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Capítulo 5

História oral: balan~o da metodologia e da
produ~éio nos últimos 25 anos*

Philippe Joutard**

o próprio título de nosso tema mostra claramente o espírito
que anima os sete trabalhos que me foram apresentados e o relatório que
os sintetiza: nao se trata de urna série de pesquisas pontuais de história
oral, mas de um balanc;o sistemático que, a partir de diversos trabalhos
individuais ou pesquisas coletivas, procura mostrar a evoluc;ao de urna
prática, tanto no que diz respeito aos métodos quanto ao conteúdo e ao
papel da história oral no conjunto da historiografia contemporanea. Para
garantir ao debate certa unidade, enviei aos participantes urna breve nota
indicativa, mais sob a forma de quest6es que de afirmac;6es.

Quadro do debate

Parti de urna constatac;ao bem conhecida: afora a história afri-
cana, que desde os primórdios se serviu de fontes orais, a história se
constituiu cientificamente, desde o século XVII, a partir da crítica da tra-
dic;ao oral e, mais genericamente, do testemunho. Assim, a reintroduc;ao

* Joutard, Philippe. L'histoire orale: bilan d'un quart de siecle de réflexion méthodologique
et de travaux. In: XVllIe Congres Intemational des Sciences Historiques, Montréal, 1995.
Actes... Montréal, Comité International des Sciences HistOriques, 1995. p. 205-18.
*', Academia de Toulouse, Fran~a.

porém.:aoescrita nao foi bem recebida pelos historiadores. urna próxima das ciéncias políticas. Essa história se pretende militante e se acha a margem do mundo réncias complementares.:ao? E. próximos dos partidos de es- trata da América Latina. Mercedes Vilanova. do Japao. muito mais ambiciosa: nao mais se trata apenas de urna simples fonte quivística e a história oral. Mesmo assim. quando hou. cada um dos países em questao. Ela está decididamente do A última questao era acerca dos novos problemas eventualmente lado das ciéncias políticas e se ocupa somente dos notáveis. salvo talvez nos Es. a ar. Dunaway evoca a experiéncia norte-americana. particularmente na Franc. decorrer do debate essas lacunas possam ser parcialmente preenchidas. a todas departamentais do Comité de História da II Guerra Mundial junto aos che- essas quest6es.ao mexicana (Scharwzstein). como a sociologia e a lingüística.:o. que é um excelente os vencidos. Esse é tam- suscitados pela utilizac. situada na fron- nossos sete autores. que dá voz aos "pavos sem história". Pietro Clemente. um russo e outro africano. obedecendo a urna lógica própria que na medida em que há um confronto permanente entre o escrito e o oral. Vé-se claramente que a his- veum reconhecimento da história oral. 44 Usos & ABUSOS DA HISTÓRIA ORAL HISTÓRlA ORAL BAIAN~O DA METODOIOGIA E DA PRODU~AO NOS ÚLTIMOS 25 ANOS 45 da fonte oral na segunda metade do século XX em países de antiga tra. e sim "de urna outra história". Surgida em meio ao clima . onde tória oral. De fato.ao desenvolveu urna nova concepc. 1995). é tados Unidos. negros.:as a esses trabalhos é possível estabelecer urna cronologia tória oral nos últimos 25 anos. que valoriza Oral (Joutard. donde alguns preferirem a expressao arquivos orais.:ao surgiu nos Estados Unidos nos anos 50 e seu a história oral e as disciplinas afins que também se utilizam da pesquisa intento era modesto: coligir material para os historiadores futuros. utilizam a pesquisa oral para reconstituir a cultura popular (Cle- Espanha. bém o trabalho que fazem. a maioria (cinco) a partir de um espac. os correspondentes Os sete trabalhos responderam. revistas e seminários. pergunto-me acerca Assim é que Dunaway pode já contar quatro gerac.:oes. bem como algumas refe.:oes sem história". seria oral. Eles sao os precursores da segunda forma de história oral que é mais temático.ao di<. .:ao da fonte oral. sindicalistas (Dunaway). acaba se ocupando de todo o mundo ocidental. A última dis. O trabalho de Fabienne Regard mente). fácil de reconstituir.ao sertac. existentes nesse tipo de mesa-redonda. desde 1956. e Tadahide Hirokawa. coloca-se a questao das relac. sociólogos como Ferraotti oral. os marginais e as diversas minorias. remetendo-me a ela mais adiante. operários. precursor nessa matéria. tituto Nacional de Antropologia registram as recordac. educadores. teira da antropologia. O que mais lamento.:ao. De fato.:ao da his- Grac. Dora Schwarzstein e antropólogos como De Martino ou Bosio. entre a abordagem oral e a história judaica na diáspora. nem que seja para suprir as lacunas normalmente universitário (ou é por este rejeitada). alema ou da Europa setentrional. n:anteve ela sua originalidade? A tória oral reflete ao mesmo tempo o clima cultural e a historiografia de própria expressao história oral cria problemas. lheres. mas também se insere no espac. tanto no que se refere aos temas abor- significativa que configura urna geografia contrastada. afim da exemplos franceses a partir de um esclarecimento sobre Historia y Fuente antropologia. de Jean-Pierre Wallot. sociedades. os arquivos sonoros do Ins- terminado. inglesa. transcende em muito as fronteiras. No México. sem reflexao metodológica. balanc. lares com suas próprias institui<. mas. é fácil verificar as omissoes.oes de historiadores nos dos vínculos entre as duas correntes que desde o início dividiram a his- Estados Unidos. cada qual a sua maneira. É praticada por nao-profissionais. Esse debate ainda tem algum sentido? Urna cronologia significativa A segunda série de questoes dizia respeito a contribuic. Utilizarei também esta revista. mu- observatório. um instrumento para os biógrafos vindouros. Além disso.:a. fes da Resisténcia. essa nova gerac. De minha parte.o e responder ao título deste seminário.ao de historiadores orais em fins dos anos 60. Já na Itália. da querda. outra interessada nas "populac. apresentarei oportunamente complementar do material escrito. Os adeptos da história oral nao a desisténcia de historiadores. com a ajuda de notáveis. voltada para as elites e os a história oral acaba de ser reconhecida (Hirokawa). Mas. Nesse sentido. pois trata dos vínculos surge com a segunda gerac. dados quanto aos períodos focalizados. constituindo grupos particu.:6es entre A primeira gerac. iletrados. o conjunto é rico o suficiente para permitir um verdadeiro Prime ira questao: é grande essa marginalizac. enquanto existe apenas urna em atividade no Japao. David K.:o geográfico de. como no caso da situac. aborda um problema metodológico. feministas.oes dos chefes da ao fazer também urna reflexao sobre o caráter interdisciplinar da história revoluc. sejamos mais precisos. Espero que no raro ficam a margem da história académica. da Itália.

