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Universidade Agostinho Neto

Faculdade de Ciências Sociais
Mestrado em Ciências Política e Administração Pública

Módulo: Sociedade angolana: Culturas e dinâmicas

Job Raul Baptista Upalo 1

Tema: 1.5. Dois conceitos: Comunidade e reconhecimento
Resumo

Neste trabalho procuramos analisar os conceitos Comunidade e reconhecimento como
problemas filosóficos. Para este processo, utilizamos as obras Bauman, Zygmunt
Comunidade. A busca por segurança no mundo actual e de Ricoeur, Paul Percurso do
reconhecimento. Sobre a comunidade. Bauman considera que a ela correspondem
apenas adjectivos que conferem conforto ao homem, podendo ela ser ética e estética
conforme se funda em na moral, em valores e na beleza. Quanto a identidade, ela
constrói-se em consideração do sujeito, na sua interação com os outros.

Palavras-chave: identidade e reconhecimento.

Abstratct

In this work we seek to analyze the concepts of community and recognition as
philosophical problems. For this process, we use the works Bauman, Zygmunt
Community. The search for security in the world today and Ricoeur, Paul Path of
recognition. About the community. Bauman considers that it corresponds only to
adjectives that confer comfort on man, and it can be ethical and aesthetic as it is based
on morality, values and beauty. As for identity, it is constructed in consideration of the
subject in his interaction with others. Keywords: identity and recognition.

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Relatório do trabalho de exposição do dia 17/11/2016; sendo docente o Professor Doutor Luís Kandjinmbo.

lutando não só por se diferenciar. Daqui se pode inferir que por mais excêntrica que nos pareça ser a identidade de um grupo precisa de ser sempre respeitada. Este conjunto de relações sociais permitem não só caracterizar a sociedade como também conservar a identidade do sujeito. e diversas realidades e em situações variadas.Introdução A construção da identidade resulta de um processo de interação entre diversos sujeitos. de fato. mas por sua própria existência. está. e agir de modo a que esta seja mantida. Pode-se então dizer que um grupo que sente a necessidade de construir uma identidade. .

reconhecimento e outros afins. por sua obra Modernidade e Holocausto) e Adorno (1998. determinados pressupostos e conceitos tais como: o conceito de comunidade. desigualdade. após ter vários livros e artigos censurados. 814). o autor considera que “as palavras têm significado: algumas delas. 2004. Na esteira do que diz. os direitos fundamentais de todos os cidadãos. onde todos gostaríamos de viver.org/wiki/Zygmunt_Bauman (19/11/2016). fundamentalmente os ligados a segurança. Ela sugere uma coisa boa: o que quer que “comunidade” signifique. p. Emigrou então da Polónia. A procura pelo reconhecimento deve passar por essas duas vertentes. justiça. de onde foi afastado em 1968. pelo conjunto de sua obra). já que ela responde as necessidades de qualidade segurança. liberdade. Apalavra “comunidade” é uma dessas. O autor. Como se pode ler acima. sem o que o multiculturalismo só perpetuará as diferenças sob a rubrica de que todos têm direito a ela e somente a ela. conforto.” “estar numa comunidade”. com sua habitual franqueza e coragem. guardam sensações. Ao contrário. e na Grã-Bretanha tornou-se professor titular da Universidade de Leeds (1971 em diante) e escreveu mais de 20 livros. (Bauman.A comunidade na perspetiva de Baumam Zygmunt Bauman2 Nasceu a 19 de novembro de 1925. Braz. 2003. É professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Na obra em análise obra. diz 2 Conteúdo capturado em linha no site: https://pt. leva à segregação e ao ódio como também não conduz a uma comunidade que tenha como objetivo o compartilhar e o cuidar mútuo. a todas as adjetivações que tragam e façam bem ao homem. o que não garante uma distribuição justa dos recursos. é bom “ter uma comunidade. Bauman passa a descrever e a criticar. a comunidade corresponde a um lugar idílico. coloca em cena o que as agendas sociais de hoje deixaram de lado. A partir deste início. Gradou-se em sociologia na URSS e iniciou sua carreira na Universidade de Varsóvia. qual seja a questão fundamental da justiça distributiva diante das diferenças e a defesa da igualdade de direitos por recursos da grande maioria da população. Recebeu os prêmios Amalfi (1989. a partir de uma visão ética em contraponto a uma visão estética. P. os homens vivem.wikipedia. Bauman. 7). confiança em fim. (Braz. diferença. . igualdade. esta obra procura agregar os grandes desafios que hoje. quando pretensamente sob a égide de um poder político estariam garantidos. porém. por motivo de perseguições antissemitas.

