com
os dados oficiais, em 1863, 8 381 das 37 610 comunas
nao falavam francês: cerca de um quarto da população
do país. O Ministério da Instrução Pública descobriu que
448 328 escolares, com idade entre 7 e 13 anos, não fa­
lavam francês, outros 1 490 269 falavam e entendiam mas
não conseguiam escrevê-lo, sugerindo assim um alcance in­
diferenciado da língua. Resumindo, o francês era uma lín­
gua estrangeira para um número considerável de france­
ses”50. O Estado deve portanto tomar medidas decisivas
para promover a integração nacional: a escola é a instituição
que sintetiza este esforço. Ao tornar obrigatório o ensino
primário e difundir o sistema educacional em todo o país,
o braço do Estado consegue chegar ao mais longínquo rin­
cão. Mas a escola não é somente um elemento de padro­
nização lingüística. Ela ensina, sobretudo ao camponês,
“maneiras, moralidade, alfabetização, um conhecimento da
40 HENATO ORTIZ

França e um sentido das estruturas legais e institucionais
.que transcendem o limite da comunidade”51. Colocado em
outros termos, ela traz a “civilização” às partes distantes
do centro, iluminando o lado “obscuro” desta França pré-
moderna. Com a reforma do ensino, sobretudo a partir
de 1880, o imperativo de levar os ideais da República às
aldeias se acelera e, à medida que o camponês se transforma
em francês, sua cultura tradicional cede lugar a uma cultura
nacional.
Quando Jean Jacques Darmond estuda o refluxo da
literatura de cordel entre 1852 e 1870, ele aponta para
alguns aspectos modais que este período conhece: a pe­
netração das livrarias nas cidades do interior; o baratea­
mento das edições populares; o surgimento de uma im­
prensa de massa; a melhoria do serviço ferroviário ligando
o campo à cidade. Sua conclusão é sugestiva. Esta literatura
tradicional, “superada pelos transportes rápidos e pelas tro­
cas aceleradas que eles permitem, desprezada por um nú­
mero crescente de leitores que a escola primária havia tor­
nado permeáveis à cultura popular citadina, não fisgava
mais o seu tempo. Seu desaparecimento, por ter sido pre­
parado por um conjunto de causas conjunturais, era antes
de mais nada um fato de civilização”52. Mas o que carac­
teriza esta “cultura popular citadina”? Maurice Crubellier
dirá que ele não é “nem o folclore nem a moral da escola”53;
trata-se de um universo cultural que se afasta da tradição
e da cultura consagrada pelas instituições legítimas (escolas,
museus, salões de arte etc.). Uma cultura “média”, que se
manifesta nos folhetins, notícias diversas, moda, publici­
dade, cinema e se assenta em outros critérios de produção
e de difusão. O mercado é o espaço de sua expressão. Neste
sentido, ela rompe com o localismo das tradições populares;
as barreiras que existem entre capital e província, ou entre
OS DOIS SÉCULOS'XIX 41

regiões diferentes, cedem lugar a um nivelamento cultural,
que nao somente manifesta o resultado de uma vontade
política, mas encontra sua razão de ser na própria idéia
de mercado. Esta cultura “média”, ao tornar-se “universal”
(nacional, e como veremos, internacional), articula-se assim
ao processo de modernização da sociedade: sua evolução
encontra-se associada ao compasso do desenvolvimento
francês.
O exemplo da imprensa e da edição são ilustrativos*
seu crescimento se faz ao longo do século associado a di­
versos fatores; um deles, o aumento do publico leitor, li­
ga-se diretamente ao progresso da alfabetização. Se no sé­
culo XVIII o numero de pessoas alfabetizadas é de 30 por
cento (o que em si nao é negligenciável), em 1860 ele passa
para y >0 por cento, e em 1890 atinge 90 por cento. A
população das escolas primárias aumenta de 1939 milhões
de alunos em 1832 para 5526 milhões em 1886. Pode-se
ter uma idéia deste formidável avanço dos efetivos escolares
quando se compara esses numeros com a população total
em idade escolar. Das crianças entre 5 e 15 anos, em 1850,
47,5 por cento freqüentam a escola; em 1867, temos 70,4
por cento; e em 1896, 93,5 por cento54. A partir da Ter­
ceira República, a política educacional torna-se mais agres­
siva; com a expansão do ensino secundário, uma segunda
escolarização se consolida. No final do século praticamente
todo francês é um leitor em potencial.
Ao lado deste movimento, temos um barateamento
crescente no preço dos impressos. Em 1795 o valor da
assinatura anual de um jornal equivalia a seiscentas horas
de trabalho de um trabalhador rural nao qualificado; em
1851 esta relação cai para 210 horas, e em 1910 para 73
horas55. Dentro dessas condições, a indústria tipográfica é
redimensionada; basta olharmos as tiragens dos jornais e
o número de livros publicados56:
42 RENATO O RTIZ

Tiragem Jornais da Capital N.° Títulos Publicados no País
(diários)

1803 36 000 1815 3 357
1836 69 263 1847 5 530
1846 144 438 1860 11 905
1870 1 070 000 1865 14 195
1880 1 947 000 1885 12 342
1910 4 937 000 1913 14 460

