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Resenha

Realidades e Ficções na Trama Fotográfica, de Boris Kossoy (Ateliê Ed., São Paulo, 1999)

I. Introdução

O livro apresenta alguns textos já publicados e outros inéditos, material referido em aulas e
palestras decorrentes de pesquisas teóricas, estéticas e históricas da fotografia. Ele é constituído de
três partes:

1. Conceitos para a reflexão estética da fotografia e sua aplicação na interpretação da imagem
contemporânea e do passado. Busca a idéia da imagem fotográfica como documento e seu caráter
de representação. É na imagem fotográfica, entendida como documento/representação, que está a
questão para a reflexão.

2. Textos históricos através dos quais percebe-se o papel ideológico da fotografia, enquanto
instrumento documental, com o intuito de apresentar o país através de imagens que transmitem
idéias de modernidade, esplendor e progresso: imagens de exportação.

3. Reflexões sobre arquivos, memória e reconstituição histórica, enfatizando, nas representações
fotográficas, o processo de construção de realidades e ficções em função do seu aspecto
documento/representação.

O objetivo neste livro é “ressaltar os processos de criação de realidades que a fotografia possibilita
e, por extensão, sua natureza ficcional.”

II. Construção e Desmontagem do Signo Fotográfico

Dada a sua natureza físico-química, a fotografia tem status de credibilidade – de um lado registra
atividades e ações humanas e de outro presta-se a interesses dirigidos. Graças à credibilidade que as
imagens têm junto às pessoas, elas são usadas por diferentes ideologias, para veiculação de idéias e,
portanto, formando e manipulando a opinião pública - propaganda política, preconceitos raciais e
religiosos, etc.

A imagem fotográfica tem sua forma de expressão peculiar, que difere essencialmente das outras
representações gráficas e pictóricas. A sua decodificação deve ir além da própria imagem, e
explorar a ambiguidade de informações, o potencial documental – deve-se buscar elementos para a
compreensão de seu objeto de estudo, compreendê-la como fonte histórica de abrangência
multidisciplinar.

Assim, o historiador não deve entender as imagens fotográficas em si mesmas, mas como ponto de
partida para desvendar o passado. São documentos que necessitam decifrar conceitos, atitudes e
omissões pensadas.

A imagem fotográfica congela cenas, e a história oficial, através dela, cria realidades e verdades
fictícias. Cabe ao historiador desmontar estas construções ideológicas.

A tarefa a ser desempenhada é decifrar a realidade interior, uma segunda realidade, das
representações fotográficas, seus significados ocultos, suas tramas, realidades e ficções.

Componentes estruturais da fotografia :

então.coordenadas de situação 1. detém. Na fotografia estão incorporados. A imagem é a cristalização da cena na superfície bidimensional. • de ordem imaterial → são os mentais e culturais. considerando a luz. seleção de equipamentos: câmara. da imagem fotográfica. pessoal ou profissional. dois componentes: • de ordem material → recursos técnicos. • fotógrafo = autor que idealiza e elabora a imagem. seleção do momento – decisão de apertar o obturador num determinado instante. objetivas. seleção de materiais e produtos necessários para o processamento do filme negativo ou positivo – operações do laboratório fotográfico. d. determinando o caráter da representação. imobiliza (item d). A motivação vai influir na concepção e construção da imagem final. químicos ou eletrônicos. visando um resultado determinado. seleção do quadro ou enquadramento do assunto (composição) . etc. cópias e ampliações. Fragmentação: assunto selecionado do real (recorte espacial) Congelamento: paralisação da cena (interrupção temporal) Fragmentação: espacialmente fraciona. fixa. f. • tecnologia = viabiliza tecnicamente o registro. O assunto representado é o resultado de uma série de escolhas que “obedecem à concepção e conformam a construção da imagem. O sistema de representação fotográfico se baseia na relação fragmentação/congelamento. seleção do próprio assunto. O componente de ordem imaterial se articula na mente e nas ações do fotógrafo no processo de criação. quando o fotógrafo seleciona o assunto em função de uma finalidade/intencionalidade. filtros. o efeito plástico. ópticos. através de um processo cultural. estético e técnico e tem como resultado a imagem fotográfica. seleção de possibilidades – produzem determinadas atmosferas na imagem final. e. Congelamento: temporalmente interrompe..elementos constitutivos produto final Espaço e Tempo 1. isola uma porção da extensão (item c). Elementos constitutivos: • assunto = objeto de registro.” Etapas inerentes ao fazer fotográfico: a. Ela contém o assunto (recorte espacial) congelado num determinado momento de sua ocorrência (interrupção temporal). Assunto/Fotógrafo/Tecnologia = Fotografia 2. Coordenadas de situação : espaço e tempo 2. Motivação interior e exterior. b. para a criação da fotografia. c.organização visual dos elementos constantes do assunto no visor da câmara. -2- . elege.