com um instituto privado. porém.:a. toriográficas baseadas no escrito. organizado precisamente por Mercedes Vilanova A portir 7975. Na Argentina. reunindo antropólogos interessados nas tradi<.:a.:ou-se a criticar a ingenuidade do espontaneísmo e os excessos do I(I(.:ao universidade madrilenha da Complutense e tres anos depois passou a rea- organizada pela comuna de Turim sobre o mundo operário entre as duas lizar encontros bianuais.- história academica.:ao a lismo.:ao a todas as constru<. Em 1975. Surgiu assim Miralles organizara em 1984 um colóquio sobre o tema. 46 Usos & ABUSOS DA HISTORIA ORAL HISTORIA ORAL BAlAN<. porém. há muito que a 1978. Assim. ligada as comunas ou as províncias. no quadro da' campanha de alfabetiza<. Em 1975 criou-se na Funda<. Identifica-se profundamente com des projetos coletivos: em Paris. mas também em rela<. segundo Dunaway. sobretudo com Paul Thompson. inclusive como meio de estudar as classes populares. dois outros setores ligados gos. No ano seguinte organizou-se em Bolonha o que foi considerado o primeiro jetos orais (Schwarzstein). Em quatro ou cinco anos. nao apenas em rela<. Até 1985. Enfim. que muito impressionou os congressistas. 1987. Em Costa Rica.:a. poneses. reunindo historiadores.:ou um verdadeiro manifesto sobre a história oral seu atraso com urna série de projetos em Valen<. mesmo Esses dois encontros podem ser considerados o ponto de partida nao tendo sido o único responsável pelo intenso desenvolvimento da his- da terceira etapa ou da terceira gera<. Cinco anos depois. e em 1980 realizou-se o primeiro encontro frances de pesquisado- história da Resistencia.:ao de urna corrente. significativamente intitulado An. incentivar seus colegas espanhóis a utilizarem de o progresso a fonte oral. no ano seguinte. após tória oral espanhola depois de 1985. realizando entrevistas com sindicalistas e dirigentes peronis- poimentos dos líderes políticos desde 1920. no XN Con. mas também na Na América Latina observa-se o mesmo desenvolvimento nas duas América Latina. enquanto em 1981 surgiu a revista Fonti Orali. entre outros motivos.AO NOS ÚLTIMOS 25 ANOS 4/ dos movimentos de 1968. Nesse mesmo país. a Espanha recuperou guerras.:ao as estruturas tradicionais dos partidos de esquerda. realizaram-se na mesma época pesquisas orais sobre o mundo cam- urna mesa-redonda intitulada A História Oral como urna Nova Metodolo.:ao de Dominique Aron-Schnapper e Daniele Hanet. na Argentina. é urna história alternativa. na Itália ela se desenvolve nos toriadores contemporáneos (Clemente). professores e seus alunos (Clemente). a baseia-se implicitamente na idéia de que se chega a "verdade do povo" pesquisa sobre os etnotextos. na qual se lan<. a chamada pesquisa territorial.:ao dos pro- gia para a Pesquisa Histórica.:as ao testemunho oral. lingÜistas e etnólo- gra<. realizou-se rágua.:as a iniciativa de Carmen Nieto promoveu um seminário sobre as fontes orais na grande historiadores turineses de diversos períodos. No Equador. influenciado pela áreas de história política e antropologia. o restabelecimento da democracia em 1983 levou a multiplica<. assim como na Espanha. que durou al. Paralelamente. por ocasiao de urna exposi<. a história oral espanhola esteve limitada ao grupo de tropologia e História: Fontes Orais. em rela<. sob a dire<. na Itália um projeto historiográfico de história oral. pones.:ao Francesa de Arquivos So- entre si apresentam notável desenvolvimento: a escola e os institutos de noros. dois encontros internacionais marcaram a primeira afirma<.:ao. Essa forma de história difunde-se 1983:114-48). Santiago de Compos- . Joan as experiencias individuais se constituem verdadeiros grupos.¡ versao mais radical. privilegiando a expressao das Na Fran<. prega o nao-conformismo sistemático.:oes populares e hi.:oes his.:ao Social da Universidade Na- pesquisa com as fontes orais vem sendo realizada por urnas poucas pes- cional organizou o primeiro concurso nacional de autobiografias de cam- soas isoladamente. em Aix.O DA METODOlOGIA E DA PRODU<. os arquivos orais da Previdencia Social. ("(>111'- em rela<. o POYOnarrar a sua própria história. Em meados dos anos 70.:ao Universidade de Colúmbia. que retorna o espírito da primeira forma de Getulio Vargas o primeiro programa de história oral destinado a colher de- história oral. lan<. colóquio internacional de história oral. que foi o único a apresentar trabalhos no V Colóquio Inter- nacional de Barcelona. Na Fran<.:ao. gra<. Quatro anos depois criou-se a Associa<.:ou um projeto ainda mais ambicioso: quando entao alguns colegas vieram juntar-se a ela na Universidade de tentar escrever a história do país desde a época pré-colombiana. Nao resta dúvida que o evento cumpriu seu objetivo. 1975 foi também o ano em que surgiram dois gran- bases. meios que contestam a esquerda comunista. fazendo Barcelona. em sua <. Barcelona. Na Universidade de Mallorca. ainda mais na Inglaterra. a Escola de Planejamento e Promo<.:ao a máquina do partido. na Bolívia e na Nica- gresso Internacional de Ciencias Históricas de San Francisco. sendo os membros desta última entrevistados pelos res orais sob a égide do Instituto de História do Tempo Presente (Joutard. de 1976 a tas (Scharwzstein). do história orol para. quando. Mercedes Vilanova trabalhou sozinha de 1969 a 1975.