No caso da edição existem alguns pontos de flutuação.
Martin Lyons observa que “a produção total baixa brus­
camente durante os períodos de crises econômicas: 1827,
1830, o ano da Revolução e da epidemia de cólera, 1846
e 1847, com o marasmo que antecede a Revolução de
1848. A produção decresce para depois se acelerar no Se­
gundo Império, atingindo então 12 mil títulos por ano,
estabilizando-se entre 13 mil e 14 mil títulos até o final
do século XIX”57. A indústria editorial oscila portanto no
ritmo da economia francesa. Trata-se entretanto de osci­
lações conjunturais; nos interessa retomar a discussão an­
terior sobre os cortes estruturais que os economistas e os
historiadores da técnica se referiam. Em que medida eles
ajustam ou limitam os meios sobre os quais o impresso
se sustenta?
.Em comparação ao Antigo Regime, tanto a imprensa
quanto a edição conhecem no início do XIX um cresci­
mento real. Antes de 1810 a França publicava em média
mil obras por ano; sob a Restauração, a produção. anual
varia entre 3 mil e 7 mil títulos58. Também a tiragem dos
jornais aumenta55:
OS DOIS SÉCULOS XJX 43

Cinco Maiores Jornais
1810 1840
Gazette de France 5 Í50 Siècle 33 366
J o u rn a l du So ir 4 060 Journal des Débats 10 583
C ourrier du Commerce 3 350 La Presse 10 106
J o u rn a l du Commerce 3 000 Constitutionnel 5 944
Le Publiciste 2 750 Gazette de France 5 165

Um conjunto de variáveis toma esta expansão possível.
Evidentemente, as inovações técnicas impulsionam o pro­
cesso de fabricação; a prensa Stanhope (1795), introduzida
na França em 1814, vem substituir a antiga prensa de ma­
neira que, com poucas modificações, permanecia quase
idêntica à dos tempos de Guttemberg. Em 1811, Koenig
inventa sua./prensa rotativa, que acoplada à energia a vapor
substitui força humana; a tiragem tecnicamente possível,
que era de 150 folhas (retro-verso) em 1795, passa para
mil folhas por hora. Introduzida na França em 1823, ela
acelera a produtividade dos jornais que passam a competir
com os diários ingleses. Em 1825, Le C onstitutionnel possui
16 mil assinantes, o Journal des Débats, 15 mil, contra 10
mil do Times e 8 mil do Herald Tribune60. Ao lado dessas
aquisições de natureza técnica existem outras. Surge du­
rante a Restauração o gabinete de leitura, local onde se
alugam livros e jornais. O público leitor tem agora a opor­
tunidade de tomar contato com o mundo da escrita por
um preço bem abaixo das assinaturas dos periódicos ou
do valor dos livros no mercado. No ramo editorial apa­
recem também mudanças significativas. Em Paris, o nú­
mero de livrarias que era de 373 em 1815 passa para 943
em 1845, crescimento superior ao da própria população
da cidade; por outro lado, a introdução da venda por “co­
missão” irá possibilitar a difusão dos livros de forma mais
44 RENATO O RTIZ

eficaz01. Pode-se ter uma idéia dessas transformações quan­
do se analisa o papel da publicidade. A prática entre os
editores era de anunciar seus livros nos catálogos enviados
aos comerciantes. O leitor fazia sua escolha através do re­
lacionamento pessoal com o livreiro, único elemento que
reunia as informações sobre o leque de opções disponíveis.
O catálogo era a mediação entre o ato de compra e venda.
O aumento do público leva os editores a anunciarem seus
livros nos periódicos; eles passam a se dirigir às pessoas
sem mais ter de utilizar um intermediário. “A partir de
então, as condições do mercado invertem um processo se­
cular: o público deve decidir diretamente suas compras,
sem a solicitação necessária da parte do livreiro varejista;
ele deve, portanto, por um lado ser informado diretamente,
por outro, reconhecer e encontrar sem dificuldade o’ livro
que procura”62. A publicidade torna-se o meio através do
qual a comunicação se instaura, mas ela indica também
que as condições de mercado mudam radicalmente a re­
lação entre editor/autor e público; o que é oferecido ao
leitor deve ser facilmente reconhecido, tipificado, favore­
cendo o florescimento de uma literatura popular, “indus­
trial”, dirá Sainte-Beuve. Não é por acaso que o período
em questão vê surgir uma série de livros com características
fortemente “populares”. Basta folhearmos as listas de best­
sellers da época para encontrarmos os romances de aventura
de Walter Scott (Ivanboé ; Roy Roy), de Defoe (.Aventuras
de Robinson C rusoé) ; os escritos românticos de Victor Hu­
go (Notre Dame de Paris)] a literatura sentimental de Eu­
gène Sue {O ju deu errante ; Os mistérios de Paris).
No entanto, é necessário ter claro que o crescimento
da imprensa e da edição se faz dentro de limites precisos.
A evolução dos títulos publicados no período c a seguinte:
1820: 4 881; 1828: 7 616; 1847: 5 330. Como observa
Orecchioni, “contrariamente ao que se poderia supor o de­
OS DOIS SÉCULOS XIX 45

senvolvimento da instrução pública e sobretudo o progresso
das técnicas liçadas à indústria do livro, o número de títulos
publicados entre 1814 e 1848 não aumenta de modo con­
siderável nem de maneira regular”63. O quadro dos roman­
ces publicados reforça este ponto de vista64.