a cena se cristaliza no papel. Kossoy toma. A imagem fotográfica é uma representação resultante do processo de criação / construção do fotógrafo. Porém. a fotografia como um documento do real. A fotografia. uma fonte histórica. de seus filtros individuais. sofre interferências ao longo de seu processamento e elaboração no laboratório ou no meio eletrônico. de sua manipulação e interferências ao nível da expressão. ainda. é uma representação a partir do real. através da materialidade do registro. A imagem.O fotógrafo produz a imagem em função de seu repertório pessoal. também. então. que grava a realidade em dado espaço e tempo. -3- .

é o resultado do processo de criação do fotógrafo. parte da primeira realidade – o instante do registro. são as ações e técnicas usadas pelo fotógrafo que culminam com a gravação da aparência do assunto sobre um suporte fotossensível. a segunda realidade. Ele é o conteúdo explícito da imagem fotográfica: realidade exterior da imagem. Quadro 2 IMAGEM FOTOGRÁFICA Documento/Representação IMAGEM FOTOGRÁFICA REPRESENTAÇAO DOCUMENTO (a partir do real) ( do real ) ( Processo de) (materialização documental) CRIAÇÃO/CONSTRUÇÃO REGISTRO (elaborado pelo fotógrafo) (obtido através de um sistema de representação visual) REALIDADES DA FOTOGRAFIA Para a compreensão interna do documento/representação Kossoy retoma os conceitos de primeira e segunda realidades. pois a imagem fotográfica. quando é gerada. Findo o ato.O documento fotográfico. A imagem fotográfica contém uma história oculta e interna – é a realidade interior. por um único momento. mas é também criação – ao analisarmos as fontes fotográficas temos que levar em conta. entretanto. Não é o assunto real. como produto final. A imagem fotográfica é registro. mas o assunto representado. referência ao passado inacessível. É a realidade fotográfica do documento. É a história particular do assunto independente da representação e diz respeito ao contexto do assunto no momento do ato do registro. -4- . o binômio registro/criação ou testemunho/criação. Ela é. testemunho. de realidade exterior e realidade interior. a imagem obtida já passa a ter outra realidade. A primeira realidade é a realidade de assunto em si. o documento. Esta realidade é a realidade do assunto representado. Toda e qualquer fotografia será sempre uma segunda realidade. não pode ser entendido dissociado do processo de construção da representação. Também.

a verdade histórica. As imagens fotográficas permitem diferentes interpretações. processo de construção da representação – a produção da obra fotográfica por parte do fotógrafo.A fotografia é a transposição da realidade visual do assunto para a realidade de representação – transposição de dimensões. a fotografia não corresponde. ideológico. moral. processo de construção da interpretação – recepção da obra fotográfica por parte dos receptores – suas diferentes leituras. Assim. sua realidade interior). A realidade da fotografia: “uma realidade moldável em sua produção. necessariamente. Todos nós temos um repertório cultural. fluida em sua recepção. ético. plena de verdades explícitas (análogas. . -5- . Ela tem várias interpretações. e cada um adapta-a conforme seus valores. A interpretação vai depender deles. mas sim ao seu registro expresso. documental porém imaginária. várias leituras. sua realidade exterior) e de segredos implícitos (sua história particular. dependendo das imagens mentais preconcebidas dos receptores. Quadro 3 REALIDADE EXTERIOR E REALIDADE INTERIOR DAS IMAGENS ASSUNTO registrado processo de ASSUNTO (representação) CRIAÇÃO selecionado (dimensão a imagem (dimensão da vida) fotográfica) ESPAÇO E TEMPO 2ª realidade 1ª realidade REALIDADE EXTERIOR REALIDADE INTERIOR (nível do documento) (além do documento) o aparente o oculto PROCESSOS DE COSTRUÇÃO DE REALIDADES A experiência fotográfica abrange dois processos mentais: .