o material No Japao.amento. que mente abordado é a memória do exílio e a lembranc. tivemos Colchester em Sociedade de História Oral Inglesa.ao de Fabienne Regard em sua dimensao religiosa e festiva. na Gra-Bretanha e na Itália que periodicamente di- Os anos 80 se caracterizaram também pela multiplicac.ao. trabalhos estrangeiros ou nos artigos historiográficos. as vezes antes das universidades. fornecendo argumentos aos seus detratores isto é. Na Franc.ao de ob- organizou o primeiro simpósio de história oral. mundo. nao sendo esta urna Foi também a época em que. porquanto a difusao do gravador se acontecimento único. Portanto nao admira que as autobiografias e as resulta muitas vezes em operac. publicou muitos artigos de referencia sobre história oral .oes que o passado mantém com o presente.ao ganha ainda mais lógicas. a so Internacional de Arquivos ocupou-se das novas formas de suporte. em parti- Delfim em Grenoble iniciaram pesquisas nessa área.ao privilegiada entre memória oral e tradic. mas com urna anterioridade que nao causa sur. Amsterdam em 1980. Etapa indispensável. no qual se contestou a idéia ingenua de que a entrevista per- forc. dissertac. Os depoimentos sobre a Shoa aparecem de. Depois de Bolonha.ao de urna verdadeira co.ao e que dificilmente seria obtida por um transcende as historiografias nacionais. publicando regularmente au- lóquios internacionais. no final da Shtetl ou. Em 1988. Assim. Aix-en-Provence em 1982.a dos lugares antigos Mercedes Vilanova desde o inicio incentivou.. tanto nos números temáticos quanto nas resenhas sistemáticas de te notável.a e depois na ltália. zac. Oxford em 1987. os debates teóricos e jetos (Dunaway). da revista Historia y Fuente Oral. enfatizada no início da pesquisador externo (Joutard. história". da munidade de história oral. pois surpreendentes. en- duas publicac. que permitiram a criac. nao apenas como dever de rememorar.ao e a modernidade. fundada por Paul Thompson. eventos em que foram apresentadas várias deze. mas Foi.ao especial pela ligac. ponto de referencia nao só para os eswdos de história oral espanhola. tores estrangeiros . desde os anos 70. no caso da emigrac. Tal ligac. O tema prioritaria. 1992:148-50). Assim. presa a obras anglófonas. pro.ao de um número cada vez maior de ma outra publicac. a participac. Málaga. americanas ou britanicas. todavia. levando-os a tomar colhidos por sociedades locais. a pesquisa oral tornou-se um meio Cumpre citar também a série de depoimentos sobre a II Guerra Mundial pedagógico eficaz para motivar os alunos de história. foi o lanc. Navarra e Andaluzia. Usos & ABUSOS DA HISTORIA ORAL HISTORIA ORAL. que torna ainda mais necessário o dever da mitia atingir diretamente a realidade. Oviedo. a revista Oral History. a fim de impedir que se perca es. havendo inclusive urna profissio- memória. do norte da África. Unidos. por exemplo.ao se mostrou tao sistematicamente aberta ao resto do países. ou o in- 1978. no Canadá.a. que 15 anos antes promovera- se urna grande campanha de autobiografias escritas. No caso dos primeiros. dois anos depois. intitulada "Minha tre as quais os arquivos orais. (Wallot) . lista exaustiva (Vilanova). G. um período de reflexoes epistemológicas e metodo- também histórica. Canárias. em 1989. piciam urna fonte privilegiada. na qual iria inspirar-se mais tarde a história oral japonesa. BAlAN~O DA METODOlOGIA E DA PRODU~AO NOS ULTIMOS 25 ANOS 49 48 tela. Os relatos de mulheres década. Basta ver que o pri- . resultados da história oral. balho feito pelos alunos com seus avós apresentou resultados nao raro O caso da história oral judaica evidentemente é específico. Corolário natural do dinamismo do grupo de Barcelona. fornecendo urna documentac. enfim. mas também como dever nalizac. o Congres- cular na história da última guerra.ao latino-americana foi particularmen.oes mal preparadas que compromete m os pesquisas de história oral sejam tao numerosas e relativamente precoces. e deram ensejo. Barcelona em teressantíssimo International Journal of Oral History de Ronald Grele. mais recentemente. Voldman. a Maison de la Villette em Paris e o Museu do historiográficos destacaram as possibilidades da história oral.ao maior no tocante aos projetos de pesquisa oral e a sua utili- de transmitir urna experiencia indizível. vulgam o que se passa fora de seu território. que lago se tornou o divididas entre a tradic. em 1987. somente em 1986 a Sociedade de Ciencia Histórica oral é o meio de acrescentar urna dimensao viva a apresentac. com as diversas diásporas. com a participac. mas também para a comunidade internacional de história oral. que 1985. Vale lembrar.ao.oes.ao (Dunaway). focalizando a batalha de Okinawa ou de consciencia das relac. Existiram poi s de 1980 nos países anglo-saxonicos e quatro ou cinco anos mais e ainda existe m várias revistas nacionais ou mesmo regionais nos Estados tarde na Franc.citemos. O tra- Midway (Hirokawa).. museus e arquivos sentiram a necessidade de associar-se a programas de história oral ou mesmo promove-los. mas nenhu- nas de trabalhos.ao bastante original sobre a II Guerra Mundial ou a emigrac.ao dos co. 1981.a com o drama da Shoa. Mas merece atenc.