Tiragem Média Romances N? Romances Novos
1816 1 090 1830 245
1820 1 312 1831 280
1824 1 095 1832 290
1829 1 460 1838 385
1833 1 010 1846/48 245

Se é verdade que o romantismo usufrui das novas con­
d ir e s existentes, somos obrigados a admitir que sua po­
tencialidade mercadológica se defronta com fronteiras bas­
tante rígidas. Evidentemente os best-sellers existem (entre
1846 e 1850 são publicados algo em torno de 24 mil exem­
plares de Os três mosqueteiros ), porém a tiragem média dos
romances é pequena e o número de lançamentos no mer­
cado mais ou menos estável. O mesmo pode ser dito em
relação à imprensa. Percebe-se um fenômeno de estabili­
zação das tiragens semelhante ao que.se nota na indústria
editorial65:

Cinco Maiores Jornais
1852 1863
Constitutionnel 42611 Siècle 31 000
Siècle 20 937 Patrie 21 000
Presse 18 000 Opinion 20 000
Patrie 17 200 Constitutionnel 18 902
Pays 13 800 Presse 18 675
46 RENATO ORTIZ

Um dos fatores que certamente dificulta a expansão
dos jornais é o fato de eles serem vendidos por assinaturas,
encarecendo o seu preço. Mas o aumento do público leitor
encontra-se também pressionado pelo papel ambíguo dos
gabinetes de leitura. Françoise Parent-Lardeur mostra como
esses espaços não eram exclusivamente dedicados à leitura66;
seus donos se voltavam para a edição e venda de livros.
Os gabinetes dc leitura faziam na verdade parte do circuito
de produção e de difusão do livro. Se, por um lado, eles
favoreciam a leitura, por outro freavam o progresso da edi­
ção. O pequeno monopólio que seus proprietários deti­
nham, de difundir o produto junto ao consumidor, fazia
com que eles tivessem pouco interesse em ver baixar o seu
preço.
Um estudo de Gilles Feyel sobre a difusão dos jornais
parisienses na França de 1832 aponta os obstáculos que
a imprensa enfrentava67. A distribuição se fazia pelo correio,
o que de imediato colocava um problema: no início da
Monarquia de Julho, boa parte das comunas rurais não
tinham sequer um estabelecimento postal. As centrais, que
congregavam o núcleo dos serviços, eram poucas, o que
fez com que se desenvolvesse em várias localidades os “escri­
tórios de distribuição” dirigidos pelos receptores. Mesmo
assim, o resultado não era encorajador. Um exemplo, o
posto de Chartres (formado por 75 comunidades e uma
população de 52 979 pessoas), considerado como grande,
atendia somente a 18 por cento das comunidades e 20
por cento da população do departamento. Feyel procura
ainda estimar a velocidade desta difusão. Os transportes
disponíveis na época, as malas-postais, certamente os mais
velozes, eram de dois tipos: os que transportavam junto
com o correio três a quatro passageiros, atingindo uma ve­
locidade de 14 quilômetros por hora; as malas-estafetas,
que além das cartas carregavam até dois viajantes, com uma
OS DOIS SÉCULOS XIX 47

velocidade máxima de 17 quilômetros por hora. Traçan­
do-se um círculo a partir de Paris, temos o seguinte.quadro:
até 250 quilômetros, o correio chegava no dia seguinte;
até 400, demorava dois dias; depois de 400 quilômetros
o tempo de espera era superior a quatro dias. Trata-se evi­
dentemente de um cálculo ideal. Os assinantes que viviam
nas regiões montanhosas (Maciço Central, Pireneus, Alpes)
tinham de se conformar a uma espera maior. O resultado
da pesquisa dc Feyel é interessante, ele mostra que a taxa.
nacional de penetraçáo dos jornais parisienses é de 1,57
diários por mil habitantes. Ela varia entre um máximo de
3,65 na região do Rhône e um mínimo de 0,61 em Ariège.
Ou seja, a imprensa de fato não possuía nenhuma implan­
tação nacional.
Roger Chartier considera que o “antigo regime tipo­
gráfico” teria durado até 183068. Tomada ao pé da letra,
CT^observação pode parecer excessiva, afinal algumas mo­
dificações substanciais se fazem durante a Restauração. Ela
encerra no entanto uma boa dose de veracidade. A primeira
metade do século XIX é um momento de transição, con­
gregando elementos novos ao lado de uma herança do pas­
sado. Não há dúvidas de que a indústria editorial cresce.
O número de operários do setor era de 1 698 pessoas em
1764, passando para 12 238 em 1848, mas a mecanização
do processo de fabricação do livro atinge uma minoria de
empresas. Ainda em 1861, para os 74 departamentos da
França, nos 684 ateliês existentes havia somente 117 má­
quinas a vapor, uma máquina, em média, para seis ateliês.
Porém, 44 departamentos, 60 por cento do total, não pos­
suíam nenhuma máquina a vapor69. Creio que Frédéric
Barbier, ao retomar a idéia de limite estrutural de um sis­
tema técnico, apreende de maneira interessante a questão
que estamos discutindo70. Realmente, a estrutura do ramo
editorial contém alguns pontos de estrangulamento. Pri­
48 RENATO ORTIZ