os cortes no formato original – são alteradas para ilustrar textos. Quadro 4 MECANISMOS INTERNOS DA PRODUÇÃO E DA RECEPÇÃO DAS IMAGENS PROCESSOS DE COSTRUÇÃO DE REALIDADES ASSUNTO selecionado FOTÓGRAFO 1ª realidade TECNOLOGIA ESPAÇO E TEMPO Processos de construção de realidades processo de construção ASSUNTO registrado da REPRESENTAÇÃO (a partir do real e. social. São alterações físicas em sua forma. como na moda. em função IMAGEM FOTOGRÁFICA de suas imagens mentais) 2ª realidade RECEPTORES processo de construção da INTERPRETAÇÃO múltiplas (a partir do confronto entre a interpretações 2ª realidade / 1ª realidade: tensão perpétua que se estabelece no espírito do receptor. Ela veicula produtos. em função de suas imagens mentais) A fotografia documenta qualquer assunto do real. -6- . Ela pode ser usada em vários campos. urbana. arquitetônica. O processo de criação não finaliza a materialização da imagem. Uma única imagem pode ser usada em diferentes áreas do conhecimento – ela é multidisciplinar: jornalística. mas um estilo de vida todo vinculado a ele. Não se presta somente a mostrar o produto em si. A produção da representação tem continuidade – a pós-produção. um padrão de comportamento. antropológica. Nela se acha todo um script a ser interpretado pelo consumidor. legendas que as acompanham. na publicidade. etnográfica. etc. tecnológica.

fotógrafo. Quadro 5 PÓS-PRODUÇÃO E FICÇÃO DOCUMENTAL Processo de construção da representação PRODUÇÃO ELABORADA PELO FOTÓGRAFO materialização documental processos de construção de realidades PÓS-PRODUÇÃO EDITORAÇÃO (ESTÉTICA/IDEOLÓGICA) manipulações de toda ordem: imagem/texto REPRESENTAÇÃO FINAL mensagem direcionada Processo de construção da interpretação RECEPÇÃO LEITURAS/INTERPRETAÇÕES CONTROLADAS Com a digitalização e os softwares tornou-se possível ainda mais a falsificação da imagem – retoques. Como já foi dito. Obter uma minuciosa identificação dos detalhes icônicos que compõem seu conteúdo. A análise iconográfica revela dados concretos sobre o documento – a materialização do documento e os detalhes icônicos gravados. Para a sua decodificação Kossoy sugere duas linhas de análise multidisciplinar: 1. o documento fotográfico vem com informações explícitas e implícitas. alteração de contrastes. análise iconográfica e 2. b. tecnologia – em dado lugar e época – espaço e tempo. Na análise iconográfica pretende-se decodificar a realidade externa do assunto registrado na representação fotográfica. texturas. cores. -7- . 1. tons. iluminação. introdução de elementos nas cenas. Reconstituir o processo que originou a fotografia: determinar os elementos que concorreram para a materialização – assunto. Para tal análise é necessário: a. interpretação iconológica.