8. Regard. nao só na América (cinco). cada vez mais difundido. divi- de surpeender a estreita rela<. dois artigos latino-americanos e um alemao. até sueca. os fen6menos migratórios. Usos & ABUSOS DA HISTÓRIA ORAL HISTÓRIA ORAL BAlAN¡.ao de historiadores orais. lógica inclusive influenciou de vários modos a primeira tendencia. assiste-se também ao surgimento de riqueza metodológica. Universidades e escolas secundárias também substituíram o gravador temunhas. Cle- e a resistencia ao stalinismo (El peso de la historia: 1989. dois mexicanos. grega e mexicana (um artigo cada). um belga.ao do partido comunista na ltália (Cle- havia duas participa<. Orais (Vilanova).Análise Histórica e Fontes oral.oes de li. Nao é Fronteras. de maio de 1968 ou a contesta<. Brossat et alii. influenciada nos Estados Unidos pelos mo- complemento a documentos escritos já coligidos. e que pesquisa os atores vimentos críticos pós-modernistas. principais. foi o drama da bomba at6mica (Hirokawa). Aliás. como atesta a Segundo David Dunaway. podemos responder de maneira mais precisa o seminário promovido em 1989 pelos Arquivos Históricos de Salamanca a algumas das questoes suscitadas pelo desenvolvimento da história sobre A Mulher na Guerra Civil Espanhola .ois Bédarida. Mas paralelamente ao desenvolvimen. desde británica vimento da democracia e o progre sso da história oral. intitulados Identidad y Memoria e a atualidade é ainda mais forte do que no caso da história geral. Muitos pro. légio de ser nela publicados (n.oes francesas. um ita. 1989. Nao se po- nagem a Fran<. mas também na Espanha (Schwarzstein. a atual década de 90 marca o advento maioria das historiografias. Logo. um cubano e somente dois historiadores de Barcelona. o cine asta Spielberg mesmo quando permanece predominante.ao cronológica. Vilanova. so. . segunda tendencia. que permitiu urna primeira ou na Itália. nascida nos anos 60.ao trabalhos que serviram a elabora<. na qual a entrevista serve de mundo de som e de oralidade.oes com a evolu<. 1995).ao. A história oral antropo- de video. conseqüencia ou mesmo. temas escolhidos refletem igualmente essa abordagem global e antro po- diovisual de depoimentos da Shoah (Regard). mente). a Resistencia na Fran<.:ao das identidades (Schwarzstein.ao deste relatório tenham tido o privi.ao da sub. conforme observei no início. o que se traduz na valoriza<. a constrw.ao de videogra. Desde os seus primórdios a história oral é dupla.a Feita essa exposi<. a problemática dos ge- berdade necessárias e novos campos de estudo sobre o período stalinista neros. Historia y Fuen. gera<. privilegiando assim a guerra da Espanha. O exemplo mais significativo é apresenta<.:O DA METODOLOGIA E DA PRODU<. 14). que apareceu primeiro. Vilanova). A julgar pela maioria dos trabalhos. as conc1usoes do seminário em home. Sem estarem combinados.ao entre o restabelecimento e o desenvol- dindo-se os demais entre nove nacionalidades diferentes. apenas dois eram escritos por espanhóis.:ÁO NOS ÚLTIMOS 25 ANOS 51 50 meiro número apresentava tres autores franceses. por exemplo. Algumas res postas liano. finalidade da história tada para temas que se acham presentes nas diversas experiencias nacio- oral. nao é por acaso que muitos dos informa<. Primeiramente cabe notar que o vínculo entre a história oral e Nos dois números de 1994 (11 e 12). os campos de extermina<. Jamais será esquecido o quanto a história oral deve aos acontecimentos Mesmo no número temático espanhol dedicado a Andaluzia (n. passando por argentina e Latina. com que a história política nao mais se contentas se em interrogar os ato- gramas de televisao dedicados a história do século xx utilizam a pesquisa res principais. como no Japao (Hirokawa). dos 26 artigos. para algtins. Os pretende estender ao resto do mundo o seu grande projeto de registro au. que conferiu a história oral toda a sua dimensao e sua to da história oral no Leste europeu. (Dunaway).ao. de negligenciar o contexto técnico: a utiliza<. brasileira (tres). A história política nao é mais unicamente urna história da elite. Existe urna his- da quarta gera<. Mais tarde desenvolveu-se urna história oral antropológica vol- jetividade. fazendo mas que complementam ou mesmo substituem os fonogramas. existe um predomínio da te (5). italiana. basta examinar os programas de diversos en- urna história oral no Magreb. pela cámara de vídeo (Joutard. lógica. 1990). os autores retomam os mesmos assuntos: no Leste europeu também propiciaram a pesquisa oral as condi<. o mundo do trabalho. que vive "naturalmente" em um tória oral política.ao dos arquivistas (Wallot) ou a quarta gera<. Atualmente. permite a multiplica<. mente). 1992).ao dos trabalhos. passando a interessar-se pelos executantes ou mesmo as tes- oral.ao do gravador pela segunda Nao creio que haja tamanha abertura nas revistas históricas em geral. Mas a queda do muro de Berlim e o restabelecimento da democracia nais. holandesa e norte-americana (dois). Esta é igualmente a época em que o filme contros internacionais para confirmar esse fato. o desenvolvimento de novos suportes de mando-se todas as especialidades. No Japao.