meiro, a difusão é precária, o que explica a baixa dragem
dos livros franceses; ela depende dos meios de comuni­
cação, principalmente de uma rede ferroviária que é ainda
incipiente. O exemplo das livrarias de estação é sugestivo.
Desde 1852 a Editora Hachette vinha explorando uma rede
de livrarias junto às estações de trem. Com a finalidade
de tornar as viagens “menos monótonas”, Louis Hachette
inaugura na França uma “literatura de estradas de ferro”,
oferecendo aos passageiros uma leitura de fácil digestão.
Porem como observa Jcan Mistler, os negócios demoram
para deslanchar. “O início da empresa foi difícil: em 1861,
das 162 bibliotecas existentes, oito somente possuíam uma
renda que ultrapassava 30 francos, enquanto quinze faziam
mais ou menos 4 francos por dia, 22 menos de 3 francos,
e 37 menos de 2 francos. Elas seriam absolutamente inex-
ploráveis não fosse a maioria dos gerentes mulheres ou viu­
vas dos funcionários da rede, esta ocupação representando
para elas um modesto complemento de suas pensões ou
salários de seus maridos71”. Segundo, a mecanização das
gráficas contava com a necessidade de se ter um local apro­
priado para. isso, e demandava um investimento importan­
te. Ora, a maioria dos editores-livreiros eram pequenos em­
presários com pouca capacidade financeira. A tecnologia
disponível se encontrava assim bloqueada. Poderíamos dizer
que ela inclusive precipita a crise deste sistema técnico. Por
exemplo, a utilização das prensas à reação de Marinoni, in­
troduzidas pela primeira no La Presse em 1847, permitiam
uma tiragem de 16 mil jornais por hora. Porém, esta po­
tencialidade técnica esbarrava nás limitações de unia compo­
sição manual que já não mais conseguia seguir o ritmo da
produção. Para manter a cadência industrial era necessário que
nossas técnicas interviessem no processo, problema que será
resolvido somente com a invenção do linotipo.
A entrada no “segundo século XIX” modifica este pa­
norama. Um primeiro ponto a ser observado: a raciona-
OS DOIS SÉCULOS XIX 49

lização das atividades editoriais. Até então, as profissões de
impressor, editor e livreiro eram mais ou menos superpos­
tas. Os proprietários dos gabinetes de leitura acrescentavam
a essas três dimensões uma outra: a leitura. Uma livraria
tradicional mobilizava pequenas somas de capital para pro­
duzir e comercializar um livro. Essa confusão de papéis
começa a ser reformulada a partir das exigências do mer­
cado. Surgem assim as grandes usinas do livfo — Paul
Dupont, em Paris; Manne, em Tours; Creté, em Corbeil
—, cuja finalidade é basicamente imprimir72. Também na
área da imprensa a especialização das funções ganha ter­
reno. Como observam Louis Charlet e Robert Lang, “no
fim do Segundo Império, a maioria dos jornais não era
ainda proprietária de seu material gráfico. Havia para isso
várias razões, primeiro a existência de uma licença de im­
pressor, criada sob o Primeiro Império e suprimida somente
„_çm 1870, constituía obstáculo para a criação de uma gráfica
para jornais; por outro lado, a importância do jornal, e
em conseqüência o material necessário para imprimi-lo, não
justificava a criação de uma gráfica especializada. Os jornais
eram clientes das gráficas cuja exploração se fazia comple­
tamente separada deles”73. As inovações técnicas, criando
máquinas impressoras específicas para jornais, impõem uma
segmentação no interior da própria atividade de impressão.
Paralelamente, a conjunção edítor/livreiro irá se cindir. A
edição, ao se tornar um empreendimento lucrativo e in­
dustrial, faz com que o editor se especialize na compra
dos manuscritos e no processamento dos livros; cabe às
livrarias somente a distribuição do produto7! Algumas
grandes casas editoriais, como Hachette, Garnier, Calman-
Lévy, Charpentier, possuem pontos-de-venda, mas isto é
um elemento secundário dentro da perspectiva global de
seus cálculos empresariais. Ocorre ainda uma segmentação
do mercado, Dallozz ocupando-se da área jurídica, Ballière
de medicina, Hachette do livro escolar.
50 RENATO ORTIZ