a interpretação vai além dele. b. veículo de correspondência. Já em 1899 estava em pleno apogeu. Na interpretação iconológica busca-se decifrar a realidade interior da representação fotográfica em sua face oculta. Decifrando a realidade interior das imagens do passado O cartão postal. seu significado. sendo que a Alemanha produziu 88 milhões de unidades e em 1910 a França liderava com 123 milhões de postais. no mundo das idéias. a primeira realidade. de seu modo de ver. teve seu início da década de 1870. uma visão particular. Na interpretação iconológica o documento é uma representação a partir do real. Quadro 6 ANÁLISE ICONOGRÁFICA E INTERPRETAÇÃO ICONOLÓGICA DOCUMENTO FOTOGRÁFICO ANÁLISE I NTERPRETAÇÃO ICONOGRÁFICA ICONOLÓGICA REALIDADE EXTERIOR 2ª realidade REALIDADE INTERIOR 1ª realidade III. desmontar as condições de produção : o processo de criação que resultou na representação do assunto. É o resultado final do processo de criação do fotógrafo. Embora o documento seja a referência. Dois caminhos para a decifração: a.2. -8- . resgatar a história própria do assunto.

seja através de postais ou outra forma de divulgação. através da fotografia. durante o período imperial. sendo um dos principais Guilherme Gaensly (1843 – 1928). classificadas segundo determinadas categorias visando “ilustrar” uma idéia. As imagens. nas suas casas.tinha um estilo de vida urbano. Essa elite almeja para a cidade padrões consagrados de civilização. os cartões passaram a ser consumidos e produzidos no Brasil. o que significou um grande salto em sua população. foi o retrato. No início da década de 1890 se transferiu para São Paulo. no início do século. Ao longo do século os edifícios e lugares foram reconstruídos. Um amplo leque temático contribuiu para a construção da imagem do país. paisagem urbana. ao consumo da massa. considerado “idade de ouro”. são selecionadas. porém restam as fotografias de Guilherme Gaensly – preservam a iconografia e a mensagem escrita nelas. seu modelo. devido principalmente. é documento/criação. Essas novas obras. Era possível o conhecimento visual do mundo – apesar de fragmentário – através das vistas e paisagens dos diferentes países. no início do século. No período de 1900 – 1925. Desta forma. construção do fotógrafo. (em 1886 tinha apenas 47 mil). D. A nova elite paulista detinha 2/3 da produção mundial do café . Pedro II esteve à frente deste processo civilizatório: edificar uma nação civilizada. como visto anteriormente. e a natureza como base territorial e material deste Estado. a construção do nacional: -9- . eram lugares que serviam de instrumento de propaganda inclusive no plano internacional. tinha cerca de 240 mil habitantes. com modelo europeu. O que era representativo da cidade. no século XIX.o Estado monárquico. A formação ideológica da nação tem dois componentes: Civilização e Natureza . Este procurava reproduzir o estilo europeu: vestimenta. Fotografou a arquitetura do café. para Salvador. principalmente. A fotografia. a população tinha acesso às imagens vindas de outros lugares e o mundo real tornou possível ao universo imaginário popular. quando criança. valores estrangeiros são incorporados no modo de vida. São as fotografias de D. A principal aplicação da fotografia. com o intuito de verificar o ideológico: a razão de ser. em 1883. em lugares nobres da capital. foram documentadas por vários fotógrafos. Não se vê em sua obra fotos dos bairros operários e suas moradias.Assim. mobiliários de forma clássica e vitoriana. A exceção é a da família imperial. Ramos de Azevedo foi responsável por inúmeros edifícios públicos – quase desaparece a arquitetura colonial. feitas num momento de contestação dos diferentes setores sociais. à imigração italiana. para a Europa. nos trópicos. posando para o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco. e assim. Era suiço de nascimento e foi. colaborou para a construção da imagem oficial da cidade. as imagens procuram enfatizar a existência de uma civilização dos trópicos. Vários arquitetos projetam casas e edifícios públicos segundo diferentes estilos. A CONSTRUÇÃO DO NACIONAL Kossoy aborda o fenômeno de construção do nacional. São Paulo. Neta época. Pedro II (58 anos de idade) e da Imperatriz Tereza Cristina. viajavam. ainda.