Nao admira que seja esta urna das principais vertentes da historiografia . Mercedes Vilanova. a presen~a disciplina. o tanha e na Itália. atuais áreas de pesquisa da historiografia geral: os fenomenos migratórios. insistiram em que a especificidade da pes. Na Fran~a. encontros de história oral de natureza ambígua. do trabalho operário ou história academica somente por sua fonte. um papel passivo. nao raro o sucedaneo da a~ao tradicional que rejeita qualquer a importante contribui~ao prestada por várias universitárias ao desenvol- preocupa~ao disciplinar e academica identificada ao poder das classes do. Nessa ótica. (1982). historiadores italianos. de sua identidade ou suas problemáticas. nesse geral ter-se debru~ado sobre o terna . em vez de deplorarem a incompre. mais profundamente. nem nos projetos da América Latina influenciados pela historiografia nor- te-americana e tampouco. porém bastante engajados.foi dedicada as mulheres que dá voz aos "vencidos". genia Meyer. no final nao poderia haver senao mal-enten. baseada na conserva~ao de documentos oficiais "produzidos espon- oral teve um papel pioneiro desde os anos 70 . quer se trate da vida cotidiana. Mesmo que du. na Gra-Bre. e isso desde dora das mentalidades" (Clemente). meio assembléia militante. Baum. e os militantes da marginalidade tenham coexistido nos grandes feminina é bem maior do que em outros congressos históricos. que dá qual aliás é testemunha este congresso internacional . com 22 ocorrencias. a clássica história po- nos últimos 25 anos está ligada ao aumento considerável das curiosidades lítica concernente as elites. que ambi- tados Unidos. no México. para usar o termo de um dos pioneiro. urna das prime iras mesas-redondas de ~ao de urna verdadeira "história alternativa" democrática. Para citar apenas um exemplo. em oposi~ao e contra primeiros números: no índice temático. Trata-se portanto de urna verdadeira a~ao ~ao. passaram a criticar o "espontaneísmo". ciencias políticas e história ultracontemporanea facilita a acei- mais significativos. vangloriam-se dessa marginalidade. Citarei apenas tres exemplos. BAlAN~O DA METODOlOGIA E DA PRODU~AO NOS UlTIMOS 25 ANOS 53 A breve apresenta~ao mostrou-nos a diversidade de situa~6es. Luisa Pas- rários. na Itália. nao se sai dos domínios há muito explorados do historiador. con- A progressiva aceita~ao da história oral pela história universitária siderando o conteúdo e os personagens em questao. com o ensaio de Sherna Gluck in- aspecto. O crescente interesse pela história das mulheres . nos Estados Unidos. do ta~ao do depoimento oral. serini. onde o testemunho oral das classes populares tem "um último número de Historia y Fuente Oral publicou um índice de seus 12 valor imediato de verdade e de verdade alternativa". por exemplo. da militancia ou. Assim. a participa~aofeminina foi superior a 60%. Willa K. desempenhou im- voz aos excluídos e trata de temas da vida cotidiana.s da his. A bibliografia sobre o terna é das mais abundantes e nao pára de tória oral italiana. mas nos Es- da história oral da influencia da escola francesa dos Annales. corno atesta igualmente o programa do congresso realizado em Montreal. sismo" e o "localismo". 52 Usos & ABUSOS DA HISTÓRIA ORAL HISTÓRIA ORAL. de genero" (Clemente). Depois. de modo mais geral. mas também as mulheres e toda sorte de minorias. despertando em muitos historiadores os seus primórdios: ela nao existe verdadeiramente nos Estados Unidos. corno Luisa Passerini. Cabe destacar também política. Na Muitos historiadores orais. Regard. os jornalismo. o "ba. Desse ponto de vista. bem antes de a história taneamente e nao com o objetivo de informar". ponto de partida dessa história oral. vimento da história oral (e nao somente da história das mulheres). e poderíamos citar mui- rante alguns anos os historiadores profissionais. a diferen~a do pesquisador oral que cria o do- titulado What's so special about women: women's oral history (1977) e o cumento (Wallot). No início dos anos 80. Itália. o avan~o da história oral também está estreitamente ligado a "ótica ensao. Isso é perfeitamente compreensível. A quisa "concerne a memória corno produtora de representa~6es e revela- no~ao de marginalidade da história oral comporta nuan~as. mas também por seu objeto e doméstico. Eu- minantes (Clemente). na Espanha. logo após a metodologia. nao se pode separar o progresso pelos historiadores: a única novidade é a utiliza~ao da fonte. Tal é o caso. aumentar (Clemente. tendo o arquivista. nao surpreende a portante papel. primeiro simpósio de história oral das mulheres (1983) (Dunaway). nao resta dúvida que a história sica. os dominados nao sao apenas os ope. na América Latina. a proximidade entre cionava urna história total (Schwarzstein). A essas restri~6es juntam-se as da arquivologia clás- de sua vida afetiva. na tendencia ligada as Reconhecimento da fonte oral ciencias políticas (Schwarzstein). organizada por Daniele Voldman. desejosos de renovar sua tas outras: nos encontros internacionais de história oral. urna história história oral. Em Siena. Nuto Revelli. vendo nela a garantia da cria. Vilanova). meio congresso científico. Já a história oral ligada a antropologia. o assunto ocupa a segunda posi- a visao das classes dominantes. Outro terna familiar a história oral tornou-se também urna das dido. um interesse mais geral.

Essa abordagem contextual suprime as obje<.os ocupa a terceira posi<. 1995). A profissao de arquivista evoluiu muito na segunda me. se existem se<. ou para precisamente com- década exerce na historiografia francesa o projeto de Pierre Nora. pois o espectro da clientela dos arquivos passou a incluir outras grandes institui<.ao a história mais contemporanea (Hirokawa). foi o departamento de história contemporanea que criou urna pulso com o dever de transmissao da Shoa (Regard). Ora.oes aos arquivos europeu. mas também para sua francesas escolheram também esse tema. Em 1985 múltiplos vestígios da memória.ao de fontes orais sob a égide do Ministério do Património Cul- muitos outros sinais também dao prova desse mesmo interesse na Itália e tural mostra os vínculos entre os Arquivos do Estado e os centros de pes- na Espanha.ao pode somente privá-los de do- rencia nao é mais o documento e sim a atividade humana que cumpre cumentos insubstituíveis e comprometer seus trabalhos.ao de documentos. aqui e ali. no momento do registro. Chantal Tourtier-Bonazzi. a Espanha.ao e a guerra da Argélia (Regard). mi. cabendo-lhe nao só selecio- vemos nos preocupar demais com as derradeiras e persistentes resistencias nar mas também completar e preencher as lacunas. Muitas pesquisas orais oral.ao intermediária. versidade permanece mais indiferente. 1995). e os servi<. independentemente da Universidade (Clemente).a. Foi esse tema que inspirou históricos da Marinha e da For<. a Itália. Mas a memória é também constitutiva da identi- aux archives. que a uni- tancia da fonte oral. a bomba atómica no Fran<. A meu ver nao de- tade do século XX. através das comemora<. mas que ganhou forte im. stein). No Japao.ao da fonte oral está pois largamente difundida no praticado pela maioria dos adeptos da história oral que nao-deliberada- mundo universitário. quisas territoriais. assim como na América Latina. Na mente se veem assim as voltas com as preocupa<. quer pesquisem por si mesmos. No Leste eu- Os arquivistas seguiram esse movimento. Les lieux pletar um acervo (Wallot).AO NOS ÚLTIMOS 25 ANOS 55 judaica. Barcelona. de resistencia in. mas os centros de atividade sao bem menos numerosos do que 1995). jornalistas. cinqüentenário resultaram em inúmeras pesquisas: percebe-se aí a impor. havendo certamen te diferen<. as restri<. na qual o papel da me. junto aos criadores de do- A história oral reencontrou finalmente a história geral em torno cumentos. na Itália. é num dos países mais precoces.oes ou os esquecimentos tornam-se urna for<.:ao das comunidades asquenazes do Leste testemunhar. as distor<. Seu estudo exprime pois perfeitamente o tipo de história antropológica A utiliza<. ele se tornou mais ativo.a Aérea também constituíram um acervo toda a metodologia de Aix baseada nos etnotextos (Bouvier et alii. Já em mória é fundamental desde os tempos bíblicos. Jean Favier. mas também ao exodo dos judeus sefarditas do Magreb após a provocados e torna os arquivistas parceiros ativos dos projetos de história descoloniza<. ele rou-se há vários anos um fichário central de arquivos orais. Europa. Os defeitos que anual sobre a fonte oral.O DA METODOlOGIA E DA PRODU<. publicou um manual (Le témoignage oral urna matéria histórica. Ainda há urna forte resistencia Japao e a solu<.ao da o problema foi mais bem resolvido.ao final no contexto europeu (Hirokawa. A terna ou de acontecimentos ainda mais dramáticos. quando nao o antece.as conforme o país.a está numa situa<. Joutard. devido nao só a destruÍi.a e nais. um levantamento dos institutos de de mémoire (Os lugares da memória). das inscri<. expressao hoje consagrada? Porém conserva<. no país vizinho do outro lado dos Pireneus (Joutard. Regard. 54 Usos & ABUSOS DA HISTORIA ORAL HISTORIA ORAL BAlAN<. inaugu- mente aos historiadores orais: no índice de Historia y Fonte Oral. quer eles promovam ou apóiem projetos. a julgar pelo grande número de cen- história oral a história geral. por exemplo. Já nao é mais .oes universitárias promovem pesquisas orais (Schwarz- disciplinas das ciencias humanas. Paradoxalmente. 198O).ao.ao.oes mais atuais. ropeu os projetos se multiplicam. quer se trate dos italianos de an- cria<. os arquivistas franceses organizaram urna parte de seu congresso oral é o documento mais adaptado por sua ambivalencia.oes em pedra. de la col/ecte a la communication) prefaciado pelo diretor ge- dade pessoal e coletiva. os pontos fortes e as omissoes.oes que no ensejo do tros interessados e de projetos desenvolvidos (Vilanova). de depoimentos cujo catálogo é por eles publicado (Joutard.ao de documentos orais nos Arquivos da Cidade (Vilanova). senao mais hostil (Clemente). tema caro a etnologia mas que interessa igual. na maioria dos países. no sentido inverso.oes a história oral na verdade escondem urna litantes diversos. e a principal refe. em 1990. sem falar da historiografia judaica. onde deram. bem como geneticistas. 1995). com 20 ocorrencias. tardiamente "conquistada". me parece ser o país onde O fenómeno da memória age de outra mane ira na integra<. quer se trate de história militar. para compreender como o acervo foi da Memória: acaso será preciso lembrar a enorme influencia que há urna constituído. Nos Arquivos Nacionais. oposi<. tes da guerra ou dos magrebinos da época atual (Joutard. um conservador dos Arquivos Nacio- lhe atribuem. ral dos Arquivos da Fran<. de colegas universitários cuja obstina<. nao só para a conserva<. o testemunho e 1986.

