No silêncio: a poeira

JOSÉ FERNANDO GUIMARÃES
José Fernando Guimarães

No silêncio: a poeira

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1.

Como água, o silêncio contorna

a palavra, em rigor

fecundando-a. Entre terra e página,

a palavra vai crescendo indecisa

na sua figura, apenas som

estilhaçado na cabeça dos bichos

de olhar aturdido. Pois não é a palavra

para o olhar dos bichos. Antes

poeira. Silêncio. E o poema surge

como esboço. E assim permanece. No olhar

dos bichos. Nas mãos.

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2.

E as mãos levam o poema

à boca, que o cala na sede

excessiva do gesto,

riachos, montes, bichos

atravessados no caminho

que voz alguma há-de revelar

sequer. Aí,

ambíguas são as mãos,

nada podem colher. Talvez

uma flor agreste, um punhado

de água, dizer junto

aos cães, encostados ao lado

do coração. Deslumbrado,

o poema irrompe então,

apenas soluço

de vida que sempre o acolheu,

até ser tarde. Poema e bichos

desconhecem-no. Nós, também.

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3.

Como os cães, o poema anda

ao lado. Fareja, esgravata,

abre-se ao mundo num delírio

de bicho. Por vezes,

foge. Mas, volta. Ofegante,

adormece, as palavras

desassossegadas. Um dia,

porém, não regressa. A poeira

atravessou-o ali mesmo,

nas suas margens rendidas

a um outro, o que procura

a palavra mais nítida

de silêncio.

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4.

Canta, voa, rasteja, busca

– dizem os bichos ao poema

que, sendo poema, se fecha

em si, no mais fundo

de si, até ser noite

do outro lado dos bichos

na terra. Onde bichos

e poema abrem-se

ao mundo. São

dito, sangue

em chamas. Que ninguém suporta,

nem mesmo o olhar.

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5.

Dantes o leite coalhava

num rendilhado de natas,

uma aranha de leite

que nem o coador recolher

podia. E o leite para ali ficava

na espera, alagando-se tanto

quanto a vasilha. Disso

pensa-se saber algo,

se é que se sabe. E a leiteira,

esse feitiço da rodilha? Acaso

sabia algo desse entrançado

de pétalas amanhecidas

no feno orvalhado? Os bichos

tinham acordado,

entretanto. E o leite. Isso sabe-se.

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6.

Uma bicha-cadela caiu

por dentro do sono

e adormeceu, confundindo

noite e dia nos seus passos

repetidos, tão repetidos

como a morrinha,

a que não lava a água

nem a pedra. As teias

de aranha, isso sim,

apesar de presas

ao rosto quando

um ramo nos toca,

ao de leve, no caminho

dos bichos. É, então, alvorada

ou ocaso?

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7.

Morto, ali está, o focinho

ensanguentado. E ninguém

o arreda, ao ouriço-cacheiro, ainda

eriçado, como as rosas

sufocadas por um vento

mais agreste, quando o verão

anoitece à hora da ceia. E

é triste. Nos casais

celebra-se o pão

e o vinho, a almotolia

ao lado, junto do braço

que escurece nas sombras

da culpa, onde as mulheres

se encostam, parideiras

em luto. Dantes, as mulheres eram

o luto, a solidão mais funda

da terra a que se abriam

descalças. Como quem diz:

- «Em nudez,

sou-me bicho». Mesmo

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quando passavam por entre a luz

de um carro de bois. Que podia ter morto

o ouriço-cacheiro ou estremunhar

as rosas. Mas, isso era

dantes. Quando a dor era súbita

dor a mais e a morte encontro

com o definitivo.

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8.

Estranho, deu-se

aos cães

que buscam o caminho

da palavra,

a que diz. Em silêncio,

escutam. E o movimento

é a palavra

a desvelar-se. Além,

uma pedra,

uma abelha,

um homem. Donde

vem? De que

fronteira? Não

se sabe. Caminha

apenas, as mãos

ao lado do corpo

enlutado pelas estações,

pelo azul de um céu

de pássaros, que os cães

buscam, como buscam

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um ribeiro, uma pedra,

uma abelha, um homem,

o estranho.

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9.