. também. colheita. . detalhes de produção. Gorbineau. reforçando o exótico dos trópicos – as imagens como “testemunho” do “atraso”. etc. O interesse era mostrar o exótico. revistas e livros ilustrados. Kossoy exemplifica como peça publicitária acerca do Brasil o Album de vues du Brésil. portos. . estradas. que prejudicava o projeto nacional de edificação de uma nação civilizada. . em 1870. afirma que a degeneração proveniente da miscigenação era a responsável pela “multidão de macacos” que constituía a população brasileira.geografia econômica (9 capítulos) Bibliografia. É um anexo do libro Le Brésil de E. O “nacional” é construído a partir das imagens que contribuem para uma leitura dirigida de cidades e países. equipamentos. Todas imagens para serem consumidas pelos europeus. em seu habitat. A partir de 1870 prevalece nos meios acadêmicos o pensamento racista – modelo etnológico e naturalista. um álbum com uma coletânea de vistas do Brasil. etnias inferiores. 2 apêndices (um deles de D. . em geral. cataratas. Christiano Junior fotografa negros em estúdio e coloca a “coleção” à venda. industrialização: edifícios industriais. A difusão das imagens se iniciou no século XIX. Imagens que mostram o material e. para a Exposição Universal de Paris de 1889 (realizada entre 05 de Maio de 31 de Outubro).geografia política (11 capítulos). Levasseur. segundo outro olhar ideológico. Na década de 1860. . . publicado na França. habitação de colonos. obras de implantação de estradas de ferro. um dos teóricos do racismo. idéia que coincidia com o que o receptor europeu esperava – imagens que vinham reforçar o preconceito de um país que queria se apresentar como nação moderna. Nas décadas de 1870 e 1880 Marc Ferrez fotografa índios em estúdio. É quando o receptor de fora já tem idéias pré-concebidas. e criam uma imagem dos trópicos. os mestiços eram a degradação completa. culturais e educacionais. grupos raciais considerados inferiores. pontes. gráficos. . Pedro II). .J. Mas. instalação de rede elétrica. visões antagônicas. Por volta de 1865. As fotografias foram expostas na Exposição Universal de Paris. . manifestações artísticas. enquanto os negros e índios simbolizavam a impureza racial. obras de engenharia civil: edifícios. e mais tarde já se multiplicaram através de cartões postais.). pode ser construído fora do país. o alemão August Frisch realizou uma série de fotos de indígenas em seu meio natural. agricultura: plantio. omitem o social. mapas e gravuras. No final. ilustrando as etnias inferiores. O libro Le Brésil é constituído de 3 partes: . muitas vezes. . O Album é constituído por imagens sobre o país.. quando esteve no Brasil para reafirmar sua tese.geografia física (11 capítulos). reunidas e editadas pelo Barão do Rio Branco.10 - . os “tipos”. Pão de Açúcar (R. o exótico: vegetação exuberante. transformações urbanas: aberturas de vias públicas. triunfos militares: canudos. que eram temas que o europeu esperava serem tratados em fotografias do Brasil. em 1867. formações geológicas. . Os brancos eram considerados raça superior. natureza : matas. expedições científicas : desbravamento e colonização.