entre outros. Já em 1980. possam prosseguir o diálogo por muito tempo. o oral (Schwarzstein). urna assunc. contanto que retornemos a definic. York.:ao de espírito crítico.:aodo docu. Pode-se mesmo dizer. a vida quase sempre acaba por impor-se. histórias pessoais e nacionais muito diferentes. 1. rém reconhecer tal subjetividade nao significa abandonar todas as regras bém preferem falar em uso de fontes orais na pesquisa e nao em história e rejeitar urna abordagem científica. para nao dizer revolucionária. 56 usos & ABUSOS DA HIST6RIA ORAL HIST6RIA ORAL BALAN~O DA METODOlOGIA E DA PRODU~AO NOS ÚLTIMOS 25 ANOS 57 tempo de procurar convencé-los. Nessa ótica. Mercedes Vilanova assim intitulou o balanc.:ao na disciplina histórica geral levou Nao é certo que essas duas tendéncias bem definidas. assim como os projetos de his. a confrontac.. é representac. que nao sao poucos .da América Latina. orais".:ao de poder ilegítima (Schwarzstein). isto é. que re flete m trajetórias. Assim. 1989..) o estudo vista da base da sociedade. para nao logos e. e sua popularidad e nao param de aumentar. cujo primeiro editorial é explícito a esse res. p. ligam-se a pri- Por sua vez. O mesmo pensam muitos arquivistas para quem a expressao fontes orais é mais exata na medida em que se trata de urna fonte entre outras. O século XXI. 3). Mas pode-se voltar atrás e paradoxalmente nao levar em de Jean-Pierre Wallot ao dirigir-se a seus colegas: "Quando a vida e os considerac. dos excluídos". Sin. A história consiste simplesmente na reproduc. e este nao raro obtém mento oral" (n. deixa entrever urna expansao Itália.. que o fato de reconhecer sua subjetividade é a prime ira ma- tropologia e história no que diz respeito ao status documental das fontes nifestac. Estabelecem um eixo principal de refle- xao em torno do necessário confronto entre os historiadores e os etnó- meus colegas. mas também da tória oral. Mesmo que limitemos o documento oral.6es ou dos discursos sobre os discursos" (1992:8). como se faz num trabalho histórico académico. depende também do envolvimento do entrevistador. já que sua lógica e Schnapper contestara seu uso. preferindo a expressao arquivo oral. fato que o peito: "A revista se chama Historia y Fuente Oral nao porque a 'História historiador oral percebe ainda mais claramente: a qualidade da entrevista oral' seja alguma panacéia.:ao das intervir e interpretar.:ao. Contentemo-nos em lembrar a conclusao dizer inexata. Todavia essa reintegrac. já as nossas portas. ao contrário.:ao nao deve satisfazer aos militantes da oralidade - multiplicam-se em número e em qualidade. qualquer alusao a mé- História au fantes arais? todos críticos. seus objetivos sao tao diferentes. Pietro Clemente partilha desse ponto de vista quando trabalho crítico. como a maioria de desenvolvimento da história oral.:ao de historiadores orais.:ao das fontes.) sua utilizac. Dominique Aron. como mente nova. claramente muitos historiadores que praticam a história oral a se interrogarem sobre manifestadas ainda por ocasiao do último congresso internacional de Nova a pertinéncia da expressao história oral.:ao sao porque ela é simples e tem a antiguidade a seu favor. mas nao exclusivo. Jean-Pierre Wallot reserva a expressao história oral para de- signar "um método de pesquisa baseado no registro de depoimentos orais meira tendéncia e apresentam convergéncias bastante animadoras para o concedidos em entrevistas". podemos manter a expres- a história oral seja relativamente nova como disciplina (.:ao espe- cífica. sen- sibilidades. de modo mais geral.. É bem verdade que todo historiador lúcido sabe perfeitamente até que dirige: Historia y Fuente Oral. "a alguns tipos de objetos históricos (. muitos utilizam as melhores resultados quando leva em conta sua própria subjetividade. De minha parte considero. o próprio fato de da memória ou.:ao de urna perspectiva. taisobjetos considerado "sacrilégio". pode mo- nos apresenta: Por urna História sem Adjetivos: 25 Anos de Fontes Orais mentaneamente manter as aparéncias. Os arquivos orais existem. lho disciplinar.:ao sao tao estrategicamente decisivos para a compreensao de urna sociedade do discurso dos excluídos.o que ela hoje Dunaway é tao caro a quarta gerac. da vida cotidiana. A defesa do "subjetivismo". de fazer história "do ponto de quer Daniele Voldman. Po- fontes orais de modo predominante. Qualquer intermediário seria urna traic. Todos os textos aqui apresentados.:ao urna história? Assim. eles tam. que a expressao "fontes orais" é metodologicamente prefe- rível e que a expressao "história oral" é terrivelmente ambigua. ponto ele mesmo se projeta em qualquer pesquisa histórica. sem diz em sua conclusao que deseja abrir "novas frentes de diálogo entre an- paradoxo. a adoc. . o que equivale a "desprofissionalizar" o traba- que abrem a pesquisa oral um campo considerável. os especialistas das outras ciéncias sociais. Tal definic. Embora Jean-Pierre Wallot e sublinhemos seus limites. que segundo tomaticamente. a análise da evoluc. para quem a história oral continua sendo urna maneira radical- desse campo de estudo". e sim para reivindicar a utilizac. pois nao há mais necessidade de ter urna formac.:ao de princípios se defrontam. note-se a analogia com o nome da revista que ela fundou e tes. mas o subjetivismo tem seus limi- na Espanha. Na América Latina.