Na tempestade, o susto

alaga terra, árvores,

as que dizem céu,

aves. Como esta

oliveira, onde os cães dormem

tranquilos no calor

dos frutos. Na tempestade,

não. Nem pássaros,

nem céu, se é que o céu

se dobra sobre si em espera

de manhã branca

onde a tempestade, ida,

ainda é. Este silêncio,

os bichos não o alcançam,

antes o do abrigo.

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10.

Quando da noite a hora chega,

fecha-se a casa, que se recolhe

com as pedras, um aro

de luar, apenas, ou um fio

de água ao encontro

dos nossos passos, hesitantes

na sombra do escuro,

o que se oculta. Todavia,

quando vibra, alaga

o olhar. E as portas abrem-se

aos bichos, ao estranho.

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11.

No outono das folhas

a ferrugem tresmalha-se

na terra que se oculta

em névoa, num castanho

de névoa e da respiração

dos bichos que convocam

a meditação, a febre,

e a palavra é aí

por entre o silêncio

e arde.

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12.

No outono usa-se desfolhar

os mortos, pétala

a pétala, folha

a folha, osso

a osso. E os mortos são aí

no linho da palavra

de ouro, a que nos deixa

as mãos vazias, enquanto

dos montes os lobos

descem, os olhos

estrelados, alheios à neve

próxima nos contornos

da geada que oculta

o trilho e arde

no rosto. Inútil

acender uma tocha. Os cães

sabem o caminho. Os mortos,

também.

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13.

E se chovesse apenas

por dentro, encharcando

os ossos, alagando

o que se infiltra no calor

das veias e não tem

nome? Dizia-se,

então: - «Eis a tempestade

que me é

para sempre nos contornos

da boca». E adormecíamos

no interior do poema

como os bichos, aguardando,

guardando apenas.

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14.

A chuva floriu por dentro

este corpo arável, o sangue,

os ossos que convocam o lugar

da pedra, a memória

de água, onde as rosas

poisam e os bichos ousam

beber, desprevenidos

como o poema

que só o é no seu olhar

de sombra.

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15.

Que luz

se abre por dentro

dos ossos,

quase água

amanhecida,

a que lavra

os campos

e espanta o olhar

dos bichos? Que luz

ou vinho

velho no silêncio

escurecido

das adegas? Que luz

ou palavra,

a que se abre

ao sangue

ainda dormente

e desperta?

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16.

Com a tempestade

não é a paisagem

que se embacia

– é o olhar,

mesmo o dos bichos,

súbita espera. De

quê? De

quem? Acaso

da paisagem,

uma outra? Do estranho

que passou um dia

no trilho? Da chuva

e do vento

que paisagem e estranho

sulcaram até ser noite

no olhar dos bichos

e a palavra névoa?

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17.

O vinho trespassa

o sangue como a seta

do anjo, a rosa

que inebria a boca

dos cães, a sua delapidação

súbita quando o movimento

nasce, um traço de ar

e fogo, que a terra empluma

no focinho e na sede,

apenas um fôlego

aberto, um esmeril

na forja, esmerado. Depois,

muito depois, o silêncio,

e dentro do silêncio,

a palavra, a que chama

em chamas: aqui ou poema.

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18.

No verão, o calor acende a boca,

mesmo a dos montes. E, de repente,

as árvores são esboços

na paisagem. Que a água impede

a custo, enquanto os bichos

fogem e o barulho cresce. O calor

também. E as mãos enchem-se

de fuligem. E não conseguem

suster o desenho que as foi.

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19.

Debaixo da língua

o silêncio,

um silêncio

de bichos, ténue

névoa

que mãos e boca

cala como gelo,

como fogo. Fogo

e gelo são, aliás,

a mesma coisa:

frutos. Maduros. Que

embebedam.

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20.

Sendo –

o momento

entre ido

e a vir. Que

um enigma é,

um passo

à volta

do abismo,

donde se regressa,

se regresso há,

no próprio

do momento:

o gerúndio –

poema,

paisagem,

bichos

abrem-no:

vida.

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21.

Habita-me o terrível –

palavra indecifrável

que se abre

à palavra a vir

ainda

ao poema –

e o meu olhar é triste

como o dos cães

quando a palavra lhes dou

em diálogo antiquíssimo,

anterior à linguagem –

não ao poema,

que é a palavra dos bichos

aturdidos na paisagem,

transbordando vida.

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22.