O comércio do livro configura assim um potente ramo
.industrial, requerendo para isso a aplicação de maiores re­
cursos. É fácil perceber o crescimento da rentabilidade do
setor. A Editora Hachette tinha em 1860 um volume de
negócios avaliado em torno de 4,5 milhões de francos; em
1878 ele sobe para 18 milhões, para em 1913 atingir o
patamar de 58 milhões de francos75. Os editores sao, agora,
sobretudo homens de negócio, e devem se inserir dentro
do espectro mais geral das estratégias políticas e financeiras
do empresariado francês. A aproximação entre capital 'e
mundo editorial também se manifesta na imprensa. Desde
os anos 60 os financistas começam a comprar vários jornais
para a defesa de seus interesses: “Moriès possui Le Com-
titutionnel e Le Pays, isto é, dois dos três jornais impe­
rialistas. Os Rothshild passam a sustentar o Le Journal des
Débats; La Patrie ê ligada aos meios de negócios, para não
dizer à especulação”76. Mas nao se trata simplesmente de
uma relação que se estabelece no nível ideológico; para ser
rentável, um jornal requer um investimento considerável;
capital e edição sao doravante partes de uma mesma en­
grenagem.
A, melhoria e a extensão dos serviços ferroviários per­
mitirá ainda uma distribuição mais rápida dos impressos.
Pode-se ter uma idéia deste movimento analisando-se a
venda de livros e jornais nas livrarias das estações (total
em francos)77:

Ano Livros Jornais
1853 65 536F 16 440F
1860 487 467F 172 625F
1865 572 446F 688 329F
1886 1 345 000F 4 400 OOOF
1900 1 494 000F 5 736 OOOF
OS DOIS SÉCULOS XIX 51

Os números certamente indicam a lucratividade da Ha-
chette, que neste período detém o monopólio dos pon-
tos-de-venda nas estações. Mas eles mostram também uma
difusão da leitura, sublinhando a importância que os gran­
des espaços públicos colocam à disposição da indústria e
do consumo {publicidade e distribuidores de baias e cho­
colates). O ano de 1865 marca uma virada importante.
A partir desta data a venda dos jornais é superior à dos
livros. Dado que aponta para a penetração de uma im­
prensa de massa que surge com a criação da petite pre$st>
diários voltados para reportagens sobre crimes, notícias, fo­
lhetins etc. Em 1866 le Petit Journal tira 280 mil exem­
plares, La Petite Pressey 96 mil, e Le Petit M oniteur ; 149
mil. Esses números só irão aumentar até o final do século.
Em 1908, Le Petit Journal tem uma edição de 875 mil
exemplares e Le Petit Parisien , de 1 325 milhões. Não se
trata porém de. periódicos que se limitam a falar para a
região parisiense; distribuídos nacionalmente, as empresas
começam a ter seus próprios serviços de distribuição (o
que é facilitado com a aparição do automóvel), eles atingem
o território francês como um todo, revertendo o quadro
visto anteriormente. Um exemplo: Le Petit ParisÍenn .

Ano Exemplares Vendidos Exemplares Vendidos
em Paris no interior
1879 17 428 6 140
1886 65 399 65 317
1890 125 986 158 205
1900 266 339 418 213
1910 313 642 811 029
* A petite presse recebeu este nome devido ao formato reduzido de seus
jornais. Sendo uma imprensa não política, beneficiava-se de condições par­
ticulares. Não sofria censura e utilizava os meios de transporte sem pagar
as taxas de correio. De fato, o Império privilegia abertamente este tipo
de imprensa em detrimento de um jornalismo político.
52 RENATO ORTIZ

O período entre 1880 e 1914 tem muitas vezes sido
imaginado como uma Belie Epoque. A denominação em
si é sugestiva. Cunhada já no século XX, quando a França
conhece uma crise econômica e enfrenta as lembranças re­
centes da Primeira Grande Guerra, ela encerra uma co­
notação nostálgica, algo como um passado áureo perdido
para sempre. A Belle Epoque seria o refluxo de uma época,
seus excessos expressariam o fim de uma civilização. Em­
bora o termo não existisse, muitos de seus contemporâneos
partilhavam esta sensação de desconforto; eles certamente
nao entendiam, como os que vieram depois, que estavam
vivendo uma idade de ouro; pelo contrário, a ênfase co­
locada na situação de crise lhes impedia antecipar tal pers­
pectiva. Porém, a idéia de declínio lhes era comum. Dur-
kheim acreditava sinceramente que a sociedade francesa
passava por uma profunda crise moral, e em toda a sua
obra sociológica ele busca responder a esta questão. A der­
rota da França diante da Alemanha, a Comuna de Paris,
a divisão de trabalho nas indústrias, o conflito entre em­
presariado e classe operária eram para ele indícios sólidos
de que a sociedade se desintegrava em seu núcleo. As an­
tigas formas de solidariedade tinham no entanto ruído, e
a religião não mais possuía a força de aproximar os homens.
Por isto esta sociedade “doente” (com suas anomias que
começavam a extrapolar as “taxas normais” de tolerância
— suicídios, crimes, divórcios) só poderia se reencontar
se uma nova moralidade florescesse. A problemática da crise
da sociedade francesa é ampla, e não interessa apenas ao
sociólogo; dela participam políticos e literatos das diversas
tendências. Embora a decadência tenha sido umà preocu­
pação que anima sobretudo as idéias do campo conser­
vador, cabe lembrar que ela penetra inclusive junto à li­
teratura de “esquerda”. Zola, durante o caso Dreyfus, não
deixa de denunciar que o anti-semitismo presente seria um
OS DOIS SÉCULOS XÍX 53