e está vinculada à ideologia dominante. são manipulações fotográficas para “vender” uma imagem de progresso do país aos europeus. As fotos apresentadas. no final. feitas pelas mãos do império. que torna importante certos fatos e não outros. A CONSTRUÇÃO DO NACIONAL ENQUANTO PROCESSO DINÂMICO Kossoy ressalta que a construção do nacional é um processo dinâmico. foram reelaboradas por litógrafos franceses. são do Album de vues du Brésil. reforço de tonalidades. Conforme ele mesmo relata a sua metodologia: quando as fotos eram nítidas. acréscimos de elementos.O álbum é um documento publicitário. em constante movimento. Barão de Rio Branco utilizou várias fotos do álbum Brésil Pittoresque. o que indica que a obra foi publicada após 15 de Novembro de 1889. Pohl. paisagens naturais. mais exatamente. Ducasble. . Ela é construída segundo a ideologia do momento. Augusto Riedel e outros. assinado por Levasseur e tem por título: “Revolução de 15 de Novembro 1889 e proclamação da República dos Estados Unidos do Brasil”. buscando a “fisionomia atual das principais cidades do Brasil”. Lindemann. Neuwied. com fotografias editadas e selecionadas com o fim de mostrar um país civilizado – um processo de construção de realidades sobre o Brasil. O Album de vues du Brésil é constituído por 94 imagens que retratam panoramas gerais e parciais de cidades. .11 - . Estas fotos. edifícios. . O livro Le Brésil possui um “posfácio”. Isto torna interessante o livro. Foi empregada uma tipologia mista de imagens do ponto de vista gráfico: . logradouros públicos. desenhos litografados “re-criados” a partir de fotografias. Ou seja. Joaquim Insley Pacheco. monumentos. supressão de detalhes. relevando fatos a fim de confirmá-la. reproduções diretas de fotografias de autores como Marc Ferrez. reprodução de estampas litográficas de imagens pictóricas produzidas por viajantes ilustres como Rugendas. articulado para tal. as gravuras eram obtidas diretamente. A fotografia está a serviço da ideologia. pois ele foi elaborado com a fisionomia do Império e foi publicado na República. Boris Kossoy ressalta que “a construção do nacional” é um processo contínuo em constante movimento. Teve a participação direta do Imperador conforme correspondências várias entre ele e o Barão do Rio Branco. tornando-as mais adequadas à idéia de civilização e progresso. caso contrário eram redesenhadas. Elas contêm comentários do autor e servem para embasar a visão na qual a construção do nacional é uma criação. O texto é datado de 10 de Janeiro de 1890. em Janeiro de 1890. que estava produzindo o Album. de 1861. feitas por Victor Frond para acompanhar o texto de Charles de Ribeyrolles. Muitas das imagens tiveram interferência pessoal do Barão do Rio Branco. O nacional é construído de modo a se moldar com a ideologia do momento. reverter as imagens. que representavam cenas de costumes e vistas do interior do país. Daí ter 25 % das vistas com legendas ”desenhadas a partir de uma fotografia” – gravuras criadas / construídas e interpretadas pelo Barão de Rio Branco : retoques. Rio Branco procurou desfazer a visão do Brasil atrasado social e moralmente. No caso.

Assim. cenas congeladas no tempo e espaço. A outra. por uma lado. “o signo. O plano iconográfico será ultrapassado pela reconstituição histórica. o seu conteúdo. e entramos no iconológico – resgatando o ausente é que compreendemos seu significado. Esta é dada pelo processo de criação do fotógrafo. Como diz Kossoy. A reconstituição histórica ou pessoal de uma imagem fotográfica implica em um processo de criação de realidades. pela busca do imaterial. é a realidade exterior. mas vinculados ao processo de construção da representação.IV. desliza entre a realidade e a ficção. sua segunda realidade. O processo de reconstrução dela se dá através de imagens mentais. de conceitos do autor da representação e do observador que a interpreta segundo seu repertório cultural. saímos para além do documental. Das realidades da imagem fotográfica apenas a segunda é explícita. a iconográfica. o contexto que foi representado. o testemunho. Mergulhamos no seu conteúdo. pois é elaborada a partir dos referentes do receptor. a realidade interior ou primeira realidade é a que não está presente. Processo de construção da realidade A imagem fotográfica tem duas realidades. identificar. do registro. a criação da imagem. da situação. A que podemos ver. através da imaginação e dos sentimentos. mas é intuída – a história do tema. pelas intenções do fotógrafo. enquanto que a interpretação. não raro. imaginando os fatos e as circunstâncias que acarretaram a cena. . pelo uso dado à fotografia e pelas diferentes leituras dos receptores. O caráter indicial e iconográfico da fotografia não podem ser entendidos isoladamente. Tratam de processos de construção de realidades”.12 - . é produto de uma construção/invenção.