ao fora do contexto assim poupado para mostrar a esses militantes. E no entanto é precisamente nesse caso que o tes- nalizar. em nossa dis. Pressente-se. Regard). 58 Usos & ABUSOS DA HISTÓRIA ORAL HISTÓRIA ORAL. Já dadas por Dunaway e também por Clemente ou Dora Schwarzstein. Primeiro desafio: o lanr. matismo da memória. No exemplo específico mencionado.6es históricas extremas que acarretam um profundo trau- científica.ao escrita. a conclusao das ex- motivo para manifestar inquietar.6es de Pietro Clemente e de Dora Schwarzstein.ao a ba. folheando as várias re- toriadores e também como cidadaos. se é que isso é Mas entre os historiadores orais que rejeitam essa abordagem possível: as situar. urna contestar. os de arquivistas e museógrafos interessados em completar sua respeito. com as possibili- todos de pesquisa rigorosos. os deficientes físicos. nem das comparar.ao que leva a perda do dinamismo e da criatividade.ao da Terceiro desafio: como articular melhor e fazer dialogar os di- memória. por mais difícil que seja obte-Io e quais- talgia da aurora da história oral. nao escaparemos dos mé.ao.ao entre popular.á-Ia. Cum- que nao quero mais perder tempo tentando convencer alguns colegas re. Falei da dificuldade cada vez maior de diálogo com Segundo desafio: a reflexao metodológica ligada aos debates com os militantes da história oral. bem corno urna nos- temunho oral se faz necessário.ao. porém deli. no en.6es de história oral. que veem nossos métodos científicos como as disciplinas afins. a ins- oferece um exemplo com as Japan's military comfort women que aceitara m titucionalizar. a urna reflexao sobre o papel do de- vistas dedicadas parcial ou totalmente a história oral. Os desafíos sao suficientemente nu- posÜ. Tadahide Hirokawa nos juventude a maturidade é sempre difícil. explicar ao grande público algum acontecimento do passado nacional ou po de extermínio diante de quem preferimos nos calar e nao escrever por regional. nao podemos nos furtar.ao do acervo de fo- zaramtesouros humanos inestimáveis. que muitas vezes atuali.obrar no academicismo? Gostaria de tranqüilizar todos Mas neste cinqüentenário da descoberta do horror absoluto com os que estao hesitantes e por isso se refugiam numa fase infantil da pes- a abertura dos campos de extermínio.O NOS ÚLTIMOS 25 ANOS 59 Tal é aliás o teor da tese apresentada por Dunaway. Quinto desafio.ao. pior ainda.ao que deve ser levada a sério: o tratamento científico de colocam um problema histórico e buscam na fonte oral um meio de re- um relato de vida acaso nao seria dessacralizante. a questao se torna atualíssima. Tomemos o caso extremo do fugitivo de um cam.ao. mória dos vencidos é ainda fazer dela urna história.ao. numérica e a multimídia (Dunaway. que a melhor homenagem a me. ciplina. raciais ou políticas. ainda mais difícil de enfrentar. sem contar o meio mais eficaz de combater o cáncer que representam. virá reforr. os de pedagogos que querem iniciar seus alunos na his- urna parte importante de si próprio a mesma atitude que ternos para com tória. dades de comparar.ao das fontes orais a história contem- que é aceita pelo mundo academico.ao das tecnologias Os atuais desafios da história oral de comunicar. a objer. convém utilizar o tempo que ponto o testemunho oral se presta a urna utilizar. os desses outros pedagogos que sao os jornalistas interessados em os documentos escritos. se nao quisermos sua identidade? que a testemunha somente seja aceita em toda a sua contundencia pelos Quarto desafio. este é submetidas a diferentes tipos de opress6es. a passagern da quer que sejam os escrúpulos dos pesquisadores.6es territoriais ou grupos em busca de receio de relativizar e banalizar (Regard). Essa historizar. pre igualmente tratar do problema levantado por Jean-Pierre Wallot: "até ticenciosos da evidente necessidade da fonte oral.ao da fonte oral acaso nao poránea do Japao. beradamente longo. sociologia. como que urna falta de salve-lo.ado pela rápida evolur. Agora depor. teme-se o embotamento. corre o risco de sor. nem posteriormente da ador. com os audio-books e as video-letters e agora a imagem Cabe um último comentário a guisa de conclusao. Relendo os trabalhos aqui apresentados. E.ao de urna pers. sugerido por Mercedes Vilanova: o "descobrimen- que a conhecem ou por seus contemporáneos. amplamente abor- urna espécie de trair. e nao prevista por seus criadores?" Com a multiplicar. Em outras palavras. mostrando assim a contribuir.ao para com aqueles que conosco tanto colaboram. os de universitários que se tanto. nogramas nos arquivos e museus. o negativismo. como his- quisa oral. a utilizar. pressinto também o receio de passar da marginalizar. BALAN~O DA METODOLOGIA E DA PRODUO. o revisionismo e. versos projetos e produr.6es. em vez de enfraquece-Ia. nao vejo nenhurn poi mento oral na história indispensável desse acontecimento inconcebível . pectiva. etnologia ou lingüística. merosos para evitar o embotamento da história oral e sua banalizar.ao? Nao podemos ter para com quem nos confiou documentar. to dos analfabetos" num mundo de civilizar. no entanto. para usar a expressao de Daniele Voldman. os das diversas instituir.6es analfabetas de diversos países.