perigo e outros males afins. como uma lareira diante da qual esquentamos as mãos num dia gelado. nela não há propriedade privada. o solo não pertence a ninguém. prestar atenção com quem falamos e a quem nos fala. temos que estar alertas quando saímos. p. lamentavelmente. brincos. desconfortável. os hospitais não utilizados porque todos saudáveis. a nosso alcance — mas no qual gostaríamos de viver e esperamos vir a possuir. p. um lugar em que estamos a salvo do frio e outros perigos. procura demonstrar que nessa cidade utópica o ouro era um metal desprezível. é banhada pelo rio Anidro. o termo de forma irónica em contraponto à realidade em que estava emerso. “direito à auto-afirmação” e “à identidade”. subalternização. 7). a partir das quais se procuram exprimir e caraterizar a realidade presente. estar de prontidão a cada minuto. respeitam as mesmas leis. também chamada “autonomia”.que “a comunidade é um lugar “cálido”. 50) os conceitos comunidade e sociedade. Tudo o que seja ruim. governados pelo príncipe Ademos “aquele que não tem povo”. A ilha de Utopia tem 54 cidades. As metáforas aqui empregues exprimem com exactidão o que na visão do autor. tal é apenas possível se . (Bauman. p. toda sorte de perigo está à espreita. e colar de ouro e até uma coroa de ouro na cabeça. na rua. nos exige renunciar “a liberdade. É como um teto sob o qual nos abrigamos da chuva pesada. e seus vizinhos são os Achorianos “homens sem país. Tal como considerou igualmente Bauman (idem. Como diz Albuquerque (1999. traiçoeiro. desigualdade. tudo o que exprima exploração. Um olhar profundo sobre esta obra nos remete à Utopia. seriam apenas possíveis na sociedade. Bauman (idem. para se comunicar utilizam a mesma língua. nos lembram um exercício de reflexão. um lugar confortável e aconchegante. Na obra se pode ainda ler que os ladrões são presos com correntes de ouro. 9): “comunidade” é o tipo de mundo que não está. seus cidadãos são alopolitas “cidadãos sem cidades”. era Amaurotum que significa “cidade do sonho”. 2003. p. que usou. 10) diz que viver em comunidade. usa anel. rio sem água. injusto. grandes e magníficas. Essa última descrição. maldade. Lá fora. obra do humanista Thomas Morus. seria uma comunidade: um teto sob o qual ficamos protegidos da chuva. e quem pratica um crime. Não sendo possível viver em comunidade e manter estes direitos. A capital da ilha.

uma comunidade que esteja assente na ética. é equilibrada. Tipos de comunidade segundo Bauman Antes de nos debruçarmos sobre este tópico. possibilitando que ninguém saia prejudicado. (p. sendo uma ética e outra estética. que. A comunidade que procuram seria uma comunidade ética. 2003. graças à sua durabilidade prevista (melhor ainda. institucionalmente garantida). Neste sentido. procura a justiça comutativa e distributiva. de direitos inalienáveis e obrigações inabaláveis. expresso numa aprovação consensual do juízo ou em conduta uniforme. Como ele diz. Esta comunidade é transitória. Na comunidade ética. (acesso: 16/11/2016) . O outro tipo de comunidade. Ela incentiva a destruição do Eu por assentar apenas na busca de prazeres.pdf. a identidade parece partilhar seu status existencial com a beleza: como a beleza. pudesse ser tratada como variável dada no planejamento e nos projetos de futuro. em tom crítico.escolhermos viver em sociedade. deriva do grego ethos (caráter. A ética serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social. está relacionada com o sentimento de justiça social3.ws/empredi/1291639461333336/1359372788642770Definicao_de_Etica_resumido__Carlos_Fa rias. Como se pode então ver. amiúde insatisfatória e algumas vezes assustadora”. O termo ética. dos laços comunitários — mas da mesma forma que os demais homens e mulheres podem achar que a vida vivida sem comunidade é precária. Bauman considera que as elites são as responsáveis pelo desaparecimento da comunidade. Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. promove a ascensão social. a ética. explícito ou tácito. Nela os compromissos de longo prazo. ao contrário dos fracos e derrotados. embora não possa ser confundida com as leis. os “poderosos e bem-sucedidos” podem ressentir-se. não tem outro fundamento que não o acordo amplamente compartilhado.provisorio. cuida dos menos 3 http://files. (Bauman. 57) Para ele haveriam dois tipos de comunidade. modo de ser de uma pessoa). p. que é oposta à ética. tal pretensão é alimentada pelo acúmulo da riqueza que faz com que uns subjuguem os outros. na qual somo livres mas renunciamos a nossa segurança. 68).