retorno à intolerância da Idade Média, sugerindo uma
aproximação da história, recorrente entre os pensadores de-
cadentistas. Para esses, não havia dúvidas, a degenerescência
da França era um fato palpável e irreversível. Descenso que
se articulava no plano mais genérico com a decadência do
mundo ocidental e da civilização industrial, destruidora dos
valores tradicionais, distante da natureza, portadora de pe­
rigos.
Ao tratarmos este período como uma segunda moder­
nidade, estamos de alguma forma invertendo esta visão fi­
nalista da história. Nao pretendo negar o “declínio” da
França como nação, o que prefiro entender como uma mu­
dança de sua posição de poder no contexto das sociedades
européias (Inglaterra, Alemanha) e americana (Estados Uni­
dos); mas creío que se pode divisar a Belle Epoque com
outros olhos. Afinal, este é o momento em que a França
torna-se uma sociedade moderna. Período no qual se con­
solida uma imprensa de massa, uma literatura popular, e
emerge uma cultura de entretenimento que se consubstan­
cia no cinema, nos cafés-concertos, no show business. O
cinematógrafo inaugura com ele uma nova estética, que,
a partir de 1908, se expressa nos filmes de Fantomas, Nick
Cárter, os melodramas folhetinescos, e claro, as películas
americanas que começam a invadir o mercado francês. Ou­
tros temas surgem ainda neste final de século,/‘conforto”,
“turismo”, “informação”; aos poucos eles se constituem em
elementos-chaves da própria organização cultural e material
da sociedade. Não seria a decantada alegria e despreocu­
pação dessa época um sinal de que a ética, em relação ao
trabalho e à vida, começa a se transformar? Certamente
não seria correto imaginarmos na França a existência de
uma cultura de massa ou de uma indústria cultural nesse
período. As mudanças apontadas, com exceção talvez da
leitura, se confinavam a alguns grupos sociais, excluindo
54 RENATO ORTIZ

uma maioria de “consumidores'’ potenciais, os operários
e camponeses. Entretanto, em linguagem gramsciana, eu
diria, esta modernidade é concreta mas não se impõe ainda
como hegemônica. Neste sentido, a Belle Époque não é um
refluxo, ela porta os germes de uma outra civilização, ela
é o seu início e contém as esperanças e as decepções que
irão explodir nos tempos “pós-modernos”.
NOTAS

1. Ver o livro de Maxime Berg, La era de las manufacturas. Barcelona,
Ed. Crítica, 1987, que nuança as interpretações teleoîogicas sobre a Re­
volução Industrial, mostrando que ao lado do .avanço tecnológico e eco­
nômico subsistem, até o início do século, as formas tradicionais da indústria
inglesa.
2. Ver Rondo Cameron, Francia y dcsarollo económico de la Europa: 1880-
19 14 , Madri, Tecnos, 1961; David Landes, The unboundpromctcus: Tec-
nological change and industrial development in western Europe from 17 5 0
to the présent, Cambridge, 1969.
3. Adeline Daumard, “A evolução das estruturas sociais na França na época
da industrialização” in Hierarquia e riqueza na sociedade burguesa, SP, Pers­
pectiva, 1983.
4. Consultar Henri Morsel, “Les grands rythmes économiques du XIX
siècle” in Yves Lequin (org.) Histoire des Français XIXe-XXe siècles, Paris,
Armand Colin, 1983; para uma comparação com a Inglaterra, ver Carlo
Cipolla, História econômica de lapoblaciôn mundial, Barcelona, Ed. Crítica,
1983, e Eric Hobsbawm As revoluções burguesas, RJ, Paz e Terra.
5. Philippe Ariès, Histoire des populations françaises, Paris, Seuil, 1971, p.
279.
6. Maurice Garden, “De l’Ancien Régime au XXe siècle: une vision ca­
valière” e “La mesure du malthusianisme français” in Histoire des Français...,
op. cit. Uma comparação entre o crescimento populacional na França e
na Inglaterra pode ser encontrada em Philippe Ariès, “Populations anglaise
et française du XVIIIe au XXe siècle” in Histoire des populations françaises,
op. cit.
7. Jean Falaize, “L’Épopée du Rail” in Louis Armand (org.) Histoire des
Chemins de Fer en France, Paris, PUF, 1963.
56 R UN ATO ORTIZ