sem receio de ser desmentido. 1983.. de Michael Pollak. mas como artista. se lembrarmos a observa<. Referencias bibliográficas preendente? Decerto que nao. 1990. este é lembrar que. EUA). Nao é por acaso que. a história deve ser também urna arte.). Jean-Claude et alii. Clemente. Paris. O historiador Pierre Vidal-Naquet nao hesitou em escrever: "a única grande obra histórica francesa sobre o . Albuquerque. 1980.. Tadahide CUniversidadeda Cidade de Osaka. como o belíssimo Silencio da memória. Se cabe a história oral um derradeiro papel Brossat. Potel. Association pour I'Histoire de la Securité Sociale. obra de pesquisa. que na Fran<. Pierre Cdir.AO NOS ÚLTIMOS 25 ANOS 61 60 Usos & ABUSOS DA HISTORIA ORAL . Les lieux de mémoire. obra de arte". orales? Paris. L'enquete orale en classe. Ele teve a audácia de fazer urna obra de história em que somente méthodologique et de travail. La Découverte. Sonia. da Shoah. -. Lista dos trabalhos que servlram a elabora~éío juil. David CUniversidade do Novo México. Problemes "urna história-memória. 1981. Modern contemporary history and oral history in Japan.) tudo repousa sobre as perguntas que ele faz e as respostas que Ihe dao" (1991:227. Historia y Fuente Oral (1-13). Paris. a memória do presente é chamada a depor (. Vilanova. Posso afirmar. CNRS. HISTORIA ORAL BALANCO DA METODOLOGIA E DA PRODU<. Espanha).ao. Suí<.. Japao).. 7v. Bouvier. Por una his- universo dos campos de concentrapio. Marseille. Ottawa. . 1984-92.a). suscita cada vez mais pesquisas orais. Gallimard.. The interdisciplinarity of oral history. o Holocausto é atualmente o acontecimento da II Guerra Mundial que Genebra. Argentina). Paris. Ces voix qui nous viennent du passé. Combe. Jean-Charles no que toca a profissao em geral. Nora. segundo a bela expressao de Pierre Vidal-Naquet. mas a memória moldada pelo historia. . nao hesitando em fazer. Vingt-cinq ans d'his. Barcelona. toire orale. Paris.ao. nao só gravadas mas também fil- madas.Approche orale et histoire juive en diaspora depuis une trentaine d'annés. 1995. Schwarzstein. Dora CUniversidade de Buenos Aires. Jean-Yves & Szurek. Nao a memória bruta. massacre (. para ser realmente Cdir. Genevieve. Hirokawa. A l'Est: la mémoire retrouvée. e evidentemente toria sin adjetivos: 25 años de fuentes orales en España. Histoire orale ou archives memória". apr. do relatório Joutard.). Hachette. o filme Shoah. Historiens et Géographes. Dominique & Hanet.). submetendo-se apenas a Aron-Schnapper. Itália). dor. 233). 1989. "a ciencia dos homens no tempo". 1980. La his- aludimos. Wallot. de Nicole Lapider. Le témoignage oral et la recherche historique franc. Le débat sur les sources orales en Italie. nao há nenhuma razao para temer o marasmo ou a banaliza<. que nao age mais exclusivamente como cientista. Jean-Pierre CArquivos Nacionais do Canadá. Tradition orale et identité culturelle. Nicole. Philippe. Daniele. explicar e denunciar o inominável. pois somente o et méthodes. Plon.aode Elie Wiesel: '2\uschwitz desafia a imagina<. déc1in? Historia y Fuente Oral (15). artista pode exprimir. Também publicado em Fonti Orali (1). 1982. Le silence de la mémoire. de Claude Lanzmann.aise: progres ou . Regard. Alain. Canadá). sendo o exemplo mais recente o projeto de Spielberg a que já . Lapierre.aofinal" produziu as obras mais significativas em matéria de his- tória oral. Vamos mais além. Dunaway. "solu<. Mercedes CUniversidade de Barcelona.) nao é um livro.a a toria oral en América Latina. Pietro CUniversidade de Siena. Joutard. ou O .ao e a percep<. É sur. Fabienne (Instituto Universitário de Altos Estudos Internacionais. . apesar de todos os problemas levantados.. mas o fihne Shoah de Claude Lanzmann L'archivistique et l'histoire orale: bilan d'un quart de siecle de reflexion C. Arxiu Historie de la CiutatjUni- Isso equivale a dizer que ternos ainda muito trabalho pela frente e que versitat de Barcelona.

). Daniele (dir. La bouche de verité. Histoire orale et histoire des femmes: table ronde. I ! 62 Usos & ABUSOS DA HISTÓRIA ORAL Pollak. Thompson. . v. Paris. -. Michael. Voldman. L'expérience concentrationnaire. 1993. 1992. Paul. la mémoire et le temps présent. The voice of the past. La Découverte. Pierre. Oxford University Press. Historia y Fuente Oral (5). Bulletin de l'lnstitut d'Histoire du Temps Présent (3). 16 octobre 1981. 1978. 2 1982. Memória e tradiC!oo La historia oral en Francia a finales de los años ochenta.. 2. Cahiers de l'IHTP. La recherche historique et les sources orales. Paris. Métaillé. Pa- ris. 1991. Vidal-Naquet. 1991. Les juifs.