inspirada nos preceitos de Karl Barth. a teoria da metáfora. pela Psicanálise. Licenciado em filosofia. tendo sido preso pelos nazistas e enviado ao campo de Grob Born e depois a Arnswalde.favorecidos. Louvaina. e da narrativa teoria. Em 2000. do personalismo e da fenomenologia4.org/wiki/Paul_Ric%C5%93ur (acesso: 21/11/2016). pela Université Catholique de Louvain. (Paula e Suzi. p. ampliando o estudo da interpretação textual de incluir os domínios ainda concretas amplas da mitologia.wikipedia. na Polônia. 2011. passou pelas universidades de Estrasburgo. desfavoráveis procura promover a mobilidade social. Em 1995 ele recebeu um doutorado honorário da Universidade Nacional de Kyiv-Mohyla Academy. e de Yale na qual elaborou um importante estudo sobre Filosofia Política. A identidade em Paul Ricoeur Paul Ricouer nasceu há 27 de fevereiro de 1913. existencialismo. ele foi premiado com o Prêmio Kyoto em Artes e Filosofia por ter "revolucionado os métodos de fenomenologia hermenêutica. tendo escrito mais 10 livros5. enquanto docente e investigador. Em 1935 foi premiado com o segundo maior agrégacion. entre outros valores positivos e perenes. criou a revista Être. de Nanterre. 5 Idem . 9). No contexto da IIGM serviu como militar. teólogo cristão suíço. exegese bíblica. de Sorbonne. a psicanálise. que também tinha interesse pela Linguística. 4 https://pt. Este mestre da Filosofia. em Châtenay-Malabry França. pelo Estruturalismo e a pela Hermenêutica. No seu percurso de vida como académico publicou várias obras e nelas é visível as marcas do.

A identidade. 1). da mesmididade. O autor acreditava que qualquer postura do sujeito no mundo e diante de si é comprometimento. a Antropologia. Não há como compreender a identidade pessoal sem o auxílio da narração. é ação ética. p. Em segundo lugar. para a qual existem dois tipos de narrativas: a narrativa histórica e a narrativa de ficção. a Filosofia. 2005. ontológica. O ser enquanto idem e o ser enquanto ipse não são coincidentes. Para ele. destacamos primeiro a identidade em sentido numérico. Na ideia. era o lugar procurado para a fusão entre o histórico e o ficcional. em as variáveis assumem uma unicidade. sendo o o seu contrário a pluralidade. ipseidade (latim ipse).com/eventos/content_eventos/Identidade(s)/_pdf/Paul_Ricoeur_A%20IDENTIDAD E_NARRATIVA. p. ambos se entrecruzam. sendo o inverso o contrário 6.Como abordamos em nossa exposição no dia 17. 10). que se constrói a partir da temporalização de si próprio. (acesso a 22/11/2016) . pelo contrário. falar de identidade nos remete à questão difícil de resolver.pdf. p. Mas nessa secção interessa-nos o estudo de Paul Ricoeur. de modo que ambos que se possam reciprocamente substituir. seja de uma pessoa individual. Ricoeur procura mostrar a profunda diferença entre pensar-se a identidade pessoal em termos de mesmidade e ipseidade. o conceito de ipseidade implica um outro tipo de identidade. ela é comummente discutida pelos Estudos Culturais (Bauman. seja de uma comunidade histórica. Ele formulou a hipótese segundo a qual a constituição da identidade narrativa. é a identidade narrativa.porta33. a ideia de semelhança de objectos diferentes. Ipseidade não é a mesmidade. A mesmidade encontra-se subjacente a noção latina de idem . essa diferença não é meramente semântica e. portanto. Isto dá-se porque a identidade agrega elementos variados alguns até impercetíveis sensorialmente por serem apenas apreensíveis pelo espírito. a ipseidade designa essa capacidade única de sentir a 6 http://www.11). 2006. com destaque para Psicologia. Mas é bom ressaltar que a noção. Conceição. Por sua vez. da identidade tem sido discutida por várias ciências. sim. é identidade (Conceição. o caso da ancestralidade. Ricoeur fez uma análise detalhada da diferença fundamental entre os dois usos principais do conceito de identidade: a identidade como mesmidade (latim idem) e a identidade como si próprio. Porém nos nossos dias. que expressa a identidade alcançada a partir da permanência substancial no tempo. enquanto ipse . várias relações são operadas. 2006. pois o sujeito tem a possibilidade de construir sua própria narrativa.