8. Os sansimonistas tem uma atuação importante na organização do sistema
ferroviário. Em 1842 Enfantin coordena os trabalhos de fusão das diferentes
’ companhias de estrada dc ferro, estabelecendo um modelo que servirá para
orientar a formação de uma rede nacional. Ver Sebastien Charlcty, Historia
d ei Sansimonismo, Madri, Àíianza Ed. 1969.
9. Consultar E. Levasseur, H istoire du C om m erce de la France, Paris, Arthur
Rousseau éd., 1912, p. 295.
10. Marx in David McLellan, K arl Marx: his life a n d thougbt, Londres,
Granada Publishing, 1981, p. 87.
11. Louis Chevaüer, Classes Laborieuses et Classes Dangereuses à Paris p e n ­
dant la Prem ière M oitié du XIXc Siècle, Paris, Hachette, 1984.
12. Villermé, Tableau de PÉtat Physique et M oral des Ouvriers dam les
Fabriques de Coton, de Laine et Soie, Paris, Jules Renouard, 1840; Karl
Polanyi, A grande transform ação, RJ, Ed. Campus, 1980.
13. Roger Chargier, “Les deux Frances: histoire d’une géographie”, Cahiers
dH istoire \ Tome 23, 1978. Ver também Yves Lequin, “L’achèvemente dc
l’unité française” in H istoire des Français..., op. cit.
14. Dados in Marcel Roncayolo, ‘‘Logiques Urbaines” in Maurice Agulhon
(org.) H istoire d c la France Urbaine: la ville à Page industriel, Paris, Seuil,
1983, p. 54.
15. Idem, p. 48.
16. Dados in Levasseur, op. cit., p. 396.
17. Idem p. 390.
18. Philippe Ariès, “L’êxode rural” in Histoire des populations..., op. cit.
19. Dados in Ronald Hubsber, “Le paysan et la société englobante” in
Histoire des Français..., op. cit., 102.
20. Henry Morsel op. cit., p. 468.
21. Eric Hobsbawm, A era dos impérios, RJ, Paz e Terra, 1988.
22. Lewis Munford, Ternie a y civilizado n, Madri, Alianza Ed., 1987. Sobre
a história da técnica consultar ainda T.K.Derty e T.I.Williams, Historia
d e la tecnologia (vol. 1 e II), México, Siglo XXI, 1977.
23. Bertrand Cille, Histoire des teeniques, Paris, Gallimard, 1978.
24. Um texto interessante, que critica o mito do inventor “só”, articu­
lando-o com o conhecimento técnico e científico da época, e os interesses
financeiros dos grupos empresariais, é.o de E. Chadeau, “Poids des filières
socioculturelles et nature de. l’invention: l'aéroplane en France jusqu 1908”,
L'Année Sociologique, vol. 36, 1986.
25. B. Gille op. cit., p. 796-7.
26. Depoimento da condessa Jean de Page “Comment j ’ai vu 1900” in
Le téléphone à la Belle Epoque, Bruxelas, Ed. Libros-Sciences, 1976.
27. Catherine Bertho e Patrice A.Carré, “Le téléphone ou la communi­
cation domestique: 1877-1914 in C.Bertho (org.) Histoire des T élécom ­
m unications en France, Toulouse, Eres. 1984, pp. 82-83.
OS DOIS SÉCULOS XIX 57

28. Jacques Ataili e Y. Stourdze, “The birth of the telephone and economic
crisis: the slow death of monologue in French society” in I. de Sola Pool,
The social im pact o f telephone, Cambridge, MIT Press, 1977, p. 104.
29. Ver Walter Benjamim, Parigi capitale delX IX secolo, Turim, Einaudi,
1986.
30. Bernard Marrey, Les Grands magasins; Paris, Libr. Picard, 1979.
31. Donald Lowe, History o f Bourgeois perception>Chicago, University of
Chicago Press, 1982. O autor retoma os argumentos desenvolvidos por
McLuhan.
32. Henri Lefebvre, Introdução à m odernidade, RJ, Paz e Terra, 1969-
33. Stephen Kern, The culture o f tim e and space J 880-1918, Cambridge,
Harvard University Press, 1963, p. 1.
34. Para uma análise histórica da cultura popular consultar Robert Mu-
chembled, Culture populaire et culture des elites, Paris, Flammarion, 1978,
e Peter Burque, Popular in early m odern Europe, N.Y., Harper Torchbooks,
1978.
35. Muchembled, idem, p. 61.
36. R.Mandrou, De la culture populaire aux 17e et ISe siècles: la B ibliothèque
Bleu, Paris, Ed. Stock, 1964.
37. Nathalie Davies, "Printing and the People” in Society a n d culture in
early m odern France, Stanford, Stanford University Press, 1975.
38. Muchembled, op. cit., p. 209.
39. Ver, por exemplo, E.P.Thompson, “Rough Music: le charivari anglais”.
Annales: economies, sociétés et civilisations, março-abrii 1972.
40. Ver Paul Gerbod L'Europe culturelle et religieuse d e 1815 a nos jours ,
Paris, PUF, J 977; Maurice Agulhon, “Le problème de la culture populaire
en France autour de 1848”, Romantisme, n.° 9, 1975.
41. Etienne François, Rolf Reichardt, “Les formes de sociabilité en France
du milieu du XVIII siècle au milieu du XIX siècle”. Revue d’Histoire
moderne et contemporaine come XXXIV, juiho-setembro 1987. pp. 461-2.
42. H.Gaidoz, E. Rolland, “De l’étude de In poésie populaire en France”,
Mélusine, tomo I, n.° 1, 1878, p. 1.
43. Sobre o conceito de cultura popular no século XIX, particularmente
a concepção folciorista, ver Renato Ortiz, “Cultura Popular: românticos
e foicloi istas”, Textos 3, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais,
PUC-SP, 1985.
44. Retomo aqui uma expressão de Michel de Certau, in La culture au
pluriel, Paris, Ch. Bourgeois, 1980.
45. Andrew Lang, Custom a nd myth, Londres, Longmas Green Co, 1893,
p. 13.
46. G.Cochiara, “The teaching of Pitre”, jo u r n a l o f Folklore Institute,
vol. XI, \\f 1-2, 1975, p. 129.
58 RENATO ORTIZ