E, em pobreza, os deuses

foram. Há muito,

em verdade. Só pele e osso,

os seus cavalos foram

as testemunhas. Fecharam

a inominável porta

da palavra

e mergulharam no rio

do esquecimento. Nem moeda tinham

na boca ardida

de febre. Com que nos contagiaram

em abismo. Apenas os cavalos

e outros bichos

desconhecem esse ouro

perdido. A melancolia é-lhes palavra

vã.

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23.

E se, um dia, os deuses

viessem insuspeitos

na insuspeição de si mesmos

os frutos amadureciam

outra vez e bichos e mulheres

deitavam-se na terra

para dar à luz. E a palavra

era regresso

como um raio. Todavia,

fechados na mortalha,

nada os pode

anunciar. Nem frutos,

nem bichos,

nem mulheres. Nem, sequer,

o poema.

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24.

De névoa profunda

enevoando-se

por dentro

nas cinzas

do fogo,

olhos,

boca,

mãos. E

uma espécie de tristeza

ácida

atravessa-os. Fecha-os

– enquanto aguardam. Ao redor,

os bichos dormem. Mas,

desenho algum surte.

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25.

Diz o estranho: – «Regresso

a essa água

que me foi fonte

primordial, habito

para sempre a origem

das origens – onde é

indefeso o pensar,

essa aresta afiada

de pedra». E aproxima-se

cada vez mais da sombra

das coisas,

os seus contornos

sem peso. Como caminhar,

assim,

para a fonte,

para a raiz? Como trilhar

esse caminho

sem regresso? Olha-se. Mais

além, o silêncio

das batalhas

entontece-o. – «Eu sou. E

os espelhos apenas são

os fantasmas». É

noite. Noite silenciosa,

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tão antiga como a fonte,

a raiz. Que não são

o espelho. O espelho

é um ido que o bafo

e a ferrugem

testemunham. – «Eu sou

no agora,

eu sou um trilho,

um bicho

no trilho. Nada mais. Todavia,

a palavra,

a palavra do agora,

é-me. E na linguagem

ergo-me

como um cavalo

encantado. Nada mais

me resta. Nem a fonte,

nem a raiz. Apenas

o regresso a casa

– onde o poema é luz,

seja meio-dia

ou meia-noite». Mas,

poema algum se responde

na pergunta: – o que é

a verdade? Ou talvez

responda. No que funda

em surdina. Como quem fecha

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as portadas

e acende o fogo. Na mesa,

a ceia – agora

que os deuses partiram. Deitados,

os cães aguardam. E o poema

também.

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26.

Enquanto os cães

ladram, o breu

ilumina-se, iluminando

teias de geada e noite

suspensas no ladrar. E

o sono vem lento

às mãos, emaranha

a paisagem,

as raízes. É este o lugar

da casa. O ladrar dos cães

funda-o no poema.

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27.

Morrer assim, por

entre os cães, não é bem

morrer, antes

acabar. Hão-de cobrir

o corpo, aquecê-lo

na espera

do testemunho

que o acabado

não testemunha. Os cães,

sim. E hão-de fundar assim

a morte, esta,

a vir.

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28.

O caminho não é este

ou aquele, é caminho

suspenso,

corroído pela ferrugem,

como quando se diz: - «Até

um dia.», que é

quando se regressa por dentro

da partida. No inverno,

esmaecida em ouro

é a partida. Nada

a perturba. Nem sequer a geada

no caminho, o nevoeiro

que o interdita. Nem o perfil

dos bichos debruçados

em pobreza. Pedras

traçam a figura

de um poço, água dando-se

em cegueira. Como regressar

assim?

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29.

Névoa é a chuva no pelo

dos bichos, no olhar que,

pesado,

desce à terra,

aos sulcos de água

vidrados pela geada,

noite dentro,

e gretados. Como os lábios,

as mãos,

a noite. Percorridos,

em abandono,

pelo vento,

pela palavra. É manhã. O fumo

sobe. E o poema.

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30.

Água infiltra-se na ferrugem

da pedra, a que ilumina

por entre poros

quando o temporal é negrume

a eito sobre a casa. No cais,

as barcaças sustêm-se no peso

de âncoras e cordame, uma chispa

na madeira do convés. De tanto ranger,

resguardam-se apenas,

apesar do limo por onde escorregam

redes e outros instrumentos

do ofício, um que outro caranguejo

esquecido. Retiram-se. Também

as casas. E nós nelas. E

os bichos. E algum poema

inacabado, como todos os poemas o são

quando se fecha a mão.

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