O assunto revela-se complexo.pdf . p. Curial é então ressaltar que a identidade. o “eu” com ou contra o “outro”.ul. . está ligada aos valores que os grupos professam e defendem. está ligada às crenças. porque a identidade assume diferentes formas. uma mediação privilegiada. A identidade pessoal. podemos assumir que a identidade define-se não apenas em termos relacionais. Apud Conceição. que antes devem reforça-la. p. 7 http://repositorio. uma ficção histórica. por sua vez. está relacionada. 3). Mas ela projecta-se a eles como resultado nas nossas crenças. É por isso que parte relevante do nosso trabalho de pesquisa volta-se para a análise e compreensão de como os frades pregadores organizam seu sistema educacional. não se avizinha consenso na discussão entre o que seja a identidade. A imagem do individuo é projectada para sociedade e como um ciclo interminável esta envia igualmente estímulos ao individuo que se vai moldando conforme o tipo de sociedade em construção. é o resultado do reconhecimento que os outros possuem de nós.pt/retrieve/69992/Philosophica%2033-4.presença da estranheza no que lhe é mais próprio e familiar. comparáveis às biografias dos grandes homens em que se mistura a história e a ficção (Ricouer. 2011. mas diferentes etapas da histórias. 2013. Portanto. se se preferir. Sendo assim. essa experiência manifesta- se sempre que se põe como outra na reflexão sobre si7. desaparecer na amálgama das interações sociais. fazendo da história de uma vida uma história fictícia ou. a cultura material e imaterial. está ligada ao tipo de organização económica que possuem. pois. entre outros signos e símbolos. (Fortes. que busca se identificar consigo mês mo. não deve por isso. Parece. plausível ter como válida a cadeia seguinte de asserções: o conhecimento de si próprio é uma interpretação . nas diferentes concepções sobre o mundo que os diversos grupos possuem. da nossa história. da nossa peculiaridade.a interpretação de si próprio. mas igualmente toma forma inspirada pelo próprio grupo. 5).esta última serve-se tanto da história como da ficção. encontra na narrativa.

nos exige pensar no problema do reconhecimento do indivíduo e tipo de sociedade que estamos a construir. Entretanto para que o projecto da comunidade se materialize necessário de torna que cada uma de nós. a necessidade de refundarmos o Estado que construímos. perca parte da sua liberdade. O grande contributo desta obra reside no facto de nos impor a revr o modelo societários que estamos erigir. a obra de Bauman em análise. que está eivada de enormes problemas os quais se não encontram na comunidade. na qual todos gostaríamos de viver. . As dificuldades sociais que uma considerável pluralidade de angolanos vive. como considera Bauman e se impõe revalorizar e reconhecer o individuo. Em guisa de reflexão final nos apraz levantar dentro do que é a sociedade angolana. pois. Precisamos então de conciliar a liberdade a segurança. se não pode manter uma sociedade. em que a cultura seja subalternizada. em que a individualidade e a colectidade não sejam respeitadas por pretensos valores com os quais nem todos comungam. A comunidade seria assim o contraponto a actual forma de organização social.Conclusão Aqui chegados. dado que às vezes não se apresenta possível possuir as duas. porque o seu reconhecimento gera de modo natural a formação de uma sociedade que está acima das diferenças religiosas e políticas que enfermam a nossa sociedade. beneficiando em troca a segurança. por forma nos fundarmos numa comunidade que seja do tipo ética. queremos ressaltar que enquanto crítico. deve cada um preserva a sua identidade. procurou olhar para aqueles valores que sociedade actual perdeu. e com ela participar da construção da identidade social em que acha. Mas nessa comunidade e fazendo aqui alusão a Paul Ricoeur. no âmbito da sua cultura e dinâmicas.

2005. 65-7 FORTES. N° 04 – Dezembro – 2013 ISSN 2238-8788 RICOEUR. Carolina Coelho. O Conceito de Identidade: considerações sobre sua definição e aplicação ao estudo da História Medieval. V. Tra.São João del-Rei-MG Pág. Revista Mundo Antigo – Ano II.Conclusão BAUMAN.edu. Edições Loyola. Nycolas Nyimi Camapanário. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. BAUMAN. Edilene Maria da. Percurso do reconhecimento. Paul (2006). Zygmunt (2013). São Paulo. . 2. Rio de Janeiro. Plínio Dentznien. Identidade. Revista Estudos Filosóficos nº 6 /2011 – versão eletrônica – ISSN 2177-2967 http://www. CONCEIÇÃO. (2013). Comunidade. Zygmunt.ufsj.br/revistaestudosfilosoficos DFIME – UFSJ . A relação entre a identidade narrativa de Paul Ricouer e a identidade política de Hannah Arendt. Trad. A busca por segurança no mundo actual. (2011). Zahar.