47. P.Sébillot» Le folkbre de la Bretagne, Paris, Payot, 1950, p. 11.
48. Marcel Mauss, “La Nation” in Oeuvres ( tomo 3), Paris, Minuit, 1969,
p. 584.
49. Ver Pierre Bourdieu, Ce qui parler veut dire, Paris, Fayard, 1983.
50. Eugen Weber, Peasants into Frencbmen, Stanford, Stanford University
Press, 1982, p. 67.
51. E.Weber op. cit., p. 5. Sobre o mesmo assunto consulrar Maurice
Agulhon, La République au Village, Paris, Plon, 1970.
52. J.J.Darmond, Le colportage de librairie en France sous le second empire,
Paris, Plon, 1972, p. 128.
53. Ver M.Crubellier, Histoire culturelle de la France: XIX-XX siècles, Paris,
Colin, 1974.
54. François Furet e Jacques Ozouf, Lire et Écrire (vol. 1), Paris, Minuit,
1977, p. 276.
55. Dados in Pierre Albert, “La Presse Française de 1871 a 1940” in His­
toire Générale de la presse (tomo IIÍ), Paris, PUF, 1972, p. 141.
56. Para a imprensa, dados in P.Albert, G.Feyel, J.F.Picard, “Documents
pour l’Histoire de la Presse Nationale aux XIXe et XXe Siècles”, Paris,
Ed. CNRS, 1980; para os livros, Théodore Zeldin, Histoire des passions
françaises: 1 8 4 6 - 1 9 4 5 (vol.3), Paris, Seuil, 1981, p. 9.
57. Martin Lyons, Le triomphe du livre: une histoire sociologique de la lecture
dans la France du XIXe siècle>Paris, Promodis, 1987, p. 13.
58. David Bellos, “La conjoncture de la production” in R.Chartier e
H.J.Martin (org.) Histoire de l ’édition française (vol. 2), Paris, Promodis,
1982, pi 553.
59. Dàdos in "Documents pour l’histoire de la presse...” op. cit.
60. Sobre as informações técnicas consultar Louis Charlet e Robert Lang,
"L’évolution des techniques des origines à nos jours” (tomo I) e “L’É­
volution des techniques de 1820 à 1865” (tomo II) in C.Bellanger alii
(org.) Histoire générale de la presse française, Paris, PUF, 1969.
61. Sobre a evolução deste mercado de livros e sua influência sobre os
escritores românticos ver James Smith Allen, Popular French Romanticism:
authors, readers, and books in the Î9th Century, N. York, Syracuse University
Press, 1981.
62. Frédéric Barbier, “L’économie éditoriale” in Histoire de l ’édition fra n ­
çaise (vol. 2) op. cit., p. 566.
63. P.Orecchioni, “Le marché du livre” in P. Abrahm (org.) Histoire lit­
téraire de la France (tomo 7), Paris, Ed. Sociales, 1976, p. 119.
64. Dados in Orecchioni op. cit. e David Bellos op. cit.
65- Números in "Documents pour l’Histoire de la Presse” op. cit..
66. Françoise Parent-Lardeur, Les cabinets de lecture, Paris, Payot, 1982.
OS DOIS SÉCULOS XIX 5?

67. Gilles Feyel, “La diffusion nationale des quotidiens parisiens en 1832”,
Revue d’Histoire Moderne et Contemporaine, tomo XXXIV, janeiro-mar-
ço 1987.
68. R.Chartier, “L’Ancien Régime typographique: réflexions sur quelques
travaux récents”, Annales: économie, sociétés et civilisations, n.° 2, mar-
ço-abril 1981.
69. F.Barbier, "Les Imprimeurs” in Histoire de l'édition françoise (tomo
III), op. cit., p. 74.
70. F.Barbier, “L’industrialisation des techniques” idem. ,
71. Jean Mistler, Lu libraire Hachette: de 1 8 2 6 à nos jour j, Paris, Hachette,
1964, p. 135.
72. Ver F.Barbier, “Les Imprimeurs” op. cit.
73. L. Charlet e R.Lang, “L’évolution des techniques de 1863 à 1945”
in Histoire générale de la presse... (tomo III) op. cit.
74. Sobre as novas condições da edição consultar J.Y.Mollier, Michael et
Calmann-Lévy ou la naissance de l'édition moderne, Paris, Calmann-Lévy,
1984; e sobretudo, L'Argent et les Lettres histoire du capitalisme d'édition,
Paris, Fayard, 1988.
75. Dados in Jean Mistler, op. cit., p. 82 e p. 192.
76. Pierre Guiral, “La Presse de 1848 à 1871” in Histoire générale de-la
presse... (tomo II) op. cit., pp. 255-256.
77. Dados in Jean Mistler op. cit.
78. Ver Francine Amaury, Histoire du plus grand quotidien de la Illc Ré­
publique: le Petit Parisien, Paris, PUF, 1972.